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Aeração em Bioprocessos Nei Pereira Jr. Professor Emérito Laboratórios de Desenvolvimento de Bioprocessos Escola de Química-CT/UFRJ nei@eq.ufrj.br mailto:nei@eq.ufrj.br Exemplos de Bioprocessos Aerados Fermentação acética Fermentação cítrica Fermentação itacônica Produção de levedo de panificação Produção de antibióticos Produção de vacinas Produção de vitaminas Produção de enzimas Processos de biotransformação Processos com microrganismos recombinantes Cultivos de células animais Biotratamento de resíduos e efluentes I Solubilidade de oxigênio a diferentes temperaturas Temperatura (°C) Solubilidade (Ar, 1 atm) mmol O2 / L mg O2 / L 0 0.456 14.6 10 0.355 11.4 15 0.322 10.3 20 0.288 9.24 25 0.263 8.42 30 0.242 7.75 35 0.228 7.29 40 0.215 6.90 A quantidade de oxigênio que um determinado volume de água pode solubilizar é função da: 1. pressão atmosférica exercida na interface ar-água; 2. temperatura da água. 3. quantidade de substâncias dissolvidas na água. Aeração em Biorreatores Métodos de aeração Aeração superficial (turbulência ao nível de superfície) Aeração forçada (com distribuição de ar) Tipos de Biorreatores Culturas estacionárias Frascos agitados Biorreatores agitados mecanicamente Biorreatores com escoamento pneumático (colunas de bolha e biorreatores de leito expandido por ar) Biorreatores de leito fluidizado Detalhe de um aerador de superfície A aeração forçada também pode ser fornecida através de aeradores de superfície Culturas estacionárias Fernback Frascos agitados A taxa de transferência de O2 (TTO) depende: velocidade de agitação; volume de líquido; geometria do frasco (área superficial e chicanas). sem chicanas com chicanas volume de líquido área superficial chicanas TTO TTO TTO É o tipo mais comum de biorreator, altamente flexível. Agitação mecânica: Distribui/dispersa as bolhas gasosas através do biorreator; Aumenta o tempo de residência das bolhas; Subdivide bolhas de grande tamanho para formar bolhas menores; Fornece altos valores de taxa de transferência de oxigênio; Ar é suprido por um distribuidor; Mistura é realizada por meio de impelidores do tipo disco ou turbina; Chicanas também aumentam a mistura. Biorreatores com agitação mecânica interna Biorreatores agitados mecanicamente sem borbulhamento de ar N=300 rpm: pouca incorporação de ar N=450 rpm bolhas grandes são incorporadas ao meio N=750 rpm o meio de cultivo está rico com bolhas pequenas incorporadas pela superfície do líquido Biorreatores agitados mecanicamente com aeração forçada A agitação mecânica é usada para subdividir as bolhas e, portanto, aumentar a capacidade de oxigenação do sistema. Obviamente, biorreatores STR com distribuição de ar necessitam de significativamente menores velocidade de agitação para atender altas eficiências de aeração quando comparados àqueles apenas agitados mecanicamente. Biorreatores com escoamento pneumático O biorreator airlift difere do coluna de bolhas pela presença de um dispositivo, colocado interna ou externamente, denominado draft tube, que promove melhor transferência de massa, calor e quantidade de movimento. Tanto um quanto outro são comumente utilizados em culturas de microrganismos sensíveis ao cisalhamento decorrente da movimentação do líquido. Estes biorreatores possuem alta relação H/DT (entre 8:1 e 20:1) a fim de se alcançarem elevadas retenções das bolhas gasosas no seio do líquido e de gerar altas pressões hidrostáticas na região próxima à distribuição do ar (na base do biorreator) O Biorreator Airlift: Regiões: air riser (de percurso ascensional das bolhas); downcomer (de percurso descendente das bolhas) e disengagement (de separação). Aplicações: • Células floculantes; • Células imobilizadas; • Células vegetais. Funções do draft tube: • Aumenta o grau de mistura, imprimindo, fundamentalmente, escoamento axial, quando comparado à coluna de bolhas; • Reduz coalescência das bolhas; • Equaliza as forças cisalhantes ao longo do biorreator. Funções do draft tube: Aumenta o grau de mistura, imprimindo, fundamentalmente, escoamento axial, quando comparado à coluna de bolhas; Reduz coalescência das bolhas; Equaliza as forças cisalhantes ao longo do biorreator. Demanda e Suprimento de Oxigênio Q; vs; Na; KLa; KGa DEM = SUP YP/S YX/S QP DEMANDA: • Problema de ordem fisiológica; • Função das necessidades metabólicas da célula; • Proporcional a concentração de biomassa ativa. SUPRIMENTO: • Problema de ordem física; • Função da geometria do biorreator; capacidade dos compressores de ar; sistemas de agitação e de distribuição de ar; propriedades fisico-químicas do meio e temperatura. Percurso do oxigênio da fase gasosa até a célula 1. Película gasosa estagnada no interior da bolha. 2. Transporte através da interface gás-líquido. 3. Película líquida estagnada próxima à bolha gasosa. 4. Transporte através do seio do líquido. 5. Película líquida estagnada na vizinhança do agregado celular sólido. 6. Transporte através da interface líquido-sólido. 7. Difusão no interior do agregado celular sólido. 8. Transporte através da membrana celular até o sítio de reação intracelular. DEMANDASUPRIMENTO dt dCL A taxa de transferência (de absorção) de oxigênio é dada por: XqDEMANDA O 2 onde: qO2: demanda específica de oxigênio (mg O2/g células.h) X: concentração de células ativas (g/L) e a demanda global por: Teoria das duas Películas ou Teoria de Whitman Película Líquida Película Gasosa Pg Pi Ci CL Fase Gasosa Fase Líquida Interface G-L Onde: Pg: pressão parcial de O2 na fase gasosa; Pi: pressão parcial de O2 na interface gás-líquido; Ci: concentração de O2 dissolvido na interface G-L, em equilíbrio com Pi; CL: concentração de O2 dissolvido no seio do líquido. SUPRIMENTO Suposições: Escoamento laminar ao longo da interface gás-líquido; Fluxo de matéria constante nos três estágios (estado estacionário); Equilíbrio instantâneo entre a pressão parcial do gás e sua concentração no líquido, quando o gás entra em contato com o líquido. Gás (soluto) e líquido (solvente) comportando-se como ideais (Leis de Henry e Rauolt). aCCaPP dt dC LiiG L onde: dCL/dt: taxa de transferência de oxigênio ou taxa de absorção (mol O2/m 3.h); a: área específica da superfície de interface ou área da interface por unidade de volume de líquido (m-1). Incorporando-se à equação KG e KL (constantes de proporcionalidade) LiLiGG L CCaKPPaK dt dC onde: KG: coeficiente global de transferência de massa na fase gasosa (mol O2/m 3.h.atm); KL: coeficiente global de transferência de massa na fase líquida (m/h). Como a fase que oferece maior resistência à transferência de massa é a líquida, temos que: LiL L CCaK dt dC Fazendo-se Ci CS: LSL L CCaK dt dC onde: CS: concentração de saturação de oxigênio dissolvido (mol O2/L) KLa, assim como KGa, são, portanto, expressos como uma medida da capacidade de oxigenação do sistema reacional. Devido ao fenômeno de coalescência e sub-divisão das bolhas gasosas, a medida prática de “a” é bastante difícil, desta forma o produto dos coeficientes globais de transferência de massa com a área de interface representam com que eficiência a transferência de massa está ocorrendo. XqCCaK dt dC OLsL L . 2 Modelo de Transferência de Oxigênio em Bioprocessos CL concentração de O2 no seio do líquido, mg/L; KL coeficiente global de transferência de massa na camada estagnante ao redor da bolha gasosa, m/min; a área interfacial por unidade de volume, 1/m; CS concentração de saturação de oxigênio dissolvido, mg/L; qO2 taxa específica de consumode oxigênio, mg/g cél.h X concentração celular, g/L Valores típicos de dCL/dt e KLa: Biorreator/escala dCL/dt (mmoles/L.h) KLa (h-1) Frasco de Erlenmeyer 30 – 60 200 – 400 Biorreator de laboratório 60 – 120 60 – 500 Biorreator industrial 70 - 100 100 - 400 2. Método direto: a determinação é feita na presença do agente biológico. 2.1. Método dinâmico de Taguchi e Humphrey 2.2. Método do balanço gasoso Métodos de determinação de KLa 1. Métodos indiretos: a determinação é feita na ausência do agente biológico. Mede a capacidade de oxigenação do equipamento. 1.1. Desoxigenação química com sulfito 1.2. Oxidação do sulfito 1.3. Desgaseificação 1.4. Oxidação enzimática da glicose LSL L CCaK dt dC dtaK CC dC L LS L . tg = - KLa tempo Ln (CS – CL) 1.1. Desoxigenação química com sulfito AtaKCCLn LLS . Na2SO3 + ½ O2 Na2SO4 Cu2+ ou Co2+ CS CL tempo Emprega-se quantidade de sulfito estequiométrica . 2 31 esteq S L f t SO C aK t C C aK L S L 1 LSL L CCaK dt dC 1.2. Oxidação do sulfito onde: CS concentração de saturação oxigênio CL concentração de oxigênio dissolvido no seio do meio t tempo C oxigênio absorvido SO3 2- sulfito consumido festeq. fator estequiométrico = 16/126 LSL L CCaK t C 0 Opera-se com excesso de sulfito Na2SO3 + ½ O2 Na2SO4 Cu2+ ou Co2+ N2 Ar (O2) 1.3. Desgaseificação tempo início da desgaseificação início da aeração t0 t1 CL CL,1 CL,0 LSL L CCaK dt dC 1, 0, 1 0 . )( LC LC t t L LS L dtaK CC dC 01 0, 1, ttaK CC CC Ln L LS LS 180 161 t Gli C aK s L 1.4. Método da glicose oxidase (GO) 196 16.1 t GluÁc C aK s L ou 2.1. Método dinâmico de Taguchi & Humphrey XqCCaK dt dC OLsL L . 2 C6H12O6 + ½ O2 -gliconolactona ácido glucônico GO CL DEM=SUP I II III I DEM=SUP tg Cc tempo (dCL/dt)1 (dCL/dt)2 supressão da aeração reinício da aeração 2.1. Método dinâmico de Taguchi & Humphrey 2.1. Método dinâmico de Taguchi & Humphrey Região I Região II Região III Determinação de KLa na Região III Explicitando C, temos que: SO L L L CXq dt dC aK C . 1 2 baxmy que é da forma: CL CS tg =-1/KLa XqO .2 dt dC Xq LO .2 coeficiente angular Concentração Crítica de Oxigênio: Valores Típicos Quando a concentração de O2 dissolvido for maior do que a Cc as células não estarão limitadas em oxigênio; no entanto, a permanência das células em ambientes com concentrações de oxigênio dissolvido Cc poderá comprometer o seu metabolismo, havendo casos em que não se consegue retomar as atividades fisiológicas da célula. 2.2. Método do balanço gasoso Oxigênio como nutriente limitante Relação típica de Monod entre e [CL] X CK C Y CCaK dt dC OUROTR dt dC X CK C Ydt dC OUR X CK C dt dX LO Lm O X LSL L L LO Lm O X L LO Lm 2 2 1 1 X CK C Y CCaK OUROTR LO Lm O X LSL 2 1 No estado estacionário: 0 dt dCL Variáveis que afetam o KLa geometria do biorreator (em particular a HL); regime de escoamento (laminar ou turbulento); tamanho das bolhas gasosas; propriedades físico-químicas do meio de cultivo; temperatura; vazão de ar introduzido no sistema; tipos de sistema de agitação e de distribuição de ar. Variáveis que afetam a capacidade de oxigenação do biorreator: Variáveis que influenciam o valor de KLa 1. Altura da coluna líquida (Eckenfelder e col.) B: constante Q: vazão volumétrica de ar V: volume de meio h: altura de coluna líquida dB: diâmetro da bolha : viscosidade do meio : densidade do meio D: difusividade do gás no líquido onde: : tensão superficial do : diâmetro do orifício do distribuidor L: densidade do líquido L: densidade do gás D NSc . 5,0 3/2 . / ScB L Nd hVQB aK 3/1 6 gL o B g d d Viscosidade aparente do meio de produção de exopolissacarídeos por Trametes trogii em biorreator agitado mecanicamente (STB) e em biorreator airlift (ALB). Alterações reológicas em meios de cultivo com fungos filamentosos Viscosidade efetiva versus tempo do cultivo de Penicillium chrysogenm. Fonte: Charles (1978) Fonte: Xu et al. (2013) tensão superficial [M.T-2] do diâmetro do orifício do distribuidor [L] dB diâmetro da bolha [L] L densidade do meio líquido [M.L -3] g densidade do gás [M.L -3] L viscosidade do líquido [M.L -1.T-1] g viscosidade do gás [M.L -1.T-1] Pg potência absorvida pelo líquido [M.L 2.T-3] 2. Estimativa da área da bolha de ar Fonte: Ju e Sundararajan (1995). 3. Hold-up () é função das propriedades físico-químicas do meio, do grau de aeração, podendo ser correlacionado ao número de aeração (Na), para diferentes tipos e dimensões de impelidor =0,995 g.cm-3 =0,890 mPa.s =1,016 g.cm-3 =68 mPa.s N=275 min-1 H2O Sol. Amido 4% Fonte: Junker et al. (1998) 75,0890,0 853,0 03,15,0525,02 .1105,0 app r d LmrgL A A DvaK KLa: coeficiente de absorção de oxigênio (vg)r :velocidade superficial do gás; Ar : área da seção reta do “riser”; Ad : área da seção reta do “downcomer”; µapp :viscosidade aparente; Dm: difusividade molecular; L: densidade do líquido; : tensão interfacial. 4. Velocidade do ar n gL vaK n=n(H/DT; Pg/V) biorreator g A Q v 67,0 95,0 1 0635,0 g L g D H v v V P K T L Kv=Kga: coeficiente de absorção de oxigênio vg :velocidade superficial do gas; Pg : potência efetiva VL : volume de líquido no biorreator µapp :viscosidade aparente Fonte: Cooper et al. (1944); Popvic & Robinson (1984). STB ALB Faixa de validade: 0,03 vgr 0,26 m.s -1 0 Ad/Ar 0,44 0,22 app 0,5 Pas 1,003 L 1,240 kg.m -3 5. Velocidade de Agitação N As bolhas não são subdivididas eficientemente e tendem ascender diretamente para a superfície Bolhas de pequeno tamanho são geradas e se movimentam por todo o biorreator, sendo a sua retenção e o seu tempo de residência aumentados 5,05,0 4,0 Nv V P KaK s L g L Exemplo: Equação de Bartholomew (1982) N Legenda: vS do ar (×10 -3 m/s): (◊) 1,71; (■) 3,41; (x) 5,12; (•) 6,82; (∆) 8,53 Dependência de KLa com a velocidade de agitação (N) e velocidade do ar (vs) em sistema G-L com um único impelidor do tipo turbina Smith com 6 lâminas curvas Fonte: Kielbus-Rąpala e Karcz (2018) Elevadas condições cisalhantes são empregadas para reduzir o tamanho das bolhas As taxas cisalhantes aumentam com a velocidade de agitação ou com a velocidade periférica do impelidor A velocidade de agitação gera forças cisalhantes importantes para a subdivisão das bolhas, por outro lado podem comprometer a integridade das células Turbina a Disco Pá Propulsor 6. Tipos e sistemas de agitação n aK aK L nL 6,04,0 1 37,07,056,0 10./8,20,2 NvVPnaK sgL 41 n Moritz e col. Fukuda e col. 7. Tipo de distribuidor de ar • bolha única; • tubos perfurados (anéis, cruzados); • discos sinterizados (material cerâmico ou metálico) definem o tamanho das bolhas gasosas Biorreator airlift de bancada 6 furos de 1 mm 36 furos de 0,386 mm Sinterizado Volume Total 15 L Volume Útil 10 L Diâmetro (D) 150 mm Altura (H) 900 mm Relação H:D 6:1 LSL L CCaK dt dC 01 0, 1, ttaK CC CC Ln L LS LS Método da Desgaseificação 1, 0, 1 0 . )( LC LC t t L LS L dtaK CC dC MAPEAMENTO DA CAPACIDADE DEOXIGENAÇÃO DO BIORREATOR (KLa) airlift 0 10 20 30 40 50 60 70 2 4 6 8 10 K L a ( h -1 ) Vazão (L/min) 6 furos de 1 mm 48 furos de 0,386 mm Sinterizado LSL L CCaK dt dC 01 0, 1, ttaK CC CC Ln L LS LS 1, 0, 1 0 . )( LC LC t t L LS L dtaK CC dC 20 30 40 50 60 70 80 90 2 4 6 8 10 K L a ( h -1 ) Vazão (L/min) 24°C 37°C MAPEAMENTO DA CAPACIDADE DE OXIGENAÇÃO DO BIORREATOR (KLa) airlift Método da Desgaseificação 0,8 0,9 1 1,1 1,2 1,3 10 15 20 25 30 35 K L a ( t o C )/ K L a (2 0 o C ) t (oC) Temperatura Solubilidade (Ar, 1 atm) T (°C) mmol O2 / L mg O2 / L 0 0.456 14.6 10 0.355 11.4 15 0.322 10.3 20 0.288 9.24 25 0.263 8.42 30 0.242 7.75 35 0.228 7.29 40 0.215 6.90 Solubilidade de oxigênio a diferentes temperaturas 8. Temperatura 2/1 12 21 2 1 . . T T aK aK TL TL T solubilidade O2 , porém líquido Fonte: O’Connor e col. (1976) 9. Concentração Celular Efeito da concentração de células de levedura sobre o valor de KLa Efeito da concentração micelial sobre KGa na fermentação penicilínica Fonte: Ju et al. (1991) e Ju & Sundararajan (1995) redução da permeabilidade do oxigênio devido à resistência decorrente do acúmulo de camadas de células próximas à superfície da bolha. Redução de KLa devido ao aumento da viscosidade, seja pela síntese de substâncias viscosificantes ou pelas características pseudoplásticas adquiridas pelo meio em função do aumento da concentração celular (e.g. fungos filamentosos) 10. Efeito da tensão superficial sobre o KLa (oxigênio-água-Triton) Fonte: Albal et al. (1993). A redução na tensão superficial provoca diminuição da resistência ao cisalhamento das bolhas gasosas e, portanto, redução de seu diâmetro e aumento da área interfacial.