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Licenciatura em ciências · USP/ Univesp Re pr od uç ão , s is te m a ge ni ta l, on to gê ne se 6.1 Introdução 6.2 A divisão celular e a gametogênese 6.2.1 Meiose 6.3 Espermatogênese 6.4 Oogênese 6.5 Conclusão Referências Hamilton Haddad Junior Maria Aparecida Visconti OOgênEsE E EspERMAtOgênEsE6 107Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 Reprodução, sistema genital, ontogênese 6.1 Introdução A reprodução humana envolve a mistura do genoma de ambos os parentais, por meio da fusão dos gametas durante a fecundação. Esses gametas – produzidos pelos testículos e ovários – são formados a partir da divisão de células germinativas diploides, contendo dois conjuntos de cromossomos homólogos, em células germinativas haploides, contendo apenas um conjunto de cromossomos. Essa redução do material genético permite que a célula resultante da fecundação dos gametas – denominada zigoto – seja formada pela associação de dois grupos de cromossomos herdados de diferentes parentais (Figura 6.1). Dessa forma, o zigoto dará origem a um indivíduo que possuirá uma nova combinação de cromossomos, distinta dos parentais e dos demais indivíduos. A mistura de genomas é uma importante característica da reprodução sexuada, que parece conferir grandes vantagens evolutivas, uma vez que foi adotada pela maioria dos animais e plantas. A formação de organismos que possuem combinações genéticas diferentes pode auxiliar a a b Figura 6.1: Origem das células germinativas diploides, precursoras dos gametas haploides. / Fonte: modificado de Alberts, 2011. 108 Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 6 Oogênese e Espermatogênese adaptação de pelo menos alguns deles num ambiente em constante mudança. O organismo melhor adaptado certamente apresenta uma nova combinação genética, que lhe fornece carac- terísticas adequadas para a sobrevivência nesse novo ambiente. A gametogênese responsável pela formação dos gametas masculinos é denominada esper- matogênese, enquanto que a oogênese compreende a formação dos gametas femininos. Para que ocorra a diminuição do material genético durante a gametogênese, é necessário um tipo especial de divisão celular, denominado meiose. 6.2 A divisão celular e a gametogênese As células precursoras dos gametas, denominadas células germinativas, são identificadas no início do desenvolvimento embrionário. Essas células são responsáveis por transmitir a informação genética dos parentais às progênies. As demais células de um organismo, denominadas células somá- ticas, diferenciam-se nos diversos tecidos que formam o organismo e garantem o desenvolvimento e sobrevivência das células germinativas, permitindo a continuação de sua linhagem (Figura 6.2). Os eventos celulares responsáveis pela meiose serão abordados a seguir. Posteriormente, analisaremos aspectos específicos da espermatogênese e oogênese. Figura 6.2: Células germinativas e somáticas, constituintes de um organismo. / Fonte: modificado de Alberts, 2011. 109Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 Reprodução, sistema genital, ontogênese A multiplicação das células somáticas se dá por um tipo de divisão celular denominado mitose, em que uma célula origina duas células filhas idênticas, com mesmo número de cromossomos. Já a meiose, respon- sável pela redução do material genético durante a ga- metogênese, é um tipo de divisão celular realizado apenas pelas células germinativas. Vale ressaltar que as células germinativas também se multiplicam por mitose antes de iniciarem o processo de gametogênese. Desta forma, células germinativas diploides dão origem a ga- metas haploides (Figura 6.3 e 6.5). As células diploides humanas contêm 23 pares de cromossomos homólogos (Figura 6.4), que são duplicados antes do início da divisão celular. Cada par é formado por um cromossomo proveniente do oócito e outro do espermatozoide. Os cromossomos forma- dores de um par são denominados homólogos porque possuem genes controladores das mesmas características. Esses genes apresentam diferentes variantes, responsáveis pela formação de diferentes indivíduos. Além disso, estão localizados na mesma região dos cromossomos homólo- gos, sendo denominados alelos. 6.2.1 Meiose Durante o processo de meiose, células germinativas diploides darão origem a células filhas haploides. Entretanto, apesar da redução do material genético, o início da meiose ocorre com a duplicação do DNA, que sofrerá posteriormente duas divisões celulares sucessivas – denomina- das meiose I e meiose II – produzindo quatro células filhas haploides (Figura 6.5). As fases da meiose são semelhantes às da mitose. A duplicação dos cromossomos formará cópias denominadas cromátides-irmãs (Figura 6.6). Essas cromátides permanecem fortemente unidas entre Figura 6.3: A participação da meiose na formação dos gametas, e da mitose no crescimento do organismo. Figura 6.4: Cariótipo humano contendo 23 pares de cromossomos homólogos. 110 Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 6 Oogênese e Espermatogênese si por uma região cromossômica chamada centrômero, até a segunda divisão meiótica. Após a dupli- cação, os cromossomos são condensados e um fuso meiótico é formado entre os dois centrossomos, que migram para as regiões polares da célula, identificando a prófase I (Figura 6.7). Posteriormente, na metáfase, ocorre o rompimento do envelope nuclear e o pareamento dos cromossomos homólo- gos na região equatorial da célula. Na anáfase, o encurtamento dos fusos meióticos causa a segregação dos cromossomos homólogos duplicados em direção aos polos celulares, seguido da reorganização de dois núcleos contendo um cromossomo duplicado de cada par de homólogos, caracterizando a telófase I. A divisão citoplasmática que dará origem a duas células filhas ocorre durante a citocinese. Figura 6.5: Representação esquemática da mitose e meiose. Note que a meiose origina a quatro células filhas haploides, enquanto que a mitose dá origem a duas células filhas diploides. / Fonte: modificado de Alberts, 2011. a b 111Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 Reprodução, sistema genital, ontogênese O pareamento longitudinal dos cromossomos homólogos durante a metáfase garante a segregação dos homólogos paternos e maternos em diferentes células filhas, dividindo pela metade o número de cromossomos de cada célula. É importante ressaltar que esse pareamento ocorre de maneira aleatória, não havendo o alinhamento de cromossomos maternos ou paternos. Dessa forma, cada célula filha será formada por diferentes combinações de cro- mossomos maternos e paternos (Figura 6.8). Durante o pareamento dos cromossomos paternos e maternos, ocorre um complexo processo conhecido como recombinação meiótica. Nesta fase, a proximidade entre as cromátides dos cromosso- mos (cromátides não-irmãs) promove o contato entre elas, com troca de segmentos homólogos, promovendo uma recombinação genética também conhecida como crossing-over (Figura 6.9). Essa recombinação contribui para a variabilidade genética das células filhas (Figura 6.10). Figura 6.8: Cromossomos homólogos duplicados e pareados aleatoriamente produzem diferentes gametas. / Fonte: modificado de Figura 6.6: Cromossomos homólogos duplicados e suas respectivas cromátides irmãs. / Fonte: modificado de Alberts, 2011. Figura 6.7: Representação esquemática das fases da meiose I. / Fonte: modificado de tortorA, 2002. 112 Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 6 Oogênese e Espermatogênese Alberts, 2011. A região cromossômica onde ocorreu a recombinação genética, durante a pró- fase I, mantém unidos os cromossomos homólogos por estruturas denominadas quiasmas. Com isso, o pareamento cro- mossômico permanece até que ocorra a segregação. O correto pareamento dos cromossomos homólogos possui especial importância para que a segregação acon- teça de maneira adequada.Erros nesta etapa da meiose podem levar à formação de gametas com números incorretos de cromossomos (Figura 6.11). A não disjunção é bastante frequente, principalmente na meiose dos oócitos (aproximadamente 10%), provavelmente Figura 6.10: Variabilidade genética de um cromossomo de gametas causada pela recombinação genética durante o pareamento dos cromossomos homólogos. / Fonte: modificado de Alberts, 2011. Figura 6.9: Recombinação genética entre um par de cromossomos homólogos. / Fonte: modificado de Alberts, 2011. a b Figura 6.11: Erro na segregação dos cromossomos pareados durante a meiose I. / Fonte: modificado de Alberts, 2011. 113Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 Reprodução, sistema genital, ontogênese pelo grande período em que os oócitos permanecem em prófase I. Além disso, a verificação de erros no ciclo celular dos espermatozoides parece ser mais adequada, quando comparada à dos oócitos. As altas taxas de abortos espontâneos que ocorrem no primeiro trimestre gestacional também parecem estar relacionadas à não disjunção durante a divisão meiótica. A segunda divisão meiótica, que dará origem a células haploides, também possui uma sequência de eventos semelhantes aos presentes na mitose (Figura 6.12). Contudo, não ocorre nova duplicação de DNA, já duplicados no início da meiose I. As células derivadas da meiose I que iniciarão a meiose II encontram-se com 23 cromossomos já duplicados. Durante a metáfase II, ocorre o alinhamento dos cromossomos na região equatorial da célula, seguido da separação das cromátides irmãs, na anáfase II (Figura 6.12). Esse alinhamento garante que as cromátides de cada cromossomo sejam arrastadas para diferentes células filhas. Dessa forma, a meiose dá origem a quatro células haploides, a partir de uma célula diploide, após uma única duplicação de DNA seguida de duas divisões celulares. Figura 6.12: Fases da meiose II. / Fonte: modificado de tortorA, 2002. Apesar da sequência de eventos meióticos presentes na espermatogênese serem semelhantes aos da oogênese, o intervalo entre eles pode ser bastante variável. Um exemplo disso é a duração da prófase I dos oócitos, que pode levar décadas para ser completada. Nos próximos itens, abordaremos algumas particularidades características da oogênese e espermatogênese. 114 Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 6 Oogênese e Espermatogênese 6.3 Espermatogênese As células germinativas do sistema reprodutor masculino são denominadas espermatôgonias. Elas estão localizadas na periferia dos túbulos seminíferos, como discutido em aula anterior, onde sofrerão os processos de divisão e diferenciação celular responsáveis pela sua transformação em espermatozoides. Este conjunto de eventos é denominado espermatogênese (Figura 6.13). Os estímulos hormonais responsáveis por deflagrar o início da espermatogênese tornam- se presentes durante a puberdade. Neste período, as espermatogônias se multiplicam por mitose, crescem e sofrem modificações responsáveis por transformá-las em espermatócitos primários. Os espermatócitos primários sofrerão a primeira divisão meiótica e se transformarão em espermatócitos secundários. Como vimos, esta divisão reduzirá o número de cromossomos da célula inicialmente diploide, originando espermatócitos secundários haploides. Esses espermatócitos sofrerão a segunda divisão meiótica, originando quatro espermátides haploides (Figura 6.13). A cada divisão, as células sofrem redução também de tamanho, o que faz com que as espermátides possuam um quarto do tamanho dos espermatócitos primários. Além disso, após as divisões, as espermátides sofrem modificações que a transformarão em espermatozoides. Esse processo, denominado espermiogênese, compreende a fase final da espermatogênese (Figura 6.14). Durante este período, as espermátides perdem porções citoplasmáticas e formam uma calda flagelada, adquirindo um formato alongado. Posteriormente, uma vesícula contendo enzimas digestivas Figura 6.13: Ilustração da espermatogênese. / Fonte: modificado de Moore, 2008. 115Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 Reprodução, sistema genital, ontogênese envolvidas na fecundação migra para a região da cabeça, formando o acrossoma. Finalmente, mitocôndrias organizam-se próximas ao início do flagelo, formando a bainha mitocondrial, importante para o fornecimento de energia necessária para a movimentação da cauda. O processo de espermatogênese possui uma duração em torno de dois meses. Após esse período, os espermatozoides são liberados na luz dos túbulos seminíferos, de onde serão trans- portados ao epidídimo, onde ocorre o processo final de maturação. Na Figura 6.15, podemos observar as estruturas do espermatozoide maduro. Figura 6.14: Processo de espermiogênese. / Fonte: modificado de Moore, 2008. Figura 6.15: Espermatozoide humano maduro. / Fonte: modificado de Moore, 2008. 116 Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 6 Oogênese e Espermatogênese 6.4 Oogênese O conjunto de eventos responsáveis pela formação de oócitos maduros é denominado oogênese (Figura 6.16). Esse processo inicia-se durante o desenvolvimento embrionário, quando células ger- minativas localizadas no córtex ovariano – denominadas oogônias – multiplicam-se por mitose. Em seguida, essas células crescem e se transformam em oócitos primários, que darão início à divisão meiótica da gametogênese feminina. Os oócitos primários permanecem em repouso nos folículos ovarianos até a puberdade. Após o nascimento, não ocorre a formação de mais nenhum oócito primário, o que determina uma quantidade limitada de possíveis ovulações ao longo da vida reprodutora feminina. Os oócitos primários são circundados por uma camada de células pré-granulares, envoltas por uma membrana basal, formando o folículo primordial. Durante a puberdade, ocorre a transformação dos folículos primordiais em folículos primários, com o crescimento dos oócitos primários e a proliferação das células foliculares. Estímulos hormonais provenientes do ciclo reprodutor feminino provocam a maturação do folículo (Figura 6.17), causando o crescimento do oócito primário, que completará a primeira divisão meiótica imediatamente antes da ovulação. O resultado da primeira divisão meiótica é a formação do oócito secundário. Durante a divisão citoplasmática do oócito primário, uma das células filhas – o oócito secundário A meiose iniciada durante o desenvolvimento embrionário será interrompida em prófase I, até o momento da ovulação, quando será retomada. Figura 6.16: Oogênese e fecundação. / Fonte: modificado de Moore, 2008. 117Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 Reprodução, sistema genital, ontogênese – recebe a maior parte do conteúdo citoplasmático, enquanto a outra célula filha – denominada corpúsculo polar – fica com uma pequena porção citoplasmática e sofre degeneração. A segunda divisão meiótica inicia-se logo após a ovulação, sendo interrompida na metáfase II. A divisão será retomada apenas se houver a fecundação. Caso isso ocorra, a segunda divisão meiótica dará origem a um segundo corpúsculo polar – que também se degenera – enquanto a maior parte do citoplasma permanecerá no ovócito fecundado. Figura 6.17: Diferentes estágios de desenvolvimento dos folículos ovarianos. / Fonte: modificado de Aires, 2012. É muito comum confundir-se oócito II e óvulo. Por definição, apenas pode-se chamar “óvulo” o oócito II já fecundado por um espermatozoide. Leia mais a respeito dessa diferença no site: http://www.superinteressante.pt/index.php?option=com_content&view=article&id =75:ovulos-e-ovocitos&catid=36:a-opiniao-do-leitor&Itemid=108 118 Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 6 Oogênese e Espermatogênese Durante a leitura, pudemos perceber algumas diferenças entre a espermatogênese e a oogê- nese, principalmenteem relação à duração dos eventos envolvidos, bem como à quantidade de gametas formados durante a vida reprodutiva. Os espermatozoides podem ser continuamente produzidos, uma vez que suas células germinativas precursoras continuam se dividindo por mitose durante toda a vida reprodutiva masculina. Já as células germinativas femininas sofrem mitose apenas durante o desenvolvimento embrionário. 6.5 Conclusão Neste texto, descrevemos a sequência de eventos celulares responsáveis pela formação dos gametas masculinos e femininos. Além disso, discutimos a relação das várias fases da divisão celular, em especial a meiose, durante a espermatogênese e oogênese. A compreensão destes processos nos permite relacioná-los com as aulas anteriores, identificando o controle hormonal da gametogênese e sua importância para uma futura fecundação. Referências Aires, M.M. (org.). Fisiologia. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. Berne, R.M. et al. Fisiologia. 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. CAmpBell, N.A. et al.Biologia. 8. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. Curi, R. & proCópio, J. Fisiologia Básica. 1. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2009. Guyton, A.C. & HAll, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. silvertHorn, D.U. Fisiologia Humana: Uma Abordagem Integrada. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. Agora é a sua vez... Acesse o Ambiente Virtual de Aprendizagem e realize a(s) atividade(s) proposta(s). 119Licenciatura em Ciências · USP/Univesp · Módulo 4 Reprodução, sistema genital, ontogênese tortorA, G.J. & GrABowski, S.R. Princípios de Anatomia e Fisiologia. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. ZuGAiB, M. Zugaib Obstetrícia. 2. ed. Barueri: Manole, 2012. Glossário Quiasma: do grego khiasmós: disposição em cruz, que tem forma de X. quiasma nome: quia box: quia x: