Psicanálise interminável ou com fim possível
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Psicanálise interminável ou com fim possível

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Comentário de Livro
Endereço para correspondência: Zacaria Borge Ali Ramadam. Instituto de Psiquiatria. Rua Ovídeo Pires de Campos, 785 – 05403-010 – São Paulo – SP. E-mail: zramadam@usp.br
Psicanálise interminável ou com fim possível?
Theodor Lowenkron. Editora Imago, Rio de Janeiro, 2007
ZA C A R I A BO R G E AL I RA M A D A M
Professor-associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Recebido: 05/05/2008 – Aceito: 09/05/2008
Ramadam, ZBA / Rev Psiq Clín. 2008;35(6):236-8
Quando e como se encer ra uma análise? Essa questão,
embora de grande impor tância prática, tem sido sempre
cautelosamente evitada pelos psicanalistas.
É, por tanto, louvável que o Prof. Lowenkr on tenha
se dedicado ao assunto, sobretudo numa tese de livre-
docência na Faculdade de Medicina da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, de que resultou este livr o.
T rata-se de um texto cur to, de apenas 76 páginas,
incluídos prefácio, introdução e bibliografia, que o autor
do pr efácio, Joel Bir man, considera “fundamentalmente
um ensaio clínicoou “antes de mais nada, uma narrativa
clínica, bastante detalhada”.
De fato, é nar rativa (condensada, com registro de
trechos de algumas sessões) da análise de um único
paciente, desde a mar cação da consulta, a primeira en-
trevista, história clínica e desenvolvimento da análise,
durante seis anos.
O paciente é um jovem com inibições e conflitos na
esfera sexual e no relacionamento com o sexo oposto.
Uma história bastante comum desde sempre, sem
nenhuma par ticularidade que pudesse distingui-la de
uma ampla amostragem estatística.
Os diálogos registrados são interessantes, sobretudo
porque ilustram as inter venções do analista e seu modus
operandi. Entretanto, Lowenkron não aborda os aspectos
da contra -transfer ência nem esclare ce os motiv os da
escolha desse paciente, entre tantos outros.
Na discussão do caso e conclusões finais, o autor se
cingiu ao clássico r eferencial fr eudiano, r epor tando-se
sempre aos textos do mestr e vienense, sem acr éscimos
ou r eparos ao que Fr eud escreveu, 70 anos atrás, no seu
clássico “Análise ter minável e interminável”.
Nesse texto, Fr eud considerava que, teoricamente,
uma análise é inter minável, mas admitindo limitações
de ordem prática, o tér mino se verifica quando ambos,
paciente e analista, se dão por satisfeitos. Quantum satis,
a mesma fór mula das antigas prescrições oficinais.
Contudo, o trabalho de Lowenkr on suscita alguns
comentários per tinentes, não apenas à psicanálise, mas
à nossa atividade médico-científica em geral.
Co me ç an do p el a or e lh a” da s e gu nd a c ap a, q u e
assinala: “Este livro se baseia na primeira tese em psi-
canálise aprovada pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro em concurso público de pr ovas e títulos para
livre-docência em Psiquiatria”.
Não é bem assim. Nessa faculdade bicentenária, no
início de 1960, Prof. Por tella Nunes obteve o título de
livre-docente com a tese Fundamentos da Psicoterapia,
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Ramadam ZBA / Rev Psiq Clín. 2008;35(6);236-8
baseada nas idéias de Freud, com apoio em Heidegger
e Binswanger.
Aliás, a tese do Prof. Lowenkron tem uma estr utura
disser tativa similar à do Prof. Por tella, com extratos de
sessões de análise e comentários intercalados.
Quanto ao pioneirismo, cabe lembrar a tese do Prof.
Darcy de Mendonça Uchoa, A estr utura psicológica da
neurose compulsiva (1946), na Universidade de São Pau-
lo, de base psicanalítica. Também de base psicanalítica
a te se d o Pr of. Osc ar R esend e de Lim a (U SP, 19 74)
Cor rel ações en tre inte nsid ades dos in stint os e p sicos es
esquizofrênicas, maníaco-depressivas e epilépticas.
Não é, por tanto, um trabalho pioneiro em Faculdades
de Medicina.
Mas o tema de Lowenkr on – a duração e término do
tratamento é dos mais r elevantes, retomado exatamen-
te após 70 anos da publicação do notável ensaio de Freud
(“Análise ter minável e interminável”, 1937), sobretudo
porque diz respeito não somente à Psicanálise, mas à
Medicina em geral. Indagar sobre tratamento inter mi-
nável ou com fim possível t ambém compete à esfera
da hiper tensão essencial, diabetes, ar trite reumatóide,
transtornos do humor, esquizofrenia, neurose obsessiva
e muitos outros quadros patológicos.
A sabedoria popular já sentenciou que “a Medicina
trata, mas só Deus cura”.
Isto posto, fica evidente que a questão dos trata-
mentos não está na duração, mas na relação custo-
benefício.
Os antigos chineses, quando alguém adoecia, costu-
mavam reunir a família para discutir se convinha pagar
um médico ou guar dar o dinheiro para um funeral mais
digno...
Voltemos, por ém, à Psicanálise: Karl Popper negou
seu estatuto científico, assinalando sua impossibilidade
me t od ol óg i ca d e r e fu t ão : b as e ad a n a o bs er va ç ão
passiva, desenvolveu conceitos auto-explicativos, sem
perspectivas de investigação experimental, num empi-
rismo exacerbado.
Poderia, talv ez, situar-se no elenco das cha madas
c i ên c i a s d o i m p r e c i s o , c o m o d e si g n o u A b r a h a m
Moles, tais como a economia, as variações da bolsa de
valores ou a meteorologia. Tem pr evisões meramente
aproximativas que poderiam ser testadas com estatísti-
cas, como a física das par tículas –, porém não se conhece
até hoje nenhum trabalho dessa natureza.
Também não se pode dizer, pela dur ação de uma
an��lise, o quanto esta tem de terapêutica ou de psico-
pedagogia.
Muitas vezes, a Psicanálise foi assunto de capa de
publicações de pr estígio inter nacional, como Times ou
L’Express, no século 20, que chegou a ser considerado o
“século da Psicanálise”; não obstante, outra par cela signi-
ficativa da mídia, saudando o advento das neurociên cias,
celebrava a “mor te da Psicanálise”.
Não se pode negar, com efeito, a grande influência
das idéias de Freud na s ociedade ocidenta l, seja nas
ar tes plásticas (Picasso e Dali), na literatura (Sar tre e
Faulkner, e Nelson Rodrigues no Brasil), no cinema,
na p edag ogia dit a “nã o r epr ess ora”, na psi colo gia e ,
sobretudo, na liberação sexual.
Quando esteve nos Estados Unidos, convidado para
pr on un cia r co nfe r ênc ia s, Fr e ud afi r mo u qu e “t raz ia
a pest e” ao novo c ontinen te, nu m anáte ma dign o do
profeta Isaías.
Suas idéias, muito controversas, para o bem ou para
o mal, constituíram verdadeira “caixa de Pandora”.
Até sua biografia, que foi tema de filme com roteiro
de J. P. Sar tre, é pontilhada de episódios polêmicos.
O século 20 não foi apenas o “século da Psicanálise”:
foi do Holocausto, da bomba de Hiroshima, da guer ra
fria , do mur o d e Be rlim , da asc ensã o do ter ro rismo
int er naci ona l e ou tra s t ant as per ver sida des in tuí das
por Fred em “O futuro de uma ilusão” e “Mal-estar na
civilização”.
Por outro lado, médicos estudiosos das doenças men-
tais livraram-se do estigma de “alienistas” e ganharam
respeitabilidade como psiquiatras e psicanalistas e os
psicólogos conquistaram novo status pr ofissional. Contu-
do, a polêmica não se encer rou: até hoje neurocientistas
bus cam r efu tar ou co nfir m ar id éias de Fr eu d s obr e
memória, sonhos, esquecimentos seletivos, recalques e
outros processos psíquicos, tanto quanto os mecanismos
do prazer e da sexualidade na vida cotidiana.
Apesar do dogmatismo de alguns psicanalistas, a obra
de Freud é muito rica pelas indagações que suscitou.
Como instr umento de investigação científica, a Psi-
canálise se situa nos modelos de Piaget e Lorenz, da
obser vação passiva, sem inter venção nos fenômenos.
Como instr umento terapêutico, vem progr essivamen-
te perdendo fôlego, que não corresponde às demandas
e aos altos custos no contexto social moder no.
Investimento de tempo e dinheiro em cinco sessões
sem ana is, du ran te qua tr o a ci nco an os, pa ra mui tos
resultaria em lucro maior se empr egado num curso de
chinês ou de sânscrito. Não obstante, os verdadeiros
neuróticos são incapazes desse tipo de opção, apesar
da cultura da inter net e do telefone celular. Ademais,
a ma ss ifi ca çã o e o c on su mi sm o de sc en tr al iz ar am o
sujeito e mimetizaram as neuroses, com novos nomes
e propostas terapêuticas mais rápidas e sedutoras.
Otto Maria Carpeux, um dos mais brilhantes intelec-
tuais do século 20, que na juventude assistiu a palestras
e conferências de Fr eud, em V iena, escreveu: “Freud
demonstrou que nossa consciência não é dona absoluta
da nossa organização psíquica, mas tem de contar com
o i ncôm odo con dômi no no inc onsc ient e. É um a da s
grand es co nquist as do espí rito h umano , quei ram ou
não queiram os que rejeitam a análise, principalmente
os que precisam dela”.
No entanto, adver tia: “Há quem queira impedir-nos
de levar a sério a psicanálise: são os psicanalistas”.
Com efe ito, nas décadas de 1960 e 1970 (quando
esc re veu es se t ext o), os con gr ess os e si mpó sios de
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Psic análi se, n uma p ostu ra ar rog ante e an ticie ntífi ca,
ainda vedavam a par ticipação de outros profissionais
(psiquiatras e psicólogos) que não fossem oficialmente
credenciados como psicanalistas pelas respectivas so-
ciedades, no melhor estilo do ritual da maçonaria. Esta
fase feli zmente pass ou, deixand o alguns r esíduos n o
her metismo do discurso lacaniano.
o o b s ta n te , a s i d éi a s d e F r e ud i nf l ue n ci a ra m
s o b r e m a n e i ra o p e n s a m en t o m o d e r n o : p s i c o l o g i a ,
psiquiatria, antropologia, pedagogia, literatura e ar tes
em geral.
O conceito de inconsciente funciona como zero na
matemática: isolado, nada significa, mas no contexto das
funções psíquicas, potencializa e determina compor ta-
mentos, produzindo ações e resultados impr evistos.
Entretanto, não é nossa tarefa, nem há espaço aqui
para discutir todas as implicações da Psicanálise, e sim
o livro que suscitou esses comentários.
A psicanálise não está mor ta, nem vai mor r er. Nem
precisa envergonhar-se de tratamentos intermináveis;
afinal , tam bém na medic ina c omum, são conhe cidas
as p at ol og ia s cr ô ni ca s, q ue d em an da m t ra ta me nt os
far macológicos pela vida inteira. Não se trata, por tanto,
de meses ou anos de duração, mas de horas semanais
e di nh ei r o i nv es ti do s no p r oce di me nt o, q ue r es ul ta
extremamente oneroso. Mas além de possuir adeptos
apaixonados, grande par te de suas descober tas e con-
ceito s foi discr etam ente assim ilada pela psico logia e
psicopatologia moder nas e difundidas por intermédio
das ar tes e cultura em geral.
Por isso merece, dos psicanalistas, um esforço para
resgatar seu espaço no panorama das ciências médicas,
em que prevalece o modelo popperiano da “medicina
baseada em evidências”.
Entretanto, impõe-se a questão metodológica, que
demanda um novo paradigma.
Além de colocar em pauta essas e outras questões,
o livro do Prof. Lowenkron tem uma qualidade indiscu-
tível: r evela, de maneira clara e transparente, o pr ocedi-
mento e as inter venções de um psicanalista fr eudiano,
sem contaminações teóricas de Melanie Klein, Bion ou
Lacan, outros teóricos da psicanálise.
Um trabalho científico vale mais pelas contr ovérsias
que su sci ta do qu e p ela s ver da des de fini tiv as” qu e
proclama.
Afinal, ciência é a per manente reiteração da dúvida.
Por isso, o livro de Prof. Lowenkron, pelo tema enfo-
cado, merece leitura atenta e discussões inter mináveis.