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Antropologia Médica no Brasil

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ANTROPOLOGIA MÉDICA NO BRASIL – EVOLUÇÃO 
No Brasil, o início da prática médica esteve atrelado a crenças e rituais populares, sobretudo devido à 
miscigenação de diferentes povos. Porém, com o avanço da medicina científica, houve um abandono expressivo dessas 
práticas populares e, com o passar do tempo, os médicos e cientistas substituíram os pajés, curandeiros, homeopatas 
e afins. Porém, ainda hoje, um número expressivo de pessoas ainda acredita em práticas populares. 
Dessa forma, ainda que a atuação médica e todas as condutas devam ser pautadas em uma concepção 
científica comprovada, sob um viés médico antropológico, tratando-se de um país com uma cultura tão pluralista, é 
preciso respeito à manifestação e condição cultural de cada um para que, em vez de tratar somente a doença em 
específico, o contexto cultural de cada um seja respeitado. 
Nos últimos 20 anos, no Brasil, a antropologia médica vem consolidando um espaço para reflexão, 
principalmente devido ao aumento do número de estudos voltados à saúde, à cultura e à sociedade. Nesse sentido, 
na aplicação clínica dessa vertente antropológica, muitos profissionais passaram a tratar o paciente considerando o 
viés científico comprovado, mas tendo concepções não preconceituosas em relação às práticas de cura popular – caso 
não sejam maléficas – dirigindo-se de modo mais empático às famílias e levando em conta que a saúde não 
compreende tratar apenas um defeito específico do organismo, sendo, na verdade, um sistema social e cultural. 
Por exemplo, no Tapajós, há comunidades ribeirinhas que acreditam que a saúde-doença está relacionada ao 
“assombro de olhada de bicho”, ou seja, um “bicho” causa as condições de doenças nas pessoas. Os médicos, diante 
disso, trabalhando com uma metodologia de antropologia médica clinicamente aplicada, trabalham o problema de 
cada um desses pacientes valendo da ciência, mas sempre respeitando a vivência cultural do paciente, que se sente, 
dessa forma, mais confortável e aceita o tratamento médico, desde que continue acreditando que foi afligido por um 
“assombro”, o que não acarreta quaisquer prejuízos a sua saúde. 
Ademais, o Brasil foi um país formado com bases em perpetuação da pobreza de populações negligenciadas e 
segregação socioeconômica e espacial. Diante disso, sempre é preciso entender o contexto social e cultural em que o 
doente está inserido, para tratá-lo considerando um amplo espectro e diversos fatores, e não apenas o que está com 
defeito, como prioriza o modelo biomédico. 
TÓPICOS 
• Evolução da prática médica no Brasil 
• Cultura pluralista 
• Avanço da Antropologia Médica 
• Caso das comunidades ribeirinhas no Tapajós 
• Perpetuação da pobreza e da desigualdade social 
 
Fonte: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912012000200003 
 
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912012000200003
ANTROPOLOGIA MÉDICA CLINICAMENTE APLICADA NO BRASIL 
Observando as estatísticas, algumas doenças acometem de modo muito mais significativo pessoas 
socioeconomicamente desfavorecidas que vivem em regiões de pobreza extrema. Essas doenças passaram a ser 
chamadas devido a isso de “doenças de extrema pobreza” pelo governo, sendo as principais: tuberculose, hanseníase, 
esquistossomose, malária, helmintíase (causada por vermes, como a tênia) e tracoma (infecção bacteriana no olho). 
Essas doenças, portanto, estão relacionadas sobretudo à condição de pobreza e ignorância, tornando-se, 
então, além de patologias, questões sociais e culturais. Diante disso, uma das formas de combate foi a criação do 
programa “Brasil sem Miséria”, que visa, de forma geral, findar com a pobreza extrema no país e, especificamente na 
saúde, combater as citadas doenças atreladas à pobreza extrema. 
Dessa forma, o programa “Brasil sem Miséria” constitui uma forma de antropologia médica clinicamente 
aplicada, porque, em vez de tratar essas doenças como patologias que afetam estritamente o mecanismo biológico 
dos organismos, elas são trabalhadas de modo amplo, sendo notadas de modo exponencialmente maior em 
populações negligenciadas, que vivem em regiões com condições insalubres e ausência de saneamento básico e 
contaminação da água, por vezes não tem conhecimento para entender a doença, dependem do sistema público e 
tem difícil acesso ao tratamento. 
Assim, há consideração de todo o fenômeno antropológico por trás da doença para que ela não seja combatida 
apenas depois de acometer o doente, e sim haja uma busca para eliminar seus fatores causadores, pois de nada 
adianta tratar se o paciente prosseguirá exposto. Portanto, há uma busca pela mitigação dessas doenças com um 
planejamento que não é estritamente baseado em aspectos médicos, mas que também envolva a comunidade, 
considerando seu contexto e estimulando sua participação. 
Como exemplo de como a situação socioeconômica é impactante em contextos patológicos, a COVID-19 é 
mais letal em regiões de periferia no Brasil. Cada vez mais que a doença avança, os mais castigados são aqueles 
incluídos na população que historicamente sofre com desigualdade social, não conta com saneamento básico e é 
completamente dependente do sistema público. 
Considerando as estatística de São Paulo para exemplificação, tem-se: 
 
 
 
 Observando os dados, nota-se que os recordes de mortalidade estão em distritos com grande proporção de 
domicílios em favelas e baixa taxa de emprego informal, como Parelheiros, Campo Limpo e Brasilândia. Por outro lado, 
em bairros nobres, como a Vila Mariana, a taxa de mortalidade é mínima em comparação relativa. Além disso, os 
números mostram que a pandemia mata mais pretos e pardos. Isso ocorre porque essa população é historicamente 
excluída, tendo de enfrentar maiores barreiras, o que é comprovado quando se observa que a maior parte de 
população periférica e carcerária é preta e parda. Além disso, segundo o IBGE, o rendimento médio mensal das pessoas 
brancas que têm ocupação é 73,9% superior ao de pessoas pretas ou pardas. 
Então, mais uma vez, não se deve apenas considerar o prejuízo à maquinaria do organismo que a doença 
causa, mas também o contexto sociocultural do indivíduo acometido para, além de tratar a infecção, tentar minimizar, 
também, chagas sociais que facilitam a propagação da doença, que impedem o tratamento efetivo dela e que causam 
maior mortalidade nas populações em situação de pobreza. 
Um exemplo dessa atuação, que compreende também uma prática de antropologia clinicamente aplicada, é 
realizada pela ONG Instituto Estáter, que envolve diversos especialistas e lideranças comunitárias, e estão levando 
oxímetros a favelas do Rio de Janeiro e São Paulo. A premissa do grupo é que essas pessoas dificilmente tem acesso a 
um atendimento de qualidade e não tem conhecimentos acerca da doença. Assim, embora o vírus seja o mesmo para 
todos, a forma como as pessoas podem lidar com ele é totalmente dependente do seu contexto. Diante disso, muitas 
pessoas que viviam nas favelas morriam sem sequer chegar ao hospital devido à hipóxia silenciosa, pois a baixa 
oxigenação passava como um sintoma não percebido, sobretudo devido à falta de instrução. Diante disso, 
considerando a situação de uma população que nunca teria acesso a um oxímetro e poderia morrer em casa, com o 
aparelho, podem realizar a medição do oxigênio e, devidamente instruídos, poderão evitar o agravamento silencioso 
da doença, o que resultaria em menor taxa de mortes. 
TÓPICOS: 
• Doenças de pobreza extrema 
• “Brasil sem Miséria” e a antropologia clinicamente aplicada 
• O fenômeno antropológico por trás das doenças de populações negligenciadas 
• Exemplo: a COVID-19 
• Comparação entre bairros e entre etnias 
• Viés da COVID-19 além de uma visão biomédica 
• ONG Instituto Estáter – Oxímetro às favelas 
 
Fontes: https://oglobo.globo.com/sociedade/covid-19-mais-letal-em-regioes-de-periferia-no-brasil-1-24407520

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