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ESPAÇO URBANO INDUSTRIAL 1. Pioneiros da industrialização: espaço industrial contemporâneo O espaço econômico-industrial contemporâneo reflete o processo histórico do surgimento e da evolução da produção industrial. Os países e regiões pioneiros nesse processo – Europa Ocidental, Estados Unidos e Japão – concentram a maior parte da renda gerada pela produção mundial de produtos manufaturados ou industrializados, tanto em relação ao valor total como ao valor per capita. Nesses países concentram-se também as sedes da maior parte das empresas transnacionais, o que os caracteriza como polos de decisão. Veja o mapa a seguir: Per capita: expressão latina que significa “por pessoa”. Trata-se de uma média, obtida pela divisão do valor em questão (no caso, o valor total da produção industrial do país em bilhões de dólares) pela população total da área considerada (em geral, umpaís). FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. São Paulo: Moderna, 2013. p. 50.Planisfério da produção industrial e do valor adicionado das manufaturas (2012). É importante destacar que o fluxo de manufaturas entre as regiões mais industrializadas define-se, sobretudo, por produtos de alto valor agregado, isto é, que foram desenvolvidos com a aplicação de tecnologias de ponta e pouca utilização de mão de obra. É o caso, por exemplo, dos produtos eletrônicos e de informática. Os produtos provenientes das regiões menos industrializadas do mundo, por sua vez, caracterizam-se pelo elevado uso de mão de obra no processo de produção. São, portanto, produtos com menor valor agregado, como é o caso das commodities e de artigos fabricados pelas indústrias tradicionais têxteis, de calçados, de alimentos etc. Commodities: produtos do setor primário, ou seja, agropecuários (como soja, algodão, café e carne bovina) e minerais (petróleo, cobre e minério de ferro, por exemplo), cujos preços são cotados em bolsas de mercadorias e futuros para a comercialização internacional. Um dado que deve ser considerado na diferenciação do tipo de produção industrial é o volume de investimentos feitos em pesquisa e desenvolvimento (P&D). O mapa a seguir indica que os países desenvolvidos aplicam percentuais maiores do seu PIB em P&D, o que lhes possibilita desenvolver novas tecnologias e, assim, liderar os setores mais tecnológicos da economia, como as telecomunicações e a informática. Planisfério de pesquisa e desenvolvimento realizados pelos países (2012). O mapa indica que, em 2012, o volume de investimentos em P&D feitos pelos países e regiões mais desenvolvidos e industrializados é muito superior ao dos países menos desenvolvidos e com menor grau de industrialização. Essa grande diferença cria uma relação de dependência tecnológica dos países com menor grau de industrialização para com os países e regiões citados. Espaço industrial da Europa No espaço industrial europeu atual destacam-se as regiões que lideraram o processo de industrialização desde a primeira fase da Revolução Industrial: a da Grã-Bretanha; a do Vale dos rios Reno e Ruhr, na Alemanha, e que se estende à Bélgica e à Holanda; e Paris, na França. A Itália, apesar de ter se industrializado tardiamente em relação aos países pioneiros, é atualmente uma grande potência industrial, cujas atividades se concentram ao norte, na região de Milão. O eixo formado pelas principais áreas industriais entre a Grã-Bretanha e o norte da Itália exerce forte polarização sobre o restante do espaço econômico europeu. Polarização: influência econômica, política e cultural que uma cidade, região ou país exerce sobre o seu entorno. Dezenas de cidades localizadas nesse eixo central destacam-se pela produção industrial bastante diversificada: há desde indústrias de base até de bens de consumo, com o uso de tecnologias avançadas. A criação de tecnopolos, como o de Lyon, na França, Edimburgo, na Escócia, Cambridge, na Inglaterra, Munique, na Alemanha, e Turim, na Itália, favoreceu a dinâmica da produção industrial e reforçou a centralidade dessa região no espaço econômico europeu. Mapa da organização do espaço econômico na Europa (2013). A região que se estende do sul da Inglaterra até o norte da Itália centraliza e polariza as atividades econômicas no continente europeu. A renovação tecnológica aplicada à produção industrial está vinculada aos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, sobretudo nos tecnopolos. CENTRAL INTELIGENCE AGENCY (CIA). The world factbook. Disponível em: <www.cia.gov/library/publications/the- world-factbook/ geos/rs.html>. Acesso em: 11 dez. 2015.Gráfico da composição do PIB por setores da economia na Rússia (2014). Mapa das regiões industriais e de exploração mineral da Rússia (início do século XXI). A porção europeia da Rússia (porção ocidental) é a que concentra a maior parte da produção industrial do país. Ao sul, as regiões mais povoadas e industrializadas se estendem ao longo da ferrovia Transiberiana, a maior do mundo em extensão e que corta o território russo no sentido leste-oeste. Espaço industrial da Rússia A Rússia iniciou seu processo de industrialização no século XIX, mas o maior impulso a esse setor da economia ocorreu após a Revolução Russa, em 1917. Naquele momento, priorizou-se a indústria de base, favorecida pelas importantes reservas de recursos minerais que o país tem em seu território, como ferro, bauxita, ouro, carvão, cobre, estanho, petróleo e gás natural. Durante a Guerra Fria, entre cerca de 1950 e o início da década de 1990, foi a indústria bélica que recebeu grande impulso em razão da corrida armamentista travada com os países capitalistas, principalmente os Estados Unidos. O país enfrentou diversas dificuldades econômicas durante a década de 1990 em função da transição de uma economia socialista para a economia capitalista. A partir de 2000, entretanto, apresentou elevados índices de crescimento do PIB e uma crescente diversidade de sua produção industrial, além do crescimento do setor de serviços. A região da capital, Moscou, e seu entorno, que foi a primeira a se industrializar, exercem forte liderança em relação ao restante do país e a toda a economia regional da Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Comunidade dos Estados Independentes (CEI): bloco econômico liderado pela Rússia e integrado por onze das quinze repúblicas da ex-URSS, atualmente países independentes: Armênia, Belarus, Cazaquistão, Federação Russa, Moldávia, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão, Ucrânia, Uzbequistão e Azerbaijão. As três repúblicas que não aderiram à CEI foram os países bálticos, Lituânia, Letônia e Estônia. A Geórgia deixou a CEI oficialmente em 2009. Além das indústrias de base (metalúrgica, siderúrgica, petroquímica), outras indústrias tradicionais dos setores de mecânica, automobilística e têxtil localizam- -se nessa região e nas áreas adjacentes. Entre os setores de alta tecnologia, destacam-se as indústrias aeronáutica, eletrônica e de telecomunicações. Espaço industrial dos Estados Unidos A primeira região a se industrializar nos Estados Unidos, ainda na segunda fase da Revolução Industrial, foi a Nordeste, conhecida como Manufacturing Belt (Cinturão Fabril). A disponibilidade de matéria-prima (minério de ferro e carvão mineral), o transporte hidroviário propiciado pelos Grandes Lagos e a existência de um mercado consumidor interno favoreceram a industrialização dessa região ainda no século XIX. Na fase atual, ainda que venha passando por transformações em razão da inserção de novos ramos industriais ligados à tecnologia de ponta e de alguns tecnopolos, essa região ainda se caracteriza pela presença de indústrias tradicionais, como siderúrgicas, petroquímicas, têxteis e automobilísticas. Nesse último ramo, destacam-se as cidades de Chicago e Detroit, esta intitulada “capital do automóvel”. Além da criação de tecnopolos, o dinamismo econômico verificado nessa região nos últimos anos está associado à influência da Megalópole Atlântica, conhecida como Boswash (de Boston a Washington). Nessa megalópole, cidadescomo Nova York e Washington abrigam sedes de instituições financeiras e políticas cujas decisões têm influência mundial, a exemplo do Banco Mundial e da Casa Branca (sede do governo dos Estados Unidos). A partir da década de 1960, novas áreas passaram a se industrializar nos Estados Unidos, impulsionadas pela produção de petróleo (no sul) e pelo aumento das trocas comerciais com países da Bacia do Pacífico, principalmente o Japão. Essas novas áreas de industrialização são: o litoral do Golfo do México, com destaque para Houston, e, na costa oeste, as cidades de San Diego, Los Angeles e São Francisco, no estado da Califórnia. CENTRAL INTELIGENCE AGENCY (CIA). The world factbook. Disponível em: <www.cia.gov/library/publications/the- world-factbook/ geos/us.html>. Acesso em: 11 dez. 2015. Gráfico da composição do PIB por setores da economia dos Estados Unidos (2014). As empresas que se instalam nesse conjunto regional denominado Sun Belt (Cinturão do Sol) são predominantemente ligadas à alta tecnologia nos setores aeroespacial, de aeronáutica, de informática e de telecomunicações. Trata-se, portanto, de uma região industrial representativa das transformações que ocorrem no espaço geográfico em decorrência da terceira fase da Revolução Industrial (revolução técnico-científica- informacional). A produção industrial nessa fase está diretamente atrelada à prestação de serviços, principalmente das áreas de informática e telecomunicações, o que reflete na composição do PIB do país. Para atender à demanda por novas tecnologias e mão de obra altamente especializada, diversos tecnopolos são criados na região do Sun Belt, com destaque para o Silicon Valley (Vale do Silício), nas proximidades de São Francisco. Esse tecnopolo é reconhecido mundialmente por sua importância no setor de microinformática, já que abriga sedes de grandes corporações, como Microsoft, Apple, Google, Yahoo!, Facebook, entre outras. Empresas dos setores de microeletrônica, robótica, química fina e biotecnologia também se instalaram nessa região. Mapa da organização do espaço econômico nos Estados Unidos (2010). A partir da década de 1970 verificou-se uma intensa reorganização no espaço econômico estadunidense: o Manufacturing Belt entrou em crise em razão das dificuldades trazidas às empresas dos setores tradicionais (siderurgia e metalurgia, por exemplo) com a produção a custos menores em outras regiões do globo, incluindo o Brasil. No entanto, essa região continua exercendo forte liderança político-econômica internamente e que se estende para todo o mundo por meio, principalmente, da cidade de Nova York. Espaço industrial do Japão O período áureo da industrialização japonesa ocorreu na década de 1960, quando a economia crescia em torno de 10% ao ano. Entre os fatores que favoreceram esse crescimento podem ser citados: investimentos governamentais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e em educação, o que possibilitou desenvolver novas tecnologias e formar mão de obra qualificada; investimentos governamentais na produção industrial de base (siderurgia, química, petroquímica e refino de petróleo), para possibilitar o desenvolvimento da indústria de bens de consumo; reorganização da produção em série, com a rápida adaptação das empresas japonesas às mudanças que ocorriam no mercado; modelo destinado à exportação de produtos de bens de consumo, com elevado valor agregado, o que propiciou acumular capitais no país, fortalecendo o sistema financeiro e a produção industrial. Dessa forma, mesmo sendo dependente da importação de matérias-primas e de recursos energéticos – uma vez que o Japão carece de reservas de petróleo, gás natural, minério de ferro e de outros recursos naturais –, esse país tornou-se, em poucas décadas, uma das principais potências industriais do mundo. Na fase atual, o Japão apresenta uma produção industrial diversificada. Destacam-se as indústrias de tecnologia de ponta, como de microeletrônica, informática e telecomunicações. Além dessas, são também importantes para o país as indústrias tradicionais, como siderurgia, automobilística, naval e de equipamentos ferroviários. A maior parte da produção concentra-se na megalópole japonesa formada pelas áreas mais urbanizadas de três das quatro maiores ilhas do território japonês (Honshu, Shikoku e Kyushu), que se estende de Tóquio a Omuta. Assim como nos Estados Unidos, o setor terciário concentra mais da metade do PIB japonês, dada a valorização de serviços especializados, seja para a produção industrial, seja para o consumo da população em geral. Entre esses serviços, destacam-se os voltados para o setor financeiro, administração de empresas, gerenciamento de sistemas de informação, educação e pesquisas para o desenvolvimento detecnologias. Mapa das regiões industriais do Japão (2011). O mapa mostra a localização da região mais industrializada do Japão, que coincide com a megalópole japonesa. Trata-se de uma área urbanizada, com uma das maiores densidades demográficas do mundo, que se estende de Tóquio a Omuta, na ilha de Kyushu, ao sul. Diversos tecnopolos podem ser encontrados nessa área, a exemplo de Tóquio, Nagoya, Tsukuba, entre outros, que recebem investimentos do governo para o desenvolvimento de tecnologias de ponta. CENTRAL INTELIGENCE AGENCY (CIA). The world factbook. Disponível em: <www. cia.gov/library/publications/the- world-factbook/geos/ja.html>. Acesso em: 11 dez. 2015. Gráfico da composição do PIB por setores da economia no Japão (2014). 2. Regionalização econômica do espaço mundial As transformações no espaço geográfico mundial, resultantes, em grande parte, da dinâmica da produção industrial ao longo do tempo, contribuíram para o estabelecimento de conjuntos regionais ao longo do século XX e início do século XXI. É importante lembrar, porém, que outros fatores associados aos processos econômicos – como as diferenças entre o socialismo e o capitalismo e a forma de inserção dos países na economia global – colaboraram para constituir as regiões que serão apresentadas a seguir. Antes de conhecer essas divisões regionais, leia o texto Região na Geografia, que trata desse conceito de grande importância para a análise geográfica, tanto nos aspectos econômicos como nos políticos, populacionais, socioculturais e naturais. Região na Geografia O termo região está presente em diferentes situações do cotidiano, em conversas informais, nos noticiários ou nas leituras. “Nasci na região Sul do Brasil”; “Os povos indígenas da região do Xingu têm uma grande riqueza natural”; “Gostaria de conhecer a região Nordeste do Brasil” são exemplos do uso do termo região, fundamental para os estudos geográficos. A origem desse conceito na ciência geográfica está associada às características naturais, pois, no século XIX, as regiões eram definidas com base na homogeneidade dos tipos de vegetação, de clima, principalmente, ou ainda delimitadas por acidentes geográficos, como rios, serras ou cadeias montanhosas. Eram as chamadas regiões naturais, cujo princípio baseado na delimitação de áreas com características uniformes também foi aplicado para identificar as regiões econômicas e sociais. Essa corrente de pensamento ficou conhecida como Determinismo Geográfico, e o alemão Friedrich Ratzel (1844- 1904) foi o geógrafo que se destacou nessa vertente. De acordo com Ratzel, as desigualdades sociais estavam relacionadas às diferenças entre as características naturais, e cada grupo social necessitaria de determinado espaço para sobreviver, o “espaço vital” ou lebensraum. Essa foi uma das ideias utilizadas para justificar expansões imperialistas das potências europeias no século XIX. No começo do século XX, os geógrafos franceses, entre os quais se destacou Vidal de La Blache (1845-1918), buscaram novas abordagens para o estudo da geografia regional. Para esse importante geógrafo e seus discípulos, críticos da corrente determinista de Ratzel, a região era concebida como resultado das ações humanas em determinado ambiente. Essa concepção baseia-se, portanto, não só nascaracterísticas naturais, mas também no estudo das relações entre o ser humano e a natureza, e esta era vista como um conjunto de possibilidades – daí o uso do termo Possibilismo para denominar essa corrente de pensamento. As paisagens passaram a ser concebidas como herança histórica e resultado de interações ao longo do tempo entre os elementos naturais e as influências humanas. Entretanto, nessa perspectiva, a região era considerada algo que existia “de fato”, ou seja, um dado próprio da realidade, e caberia ao geógrafo simplesmente delimitá-la e descrever suas características e paisagens. Surge, assim, a denominação região geográfica ou região-paisagem. Na ciência geográfica da atualidade, o conceito de região pode ser entendido como uma criação intelectual de geógrafos ou de outros cientistas. São utilizadas metodologias de estudo que incluem objetivos e critérios preestabelecidos para delimitar determinados conjuntos regionais em certo momento da história. Assim, as concepções deterministas ou possibilistas podem, ainda hoje, nortear alguns estudos regionais, enquanto outras buscam novas abordagens. Existem, portanto, inúmeras formas de regionalizar o espaço geográfico mundial ou partes dele. É importante saber, porém, que uma região representada no mapa não está isolada do seu entorno, tampouco do restante do mundo. Além disso, a escolha de determinado tema e a adoção de um critério para definir as regiões fazem com que outros aspectos do espaço geográfico não estejam representados. Apesar dessas limitações, o estudo regional oferece importantes elementos para o planejamento governamental ou de empresas privadas, assim como para os estudos acadêmicos e escolares. No item anterior, por exemplo, foram analisados mapas que apresentam regionalizações econômicas dos países pioneiros da industrialização e, no item a seguir, serão abordadas as regionalizações econômicas mundiais. A regionalização econômica do mundo Uma importante regionalização político-econômica para entender a dinâmica do espaço geográfico mundial na segunda metade do século XX é a do mundo bipolar, dividido em dois polos político-econômicos (veja o mapa a seguir). Entre 1945 e 1990, as disputas entre os países capitalistas, liderados pelos Estados Unidos, e os países socialistas, liderados pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), polarizaram as relações político-econômicas mundiais. Três grandes conjuntos regionais podem ser identificados nesse período: · o Primeiro Mundo: formado pelos países capitalistas mais desenvolvidos e industrializados; · o Segundo Mundo: composto de países que adotaram o socialismo, independentemente de seu nível de industrialização ou “riqueza”; · o Terceiro Mundo: demais países capitalistas, menos desenvolvidos e com menor nível de industrialização. Planisfério do chamado mundo bipolar (1945-1990). Os polos político-econômicos vigentes durante a Guerra Fria diferenciavam-se por suas ideologias (capitalistas e socialistas) e ainda disputavam a superioridade militar. A dissolução do bloco soviético, a partir do início da década de 1990, e a manutenção do socialismo em apenas alguns países, como Cuba e Coreia do Norte, tornaram essa regionalização obsoleta para a análise do espaço geográfico mundial contemporâneo. Além disso, a expressão Terceiro Mundo tem um caráter depreciativo em relação aos países menos desenvolvidos. Apesar disso, as expressões Primeiro e Terceiro Mundo são frequentemente empregadas ainda hoje para denominar os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos, respectivamente. O fim do regime socialista soviético em 1990 e a consequente dissolução da antiga URSS em 1991 provocaram profundas mudanças na regionalização econômica mundial. O capitalismo se tornou hegemônico e os polos político-econômicos passaram a ser os Estados Unidos, fortalecidos durante a Guerra Fria após a crise do socialismo, a Europa Ocidental (bloco da União Europeia) e o Japão, caracterizando, portanto, uma realidade multipolar, ao menos do ponto de vista econômico. Esses três polos têm suas áreas de influência político-econômica direta (veja o mapa Mundo multipolar da próxima página), que se estende para países com menor grau de industrialização e nível de desenvolvimento na América Latina, na África e na Ásia. Tais polos estão nos centros de comando da economia mundial ou tríade e, em razão disso, lideram o processo de globalização econômica que se acelera significativamente nesse momento histórico (década de 1990). Nesse contexto surge uma nova regionalização mundial, que utiliza como critério o desenvolvimento socioeconômico dos países: a divisão Norte-Sul ou países desenvolvidos e subdesenvolvidos, respectivamente. Essa regionalização representou um avanço significativo em relação às anteriores, que priorizavam a produção econômica e consideravam o PIB ou a renda per capita, pois passa a considerar também o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e que leva em conta a renda per capita, a expectativa de vida e a escolaridade da população de um país. Planisfério do mundo multipolar (1996). Além das áreas de influência dos três polos político-econômicos, o mapa representa também a regionalização mundial pelo critério socioeconômico (países desenvolvidos e subdesenvolvidos). Note que a divisão socioeconômica dos países não é delimitada pela linha do Equador, já que há países do Hemisfério Norte que são subdesenvolvidos e há países do Hemisfério Sul que são desenvolvidos. É preciso lembrar, ainda, que há diferenças nos níveis de desenvolvimento dos países de uma mesma região (Norte ou Sul), representados no mapa seguinte. A regionalização Norte-Sul, apesar das limitações que apresenta, vem sendo atualizada à medida que ocorrem transformações socioeconômicas nos diversos países, em especial nos do Sul. Uma dessas transformações foi o desenvolvimento dos Novos Países Industrializados (NPI) nas últimas décadas, seja em relação à sua inserção nas relações econômicas globais, seja na melhoria das condições de vida de sua população. Surge, assim, o chamado grupo dos países emergentes, formado por Brasil, Argentina, Chile e México, na América Latina; África do Sul, no continente africano; Índia, China, Turquia e os chamados Tigres Asiáticos e, depois, Novos Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Cingapura, Indonésia, Filipinas, Malásia e Tailândia). Planisfério dos níveis de desenvolvimento socioeconômico (década de 1990). Algumas regionalizações Norte-Sul têm procurado incorporar realidades específicas de alguns países para reduzir a generalização, presente em qualquer delimitação de regiões em escala global. Note que há quatro grupos de países que compõem o conjunto regional Sul, diferenciados por níveis de desenvolvimento e pela produção de petróleo, que geram PIB e renda per capita elevados, mas não necessariamente acompanhados por altos níveis de desenvolvimento humano. RELEITURA Neste capítulo, foram analisados os principais processos histórico-geográficos que possibilitaram a industrialização dos países pioneiros, ou seja, a Inglaterra, seguida pelos demais países europeus ocidentais, os Estados Unidos e o Japão. O percurso histórico teve início com a análise da fase do capitalismo comercial, que sucedeu o feudalismo e propiciou a acumulação de capital necessária para a industrialização da Europa Ocidental, liderada pela Inglaterra. Nessa primeira fase do sistema capitalista, estudou-se também a Divisão Internacional do Trabalho (DIT), que se caracterizou pela exclusividade das metrópoles europeias, detentoras das técnicas de produção no fornecimento de manufaturas, restando aos demais países a função de fornecedores de matérias-primas de origem mineral e vegetal (produtos florestais e agrícolas). No capitalismo industrial, que corresponde à segunda fase desse modo de produção, foram estudadas as transformações que ocorreram em três momentos distintos de um mesmo processo: a Revolução Industrial. A utilizaçãode novas fontes de energia, como o petróleo na segunda fase dessa Revolução, e a introdução de novos modelos de produção, como o fordismo (na segunda fase) e o toyotismo (na terceira fase), provocaram grandes mudanças no setor secundário. Nessa segunda fase, alguns dos países de economia planificada (socialistas) se industrializaram. A terceira fase da Revolução Industrial, que se estende até o período atual, está inserida no contexto da revolução técnico-científica-informacional, marcada pela introdução das tecnologias de ponta (microeletrônica, informática, biotecnologia, nanotecnologia, entre outras) na produção industrial. Os países pioneiros continuam liderando a produção industrial e os fluxos que atualmente caracterizam a DIT. Na terceira fase do capitalismo, que se confunde com a terceira fase da Revolução Industrial, há uma forte internacionalização da produção e do consumo, além de um aprofundamento da tendência à monopolização da produção industrial, com a formação de trustes, conglomerados, holdings e outras formas de união de empresas, consideradas legais ou não. Por fim, foram abordadas algumas regionalizações econômicas que contribuem para os estudos geográficos. A regionalização Norte-Sul mostra, ao mesmo tempo, as limitações e as possibilidades de análise das características socioeconômicas dos países por meio do conceito de região. Sua principal limitação consiste na generalização, necessária sobretudo quando se trata da análise em escala global. Referências ALVES, Glória da Anunciação. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri; CARRERAS, Carles (Org.). Urbanização e mundialização: estudos sobre a metrópole. São Paulo: Contexto, 2008. v. 4. p. 137-149. (Novas abordagens – Geousp.) 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