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Luan Azevedo - NUSP: 9766237 / Noturno Fichamento de: NAPOLITANO, Marcos. “O mito da ditabranda” In: _____. 1964: História do Regime militar brasileiro. São Paulo, Ed. Contexto, 2014, p.69-96. Segundo um editorial escrito pelo jornal Folha de São Paulo em 2009, o período compreendido entre 1964 e 1968 representa uma ditadura não convicta da sua dureza, ou, conforme diria Elio Gaspari, uma ditadura envergonhada. A partir 1 daí, o objetivo do capítulo presente na obra de Marcos Napolitano é muito claro: desmistificar a ideia de “ditabranda”. Para tanto, o autor busca fazer um levantamento acerca do número de prisões, cassações de mandatos e de toda a repressão feita durante o período proposto, além de analisar quais seriam os principais objetivos dos militares nos primeiros anos no poder. Para defender que a ditadura até 1968 não agia brandamente, Napolitano argumenta que os seus objetivos eram diferentes. Baseando-se nas listas de pessoas cassadas, o autor afirma que o governo almejava a destruição de uma elite política e intelectual reformista cada vez mais encastelada no poder. Desta maneira, a repressão inicial fora exercida contra líderes políticos e sindicais comprometidos com a reforma trabalhista. O argumento do autor é reforçado ao dizer que lideranças militares de alta e baixa patente também foram repreendidas no início do governo. Outro objetivo nos primeiros anos de regime era o corte de relações entre a elite intelectual e os movimentos sociais de base popular, como o movimento operário e camponês. Uma importância ainda maior é dada para a base civil que estava atrelada ao regime. O autor defende que enquanto o regime foi comandado pelos militares, o golpe que destituiu João Goulart foi resultado de uma união entre militares e setores da sociedade civil, sendo, destarte, um golpe civil-militar. Graças à esses setores civis o regime evitava desencadear uma repressão generalizada [...] sobretudo contra artistas, intelectuais e jornalistas. Essa política de equilíbrio era necessária porque não seria possível governar um país complexo e multifacetado sem o apoio e o respaldo civil. 1 GASPARI, Elio. Ditadura envergonhada. São Paulo: Cia das Letras, 2002. A principal missão dada a Castelo Branco, por consequência, foi a blindagem do Estado frente à pressão da sociedade civil e a despolitização de setores populares, não a repressão à manifestações populares ou o silenciamento de manifestações culturais da esquerda. Na sequência do capítulo, Marcos Napolitano aborda aspectos econômicos do regime militar. Primeiro, o autor aponta para a tensão existente entre Estados Unidos e Brasil em meados da década de 70. Internamente, o problema enfrentado pelo regime estava na reorientação da economia brasileira. Napolitano afirma que um dos objetivos do regime era inserir a terra no projeto geral de modernização capitalista e, para tanto, Castelo Branco propôs o “Estatuto da Terra”, em 1964. A medida era baseada no imposto progressivo, na desapropriação com indenização e na ocupação de terras ociosas. Como era de se esperar, o Estatuto não agradou as elites agrárias, gerando forte reação do setor ruralista e da imprensa ligada ao meio. Ao final, a medida sofreu alterações, não levando tantos problemas para os grandes proprietários de terras, mas sim para os médios e pequenos. Essas medidas são mobilizadas pelo autor para afirmar que a modernização capitalista adotada pelos militares acabou por agravar os problemas sociais no campo ao invés de resolvê-los. Graças à essa crise enfrentada, o autor defende que o regime fora acuado pela classe média e suas lideranças políticas , muitas delas formadas por políticos conservadores que apoiaram a ocasião do golpe (como Carlos Lacerda), de modo que a sua sustentação encontrava-se nos quartéis e na rápida institucionalização do regime. Tal institucionalização é feita a partir do Atos Institucionais - 4 durante o governo Castelo Branco. Segundo o autor, a partir do Ato nº 2 o regime autoritário torna-se mais estruturado. Graças a ele o chefe executivo pode decretar Estado de Sítio por 180 dias, fechar o Congresso Nacional e cassar o mandato de deputados e suspender o direito político de civis por 10 anos. Dados levantados pelo historiador apontam para 3644 pessoas punidas durante o governo de Castelo Branco, número que representa 65% do total de cassações ao longo de toda a ditadura. Além disso, 90% das punições feitas aos militares também encontram-se dentro do primeiro governo militar. A aprovação dos Atos significava um reforço legal do Poder Executivo. Segundo o autor, o presidente não assumia um poder totalitário amparado pelas Forças Armadas porque isso poderia colocar lideranças militares umas contra as outras. Podemos utilizar essa afirmação como a representação de que as Forças Armadas não agiam em unidade durante o começo do regime, obrigando a cúpula do poder a agir com cautela ao invés de estabelecer uma repressão desenfreada. À medida que a coalizão em torno do golpe de 1964 foi se esvaziando e os movimentos de constatação se fortalecendo, o governo foi aprofundando o seu caráter autoritário. Foi a partir da consolidação desse processo de normatização autoritária, feito através dos Atos Institucionais, que o regime passou a representar um Estado policial, cuja repressão era exercida de modo sistêmico, amparada juridicamente.