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733 Capítulo 46 ABORDAGEM FISIOTERAPÊUTICA NO PACIENTE ONCOLÓGICO Liana Barbaresco Gomide Matheus Luciana Lima dos Santos da Silva Luisa Costa Figueiredo INTRODUÇÃO A fisioterapia em oncologia é uma especialidade que atua de forma integral e inter- disciplinar na promoção à saúde, detecção precoce, diagnóstico e tratamento dos distúr- bios cinéticos funcionais provenientes do câncer e seu tratamento, em todos os níveis de atenção, resgatando a funcionalidade do indivíduo por meio do diagnóstico fisioterapêu- tico, prescrição e execução de métodos, técnicas e recursos fisioterapêuticos e educativos.1 O fisioterapeuta em oncologia atua na prevenção, no tratamento e na paliação das dis- funções em qualquer momento do tratamento do câncer, seja no diagnóstico, pré, peri e pós-cirúrgico, nos efeitos dos tratamentos como quimioterapia, radioterapia, hormonio- terapia, imunoterapia ou mesmo no cuidado paliativo exclusivo. Neste capítulo será abor- dado, exclusivamente, a atuação do fisioterapeuta em nível ambulatorial em frequentes disfunções relacionadas ao tratamento do câncer. AVALIAÇÃO E TRATAMENTO FISIOTERAPÊUTICO A avaliação fisioterapêutica é de extrema importância para o diagnóstico adequa- do das morbidades e para o sucesso do tratamento. O fisioterapeuta realiza anamnese minuciosa no sentido de favorecer a elaboração de hipóteses que serão testadas no exa- me físico. O paciente é avaliado integralmente, sendo investigados também aspectos de restrições de participação e limitações de atividades, assim como fatores pessoais e do ambiente, facilitadores ou inibidores, de acordo com a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Uma vez elaborado o raciocínio com os achados da anamnese e exame físico, o plano terapêutico é traçado de acordo com as hipóteses diagnósticas. O paciente deve ser reavaliado conforme queixas e parâmetros, DIRETRIZES ONCOLÓGICAS734 tais como amplitude de movimento, dor, função muscular, circunferência de membros, realização de tarefas cotidianas e laborais. Esses parâmetros são utilizados para defi- nição do momento de alta, geralmente realizada de forma programada por meio de orientações e atividades a serem desenvolvidas no ambiente domiciliar. Para manuten- ção dos objetivos alcançados e prevenção de possíveis complicações é imprescindível a valorização do paciente no seu processo de reabilitação no sentido de reforçar a co-res- ponsabilização do tratamento. DOR A dor oncológica está relacionada a vários fatores, podendo estar ligada direta ou indiretamente a tumor primário, metástases, procedimentos terapêuticos como cirur- gia, quimioterapia, imunoterapia, hormonioterapia e/ou radioterapia ou, ainda, a con- dições não relacionadas ao câncer. As dores não causadas pelo câncer incluem aquelas decorrentes do imobilismo, da fraqueza muscular, de alterações musculoesqueléticas ou metabólicas, lesão por pressão e/ou permanência em posturas antálgicas por longos períodos.2 Mesmo que não haja intercorrências, a dor no pós-operatório é um sintoma frequente e comum devido ao trauma da manipulação cirúrgica ou espasmo muscular por proteção muscular reflexa. A avaliação fisioterapêutica deve ser criteriosa, pois a identificação do tipo de dor é fundamental para o estabelecimento da melhor estratégia de tratamento, em geral interdisciplinar. A classificação da dor é realizada de acor- do com a distribuição dos sintomas: localizados, generalizados, referidos, superficiais ou profundos; origem: visceral, somática, neuropática, muscular ou psicogênica; bem como evolução: aguda ou crônica. O tratamento fisioterapêutico para a dor objetiva ali- viar a dor, melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida, devendo ser iniciado o mais breve possível para evitar cronicidade e prejuízos adicionais. Os recursos mais utilizados para o tratamento da dor são exercício físico (1ii)3, liberação miofascial (1i)4, inibição de pontos gatilhos (1i)4, cinesioterapia (1ii)5, eletroestimulação (1ii)6, laserterapia de baixa intensidade,7 termoterapia (por adição ou subtração), órteses de posicionamento, ban- dagem elástica neuromuscular (1i)4, e drenagem linfática manual (1ii).5 A reeducação postural2,8 também é utilizada para pacientes que desenvolvem dor por adotar postu- ras de proteção que resultam em espasmo muscular e desequilíbrios musculares.9 Nos últimos anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem estimulado a utilização de práticas integrativas e complementares às técnicas da medicina tradicional. Nesse contexto, a utilização da acupuntura10, das práticas corporais (tai-chi)11, práticas mentais (meditação)12, dentre outras, trazem equilíbrio entre corpo e mente, podendo gerar benefícios no controle da dor. RESTRIÇÃO DE AMPLITUDE DE MOVIMENTO (ADM) A restrição de ADM pode ocorrer devido à dor pela síndrome da rede axilar em membro superior, alterações escapulares, lesão neural, rigidez articular após grande pe- ríodo de imobilização, alterações musculares, teciduais e linfedema.13,14 A avaliação fisio- terapêutica deve ser realizada de forma detalhada, por meio de testes clínicos, a fim de determinar o motivo da restrição, conforme Figura 46.1. Capítulo 46 • ABORDAGEM FISIOTERAPÊUTICA NO PACIENTE ONCOLÓGICO 735 O início imediato do tratamento fisioterapêutico após o procedimento cirúrgico proporciona recuperação rápida da restrição de amplitude de movimento, o restabe- lecimento da funcionalidade do membro superior, minimiza a chance de instalação de morbidades e favorece o posicionamento do braço do paciente em abdução e rotação externa para a realização da radioterapia. Quadro 46.1. Avaliação e tratamento da restrição de amplitude de movimento Morbidades Avaliação fisioterapêutica Tratamento fisioterapêutico Dor Veja item dor Veja item dor Cordão fibroso em membro superior Veja item cordão fibroso Veja item cordão fibroso Encurtamento muscular • Comprimento muscular • Alterações posturais • Alongamento passivo, ativo-assistido e ativo (1ii)21 • Técnica de Energia Muscular (1ii)22 Fraqueza muscular e disfunção do movimento • Função muscular Kendall • Padrões de movimentos • Instabilidade articular • Testes neurais • Fortalecimento muscular específico por meio de resistência manual, elástica, halteres, caneleiras (1ii)21 • Reeducação Postural Global (RPG®)2,8 • Treino do movimento (1ii)21 • Estabilização articular (1ii)23 • Mobilização neural (1ii)24 • Mobilização articular (1ii)21 • Bandagem elástica neuromuscular (1ii)25 • Exercício físico (1ii)26 • Educação/conscientização do paciente Restrição articular • Mobilidade articular • Mobilidade articular acessória • Mobilização articular (1ii)27,28 • Exercício físico (1ii)29 • Educação/conscientização do paciente (1ii)21 Linfedema Ver item linfedema Ver item linfedema Compressão neural/ tensão neural adversa • Compressão/descompressão em coluna vertebral • Síndrome dos desfiladeiros torácicos • Testes neurais • Mobilização neural4,30 • Exercícios de estabilização segmentar4,30 • Liberação miofascial4,30 • Mobilização articular4 • Órteses de posicionamento • Educação/conscientização do paciente Restrição cutânea por fibrose, aderências • Palpação superficial • Mobilidade do tecido • Terapias manuais como Liberação Tecidual Funcional (LTF®)31 • Bandagem elástica neuromuscular • Deslizamento transverso profundo32 • Alongamentos • Educação/conscientização do paciente A realização de exercício físico em pacientes oncológicos, além de melhorar a am- plitude de movimento15, pode proporcionar melhora da composição corporal, função psicossocial, qualidade de vida, fadiga, qualidade do sono (1ii)16, consumo máximo de oxigênio17, função cardiopulmonar18, bem como redução do tempo de permanência no hospital, recidivas e mortes em sobreviventes do câncer (1ii).19 No entanto, estudos têm sido realizados para determinar o tipo, a intensidade e a frequência mais adequada de exercício, bem como os efeitosem longo prazo na recorrência e nas taxas de sobrevivência de mulheres com câncer (1ii).20 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS736 ALTERAÇÃO DE SENSIBILIDADE A alteração de sensibilidade pode ocorrer devido à radioterapia, quimioterapia e no pós-operatório, em torno da cicatriz cirúrgica ou a distância, na ocorrência ou não de uma lesão nervosa. É relatada em cerca de 55% de pacientes submetidas ao trata- mento cirúrgico para o câncer de mama, envolvendo a linfonodectomia e consequente manipulação e/ou lesão do nervo sensitivo intercostobraquial, podendo ocorrer pares- tesia, sensação de queimação e/ou algia puntiforme localizados na axila, região interna do braço e/ou parede torácica ipsilateral.33 A avaliação fisioterapêutica é realizada por meio do estesiômetro de Semmes-Weinstein, que quantifica o limiar de pressão nos respectivos dermátomos da pele, auxiliando na detecção e no monitoramento da evo- lução das lesões nervosas.33 O fisioterapeuta registra a queixa de anestesia, hipoestesia, hiperestesia ou dor na região cirúrgica e no trajeto inervado pelo nervo. O tratamento fisioterapêutico é realizado utilizando materiais com texturas diferentes, tais como al- godão, seda, veludo, bucha vegetal e bolas de borracha, além de diferentes pressões. O objetivo é dessensibilizar regiões de hiperestesia e estimular regiões de anestesia e hipoestesia, oferecendo estímulos aos receptores sensoriais, reduzindo ou aumentando o limiar de sensibilidade.34 SÍNDROME DA REDE AXILAR (CORDÃO FIBROSO) A Síndrome da Rede Axilar (SRA) é uma complicação comum no pós-operatório de pacientes com câncer de mama5, podendo ocorrer em cerca de 20% de pacientes submetidos à biópsia do linfonodo sentinela (BLS) e em até 72% das que fazem linfo- nodectomia axilar total.35 Geralmente se desenvolve entre uma e cinco semanas após a cirurgia axilar, podendo apresentar remissão espontânea em cerca de três meses.36,37 É caracterizada por cordões visíveis e palpáveis sob a pele axilar, que se estende para região medial do braço, espaço cubital, antebraço, mão e, eventualmente, na parede torácica, podendo causar limitação do movimento do ombro e cotovelo, bem como dor, postura antálgica, alteração de sensibilidade, rigidez na axila e no percurso do cordão e consequente desequilíbrio muscular. A fisiopatologia da SRA, ainda em investigação, está associada ao prejuízo linfovenoso, estase linfática e lesão do tecido resultante da ruptura de vasos linfáticos superficiais durante cirurgia axilar.5 Embora exista possibi- lidade de remissão espontânea dos sintomas, a intervenção fisioterapêutica é vantajosa por promover uma recuperação do membro de forma breve.37 A avaliação fisiotera- pêutica é realizada por meio do posicionamento do membro superior do paciente em abdução, rotação externa de ombro e extensão de cotovelo e punho, confirmando o diagnóstico com a presença de dor, limitação da amplitude de movimento associada à palpação e/ou visualização do cordão ao estiramento tecidual. O tratamento fisiote- rapêutico tem como objetivo aumentar a amplitude de movimento, melhorar o fluxo linfático e minimizar a dor. As técnicas utilizadas são manobras de liberação miofascial a distância, manobras de estiramento no próprio cordão, alongamentos passivo, ativo- -assistido e ativo, associados ao ganho progressivo de ADM e a exercícios respiratórios, drenagem linfática manual (1ii)5,36 e orientações quanto aos exercícios domiciliares de mobilidade do ombro (1ii).38 Capítulo 46 • ABORDAGEM FISIOTERAPÊUTICA NO PACIENTE ONCOLÓGICO 737 LINFEDEMA O linfedema é uma manifestação da insuficiência do sistema linfático decorrente da obstrução ao fluxo da linfa. Pode ser definido também como o acúmulo extracelular de água, proteínas plasmáticas, células sanguíneas extravasculares e produtos celulares decorrentes do transporte linfático deficiente.39 Possui prevalência de 6% a 43%, sen- do mais frequente em pacientes cujo tratamento incluiu linfonodectomia, radioterapia em cadeias de drenagem, infusão de quimioterápicos no membro superior homolateral ao tumor, bem como história de seroma, sobrepeso, obesidade e edema precoce no pós-operatório.40 A avaliação fisioterapêutica deve incluir anamnese com questiona- mento acerca de sensação de peso e/ou cansaço no membro, histórico de infecções no membro, exame físico com avaliação da perimetria comparativa entre membros (positivo se diferença maior que 2 cm para membros superiores e de 3 cm para mem- bros inferiores), avaliação do sinal de Stemmer (positivo se alterações na consistência e textura da pele, sugerindo fibrose linfostática), bem como investigação da presença de linfocistos e fístulas. O tratamento “padrão ouro” do linfedema é a fisioterapia comple- xa descongestiva, uma tétrade composta de drenagem linfática manual, compressão, cuidados com a pele e exercícios linfomiocinéticos (1ii).41 A fotobiomodulação também tem sido utilizada em pacientes com linfedema com objetivo de reduzir a inflamação, promover a regeneração dos vasos linfáticos, aumentar a motilidade linfática e preve- nir fibroses, porém ainda são necessários estudos para determinar os melhores parâ- metros para a aplicação clínica (1ii).42 Outros recursos também podem ser associados, como compressão pneumática intermitente (1ii)43, linfotaping® em áreas de anastomose e no membro (1ii)44, educação e conscientização do paciente2,45 e exercícios de fortale- cimento, que são considerados seguros.2,46 TRISMO O trismo é a limitação de abertura da boca, seja por alterações teciduais relaciona- das ao tratamento cirúrgico e radioterápico (fibroses, lesão da musculatura mastigatória ou cicatrizes), por espasmo da musculatura mastigatória ou mesmo compressão tumoral. A limitação da abertura da boca, distância inter incisivos ou rebordos alveolares menor ou igual a 35 mm,47 pode prejudicar a mastigação, deglutição, fala, higiene oral e inter- ferir tanto na saúde como na qualidade de vida do paciente.48 O tratamento fisiotera- pêutico consiste em técnicas de alongamento da musculatura mastigatória e do pescoço; abertura passiva da boca com uso de abaixadores de língua, movimentação ativa da ar- ticulação temporomandibular; distração articular e liberação miofascial da musculatura envolvida.49,50 Para atingir bons resultados é importante o início precoce da terapia e a adesão aos exercícios (1ii).50 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS738 RESUMO ESQUEMÁTICO Avaliação • Fatores desencadeantes • Fatores remissivos • Tratamentos prévios • Exame físico • Diagnóstico terapêutico Dor Alterações de sensibilidade Linfedema Liberação miofascial, inibição de pontos gatilhos, cinesioterapia, eletrotermofototerapia, órteses de posicionamento, bandagem elástica e neuromuscular, drenagem linfática manual, educação e conscientização do paciente Sensibilização e dessensibilização com texturas, pressões e temperaturas diferentes, educação e conscientização do paciente Cordão fibroso Liberação miofascial e tecidual, estiramento de cordão, cinesioterapia, drenagem linfática manual, educação e conscientização do paciente Fisioterapia complexa descongestiva (cuidados com a pele, drenagem linfática manual, enfaixamento compressivo/meias e braçadeiras, exercícios); pressoterapia, laserterapia, linfotaping, educação e conscientização do paciente Restrição de ADM/Trismo Liberação miofascial e tecidual, energia muscular, alongamento, fortalecimento muscular, treino do movimento, estabilização articular, mobilização neural e articular, educação e conscientização do paciente CONCLUSÃO Considerando as diversas alterações funcionais causadas pelo câncer e/ou pelas re- percussões do tratamento, é imprescindível a atuação do fisioterapeuta como membro da equipe multiprofissional. É importante que toda a equipe esteja atenta às novas tec- nologias, mas, sobretudo, ao atendimento de forma integral e humanizada no sentido de reintegrar o paciente à sociedade. Os estudos de exercício físico e fotobiomodulaçãono controle dos sintomas do tratamento oncológico são destaque no cenário atual, sendo ainda necessário estudos para determinar melhores parâmetros para a aplicação clínica. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Associação Brasileira de Fisioterapia em Oncologia [Internet]. [cited 2017 Jun 18]. Available from: <http://www.abfo.org.br>. 2. Sampaio L, Moura C, Resende M. Recursos fisioterapêuticos no controle da dor oncológica: revisão da literatura. Rev Bras Cancerol. 2005; 51(4):339-46. 3. Mishra SI, Scherer RW, Geigle PM, Berlanstein DR, Topaloglu O, Gotay CC, Snyder C. Exercise interventions on health-related quality of life for cancer survivors. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2012, Issue 8. 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