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1 2 https://bit.ly/326q8yR https://cursosonline.valecup.com.br/cursoss https://bit.ly/326q8yR 3 Agradecimentos Juntos, expressamos nossa gratidão aos mais de 3 milhões de professores e professoras do nosso país. Essa apostila é dedicada aos verdadeiros heróis e heroínas que atuam todos os dias mudando as gerações e transformando o Brasil. Vocês são nossos maiores Mestres. E é por cada um de vocês que sempre nos dedicamos a aprimorar nosso trabalho! “Não temos que ser perfeitos hoje. Não temos de ser melhores do que outra pessoa. Tudo o que precisamos fazer é ser o melhor que pudermos.” Joseph B. Wirthlin Podemos mudar a educação do nosso país se dermos o primeiro passo, transformando um coração, um aluno de cada vez! Bons Estudos! 4 Sumário Agradecimentos.................................................................................................................................. 3 Módulo 01 ........................................................................................................................................... 6 Conceitos e Aplicações da Deficiência Múltipla ...........................................................................................6 Módulo 02 ......................................................................................................................................... 10 As Necessidades e Possibilidades das Crianças com Deficiência Múltipla ..............................................10 Desbravando Novos Caminhos ....................................................................................................................11 Quebrando Paradigmas ................................................................................................................................12 Uma História Excepcional ............................................................................................................................13 Módulo 03 ......................................................................................................................................... 16 O Processo de Ensino-Aprendizagem dos Alunos com Deficiência Múltipla ........................................16 Os tipos de Deficiência Múltipla ..................................................................................................................19 Causas da Deficiência Múltipla ....................................................................................................................20 Módulo 04 ......................................................................................................................................... 22 A Importância da Interação e Comunicação na Educação e Inclusão de Crianças com Deficiência Múl- tipla ..................................................................................................................................................................22 As Necessidades Educacionais .....................................................................................................................24 Estrutura da Proposta Pedagógica ...............................................................................................................26 Módulo 05 ......................................................................................................................................... 28 A Escola Inclusiva Na Prática .......................................................................................................................28 Módulo 06 ......................................................................................................................................... 37 Atividades Secundárias Alternativas ...........................................................................................................37 Comunicação Alternativa .............................................................................................................................37 Tecnologias e Computação ...........................................................................................................................38 Módulo 07 ......................................................................................................................................... 40 O Papel do Professor na Educação Infantil .................................................................................................40 Programas Especiais de Acessibilidade .......................................................................................................41 5 Módulo 08 ......................................................................................................................................... 43 Considerações Finais .....................................................................................................................................43 ANEXO I .......................................................................................................................................... 44 Deficiência Múltipla, sistemas de apoio e processos de escolarização .....................................................44 Resumo ...........................................................................................................................................................44 Introdução ......................................................................................................................................................44 Considerações Metodológicas ......................................................................................................................48 Caminhos e Possibilidades de Escolarização ..............................................................................................49 Quem Somos .................................................................................................................................... 60 Referências ......................................................................................................................................................61 6 Módulo 01 Conceitos e Aplicações da Deficiência Múltipla O termo deficiência múltipla tem sido utilizado, com freqüência, para caracte- rizar o conjunto de duas ou mais deficiências associadas, de ordem física, sensorial, mental, emocional ou de comportamento social. No entanto, não é o somatório dessas alterações que caracterizam a múltipla deficiência, mas sim o nível de desenvolvimento, as possibilidades fun- cionais, de comunicação, interação social e de aprendizagem que determinam as necessidades educacionais dessas pessoas. O desempenho e as competências dessas crianças são heterogêneos e variáveis. Alunos, com níveis funcionais básicos e possibilidades de adaptação ao meio podem e devem ser educados em classe comum, mediante a necessária adaptação e suplementação curricular. Outros, entretanto, com mais dificuldades, poderão necessitar de processos especiais de ensino, apoios intensos, contínuos e currículo alternativo que correspondam às suas necessidades na classe comum. Observa-se maior resistência para inclusão em escolas e instituições que ainda se apóiam no modelo médico da deficiência, em técnicas de reeducação, educação compensatória ou de prontidão para inclusão. O conceito de necessidade educacional especial vem romper com essa visão reducionista de educação especial centrada no déficit, na limitação, na impos- sibilidade do sujeito de interagir, agir e aprender com os demais alunos em ambientes o menos restritivos possíveis. O enfoque da proposta inclusiva é sociológico e relacional. O eixo téorico-me- todológico da abordagem sociológica em educação é explicitado por Becker: “Quando você pensa na sociedade como ação coletiva sabe que qualquer conversa sobre estruturas ou fatores acaba por se referir a alguma noção de pessoas que fazem coisas juntas, que é o que a sociologia estuda.” (Becker, 1977, p.10) Nessa perspectiva, as questões de desvio,estereótipos e precon- ceitos, comportamentos, atitudes e expectativas são analisadas no contexto da totalidade de vida, na qual os participantes alunos, pais, professores e comunidade escolar estão envolvidos mutuamente num sistema relacional mais amplo. 7 Torna-se importante, então, perguntar-nos: qual a qualidade dessa interação? Quais as expectativas dessas pessoas? Quais as necessidades dos participantes? Quais as difi- culdades que interferem nesse processo de relação e interação? E na prática pedagógica? No projeto educativo para inclusão de crianças com dificuldades acentuadas na educação infantil, a relação interação-comunicação, construída de forma positiva, é essencial. Entretanto, as ne- cessidades vão além das atitudes positivas e práticas sociais não discriminatórias. Dependem essencialmente das oportunidades de experiências, de aprendizagem , e principalmente da modificação do meio e das estratégias para que possam ter êxito na escola e comunidade. O avanço no processo de desenvolvimento e aprendizagem das crianças com deficiência múltipla compreende uma ação coletiva maior, intersetorialidade e responsabilida- de social compartilhada. Requer colaboração entre educação, saúde e assistência social: ação complementar dos profissionais nas diferentes áreas do conhecimento(neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia escolar) quando necessário, fornecendo infor- mações e orientações específicas para o atendimento às peculiaridades decorrentes de cada de- ficiência. Essas ações integradas de educação, saúde e assistência social são essenciais e impres- cindíveis para que as necessidades educativas específicas sejam atendidas, mas não justificam o afastamento ou o atendimento educacional segregado. Não se trata, no entanto, de a escola assumir ou desenvolver um trabalho tera- pêutico ou excessivamente especializado, mas significa adequar as atividades pedagógicas às necessidades particulares de cada criança, permitindo, assim, sua a participação em todas as atividades desenvolvidas no espaço escolar para uma efetiva promoção do processo de desen- volvimento e aprendizagem na classe comum. A abordagem pedagógica para as crianças com deficiência múltipla na educação infantil enfatiza o direito de ser criança, poder brincar e viver experiências significativas de forma lúdica e informal. Assegura ainda o direito de ir à escola, aprender e construir o conhecimento de forma adequada e mais sistematizada, em companhia de outras crianças em sua comunidade. A educação infantil, nesse contexto, tem duas importantes funções: “cuidar” e “educar”. Cuidar tem o sentido de ajudar o outro a se desenvolver como ser humano, atender às necessidades 8 básicas, valorizar e desenvolver capacidades. Educar significa propiciar situações de cuidado, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceita- ção, respeito, confiança, e o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural (BRASIL, 1998, pp. 23 e 24). A implementação de um projeto para educação inclusiva é uma tarefa coletiva que demanda vontade política dos gestores e serviços responsáveis pelos centros de educação infantil, como também o envolvimento e a participação da família no processo de desenvol- vimento e aprendizagem dos seus filhos. Exige um trabalho de pesquisa-ação: estudo, debate, avaliação, planejamento, estratégias conjuntas do professor da classe regular e do especialista em educação especial que acompanha o processo de inclusão, contando com a participação de toda comunidade escolar. Torna-se também essencial a capacitação continuada, em serviço, desses profes- sores, dirigentes e equipe técnica dos centros de educação infantil, visando construir e efetivar uma prática pedagógica que lide com níveis de desenvolvimento e processo de aprendizagem diferenciados. A educação de alunos com múltipla deficiência no ensino regular tem deixado, no Brasil, uma grande lacuna. Até recentemente, as crianças com múltipla deficiência eram edu- cadas separadamente em escolas especiais ou instituições destinadas ao atendimento de alunos com deficiência mental. O que tem sido feito em relação à inclusão desses alunos no sistema comum de ensino constitui, geralmente, experiências isoladas. No meio escolar, discute-se, freqüentemen- te, se esses alunos podem se beneficiar de sistemas inclusivos de ensino em virtude de acentu- adas necessidades especiais relativas à particularidades em seu processo de desenvolvimento e aprendizagem. 9 Nesse sentido, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, 1996) e as Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica (BRASIL, 2001) condenam a exclusão social com base nos padrões de normalidade. Elas entendem a educação como princi- pal alicerce da vida social, capaz de construir saberes, transmitir e ampliar a cultura, consolidar a liberdade humana e a cidadania. A inclusão de alunos com dificuldades acentuadas de aprendizagem no sistema comum de ensino requer não apenas a aceitação da diversidade humana, mas implica em trans- formação significativa de atitudes e posturas, principalmente em relação à prática pedagógica, à modificação do sistema de ensino e à organização das escolas para que se ajustem às especifi- cidades de todos os educandos. Essa é uma ação a ser construída coletivamente, pois participar do processo edu- cativo, no mesmo espaço com os demais alunos, requer, na maioria das vezes, apoio e recursos especiais que já estão legalmente garantidos aos alunos com necessidades educacionais espe- ciais, mas que na prática ainda não estão disponibilizados na escola. Esse é o grande desafio que se impõe aos Municípios brasileiros, aos gestores, aos serviços de educação especial, aos educadores na classe comum, à toda comunidade escolar, às universidades, às famílias e organizações não-governamentais, para que juntos possam elabo- rar um projeto pedagógico que realmente atenda às necessidades educacionais especiais desses alunos, construindo, assim, uma escola e uma comunidade mais inclusiva. 10 Módulo 02 As Necessidades e Possibilidades das Crianças com Deficiência Múltipla As crianças com qualquer deficiência, independentemente de suas condições físi- cas, sensoriais, cognitivas ou emocionais são crianças que têm necessidade e possibilidade de conviver, interagir, trocar, aprender, brincar e serem felizes, embora, algumas vezes, por cami- nhos ou formas diferentes. Essa forma diferente de ser e agir é que as torna ser único, singular. Devem ser olhadas não como defeito, incompletude ou incapacidade, mas como pessoas com possibili- dades e dificuldades que podem ser superadas ou minimizadas. Trabalhar com crianças que apresentam dificuldades acentuadas no processo de desenvolvimento e aprendizagem é um grande desafio, com o qual podemos aprender e crescer como pessoas e profissionais, buscando compreender e ajudar o outro. Os alunos com deficiência múltipla podem apresentar alterações significativas no processo de desenvolvimento, aprendizagem e adaptação social. Possuem variadas potenciali- dades, possibilidades funcionais e necessidades concretas que necessitam ser compreendidas e consideradas. Apresentam, algumas vezes, interesses inusitados, diferentes níveis de motivação, formas incomuns de agir, comunicar e expressar suas necessidades, desejos e sentimentos. A inclusão desses alunos no sistema regular de ensino é desejada por famílias, es- colas e professores solidários que se propõem a assumir esse desafio. As escolas que têm obtido êxito no processo de inclusão adotam como compromisso o respeito à diversidade e diferenças individuais, a adaptação do currículo e a modificação dos recursosmetodológicos e do meio. Esses são fatores essenciais e capazes de atender às expectativas das famílias e ne- cessidades específicas de aprendizagem desses educandos. Convidamos os leitores adentrarem ao mundo das pessoas com deficiência múltipla e conhecerem um pouco das possibilidades, interesses, desejos, necessidades e expectativas dessas crianças e de seus familiares. 11 Desbravando Novos Caminhos Esta é a história de T., uma criança alegre e feliz, que freqüenta desde os quatro anos de idade a classe comum, em um centro de educação infantil no Rio de Janeiro. Ela ficava muito triste, sozinha no silêncio de sua casa, irritava-se, chorava muito, ficava nervosa e mordia muito a sua mão. A família observou que quando saia à rua ou ia ao parquinho próximo de sua casa, ela se transformava, era outra criança, ficava muito alegre e feliz. Resolveram então, procurar um centro de educação infantil. T. gosta muito da es- cola, raramente chora e faz birras, só quando não é compreendida. Tem prazer em conviver e se relacionar com outras crianças. T. possui deficiência visual severa, com acentuada microcefalia decorrente de toxoplasmose congênita, alteração significativa das funções neurológica, motora e intelectual. Não fala, não anda, mas gosta de brincar com ajuda, interage e se comunica por algumas expressões faciais, gestos muito simples e pelo tabuleiro de comunicação com objetos símbolos que foram adaptados. A escola trabalha em parceria com a professora especializada e com a equipe terapêutica (fisioterapeuta, fonoaudióloga e terapeuta ocupacional), que realiza atendimentos individuais fora da escola. Esses profissionais têm pesquisado e ajudado a escola com relação às necessida- des específicas de T. e às adaptações correspondentes, possibilitando um melhor nível funcional da criança em todas as atividades escolares. T. utiliza programas muito simples de informática, o que possibilita a comunicação, a expressão dos sentimentos, pensamentos e a construção do conhecimento. O que ela mais gosta na escola é de brincar de faz de conta, do cantinho da lei- tura onde ela participa com personagens concretos (bonecos ou objetos), do parque, onde ela precisa de constante ajuda física para poder participar dos brinquedos e brincadeiras com as outras crianças. No lanche, ela já gosta de mostrar suas habilidades: aprendeu a beber no copo, come com suas mãos o biscoito ou fruta e toma iogurte com a colher. Com ajuda física, já está aprendendo a pôr e tirar a roupa, participa da arrumação da mesa e lava os utensílios como as outras crianças. 12 Nas atividades de pátio e quadra, T. gosta muito de participar das brincadeiras e algazarras das outras crianças, e quase voa atrás delas, no seu possante andador protegido que lhe permite movimentar-se e correr com a ajuda de seus colegas. É feliz porque pode participar da vida e aprender com as outras crianças. Quebrando Paradigmas A é um rapazinho do interior de São Paulo que teve muitos problemas quan- do nasceu: adquiriu vírus hospitalar, teve septicemia (infecção generalizada), encefalite, ficou longos dias em coma na U.T.I. e teve muitas convulsões. Em virtude disso têm inúmeras difi- culdades: motora, visual e problemas neurológicos. Freqüentou desde bebê um programa de intervenção precoce e teve atendimento em fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. O neurologista recomendou que os pais o colocassem, desde cedo, em um cen- tro de educação infantil, na classe comum, para que pudesse conviver com outras crianças e a aprender a falar. Os pais, embora temerosos e com muita resistência dos avós, colocaram A. aos dezoito meses de idade no nível maternal. Os avós ficavam muito ansiosos e preocupados com a reação das outras crianças, julgando que elas poderiam maltratá-lo ou machucá-lo. A acolhida da escola foi excelente. Desde os funcionários, professores e todas as crianças da escola queriam ser res- ponsáveis por A., que era uma criança muito simpática, alegre e que gostava de interagir com os outros e participar de tudo. Suas dificuldades motoras e visuais eram muito grandes, mas isso não o impedia de brincar e rolar na areia. Com ajuda dos colegas construía castelos, gostava de desmanchá-los, colocava e tirava objetos de baldes. O que mais o fascinava eram os cânticos, a roda de conversa, as histórias infantis e o teatro. Foi tão bom ir à escola que no jardim já estava tentando falar e expressar seus pensamentos com ajuda de ilustrações. Na hora das atividades de mesa − pintar, desenhar, elaborar com massinha, realizar atividades de encaixe e quebra cabeça, a alegria se dissipava do rosto do mocinho. Essas eram suas grandes dificuldades. Frus- trava-se muito, ficava aborrecido porque não conseguia pintar, recortar, desenhar e construir. Embora a professora se utilizasse de todas as técnicas e metodologias adequadas para crianças com dificuldade motora e visual, mesmo assim o pequeno não conseguia realizá-las. 13 A professora, com ajuda da especialista em educação especial, planejava ativida- des coletivas para que essas dificuldades fossem diluídas no grupo, mas o processo de leitura e escrita somente foi construído muito mais tarde, porque naquela época ainda não existia a informática como instrumento facilitador da leitura e escrita. Uma História Excepcional A história de E. ilustra uma possibilidade diferente. Os pais tinham recebido o diagnóstico de cegueira e autismo com deficiência mental em virtude de encefalopatia congênita e anoftalmia (ausência do globo ocular) por malformação embrionária. E. era um garoto de seis anos de idade que gostava muito de música, repetia com entonação e ritmo alguns refrões desconexos. Não tolerava o contato físico e verbal das pessoas, enrolava-se como um tatu na rede ou colchão, pois gostava apenas de ficar deitado. Se crianças ou pessoas aproximavamse dele, ficava muito ansioso, irritado e ner- voso; fugia de qualquer contato e escondia-se, enrolando-se no colchão. A mãe relatava que E. não gostava de colo e afagos, esquivava-se do contato materno. Ele era indiferente ao chamado pelo nome, à voz da mãe, pai, irmã e avós. Não manifestava ou reagia a qualquer forma de expressão afetiva. A família pre- ocupava-se muito com as questões de alimentação, porque E. era muito seletivo: não aceitava modificação alimentar, só comia arroz com farinha, um tipo de biscoito salgado e coca-cola. Irritava-se e entrava em crise diante de qualquer modificação no ritual de alimentação. O que proporcionava prazer a E. era o balanço na rede e a piscina. Esses elementos foram utilizados para iniciar o processo de interação e comunicação com E. O caminho escolhido pela família foi uma escola especial que atendia crianças autistas, isso porque a escola de cegos não recebia crianças com deficiência múltipla. O processo de adaptação de E. foi lento. Irritava-se muito com barulho, com vozes e movimento das outras crianças, mesmo sendo poucas. Desorganizava-se com freqüência, beliscava, batia, jogava longe tudo que esti- vesse ao seu alcance. Quando o nível de tensão aumentava, engolia sua prótese sabendo que chamava atenção com isso. Afastava as pessoas, ria e esperava a reação. De forma semelhante, fazia xixi e cocô nas calças, mesmo sem vontade, na tentativa de isolar-se no banheiro, que era 14 um dos seus lugares preferidos, talvez pelo pouco barulho. No início, qualquer pessoa que se aproximasse dele apanhava muito: levava socos, mordida, beliscões. Utilizava-se um aparato protetor para se lidar com E., luvas etc. Procurava-se antecipar a aproximação das pessoas e a ocorrência dos eventos com mensagens curtas e ob- jetivas, descrevendo-se e interpretando-se as ações. Decodificar a linguagem e interpretar o contexto era a grande dificuldade de E. As pessoas e objetos eram sempre uma ameaça, por isso isolava-se ou agredia os outros. Como apresentava dificuldadespara construir vínculos, priorizou-se inicialmente o atendimento individual com programa de interação e comunicação. O professor e a família tornaram-se “companhias vivas”, ajudando E. a interpretar o mundo, seus sentimentos e reações. Foi elaborada uma proposta de currículo funcional para a casa e para a escola, traçando em conjunto com a família poucos objetivos prioritários e sistematização da rotina: sentar-se à mesa, ter cuidados básicos de higiene e alimentação e colocar um varal com objetos significativos da rotina diária. Na escola, E. foi incluído aos poucos em pequenos grupos de atividades que lhe proporcionavam prazer, como músicas, balanço (onde, por sinal, fazia ma- labarismos) e piscina. Os objetos não lhe despertavam interesse, pois não construía significados. Por meios dos movimentos do corpo, que eram significativos, foram introduzidos objetos que tam- bém produziam movimento e poderiam modificar de função: pneu de balanço, pneu para rolar e pular. A bola na água foi interessante (produzia barulho) e podia obtê-la facilmente, porque E. se deslocava melhor na água. Depois foram oferecidos balde, garrafas e latas na água para perceber que podia fazer coisas: encher, despejar, jogar-se água etc. Tudo foi muito lento − a cada mudança, nova guerra. Aos poucos, foi, compreendendo como as coisas funcionam. E. substituiu o colchão por uma garrafa de Confort, com a qual brincava na água. A garrafa foi substituída mais tarde pelo canudinho. Adorava brincar com canu- dos e picá-los. Após três anos, já haviam diminuído bastante os episódios de crise e E. já conse- guia trabalhar e alimentar-se em pequenos grupos. Hoje tem plena independência e autonomia em sua casa, na escola, e domínio da comunidade. Desenvolveu melhor a linguagem compreen- siva do que a expressiva. No entanto, comunica seus pensamentos, desejos e necessidades, gosta 15 de jogos de mesa e atividades sociais. A compulsão por canudos foi transformada em atividade mais criativa: faz lindas bijuterias, bordados e telas de pintura em alto relevo. Participa hoje de um centro de convivên- cia, trabalho, artes, cultura e lazer. Freqüenta uma academia, nada no clube, faz compras e viaja sem problemas. Seu programa preferido, como o de outros adolescentes, é ir ao McDonald’s e a restaurantes de comidas variadas, passear, ir a festas e ao cinema. Poderia hoje freqüentar uma classe de EJA (educação de jovens e adultos), com tutoria. Entretanto, a família crê que E. não pode se beneficiar de uma classe comum, pois imprevisivelmente se desorganiza e entra em crise, mesmo com medicação adequada. Os casos relatados nos apontam que a decisão sobre o tipo de escola e a proposta pedagógica ne- cessária e desejável para pessoas com deficiência múltipla não tem relação direta com os níveis de comprometimento, tipos de deficiências associadas, nem com as possibilidades cognitivas desses alunos. Essa decisão depende mais de outras variáveis, como: avaliação das caracterís- ticas e necessidades da criança, avaliação e análise do ambiente, das estratégias metodológicas e recursos utilizados e, principalmente, da possibilidade de a escola se modificar para atender a essas demandas. Depende ainda do desejo dessas pessoas e, principalmente, da expectativa e opinião dos familiares. A nosso ver, não cabe apenas ao professor e aos especialistas a decisão com rela- ção ao processo de educação mais adequado para qualquer aluno. Essa é uma ação coletiva que envolve a família e toda a comunidade escolar. 16 Módulo 03 O Processo de Ensino-Aprendizagem dos Alunos com Deficiência Múlti- pla Tendo em vista as atuais políticas educacionais voltadas para a inclusão, dentre as quais, apontamos como nossa maior referência a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), voltamos o nosso olhar para a investigação de como os alunos com necessidades educacionais especiais4 podem de fato ser contemplados por este processo, sendo beneficiados diretamente em seus processos de ensino e aprendizagem. Neste contexto, emerge a situação de educandos com severos comprometimentos cuja escolarização plena ainda se constitui em desafio contundente em meio a realidade edu- cacional brasileira (SILVEIRA & NEVES, 2006; RIBEIRO, 2006; GLAT & BLANCO, 2007; PLETSCH, 2010). Assim, sem desconsiderar as dificuldades que ainda possam ser identificadas neste cenário, nosso estudo se propõe a analisar processos e práticas para o desenvolvimento da aprendizagem de alunos com múltiplas deficiências, entendidos neste trabalho, assim como por Silva (2011), como sujeitos que têm mais de uma deficiência. Apesar do conceito de deficiência múltipla não ter sido expresso diretamente na Política Nacional de 2008 e de ainda não haver pleno consenso em relação a este, em 2004, a deficiência múltipla foi caracterizada pelo Ministério da Educação no documento Saberes e práticas da inclusão: dificuldades acentuadas de aprendizagem – deficiência múltipla (BRASIL, 2004) como sendo a associação de duas ou mais deficiências podendo ser estas de ordem física, mental, sensorial, comportamental e /ou emocional. Deste modo, considera-se que a deficiência múltipla pode implicar extensa pos- sibilidade de associação de deficiências, variando conforme o número, a natureza, o grau e a abrangência das deficiências em questão; consequentemente, também variam os efeitos dos comprometimentos na vida e prática das pessoas que a apresentam. Fatores estes que influenciam diretamente nos processos de aprendizagem: Os alunos com deficiência múltipla podem apresentar alterações significativas no processo de de- senvolvimento, aprendizagem e adaptação social. Possuem variadas potencialidades, possibili- dades funcionais e necessidades concretas que necessitam ser compreendidas e consideradas. 17 Apresentam, algumas vezes, interesses inusitados, diferentes níveis de motivação, formas inco- muns de agir, comunicar e expressar suas necessidades, desejos e sentimentos (BRASIL, 2006, p.13). Para avaliar as necessidades educacionais destes alunos, há de se observar as con- dições em que suas deficiências se apresentam; isso não se resulta de um simples somatório de fatores. Precisa-se levar em consideração o nível de desenvolvimento, as possibilidades funcio- nais, de comunicação, interação social e de aprendizagem (BRASIL, 2006). Além disso, ainda precisam ser acompanhadas necessidades que não estão res- tritas ao âmbito escolar, mas que também influenciam diretamente no processo de desenvolvi- mento da aprendizagem: Na perspectiva das pessoas com múltiplas deficiências (...) a lesão não pode ser desconsiderada, assim como o atendimento médico e o processo de reabilitação, que parece ter sido desconsiderado ou não explicitado nas políticas atuais de educação inclusiva e na abordagem social (BENTES et al, 2009, p.66). Assim, mediante a todas as complexidades que envolvem a escolarização destes alunos, podemos apontar a importância do atendimento educacional especializado (AEE) para que haja sucesso em sua escolarização. Lembrando que a instituição do AEE (BRASIL, 2009) faz parte das intenções fundamentais da Política Nacional de Educação Especial de 2008, o qual deve colaborar para o suprimento das necessidades educacionais dos alunos em questão. Ainda que a deficiência múltipla também não esteja expressa nas linhas do docu- mento que o regulamentou, o AEE abrange os sujeitos que a apresentam, devendo possibilitar práticas pedagógicas que de fato incidam positivamente em seus processos de aprendizagem. Deste modo, é necessário refletir como alunos deficientes múltiplos podem ter mais do que o acesso ao espaço escolar; acesso a possibilidades reais de desenvolvimento em seus processos de aprendizagem a partir de estratégias, recursos e intervenções que venham de encontro com as suas reais necessidades educacionais.Assim, além de se fazer necessário o conhecimento das especificidades apresenta- das por estes sujeitos, para que seus processos de aprendizagem possam ser de fato beneficiados, é importante buscar compreender como podemos intervir e estimular adequadamente. Buscar 18 uma prática pedagógica que abranja ações que venham a oportunizar o desenvolvimento de potencialidades. Piaget afirma que a inteligência se constrói mediante a troca entre o organismo e o meio, mecanismo pelo qual se dá a formação das estruturas cognitivas “o organismo com sua bagagem hereditária, em contato com o meio, perturba-se, desiquilibra-se e, para superar esse desequilíbrio e se adaptar, constrói novos esquemas”. Esse autor coloca que o importante para o desenvolvimento cognitivo não é a seqüência das ações empreendidas pela criança, mas sim o esquema geral dessas ações que pode ser transposto de uma situação para outra. Assim, os esquemas são concebidos como resultado direto das generalizações das próprias ações, não sendo de natureza perceptível, mas funcional. Dessa maneira, as ações da criança sobre o meio: fazer coisas, brincar e resolver problemas, podem produzir formas de conhecer e pensar mais complexas, combinando e crian- do novos esquemas, possibilitando novas formas de fazer, compreender e interpretar o mundo que a cerca. Estudos em diferentes momentos históricos acerca das possibilidades cognitivas de crianças com deficiência mental e paralisia cerebral, como os de Inhelder (1963), Sastre & Mo- reno (1987), mostram oscilações e ritmos diferentes no processo de construção da inteligência dessas crianças. Evidenciam esses estudos que os programas das escolas especiais, muitas vezes, centram-se nas limitações, nos déficits, nas impossibilidades, e não aproveitam as potenciali- dades e os recursos que esses alunos dispõem, para que suas possibilidades intelectuais e de adaptação ao meio sejam aumentadas. Investigações recentes levantam novas hipóteses acerca da deficiência mental. Ela não se originaria apenas no déficit estrutural, mas também, na capacidade funcional da inte- ligência. Scarnhont & Buchel (1990) afirmam que essas pessoas apresentam pouca habilidade para problemas de generalização da aprendizagem e no funcionamento da memória prejudica- da. Entretanto, as estratégias de memória, imagem mental e categorização podem ser melhora- das nos alunos com deficiência mental, mas não treinadas mecanicamente. Estudiosos da metacognição têm afirmado hoje que o funcionamento intelectual deficitário pode ser ativado por ajudas que podem propiciar maior mobilidade cognitiva. As- 19 sim, a convivência, o trabalho pedagógico e as atividades desenvolvidas em conjunto com os outros alunos da mesma idade sem deficiências poderão aumentar as possibilidades cognitivas e a elaboração de estratégias de ação e planejamento das crianças com severo comprometimento. Esses achados tem aberto caminho e novas possibilidades para os alunos com múltipla deficiência no ensino comum, pois deslocam o foco do déficit, das limitações e impos- sibilidades para a importância da mediação social − das posturas, das relações e interações po- sitivas, da modificação do meio e de estratégias que favoreçam e potencializem a aprendizagem dessas crianças. Os tipos de Deficiência Múltipla A Deficiência Múltipla é a associação de duas ou mais deficiências, sejam intelec- tuais, físicas, distúrbios neurológicos, emocionais, linguagem e desenvolvimento educacional, vocacional, social e emocional. De acordo com alguns pesquisadores, a deficiência múltipla pode ser dividida pelas seguintes dimensões: Física e Psíquica » Associa a deficiência física à intelectual; » Associa a deficiência física à transtornos mentais; Sensorial e Psiquica » Engloba a deficiência auditiva associada à deficiência intelectual » A deficiência visual à deficiência intelectual » A deficiência auditiva à transtornos mentais » Perda visual à transtorno mental 20 Sensorial e física » Associa a deficiência auditiva à deficiência física » A deficiência visual à deficiência física Física, psíquica e sensorial: » Traz a deficiência física associada à deficiência visual e à intelectual » A deficiência física associada à deficiência auditiva e à deficiência intelectual » A deficiência física associada à deficiência auditiva e à visual Deficiência é o termo usado para definir a ausência ou a disfunção de uma estru- tura psíquica, fisiológica ou anatômica. Já a síndrome é um conjunto de sintomas ou sinais que, juntos, evidenciam uma condição particular. A síndrome de Down, por exemplo, engloba defi- ciência intelectual, dificuldades na comunicação, além de outras características. O transtorno, na psiquiatria, é o que provoca um desarranjo, uma desordem na área psíquica do indivíduo e pode englobar a deficiência e a síndrome. Causas da Deficiência Múltipla As causas que envolvem a deficiência múltipla podem ser várias. Elas podem ser de ordem sensorial, motora e linguística e originada de “ fatores pré-natais, perinatais ou natais e pós-natais, além de situações ambientais tais como: acidentes e traumatismos cranianos, into- xicação química, irradiações, tumores e outras” (SILVA, 2011). As causas também podem ser por má-formação congênita, Hipotireoidismo, Sín- drome de Rett , e por infecções virais como Síndrome da rubéola congênita, ou por doenças sexualmente transmissíveis. De acordo com Campos (2003) as causas da deficiência múltipla ainda podem ser por Icterícia, infecção do ouvido, falta de oxigênio no cérebro, sarampo, glaucoma, trau- matismos, tumor cerebral, toxoplasmose, catarata e casamentos consanguíneos. O programa TECNEP (2008), também menciona algumas causas como prematuridade, a sífilis congênita e a meningite. Outros fatores também podem ser atribuídos às causas para a deficiência múltipla 21 como doenças venéreas, gravidez de risco, falta de saneamento básico e infecções hospitalares (idem). De acordo com a Associação Brasileira de Pais e Amigos dos Surdo-cegos e dos Múltiplos Deficientes Sensoriais (Abrapacem), a forma como a deficiência afetará a vida, o aprendizado de atividades simples e o desenvolvimento da comunicação do indivíduo, varia de acordo com o grau de comprometimento proporcionado pelas deficiências, associado aos estímulos que essa pessoa irá receber ao longo da vida. 22 Módulo 04 A Importância da Interação e Comunicação na Educação e Inclusão de Crianças com Deficiência Múltipla Para inclusão de crianças com múltipla deficiência em creches e pré-escolas há necessidade de professores empenhados na interação, acolhida e escuta dessas crianças, inte- ressados em compreender suas necessidades e desejos, pessoas disponíveis para interpretar suas formas de expressão e comunicação que, muitas vezes, as diferenciam das demais crianças da mesma faixa etária. E, principalmente, professores desejosos e empenhados em querer ajudá-las. Nesse sentido, a adequação da proposta pedagógica para atender as necessidades específicas das crianças com múltipla deficiência na educação infantil precisa valorizar a intera- ção e comunicação, a construção do sistema de significação e linguagem, a expressão oral e as diferentes formas de comunicação alternativas e de expressão. Isso possibilita a independência e o desenvolvimento da autonomia moral e in- telectual desses educandos. Trabalhar com as “diferenças”: alunos com diferentes níveis de desenvolvimento, aprendizagem e, diferentes maneiras de interagir e comunicar-se, crianças com possibilidades, interesses e necessidades diversificadas, torna-se para o professor uma ta- refa desafiadora. De um lado, é uma situação que pode apresentar muitas dificuldades iniciais, angústias, conflitos, desequilíbrios; por outro lado, pode ser uma situação de aprendizagem e crescimento, tanto para os alunos quanto para o professor. Essa pode ser, portanto,uma experiência criadora no sentido da construção do conhecimento por formas e caminhos diversificados, pois motiva e impulsiona buscas, trocas positivas de interação, de ajuda e cooperação. Ter alunos com diferentes níveis e estilos de aprendizagem possibilita ao professor, aproveitar essas diferenças para promover situações de aprendizagem que provoquem desafios, problematizações, questões a serem discutidas, inves- tigadas. Isso deve levar a escola como um todo à reflexão conjunta, a buscar novas formas de interação e comunicação para a resolução de problemas no cotidiano escolar. Há, entretanto, crianças com limitações e dificuldades reais que não podem ser negadas; necessitam portanto 23 de eficiente mediação no processo de interação e comunicação, de adaptação e modificação no currículo e no ambiente como forma de compensar as dificuldades e minimizar as defasagens. O movimento de inclusão não atribui a incapacidade apenas à criança, mas às li- mitações produzidas na interação com o meio, entendidas como tempo e espaço onde a criança vive, interage, brinca, comunica-se, aprende e se socializa. Conhecer, então, as características do ambiente familiar e escolar onde o aluno se desenvolve, as formas de interação e expressão uti- lizadas pelo aluno, pelos colegas e seus cuidadores, conhecer também os interesses, necessidades e experiências vividas constituem se em valiosos pontos de partida para adaptar as atividades às demandas das crianças com deficiência múltipla. A necessidade básica do ser humano, independentemente da habilidade ou nível de desenvolvimento cognitivo, é de comunicação. Isso significa compartilhar sentimentos, dese- jos, ações, experiências e pensamentos. As crianças com múltipla deficiência geralmente apre- sentam dificuldade de comunicar seus pensamentos, desejos, intenções. A maior parte desses alunos não apresenta linguagem verbal, mas pode comunicar-se por gestos, olhar, movimentos corporais mínimos, sinais, objetos e símbolos. Necessitam, para isso, de pessoas interativas, receptivas, que ofereçam apoio e incentivem esse processo de comunicação não-verbal. Brodin (1991) observou que essas crianças tomam pouca iniciativa de comuni- cação espontânea, talvez pelo fato de terem pouca experiência nesse sentido, e porque os adul- tos tendem a superprotegê-las, adiantadose às suas necessidades, sem esperar que haja algum esforço para comunicar-se. Estudiosos da deficiência múltipla, Nielsen (1983) e Akesson & Brodin (1991) afirmam que o adulto se converte na parte mais forte da interação, tende a falar sem esperar resposta ou sem dar tempo suficiente para que a criança possa produzir a resposta, reduzindo, assim, a capacidade responsiva e a intenção comunicativa. O grande desafio que se impõe aos centros de educação infantil no Brasil hoje constituise na transformação da cultura pedagógica. Isso requer a compreensão das possibili- dades de desenvolvimento e aprendizagem, e a identificação dos talentos, necessidades e limites de todas as crianças, considerando suas diferenças e os mecanismos funcionais de cada uma, conhecendo seus interesses, desejos e experiências vividas 24 As Necessidades Educacionais Na abordagem sociohistórica, o desenvolvimento humano é uma construção de natureza social que ocorre no contato com o outro. Tanto para Vygotsky (1991) como para Bakhtin (1988) o desenvolvimento cultural é mediado pela linguagem, pelos signos e significa- dos construídos na interação contínua e permanente com o outro, abrindo novas possibilidades na constituição do sujeito. Analisando a educação de pessoas com múltipla deficiência no Brasil, sob a essa perspectiva, Kassar (1999) afirma que o aprendizado escolar (praticamente silenciado pela nos- sa legislação para as pessoas que freqüentam instituições especializadas) “pode ser um tipo de aprendizado novo na vida do sujeito, por ser acompanhado e sistematizado. Quando bem planejado, propicia o desenvolvimento do sujeito, possibilitando seu acesso sistematizado à cultura produzida historicamente”. (p.80). Torna-se necessário en- tão, além da participação da vida cultural, que esses alunos convivam com expectativas positi- vas, “com formas adequadas de comunicação e interação, com ajudas e trocas sociais diferen- ciadas, com situações de aprendizagem desafiadoras: solicitados a formular escolhas, pensar, resolver problemas, expressar sentimentos, desejos e tomar iniciativas.” (Bruno, 2001a, p.56). As crianças com deficiências múltiplas podem necessitar de mais tempo para ad- quirir mecanismos de adaptação às novas situações, mas com uma boa mediação de professores e pais poderão criar estratégias de ação e pensamento; assim, poderão auto-regular com ajuda seu comportamento e desenvolver a autonomia pessoal, social e intelectual. Dessa forma, a primeira etapa de educação de crianças com múltipla deficiência consiste na crença de que todas as crianças são capazes de aprender, não importando o grau de severidade da deficiência. “A educação deveria ser individualizada para focalizar o desenvolvi- mento das capacidades únicas de cada criança. Essa educação deveria ser desenvolvida no contexto com outras crianças para promover as relações sociais e de amigos”. (Perreault, apud Masini, 2002, p.117). Fundamenta- 25 das nesses princípios, as Diretrizes nacionais para educação especial na educação básica (Brasil, 2001), recomendam a inclusão de crianças com deficiência, inclusive as com deficiência múlti- pla desde cedo em programas de creche e pré-escola que tenham por objetivo o desenvolvimen- to integral, o acesso à informação e ao conhecimento historicamente acumulado, dividindo essa tarefa com os pais e serviços da comunidade. Com o movimento da inclusão, todas as crianças com algum tipo de deficiência, mesmo nas alterações severas de desenvolvimento, passam a ter direito o mais cedo possível aos serviços educacionais disponíveis em sua comunidade. Esse fato traz implicações importantes para a educação infantil, principalmente no que diz respeito à educação de crianças com difi- culdades neuromotoras acentuadas ou de adaptação socioemocional. Incluir essas crianças na escola não significa apenas inseri-las no contexto da sala de aula, adaptar os objetivos, algumas atividades ou dar mais tempo, como frequentemente ocorre com as crianças com deficiência mental. Além disso tudo, a inclusão requer modifica- ções atitudinais e estruturais dos centros de educação infantil: flexibilidade, tolerância, com- preensão do comportamento e das necessidades emocionais, provisão de currículo adaptado às necessidades específicas; mobiliário adaptado para execução de atividades, adaptação de jogos pedagógicos, materiais específicos e recursos tecnológicos que favoreçam a interação, a comu- nicação e aprendizagem. Esses procedimentos e instrumentos são essenciais, pois determinam a qualidade da oferta educativa para o sucesso na aprendizagem e a inclusão desses alunos no sistema re- gular de ensino. As crianças com múltipla deficiência que apresentam dificuldades acentuadas de aprendizagem não se desenvolvem ou aprendem espontaneamente como as demais crianças. Elas necessitam de uma escola que tenha como foco a qualidade e a equidade. Isso se manifesta pela eficiência nas estratégias de comunicação e instrução, no suporte tecnoló- gico capaz de minimizar as desvantagens e, principalmente, nas formas diferenciadas de avaliar e intervir no planejamento individual e coletivo. Nessa abordagem ecológica, a mediação e a modificação do meio são fundamen- tais para propiciar oportunidade de aprendizagem. O trabalho é transdisciplinar: o professor 26 do ensino regular identifica e registra as necessidades educacionais especiais em conjunto com o professor especializado de apoio, a família e a equipe de suporte (fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, psicólogo), avaliando as necessidadesespecíficas e sugerindo aju- das, adaptações e recursos que facilitam o processo de interação, comunicação e aprendizagem da criança. Estrutura da Proposta Pedagógica A organização e estruturação do currículo, na educação infantil, compreendem dois eixos de experiências: formação pessoal e social (identidade, autonomia, brinquedo, movi- mento e conhecimento de si e do outro) e conhecimento do mundo (diferentes formas de lingua- gem e expressão, artes, música, linguagem oral, escrita e matemática, conhecimento da natureza e sociedade). Kuhlmann (apud Faria & Palhares,1999), analisando esses eixos da educação infantil, afirma que tomar a criança como ponto de partida da proposta pedagógica exigiria compreender que, para ela, conhecer o mundo envolve o afeto, o prazer, o desprazer, a fantasia, o brincar, o movimento, a poesia, as ciências, as artes plásticas e dramáticas, a linguagem, a música e a matemática de forma integrada, pois a vida é algo que se experimenta por inteiro. Essa mesma proposta pedagógica e organização de currículo são essenciais para as crianças com múltipla deficiência. Não há necessidade de um currículo especial. Há, sim, necessidade de ajustes nos objetivos, adaptações nos conteúdos e atividades, avaliações diferen- ciadas para que esses alunos possam experimentar a vida por inteiro. Kishimoto (2000), apontando os problemas e perspectivas da educação infantil, diz que a inclusão de brinquedos no interior da escola requer sua organização de forma pecu- liar, sem sofisticação, adaptada aos interesses e necessidades das crianças, favorecendo a recria- ção da brincadeira, a cooperação e a expressão da criança. Sugere, ainda, o uso das linguagens expressivas de forma integrada: artes visuais, plásticas, música, dança, teatro, movimento e literatura infantil, que devem ser enfatizadas na prática pedagógica da educação infantil. O “brincar” deve ser o eixo do currículo e da proposta pedagógica. O brincar, o movimento, as histórias e a arte devem perpassar todos os conteúdos do currículo para que não ocorra a escolarização precoce ou didatização do lúdico. 27 O grande obstáculo para inclusão de crianças com múltipla deficiência têm sido a antecipação da escolarização, com ênfase no processo de produção da leitura e escrita ainda na pré-escola. Essas reflexões são importantes e nos levam a priorizar o brincar, a conversa, a lite- ratura e a arte como forma de prazer, de interação, possibilitando a expressão de sentimentos, trocas significativas de aprendizagem e construção do conhecimento. Esses procedimentos são essenciais para todas as crianças, não devendo ser, por- tanto, tratados apenas como conteúdos estruturados de ensino ou até mesmo com objetivos terapêuticos como ainda são utilizados em algumas escolas especiais. Muitas crianças com deficiência mental associada têm condições de aprender a ler e escrever. Necessitam, no entanto, de mais tempo e de acessibilidade para desenvolver essa competência. Precisam estar expostas continuamente a situações de aprendizagem em am- bientes alfabetizadores, necessitando de convivência com livros interessantes, poesias e textos significativos. Algumas crianças poderão necessitar de procedimentos metodológicos menos complexos, partindo de suas experiências concretas, da leitura e produção de textos da vivência cotidiana. O aprendizado da leitura e escrita envolve a representação simbólica: os gestos, os desenhos e os brinquedos. As crianças com deficiência neuromotora acentuada que apresen- tam dificuldade de comunicação, expressão do pensamento, expressão gráfica e manipulação de livros podem se beneficiar da informática como instrumento facilitador do processo de alfa- betização e de acesso ao conhecimento. Um ambiente alfabetizador e lúdico, com experiências diversificadas, respeitando o tempo e o momento de cada um, sem pressão ou exigências irreais, pode determinar o sucesso na aprendizagem desses alunos. 28 Módulo 05 A Escola Inclusiva Na Prática A simples aceitação das diferenças e a oportunidade de acesso à classe comum não determinam nem contribuem de forma consistente para a elaboração do projeto pedagó- gico e não asseguram a inclusão escolar dos alunos com acentuadas necessidades educativas especiais. O processo de aprendizagem desses alunos requer modificações. Para isso, faz-se necessária uma análise crítica das relações inter e intra-pessoais vividas na escola, modificações espaço-temporais, didático-pedagógicas e organizacionais que garantam a promoção da apren- dizagem e adaptação desses alunos ao grupo. A educação infantil, não somente de crianças com deficiências, é uma situação educativa complexa que exige uma análise lúcida e crítica acerca do cenário escolar, das situa- ções e condições concretas existentes, dos conteúdos propostos e das estratégias e alternativas metodológicas que atendam as necessidades de desenvolvimento, de interação, comunicação, autonomia, socialização e participação nas brincadeiras e atividades lúdicas. A proposta pedagógica, numa visão construtivista do conhecimento, tem no alu- no e nas suas possibilidades o centro da ação educativa. Assim, o processo pedagógico é cons- truído a partir das possibilidades, das potencialidades, daquilo que o aluno já dá conta de fazer. É isso que o motiva a trabalhar, a continuar se envolvendo nas atividades escolares, garantindo, assim, o sucesso do aluno e sua aprendizagem. O conteúdo e as atividades devem levar em conta o princípio da aprendizagem significativa: atividades que partam de experiências positivas para os alunos, dos interesses, dos significados e sentidos por eles atribuídos. Para isso, há necessidade de cooperação e troca com a família, que informa sobre os gostos, preferências, rejeições, vivências e informações que o aluno possui. Essa é uma tarefa coletiva, compartilhada entre o professor do ensino regular e especial; tem este último a função de ser o mediador e articulador do projeto de inclusão. 29 A participação e cooperação dos pais, terapeutas ou serviços especializados são fundamentais para que se atinja o objetivo de promoção do desenvolvimento global e o avanço no processo de aprendizagem desses alunos. O êxito no processo de aprendizagem depende também de uma pedagogia de projetos, atividades que possam ser desenvolvidas coletivamen- te, de maneira que as dificuldades sejam diluídas e superadas pela qualidade de solicitação do meio, pela ajuda do professor e cooperação dos colegas não deficientes. A atitude positiva da professora é fundamental para interação, confiança na co- municação e construção de vínculo. Para isso, é importante que a professora não use os defeitos ou dificuldades da criança como referência, por exemplo: “não babe que é feio, feche a boca, ponha a língua para dentro, não aperte os olhos, pare de balançar”. As mensagens positivas podem ser transmitidas de forma simples, direta, refor- çando e elogiando as tentativas de acerto utilizando, quando necessário, dicas gestuais ou figu- ras. De forma semelhante, as atitudes de superproteção, tratar a criança com piedade, dó, como se fosse uma coitada, ou supervalorizá-la, destacar muito suas qualidades ou previlegiá-la, deve ser evitado. A criança gosta de ser compreendida e tratada da mesma forma que os outros, com os mesmos direitos e deveres. Incluir alunos com deficiência múltipla e necessidades educativas especiais nos centros de educação infantil não requer um currículo especial, mas ajustes e modificações curri- culares envolvendo objetivos, conteúdos, procedimentos didático-metodológicos e de avaliação que propiciem o avanço no processo de aprendizagem desses alunos. Esse processo é concebido como um conjunto de procedimentos que visa oferecer experiências de aprendizagem adequadas aos diferentes níveis de comunicação, de possibili- dades motoras, cognitivas, socioemocionais e de vida diária,tendo em vista o atendimento às necessidades específicas dos educandos. É a escola que se modifica para que o aluno obtenha êxito na aprendizagem e adquira conhecimento. As adaptações de acesso ao currículo são “modificações ou provisão de recursos espaciais, temporais, materiais ou de comunicação que favorecem o aluno com neces- sidades educacionais especiais no desenvolvimento do currículo regular”, ou, se for o caso, do 30 currículo adaptado (Guijarro, 1992, p.134). Os ajustes, as modificações e adaptações são necessárias não apenas em decor- rência das necessidades específicas dos alunos, mas porque os sistemas de ensino, infelizmente, ainda fundamentam sua prática pedagógica em conceitos homogêneos. Muitos professores e pais têm como ideal o modelo de escola homogênea e reprodutora, onde todos aprendem os mesmos conteúdos, da mesma forma, ao mesmo tempo e na mesma medida. O obstáculo que se enfrenta em alguns centros de educação infantil é com relação ao conceito da homogeneidade no processo de desenvolvimento. Há escolas que ainda esperam que o aluno esteja pronto para desempenhar determinadas tarefas ou lidar com determinados conteúdos. Por exemplo: exigem autonomia no banheiro, coordenação motora, habilidade para o desenho, letra cursiva para a escrita, leitura e escrita alfabética na pré-escola. Nesse tipo de escola não há espaço para crianças com deficiência múltipla. No entanto, selecionar ativi- dades que tenham significado, relação com a vida prática e experiência dos alunos, pode levar a pequenas modificações e adaptações nos objetivos, conteúdos e avaliação, de forma que os alunos com necessidades educativas especiais acentuadas tenham a oportunidade de participar, de se envolver, de aprender e trabalhar junto com seus colegas no ensino regular. As adaptações curriculares estão garantidas pela Lei de Diretrizes e Bases da Edu- cação Nacional Nº 9.394/96 e pelas Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica (BRASIL, 2001), que orientam adaptações em três níveis: » no projeto político-pedagógico da escola elaborado pela comunidade escolar; » no currículo (objetivos, conteúdos, atividades, avaliação, metodologia) com a participa- ção de todos os envolvidos; » no nível individual, com a participação da família na elaboração do plano educacional individual. O projeto de inclusão é elaborado e desenvolvido coletivamente, não devendo 31 as decisões ser tomadas isoladamente pelo professor ou pela família, sendo elas de responsa- bilidade da direção dos centros de educação infantil, dos gestores da política de educação dos Municípios. Algumas ações são intersetoriais, e envolvem responsabilidade dos órgãos de saú- de e ação social, principalmente no que diz respeito à diagnóstico, tratamento e equipamentos específicos para determinadas deficiências. As adaptações de acesso ao currículo são de responsabilidade da escola, e envol- vem: » mobiliário adequado (mesas, cadeiras, triângulo para atividades no solo, equipamentos para atividades em pé e locomoção independente); » equipamentos específicos e tecnologia assistida; » sistemas alternativos e ampliados de comunicação; » adaptação do espaço e eliminação de barreiras arquitetônicas, ambientais, play ground; » recursos materiais e didáticos adaptados; » recursos humanos especializados ou de apoio; » situações diversificadas de aprendizagem e apoio para participação em todas as ativida- des pedagógicas e recreativas; » adaptações de atividades, jogos e brinquedos. Além das formas de interação, comunicação, seleção de objetivos e conteúdos poderá haver, algumas vezes, necessidade de modificação ou rearranjo nos agrupamentos para o desenvolvimento de atividades pedagógicas e recreativas. Há crianças que necessitam de ajuda física contínua ou de mediação do profes- sor para que possam comunicar-se ou organizar-se na realização das atividades; nesses casos, tornase impossível o trabalho em salas com número muito grande de crianças ou em grupos demasiadamente agitados ou barulhentos. A adequada organização dos grupos, a diminuição do número de alunos, a boa 32 mediação do professor e do grupo, a simplificação da atividade, a seleção dos materiais e os recursos de apoio são elementos imprescindíveis para que a criança com múltipla deficiência possa participar de todas as atividades, desenvolver ação funcional e autonomia moral e inte- lectual juntamente com as demais crianças. A introdução ou eliminação de determinados objetivos e conteúdos será aconse- lhável após a utilização de diferentes estratégias didático-metodológicas e avaliação constante dos procedimentos didáticos e dos recursos específicos utilizados. Essas são decisões que devem ser tomadas em conjunto com a família e equipe de apoio. Os conteúdos, as atividades, organizações e orientações didáticas estão direta- mente relacionados à concepção de aprendizagem e à crença que a escola tem acerca da possibi- lidade das crianças com deficiências. Dessa forma, as adaptações, os ajustes, tanto nos objetivos como nas atividades, a organização de espaço, tempo, agrupamentos (número de alunos em sala), adaptação de materiais, equipamentos e recursos pedagógicos devem estar explicitados no projeto pedagógico de inclusão. Cada escola deve ter seu projeto de inclusão, e cada criança, um plano individual, inserido no plano geral da classe. Na educação infantil, os objetivos gerais, os conteúdos, os temas e as atividades são os mesmos. Os objetivos específicos, as estratégias didático-metodo- lógicas, os materiais, os recursos e equipamentos é que se diferenciam. As atividades e as formas de avaliar são diferenciadas para todos. Independen- temente do nível intelectual e dos resultados a serem atingidos, os alunos com necessidades específicas devem ser expostos a situações de aprendizagem em seu convívio social, ter um currículo acadêmico, aprender sobre linguagem, comunicação, história, geografia, matemática, arte, música, literatura. Esses conteúdos são conhecimentos essenciais para a promoção do processo de desenvolvimento e aprendizagem de todos. Para que a criança com múltipla deficiência partici- pe dessas atividades pedagógicas tão importantes para o processo do desenvolvimento e apren- dizagem, ela necessita de um professor disponível para dialogar e efetuar a mediação, tanto em termos de comunicação, como de ajuda física, na realização das brincadeiras e tarefas. Daí a 33 necessidade de os grupos, na educação infantil, serem pequenos na creche e na pré-escola, para que haja a inclusão da criança com necessidades educativas especiais no trabalho em grupo. Dependendo da necessidade de ajuda física contínua, a criança poderá precisar de tutoria para realização das atividades. Essas questões devem ser discutidas com a família e profissionais de apoio. Proporcionar atividades variadas, como fazer e construir coisas, brin- cadeiras com o corpo, objetos, jogos, histórias, teatro, música, modelagem, desenhos que per- mitam adquirir as noções de tempo, espaço e causalidade é fundamental para as crianças com múltipla deficiência. Essas noções devem ser construídas na ação funcional, nas brincadeiras e jogos com o corpo, nas situações concretas de vida, na rotina diária, como também com jogos peda- gógicos adaptados que permitam a aquisição das noções de classe, série, quantidade, número, por meio de atividades contextualizadas. Para isso, as atividades devem ter começo, meio e fim, e serem adaptadas à pos- sibilidade de comunicação, compreensão e ação de cada criança. As estratégias pedagógicas devem priorizar a formação das habilidades cognitivas e aquisição do conhecimento, incenti- vando a criança a fazer escolhas, manifestar suas idéias, expressar pensamentos, dúvidas para serem discutidas com os colegas e professor. Planejar situações-problema para que a criança pense e utilize seusesquemas para perceber semelhanças e diferenças, estabelecer relações entre objetos e acontecimentos, e buscar soluções. É muito importante que sejam construídos com todas as crianças livros funcio- nais para comunicação, ilustrados por imagens ou em relevo que contem dados sobre sua histó- ria pessoal, seus gostos, desejos, seus brinquedos e brincadeiras preferidas, as vivências gostosas que realizam com os colegas, a participação na escola, na família e na comunidade. As crianças com deficiência múltipla apresentam particularidades, níveis hete- rogêneos de capacidade, necessidades educativas diversificadas, e requerem, em conseqüência 34 disso, uma avaliação individualizada e formas de intervenção didático-metodológica as mais variadas possíveis. Por isso, torna-se indispensável uma avaliação criteriosa e completa de cada criança, com orientações práticas e objetivas de toda equipe que a acompanha, visando possi- bilitar mecanismos funcionais e de melhor aprendizagem. Para isso, torna-se essencial uma avaliação adequada a cada criança, visando conhecer as formas de interação e comunicação que utilizam, a qualidade de experiências que possuem, as necessidades e possibilidades de ação funcional, os níveis diferenciados, as estraté- gias de ação e pensamento. Verificar os obstáculos de acesso ao currículo, as necessidades, quais os conteúdos e atividades que podem modificar as possibilidades de funcionamento e produzir respostas qualitativamente melhores e mecanismos de adaptação ao meio. Nessa tarefa, a educação especial, as instituições especializadas e a família passam a desempenhar papel importante de apoio e suporte à escola comum no que se refere ao atendi- mento às necessidades específicas dos educandos. As avaliações específicas (audiológica, visual, motora, neurológica, psicológica e outras), as intervenções específicas, o currículo funcional, o acompanhamento terapêutico serão desenvolvidos na escola ou instituição especializada. As informações e orientações necessárias ao processo de desenvolvimento e aprendizagem dessas crianças devem ser compartilhadas por essas instituições no momento da elaboração do projeto pedagógico, das adaptações curriculares, avaliação e acompanhamento do processo de inclusão. A escola necessita de informações e orientações de como melhorar o processo de interação e comunicação, proporcionar melhor ação funcional e promover a apren- dizagem, o desenvolvimento da autonomia e independência nas atividades cotidianas. Essas ações transdisciplinares fundamentam não somente a avaliação inicial e a elaboração do projeto pedagógico de inclusão, mas todo o processo de avaliação e cooperação contínua, tendo em vista os planos de intervenção individual e coletivo. Essa prática transdis- ciplinar diminui a dicotomia e distância entre o especial e o comum, para que não haja duas formas diferentes de educar. Trata-se de busca conjunta de estratégias e alternativas metodoló- gicas que possibilitem a inclusão social e promoção da aprendizagem de todos os alunos nos centros de educação infantil. 35 Os procedimentos didáticos e avaliativos deverão ser discutidos, construídos e reformulados, em equipe, ao longo do ano. Torna-se importante, então, o professor registrar os pontos fortes e as dificuldades que a criança encontra para realizar as atividades, registrar a va- lidade dos procedimentos didático-metodológicos utilizados, avaliar ainda o ambiente, a quali- dade e quantidade de mediação proporcionada para que o aluno atinja os objetivos propostos. A avaliação, nessa perspectiva sociológica, não será apenas das dificuldades da criança, mas principalmente da oferta de oportunidades, da qualidade da mediação, da modi- ficação do meio e das estratégias metodológicas oferecidas. Essa responsabilidade social deve ser compartilhada entre a escola, a educação especial ou instituições especializadas, a família e toda a comunidade escolar, buscando em conjunto estratégias para superação das dificuldades Na educação infantil, a organização do tempo e espaço envolve todas as ativida- des de cuidado, de brincadeiras ou de aprendizagem dirigida. Nas brincadeiras, no espaço inter- no ou externo, no parque, na roda de conversas, na roda de histórias, na hora do faz-de-conta, nas oficinas de artes, músicas e na hora do lanche, todas essas situações requerem planejamento cuidadoso, para que a criança possa interagir, comunicar-se espontaneamente, ter uma ação funcional melhor, brincar e aprender. A professora precisa compreender que a criança com deficiência múltipla pode ser mais lenta para agir e dar respostas, por isso é preciso dar mais tempo para que ela se expresse e realize as atividades, ou, em determinados casos, diminuir a quantidade de tarefas diárias. Os recursos pedagógicos, os brinquedos, os equipamentos de parques, as cadeiras e aparelhos de locomoção, para que a criança participe de todas as atividades lúdicas e recreativas, devem ser cuidadosamente planejados e adaptados por toda a equipe de inclusão. Não há necessidade de equipamentos sofisticados, mas funcionais, que possibili- tem o ir e vir na escola, dêem mais agilidade para locomover-se em todos os ambientes e parti- cipar ativamente. Algumas crianças, inicialmente, precisam ser encorajadas pela professora para locomover-se, usar o próprio corpo para deslocar-se no espaço, fazer coisas e brincar. Outras se frustram por não conseguirem realizar as atividades ao mesmo tempo ou próxima das outras 36 crianças. As questões relativas ao tempo próprio de cada um devem ser trabalhadas no gru- po, o que melhorará a auto-estima de todos. A organização do espaço de lanche e banheiro com pias e assentos que possibilitem a atividade com segurança são de fundamental importância, como também a facilitação dos cabides, nos quais podem ser utilizadas figuras ou fotos para identificação, e velcro para facilitar a criança pegar sua sacola, lancheira ou casaco A hora do banho e do lanche é muito importante para a criança desenvolver independência, coordenar os esquemas sensório-motores, desenvolver a intencionalidade, au- tonomia intelectual e moral. Se a criança tem dificuldade para sentar-se, mastigar, engolir, sen- sibilidade oral ou rejeição por alimentos diferentes, torna-se importante a orientação de uma fonoaudióloga e terapeuta ocupacional para adaptações relativas a alimentação, postura, mo- biliários e equipamentos adequados para o desenvolvimento de atividades da vida diária. A criança com múltipla deficiência poderá precisar de ajuda até sistematizar a rotina e adquirir independência em atividades básicas, fundamentais para o desenvolvimento humano e social, como comer sozinha, comer com a mão, colher ou garfo, beber em copo, co- mer no prato, servir-se, lavar as mãos, utilizar o sanitário e controlar os esfincteres. Algumas crianças podem se sentir inseguras no banheiro. O vaso deve ser adap- tado às suas necessidades. Se a criança for pequena, a banheira deve oferecer segurança e lugar de segurar para ela poder se manter sentada. Se for maior e ainda não se senta, pode ser providenciada uma cadeira de banho para que sinta-se confortável e tenha possibilidade de aprender a se banhar. Geralmente, a famí- lia já foi adequadamente orientada pelos terapeutas com relação às estratégias para atividades de vida diária, e poderá planejar e desenvolver inicialmente em conjunto com os professores na creche e pré-escola. 37 Módulo 06 Atividades Secundárias Alternativas Comunicação Alternativa O professor deve estar atento aos objetivos socioemocionais, pois algumas vezes as crianças podem manifestar insegurança, birra, medo, frustração ou agressividade, isso por- que suas necessidades básicas e de comunicação não foram compreendidas. Esses fatores são fundamentais para a potencialização do processo cognitivo e da aprendizagem de crianças que apresentam dificuldades nacomunicação em virtude de altera- ções neuromotoras e sensoriais. Dessa maneira, deve-se buscar formas positivas de interação e trocas comunicativas com a criança, tais como toque, olhar, gestos, posturas, palavras adequa- das ou símbolos que expressem a situação. Algumas crianças podem necessitar de formas alternativas de comunicação para expressar seus sentimentos, desejos, necessidades e pensamentos. A professora poderá utilizar, quando a criança não fala, objetos-símbolo, figuras ou códigos de comunicação. Há diferentes sistemas e códigos alternativos para comunicação que podem ser adaptados para a rotina da sala de aula como o PCS – sistema de comunicação por símbolos, figuras, letras e números. Um recurso interessante para crianças, na educação infantil, é o PIC – sistema de comunicação pictográfica ou por ideogramas. Os ideogramas podem transmitir a idéia da ação e evidenciar os significados. Esses símbolos são flexíveis e permitem nomear, representar noções concretas (de tempo, espaço, causalidade), agrupar por semelhanças e diferenças, categorizar classe, série e construir conceitos abstratos. Outro sistema utilizado para crianças que têm alteração verbal e dificuldades motoras é o sistema Bliss. São sinais gráficos simples, fundamentados no significado, podendo 38 ser utilizados por meio de selos adesivos, prancha de comunicação ou por programa informa- tizado. Assim, a comunicação alternativa é uma estratégia educativa que pode ser criada de acordo com as necessidades do aluno, planejada com os pais e especialistas da comunicação e linguagem, tendo em vista a elaboração e organização do pensamento e a construção do co- nhecimento de forma significativa. Tecnologias e Computação Crianças com severas alterações neuromotoras e sensoriais poderão se beneficiar desde cedo de instrumentos eletrônicos facilitadores do processo de comunicação, avaliação, interação social, linguagem gráfica e aprendizagem da leitura e escrita. Os equipamentos eletrônicos podem ser operados pelo sistema direto de teclado, mouse adaptado, tela sensível ao toque,e indireto, pelo movimento corporal, olhar, sopro, pis- car ou varredura automática. Esses equipamentos de ajuda à comunicação possibilitam inde- pendência e autonomia na execução das atividades pedagógicas. Os acionadores eletrônicos tem a função de realizar o movimento, a indicação, a seleção, a escolha ou ação a ser realizada pela criança. Os acionadores podem ser utilizados em membros de melhor ação funcional como: mão, braço, punho, cabeça ou até mesmo com os pés. Há dispositivos eletrônicos para crianças cegas como os sintetizadores dosvox ou virtual vision, que podem ser acoplados a qualquer programa de computador, jogos pedagógi- cos e utilizados em atividades de leitura e escrita. Para as crianças de baixa visão com proble- mas motores há os progamas pedagógicos que podem ser adaptados às necessidades visuais de cada criança, com adaptação do teclado ou dispositivo para acionar. O CCTV, circuito fechado de TV, permite potencializar o contraste, aumentar a imagem e proporcionar tridimensionalidade à figura. Inúmeras pesquisas têm sido desenvol- 39 vidas nesta última década para desenvolver programas brasileiros para atender crianças com deficiências motoras graves e dificuldade de comunicação. Capovilla (2001), partindo dos tabuleiros de comunicação, do sistema Bliss e PIC desenvolve programas desde 1994; Santarosa (1995) desenvolveu o simulador de teclado; Pelosi (1997), o programa “Comunique”; Borges & Watanabe (2001), o teclado amigo. Ca- povilla (2001) desenvolveu sistemas computadorizados de habilitação cognitiva, comunicação pictográfica alfabetização e escrita alfabética para crianças com alterações neurosensoriais e neurolingüísticas. Esses programas permitem à criança compor mensagens, imprimi-las e fazê-las soar com voz digitalizada para comunicação direta e efetiva com os interlocutores. Os recursos tecnológicos são auxiliares efetivos no processo de aprendizagem, construção do conhecimen- to, acesso ao currículo e inclusão de crianças com múltipla deficiência no sistema comum de ensino desde a educação infantil. 40 Módulo 07 O Papel do Professor na Educação Infantil Professor Especializado ou de Apoio » Favorecer e mediar as relações no programa de intervenção precoce. » Acolher as necessidades, interesses, prioridades e desejos da criança, familiares e creche. » Realizar avaliação funcional do desenvolvimento em inter e transdisciplinaridade e in- tercâmbio com outros profissionais da comunidade. » Analisar no meio (casa – família – escola – comunidade), as possibilidades reais, as po- tenciais e as necessidades do aluno. » Elaborar, em conjunto com os demais profissionais envolvidos, o programa de interven- ção precoce. » Apoiar e ajudar a família a lidar com a criança (cuidados básicos, alimentação, higiene). » Realizar visita domiciliar, quando necessário, para inclusão da criança na família e co- munidade. » Ajudar, apoiar, avaliar e acompanhar o projeto de inclusão nos centros de educação infantil. » Participar, em conjunto com a família e demais profissionais envolvidos, da elaboração do plano de desenvolvimento educacional, de forma que contemplem as necessidades específi- cas e educacionais especiais. » Favorecer o desenvolvimento de competências na família e comunidade para a resolução de problemas no cotidiano. » Apoiar a criação de rede de apoio comunitário. Professor da Creche ou Pré-escola O professor do ensino comum necessita de ajuda, orientação e apoio do profes- sor especializado para a inclusão da criança com múltipla deficiência em creche e pré-escola. O papel do professor do ensino comum entre outros será: » motivar e organizar interação e formas de comunicação com a criança, integrandoa ao grupo; » planejar em conjunto com o professor especializado atividades significativas, lúdicas e 41 funcionais que despertam o interesse da criança; » ajudar a criança a realizar coisas que sozinha não daria conta de fazer; » ajudá-la a explorar o meio e a brincar ativamente; » evitar subestimá-la ou superprotegê-la; » ajudá-la a desenvolver a independência no lanche, na higiene e no brinquedo; » adaptar as atividades de linguagem, simbólicas, histórias, atividades de pesquisa e artes para que possa participar ativamente; » avaliar e reavaliar, em conjunto com o professor especializado, família e equipe os avan- ços, as dificuldades, as estratégias e as intervenções necessárias, e » participar da elaboração do projeto político pedagógico (PPP) e do plano de desenvolvi- mento educacional (PDE) do centro de educação infantil, contemplando as necessidades espe- cíficas e educativas especiais. Programas Especiais de Acessibilidade Um recurso muito útil e facilmente disponível, mas muitas vezes ainda desco- nhecido, são as “Opções de Acessibilidade” do Windows (Iniciar - Configurações - Painel de Controle - Opções de Acessibilidade). Por meio desse recurso diversas modificações podem ser feitas nas configurações do computador, adaptando-o a diferentes necessidades dos alunos. Por exemplo, um aluno que, por dificuldades de coordenação motora, não con- segue utilizar o mouse, mas pode digitar no teclado (o que ocorre com muita freqüência), tem a solução de configurar o computador por meio das Opções de Acessibilidade para que a parte númerica à direita do teclado realize todos os mesmos comandos na seta do mouse que podem ser realizados pelo mouse. Além do mouse, outras configurações podem ser feitas, como a das “Teclas de Aderência”e a opção de “Alto Contraste na Tela” para pessoas com baixa visão, e outras opções. Outro exemplo de pograma especial de acessibilidade são os simuladores de te- clado e de mouse. Todas as opções do teclado ou as opções de comando e movimento do mouse podem ser exibidas por meio de um teclado ou mousesimulado na tela, e selecionadas de forma direta ou por meio de varredura que o programa realiza sobre todas as opções. 42 Para as necessidades de nossos alunos, encontramos na internet o site do técnico espanhol Jordi Lagares, que disponibiliza para cópia (download) diversos programas de uso li- vre (freeware) por ele desenvolvidos. Trata-se de simuladores que podem ser operados de forma bem simples, além de serem programas muito “leves” (menos de 1 MB). 43 Módulo 08 Considerações Finais O desenvolvimento da pessoa com deficiência intelectual e múltipla e seu relacio- namento psico-social são possíveis quando se tem uma interação com a sociedade e a comuni- dade onde se relacionam, tendo sempre em vista seu desenvolvimento cognitivo e possivelmente sua inclusão no mercado de trabalho. A Constituição da República Federativa do Brasil (1988), em seus Artigos 6º e 7º, assegurou o direito ao portador de deficiências ao trabalho, para melhoria de sua condição social e proíbe qualquer discriminação no tocante a salários e critérios de admissão do traba- lhador. Portanto, é de suma importância ressaltar a interação de tais pessoas em meio social e educacional, assim como no mercado, onde os mesmos podem vir a realizar grandes realiza- ções, não só para si próprio como também para os que o rodeiam. Há tempos a educação inclusiva é uma pauta recorrente nas reuniões da ONU e o Brasil tem assumido o compromisso de favorecer cada vez mais as pessoas com deficiência para que seus direitos sejam praticados tanto na escola quanto na sociedade em si. Portanto, vale para todos cobrarem e ajudarem a promover mudanças nesse aspecto. Por meio de recursos da tecnologia assistiva, qualquer indivíduo pode aprender, independente de seu grau de deficiência. Isso precisa ficar claro para derrubar velhos preconcei- tos que não fazem sentido. Logo, cabe a toda instituição buscar maneiras de se engajar para ter sempre as portas abertas para qualquer pessoa disposta a ter uma vida melhor, com tudo que deve assimilar para se tornar independente, crítica e com total cidadania. 44 ANEXO I Deficiência Múltipla, sistemas de apoio e processos de escolarização Maira Gomes de Souza da Rocha Márcia Denise Plestech Resumo Este artigo problematiza as condições de escolarização de alunos com deficiência múltipla severa. A pesquisa qualitativa foi realizada em escolas de dois municípios da Baixada Fluminense/RJ, por meio de entrevistas com professores de turmas comuns de ensino, classes especiais, do Atendimento Educacional Especializado (AEE), e gestores da área de educação especial. Os resultados analisados à luz da perspectiva histórico-cultural mostraram a fra- gilidade das práticas educativas e do sistema de apoios especializados para atender às especi- ficidades de aprendizagem destes sujeitos. Igualmente, mostraram falta de conhecimento dos profissionais da educação sobre as implicações da deficiência múltipla para a sua escolarização. Por último, o artigo discute possibilidades para que tais sujeitos participem das práticas educa- tivas. Palavras-chave: deficiência múltipla, processos de escolarização, sistemas de apoio Introdução Um desenvolvimento não é garantido pelas aprendizagens, pois, com efeito, o processo escolar tem seus encadeamentos, sua lógica e sua organização complexa que lhes são próprias. Os ensinamentos se desenvolvem em função de um planejamento determinado an- teriormente, de uma maneira sequencial, na forma de lições, de deveres, que são organizados segundo os diferentes campos e materiais a ensinar. É essa organização que Vigotski tem em vista quando ele caracteriza as leis da aprendizagem. (FRIEDRICH, 2012, p. 111) A deficiência múltipla tem provocado inúmeras 45 discussões sobre a sua definição e a população que pode ser caracterizada como tal. Não há consenso na literatura nacional e internacional sobre este aspecto. As discordâncias em relação à conceituação de deficiência múltipla muito se de- vem ao fato de alguns a conceberem como uma deficiência inicial que foi geradora de outras, enquanto que outros a consideram como uma associação entre duas ou mais deficiências, sem necessariamente uma ter sido causa do desenvolvimento da outra (ROCHA; PLETSCH, 2015). Outro ponto de discussão diz respeito a necessidade de haver ou não a ocorrên- cia da deficiência intelectual para que o caso em questão seja considerado deficiência múltipla (TEIXEIRA; NAGLIATE, 2009; ROCHA; PLETSCH, 2015; ROCHA, 2014; 2018). Para fins deste artigo a entendemos como um conjunto de duas ou mais deficiências – de ordem física, sensorial, mental, entre outras – associadas que afetam em maior ou menor intensidade o fun- cionamento individual e social dos sujeitos. A esse respeito, destacamos que no contexto dos estudos realizados pelo grupo de pesquisa Observatório de Educação Especial e Inclusão Educacional (ObEE/UFRRJ), os educandos com deficiência múltipla apresentavam necessariamente alguma associação de defi- ciências envolvendo a deficiência intelectual (PLETSCH; ROCHA; OLIVEIRA, 2016). Contudo, é importante dizer que pesquisadores (NUNES, 2001; BERNARDO, 2010) e instituições internacionais nem sempre reconheçam esta possibilidade. A deficiência múltipla manifesta-se de variadas formas e expressa condições diversas de atuação da pessoa no meio ambiente. Essas diferenças às vezes decorrem de complexos fatores que, interagindo, influenciam no intercâmbio com o mundo físico e a vida social. A funcionalidade das pessoas com múltipla deficiência depende de aspectos in- dividuais, como as limitações impostas pelas deficiências, mas, sobretudo, das oportunidades oferecidas a estes sujeitos (BRASIL, 2000). Tendo em vista a abrangência da deficiência múl- tipla, determinados autores delimitam um grupo o qual nomeiam de deficiência múltipla sen- sorial (MAIA; GIACOMINI; ARÁOZ, 2009; SOUZA M., 2010; MAIA; GIACOMINI, 2010; ARÁOZ; COSTA, 2015; MOREIRA, 2017; 2018). 46 Deste modo, uma pessoa com deficiência múltipla sensorial é aquela que apresen- ta deficiência auditiva ou visual associadas a outras condições de comportamento e compro- metimentos, sejam eles na área física, intelectual ou emocional (SOUZA M., 2010). Também é oportuno mencionar a respeito da surdocegueira, que não é um caso de deficiência múltipla nem mesmo de deficiência múltipla sensorial. Isso ocorre porque a surdocegueira é uma defici- ência estritamente sensorial, envolvendo apenas as deficiências auditiva e visual. Apesar do crescimento das matrículas desta população em escolas públicas de Educação Básica, ainda enfrentamos no país um conjunto de desafios para garantir a escolari- zação desse alunado. Rocha (2018) apresenta dados do Censo Escolar que registrou, no con- texto nacional, crescimento nas matrículas de estudantes com deficiência múltipla na Educação Básica em sua totalidade, passando de 62.283 em 2003 para 70.471 em 2015, representando crescimento de 13%. Especificamente, nas classes comuns do ensino regular, os dados mostram cresci- mento de 449%, passando de 7.640 estudantes em 2003 para 41.948 em 20153 . Entendemos que esse crescimento tem relação com a disseminação da Política Nacional de Educação Espe- cial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). Aliás, é importante sinalizar que a referida política não menciona diretamente a deficiência múltipla (ARAÓZ, 2010). Para Rocha (2014), “a não explicitação direta a respeito da deficiência múltipla nos documentos oficiais acaba por prejudicar o desenvolvimento de ações [...]. Desta forma, o suprimento das necessidades mais específicas deste público acaba por não ser priorizado” (p. 30). O mesmo ocorre no texto da Resolução n.4/2009, do Conselho Nacional de Educação, da Câmara de Educação Básica que institui as Diretrizes Operacionais para o AEE na Educação Básica (BRASIL, 2009). Destacamos a importância desse tipo de atendimentopara pessoas com defici- ências múltiplas. No entanto, a legislação não cita a deficiência múltipla, deixando-a apenas implícita no artigo 4 ao mencionar o seu público alvo. Paralelamente, estudos vêm mostrando a falta de investigações envolvendo a temática, sobretudo, se considerarmos as questões educa- 47 tivas (PLETSCH, 2015; ROCHA; PLETSCH, 2015; NUNES, 2016; ROCHA, 2018). Pessoas com múltiplas deficiências em sua maioria apresentam quadros que exigem suportes especia- lizados. O pouco conhecimento a respeito da deficiência múltipla e de suas manifestações di- ficulta a elaboração de ações pertinentes e a articulação entre diferentes setores de serviços na sociedade. Nesse contexto, temos desenvolvido no ObEE um conjunto de pesquisas sobre a estrutura e o funcionamento das redes de ensino na Baixada Fluminense/ RJ no que diz respeito à escolarização do público da Educação Especial. No período de 2013 a 2014 , realizamos um projeto de pesquisa sobre a escola- rização de alunos com múltiplas deficiências em uma escola - de município da referida região - sobre o desenvolvimento de quatro alunos com múltiplas deficiências, não oralizados com base na metodologia da pesquisa-ação. Também analisamos o trabalho pedagógico realizado para esses alunos no AEE oferecido na sala de recursos multifuncionais. Os resultados evidenciaram, entre outros aspectos, o empenho das docentes em realizar um trabalho qualificado junto aos alunos, mas também, as inúmeras dificuldades decorrentes da falta de recursos de tecnologia assistiva e de comunicação alternativa. A pesquisa também mostrou que as escolas têm problemas de infraestrutura, ma- teriais e recursos adequados para atender às necessidades educacionais especiais que são muito específicas para cada aluno com múltiplas deficiências; problemas relacionados ao transporte adaptado público e/ou escolar para que os alunos cheguem à escola; além da falta de articu- lação do sistema educacional com o sistema de saúde, uma vez que muitos alunos com essas deficiências sofrem com convulsões e apneias sem terem o acompanhamento clínico necessário. No caso das práticas pedagógicas, a pesquisa mostrou que falta aos docentes conhecimentos es- pecíficos para efetivar atividades pedagógicas que promovam o desenvolvimento desses alunos. Rocha (2014) acrescentou a este conjunto de dados a necessidade de que docentes conheçam e se apropriem da comunicação alternativa (CA)5 como aspecto fundamental para atuar com alunos com essa deficiência, em especial, quando não oralizados. Estratégias e recursos dessa área poderiam ser utilizados a fim de atender às ne- cessidades educacionais de seus alunos, contribuir para os processos de ensino e aprendizagem e, consequentemente, para o seu desenvolvimento. Tomando esses resultados como base, em 2015 , iniciamos um projeto objetivando acompanhar longitudinalmente a trajetória escolar dos mesmos quatro sujeitos com múltiplas deficiências que participaram da pesquisa anterior. 48 Em outros termos, este artigo problematiza as condições de escolarização de alu- nos com deficiências múltiplas severas, apontando possibilidades e desafios a serem enfrentados para garantir uma escolarização que promova processos de ensino e aprendizagem consideran- do as demandas de acessibilidade desse alunado para que participem das práticas educacionais. Para tal, tomamos o conceito de compensação de Vigotski como referência para discutir as possibilidades de escolarização a partir do oferecimento de apoios e suportes deman- dados por estes sujeitos, de forma a favorecer a sua participação nos processos educacionais e sociais. Considerações Metodológicas Os dados de pesquisa aqui apresentados referem-se a estudos realizados em dois momentos distintos. O primeiro, no período de 2013 a 2017, mediante o acompanhamento das trajetórias de quatro alunos com deficiência múltipla, matriculados a princípio, no ensino comum e no Atendimento Educacional Especializado (AEE), modalidade sala de recursos (Igor, Fernando, Marcelo e Eliza). Nesta fase, as informações de campo foram sistematizadas a partir do relato de duas professoras que haviam trabalhado com os alunos. Pesquisas que acompanhem por um longo período alunos com deficiência múltipla são importantes, pois permitem conhecer o seu processo educacional, as dificuldades enfrentadas e as possibilidades construídas pelas escolas e redes de ensino, assim como pelos próprios sujeitos. Esses dados, num segundo momento, foram relacionados com resultados de uma pesquisa etnográfica que acompanhou três sujeitos com deficiência múltipla (Paulo, Flávia e Rodrigo), alunos de duas diferentes escolas de outro município, entre 2016 e 2017. Desses três alunos, dois estavam matriculados em classes especiais (uma em cada escola) e o terceiro aluno estava no ensino comum com o suporte do AEE (em mesma escola de uma das classes especiais). Para fins deste artigo, usaremos prioritariamente dados obtidos nesses dois estudos por meio de entrevistas semiestruturadas realizadas com gestores e as professoras das classes comuns, classes especiais e do AEE. 49 Assim como Orlando e Caiado (2014, p.818), não consideramos a trajetória in- dividual dos sujeitos pesquisados “como algo lógico em um percurso linear; mas sim, que esse sujeito se enreda nas forças sociais não necessariamente coerentes, quando é levado a optar, por exemplo, pelos estudos”. Isto é, as trajetórias dos sujeitos foram analisadas considerando as condições sociais em que viviam. Ressaltamos que os dados aqui apresentados foram construídos ao logo de vários anos de pesquisa em diferentes escolas de duas redes públicas de educação, ou seja, de duas diferentes cidades, mas que estão localizadas numa mesma região, a Baixada Fluminense, no Estado do Rio de Janeiro. A Baixada Fluminense é conhecida pelos seus grandes problemas sociais, ambientais e educacionais. Caminhos e Possibilidades de Escolarização No período de 2013 a 2017, acompanhamos as trajetórias de Igor (13 anos), Fernando (16 anos), Marcelo (14 anos) e Eliza (22 anos). Os dados revelaram que, apesar dos avanços em termos legais, a política de educação inclusiva ainda não provocou mudanças na vida escolar destes sujeitos. Marcelo (cadeirante, não oralizado) tem comprometimentos moto- res severos e deficiência intelectual e ainda enfrenta problemas sérios de saúde. Com isso, em 2015, saiu da escola especial e foi para uma escola comum da mes- ma rede municipal de ensino, mas em decorrência dos problemas de saúde e locomoção acabou faltando muitas aulas. Igor é surdo e tem Síndrome de Down. Em 2016, foi encaminhado para uma classe especial, após anos matriculado no ensino comum e em sala de recursos, mas fre- quentando praticamente apenas a segunda. Na classe especial, assim como observado nos espaços anteriores, continuou sem usar a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Esse aspecto prejudicou enormemente a sua escola- rização. Segundo relato da professora da sala de recursos, a partir da sua chegada na escola, ele passou a ser menos agressivo. No entanto, em nossa análise, as suas especificidades demanda- riam intervenções mais sistematizadas em diferentes áreas, em particular, no que diz respeito ao ensino de Libras. Em 2017, aos 13 anos de idade, Igor abandonou a escola. 50 Eliza usa cadeira de rodas e apresenta deficiência intelectual. Em 2015, em função de ter completado a maior idade, foi transferida da escola em que estava matriculada no ensino comum com o suporte da sala de recursos para um centro integrado destinado para pessoas jovens e adultas com deficiência do próprio município. Em 2017 abandonou a instituição. Fernando, que tem paralisia cerebral, é usuário de cadeira de rodas e não possui linguagem oral. Ele foi o único que deu continuidade aos estudos e estava, em 2017, matricu- lado no 5.º ano do Ensino Fundamental com o suportedo AEE, por meio da sala de recursos. Como podemos depreender, as políticas educacionais não garantiram a inserção destes sujeitos em práticas e processos de ensino e aprendizagem efetivas. Além das situações de saída do ensino comum, ingressando em classes especiais ou instituições do tipo, observou-se que, por fim, o abandono da trajetória escolar foi algo recorrente. Ou seja, a deficiência múltipla continua marcando a trajetória escolar dos sujeitos, mas também, neste caso, as suas vidas. Nesse sentido, algumas questões se fazem necessárias: Como é identificada a de- ficiência múltipla no contexto escolar? Quais são as concepções docentes predominantes sobre o processo educacional desse alunado? Que estratégias poderiam ser usadas para garantir a participação desses alunos nas práticas educativas? Que suportes e apoios são indispensáveis? Para compreender tais aspectos inicialmente é importante sinalizar que, à luz da perspectiva histórico-cultural de Vigotki (1997), o ambiente escolar é considerado potencializador para o desenvolvimento humano. Deste modo, diante dos desafios apontados para a concretização de processos efetivos de escolarização, tomamos como referência essa perspectiva pelas reflexões desenvolvi- das sobre a aprendizagem, considerando as especificidades de desenvolvimento que os sujeitos podem apresentar. Para Vigotski, a deficiência é ocasionada pela relação entre a lesão orgânica e a cultura (VIGOTSKI, 1997). Deste modo, o autor fortalece suas postulações e princípios sobre o desenvol- vimento cultural, situando-o como um processo que “[...] corresponde ao desenvolvimento psíquico que se produz entrelaçado ao desenvolvimento histórico da sociedade” (SOUZA; DAI- 51 NEZ, 2016, p. 61). A partir deste ponto, o teórico elaborou preceitos sobre o processo de com- pensação. O conceito de compensação foi intensamente trabalhado por Vigotski (1997, 2011) nos estudos da defectologia. Suas postulações são inovadoras e despertam crescentemente o interesse de pes- quisadores pelo mundo (VAN DER VEER; VALSINER, 2009; dentre outros). Dainez e Smolka (2014) ressaltam que a compensação é o principal conceito trabalhado por Vigotski, quando aborda o desenvolvimento da pessoa com deficiência. Vigotski compreende a compensação como uma reação da personalidade ante à deficiência no processo de desenvolvimento da criança “com defeito” (VIGOTSKI, 1997; PA- DILHA, 2000; LIMA, ARAÚJO; MORAES, 2010; DAINEZ, 2014). Segundo ele, o conflito que geralmente acontece por causa da deficiência e que comumente traz muitas dificuldades para a vida do sujeito também pode criar possibilidades e estímulos de compensação. Deste modo, a deficiência ou o defeito (como ele dizia) torna-se o ponto de partida e a principal força motriz por trás do desenvolvimento psíquico da personalidade (VIGOTSKI, 1997; 2011). É oportuno ressaltar que em momento algum Vigotski trabalha a ideia da com- pensação como cura da deficiência. Ele localiza o processo de compensação como propiciador do desenvolvimento de áreas potenciais. Também é plausível destacar que a compensação pode ter diferentes desfechos, porém, qualquer que seja o seu resultado, o desenvolvimento compli- cado pela deficiência constitui sempre um processo criador de construção e reconstrução da personalidade (VIGOTSKI, 1997). Ainda a este respeito, o autor destaca que o desenvolvimento pode acontecer por caminhos indiretos. Eles podem ser trilhados por meio de veículos não convencionais, ou necessitar de recursos ou condições diferenciadas que venham a atender às particularidades implícitas no processo de desenvolvimento. Caso esses caminhos levem à constituição de processos de compensação, o am- biente social terá cumprido o seu papel de favorecer o desenvolvimento pelo viés cultural, ao invés de restringi-lo às condições fisiológicas, a princípio não favoráveis. 52 Neste ponto é que se evidencia a importância de uma escolarização que leve em conta as especificidades dos estudantes com múltiplas deficiências, considerando e correspon- dendo às suas necessidades educacionais especiais (KASSAR, 1999). É neste sentido que as análises sobre o processo de compensação contribuem para que processos de ensino e apren- dizagem sejam beneficiados. As pesquisas empíricas que realizamos nos mostraram que, para a efetivação de uma escolarização com o objetivo de propiciar desenvolvimento, é imprescindível que se ga- rantam determinadas condições e suportes para que este processo de compensação seja desen- cadeado como mais adiante iremos discutir. No entanto, questões relacionadas à identificação dos alunos com múltiplas deficiências nas escolas e até mesmo concepções equivocadas dos profissionais que atuam com os mesmos sobre os seus potenciais de desenvolvimento ainda influenciam de forma negativa na organização, no planejamento e na condução das práticas pedagógicas dirigidas para estes alunos. Em relação a este ponto, verificou-se que, em grande medida, as escolas apre- sentam dificuldades na identificação dos alunos com múltiplas deficiências. Nos dois estudos, verificamos no acompanhamento dos alunos, erros na interpretação dos laudos apresentados no ato da matrícula. Estes se somam a dúvidas em relação ao que de fato seja o conceito de deficiência múltipla, aspectos que contribuem para que esses alunos não sejam identificados ou ainda, em muitos casos, alunos que não a apresentam são identificados como tal. Esses aspectos também foram identificados nas entrevistas com todas as docentes participantes. A este respeito, uma observação mais precisa do aluno juntamente com o conhe- cimento do que seja a deficiência múltipla poderia contribuir, porém, nem sempre isso acontece no ambiente da escola por causa de suas inúmeras demandas. Somando-se a isso ainda há de se considerar a forte influência do modelo médico de compreensão da deficiência nas práticas avaliativas, em detrimento do modelo social e de direitos (GLAT; BLANCO, 2007; PLETSCH; PAIVA, 2018). Também ficou evidente, no conta- to com as professoras e equipes diretivas, que ainda faltam conhecimentos não apenas sobre a 53 deficiência múltipla, mas também sobre as peculiaridades de desenvolvimento destes alunos. Os relatos dos professores e demais profissionais que atuam nas escolas reforçam isso ao indicar a baixa expectativa em relação às potencialidades de desenvolvimento dos alunos com deficiência múltipla, bem como em relação aos sentidos e propósitos da escolarização para este público. Os trechos coligidos a seguir são ilustrativos dessas visões: Após a reunião sobre a proposta de pesquisa, a diretora perguntou-me por que eu teria que fazer a pesquisa com os alunos com deficiência múltipla pois não achava que seria proveitoso realizar esse trabalho com eles pois dificilmente aprendem alguma coisa e talvez isso prejudicasse a minha pesquisa. Propôs que eu fizesse o estudo com outra turma, que tivesse rendimento melhor (Registro em Diário de Campo – Escola 2 - 25/04/17). PROFESSORA AEE: Quais os objeti- vos, o que a gente espera, né? [pausa] Socialização. Acho que não tem muito além disso, eu sinceramente, é a minha opinião, né? (Transcrição de entrevista realizada com a professora de sala de recursos/AEE - Escola 2). VICE-DIRETORA: Pois é... a gente tem que estar redesco- brindo isso todo dia [sentidos da escolarização]. Porque é difícil até traçar objetivo para esses alunos. É muito difícil... a gente tem que ir e de repente, volta. Vai e volta. Eu, particularmente, trabalhando com uma aluna assim... Eu muitas vezes não sabia o que fazer. Assim... Tudo que eu fazia com ela era muito mecânico... me dava uma agonia porque eu não via sentido para ela. Ela fazia, dava aquelas rabiscadas e eu sinceramente... eu não via... Não via muito sentido (Transcrição de entrevista realizada com vice-diretora da Escola 2). Ao nosso ver, essas concepçõese até mesmo a falta de conhecimento dos profis- sionais acabam impactando nas propostas de ensino que, em geral, subestimavam as potencia- lidades e não buscavam estratégias de intervenção que buscassem as possibilidades dos sujeitos. Os dados revelaram, por exemplo, que apesar da não oralidade dos alunos, não havia propostas envolvendo recursos de tecnologias assistivas e da comunicação alternativa, as quais tem se mostrado importantes recursos pedagógicos para os processos de ensino e apren- dizagem de alunos com deficiência múltipla (ROCHA, 2014; MOREIRA, 2017; 2018). Também se evidenciou a falta de articulação e colaboração entre as docentes do AEE, da sala comum e do agente8 de apoio à inclusão. Segundo Marin e Braun (2013), planejar 54 ações conjuntas entre os profissionais envolvidos com a educação de pessoas com deficiências é fundamental para ampliar as possibilidades de participação destes nos processos de ensino e aprendizagem. Além disso, nossos estudos sinalizaram que o acesso à escolarização desses alu- nos é garantido por meio da matrícula, mas ela não se efetiva completamente. Essa firmação é possível, pois ficaram evidentes problemas de frequência e de participação nas aulas, justamen- te dessa parcela que mais precisaria de intervenções educativas. O quadro a seguir traz números a respeito da frequência de três sujeitos partici- pantes da segunda pesquisa: Esses dados mostram que apesar das políticas de acesso, esses alunos não têm assumido o direito de estar na escola o que implica na não efetivação de um processo de esco- larização como o expresso na legislação do nosso país (BRASIL, 1996; 2008; 2009). Considerando que o nosso principal foco de análise é a relação entre escolariza- ção e desenvolvimento, consideramos que é primordial e urgente, primeiramente garantir que estes alunos frequentem o espaço escolar e que esta escolarização venha a se concretizar por meio de ações que oportunizem participação e construção de conhecimentos. Ainda de acordo com nosso estudo a falta de frequência está relacionada a diver- sas questões, mas uma delas chamou a nossa atenção. Segundo relato de uma das mães “não adianta levar para a escola se não aprende”. Propomos como uma das alternativas para ga- rantir a participação plena destes sujeitos nos processos educacionais uma combinação flexível de apoios e suportes especializados para além daqueles já previstos, como o AEE e o agente de apoio a inclusão. Para tal, com base na classificação de sistemas de apoios indicados pela Associa- ção Americana de Deficiência Intelectual e Desenvolvimento - AAIDD (2011) e a Classificação 55 Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF (OMS, 2004), sugerimos alguns caminhos para a escolarização de sujeitos com deficiência múltipla severa. Nossa proposta é justamente, por meio de um sistema de apoio, proporcionar possibilidades de desenvolvimento para que ocorram as compensações em termos vigotskianos. Certamente, muito ainda temos para pesquisar, mas compreendemos que o pro- cesso de compensação teorizado por Vigotski nos ajuda a avaliar os apoios e estratégias de me- diações necessários para que, a partir destes, os sujeitos possam desenvolver processos compen- satórios. Vale lembrar que tanto a AAIDD quanto a CIF reconhecem que os apoios ou suportes podem consistir em: a) tecnologias simples ou de ponta que auxiliem em tarefas cotidianas ou em sistemas de comunicação; b) em recursos humanos, como uma pessoa do convívio familiar que possa orientar um sujeito em tarefas do dia a dia por este não ter autonomia para realizar sozinho, ou alguém especializado que trabalhe individualmente com uma pessoa em uma ativi- dade determinada. Em outras palavras, propiciar instrumentos que deem suporte aos processos compensatórios é o primeiro passo para que este processo possa ser desencadeado. A ideia de pensar em instrumentos que ampliam as condições de apropriação cultural que viabilizam as possibilidades de desenvolvimento da pessoa com deficiência relaciona-se ao próprio conceito de instrumento que aparece nos estudos da perspectiva histórico-cultural. Os instrumentos são elementos externos aos sujeitos. São construídos fora deles e têm a função de provocar mudanças nos objetos e controlar processos da natureza (VIGOTSKI, 2009). Especificamente neste caso, pensamos que estes podem se concretizar como arte- fatos ou suportes que contribuiriam para compensar as limitações dos sujeitos, e assim, colabo- rar para que o processo de compensação se constitua, favorecendo o desenvolvimento. Neste contexto, recursos pedagógicos que atendam às necessidades educacionais dos alunos são fundamentais. Por exemplo, tanto recursos de tecnologias assistivas quanto da 56 comunicação alternativa podem contribuir como instrumentos que favoreçam a interação e co- municação do aluno com deficiência múltipla não oralizado e, assim, possibilitem novas formas de reorganizar a linguagem que é fundamental para a sua aprendizagem escolar. Em outros termos, a partir da aprendizagem da comunicação alternativa, o aluno além de compensar a sua não oralidade, passa a ter suporte para se apropriar do sistema sim- bólico e, assim, estruturar a linguagem. Ainda sobre a comunicação alternativa, podemos dizer que ela pode ser vista como uma ferramenta, mas também como um instrumento psicológico a partir do momento em que o sujeito se apropria dela e a utiliza como mediadora entre si e o mundo ao seu redor. Claro que não temos a pretensão de esgotar o tema, mas compreendemos que as proposições de Vigotski precisam ser utilizadas como suporte das análises e reflexões sobre o processo de aprendizagem para avançarmos na produção do conhecimento e interpretarmos seus conceitos à luz do tempo presente, considerando os avanços científicos e tecnológicos e as condições sociais vigentes. Recursos humanos também se constituem como importantes ele- mentos desse processo. Nas postulações sobre a compensação, verificamos que o outro faz toda a di- ferença como recurso mediador. Nosso raciocínio valoriza as diversas possibilidades que in- divíduos podem ter atuando na mediação dos processos de aprendizagem (VIGOTSKI, 1997; 2011). Nesse contexto, podemos levar em consideração que no processo de escolari- zação podem assumir o papel de mediadores o professor regente, o docente que atua no AEE, a professores extraclasse, os próprios colegas de sala, dentre outros. Rocha (2018) destaca a importância da atuação do professor regente (seja do ensino comum ou da classe especial), do professor agente de apoio à inclusão e do docente do AEE. Em sua análise, ainda é necessário que se refine a atuação desses profissionais, privilegiando-se o trabalho colaborativo, como já sinalizado anteriormente. Assim como nas proposições da AAIDD e da CIF, na análise das entrevistas, notamos que foi unânime a opinião de que para a efetivação da escolarização de sujeitos com deficiência múltipla, é fundamental 57 que os apoios às necessidades educacionais não se restrinjam ao âmbito pedagógico ou ao es- paço da escola. Nos alunos acompanhados por nossas investigações, além do serviço educacio- nal, era difícil eles terem acesso a outros suportes da saúde, por exemplo, que seriam impor- tantes para o seu desenvolvimento. Os suportes da saúde e das demais áreas (serviço social, transportes e outros) favorecem as intervenções realizadas pela educação, a qual, por sua vez, possibilita processos de compensação conforme já discutimos. O trecho a seguir contribui para a nossa análise de como os apoios, para além do contexto educacional, precisam ser elaborados, desenvolvidos e/ou disseminados pelo poder público: O registro comparável da incapacidade entre diferentes áreas políticas e o desenvol- vimento de estatísticas e sistemas de indicadores compatíveis são importantes para sistemas equitativos de prestaçãode serviços e monitoramento. Por exemplo, é possível ver se indivíduos com níveis similares de dificuldade estão recebendo níveis similares de suporte ao longo do espectro de idade em situações onde há di- ferentes sistemas para o cuidado de idosos e jovens com incapacidades. A consistência também possibilita que uma população cliente seja comparada com a população geral e necessidades não atendidas sejam estimadas. (OMS, 2013, p. 84) As propostas tanto da AAIDD quanto da CIF para a construção de planos de apoio contribuem não apenas para a qualidade de vida das pessoas com deficiências, mas tam- bém para pensarmos em suportes que possam ser utilizados para o caso da escolarização de sujeitos com deficiências severas. Dentre estes planos, destacamos o fornecimento de “modelos” (propostas) para integrar as informações baseadas em incapacidades e em currículos, além de informações educacionais e dados clínicos que podem ser úteis para a educação. Rocha (2018) apresenta uma proposta para a construção de apoios. Vejamos: 58 Conforme podemos observar na figura 1, as propostas da CIF e da AAID tam- bém indicam a necessidade de construção e utilização de planos educacionais individualizados. Verificamos que tais planos já estão presentes em muitas escolas. No entanto, ainda carecem de uma construção mais colaborativa e de uma aplicação mais efetiva, a fim de garantir condições institucionais efetivas para a plena inserção dos sujeitos com deficiência múltipla nas práticas educativas. Em se tratando de sujeitos com múltiplas deficiências, devemos garantir suportes e apoios escolares pertinentes as especificidades de aprendizagem, criando aos mesmos possi- bilidades de apropriação dos conceitos escolares e do seu desenvolvimento cultural. Em outros termos, o processo de escolarização pode colaborar com a reorganização neurológica e a rees- truturação das funções psicológicas dos limites impostos pelas condições orgânicas (impediti- vos ao desenvolvimento), por meio das práticas sociais que envolvem a aprendizagem (SOUZA; PLETSCH, 2015). 59 Para isso, a garantia de suportes e apoios pertinentes e adequados é indispensável para que possa ocorrer a compensação social da deficiência. Para concluir, o que nossas pesqui- sas têm mostrado é que as pessoas com deficiência múltipla necessitam de suportes e apoios que tanto a escola comum quanto a escola especial não têm oferecido. Em grande medida, as práticas e intervenções têm focalizado as impossibilidades de aprendizagem ou, no máximo, atividades de socialização, as quais certamente são relevantes, mas não afetam os sujeitos de forma a garantir a apropriação da cultura. Outro aspecto que não podemos omitir ao discutir as possibilidades de escolari- zação de pessoas com deficiência múltipla severa diz respeito às condições concretas de existên- cia dessa população. Muitas vivem em condições sociais precárias, sem acesso aos serviços de saúde, assistência e programas de estimulação precoce, os quais ainda são urgentes para que os sujeitos possam construir caminhos internos que compensam sua deficiência e, assim, amplia- rem as possibilidades de sua condição humana. Este artigo traz elementos que precisam ser aprofundados e problematizados em novas pesquisas, a partir de diferentes referenciais teóricos. Por outro lado, compreendemos que a partir das reflexões aqui apresentadas, não há como discutir caminhos possíveis para a escolarização sem garantir o oferecimento de apoios adequados às diferentes demandas que estes sujeitos apresentam. 60 Quem Somos A Valecup Cursos Pedagógicos é a maior escola na área de Pedagógia do país no ensino a distancia, com 5 estrelas sendo a maior instituição particular mais bem conceituada do Brasil na área de Pedagógia com mais de 50 opções de cursos. São 10 Anos de Tradição em Ensino de Qualidade! Todos os cursos são aprovados e reconhecidos com honra ao mérito pelas melho- res instituições e faculdades. Com sede em Brasília e atuação em todo o território nacional, tem sua história marcada pela ajuda aos professores e professoras de nosso país. Atualmente a Valecup Conta Com 200 Mil Alunos Matriculados em Todo o País. https://bit.ly/326q8yR 61 Referências AAIDD. Discapacidad intelectual: defición, clasificácion ysistemas de apoyo. Asociación Americana de Discapacidades Intelectuales y del Desarrollo. 11.ª Edición. Traducción Miguel Ángel Verdugo Alonso. Edición: Alianza Editorial, S. A. Madrid, 2011. ARAÓZ, S. M. M. de. Inclusão de alunos com deficiência múltipla: análise de um programa de apoio. 2010. 185 f. Tese (Doutorado em Educação Especial) – UFSCAR, SP, 2010. ARAÓZ, S. M. M.; COSTA, M. da P. R. da. Deficiência múltipla: as técnicas Mapa e Caminho no apoio à inclusão. Jundiaí, Paco Editorial, 2015. BERNARDO, A. I. J. A inclusão de um aluno com multideficiência na escola: estudo dos comportamen- tos de interacção entre pares. 2010. 111f. Dissertação apresentada à Escola Superior de Educação de Lisboa para obtenção de grau de mestre em Ciências da Educação - Especialidade Educação Especial. Lisboa, 2010. BRASIL. 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Agradecimentos Módulo 01 Conceitos e Aplicações da Deficiência Múltipla Módulo 02 As Necessidades e Possibilidades das Crianças com Deficiência Múltipla Desbravando Novos Caminhos Quebrando Paradigmas Uma História Excepcional Módulo 03 O Processo de Ensino-Aprendizagem dos Alunos com Deficiência Múltipla Os tipos de Deficiência Múltipla Causas da Deficiência Múltipla Módulo 04 A Importância da Interação e Comunicação na Educação e Inclusão de Crianças com Deficiência Múltipla As Necessidades Educacionais Estrutura da Proposta Pedagógica Módulo 05 A Escola Inclusiva Na Prática Módulo 06 Atividades Secundárias Alternativas Comunicação Alternativa Tecnologias e Computação Módulo 07 O Papel do Professor na Educação Infantil Programas especiais de acessibilidade Módulo 08 Considerações Finais ANEXO I Deficiência Múltipla, sistemas de apoio e processos de escolarização Resumo Introdução Considerações Metodológicas Caminhos e Possibilidades de Escolarização Quem Somos Referências