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2 Capítulo I, item IV do Código de Ética Médica 3 Capítulo I, item XXI do Código de Ética Médica SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 9 1. A RESPONSABILIDADE CIVIL DO PRECEPTOR, MÉDICO RESIDENTE E ACADÊMICO DE MEDICINA ................................................................................................. 10 1.1 Introdução ..................................................................................................................... 11 1.2 Breves Comentários sobre Responsabilidade Civil ........................................... 12 1.3 Tipos de Responsabilidade Civil e Pressupostos .............................................. 13 1.4 O Preceptor e o Médico Residente ......................................................................... 16 1.5 O Preceptor e o Acadêmico de Medicina .............................................................. 24 1.6 Considerações Finais ................................................................................................. 26 1.7 Referências ................................................................................................................... 27 2. O DEVER DE INFORMAR NA PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA .... 30 2.1 Introdução ........................................................................................................................ 31 2.2 Da violência obstétrica ............................................................................................... 31 2.3 O dever de informação em obstetrícia ................................................................. 33 2.4 Considerações Finais ................................................................................................. 36 2.5 Referências ....................................................................................................................... 37 3. A INAPLICABILIDADE DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR ÀS RELAÇÕES PACIENTE-MÉDICO ........................................................................................ 39 3.1 Introdução ..................................................................................................................... 40 3.2 Incongruências da aplicação do CDC às relações paciente-médico ............ 41 3.3 Considerações Finais ................................................................................................. 47 3.4 Referências ................................................................................................................... 48 4. DESAFIO DA PUBLICIDADE MÉDICA FRENTE ÀS LIMITAÇÕES ÉTICAS ...... 49 4.1 Introdução ..................................................................................................................... 50 4.2 Considerações Finais ................................................................................................. 54 4.3 Referências ................................................................................................................... 56 5. MEU CORPO MINHAS REGRAS? O DIREITO DE MORRER E O AGIR MÉDICO À DIRETIVA ANTECIPADA DE VONTADE DO PACIENTE ........................................... 57 5.1 Introdução ..................................................................................................................... 58 5.2 Expondo a Autonomia de Vontade como Meio de Garantia do Desejo Pessoal .................................................................................................................................. 59 5.3 Das Vertentes Sobre o Direito de Morrer .............................................................. 61 5.4 O Agir Médico à Diretiva Antecipada de Vontade do Paciente ....................... 64 5.5 Considerações Finais ................................................................................................. 66 5.6 Referências ................................................................................................................... 67 6. TRANSFUSÃO DE SANGUE: ANÁLISE DO EPISÓDIO “BAD BLOOD” DA SÉRIE GREY’S ANATOMY ................................................................................................... 69 6.1 Introdução ..................................................................................................................... 70 6.2 Análise do Episódio "bad blood” e sua Importância para o Meio Jurídico 70 6.3 A Recusa da Transfusão de Sangue ou Hemoderivados pelos Testemunhas de Jeová: Implicações na Ordem Jurídica Atual ....................................................... 72 6.4 Considerações Finais............................................................................................ 75 6.5 Referências .............................................................................................................. 75 7. JUDICIALIZAÇÃO DA MEDICINA SOB DUAS ÓTICAS QUE SOBRECARREGAM O SISTEMA: ....................................................................................... 77 7.1 Introdução ..................................................................................................................... 78 7.2 A Aventura Jurídica que Busca o Enriquecimento sem Causa por Meio de Ações de Indenização por Erro Médico ....................................................................... 79 7.3 Nem tudo é Erro Médico ............................................................................................ 80 7.4 Os Principais Potencializadores do Aumento dos Processos Judiciais ...... 82 7.5 Da Ineficácia das Liminares na Busca de Vagas por Leitos em UTI.............. 84 7.6 Considerações Finais ................................................................................................. 89 7.7 Referências ................................................................................................................... 90 8. NEM TODO MAU RESULTADO É ERRO MEDICO .................................................. 92 8.1 Introdução ..................................................................................................................... 93 8.2 Erro Médico ................................................................................................................... 94 8.2.1 Negligência ............................................................................................................ 95 8.2.2 Imprudência .......................................................................................................... 95 8.2.3 Imperícia ................................................................................................................. 95 8.3 Iatrogenia ...................................................................................................................... 95 8.4 Responsabilidade Civil do Médico ........................................................................ 96 8.5 Responsabilidade Civil do Médico á Luz do Código de Defesa do Consumidor ............................................................................................................................. 98 8.6 Considerações Finais ............................................................................................... 100 8.7 Referências ................................................................................................................. 101 9. A IMPORTÂNCIA DO SIGILO PROFISSIONAL NA RELAÇÃO MÉDICO- PACIENTE............................................................................................................................... 102 9.1 Introdução ................................................................................................................... 103 9.2 Contudo, surge a pergunta: o sigilo profissional é absoluto? ...................... 105 9.3 LegislaçõesEsparças e o dever de manutenção do sigilo ....................... 106 9.4 O sigilo profissional no direito português .......................................................... 108 9.5 Considerações Finais ............................................................................................... 109 9.6 Referências ................................................................................................................. 110 10. A RECUSA TERAPÊUTICA NOS TRATAMENTOS DA COVID19 E A AUTONOMIA MÉDICA DIANTE DO LEITO: “A ESCOLHA DE SOFIA” .................... 112 10.1 Introdução ................................................................................................................. 113 10.2 A autonomia médica x a recusa do tratamento pelo paciente .................... 113 10.3 A resolução CFM nº 2232/19 e os casos de COVID19 ................................... 115 10.4 COVID 19: A escolha de Sofia .............................................................................. 117 10.5 Considerações Finais ............................................................................................. 120 10.6 Referências ............................................................................................................... 121 INTRODUÇÃO O Direito Médico é um ramo do Direito relativamente novo, porém em ampla ascensão. Observamos um crescimento exponencial das ações no Direito Médico e da saúde, ampliando o campo de visão de muitos advogados sobre a importância da advocacia especializada. Buscar conhecimento é o que impulsiona os estudiosos do Direito Médico e da Saúde, tornando a área tão dinâmica e apaixonante. Não se trata apenas de defender um médico no conselho de classe ou em alguma ação indenizatória, lidamos com vidas, com advocacia humanizada e com a busca pelo acesso integral da saúde. A minha atuação na advocacia médica visa a aplicação prática de todos os princípios constitucionais que norteiam o Direito e a Saúde, auxiliando profissionais da saúde na efetivação dos seus direitos, e ajudando advogados a potencializar os seus resultados. Foi assim que surgiu o TREINAMENTO PRATICANDO DIREITO MÉDICO, uma capacitação prática sobre o direito médico. Quando lancei a primeira turma, tinha em mente escolher apenas 10 alunas que estariam dispostas a mudar a forma de trabalho, a se desafiar diariamente e principalmente sair da zona de conforto. O que eu encontrei foram 10 mulheres maravilhosas, dedicadas, muitas mães que assistiam as aulas com os filhos no colo, pessoas reais, cada uma com sua personalidade, mas todas com o mesmo objetivo ATUAR COM SEGURANÇA NO DIREITO MÉDICO E DA SAÚDE. O resultado do curso está aqui no presente E-BOOK, um compilado de artigos feitos pelas alunas, que hoje tenho a honra de chamar de amigas. Muito obrigada a cada uma de vocês. Boa leitura! 1. A RESPONSABILIDADE CIVIL DO PRECEPTOR, MÉDICO RESIDENTE E ACADÊMICO DE MEDICINA Ana Luiza Gandra Torres Pereira 1.1 Introdução A responsabilidade civil é um tema muito amplo, constantemente estudado e com diversas nuances que merecem atenção diante da frequente evolução da sociedade, o que faz com que a discussão quanto à responsabilidade de um indivíduo se torne melindrosa. Eugenio Facchini Neto 1assim define o tema: “dificilmente haverá no direito civil matéria mais vasta, mais confusa e de mais difícil sistematização do que a responsabilidade civil”. Abordar o tema trazendo-o para a realidade da prática médica se faz ainda mais desafiador haja vista a complexidade do desempenho dessa atividade. Cediço que para a formação de um médico há todo um caminho acadêmico a ser percorrido, envolvendo a formação teórica, estágios práticos, internatos e residências. No Brasil, atualmente, existem 347 escolas de medicina2, um número bastante elevado e que faz preocupar com a quantidade de profissionais que se graduarão sem uma formação de excelência, visto que muitas instituições funcionam precariamente. Elucidar as questões atinentes à responsabilidade do estudante e do médico em cada estágio de sua formação é de suma importância para que, cada vez mais, se possa buscar um desempenho pautado na excelência técnica amparado pelos ditames legais. 1 FACCHINI NETO, Eugênio. Da responsabilidade civil no novo Código Civil. In O novo Código Civil e a Constituição. Coord. Ingo Wolfgang Sarlet. 2ª ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006. 2 Dados disponíveis em: [www.escolasmedicas.com.br]. Acesso em 15/03/2021. 1.2 Breves Comentários sobre Responsabilidade Civil A palavra “responsabilidade” deriva do latim “respondere” trazendo em si a percepção de preservação, de reparação ou ressarcimento daquilo que foi lesado, como descrito por Rui Stoco:3 “A noção da responsabilidade pode ser haurida da própria origem da palavra, que vem do latim respondere, responder a alguma coisa, ou seja, a necessidade que existe de responsabilizar alguém pelos seus atos danosos. Essa imposição estabelecida pelo meio social regrado, através dos integrantes da sociedade humana, de impor a todos o dever de responder por seus atos, traduz a própria noção de justiça existente no grupo social estratificado. Revela-se, pois, como algo inarredável da natureza humana”. A responsabilidade civil impõe ao indivíduo que repare um dano causado a outrem, seja este de ordem patrimonial (material) ou moral. Dependendo de quem causou o dano, tem-se caracterizadas duas categorias de responsabilidade: direta, quando o dano advém de um ato praticado por si próprio, e indireta, quando o dano for provocado por alguém pelo qual esta pessoa responda ou por alguma coisa que a ela pertença. A obrigação de reparar um dano pode também derivar de um impositivo legal, onde o ordenamento jurídico, por si só, o institui. Ressalta-se que além de sua função primordial, qual seja, a reparação ou indenização pelo dano sofrido, a responsabilidade civil assume um caráter preventivo e educativo quando, a partir do reconhecimento do dano e da imputação de sua reparação, projeta-se que a conduta ilícita praticada não mais venha a ocorrer. 3 STOCO, Rui. Tratado da Responsabilidade Civil: Doutrina e Jurisprudência. 7ª ed. São Paulo: RT, 2007. Atualmente, o papel fundamental da responsabilidade civil baseia-se no princípio da dignidade da pessoa humana (Constituição Federal, art. 1º, inciso III) e visa a restituição integral do status que o ofendido detinha antes de ser lesado. Isto é feito por meio de uma indenização fixada em proporção ao dano. A responsabilidade civil, abarcada no Código Civil vigente, de 2002, busca a reparação do dano seja através do retorno da situação ao status quo ante ou pelo ressarcimento através de um quantum correspondente ao prejuízo suportado pelo ofendido, seja ele de ordem material ou moral, buscando restabelecer a composição do equilíbrio entre as partes e destes com a sociedade, sempre atentando-se à função social do Direito. 1.3 Tipos de Responsabilidade Civil e Pressupostos Com a evolução dos estudos e do melhor entendimento sobre a responsabilidade civil, percebeu-se que não somente a culpa a caracterizaria, considerando-se então a avaliação da responsabilidade ante o risco, como bem corrobora Maria Helena Diniz:4 “A insuficiência da culpa para coibir todos os prejuízos, por obrigar a perquirição do elemento subjetivo da ação, e a crescente tecnização dos tempos modernos, caracterizado pela introdução de máquinas, pela produção de bens em larga escala e pela circulação de pessoas por meio de veículos automotores, aumentando assim os perigos à vida e à saúde humana, levaram a uma reformulação da teoria da responsabilidade civil dentro de um processo de humanização. Este representa uma objetivação da responsabilidade,sob a ideia de que todo o risco deve ser garantido, visando a proteção jurídica à pessoa humana, em particular aos trabalhadores e às vítimas de acidentes, contra a insegurança material, e todo dano deve ter um responsável.” 4 DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro: Responsabilidade Civil. 28ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014. Ponderoso avultar que a culpa aqui mencionada é a lato sensu, englobando tanto a culpa stricto sensu quanto o dolo. Por sua vez, para a responsabilidade objetiva não se indaga se a conduta foi ou não culposa, sendo assim resumida por Sérgio Cavalieri Filho5. “Todo prejuízo deve ser atribuído ao seu autor e reparado por quem o causou independente de ter ou não agido com culpa. Resolve-se o problema na relação de nexo de causalidade, dispensável qualquer juízo de valor sobre a culpa”. De tal sorte, a reparação do dano segundo a Teoria do Risco, que justifica a responsabilidade objetiva, fundamentar-se-á no risco da atividade desenvolvida, não importando se houve ou não culpa do ofensor, uma vez que se entende que qualquer indivíduo que desempenhe uma atividade motiva um risco de dano a outrem. Esta teoria predomina no Código de Defesa do Consumidor, porém, relativamente aos profissionais liberais, prioriza-se a teoria subjetiva, carecendo da prova da culpa, estabelecida no artigo 14, § 4º deste dispositivo. “Art. 14 Omissis... § 4º: A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa”. Atesta-se a aplicação deste artigo no seguinte julgado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Apelação Cível Nº 70050277201, de relatoria de Tasso Caubi Soares Delabary 6 em que não houve configuração do erro médico a partir da análise de verificação da culpa, amparada no artigo referido. Resta evidente, diante do exposto, que a teoria objetiva prevalece no Código de Defesa do Consumidor mas, em se tratando de profissionais liberais, aplica-se a 5 CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de responsabilidade civil. 10ª. ed. São Paulo: Atlas, 2012. 6 APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. PRESCRIÇÃO DE MEDICAMENTO. ERRO MÉDICO. RESPONSABILIDADE SUBJETIVA. NÃO CONFIGURAÇÃO. A responsabilidade do médico é apurada mediante a verificação da culpa, nas modalidades de negligência, imperícia e imprudência, na esteira do art. 14, § 4º, do CDC. (...) Sentença de improcedência mantida. RECURSO DESPROVIDO. (Apelação Cível Nº 70050277201, Nona Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Tasso Caubi Soares Delabary, Julgado em 29/08/2012) teoria subjetiva, sendo inevitável a configuração da culpa para a tipificação do dever de reparação, sendo este um dos pressupostos da responsabilidade civil. Assim como a culpa, persistem como pressupostos da responsabilidade civil o dano e o nexo de causalidade entre a conduta e o dano. A responsabilização de alguém, no âmbito civil, depende substancialmente do dano, ainda que presumido, como característica essencial, posto que, ausente este, não há que se falar em reparação, em dever de indenizar, ou seja, em responsabilidade civil. O dano pode ser tanto patrimonial quanto moral. Há, inclusive, uma súmula do Superior Tribunal de Justiça que reconhece a cumulatividade do dano moral com o patrimonial. Súmula 37 do STJ: São cumuláveis as indenizações por dano material e dano moral oriundos do mesmo fato. Destaca-se que ao tratar-se de profissionais médicos, a responsabilidade civil que a estes recai é a subjetiva, havendo que comprovar-se a culpa em uma de suas três modalidades, quais sejam: imprudência, imperícia e negligência. Rui Stoco 7assim as conceituam: “a) imprudência, visto como o comportamento apressado, exagerado ou excessivo; b) negligência, que ocorre quando o agente se omite e deixa de agir quando deveria fazê-lo ou deixa de observar regras de bom senso, que recomendam zelo e cuidado e c) imperícia, verificada pela atuação profissional desqualificada, sem conhecimento técnico e científico, conduzindo ao dano.” Contextualizando a culpa no desempenho médico, Gomes e França 8 discorrem o seguinte: “erro médico é o dano provocado no paciente pela ação ou inação do médico, no exercício da profissão, e sem a intenção de cometê-lo. Há três 7 STOCO, Rui. Tratado da Responsabilidade Civil: Doutrina e Jurisprudência. 7ª ed. São Paulo: RT. 2007. 8 GOMES, Júlio Cézar Meirelles, FRANÇA, Genival Veloso. Erro médico. In: COSTA, Sérgio Ibiapina Ferreira; OSELKA, Gabriel; GARRAFA, Volnei (coord.). Iniciação à bioética. Brasília: Conselho Federal de Medicina; 1998. possibilidades de suscitar o dano e alcançar o erro: imprudência, imperícia e negligência.” Mister frisar que há situações em que ainda que tenha o agente praticado uma conduta danosa, se esta não estiver diretamente relacionada aos prejuízos sofridos pelo ofendido, não se falará em obrigação de reparação, recaindo sobre as excludentes da responsabilidade, quais sejam: culpa exclusiva da vítima, caso fortuito ou força maior e fato de terceiro. Feitas essas breves considerações acerca da responsabilidade civil de maneira geral, passemos à análise referente aos preceptores, médicos residentes e acadêmicos de medicina. 1.4 O Preceptor e o Médico Residente A Residência Médica primeiramente foi regulamentada pelo Decreto n.º 80.281, de setembro de 1977, criando a Comissão Nacional de Residência Médica. Já em 1981, a Lei n.º 6.932, dispôs sobre as atividades do médico residente. O Artigo 1º da supracitada Lei conceitua a residência como sendo uma modalidade de ensino de pós-graduação, com treinamento em serviço sob a orientação de profissionais médicos, ou seja, um processo de capacitação conduzido. Isto posto, depreende-se da letra da lei que o residente deve estar sob a constante supervisão de um preceptor experiente e qualificado. Importante destacar que muitas vezes a residência se confunde com o trabalho, e a força de trabalho do residente ultrapassando o objetivo maior do programa de residência que é a instrução, o conhecimento. Desta mesma maneira asseveram Pessoa e Constantino.9 “A força de trabalho do residente, reconhecidamente importante em todos os hospitais com programa de 9 PESSOA, José Hugo Lins; CONSTANTINO, Clóvis Francisco. O médico residente como força de trabalho. Rev.SOC. CARDIOL. Estado de São Paulo, v.12, n.6, 2002. residência médica deve ser vista e utilizada no sentido de que esse é um momento aprendizagem. Ou seja, o atendimento prestado pelo residente, isoladamente, não é o objetivo da inserção do mesmo no programa”. Tendo em vista a posição de estudante do residente e a imposição legal de que esteja sempre atuando sob supervisão, conjectura-se que seja menos provável que responda civilmente quanto à sua atuação no programa de residência. Porém, o Código de Ética Médica consolida a consciência de que, sendo o residente um médico inscrito no Conselho, ele apropria-se do compromisso direto por seus atos, não lhe sendo concedida a alternativa de imputar seu insucesso a outrem. O Conselho Nacional de Residência Médica e o Conselho Federal de Medicina10 disciplinam o tema na mesma perspectiva do Código de Ética. “De acordo com a Resolução do Conselho Nacional de Residência Médica, estes profissionais deveriam estar sob supervisão permanente, de modo que seus erros refletiriam legalmente na responsabilidade do médico supervisor. Todavia, sua responsabilidade não seria escusada, já que até mesmo a autarquia entende que não há como isentar os médicos residentes da responsabilidade jurídica por eventuais danos, uma vez caracterizada a prática do ato ilícito.” Relativamente à responsabilidade ética do preceptor, no tocante ao residente, o Conselho Federal de Medicina11 pactua com a teoria do professor Genival 10 Conselho Federal de Medicina (CFM). Parecer nº3/1992. Relator: Hilário Lourenço de Freitas Junior. Disponível em: www.portalmedico.org.br/pareceres/ CFM/1992/3_1992.htm. Acesso em 15/03/2021. 11 PROCESSO-CONSULTA CFM Nº 0913/91 -- PC/CFM/Nº 03/1992 –No que tange a responsabilidade ética do preceptor, por atos médicos realizados por Médicos Residentes sob a sua supervisão, entendemos que tal responsabilidade é consequente ao caráter peculiar da tarefa da preceptoria, redundando no que o Prof. Genival Veloso de França, em seu livro "Direito Médico", define por "Responsabilidade Derivada" ou "Responsabilidade Compartida". Nela cada membro de uma equipe médica carrega consigo a corresponsabilidade por atos médicos executados no âmbito da instituição prestadora da assistência médica. Concluindo, entendemos que tanto o Médico Residente quanto o Preceptor estão passíveis de responderem ética e juridicamente por atos médicos realizados bastando, para tanto, que cada instância judicante defina a responsabilidade a ser atribuída a cada membro da equipe médica pelo ato médico realizado. Veloso de França que sustenta a Responsabilidade Derivada ou Compartida entre os membros da equipe médica. Contudo, o entendimento majoritário é o de que, sendo médico, o residente se enquadra na responsabilidade subjetiva respondendo, quando demandado no polo passivo, juntamente com o preceptor ou supervisor da residência.12 Nesta mesma esteira de raciocínio Miguel Kfouri Neto13 considera até mesmo falar-se em culpa presumida quando o residente executa uma ação para a qual ainda não está devidamente preparado, mas adverte que haverá uma imprudência do médico preceptor que permita que o residente seja colocado à frente de uma situação para a qual não esteja preparado, visto que está em processo de aprendizagem para uma atuação mais especializada. Desta feita, vê-se que o residente pode ser perfeitamente inserido na responsabilidade civil subjetiva, caso pratique ato danoso. O entendimento majoritário se dá no sentido de que o residente responderá por seus atos na mesma proporção que o preceptor, conforme assevera Jurandir Sebastião14. “Para a lei no que diz respeito ao dever de indenizar nos casos de dano ao paciente (erro médico), ou responder por crime cometido (interesse público), não há qualquer distinção entre médicos. Residente ou não, clínico geral ou especialista, todos são iguais.” O Tribunal de Justiça de São Paulo tem julgado com essa percepção de que não há diferenciação entre o preceptor e residente, consoante se infere da decisão da Apelação n. 0057761-21.2012.8.26.0114, de relatoria de Heloísa Mimessi15 onde ambos, preceptor e residente foram responsabilizados pelo óbito 12 KFOURI NETO, Miguel. Responsabilidade Civil dos Hospitais: Código Civil e Código de Defesa do Consumidor. 4 ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: RT, 2019. 13 Idem. 14 SEBASTIÃO, Jurandir. Responsabilidade Médica Civil, Criminal e Ética. Del Rey, 1998. 15 RESPONSABILIDADE CIVIL. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS E MATERIAIS. ERRO MÉDICO. Óbito de neonato cinco dias após o nascimento. Utilização de fórceps no parto. Laudo do IML que indica como causa da morte um hematoma intracraniano, provocado por um instrumento contundente. Acervo probatório dos autos que permite associar a utilização do fórceps ao resultado danoso. Responsabilidade solidária entre o Hospital, conveniado com o Município, o Município e os médicos. Responsabilidade do médico residente, que conduziu o parto, e do médico preceptor. Precedentes deste de um neonato cinco dias após seu nascimento em virtude da utilização do fórceps no parto. Em sentido diverso, há julgados em que se concebeu a adequação da responsabilidade do residente, graduando a sua culpa, uma vez que este está na condição de aprendiz de uma especialidade, em processo de formação e aprimoramento. Para essa corrente minoritária ao julgar preceptores e residentes da mesma maneira, como se estivessem no mesmo patamar de conhecimento científico e técnico, fere-se o princípio da isonomia, pois está-se dando tratamento igual a um desigual. Uma decisão do Tribunal de Justiça do Paraná, na Apelação 00023513320088160037, julgada em novembro de 2018, de relatoria de Luiz Cezar Nicolau16, isentou de culpa um residente que, constatando a necessidade de um parto de emergência para o qual não se sentiu capaz de realizar, ainda mais por não estar sob a supervisão do preceptor, fez contato com este que somente após duas horas efetuou o ato cirúrgico. Nesta decisão, como o médico preceptor não fora demandado, entendeu-se pela responsabilidade objetiva do hospital que não garantiu à autora o atendimento de urgência necessário, TJSP. DANOS MORAIS. Dano moral puro e irretorquível. Pedido indenizatório procedente. Redução do valor indenizatório. DANOS MATERIAIS. Em se tratando de família de baixa renda, pensão mensal devida no período em que o filho presumivelmente contribuiria com o orçamento familiar. Precedentes do E. STJ e deste TJSP. Recurso dos autores, recursos dos réus. 16 APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL. PROCEDIMENTO MÉDICO. PARTO DE URGÊNCIA. PRELIMINAR DE CERCEAMENTO DE DEFESA. NULIDADE NÃO CONFIGURADA. MÉRITO. RESPONSABILIDADE CIVIL SUBJETIVA DO PROFISSIONAL. MÉDICO RESIDENTE. PROCEDIMENTO QUE EXTRAPOLA O ÂMBITO DA MEDICINA GENERALISTA. PARTO CIRÚRGICO ATINENTE À RESIDÊNCIA MÉDICA FREQUENTADA PELO PROFISSIONAL. MÉDICO RESIDENTE QUE DEVE ATUAR SOB SUPERVISÃO CONTÍNUA DE UM MÉDICO PRECEPTOR. ATO CULPOSO NÃO COMPROVADO. DEMORA PARA REALIZAÇÃO DA CIRURGIA QUE NÃO PODE SER IMPUTADA AO RESIDENTE QUE DIAGNOSTICOU A NECESSIDADE DO ATO MÉDICO CIRÚRGICO EM TEMPO ADEQUADO. INDÍCIOS NO SENTIDO DE QUE HOUVE OMISSÃO DO HOSPITAL EM MANTER EQUIPE CIRÚRGICA DE PRONTIDÃO PARA ATENDER A EMERGÊNCIA NO DIA DOS FATOS. CIRURGIA REALIZADA PELO MÉDICO PRECEPTOR APENAS DUAS HORAS APÓS O DIAGNÓSTIDO DO MÉDICO RESIDENTE. MÉDICO PRECEPTOR QUE, ADEMAIS, NÃO FORA DEMANDADO. RESPONSABILIDADE CIVIL DO MÉDICO RESIDENTE QUE DEVE SER AFASTADA. EVIDÊNCIA DE FALHA DO SERVIÇO HOSPITALAR. ESTABELECIMENTO QUE NÃO GARANTIU CONDIÇÕES DE ATENDIMENTO DE URGÊNCIA À AUTORA, POR MÉDICO DEVIDAMENTE HABILITADO PARA O PROCEDIMENTO (CIRURGIÃO E ANESTESISTA). RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO HOSPITAL. SENTENÇA MANTIDA NESTE PONTO. DANOS MORAIS. QUANTUM INDENIZATÓRIO. JURISPRUDÊNCIA DESTA CÂMARA. IMPOSSIBILIDADE DE REDUÇÃO. RECURSO DE APELAÇÃO (1) A QUE SE NEGA PROVIMENTO. RECURSO DE APELAÇÃO (2) PROVIDO, POR MAIORIA DE VOTOS. caracterizando a falha na prestação do serviço, não reconhecendo a culpa do residente que atuou de maneira diligente e dentro do que preconiza a lei que versa sobre a residência médica. Teresa Ancona Magalhães17 segue esta mesma linha de pensamento ao dizer que “o clínico geral deve ser tratado com maior benevolência que o especialista.” Insta destacar a decisão do Ministro Ruy Rosado18, no REsp 316.283/PR, defendendo a percepção de que nem todo médico pode ser tratado de forma igual, pois há inúmeros fatores que devem ser levados em consideração como “as condições pessoais do médico e as circunstâncias de sua atuação, que serão muito distintas entre o único médico de um pequeno hospital do interior e o especialista que tem à sua disposição a sofisticada aparelhagem do hospital de referência.” A supracitada decisão se reporta à concordância com a gradação da culpa do residente ao distinguir que “ele não está capacitado por si mesmo para efetuar toda classe de atividades médicas, pois se submete a uma espécie de aprendizagem, e seus atos estão sujeitos à supervisão do médico titular do serviço”19. Isto colaboraria para que a responsabilidade civil recaída sobre o residente se desse em uma dimensão inferior à do preceptor na ocorrência de execução de um ato médico com culpa comprovada, ainda que preparado para a realização desse procedimento. Tem-se no Direito um amparojurídico para a justa atenuação da indenização, que deve ser proporcional à culpa do agente. Veja-se o artigo 944, parágrafo único do Código Civil que elucida que em caso de “excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente, a indenização.” 17 MAGALHÃES, Teresa Ancona Lopez de. Responsabilidade civil dos médicos. In: CAHALI, Yussef Said (Coord.) Responsabilidade Civil: doutrina e jurisprudência. São Paulo: Saraiva, 1984. 18 REsp 316.283/PR, Rel. Ministro Ruy Rosado de Aguiar, Quarta Turma, julgado em 18.12.2001 19 KFOURI NETO, Miguel. Responsabilidade Civil dos Hospitais: Código Civil e Código de Defesa do Consumidor. 4 ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: RT, 2019. Frente a isto Miguel Kfouri Neto20 corrobora a possibilidade de o juiz comparar as condutas, levando em consideração o grau de formação do profissional (médico especialista ou residente). “Nosso Código, ao restaurar a tradicional gradação da culpa, para determinar a extensão da indenização, em leve, levíssima e grave, faz com que o juiz estabeleça comparações entre condutas, observadas as mesmas condições e iguais circunstâncias de tempo e lugar.” Perante todas essas argumentações, o Ministro Aldir Passarinho21 em seu voto no Apelação 00158831620118260482 do Tribunal de Justiça de São Paulo, julgado em fevereiro de 2108, apesar de acreditar que seja possível abrandar a responsabilidade do residente em relação a seu preceptor, mostrou certa preocupação com tal condução em razão de que isso poderia cooperar para uma omissão das pessoas sobre as quais não se incidiria a responsabilidade, fazendo com que desabituassem-se a agir com o devido cuidado e competência. “Compreendo as razões que tendem a atenuar a responsabilidade do residente em relação ao médico orientador, mas, parece-me, ainda é melhor que assim não se faça para que não se estimule exatamente o oposto, que é a omissão das pessoas que, não-sujeitas diretamente a uma responsabilidade, poderiam com isso deixar de atuar com eficiência, dedicação e zelo que são impostos, ainda mais em uma profissão dessa natureza, que lida com a saúde dos seres humanos. De modo que, prefiro 20 KFOURI NETO, Miguel. Responsabilidade Civil do Médico. 10ª ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: RT, 2019. 21 APELAÇÃO. AÇÃO INDENIZATÓRIA. RESPONSABILIDADE CIVIL. Demanda que envolve a reparação de prejuízos advindos da prestação defeituosa de serviços médicos. PRESCRIÇÃO. Inocorrência. Demanda ajuizada antes do prazo quinquenal. TRANSFERÊNCIA DE GESTÃO DO HOSPITAL. EXCLUDENTE DE RESPONSABILIDADE. Inocorrência. A sucessão empresarial somente pode ser usada como fundamento para eventual ação de regresso; jamais para eximir-se de eventual responsabilidade perante o consumidor. RESPONSABILIDADE DO MÉDICO RESIDENTE. Possibilidade. O residente é profissional médico habilitado perante o Conselho Regional de Medicina, formado na faculdade de medicina, e está sujeito a responder por eventual descumprimento dos deveres inerentes à atividade profissional. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO HOSPITAL. Possibilidade. A partir do momento em que o hospital admite a residência, o médico residente torna-se seu preposto. ERRO MÉDICO. Ocorrência. Paciente que fora erroneamente diagnosticado com cólica renal em hipótese de apendicite aguda. Sofrimento além do necessário. Culpa do médico verificada na conduta negligente de liberar o paciente sem a adoção de quaisquer medidas capazes de conferir maior grau de segurança ao seu diagnóstico. DANO MORAL. Ocorrência. Existência de lesão a direito de personalidade. Quantum debeatur fixado em atenção ao princípio da dupla finalidade de reparação, bem como aos critérios da razoabilidade e proporcionalidade. Sentença reformada. RECURSO PROVIDO acompanhar o voto do eminente Sr. Ministro-Relator, não conhecendo do recurso. Penso que a responsabilidade é por igual, todos são médicos”. Em alguns casos o residente poderá ser responsabilizado por uma ação que exclusivamente ele desempenhou, sem que reste omissão ou negligência do preceptor. Neri Tadeu Câmara22, de forma primorosa aclara este ponto. “Poderemos igualmente ter uma situação em que não há a atuação, ou omissão do médico preceptor, ou seja, é exclusivamente do médico residente o atuar que vem a causar um dano ao paciente. Este, então, é quem poderá vir a ser responsabilizado pelo dano sofrido pelo paciente como decorrência de seu agir culposo. Mas, mesmo neste caso, em determinadas situações de atendimento, poderá também o médico preceptor, assim como o hospital, vir a ser responsabilizado em virtude da obrigação legal de fiscalização, vigilância, supervisão, orientação, da atividade de aprimoramento profissional (especialização) em serviço do médico residente, com presença física, obrigatória, respeitadas as circunstâncias, peculiaridades, do caso concreto, do preceptor nos atos médicos”. O presente julgado do Tribunal de Justiça de São Paulo da Apelação Cível 0012833-67.2013.8.26.0625 de relatoria de Rosangela Telles23, evidencia a 22 Neri Tadeu Câmara Souza, in: https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article &id=20445:responsabilidade-civil&utm_source=blog&utm_campaign=rc_blogpost, visitado em 16.03.2021). 23 Paciente que fora internado para realização de procedimento cirúrgico de "hérnia lombar" e teve sua artéria ilíaca atingida, em decorrência de imperícia médica. Falha na prestação do serviço caracterizada. RESPONSABILIDADE DO MÉDICO RESIDENTE. O médico residente é profissional habilitado perante o Conselho Regional de Medicina e está sujeito a responder por eventual descumprimento dos deveres inerentes à atividade profissional. No presente caso, o residente participou diretamente do procedimento e assinou a ficha de cirurgia do paciente, de modo que deve ser responsabilizado. RESPONSABILIDADE DO MÉDICO PRECEPTOR. A regulamentação da residência médica exige a presença física do preceptor no serviço, orientando e supervisionando o residente. Ausência do preceptor que configura negligência médica. Denunciação da lide que, nessa hipótese, deve ser acolhida para reconhecer a responsabilidade da pessoa jurídica por meio do qual o médico preceptor prestava seus serviços ao hospital. DANO MORAL. Ocorrência. Inequívoca a dor e a angústia suportadas pela autora em virtude do falecimento de seu marido. Quantum indenizatório mantido, em atenção ao princípio da dupla finalidade de reparação. PENSÃO MENSAL DEVIDA À VIÚVA. Cabimento. Fixação em um salário mínimo mensal, desde a data da morte da vítima até o dia em que completaria 70 anos de idade. SUCUMBÊNCIA. Redistribuição dos ônus sucumbenciais. HONORÁRIOS RECURSAIS. Fixação em desfavor do réu ROMEL. RECURSO DO HOSPITAL E DA AUTORA PARCIALMENTE PROVIDOS. RECURSO DO CORRÉU ROMEL NÃO PROVIDO”. condenação do residente por cirurgia por ele realizada, sem a supervisão do preceptor. Porém o preceptor foi responsabilizado por negligência em virtude do descumprimento do dever legal de orientar e supervisionar constantemente o residente em seus atos. Outrossim, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Apelação 0145634882001819000, de relatoria de Elton Martinez Carvalho Leme24, responsabilizou o residente de anestesia por dano causado à paciente pela incorreta administração de mistura gasosa inadequada durante o procedimento. O médico preceptor ausentou-se da sala cirúrgica sem deixar nenhum substituto e a concordância do residente em ficar só, sem supervisão, fez com que ele assumisse o risco e a responsabilidade pelo evento. Imprescindível recordar que o médico não responde apenas na esfera cível em caso de dano ao paciente, mas também pode responder na esfera penal e administrativa, junto ao seu Conselho de classe. Com o avanço da ciência e a ininterrupta mudança da sociedade e dos tempos, João Lobo Antunes25 enfatiza as transformações do atuar médico. “A profissão médica mudou apreciavelmente, nos últimos anos, com profundas consequências sociais e até jurídicas. O progresso do conhecimento tornou a medicina cada vez mais complexa, arriscada e perigosa, sendo o processo de decisão, com as respetivas implicações éticas e jurídicas, sobremaneira mais difícil. A decisão em medicina não é um mero exercício racional apoiado em instrumentos analíticos, em “guidelines” ou na medicina baseada na evidência. Diferentemente, ela terá de ser sempre 24APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. RESPONSABILIDADE SUBJETIVA. MÉDICO- ANESTESISTA. PRELIMINAR DE ILEGITIMIDADE PASSIVA DA MÉDICA DESIGNADA PARA OUTRA CIRURGIA. ACOLHIMENTO. PRESCRIÇÃO SUSCITADA EM APELAÇÃO. REJEIÇÃO. INCIDÊNCIA DO PRAZO VINTENÁRIO DO ART. 177 DO CÓDIGO CIVIL DE 1916. ENTENDIMENTO DO STJ. CIRURGIA DE CORREÇÃO DE ESTRABISMO. SEQUELAS NEUROLÓGICAS ATRIBUÍDAS A ERRO ANESTÉSICO. CULPA COMPROVADA. NEXO DE CAUSALIDADE DEMONSTRADO. HIPOXEMIA. LAUDO PERICIAL CONCLUSIVO. RESPONSABILIDADE DA MÉDICA PRECEPTORA E DO MÉDICO-RESIDENTE. SEQUELAS IRREVERSÍVEIS EM FILHA DE DOIS ANOS DE IDADE. DANOS MATERIAIS. LUCROS CESSANTES DA MÃE. COMPROVAÇÃO. DANO MORAL CONFIGURADO. MAJORAÇÃO. PROVIMENTO PARCIAL DO PRIMEIRO RECURSO E DESPROVIMENTO DOS SEGUNDO E TERCEIRO RECURSOS. 25ANTUNES, João Lobo. Medicina e direito – intersecções. In: Tribunal da Relação de Lisboa - Uma casa da Justiça com rosto, Lisboa: edição do Tribunal da Relação de Lisboa, 2010. sustentada por um núcleo de ciência envolvido em compaixão, humildade e responsabilidade. Na essência, trata-se de uma “arte volitiva”. A medicina tem uma base pré-interventiva, que é o suporte da convicção, não sendo suscetível de uma racionalização completa. A medicina é uma epistemologia (conhecimento) moral (valores). Daí decorre uma responsabilidade mais profunda.” Vê-se que a responsabilidade civil do preceptor e do residente é averiguada a partir da constatação da culpa respondendo ambos pelo dano causado e comprovado. Se haverá ou não a graduação da responsabilidade, isso dependerá da corrente jurídica adotada por cada tribunal. 1.5 O Preceptor e o Acadêmico de Medicina A formação academia do médico inclui toda uma preparação teórico-prática, em que os estudantes devem acompanhar um profissional médico nas consultas, cirurgias e demais procedimentos, caracterizando os períodos de estágio e internato. Do PARECER CFM nº 15/14, destaca-se que o internato tem característica de estágio que ocorre em um ambiente de trabalho, sempre supervisionado. “A complementação do ensino médico tem no internato característica de um estágio. O estágio é ato educativo escolar supervisionado, desenvolvido no ambiente de trabalho, que visa à preparação para o trabalho produtivo de educandos que estejam frequentando o ensino regular em instituições de educação superior, consoante Lei n° 11.788 de 25 de setembro de 2008.” O acadêmico, por ainda não ser formado e ter registro no Conselho, relativamente à responsabilidade civil responderá de forma objetiva e direta, haja vista que não é um profissional liberal. Neste diapasão, não haverá que se comprovar a culpa, basta o dano e a certificação da conduta. Miguel Kfouri Neto26 ressalta que, não sendo médico, o acadêmico responderá com os demais prepostos do hospital pela execução de atividades paramédicas. Assim como o residente, o acadêmico necessita de supervisão constante de um médico responsável e, estando devidamente acompanhado por um profissional inscrito no CRM, pode realizar procedimentos clínicos. Caso execute alguma conduta desacompanhado do preceptor incorrerá em exercício ilegal da medicina que é crime tipificado no artigo 282 do Código Penal, com pena de detenção de 6 meses a 2 anos e, se com objetivo de lucro, caberá multa. Nestes sentido, tem-se o PARECER CRM-MG Nº222/2020 – PROCESSO-CONSULTA Nº157/2020.27 CONSIDERAÇÕES DO RELATOR (Cons. José Nalon de Queiroz) A formação curricular do médico nas Faculdades de Medicina passa por fases sucessivas e de complexidade crescente de aprendizado teórico- prático, iniciando pelo ciclo básico, com prevalência de carga teórica. A seguir vem o ciclo profissionalizante, em que surge, agregada aos ensinamentos teóricos, a atividade prática de treinamento ambulatorial e hospitalar, sob a supervisão direta de professor preceptor, o qual orienta e assina, assumindo total responsabilidade sobre os atendimentos prestados, seja em ambulatório ou enfermaria. Na última fase curricular, denominada internato, com duração em torno de dois anos, acentua-se a atividade prática com diminuição significativa das aulas teóricas, prevalecendo neste período as discussões de caráter eminentemente prático, além das sessões clínicas. É o aprender fazendo, interagindo com os pacientes e familiares. Permanece a responsabilidade integral do atendimento sobre o professor preceptor. A execução de atos médicos por estudantes sem supervisão médica configura-se como exercício ilegal da medicina, assumindo o estudante a responsabilidade 26 KFOURI NETO, Miguel. Responsabilidade Civil dos Hospitais: Código Civil e Código de Defesa do Consumidor. 4 ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: RT, 2019. 27 BRASIL. Ministério da Educação. Portal MEC. Acesso em 15/03/2021. criminal de seus atos, pois sobre ele não existe qualquer poder dos CRMs, podendo ser a instituição responsabilizada ética e criminalmente, na figura de seus diretores médicos, Clínico e Técnico. O médico preceptor não pode, em qualquer hipótese, entregar ao estagiário o seu receituário ou da instituição, previamente assinado com as folhas em branco, pois estará incorrendo em infração ética aos artigos 33 e 39 do Código de Ética Médica (Resolução CFM 1.246/1988).” Na hipótese de gerar algum dano ao paciente, conforme a Resolução CNE n.º 03 de 2014, os acadêmicos não serão penalizados do ponto de vista ético pelo fato de não estarem habilitados para o exercício da Medicina, conquanto podem responder civil e/ou criminalmente. 1.6 Considerações Finais A responsabilidade civil, como já dito anteriormente, é um dos temas mais espinhosos do Direito e pode-se constatar isto através de todo o exposto no presente artigo. Não há claramente uma lei que defina a responsabilidade civil do Preceptor, do Residente e do Acadêmico de Medicina e os julgados mostram que os tribunais apresentam diferentes teses para a imputação dessa responsabilidade, sobretudo a do residente no que tange à gradação da mesma. No entanto, infere-se que esses profissionais, assim como o acadêmico de medicina devem estar sempre atentos às suas competências, atreladas ao disposto na legislação vigente, resoluções dos Conselho e do Ministério da Educação, a fim de atuarem com zelo, dedicação e atenção buscando praticar com excelência esta arte tão multifacetada, complexa e necessária. 1.7 Referências ANTUNES, João Lobo. Medicina e direito – intersecções. In: Tribunal da Relação de Lisboa - Uma casa da Justiça com rosto. Lisboa: edição do Tribunal da Relação de Lisboa, 2010. AZEVEDO, Álvaro Villaça. Curso de direito Civil: Teoria geral das obrigações. 12ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011. BRASIL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Direito Civil. Apelação n. 70050277201, Nona Câmara Cível. Relator: Des. Tasso Caubi Soares Delabary. Julgado em 29, ago. 2012. BRASIL. Tribunal de Justiça do Paraná. Apelação n. 00023513320088160037 PR 0002351-33.2008.8.16.0037 (Acórdão), 8ª Câmara Cível. Relator: Desembargador Clayton de Albuquerque Maranhão. Julgado em 08, nov. 2018. BRASIL. Tribunal de Justiça de São Paulo. Apelação n. 0012833- 67.2013.8.26.0625, 2ª Câmara de Direito Privado. Relator: Desembargadora Rosangela Telles. Julgadoem 03, set. 2019. BRASIL. Tribunal de Justiça de São Paulo. Apelação n. 0057761- 21.2012.8.26.0114, 5ª Câmara de Direito Público, Relator: Desembargadora Heloísa Martins Mimessi. Julgado em 28, maio 2018. BRASIL. Tribunal de Justiça de São Paulo. Apelação n. 0015883- 16.2011.8.26.0482, 2ª Câmara de Direito Privado. Relator: Desembargadora Rosangela Telles. Julgado em 19, fev. 2018. BRASIL. Conselho Federal de Medicina (CFM). Parecer nº 3/1992. Relator: Hilário Lourenço de Freitas Junior Disponível em: www.portalmedico.org.br/pareceres/ CFM/1992/3_1992.htm. Acesso em 15/03/2021. BRASIL. Conselho Federal de Medicina. Pareceres. Acesso em 15/03/2021 https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/pareceres/BR/2002/13 BRASIL. Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Apelação n. 01456348820018190001, 17ª Câmara Cível, Relator: Desembargador Elton Martinez Carvalho Leme. Julgado em 16, nov. 2011. BRASIL, Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica. Acesso em 16/03/2021. https://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf https://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf BRASIL. Código Civil. Acesso em 16/03/2021. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6932.htm BRASIL. Código Penal. Acesso em 18/03/2021. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm BRASIL. Ministério da Educação. 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Acesso em 18/03/2021. https://www.revistas.usp.br/sej/article/view/142266/137463 MACHADO, Yasmin Aparecida Folha; VIANNA, José Ricardo Alvarez. Necessidade de Equalização da Responsabilidade Civil do Médico Residente. In: KFOURI NETO, Miguel; NOGAROLLI, Rafaela (Coord.) Debates Contemporâneos em direito médico e da saúde. São Paulo: RT, 2020. MAGALHÃES, Teresa Ancona Lopez de. Responsabilidade civil dos médicos. In: CAHALI, Yussef Said (Coord.) Responsabilidade Civil: doutrina e jurisprudência. São Paulo: Saraiva, 1984. NERY Jr., Nelson. A Responsabilidade Civil pelo Fato de Outrem. 2 ed. São Paulo: RT, 2000. PESSOA, José Hugo Lins; CONSTANTINO, Clóvis Francisco. O médico residente como força de trabalho. Rev.SOC. CARDIOL. Estado de São Paulo, v.12, n.6, 2002. ROSENVALD, Nelson; MILAGRES, Marcelo (coord.) Responsabilidade Civil – Novas Tendências. São Paulo, 2017. STOCO, Rui. Tratado da Responsabilidade Civil: Doutrina e Jurisprudência. 7ª ed. São Paulo: RT, 2007. https://www.revistas.usp.br/sej/article/view/142266/137463 2. O DEVER DE INFORMAR NA PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA Alessandra Alves de Vasconcelos28 28 Alessandra Alves de Vasconcelos. Advogada. Mestre em Ciências da Saúde. Pós-graduação em Bioética e Direito da Saúde. E-mail: ale_vasconcelos@hotmail.com. 2.1 Introdução A questão da violência contra a mulher em qualquer fase da vida e em qualquer lugar do mundo é tema de estudo recorrente em várias áreas do conhecimento. A cada dia novas teorias são reveladas e discutidas, novos conceitos aparecem, mas a violência contra a mulher permanece. A Declaração Universal dos Direitos Humanos traz em seu artigo 3° que “todo indivíduo tem o direito à vida, à liberdade e à segurança de sua pessoa” e em seu artigo 5° que “ninguém será submetido a torturas nem a penas ou a tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”.29 Dessa forma, não se admite que tantas mulheres tenham seus direitos violados sendo agredidas, humilhadas e passem por situações constrangedoras nas instituições de saúde brasileiras. Este breve artigo tem o objetivo de abordar algumas das formas com que as mulheres são tratadas nestes espaços de atenção à saúde quando se sentem vulneráveis e desprotegidas, por desconhecer o que estar por vir no processo de parturição e como o dever informacional pode contribuir para a prevenção da violência obstétrica. 2.2 Da violência obstétrica A definição de violência segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) se refere à imposição de uma pessoa a um grau significativo de dor e sofrimento evitáveis. Enquanto, a violência contra a mulher, abarca não somente a violência física, mas a sexual e psicológica também. Conforme discutido na Convenção de Belém do Pará, "[...] inclui qualquer ato ou conduta baseada no gênero, causando morte, dano ou sofrimento de ordem física, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada".30 29 ONU.Declaração Universal dos Direitos Humanos. 1948. Disponível em:< https://brasil.un.org/pt- br/91601-declaracao-universal-dos-direitos-humanos>. Acesso em 17 mar.2021 30 COMITÊ LATINO-AMERICANO E DO CARIBE PARA A DEFESA DOS DIREITOS DA MULHER. Instituto para Promoção da Equidade, Assessoria, Pesquisa e Estudos. Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, 'Convenção Belém do Pará'. São Paulo: KMG, 1996. A Venezuela foi o primeiro país latino-americano a adotar a expressão “violência obstétrica” em uma lei de 2007, a Ley orgánica sobre el derecho de las mujeres a una vida libre de violência, advinda de reivindicações de parte do movimento feminista local e do processo de reconhecimento institucional da violência contra a mulher como um problema social,político e público.31 A violência institucional obstétrica está relacionada a um tipo de violência praticada pelas equipes de saúde com o consentimento das mulheres durante o trabalho de parto. Estas se submetem a esse tipo de violência por desconhecerem o processo fisiológico do parto, por não serem informadas sobre as melhores práticas de assistência, por temerem pela vida do bebê e pela condição de desigualdade entre médico e paciente ou simplesmente por acreditarem que “é assim mesmo”.32 Nesse sentido, a violência obstétrica institucional pode ser identificada nas seguintes formas e situações: peregrinação por diversos serviços até receber atendimento; falta de escuta e tempo; frieza, rispidez, falta de atenção, negligência e maus-tratos dos profissionais com os usuários, motivados por discriminação, devido à idade, orientação sexual, deficiência física, gênero, racismo, doença mental; violação dos direitos reprodutivos, aceleração do parto para liberar leitos, preconceitos em relação às mulheres soropositivas quando grávidas; desqualificação do saber prático, da experiência de vida de cada uma, diante do saber científico.33 De acordo com D’Oliveira, Diniz e Schraiber,34 a violência contra as mulheres nas instituições de saúde se subdividem sob quatro aspectos: negligência 31 XAUD, Jeane Magalhães. A cooperação binacional entre o Brasil e Venezuela relativa à rede de enfrentamento da violência praticada contra mulheres. / Jeane Magalhães Xaud. – Boa Vista, 2016. Disponível em: em:<http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFRR_9d601833a54d7bdafccd71d5b990c8a0>. Acesso em: 17.mar.2021. 32 WOLFF, L. R.; WALDOW, V. R. Violência Consentida: mulheres em trabalho de parto e parto. Saúde Soc. São Paulo, v. 17, n. 3, p. 138-151, 2008 33 REDE PARTO DO PRINCÍPIO. Violência Obstétrica “Parirás com dor”: dossiê elaborado para a CPMI da violência contra as mulheres. Brasília: Senado Federal, 2012. Disponível em: <comissoes/documentos/SSCEPI/DOC%20VCM%20 367.pdf>. Acesso em: 17 mar. 2021. 34 D'OLIVEIRA, A.F.P.L.; DINIZ, C.S.G.; SCHRAIBER, L.B. Violence against women in health-care institutions: an emerging problem. Lancet, v.359, n.11, p.1681-5, 2002. Disponível em: (omissão do atendimento), violência psicológica (tratamento hostil, ameaças, gritos e humilhação intencional), violência física (negar o alívio da dor quando há indicação técnica) e violência sexual (assédio sexual e estupro). No cotidiano dos serviços de saúde, usuárias e profissionais não associam suas práticas como maus-tratos ou violência na assistência ao parto. Em pesquisa realizada por Aguiar 35, as gestantes e os profissionais de saúde consideram essas práticas como rotineiras ou como resposta dos profissionais às parturientes que demandam uma maior atenção às suas queixas. Os profissionais entrevistados, relacionam a violência à uma agressão física ou sexual, mas não com suas práticas diárias. 2.3 O dever de informação em obstetrícia O direito à informação está previsto no art. 5, inciso XIV, da Constituição Federal como um direito fundamental. Compreende o direito de informar, o direito de se informar e o direito de ser informado.36 O direito de informar consiste na liberdade de transmitir informações a outrem, sem qualquer impedimento pelo Poder Público, pois a todos é concedido o direito à manifestação do pensamento, à criação, à expressão e à informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, sem qualquer restrição, observado o disposto na Constituição. Já o direito de se informar consiste no direito de todos ao acesso à informação. Portanto, é possível exigir a informação de quem a detém, desde que sejam respeitadas a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. Por fim, o direito de ser informado nasce, sempre, do dever que alguém tem de informar. <https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(02)08592-6/fulltext#back-bib39>. Acesso em 13 mar.2021. 35 AGUIAR, Janaina Marques de. Violência institucional em maternidades públicas: hostilidade ao invés de acolhimento como uma questão de gênero. 2010. Tese (Doutorado em Medicina Preventiva) - Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. doi:10.11606/T.5.2010.tde-21062010-175305. Acesso em: 17 mar.2021. 36 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Centro Gráfico, 1988. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(02)08592-6/fulltext#back-bib39 Conforme França,37 o dever de informação se refere a todos os esclarecimentos considerados incondicionais e obrigatórios, tais como: necessidade de determinadas condutas e intervenções, seus riscos e consequências, sendo requisito prévio para o consentimento. Dessa forma, o chamado “consentimento livre e esclarecido” não pode ser entendido como apenas mais uma regra para atividade do médico, mas como, a operacionalização do princípio da autonomia e da beneficência, estando dentro de um contexto de uma questão político-social própria das sociedades organizadas que primam pelo bem comum. No campo da obstetrícia um documento ainda pouco utilizado, mas que pode auxiliar a dirimir maus entendimentos e más práticas durante o atendimento da parturiente, é o Plano de Parto. Tal documento pode ser realizado pela própria gestante com a ajuda de familiares, doulas, enfermeiras e pelo próprio médico que atende as consultas do pré-natal. Consiste na descrição dos desejos da mulher a respeito da assistência médica e hospitalar e dos procedimentos a serem realizados durante o pré-parto, parto, puerpério e nos cuidados com o recém-nascido. Na impossibilidade da sua realização, quais os procedimentos podem ser substituídos e quais não devem ser feitos sob hipótese alguma. Tais questões quando trabalhadas durante a gestação se torna uma ferramenta útil no confronto da violência obstétrica. O Código de Ética Médica38 em seu capítulo V, artigo 34 reforça tal dever, vedando ao médico: “Deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e objetivos do tratamento, salvo quando a comunicação direta ao mesmo possa provocar- lhe dano, devendo, nesse caso, a comunicação ser feita ao seu responsável legal”. Em atenção ao princípio da autonomia, todo indivíduo tem o direito de ser autor do seu próprio destino, e uma vez que a gestante tem o conhecimento a respeito dos procedimentos que serão realizados durante e após o parto, compreendendo sua necessidade, benefícios ou prejuízos, se torna apta a 37 FRANÇA, Genival Veloso. Direito Médico.15 ed. Rio de Janeiro: Forense,2019. 38 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Código de ética médica. Resolução CFM n° 2.217, de 27 de setembro de 2018, modificada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e 2.226/2019 consenti-los ou não, por meio de documento escrito e com sua assinatura, o chamado Consentimento Informado. Conforme descrito no capítulo IV, art. 22 do Código de Ética Médica39, é vedado ao médico deixar de obter o consentimento informado do paciente ou representante legal, e em seu art.24, trata do direito do paciente de decidir livremente sobre sua pessoa ou seu bem-estar, sem que o médico exerça sua autoridade para limitá-lo. A falta do dever de informar em obstetrícia reside no fato de muitas vezes o médico não prestar as devidas informações à gestante antes, durante e no pós- parto, sobre os procedimentos que serão realizados e suas consequências. Além de não oferecerem opção à mulher que por força da rotina do estabelecimento e do próprio processo de trabalho, só ficam sabendo que determinado procedimento será feito no momento da sua realização. São inúmeras as vezes em que a mulher é surpreendida sem que tenha tempo de pensar se deseja ou não ser submetida a determinados procedimentos e qual sua real necessidade. Um exemplo decorre do procedimento de episiotomia,o qual é uma prática desnecessária segundo dados da OMS, por não trazer benefícios à mulher. No entanto, é procedimento utilizado de rotina e geralmente sem o devido consentimento da parturiente, pois esta só é avisada da ocorrência do procedimento no momento da realização do ato, algumas vezes seguido da justificativa de que a sutura cirúrgica promove melhor cicatrização que a laceração, que na maioria das vezes nem ocorre, afinal, pessoa sempre nasceram mesmo antes do obstetra e da episiotomia. Dessa forma, tal prática fere o princípio da dignidade humana, causa um dano à integridade física da mulher, que terá um pós-parto doloroso e com maior risco de infecção. 39 Idem. 2.4 Considerações Finais Com o protagonismo e a autonomia da mulher consolidada no que diz respeito ao seu corpo e sua intimidade, qualquer profissional interessado em prestar um atendimento de qualidade à mulher, bem como aos familiares que a acompanham, terão reduzidas as chances de envolvimento em episódios de violência obstétrica se estiverem atentos às oportunidades de diálogo e troca de informações durante os atendimentos. As mudanças nas práticas assistenciais vigentes devem ser direcionadas para a redução e consequente eliminação das intervenções desnecessárias e rotineiras no contexto da atenção à saúde da mulher no ciclo gravídico- puerperal. No entanto, tais mudanças devem começar, sobretudo, na formação do profissional médico, participante indispensável na assistência obstétrica no modelo vigente no Brasil, pois é a formação o momento em que os futuros profissionais devem aprender que o lugar ocupado pela medicina hoje, difere sobremaneira, da medicina de anos atrás, quando a informação era restrita somente aos profissionais da área. Outro ponto que pode auxiliar a dirimir maus entendimentos e más práticas durante o atendimento da parturiente, reside no Plano de Parto, documento realizado pela própria gestante com a ajuda de doulas, enfermeiras e pelo próprio médico que atende as consultas do pré-natal. Apesar de o termo humanizar e seus derivados terem adquirido sentidos diversos, o movimento feminista, trouxe o sentido da humanização com o significado de uma atenção que reconhece os direitos fundamentais de mães e bebês, além do direito à tecnologia adequada baseada nas evidências científicas, o direito à informação proveniente dos médicos e profissionais de saúde que atendem essa mulher tem significativa importância para dirimir casos de violência obstétrica trazendo segurança jurídica aos profissionais que se preocupam verdadeiramente com suas pacientes.. 2.5 Referências AGUIAR, Janaina Marques. Violência institucional em maternidades públicas: hostilidade ao invés de acolhimento como uma questão de gênero. 2010. Tese (Doutorado em Medicina Preventiva) - Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010. doi:10.11606/T.5.2010.tde-21062010-175305. Acesso em: 17 mar.2021. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Centro Gráfico, 1988. COMITÊ LATINO-AMERICANO E DO CARIBE PARA A DEFESA DOS DIREITOS DA MULHER. Instituto para Promoção da Equidade, Assessoria, Pesquisa e Estudos. Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, 'Convenção Belém do Pará'. São Paulo: KMG, 1996. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Código de ética médica. Resolução CFM n° 2.217, de 27 de setembro de 2018, modificada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e 2.226/2019. DINIZ, Carmen Simone Grilo; CHACHAM, Alessandra S. O corte por cima e o corte por baixo: o abuso de cesáreas e episiotomias em São Paulo. Questões de Saúde Reprodutiva, Rio de Janeiro, ABRASCO, v. 1, n. 1, p. 80-91, 2006. Disponível em: < http://www.mulheres.org.br/rhm1/revista1/80-91.pdf >. Acesso em: 15 mar.2021 D'OLIVEIRA, A.F.P.L.; DINIZ, C.S.G.; SCHRAIBER, L.B. Violence against women in health-care institutions: an emerging problem. Lancet, v.359, n.11, p.1681-5, 2002. Disponível em: <https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(02)08592- 6/fulltext#back-bib39>. Acesso em 13 mar.2021. FRANÇA, Genival Veloso. Direito Médico.15 ed. Rio de Janeiro: Forense,2019. ONU.Declaração Universal dos Direitos Humanos. 1948. Disponível em:< https://brasil.un.org/pt-br/91601-declaracao-universal-dos-direitos-humanos>. Acesso em 17 mar.2021 REDE PARTO DO PRINCÍPIO. Violência Obstétrica “Parirás com dor”: dossiê elaborado para a CPMI da violência contra as mulheres. Brasília: Senado Federal, 2012. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(02)08592-6/fulltext#back-bib39 https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(02)08592-6/fulltext#back-bib39 <comissoes/documentos/SSCEPI/DOC%20VCM%20 367.pdf>. Acesso em: 17 mar. 2021. WOLFF, L. R.; WALDOW, V. R. Violência Consentida: mulheres em trabalho de parto e parto. Saúde Soc. São Paulo, v. 17, n. 3, p. 138-151, 2008 XAUD, Jeane Magalhães. A cooperação binacional entre o Brasil e Venezuela relativa à rede de enfrentamento da violência praticada contra mulheres. / Jeane Magalhães Xaud. – Boa Vista, 2016. Disponível em: em:<http://bdtd.ibict.br/vufind/Record/UFRR_9d601833a54d7bdafccd71d5b990 c8a0>. Acesso em: 17.mar.2021. 3. A INAPLICABILIDADE DO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR ÀS RELAÇÕES PACIENTE-MÉDICO Cecilia Edmond A relação de um médico com seu paciente é uma relação existencial, que tem por finalidade precípua a proteção da vida e saúde do enfermo. No cenário atual, essa relação é enquadrada enquanto consumerista, regida, portanto, pelo Código de Defesa do Consumidor. Contudo, o que se observa, é que muitos fatores, tais como a vulnerabilidade do paciente, a vedação a mercantilização da medicina, a responsabilidade com prova de culpa na atividade médica, entre outros fatores, tornam o Código de Defesa do Consumidor um diploma jurídico inadequado de se aplicar à relação paciente-médico. Assim, o presente artigo se propõe a analisar as peculiaridades entre as relações consumeristas e relações paciente-médico, esclarecendo suas diferenças e analisando se o regramento imposto à estas últimas é o adequado as suas peculiaridades. Palavras-chave: relação paciente-médico, Código de Defesa do Consumidor, mercantilista, vida e saúde. 3.1 Introdução O artigo em tela visa examinar, de forma objetiva, o que deu ensejo ao enquadramento da atividade médica enquanto relação consumerista para a maior parte da doutrina e jurisprudência no cenário atual. Inicialmente faz-se uma explanação da natureza jurídica das relações existentes entre consumidores e fornecedores, e entre pacientes e médicos, distinguindo- se o objeto primário que permeia ambas as relações (lucro x vida e saúde). Além disso, questiona-se as vulnerabilidades das partes consideradas fracas nessas relações. Há mesmo coincidência entre essas vulnerabilidades? Ademais, o Código de Defesa do Consumidor, como é sabido, é um microssistema jurídico. Analisamos aqui como é que um microssistema que se propõe a proteger uma determinada relação, tal qual a relação paciente-médico, não faz uma menção sequer a nenhuma dessas nomenclaturas em todo seu diploma jurídico, bem como adota teoria de responsabilidade objetiva que não se aplica a atividade médica, e ainda possui diversos artigos que simplesmente não são possíveis de incidirem na relação do profissional com o enfermo. Por fim, a partir da observação de que a atividade médica se equipara a atividade jurídica, indaga-se o motivo pelo qual estas atividades têm recebido regramentos diversos. 3.2 Incongruências da aplicação do CDC às relações paciente-médico A Medicina é uma ciência complexa, com resultados aleatórios. “Quando se trata da saúdedo ser humano, nunca se poderá afirmar, a priori, que a não obtenção da cura é imputável ao ato médico. Em nenhuma outra atividade profissional o êxito estará sujeito a fatores que refogem por inteiro ao controle quanto na Medicina. Essa realidade não pode ser desconsiderada pelo Direito”. (Kfouri Neto, 2019, p.52) O Direito Médico nasceu e vem se desenvolvendo para cumprir o objetivo de proteger o paciente (sua vida e sua saúde) de uma eventual instrumentalização sua por parte de um profissional da saúde. Foi sob essa perspectiva (a da não instrumentalização do homem por outro homem) que surgiram diversos ramos jurídicos, a exemplo do Direito do Trabalho (proteção do trabalhador em face das tentativas de instrumentalização por parte do empregador) e o Direito do Consumidor (salvaguardar o consumidor, que é visto pelo fornecedor apenas como instrumento de obtenção de lucro). Ocorre que, diversamente do Direito do Trabalho, Direito do Consumidor, assim como tantos outros ramos jurídicos em nosso ordenamento, que já são legislativa e doutrinariamente maduros e consistentes no Brasil, o Direito Médico ainda não estabeleceu institutos e normas que atendam as peculiaridades da relação jurídica que é estabelecida entre o paciente e o seu médico, uma relação completamente especial e suis generis pois tem como objeto a saúde do paciente. O fato de o Direito Médico estar em processo de amadurecimento faz com que hoje ainda não tenhamos, de forma precisa, o fornecimento, aos pacientes e médicos, de ferramentas e parâmetros adequados para que estas partes desenvolvam sua relação da maneira mais harmoniosa possível, estabelecendo direitos e deveres de forma bem clara, como ocorre nos demais ramos jurídicos. Ou seja, tem-se uma lacuna normativa no ordenamento jurídico brasileiro quanto a relação paciente-médico, que termina sendo errônea e forçosamente enquadrada como uma relação consumerista por parte majoritária da doutrina e jurisprudência. A partir de algo já pronto, foi-se na “prateleira dos diplomas normativos” existentes no ordenamento pátrio e se escolheu atribuir à relação paciente-médico um selo consumerista que ela não possui (NILO e SILVA, 2019, p.19), e que é materialmente inadequado para questões bioéticas. Apesar de esse enquadramento ter como intenção proteger o paciente (e isso está correto) é bioeticamente inaceitável reduzir juridicamente a sua saúde a uma mera mercadoria, portanto, trata-se de uma solução descabida, assim como também por tantos outros motivos que serão expostos a seguir. A Lei 8.078/90, Código de Defesa do Consumidor, é um microssistema jurídico protetivo, com a tutela geral do consumidor. Trata-se de um ramo jurídico que regulamenta o trato entre consumidores e fornecedores e a natureza da relação estabelecida entre eles, qual seja, mercantilista, em que o parâmetro de qualquer decisão é o lucro. O fornecedor oferta o produto/serviço e toma suas decisões em cima desse elemento, e o consumidor adquire o produto/serviço e o exige nos exatos termos do preço que pagou. O lucro é o alicerce de toda a atividade, tanto que o sistema de responsabilidades aqui adotado é o da responsabilidade objetiva (regulada pelas teorias do risco-criado e risco-proveito). Mas enquanto a natureza da relação jurídica estabelecida entre consumidores e fornecedores é mercantil (sendo esta regulada pelo CDC), o mesmo não se pode dizer quanto aos pacientes e médicos. Trata-se aqui indubitavelmente de uma relação jurídica existencial, com valores muito mais caros ao ser humano, sempre com a finalidade de proteger a vida e a saúde em sua integralidade, valores esses que são a dignidade, a autonomia e a liberdade. A Lei 12.842/2013 (Lei do Ato Médico) não deixa dúvidas ao taxar, em seu artigo 2º, que a saúde do ser humano e das coletividades humanas é o objeto de atuação do médico, e que em benefício delas deve agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade, sem qualquer tipo de discriminação. Igualmente diz o Código de Ética Médica, no Princípio II (“o alvo de toda atenção do médico é a saúde do ser humano...”). Dessa forma, não é possível dizer que a natureza jurídica nas relações entre consumidores e fornecedores seja a mesma das relações entre pacientes e médicos. Não há identidade com o objeto primário que permeiam ambas atividades. Na atividade de consumo, o lucro está sempre presente e é o parâmetro de decisão. Já na atividade médica, é vedado o exercício mercantilista da medicina (o Código de Ética Médica prega o humanismo solidário) e o parâmetro de decisão do médico é sempre a vida e a saúde do paciente. Outro ponto a ser questionado acerca da incidência (equivocada) do CDC para as relações paciente-médico é no tangente às vulnerabilidades das partes consideradas fracas dessas relações, quais sejam, o consumidor e o paciente. Será que há coincidência entre essas vulnerabilidades? Elas são exatamente iguais? Vejamos. O Código de Defesa do Consumidor foi elaborado para proteger o consumidor frente a busca desenfreada do fornecedor por lucros exagerados, a fim de que aquele não seja lesado em um contrato mercantil, seja com a aquisição de um produto sem a qualidade que se esperava ou de um serviço que não ofertou a segurança que prometeu, por exemplo. Trata-se, portanto, de uma hipossuficiência técnica e econômica do consumidor em relação ao fornecedor de serviços em massa. O fornecedor é o detentor dos meios de produção e do controle do mercado, e ele sempre terá como fundamento de decisão o lucro. O consumidor, aqui, é o elo mais fraco da economia, e sua vulnerabilidade está estritamente ligada a este fator. Já o Código de Ética Médica foi elaborado para proteger a vulnerabilidade do paciente frente ao conhecimento técnico/científico/específico do médico. Dentro da atividade médica, a vulnerabilidade é o desconhecimento do doente quanto ao seu diagnóstico, prognóstico, tratamento. Decorre da própria patologia, e nesse sentido o profissional deve atuar, através de um discurso humanizado e adaptado para cada paciente, de forma a reduzir essa vulnerabilidade, cumprindo com o seu dever informacional da forma mais clara possível. O médico é a autoridade técnica dentro da relação, e o seu conhecimento científico deve ser utilizado para empoderar o paciente com todo o conhecimento, informações e orientações necessárias para que ele possa resolver, tomar uma decisão esclarecida. Quando o paciente é empoderado, ele assume um lugar de equidade dentro da relação com o médico, e se torna, então, o protagonista. A tomada de decisão passa a ser compartilhada. Portanto, é papel do médico reduzir essa vulnerabilidade cumprindo com o seu dever informacional, e a partir daí, com o paciente devidamente informado, esclarecido, ele se sujeita ao risco apenas se quiser, se assim desejar. É possível inferir, dessa forma, que a vulnerabilidade que atinge os consumidores se dá sob um aspecto mercantil, e tem por finalidade protegê-lo da ambição do fornecedor, enquanto que a vulnerabilidade do paciente é derivada do próprio estado patológico, não havendo aqui nenhum fator econômico. Nesse mesmo sentido, a Professora Samantha Takahashi cita trecho escrito por Alessandro Timbó Nilo, em sua obra Direito Médico: o contrato de Tratamento no Direito Brasileiro, que ratifica todo o exposto acima (2021, p.278): ... o CDC não foi feito para disciplinar a relação paciente- médico, mas sim para regular as atividades de um fornecedor-vendedor mercantil e comercial em face de um consumidor final de um produto ou serviço, dentro da lógica de mercado, sujeito à Teoria do Risco. No entanto, e como visto, a saúde não pode ser reduzida a uma simples mercadoria. Pensar assim é retroceder em toda evolução bioética conquistada, a duras penas, no que tange a dignidade da pessoa humana ea difícil e prolongada retirada do paciente da mera condição de objeto da medicina. Repita-se, o propósito de proteger o paciente em sua vulnerabilidade é muito digno, mas a vulnerabilidade deste não tem qualquer relação com a vulnerabilidade de um consumidor, e os fins não justificam os meios, sendo que a medida adotada subverte a própria intenção de qualquer operador do direito que tenha o ideal de justiça em seus planos, pois tenta transformar injustamente a saúde do paciente em uma simples mercadoria. Continuando na defesa da não aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor à relação paciente-médico, tem-se também o fato de que o CDC é um diploma jurídico que cuida de normas materiais e processuais, sendo, portanto, um microssistema, e como já mencionado, foi criado para regular as atividades de consumo. Para tanto, utiliza sempre as nomenclaturas “fornecedor” e “consumidor” (assim como a CLT, que regula as relações de trabalho e faz uso das expressões “empregador” e “empregado”, por exemplo). Foi essa relação de consumo que se pretendeu disciplinar com o CDC, não a relação paciente- médico. Tanto é verdade que em nenhum dispositivo do CDC há qualquer menção sequer a nomenclatura “médico” ou “paciente”, diferentemente do que ocorre com o Código de Ética Médica, com a Lei 12.842/13 (Lei do Ato Médico), que são dispositivos que regem diretamente essa relação, e até mesmo o Código Civil, em artigos como os arts.15, 422, 948, 949 e 950 em que é possível depreender se tratar claramente de pacientes e médicos diante do exposto nos mencionados dispositivos. A própria Responsabilidade Objetiva, adotada pelo CDC (pautada na Teoria do Risco-criado e Risco-proveito) não é compatível com a atividade médica, em que a responsabilidade é auferida mediante prova de culpa, ou seja, responsabilidade subjetiva. Na teoria do risco-criado, o fornecedor responde pelo produto que coloca no mercado porque o consumidor que adquirir esse produto adquire junto um risco para si (ele não estaria sujeito a esse risco se não comprasse o produto). Porém, quando pensamos na atuação médica, seria plausível pensar que ele agiria para colocar o paciente em risco maior? Não. O médico atua para salvar vidas, o paciente já chega com um risco a saúde e a sua atuação é no sentido de minorar esse agravo. Portanto, não cabível a teoria do risco-criado à atuação médica. Passemos a teoria do risco-proveito, em que o fornecedor responde pelo produto colocado no mercado (assumindo o risco por ele) uma vez que obteve lucro com a exposição desse produto. Tendo em vista que não pode haver mercantilização na medicina, o lucro não pode ser tomado como critério de decisão pelo médico (esse deve ser sempre a vida e saúde do paciente), a teoria do risco-proveito também não pode ser aplicada a atividade médica. Um médico simplesmente não pode deixar de atender um paciente que precise pelo fato de ele estar inadimplente, por exemplo. Ademais, por se tratar de um microssistema jurídico, todas as suas normas deveriam ter aplicabilidade a relação que ele se propõe a regular, ou seja, uma compatibilidade completa, o que não é o caso do CDC com a relação do paciente com o médico. Há diversas incompatibilidades expressas. Em muitos casos, por exemplo, a reexecução do serviço, possibilidade oferecida pelo CDC, é impossível após a prática de algum ato médico, ou ainda também, em muitas circunstâncias, não será possível aguardar a aprovação de um orçamento por alguém da família em situação de urgência e deixar o paciente correr risco de ir a óbito, não incidindo, portanto, o disposto no artigo 39, assim como outras situações que não teriam como serem aplicadas. Dessa forma, não é possível escolher a dedo apenas o que for benéfico ao paciente ou o que entender que incide na relação paciente-médico, descartando todas as demais normas. Não obstante todos os argumentos já suscitados, imprescindível se faz trazer à baila mais um. A atividade médica é plenamente equiparada a atividade jurídica. Ambas são alicerçadas na pessoalidade e na confiança entre as partes envolvidas (seja advogado-cliente ou paciente-médico), constituem-se em obrigações de meio (e não de resultado – via de regra), as duas possuem regramentos éticos específicos (sendo a atividade jurídica regida pelo Código de Ética e Disciplina da OAB e Estatuto da OAB, enquanto a atividade médica é disciplinada pelo Código de Ética Médica) e nenhuma dessas atividades tem caráter mercantil. O STJ já entende que a atividade jurídica não é atividade de consumo. Diante de todas essas inequívocas equiparações, bem como por todo o explanado anteriormente, não há motivo para a atividade médica ter regramento diverso da atividade jurídica, não devendo ser entendida, portanto, enquanto atividade consumerista. 3.3 Considerações Finais Ainda que se entenda, de forma majoritária, que a atividade médica se classifique enquanto relação de consumo, este não é o pensamento aqui trazido. A relação paciente-médico vive em um limbo dentro do ordenamento jurídico brasileiro, e por conta dessa lacuna normativa ela terminou sendo taxada enquanto uma relação de consumo, o que se mostra descabido, vez que a natureza jurídica da relação de consumo é o lucro, enquanto as relações entre os médicos e os enfermos tem como objeto a vida e a saúde. Não apenas diferem nesse aspecto, mas também quanto a vulnerabilidade que é pretendida proteger. A vulnerabilidade que atinge os consumidores se dá sob um aspecto mercantil, e tem por finalidade protegê-lo da ambição do fornecedor, enquanto que a vulnerabilidade do paciente é derivada do próprio estado patológico, não havendo aqui nenhum fator econômico. Ademais, o CDC, por se tratar de um microssistema jurídico, deveria ter compatibilidade integral de todos os seus dispositivos com a relação que pretendeu regular, o que claramente não acontece com as relações paciente- médico. Há incompatibilidades manifestas de diversos artigos com para com a relação supracitada. Contudo, há de se convir que não é possível escolher as normas que serão aplicadas àquela relação e simplesmente descartar todas as demais que se acredite “não servir”. Por último, porém, não menos importante, destaca-se que a atividade médica é equiparada em todos os aspectos a atividade jurídica, tendo, inclusive, esta última já sido entendida pelo STJ como atividade não consumerista, o que deveria ocorrer igualmente com a atividade médica. Desta feita, ante a tudo que foi arguido, conclui-se por uma maior ponderação acerca da aplicação do Código de Defesa do Consumidor à relação paciente- médico. 3.4 Referências CORRÊA, Felippe Abu-Jamra; DANTAS, Eduardo (coordenadores). Tendências do Direito Médico. 1. ed. Rio de Janeiro: G Z, 2021. KFOURI NETO, Miguel. Responsabilidade Civil dos Hospitais: Código Civil e Código de Defesa do Consumidor. 4. ed. São Paulo: Thomson Reuters, 2019. ______. Responsabilidade Civil do Médico. 10. ed. São Paulo: Thomson Reuters, 2019. NILO, Alessandro Timbó; SILVA, Mônica Neves Aguiar da. A relação paciente- médico: por uma nomenclatura bioética. Revista Direito e Justiça: Reflexões Sociojurídicas, Santo Ângelo, v. 19, n. 35, p. 79-107, set/dez.2019. Disponível em: < https://dx.doi.org/10.31512/rdj.v19i35.2945>. Acesso em: 14 março 2021. https://dx.doi.org/10.31512/rdj.v19i35.2945 4. DESAFIO DA PUBLICIDADE MÉDICA FRENTE ÀS LIMITAÇÕES ÉTICAS Christiane Menezes Lima de Aquino 4.1 Introdução Palavras –chaves: Publicidade− Médico – Ética A maneira de fazer publicidade tem mudado rapidamente. A publicidade médica teve que se adequar a esta mudança, porém, os profissionais da medicina desconhecem como fazê-la de forma ética sem infringir os regulamentos impostos pelo conselho. O crescente número deprocessos éticos em que envolve a publicidade feita pelos médicos mostra a necessidade do conhecimento pelos profissionais de saúde. Assim o presente trabalho propõe−se a analisar as maneiras existentes de fazer uma publicidade médica de maneira ética sem ferir as normas, demonstrando uma publicidade traçada na relação humana médico−paciente, em que seja possível passar a mensagem sem agredir ao sigilo do paciente. O presente artigo tem como tema a publicidade médica, demonstrando como o profissional pode se adequar ao determinado pelo Conselho sem ferir o Código. A escolha deste artigo se deu pelo número crescente de denúncias e de processos éticos com relação a publicidade médica nos Conselhos e da crescente atuação do CODAME. O esperado é que o artigo contribua para a adequação às normas já que serão demonstradas algumas formas de fazer a publicidade. Como bem ponderado por Silva 4 A publicidade, é um dos símbolos mais importantes do capitalismo e do mundo atual. Ela está e todos os lugares. Ela é grande influência no desejo das pessoas de se tornarem melhores, mais perfeitos, mais saudáveis e mais bonitos. Com isso, se faz necessário haver uma O Código de ética médica é um conjunto de normas e princípios morais que regulamentam as atividades de uma entidade profissional e, a partir dele, os profissionais devem tomar decisões e adotar condutas para o desempenho de suas funções garantindo a padronização da prática profissional para a sociedade. Publicidade médica, pela Resolução no 1.036 do Conselho Federal de Medicina, de 1980: “é a comunicação ao público por qualquer meio de divulgação, de atividade profissional de iniciativa, participação e anuência do médico”.6 Publicidade significa a arte, ciência e técnica de tornar (algo ou alguém) conhecido nos seus melhores aspectos, para obter aceitação do público. O mundo está em constante mudança. Hoje, ele está cada vez mais informatizado e digitalizado. Mudou também a maneira de fazer publicidade, aquela tradicional está cada dia mais perdendo força. No cenário contemporâneo, se vê a necessidade da mudança do jeito de propagar os serviços médicos. Como saída, muito profissionais viram a saída em fazer publicidade por meio das redes sociais, uma opção para ser visto. Assim como aumentou o número de médicos nas redes sociais, aumentou consideravelmente a investigação pelos Conselhos de classe e consequentemente, aumentou o número de processos éticos. Uma simples denúncia feita a um Conselho, pode se transformar em longos meses ou até em anos de investigação, sindicância, processo ético e vir acompanhado de dor de cabeça ao profissional que muitas vezes pensa não estar fazendo “nada demais” apenas respostando fotos dos pacientes. O CFM publicou a Resolução 1.974/2011 em que há várias vedações a publicação médica, como o “antes e depois” ou a divulgação de métodos sem reconhecimento científico. Muitos veem estas vedações como proibitivas demais ou que estão proibindo o profissional de mostrar o seu trabalho, mas poucos enxergam essas medidas do Conselho como medidas que também servem para a proteção dos médicos. Proteção aos pacientes que o procuram com o intuito de terem exatamente o nariz da atriz famosa, ou perder 10 kg em 10 dias. Uma proteção ao médico e também uma proteção ao paciente. Como bem pondera Genival Veloso de França, não é discutido a utilidade e licitude do anúncio, o qual deve limitar se ao nome, títulos idôneos, especialidade, endereço e hora de consultas. Para o autor, o médico tem sim o direito a se manifestar, porém deve ser feito de forma discreta.3 O objetivo deste artigo é demonstrar as possibilidades de fazer uma publicidade médica sem ferir o Código de Ética Médica A publicidade deve ser feita de forma educativa. Ela deve vir de maneira que o paciente entenda como é e como deve ser feito o procedimento, qual o efeito que este pode causar em seu corpo. No conteúdo educativo, deve haver a humanização do médico ao demonstrar o seu conteúdo, e não ser passado de forma técnica em que somente os profissionais consigam entender o significado. O marketing é a arte de criar e entregar valor para satisfazer necessidades e/ou desejos de um mercado consumidor. 7 O marketing médico pode ser feito além das páginas da internet. No relacionamento do dia a dia entre paciente/médico. O marketing do boca a boca, por indicação, ainda é o melhor marketing –médico a ser feito. Por isso da grande importância do bem tratar e da humanização da relação. Mostrar o dia a dia do médico em redes sociais torna-o mais humano e com isso mais próximo ao paciente, podendo criar ali uma relação de empatia e similaridade, sem precisar demonstrar os procedimentos sendo realizados nem os pacientes, por serem infrações éticas. Ser presente nas redes sociais e responder às perguntas feitas por elas não é visto pelo conselho como proibição, porém, se houver prescrição individualizada, porque daí será considerada uma consulta, o que é vedado pelo Conselho. Ao fazer publicidade nas redes, deve haver o nome, número de inscrição no Conselho Regional e o número de RQE nas páginas principais. Quanto ao RQE, só pode anunciar duas especialidades de acordo com o Decreto lei nº 4.113/42 e Resolução CFM nº 1.974/11. Em anúncios de clínicas, hospitais e outros estabelecimentos de prestação de saúde, deve sempre constar o nome do diretor técnico com o número do CRM e RQE, caso tenha especialidade. Anunciar que trata de doenças especificas não sendo especialista, pode induzir confusão ao paciente, sendo esta prática proibida pelo conselho. A publicidade deve ser feita de forma comedida, sem termos exagerados ou divulgar métodos que não tenham reconhecimento científico. Esse tipo de propaganda é proibida pelo Conselho. O médico tem o legitimo direito de fazer publicidade, porém, esta deve se atentar às regras e ao lado humano da relação. 4.2 Considerações Finais Com a mudança da forma de fazer publicidade médica, aumentaram os casos de ações nos conselhos contra médicos que fazem publicidade de maneira incorreta, fora dos ditames do Conselho. A publicidade é, hoje em dia, um instrumento de grande importância para a economia e empreendedorismo. A publicidade médica, apesar de todas as suas limitações, pode ser feita sim pelas regras colocadas pelos conselhos e, mesmo assim, conseguir se sobressair dos demais sem ter que recorrer para um marketing irregular. O profissional deve atentar para o lado humano da relação médico−paciente para fazer a sua publicidade. Fazer uma publicidade informativa, mas com linguagem simples, de fácil compreensão, tentando passar ao paciente, que além do profissional, ele também é pessoa. Tabela Assuntos adicionais tratados pela regulamentação.5 Regulamento Código de Ética Médica (CME) Resolução nº 1.974 / 2011 FCM Sujeito Serviços de publicidade, como prêmios para concursos ou participação em concursos com fins promocionais Art. 71 Art. 12 Apresentar, como seu, achados ou trabalhos científicos que não são seus Art. 117 --- A mídia social profissional também deve seguir os regulamentos --- Art. 13 Comitê exclusivo para tratar de questões de divulgação --- Art. 14 Art. 15 Cursos de publicidade relacionados à sua especialidade registrados no Conselho --- Art. 4 º, Método de publicidade em mídia não científica não aprovado / reconhecido Art. 113 Art. 3 rd , alínea “f” * Divulgar qualquer informação que permita a identificação do paciente Art. 75 Arte. 3º, item “g” art. 10 Induzindo áreas de trabalho --- Art. 3 º , alínea “b” e “h” Informações exigidas em publicidade Art. 118 Art. 2 º Art. 5 º Participar de publicidade feita por empresas de manufatura Arte. 116 Art. 3 º , alínea“c” * Participar da mídia de massa Art. 111 Art. 114 Art. 8 º Participar de programas de cartões de desconto, programas de compra coletiva e ações semelhantes Art. 32, inciso XIII art. 44, subseção XIII Art. 72 Art. 3 º , alínea “i” Proibição de selfies Arte. 13, Parágrafo 2 º * Uso de sensacionalismo ou autopromoção Art. 112 Art. 9 º, Parágrafo 1 º e 2 º Uso de ferramentas de publicidade ilegais que caracterizam concorrência desleal Art. 51 Art. 9 º , alínea “b” Art. 13, Parágrafo 2º Publicação de publicidade enganosa e abusiva com expressões ou imagens 'antes e Art. 112 Arte. 3º, itens “d”, “g” e “k” depois', preços, serviços gratuitos e métodos de pagamento art. 13, Parágrafo 4º 4.3 Referências 1 Saliba O, Garbin CAS, Garbin AJI, Dossi AP. Responsabilidade do profissional de saúde sobre a notificação de casos de doméstica. Rev Saúde Pública. 2007; 41 (3): 472-7. doi: 10.1590 / S0034-89102007000300021 2 Castro EM. Uma interface como internet na relação médico-paciente: aliada ou inimiga? Arq CRM-PR. 2015; 32 (126): 1-12. 3. França Genival, Direito Médico. Ed. Forense, 15ª edição, 2019. 4. Silva JCL. Publicidade médica e publicidade para médicos: questões éticas e legais. In: XVII Congresso Nacional do CONPEDI. Brasília: CONPEDI; 2008. 5. MAGALHAES, Luciana Vigorito et al. Publicidade odontológica e médica: análise comparativa das regras de conduta profissional. RGO, Rev. Gaúcha. Odontol. Campinas, v. 66, n. 2, pág. 166-171, junho de 2018. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S198186372018000200 166&lng=en&nrm=iso>. acesso em 18 de março de 2021. https://doi.org/10.1590/1981-8637201800020000103472 . 6. Ética em publicidade médica / Coordenação de Lavínio Nilton Camarim ; Maria Luiza Machado ; Marcos David. 2ª ed. São Paulo : Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, 2006. 146 p. (Série Cadernos CREMESP). 7. REFERÊNCIA. In WIKIPEDIA; a enciclopédia livre. 17 de março de 2021. Disponível em Acesso https://pt.wikipedia.org/wiki/Marketing em 18 de março de 2021. https://doi.org/10.1590/1981-8637201800020000103472 5. MEU CORPO MINHAS REGRAS? O DIREITO DE MORRER E O AGIR MÉDICO À DIRETIVA ANTECIPADA DE VONTADE DO PACIENTE Jaiara Ferreira Simões40 40 Advogada atuante em Direito Médico, Bioético e da Saúde. Especialista em Direito Médico e em Direito Civil e Processual. Aprimoramento em Direito Médico e da Saúde pelo Instituto Paulista de Direito Médico e da Saúde (cursando). Membro da Comissão de Direito Médico e da Comissão de Bioética e Biodireito, ambas da OAB/ES e Membro da Comissão Especial de Bioética e Biodireito do CFOAB. 5.1 Introdução Morte, substantivo cujo significado é o fim da vida. Simples, instigante, melindroso e preconceituoso. Para alguns vislumbrado como algo tenebroso, para outros como algo pecaminoso aos olhos da religião, mas, para o paciente, pode ser enquadrado como uma chance, não taxado por desistir de seus sonhos ou por não amar seus familiares, mas por uma escolha frente aos olhos inalcançáveis da medicina em que seu diagnóstico e prognóstico é irreversível. Aqui, inicia o denominado conflito bioético. A título de conhecimento, a Bioética nasceu no confronto de conflitos entre a ciência versus humanidade, no intuito de buscar referências e soluções decorrente do avanço societário e tecnológico, além da conduta humana ao desenrolar da problemática, nascendo assim um meio hábil de resolução de ligação entre tais nuances de forma ética. As tecnologias da medicina avançam em passos largos, entretanto, no tocante aos pacientes com doenças terminais há o retardamento de discussões quanto a morte digna, que, não há óbice em seu alcance no meio científico. Em situações como esta, é digno que o paciente procure cuidados que preservem a sua qualidade de vida por meio de cuidados paliativos a alcançar o fim da vida, sem objeção familiar e/ou médica profissional, exercendo então a simples diretiva de vontade, ciente de suas consequências. Infelizmente, o paciente, eivado de direitos, inclusive constitucionais, é freado ao confronto de normas e imposições de terceiros, até preconceituosas sob o que intenta ser o melhor para si, estando este em pleno gozo de sua faculdade mental para a tomada de decisões. Todavia, até quando a autonomia de vontade do paciente será “aceita” para que garanta a execução de sua vontade pessoal, sem interferência de terceiros que afastem seu desejo, inclusive, no tocante a legislação, até quando é permitido o agir médico? Muitas perguntas sem respostas são encontradas e desconsideradas, diante disso, histórias se repetem sem direcionamento, médicos se veem frente a insegurança jurídica e ao conflito entre a decisão do paciente e a repreensão da família. 5.2 Expondo a Autonomia de Vontade como Meio de Garantia do Desejo Pessoal O ser humano realiza inúmeras escolhas em sua vida, trazendo o conforto e confiabilidade à tomada de decisão. Com o paciente esse pensamento se expressa de forma congênere, visto que a escolha do profissional médico é eivada de confiança e transparência, sendo este, a base da relação médico- paciente. O poder de escolha demonstra a plena capacidade de uma pessoa em decidir sob o que busca ser o melhor para si mesma. O exercício da autodeterminação expõe com clareza a autonomia do indivíduo e sua autossuficiência. Deste modo, a capacidade de deliberação é um forte indício de lucidez na tomada de decisão, devendo este ser exercido de forma sábia, englobando ainda a compreensão dos riscos e consequências de seus atos a somar a diretiva de vontade. O exercício da autonomia é regulamentado pela Resolução nº 1995/2012 do Conselho Federal de Medicina que dispõe em seu Art. 1º: (...) conjunto de desejos, prévia e expressamente manifestados pelo paciente, sobre cuidados e tratamentos que quer, ou não, receber no momento em que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade (...). Inicia-se então o direito do paciente, lúcido e capaz, em exercer a sua diretiva de vontade em razão de seu tratamento clínico e demais questões envolvendo a sua saúde, sem interferência de terceiros e de forma lícita, podendo fazê-lo através do testamento vital, entregue ao seu médico de confiança e em instituição hospitalar que proceda com tratamento médico. Ainda, é importante destacar que tal instituto diz respeito ao direito à liberdade, o qual abarca questões de ordem pessoal, que é um direito garantido pela Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 5º, vejamos: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (Grifo Nosso) No íntimo da relação médico-paciente, a receptividade médica é bem-vinda no tocante a exposição do caso, indicando todos os meios possíveis, sejam alternativos ou não, a encorpar a futura decisão do paciente frente a um tratamento médico. Toda e qualquer decisão não é tida como fácil, mas o indivíduo deve ter o mínimo de informações possíveis que a justifiquem, estando o médico em posição privilegiada no repasse delas. Adentramos aqui na autonomia para decidir sobre a vida em caso de diagnóstico de doença terminal, este, de difícil recepção, tomada pelo medo e insegurança. Com o recebimento da notícia, muitas pessoas encontram-se despreparadas para tratar do assunto, deixando a desejar a comunicação de uma futura decisão muitas vezes por não pensar em como quer ser tratada caso isso venha a ocorrer. Lidar com a morte pode parecer obscuro, mas é uma certeza. Nem sempre encontramos forças para discutir sobre, contudo, no mundo, muitospossuem diagnóstico de alguma doença que não possui cura cujo tratamentos foram esgotados em sua eficiência, ou seja, o fim está próximo, doloroso para o paciente, inimaginável com alto peso aos familiares. Todavia, devemos levar em consideração que existem indivíduos, mesmo saudáveis, que decidem por discutir as possibilidades e registrar a sua decisão se cometido por doença terminal, sendo, a mais comum na mente de qualquer pessoa, a que se trata do ato de desligamento dos aparelhos que mantem o paciente vivo. Antes de qualquer procedimento médico, o consentimento do paciente é a autorização para fazê-lo, ocorrendo o mesmo com a declaração de autonomia de vontade. O respeito à escolha deve ser primário e a expressão de vontade deve ser realizada por pessoa lúcida e capaz, por meio de documento escrito expondo suas vontades a serem executadas na impossibilidade de se manifestar. O Conselho Federal de Medicina, através da Resolução nº 1995/2012, aceita como meio hábil as disposições em testamento, além das anotações via prontuário médico, sendo essa declaração superior a qualquer imposição familiar contrária. Dessa maneira significa que o paciente pode decidir sob qualquer forma de morrer perante o lema “meu corpo minhas regras”? Não! O poder não é absoluto, devemos pensar de forma ética no agir, o qual ainda enfrentamos dilemas bioéticos controversos ao efetivo exercício da autonomia de vontade. 5.3 Das Vertentes Sobre o Direito de Morrer A inter-multidisciplinariedade da bioética discute questões de diversos ramos e muitas delas apresentam uma questão moral controversa, o que, eticamente reflete sobre a busca da razão do certo ou errado. O cessar da vida transborda muitas vertentes e, encontrar formas de antecipá-la não é um luxo a ser disponível a sociedade sem precedentes e/ou normativa. Devemos pensar na coletividade e os direitos que podem estar disponíveis, desde que caracterizado à sua consumação, como ocorrido com o aborto de feto anencéfalo, depois de inúmeras discussões sua legalidade é real nos dias atuais. Paciente portador de doença terminal e incurável, com baixa perspectiva de tempo de vida, merece, além da qualidade do tempo restante por meio de cuidados paliativos como também opções a cessar a vida por compaixão, evitando um sofrimento maior, tanto ao paciente, quanto a sua família. Muitas doenças são traiçoeiras e dolorosas, seja genética ou adquirida e, a fim de elucidarmos a questão citamos o câncer que, em sua forma mais grave, destrói não apenas as esperanças e chances de vida, por mais luta que haja, há determinados estágios irreversíveis que trazem mais sofrimento, não sendo digno, forçar o paciente a efetuar tais cuidados e tratamentos que esgotam suas forças. Conceituamos a seguir de maneira sucinta, a terminologia das formas de morrer intituladas de maneira digna: a. Eutanásia Visa o fim do sofrimento causado por uma doença, seja terminal ou não, através da morte antecipada por uma ação ou omissão de terceiro, denominada ainda de morte por compaixão a evitar a aliviar a dor do paciente. Aqui, lidamos com a vida como um direito e não como um dever impositivo do Estado a existir a qualquer custo, contudo, apesar de não haver norma que a trate de forma lícita, entende-se a sua prática como um homicídio elencado no Art. 121 do Código Penal. A legalização da eutanásia tem como precursor a Holanda, seguido de Bélgica, Luxemburgo, Colômbia, Canadá, e, recentemente, inclui-se Portugal. Não se deve confundir a eutanásia com a prática do suicídio assistido, em que, com auxílio de um terceiro, o paciente ceifa a própria vida. Tal ação é legalizada pela Suíça por exemplo, que pacientes de todo o mundo viajam até o país em busca de clínicas especializadas no procedimento, denominado o país de Turismo da Morte. E, a ocorrência no Brasil de mera instigação ou auxílio ao suicídio é crime tipificado no Código Penal em seu Art.122. b. Ortotanásia Morte sem meios que a prolonguem, tida como a morte natural, que se utiliza de cuidados paliativos a trazer conforto aos últimos dias de vida do paciente, amplamente aceito pelo Conselho Federal de Medicina em se tratando de pacientes terminais, explicitada pela Resolução nº1805/2006: Na fase terminal de enfermidades graves e incuráveis é permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente, garantindo- lhe os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam ao sofrimento, na perspectiva de uma assistência integral, respeitada a vontade do paciente ou de seu representante legal. Ainda no tocante as disposições do Conselho, vejamos o novo Código de Ética Médica em seu Capítulo I: XXII - Nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados. Vejamos com tais dispositivos a possibilidade e aceite da classe médica a tomada de decisão antecipada do paciente sob seu tratamento clínico ante ao quadro de saúde irreversível e terminal, o qual, acomete o paciente a facilidade e conforto na tomada de decisão. No brasil não há previsão legal para a prática da ortotanásia, deste modo, não há que se falar em precedente tipificador de crime por sua consumação, tornando-a uma prática lícita e aceita na seara jurídica e médica, concordando com o explanado supra. c. Distanásia É a prolongação artificial irrazoável do processo de morte, fútil, prorrogando então o sofrimento do paciente por mera obstinação terapêutica, sendo esta, no tocando à ética médica, vedada, encontrado no Art. 41, parágrafo único do Código de Ética Médica: Art. 41. Abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido deste ou de seu representante legal. Parágrafo único. Nos casos de doença incurável e terminal, deve o médico oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas, levando sempre em consideração a vontade expressa do paciente ou, na sua impossibilidade, a de seu representante legal. (Grifo Nosso) O paciente possui o direito de escolher seu tratamento, expondo sua vontade de forma autônoma, livre e unilateral. Como expressado, o paciente poderá exprimir seu desejo através da declaração de diretiva de vontade através do testamente vital ou, também, junto ao seu médico por meio do prontuário. Sem legislação específica, é uma vertente a favor do paciente ao expor sua autonomia. d. Mistanásia Denominada por “eutanásia social”, é provocada por falta de condições adequadas à prestação do direito à saúde garantido pela Constituição Federal de 1988, sendo a morte ocorrida pela falta de medicamento, leitos hospitalares, atendimento inadequado dentre outros. Vemos nesta vertente a verdadeira afronta ao Princípio da Dignidade da Pessoa Humana e, também, a cremação do direito à vida em sua plenitude, ao vermos pacientes ao relento, ao mero constrangimento em receber seu medicamento em uma cadeira plástica no corredor hospitalar, implorando por um atendimento digno. Eis a afronta dos conflitos bioéticos e constitucionais, o que pensamos: é vedado por compaixão cessar o sofrimento do paciente em estado terminal, mesmo com seu consentimento efetuado de forma lúcida e em plena capacidade de sua faculdade mental, todavia, é visto como um fator social de desigualdade o paciente morrer no chão do hospital por não haver máquina à realização de determinando exame, esperando ali pelos corredores uma oportunidade. 5.4 O Agir Médico à Diretiva Antecipada de Vontade do Paciente O tratamento humanizado abraça o paciente ao acolher e entender a decisão, sem julgamentos, apenas respeitando a escolha, oportunizando ao paciente aaplicação de seu desejo. Entretanto, há profissionais que indagam: “como deixarei o paciente morrer se fui moldado para salvar?”, eis a questão. Destaco um trecho do Juramento de Hipócrates: “aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar danos ou mal a alguém”, demonstra aqui o Princípio Bioético da Não-Maleficência. Contudo, ao relermos com atenção, a expressão “meu poder e entendimento” nos remete ao chamado Paternalismo Médico. Com o passar dos anos, a quebra desse paradigma foi se desvinculando da decisão majoritária e arbitrária do médico face ao paciente para uma decisão compartilhada e, em muitos casos, de aceito total a determinação unilateral do paciente. A partir daqui o exercício ao Princípio Bioético da Autonomia de Vontade ganha força ao conceituar a autodeterminação como fundamento da dignidade, trilhando a tomada de decisões como uma liberalidade exclusiva do paciente, transformando a relação médico-paciente e fortalecendo-a com base na transparência; confiança e humanização. Diante da diretiva de vontade do paciente, o médico deverá transcrever detalhadamente o desejo e as justificas do paciente, com o nome das pessoas que serão responsáveis pelo paciente quando não puder exprimir sua vontade, além de, caso esteja em ambiente hospitalar, que seja registrado no livro de ocorrências, cuja cópia deve integrar o prontuário. Caso o paciente apresente o testamento que conste a diretiva antecipada de vontade, colete as informações ao prontuário e disponha da cópia do testamento como arquivo no mesmo. É importante destacar que o testamento produz efeito erga omnes, ou seja, para todos, não devendo o profissional médico e sua equipe multidisciplinar inclinar sob as disposições ali elencadas. Em evidencia ao apresentado, é possível encontrar pareceres os Conselhos Regionais de Medicina, o qual discutem sobre a autonomia de vontade do paciente e a sua forma de expressão, vejamos pequeno trecho do Parecer CREMEB nº 20/2018: (...) Conclui-se que os pacientes em plena capacidade mental e, principalmente em fase mais precoce de doença, devem ser estimulados a pensar sobre sua própria finitude, destacando-se que a possibilidade de recusar ou aceitar tratamentos é importante e pertence ao próprio indivíduo decidir quais tratamentos, procedimentos e cuidados de saúde deseja e quais não deseja, registrando sua decisão no Testamento Vital, possibilitando que seja seguido pela equipe médica e demais profissionais de saúde, na situação em que sejam diagnosticados como portadores de doenças terminais e cheguem a quadros em que não possam se expressar (...) Outro ponto importante é a elaboração de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, mais conhecido como TCLE, disposto pela Recomendação CFM nº 01/2016, a qual deverá ser redigido de maneira a comtemplar todas as informações como diagnóstico; tratamento terapêutico; declaração médica; legislação; diretiva de vontade do paciente; riscos e consequências. Vale esclarecer que os familiares, em muitos casos são contra a decisão do paciente, empurrando a sua insatisfação e decisão sob o médico no intuito de retardar ou até mesmo não realizar o pedido antecipado do paciente. Nestes casos, o médico deve seguir todas as orientações do paciente nos moldes supracitado, aplicando a diretiva antecipada de vontade do paciente, pouco importante o parecer familiar sobre o caso. 5.5 Considerações Finais Conclui-se que o médico deve expor ao paciente todos os riscos e consequências do desejo pessoal a ser executado, preparando a família da possibilidade de cessar a vida, garantindo a qualidade de vida do paciente até o último respiro. Vê-se que a legislação é omissa ao não tratar a morte como um direito à liberdade pleno, e ao exercício do Princípio da Dignidade da Dignidade da Pessoa Humana ao evitar o prolongamento da vida de maneira fútil e irrazoável, apenas para firmar uma vontade externa. O sofrimento não é significado de viver e, impor ao paciente um tratamento sem o seu consentimento é considerado desumano e torturante, o que, fere o Art. 5º de nossa Carta Magna, inciso III que diz “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”, exatamente o contrário da realidade. Uma morte digna vai muito além da manifestação de vontade. É a garantia como respeito dos direitos fundamentais e a dignidade como uma liberdade, a fim de diminuir a vulnerabilidade do paciente e aumentar sua autonomia. 5.6 Referências LEUTÉRIO, Alex Pereira e outros. Introdução à Bioética. In: COHEN, Cláudio e DE OLIVEIRA, Reinaldo Ayer (Org.). Bioética, Direito e Medicina. São Paulo. Ed. Manole, 2020. PORTAL CFM. Resolução CFM nº 1995/2012. Disponível em: <https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2012/1995> Acesso em 21/03/2021 às 17:02. PLANALTO NACIONAL. Constituição Federal de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm> Acesso em 21/03/2021 às 22:40. SOUZA, Alessandra Varrone de Almeida Prado. Terminalidade da vida e o direito. In: SOUZA, Renee do Ó (coord.). Resumo de Direito Médico. São Paulo. Ed. JHMizuno, 2020. DADALTO, Luciana. A morte digna como direito fundamental da pessoa humana. In: Conselho Federal de Medicina (Org.). Medicina e Direito: Reflexões e conferências do VII Congresso Brasileiro de Direito Médico. Brasília. CFM, 2018. PORTAL CFM. Código de Ética Médica. Disponível em: <https://portal.cfm.org.br/images/PDF/cem2019.pdf> Acesso em 22/03/2021 às 20:35. https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2012/1995 PORTAL CFM. Testamento Vital: Fatores limitantes da sua aplicação. Disponível em: <https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/pareceres/BA/2018/20> Acesso em 21/03/2021 às 16:40. PORTAL CFM. Recomendação nº 01/2016. Disponível em: <https://portal.cfm.org.br/images/Recomendacoes/1_2016.pdf> Acesso em 22/03/2021 às 21:47. 6. TRANSFUSÃO DE SANGUE: ANÁLISE DO EPISÓDIO “BAD BLOOD” DA SÉRIE GREY’S ANATOMY Juliana Costa da Silva 1 6.1 Introdução A transfusão de sangue é um recurso terapêutico constantemente utilizado em diversos tratamentos médicos. Todavia, muitas pessoas, em virtude de suas crenças religiosas, como no caso dos Testemunhas de Jeová, se negam a serem submetidos a qualquer procedimento que envolva sangue e seus derivados, o que implica no conflito, que será objeto deste estudo, entre o dever do médico de salvar vidas e a liberdade de escolha do paciente, principalmente nos casos em que há iminente risco de morte e não existem tratamentos alternativos, ou estes são inviáveis no momento. Utilizando com finalidade ilustrativa de um caso concreto no qual existe inconformidade entre direitos fundamentais, o do episódio 13 (treze) da 9ª temporada da renomada série de TV americana Grey's Anatomy, exibe o conflito entre o corpo médico e uma família de Testemunhas de Jeová, responsável por um adolescente acidentado que, por ter pedido muito sangue, necessitava da transfusão para sobreviver. Através do uso do método dedutivo e por meio de pesquisas bibliográficas e legislativas, o presente artigo pretende demonstrar a viabilidade ou não de aplicação do entendimento do Conselho Federal de Medicina acerca da recusa do paciente ou de seu representante ao tratamento com uso de sangue ou seus derivados face ao direito de liberdade de escolha, que advém do conceito de dignidade humana. Palavras-chave: Transfusão de sangue. Recusa. Conflitos de direitos fundamentais. 6.2 Análise do Episódio "bad blood” e sua Importância para o Meio Jurídico A série de TV americana Grey's Anatomy, é um drama transmitido originalmente pelo canal American Broadcasting Company (ABC),que acompanha a vida pessoal e profissional de internos, residentes e médicos do Grey Sloan Memorial Hospital, anteriormente conhecido como Seattle Grace Hospital. O episódio em questão tem como tema central o de um jovem skatista que, após ser atropelado, chegou ao hospital em estado gravíssimo, apresentando quadro clínico de trauma cardíaco. Quando os médicos estavam prestes a realizar uma transfusão de sangue no paciente para dar início a uma cirurgia, uma das residentes encontrou um cordão de identificação médica do paciente que indicava que o mesmo era Testemunha de Jeová. Seguindo os protocolos médicos, a médica chefe não permitiu que iniciassem a transfusão sem que fosse obtida a expressa autorização da família do paciente. Ao conversar com os familiares responsáveis pelo adolescente, a médica chefe expos que o mesmo havia perdido mais da metade do volume sanguíneo total e que, em virtude do dispêndio de quatro dias para a criação de novas células sanguíneas pelo corpo humano, seria viável a transfusão de sangue, vez que o rapaz não sobreviveria até a criação de novas células. Todavia, os pais do adolescente recusaram o recurso apresentado sob o argumento de que “a vida é um presente de Deus, não devendo tentar a sustentá-la com sangue dos outros", e que, além disso, "o sangue de outra pessoa não o salvaria, mas sim o condenaria e, por isso, viver com esse sangue seria pior do que morrer sem ele”. Ante a ausência de autorização para a realização da transfusão, os médicos realizam todo o procedimento sem sangue e o paciente não resistiu, o que, além de tristeza, causou revolta em uma médica residente que sabia que a transfusão poderia salvar o adolescente. O referido episódio da série Grey's Anatomy, bem como diversas outras obras cinematográficas, são utilizadas para auxiliar no ensino de diversas matérias, sendo um instrumento didático e de, na maioria das vezes, fácil acesso e compreensão que ganharam cada vez mais espaço nas salas de aula e em eventos de extensão na academia. Assim, quando uma obra audiovisual aborda o Direito de forma direta ou indireta, o que é quase impossível de não se fazer visto que o Direito é inerente a sociedade e as obras, em sua maioria, a retratam, é possível utilizar-se desse instrumento para melhorar a compreensão acerca de aspectos por vezes incompreensíveis da ciência jurídica. 6.3 A Recusa da Transfusão de Sangue ou Hemoderivados pelos Testemunhas de Jeová: Implicações na Ordem Jurídica Atual Testemunhas de Jeová é um movimento religioso cristão, criado por Charles T. Russel em meados de 1870 nos Estados Unidos. As crenças dos Testemunhas de Jeová são aplicadas a todo o seu modo de vida, incluindo relacionamentos, trabalho, saúde e lazer. Apesar de acreditarem e serem seguidores de Jesus Cristo, os Testemunhas de Jeová não acreditam que ele seja Deus. Jeová é o Deus único, adorado por esses fiéis. Diferente de outras correntes cristãs que acreditam na ideia do Santíssima Trindade, composta pelo Pai, Filho e Espírito Santo. Um dos pontos de sua crença que torna para si a atenção dos demais é a recusa a procedimentos e/ou tratamentos que envolvam sangue. A base para tal está na Bíblia, tanto no novo quanto no velho testamento. Atualmente, muitos médicos já adotam a técnica de realização de procedimentos sem o uso de sangue, por ser mais segura e menos onerosa, tendo crescido a especialização e procura por este tipo de procedimento. Apesar disso, tais escolhas envolvem questões adversas, como urgência do procedimento/tratamento e capacidade do paciente. É pacífico que caso haja tempo para a submissão do paciente ao tratamento, a sua escolha pode ser por procedimentos que não envolvam sangue, tendo, neste ponto, o paciente ou sua família a possibilidade de eleger qual o procedimento mais adequado, conforme preceitua a religião que segue. Porém, contrapartida a possibilidade de escolha do paciente de recusar qualquer procedimento que envolva sangue, há o dever do médico em salvar vidas. Acerca da urgência e emergência da intervenção médica, a legislação penal pátria, juntamente com as normativas do Conselho Federal de Medicina, preceituam que a atividade do médico tem como finalidade salvar vidas humanas, pelo que não deverá haver óbice a este fim, consoante o disposto nos Artigos 23, inciso III e 143, §3º, inciso I, ambos do Código Penal. No entanto, na esfera cível e administrativa, a questão pode tomar proporções diferentes posto que também envolve um direito fundamental do paciente, qual seja, a liberdade religiosa. Todo ser humano tem tutelado pelo Estado o direito a vida, sendo que esta deve ser digna. Na qualidade de princípio fundamental, a dignidade da pessoa humana tem finalidade de assegurar ao indivíduo os direitos básicos, visando a preservação e valorização do ser humano, estando prevista no Artigo 1º, inciso III da Constituição Federal. Acerca da lógica kantiana, Norberto Bobbio, em sua obra "A era dos Direitos", faz uma importante ressalva no que tange ao direito a liberdade, conforme vemos a seguir: " A doutrina dos direitos do homem nasceu da filosofia jusnaturalista, a qual – para justificar a existência dos direitos pertencentes ao homem enquanto tal, independentemente do Estado – partiria da hipótese de um estado de natureza, onde os direitos do homem são poucos e essenciais: o direito à vida e à sobrevivência, que inclui também o direito à propriedade; e o direito à liberdade, que compreende algumas liberdades essencialmente negativas. Para a teoria de Kant – que podemos considerar como a conclusão desta primeira fase da história dos direitos do homem, que culmina nas primeiras Declarações de Direitos não mais enunciadas por filósofos, e portanto sine imperio, mas por detentores do poder de governo, e portanto cum imperio -, o homem natural tem um único direito, o direito de liberdade, entendida a liberdade como “independência em face de todo constrangimento imposto pela vontade do outro”, já que todos os demais direitos, incluído o direito à igualdade, estão compreendidos nele" (2004, p. 68) Embora não trate especificamente da hipótese aqui analisada, existem dois dispositivos do Código Civil que merecem ser considerados, quais sejam, Artigo 11 e Artigo 25, senão vejamos: "Art. 11. Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária. (...) Art. 15. Ninguém pode ser constrangido a submeter-se, com risco de vida, a tratamento médico ou a intervenção cirúrgica." Já no Código Penal, destacam-se os artigos já mencionados anteriormente, quais sejam, Artigos 23, inciso III e 143, §3º, inciso I; os quais excluem a ilicitude da conduta do médico, não havendo que se falar em responsabilidade criminal. Por fim, destacam-se dois atos editados por conselhos de regulamentação da profissão médica, que, embora disposições desta natureza não se sobreponham a liberdade preceituada constitucionalmente, naturalmente são observadas pela comunidade médica, senão vejamos: " VI - O médico guardará absoluto respeito pelo ser humano e atuará sempre em seu benefício, mesmo depois da morte. Jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimento físico ou moral, para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar tentativas contra sua dignidade e integridade." 2 No mais, o mesmo dispositivo, em seu Capítulo II, item II, prevê que o profissional deve indicar o procedimento adequado ao paciente, observadas as praticas cientificamente reconhecidas e respeitada a legislação vigente. Por fim, o artigo 24 e o Capítulo I, item XXI, preveem o seguinte: " No processo de tomada de decisões profissionais, de acordo com seus ditames de consciência e as previsões legais,o médico aceitará as escolhas de seus pacientes relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas.” Desta forma, o Código proíbe o médico de desrespeitar o direito do paciente ou de seu representante de decidir livremente sobre a execução de praticas diagnosticas ou terapêuticas, ressalvado o caso de iminente risco de morte, pois, caso necessite intervir para salvar a vida do paciente, embora não haja consentimento para tanto, estaria violando seu dever legal se não o fizesse. 6.4 Considerações Finais É pacífico no ordenamento jurídico brasileiro que o paciente ou seu representante legal tem a liberdade de escolher a forma de execução de práticas diagnosticas ou terapêuticas. Todavia, o impasse analisado coloca em confronto o direito à vida e a dignidade, sendo do entendimento do Conselho Federal de Medicina pela intervenção do médico para salvar a vida do paciente, independente de consentimento do mesmo ou de seu representante. No mais, há quem sustente que uma vida sem dignidade não é vida, motivo pelo qual a vontade do paciente ou de seu representante deve ter maior valor. Assim, um indivíduo que tem sua liberdade de escolha suprimida por uma ação do médico que acaba por violar seus princípios e crenças, além de não se reconhecer mais como o mesmo individuo, pode também não ser mais reconhecido perante a sociedade na qual estava inserido, o que tornaria, sem dúvidas, sua vida indigna. Por fim, seguindo a lógica kantiana, o homem deve ser um fim em si mesmo, não devendo ser utilizado como meio para atingir um objetivo, a sua liberdade de escolha deve imperar sobre o dever legal do médico de salvar a vida do paciente a qualquer custo. 6.5 Referências ABCMED, 2014. Transfusão de sangue: o que é? Como ela é feita? Quando ela deve ser feita? Existe alguma complicação possível? Disponível em: <https://www.abc.med.br/p/exames-e-procedimentos/523844/transfusao-de- sangue-o-que-e-como-ela-e-feita-quando-ela-deve-ser-feita-existe-alguma- complicacao-possivel.htm>. Acesso em: 21 mar. 2021. BRASIL, Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal; Centro Gráfico, 1988. p. 15 BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 139, n. BRASIL. Decreto-Lei nº 2848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. CASA DAS SÉRIES, 2013. Grey's Anatomy | 9ª Temporada, Ep. 13: "Bad Blood". Disponível em: < https://casadasseries.weebly.com/recaps/greys- anatomy-9-temporada-ep-13-bad-blood>. Acesso em: 21 mar. 2021. ESCOLA, Equipe Brasil. Testemunhas de Jeová; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/religiao/testemunhas-de-jeova.htm. Acesso em 21 de março de 2021. JÚNIOR, Eudes Quintino de Oliveira. Testemunhas de Jeová e a transfusão de sangue. Disponível em: <https://www.migalhas.com.br/depeso/313870/testemunhas-de-jeova-e-a- transfusao-de-sangue>. Acesso em: 21 mar. 2021. 7. JUDICIALIZAÇÃO DA MEDICINA SOB DUAS ÓTICAS QUE SOBRECARREGAM O SISTEMA: A LOTERIA JURÍDICA EM BUSCA DE INDENIZAÇÕES POR ERROS MÉDICOS E A INEFICÁCIA DAS LIMINARES NA BUSCA DESESPERADA POR VAGAS EM LEITOS DE UTI EM TEMPOS DE COVID-19 Thaísa Bellotto do Amaral A judicialização da medicina tornou-se um fenômeno mundial que cresce excessivamente a cada ano, de modo a sobrecarregar o sistema judiciário com ações que muitas vezes são descabidas ou que são devidamente fundamentadas, porém sem eficácia. O presente trabalho propõe-se a analisar a judicialização da medicina no Brasil sob duas óticas distintas, por meio da análise de dados, inclusive de casos práticos, e pelo levantamento dos fatores responsáveis pelo aumento excessivo do número de processos na área da saúde. Palavras-chave: Judicialização da medicina, erro médico, ações indenizatórias contra médicos, leitos de UTI, Covid-19. 7.1 Introdução Nos últimos anos houve uma grande procura do Judiciário para solucionar questões relacionadas à saúde. A essa busca excessiva dá-se o nome de judicialização da medicina. Tal aumento também decorre do momento triste e difícil vivenciado no mundo em razão da pandemia causada pelo coronavírus e do colapso que a saúde entrou por consequência do número imenso de infectados, pois a população começou a buscar o Judiciário para resguardar seus direitos. Se não bastasse isso, que já sobrecarrega o nosso sistema Judiciário, também houve um aumento excessivo de processos de pacientes que projetam nos médicos seus inconformismos e ingressam em uma aventura jurídica com ações que pleiteiam indenizações altíssimas por erros médicos, tudo com o objetivo de enriquecimento imerecido e indevido. O presente trabalho traz à baila dados a respeito dessa judicialização da medicina, explanando quais são os principais potencializadores dessa afluência de processos e elucidando o porquê tais demandas, na maior parte das vezes, são descabidas ou ineficazes. 7.2 A Aventura Jurídica que Busca o Enriquecimento sem Causa por Meio de Ações de Indenização por Erro Médico Há tempos atrás os métodos de cura utilizados pelos médicos não eram questionados e quaisquer problemas decorrentes dessa atuação eram vistos como ocorrências inevitáveis ou fatalidades, pois esse profissional era reverenciado por possuir o dom da cura. Ao longo da história, o médico perdeu o caráter divino e paternalista e tornou-se um profissional comum, suscetível a falhas e questionamentos. [1] Diante desse contexto, a Judicialização da Medicina proliferou-se, se tornando um fenômeno mundial. Nos últimos anos tanto o Judiciário Brasileiro, quanto os Judiciários de outros países como Japão, Inglaterra, Bélgica, África do Sul, Estados Unidos, Alemanha e Canadá [2] vem sofrendo com a afluência de processos que buscam compensação patrimonial em decorrência de danos causados por erros médicos presumidos ou em razão do não esclarecimento prévio para realização de intervenções. De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça, no ano de 2019, foram distribuídas 31.039 (trinta e uma mil e trinta e nove) ações no Judiciário Brasileiro versando sobre erros médicos. Seria a mesma coisa dizer que foram distribuídas 85 (oitenta e cindo) ações contra médicos por dia (isso se considerarmos os 365 dias do ano), ou pior, que a cada 01 (uma) hora são protocoladas 03 (três) ações contra médicos no nosso país. [3] Da mesma forma, acontece nos Conselhos de Medicina, em que o número de novos processos é exacerbante, bem como o aumento de condenações. De acordo com dados do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) nos últimos 05 (cinco) anos foram instauradas 13.255 (treze mil, duzentos e cinquenta e cinco) sindicâncias. Com relação aos processos ético profissionais instaurados, o número extraído pelo CREMESP é de 3.100 (três mil e cem) processos. [4] Em meio a esse cenário assustador, é possível notar que os médicos estão em evidência na chamada indústria do dano que sobrecarrega o Judiciário Brasileiro, com ações que se tornaram uma verdadeira loteria jurídica, nas quais pacientes buscam um enriquecimento indevido com alegações de danos e erros médicos que, na maioria das vezes, são infundados. Esse aumento explosivo no número de ações decorre diversos fatores, dentre eles da grande quantidade e facilidade no acesso a informações por meio sites de pesquisa e dos diversos institutos jurídicos que protegem pacientes e os impulsionam a ingressar com os processos, a saber, o uso indiscriminado do Código de Defesa do Consumidor (CDC), a inversão do ônus da prova em favor do paciente e a concessão descontrolada da assistência judiciária gratuita. 7.3 Nem tudoé Erro Médico Nem todo mal resultado em de um tratamento é consequência de um erro médico ou de uma má conduta do profissional de saúde. O ilustre doutrinador Genival Veloso de França conceitua erro médico da seguinte forma: “O erro médico, quase sempre por culpa, é uma forma de conduta profissional inadequada que supõe uma inobservância técnica, capaz de produzir um dano à vida ou à saúde do paciente.” [5] Portanto, o erro médico é aquele decorrente de um dano causado ao paciente, como consequência de uma ação ou omissão culposa do profissional da saúde, que deriva de imprudência, negligência ou imperícia. Assim, para que haja a responsabilização do médico, são necessários, além da culpa, a existência do nexo de causalidade entre a ação ou omissão e o dano causado ao paciente. No entanto, é comum que mesmo em tratamentos realizados corretamente, com a devida prudência, diligência e técnica, o paciente sofra alguma alteração e ocorra um resultado aquém daquele esperado em razão de algum evento adverso, o qual pode gerar um dano. [6] Esse dano, na maioria das vezes, é etiquetado como erro médico, todavia, nem sempre o é, pois, circunstâncias como essas podem caracterizar a denominada iatrogenia, assim como pode ser um dano decorrente de culpa concorrente ou, até mesmo de culpa exclusiva do paciente. Tal rotulação de “erro médico” deriva de uma confusão do paciente quanto ao tipo de obrigação que tem o atendimento prestado, pois esse é uma obrigação de meio e não de resultado. Para elucidar melhor podemos dizer que o profissional deve sempre empregar os melhores esforços e esgotar todos os métodos para alcançar o resultado (obrigação de meio), entretanto não possui a obrigação de êxito (obrigação de resultado), pois a medicina também possui as suas limitações. Assim, se o médico agir corretamente, de acordo com as normas e princípios da medicina para tentar curar o paciente e mesmo assim ocorrer um evento adverso (iatrogenia), não há que se falar em responsabilidade civil por erro médico, pois o profissional atuou de maneira adequada e exauriu todos os meios para se alcançar o resultado pretendido (obrigação de meio). Nesse mesmo sentido entende o doutrinador José Carlos Maldonado Carvalho, que explana que a iatrogenia caracteriza-se por: “um atuar médico de forma correta, necessária, consubstanciado no uso de técnicas e medicamentos necessários para enfrentar crises ou surtos, que causam danos em pessoas sadias ou doentes não ensejadores de responsabilidade civil.” [7] Como exemplo dos efeitos adversos causados pela iatrogenia podemos citar: os efeitos colaterais, a interação medicamentosa, as reações alérgicas e a resistência a tratamentos. Ocorre que, tanto a mídia quanto a internet oferecem uma imensa gama de informações que geram equívocos quanto ao que realmente se enquadraria em erro médico, fato que faz com que pacientes e/ou seus familiares projetem seus inconformismos com os resultados, seja em razão de eventos adversos ou não, nos médicos e profissionais da saúde com tamanha perversidade, injustiça e maldade. Tudo isso é nocivo à relação paciente-médico, pois a confiança, que é essencial para o tratamento e para a cura, fica estremecida. Sem contar que gera uma sobrecarga no sistema Judiciário com ações descabidas de indenização. Nessa mesma perspectiva são os ensinamentos do professor Irany Novah Moraes: “Eles projetam no médico suas angústias. Assim, nascem os impulsos de imputar ao médico a culpa que ele não tem e chamar de erro a limitação da medicina que não pode tratar tudo com êxito.” [8] 7.4 Os Principais Potencializadores do Aumento dos Processos Judiciais Diversos são os fatores que contribuem para esse cenário apavorante de excesso de processos no Judiciário brasileiro e dentre eles podemos citar a mudança no perfil dos pacientes, o uso do CDC na relação médico-paciente, a inversão do ônus da prova, o acesso à informação e a concessão incontrolada da assistência judiciária gratuita. Para adentrarmos na mudança de perfil do paciente, é necessário voltarmos um pouco na história para entendermos a natureza da relação existente entre médico-paciente e a posição de vulnerabilidade que esse segundo foi colocado de acordo com as normas consumeristas. O consumo é inerente à natureza humana e em razão das desigualdades existentes entre consumidores e fornecedores ao longo do tempo, houve a necessidade da criação de normas para que os interesses da parte mais vulnerável (consumidor) fossem resguardados e para que houvesse um equilíbrio nas negociações comerciais. O fato é que em que pesem os debates a respeito da aplicabilidade ou não do CDC e do Código de Ética Médica estabelecer que o vínculo médico-paciente não caracteriza relação de consumo, hodiernamente tanto os nossos tribunais superiores, especialmente a 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, quanto a doutrina tem entendido que a relação paciente-médico é de consumo e, por essa razão, enquadraram o paciente como parte tecnicamente hipossuficiente e vulnerável. [9] As consequências disso são desastrosas, uma vez que colocam o médico em situação completamente desfavorável, pois somente protegem o paciente por considerá-lo vulnerável. Essa proteção se dá por meio de diversos institutos, como por exemplo a inversão do ônus da prova. O desdobramento disso é a presunção de culpabilidade generalizada do médico, pois se o ônus da prova sempre for invertido em favor do paciente hipossuficiente, o médico teria o encargo de sempre provar a ausência de sua culpa e, pior, teria o dever eterno de cura, transformando a sua obrigação de meio em uma obrigação de resultado. Tudo isso, aliado a democratização da informação por meios digitais, trouxe uma mudança colossal no perfil do paciente, que há tempos atrás era leigo em questões da saúde e atualmente extrapola seus limites ao comparecer nos hospitais e consultórios com uma anamnese feita de acordo com dados obtidos em sites de pesquisas e, muitas vezes, exige a realização de exames e tratamentos específicos numa completa distorção de fatos, eis que essa é uma prerrogativa do profissional médico que durante anos dedicou-se aos estudos e formação para ofertar atendimento adequado de saúde. Tais fatos, impulsionam pacientes e/ou familiares nas loterias jurídicas em busca de indenizações contra médicos, pois esses, em razão do grande acesso a informação e cientes desse protecionismo jurídico imputam ao profissional de saúde uma suposta culpa, enquadrando como erro médico qualquer descontentamento ou tratamento diferenciado do qual pretendia receber. A concessão incontrolada, irrestrita e sem critérios da gratuidade da justiça ao paciente e/ou familiar também é um fator que contribuiu grandemente para o aumento exagerado no número de ações contra médicos. Não se pode negar a importância da Justiça Gratuita que possibilitou a todos, independentemente de classe social, o acesso à Justiça. Porém, tais benesses desencadeiam uma desenfreada quantidade de processos, em razão de insatisfações dos pacientes que tentam imerecidamente ou, com manifesta má- fé locupletar-se de algum valor. Esse abuso da máquina do Judiciário decorre dessa facilidade da parte autora, em razão da assistência judiciária gratuita, de ingressar em Juízo sem prejuízo financeiro (gastos com custas processuais) e, ainda, do fato de que não terá que arcar com o ônus de sucumbência em caso de improcedência da ação. Tudo isso, aliado a impunidade pela má fé dos pacientes em ingressarem com as ações infundadas, tem incentivado essa busca pelo “dinheiro fácil”, conhecido no mundo jurídico como enriquecimento sem causa, fato que viola a real intenção do legislador ao criar o instituto da assistência judiciária gratuita. A problemática desse abuso das açõesinfundadas resulta no excesso de processos e consequentemente no atraso da prestação jurisdicional que prejudica aqueles que de fato precisam do sistema para que seus direitos sejam apreciados. Além disso, surgem para o Estado gastos desnecessários e também geram o esgotamento de funcionários do Judiciário em razão do excesso de trabalho. Todavia, raramente os juízes solicitam alguma validação ou comprovação da alegação de situação de pobreza, fato que facilita a vida dos oportunistas que sequer arcam com as custas para ingressar com o processo e com os honorários de sucumbência em caso de malogro da ação. Vale trazer à baila, que além do congestionamento do Judiciário, tais ações abalam completamente a força e a motivação dos profissionais de saúde em continuar lutando e se doando pela vida de tantas pessoas. Isso afeta não só a vida profissional, como a pessoal do médico, acarretando danos materiais e psicológicos. De fato, todos estão sujeitos a figurar no polo passivo de uma ação indenizatória, entretanto, o médico tornou-se a evidência e a fonte de um enriquecimento fácil e sem causa. Prova disso são as 31.039 (trinta e uma mil e trinta e nove) ações por erro médico distribuídas no ano de 2019. Infelizmente, no cenário que estamos vivendo hoje e em razão da pandemia pelo Covid-19 a tendência desses números é só aumentar e piorar. [10] Portanto, há a necessidade de uma maior atenção no que diz respeito a judicialização da medicina, com a consequente mudança ou, pelo menos, a fiscalização pelos Juízes de Direito e pelos Tribunais de institutos que apenas estimulam demandas descabidas, para que sejam coibidas as ações desnecessárias e infundadas que apenas sobrecarregam o sistema Judiciário. 7.5 Da Ineficácia das Liminares na Busca de Vagas por Leitos em UTI É indubitável que o mundo está passando por uma situação rara, de excepcionalidade em decorrência da pandemia pelo coronavírus. Os impactos disso são desastrosos para a sociedade e atingiu a vida das pessoas de uma forma nunca vivenciada antes. As consequências desse surto de contaminação do Covid-19 afetaram a economia, a liberdade de ir e vir dos cidadãos, os empregos, as relações sociais, a cultura, a saúde e muitos outros direitos fundamentais previstos na Constituição Federal (CF). A nossa Carta Magna, prevê a saúde como direito social em seu artigo 6º. [11] Segundo os doutrinadores Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino os direitos sociais: “constituem as liberdades positivas, de observância obrigatória em um Estado Social de Direito, tendo por objetivo a melhoria das condições de vida dos hipossuficientes, visando a concretização da igualdade social.” [12] São, portanto, aqueles que tem a função de compensar as desigualdades sociais e econômicas da sociedade. [13] Assim, com fundamento na própria norma constitucional, principalmente nos artigos 6º e 196, ambos da CF, o Estado assumiu o dever de garantir, mediante políticas sociais e econômicas e de modo universal e igualitário, a saúde de todos os cidadãos. Em razão dessa posição de garantidor da saúde pelo Estado, foi criado o Sistema Único de Saúde, que assegurou para todos esse Direito Fundamental. Vale ressaltar que realmente a Administração Pública entregou à população o referido sistema, o qual tem sido de grande valia e pôde mostrar a sua grandeza no cenário apavorante que o Brasil vive nos dias atuais. É importante mencionar também que aliado ao direito à saúde a CF/88 e a Lei nº 8.080/90 trouxeram diversos princípios que garantem à população a igualdade e integralidade da assistência e a universalidade de acesso aos serviços de saúde. E, nos momentos em que o Estado não conseguiu atender de maneira eficaz as necessidades da população no que diz respeito a saúde, surgiu a Judicialização da Saúde, pois o cidadão começou a buscar o Poder Judiciário para resguardar seus direitos. Em tempos de Covid-19, em que o colapso sanitário e econômico se instalou em nosso país e no mundo, a judicialização da saúde cresceu de forma exorbitante em busca de vagas em leitos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), de medicamentos, de reembolso de planos de saúde por despesas e de negativas de cobertura [14] Fato é que o caos começou em nosso país e o número de infectados pelo Covid- 19 trouxe consequências trágicas e catastróficas para o sistema de saúde e, consequentemente, para o Judiciário. De acordo com dados da CNN Brasil, no dia 19 de março de 2021, 17 (dezessete) estados e o Distrito Federal estavam em colapso na saúde e dentre eles diversos já não possuíam mais vagas nas UTIs. [15] O maior obstáculo está no fato de que o número de infectados aumenta cada vez mais e o sistema de saúde está saturado e não consegue acompanhar esse avanço, principalmente no que diz respeito a estrutura hospitalar e número de leitos em UTI. De acordo com José Gomes Temporão em entrevista dada a CNN Brasil: "Um dos alertas importantes é a capacidade instalada de leitos, porque é muito difícil você ampliar rapidamente leitos de UTI, é uma área altamente especializada, que depende de pessoal muito qualificado e que não está disponível de maneira imediata no mercado.” [16] Além disso, há que se mencionar que nenhum país estava preparado para uma situação tão devastadora como essa e tiveram que se adaptar rapidamente, buscando alternativas diversas para a administração e controle da pandemia. Tudo isso é agravado por ser a doença altamente contagiosa e rápida em sua proliferação, pela escassez de recursos, pela insuficiência da capacidade de atendimento através de leitos de UTI nos diversos hospitais, além da longa permanência de pacientes graves nos referidos leitos. A situação do país é tão triste que, de acordo com dados do G1, existem pacientes morrendo na espera por vagas em leitos de UTI ou por falta de oxigênio nos hospitais. [17] Diante desse contexto, está cada vez mais intensa a busca da população pelo Judiciário, pois por meio das ações com pedido de liminar para obtenção desesperada de vaga em leito de UTI, o cidadão tenta encontrar a esperança para a sobrevivência, transferindo para o Judiciário uma difícil missão de gestão da saúde. Ora, não podemos transferir ao Judiciário uma tarefa tão árdua e a responsabilidade de decidir quem terá uma vaga para ser atendido em um hospital, até porque em que pese a tristeza e a importância dessa busca desesperada por um leito e por sobrevivência, tais ações são ineficazes, pois infelizmente o sistema de saúde do nosso país encontra-se colapsado, sem existência das tão sonhadas vagas de UTI. Isso quer dizer que o Judiciário através de suas liminares, não detém o poder de criação de vagas e, consequentemente, as determinações judiciais se tornam ineficazes, não pela sua relevante importância, mas face a impossibilidade de cumprimento. Nesse sentido tem sido as decisões dos nossos tribunais que estão indeferindo as liminares, sob a alegação de que não existem vagas e que a saúde está diante de um colapso. No dia 11 de março de 2021, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul negou o pedido de liminar de um paciente que buscava um leito de UTI para internação. O desembargador plantonista João Barcelos de Souza Júnior reconheceu a gravidade da situação e explicou a impossibilidade de deferir o pedido diante do momento vivenciado no nosso país. [18] [19] Merecem destaque alguns trechos da decisão: “Diante da realidade presente não há o que possa ser determinado, pois leito vago em UTI não há, e qualquer decisão neste sentido poderá ser mal interpretada e causar mais perplexidade ainda, fazendo com que um paciente seja preterido por outro, situação que o Poder Judiciário tem de todas as formas evitar (...) Neste contexto, é de se imaginar o estresse e a angústia dos médicos de linha de frente,que diante de toda a sorte de preocupações e excesso de trabalho, há mais de um ano, podem agora estar enfrentando conflitos existenciais por ter de tomar decisão que somente deveria ficar na mão de Deus, não de um ser humano". Nesse mesmo sentido foi a decisão da Justiça Federal do Estado do Pará que também negou a liminar para que hospitais militares atendessem pacientes com Covid-19, alegando que diante do quadro atual da pandemia no Pará não há como prever a demanda futura dessas unidades hospitalares no atendimento aos seus usuários para o tratamento da Covid-19, principalmente dos militares que estão atuando no enfrentamento à pandemia. [20] Diante da quantidade de demandas, foi editada pelo CNJ uma recomendação (nº 66/2020) com o fim de uniformizar ações judiciais e delegar aos gestores de saúde a prioridade das ações voltadas à contenção e ao tratamento da Covid- 19, a qual dispõe: Art. 1º Recomendar a todos os juízos com competência para o julgamento de ações que versem sobre o direito à saúde que reconheçam a essencialidade das medidas tomadas pelos gestores dos serviços de saúde e assegurem-lhes as condições mínimas para o enfrentamento da pandemia de Covid-19, compatibilizando as decisões com a preservação da saúde dos profissionais da saúde, dos agentes públicos e dos usuários do Sistema Único de Saúde - SUS e da Saúde Suplementar. Art. 3º Recomendar a todos os juízos com competência para o julgamento sobre o direito à saúde que avaliem, com maior deferência ao respectivo gestor do SUS, considerando o disposto na LINDB, durante o período de vigência do ‘estado de calamidade’ no Brasil: I – as medidas de urgência que tenham pleitos por vagas hospitalares, incluídas as de terapia intensiva, inclusive como meio de inibir o agravamento do estado de saúde do requerente; Logo, sobrecarregar o sistema Judiciário não é a melhor saída, pois lamentavelmente, na situação que estamos enfrentando, não cabe a ele dar preferência a quem será atendido, pois como já mencionado, o SUS, por meio de ações do Estado e de políticas públicas, deve garantir a saúde de todos os cidadãos de forma igualitária e universal. Destarte, o Judiciário deve ser utilizado com parcimônia, de forma racionalizada e excepcional, pois essa judicialização da saúde de forma individual na busca por leitos de UTI, só aumenta as desigualdades, fato que é totalmente contrário aos preceitos dos direitos sociais trazidos pela nossa Carta Magna, no qual a saúde está incorporada. Nesse contexto, vale concluir que dentre os três poderes, o Poder Judiciário deveria ser o último a ser acionado, entretanto é notória a inversão dessa ordem, pois o desespero da população pela sobrevivência está se sobrepondo aos limites da Justiça, mesmo sabendo da impossibilidade de cumprimento das decisões judiciais nesses casos. 7.6 Considerações Finais Em face do presente estudo, é possível constatar que a judicialização é um fenômeno que atinge diversas áreas do direito, todavia, na saúde seus efeitos são ainda mais preocupantes, pois o bem jurídico tutelado pela saúde é, sem dúvida, o mais importante de todos: a vida. Fato é, que mesmo se tratando de situações distintas, ambas abarrotam o nosso Judiciário, seja por ações infundadas nos casos de processos de indenização por erros médicos, seja por ações de grande importância e necessidade, que possuem a devida fundamentação, como as liminares que buscam vagas em leitos de UTI, mas que, lamentavelmente, são impossíveis de cumprimento. Não se pode retirar a importância da busca pelas vagas em leitos de UTI na triste realidade em que estamos vivendo, mas quando falamos em ineficácia dessas liminares, não nos referimos a uma falta de importância, mas sim a impossibilidade de cumprir tais decisões, face a inexistência de leitos. Logo, há a necessidade de que o Judiciário seja utilizado de forma racional e com parcimônia para que: O sistema não fique sobrecarregado com as ações infundadas ou ineficazes; Não ocorra prejuízo para aqueles que de fato precisam do sistema para que seus direitos sejam apreciados; Os profissionais da saúde que estão na linha frente, nesse momento tão triste e difícil para a saúde do mundo, continuem lutando pela vida, mesmo em face da exaustão, tristeza, privação e do turbilhão de informações; Os médicos não percam a força e a motivação de lutar pela vida em qualquer circunstância, em razão dos processos infundados que muitos pacientes ingressam contra eles, por meras irresignações, na busca de um enriquecimento indevido e que traz prejuízos profissionais, pessoais, materiais e psicológicos; O sistema de saúde não se encaminhe para um colapso pior do que esse que já está sendo vivenciado. 7.7 Referências [1] SOUZA, Alessandra Varrone de Almeida Prado. 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NEM TODO MAU RESULTADO É ERRO MEDICO Maria do Socorro Lima Marialva O profissional da medicina, no imaginário da sociedade em geral, está investido do poder quase sobre humano de curar, diminuir, extirpar a dor, o sofrimento e impedir a morte, sendo atribuído a ele a infalibilidade. Por isto o erro médico assume proporções dramáticas e mal evidenciadas pela mídia que busca no rol dos eventos sociais a exceção, a apelação em forma de notícia. O que causa pavor no erro médico é a alteração de expectativa de quem cai à procura de um bem (cura) e alcança o mal. Muitas outras falhas, de outros profissionais passam despercebidas, menos as dos médicos. A medicina é uma ciência presumidamente de meios, a falha é a conduta profissional inadequada que supõe uma inobservância técnica capas de produzir um dano à vida ou à saúde de outra pessoa e pode ser caracterizada sob o manto de um ato ilícito no exercício da aquisição, existindo em uma das modalidades de culpa: negligência, imprudência e imperícia. Palavras-chave: Erro médico, responsabilidade civil subjetiva, objetiva, e objetiva derivada, responsabilidade civil do médico à luz do código de defesa do consumidor. 8.1 Introdução Quando um tratamento médico é realizado em uma paciente que não apresenta bons resultados é frequente a dúvida seguida da indagação do paciente ou de sua família se o insucesso foi um mau resultado do procedimento ou decorrente de um erro médico. Para ser erro médico, é necessário está sob o manto de um ato ilícito no exercício de sua função, existindo em uma das modalidades de culpa: negligência, imperícia e imprudência. Nos casos em que diante do problema apresentado for comprovada a culpa, esta, relacionada com o nexo de causalidade derivada da ação e/ou omissão, e dano, dever de reparar. Mau resultado é um evento inerente aos procedimentos médicos, é a probabilidade de insucesso de determinado procedimento, o risco, que não depende exclusivamente da vontade dos interessados, e deve ser cuidadosamente separada dos procedimentos em que ocorreu negligência, imprudência ou imperícia que caracterizam o erro médico. A vida é direito fundamental, a toda pessoa, por isso encontra amparo na Constituição Federal/1998, Carta Maior Brasileira, e seguida pelas demais normas contidas no Código Civil, Código de Defesa do Consumidor e o próprio Conselho de Ética Médica, os quais prescrevem proibições aos médicos, visando garantia plena de vida. Segundo o Conselho Nacional de Justiça é crescente os números de processos relacionados a erros médicos. O Órgão compila dados enviados por tribunais Estaduais e Federais, além do Superior tribunal de Justiça-STJ. O Conselho Federal de Medicina não recomenda a comparação da evolução anual. Mas os números de alguns Tribunais dão a dimensão da tendência com o passar dos anos. O objetivo do estudo é repassar que o médico tem obrigação de fazer o seu melhor, que se ele não curar, necessariamente não irá indenizar, pois a medicina é presumidamente de meio e não de fim. SUMÁRIO: 8.2 Erro Médico 8.3 Iatrogenia 8.4 Responsabilidade Civil do Médico 8.4.1 Subjetiva 8.4.2 Objetiva 8.4.3 Objetiva Derivada 8.5 Responsabilidade Civil do Médico à luz do Código de Defesa do Consumidor. 8.2 Erro Médico É o dano provocado no paciente pela ação ou inação do médico, no exercício da profissão, e sem a intenção de cometê-lo. Há três possibilidades de suscitar o dano e alcançar o erro: imprudência, negligência e imperícia. A negligência consiste em não fazer o que deveria, a imprudência consiste em fazer o que não deveria ser feito e imperícia em fazer mal o que deveria ser bem feito.41 41 GOMES, Júlio César Meireles. FRANÇA, Genival Veloso de. Iniciação à Bioética. Conselho Federal de Medicina. Parte VI Bioética clínica. Erro Médico. 1998. Esses três termos podem ser classificados como modalidades de culpa, vejamos: 8.2.1 Negligência Na negligência, alguém deixa de tomar uma atitude ou apresentar conduta que era esperada para a situação. Age com descuido, indiferença ou desatenção, não tomando as devidas precauções. Ex. um erro de diagnóstico. Um paciente tem que operar o lado direito, e o médico opera o lado esquerdo. 8.2.2 Imprudência A imprudência, por sua vez, pressupõe uma ação precipitada e sem cautela. A pessoa não deixa de fazer algo, não é uma conduta omissiva como a negligência.Na imprudência, ela age, mas toma uma atitude diversa da esperada. Ex. Podemos dizer que seja o excesso de velocidade. O médico sabe do risco, mas tenta resolver. Tenta obter o máximo para salvar o paciente, mas ultrapassa e acaba morrendo. 8.2.3 Imperícia Para que seja configurada a imperícia é necessário constatar a inaptidão, ignorância, falta de qualificação técnica, teórica ou prática, ou ausência de conhecimentos elementares e básicos da profissão. É a falta de domínio ou habilitação. Ex. Um médico otorrinolaringologista que irá fazer um procedimento de desvio de septo, conversa com o paciente para fazer a cirurgia no nariz para a correção. O médico não tem habilitação em cirurgia plástica, faz o procedimento, e não fica como o esperado. Na medicina, além do erro médico, há também a iatrogenia. 8.3 Iatrogenia Vem ser a doença que surge como consequência de uma intervenção médica, procedimento clínico em geral ou mesmo pelo emprego de medicamento. Em regra, a lesão iatrogênica não gera responsabilidade civil (de indenização) para o médico ou hospital, a não ser em face do descumprimento do dever de informação ou quando resultante de atuação ou omissão culposa, caracterizando nesses últimos casos em erro médico. Um exemplo, é quando uma paciente realiza um procedimento cirúrgico de abdominoplastia e na cicatrização, surge o “queloides”, resultado assim, um dano iatrogênico. Outro, seria as mutilações decorrentes da extração de órgão ou membro, caso por exemplo, da amputação de uma perna com o fim de conter uma infecção grave seria um exemplo clássico de iatrogenia. É sumamente importante esclarecer estes conceitos a respeito das lesões ditas iatrogênicas, vez que podem parecer, prima facie, erros no procedimento médico, quando na verdade não são. Nesse sentido é a Lição de Jorge Alberto Ripú ao associar a iatrogenia a uma “[…] síndrome não punível, caracterizada por um dano inculpável, no corpo ou na saúde do paciente, consequente de uma aplicação terapêutica, isenta de responsabilidade profissional.” 42 8.4 Responsabilidade Civil do Médico A responsabilidade civil é a aplicação de medidas que obriguem alguém a reparar dano moral ou patrimonial causado a terceiros em razão de ato próprio imputado, de pessoa por quem ele responde, ou de fato de coisa ou animal sob sua guarda ou ainda de simples imposição legal. Definição esta que guarda, em sua estrutura, a ideia de culpa quando se cogita da existência de ilícito (responsabilidade subjetiva), e a do risco, ou seja, da responsabilidade sem culpa (responsabilidade objetiva)43. A responsabilidade civil induz à ideia de punição, recompensa, restituição ou ressarcimento, no âmbito pecuniário. 42 RIPÚ, Jorge Alberto. Responsabilidad Professional de los médicos. Buenos Aires: Lerner Editores Associados, 1981, p. 50. 43 DINIZ. Maria Helena, Curso de Direito Civil brasileiro. 26ª e. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 50. A palavra responsabilidade origina-se do latim re-spondere, que encerra a ideia de segurança ou garantia da restituição do bem sacrificado. Teria, assim, o significado de recomposição, de obrigação de restitui ou ressarcir.44 Para nosso sistema jurídico, são caracterizados como elementos formadores da obrigação de reparar, a existência de uma ação ou omissão, o dano, a culpa e o nexo causal. O artigo 186 do Código Civil estabelece a regra da responsabilidade civil subjetiva. O agente somente pode ser responsabilizado quando, culposamente, não respeita um dever de cuidado objetivamente devido (sua conduta é ilícita). Artigo 186 – Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito. Em linhas gerais, a responsabilidade subjetiva, que é a do médico, é aquela em que além do ato lesivo do agente causador de lesão, do dano estar presente no lesado e do nexo causal estar estabelecido entre o ato lesivo e o dano ao lesado, tem que se achar presente, nesta relação, a culpa do agente causador do dano. E, esta culpa, caracteriza-se pela presença no agir deste de dolo ou pela presença só de culpa no sentido estrito, ou seja, de imprudência, negligência ou imperícia.45 Excepcionalmente, em casos específicos, a lei estabelece a reparação independente de culpa. A reparação é objetiva, quando se verifica a culpa do hospital bastando a verificação do dano e do nexo de causalidade. Esta responsabilidade é fundamentada no risco e em hipótese de presunção legal de culpa.46 No artigo 927 e seu parágrafo único do Código Civil, impõe-se a responsabilidade objetiva: Artigo 927 – Aquele que, por ato ilícito (artigo 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. 44 GONÇALVES.Leciona Carlos Roberto. Responsabilidade Civil-2007, p 18. 45 MATIELO, Fabrício Zamprogna, 1998, p.15. 46CHACON, Fernando Rabelo, 209p.08 Todo prejuízo deve ser atribuído ao seu atuor e reparado por quem o causou independente de ter ou não agido com culpa. Resolve-se o problema na relação de nexo de causalidade, disponível qualquer juízo de valor sobre a culpa.47 Assim para responsabilizar o médico tem que está provado: a) o impulso do agente consistente em ação ou omissão qualificável como ilícito, atuando com dolo (vontade de produzir o resultado), e com culpa (negligência, imprudência ou imperícia); b) o resultado lesivo e, c) o nexo causal entre ambos, prescindindo- se da comprovação de culpa em sentido amplo (dolo e culpa em sentido estrito), tudo porque a responsabilidade do médico é forma subjetiva. Com tudo, além da responsabilidade civil subjetiva e objetiva, hodiernamente se aplica a responsabilidade objetiva derivada, chamando para compor a lide, um terceiro agente, que é o médico. Não é suficiente, para que seja exigível a responsabilidade civil, que o demandante haja sofrido um prejuízo nem que o demandado tenha agido com culpa. Deve reunir-se um terceiro e último requisito, a existência de um vínculo de causa e efeito entre a culpa e o dano; é necessário que o dano sofrido seja a consequência da culpa cometida. Assim se manifesta Miguel Kfouri Neto, “O laço causal deve ser demonstrado às claras, atando as duas pontas que conduzam à responsabilidade. Se a vítima sofre o dano, mas não se evidencia o liame de causalidade com o comportamento do réu, improcedente será o pleito.”48 8.5 Responsabilidade Civil do Médico á Luz do Código de Defesa do Consumidor A vida humana deve ser protegida e respeitada desde a concepção, conforme determina o Código Civil em seu artigo 2º. Neste sentido, a saúde e a integridade física e moral, como integrantes essenciais do ser humano, são valores indisponíveis constitucionalmente, assumindo, na prática, uma 47 CAVALIERI.Sérgio Filho. Programa de responsabilidade civil. 9ª ed. São Paulo. Ed.tora Atlas, 2010, p. 137. 48 Kfouri, Niguel Neto. Responsabilidade civil do médico. 2ª ed. São Paulo: RT,1996, nº 44, 90-91. valoração suprema, quase absoluta, pois inserida no conceito de dignidade, em sentido mais amplo. Como bem mais precioso do ser, a partir do qual emanam as demais garantias e direitos, avultam em importância todas as medidas que possam representar qualquer restrição ou ameaça à vida ou à integridade do ser humano. Por consequência, importa refletir sobre a atividade exercida pelos profissionais da saúde, em especial os médicos, porque lidam todos os dias com a vida ou com a integridade física das pessoas e, em razão disso, cresce em importância a responsabilidade desses profissionais. O Códigode Defesa do Consumidor, instituído pela Lei nº 8.078/1990, de 11 de setembro de 1990, trouxe grandes inovações ao direito como um todo, principalmente aos considerados vulneráveis e hipossuficientes, os consumidores. Importante destacar o conceito ostentado pelo Código de Defesa do Consumidor. O artigo 2º do CDC traz: Artigo 2° - Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo. Não há dúvida, portanto, de que o paciente se enquadra nesta definição, pois utiliza dos conhecimentos do profissional da área médica em proveito próprio e pessoalmente, e o remunera por essa prestação de serviço. Por este prisma, concluiu-se que o paciente, na relação jurídica médico- paciente, é considerado legalmente consumidor, pois almeja interesses próprios, ou seja, como destinatário final. Aplica-se aqui o entendimento de que está em busca concretamente de um serviço, ou seja, quer efetivamente um tratamento à sua enfermidade, seja através da atividade de meio ou ainda da atividade de fim por parte do profissional da medicina. À luz do artigo 14 do mesmo diploma, assim preleciona: Artigo 14 – O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos. (...) § 4º A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) já pacificou entendimento no sentido de que a relação entre médico e paciente é contratual e a prestação de serviços se insere no conceito de obrigação de meio, salvo em casos de cirurgias plásticas de natureza exclusivamente estética, hipótese em que a obrigação é de resultado.49 8.6 Considerações Finais Sabemos que a vida é o maior e mais precioso bem, que comportando tanta força ao mesmo tempo torna-se frágil, por situações alheias às nossas vontades. E quando o ser humano se sente acometido dessa instabilidade de forças, é porque foi afetado de uma doença, necessitando da presença de um profissional da saúde, um médico, que, com todo o seu domínio de conhecimento, irá realizar o melhor procedimento ao paciente, passando a segurança e positividade de sua melhora, para a obtenção da cura. Por muitas vezes, o procedimento realizado surge no paciente o efeito contrário, não por culpa do que o profissional realizou, mas pela receptividade que o organismo do paciente veio a evoluir para o reverso, causando a iatrogenia. Da falta de conhecimento emanada do paciente que se entregou ao médico, na confiança pela cura, tendo como resultado o mau, não entende a real situação, e, transfere a responsabilidade única para o médico, pois no seu inconsciente encontra-se a afirmativa do mau procedimento realizado pelo profissional. 49 REsp. 819.008/PR. E, situações dessa natureza abarrotam os Tribunais de Justiça em um crescente número de processos decorrente de erros médicos, que muitas vezes perduram por anos, maculando a imagem do profissional, e quando do resultado final, é reconhecido como um mau procedimento e não erro médico, assim, não responsabilizando o médico pelo feito. Diante disso, é necessário evidenciar que o profissional da medicina se empenha no seu melhor, se doa o máximo para chegar ao objetivo de melhora, e, se possível à cura do paciente. Mas este profissional, também é sujeito a falhas, estas, não podendo ser em suma direcionadas para a judicialização, pois se assim for, a medicina passará a ser banalizada. Porém, contudo, ainda se ver muito presente, a relação existente entre médico paciente, a confiança, prevalecendo à respeitabilidade do profissional médico na aplicação do procedimento realizado, visto que o dever originário do médico é fazer tudo que tiver ao seu alcance em prol do melhor atendimento em benefício do seu paciente. 8.7 Referências 1. SIMONELLI Osvaldo, retirado Aula erro médico - GOMES, Júlio César Meireles. FRANÇA, Genival Veloso de. Iniciação à Bioética. Conselho Federal de Medicina. Parte VI Bioética clínica. Erro Médico. 1998. 2. RIPÚ, Jorge Alberto. Responsabilidad e Professional de los médicos. Buenos Aires: Lerner Editores Associados, 1981, p. 50-retirado da internet 3. DINIZ. Maria Helena, Curso de Direito Civil brasileiro. 26ª e. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 50. 4. GONÇALVES.Leciona Carlos Roberto. Responsabilidade Civil-2007, p 18. 5. MATIELO, Fabrício Zamprogna, 1998, p.15.Retirado da internet 6. CHACON, Fernando Rabelo, 209p.08 9. A IMPORTÂNCIA DO SIGILO PROFISSIONAL NA RELAÇÃO MÉDICO- PACIENTE Fabíola Boulhosa 9.1 Introdução Os médicos, desde a época hipocrática aprenderam não só os princípios da medicina, mas as relações pessoais adequadas, e que a preservação do sigilo sempre foi a melhor maneira de se manter uma boa relação com o paciente, tornando-se algo sagrado. 50 Portanto, o sigilo profissional representa um dos pilares da relação médico- paciente, estabelecendo entre as partes uma relação de confiança, passando o profissional a obter informações que devem ser mantidas em segredo, respeitando assim, a vontade do paciente em resguardá-lo. Ademais, o paciente quando procura o médico para relatar assuntos sobre exames clínicos, diagnósticos, relatar assuntos de sua vida privada, entende, que jamais haverá a quebra desse sigilo, criando ali, um elo de confiança, um acordo inicial tácito de que o profissional não abrirá mão de sua responsabilidade sobre o sigilo. Logo, o profissional no exercício da sua profissão deve manter o sigilo sobre qualquer informação obtida em atendimento junto ao seu paciente, sob pena de caracterizar infração ética ou responder criminalmente. Para o Ilustre autor Genival Veloso (p. 149), o objetivo do sigilo médico é estabelecer a confiança do paciente, cujas informações são fundamentais para assegurar um relacionamento tranquilo e um tratamento eficiente.51 Outrossim, importante ressaltar que a obrigação do sigilo é tão somente do médico assistente, como de todos os envolvidos no atendimento ao paciente, devendo as informações serem mantidas em segredo por todas as demais pessoas, como auxiliares e principalmente pelos estudantes de medicina. O Código de Ética Médica é a norma jurídica específica a ser consultada para tratar dos assuntos relacionados aos médicos, trazendo em seu Capítulo I, o princípio fundamental sobre o sigilo: 50 Hipócrates, para muitos conhecido como o” pai da Medicina”, nascido na Ilha grega de Cós, 460 e 377 a.c 51França, Genival Veloso de Direito médico/Genival Veloso de França. – 16.ed. -Rio de Janeiro: Forense, 2020. “XI - O médico guardará sigilo a respeito das informações de que detenha conhecimento no desempenho de suas funções, com exceção dos casos previstos em lei”. 52 Destarte, o Código prevê em seu Capítulo IX- Artigo 73, que trata do Sigilo Profissional e suas vedações: É vedado ao Médico: Art. 73. Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito do paciente. Parágrafo Único. Permanece essa proibição: a) mesmo que o fato seja de conhecimento público ou o paciente tenha falecido; b) quando de seu depoimento como testemunha (nessa hipótese, o médico comparecerá perante a autoridade e declarará seu impedimento; c) na investigação de suspeita de crime, o médico estará impedido de revelar segredo que possa expor o paciente a processo penal.(...) Nesse sentido, o Conselho Federal de Medicina publicou o Parecer CFM nº 5/2020, que reitera a garantia do sigilo das informações médicas, conforme ementa abaixo: EMENTA: Informações médicas são sigilosas e privativas do paciente, sendo que sua divulgação somente ocorre com seu consentimento formal, exceto em cumprimento de determinação judicial, quando, nesse caso, o sigilo ficará sob a guarda do Juízo solicitante. Importante ressaltar que, o referido documento foi aprovado pelo Plenário do CFM, em resposta à consulta feita pela Associação Médica Brasileira (AMB). Mencionando inclusive que a Constituição Federal em seu artigo 5º, tutela a 52 Código de Ética Médica: Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018/Conselho Federal de Medicina, 2019. intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas e protege o sigilo na relação médico/paciente. Neste mesmo diapasão, o renomado Miguel Kfouri Neto (p.249), mesmo que se extinga a relação médico- paciente, perdurará o dever do sigilo.53 9.2 Contudo, surge a pergunta: o sigilo profissional é absoluto? Em meio a tantos questionamentos a respeito, o que deve ser considerado é que o sigilo a priore, deve ser mantido em segredo, sendo, portanto, uma regra, mas que em determinadas situações pode ser relativizado. Dessa forma, o próprio Código de Ética Médica, menciona três hipóteses de excludentes em relação ao sigilo que podem ser revelados, são eles: Motivo justo, Dever legal e Consentimento, por escrito, do paciente. 9.2.1 Motivo Justo, quando o médico identificar de forma subjetiva em determinada situação, em que o interesse da coletividade se sobrepõe ao interesse individual. Portanto, o profissional deverá ponderar sobre o dano causado pela inviolabilidade do sigilo e o causado pela violação. Por exemplo: Paciente psiquiátrico que confidencia ao seu médico assistente a vontade de matar um de seus familiares e depois cometer o suicídio. 9.2.2 Dever legal quando houver notificação compulsória, por questões de saúde pública, de doenças transmissíveis. O médico deverá comunicar as autoridades competentes sob pena de responder por Crime Contra a Saúde Pública, previsto no artigo 269 do Código Penal.54 53 Kfouri Neto, Miguel. Responsabilidade civil do médico/Miguel Kfouri Neto.- 10. Ed.rev.,atual e ampl. -São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2019. 54BRASIL. Decreto-Lei nº 2848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Ressalta-se que o dever de notificação do médico restringe-se exclusivamente a comunicar tal fato à autoridade competente, sem a necessidade de divulgação dos dados pessoais dos pacientes nem o envio de seu prontuário. Por exemplo: Paciente que testou positivo para a COVID-19, que é uma doença de notificação compulsória, prevista pela Lei Federal nº 13.979/20 e Portaria nº 1.061/2020 do Ministério da Saúde, devendo os órgãos competentes serem notificados para fins estatísticos. 9.2.3 Consentimento, por escrito, do Paciente, conforme estabelecido, toda e qualquer informação relacionado ao paciente, só pode ser divulgada/ exposta com sua expressa autorização. Por exemplo: Quando o paciente estiver internado em hospital, o médico assistente só poderá divulgar sua condição de saúde, se houver autorização expressa do próprio paciente, (através do Termo de Consentimento Livre Esclarecido), ou de seu representante legal. Insta salientar que, médicos do trabalho que atendem em empresas ou instituições, também devem guardar sigilo sobre as informações coletas sobre os trabalhadores, salvo se essas informações colocarem em risco a saúde dos demais funcionários. Como por exemplo: Empregado que apresenta sintomas de Covid-19 dentro do ambiente de trabalho, o médico deverá comunicar ao setor competente para salvaguardar a saúde dos demais que lá permanecem, bem como a de todas as pessoas que possam se contaminar com o vírus, uma vez que sua taxa de transmissibilidade é extremamente alta. 9.3 Legislações Esparças e o dever de manutenção do sigilo A constituição Brasileira de 1988, prevê em seu em seu artigo 5º, que são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, em seu artigo XII, expõe: Ninguém será sujeito a interferência em sua vida privada, sua família, seu lar ou sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Todo homem tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.55 Já o Código Penal Brasileiro em seu artigo 154, qualifica como crime a violação do segredo profissional. Art. 154 - Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem. Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa. Por sua vez, o Código de Processo Penal em seu artigo 207, proíbe de depor as pessoas que em razão de sua função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar seu testemunho. Eis o que dispõe o Código Civil, em seu artigo 229: Ninguém pode ser obrigado a depor sobre fato: I – a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar segredo. Outrossim, o Art. 74 do Código de Ética Médica estabelece que, quando houver pacientes, criança ou adolescente, o médico deve manter o sigilo das informações obtidas em atendimento, desde que tenham capacidade de discernimento, salvo quando a não revelação possa acarretar dano ao paciente. Dessa maneira, o Estatuto da Criança e do Adolescente também menciona em seu Art. 245, que o médico deve comunicar à autoridade competente, os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus- tratos contra criança ou adolescente.56 55 Organização das Nações Unidas. [Internet]. Resolução 217 A (III). Declaração Universal de Direitos Humanos, 1948. [acesso 19.03.21]. Disponível: http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf 56 BRASIL. Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 16 jul. 1990. Imperioso destacar ainda que, de acordo com a Lei Federal nº 13.931/19, o médico tem o dever de quebrar o sigilo e comunicar (notificação compulsória) a violência doméstica à autoridade competente, sendo proibido a remessa do prontuário médico da paciente. 9.4 O sigilo profissional no direito português Além do estudo trazido pela escola hipocrática, o segredo na legislação Portuguesa foi ao longo do tempo se fortalecendo, seus primeiros registros foram no Direito Penal, que punia a violação do segredo profissional e se expandiu para as demais esferas do Direito. O juramento de Hipócrates proclamou explicitamente o segredo médico pela primeira vez, sendo inicialmente visto como uma obrigação moral, algo sagrado e absoluto e sem qualquer base legal.57 Em vista disso, o segredo médico hoje é um dos direitos fundamentais do paciente também no direito Português, bem como o direito a proteção a seus dados pessoais. Portanto, são direitos que se aproximam pelas semelhanças, o direito do paciente à confidência, isto é, à preservação sigilosa, constitui um dos pilares de sustentação da profissão médica e é assegurado pela Constituição da República Portuguesa (CRP) (artigo 26.º, n.º 1, in fine, e n.º 2 da CRP).58 Importante mencionar que, em Portugal existem legislações e Cartas específicas voltadas para a saúde, como a Lei de Base para a Saúde59 e a Carta dos Direitos Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8069.htm#art266>. Acesso em: 16 dez. 2018. 57 Ribeiro, Natacha PadrãoRibeiro. (2015). Limites do dever de segredo médico e a permissão para a violação desse segredo. https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/18634/1/DISSERTACAO_NATACHA_RIBEIRO 58 A Constituição da República Portuguesa tem a data da sua aprovação pela Assembleia Constituinte, 2 de Abril de 1976. 59 Lei n.º 48/90, de 24 de agosto. e deveres dos Doentes60, trazendo um rigoroso respeito à confidencialidade sobre toda a informação clínica e elementos que identifiquem cada paciente. Neste sentido foi emitido regulamento pelo Estatuto da Ordem dos Médicos (Portugal): Regulamento n.º 228/2019 Regulamento de Dispensa de Segredo Profissional Publicação: Diário da República n.º 53/2019, Série II de 2019-03-15 Emissor: Ordem dos Médicos. O sigilo médico representa, pois, um importantíssimo direito do doente e uma obrigação ética e deontológica do médico estando consagrado no artigo 139.º do Estatuto da Ordem dos Médicos (EOM) na versão aprovada pela Lei n.º 117/2015, de 31 de agosto e nos artigos 29.º a 38.º do Código Deontológico da Ordem dos Médicos (CDOM), aprovado pelo Regulamento 707/2016, publicado no DR, 2.ª série, de 21 de julho de 2016). 6 de fevereiro de 2019. - O Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães.61 Dessa maneira, embora haja muitas legislações que amparem o sigilo profissional, no direito português não é diferente, podendo também ser relativizado quando houver justificativa que afaste a ilicitude da violação do segredo. Portanto, assim como na legislação brasileira, o sigilo também não é absoluto. 9.5 Considerações Finais Nesse contexto, conforme linhas volvidas, observa-se uma grande variedade de leis e normativas, tanto nacionais quanto internacionais que amparam a manutenção do sigilo na relação médico-paciente, podendo o médico vir a responder tanto nas esferas, administrativas, criminais ou cíveis. 60 Direção-Geral da Saúde: Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes, Lisboa, 1998 61 Segunda alteração ao Estatuto da Ordem dos Médicos, conformando -o com a Lei n.º 2/2013, de 10 de janeiro, que estabelece o regime jurídico de criação, organização e funcionamento das associações públicas profissionais, revogando o Decreto -Lei n.º 217/94, de 20 de agosto. Logo, quando o doente procura um profissional da saúde, sendo em clínica particular ou em hospital público, confia que seu segredo estará em sigilo, surgindo a responsabilidade em manter tais informações em confidência. Caso haja desconfiança por parte do enfermo, sua relação estará comprometida, podendo omitir fatos que prejudicará o tratamento de sua saúde. Embora o dever de sigilo seja quebrado em algumas circunstâncias, tanto no direito brasileiro quanto no direito português, demonstrando não ser absoluto, deve-se mantê-lo sob a ótica da excepcionalidade. Assim, não há dúvidas de que a conservação do sigilo profissional é fundamental para manter a confiança depositada na relação médico-paciente e que somente o paciente exercendo a sua autonomia, decide a quem revelá-lo, sendo o médico, mero e fiel guardião de suas confidências/segredos por força da profissão. 9.6 Referências 1. França, Genival Veloso de Direito médico/Genival Veloso de França. – 16.ed. -Rio de Janeiro: Forense, 2020. 2. Código de Ética Médica: Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018/Conselho Federal de Medicina, 2019. 3. BRASIL. Decreto-Lei nº 2848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. 4. Constituição da República Federativa do Brasil: texto constitucional promulgado em 5 de outubro de 1988, com as alterações determinadas pelas Emendas Constitucionais de Revisão nos 1 a 6/94, pelas Emendas Constitucionais nos 1/92 a 91/2016 e pelo Decreto Legislativo no 186/2008. – Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2016. 5. BRASIL. Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 16 jul. 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8069.htm#art266>. Acesso em: 16 dez. 2018. 6. Organização das Nações Unidas. [Internet]. Resolução 217 A (III). Declaração Universal de Direitos Humanos, 1948. [acesso 19.03.21]. Disponível: http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf 7. BRASIL. Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 16 jul. 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8069.htm#art266>. Acesso em: 16 dez. 2018. 8. Ribeiro, Natacha Padrão Ribeiro. (2015). Limites do dever de segredo médico e a permissão para a violação desse segredo. https://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/18634/1/DISSERTACAO_NATAC HA_RIBEIRO 9. A Constituição da República Portuguesa tem a data da sua aprovação pela Assembleia Constituinte, 2 de abril de 1976. 10. Lei n.º 48/90, de 24 de agosto. 11. Direção-Geral da Saúde: Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes, Lisboa, 1998 12. Segunda alteração ao Estatuto da Ordem dos Médicos, conformando -o com a Lei n.º 2/2013, de 10 de janeiro, que estabelece o regime jurídico de criação, organização e funcionamento das associações públicas profissionais, revogando o Decreto -Lei n.º 217/94, de 20 de agosto. http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf 10. A RECUSA TERAPÊUTICA NOS TRATAMENTOS DA COVID19 E A AUTONOMIA MÉDICA DIANTE DO LEITO: “A ESCOLHA DE SOFIA” Verônica Ahmar 10.1 Introdução No filme “A escolha de Sofia”, de 1982, dirigido por Alan J. Pakula, a partir do romance de William Styron, conta a história dramática de uma mãe, Sofia, uma polonesa que, sob acusação de contrabando, é presa com seus dois filhos pequenos, um menino e uma menina, no campo de concentração de Auschwitz durante a II Guerra. Um sádico oficial nazista dá a ela a opção de salvar apenas uma das crianças da execução, ou ambas morrerão, obrigando-a à terrível decisão.Assim, a expressão “Escolha de Sofia”, traduz de forma metafórica, a difícil decisão que muitos profissionais da saúde estão vivendo desde o início da pandemia de Covid19. O vírus da Covid19 alastrou-se pelo Brasil e pelo mundo, trazendo junto com seus sintomas devastadores para a saúde e para a sociedade, enquanto economia, política e educação, muitas questões polêmicas e divergentes para o Direito da Saúde, como exemplo de reflexão, o direito do paciente à recusa de tratamento terapêutico e a autonomia médica, são algumas das muitas dissidências nesse contexto. 10.2 A autonomia médica x a recusa do tratamento pelo paciente Os profissionais da saúde recebem desde a vida acadêmica, orientação para cuidar e salvar vidas, e por conta da pandemia que assola o mundo todo, estão trabalhando sobrecarregados, tendo em vista o número catastrófico de vítimas do vírus e a falta de recursos para combater a doença. De forma incansável, estão vivendo um drama de desempenhar suas funções e fazer escolhas, sim, escolhas de reservar recursos àqueles que têm mais chance de sobreviver, essa chance de continuar a viver ou morrer dizemos, “escolha de Sofia”. Sabemos que a saúde pública é um bem tutelado como um dos princípios constitucionais, e como ensina a professora Susana Aires de Sousa, da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, (Sousa, 2020) “A saúde pública é, assim, um interesse coletivo, digno de proteção jurídica. Esta proteção serve antecipadamente a tutela de interesses individuais como a vida ou a integridade física, mas não se esgota ou sequer se confunde com esses interesses individuais. A ameaça à saúde pública ultrapassa o perigo para as saúdes individuais, afetando as condições de subsistênciada própria comunidade. É a própria vivência comunitária que se altera (na sua qualidade) ou que é colocada em perigo, ganhando valor próprio e autônomo.” Preliminarmente, é cabível uma definição jurídica do que seja autonomia da vontade, por isso, demonstra-se esta através do seu significado, no sentido morfológico, no qual concerne como sendo o direito pertencente ao sujeito humano de gerir-se segundo suas leis particulares, ou seja, a autonomia privada implica basicamente na vontade própria do indivíduo em realizar aquilo que lhe convém, de acordo com suas ideologias. O ato de respeito ao ser com autonomia, indica o acatamento da diversificação social, cada indivíduo é um ser detentor de suas peculiaridades, das suas decisões. (FORTES,2019). Gradativamente, a medicina foi se desvencilhando de uma ética clássica, afastando de si, o seu paternalismo. Contudo, a relação médico-paciente foi se modificando e, aos poucos, ambos conseguiram uma maior participação adentro deste vínculo. Contudo, apesar de uma crescente equiparação entre ambas as partes dessa relação, é certeiro afirmar a impossível existência de uma eventual simetria entre estas. Notamos esse fato, como causa de um desequilíbrio entre o conhecimento detido pelos dois indivíduos e pela presença da vulnerabilidade de um deles, tanto pela falta de conhecimento específico pelo paciente, tanto pela envolvência do futuro da saúde deste, e, consequentemente, da sua vida. O médico detém total conhecimento sobre aquilo que versa, já o paciente, este se faz hipossuficiente técnico no vínculo, salvo se este for também um profissional médico, ou seja, esta desigualdade origina uma vulnerabilidade ao paciente, criando um sentimento para este ainda mais de fragilidade perante tal situação. 10.3 A resolução CFM nº 2232/19 e os casos de COVID19 A resolução do Conselho Federal de Medicina nº 2232/2019 foi constituída baseando-se, justamente, nos casos do direito de recusa a tratamento médico, juntamente com o fortalecimento dos direitos e deveres do profissional médico e do paciente. Em seu artigo 2º, a resolução dispõe que aquele paciente que for maior de idade, detentor de capacidade e lucidez, for orientado e consciente em plena decisão terá assegurado o seu direito de recusa a tratamento terapêutico. Neste caso, para que o direito, em tema, seja exercido, os requisitos mencionados devem ser respeitados e correspondidos com cada indivíduo. (RESOLUÇÃO Nº 2232, 2019). Para o médico, a resolução o beneficia, no seu artigo 7º, quando deparado com uma situação de recusa, pois este poderá se abster do atendimento, exercendo o seu direito de objeção de consciência. Tal previsão também se faz positivada no código de ética médica, o qual diz que o profissional médico não é obrigado a qualquer conduta diversa da sua vontade, mesmo sendo essa permitida por lei. (CÓDIGO DE ÉTICA MÉDICA, 2019). Ainda, em contrapartida, justamente para salvaguardar a autonomia do paciente, no sentido de vedar ao médico à prática de ações desrespeitosas ao consentimento livre e esclarecido, no artigo 31 estabelece, em outras palavras, que o médico deve garantir ao paciente ou a seu representante legal, o direito de "decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente risco de morte." Contudo, na resolução do CFM, fica bem claro quanto às exceções na aceitação da recusa terapêutica, onde discrimina que apenas nos casos de abuso de direito, onde a recusa do tratamento prejudique terceiros, assim como no caso da recusa de tratamento destinado à uma doença a qual possua natureza de transmissibilidade a outrem, ou qualquer outra circunstância que venha a expor a população a qualquer risco. (RESOLUÇÃO nº2232, 2019). Com isso, tal ato normativo trouxe um fortalecimento aos casos onde há o risco de vida junto à uma recusa terapêutica, atualmente, estamos nos deparando com uma pandemia que está devastando o mundo todo, isso já há um ano. A Covid19 é um exemplo atual de exceção à regra, verificamos isso quando a resolução diz que em situações onde haja urgência e emergência e tal contexto ocasione um iminente risco de vida, o médico está autorizado a seguir todos os procedimentos e medidas fundamentais, a fim de conservar a vida do paciente, mesmo havendo a recusa terapêutica. O paciente com doença infectocontagiosa que se recusa a tratamento considerado eficaz cientificamente, em tese, estaria agindo ilicitamente, de acordo com a previsão do art. 268, do Código Penal, em virtude do extrapolamento do seu direito à liberdade (abuso de direito) por colocar em ameaça bens jurídicos de terceiros e da coletividade, como a vida e a saúde, o que também se alinha com a conjugação dos incisos I e II, § 1º , do artigo 5º, da resolução 2.239 do CFM. Polêmico e cheios de caminhos tortuosos, pois embora seja possível o tratamento compulsório em alguns casos, temos que em pacientes com covid- 19, essa possibilidade, por enquanto, não tem escora jurídica, haja vista ainda não existir terapia eficaz para a cura desta enfermidade. A propósito, o parágrafo primeiro do art. 3º da lei 13.979/20 (que dispõe sobre as medidas para enfrentamento do novo Coronavírus), estabelece que medidas coercitivas, como o tratamento compulsório, apenas poderão ser adotadas "com base em evidências científicas e em análises sobre as informações estratégicas em saúde e deverão ser limitadas no tempo e no espaço ao mínimo indispensável à promoção e à preservação da saúde pública.". Ainda, contudo, prevalece a autonomia decisória do paciente, que é uma das maiores expressões da liberdade humana, e pelo médico a aplicação do princípio hipocrático primum non nocere (primeiro não prejudicar), cuja finalidade é reduzir os efeitos adversos ou indesejáveis das ações diagnósticas e terapêuticas no ser humano. Registre-se, ainda, que esse direito à recusa aos tratamentos da covid-19 deve ser estendido ao paciente inconsciente (que assim se manifestou quando tinha https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/lei/L13979compilado.htm discernimento). Desse modo, havendo recusa expressa, e cumpridos os seus aspectos formais e materiais de validade, deve o médico acatá-la. 10.4 COVID 19: A escolha de Sofia Vamos destacar que a Constituição Federal alicerçada no princípio da Igualdade, veda qualquer tipo de discriminação como se extrai da leitura do artigo 3◦, IV e 5◦, CF: Art. 3. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: IV- Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Artigo 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes. Por vezes, tudo se torna tão controverso, trazendo isso para o mundo jurídico e para o campo da bioética, a “escolha de Sofia” quer dizer ‘escolhas difíceis’ e na prática isso significa fazer “escolhas trágicas” de acordo com a chance de sucesso de tratamento de cada paciente, considerando a idade do paciente, doenças preexistentes, a gravidade do seu estado e a possibilidade de reverter esse quadro. Apesar de ser reputada como uma decisão drástica e excepcional é uma deliberação que perpassa pelo crivo racional, já que a situação levada ao extremo (completa saturação dos recursos na UTI) cria um “gargalo” no atendimento à população a ser superado. Caso se opte tratar o paciente ‘errado’, se usará muito tempo e recursos finitos com alguém que não se recuperará e será salvo, deixando de atender duas ou três outras pessoas com maiores chances de cura, que podem falecer em razão da opção feitae inviável sob a ótica médica. Dentro da “escolha de Sofia”, o dilema surge: seria legal optar pelo tratamento do paciente que tenha maior chance de recuperação em detrimento daquele com maior probabilidade de óbito? Não é difícil observar situação semelhante no contexto vivenciado pela pandemia do coronavírus. Por mais cruel e difícil que pareça, quando há um grande número de pacientes necessitando de um mesmo tipo de tratamento, como estamos vivendo agora com a pandemia, muitos precisando de leitos de UTI, respiradores, e se houver uma pessoa internada que não responda positivamente a nenhum tratamento disponível, a decisão de colocá-lo, sob cuidados paliativos como medida digna, não poderá ser adiada, novamente citamos “a escolha de Sofia”. O Professor André Gonçalo Dias Pereira, em sua tese de Doutorado pela Universidade de Coimbra ressalta, (PEREIRA, 2012, p 22.) “Por outro lado, a prática da medicina realiza-se, cada vez mais, em ambiente complexo e anônimo. O médico tem uma dupla lealdade a satisfazer: de um lado o paciente e as suas necessidades concretas, do outro a sociedade e a exigência de não abusar dos meios disponíveis – o que na bioética se chama o princípio da justiça.” Com isso, se faz necessário falarmos sobre os tratamentos paliativos, e recebemos como norma da Organização Mundial da Saúde, a seguinte definição (2002): “A assistência promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhora da qualidade de vida do paciente e de seus familiares diante de uma doença que ameace a vida, por meio de prevenção e do alívio do sofrimento, da identificação precoce, avaliação impecável e tratamento de dor e demais sintomas físicos, sociais, psicológicos e espirituais”. Nos Cuidados Paliativos preconiza-se o Princípio da Autonomia, que nada mais é, que um exercício de autoconhecimento, exposição de prioridades e desejos de vida digna. Cabe a cada indivíduo escolher como deseja viver os últimos momentos de vida. Nesse entrave, a conduta médica encontra amparo no Art. XXII dos Princípios Fundamentais do Código de Ética Médica que prevê: “Nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção, todos os cuidados paliativos apropriados” No que diz respeito aos cuidados paliativos e extubação paliativa (retirada do tubo orotraqueal, que tem o propósito de evitar o prolongamento do processo de morte do enfermo e aliviar o sofrimento de todos os envolvidos),observa-se o princípio da autonomia do paciente, acolhido pela bioética, e no entendimento do CFM, a recusa terapêutica por pacientes deve ser respeitada pelo médico, desde que ele informe ao paciente os riscos e as consequências previsíveis da sua decisão, podendo propor outro tratamento disponível. Quanto às medidas adotadas no controle da Covid-19, os cuidados paliativos são utilizados para o alívio da dor e dos sintomas de desconforto respiratório, quando já esgotadas todas as opções terapêuticas disponíveis no tratamento da COVID-19. Destacamos, portanto, que a extubação de pacientes acometidos por Covid-19 não se confunde com extubação paliativa. Pacientes acometidos por Covid-19, apresentam insuficiência respiratória aguda/grave, e sua extubação pode vir a ocorrer, nos casos em que, o paciente não apresente resposta ao tratamento proposto. Já a extubação paliativa, consiste na retirada do respirador artificial de pacientes que apresentam quadro clínico irreversível, cujo objetivo, é deixar que uma doença crônica tenha sua evolução natural, com controle adequado de eventual quadro de dor e ou desconforto respiratório, concedendo ao doente, uma morte digna. No atual contexto de emergência sanitária, a “escolha” de qual paciente terá direito a um respirador/suporte avançado de vida em UTI é reflexo de estrutura em saúde pública deficitária e despreparada para enfrentar uma pandemia de proporção mundial. 10.5 Considerações Finais O momento exige reflexão e união dos profissionais da saúde, compreensão e disciplina da sociedade, afinal, é nos momentos difíceis que encontramos forças para nos reinventar e seguir em frente. É sabido, que assim que uma doença nova é descoberta, é iniciado o processo de pesquisas para a sua cura, mas, considerando a evolução rápida da COVID- 19, esses estudos e pesquisas estão sendo realizados concomitantemente às novas contaminações. Esse fato gera mais urgência no que tange à descoberta de tratamentos eficazes, o que faz com que os resultados das pesquisas sejam divulgados assim que possível, muitas vezes sem a quantidade de testes que necessariamente são realizados em se tratando de doenças habituais. Respeito à autonomia do médico e do paciente, cada uma com seus limites, informação detalhada e registrada, levando-se em conta a importância do prontuário bem como atualização científica do profissional, são os pilares de uma relação médico-paciente de sucesso, seja dentro ou fora do contexto atual de pandemia. Os riscos para o médico, quando esses princípios são observados, não desaparecem, mas também não assombram. O tema nos sugere ainda mais, e sem a finalidade de esgotá-lo por agora, faz- se necessário frisar que a liberdade de recusa a tratamentos médicos não consolidados pela ciência, para critério de saúde pública, não oferece ao paciente diagnosticado com covid-19 o direito de infringir medidas não farmacológicas, como as medidas de isolamento, e as outras normas de condutas sanitárias impostas, ainda que estas mitiguem a sua liberdade de locomoção. Neste cenário, o importante é o dever de cumpri-las, por se fazer imperiosa a necessidade de contenção de disseminação do vírus e o risco de contaminação a terceiros, que resultará, na proteção da saúde da coletividade. 10.6 Referências 1 BRASIL. Resolução CFM nº 2232, de 16 de Setembro de 2019. Conselho Federal de Medicina, Brasília, DF, Seção I, p.113-4. 2 BRASIL. Constituição (1998). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 3 MARTINS, Ana Beatriz Nieto; DANTAS, Erika Evangelista. Autonomia do médico e protocolos de tratamento da covid-19. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 25, n. 6222, 14 jul. 2020. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/83719. Acesso em: 5 abr. 2021. 4 VILLAFRANCA, R.C. et al. Paternalismo Médico. Disponível em: <scielo.sld.cu/scielo.php?pid=S1684- 18242013000200006&script=sci_arttext&tlng=pt>. 5 DALDATO, Luciana Pimentel. Indignos, mas imortais: uma breve análise da resolução CFM 2232/2019. Disponível em: https://testamentovital.com.br/blog/indignos-mas-imortaisuma-breve-analise-da- resolucao-cfm-2232-2019-sob-o-prisma-do-fim-de-vida. 6 BRASIL. Código de Ética Médica. Resolução CFM nº 2217, de 27 de Setembro de 2018. 7 BRASIL. Código Penal. Lei nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940. 8 FRANÇA, Genival Veloso da. Direito médico. 12ª ed. rev. atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense, 2014. 9 Minossi JG. O consentimento informado. Qual o seu real valor na prática médica? Rev Col Bras Cir. 2011;83(3):198-201. 10 SOUSA, Susana Aires de. Saúde pública, direito penal e “abate clandestino”. Disponível em: https://www.uc.pt/covid19/article?key=a-6eb8a5985f. Acesso em: 05 abr. 2021. 11 PEREIRA, André Gonçalo Dias. Direitos dos Pacientes e Responsabilidade Médica. Disponível em: 12 https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31524/1/Direitos%20dos%20pacie ntes%20e%20responsabilidade%20m%c3%a9dica.pdf. Acesso em: 05 abr. 2021. https://jus.com.br/artigos/83719/autonomia-do-medico-e-protocolos-de-tratamento-da-covid-19 https://jus.com.br/artigos/83719/autonomia-do-medico-e-protocolos-de-tratamento-da-covid-19 https://jus.com.br/revista/edicoes/2020 https://jus.com.br/revista/edicoes/2020/7/14https://jus.com.br/revista/edicoes/2020/7/14 https://jus.com.br/revista/edicoes/2020/7 https://jus.com.br/revista/edicoes/2020 https://www.uc.pt/covid19/article?key=a-6eb8a5985f https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31524/1/Direitos%20dos%20pacientes%20e%20responsabilidade%20m%c3%a9dica.pdf https://estudogeral.sib.uc.pt/bitstream/10316/31524/1/Direitos%20dos%20pacientes%20e%20responsabilidade%20m%c3%a9dica.pdf