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INTRODUÇÃO Retalho cutâneo é a transferência de um segmento de pele de um local do organismo para outro, mantendo-se um pedículo vascular. *Em termos atuais essa afirmação está até incompleta. Hoje em dia temos retalhos pediculares e também temos os retalhos a distância, na onde carreamos o pedículo vascular da área doadora até a área receptora, anastomosando o vaso receptor com o vaso doador (retalho livre) O melhor retalho é aquele que reconstrói, da forma mais simples, totalmente uma área com perda de substância (defeito), seja ela congênita, decorrente de um trauma ou da retirada de um tumor, mantendo, da melhor maneira possível, as mesmas características do local do defeito sem provocar sequelas na área doadora: • Cor • Espessura • Textura • Elasticidade • Presença ou não de pelos e/ou outros anexos da pele • Sem distorções ou retrações • Preservação da função do local (pescoço, axilas, mãos, membros inferiores etc.), ou órgão reconstruído (nariz, pálpebras, lábios, orelhas, genitais etc.). • Aspecto estético. SUSHRUTA (400 AD) descreveu o primeiro retalho da história da Cirurgia Plástica (retalho da região frontal para reconstrução de nariz em indianos mutilados). TAGLIACOZZI (1597) descreveu o retalho cutâneo direto do membro superior para a reconstrução nasal. Primeiro retalho descrito, o cirurgião desenhava mais ou menos o retalho do nariz e tentava reconstruir Era meio bizarro, o grande problema dessa época antiga, é que o cirurgião não tinha conhecimento vascular, então ele fazia a autonomização (levanta o retalho e deixa o pedículo conectado no leito). ANATOMIA CUTÂNEA E VASCULAR Na cobertura do esqueleto osteomuscular, temos os seguintes planos: o Epiderme o Derme o Tecido celular subcutâneo - camada superficial ou areolar o Fáscia superficial ou de Scarpa o Camada profunda ou lamelar o Fáscia profunda o Músculo • A camada areolar permite o deslizamento da pele sobre o plano profundo e contém poucos vasos, apenas perfurantes, sendo um ótimo plano de clivagem para levantamento de retalhos. Conseguimos observar todas essas camadas MACROCIRCULAÇÃO • Grandes ramos vasculares → Artérias segmentares (que irão irrigar extensas massas musculares) → Artérias perfurantes (que podem ser de três tipos: miocutâneas, septocutâneas ou cutâneas diretas, as quais são ramos perpendiculares à pele e formarão os plexos vasculares subfascial, subdérmico e dérmico, que, por sua vez, irão irrigar determinadas regiões da pele). • As artérias miocutâneas têm como característica irrigar uma pequena região circular de pele e dão excelentes ramos para compor os retalhos ao acaso, a partir dos plexos vasculares subfascial, subdérmico e dérmico. • As artérias septocutâneas e cutâneas diretas são ramos mais longos e, portanto, ótimas para compor os retalhos axiais, com grandes segmentos de pele. Temos uma artéria de maior calibre, que dá origem a uma artéria que perfura o músculo em direção ao tecido subcutâneo, a derme profunda e a derme papilar. Essas artérias vão ter uma irrigação apenas circular. Então não conseguimos colher um retalho de grande extensão, pois dependemos de artéria pouco calibrosas que irrigam uma área pequena. Acaba que utilizamos esse tipo de artéria para retalhos de “vizinhança” MICROCIRCULAÇÃO Proveniente dos plexos subdérmico e dérmico, emergem os ramos que irão formar a microcirculação cutânea, a responsável pela nutrição da pele, termorregulação, homeostase e hemodinâmica vascular. *Aqui os vasos são menores ainda sendo impossível isola-los. Utilizamos então uma rede de capilares • Arteríolas (50 a 100 μm de diâmetro) → Metarteríolas ou Arteríolas terminais (50 μm) → Capilares (7 μm), onde ocorrem as trocas gasosas e de energia em nível celular. • Esses capilares possuem os esfíncteres pré-capilares, que regulam a microcirculação de acordo com os estímulos nervosos simpáticos, que controlam a abertura ou fechamento desses esfíncteres, e determinam uma vasodilatação ou vasoconstrição, conforme as necessidades metabólicas locais (oxigênio, adenosina, hidrogênio, manutenção ou perda de temperatura etc.). • Da confluência de dois ou três capilares surgem as vênulas pós-capilares ou coletoras (3 a 8 μm), que dão origem às vênulas musculares (50 a 100 μm), que, por sua vez, dão origem às veias coletoras e, a partir daí, reinicia-se a macrocirculação. • Existem, na rede capilar, as anastomoses ou shunts arteriovenosos, que fazem a ligação das arteríolas às vênulas em nível pré-capilar; a abertura/fechamento desses shunts é controlada pela presença de esfíncteres pré-shunts, também inervados pela ação do sistema nervoso simpático. • A abertura desses shunts desvia o fluxo sanguíneo dos capilares diretamente para as vênulas, isolando a rede capilar, impedindo as trocas gasosas e aumentando o fluxo na macrocirculação. O inverso também é verdadeiro, e é através desse mecanismo que ocorrem a termorregulação e o auxílio no controle às variações de pressão arterial (hemorragia, choque séptico). Teremos artérias maiores dando origem aos capilares, que se anastomosam com as veias, vão formando veias maiores até devolver para veia coletora que é a veia maior ANATOMIA E FISIOLOGIA NEUROVASCULAR DOS RETALHOS • As artérias miocutâneas, após nutrirem e atravessarem os músculos, dão ramos perpendiculares à pele, os quais formarão os plexos subdérmicos e dérmicos, e, desses plexos, partem ramos que irrigarão pequenos segmentos de pele (circulação randomizada). Esse é o padrão vascular, principalmente dos retalhos ao acaso, cuja circulação depende do número de perfurantes em sua base que, através da rede microvascular do plexo dérmico, levam o sangue até a ponta do retalho. • Esses retalhos são geralmente locais, ou seja, próximos ao defeito, e podem ser movimentados por rotação, transposição, avanço ou tubolizados. • As artérias septocutâneas, ou cutâneas diretas, após emergirem de seus ramos segmentares, correm paralela e longitudinalmente à pele, enviando pequenos ramos que formarão os plexos subdérmicos e dérmicos em uma extensa região da pele, muitas vezes estreita, porém comprida; possuem, em geral, um ou dois ramos venosos ( ou até um ramo nervoso) que acompanham seu trajeto, formando o chamado pedículo neurovascular. • Esse é o padrão vascular, principalmente, dos retalhos axiais, que em geral são muito longos, com maior flexibilidade para rotações e menor possibilidade de necrose, podendo ser em ilha de pele; além disso, a área de pele a ser incluída no retalho pode ser aumentada pela circulação randomizada dos plexos subdérmicos e dérmicos (como no padrão ao acaso). RANDOM & AXIAL FLAPS *Randon: Temos a pele e o plexo subcutâneo, também temos as artérias perfurantes que irriga essa região que vai fazer a elevação do retalho. No retalho axial não temos o vaso saindo debaixo do musculo, ele vai correr longitudinalmente na pele, sendo possível levantar ele de 3 formas • O suprimento nervoso da pele origina-se nos nervos sensitivos e nos nervos do sistema simpático. • A inervação sensitiva é distribuída em segmentos, formando os dermátomos, e participa da função protetora da pele. • As fibras simpáticas cutâneas terminais pós- ganglionares liberam neurotransmissores: 1. Noradrenalina e adrenalina, que produzem vasoconstrição e fechamento dos esfíncteres pré-capilares e pré-shunts, além da angiotensina e vasopressina, que produzem o mesmo efeito por ação humoral; 2. Acetilcolina, que produz vasodilatação e a abertura desses esfíncteres, além da bradicinina, serotonina e histamina, que também produzem o mesmo efeito por ação humoral. ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS APÓS A ELEVAÇÃO DO RETALHO • A principal alteraçãoé a interrupção parcial do fluxo sanguíneo, que resultará em uma redução da pressão de perfusão. • Ao se reduzir a pressão de perfusão a níveis críticos, territórios vasculares adjacentes de uma outra artéria perfurante podem oferecer um fluxo sanguíneo de baixa pressão, através da rede vascular dos plexos subdérmico e dérmico. • Outro aspecto físico importante é a resistência intravascular dos capilares, que dificulta o fluxo sanguíneo. • Como as necessidades nutricionais da pele são muito baixas (apenas 1% a 2% do fluxo normal), pode haver lesão de várias perfurantes, com grande regressão da pressão de perfusão, sem ocorrer necrose. • Quando a pressão de perfusão cai abaixo da pressão de colabamento dos capilares, cessa o fluxo sanguíneo; caso essa situação se mantenha por um período superior a 24 ou 48 horas, pode ocorrer necrose. • Tanto os nervos sensitivos como os simpáticos são lesados com a elevação do retalho. Enquanto a lesão sensitiva causa poucos problemas, a lesão do nervo simpático provoca a liberação de catecolaminas, que provocarão vasoconstrição e consequente redução do fluxo sanguíneo local. FATORES QUE INFLUENCIAM A CIRCULAÇÃO DOS RETALHOS • REPERFUSÃO E RADICAIS LIVRES: o retomo do fluxo sanguíneo em um retalho que ficou isquêmico pela ação constritora inicial da noradrenalina por um período médio de 12 a 24 horas, leva novamente oxigênio ao metabolismo celular, formando os radicais livres (também chamados de produtos da reperfusão), que podem causar dano celular, induzindo a necrose. • DROGAS QUE INFLUENCIAM A MICROCIRCULAÇÃO: o uso de drogas dilatadoras da microcirculação, tem demonstrado eficácia na prevenção da necrose em retalhos com evidências clínicas de sofrimento arterial (palidez, diminuição da temperatura, ausência de reperfusão pós-compressão). • EXPANSÃO TECIDUAL: a expansão de tecidos aumenta o segmento de pele e outras estruturas a serem transferidas nos retalhos. Estudos revelaram a ocorrência de aumento da atividade mitótica na epiderme, aumentando sua espessura, enquanto a derme se adelgaça. A colocação do expansor acaba funcionando como um processo de autonomização do retalho, estimulando a neovascularização e tomando esses retalhos mais resistentes à necrose. Dispositivo expansor tecidual – perfuramos essa bolsa e vamos enchendo de liquido de acordo com a expansão que queremos Nevo gigante: tem que fazer ressecção por risco de virar melanoma: programaram a colocação de dois expansores, para que fosse removido completamente o nevo. Foram feitas ressecções parceladas (primeiro foi a região inferior, depois fez outra expansão para conseguir cobrir tudo) • CÂMARA HIPERBÁRICA: o aumento da pressão de oxigênio externo provoca aumento na sobrevivência dos retalhos, ou até a reversão de um quadro inicial de necrose. • TABAGISMO: o uso do cigarro aumenta as chances de necrose do retalho. O efeito deletério da nicotina parece aumentar proporcionalmente ao tempo e à quantidade de fumo. O mecanismo de agressão da nicotina e do tabaco ainda não é totalmente conhecido, mas tem relação com a lesão endotelial direta, vasoconstrição secundária à liberação de catecolaminas, ou concentração local de prostaglandinas. • RADIAÇÃO: a radiação é deletéria à sobrevivência do retalho. A intensidade dessa agressão depende da dosagem, do fracionamento e do tempo entre a radiação e a cirurgia. A radiação provoca uma endoarterite obliterante e alteração no processo de cicatrização. • FENÔMENO DA AUTONOMIZAÇÃO DOS RETALHOS: na tentativa de aumentar a viabilidade e a segurança dos retalhos e o segmento de pele a ser transferido. Para realizar a autonomização de um retalho, faz-se a secção e/ou ligadura do pedículo vascular principal que seria seccionado no momento da cirurgia, sem que ocorra o descolamento de seu próprio leito. Outra maneira seria manter um retalho bipediculado e fazer um descolamento total do retalho de seu leito doador, simulando o ato e a agressão cirúrgica. Temos os vasos, provocamos a pediculaçã do retalho, que fica preso por 2 semanas, ai obseramoque ocorera a neovasculrização e depois soltamos a ponta. É seguro para o paciente porém é mais chato para o paciente (ele tem que ser submetido a mais procedimentos cirurgicos) CLASSIFICAÇÃO DOS RETALHOS DE ACORDO COM O SUPRIMENTO SANGUÍNEO: • RANDOMIZADOS: sem pedículo definido, recebem fluxo sanguíneo das artérias miocutâneas, que enviam ramos para formar os plexos subdérmicos e dérmicos (exemplos: retalhos em avanço, V-Y, rotação). • AXIAIS: com pedículo definido, recebem fluxo sanguíneo das artérias septocutâneas e cutâneas diretas, que enviam ramos para formar os plexos subdérmicos e dérmicos; o comprimento do retalho depende do tamanho e do trajeto da artéria que compõe o pedículo, geralmente formando um feixe neurovascular. Podem ser de dois tipos: o Peninsulares: têm continuidade da pele da base até a ponta do retalho (exemplo: retalho frontal com pedículo na artéria supratroclear). o Em Ilha: não têm continuidade da pele, levando apenas um segmento de pele interposto por um segmento somente com o feixe neurovascular; têm melhor mobilidade para rotações (exemplos: retalho chinês, retalho interdigital). Exemplo do retalho frontal: nessa região temos a artéria supratroclear que irriga toda a região frontal → é um retalho axial, podemos observar que ele é mais longo. Na ponta do nariz temos o retalho pediculado Aqui é um retalho em ilha: tem a artéria radial marcada, isolamos todo o vaso sanguíneo, transpõe-se o segmento de pele nutrido pela artéria radial até a região que precisamos. A área da mão é considerada uma área nobre, precisamos manter a função (enxerto não daria uma função tão boa para a mão). Já na área doadora poderíamos fazer um enxerto. DE ACORDO COM A LOCALIZAÇÃO DO RETAL HO: • LOCAIS: quando os retalhos estão adjacentes ao defeito, geralmente mantendo as características da pele a ser reconstruída (cor, textura, pelos, espessura). Esses retalhos necessitam de menos estágios operatórios e menos tempo de hospitalização, sendo ideais para indivíduos mais idosos. Podem ser de dois tipos: o Que rodam sobre seu próprio eixo: em rotação, em transposição ou em interpolação. o Em avanço: movem-se diretamente sobre o defeito, sem movimentos de rotação ou lateralidade. Podem ser de pedículo simples, bipediculado ou em V-Y. Retalho de rotação: geralmente o defeito tem formato circular: fazemos um semicírculo e rodamos a pele em direção de cobrir o defeito. A figura B e C mostram as incisões que são feitas na tentativa de compensar o excesso de pele Sempre devemos pensar que quanto mais rodamos o retalho, menor a extensão que atingimos, pois uma das extremidades fica presa Retalho por transposição: gera um outro defeito no local (que pode até ser corrigido depois por algum enxerto) RETALHO ROMBOIDE (LIMBERG) Retalho de transposição: transformamos o defeito em losango ZETAPLASTIA RETALHO CUTÂNEO EM INTERPOLAÇÃO Temos uma área saudável e um defeito distante do retalho RETALHO CUTÂNEO EM AVANÇO MONOPEDICULADO RETALHO EM AVANÇO V-Y RETALHO CUTÂNEO EM AVANÇO BIPEDICULADO CLASSIFICAÇÃO DOS RETALHOS • DISTÂNCIA: a área doadora do retalho é distante do defeito a ser reconstruído. Os retalhos podem ser: A DISTÂNCIA DIRETOS: geralmente tornam necessária uma etapa cirúrgica para a confecção do retalho e outra para a liberação do seu pedículo 3 a 4 semanas após; a mobilidade das extremidades (membros superiores e inferiores) é de grande importância (exemplos: retalho inguinal - groin flap, para reconstrução do dorso da mão, cross-leg, cross-finger, retalho de Tagliacozzi - do antebraço para a reconstrução do nariz). A DISTÂNCIAINDIRETOS: transferem-se tecidos através de um transportador (geralmente um membro) ou através de migrações (tubos pediculados). São pouco utilizados após o surgimento dos retalhos microcirúrgicos. RETALHOS DIRETOS TRANSFERIDOS A DISTÂNCIA RETALHOS INDIRETOS A DISTÂNCIA MOVIDOS POR MIGRAÇÃO Confeccionava-se um retalho e ia movimentando devagar até chegar na região que queríamos (tubulização), porém isso era feito em épocas pré-históricas DE ACORDO COM A REGIÃO ANATÔMICA: • Retalhos da cabeça e do pescoço • Retalhos do tronco • Retalhos de membros superiores • Retalhos de membros inferiores DE ACORDO COM A COMPOSIÇÃO DOS RETALHOS: • SIMPLES: quando têm uma única estrutura anatômica (cutâneo, de mucosa, de fáscia, muscular, tendinoso, de omento). • COMPOSTOS: quando têm duas ou mais estruturas anatômicas: fasciocutâneos, miocutâneos, osteomusculares, osteocutâneos (condrocutâneos).