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Winnicott na Escola de São Paulo Elsa Oliveira Dias Zeljko Loparic (orgs.) © by DWW editorial para a edição em língua portuguesa 1ª. edição: maio de 2011 eISBN: 978-85-62487-07-1 (on line) Diretores: Elsa Oliveira Dias (elsadias@uol.com.br) Zeljko Loparic (loparicz@uol.com.br) Conselho editorial: Ariadne Moraes (ariadne.moraes@uol.com.br) Caroline Vasconcelos Ribeiro (carolinevasconcelos@hotmail.com) Conceição A. Serralha (serralhac@hotmail.com) Eder Soares Santos (edersan@hotmail.com) Oswaldo Giacoia Junior (ogiacoia@hotmail.com) Róbson Ramos dos Reis (robsonramosdosreis@gmail.com) Roseana Moraes Garcia (roseanagarcia@uol.com.br) Vera Laurentiis (veralaurentiis@terra.com.br) Coordenação editorial: Meire Cristina Gomes (meire@sbpw.com.br) Diagramação digital: Microart Com. Editoração Eletrônica Ltda. (www.microart.com.br) Capa: Sandra Rosa Texto em conformidade com o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária Eliana Marciela Marquetis – CRB-8 nº 3573 Winnicott na Escola de São Paulo [recurso eletrônico] / Elsa Oliveira Dias e Zeljko Loparic (orgs.). – São Paulo : DWW Editorial, 2011. v.: digital. - (Coleção Psicanálise Winnicottiana) eISBN 978-85-62487-07-1(on line) 1. Winnicott, D. W. (Donald Woods), 1896-1971. 2. Psicanálise. 3. Psicologia educacional. 4. Psicologia infantil. I. Dias, Elsa Oliveira. II. Loparic, Zeljko. III. Série. 21 CDD 150.195 370.15 155.4 Índice para catálogo sistemático Psicanálise 150.195 Psicologia educacional 3790.15 Psicologia infantil 155.4 DWW editorial Rua João Ramalho, 146 – Perdizes mailto:elsadias@uol.com.br mailto:loparicz@uol.com.br mailto:ariadne.moraes@uol.com.br mailto:carolinevasconcelos@hotmail.com mailto:serralhac@hotmail.com mailto:edersan@hotmail.com mailto:ogiacoia@hotmail.com mailto:robsonramosdosreis@gmail.com mailto:roseanagarcia@uol.com.br mailto:veralaurentiis@terra.com.br mailto:meire@sbpw.com.br http://www.microart.com.br/ CEP 05008-000 – São Paulo – SP Tel.: (11) 3676-0635 E-mail: dwweditorial@sociedadewinnicott.com.br www.dwweditorial.com.br mailto:dwweditorial@sociedadewinnicott.com.br http://www.dwweditorial.com.br/ Sumário Prefácio Sobre os autores Parte I Surgimento do paradigma winnicottiano De Freud a Winnicott: aspectos de uma mudança paradigmática Zeljko Loparic 1. O paradigma freudiano 2. A crise do paradigma freudiano e os principais resultados da pesquisa revolucionária de Winnicott 3. Detalhamento de alguns aspectos teóricos da revolução winnicottiana Referências A irritabilidade (Reizbarkeit) como característica distintiva do aparelho psíquico de Freud João Paulo F. Barretta 1. Introdução 2. O aparelho psíquico na primeira tópica (cap. VII de A interpretação dos sonhos) 3. A característica essencial do aparelho psíquico freudiano: a Reizbarkeit 4. Os problemas clínicos enfrentados pelo modelo de 1900 e a solução freudiana 5. Conclusão Referências Winnicott e uma psicanálise sem metapsicologia Leopoldo Fulgencio 1. Introdução 2. Natureza, função e características dos conceitos meta- psicológicos para Freud 3. Os sentidos do termo metapsicologia na obra de Winnicott 4. Críticas de Winnicott aos conceitos de pulsão de vida (Lebenstriebe) e de morte (Todestriebe) 5. A redescrição do conceito de instinto e o abandono do conceito de pulsão (Trieb) 6. A substituição do conceito de pulsão (Trieb) 7. O abandono da noção de aparelho psíquico 8. O abandono do conceito de libido como uma energia psíquica 9. A substituição da teorização metapsicológica pela factual Referências Winnicott e o Middle Group: a diferença que faz diferença Ariadne Alvarenga de Rezende Engelberg de Moraes 1. Psicanálise britânica 2. Winnicott: dissidência política ou teórica? 3. Rompimento com Klein 4. Winnicott e os teóricos das relações objetais: a diferença 5. A diferença compreendida como contribuição teórica Referências Winnicott e Heidegger: relações entre o amadurecimento pessoal e a acontecência humana Eder Soares Santos 1. Introdução 2. Relação entre a teoria psicanalítica de Winnicott e a filosofia de Heidegger 3. Relação entre a teoria do amadurecimento e a psicanálise tradicional 4. Heidegger e Winnicott: relação de interlocução 5. A acontecência humana e o amadurecimento pessoal: relação conceitual 6. Mudança de paradigma em Winnicott 7. Considerações finais Referências Heidegger e Winnicott: pensadores da origem (Anfang) Caroline Vasconcelos Ribeiro Referências Parte II Articulação do paradigma winnicottiano A teoria winnicottiana do amadurecimento como guia da prática clínica Elsa Oliveira Dias 1. Introdução 2. A teoria do amadurecimento como guia da ação terapêutica 3. A teoria do amadurecimento 4. Critérios para uma classificação dos distúrbios psíquicos 5. As diferentes naturezas de um mesmo distúrbio segundo a teoria do amadurecimento Referências O ambiente winnicottiano Conceição A. Serralha de Araújo 1. O ambiente na obra de Winnicott 2. Winnicott e Freud 3. Considerações finais Referências Condições traumáticas na relação mãe-bebê Orestes Forlenza Neto Referências A questão do suicídio na teoria de D. W. Winnicott Flávio Del Matto Faria Referências O papel do pai no processo de amadurecimento em Winnicott Claudia Dias Rosa 1. Introdução 2. A presença do pai no período de dependência absoluta 3. A presença do pai no período de dependência relativa 4. A presença do pai no estágio do concernimento 5. A presença do pai no estágio edípico Referências A incerta conquista da morada da psique no soma em D. W. Winnicott Vera Regina F. de Laurentiis Referências A teoria do amadurecimento pessoal de D. W. Winnicott e a fisioterapia Maria Emília Mendonça 1. No que consiste a teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal 2. Os primeiros estágios do amadurecimento pessoal 3. A compreensão dos primeiros estágios do amadurecimento pessoal e a fisioterapia 4. Cenário atual da prática do fisioterapeuta 5. Vinheta de um tratamento fisioterápico com a presença de questões complicadoras 6. Como se dá a formação do fisioterapeuta 7. D. W. Winnicott falando diretamente aos fisioterapeutas 8. Possíveis aproximações entre o pensamento de Winnicott e aspectos da fisioterapia Referências Parte III Exemplares do paradigma winnicottiano O caso B: a mãe perfeita e a constituição do si-mesmo Gabriela Galván Referências Os elementos masculino puro e feminino puro na clínica: a história de Vítor 1. Introdução 2. Com um pé em cada canoa 3. Considerações finais Referências O manejo de Winnicott no caso Philip Maria de Fátima Dias 1. Introdução 2. Diagnóstico 3. A história de Philip 4. O manejo 5. Conclusão Referências O uso da consulta terapêutica na clínica da tendência antissocial Roseana Moraes Garcia 1. A tendência antissocial 2. As consultas terapêuticas 3. Luana 4. Primeira entrevista com a mãe 5. Consulta terapêutica com Luana 6. Segunda entrevista com a mãe 7. Comentários Referências Um caso clínico: sobre as repercussões derivadas da atitude de cuidado no início da apresentação de sintomas antissociais Alice McCaffrey Busnardo 1. O caso clínico de Pedro 2. O Jogo de Varetas 3. Trechos de sessões 4. Desdobramentos 5. Considerações finais Referências A construção do eu de crianças cegas congênitas Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian 1. A teoria do amadurecimento e a construção do eu da criança com cegueira congênita 2. O desenvolvimento emocional primitivo e a criança com cegueira congênita 3. Considerações finais Referências Perto das trevas: a história de um colapso Edna Pereira Vilete Referências A função do falso self na produção de uma diva: o caso Maria Callas Alfredo Naffah Neto 1. A diva, que fascina... 2. Maria Callas, vida e obra 3. Mimetizando figuras do mundo por meio do falso self: a criação da diva Referências Prefácio Com a coletânea Winnicott na Escola de São Paulo, comemoramos o décimo aniversário da fundação, em 2001, do Centro Winnicott de São Paulo (CWSP). Várias outras datas, relativas a iniciativas afins que tambémempreendemos em conjunto, merecem ser associadas a essa comemoração: o início, em 1995, da série ininterrupta de Colóquios Winnicott de São Paulo, de caráter internacional; a criação formal, também em 1995, na PUC-SP, do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas (GFPP), credenciado junto ao CNPq e hoje sediado na Unicamp; o lançamento, por esse grupo, em 1999, da revista Natureza humana. Em 2003, o CWSP abriu a Escola Winnicottiana de Psicanálise, transformada, em 2005, em filial da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (SBPW), fundada nesse mesmo ano com o objetivo de promover o estudo e o desenvolvimento da psicanálise winnicottiana, bem como a formação de profissionais que desejam atuar nesse quadro teórico e clínico. Em 2008, a Sociedade Winnicott ganhou sede própria em São Paulo, que hoje abriga, além da Escola, a DWW editorial, a editora da Sociedade. Já em 2006, foram criados os Centros Winnicott do Triângulo Mineiro e de Campinas, os quais, junto com os mais recentes Grupos Winnicott de Lorena e Belo Horizonte, desenvolvem, em níveis diferentes, essas mesmas atividades. A caracterização inicial da psicanálise winnicottiana, usada como base do ensino na Escola Winnicottiana de Psicanálise e das pesquisas dos membros dos centros e dos grupos da SBPW, foi feita nos trabalhos desenvolvidos no quadro do GFPP, de acordo com uma linha de pesquisa desenvolvida por Zeljko Loparic já em meados dos anos 1980. Tendo fundado, em 1983, no Centro de Lógica da Unicamp, o Curso de Especialização em Fundamentos Filosóficos da Psicologia e da Psicanálise, Loparic começou a trabalhar a filosofia e a história da psicanálise usando um referencial teórico próprio, elaborado com base na 1) teoria kantiana de resolução de problemas filosóficos e científicos, 2) teoria dos paradigmas e das mudanças de paradigmas nas ciências factuais de Thomas S. Kuhn, inserida no horizonte mais amplo de uma teoria da ciência em geral como atividade de resolução de problemas e 3) fenomenologia heideggeriana da relação do homem ao ser, tomada como base para a desconstrução da metafísica e como ponto de partida para a elaboração de um novo tipo de saber, tanto filosófico como científico, sobre o homem. Kant era empregado para repensar a estrutura da psicanálise freudiana, Kuhn para dar um enfoque metodológico e epistemológico preciso ao estudo do desenvolvimento das teorias e das práticas clínicas psicanalíticas pós- freudianas, e Heidegger para desconstruir os ingredientes metafísicos da psicanálise tradicional e lançar os alicerces filosófico-antropológicos para uma possível ciência psicanalítica pós-metafísica. Essa linha de pesquisa, enriquecida pelos trabalhos teórico-clínicos de Elsa Oliveira Dias sobre Winnicott, recebeu um impulso decisivo das seguintes descobertas fundamentais, feitas ainda na fase informal da existência do GFPP, no início dos anos 1990, e consolidadas posteriormente: 1) Winnicott abandonou o Édipo como complexo nuclear da psicanálise, substituiu a teoria da sexualidade pela teoria do amadurecimento pessoal e recusou o modo de teorização metapsicológico, de inspiração kantiana; 2) ao fazer isso, além de trazer muitas outras contribuições, Winnicott produziu, por uma operação que pode ser comparada a um Gestalt switch, uma mudança do paradigma da psicanálise tradicional e 3) o paradigma winnicottiano da psicanálise, não-edipiano, maturacional e pós-metapsicológico, admite ser aproximado, de maneira frutífera, do pensamento do ser de Heidegger, em particular, do projeto heideggeriano de uma antropologia científica pós-metafísica, explicitado em Seminários de Zollikon, que incluísse uma psicopatologia e uma terapia no quadro de uma antropologia filosófica, cujas bases foram lançadas na analítica existencial de Ser e tempo. Os trabalhos realizados de acordo com essa linha de pesquisa, criada na Unicamp, transferida em seguida para a PUC-SP e continuada atualmente na SBPW, por seus membros e colaboradores, foram divulgados de várias formas – dissertações e teses, livros e artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Um número significativo de artigos saiu na revista Natureza humana, que, inicialmente, era uma publicação local do GFPP e, posteriormente transformada em revista internacional de filosofia e psicanálise, tornou-se órgão oficial da SBPW e da Sociedade Brasileira de Fenomenologia. Outros artigos encontram-se disponíveis na Winnicott e- Prints, revista eletrônica da SBPW, especializada em aspectos teórico- clínicos da psicanálise winnicottiana. A presente coletânea, que faz parte da Coleção Psicanálise Winnicottiana, da DWW editorial, contém uma seleção de artigos representativos da Escola, escolhidos pelos próprios autores. Vários desses textos foram corrigidos ou parcialmente modificados, pelos próprios autores, para a presente publicação. A normatização foi feita segundo as regras da APA e as datas das publicações originais das obras de D. W. Winnicott seguem a classificação de K. Hjulmand, publicada na Natureza humana, v. 1, n. 2, 1999 e também em: http://www.winnicottnaturezahumana.com.br. Os artigos selecionados foram divididos tematicamente em três grupos: os que tratam do surgimento do paradigma winnicottiano, os que articulam essa reformulação da psicanálise e, por fim, os que apresentam casos clínicos ou de outro tipo que ilustram as ideias de Winnicott. No artigo de abertura, Loparic reapresenta e desenvolve uma das suas teses principais relativas a Winnicott: a de que este autor, ao operar a mudança paradigmática na psicanálise, alterou a estrutura e os ingredientes do mundo no qual os psicanalistas formulam e resolvem problemas clínicos, bem como o seu modo de ver e de falar. O artigo de João Paulo F. Barretta trata da irritabilidade do aparelho psíquico, um dos conceitos essenciais da teoria freudiana, retomando as críticas apresentadas anteriormente na sua tese de doutorado e baseadas na analítica existencial de Heidegger. Leopoldo Fulgencio, na perspectiva aberta por Loparic, desenvolve uma das teses iniciais e fundamentais da Escola: a de que Winnicott reescreveu a teoria psicanalítica sem recorrer ao modo de teorização especulativo, característico da parte metapsicológica da psicanálise freudiana. Ariadne Alvarenga de Rezende Engelberg de Moraes examina um momento importante da história da psicanálise britânica, a relação entre Winnicott e o assim chamado Middle Group. O primeiro grupo temático contém mais dois artigos, nos quais a relação entre Winnicott e Heidegger é estudada por Eder Soares Santos e Caroline Vasconcelos Ribeiro: o primeiro traça um paralelo entre a teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal e a fenomenologia da acontecência humana, exposta em Ser e tempo, e a segunda, à luz da http://www.winnicottnaturezahumana.com.br/ crítica de Heidegger à psicanálise freudiana, mostra a diferença crucial entre Freud e Winnicott, e, tomando como fio condutor o conceito de “história de vida”, examina a distinção entre começo e origem. O segundo grupo temático é encabeçado pelo artigo de Elsa Oliveira Dias, que explicita o modo como a teoria winnicottiana do amadurecimento serve de horizonte teórico para a classificação dos distúrbios psíquicos e como esta, por sua vez, orienta o diagnóstico e a tarefa clínica que daí decorre. Seguem-se textos que articulam adicionalmente a versão winnicottiana da teoria psicanalítica. Conceição A. Serralha de Araújo põe em evidência o ambiente e as relações ambientais, as quais, segundo Winnicott, fundamentam as relações objetais, tese que implica ser impossível classificar a psicanálise winnicottiana, junto com a de Klein e de Fairbairn, entre as teorias das relações objetais. Orestes Forlenza Neto revisita outro tema central em Winnicott: o do bebê no colo da mãe e os traumas que podem acontecer nessa situação. Flávio Del Matto Faria explicita a teoria winnicottiana do suicídio, assunto relativo à problemática de aniquilação do indivíduo pelas intrusões ambientais na primeira infância, tal como compreendidapor Winnicott e praticamente inexistente em Freud. Claudia Dias Rosa dedica-se ao estudo de um tópico que até o presente momento recebeu pouca atenção nos estudos winnicottianos fora da Escola: o papel do pai no processo de amadurecimento, mostrando ser este, ao lado da mãe, figura essencial na constituição de indivíduos sadios. Vera Regina F. de Laurentiis, tratando da incerta conquista da morada da psique no soma em Winnicott, e Maria Emília Mendonça, abordando a relação entre a psicanálise e a fisioterapia, exploram o tema winnicottiano da personalização, fechando esse grupo de trabalhos com resultados que vão além da clínica psicanalítica propriamente dita e que chamam por confrontações adicionais de Winnicott com outras áreas, entre elas a das práticas preventivas e da medicina, em particular, a psiquiatria e as neurociências. O último grupo temático consiste de estudos de casos entendidos como exemplares do paradigma winnicottiano, isto é, como exemplos de soluções bem-sucedidas de problemas clínicos tratados ou examinados à luz da psicanálise winnicottiana. O artigo de Gabriela Galván reconstrói aspectos centrais de um dos casos clínicos mais importantes relatados por Winnicott, o caso B, mostrando a conexão entre uma mãe perfeita e as distorções na constituição do si-mesmo. O artigo coletivo de Cecilia Luiza Montag Hirchzon, Maria Cecilia Schiller Sampaio Fonseca e Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian apresenta a aplicação clínica de mais um conceito original de Winnicott: o dos elementos masculino puro e feminino puro. Maria de Fátima Dias lança luz sobre um procedimento fundamental da clínica winnicottiana, o manejo, mediante o relato minucioso de um caso clínico, o de Philip, de 9 anos, em que a família do menino assumiu o tratamento, sendo orientada de perto por Winnicott. Roseana Moraes Garcia, a propósito do tratamento da tendência antissocial, apresenta uma das mais importantes inovações trazidas por Winnicott para a clínica psicanalítica: as consultas terapêuticas, ilustrando-a com um bem-sucedido caso, de sua clínica, de uma menina de 8 anos. Alice McCaffrey Busnardo traz outro caso clínico relativo à mesma área, discutindo as repercussões da atitude de cuidado no início do tratamento de sintomas antissociais. Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian mostra a relevância da teoria winnicottiana do amadurecimento a um campo não estritamente psicanalítico: a construção do eu de crianças cegas congênitas. Edna Pereira Vilete examina a experiência vivida e contada pelo escritor William Styron à luz dos conceitos winnicottianos de colapso e de angústia de aniquilamento, assim como as condições que presidiram a sua recuperação. Por fim, Alfredo Naffah Neto analisa um caso que ilustra a função do falso si-mesmo (self) na produção de uma artista excepcional: Maria Callas. Os trabalhos reunidos nesta coletânea são apenas uma pequena amostra da produção dos membros da Escola. A totalidade do material encontra-se disponível nas fontes mencionadas e pode ser identificada nos CV Lattes dos autores contribuintes, bem como no portal da SBPW: www.sociedadewinnicott.com.br. Mesmo assim, acreditamos que o leitor encontrará, neste volume, dados e argumentos suficientes – baseados nas análises internas da obra de Winnicott tomada no seu todo (esse modo de proceder é um dos traços distintivos da Escola), nos estudos da história da psicanálise, nas implicações filosóficas da psicanálise winnicottiana e, por fim, no material clínico particularmente abundante – para, como indicado anteriormente, caracterizar a contribuição de Winnicott como uma mudança http://www.sociedadewinnicott.com.br/ do paradigma da psicanálise, entendendo-se por psicanálise a atividade de resolução de problemas factuais de um determinado tipo, a saber, de problemas clínicos. Em virtude desse resultado fundamental, a leitura de Winnicott praticada na Escola de São Paulo difere em pontos essenciais de várias outras linhas de interpretação encontradas na literatura secundária. Em primeiro lugar, a afirmação de que Winnicott produziu um novo paradigma da psicanálise implica que ele elaborou uma teoria própria, a qual, assim como a de Freud, cobre o campo inteiro da psicanálise de modo unitário e articulado – tese que contradiz todos aqueles, e eles não são poucos, que negam ter Winnicott uma teoria, chegando mesmo a afirmar que seu pensamento é apenas fragmentário. Em segundo lugar, embora Winnicott siga Freud ao apresentar a psicanálise como uma ciência, uma diferença importante separa esses dois autores: enquanto Freud constrói a sua disciplina – e a psicologia no seu todo – como ciência natural, tendo como objeto central de estudo as pulsões, entidades análogas a forças naturais da física newtoniana, que agem no interior de um aparelho psíquico pensado segundo o modelo de uma máquina hidráulica ou de uma entidade biológica, Winnicott toma como objeto de estudo e de cuidado a natureza humana, que não se manifesta como uma entidade natural movida por forças, mas como algo que emerge do nada, preserva a solidão como traço essencial e inerente, tende a integrar-se numa unidade, para, caso conte com a facilitação ambiental, tornar-se um ser existente personalizado, capaz de agir no mundo e até se dar ao luxo de morrer. Essas são as teses pelas quais Winnicott reposiciona a psicanálise no campo das ciências factuais: a psicanálise pertence agora ao grupo de ciências humanas, mais precisamente, ao campo da antropologia, distinto da psicologia quer naturalista quer não naturalista (por exemplo, a fenomenológica). Em terceiro lugar, a psicanálise winnicottiana é uma ciência essencialmente clínica, ou seja, ela é elaborada a partir de problemas que surgem na clínica psicanalítica – seus conceitos, afirmações e procedimentos só têm sentido no domínio constituído por esse material – e é destinada a guiar a resolução desses problemas, isto é, a cura. Em quarto lugar, por ser uma ciência clínica, a psicanálise winnicottiana não faz nem pretende fazer nenhuma contribuição direta – Winnicott deixa isso muito claro – à filosofia, à religião ou à poesia. Essa constatação contraria, portanto, os leitores que não veem em Winnicott um cientista, mas um pensador filosofante, como se produzir teorias científicas impedisse de pensar. Ela tampouco deixa espaço para as teses que misturam Winnicott com os místicos religiosos em busca do infinito. Opõe-se, por fim, a todas as tentativas de colocar a sua obra no âmbito da ficção literária. A literatura, em particular a poesia, dá-nos acesso a toda verdade num flash – Winnicott concede e valoriza esse ponto, mas adverte que, diferentemente da verdade científica, a verdade poética não permite acordos intersubjetivos, nem aplicações no agir humano, inclusive nos procedimentos de cura. O essencial da contribuição da Escola Winnicottiana de São Paulo aos estudos winnicottianos pode ser resumido da seguinte forma: a obra de Winnicott constitui um passo decisivo no progresso da ciência psicanalítica, da sua forma inicial elaborada por Freud para uma matriz disciplinar que permite resolver um número de problemas clínicos significativamente maior, e desenvolver práticas de prevenção e de intervenção social. Como toda produção que modifica de maneira significativa a direção da pesquisa numa determinada área, a dos autores reunidos no presente livro suscitou resistências e ganhou adesões. Os dois lados, cada um a sua maneira, contribuíram para aumentar o impacto da Escola no campo de estudos sobre a história e o estado atual da psicanálise tanto no Brasil como no exterior. Sem dúvida, muitos aspectos do pensamento winnicottiano requerem articulação e desenvolvimento adicionais. Urge ainda expor a psicanálise ao diálogo com as ciências do homem de diferentes perspectivas teóricas, promovendo assim uma reflexão sobre o futuro da disciplina fundada por Freud. O reconhecimento dessas tarefas, entre várias outras, faz deste volume apenas um marco num caminho que se estende indefinidamente, para o desconhecido. ElsaOliveira Dias Zeljko Loparic Sobre os autores Alfredo Naffah Neto Psicanalista, mestre em Filosofia pela USP, doutor em Psicologia Clínica pelo PUC-SP, é professor titular na PUC-SP no Programa de Estudos Pós- Graduados em Psicologia Clínica, no núcleo de pesquisa: “O método psicanalítico e as formações da cultura”. Atua, além disso, em consultório particular como psicanalista e psicoterapeuta de casais e de famílias. Seus projetos de pesquisa, no momento, versam sobre dois temas: 1) desenvolvimento da psicopatologia e suas articulações com a técnica na clínica psicanalítica winnicottiana; 2) articulações entre psicanálise e música. Suas publicações reúnem vários artigos referentes a esses dois projetos de pesquisa. E-mail: naffahneto@gmail.com Alice McCaffrey Busnardo Graduação e mestrado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Trabalha como psicanalista em consultório particular e também é professora no Centro Winnicott de São Paulo e de Campinas. Doutoranda na PUC-SP sob orientação do Prof. Dr. Zeljko Loparic. E-mail: alibusnardo@gmail.com Ariadne Alvarenga de Rezende Engelberg de Moraes Psicóloga clínica formada pela UNIP-SP. Mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Membro do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas (GFPP/Unicamp/CNPq). Tem artigos publicados em livros e revistas. Professora do Centro Winnicott de São Paulo. Atende em consultório particular. Foi professora do curso de psicologia da UNIP e Universidade Mackenzie. E-mail: ariadne.moraes@uol.com.br. Caroline Vasconcelos Ribeiro Professora adjunta na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Psicóloga pela Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ), mestre em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), doutora em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob mailto:naffahneto@gmail.com mailto:alibusnardo@gmail.com mailto:ariadne.moraes@uol.com.br orientação do professor Dr. Zeljko Loparic. Membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (SBPW) e do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas (GFPP/Unicamp/CNPq). Organizou o vol. 11 do periódico Aprender – caderno de filosofia e psicologia da educação, dedicado ao estudo da teoria winnicottiana. Organizou, junto com Suely Aires, o livro: Ensaios de filosofia e psicanálise. E-mail: carolinevasconcelos@hotmail.com Cecilia Luiza Montag Hirchzon Graduação em Ciências Sociais pela FFCLUSP (1960), graduação em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP (1970), psicóloga do Departamento de Psicologia da Aprendizagem do Instituto de Psicologia da USP (1972 a 1978), formação em Psicanálise pelo Instituto de Psicanálise da SBPSP (1979), membro associado da SBPSP (1980), professora do curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae (1980 a 1988), membro associado do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae. E-mail: cecilu@bol.com.br Claudia Dias Rosa Graduada em Psicologia pela PUC-SP, psicanalista, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, doutoranda por essa mesma Universidade, professora da Escola Winnicottiana de Psicanálise, coordenadora do SAP (Serviço de Atendimento em Psicanálise) do Centro Winnicott de São Paulo e de Campinas. E-mail: claudia@centrowinnicott.com.br Conceição A. Serralha de Araújo Graduada em Psicologia pela Universida de Federal de Uberlândia (UFU), com mestrado e doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sob orientação do Prof. Dr. Zeljko Loparic. Professora adjunta da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Membro do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas (GFPP/Unicamp/CNPq) e do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicanálise (GEPPSE) da UFTM. Possui vários trabalhos publicados em periódicos científicos sobre temáticas importantes da psicanálise winnicottiana. E-mail: serralhac@psicologia.uftm.edu.br mailto:carolinevasconcelos@hotmail.com mailto:cecilu@bol.com.br mailto:claudia@centrowinnicott.com.br mailto:serralhac@psicologia.uftm.edu.br Eder Soares Santos Doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (SBFW) e membro do Grupo de trabalho em Filosofia e Psicanálise da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF). Atualmente é professor adjunto na Universidade Estadual de Londrina no Paraná e coordenador do mestrado em Filosofia da mesma universidade. Publicou, em 2010, o livro Winnicott e Heidegger: aproximações e distanciamentos. São Paulo: DWW editorial. E-mail: edersan@hotmail.com Edna Pereira Vilete Formada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas do Estado da Guanabara (1960 a 1965). Especialização em Pediatria (1965), Pós- Graduação em Psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria UFRJ (1969) e Formação Psicanalítica da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (filiada à International Psychoanalytical Association) entre 1971 a 1977. Docente e Didata do Curso de Formação de Psicanalistas da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro desde 1980. Coordenadora de grupos de Observação da Relação Mãe-Bebê desde 1981, no Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Fundadora do Espaço Winnicott − Estudos em Psicanálise e Cultura − Rio de Janeiro, destinado à divulgação da obra de Donald Winnicott em cursos e colóquios. Coordenadora de Grupos de Estudos no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Clínica particular de Psicanálise desde 1971. E-mail: edvilete@uol.com.br Elsa Oliveira Dias Psicanalista. Graduação em Psicologia pela PUC-SP. Mestre em Filosofia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, com a tese “A teoria das psicoses de D. W. Winnicott”. Membro do Grupo de Filosofia e Práticas Psicoterápicas (GFPP/Unicamp/CNPq). Membro do Conselho Científico de Natureza humana, Revista Internacional de Filosofia e Psicanálise. Fundadora do Centro Winnicott de São Paulo (CWSP) e diretora de ensino e formação da Escola Winnicottiana de Psicanálise desse Centro. Fundadora da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana. mailto:edersan@hotmail.com mailto:edvilete@uol.com.br Autora de vários artigos sobre D. W. Winnicott, sobre filosofia e psicanálise, e autora do livro A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott, publicado em 2003 pela Imago. E-mail: elsadias@uol.com.br Flávio Del Matto Faria Doutor e mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Supervisor clínico do Centro Winnicott de São Paulo. Psicólogo clínico, psicanalista. Especialista em Psicologia Clínica e em Psicoterapia de adolescentes. Professor responsável e supervisor clínico do curso de Psicologia da Universidade São Judas Tadeu. Membro pesquisador do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas (GFPP/Unicamp/CNPq). Coordenador do Programa de Atenção às Tentativas de Suicídio da Universidade São Judas Tadeu – PROATES. E-mail: f.faria@uol.com.br Gabriela Galván Psicóloga clínica (PUC-SP), mestre em Psicologia pelo IPUSP (Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo), doutoranda em Psicologia no IPUSP, especialista em Psicologia Hospitalar, docente do Centro Winnicott de São Paulo e Campinas. E-mail: galvan@usp.br João Paulo Fernandes Barretta Graduação em Psicologia pela Universidade Mackenzie. Mestrado em Filosofia pela PUC-SP e doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Professor do Centro Winnicott e da Universidade Paulista (UNIP). E-mail: jpbarretta@hotmail.com Leopoldo Fulgencio Graduado no Instituto de Psicologia da USP, com mestrado, doutorado e pós-doutorado no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia da PUC-SP, tendo feito estágio de doutorado em Paris VI - Dennis Diderot. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCCampinas. Suas publicações mais importantes são: “Freud’s metapsychological speculations” (The International Journal of Psychoanalysis, 86(1), 99-123, 2005) e “Winnicott’s rejection of the basic concepts of Freud’s metapsychology” (The InternationalJournal of Psychoanalysis, 88(2), 443- mailto:elsadias@uol.com.br mailto:f.faria@uol.com.br mailto:galvan@usp.br mailto:jpbarretta@hotmail.com 461, 2007). Este artigo, cuja versão em português está sendo aqui republicada, foi incluído no anuário do International Journal of Psychoanalysis, nas suas versões em francês, português e espanhol. E-mail: ful@that.com.br Maria Cecilia Schiller Sampaio Fonseca Formada em Psicologia pela PUC-RJ. Formada em Medicina pela Faculdade de Medicina e Cirurgia RJ (atual Unirio). Membro Efetivo da SBPRJ. Membro Associado da SBPSP. E-mail: macefonseca@uol.com.br Maria Emília Mendonça Graduação em Educação Física e Fisioterapia pela Universidade Estadual de Londrina, PR. Especialização em Ginástica Holística, Método Ehrenfried pela AEDE, Paris, França. Mestrado em Educação-Currículo, pela PUC-SP, 1999. Doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP em 2007. É diretora do Instituto Maria Emília Mendonça, formação, pesquisa e cuidados do corpo, onde coordena há 25 anos uma equipe multidisciplinar. Publicou, em 2000, pela Editora Summus, SP, o livro Ginástica Holística, história e desenvolvimento de um método de cuidados corporais, fruto do mestrado. E-mail: maria.emilia.mendonca@hotmail.com Maria de Fátima Dias Psicóloga (CRP 06/19071) pela Faculdade Paulistana; é mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Filiada à SBPW (Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana), é professora dos cursos de formação em Psicanálise Winnicottiana da SBPW, e do curso de Especialização Interfaces da Psicanálise de D. W. Winnicott da UNISAL. Palestrante e professora em diversos cursos de extensão e pós-graduação, tem experiência em docência e coordenação de cursos na área da psicologia. Estuda especialmente os temas da integração psicossomática, constituição da sexualidade e desenvolvimento humano. E-mail: mfatimadias@uol.com.br Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian Psicóloga pela PUC-SP, doutora em Psicologia Clínica pelo IPUSP, docente e orientadora da Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano do IPUSP, docente e orientadora do Centro mailto:ful@that.com.br mailto:macefonseca@uol.com.br mailto:maria.emilia.mendonca@hotmail.com mailto:mfatimadias@uol.com.br Winnicott de São Paulo, coordenadora do Laboratório Interunidades de Estudo das Deficiências (LIDE), do IPUSP, e autora do livro Compreendendo o cego: uma visão psicanalítica da cegueira e dos artigos: “Conhecendo a deficiência pela óptica das propostas winnicottianas”, “Deficiência, um novo olhar: contribuições a partir da psicanálise” e “A clínica do amadurecimento e o atendimento às pessoas com deficiência”. E-mail: mltma@usp.br Orestes Forlenza Neto Formado em medicina pela USP em 1962. Assistente de ensino da cadeira de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade Federal de São Paulo. Formação psicanalítica pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Analista didata pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Membro do Centro Winnicott de São Paulo. Vários artigos em revistas de psicanálise e livros. Roseana Moraes Garcia Mestrado em Psicologia Clínica PUC-SP (2004). Doutorado em Psicologia Clínica PUC-SP (2009). Psicanalista. Professora e supervisora da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana. E-mail: roseanagarcia@uol.com.br Vera Regina Ferraz de Laurentiis Psicóloga e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Há anos dedica-se à pesquisa do tema da integração psique-soma, tendo se especializado também em instituições como o Sedes Sapientiae e o Centro de Educação Somática e Existencial. Psicoterapeuta, professora e colaboradora do Centro Winnicott de São Paulo e Campinas, atuou, entre outros, em equipes interdisciplinares, atendendo pacientes com distúrbios de alimentação, em crise psiquiátrica, e adictos. Entre seus principais artigos estão “A possibilidade de um vir a ser psicossomático”, “A construção do corpo”, “Corpo, imagem ou devir?”. E-mail: veralaurentiis@terra.com.br Zeljko Loparic Doutor em Filosofia, docente da PUC-SP e Unicamp, fundador da Escola Winnicottiana de Psicanálise (2003), presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (2005) e diretor da editora DWW editorial mailto:mltma@usp.br mailto:roseanagarcia@uol.com.br mailto:veralaurentiis@terra.com.br (2009). É autor de livros Ética e finitude (1995), Semântica transcendental de Kant (2000) e Heidegger (2004), entre outros, bem como de um número de artigos, principalmente sobre Kant, Heidegger, Freud e Winnicott. E-mail: loparicz@uol.com.br mailto:loparicz@uol.com.br Parte I Surgimento do paradigma winnicottiano De Freud a Winnicott: aspectos de uma mudança paradigmática1 Zeljko Loparic 1. O paradigma freudiano Não é fácil dizer o que é a psicanálise. Um esclarecimento possível consiste em evocar a afirmação de Freud, reiterada por Winnicott, de que a psicanálise é a ciência de um certo tipo de fatos clínicos. Isso posto, coloca- se uma nova pergunta, ainda mais difícil: que é uma ciência factual e como devem ser pensados a estrutura interna e o desenvolvimento de uma tal disciplina? De acordo com Thomas S. Kuhn, um dos mais influentes epistemólogos da segunda parte do século XX, uma ciência factual madura é o quadro no qual se desenvolve uma atividade de resolução de problemas semelhantes a quebra-cabeças. A estrutura interna desse quadro é caracterizada por uma maneira de ver o mundo e de falar sobre ele, compartilhada por um grupo institucionalizado, estruturada como um paradigma ou uma matriz disciplinar. Um paradigma é composto de: 1) exemplares, isto é, problemas centrais que dizem respeito aos fatos acessíveis em alguma forma de experiência (observação, experimentação, clínica), acompanhados de suas soluções e 2) compromissos teóricos, dos quais constam: a) generalizações usadas como guias na pesquisa, b) modelo ontológico do domínio estudado (a parte propriamente “metafísica” dos paradigmas), c) modelo metodológico (os métodos de pesquisa franqueados, analogias e metáforas permitidas), e d) valores, alguns deles epistemológicos – relativos ao modo como deve ser elaborada e praticada a disciplina em questão (capacidade de formular problemas, tipo de soluções admitidas, simplicidade, consistência interna e externa, plausibilidade) –, e outros práticos, relacionados à utilidade social do saber científico. O desenvolvimento de uma disciplina desse tipo passa por períodos de pesquisa normal, cumulativa, realizada de acordo com o paradigma dominante, seguidos de períodos de crise, provocados pelo aumento de “anomalias” – problemas considerados relevantes, mas que permanecem não resolvidos. As crises levam uma parte do grupo a se dedicar à pesquisa revolucionária visando à constituição de um novo paradigma, obedecendo, contudo, à condição de preservar a capacidade solucionadora da disciplina. Quando bem-sucedida, essa pesquisa não cumulativa termina em conversão da parte ou da totalidade do grupo a uma nova maneira de ver o mundo e de falar sobre ele, comparável a um Gestalt switch perceptivo ou a uma mudança revolucionária de um regime político, seguida de um novo período de pesquisa normal. As mudanças nos paradigmas ocorrem, portanto, como revoluções científicas que substituem os paradigmas (figuras do mundo, “regimes” teóricos) velhos, em crise, pelos novos, considerados mais promissores por resolverem tanto os problemas principais já solucionados como as anomalias e por aumentarem, dessa forma, o poder de resolução de problemas da ciência em questão.2 Mesmo que a psicanálise tradicional não possa ser considerada uma ciência factual madura, parece-me frutífero olhar para ela na perspectiva kuhniana, procurando por formas incipientes de um paradigma e por crises, seguidas de pesquisa revolucionária.3 Procedendo assim, é possível dizer que o exemplar principal da disciplina criada pela pesquisa revolucionária de Freud é o complexo de Édipo, a criança na cama da mãe às voltas com os conflitos, potenciais geradores de neuroses, que estãorelacionadas à administração de pulsões sexuais em relações triangulares. A generalização- guia central é a teoria da sexualidade, centrada na ideia da ativação progressiva de zonas erógenas, pré-genitais e genitais, com o surgimento de pontos de fixação pré-genitais. O modelo ontológico do ser humano, explicitado na parte metapsicológica da teoria, comporta um aparelho psíquico individual, movido por pulsões libidinais, e outras forças psíquicas determinadas por leis causais. A metodologia é centrada na interpretação do material transferencial à luz do complexo de Édipo ou de regressões aos pontos de fixação. Os valores epistemológicos básicos são os das ciências naturais, incluindo explicações causais, e o valor prático principal é a eliminação do sofrimento decorrente dos conflitos internos pulsionais, do tipo libidinal. Considerando a importância do exemplar do Édipo na psicanálise de Freud, convém chamar o seu paradigma de edípico ou triangular. Se levarmos em conta a natureza sexual da situação edípica, a matriz disciplinar de Freud pode ser designada como sexual.4 2. A crise do paradigma freudiano e os principais resultados da pesquisa revolucionária de Winnicott A psicanálise passou por várias reformulações pelo próprio Freud e seus seguidores, efetuadas no mais das vezes sob pressão de fatos clínicos. Nas pesquisas de Winnicott, contudo, o paradigma freudiano como tal entra em crise, dando lugar à busca por um novo paradigma. O motivo principal da crise foi o acúmulo de problemas clínicos – entre eles as manifestações da tendência antissocial e da psicose infantil – que não podiam ser compreendidos teoricamente nem tratados clinicamente no quadro do paradigma edípico de Freud, mas que, segundo Winnicott, não deviam ser eliminados do campo de aplicação da psicanálise.5 Desde 1923, Winnicott constatou a existência de várias manifestações do que ele posteriormente chamará de tendência antissocial: num extremo, a avidez (greediness) e a enurese, e, no outro, a delinquência, os distúrbios de caráter e todos os tipos de psicopatia, incluindo ainda os casos de furto e as mentiras. A psicanálise da época costumava explicar a delinquência pela culpa originada de uma ambivalência inconsciente insuperável, a saber, pelo ódio persistente dirigido à pessoa amada. A ideia básica era a existência de um sentimento de culpa muito forte, que não podia encontrar saída nem na sublimação nem na reparação, de modo que a única alternativa era o indivíduo destruir algo a fim de poder sentir-se culpado. Em outras palavras, a etiologia da delinquência era vista em termos da luta no mundo interno do indivíduo, transferida na forma de um acting-out destrutivo, que perturbava o setting analítico. Por essa razão, Winnicott, tal como os outros psicanalistas, encaminhava os casos antissociais a clínicas não psicanalíticas (1989a/1993, p. 439). Ao mesmo tempo, contudo, ele não conseguia se convencer que se tratava de um erro de seleção de casos (de aplicação da psicanálise), vendo nisso uma séria limitação da teoria e uma grave falha da técnica psicanalítica. Concluindo, assim como antes dele fizeram August Aichhorn e Sándor Ferenczi, que a psicanálise deveria adaptar sua técnica às necessidades da criança com tendência antissocial ou do psicopata “sem se transformar em puro manejo, ou seja, sem perder o seu título de psicanálise” (1965b/1983, p. 115). Desde essa mesma época, Winnicott deu-se conta, com base em inúmeros casos clínicos, que crianças sofrendo de distúrbios psíquicos mais variados, em particular as crianças psicóticas, “revelavam dificuldades no seu desenvolvimento emocional na infância, mesmo como bebês”, fato que, segundo ele, dificilmente podia ser encaixado na teoria do complexo de Édipo (1965b/1983, p. 157). Ele expôs esses casos aos colegas em “artigos assustados”, reunidos posteriormente num único trabalho: “Apetite e desordem emocional”, de 1936. Passado o susto, Winnicott acabou rejeitando a regra básica da metodologia freudiana, a saber, a que exige a interpretação do material transferencial à luz do complexo de Édipo ou de regressões aos pontos de fixação da libido a fases pré-genitais.6 Mais uma vez, a ortodoxia psicanalítica estava em crise. Na percepção de Winnicott, a principal dificuldade da psicanálise tradicional em tratar dos casos de tendência antissocial e de psicose decorria do fato de ela pensar a etiologia dos distúrbios psíquicos em termos relacionados aos conflitos “pulsionais” intrapsíquicos, deixando de ver que, pelo menos nesses casos, a patologia ou a anormalidade estava primariamente no ambiente e só secundariamente na criança. Em outras palavras, Winnicott entendeu que era necessário mudar a etiologia dos distúrbios em questão. A partir do início dos anos 1940, ele passara a sustentar que a tendência antissocial, os comportamentos delinquentes e os distúrbios de caráter (psicopatias) decorrentes eram causados pela falha ambiental ocorrida num estágio de dependência relativa, no qual o indivíduo já adquirira uma organização egoica suficiente para perceber o fato da deprivação (deprivation) efetiva (perda de um objeto ou de um quadro de referência que já foi experienciado como bom e disponível) e para avaliar que a responsabilidade pela perda era do ambiente (que este ficou lhe devendo algo). Dessa forma, a etiologia tradicional, baseada nos conceitos de pulsão e de conflito interno, foi substituída pela compreensão em termos de necessidade pessoal de asseguramento e de perda de confiança no ambiente, com a consequente crise relativa ao autocontrole e à identidade pessoal.7 Quanto à psicose, aproximadamente na mesma época,8 Winnicott chegou à “inesperada conclusão de que a esquizofrenia era uma espécie de doença provocada por uma deficiência ambiental” (1958a/2000, p. 239). A esquizofrenia se origina – esta é a tese que Winnicott começará a defender apoiado, de novo, em dados colhidos na sua intensa clínica pediátrica – no estágio de dupla dependência, ou seja, no período no qual o indivíduo em desenvolvimento ainda não adquiriu a capacidade de ter consciência da sua dependência do ambiente externo e de se dar conta das falhas deste (1965b/1983, pp. 123-124). Daí se segue – cito agora um texto tardio de 1969 – que “a teoria psicanalítica precisava ser desenvolvida ou modificada, se é que o analista quer ter esperanças de tornar-se capaz de lidar com fenômenos esquizoides no tratamento dos pacientes” (1989a/1993, p. 198). Num outro trabalho, escrito no mesmo ano, Winnicott enunciara a mesma tese em termos que revelam claramente a sua preocupação com a inércia intelectual dos psicanalistas, devida à formação ortodoxa e aos hábitos de trabalho desses profissionais, que impedem o progresso da psicanálise: Para fazer progresso no sentido de uma teoria operacional da psicose, os psicanalistas devem abandonar toda a ideia da esquizofrenia e da paranoia, tal como vistas em termos de regressão, a partir do complexo de Édipo. A etiologia desses distúrbios leva-nos inevitavelmente a estágios que precedem o relacionamento de três corpos. O corolário estranho é que existe, na raiz da psicose, um fator externo. É difícil para os psicanalistas admitir isto, após todo o trabalho que tiveram chamando a atenção para os fatores internos, ao examinarem a etiologia da psiconeurose. (1989a/1993, p. 191) Foi por considerações desse tipo, relacionadas essencialmente à capacidade de a psicanálise resolver problemas clínicos no seu quadro teórico – e não por análises abstratas, de cunho especulativo, exemplificadas pela obra de Lacan9 –, que surgiu a matriz disciplinar da psicanálise winnicottiana, substancialmente diferente da de Freud. Cabe destacar, contudo, que a mudança do paradigma freudiano foi elaborada por Winnicott de maneira a preservar “as pontes que levam da teoria mais antiga para a mais nova” (1989a/1993, p. 198). Tratava-se de “retornar ao meio ambiente sem perder tudo o que fora ganho pelo estudo dos fatores internos” (1989a/1993, p. 439). Que modificações seriamnecessárias para assegurar o progresso da psicanálise nos campos assinalados? Em primeiro lugar, era preciso abandonar o paradigma edípico, baseado, conforme vimos, no papel estruturante do complexo de Édipo e na teoria da sexualidade concebida como a teoria-guia da psicanálise. O novo exemplar proposto por Winnicott é o bebê no colo da mãe, que precisa crescer, isto é, constituir uma base para continuar existindo e integrar-se numa unidade. A generalização-guia mais importante é a teoria do amadurecimento pessoal, da qual a teoria da sexualidade é apenas uma parte. Se supusermos que a mudança winnicottiana do paradigma freudiano aconteceu, como diria Kuhn, de forma análoga a um Gestalt switch, ela não podia limitar-se a pontos isolados, devendo abranger todo o campo teórico da psicanálise. É fácil mostrar que, de fato, Winnicott também introduziu um novo modelo ontológico do objeto de estudo da psicanálise, centrado no conceito de tendência para a integração, para o relacionamento com pessoas e coisas, e para a parceria psicossomática. A sua metodologia preserva a tarefa de verbalização do material transferencial, admitindo, contudo, apenas interpretações baseadas na teoria do amadurecimento, sem recurso à metapsicologia freudiana, e incluindo também o manejo da regressão à dependência e do acting-out dos antissociais. O valor principal é a eliminação de defesas endurecidas, paralisadoras do amadurecimento, e a facilitação para que agora aconteça o que precisava ter acontecido, mas não aconteceu; bem como que se junte o que permaneceu ou se tornou dissociado, ou mesmo cindido. O sofrimento decorrente de conflitos, internos ou externos, deixa de ser o fundamental, fica em segundo plano, considerado parte da vida sadia. Em virtude da importância da relação mãe-bebê na psicanálise de Winnicott, passei a chamar o seu paradigma de dual. Visto que a generalização-guia é a teoria do amadurecimento, sugeri ainda que chamá- lo de maturacional.10 Este termo não deve ser tomado no sentido exclusivamente biológico, pois, além do lado anatômico-fisiológico, o desenvolvimento humano tem, ainda, o lado pessoal. Winnicott é claro: O que temos aí é uma braçada de anatomia e de fisiologia e, acrescentado a isto, um potencial para o desenvolvimento de uma personalidade humana. Existe uma tendência geral voltada para o crescimento físico, e uma tendência ao desenvolvimento na parte psíquica da parceria psicossomática; existem, tanto na área física quanto na psíquica, tendências hereditárias, e estas, do lado da psique, incluem as tendências que levam à integração ou à conquista da totalidade. A base de todas as teorias sobre o desenvolvimento da personalidade humana é a continuidade, a linha da vida, que provavelmente tem início antes do nascimento efetivo do bebê [...]. (1987a/1988, p. 79) Ao longo de uma pesquisa conduzida no quadro desse novo paradigma (e que se estendeu por décadas), Winnicott ofereceu uma articulação detalhada de duas das suas teses teóricas mais importantes sobre a etiologia dos distúrbios psíquicos: 1) que o processo fundamental perturbado não é o desenvolvimento sexual, mas o amadurecimento emocional, e 2) que o fator externo, isto é, o ambiente facilitador, tem uma importância decisiva no surgimento dos distúrbios psíquicos. Em primeiro lugar, Winnicott detalhou os três modos básicos de perturbação do processo de amadurecimento: a não constituição do si-mesmo, a repressão dos instintos e a perda do objeto e/ou a perda do quadro de referência já constituído, com a consequente perda do si-mesmo. Esse desenvolvimento teórico tornou-se, por sua vez, a base das suas considerações sobre a classificação dos distúrbios psíquicos e a divisão destes em três categorias básicas, enumeradas aqui na semiordem11 de seu surgimento durante o processo maturacional: 1) as psicoses, 2) as depressões reativas e as psiconeuroses e 3) a tendência antissocial seguida ou não de delinquência e de distúrbios de caráter.12 Em segundo lugar, Winnicott abordou, em diversos estudos, a etiologia de cada uma dessas formações em razão de falhas ambientais ocorridas em diferentes fases do processo de amadurecimento, mostrando, em detalhe, que as psicoses decorrem da privação da facilitação ambiental na fase de dependência absoluta, e mesmo relativa, do bebê com relação à mãe- ambiente facilitador, que as psiconeuroses e as depressões reativas se devem ao não atendimento ou mesmo à repressão dos instintos nas fases do concernimento13 ou do Édipo, e que a tendência antissocial é antes uma reação à deprivação, isto é, à perda da facilitação ambiental já experienciada como boa e avaliada como uma falha do ambiente (1989a/1993, p. 440). Com base em seus estudos sobre a classificação dos distúrbios e a etiologia destes, Winnicott ampliou e modificou substancialmente o conceito de clínica psicanalítica, descrevendo três variedades básicas de “psicoterapia”: a das psicoses, a das depressões reativas e das neuroses, e a da tendência antissocial (1984a/1995, cap. 27). A variedade da psicoterapia para as psicoses caracteriza-se, sobretudo, por uma organização complexa do holding, que permite a regressão à dependência, fenômeno essencialmente distinto da regressão aos pontos de fixação da libido. No caso das psicoses, a clínica tradicional revela-se inapropriada precisamente devido ao erro teórico que consiste em confundir esses dois tipos de regressão, pois considera “que o termo ‘adaptação às necessidades’ no tratamento de pacientes esquizoides e no cuidado do lactente significa satisfazer os impulsos do id” (1965b/1983, p. 217), o que, segundo Winnicott, é inteiramente inadequado. A segunda variedade, a das depressões reativas e das neuroses, vale-se do setting clássico desenhado por Freud e trabalha com interpretação. A terceira, a da tendência antissocial, na medida em que compete à psicanálise propriamente dita, e não ao manejo familiar ou social em geral, consiste em admitir a atuação do paciente como parte da transferência, entendendo que se trata de um sinal de esperança que precisa ser compreendido como tal e valorizado positivamente (1965b/1983, p. 217). 3. Detalhamento de alguns aspectos teóricos da revolução winnicottiana A fim de preparar a minha análise da teoria da sexualidade elaborada por Winnicott como parte integrante da sua teoria do amadurecimento, convém aprofundar alguns pontos teóricos do seu paradigma.14 As diferenças com Freud servirão de evidências adicionais de que Winnicott produziu uma mudança na psicanálise que pode ser caracterizada como revolução científica num sentido próximo ao de Kuhn. Começo pelo modelo ontológico do objeto de estudo da psicanálise. Enquanto a psicanálise tradicional estuda o psiquismo humano15 – concebido metapsicologicamente (especulativamente) como um aparelho movido a pulsões dirigidas para objetos (o papel central do relacionamento objetal sendo a satisfação) –, a winnicottiana jamais se distancia da “relação” factual indivíduo-ambiente, o indivíduo sendo caracterizado pela tendência para o amadurecimento e o ambiente, investido do papel de facilitador dessa tendência. De acordo com o preceito de manter abertas as pontes entre o paradigma antigo e o novo, Winnicott esforçar-se-á por preservar o que for possível da teoria antiga e, sobretudo, a eficácia clínica da psicanálise. Nesse espírito, os conceitos de pulsão, de “relação de objeto”, de aparelho psíquico, de inconsciente etc. serão reinterpretados, isto é, transpostos para a linguagem experiencial do paradigma winnicottiano. Tal transposição não é uma simples tradução – visto que os conceitos metapsicológicos de Freud são, por definição, especulativos, isto é, não aplicáveis diretamente à experiência clínica –, mas algo semelhante a uma paráfrase para um campo semântico essencialmente diferente: o da linguagem que se quer essencialmente descritiva. O lugar do conceito especulativo de pulsão é ocupado por, pelo menos, três conceitos radicalmente distintos entre si, todos referentes à experiência possívelde um bebê humano: 1) o de necessidade (need) do indivíduo humano de ter um ambiente favorável no qual possa continuar crescendo, tornar-se alguém (um si-mesmo), e entrar em contato com objetos, e relacionar-se com eles de diversas maneiras, 2) o de instinto (instinct) ou de impulso (drive) biológico, de onde se originam as pressões em direção de objetos externos, e 3) o de desejo (wish), que investe ou cria objetos, apoiado em sonhos ou fantasias mais ou menos sofisticadas.16 Como sugeri num trabalho anterior, as necessidades e instintos podem ser englobados sob o título de urgências e a vida humana pode ser caracterizada pela urgencialidade, ao invés de pela pulsionalidade (cf. Loparic, 2001b). Há quem sustente que os termos “instinct” e “drive” de Winnicott são emprestados das traduções inglesas do termo “Trieb” de Freud, comumente vertido em português por “pulsão”. Essa interpretação é um sério engano, como se pode concluir facilmente da comparação das teses de Winnicott sobre os instintos com a doutrina das pulsões de Freud. Destacarei apenas três diferenças. Os instintos, diz Winnicott, “são impulsos [drives] biológicos poderosos que vão e vêm na vida do lactente ou da criança e que exigem ação” (1988/1990, p. 57). Trata-se, portanto, da animalidade do ser humano.17 Na obra madura de Freud, as pulsões não são impulsos biológicos factuais, mas entidades especulativas que existiriam na fronteira entre o físico e o psíquico ou, então, forças psíquicas de caráter mítico. Em segundo lugar, o vaivém dos instintos na vida de um indivíduo (a alternância entre os estados tranquilos e excitados) só passa a fazer sentido, segundo Winnicott, depois que esse indivíduo integrar seus estados excitados como internos, o que ocorre na fase de concernimento, portanto, já bastante longe das fases iniciais. O si-mesmo (the self) tem que “preceder o uso do instinto pelo si-mesmo” (1971a/1975, p. 137). Em Freud, as pulsões agem em pleno direito no interior do psiquismo humano desde o início, por serem seus elementos constitutivos. Em terceiro lugar, Winnicott rejeita o dualismo pulsional de Freud. A introdução dos conceitos de pulsão de vida e de morte é o principal “deslize teórico” de Freud, responsável por graves deficiências da psicanálise tradicional (M. Klein inclusive): a incapacidade de compreender o processo de amadurecimento pessoal e a produção das teorias da morte e da agressão, inaceitáveis, porque “falsas”.18 A introdução dos conceitos de necessidade, instinto e desejo permitiu a Winnicott dar um outro passo extremante importante: redefinir as relações do indivíduo humano não somente com seus “objetos”, isto é, com outros seres humanos, mas com seu mundo, de início também essencialmente humano.19 Como disse anteriormente, todo ser humano necessita estar alojado (assentado) em um ambiente – em outras palavras, habitar um ambiente20 – que lhe facilite a resolução das tarefas específicas da fase do amadurecimento em que se encontra; entre elas, a tarefa de estabelecer, preservar ou modificar suas relações com objetos. Essas relações, por seu turno, podem ser de vários tipos radicalmente diferentes: egoicas, instintuais e desejantes. As primeiras são estabelecidas para atender às necessidades do processo de integração como tal, os objetos sendo usados como apoio, consolo, meios para fins, aquilo que concerne à criança, inspira compadecimento, suscita cuidados etc. Nas relações instituais, busca-se a diminuição da tensão instintual e a recompensa na forma do prazer.21 As relações de desejo perseguem várias metas, mais sofisticadas e, no entanto, talvez menos fundamentais. Em todos os casos, é a relação com o ambiente – o assentamento nele – que possibilita as relações objetais, sejam elas de dependência, de satisfação instintual ou de desejo acompanhado de fantasia. Darei alguns exemplos de relações egoicas com objetos que apresentam uma das mais importantes contribuições de Winnicott à teoria psicanalítica das relações objetais. Na fase da primeira mamada teórica, em virtude da sua tendência inata para o amadurecimento, o bebê humano, amparado pela mãe-ambiente subjetivo, vai resolvendo as três tarefas fundamentais do período inicial do seu amadurecimento: integra-se no tempo e no espaço, aloja-se no corpo (a sua primeira morada) e inicia o relacionamento com os objetos. No caso desta última tarefa, o amparo da mãe-ambiente consiste na apresentação de objetos ainda não objetificados: em primeiro lugar, ela mesma e seu corpo (mais precisamente, uma parte dele: o seio) como objeto subjetivo e, em segundo lugar, os seus substitutos, também enquanto objetos subjetivos. Em outras palavras, nessa situação inicial ainda não existe a relação com a mãe-objeto como tal, pois ainda não existem dois entes separados que possam ser relacionados um com o outro. “É axiomático”, escreve Winnicott, “que não há relação com o objeto subjetivo” (1989a/1993, p. 221). Trata-se da identificação primária do bebê com a mãe, pela qual ele é a mãe (o seio). Em seguida à fase inicial, o ambiente já não é mais simplesmente a mãe, mas o espaço potencial entre a mãe e o bebê, sustentado, contudo, pela mãe-ambiente. Nesse “entre” os dois, acontece um desenvolvimento extremante importante no relacionamento objetal dos bebês: a mãe-objeto subjetivo e parcial (seio) passa a ser substituída e simbolizada por objetos transicionais. Na fase do concernimento (estou pulando várias fases; algumas delas serão consideras a seguir), posterior à separação já consumada da mãe subjetiva, o ambiente é o círculo benigno, isto é, ainda é a mãe-ambiente – só que, desta vez, na qualidade de ambiente externo percebido como tal –, dedicada a sustentar no tempo o uso excitado pelo bebê dela mesma como mãe-objeto externo, ou seja, aceitando ser objeto do uso instintual do bebê. E assim por diante, até a mãe tornar-se objeto do desejo da criança já na fase fálica ou edípica. Elaborando essas análises, Winnicott desenvolveu uma teoria do amadurecimento baseada em várias distinções fundamentais, inexistentes ou, pelo menos, não trabalhadas de maneira satisfatória em textos da psicanálise tradicional. A mais decisiva delas é a diferença entre o objeto e o ambiente (mundo), com a ênfase sobre o ambiente enquanto condição não-objetual possibilitadora de objetos, que é o fundamento de uma outra: a distinção entre relação com objeto e relações com o ambiente. Dessa forma, Winnicott abandona um elemento fundamental do componente ontológico da psicanálise tradicional: a relação sujeito-objeto – embutida tanto na teoria freudiana da pulsão como na da identificação, e que continua presente nas fórmulas dos teóricos das relações objetais (Fairbairn) e mesmo na posição idiossincrática de Lacan –, abrindo essa disciplina para uma dimensão ontológica essencialmente nova. Essa mudança só pode ser devidamente apreciada à luz da ontologia fundamental de Heidegger, em particular, da sua crítica da relação sujeito-objeto e do seu conceito de ser- no-mundo como modo se ser possibilitador de todas as relações com os outros seres humanos e com as coisas. A distinção entre ambiente (mundo) e objeto no ambiente permite ainda que se estude, de maneira organizada, vários tipos de ambiente – mãe- ambiente, espaço potencial, mundos interno e externo, círculo benigno, família, escola, ambiente social – e diversos tipos de objeto – objetos subjetivos, transicionais, lúdicos, instintuais (“pulsionais”), externos, internos etc. A teoria do amadurecimento permite uma reelaboração das posições tradicionais sobre esses temas, caso elas existam. Por um lado, fica possível a distinção entre modos sadios (ativos, maduros) e não sadios (reativos, imaturos) de alojamento em ambientes. Os modos sadios podem ser ilustrados pelas capacidades do bebê de sair do colo materno, habitar o espaço potencial, sonhar com um clube, mover-se no círculo benigno da fase do concernimento etc.; já os modos não sadios, pela tendência de se agarrar ao colo da mãe, a incapacidade de brincar, de sonhar,pela tendência para fanstasying, a inibição em virtude da quebra do círculo benigno, o humor depressivo, bem como defesas ou regressões causadas por conflitos instintuais nas relações familiares. Por outro lado, Winnicott distingue entre relacionamento sadio e reativo com objetos. Pertence ao primeiro tipo chupar o polegar (veremos isso a seguir), usar objetos externos para atender às necessidades egoicas, usar objetos em ações que visam à satisfação instintual, poder ser responsável, poder ser agressivo etc. Da mesma forma, não saber substituir o seio materno, fetichizar o objeto transicional e não saber escolher entre objetos são exemplos de modos patológicos (reativos) de relacionamento objetal. Todos esses conceitos de relação só recebem significado preciso se forem referidos às fases sucessivas do acontecer maturacional, caracterizadas por tarefas específicas a serem resolvidas por cada indivíduo, os objetos sendo de diferentes tipos, de acordo com o grau de amadurecimento alcançado pelo indivíduo. Embora continue usando, como observei, as expressões “objeto” e “relação com objeto” do jargão psicanalítico, sobretudo quando discute com psicanalistas as relações instintuais com objetos do mundo externo, Winnicott emprega os termos “pessoa” e “relação pessoal” ou “interpessoal” cada vez que deseja enfatizar que está tratando de relações dos seres humanos entre si. De resto, o uso indiscriminado do termo “objeto” reforça a tendência para o naturalismo objetificante que passou a dominar as relações inter-humanas e a teorização sobre os seres humanos nos dias de hoje, apesar de inaceitável tanto do ponto de vista teórico (filosófico)22 como moral.23 Aos impasses teóricos somam-se os técnicos, que impedem, para muitos psicanalistas ortodoxos, aceitar e valorizar positivamente a contribuição pessoal dos pacientes na relação clínica definida por condições especiais e controladas – o caráter impessoal do setting tradicional foi também objeto de constantes críticas de Winnicott.24 Por tudo isso, quando se discute a psicanálise em geral e, em particular, a de Winnicott, creio ser oportuno evitar falar em “relações de objeto” nos contextos em que se diz algo sobre relacionamentos entre pessoas (entre um si-mesmo e um outro si-mesmo) e mesmo sobre coisas que não são meros “objetos externos objetivamente percebidos”, como são as de uso cotidiano ou as obras de arte.25 Pelos mesmos motivos, convém ter cautela – sempre tomando o cuidado de não produzir colapso de comunicação – ao usar os termos “sujeito” e “relação sujeito-objeto”. No início da vida, o bebê humano não é um sujeito, pois nem ao menos existe como alguém independente. Ele precisa chegar a existir antes de poder executar qualquer operação mental ou acional elaborada (ter necessidade instintual, desejar, projetar, pensar, atuar etc.), antes, portanto, de criar capacidades que são tradicionalmente – na filosofia e, por influência desta, na psicanálise – tomadas como traços essenciais da subjetividade humana. Mesmo os adultos escapam cotidianamente da condição de sujeito, pois, na maioria das vezes, cuidam dos problemas das suas vidas apoiados na identidade primária, adquirida muito cedo no processo de amadurecimento pela identificação com a mãe- objeto facilitada pelos cuidados da mãe-ambiente, anteriormente ao desenvolvimento da capacidade representacional. A intra-humanidade da dupla mãe-bebê é anterior à intersubjetividade. Tal como o de objeto, o conceito de sujeito usado na psicanálise é ambíguo e fonte de confusões teóricas e clínicas graves. Além de ter abandonado o conceito de pulsão e modificado de maneira radical o de relação objetal, Winnicott também substituiu o conceito freudiano de aparelho psíquico por integração ou identidade pessoal, resultado do “desenvolvimento emocional da pessoa individual” – tema principal da teoria winnicottiana do amadurecimento humano.26 É verdade que Winnicott continuou usando os termos metapsicológicos freudiano que designam as instâncias psíquicas, mas ele lhes atribuiu outras acepções. Depois de ter deixado claro que “ego” é um termo teórico sem sentido determinado na linguagem cotidiana – “usado por conveniência, com sentido acordado” entre os psicanalistas –, Winnicott o emprega, tal como faz a psicologia do ego, para falar da “evolução do ego, incluindo o conceito de tendência para a integração, para a capacidade de relacionamento com objetos e para a parceria psicossomática” (1989a/1993, p. 371). Essa tendência atinge um momento decisivo na fase do “EU SOU”, na qual é criada a diferença entre o si-mesmo e o mundo exterior como tal, permitindo que o indivíduo se experiencie, pela primeira vez, habitado por instintos e se torne, com o tempo, responsável por estes. O termo “id” passa a designar a vida instintual no sentido de um conjunto de funções corpóreas “registradas, catalogadas, experienciadas e finalmente interpretadas pelo funcionamento do ego”, isto é, pelo processo integrativo.27 Sendo assim, sem o ego não há o id – tese que difere radicalmente da afirmação ortodoxa de o ego ser um desdobramento do id. Finalmente, depois de ter reconhecido que o termo “superego”, por não fazer parte da linguagem cotidiana, pode também ser usado “de qualquer maneira que decidirmos”, Winnicott propõe a distinção entre dois usos: o de Freud e o dele próprio, feito na teoria do amadurecimento. Em Freud, o “superego” designa algo que pertence especificamente “à passagem do complexo de Édipo”, mas que, não obstante, é construído gradualmente pela evolução dos mecanismos intrapsíquicos que supostamente datam do início da vida do indivíduo (1989a/1993, p. 355). Segundo a teoria winnicottiana do amadurecimento, esses mecanismos do funcionamento mental primitivo “não devem ser chamados de superego”. Cabe, ao invés disso, atentar para a diferença “entre a idade pré-autônoma e a idade autônoma” e para a “jornada que vai da dependência à independência” (1989a/1993, p. 355). É ao longo dessa transição, mais precisamente na fase do concernimento – isto é, ainda na relação dual, pré-edípica –, que o indivíduo adquire vários elementos que constituirão a parte essencial da moralidade adulta, a começar por uma capacidade de reconhecer o outro enquanto outro: a capacidade de sentir-se pessoalmente responsável (“concernido”) pelos danos causados ao ambiente decorrentes do uso excitado da mãe-objeto. Nessa perspectiva, o superego impessoal freudiano da censura, da culpabilização e da necessidade de punição em termos de lei passa a figurar como traço do falso si-mesmo ou até mesmo como indício de desvios patológicos. Dessa reformulação (no quadro da teoria do amadurecimento) da teoria estrutural da mente elaborada por Freud decorrem importantes consequências, tanto para a teoria psicanalítica da origem e do sentido da moralidade – a sua origem é pré-edípica e o seu sentido desvinculado da lei, inclusive da lei de incesto – como para a teoria da cultura. “Freud, na sua topografia da mente, não encontrou lugar para a experiência cultural”, afirmou Winnicott em 1966 (1988/1990, p. 133). Dois anos mais tarde, ele estenderá essa crítica a todos os psicanalistas que trabalham no paradigma freudiano, dizendo que a “abordagem ortodoxa” do ser humano, feita em termos da metapsicologia, “não concedeu nenhum lugar para a experiência cultural” (1989a/1993, p. 160). A experiência cultural é um fenômeno que não acontece no aparelho psíquico, mas no espaço potencial, numa área entre a mãe e o bebê que não é nem externa (física) nem intrapsíquica, mas que, não obstante, deve ser pensada como parte da organização do si- mesmo do bebê. Aberto na fase de transicionalidade (com base na experiência de confiabilidade do ambiente), esse espaço é inicialmente ocupado por relacionamentos objetais do tipo não orgiástico, a saber, pelo brincar, atividade criativa e excitante, não por ser impulsionada pelos instintos, mas por refletir a precariedade que, na experiência do bebê, caracteriza o jogo livre entre o mundo subjetivo e o mundo objetivamentepercebido (1988/1990, p. 77). Uma outra mudança conceitual importante merece ser destacada. De acordo com a sua visão de que a psicanálise precisa de diferentes tipos de linguagem, Winnicott praticamente limitou o uso do conceito de inconsciente freudiano à descrição de excitações instintuais e fantasias correspondentes que, por serem reprimidas, não são acessíveis à consciência, e, nesse sentido específico, não integradas (1988/1990, p. 67). Trata-se de fatos objetivos da vida psíquica, de algo que foi reprimido por ser inaceitável à consciência, mas que tende a se tornar consciente e que, levantadas as resistências, pode se tornar consciente. Entretanto, o conceito freudiano de inconsciente reprimido não pode ser usado para falar das dissociações e das cisões identificadas por Winnicott em pacientes psicóticos e outros. Nesses casos, o inconsciente é algo não-mental e mesmo não-psíquico: a dissociação e a cisão não dizem respeito à não- aceitabilidade de estados mentais pela consciência ou pelo intelecto, quer teórico quer prático, mas à não-integração ou, ainda, à desintegração pessoal e/ou psicossomática – falha concebida seja como uma parada do amadurecimento seja como uma perda de aquisições já realizadas. Dito em uma outra linguagem, mais próxima de Heidegger: o inconsciente winnicottiano consiste no não-acontecido (mas que precisava acontecer) e no “desacontecido” (mas que precisava continuar sendo); em algo, portanto, que precisa ser vivido ou revivido e que não necessita de elaboração representacional ou simbólica. Exemplo típico do inconsciente winnicottiano não-acontecido e não- mental são “os cortes no fio da continuidade do si-mesmo”, relacionados às repetidas fases de reação prolongada a uma intrusão ambiental durante o parto. Os indivíduos traumatizados devido principalmente à demora desse processo continuam precisando reencenar os cortes acontecidos, isto é, nascer pela primeira vez de verdade. Para tanto, buscam oportunidades para regredir à dependência, mas precisamente a um estado intrauterino, tanto na vida real (por exemplo, a falsa homossexualidade) como na análise (como a compulsão a ter uma mão na testa, representando o corpo da mãe). Ao oferecer o setting adequado para esses “não-nascidos”, o analista propicia a atuação (acting-out) de traços mnemônicos relativos ao nascimento e preservados na memória corporal, fenômeno clínico que difere radicalmente das brincadeiras de crianças que contêm simbolismos ligados ao nascimento e das fantasias de adultos que, conscientemente ou não, relacionam-se com o nascimento. Os pacientes desse grupo, em particular os psicóticos, tendem, diz Winnicott, a “reviver” a experiência do nascimento reativando certas funções corpóreas e “passando ao largo de fantasias que se expressam por símbolos” (1958a/2000, p. 272). Esse esforço em desfazer a não-integração é radicalmente distinto não somente de processos conscientes, mas também de processos primários no sentido de Freud. Uma outra ilustração do conceito de winnicottiano de inconsciente não- mental é dada pela produção, na fase do concernimento (cujo ápice se situa por volta dos dois anos e meio), de uma ordem ou padrão no mundo interno mediante um “trabalho que não é mental nem intelectual”. Trata-se de uma tarefa psicossomática intimamente relacionada “à tarefa da digestão, que também se realiza à margem do entendimento intelectual, o qual pode acontecer ou não” (1988/1990, p. 97). Ao se livrar da teoria freudiana das pulsões, Winnicott abandonou também a busca do prazer como princípio determinante da vida humana. Sem ignorar que os indivíduos humanos também procuram obter prazer, ele nega que isso ocorra, como sustenta Freud, em virtude de um princípio de funcionamento causal do aparelho psíquico. O indivíduo humano não se relaciona com outras pessoas por buscar o prazer, mas por precisar da presença e da confiabilidade dos outros para que sejam atendidas as suas necessidades egoicas e por necessitar que sejam satisfeitas as suas tensões instintuais. Neste último caso, “satisfazer” significa, em primeiro lugar, aplacar ou acalmar; o termo “acalmar” tomado no sentido descritivo e não metapsicológico (diminuição da pressão “pulsional”). O prazer não fica de fora, mas tem o sentido de “recompensa” pela satisfação encontrada no clímax da exigência do instinto (1988/1990, p. 57). Winnicott também opera várias mudanças importantes no componente metodológico da matriz disciplinar da psicanálise. Em primeiro lugar, recusa a teorização metapsicológica, que trabalha com conceitos especulativos, não testáveis no domínio de dados clínicos, e opta pela teorização de tipo “empírico”, a que procede “pela observação dos fatos, pela construção da teoria e seus testes, e pela modificação da teoria de acordo com a descoberta de novos fatos” (1996a/1997, p. 23). Em segundo lugar, Winnicott distingue diferentes modos de construção de teorias empíricas, levando em conta os fatos tratados e a linguagem empregada. Um desses modos, característico da teoria freudiana das relações instintuais da fase do Édipo ou das fases ainda mais tardias, vale-se da objetificação do “material clínico” – isto é, trata os fenômenos clínicos como fatos da natureza, pertencentes ao mundo externo refletido no psicanalista-espelho – e emprega uma linguagem também objetificante. Sem abandonar por completo esse procedimento, Winnicott introduziu de maneira sistemática um modo de teorização diferente,28 que corresponde a uma atitude participativa e não-objetificante do analista, empregando uma linguagem de comunicação direta, também não-objetificante. Essa linguagem é usada para trazer a palavra aos fatos pertencentes aos mundos próximos da origem, isto é, para descrever os ambientes nos quais se constitui o ser dos bebês humanos no período inicial do processo de amadurecimento – que vai da fase chamada primeira mamada teórica ao estágio do concernimento, inclusive – ou para descrever os estados muito regredidos de adultos.29 Segundo Winnicott, a “linguagem dos instintos” não pode dizer tudo o que, na psicanálise, precisa ser dito sobre o ser humano. Usada na caracterização de fases anteriores à edípica, ela torna-se “errada” (1988/1990, p. 52). Ao atentar para a multiplicidade de mundos criados e habitados pelo seres humanos ao longo do processo do amadurecimento, assim como para a diversidade de objetos e relações com os quais se veem envolvidos, Winnicott reconheceu a necessidade de usar a multiplicidade dos dizeres30 a fim de falar desses mundos. Embora desconfiasse de quem se compraz em introduzir palavras novas, ele modificou radicalmente o vocabulário da psicanálise. Os termos winnicottianos tais como “solidão essencial”, “continuidade do ser”, “ambiente”, “confiabilidade”, “experiência do nascimento”, “colo da mãe”, “objeto subjetivo”, “dois em um” (relação dual mãe-bebê), “objeto transicional”, “holding”, “manejo”, “apresentação de objeto”, “uso do objeto”, “brincar”, “estágio de concernimento”, “moralidade inata”, “senso de responsabilidade”, “experiência cultural”, “privação”, “deprivação”, “tendência antissocial”, “jogo de rabisco”, “regressão à dependência”, mesmo sem serem inicialmente cunhados por ele, são apenas alguns dos que mudaram radicalmente a paisagem intelectual da psicanálise dos nossos dias. Seria um engano pensar que essas considerações, de natureza abstrata e mesmo filosófica, estejam aqui fora do lugar. Winnicott, tal como Freud, é um pensador radical. A sua obra exige leitores igualmente decididos, dispostos a levar em conta todos os aspectos importantes do seu novo paradigma e a romper, quando necessário, com usos estabelecidos. Referências31 Babich, B. E. (2001). Proceedings of the 35th Annual Heidegger Conference. New York: Fordham University. Caldwell, L. (Org.). (2005). Sex and Sexuality. Winnicottian Perspectives. London: Karnac. Dias, E. O. (2003). A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago. Dias, M. de F. (2005). Um estudo da teoria winnicottiana da sexualidade.Tese de Doutorado, Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo. Freud, S. (1996). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1924[1905]) Freud, S. (1996). Novas conferências introdutórias à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1933) Fulgencio, L. (2003). As especulações metapsicológicas de Freud. 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A tese de que Heidegger antecede, por várias décadas, a concepção da ciência empírica proposta por Kuhn e desenvolvida por autores tais como Steven Toulmin e Dudley Shapere, ainda pouco tratada no Brasil, foi e continua sendo objeto de numerosos estudos no exterior, sobretudo nos Estados Unidos (cf., por exemplo, os artigos de Theodor Kisiel e Don Ihde, publicados em Babich, 2001). Um outro paralelo a ser considerado é aquele entre Kuhn e Kant, levando em conta o fato de o próprio Kuhn ter afirmado estar desenvolvendo “uma espécie de kantiano pós-darwiniano” (Kuhn, 2000, p. 104). Sobre esse tema, cf. Hoyningen-Huene, 1993, pp. 33-36 et passim. 3. Vários outros autores aplicaram Kuhn ao estudo da história do pensamento psicanalítico, entre eles Modell (1968), Levenson (1972), Lifton (1976) e, em particular, Greenberg & Mitchell (1983). O alcance dos resultados desses dois autores ficou, contudo, severamente limitado pelo fato de eles considerarem apenas o componente metafísico da teorização psicanalítica, deixando completamente de lado os exemplares, o principal componente de uma matriz disciplinar do tipo kuhniano. Uma posição simpática à mesma abordagem foi tomada recentemente por Joyce McDougall (1997, pp. 255-256). Creio que a resistência de certos comentadores a analisar a estrutura e a história da psicanálise do ponto de vista kuhniano se deve, em boa parte, à falta de familiaridade com a obra de Kuhn e, de um modo geral, com os problemas da historiografia das ciências factuais. Há quem diga, por exemplo, que o conceito kuhniano de paradigma não se aplica às ciências humanas. Isso é um erro, que o leitor poderá verificar ao examinar, com atenção, o Posfácio de Kuhn, 1975 e Kuhn, 2000, cap. 10. 4. Uma descrição mais detalhada do paradigma edípico encontra-se em Loparic, 2001a e Fulgencio, 2003. 5. O presente parágrafo é uma continuação da análise da crise winnicottiana apresentada nas seções 3 e seguintes de Loparic 2001a. 6. Num texto autobiográfico, de 1967, ele caracteriza a sua posição como “protesto contra a referência à regressão universal a partir da satisfação/frustração do Id no triângulo edípico”, acrescentando que, com o tempo, surgiram outros psicanalistas (em particular, Alice Balint) que se mostravam interessados nesse ponto, e que outros profissionais, que não eram psicanalistas, mas que tinham grande experiência no tratamento das crianças, entre elas Margaret Lowenfeld e Merrill Middlemore, estavam defendendo teses semelhantes, sem constituírem, contudo, um grupo coeso (1989a/1993, pp. 434 e 438). 7. Sobre esse ponto, cf., por exemplo, Winnicott, 1989a/1993, pp. 439-440. 8. Uma indicação sobre essa tomada de posição encontra-se em Winnicott, 1988/1990, p. 2. 9. Veja, por exemplo, a desenvoltura de Lacan no uso de construções auxiliares e de metáforas óticas, tidas como autorizadas por Freud (Lacan, 1975, p. 90). 10. Visto que o conceito winnicottiano de amadurecimento pode ser interpretado em termos da fenomenologia heideggeriana da acontecência do ser-no-mundo do ser humano, o paradigma proposto pelo psicanalista inglês pode ainda ser chamado de acontecencial. Para maiores detalhes sobre o paradigma winnicottiano, cf. Loparic, 2001a. 11. Falo em semiordem, porque os distúrbios podem surgir sobrepostos. 12. O enunciado clássico dessa classificação encontra-se em Winnicott, 1965a/1980, cap. 9. 13. Esse neologismo é a minha tradução do termo concern de Winnicott. 14. O desconhecimento da importância da teoria winnicottiana do amadurecimento é uma das principais razões da pobreza conceitual da maioria dos artigos sobre a teoria winnicottianada sexualidade contidos em Caldwell, 2005. A tese de doutorado de Maria de Fátima Dias (cf. Dias, 2005), elaborada de acordo com o ponto de vista apresentado neste artigo, apresenta um dos poucos estudos aprofundados sobre esse assunto. 15. Na medida em que o psiquismo é definido, desde Leibniz até Freud, pelas capacidades de representação e de apetição, as relações humanas originárias, tal como concebidas por Winnicott, não devem ser ditas relações de ordem “psíquica”. Para uma crítica do psiquismo como conceito fundamental da psicanálise e para a exposição de uma concepção alternativa do ser humano, baseada em Heidegger e Winnicott, cf. Loparic, 2001b. Embora essa crítica tenha semelhanças com as objeções de Lacan à psicologia do ego, a alternativa indicada difere radicalmente da metapsicologia estruturalista do sujeito apresentada pelo psicanalista francês. 16. Esses três tipos de “tendências” são enumerados em 1989a/1993, nota, p. 199. Faço constar que o termo winnicottiano drive é traduzido erroneamente por “pulsão”. 17. O conceito winnicottiano de animal humano é esclarecido em Loparic, 2000. 18. Cf. Winnicott, 1988/1990, p. 155; 1987b/1990, pp. 35 e 37. No que segue, o conceito winnicottiano de instinto será examinado em mais detalhe e contrastado mais uma vez com o conceito freudiano de pulsão. 19. O jargão psicanalítico brasileiro usa “relação de objeto” e o francês relation d’objet, expressões que brigam com a gramática das línguas respectivas. Trata-se da tradução problemática dos termos Objektbeziehung de Freud, para o qual os psicanalistas ingleses (inclusive Winnicott) empregam object-relationship ou object-relating, ambos perfeitamente idiomáticos. Em Vocabulário de psicanálise, Laplanche & Pontalis justificam o uso da expressão francesa não gramatical no lugar da gramatical relation à l’objet, dizendo que a primeira “vem caracterizar” a inter-relação entre o sujeito e o objeto apontada sobretudo por M. Klein, a saber, o fato de o sujeito constituir o objeto e ser modelado por este em suas atividades. Temo que uma expressão não gramatical, ao invés de adquirir um sentido estipulado pela teoria, insista em permanecer sem sentido. 20. Winnicott introduz aqui o conceito de dwelling – habitar, demorar-se, assentar-se –, que pode proveitosamente ser aproximado dos conceitos heideggerianos de “ser-no-mundo” e “habitar o mundo”. 21. A ideia da “adaptação materna suficientemente boa às necessidades do bebê” não deve ser confundida, diz Winnicott, com “o conceito de satisfação, pela mãe, dos impulsos instintuais” (1989a/1993, p. 188). 22. Essa tendência gerou impasses teóricos que tornam adicionalmente problemático o modo de teorização adotado por Freud, fato destacado por pensadores como Heidegger e Wittgenstein. No campo psicanalítico, críticas ao naturalismo objetificante de Freud encontram-se, por exemplo, em Guntrip, 1975/1996. Ainda estudante de medicina, Harry Guntrip rejeitou “a psicobiologia freudiana das pulsões [instincts]” por ser mecanicista. Reconhecendo, contudo, a grande importância das descobertas de Freud na área da psicopatologia, Guntrip se dedicou à tradução “da sua [de Freud] psicobiologia, ou melhor, dos [seus] dados clínicos para os termos da filosofia de ‘relações pessoais’” (p. 746). 23. A objetificação tomou conta do modo de pensar e de sentir nos dias de hoje, a tal ponto de, muitas vezes, parecer oportuno, e mesmo necessário, lembrar aos nossos contemporâneos que os outros seres humanos com os quais convivem são, antes de tudo, os seus pais, irmãos, amantes, vizinhos, parceiros etc., e só em condições muito artificiais, ou mesmo patológicas, seus objetos. A objetificação é parte inerente sem, contudo, ser definitória da existência humana. Um tratamento, inspirado em Heidegger, da nossa responsabilidade em não objetificar os outros seres humanos e em deixá-los ser enquanto outros encontra-se em Loparic, 2003. 24. Veja, por exemplo, Winnicott, 1988/1990, p. 79. 25. O conceito de objeto usado na psicanálise tem conotações que lembram o uso desse termo na linguagem cortesã do século XVII, influenciada pela teoria filosófica da representação (cf. Laplanche & Pontalis, 1971, p. 407). 26. Em certos textos, ele usa o termo “psicomorfologia” como sinônimo de psicologia dinâmica. 27. Afirmada em 1962, essa tese é retomada literalmente em vários textos posteriores (cf., por exemplo, 1989a/1993, p. 143). 28. Antes de Winnicott, alguns outros autores, entre eles Sándor Ferenczi, fizeram as primeiras tentativas nessa mesma direção. Nenhuma delas prosperou, talvez por terem sido severamente censuradas pelo establishment psicanalítico durante décadas. 29. O primeiro desses mundos é o subjetivo, constituído a partir da identificação primária do bebê com a mãe-ambiente ou, como Winnicott diz ainda, com a mãe-objeto subjetivo. Essa identificação, pressuposta em todos os tipos de “relações com objetos” posteriores, não é, ela mesma, uma relação (objetal). “É axiomático”, diz Winnicott, “que não há relacionamento com objeto subjetivo” (1989a/1993, p. 221). As relações objetais propriamente ditas só começam depois da criação de um novo mundo, o mundo externo, o que pressupõe a constituição de um novo sentido de realidade – o de realidade objetivamente percebida: “O mundo acha-se lá para o relacionamento apenas na medida em que é objetivamente percebido, sendo aquilo que chamamos de externo à criança” (1989a/1993, p. 221). 30. A dimensão filosófica desse conceito foi explicitada em Loparic, 2004. 31. As traduções brasileiras dos textos de Winnicott foram parcialmente refeitas. A irritabilidade (Reizbarkeit) como característica distintiva do aparelho psíquico de Freud1 João Paulo F. Barretta 1. Introdução Assim como a psicologia científica moderna, a psicanálise também surgiu com base nas pesquisas da fisiologia do século XIX e nas teorias empiristas da mente, embora não tivesse como objeto de estudo os mesmos que a psicologia – a percepção, a consciência, a memória etc. Seu objetivo primário não era nem mesmo teórico, mas prático: tratamento de pacientes neuróticos (psicologia aplicada). Para tanto, desenvolveu primeiramente um método de tratamento e, posteriormente, uma teoria das neuroses e do psiquismo em geral que fundamentasse esse método e explicasse os dados clínicos observados. Contudo, ao desenvolver essas teorias sobre o tratamento, a neurose e o psiquismo, Freud valeu-se, sem maiores reflexões, daqueles mesmos conceitos comuns à psicologia, à fisiologia e às filosofias empiristas da mente de sua época. Além disso, a exigência epistemológica fundamental de sua teoria do aparelho psíquico determinava que esta formasse um todo sistemático, isto é, que os fatos descobertos na clínica e os conceitos introduzidos formassem uma estrutura, pela qual cada elemento ganharia inteligibilidade ao serem expostas suas correlações com os outros elementos, e que, como tal, deveria possuir uma unidade. Isso significa que conceitos heurísticos, sem referencial empírico, poderiam e deveriam ser introduzidos sempre que necessários para garantir a unidade e sistematicidade teórica.2 Desse modo, a teoria freudiana do aparelho psíquico é uma “superestrutura especulativa”, que “pode ser abandonada ou modificada, sem perda ou pesar, momento em que a sua insuficiência tenha sido provada” (Freud, 1925/1999, p. 38). Esse modelo freudiano do psiquismo poderia ser examinado criticamente com relação aos conceitos psicológicos e fisiológicos que utiliza sem maiores reflexões ou justificativas, ao pressuposto ontológico de que parte, à concepção de ciência pressuposta ou à sua adequação à tarefa que se propõe – a de tornar racional certos fatos contingentes descobertos pela investigação clínica psicanalítica. De todas essas frentes, optaremos por identificar o traço distintivo, aquela determinação da natureza do psiquismo (pressuposto ontológico) que confere unidade ao modelo e que está subjacente também à sua teoria das neuroses e do método de tratamento, e, posteriormente, verificaremos emque medida esse ponto de partida é suficiente para explicar certas descobertas posteriores. Para tanto, apresentaremos os elementos constituintes do aparelho psíquico, tal como caracterizado na primeira tópica (seção 2), verificaremos qual o conceito fundamental que está na base dessa teoria do psiquismo (seção 3) e indicaremos algumas descobertas clínicas decisivas que parecem não se encaixar na concepção de psiquismo pressuposta por Freud e as dificuldades por ele enfrentadas para solucionar esse quebra-cabeça (seção 4). Feito isso, a conclusão (seção 5) mostrará que Freud se manteve preso à concepção inicial do psiquismo, apesar do surgimento de novas descobertas que deveriam tê-lo levado, segundo seu próprio conselho, a abandonar esse modelo desde seus fundamentos e buscar um outro. 2. O aparelho psíquico na primeira tópica (cap. VII de A interpretação dos sonhos) De acordo com Freud, o aparelho psíquico é um instrumento (Instrument) complexo, responsável pela execução de nossas funções anímicas (Seelenleistungen) como sonhar, julgar, recordar etc. Complexo significa que possui mais de um componente, as “instâncias” ou “sistemas” que estabelecem certas relações entre si (passíveis de objetivação espacial para fins heurísticos). O aparelho psíquico é composto de três partes e uma direção. As partes componentes são os sistemas perceptivo, mnemônico e motor; e a direção seria do primeiro para o último. A consciência, que será examinada posteriormente, não constitui propriamente um sistema, ainda que esteja associada ao primeiro. Isso significa apenas que o aparelho psíquico possui um funcionamento independente dela e que a maior parte dos processos psíquicos acontecem sem que haja consciência deles. O sistema perceptivo é o que torna possível a “entrada” de “signos perceptíveis” (Wahrnehmungszeichen), que serão posteriormente registrados na memória. Esses Wz consistem basicamente em excitações (Erregungen) dos órgãos dos sentidos causadas por estímulos (externos ou internos) e possuem, como tal, um caráter exclusivamente quantitativo. Por esse motivo, não são sensações (Empfindungen) propriamente ditas que possuem um caráter qualitativo. O termo sensação é de uso comum no século XIX e Freud parece utilizá-lo no seu sentido empírico usual de conteúdo sensível, matéria da percepção; exemplos de sensações poderiam ser: amarelo, amargo, prazeroso etc. Segundo Freud, essas qualidades ou sensações se originam na consciência.3 Esta é concebida, por sua vez, como um órgão sensorial interno que percebe não os estímulos externos (meras quantidades), mas qualidades psíquicas, sensações (Empfindungen).4 Ela é concebida de maneira análoga à percepção externa, com a diferença de ter como objeto não o mundo externo, mas o próprio aparelho psíquico: “O aparelho psíquico, que se volta para o mundo externo com seu órgão sensorial do sistema perceptivo, é, ele próprio, o mundo externo em relação ao órgão sensorial da consciência” (Freud, 1900/1999, pp. 620-621). O sistema mnemônico, por sua vez, é o responsável pelo arquivamento dos signos sensíveis na forma de traços mnêmicos (Erinnerungsspur), que “transformam as excitações sensoriais momentâneas [Wz] do primeiro [sistema] em traços duradouros” (Freud, 1900/1999, p. 543). Esse sistema encontra-se a meio caminho entre o sistema perceptivo e o motor, e sua característica mais importante para o funcionamento do aparelho psíquico é conseguir operar sobre os traços mnêmicos através de associações e, com isso, alcançar diferentes destinos de descarga das excitações. Associar significa aqui a possibilidade de transmitir a excitação (Erregung) de uma Vorstellung A para uma outra, B, ao invés de realizar a sua descarga direta. Visto mais precisamente, na teoria da associação estão implícitas duas teses: de que é possível transmitir a excitação de uma Vorstellung para outra; de que essa transmissão não é caótica, mas segue certas leis – as leis da associação de ideias. A primeira tese é introduzida em 1894 como hipótese de trabalho, para se poder explicar a formação do sintoma histérico com base em lembranças traumáticas antigas e esquecidas. A segunda tese, porém, introduz uma novidade importante, tanto pelo que afirma quanto pelo que não afirma: segundo ela, o aparelho psíquico, responsável por todos os processos psíquicos, só possui a “associação” como forma de trabalhar. Isso significa que pensamentos, sonhos, chistes etc. devem ser explicados por ela. Para isso, Freud irá conceber diferentes formas de associação como única maneira de explicar os diferentes processos psíquicos, e atribuir a cada forma um sistema mnemônico distinto. Assim como o sistema perceptivo, também a memória trabalha independentemente da consciência. Mas as sensações, que têm sua origem na consciência e que podem se vincular às excitações advindas do sistema perceptivo, não o podem com relação às do sistema mnemônico.5 Isso significa que não se tem a sensação de algo que se recorda: o azul, do céu azul visto, é diferente do azul do céu azul lembrado. Um é nítido, real, o outro não. Freud não é claro sobre o que seriam traços de memória ou imagens mentais sem sensações, ou o que a consciência percebe quando ocorre uma recordação. Da mesma forma, fica-se sem saber ao certo o que seriam pensamentos (Gedanken) e pensamentos inconscientes, mas, aparentemente, pode-se concebê-los como um conjunto de imagens mentais (ideias, no sentido empirista), sem qualidades sensoriais (simples processos excitatórios), associadas entre si. E como a associação ocorre no sistema mnemônico, o pensamento é um processo mental que ocorre na memória. Esses complexos de ideias (os pensamentos) podem ou não se tornar conscientes. Isso dependerá de certas condições: que eles atinjam certo grau de intensidade e/ou que a função da atenção esteja distribuída de uma certa maneira. A atenção pode ser entendida aqui como sinônimo de consciência. A tese implícita a essas condições é a da existência de um “limiar de consciência” e de que, para que um processo psíquico atinja esse limiar, é uma questão de intensidade e atenção, que estariam ainda em uma relação complementar: quanto maior uma delas for, menor a outra precisará ser. Existiriam ainda dois tipos de pensamentos inconscientes – os que podem e os que não podem se tornar conscientes. Os primeiros seriam pré- conscientes e os últimos inconscientes. A diferença fundamental entre eles se deve ao fato de serem arquivados em sistemas mnemônicos distintos e, portanto, estarem organizados (associados) de maneiras distintas. No inconsciente, encontram-se fundamentalmente pensamentos de desejo. Desejo é uma moção ou movimento (Regung) psíquico que busca reinvestir, reexcitar, a imagem mnêmica oriunda da percepção associada à vivência de satisfação. O reaparecimento dessa imagem mnêmica (através da percepção ou da alucinação) é a realização do desejo. E esse pensamento de desejo é a mais primitiva atividade do aparelho psíquico. A primazia do desejo como atividade primitiva do aparelho psíquico deve-se à tendência geral, à direção, que as excitações ou estímulos seguem nos processos psíquicos. Essa direção ou tendência é introduzida como um princípio fundamental do funcionamento mental como um todo e, portanto, determinante de todas as atividades psíquicas: “A primeira coisa a nos saltar aos olhos é que esse aparelho, composto de sistemas-psi, tem um sentido ou direção (Richtung). Toda a nossa atividade psíquica parte de estímulos (internos ou externos) e termina em inervações” (Freud, 1900/1999, p. 542). O termo “inervações” refere-se basicamente à descarga de quantidades de excitação através de sua transmissão para o sistema motor.6 Esse sistema é responsável pelo movimento corporal e, portanto, este é concebido como descarga de estímulo. O elemento fundamental da elaboração teórica de Freud sobre o psiquismo, a respeito do qual voltaremos posteriormente, é a concepção de que “o aparelho psíquico deve construir-se como um aparelho reflexo” e que “os processosreflexos continuam a ser o modelo de todas as funções psíquicas” (Freud, 1900/1999, p. 543), assim como o são dos movimentos em geral. Isso é suficiente para se analisar a característica distintiva, o pressuposto ontológico da teoria freudiana do psiquismo. 3. A característica essencial do aparelho psíquico freudiano: a Reizbarkeit A teoria do aparelho psíquico é a versão mais desenvolvida das elaborações freudianas sobre o psiquismo em geral, e suas descobertas clínicas posteriores serão elaboradas teoricamente com os mesmos recursos conceituais aqui apresentados. Desse modo, o que é pressuposto aqui também o é nas teorias que se desenvolveram com base nesta. Dos elementos apresentados por Freud na sua teoria do aparelho psíquico, destacam-se os três sistemas psíquicos (perceptivo, mnemônico e motor), a direção do psiquismo e a divisão da mente em consciente, pré- consciente e inconsciente. O pré-consciente e o inconsciente são instâncias ligadas à memória das impressões passadas, e o consciente à “observação interna”, quer das impressões sensoriais atuais, quer das impressões passadas. Todas as impressões que atravessam o aparelho psíquico, ou melhor, tudo com o que o aparelho psíquico lida, têm a mesma natureza: excitações quantitativamente determinadas, até que recebam, na consciência, características qualitativas e, em especial, a distinção entre prazer e desprazer. Essas excitações têm sua origem fora do aparelho psíquico, isto é, são causadas em nós pelo mundo ou por nosso próprio organismo, tal como estes são descritos pela física e pela fisiologia. Ao mesmo tempo, uma vez que essas excitações adentram o aparelho psíquico, elas caminham no sentido da descarga, já que o psiquismo é concebido como um aparelho reflexo. Portanto, pode-se dizer que o aparelho psíquico se caracteriza fundamentalmente por duas atividades: a recepção de estímulos externos e sua descarga (processo mental primário). A memória, bem como seus diferentes sistemas (o inconsciente, o pré-consciente etc.), seria secundária e oriunda da necessidade de se manter uma tensão mínima para fins de sobrevivência do organismo, de modo que não é neste último que se poderia encontrar a característica fundamental do aparelho psíquico. Essa característica distintiva, que reúne em si as duas atividades primordiais do aparelho psíquico (recepção e descarga de estímulos passíveis de mensuração), é a “irritabilidade” (Reizbarkeit). Esse conceito é oriundo da fisiologia do século XIX, empregado de início por diversos autores, entre eles Johannes Müller, para determinar a característica distintiva dos organismos vivos diante da natureza inorgânica. Irritável é aquele organismo (ser vivo) que é afetado, não apenas por forças mecânicas, mas por estímulos aos quais ele reage, não no sentido da reação mecânica de um corpo atingido por outro, mas no de “livrar-se” do estímulo, primordialmente pela fuga ou pela descarga7 (secundariamente por uma ação específica). Ambas as reações (fuga e descarga) sendo concebidas como movimentos reflexos. Esse movimento permite constatar a irritabilidade e é esta (a irritabilidade) que o torna possível. Em seu Projeto para uma psicologia científica, Freud diz: O movimento reflexo torna-se compreensível agora como uma forma estabelecida de efetuar essa descarga: a origem da ação fornece o motivo para o movimento reflexo. Se retrocedermos ainda mais, poderemos, em primeira instância, vincular o sistema nervoso, como herdeiro da irritabilidade [Reizbarkeit] geral do protoplasma, com a superfície externa irritável [reizbar]. (Freud, 1895/1999, p. 348) Desse modo, o que Freud fez foi estender os conceitos de movimento reflexo e irritabilidade, já empregados no século XIX com relação aos organismos vivos, para caracterizar o psiquismo. Essa concepção do psiquismo influenciada pela fisiologia do século XIX está na base tanto da teoria da ab-reação quanto da postulação do desejo como atividade fundamental do psiquismo, assim como da construção auxiliar dos deslocamentos de quantidades de energia de uma representação mental para outra ou da memória e seus diferentes registros mnemônicos. Ou seja, está na base tanto da elaboração conceitual dos dados clínicos quanto da elaboração metapsicológica do aparelho psíquico. 4. Os problemas clínicos enfrentados pelo modelo de 1900 e a solução freudiana Dentre os vários problemas enfrentados por Freud após 1900, um deles é de fundamental importância para a revisão radical do modelo freudiano do psiquismo. Como foi visto anteriormente, a característica fundamental do aparelho psíquico é que ele deve ser concebido como uma substância irritável cujo modelo de ação é o arco reflexo. Esse procedimento de descarga de excitação é experimentado subjetivamente (através da consciência) como prazer, daí o chamado princípio do prazer.8 De início, Freud ateve-se à hipótese de que a excitação traumática era exógena, vinda de fora para dentro do organismo através da percepção. Contudo, com a descoberta da onipresença da sexualidade, Freud viu-se obrigado a reformular sua teoria do trauma, substituindo-a pela da fantasia e atribuindo às pulsões a fonte da excitação traumática.9 Desse modo, o esquema freudiano inicial da neurose é modificado, mas não sua concepção de psiquismo e, na verdade, o próprio conceito de pulsão é desenvolvido pelos mesmos conceitos já presentes em sua teoria do aparelho psíquico. De acordo com Freud, a pulsão é um estímulo (Reiz): “Qual a relação da ‘pulsão’ com o ‘estímulo’? Nada existe que nos impeça de subordinar o conceito de ‘pulsão’ ao de ‘estímulo’ e de afirmar que uma pulsão é um estímulo aplicado à mente” (Freud, 1915/1999, p. 124). Mas um estímulo com três características próprias: tem origem em fontes internas de estimulação, surge como uma força constante e a fuga é ineficaz contra ele. Sendo assim, a teoria freudiana da sexualidade (pulsões) é pensada com base nos mesmos conceitos – estímulo e “estimulabilidade” (Reizbarkeit) do psiquismo – com os quais elaborou sua teoria (especulativa) do aparelho psíquico. Contudo, com o progresso das investigações psicanalíticas, Freud depara-se com dados clínicos que parecem ir na contramão desse postulado fundamental sobre o funcionamento do aparelho psíquico: Se levarmos em consideração observações como essas, baseadas no comportamento, na transferência e nos destinos de homens e mulheres, não só encontraremos coragem para supor que existe realmente na mente uma compulsão à repetição que sobrepuja o princípio de prazer, como também ficaremos agora inclinados a relacionar com essa compulsão os sonhos que ocorrem nas neuroses traumáticas e o impulso que leva as crianças a brincar. (Freud, 1920/1999, p. 33) Diante da evidência clínica da compulsão à repetição que parece desprezar o princípio de prazer, Freud teria duas alternativas: fazer uma revisão de sua tese do princípio diretor do psiquismo, isto é, a tese de que o psiquismo funciona como um arco reflexo e, portanto, da própria concepção de psiquismo como uma substância irritável, ou tentar harmonizar a compulsão à repetição com sua teoria do psiquismo. Ele optou por esta última. Sua estratégia para tentar reunir esses dois pontos é tratar a compulsão à repetição como a manifestação de uma pulsão de morte, opor a pulsão de morte à pulsão de vida e subsumir ambas sob o imperativo da diminuição da tensão, o Princípio do Nirvana, que seria uma extensão do princípio do prazer a ponto de caber nele também a aniquilação da vida: A tendência dominante da vida mental e, talvez, da vida nervosa em geral, é o esforço para reduzir, para manter constante ou para remover a tensão interna devida aos estímulos (o “princípio do Nirvana”, para tomar de empréstimo uma expressão de Bárbara Low [1920, 73]), tendência que encontra expressão no princípio de prazer, e o reconhecimento desse fato constitui uma de nossas mais fortes razões para acreditar na existência dos instintos de morte. (Freud, 1920/1999, p. 66) Dois pontos são problemáticos na estratégia freudiana:1) a hipótese especulativa e pouco convincente de que a compulsão à repetição é fruto de uma pulsão de morte; 2) que a pulsão de morte possa ser integrada ao conceito inicial da tendência à diminuição da tensão (modelo do psiquismo como arco reflexo), o princípio do prazer,10 uma vez que ela surge para explicar a compulsão à repetição que justamente parece ir contra esse princípio. Ou seja, ou a pulsão de morte trabalha no sentido de aniquilar a vida e, portanto, toda a tensão – nesse caso, continua prevalecendo o princípio diretor do psiquismo (tendência à descarga de excitação), de modo que a repetição seria uma forma de obter o prazer máximo (a morte) –, ou a pulsão de morte trabalha no sentido de gerar desprazer, excitação – nesse caso, haveria uma tendência no psiquismo ao acúmulo de excitação, o que iria contra a tese do psiquismo como arco reflexo. Freud parece introduzir um conceito ambíguo e contraditório, a pulsão de morte, para “resolver” essa disjunção: a pulsão de morte é uma pulsão e, portanto, um estímulo, mas um estímulo que não tende a ser descarregado e sim acumulado, gerando desprazer. Só que esse acúmulo de desprazer visa à morte, isto é, à aniquilação de toda tensão e, portanto, ao prazer. Com esse recurso, Freud consegue manter seu modelo inicial. O psiquismo continua lidando apenas com estímulos, uma vez que ambas as pulsões são estímulos, e sua tendência geral continua sendo a eliminação da tensão. 5. Conclusão O desenvolvimento da teoria freudiana das neuroses e do psiquismo, e suas descobertas posteriores, encaixam-se no mesmo caso da fisiologia e psicologia analisado por Merleau-Ponty:11 os resultados da pesquisa psicanalítica parecem refutar seus pressupostos e, ao invés de se proceder a uma revisão destes, segue-se incluindo adendos, novos postulados, muitas vezes contraditórios com outros e com a própria experiência; isso para se salvar um modelo que, a princípio, tinha sido apresentado como provisório. Uma alternativa poderia ser, como o fizeram alguns analistas pós- freudianos, a revisão do princípio diretor dos processos psíquicos e, com isso, da própria concepção de psiquismo. Essa via parece ter sido conscientemente adotada por Lacan e Winnicott. Além dessa crítica dos pressupostos ontológicos de uma teoria por sua insuficiência na organização do material (empírico) obtido pela investigação clínica, poder-se-ia, ainda, de acordo com a fenomenologia, criticar esse conceito fundamental da psicanálise freudiana, a irritabilidade (Reizbarkeit), diretamente. Essa será a direção que procuraremos adotar em trabalhos posteriores. Referências Fulgencio, L. (2005). Freud’s Metapsychological speculations. International Jounal of Psychoanalysis, 86, 99-123. Freud, S. (1999). Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 5). Frankfurt: Fischer. (Trabalho original publicado em 1905) Freud, S. (1999). Entwurf einer Psychologie. In S. Freud, Gesammelte Werke Nachtragsband. Frankfurt: Fischer. (Trabalho original publicado em 1895) Freud, S. (1999). Jenseits der Lustprinzip. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 13). Frankfurt: Fischer. (Trabalho original publicado em 1920) Freud, S. (1999). Selbstdarstellung. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 14). Frankfurt: Fischer. (Trabalho original publicado em 1925) Freud, S. (1999). Die Traumdeutung. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 2/3). Frankfurt: Fischer. (Trabalho original publicado em 1900) Freud, S. (1999). Triebe und Triebschicksale. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 10). Frankfurt: Fischer. (Trabalho original publicado em 1915) Merleau-Ponty, M. (1942). La structure du comportement. Paris: Presses Universitaires de France. Merleau-Ponty, M. (1945). Phénomenologie de la perception. Paris: Gallimard. 1. Este artigo foi originalmente publicado na revista Natureza humana, v. 8, n. 2 (especial), 2006. 2. Cf. Fulgencio, 2005. 3. “Lá [no mundo externo], segundo o parecer da nossa ciência natural, à qual também devemos submeter a psicologia aqui, só existem massas em movimento e nada mais” (Freud, 1895/1999, p. 401). 4. Essa separação entre sensação e percepção permite reunir em uma mesma teoria dados de origens diferentes: a noção da realidade como quantidades em movimento, oriunda das ciências naturais (física e fisiologia), com os dados empíricos da consciência, as sensações. 5. Essa diferença é necessária para que o aparelho psíquico possa realizar o “teste de realidade”, que consiste em verificar se uma certa representação mental é real, isto é, oriunda da percepção mental ou alucinada, isto é, oriunda da memória. E o “teste de realidade”, por sua vez, é necessário, uma vez que o psiquismo, movido pela sua tendência fundamental de eliminar o excesso de excitação, tenderia a ficar alucinando a representação mental associada à vivência de satisfação e não sobreviveria. 6. Há ainda a possibilidade de descarga das excitações através da associação de uma representação mental com outras, de maneira que a quantidade de excitação se espalhe. 7. Na realidade, há uma série de concepções e modificações que esse conceito sofreu na fisiologia do século XIX, como a distinção entre os seres orgânicos e inorgânicos, e, em particular, as disputas entre vitalistas e materialistas mecanicistas, entre os quais se situam Helmholtz, Brücke, Du Bois- Reymond e outros, todos com influência direta sobre Freud. O esclarecimento dos conceitos de Reiz e Reizbarkeit, assim como da concepção freudiana deste conceito, serão realizados em trabalhos futuros. 8. O princípio de realidade seria derivado do princípio de prazer, na medida em que a manutenção de uma certa quantidade de energia psíquica é necessária para a obtenção de prazer real e que o teste de realidade é fruto da exigência de satisfação. Sobre isso, Freud diz: “Sob a influência dos instintos de autopreservação do ego, o princípio de prazer é substituído pelo princípio de realidade. Esse último princípio não abandona a intenção de, fundamentalmente, obter prazer; não obstante, exige e efetua o adiamento da satisfação, o abandono de uma série de possibilidades de obtê-la, e a tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer”. E mais à frente: “contudo, no que concerne ao restante, pode-se afirmar com certa justificativa que sua presença não contradiz a dominância do princípio de prazer” (Freud, 1920/1999, pp. 20-21). 9. “Devo primeiramente esclarecer, repetindo o que já disse em outras publicações, que essas psiconeuroses, até onde chegam minhas experiências, baseiam-se em forças pulsionais de cunho sexual. Não quero dizer com isso apenas que a energia da pulsão sexual faz uma contribuição para as forças que sustentam os fenômenos patológicos (os sintomas), e sim asseverar expressamente que essa contribuição é a única fonte energética constante da neurose e a mais importante de todas” (Freud, 1905/1999, p. 155). 10. Cf. Freud: “O princípio de prazer parece, na realidade, servir aos instintos de morte” (Freud, 1920/1999, p. 74). 11. Merleau-Ponty, 1942 e 1945. Winnicott e uma psicanálise sem metapsicologia1 Leopoldo Fulgencio 1. Introdução Para mostrar que Winnicott abandonou os conceitos fundamentais da metapsicologia freudiana, substituindo-os por outros de natureza epistemológica díspares destes, proponho o seguinte desenvolvimento: primeiro, retomarei a natureza, a função e as características dos conceitos metapsicológicos em Freud; segundo, indicarei o sentido do termo metapsicologia na obra de Winnicott; terceiro, mostrarei que ele abandona os conceitos metapsicológicos de pulsão de vida (Lebenstriebe) e de morte (Todestriebe) e, em última instância, também os conceitos de pulsão (Trieb) em geral e de aparelho psíquico;2 e quarto, que quando usa o termo libido, não se trata mais de supor uma energia pensada em termos análogos às energias supostas no campo dos fenômenos físicos, mas uma maneira de referir-se aos valores dados aos acontecimentos e fantasias relativos às relações inter-humanas. Realizado essepercurso, poderei afirmar que a teorização feita por Winnicott é uma teorização de tipo factual, por oposição à teorização especulativa que caracteriza a teorização metapsicológica. 2. Natureza, função e características dos conceitos meta- psicológicos para Freud Freud utiliza o termo metapsicologia em dois sentidos distintos: por um lado, enquanto sinônimo de uma teoria psicológica que toma o inconsciente como aquilo que é propriamente psíquico (Freud, 1900a/1953-74, p. 612), ou seja, a metapsicologia como a teoria geral de uma psicologia do inconsciente;3 por outro, a considera como um conjunto de conceitos que são construções teóricas auxiliares de valor apenas heurístico. Assim, a metapsicologia ficou conhecida como o constructo teórico que considera os processos psíquicos segundo três pontos de vista: o dinâmico (que toma o psiquismo como se fosse movido por forças psíquicas em oposição, denominadas por Freud Triebe, pulsões), o tópico (que considera o psiquismo como se fosse um aparelho dividido em instâncias espacialmente figuráveis) e o econômico (que concebe o psiquismo como se fosse movimentado por uma energia, que ele caracterizou inicialmente como um quantum de afeto e, mais tarde, como libido). A importância metodológica do uso de conceitos na estrutura do como se não é feita ao acaso; pelo contrário, trata-se, para Freud, de um método de pesquisa que prega a utilidade de conceitos especulativos para auxiliar na observação e sistematização dos fenômenos psíquicos, tendo em vista a explicação de suas relações de determinação recíproca.4 Freud está cônscio de suas especulações, tanto que, para ele: 1) o conceito de pulsão (Trieb) é uma ideia abstrata que tem a natureza de uma convenção (1915c/1953-74, p. 117), caracterizado como um tipo de mitologia da psicanálise (1933a/1953-74, p. 95; 1933b/1953-74, p. 212); 2) a noção de aparelho psíquico é uma ficção teórica (1900a/1953-74, p. 603) em relação à qual não está em questão procurar um substrato empírico que lhe corresponda; e 3) a noção de quantum de afeto, ou libido, é uma construção teórica auxiliar, útil para compreender os fenômenos clínicos, mas sem comprovação fenomênica, pensada de forma análoga ao conceito de energia elétrica ou a de fluido, jamais passível de ser medida (cf. Freud, 1894a/1953-74 e 1914c/1953-74). Para Freud, a metapsicologia corresponde à superestrutura especulativa (spekulativer Überbau) da psicanálise “em que cada parte pode ser sacrificada ou trocada sem dano nem remorso, a partir do momento em que uma insuficiência é constatada” (1925d/1953-74, pp. 32-33). Para evitar mal-entendidos, creio ser necessário fazer um esclarecimento, explicitando a diferença epistemológica entre os fatos, as teorias empíricas e as teorias especulativas. Os fatos são sempre singulares e contingentes, enquanto as teorias ou conceitos são sempre universais. Quanto aos conceitos que compõem as teorias, alguns têm referente empírico objetivamente dado na realidade fenomênica sensível (seja a dada aos sentidos externos seja ao sentido interno), enquanto outros não encontram referente intuitivo possível. Ambos os tipos de conceitos são utilizados nas teorias científicas, não só nas teorias científicas, mas aqui se trata de seguir a análise da psicanálise, tal como uma ciência proposta por Freud. Assim, na psicanálise freudiana, podemos considerar dois tipos de corpos teóricos: um que se refere aos conceitos construídos por abstração e generalização dos dados clínicos, a teoria dos fatos clínicos (tais como a que ser refere à sexualidade infantil, ao complexo de Édipo, à transferência, à resistência etc.), e outro que corresponde aos conceitos especulativos ou metapsicológicos, tais como os conceitos de aparelho psíquico e energia psíquica, que servem como construções auxiliares para ajudar na observação e sistematização dos dados clínicos (cf. Fulgencio, 2005). Ao distinguir a teoria clínica da metapsicológica, não estou afirmando que os fatos clínicos são apreendidos independentemente de teorias, visto que toda pesquisa científica depende de uma orientação para selecionar (dentre a multiplicidade de fenômenos que se apresentam) os elementos a serem observados e para estabelecer tipos de relação a serem procuradas na ligação e ordenação desses fenômenos. Isso não significa que as teorias que orientam a pesquisa empírica sejam, necessariamente, especulativas, ainda que as especulações metapsicológicas tenham um lugar central para Freud. Um exemplo claro, nesse sentido, está exposto, pelo próprio Freud (“The neuro-psychoses of defense”, 1894), quando diz que, na sua exposição sobre as neuroses de defesa (histeria, neurose obsessiva e fobia), ele utilizou uma hipótese de trabalho na qual supôs que, nas funções mentais, há algo como um fator quantitativo (montante de afeto, soma de excitação), algo que é suscetível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga, e que se difunde pelas marcas mnêmicas das representações, como faria uma carga elétrica pela superfície dos corpos. Para ele, esse fator não tem nenhum meio de ser medido (cf. Freud, 1894a/1953-74, p. 60), uma vez que esse fator quantitativo é apenas um instrumento teórico que possibilita agrupar os fatos e não um obscuro dado que algum dia seria acessível empiricamente. Com esse conceito especulativo de quantum de afeto, Freud pôde colocar a histeria, a neurose obsessiva e a fobia (tão diferentes nas suas manifestações) como pertencentes a um mesmo grupo de patologias, caracterizando-as, então, como tendo um mesmo tipo de dinâmica, a saber, a que procura uma descarga de excitações, ainda que tome caminhos diferentes para atingir seu objetivo: a histeria buscando essa descarga no corpo, a neurose obsessiva no pensamento, e a fobia no mundo exterior. Freud está, em termos metodológicos, reafirmando aquilo que outros cientistas, em ciências mais maduras, fazem para pesquisar seus objetos, ou seja, a utilização de ficções heurísticas que ajudam a pesquisar os fenômenos, cujo valor é justificável pela sua eficácia na resolução de problemas e não pela sua referência empírica objetivamente dada no mundo fenomênico (cf. Freud, 1894a/1953-74, pp. 60-61). A metapsicologia, segundo Freud, é necessária não por ser verdadeira, mas porque ela é útil para a observação, o agrupamento e a sistematização dos fatos clínicos. Ela é um instrumento para pesquisar e, tal como todo instrumento, não se coloca a questão sobre sua veracidade ou falsidade, mas tão somente sobre sua utilidade. 3. Os sentidos do termo metapsicologia na obra de Winnicott Winnicott usa o termo metapsicologia com dois sentidos distintos: primeiro, significando a própria teoria psicanalítica em geral; segundo, referindo-se a um conjunto de conceitos inadequados para a compreensão do ser humano do ponto de vista da psicanálise. No primeiro sentido, a teoria metapsicológica é considerada a teoria que descreve o processo de amadurecimento emocional do ser humano desde sua origem.5 No segundo sentido, Winnicott usa o termo metapsicologia como um conjunto de conceitos abstratos, de obscura referência factual no campo dos fenômenos, que fornece apenas uma ilusão de compreensão. Em 1954, ele escreve a Anna Freud: Estou tentando descobrir por que é que tenho uma suspeita tão profunda com esses termos [metapsicológicos]. Será que é porque eles podem fornecer uma aparência de compreensão onde tal compreensão não existe? Ou será que é por causa de algo dentro de mim? Pode ser, é claro, que sejam as duas coisas. (Winnicott, 1987b/1999, p. 58) Winnicott tem em mente a necessidade de usar uma linguagem teórica que seja o mais próxima possível dos fatos reconhecíveis na vida quotidiana: “um escritor da natureza humana precisa ser levado constantemente em direção a uma linguagem simples, longe do jargão do psicólogo, mesmo que tal jargão possa contribuir para revistas científicas” (1957o/1986, p. 127). O que marca sua postura metodológica e epistemológica é uma constante preocupação em dar conteúdos factuais às suas teorias,levando-o, nesse sentido, não só a tecer duras críticas a conceitos tais como os de pulsão de vida (Lebenstriebe) e de morte (Todestriebe) mas, fundamentalmente, a abandonar os conceitos especulativos que caracterizam a metapsicologia freudiana. 4. Críticas de Winnicott aos conceitos de pulsão de vida (Lebenstriebe) e de morte (Todestriebe) Um ponto de crítica central é o julgamento de Winnicott sobre o valor dos conceitos de pulsão de vida (Lebenstriebe) e de morte (Todestriebe). Ele diz de forma clara e direta: “simplesmente não acho válida sua ideia de pulsão de morte [Todestriebe]” (1965va[1962]/1990, p. 177). Numa carta a Money-Kyrle, de 1952, ele explicita claramente qual o motivo de seu incômodo quanto ao uso desses conceitos: você mais uma vez introduz a pulsão de vida [Lebenstriebe] e a pulsão de morte [Todestriebe]; você diz que, se elas são parte de nossos dons inatos, um mundo perfeitamente mau seria tão possível quanto um perfeito. Esse é um exemplo da maneira como o conceito de pulsão de vida [Lebenstriebe] e de morte [Todestriebe] evita o campo de investigação tão rico do desenvolvimento inicial do bebê. É uma pena que Melanie tenha feito um esforço tão grande para conciliar sua opinião com a pulsão de vida [Lebenstriebe] e de morte [Todestriebe], que são talvez o único erro de Freud. Não preciso lembrá-lo que ele tinha dúvidas a esse respeito quando introduziu o conceito pela primeira vez; e também de que o termo pulsão de morte [Todestriebe] é mal-usado na Sociedade mais que qualquer outro, sendo empregado no lugar das palavras agressividade ou impulso destrutivo ou ódio, de uma maneira que, tenho certeza, teria horrorizado Freud. (1987b/1999, p. 42) Winnicott mostra-se até mesmo bem-humorado e espirituoso nos seus conselhos para que seus colegas da Sociedade Britânica de Psicanálise abandonassem as confusões geradas pelo uso dos conceitos de pulsão de vida e de morte. Diz ele a Hans Thorner, em 1966: Gostaria de dizer, porém, que as coisas ficam confusas, na Sociedade, quando vários termos são usados como se fossem plenamente aceitos. Tenho certeza de que você sabe exatamente o que tem em mente quando diz: “partes perigosas... derivadas da pulsão de morte [Todestriebe]... devem ser expulsas” etc. etc.; eu mesmo não sei o que você quer dizer, e pelo menos metade da Sociedade deve sentir que você está dizendo “pulsão de morte” [Todestriebe], em vez de usar as palavras “agressividade” e “ódio”. Você talvez ache que isso não tem importância, e não tem mesmo, no contexto de seu ensaio, mas seria realmente muito útil para a Sociedade se conseguíssemos descobrir uma linguagem comum. Qualquer hora dessas, quando você não tiver nada para fazer, que tal reescrever aquela frase sem usar as palavras “pulsão de morte” [Todestriebe], só por minha causa? (Winnicott, 1987b/1999, p. 154) 5. A redescrição do conceito de instinto e o abandono do conceito de pulsão (Trieb) Não se trata, para Winnicott, de manter os conceitos de pulsão de autoconservação (Selbsterhaltungstriebe) e pulsão sexual (Sexualtrieb), abandonando os de pulsão de vida e de morte. A sua proposta é mais radical: o próprio conceito freudiano de pulsão (Trieb)6 é abandonado. Essa operação conceitual, de grandes consequências, é realizada sem muito alarde e não ocorre num único golpe, mas em diversos momentos da sua obra. Podemos considerar que ele faz isso de duas maneiras: primeiro, definindo o que ele chama de instinto, cuja análise mostra uma diferença radical entre o seu conceito e o que Freud denominou Trieb (pulsão); segundo, de maneira mais dispersa em sua obra, substituindo o conceito de Trieb pelos conceitos de instinto, desejo, necessidade de ser e tendência inata à integração. Freud caracterizou a pulsão (Trieb) como um “conceito fundamental convencional do qual não podemos prescindir” (1915c/1953-74, p. 117), isto é, um tipo de mito que serve como uma orientação para procurar a relação entre os fenômenos e as suas determinações. Note ainda que, para Freud, as pulsões não são forças físicas, mas psíquicas. Não são forças propriamente biológicas, mas uma representação psíquica de uma fonte endossomática ou, ainda, um representante (representans) da fonte endossomática; são concebidas como um conceito limite entre o soma e o psíquico (cf. Freud 1905d/1953-74, p. 167). Ao definir o que são os instintos, Winnicott escreve em 1954, no seu livro Natureza humana: Instinto é o termo pelo qual se denominam poderosas forças biológicas que vêm e voltam na vida do bebê ou da criança, e que exigem ação. A excitação do instinto leva a criança, assim como qualquer animal, a preparar-se para a satisfação quando o mesmo alcança seu estágio de máxima exigência. (1988/1988, p. 39) Para Winnicott, os instintos não são as pulsões (Triebe) – como poder-se- ia erroneamente supor –, considerando tratar-se apenas de um problema de tradução do termo alemão Trieb. Segundo Winnicott, os instintos não são ideias abstratas ou convenções, mas dados empíricos, excitações corporais que recebem um sentido e que exigem ação para serem satisfeitas. Não é, pois, um conceito especulativo. Para Freud, o que importa é a representação psíquica da excitação corpórea; é essa representação e o jogo de determinações recíprocas que ocorre entre essa e outras representações que compõem a vida psíquica, dando a dinâmica explicativa que anima os fenômenos. Pode-se dizer, então, que, para a psicanálise freudiana, o corpo é praticamente expulso, ficando apenas a representação desse corpo, ou, ainda, o afeto, que é um representante da excitação corporal correspondente. Segundo Freud, o corpo é um problema da medicina ou da biologia, cabendo à psicanálise não o corpo, mas as suas representações e seus afetos. Em Winnicott, estamos noutra perspectiva: as vivências e excitações corporais são elaboradas imaginativamente,7 ou seja, as experiências corporais recebem um sentido e esse sentido não é o representante das excitações nem a reapresentação do corpo, mas a qualidade que caracterizará a própria vivência ou excitação. Não se trata, para Winnicott, de um jogo de forças entre as representações ou afetos, mas de uma existência psicossomática que é vivida e significada nas relações inter- humanas, seja do ponto de vista do si-mesmo, seja do ponto de vista das relações do indivíduo com o ambiente. Na orientação metodológica de Freud, há uma passagem necessária entre a descrição dos fatos clínicos e a elaboração teórica que os concebe (Freud, 1916-17/1953-74, p. 67). A adesão ao ponto de vista dinâmico é uma escolha epistemológica e metodológica para Freud, na qual devem ser supostas forças em conflito (apenas duas, equivalentes em dignidade às forças de atração e repulsão), estando na base das concepções sobre as causas dos fenômenos e de seus movimentos. Daí a necessidade de Freud de agrupar os diversos tipos de pulsões8 pertencendo a um ou outro conjunto mais geral, supondo, assim, um único par de forças que englobaria todas as outras – as pulsões de autoconservação ou sexuais – e, mais tarde, aprofundando essa mesma perspectiva, as pulsões de vida e de morte. Para Winnicott, é irrelevante se estamos diante de um par de instintos ou lidando com um número maior deles (1988/1988, p. 40). O ponto de vista dinâmico (ou a dinâmica), para Winnicott, não é o conflito de forças, mas as relações inter-humanas numa história, em termos de seus sentimentos, fantasias, desejos e conflitos – tanto os conscientes como os inconscientes –, ou no que se refere à administração dos instintos. Quando Freud supôs as pulsões de autoconservação (Selbsterhaltungstriebe) e as sexuais (Sexualtriebe) como forças análogas às que se supunha na vida animal, ele também demarcou9 a diferença entre a noção de Instinkt – que caracterizaria os animais10– e a de Trieb – que caracteriza o ser humano11 –, considerando que as pulsões não têm a mesma fixidez na determinação dos comportamentos e objetos que os instintos. Segundo Winnicott, não é aí que ocorre a distinção entre os homense os animais, pois, para ele, não há, num momento inicial, uma diferenciação entre eles (cf. Winnicott, 1988/1988, pp. 39-40). Para Winnicott, o animal humano tem pressões biológicas tal como os outros animais, mas ele dá a elas um significado propriamente humano.12 Dentre esses sentidos especificamente humanos, Winnicott explicita, na sua teoria do amadurecimento pessoal,13 que o homem tem um modo existencial constituído numa relação de dependência absoluta, característica do início da vida, que progride (na saúde) em direção a uma relação de dependência relativa para, depois, uma independência relativa, retornando a um segundo estado de dependência relativa (na velhice), o que dá um sentido temporal e relacional à existência, não encontrável, dessa maneira, noutros animais. Um outro aspecto que diferencia o ser humano dos outros animais pode ser reconhecido a partir de uma das características do que Winnicott denominou de fenômenos transicionais. No artigo “O lugar em que vivemos”, ele coloca a questão: O que estamos fazendo enquanto ouvimos uma sinfonia de Beethoven, ao visitar uma galeria de pintura, lendo Troilo e Cressida na cama, ou jogando tênis? Que está fazendo uma criança quando fica sentada no chão e brinca sob a guarda da mãe? Que está fazendo um grupo de adolescentes, quando participa de uma reunião de música popular? (1971q/1996, p. 105) Ele ressalta, então, que há, ainda, uma outra pergunta mais fundamental a ser feita, que diz respeito, a saber: “Onde estamos nesse momento (se é que estamos em algum lugar)?” (1971q/1996, p. 105). Para ele, a distinção entre interno e externo, bem como a noção de sublimação, não são suficientes para abordar esse problema. Diz Winnicott: Já utilizamos os conceitos de interno e externo e desejamos um terceiro conceito. Onde estamos, quando fazemos o que, na verdade, fazemos grande parte de nosso tempo, a saber, divertindo-nos? O conceito de sublimação abrange realmente todo o padrão? Podemos auferir algum proveito do exame desse tempo que se refere à possível existência de um lugar para viver, e que não pode ser apropriadamente descrito quer pelo termo “interno” quer pelo “externo”? (1971g/1996, pp. 105-106) Para ele, não estamos nem no mundo externo nem no interno, mas num outro mundo diferente destes, um mundo que é, ao mesmo tempo, criado por nós e encontrado no exterior. E, no que se refere aos animais, ainda que nestes possa existir algo desse tipo, não encontramos a mesma possibilidade de criar-encontrar um “lugar para viver” tal como ocorre com o homem.14 6. A substituição do conceito de pulsão (Trieb) O abandono do conceito de pulsão (Trieb) e a redescrição do conceito de instinto também corresponde à substituição desses conceitos por outros, não só outros em termos de conteúdo, mas também de outra natureza epistemológica. Loparic, ao explicitar a redescrição da teoria da sexualidade feita por Winnicot, comenta essa modificação: O lugar do conceito especulativo de pulsão [Trieb] é ocupado por, pelo menos, três conceitos radicalmente distintos entre si, mas todos referentes à experiência possível de um bebê humano: 1) o de necessidade (need) do indivíduo humano de continuar crescendo e de ser si-mesmo – de onde surgem todas as outras necessidades da vida humana que só podem ser atendidas a partir da identificação da mãe com seu bebê –, 2) o de instinto (instinct) ou de drive (impulso) biológico – de onde se originam as pressões pela satisfação e pela recompensa na forma do prazer15 – e 3) o de desejo (wish), relacionado à fantasia sofisticada.16 Como sugeri num trabalho anterior [Loparic 2000], as necessidades e instintos podem ser englobados sob o título de urgências, e a vida humana pode ser caracterizada pela urgencialidade, ao invés de pela pulsionalidade. (Loparic, 2005, p. 270) Não cabe aqui desenvolver uma análise sobre cada um desses conceitos que, juntos, substituem o conceito de pulsão, mas tão somente indicá-los explicitando um quadro para que sejam no futuro analisados. 7. O abandono da noção de aparelho psíquico Quando Freud quis caracterizar qual foi a grande contribuição que a psicanálise deu à ciência, ele afirmou ser justamente a proposta de tomar o psiquismo tal como se fosse um aparelho (um telescópio, microscópio ou qualquer coisa desse tipo) (veja Freud, 1940a/1953-74; 1940b/1953-74; 1933a/1953-74, p. 159). Justamente essa operação – que toma o ser humano como um objeto e o psíquico como um aparelho – foi recusada por Winnicott. Quando ele se refere à psicanálise como uma psicologia dinâmica – “[A psicanálise se ocupa de] uma questão de sentimentos, de pessoas vivas, de emoções e instintos, e ela também lida com o inconsciente e com os conflitos inconscientes que causam os sintomas por não estarem disponíveis para a consciência” (1996q[1950]/1996, p. 14) –, ele não toma o ser humano como qualquer objeto da natureza, ao contrário, ele o considera justamente na sua especificidade humana, marcado por relações que não são de tipo análogo às que ocorrem entre os aparelhos ou objetos. Winnicott procurou desenvolver a psicanálise como uma ciência que pudesse fazer um estudo objetivo da natureza humana. Note, por exemplo, quando ele afirma: Talvez vocês estejam começando a perceber que existe certo sentido em transformar o estudo da natureza humana numa ciência, num processo caracterizado pela observação de fatos, pela criação de teoria e testagem desta teoria, e pela modificação da teoria de acordo com a descoberta de novos fatos. (1945h/1996, p. 5) Ele não está se referindo a um aparelho ou a um objeto, mas à própria natureza humana. Poder-se-ia perguntar, mas o que é essa natureza humana? Segundo ele, é um tipo de acontecimento que se realiza numa história pessoal: “O ser humano é uma amostra temporal da natureza humana” (1988/1988, p. 11). Para Winnicott, a natureza humana não será jamais tomada como uma abstração, um conceito filosófico ou uma metáfora, ao contrário, ele tem sempre no seu horizonte pessoas e suas experiências na existência. Ao referir-se ao indivíduo, às pessoas vivas, às emoções, instintos, fantasias etc., Winnicott nunca trata o homem em termos de funcionamento de um aparelho. Ao que tudo indica, em nenhum momento ele ficou seduzido pela ideia de conceber a natureza humana enquanto relações mecânicas de um aparelho ou como estruturas formais, matemáticas ou simbólicas; pelo contrário, ele mantinha-se numa linguagem ou teorização que estava tanto mais próxima quanto possível da descrição das relações inter-humanas propriamente ditas, o que lhe parecia mais natural ao falar do ser humano. Ao abandonar a noção de aparelho psíquico, também foi abandonada a ideia das instâncias ou sistemas psíquicos que comporiam esse aparelho. No entanto, Winnicott mantém termos tais como id, ego, superego etc., mas o faz com o objetivo de manter uma possibilidade de comunicação com seus colegas psicanalistas, ainda que os use num sentido diferente do que Freud estabelecera. Convém, aqui, para salientar a magnitude das transformações propostas por Winnicott, lembrar da afirmação de Freud, no seu último texto, quando tinha já 82 anos e estava lúcido sobre os quase 50 anos de desenvolvimento da ciência psicanalítica: “A psicanálise supõe um postulado fundamental [o de que o psiquismo pode ser figurado, heuristicamente, em termos de um aparelho psíquico]: que cabe à filosofia discutir, mas cujos resultados justificam o valor” (Freud, 1940a/1953-74, p. 144). É forçoso, assim, considerar que Winnicott não está apenas acrescentando certas contribuições (como os conceitos de objeto transicional e de falso e verdadeiro si-mesmo etc.) ao edifício teórico da psicanálise, mas propondo modificações que alteram esse edifício nos seus fundamentos. Ao substituir o conceito freudiano de aparelho psíquico pelo de integração ou identidade pessoal, nota-se que Winnicott realizou uma mudança no estatuto ontológico do objeto de estudo da psicanálise. Essa constatação reitera a interpretação segundo a qual a obra de Winnicotté uma revolução17 na psicanálise, estabelecendo, assim, um novo quadro a partir do qual os problemas são formulados e as soluções desenvolvidas. É justamente nesse quadro que tem sido defendida a ideia de que a filosofia de Heidegger seria adequada como fundamento ontológico da psicanálise winnicottiana (cf., por exemplo, Loparic, 1999b e 2000, e Dias, 2006). 8. O abandono do conceito de libido como uma energia psíquica O uso do conceito de libido como sinônimo de um tipo de energia que é passível de ser escoada, descarregada, armazenada, não foi tão explicitamente recusado como foram os conceitos de pulsão (Trieb) e de aparelho psíquico, ainda que Winnicott critique claramente a utilização do ponto de vista econômico como um tipo de simplificação feita por Freud (cf. Winnicott, 1958b[1950]/1992, p. 16). Winnicott usa o termo libido não no sentido forte, que caracteriza o ponto de vista econômico da metapsicologia freudiana, mas como sinônimo de relação afetiva ou amorosa, ou, ainda, para referir-se à sexualidade, dando ao termo um sentido mais vago, para apontar ou referir-se a certos aspectos observáveis das relações humanas. Se, para Freud, notamos uma passagem que vai da descrição dos fatos para uma apresentação metapsicológica em termos dinâmicos e depois econômicos (cf. Freud, 1916-17/1953-74, p. 378), em Winnicott, teríamos exatamente o movimento inverso, que vai do abandono do ponto de vista dinâmico, tópico e econômico para a tentativa de descrever os fatos. Ao apresentar, por exemplo, a sua maneira de conceber a posição depressiva – momento específico do desenvolvimento no qual a criança se vê como responsável pelos seus atos e pensamentos na relação com o outro (1988/1988, Parte II, cap. 1 e 2) –, Winnicott confirma sua preocupação em apresentar uma construção teórica que seja uma descrição dos fatos, dizendo: “A aceitação da posição depressiva (tenha ela este ou outro nome) no constructo teórico implica novas e importantes maneiras de encaminhar a descrição da natureza humana” (1988/1988, p. 75, os itálicos são meus). Ao fazer essa descrição, ele não se refere a uma energia que investe os objetos ou o eu. Não se trata de investimentos energéticos e deslocamentos de quanta de afeto, mas dos estados tranquilos e excitados da criança em desenvolvimento na sua relação com a mãe (aqui, sinônimo de “outro”, que não ela mesma ou parte dela, com o qual se relaciona). Winnicott diz que essa fase do desenvolvimento “envolve o bebê em sentimentos de culpa, levando-o a preocupar-se com os relacionamentos, em razão de seus componentes instintivos ou excitados” (1988/1988, p. 69). O importante, para ele, não é a capacidade de suportar a excitação ou descarregá-la, tal como uma máquina pode suportar ou não um determinado regime de funcionamento, mas sim os valores dados aos sentimentos e fantasias envolvidos nas relações da criança com o mundo, que nessa fase já está maduro para se ver como uma unidade ao relacionar-se com as pessoas e seu ambiente (cf. Winnicott, 1988/1988, p. 69). 9. A substituição da teorização metapsicológica pela factual Parece, pois, justificável, conceitual e textualmente, afirmar que Winnicott abandonou os conceitos de pulsão (Trieb), aparelho psíquico e libido, que estão respectivamente na base dos três pontos de vista que caracterizam a metapsicologia freudiana, propondo um tipo de teoria que tem uma ontologia e um conjunto de conceitos de natureza epistemológica diferentes da teoria utilizada pela psicanálise freudiana ou tradicional. Não se trata, para Winnicott, de substituir a metapsicologia, a bruxa freudiana, por uma outra, mas de propor uma teoria psicanalítica sem esse tipo de especulação ou de feitiçaria. O abandono da metapsicologia, para Winnicott, não significa recusar tudo o que Freud e outros analistas pós-freudianos fizeram, em benefício de suas próprias teorias. Uma série de descobertas feitas por Freud (a sexualidade infantil, o complexo de Édipo, o inconsciente recalcado, a transferência, a resistência etc.), Klein (a posição depressiva, o uso do jogo e da brincadeira na técnica de tratamento de crianças etc.), entre outras contribuições que caracterizam o desenvolvimento da psicanálise, estão presentes na teoria psicanalítica winnicottiana, ainda que tenham sido redescritas ou redefinidas por ele no interior de sua teoria do amadurecimento pessoal, configurando, assim, a fé de Winnicott no próprio progresso da psicanálise como uma ciência. Referências Dias, E. O. (2003). A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago. Dias, E. O. (2006). Winnicott e Heidegger: temporalidade e esquizofrenia. Natureza humana, 8(1, especial), 383-400. Freud, S. (1953-74). An Autobiographical Study. In S. Freud, Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (James Strachey et al., trad., V. 20). London: The Hogarth Press. (Trabalho original publicado em 1925d) Freud, S. (1953-74). The Defense Neuro-Psychoses. In S. Freud, Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (James Strachey et al., trad., V. 3). London: The Hogarth Press. (Trabalho original publicado em 1894a) Freud, S. (1953-74). A General Introduction to Psychoanalysis. In S. Freud, Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (James Strachey et al., trad., V. 15 e 16). London: The Hogarth Press. (Trabalho original publicado em 1916-17) Freud, S. (1953-74). The Interpretation of Dreams. In S. Freud, Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (James Strachey et al., trad., V. 4 e 5). London: The Hogarth Press. (Trabalho original publicado em 1900a) Freud, S. (1953-74). Instincts and their Vicissitudes. In S. Freud, Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (James Strachey et al., trad., V. 14). London: The Hogarth Press. (Trabalho original publicado em 1915c) Freud, S. 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London: Karnac Books. (Trabalho original publicado em 1996q[1950]) Winnicott, D. W. (1999). The Spontaneous Gesture, Selected Letters. London: Karnac Books. (Trabalho original publicado em 1987b) 1. Este artigo foi originalmente publicado na revista Natureza humana, v. 8, n. 1 (especial), 2006. É uma continuidade do ponto de vista exposto em Fulgencio, 2003 e 2005. Ele corresponde ao resultado parcial de minha pesquisa de pós-doutorado, “Winnicott e a metapsicologia”, desenvolvida com o apoio da FAPESP. A interpretação da história e desenvolvimento da psicanálise aqui proposta se insere na linha de pesquisa do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas atualmente da Unicamp, iniciada a partir dos trabalhos de Zeljko Loparic (cf. www.centrowinnicott.com.br/grupofpp). 2. Para distinguir os conceitos freudianos dos winnicottianos – especialmente a distinção entre o conceito de Trieb (e seus derivados), em Freud, e o de Drive ou de Instinct, utilizados por Winnicott –, indicarei os termos em alemão para bem caracterizar quando estou me referindo aos conceitos propostos por Freud. Isso tornará a leitura e a análise das propostas de Winnicott – na redescrição dos conceitos próprios à metapsicologia freudiana – mais claras e precisas. 3. Veja, por exemplo, Freud, 1901b/1953-74 (Psicopatologia da vida quotidiana, Cap. XII, p. 259), primeiro texto publicado no qual Freud usa o termo metapsicologia. Nele esse termo refere-se à teoria geral científica que pode explicar os fenômenos psíquicos. Freud também utilizará o termo “psicologia das profundezas” (Freud, 1926f/1953-74, p. 265), dando à metapsicologia esse sentido da teoria geral de sua psicologia científica enquanto uma ciência empírica. 4. Cf., em Fulgencio, 2003 e 2005, uma análise do método especulativo em Freud, cujo fruto maior é a metapsicologia, reconhecida, então, como um tipo de herança do programa kantiano a priori para as ciências da natureza. 5. Cf. em Winnicott 1955d[1954]/1992, p. 280; e Winnicott, 1956a[1955]/1992, p. 295. 6. Cf., em Loparic, 1999a, uma análise do termo Trieb na história da filosofia e da psicanálise. 7. Uma análise mais detalhada do conceito de elaboração imaginativa na obra de Winnicott pode ser encontrada em Loparic, 2000. 8. No início do processo de desenvolvimento da sexualidade, estas são caracterizadas por ele como parciais. 9. Como foi explicitado na literatura secundária. Veja, por exemplo, a nota de Strachey na introdução ao “As pulsões e suas vicissitudes”, nas obras completas de Freud em inglês, e os comentários de Laplanche (1970) em Vida e morte em psicanálise. 10. Produzindo comportamentos mais rigidamente determinados, bem como objetos fixos para que esses instintos pudessem ser satisfeitos. 11. A qual, diferentemente dos instintos, não teria a mesma rigidez nas suas determinações, nem na determinação dos seus comportamentos, nem na dos objetos passíveis de uso para sua satisfação. 12. Para uma compreensão do que Winnicott chama de animal humano e do conceito de elaboração imaginativa, que é a maneira como o ser humano dá sentido às suas vivências corporais, veja Loparic, 2000. 13. Winnicott apresenta uma teoria do amadurecimento pessoal que redescreve e engloba a teoria da sexualidade freudiana. Cf. em Dias, 2003 e Loparic, 2005, uma análise detalhada da teoria do amadurecimento. 14. Um possível aprofundamento dessa perspectiva do homem como criador do mundo no qual vive poderia ser desenvolvida apoiada numa análise de Heidegger sobre o que é o mundo para o homem, no qual diferencia o que ocorre com uma pedra, um animal e o homem, afirmando que a pedra é sem mundo, o animal é pobre de mundo e o homem é um formador de mundo. Cf. Heidegger, 1983/2003, pp. 205-208. 15. “A ideia da ‘adaptação materna suficientemente boa às necessidades do bebê não deve ser confundida, diz Winnicott, com ‘o conceito de satisfação, pela mãe, dos impulsos instintuais’ (1989a, p. 242; tr. br., p. 188)”. Nota de Loparic. 16. “Esses três tipos de ‘tendência’ são enumerados em 1989a, p. 256, nota; tr. br., p. 199. Faço constar que o termo winnicottiano drive é traduzido erroneamente por ‘pulsão’”. Nota de Loparic. 17. O termo revolução é aqui utilizado no sentido técnico estabelecido por Thomas Kuhn emseu A estrutura das revoluções científicas (1975). Kuhn usa esse termo, emprestado da política, para caracterizar a mudança de regime e de fundamento que ocorre no progresso da ciência quando um paradigma é substituído por outro, por exemplo, para caracterizar o que ocorre, na física, quando da passagem do paradigma newtoniano para o einsteiniano. Winnicott e o Middle Group: a diferença que faz diferença1 Ariadne Alvarenga de Rezende Engelberg de Moraes 1. Psicanálise britânica Quando foi convidado pelo editor da Karnac Review para escrever um artigo sobre o tema “A quem pertence Winnicott?”,2 Brett Kahr prontamente respondeu: a ninguém. Kahr argumenta que Winnicott, uma pessoa essencialmente independente e antiautoritária, sempre afastou o pensamento de fundar sua própria escola de psicanálise. Segundo ele, Winnicott agiu dessa maneira porque sabia que, se tivesse assumido a figura de pai de uma escola, poderia interferir na trajetória de desenvolvimento de colegas iniciantes e, dessa forma, frustrar seu desejo pessoal de lhes facilitar a jornada rumo à independência. Credita-se a essa posição de Winnicott o fato de não surgir na Inglaterra o desenvolvimento de uma escola winnicottiana ou um movimento winnicottiano, mas, sim, a criação de ramos de pensamento independente, frouxamente interconectados, para os quais Winnicott permanece sendo fonte de inspiração e sustentação. Todavia, acrescenta Kahr, apesar do espírito independente de Winnicott, seu legado tem sido preservado, formal e institucionalmente, por meio de três pequenas organizações, as quais levam, de alguma maneira, o nome de Winnicott. São elas: The Winnicott Clinic of Psychotherapy, Winnicott Trust e Squiggle Foundation. Essa análise realizada por Kahr, fidedigna no que diz respeito à personalidade de Winnicott, pode suscitar dúvidas sobre o modo de compreender a atitude do psicanalista na época da grande controvérsia na psicanálise britânica e parece contraditória com a sua opção de se filiar ao que ficou denominado Middle Group. Essa decisão, tomada pelo autor da teoria da transicionalidade, teve implicações em sua vida pessoal, mas foi no campo teórico-clínico que a repercussão dessa posição pôde ser mais sentida. A ausência de clareza a respeito desses acontecimentos históricos, que culminaram em definitivas mudanças teóricas na psicanálise, sem dúvida acrescenta dificuldades para o reconhecimento do lugar de Winnicott como pensador, teórico e clínico da psicanálise. Para compreender essas passagens, faz-se necessário destacar que – apesar de a cisão entre M. Klein e A. Freud ter assumido ares políticos e, por sua vez, o agrupamento dissidente do meio poder também ser assim interpretado –, subjacente a essa cisma britânica, existiam dois níveis de problemas. O primeiro, referente ao movimento psicanalítico, ao modo de organização e sucessão de ideias e poder na psicanálise, que, desde S. Freud, foi muito bem estruturado, a ponto de ser denominado por Balint de sucessão apostólica. Baseado nessa rígida organização, proposta pelo criador da psicanálise, reconheciam-se os autores que seriam considerados discípulos e definiam-se aqueles que se portavam como dissidentes. O segundo problema, diretamente associado ao primeiro, diz respeito ao cerceamento de ideias e teorias, já que a base para a aceitação de novas proposições teóricas estava ligada à concordância e fidelidade às teses fundamentais da teoria freudiana clássica. Portanto, desde sempre, mas de um modo não explícito, a forma e a estrutura das filiações exerceram influência no rumo de desenvolvimento da teoria e prática psicanalítica,3 e definiram o prestígio dos psicanalistas recém-ingressos, bem como a qualidade da relação estabelecida entre todos. Diferenciar esses dois níveis de problemas nunca foi tarefa fácil na psicanálise, pois, como vimos, existe um entrelaçamento entre eles, que tem se revelado pernicioso na história do pensamento psicanalítico. Apesar de o desenvolvimento de novas ideias e, por sua vez, o surgimento de novas correntes de pensamento serem esperados no interior de uma ciência toda vez que surgirem problemas não solucionados ou não evidentes nas teorias anteriores, isso nem sempre aconteceu na psicanálise devido ao fato de uma nova ideia poder ser interpretada como heresia. No artigo “Can There Be a Monopoly on Psychoanalysis”, Darian Leader traduz bem essa questão quando afirma: As embaraçadas histórias dos grupos de psicanálise dificilmente são edificantes. São histórias de lutas, separações e às vezes de guerra aberta entre lados antes aliados, de rompimento de promessas e de amizades. Diferenças teóricas têm levado a diferenças políticas, e, na mesma proporção, diferenças políticas têm sido disfarçadas como teóricas. Todos que já estudaram a política institucional do mundo da psicanálise concordam no seguinte: as principais diferenças giram em torno do treinamento psicanalítico. (Casement, 2004, pp. 246-247) Fazendo uma análise sobre esse ponto, Bergman (apud Green, 2001/2003, p. 148) divide os teóricos que influenciaram a história da psicanálise em três grupos: os continuadores, como Herman Numberg e Otto Fenichel, que estenderam a psicanálise para outros domínios “sem criar muita controvérsia” com a tradição freudiana; os hereges, como Jung e Adler, que estiveram perto de Freud e foram influenciados por ele por um período, mas, após alguma oposição teórica, fundaram suas próprias escolas; e um terceiro grupo, formado pelos reformadores, que são aqueles que “aceitam as descobertas fundamentais de Freud, mas acrescentam outro andar ao edifício por ele construído” (apud Green, 2001/2003, p. 148), estando entre eles Melanie Klein, Hartmann, Kohut e Winnicott. Segundo Bergman, os reformadores não existiam enquanto Freud era vivo, pois nessa época era o próprio psicanalista quem decidia o que era ou não psicanálise. Por isso, contemporaneamente a Freud, só podiam existir continuadores ou hereges. A classificação proposta por Bergman faz nossa atenção voltar-se para a experiência psicanalítica britânica, na medida em que ele inclui Winnicott na lista de reformadores. Exige também que retornemos à “sucessão apostólica” para compreender alguns desdobramentos teóricos e políticos que nos darão substratos para entender por que Winnicott é considerado o principal representante da tradição independente britânica, o autor cujo trabalho causou impacto na Inglaterra não apenas entre seus colegas de profissão, mas também sobre a cultura, da mesma maneira que seu pensamento teórico-clínico exerce, mais do que nunca, influência no universo psicanalítico recente. Winnicott é considerado um estudioso privilegiado da psicanálise por haver sido formado e analisado pelas mais importantes figuras de sua época – E. Jones, J. Rivière, J. Strachey e M. Klein –, que, por sua vez, estiveram associadas a outros importantes nomes da psicanálise. Melanie Klein, destacada por Falzeder (Haynal, 1993) como a analista de maior influência teórica na psicanálise,4 logo após os grandes nomes (Freud, Ferenczi, Abraham, Sachs, Rank, Jones e A. Freud), foi, sem dúvida, a psicanalista que causou maior impacto em Winnicott depois de Freud. Melanie Klein foi a pioneira de toda uma corrente psicanalítica contemporânea que enfatiza a existência de relações de objeto precoces como fundadoras do desenvolvimento psíquico e da personalidade. Era adepta da ideia de que o ego se desenvolvia por meio da internalização de objetos; acreditava que as pulsões libidinais e agressivas desenvolvem os relacionamentos objetais, os quais, desde a mais tenra infância, formam a base do ego. De acordo com ela, “a estrutura da mente é concebida como um sistema de objetos internos produzidos por transações de relações objetais e da fantasia inconsciente”, propondo, para dar suporte a essa visão, “um sistema de relações emocionais reunidas nos conceitos de posição esquizoparanoide e depressiva, que organiza as atitudes, os vínculos e, de maneira geral, todo o funcionamento psíquico” (Bleichmar,1992, p. 32). Apesar de ter como ponto de partida teórico as ideias de Freud e Abraham, as observações clínicas e hipóteses levantadas por Klein culminaram em mudança na teoria do desenvolvimento da mente e na de conflito mental. Com base nessas descobertas, ela passou a sustentar que o conflito mental estava baseado na luta de emoções e fantasias inconscientes entre os objetos internos e externos. Essa visão de conflito mostrou-se oposta à noção clássica de conflito, até então concebido como a luta entre a pulsão sexual e a defesa. A inovação teórica de Klein tornou-se evidente no meio psicanalítico da mesma forma que a dificuldade para enquadrar essas ideias ao corpo teórico freudiano. De sua parte, Klein, interessada em se manter fiel aos postulados freudianos, buscou aproximações, por vezes forçadas, entre suas ideias e as teses centrais da psicanálise tradicional, chegando a formulações como complexo de Édipo precoce e superego precoce. No entanto, mesmo tendo realizado descobertas importantes – como a de que as crianças são capazes de desenvolver a transferência e a formação de mecanismos de defesas primitivos –, quando escolheu fundamentar suas inovações teóricas sobre a agressividade, a inveja e a angústia na ideia de pulsão de morte, Klein terminou por se expor demais. Interessada em estudar os períodos pré-edípicos do desenvolvimento mental, ela afasta-se da ideia de fase libidinal como unidade de desenvolvimento, em sentido cronológico, substituindo-a pela ideia de posição, afirmando que se pode observar nas crianças pequenas “uma mescla de pulsões orais, anais e genitais que se sobrepõem a partir das primeiras relações de objeto” (Bleichmar, 1992, p. 87). Devido ao caráter de suas proposições, Klein teve três grandes enfrentamentos em sua carreira científica. O primeiro, em 1927, com A. Freud, com o tema da análise infantil e o desenvolvimento da transferência; o segundo, entre 1943-1944, quando Glover propôs expulsá-la sob a acusação de ela estar se afastando dos princípios básicos da psicanálise e, por fim, no momento em que elaborou a teoria da inveja primária, que apoia a base constitucional da agressão humana, provocando o afastamento de membros de seu grupo, como Paula Heimann. As consequências desses embates foram de ordem pessoal e teórica, mas, sem dúvida alguma, houve repercussão no movimento psicanalítico. Há consenso entre comentadores que o conflito com A. Freud foi o responsável para que o pai desta, S. Freud, não aceitasse nem apoiasse a obra de Klein, que se autodenominava discípula freudiana. Os conflitos com Glover provocaram a ruptura entre ela e sua filha Melita, que o havia apoiado (cf. Bleichmar, 1992, p. 82). Foi o confronto com A. Freud – que adotou a posição teórica mais tradicional, isto é, a de que o ego era formado pelas frustrações dos instintos – que provocou a desagregação da Sociedade Britânica de Psicanálise entre os seguidores de Klein e os de A. Freud. Como medida paliativa para evitar um rompimento definitivo entre elas e, consequentemente, a fundação de outra sociedade de psicanálise, optou-se pelo oferecimento de dois programas de treinamento, que ficaram conhecidos como a Escola Inglesa5 e a Escola de Viena. Analistas que questionavam a teoria clássica e aceitavam em parte os postulados de Klein formaram um grupo à parte e se tornaram conhecidos como Midlle Group ou grupo independente. Michel Balint, Ronald Fairbairn, Guntrip e Donald W. Winnicott são os principais representantes desse grupo, que contava também com Sylvia Payne, Ella Sharpe e Marjorie Brierley. Todos eles passaram a ser indistintamente conhecidos como teóricos das relações de objeto. 2. Winnicott: dissidência política ou teórica? Antes de proceder à analise que estabelecerá as diferenças entre Winnicott e os outros teóricos do Middle Group, é importante marcar a posição deste psicanalista em relação aos acontecimentos na Sociedade Britânica de Psicanálise e também em relação ao distanciamento de M. Klein, fatos importantes para a compreensão da posição tomada por Winnicott. Para Winnicott, a adoção dos dois grupos de formação no auge da discussão entre M. Klein e A. Freud foi a melhor saída para proteger a Sociedade Britânica de Psicanálise de uma cisão permanente. Ele considerou essa fase como um período de reparação que permitiria à Sociedade se reconciliar, “como qualquer outra sociedade, com o fato de existirem diferenças científicas que acabam por se resolver automaticamente com o decorrer do tempo, concomitantemente ao fato de surgirem diferenças novas” (Winnicott, 1987b/1990, p. 63). Pelo entendimento de ser a psicanálise uma ciência, a possibilidade de desacordos teóricos era, para ele, uma realidade que deveria ser enfrentada com maturidade. Isso significava tratar das diferenças teóricas sem nenhuma forma de partidarismo político, e muito menos com um fervor religioso. Era evidente para Winnicott que “a principal identificação de cada um de nós é com a Sociedade” e não com qualquer grupo que pudesse ser criado, pois entendia que, “fora da sociedade, os grupos não teriam nenhum significado e nenhum poder” (1987b/1990, p. 74). A opção de não se alinhar com nenhum dos dois grupos institucionais foi firmada pelo reconhecimento de diferenças teóricas insustentáveis entre suas ideias e as das novas líderes, mas também foi influenciada pelo forte hermetismo desses grupos, ambos adeptos da sucessão apostólica. Com essa posição, Winnicott pretendia manter certa independência no desenvolvimento de suas ideias – muitas delas ainda em fase de elaboração –, tendo como objetivo final o desenvolvimento da teoria psicanalítica como ciência, em sua opinião algo maior que ser freudiano ou kleiniano. O intuito de valorizar a discussão das ideias e a promoção do desenvolvimento da teoria e da técnica era o que norteava sua participação na Sociedade, tanto como simples membro como também na posição de presidente. Em uma carta para Hanna Segal, de fevereiro de 1952, explicita isso quando afirma com veemência: “minha intenção é não me conter nos encontros da Sociedade, sempre que a tendência se desviar do relato científico para a expressão de uma posição política” (1987b/1990, p. 24). Desse modo, sua atitude de independência não pode ser interpretada como rejeição da tradição psicanalítica e muito menos como receio em se posicionar. Deve ser compreendida como crítica àqueles que temem o que é novo e criativo. Para ele, não há possibilidade de se criar no vazio6 e, portanto, é impossível ser livre e criativo sem a tradição. Assumia que o sentido geral da contribuição de Freud havia sido preparar o mundo para o pensamento psicológico e reconhecia a importância de todos os desdobramentos teóricos posteriores, estando certo de que pessoalmente contribuía para o desenvolvimento da teoria e clínica psicanalítica. Acreditava que o exercício da reflexão, a introdução de novas formas de pensar, o uso de outra linguagem e até mesmo a discordância de aspectos teóricos centrais são importantes passos tanto para a confirmação do que se sabe como para o surgimento de um pensamento original. Era certo para ele que “qualquer avanço no trabalho científico conquista um ponto de chegada numa nova plataforma, a partir da qual se pode sentir uma porção ainda maior do desconhecido” (1987b/1990, p. 31). Esse modo winnicottiano de ser e fazer foi vivido com os amigos, exercido com os desafetos e expresso por ele em sua obra e nas cartas postumamente publicadas. Parece-me um bom exemplo do sentimento de Winnicott em relação à sua posição diante da Sociedade Britânica de Psicanálise a citação a seguir, de uma carta para M. Klein, escrita em novembro de 1952, após uma reunião na Sociedade, na qual ele diz: A primeira coisa que tenho a dizer é que percebo como é irritante quando quero colocar em minhas próprias palavras algo que se desenvolve a partir da minha própria evolução e da minha experiência analítica. Isso é irritante porque suponho que todo mundo quer fazer a mesma coisa, e numa Sociedadecientífica um de nossos objetivos é encontrar uma linguagem comum. Essa linguagem, porém, deve ser mantida viva, já que não há nada pior que uma linguagem morta; [...] o que estou fazendo é irritante, mas acho que também tem seu lado bom. Em primeiro lugar, não há muitas pessoas criativas na Sociedade, tendo ideias pessoais e originais. Acho que qualquer um que tenha ideias é realmente bem-vindo, e sempre sinto que sou tolerado na Sociedade porque tenho ideias... (1987b/1990, p. 30). Nessa carta, Winnicott, ao mesmo tempo em que admite a necessidade da organização de novas ideias, mostra como era refratário a qualquer forma de imposição de um pensamento, mesmo quando justificada pela exigência do uso de uma linguagem estandardizada, pois sabia que isso levaria a um empobrecimento da experiência pessoal de quem cria e de quem compartilha aquilo que foi ou está sendo criado. Um outro momento em que a posição reticente de Winnicott quanto à oficialização de seu pensamento é confirmada aparece também em uma carta, de 1968, na qual afirma se sentir relutante em formalizar a técnica de rabiscos como “rival de outras técnicas projetivas”, pois isso representaria “uma derrota do principal objetivo do exercício, caso devesse surgir algo estereotipado como o teste de Rorschach”, porque, para ele, “a liberdade absoluta é essencial para que cada modificação, se adequada, possa ser aceita” (1987b/1990, p. 154). Se, na década de 1940, quando deu início à sua produção intelectual, uma atitude similar a essa poderia ser interpretada como reverência à tradição ou receio de bancar um posicionamento, certamente essa interpretação não se aplicaria ao Winnicott de 1968. Faz mais sentido pensar que o que pretendia ao tomar essa posição era reafirmar a preocupação de que o enquadramento de suas ideias viesse a limitar futuros desenvolvimentos da ciência psicanalítica, pois, de sua parte, nessa época, ele já assumia e reconhecia as profundas mudanças conceituais introduzidas por ele no cenário psicanalítico. Em 1965, ao apresentar o trabalho “A psicologia da loucura: uma contribuição da psicanálise” (Winnicott, 1989vk/1994) para a Sociedade Britânica de Psicanálise, diz sem rodeios: “possuímos a única formulação realmente útil, que existe, da maneira pela qual o ser humano psicologicamente se desenvolve de um ser completamente dependente e imaturo para um estado maduro relativamente independente” (1989vk/1994, p. 94). Ao escolher congregar o grupo do meio, Winnicott pretendeu garantir o livre exercício de seu pensamento, mais do que confirmar uma identificação com as diretrizes teóricas desse grupo. Como veremos, as diferenças entre ele e os denominados teóricos das relações objetais são tão fundamentais que não permitem sequer incluí-lo nessa classificação. No entanto, ao encontrar esse espaço de reflexão, Winnicott pôde marcar as diferenças teóricas que fizeram com que se distanciasse de Klein e também pontuar que os questionamentos mais relevantes feitos à teoria psicanalítica referiam-se à teoria freudiana tradicional.7 Ao se alojar no grupo independente, também encontrou o espaço necessário para lidar tanto com o fato de que “nenhum progresso na teoria psicanalítica é feito sem pesadelos” (1989xh/1994, p. 348), como com a realidade de que “uma ideia original precisa de audiência, e a boa audiência consiste naqueles que já tiveram a ideia” (1989a/1994, p. 362) ou estão diretamente envolvidos com essas mesmas questões. 3. Rompimento com Klein É esclarecedor relembrar que, quando valorizou a importância das etapas primitivas do desenvolvimento emocional, Winnicott ainda não conhecia o trabalho de Melanie Klein. O encontro com a psicanalista aconteceu por sugestão de James Strachey e foi – como Winnicott mesmo reconhece em vários momentos de sua obra – fundamental para o desenvolvimento de suas ideias. Após um período de estudo e supervisões com Klein, ocorreu o encerramento da parceria. O distanciamento entre ambos foi motivado pelo surgimento de importantes divergências teóricas relativas ao papel que o meio ambiente desempenha no desenvolvimento emocional da criança. Enquanto para Klein o ambiente devia ser visto simplesmente como um ponto importante de apoio e cuidado para o bebê recém-nascido, Winnicott compreendia a relação de dependência do bebê com o ambiente-mãe como a condição fundamental para o acontecer de uma pessoa. A discordância em relação a esse ponto se tornou uma questão central entre esses teóricos, pois o fato de Klein não considerar relevante o papel do ambiente para a estruturação da personalidade de uma pessoa levou essa psicanalista, na visão de Winnicott, a tratar de mecanismos profundos em momentos iniciais do amadurecimento pessoal. Em uma carta à Dra. Barbara Lantos, de novembro de 1956, Winnicott aborda, sem receio de ser indelicado, suas diferenças com os kleinianos. Ele diz: Existem algumas coisas que os kleinianos fazem na apresentação do seu ponto de vista que eu desaprovo vigorosamente [...]. Por exemplo, os kleinianos parecem não levar em conta, em seus pronunciamentos, a imaturidade do ego, de modo que parecem atribuir ao recém-nascido coisas tais como “o bebê querendo comer a mãe”. Até certo ponto, trata-se de uma questão de linguagem, mas se deve respeitar o fato de que o desenvolvimento do ego não admite tal descrição do objetivo do bebê pequeno. Outro erro kleiniano parece-me estar na tentativa de falar sobre o bebê à parte do cuidado que a mãe dispensa ao bebê, coisa que considero impossível [...]. (1987b/1990, p. 95) Apesar do respeito pela qualidade das ideias kleinianas, em especial a teoria da posição depressiva, a diferença teórica entre esses autores tomou tal proporção que Winnicott assumiu não “ser capaz de expor o ponto de vista de Klein de um modo que ela mesma aprovasse” (1965va/1990, p. 161). Ele reconhecia com tranquilidade esse distanciamento e deu como certo o fato de Klein não tê-lo “incluído como um kleiniano” (1965va/1990, p. 161). Isso, porém, nunca o impediu de assumir sua dívida teórica com ela. Winnicott reconhecia o valor da contribuição de Klein para a psicanálise e para a psiquiatria, pois acreditava que os trabalhos dessa autora representavam “a tentativa mais vigorosa de estudar os processos precoces do desenvolvimento da criança, afora o estudo do cuidado da criança” (1965h/1990, p. 116). A partir do momento em que percebeu que “inicial não é profundo”, Winnicott revela que pôde “fazer uso pleno de Klein sem ficar atolado” (1989f/1994, p. 442). Ou seja, quando constatou que a teoria da posição depressiva kleiniana – segundo ele, a grande contribuição de Klein – estava relacionada ao profundo e não ao inicial, sentiu-se livre para tratar das diferenças observadas entre ambos no que se refere aos importantes aspectos relacionados à experiência da dependência inicial – sua contribuição pessoal à psicanálise.8 Compreendeu que o bebê precisa de tempo e amadurecimento físico e psicológico antes que “a profundidade apareça” (1989f/ 1994, p. 442), ou seja, antes que um bebê seja capaz de apreciar uma experiência emocional por inteiro, muita coisa precisa acontecer. Para Winnicott, aquilo que é profundo deve ser visto como pertencente à criança – já constituída como uma pessoa (eu) e separada da mãe – e referido à “profundidade na fantasia inconsciente”, ou seja, à realidade psíquica, na qual estão envolvidas a mente e a imaginação da criança (cf. 1958i/1990, p. 103). Por outro lado, quando se trata do que é inicial, faz-se necessário levar em conta o ambiente. Com essa compreensão, fortaleceu a ideia de que as condições necessárias para um bebê alcançar a continuidade de ser, estruturar sua personalidade e tornar-se capaz de existir como uma pessoa integrada e separada são constituídas inicialmente na unidade mãe- bebê. Pessoal e interno são palavras-chave, escolhidas por Winnicott, tanto para mostrar que existe uma versão mais primitiva daquilo a que Klein se referiu como “interno” como para apontar o campo teórico construído por elea partir do momento em que entendeu que inicial não é profundo. Para ele, é inapropriado usar a palavra interno para designar os fenômenos que compõem a realidade psíquica do lactente antes da conquista da unidade psicossomática, pois, no estágio primitivo, o lactente ainda “não estabeleceu propriamente” (1965j/1990, p. 169) os limites do eu e muito menos conquistou a capacidade de usar os mecanismos mentais de projeção e introjeção. Sendo assim, no estágio primitivo, aquilo que será denominado interno após a personalização “significa pessoal, e pessoal na medida em que o indivíduo é uma pessoa com um self [si-mesmo] no processo de ser envolvido” (1965j/1990, p. 169). Dessa forma, “o ambiente facilitador, o apoio do ego da mãe ao ego imaturo do lactente” são as partes essenciais da criança como “criatura viável” (1965j/1990, p. 169) que precisam ser consideradas. Com essas descobertas, Winnicott expandiu seu trabalho do profundo ao inicial, ampliando sua compreensão dos estados psicóticos, o que lhe possibilitou propor que a psicose, e não a neurose, é o paradigma do adoecer. Mudanças importantes na técnica terapêutica decorreram do entendimento de que não há um sujeito psíquico munido de mecanismos mentais e de forças pulsionais interagindo com objetos ao nascer, mas, sim, um ser humano dotado de uma tendência inata para a integração e que depende de um ambiente adaptado às suas necessidades para poder constituir um si-mesmo pessoal e para, quem sabe, vir a se tornar capaz de se relacionar com objetos. Winnicott, apoiado em sua teoria do amadurecimento pessoal, viu que, sem as condições de ambiência iniciais adequadas às necessidades do bebê, as pessoas podem crescer fisicamente, mas permanecem relacional e emocionalmente imaturas. Ao assumir que a realidade psíquica da criança está sendo formada “pelas experiências que constituem o viver na infância, experiências instintivas ou não, excitadas ou tranquilas” (1955c/2000, p. 370), e que são realizadas com a mãe desde épocas primitivas, e aceitar que “a história de um ser humano não começa aos cinco anos, nem aos dois, nem aos seis meses, mas ao nascer – e antes de nascer, se assim se preferir” (1947b/1982, p. 96), Winnicott distanciou-se por completo de Klein e desenvolveu mais intensamente suas ideias em relação ao desenvolvimento inicial, convencendo-se de que a estruturação da personalidade de uma pessoa, bem como a condição de ser ou não ser psiquicamente saudável, não podiam estar atreladas unicamente à resolução dos conflitos pulsionais e edipianos. Sendo assim, procedeu à redescrição do conceito kleiniano de “posição depressiva”, acrescentando mudanças significativas, a começar pela sugestão da mudança de nome para estágio do concernimento. Na perspectiva winnicottiana, o estágio do concernimento – que deve ser considerado uma sequência natural para o bebê que teve um bom início – é um momento fundamental dentro da linha do amadurecimento, por ser o estágio em que o bebê poderá consolidar as conquistas anteriores e formar uma base segura para prosseguir o amadurecimento mediante a aquisição da capacidade para ser concernido. É ainda um estágio anterior ao da dominância genital e trata do desenvolvimento emocional característico da fase da lactação na época em que se inicia o desmame, momento em que o bebê é capaz de se relacionar com apenas um outro – a mãe. Por isso, tem por característica essencial o fato de todas as experiências relacionadas à conquista do concernimento acontecerem no interior da relação diádica inicial. Para ele, a relação diádica inicial “é aquela entre a criança e a mãe ou mãe substituta, antes que qualquer característica da mãe tenha se diferenciado e moldado na imagem do pai” (1958g/1990, p. 32). Por essa razão, a conquista do concernimento deve ser entendida como um fenômeno pré-edípico, no sentido de que acontece antes da fase de relacionamentos triangulares, da mesma forma que toda a estrutura e o dinamismo do estágio do concernimento são não edípicos. A particularidade de ser uma experiência relacional pré-edípica, somada ao destaque dado ao ambiente como condição fundamental para o amadurecimento, constitui a marca da redescrição winnicottiana da posição depressiva kleiniana e sela a ruptura entre os psicanalistas. Ao sublinhar a importância da ultrapassagem de algumas etapas do amadurecimento para que um bebê possa caminhar em direção à conquista do concernimento e, a partir daí, estar em condição de estabelecer relações com pessoas inteiras, inicialmente duais e posteriormente triangulares, Winnicott tornou-se um discípulo dissidente. Como sabemos, Klein permaneceu leal à problemática edipiana como estruturante da personalidade e seguiu defendendo os fenômenos que envolvem o bebê na “posição depressiva” como problemas precoces do complexo de Édipo. Como participante ativo desses acontecimentos, Winnicott percebia o desconforto provocado por suas ideias, mas nem de longe pôde imaginar a amplitude das mudanças que elas provocariam tanto em termos do movimento psicanalítico como para a teoria e clínica. Estudos recentes mostram que, quando retirou a supremacia do complexo de Édipo e, em contrapartida, introduziu na teoria psicanalítica a perspectiva de a saúde e a doença se constituírem como decorrência do processo de amadurecimento humano, Winnicott desvelou a necessidade de revisão do paradigma psicanalítico clássico. Ao dar especial significado ao ambiente no desenvolvimento da pessoa e, simultaneamente, caracterizar como dual a principal relação do bebê com o mundo, ele destronou a relação triangular da posição de paradigma psicanalítico, podendo, portanto, ser considerado o autor de uma mudança de paradigma na psicanálise.9 4. Winnicott e os teóricos das relações objetais: a diferença Tendo já mostrado os pontos centrais de divergência entre Winnicott e M. Klein, e destacado a importância de Winnicott para a história da psicanálise, falta agora abordar as diferenças entre este autor e os demais teóricos objetais, como último passo para mostrar a originalidade do pensamento de Winnicott e justificar a sua não inclusão nesse grupo. De maneira ampla, pode-se dizer que as teorias das relações objetais – e, consequentemente, o grupo britânico independente – surgiram como uma reação à teoria psicanalítica clássica, em razão de os autores terem encontrado algum tipo de limitação no modelo ego-pulsional da teoria freudiana. Esse reconhecimento os levou a pensar novos conceitos e caminhos para a teoria e clínica psicanalítica. Apesar de o ponto de união dos chamados teóricos das relações objetais ter sido inicialmente as ideias kleinianas, a posição adotada por alguns desses autores no desenvolvimento de suas ideias terminou por ser antagônica às da psicanalista, já que Klein, como vimos, manteve a teoria pulsional freudiana como norteadora de seu trabalho. Mesmo admitindo que uma nova orientação teórica surgiu no pensamento psicanalítico com base nos questionamentos introduzidos por esses autores, sabe-se que as teorias das relações objetais diferem amplamente entre si no que diz respeito a conceitos-chave, suposições e princípios. Por essa razão, para distinguir a contribuição de Winnicott, faz- se necessário conhecer os pontos de aproximação e distanciamento entre seus postulados e os dos demais autores. O caminho escolhido para esse empreendimento será apresentar algumas posições sobre semelhanças e diferenças existentes entre os teóricos objetais, destacando-se a posição inovadora de Winnicott. Um ponto que merece atenção se refere ao fato de vários comentadores, centrados nessa tarefa de cotejamento, assumirem que, dos quatro principais representantes do grupo do meio – Michel Balint, Ronald Fairbairn, Guntrip e Donald W. Winnicott –, este último é, sem dúvida, o mais original, o que “apresentou o mais compreensivo sistema de pensamento vindo do grupo britânico do meio” (Summers, 1994, p. 16) e o que “adotou em seu trabalho um consistente conceito de desenvolvimento, sendo sua visão sobrepsicopatologia e tratamento derivada desse esquema de desenvolvimento” (Summers, 1994, p. 137). Indo mais além, Summers afirma que, apenas no trabalho de Winnicott, “existe um sistema de pensar” claro e estabelecido que “organiza todas as suas ideias sobre desenvolvimento e psicopatologia em um todo coerente” (Summers, 1994, p. 137). Já Bleichmar (1992) expressa respeito ao psicanalista britânico, reservando um capítulo de seu livro para apresentar a teoria winnicottiana e unificando a apresentação do pensamento de Fairbairn, Guntrip e Balint em um único capítulo. Justifica isso devido “à grande difusão de sua [Winnicott] obra” (Bleichmar, 1992, p. 210). E mesmo Greenberg & Mitchell (1983), que têm uma visão ambígua a respeito da contribuição winnicottiana para a psicanálise, ora a acusando de ser apenas uma emenda ora realçando o seu distanciamento da tradição e os consequentes embates provocados por isso, reconhecem que a formulação de Winnicott sobre a emergência de um si-mesmo (self ) “estabelece um fundamento para a teoria do desenvolvimento radicalmente diferente do proposto por Freud e Klein, seus predecessores” (Greenberg & Mitchell, 1983, p. 188). Sobre as diferenças e semelhanças entre os teóricos objetais, Summers (1994) entende que, apesar de divergirem em muitos aspectos, como o papel dos instintos na constituição do ego e a importância do ambiente, “o paradigma que une essas teorias é a compreensão do desenvolvimento e da patologia como produto da internalização dos relacionamentos interpessoais” e a visão da “personalidade como um complexo produto dos relacionamentos objetais iniciais” (Summers, 1994, p. 23). De sua parte, Rudnytsky (1991) considera que há três pontos de convergência entre os teóricos das relações objetais: 1) o reconhecimento de um estado de dependência da mãe na infância; 2) a assunção de que, para os seres humanos, as necessidades primordiais e o estado de dependência da mãe ou de cuidados no início da vida não são relativos à satisfação da sexualidade, mas de relacionamento; 3) que os conceitos de princípio do prazer e instinto de morte estão imersos em contradições. Já Eagle (1984) divide os teóricos das relações objetais em quatro grupos distintos, tendo como base a posição de cada um em relação à teoria dos instintos freudiana. No primeiro grupo, alojam-se os teóricos como Mahler, Kernberg, Jacobson, que procuram preservar a tradicional teoria dos instintos e buscam associá-la às teorias das relações de objeto e do self devido ao reconhecimento de sua importância. Esses autores percebem a relevância das relações objetais e do self, mas a assunção continua a ser que o desenvolvimento dessas áreas está de alguma forma relacionado e sujeito às vicissitudes da gratificação ou insatisfação dos instintos. O segundo grupo, representado por Kohut e Modell, aceita tanto a teoria dos instintos como a psicologia das relações objetais e do self, sendo que cada teórico se apropria de um grupo diferente de fenômenos para desenvolver seu pensamento. Situa Fairbain e Guntrip no terceiro grupo – no qual Winnicott certamente poderia ter sido incluído –, definindo os autores desse grupo como os que rejeitam abertamente a teoria dos instintos como organizadora do desenvolvimento emocional e a substituem por uma psicologia das relações objetais e do self. E, por último, o quarto grupo, representado pela teoria da hierarquia epigenética de Gedo (Eagle, 1984, pp. 18-19). Dois pontos precisam ser considerados com base nessas análises: em primeiro lugar, a noção de ambiente, a compreensão do conceito de dependência da mãe e o modo de relacionamento mãe-bebê nos momentos primitivos do existir; em segundo, o papel dos instintos no desenvolvimento da personalidade. Não há como contestar que tanto Winnicott como os demais teóricos do grupo britânico do meio realizavam pesquisas tendo a relação dual como base. Entretanto, embora questionassem, como Winnicott, a teoria da libido freudiana como base para o desenvolvimento emocional, todos, menos Winnicott, assumiam a ideia kleiniana de que, desde o início, o bebê é dotado de um psiquismo e capaz de se relacionar com um objeto, ou seja, é capaz de identificar a mãe como um objeto externo e se relacionar com ela por meio de mecanismos mentais. Esse ponto é central para marcar a diferença entre esses autores. Abrindo uma brecha na teoria psicanalítica tradicional, Winnicott propõe que o bebê, ao nascer, não é uma pessoa inteira, “um ser humano total, um ser que experiencia a relação com o seio como um objeto separado, um objeto que experienciou a relação e a respeito do qual tem ideias complicadas” (Winnicott 1989a/1994, p. 318). Nessa mesma linha, propõe que a mãe, nos momentos iniciais, é um objeto subjetivo e seu comportamento faz parte do bebê (unidade mãe-bebê). Portanto, a conquista pelo bebê da capacidade para se relacionar com objetos externos a ele, inclusive o fato de a mãe ser vista dessa forma, depende da conquista da integração em um eu unitário. Do ponto de vista do bebê, pode-se dizer que no início nada existe além dele próprio; portanto, a mãe é inicialmente parte dele. Assim, várias passagens de amadurecimento, experienciadas com a mãe-ambiente, são necessárias para que a integração em uma unidade se confirme e a mãe possa ser vista como objeto separado: o bebê precisa contar com um atendimento suficientemente bom da mãe no que diz respeito à adaptação e à desadaptação; a seguir, a mãe precisará sobreviver à destrutividade envolvida no caminho de criar a externalidade e colocar o objeto subjetivo fora da área de onipotência (repudiar o objeto e passar a usá-lo objetivamente). É essa experiência de “destruição da mãe” que permitirá torná-la um objeto não-eu, que não faz parte daquilo que é o eu, configurando-a como parte da externalidade. Com base nessas experiências, a mãe, que até aqui foi experienciada na área de controle onipotente como um objeto subjetivo e com o qual o bebê se relacionava de modo subjetivo, começa a ser vista como fenômeno externo. Quando o objeto subjetivo é repudiado e tornado externo, o bebê (que gradativamente desenvolveu a capacidade de usar objetos no período da transicionalidade) pode usar o objeto (mãe) e conquistar a capacidade de se relacionar com ela de modo objetivo. Portanto, a capacidade de um bebê para se relacionar com a mãe depende da conquista da capacidade de ser si mesmo, o que configura a impossibilidade de o bebê, ao nascer, ser considerado alguém capaz de relacionamentos. É essa visão tão peculiar do acontecer da natureza humana que põe em questão o enquadramento do psicanalista como um teórico das relações objetais. Winnicott entende que a visão do bebê como entidade total e separada da mãe, desde os momentos iniciais, levou Fairbairn a “teorizar categoricamente que a libido busca objetos” (Winnicott, 1989a/1994, p. 318). De maneira oposta, Winnicott não coloca a satisfação instintual como objetivo primordial da pessoa, tampouco a destaca como parte da tarefa de constituição de um si-mesmo pessoal, da tarefa de criação da externalidade (objeto e mundo externo) e do relacionamento que será construído a partir de então entre as realidades interna e externa. Pelo contrário, ele afirma que “a gratificação instintiva proporciona ao lactente uma experiência pessoal, mas pouco afeta a posição do objeto”, pois “a mudança de objeto de ‘subjetivo’ para ‘percebido objetivamente’ é realizada menos efetivamente por satisfações do que por frustrações” (Winnicott, 1965j/1990, p. 165; os itálicos são meus). Outra diferença fundamental entre Winnicott e os colegas do grupo independente diz respeito à importância efetiva do ambiente. Considerando o bebê uma entidade completa e capaz de perceber, sentir e reagir por meio de operações mentais, Fairbairn, Guntrip e Balint deduziram que, se deslocassem a importância do aspecto inato (em oposição à ênfase de Klein), o meio ambiente (que para Klein tinha uma importância relativa) assumiria maior responsabilidade na formação da estruturada personalidade, o que auxiliaria a explicação de alguns fenômenos clínicos, como a agressividade. Assim, esses autores definiram que as mães teriam um papel estruturante, estabelecendo, então, que aquilo que uma pessoa se torna deve ser compreendido como o resultado das gratificações que lhe são proporcionadas e das frustrações a que foi submetida na mais tenra infância. Sendo assim, confirma-se a ideia de que, para eles, a personalidade de uma pessoa é um produto complexo dos relacionamentos objetais iniciais ou, dizendo de outra forma, o resultado da internalização dos relacionamentos interpessoais, em especial do relacionamento com a mãe. Winnicott, que sem dúvida foi um dos primeiros teóricos a hierarquizar o papel da mãe (como ambiente) no funcionamento psíquico da criança, discordou dessa posição. Baseado em sua teoria do amadurecimento pessoal, descreve o papel da mãe-ambiente não como uma tela para as projeções do bebê, posteriormente introjetadas, mas compreende a mãe como uma ativa construtora (por meio da ambiência adaptada) de seu espaço psíquico. Sua compreensão do papel da mãe-ambiente aponta, como já descrevemos, para a constituição do si-mesmo em termos de dupla dependência, pois, como afirma, “o meio ambiente a que me refiro no conceito de dependência dupla é um ambiente que, essencialmente, não é constituído de projeções” (Winnicott, 1989a/1994, p. 363). Com o termo dupla-dependência, designa que “o relacionamento do bebê com fenômenos ambientais” acontece de modo “que o bebê não tem possibilidade de estar ciente” do que se passa entre ele e o ambiente (mãe), pois ainda não é um si-mesmo e a mãe é ainda um objeto subjetivo. Isso é tão certo que, para Winnicott, “o bebê agora chegado à infância ou ao estado adulto não é capaz de reproduzi-lo [o ambiente] como um padrão a revelar-se em uma transferência analítica” (Winnicott, 1989a/1994, p. 363). Dessa forma, falar em internalização (no sentido de introjeção), projeção e gratificação- frustração, em momentos primitivos, como aspectos constituidores do si- mesmo, não faz sentido, pois isso expressa um sentido de causalidade ausente em sua teoria. Outro ponto merece ser examinado. Em uma análise crítica das teorias psicanalíticas, Eagle diz que a rejeição da teoria dos instintos como uma forma de se afastar do biológico e da herança instintual do homem é um engano comum aos teóricos objetais. Aqui está mais um aspecto distintivo da teoria winnicottiana. Winnicott de fato rejeita a teoria dos instintos como orientadora da compreensão do acontecer humano, mas nem de longe desconsidera o fator biológico-instintual. Pelo contrário, sua teoria realça a importância do corpo e de suas funções para a convergência do bebê, de um não-ser, a ser uma pessoa. O conceito winnicottiano de elaboração imaginativa é o exemplo concreto de que existe um corpo biológico ativo que também precisa ser considerado pelo ambiente. Dessa certeza Winnicott propõe o holding e o manejo como parte das tarefas maternas iniciais. E uma última diferença entre esses autores está relacionada à percepção da importância da contribuição das ideias desenvolvidas para a teoria psicanalítica. Enquanto Winnicott assume que sua teoria representa um desenvolvimento da teoria freudiana e, portanto, é uma contribuição para a teoria psicanalítica, os outros autores não têm uma visão formada sobre como relacionar suas ideias com a teoria clássica, o que leva alguns a considerar suas ideias como uma adição àquela ou tratá-las como uma revisão daquela, sem fazer maiores aprofundamentos. A consequência nefasta dessa ausência de entendimento sobre como cada novo pensamento afetou a teoria-base é, segundo Summers (1994), que “as implicações clínicas decorrentes dessas alterações teóricas não ficam aparentes” (Summers, 1994, p. 2). Mais uma vez essa crítica não se aplica a Winnicott. Com base em seus estudos, a psicose e a depressão tiveram suas etiologias definidas relacionalmente e foram associadas a uma falha ambiental no atendimento das necessidades do bebê e da criança. Além disso, ele identificou a necessidade de alteração na técnica psicanalítica para o atendimento de pacientes psicóticos e borderlines, realizando também mudanças fundamentais na relação terapeuta-paciente em razão das inovações que introduziu na teoria psicanalítica. Com isso, a primazia do conflito edipiano como estruturante do adoecer psíquico foi rechaçada e, em seu lugar, surgiram questões ligadas a um período mais primitivo da natureza humana, relativas à conquista da capacidade de ser e existir, e da consolidação de um si-mesmo pessoal capaz de relacionar-se com e de responsabilizar-se por tudo o que sente, pensa e faz. Winnicott expressava abertamente a maneira como sentia a aproximação ou o distanciamento entre seu modo de pensar e o dos colegas do Middle Group. Criticava Fairbairn por declarar o propósito de suplantar as teorias de Freud e se apresentar como derrubando M. Klein. Da mesma forma, mostrava-se feliz por perceber que, apesar de trabalharem com base em ângulos diversos, ele e Balint concordavam sobre a importância da provisão ambiental nos momentos iniciais do existir humano. Winnicott sempre respeitou as diferenças, acreditava nas mudanças, mas se sentia convicto quanto à originalidade de sua contribuição. Como reconhece Rudnytsky (1993), apesar de Winnicott respeitar os colegas psicanalistas que o antecederam, ele “raramente credita suas dívidas intelectuais, preferindo seguir sua idiossincrática linha de desenvolvimento e inspiração vindos do trabalho clínico” (Rudnytsky, 1993, p. xiii). 5. A diferença compreendida como contribuição teórica Quando se distanciou de S. Freud e de M. Klein, Winnicott tinha claro o objetivo de construir uma teoria que propiciasse a compreensão do desenvolvimento de um viver saudável que pudesse, ao mesmo tempo, ser um recurso orientador para o entendimento dos distúrbios psíquicos. Perseguindo esse objetivo, também se distanciou dos colegas britânicos que mantinham a noção do adoecimento e da causalidade como base para a compreensão do homem. Com o desenvolvimento da teoria do amadurecimento pessoal,10 estruturou sua maneira de compreender a natureza humana. Essa teoria articula os desdobramentos da natureza humana – entendida como a “estrutura fixa”11 do amadurecimento emocional, governado pela tendência inata à integração – e pode ser analisada por dois horizontes. Pelo horizonte ontológico,12 por tratar dos aspectos relacionados à constituição do ser da pessoa e das situações experienciais que possibilitam ou dificultam a continuidade de ser e o existir em um modo de viver pessoal e com sentido. E pelo horizonte ôntico, porque descreve e conceitua as tarefas, conquistas e dificuldades que são próprias do desenvolvimento e amadurecimento humano em seu acontecer factual, particular e relacional. Embora sustentada em uma premissa ontológica – a da presença do outro para que a pessoa se constitua como um ser13 –, a teoria do amadurecimento trata dos aspectos ônticos do acontecer humano. A categoria de análise comum a esses dois horizontes de compreensão é a acontecência humana,14 o amadurecimento, como propõe Winnicott, que se caracteriza por um desenrolar histórico da natureza humana, orientado por essa tendência inata à integração, envolvendo fatos, situações e experiências vividas pela pessoa em sua concretude e totalidade. A asserção da qual parte – e que se torna a base da teoria winnicottiana do amadurecimento – é: um indivíduo precisa, primeiramente, constituir-se como uma pessoa para que possa se relacionar com o outro e com a realidade externa. A teoria do amadurecimento pessoal descreve os estágios de desenvolvimento pelos quais um indivíduo passa para constituir um si- mesmo pessoal, desde o momento da concepção até se tornar capaz de se relacionar com uma outra pessoa e, a partir daí, poder ter uma existência compartilhada; destaca também, em cada estágio, o papel do ambiente para que o acontecer da pessoa se concretize. O estágioinicial, que corresponde mais ou menos aos quatro ou cinco primeiros meses de vida de um bebê, é fundamental para o amadurecimento pessoal e para a estruturação da personalidade. É nesse período de vida, no qual a necessidade vital de ser, existir e se sentir real como pessoa precisa ser conquistada, que a dependência do cuidado ambiental é absoluta. A cada necessidade atendida, o bebê pessoaliza as sensações ativadas no cuidado, passando a reconhecê- las como próprias. É o apoio da mãe que facilita a organização do si- mesmo, permite sua continuidade de ser e capacita o bebê, que, com o tempo, se torna capaz de afirmar sua própria individualidade e de experienciar um sentimento de identidade pessoal.15 Portanto, fundamentado nessa teoria, Winnicott demonstrou que um recém-nascido é um esboço humano que se configurará como pessoa apenas em certas circunstâncias, e, por isso, somente quando alcança o estatuto de ser uma unidade, um si-mesmo separado da mãe, um bebê pode relacionar-se com um outro objeto. Dizendo de outra forma, o bebê humano precisa amadurecer até certo ponto para começar a ter uma psicologia, isto é, para ter um funcionamento mental e ser capaz de usar mecanismos mentais como a projeção e a introjeção. Por essa razão, falar de uma “incorporação comum, associada à experiência oral” (Winnicott, 1987b/1990, p. 68), é o modo apropriado para expressar o que acontece entre o bebê e a mãe nos estágios mais primitivos do existir – uma forma de relação em que o mental está abstraído. Em um amadurecimento saudável, a incorporação do objeto deve preceder a introjeção mágica. Existe uma diferença entre o seio bom (ambiente, mãe) incorporado e o seio que foi magicamente introjetado. O seio bom, que deve ser entendido como a mãe que sobrevive e sustenta a situação no tempo, quando é incorporado, usado, comido e devorado torna- se um fenômeno interno e “provoca um aumento inespecífico, generalizado, de bondade interna” (Winnicott, 1988/1990, p. 95). O ambiente bom passa a ser parte do si-mesmo pessoal. De modo diferente, quando há introjeção mágica do seio, ou internalização do ambiente, como propõe os outros teóricos britânicos, ao invés da incorporação do ambiente bom, Winnicott considera pensar na existência de falhas ambientais (nunca reconhecidas pelo bebê como tais) em momentos primitivos que não favoreceram o amadurecimento pessoal, originando uma integração fragilizada e/ou dificuldades do bebê em relação à conquista do concernimento. Quando isso ocorre, o recurso do bebê (agora uma unidade pessoal) para lidar com uma integração estabelecida de modo precário é a adoção de defesas rígidas para intermediar a relação com o outro, estando o falso si-mesmo, uma organização defensiva e altamente patológica, entre elas. Para Winnicott, a presença de um ambiente inicial adaptado favorece a continuidade de um senso de ser e existir, proporcionando segurança pessoal básica para um existir criativo e responsável que, se incorporado ao si-mesmo pessoal, permitirá um pleno uso da instintualidade no relacionamento com o outro, agora plenamente identificado como separado dele, pois a pessoa tem clara dimensão de quem é, confia e tem esperança de poder ser si mesmo, uma vez que se reconhece capaz de responsabilizar- se por seu sentir, pensar e agir. Por essa razão, pode-se entender que, de acordo com a teoria do amadurecimento pessoal, as conquistas relativas ao ser e ao fazer são integradas nos estágios iniciais de dependência absoluta e confirmadas, ou não, no estágio do concernimento, apenas em situação de ambiência favorável. Referências Barron, J., Eagle, M. & Wolitzky, D. (1992). Interface of psychoanalysis and psychology. Washington: American Psychological Association. Bleichmar, N. (1992). 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Winnicott (2000/1958a), Textos selecionados – da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1955c) Winnicott, D. W. (2000). Textos selecionados – da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1958a) Winnicott, D. W. (2001). A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1965a) Winnicott, D. W. (2001). Holding e interpretação. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1986a) 1. Este artigo foi originalmente publicado na revista Natureza humana, v. 10, n. 1, 2008. Teve como base a comunicação apresentada no “XII Colóquio Winnicott”, cujo tema foi “Winnicott na história da psicanálise”, ocorrido na PUC-SP, em maio de 2007. 2. “Who Owns Winnicott?”, artigo exclusivo escrito por esse autor para Karnac Review, no qual avalia as linhas de trabalho, pesquisa e contribuições das três instituições winnicottianas britânicas que serão citadas a seguir no texto. Brett Kahr também é autor de The Legacy of Winnicott, D. W. Winnicott – a Biographical Portrait e Forensic Psychotherapy and Psychopathology – Winnicottian Perspectives. 3. Esse tema é extensamente apresentado por vários autores no livro de Haynal (1993) e especialmente abordado por Ernst Falzeder no artigo “The Threads of Psychoanalytic Filiations or Psychoanalysis Taking Effect” (Haynal, 1993). 4. Melanie Klein, que foi analisada por Karl Abraham e S. Ferenczi, teve como supervisionados J. Bowlby, M. Khan, M. Milner e D. W. Winnicott. Entre seus analisandos, estiveram W. Bion, D. Meltzer, J. Rickman, C. Scott e H. Segal. 5. Devido ao fato de certos comentadores considerarem que a teoria das relações objetais derivou-se da psicologia do ego, é necessário destacar que as divergências sobre a formação do ego também se confirmaram como a base das discrepâncias surgidas, durante as décadas de 1930 a 1950, entre a escola kleiniana e a escola da psicologia do ego. Hartman, fundador da psicologia do ego, introduziu na psicanálise a possibilidade de se considerar aspectos de comportamento, desenvolvimento e funções psíquicas como autônomos das pulsões instintuais. Por essa via, passaram a ser objeto de consideração na psicanálise fenômenos e fatos relativos ao amadurecimento biológico aplicáveis às funções psíquicas. No entanto, o conceito de ego autônomo proposto por Hartman, isto é, a rejeição da influência das relações objetais para a formação do ego, desafiou a posição de alguns teóricos objetais que consideravam que a frustração nos relacionamentos objetais motivava, por si só, o desenvolvimento do ego. Além disso, como considera Eagle (1984), apesar das modificações introduzidas na teoria psicanalítica tradicional, a pretensão dos teóricos do ego era manter a consistência com o modelo estrutural id-ego da teoria freudiana, posição oposta, por exemplo, a de Winnicott e outros, que deixaram de considerar o desenvolvimento psicossexual como base para o desenvolvimento psíquico. 6. De acordo com a teoria do amadurecimento pessoal, cada bebê cria um mundo que já existia, mas que nunca deixará de ser pessoal. 7. Para interessados nesse tema, indico os trabalhos de Zeljko Loparic e Leopoldo Fulgencio, e os dos demais autores do Grupo de Filosofia e Práticas Psicoterápicas atualmente da Unicamp. 8. É sempre importante lembrar que Winnicott discordava da proposição kleiniana de que seria possível um bebê alcançar a posição depressiva muito antes do segundo semestre de vida. 9. Loparic propõe e defende a ideia de que a contribuição winnicottiana para a psicanálise pode ser entendida, kuhnianamente falando, como um progresso na teoria psicanalítica, um resultado revolucionário após um período de crise dessa ciência. Outros trabalhos do autor sobre o tema podem ser consultados no site do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas da Unicamp, disponível no portal da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (www.sociedadewinnicott.com.br). 10. Para uma discussão sobre o desenvolvimento dessa teoria, ver Dias, 2003. 11. Loparic diz que o conceito de natureza humana pode ser entendido como “a estrutura fixa da nossa ontogênese ou, na linguagem menos biologizante e mais característica de Winnicott, do nosso amadurecimento emocional governado pela tendência inata à integração” (2000, p. 355). 12. Diferentemente de outras tentativas de aproximação entre psicanálise e filosofia por uma análise epistemológica e/ou metodológica, Loparic propõe que a “afinidade conceitual” existente entre Winnicott e Heidegger vai além, situando-se, sobretudo, na área da ontologia. Ele apoia essa aproximação em dois pilares: primeiro, no reconhecido esforço do filósofo alemão em ultrapassar o pensamento metafísico predominante em nosso século; e, segundo, nas proposições originadas no estudo da psicanálise winnicottiana, que mostram o distanciamento desse autor das formulações metapsicológicas clássicas. Essas proposições podem ser assim resumidas: 1) faz parte dos problemas internos ao existir humano, desde o seu início, a tarefa de elaborar um sentido do ser; 2) continuar a acomodação dessa questão no interior da metafísica da representação, aceita pela metapsicologia, não privilegia a humanidade do homem; 3) o reconhecimento de que, em Winnicott, há diferentes sentidos do ser das coisas intramundanas, que são distintos do ser do ente humano. Com isso, Loparic entende que Winnicott criou uma teoria original não representacional da constituição de todos esses sentidos e que, portanto, a aproximação das teses winnicottianas com a hermenêutica heideggeriana pode resultar proveitosa para o desenvolvimento da psicanálise (cf. Loparic, 1995). 13. O existir humano não é algo dado, como esclarece Loparic, e sim algo que precisa ser integrado com e no espaço-tempo; para tanto, é “necessária uma ambiência favorável, sem a qual o lactante nunca poderá sair do não-ser” (Loparic, 1995, p. 56). 14. De acordo com Loparic, a interpretação do conceito winnicotiano de amadurecimento, em termos da acontecencialidade de Heidegger, permite a constituição de um horizonte ontológico unitário para a compreensão da ciência winnicottiana da natureza humana (Loparic, 2000, p. 358). 15. Segundo Loparic, ao propor que nos estágios iniciais da relação mãe-bebê está envolvida a necessidade de afirmar a individualidade e a conquista de um sensode identidade, não de um modo ingênuo, mas de um ponto de vista do próprio bebê, Winnicott está, na verdade, tratando da questão do ser e propondo que o sentido originário do ser só pode ser alcançado com o retorno “à simplicidade originária do ser humano inicialmente experienciada na intimidade da relação entre mãe e bebê” (Loparic, 1995, p. 47). Desse modo, num contexto que parecia dizer respeito à maternagem exclusivamente, aparece “a questão da identidade, que consta entre as mais difíceis da filosofia” (Loparic, 1995, p. 47). Sem dúvida, um problema que envolve a ontologia. Winnicott e Heidegger: relações entre o amadurecimento pessoal e a acontecência humana1 Eder Soares Santos 1. Introdução Em um dos momentos nos quais Heidegger refere-se à criança enquanto um ser-o-aí (Dasein), por ocasião de uma de suas aulas proferidas após a publicação de Ser e tempo (1927), ele destaca a necessidade de se pensar esse ser-o-aí do ponto de vista da infância (Das kindliche Dasein), dizendo ser necessário se fazer uma revisão (Revision) nas teses centrais da psicologia, psicanálise, antropologia e etnografia, pois essas disciplinas deixaram de perceber que suas pesquisas sobre o homem deveriam ser conduzidas pela concepção de que o ser-o-aí é, fundamentalmente, humano, e que seu caráter essencial é ser acontecente (Heidegger, 1996, p. 124).2 Sendo assim, para Heidegger, “não poderemos começar a interpretar uma tal situação (Zustand) [a da infância] como a da criança em sua essência (Wesen)” até que os fenômenos do psiquismo de um ser-o-aí infantil (frühes Dasein) não sejam tornados evidentes em sua estrutura ontológica (Heidegger, 1996, p. 126). Nessa mesma década em que Heidegger está discutindo essas ideias na universidade de Friburgo na Alemanha, Winnicott inicia, em Londres, a sua aproximação com a psicanálise. Entretanto, já desde o início de sua formação analítica, em que todas as psiconeuroses eram tratadas em termos de angústias pertencentes à vida pulsional no período de idade relativa aos 4-5 anos das crianças, com o complexo de Édipo como corolário, Winnicott desconfiava, em função dos casos com que havia se deparado em sua prática médica, de que alguma coisa estava “errada” na teoria psicanalítica, sendo preciso estudar os problemas mais iniciais da infância (Winnicott, 1965va[1962]/1996, p. 172). Esses dois momentos parecem indicar que, tanto da parte de Heidegger como de Winnicott, é possível encontrar preocupações que impulsionam questionamentos sobre o homem, seja no horizonte ontológico, seja no ôntico. Ambos veem a necessidade de elaborar uma teoria que consiga refletir sobre o ser-o-aí, o homem, de uma maneira em que o que lhe é essencial ganhe maior relevância. Heidegger passará os anos seguintes às aulas referidas procurando refletir sobre essa essência, e Winnicott irá se dedicar a um estudo da natureza humana que leve em conta o seu amadurecimento desde os estágios mais iniciais do existir humano até a sua morte, procurando compreender e explicar como surgem e qual o papel que os distúrbios emocionais desempenham no decorrer desse amadurecer. O foco de discussão de ambos os autores era diferente. Heidegger discutia com toda a tradição filosófica, que se esquecera da questão do ser e só pensava o ente. Winnicott debatia com a tradição psicanalítica, que tomava a teoria do complexo de Édipo como chave mestra para abrir todas as portas do psiquismo humano. Heidegger revelou a necessidade de se “destruírem” os conceitos e os preconceitos da metafísica. Winnicott mostrou a necessidade de se encontrarem novas chaves que pudessem destrancar outras portas para a compreensão da natureza humana, e encontrou-as. Winnicott realizou o que Thomas Kuhn chama de mudança de paradigmas. Esses pensadores nunca se encontraram. Um não conheceu, ao que se sabe, a teoria do outro. Por que e como se poderia aproximá-los? Este artigo tem por intenção apontar uma forma possível para tal aproximação.3 Como vimos, a necessidade de se fazer uma “revisão” nas teorias que tratam do homem era uma ideia comum a ambos e, tendo cada um realizado as respectivas “revisões” ao seu modo, chegaram a concepções muito afins. Assim, a teoria do amadurecimento pessoal de Winnicott leva-nos a ver o homem em sua necessidade de chegar a ser e continuar-a-ser, de chegar a se integrar como pessoa, de tomar parte e responsabilidade na vida social e comum, procurando viver uma vida real e espontânea. A teoria da acontecência humana de Heidegger nos apresenta esse homem, ser-o-aí, nos seus diferentes modos de ser, apontando, sobretudo, que somos temporais e finitos. Ao abordar a natureza humana com base no amadurecimento inicial do homem, Winnicott viu-se não só obrigado a alterar a linguagem que descreve esses estágios iniciais como também teve, conscientemente ou não, de alterar as bases ontológicas sobre as quais suas concepções se assentavam – sendo esse um dos elementos que permite destacar a sua mudança paradigmática. Sua concepção sobre ser e continuar-a-ser toca o tema essencial da teoria heideggeriana presente em Ser e tempo, a saber: o existir humano é, no seu fundamento, um acontecer temporal e finito. Esse caráter fundamental do existir humano presente na psicanálise de Winnicott aponta, por um lado, que a fenomenologia existencial pode lançar alguma luz na compreensão dos componentes ontológicos dessa psicanálise. Por outro lado, também é possível perceber que certas discussões avançadas pela teoria winnicottiana instigam e aclaram indagações ainda pendentes na teoria heideggeriana como a questão da nascencialidade, da corporeidade do ser-o-aí e do chegar ao poder-ser do ser-o-aí. Por isso, penso haver aí relações frutíferas entre a teoria do amadurecimento e a acontecência humana. Este e, enquanto um conectivo, mostra que essas teorias podem se relacionar, isto é, indica que, em uma teoria do amadurecimento pessoal, deve estar contida a noção de acontecer humano e vice-versa, e que uma teoria da acontecência humana deveria levar em consideração o amadurecimento psicossomático do ser humano. Porém, esse e também aponta que elas não são as mesmas teorias e que cada uma deve preservar o campo de suas especificidades, abrindo e mantendo as possibilidades de aproximação e de distanciamento. Em suma, o que ensaio apresentar são relações entre duas teorias, uma do campo da psicanálise e outra do domínio da filosofia, que nos mostram uma forma não naturalista de conceber o ser humano – em ambas, o ser humano tem sua importância pelo seu próprio existir no mundo. 2. Relação entre a teoria psicanalítica de Winnicott e a filosofia de Heidegger Chama a atenção na psicanálise de Winnicott o fato de que, em sua teoria, o ser humano não é apresentado como um objeto da natureza, mas sim como uma pessoa que, para existir, precisa do cuidado e atenção de um outro ser humano. Isso nos leva, diretamente, a pensar que a psicanálise de Winnicott não se enquadra mais na estrutura do pensamento científico- naturalista, que toma o ser humano apenas como mais um objeto da natureza a ser investigado. Pode-se indicar qual é a marca do pensamento científico-naturalista através da seguinte observação, feita por Heidegger, no livro intitulado Seminários de Zollikon: [...] o traço fundamental da natureza de que se fala no pensamento científico-natural é ser regida por leis. A calculabilidade é uma consequência de ser regida por leis. De tudo que existe [ist] só se considera aquilo que é mensurável, quantificável. (Heidegger, 1987, p. 30) Curiosamente, Winnicott escreveu um livro que se intitula Natureza humana. Do que trata essa natureza? Ele conseguiu, realmente, superar esse naturalismo alvo das críticas de Heidegger? A resposta parece-nos ser afirmativa. É preciso saber, então, o que Winnicott entende por natureza humana. Para ele, “o ser humano é uma amostra-no-tempo da natureza humana”4 (Winnicott, 1988/1988, p. 11) e a natureza humana “é quase tudo o que possuímos” (Winnicott, 1988/1988, p. 1). Em Winnicott, isso significadizer que o que está em jogo na natureza humana e o que a constitui é o seu acontecimento como ser humano, isto é, a sua continuidade de ser como pessoa. Ser de maneira contínua no tempo desde o início, ou seja, desde um pouco antes do nascimento, é o que lhe garante saúde suficiente para alcançar algo que também nos constitui, a morte. A quebra dessa continuidade, principalmente no início da vida do ser humano, leva a uma existência difícil, que pode ser marcada por graves distúrbios psíquicos, como, por exemplo, as psicoses (Winnicott, 1988/1988, pp. 126- 160). Essa interpretação da natureza humana não está marcada pela calculabilidade ou mensurabilidade do que é possível conhecer sobre o ser humano. Ela está baseada na fragilidade e nas dificuldades que existem no ter que existir humano. Esse é um dos motivos principais pelos qual acredito que o estudo da teoria winnicottiana é de grande importância não só para a psicanálise, mas também para a fenomenologia existencial de Heidegger. Com efeito, se a natureza humana, tal como concebida por Winnicott em sua obra, não está baseada no naturalismo científico, então os fundamentos de sua teoria psicanalítica não podem ser mais os mesmos da psicanálise tradicional.5 Essa parece ser também a opinião de Loparic (1995) ao dizer que, se em Freud podemos observar que os “fundamentos da psicanálise tradicional pertencem, todos eles, à metafísica da modernidade”, ou seja, “metafísica pós-cartesiana em que o sentido da realidade do real é um só, o da presença constante representável” (Loparic, 1995, p. 51), em Winnicott, percebemos que “a ‘tese da metafísica da psicanálise’ é rejeitada” (Loparic, 1995, p. 51). Por exemplo: [...] em Winnicott, o acesso representacional ao objeto passa a ser considerado como derivado e fundamentado em modos de acesso menos “realistas”, mais “brincalhões”, porém nem por isso menos significativos para a vida humana. A divisão de realidade em externa e interna não é tomada como pressuposta, mas considerada como adquirida. (Loparic, 1995, p. 51) O interesse filosófico pela teoria psicanalítica de Winnicott aumenta ainda mais quando se percebe, em sua obra, temas que foram tratados originalmente pela fenomenologia existencial de Heidegger, por exemplo: a tarefa de elaborar um sentido do ser – ignorada tanto pela metafísica como pela psicanálise tradicional – como consequência da conquista do poder continuar-a-ser; a ideia de que distúrbios psíquicos graves têm algo a ver com a temporalização do bebê; a noção de que o sentido de realidade não está sempre assegurado pelo fato da minha razão. 3. Relação entre a teoria do amadurecimento e a psicanálise tradicional Um ponto de partida para se investigar a psicanálise winnicottiana são os estágios iniciais da teoria do amadurecimento, que se inscreve na história da psicanálise como uma verdadeira tournant paradigmática. Diferentemente da psicanálise tradicional – referimo-nos principalmente a Freud e Klein –, Winnicott recusa decididamente o naturalismo e o determinismo, isto é, recusa a objetificação do ser humano. Ele não concebe o ser humano como um mero fato, um efeito de causas, uma coisa em conexão causal com outras coisas da natureza. O ser humano, principalmente no que tange ao que é psíquico, não é constituído por um aparelho que é movido pela força de certas pulsões, mas é um acontecimento temporal que tende a se desenvolver até a sua morte. Constituem preocupação da psicanálise tradicional alguns dos seguintes temas: as pulsões, a forma de relacionamento do sujeito com os objetos (bons ou maus), os significados e/ou significantes que o sujeito possa produzir em seu discurso. Isso, com efeito, fez com que, mesmo quando o estudo psicanalítico se referisse a crianças muito novinhas, nunca se chegasse ao momento inicial do existir humano, ou melhor, fez com que nunca se olhasse esse momento como sendo decisivo para o trabalho que estava sendo realizado, como indica o próprio Winnicott: Gradualmente, a psicanálise foi ampliada, de modo a abranger até mesmo as crianças muito novas, digamos de 2 anos e meio de idade. Isto, entretanto, não foi suficiente para o objetivo que temos em vista aqui, uma vez que as criancinhas de 2 anos e meio estão, surpreendentemente, muito distantes de seus primeiros meses de vida, a menos que sejam doentes e imaturas. (Winnicott, 1987a/1999, p. 33) Otto Rank e Melanie Klein são autores que, à primeira vista, poderiam ser citados como dois daqueles que tentaram dar alguma contribuição aos momentos iniciais. Porém, só à primeira vista. Rank, em sua teoria sobre o trauma do nascimento, estava preocupado com a etiologia da angústia conforme sua adequação aos rendimentos (Leistungen) do aparelho psíquico proposto por Freud e não com o bebê em seu momento inicial. Ademais, suas concepções já foram criticadas inclusive pelo próprio Freud, que as colocou em dúvida, pois as considerava altamente contestáveis (höchst anfechtbar) teoricamente (Freud, 1926/1991, p. 166). Quanto a Klein, embora ela tenha voltado sua atenção para os relacionamentos iniciais entre mãe e bebê, não chegou a investigar a possibilidade de que problemas psíquicos pudessem estar ligados aos estágios mais iniciais do existir e não encerrados nas fantasias do bebê com relação a um seio bom ou mau.6 A psicanálise, todavia, continuou avançando na constituição da sua história. E foi Winnicott quem chamou a atenção para a importância desses primeiros momentos da vida do ser humano através da apresentação dos estágios iniciais da vida do bebê. Assim, torna-se importante investigar esses momentos, uma vez que, parece-me, remetem à problemática ontológica do início do sentido de ser. Esta, na teoria do amadurecimento de Winnicott, vai nos levar a uma discussão anterior, relativa à continuidade de ser. Para que tal investigação seja possível, é preciso atentar para o fato de que o paradigma a conduzir essa investigação não é mais o mesmo que conduzira Freud em suas pesquisas, ou seja, aquele da teoria das pulsões, reforçado pela teoria da sexualidade, tendo como exemplar paradigmático o complexo de Édipo.7 Estou me referindo aqui à teoria do amadurecimento pessoal, que tem, como exemplar, o bebê no colo da mãe (Loparic, 1997, p. 58). Essa teoria é formada pelo conjunto das concepções e noções que Winnicott usa para constituir a sua teoria e prática psicanalíticas, e diz respeito ao desenvolvimento emocional e psíquico do ser humano desde o seu nascimento. Ainda a título de comparação, é possível fazer uma rápida oposição entre os pontos de vista de Freud e Winnicott, tomando como exemplo a noção de doença psíquica. Tal como descritas em termos da metapsicologia freudiana, as doenças psíquicas são distúrbios do funcionamento do “aparelho” que, por psíquico que seja, pertence ao mesmo âmbito que o dos objetos das ciências físicas – as forças e os mecanismos. “Quem” adoece na teoria freudiana é a libido. A teoria do amadurecimento pessoal de Winnicott diz respeito ao somático e ao psíquico e, por isso, a doença psíquica tem a ver com a natureza humana e com a capacidade de existir. O aspecto biológico não é desconsiderado, mas a sua participação depende, essencialmente, do processo de integração do si-mesmo (self) como uma unidade na psique e no soma (Dias, 1998, p. 53). O paradigma da psicanálise de Winnicott diz respeito ao continuar-a-ser – diríamos ao poder acontecer – e não ao problema edípico. Winnicott – assim como Freud – estava preocupado, primeiramente, com os problemas clínicos apresentados pela psicanálise e, por isso, pôde constatar que existiam distúrbios graves muito precoces nas crianças e mesmo nos bebês, que em nada se relacionam com a angústia de castração decorrente da situação edípica. Winnicott constatou que havia angústias do início do existir humano que causavam graves danos ao “eu” da pessoa e que não são definíveis em termos de relações pulsionais de objeto. A essas angústias ele deu o nome de impensáveis. O mais importante a ser observado, no âmbito detal estudo, no que diz respeito às angústias impensáveis, é que elas interrompem a continuidade-de-ser do bebê, e que essa interrupção compromete as possibilidades que este tem de se integrar como um si- mesmo (self), uma unidade, ou seja, fica comprometido o seu amadurecimento enquanto continuidade do existir.8 A teoria do amadurecimento, em última instância, diz respeito ao poder continuar-a-ser da pessoa de forma ininterrupta. Esse amadurecimento não é automático; ele acontece na relação com outros seres humanos. A teoria do amadurecimento traz consigo, ainda, questões relacionadas à conquista de tempo e espaço no início do existir humano (holding), aos modos de se lidar com esse ser humano (handling) e a como ele apreende a realidade (object presenting) – temas que deixarei para trabalhar em outra oportunidade, pois excederiam os limites deste artigo. 4. Heidegger e Winnicott: relação de interlocução Ao se perguntar pelo sentido do ser, Heidegger tornou possível colocar em questão a tradição metafísica da filosofia, que ganhou força com o surgimento da ciência moderna. Tanto a filosofia quanto a ciência moderna perguntam pelo ente, a fim de saber o que ele faz e não o que ele é. O perguntar pelo fazer, principalmente na ciência moderna, significa tomar “a si mesmo como sujeito determinante para o qual todo ente pesquisável torna-se objeto” (Heidegger, 1987, p. 123), até mesmo o próprio homem. Como consequência, o homem moderno criou um método científico que pudesse mensurar e calcular antecipadamente a natureza (Heidegger, 1987, p. 136). Os questionamentos de Heidegger sobre a ciência, enquanto imposição de ser a única fonte segura de conhecimento sobre a natureza, parecem mostrar que não houve nenhum avanço – da perspectiva de um sentido de ser – em pensar o homem de uma maneira diferente que não fosse aquela de um objeto (ente) simplesmente dado na natureza. Esse modo de pensar, ao invés de conduzir o homem a um conhecimento maior do seu ser, leva-o, na verdade, ao esquecimento de si mesmo e à sua própria destruição. Dessa forma, para que qualquer estudo sobre o homem possa ser realizado com algum sucesso, seria preciso, antes, que fosse analisada qual é a estrutura fundamental do seu sentido de ser – tarefa que Heidegger procura realizar em Ser e tempo. Por ter tentado pensar o ser humano em seu sentido de ser e não enquanto objeto mensurável e calculável da ciência naturalista, Heidegger se torna um interlocutor de extremo interesse para se pensar a psicanálise winnicottiana, já que considero que também Winnicott consegue escapar ao aguilhão do naturalismo. Vejamos a seguir um exemplo dessa interlocução. 5. A acontecência humana e o amadurecimento pessoal: relação conceitual Trato agora do conceito de acontecência (Geschichtlichkeit) em Heidegger. Já de saída, estamos diante de um problema de tradução. Em português, esse termo fora traduzido por historicidade (tradução que não deixa de estar correta). Todavia, em alemão, essa palavra também guarda o sentido de acontecer (Geschehen). Traduzido por historicidade, esse sentido de acontecer desaparece. Deve-se fazer notar ainda que Heidegger também usa o termo Historicität que, em sentido estrito, também quer dizer historicidade. É a diferenciação e a compreensão dessas duas palavras que permitirá discutir a questão da história (Geschichte) em sua obra. De fato, Heidegger trata da história e da historicidade, mas, em sua interpretação, procura se afastar do modo como a tradição metafísica debate esse tema. Ele procurará mostrar que essa é uma discussão que passa, antes de tudo, pela compreensão da pergunta sobre o ser, compreensão que é um modo de ser do ser-o-aí, sendo esse ser entendido como finito e estendido entre dois fins, nascimento e morte, ou seja, compreendido como um acontecer (Geschehen) num entre (Zwischen) da existência. Esse sentido de acontecer está presente no radical da palavra Geschichtlichkeit – por exemplo, em geschichtlich, em que temos um advérbio, portanto “um proveniente do verbo”, que tanto pode ser entendido como acontecente ou como histórico. Para os interesses deste artigo, concentro-me no sentido desse termo relativo ao acontecer. Desse modo, por se tratar de uma investigação sobre o sentido do ser compreendido como um acontecer, opto pelo substantivo em português acontecência9 para a tradução de Geschichtlichkeit. O conceito do homem como um ser acontecente é resultado das análises empreendidas por Heidegger em Ser e tempo.10 Ao questionar a metafísica, e com esses questionamentos voltar às origens dos fundamentos metafísicos, o filósofo se perguntou pelo sentido do ser. Essa pergunta é fundamental e fundante para a fenomenologia existencial, pois é a pergunta pelo homem destituído de seus afazeres, isto é, não pergunta pelo agir, pelo fazer. Para Heidegger, em Ser e tempo, a questão que se coloca é a do ser (Sein) ou, mais propriamente, a pergunta é pelo sentido do ser. O alvo das nossas preocupações aqui é o ente “que possui em seu ser a possibilidade de questionar” (Heidegger, 2001, p. 7). Ele pode ser designado pelo termo ser-o-aí (Dasein) ou por presença. A questão do sentido do ser é uma questão do ser do ente, isto é, uma indagação sobre o ser do homem. Em outras palavras, a pergunta é: o que é o homem? O ser-o-aí é um modo de ser privilegiado, pois é o único que, em sendo, coloca em jogo o seu próprio ser e estabelece uma relação de ser com seu próprio ser, ou seja, do ponto de vista ôntico, o homem que é pode compreender a si mesmo, sendo. Essa compreensão remete o ser a um questionamento ontológico. O ser acontecente é desvelado em seu poder-ser originário por meio da angústia, pela qual o ser do ser-o-aí se mostra como cuidado (Sorge). Cuidado do meu próprio ser-o-aí como ser-no-mundo e o dos outros em geral. O cuidar é um fenômeno ontológico fundamental, isto é, no fenômeno do cuidado, o homem preocupa-se (Fürsorge) com o seu próprio existir e com o existir em geral (Heidegger, 2001, p. 122). Isso porque o homem é um ser-no-mundo que, enquanto presença, é também um “ser-com os outros”, permitindo-lhe a abertura para a convivência. Esse fenômeno do cuidado se dá em uma temporalidade finita do ser-o-aí, com que se é levado a pensar em início, fim e um “entre” esses dois extremos, no qual nós vivemos, acontecemos. Concedido o fato da acontecência, esta não deve ser pensada de acordo com o modelo metafísico da ciência natural. Isso significa dizer que toda e qualquer explicação sobre o homem como um ser acontecente deve fugir do esquema do objetivismo e determinismo causal. Como resultado, para se falar do homem como um ser acontecente, é preciso substituir a linguagem da mensurabilidade e calculabilidade dos objetos e dos entes usada pela ciência natural, assim como seu método hipotético-dedutivo, por uma linguagem e método descritivos. Com essa mudança de linguagem e método, qualquer estudo sobre o homem ou sobre os diferenciados modos de conhecimentos científicos deveria ter como base a acontecência, porém, não mais a acontecência pensada ao modo metafísico das ciências naturais, que transforma o acontecer humano em determinações objetificantes, pensando-o simplesmente como mais um ente pesquisável da natureza. Parafraseando Heidegger quando fala da abertura historiográfica da história, é possível dizer que, segundo a sua natureza e estrutura ontológica, toda abertura científica da ciência já está, em si mesma, radicada na acontecência do ser- o-aí (Heidegger, 2001, p. 392). Indica-se nesse momento que a questão do ser investigada por Heidegger obriga-nos a pensar o ente, o homem ou o sujeito – como se costuma empregar no discurso psicanalítico – com base em uma outra perspectiva. Nessa nova interpretação do ente, também é preciso repensar a questão do ser na psicanálise. Penso que o modo de conceituar sobre o ser humano, tanto em Heidegger como em Winnicott, possui muitas afinidades plausíveis de serem estabelecidas quando se utiliza a noção kuhniana de paradigma, e que,embora suas análises se realizem em níveis teóricos diferentes, o sentido dado ao existir humano por ambos os pensadores foge dos parâmetros do homem pensado cartesianamente, calculador e dominador da natureza. Sendo assim, o sentido do ser do homem não é mais o mesmo que aquele sustentado pela tradição metafísica.11 O que se estabelece é uma relação conceitual, na qual se trabalha com os mesmos pressupostos, porém, em níveis de investigação e problematização diferentes sobre o mesmo assunto: como é possível um ser “acontecer” das perspectivas do amadurecimento pessoal e da fenomenologia existencial? 6. Mudança de paradigma em Winnicott As propostas de Thomas Kuhn (1970) sobre a história e o desenvolvimento das ciências como um instrumento de trabalho é de grande valia para, por um lado, verificar as mudanças existentes na psicanálise winnicottiana em relação à psicanálise tradicional e, por outro, indicar que os componentes ontológicos observados na psicanálise de Winnicott guardam alguma relação com a fenomenologia existencial. Para Kuhn, toda “matriz disciplinar” pode ser compreendida como um paradigma – um quadro de princípios, conceitos e modelos, alguns empíricos e outros a priori – que marca, delimita e guia a formulação dos problemas e os tipos de soluções a serem encontrados. Todavia, dadas certas situações ou condições, um paradigma pode entrar em crise – ou seja, não ser mais eficiente na formulação e na resolução dos problemas próprios ao seu campo de ação – e estar sujeito a uma mudança radical, uma revolução que termina pela instauração de um paradigma mais eficiente, implicando, assim, a mudança de certos princípios, conceitos e modelos básicos que definem o paradigma da disciplina em questão. Um novo paradigma significa um novo quadro teórico, no qual se encontra a solução, tanto da maioria dos velhos problemas quanto dos novos problemas, até então insolúveis ou nem mesmo concebíveis. Assim, quando uma revolução ocorre e outro paradigma começa a se instalar, é necessário redescrever os antigos problemas e soluções, visto que as bases do edifício teórico foram substituídas. Muito é aproveitado, mas numa perspectiva e com um valor diferente do que tinham no velho paradigma. Com o auxílio da noção de paradigma de Kuhn, é possível observar que os componentes teóricos da matriz disciplinar da psicanálise winnicottiana, quando comparados com a tradicional, são outros. Tome-se, por exemplo, o paradigma exemplar da psicanálise de Freud e de Winnicott. O exemplar paradigmático da psicanálise de Freud é o complexo de Édipo (Loparic, 1997). Este, como um problema concreto, serviu como critério para que vários problemas e quebra-cabeças em sua teoria pudessem ser resolvidos, bem como foi útil para o estabelecimento de uma constelação de crenças e de uma comunidade de psicanalistas. O paradigma da psicanálise de Winnicott é o do “bebê no colo da mãe”12 (Loparic, 1997), que implica considerar esse bebê sendo segurado pela mãe, ou seja, deve-se levar em conta o conceito de holding de Winnicott, que, em última instância, nos leva à noção de cuidado; poder-se-ia dizer paradigma do cuidado, porém, não há necessidade de se criar mais uma terminologia. Também implica pensar na noção winnicottiana de que não existe um bebê sozinho, isto é, nos estágios iniciais, quando se pensa em um bebê, também se deve pensar em uma mãe que se encontra junto com ele. Os exemplos paradigmáticos de sofrimentos em Winnicott não são os das neuroses, mas os das “angústias impensáveis”. “Impensável” porque antecede a qualquer representação mental e “angústia” por implicar uma batalha para continuar-a-ser. São problemas que podem surgir da relação dual entre os bebês e suas mães, e não de uma relação triangular. Assim, observa-se que, entre a psicanálise winnicottiana e a tradicional, há rupturas conceituais importantes. Em nosso caso: o abandono do complexo de Édipo como complexo nuclear (Winnicott, 1988/1988, pp. 49- 50). Ter tomado como paradigma “o bebê no colo da mãe” levou Winnicott a solucionar questões que a psicanálise tradicional não conseguia resolver satisfatoriamente.13 7. Considerações finais Procurei mostrar neste artigo alguns tipos de relações entre a teoria do amadurecimento pessoal de Winnicott e a teoria da acontecência de Heidegger. Lancei mão da noção de paradigma de Kuhn para, no quadro do desenvolvimento histórico da psicanálise, distinguir a teoria psicanalítica de Winnicott da tradicional (Freud e Klein). Indiquei que, em relação à tradicional, a winnicottiana promove uma mudança paradigmática em todos os elementos que compõem a matriz disciplinar da teoria psicanalítica. O estabelecimento dessa distinção nos permite tomar um dos componentes dessa matriz para investigação, a saber, o componente ontológico. Essa escolha pretende mostrar que a ontologia presente na teoria de Winnicott aproxima-se de um modo de pensar a natureza humana que tem afinidade com as concepções pós-metafísicas de Heidegger, e que a teoria da acontecência deste filósofo ilumina a compreensão dos elementos ontológicos que compõem a teoria winnicottiana. Desse modo, é possível estabelecer uma ponte para se aproximar da fenomenologia existencial. Entretanto, antes de realizar essa passagem, faz- se necessário apresentar os elementos ontológicos que compõem a psicanálise de Winnicott, procurando destacar que a concepção de amadurecimento humano, que se deixa ver através desses elementos, situa- nos diante da necessidade de compreender a precariedade do nosso próprio existir, de contar com alguém que, inicialmente, nos provê cuidado para que possamos chegar a ser e poder discutir qual o sentido de ser. A fenomenologia existencial permite mostrar, por um lado, que pensar o sentido de ser com base em sua acontecência é uma abordagem que ilumina a compreensão da natureza humana, mas, por outro, revela que o pensar filosófico sobre o ser está preso a uma armação conceitual que não lhe permite avançar a discussão de certas questões impostas por uma teoria do amadurecimento humano. É com essa precaução que se deve fazer a travessia da ponte que nos leva à aproximação com a fenomenologia existencial: mostrar em quais pontos se tocam a teoria do amadurecimento e a da acontecência humana no que diz respeito ao cuidado, à preocupação, à noção de tempo, espaço e realidade, nas concepções sobre o existir e o teorizar sobre o humano e em certas concepções sobre o conceito de angústia. E, tendo chegado ao outro lado dessa ponte que aproxima essas teorias, deve-se voltar o olhar para a outra margem em que se encontrava a psicanálise de Winnicott e perceber que esta se distancia da fenomenologia existencial de Heidegger e lhe impõe pensar questões, como a de ser-para-o-início pelas análises sobre a nascencialidade,14 que já se encontram encaminhadas na teoria do amadurecimento pessoal. Sendo assim, percebe-se que as formulações de Winnicott tanto se aproximam quanto se afastam das de Heidegger, isto é, as análises winnicottianas apontam discussões ontológicas essenciais, bem como apresentam descrições existenciárias do modo de ser cotidiano saudável ou doente. Por isso, deve-se investigar qual é o modo de compreensão presente em sua psicanálise e qual o seu lugar de localização em relação a um pensamento pós-metafísico. Através dessa relação de proximidade e distanciamento entre a psicanálise winnicottiana e a filosofia de Heidegger, podemos sustentar que, em Winnicott, há uma pré-ontotologia da natureza humana. Nela o homem não é compreendido enquanto representações ou pulsões, e sim como possibilidade aberta e paradoxal. Nesse sentido, há uma pré-ontologia não temática em sua teoria, ou seja, as questões relativas ao ser se reduzem à dicotomia mais básica da tradição filosófica herdada desde os gregos, dando aí um passo a mais: ser ou não ser; alcançar ser e perder-se, nunca chegar a ser (Santos, 2006a). Concluo, assim, que se pode trabalhar com dois níveis de investigações na psicanálise de Winnicott que se entretecem:o relativo ao ser e ao ente, pois ambos são temas centrais de suas investigações. Levar em consideração o ser e o ente enquanto temas justifica, parece- me, uma relação de aproximação com a fenomenologia existencial de Heidegger. Consequentemente, também indica uma relação de distanciamento, em que se pode perceber algumas contribuições que a psicanálise de Winnicott pode oferecer à filosofia. Essa psicanálise não é uma investigação do ser e também não é, necessariamente, uma psicanálise do ente considerado à luz da mecanicidade do funcionamento psíquico. Ela se localiza, a meu ver, no permeio da diferença entre ser e ente. Localizo a psicanálise de Winnicott na abertura (da) e no entre ser e ente, isto é, no permeio da diferença, que esclarece a necessidade da relação de pertença latente entre ser e ente referente ao próprio existir. E é por estar nesse entremeio que as análises sobre uma teoria do amadurecimento pessoal possuem descrições sobre o psiquismo que remetem a uma compreensão sobre o homem que é pré-ontológica e acontecencial, mesmo quando se trata de questões factuais. Referências Dias, E. O. (1998). A teoria das psicoses em D. W. Winnicott. Tese de Doutorado, Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica, São Paulo. Dias, E. O. (2003). A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago. Condrau, G. (1992). Sigmund Freud und Martin Heidegger: Daseinsanalytische neurosenlehre und Psychotherapie. Freiburg Schweiz: Universitätsverlag Freiburg Schweiz. Düe, M. 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A título de consulta, conferir Condrau (1992), Düe (1986) e Holzhey-Kunz (1994). 4. Essa máxima winnicottiana é um dos pontos principais para se pensar a concepção de homem em sua psicanálise. 5. Considera-se psicanálise tradicional a que tem por paradigma o complexo de Édipo. Para uma discussão sobre o futuro dos paradigmas na psicanálise, conferir Loparic (2008a). 6. Para Winnicott, os estágios iniciais e as fantasias dos bebês teorizadas por Klein são conceitos completamente diferentes. Sobre essas ideias de Klein, ele diz, com certa ironia, que é “um ponto de vista interessante, do tipo extremo”. Conferir carta a Betty Joseph, 13 de abril de 1954 (Winnicott, 1987b/1987, p. 52). 7. Nota-se que a questão dos instintos (instincts), da sexualidade ou do complexo de Édipo não deixou de ter sua importância na psicanálise winnicottina, mas esses temas não possuem a mesma centralidade que têm na teoria freudiana. Para uma discussão sobre esse assunto, conferir Santos (2001). 8. Esse tema encontra-se tratado mais demoradamente em Santos (2005). 9. Embora não dicionarizada, a palavra “acontecência” existe na literatura brasileira. Ela é usada, por exemplo, por Vilma Guimarães Rosa no seu livro de contos intitulado Acontecências (apud Loparic, 2000). 10. Os temas apresentados em Ser e tempo já haviam sido trabalhados por Heidegger em preleções anteriores a 1927. Essas preleções encontram-se em sua edição completa (Gesamtausgabe). A título de exemplo, conferir Prolegomena zur Geschichte des Zeitbegriffs (1925/1994) e Der Begriff der Zeit (1924/2004). 11. Desenvolvimentos desse tema podem ser encontrados em Santos (2006a, 2006b). 12. Deve-se fazer notar aqui que essa formulação é um insight de Loparic de como poderia ser apresentada a teoria psicanalítica de Winnicott. Desde 1996, pelo menos, Loparic vem trabalhando com a tese de mudança de paradigmas na psicanálise, tomando como contraponto de sua discussão o paradigma freudiano do complexo de Édipo e o paradigma winnicottiano do “bebê no colo da mãe”. 13. Este é o caso, por exemplo, das psicoses infantis. 14. Um desenvolvimento sobre o estudo da “nascencialidade” em Winnicott pode ser encontrado em Loparic (2008b). Heidegger e Winnicott: pensadores da origem (Anfang)1 Caroline Vasconcelos Ribeiro Durante mais de uma década, Martin Heidegger ministrou seminários a um grupo de estudantes de psiquiatria na casa do amigo Medard Boss, em Zollikon, na Suíça. As atas do seminário registram o esforço do filósofo em levar esse seleto grupo a experienciar o desabrigo que se instauraquando a pretensa segurança do pensamento científico-natural é abalada, desconstruída ontologicamente. O esforço consistia em descortinar um modo de apreender fenômenos clínicos não devedores do naturalismo, não servis aos imperativos de mensuração e classificação. Para tanto, o olhar heideggeriano não se restringia a avaliar os resultados de uma dada prática clínica, centrando-se em dilemas da psicoterapia. Antes, pretendia uma análise filosófica acerca das bases ontológicas sobre as quais se edificam tais ciências. O que implica perguntar pelas concepções de homem, saúde e doença que permeiam seu arcabouço teórico e determinam sua prática. Ao conduzir a atenção dos interlocutores para os pressupostos ontológicos subjacentes à pesquisa científica, o filósofo convida o grupo a voltar-se para onde o olhar científico não pretende e nem pode se ater. Heidegger, então, provoca o grupo na direção do espanto e da suspeita filosófica, para além do consolo dos códigos que classificam. Dirige-se a conceitos cardeais da psiquiatria, psicologia e psicanálise com sua peculiar postura desconstrutora, visando a remover “os entulhos acumulados” pelas mais diversas vertentes epistemológicas. Os enrijecidos conceitos de corpo, tempo, espaço, causalidade, sofrimento psíquico, esquecimento etc. são desencobertos, conduzidos às suas fontes, na tentativa de desvelar a proveniência primeira, a “certidão de nascimento” (Geburtsbriefes) de cada um.2 Tarefa esta nada simples para filósofos, quiçá para representantes da ciência natural. Não por acaso Boss, no prefácio à primeira edição da obra que reúne as atas do seminário, confessa que diante do esforço dos participantes em acompanhar o fôlego do pensamento de Heidegger, fantasiava que um marciano estava encontrando pela primeira vez um grupo de terrestres e tentava comunicar-se com eles.3 Por empreender um procedimento que visa a alcançar as raízes ontológicas de um campo ôntico de saber, Heidegger teve de lidar com um ramo de teorização objetificante, com um conjunto instituído de teorias e técnicas. No caminho dessa tarefa, o filósofo não pôde deixar de esbarrar-se com a psicanálise e de encaixá-la no rol das ciências naturais herdeiras da metafísica moderna. Nesse sentido, suas assertivas em relação a Freud são duras, às vezes desconcertantes, causando, assim, as mais diversas reações de defesa por parte dos interlocutores educados para ver apenas o que a ciência autoriza. Munido com os resultados da analítica existencial do Dasein,4 empreendida em Ser e tempo, Heidegger desafia os participantes do seminário a pensarem sobre a concepção de homem subjacente em todo programa de ajuda médica e psicoterápica. Aí aconselha ao terapeuta “[...] anotar que se trata sempre do existir e não do funcionar de algo. Quando só se visa este último, não se ajuda o Dasein” (Heidegger, 2001, p. 180). Dizer que o homem não se reduz a um funcionar de uma máquina geradora de sintomas, e salientar a dimensão de sua existência, implica apontar para o fato de que o ser humano não é um efeito da natureza, não está no mundo como os objetos e as coisas simplesmente subsistentes. Não! O homem existe. Mais que isso: só o homem existe! Quer dizer, o homem não se limita a ocorrer no mundo entre tantos outros entes, mas possui o privilégio ontológico de existir numa certa compreensão de ser e, nessa compreensão, compreender o seu próprio ser em um mundo. Tal compreensão (Verstehen) não é da ordem das faculdades que representam, não tem inicialmente um caráter temático, predicativo. Radica-se na lida cotidiana com os entes que vêm ao encontro no mundo. Cabe ressaltar que essa relação do homem com o mundo, além de não se pautar inicialmente numa ação do entendimento que categoriza, é marcada pela co- originariedade entre homem e mundo. De modo que o homem não existe previamente e sai da esfera de sua interioridade – do seu intrapsíquico, se quisermos – para depois se ater ao mundo. O homem existe como ser-no- mundo numa eterna doação de sentidos e escolha de possibilidades fáticas. Ora, o homem heideggeriano não é algo que funciona, não é um aparelho, uma engenhoca. Repetimos: o homem existe! Não como um mero ente subsistente, mas como um acontecente (geschichtlich) numa ex-tensão (Erstreckung) entre nascimento e morte, cuja marca maior é a finitude e a precariedade de ter que se escolher a todo momento.5 Para este filósofo, tal ex-tensão não se dá numa sequência linear marcada pelo determinismo causal, pois “o Dasein não preenche um trajeto e nem um trecho ‘da vida’ já simplesmente dado”. Assim, continua Heidegger (1995b, p. 179): Compreendido existencialmente, o nascimento não é e nunca pode ser um passado no sentido do que não é mais simplesmente dado. Da mesma maneira, a morte não tem o modo de ser de algo que ainda simplesmente não se deu, mas que está pendente e em advento. De fato, o Dasein só existe nascendo e é nascendo que ele já morre, no sentido de ser-para-a-morte. Aqui nem a morte se reduz ao perecimento orgânico incontornável, nem o nascimento é a simples posse biológica da vida, nem o “entre” desta ex- tensão nascimento-morte é uma corrente disposta numa sequência temporal linear do tipo passado-presente-futuro. Tomá-los dessa maneira deflagraria a pretensão naturalista de objetificar o inobjetificável. É evidente que se poderia retrucar que a morte, a vida e a “ex-tensão” são experiências materialmente observáveis, até mesmo mensuráveis. Mas uma investigação que não rende tributos à objetividade não se subordina ao que é palpável, antes, pergunta pelo sentido. E caminhar rumo ao sentido significa não entender o homem como um ente natural, cuja trajetória de vida é regida por determinismos causais, o que implica dizer, em traços largos, que a morte é a possibilidade inultrapassável que, enquanto possibilidade, lança o Dasein para seu poder-ser, abrindo-o para si mesmo. Nessa abertura, esse ente pode assumir-se finito e precário ou escapar para suas incumbências cotidianas, “numa indiferença imperturbável frente à possibilidade extrema de sua existência” (Heidegger, 1995b, p. 37). Dizer que o nascimento não passou e que a morte não se reduz ao que “ainda não aconteceu” significa arrancar do “fim” e do “começo” a conotação usual, alertando para o fato de que o ser-para-a-morte prenuncia o fim como um poder-ser a cada momento da existência.6 Esse “fim” não quer dizer término, pois, como afirma Heidegger (1995b, p. 124), “o Dasein não tem um fim aonde chega e simplesmente cessa. Ele existe finitamente”. Diante de tamanha desconstrução conceitual, não poderíamos considerar exagerado o testemunho de Boss sobre a tentativa de um marciano comunicar-se com terrestres. Terrestres que estavam com os pés fincados na educação científico-natural, certos da segurança desse solo. Cuja máxima aventura teórica que ousaram foi a de acompanhar a mitológica teoria das pulsões, a metapsicologia feiticeira e as analogias hidráulico-ferroviárias utilizadas por Freud para explicar o aparelho psíquico e o jogo de forças pulsionais.7 Entretanto, por mais que o pai da psicanálise assumisse o caráter indeterminado do cardeal conceito de pulsão (Trieb) e o tom especulativo de sua metapsicologia, sempre pleiteou inserir sua nova ciência no rol das ciências naturais, afirmando que sua teoria, analogamente a essas ciências, serve-se de construções auxiliares para sistematizar dados empíricos.8 Em “O esboço da psicanálise”, declara que a sua ciência está interessada em processos que “são, em si próprios, tão incognoscíveis quanto aqueles que tratam as outras ciências, a Química ou a Física, por exemplo; mas é possível estabelecer as leis a que obedecem (...)” (Freud, 1940[1938]/1995, p. 172). Na busca dessas leis, Freud advoga acerca da ausência de arbitrariedades na vida anímica. Então, na medida em que não é possível localizar uma motivação consciente em “todas as nossas decisões motoras”, torna-se preciso e legítimo supor a existência do inconsciente como fator causal dos atos psíquicos. Com a instituiçãodo inconsciente, “o determinismo psíquico prossegue sem nenhuma lacuna” (Freud, 1901b/1995, p. 250). Denunciando que a psicologia da consciência nunca foi além “das sequências rompidas” que escondiam algo mais, Freud sustenta que o inconsciente capacitou a psicanálise a “assumir seu lugar entre as ciências naturais, como ciência” (Freud, 1940[1938]/1995, p. 172). É importante ressaltar que, na trilha da restituição “das sequências rompidas”, o psicanalista lida com representações e afetos remotos, os quais, nas palavras de Freud, proliferam no escuro – no inconsciente – e assumem formas distorcidas de expressão (1915d/1995, p. 154). Assim, o que na vida mental jaz escondido pode expressar-se via sonhos, fantasias, sintomas, atos falhos, entre outras formas. A remoção de fenômenos psíquicos dolorosos para o “escuro” é exercida pela repressão, cuja tarefa maior – em linhas gerais – é evitar o desprazer, afastando da consciência conteúdos psíquicos insuportáveis.9 A busca de dados sonegados à consciência leva Freud a procurar o determinismo causal no inconsciente; no entanto, para Heidegger, essa busca de continuidade das conexões causais encerra um postulado que “não é tirado das próprias manifestações anímicas, mas é o postulado da ciência natural moderna” (Heidegger, 2001, p. 222). Ao ocupar-se em preencher as lacunas da vida psíquica, a psicanálise faz coro ao princípio leibniziano da Razão Suficiente, para o qual nada é sem razão, sem uma determinação primeira. Segundo Loparic (2001, p. 122): Esse princípio, aceito não somente por Freud, mas, de modo geral, pela ciência da natureza em seu todo, repousa sobre uma determinada concepção de realidade, segundo a qual, só é efetivamente real e verdadeiro aquilo que obedece ao princípio do fundamento, isto é, da razão suficiente. Nessa perspectiva, toda manifestação humana é efeito de uma causa determinante. Não importa se o fenômeno psíquico em questão é da ordem da percepção ou da fantasia, tudo alcança a condição de realidade uma vez que seja passível de ser apreendido de acordo com leis de causalidade. Por isso, Heidegger (2001, p. 36) afirma contundentemente: “[...] só é real e verdadeiro aquilo que pode ser subordinado a ininterruptas conexões causais de forças psicológicas, na opinião de Freud”. Ora, abordar o existir humano a partir de um princípio (causalidade), que vale para explicar determinações de entes que não têm o modo de ser do homem, não seria, no mínimo, um erro categorial? Para Heidegger, sim. Isso posto, ele alerta para o caráter derivado do saber psicanalítico, na medida em que converte a vida humana em objeto causalmente explicável – utilizando, para referir-se ao homem, categorias comuns à matéria – e não alcança os modos de ser e de adoecer do homem em sua originariedade. Ao buscar o que funciona, a psicanálise encobre e passa ao largo do que existe. Atendo-se a esse aparelho que funciona, cabe ao psicanalista se distinguir dos demais médicos “pela rigorosa fé no determinismo da vida mental” (Freud, 1910a[1909]/1995, p. 50). E, dada a íntima ligação entre a doença neurótica e o determinismo de seus sintomas, lançar-se resoluto no submundo psíquico com o intuito de auxiliar o paciente a preencher as lacunas na memória, superando as resistências provenientes da repressão (Freud, 1914g/1995, p. 163). Para tanto, é necessário que o mesmo expresse tudo o que lhe vier à mente, trazendo à tona material para o trabalho de interpretação. Diante dessa tarefa, confessa Freud (1905e[1901]/1995, p. 23), convém ao psicanalista “[...] seguir o exemplo daqueles descobridores que têm a felicidade de trazer à luz do dia, após longo sepultamento, as inestimáveis, embora mutiladas, relíquias da antiguidade”. Tarefa árdua, visto que, ao se colocar no caminho da recuperação desse material mutilado, o analista encontra pela frente resistências que obstruem o acesso ao inconsciente. E, uma vez que as representações inconscientes reprimidas chegam à consciência por caminhos indiretos, distorcidos, resta ao analista buscar o sentido encoberto, traduzindo-as.10 O objetivo maior de toda essa empreitada é a reconstituição da cadeia de associações, restabelecendo a continuidade temporal de modo que as lacunas na consciência sejam minimizadas e tornem-se menos lesivas. O conteúdo outrora esquecido vem à tona mediante a comunicação verbal do paciente que, cumprindo a regra fundamental, deve expressar, sem crítica ou seleção, tudo que lhe ocorrer (Freud, 1912e/1995). Cabe ao analista, diante desse material às vezes desconexo e caótico, formular interpretações que restabeleçam as conexões causais e temporais interrompidas pela repressão. Quer dizer: A verdade verbalizada deve ser inseria numa história de vida, numa biografia. A história de vida do paciente nem sempre pode ser comprovada como real. Para os fins da cura psicanalítica, a diferença entre a história real e fictícia conta menos do que a eliminação das lacunas na trama das causas mediadas pelo sentido. Mesmo uma história fictícia, desde que assumida afetivamente, pode corrigir os caminhos das forças que habitam o paciente e que são causalmente responsáveis pelo seu destino. (Loparic, 1999a, pp. 352-353) Entender o destino humano sob a ótica da causalidade e sob o jugo de forças (Kräfte) significa entender o homem qual um ente entre outros, atribuindo-lhe propriedades estrangeiras ao seu existir. Porém, Heidegger (1978, p. 17) adverte que, ainda que fossem mil os olhos que visassem a procurar no homem estados e propriedades (Beschaffenheit und Zustände), a vida humana nunca se tornaria acessível através de descrições que se endereçam ao que é objetivamente dado (Vorhandendes). Diante do exposto, torna-se incontornável a pergunta pelo que se encobre quando se impõem à vida humana categorias comuns aos objetos. Em outros termos: a pergunta acerca do alcance existencial da concepção de ser humano como aparelho psíquico. Heidegger, em sua veemente crítica à psicanálise nos Seminários de Zollikon, afirma repetidamente que o modo de proceder dessa ciência enclausura o homem, o ser-no-mundo, em categorias que obscurecem a constituição ontológica desse ente. Não havendo na teoria freudiana espaço legítimo para pensar as relações pré-teóricas e não representacionais do Dasein, visto que todo aparelho psíquico, desde sempre, lida com a realidade externa ou interna via representação, e é entendido como uma máquina mobilizada por forças pulsionais. Ao denunciar que a psicanálise freudiana é fiel herdeira da metafísica moderna, que enclausurou o homem na condição de sujeito-representante e o mundo na de objeto-representado, o filósofo dirige sua crítica para a noção psicanalítica de “história de vida”, ou seja, para o material nuclear do tratamento analítico. Heidegger (2001, p. 181), então, dispara: “A ‘história de vida’ psicanalítica não é uma história, mas, na verdade, uma cadeia causal-naturalista, uma cadeia de causa e efeito e, ainda por cima, uma cadeia construída”. Diante dessa enfática assertiva, resolvemos aqui desenvolver questões que possivelmente poderiam ser elaboradas por alguns dos “terrestres” presentes nos seminários na casa de Boss. Façamos então, a defesa do cientista: ora, quando Freud (1937d/1995), em “Construções em análise”, nos fala que o empenho de seu trabalho é o de completar trechos lacunares, tem em mente a restituição do percurso de vida do paciente a partir da conexão de fragmentos soterrados, que vêm à tona mediante um infatigável trabalho interpretativo. Por que isso que ele intenta não poderia ser “uma história”? E o que haveria de errado numa construção ou re-construção da “história de vida do paciente”, dado que a mesma detém dados submersos geradores de patologias psíquicas? E ainda: com que fundamento Heidegger critica esse trabalho de resgate e reconstrução da “história de vida” do paciente se, no campo ontológico, ele fez algo análogo com a história do ser e os fragmentos dos pré-socráticos? Afinal, o filósofo da Floresta Negra empenhou o grande fôlegode seu pensar na repetição da questão do ser, cujo sentido estava esquecido, soterrado pelos entulhos acumulados pela tradição filosófica. E, para tanto, voltou-se para o mais primitivo, o mais encoberto, a saber, os fragmentos dos primeiros pensadores. Não seria forçoso afirmar, continuaria argumentando um possível interlocutor de Zollikon, que ambos os pensadores, em seus devidos campos, empenham-se em recuperar o passado que foi olvidado. O filósofo, o ser em seu sentido; o psicanalista, a história primitiva do paciente. Inclusive, seria possível ousar dizer que até as dificuldades que os dois encontraram no encaminhamento de seus projetos foram análogas: Heidegger voltou-se para a origem do pensamento ocidental e deparou-se com fragmentos em uma língua arcaica de difícil resgate, e Freud, enquanto escavador da alma, ateve-se a formações inconscientes também fragmentadas e enigmáticas, cuja recuperação é obstacularizada pelas resistências do paciente. Por fim, caberia perguntar: será que, ao invés de colocar Freud no lugar de corifeu da metafísica, que Heidegger pretende desconstruir, não poderíamos indicar afinidades entre os dois, mesmo que um transite no campo ôntico e o outro se atenha ao ontológico? Um olhar apressado nos levaria a responder que sim. Pois, não é difícil detectar, na obra de ambos, termos comuns: esquecimento, fragmentos, história, passado, tradução etc. Todavia, convém frear anseios de parcerias e examinar cautelosamente essas supostas semelhanças, demorando-nos mais sobre a conotação que esses termos têm no pensamento do filósofo. Sabemos que o projeto filosófico de Heidegger radica-se na pretensão de repetir a questão do ser. No caminho desse empreendimento, depara-se com um duplo esquecimento imperante na história da filosofia: a tradição esquece de pensar o ser em seu sentido e, ao mesmo tempo, esquece desse esquecimento. Sendo assim, trata-se de executar uma apropriação positiva do legado dessa tradição, visando a destruição de suas categorias e representações cristalizadas, que obstruem o acesso ao que se intenta. Faz- se necessário, então, que o pensamento retroceda à dimensão do esquecimento, dê “um passo de volta” (Schritt zurück) rumo ao princípio inaugural do pensamento filosófico-ocidental, rumo aos fragmentos dos pré-socráticos.11 Numa passagem de Introdução à metafísica, Heidegger esclarece o que ele entende por essa repetição, afirmando: Investigar: o que há com o ser? – não significa nada menos do que re-petir o princípio de nossa existência espiritual-Histórica, a fim de transformá-lo num outro princípio. [...] Um princípio, porém, não se repete voltando-se para ele como algo de outros tempos e hoje já conhecido, que meramente se deva imitar. Um princípio se re-pete, deixando-se, que ele principie de novo, de modo originário, com tudo o que um verdadeiro princípio traz consigo de estranho, obscuro e incerto. (Heidegger, 1978, p. 65) Como entender o gesto heideggeriano em relação ao princípio inaugural do pensamento, se ele afirma que o pensamento do passado não é algo de outros tempos? Como poderíamos negar que tal pensamento não só se trata de algo de outros tempos, mas de algo de muitos séculos atrás? Trata-se de compreender essa característica do gesto heideggeriano para com os primeiros gregos, diferenciando o que este filósofo entende como postura historiográfica e postura Histórica em relação ao passado. Segundo Heidegger, a partir da perspectiva historiográfica, o passado se faz acessível como objeto de uma ciência, como um fato que aconteceu, passou, podendo ser conhecido através de dados e fontes que transmitem o que foi então registrado.12 Conduzir-se ao princípio grego, guiado por essa perspectiva, implica ater-se aos registros do pensamento dessa época, lançando mão do recurso a uma ciência, a etimologia, no sentido de contar com o auxílio da análise linguística dos radicais que compõem as palavras dos enunciados legados pelos gregos.13 Na medida em que os fragmentos estão disponíveis, retomar o princípio do pensamento grego significa ater-se aos mesmos como “algo” do passado que foi preservado e registrado, prezando para não deixar de lado o cuidado filológico na realização das traduções. A repetição da questão do ser deve ser entendida – desde a ótica historiográfica – como a busca dos registros legados, a fim de examinar o que pensaram os gregos na alvorada do pensamento ocidental, evitando uma atitude parcial e pouco objetiva. Essa assepsia objetivante, essa pretensa neutralidade, faz com que Heidegger (1999) aponte na historiografia a presença de uma relação calculadora e técnica com o passado. Como seria, então, uma relação Histórica com o passado? Desde a perspectiva Histórica adotada por Heidegger, a referência ao passado se processa de outra maneira, isto é, o passado não é abordado como algo lacrado num tempo longínquo anterior ao nosso – como um tempo que simplesmente não é mais – e, sim, como um tempo que vigora por ter sido presente, devendo ser experimentado na atualidade não como algo acabado que se apresenta apenas como lembrança, mas como a vigência de possibilidades que se mantém tencionando com o presente. Vigorando no presente, o passado se abre como horizonte a ser experienciado no futuro. Desse modo, Heidegger avança ao encontro do “princípio” não à procura da literalidade dos fragmentos, mas da experiência impensada que ali se mantém abrigada. Sua repetição não é uma mera reconstrução vazia do que já foi e ficou soterrado; ao contrário, trata-se de uma retomada do passado na medida em que vigora no presente, de modo a ser ultrapassado em direção ao futuro. Entendido dessa maneira, o princípio não se alcança através de uma simples recomposição dos fragmentos, como se faria, por exemplo, com os cacos de um antigo vaso grego. Contrariando toda pretensão de transparência objetiva, Heidegger reconhece o fato de só possuirmos fragmentos dos pré-socráticos como uma benção e não como um limite. Salientando que, no “caso feliz de uma conservação integral das palavras originárias, poderíamos ainda mais facilmente enrijecer o entendimento [...]”. (Heidegger, 1999, p. 53). Desse modo, esquiva-se de qualquer lamentação acerca do caráter fragmentário do legado dos primeiros pensadores e afirma: A posse bibliotecária dos escritos dos pensadores não garante que sejamos capazes, ou dotados, para seguir no pensamento do que aí foi pensado. Mais essencial do que conservar e possuir integralmente o escrito do pensador é relacionar-se, mesmo que à distância, com o a-se- pensar no pensamento desse pensador. [...] A discussão dos fragmentos que se quer pensante deve obstinar-se apenas a fazer a experiência desse a-se-pensar. (Heidegger, 1999, pp. 52-53) A discussão com o pensamento do princípio não se reduz a um mero reavivamento historiográfico do passado. Não visa a uma “escavação” ferrenha à procura do que existiu, mas foi perdido. Tanto que, para Heidegger, se, por ironia do destino, fôssemos agraciados com a descoberta dos escritos integrais de Heráclito, o máximo que aconteceria seria a dispensa dos filólogos da exaustiva tarefa de reconstrução do texto, nada mais. Pois, ainda assim, se manteria a tarefa de apropriação do que ali se mantém aberto ao pensamento, se mantém impensado. Nessa perspectiva, o passado não é algo que se esgotou, mas algo vigente que guarda e aguarda um sentido. Porque o concebe dessa maneira, o filósofo se autoriza a afirmar – na passagem supracitada de Introdução à metafísica – que o passado não é “algo de outros tempos”. O convite, então, é para prepararmo-nos para o encontro não do que foi registrado outrora e agora deve ser resgatado, mas da “palavra ainda por vir”. O que significa voltar-se para o que, justamente por se manter impensado, continua proposto em nosso futuro. Podemos entender agora a assertiva heideggeriana que enfatiza: “um princípio se re-pete, deixando-se, que ele principie de novo [...]” (Heidegger, 1978, p. 65). Tal convocação se deve à procura da dimensão impensada quese mantém guardada na alvorada do pensamento ocidental. A execução desse passo de volta rumo à fecundidade do princípio não se processa tendo em mãos a pretensa verificação historiográfica, mas suportando a indigência de um pensar Histórico que não dispõe e nem pretende adquirir provas cabais. Essa volta à origem não almeja alcançar uma interpretação que pague tributo ao imperativo técnico de estabelecer uma transparente relação de causalidade entre o que se retirou do “soterramento” e o que se deduziu a partir daí. A abordagem Histórica, nos moldes heideggerianos, torna legítima a busca até pelo que não se registrou; mais que isso, pelo não registrável. Quer dizer: a História (Geschichte) não é mero registro de acontecimentos, é a condição de possibilidade de todo acontecer (geschehen). Torna-se imperativo não só delimitar a diferença entre a postura historiográfica e a Histórica em relação ao princípio, mas, sobretudo, o que se entende por princípio. Atentemos que o princípio não se reduz a um registro temporal que, numa sequência de acontecimentos, deu início ao pensamento grego, isto é, não tem a conotação de um começo (Beginn) que, como primeiro momento de uma extensão temporal, ficou estagnado no passado. Ao invés, Heidegger concebe o princípio como uma origem (Anfang) que não se encontra fossilizada atrás de nós, mas nos envolve, atraindo previamente a si tudo o que se manifesta, constituindo-se como o a-ser-pensado.14 Nesse sentido, volta-se para a alvorada do pensamento ocidental para considerar o que nunca foi pensado. Aqui não se busca fósseis, aqui se busca a origem que possibilita todo fossilizar. O saber acerca da origem “nunca poderá ser extraído historiograficamente do texto dos primeiros pensadores da antiguidade grega, como de um protocolo” (Heidegger, 1999, p. 186). Todo registro protocolar, toda representação que se acede a partir de uma pesquisa historiográfica, apesar de serem datadas num determinado começo (Beginn), num exato registro temporal, pressupõem, segundo Heidegger, a origem (Anfang). Esta, como dissemos anteriormente, não se encontra estagnada num tempo que se perfez; antes, nos envolve e “atrai para si e erige para si tudo o que vigora” (Heidegger, 1999, p. 186). Voltando-se para a Anfang do pensamento ocidental, a investigação heideggeriana volta-se para o ser, para o modo como foi nomeado e meditado pelos pré-socráticos. Aqui se busca o mistério de nosso destino, impensável nos moldes da tradição metafísica, cuja pretensão de certeza e determinação enclausurou a filosofia no território do Beginn. A passagem de Introdução à metafísica, que tomamos como fio condutor de nossas investigações, anuncia que pensar o ser “significa nada menos do que re-petir o princípio de nossa existência espiritual-Histórica”. Quer dizer: ao esclarecer a conotação que a repetição da questão acerca do ser tem no bojo de seu pensar, Heidegger atrela essa tarefa necessariamente à nossa existência. Em que se baseia o estabelecimento desse elo de ligação? Antes de encaminharmos essas questões, lembremos que temos o objetivo maior de entender a crítica do filósofo à noção psicanalítica de “história de vida”. Busquemos previamente o entendimento acerca do nexo entre homem e ser, presente na filosofia heideggeriana, para, em seguida, voltarmos nossa atenção para essa problemática anterior. Vimos anteriormente que, para o filósofo de Ser e tempo, homem é um ente privilegiado, pois se move sempre numa certa compreensão (Verstehen) de ser. Uma vez que nossa existência é marcada por essa referência essencial ao ser, levantar a questão a seu respeito significa manter uma correspondência intrínseca com a nossa própria história. Quer dizer: a questão cardeal da filosofia de Heidegger se movimenta não só no curso da história da filosofia, como também no curso do existir humano que, por sua vez, é histórico.15 Levar em conta essa característica do Dasein significa lançar a investigação sobre o ser num outro terreno. Por isso, em Ser e tempo, a pergunta pelo ser não reverbera o tradicional “o que é o ser” (ti tò ón)? Ao invés disso, pergunta pelo modo como o ser se dá a compreender, pergunta pela perspectiva a partir de onde se sustenta a compreensibilidade de algo. O que significa, para Heidegger, perguntar pelo sentido.16A tradicional questão do ser se converte na questão do seu sentido. Essa questão não poderia ser desenvolvida no campo semântico da tradição, afinal, na medida em que esta restringiu o pensar sobre o ser ao domínio representável dos entes, aboliu a possibilidade de um pensar não objetivante, que versasse sobre o âmbito antepredicativo constitutivo do existir humano. O pensamento tradicional não acede à compreensão pré-teórica do Dasein. Daí afirmar-se que, no acervo categorial legado pela tradição, o sentido do ser permanece não apenas inquestionado, mas, sobretudo, inquestionável. Até este momento de nosso texto, supomos esclarecidas as questões suscitadas a partir da passagem de Introdução à metafísica, que caracteriza o significado da “investigação do ser” no âmbito da ontologia heideggeriana. Em linhas gerais, tentamos esclarecer uma concepção de princípio que diferencia Anfang de Beginn e História de historiografia. Essa diferença não é inócua, imprime consequências sobre o modo de proceder em relação ao passado. Toda nossa demora no esclarecimento desses conceitos deve-se à pretensão de nos desvencilharmos da tentativa de aproximação entre a psicanálise freudiana e a filosofia heideggeriana, a partir da simples presença de termos comuns. Pleiteamos assegurar que, apesar da utilização de palavras semelhantes, a significação ontológica emprestada por Heidegger aos termos difere-se radicalmente da acepção científica de Freud. Tendo em mãos essa breve caracterização heideggeriana acerca de termos que também compõem o corpo teórico da psicanálise, cabe-nos entender a força da assertiva: “a ‘história de vida’ psicanalítica não é uma história”. Lembremos primeiramente que a história de vida de um paciente freudiano é a história de seus investimentos libidinais, de suas catexias objetais. A execução da tarefa de recuperação do material inconsciente pressupõe a presença inquestionável de, no mínimo, duas pessoas inteiras – analista e analisando –, sendo o primeiro com destreza para interpretar e o segundo com capacidade de “associar livremente”, de curar-se pela fala. Além de presumir que toda história primitiva do paciente seja passível de recuperação, visto que os elos que faltam para a reconstrução da cadeia histórica podem ser acessados no inconsciente. Ora, tal reconstrução se aproxima muito mais de uma historiografia, uma vez que resgata registros de “algo” que aconteceu, mas foi censurado e encaminhado para o inconsciente. A tarefa da ciência psicanalítica e da historiografia é a de preencher lacunas seguindo a lei do determinismo causal, tratando o que se busca como objeto acessível mediante tradução e interpretação. A acessibilidade do material, lembra-nos Loparic (1999a, p. 358), é sempre pressuposta, visto que o inconsciente “pode ser, em princípio, representado, objetivado e, por isso, verbalizado”. Nada escapa à dimensão dos pronunciamentos, até mesmo o silêncio é submetido à impostura da acessibilidade, reduzido à condição de “resistência” que obstaculariza a condução da regra fundamental. O silêncio não é “algo”, apenas esconde “algo”. Aqui não há espaço para o que não se emoldura em representações, para o impensável, para o que não é datável. O “caminho de volta” freudiano ruma em direção ao primitivo que aconteceu e sofreu ação da repressão, nunca para o que é incapturável via verbalização. Em termos heideggerianos, poderíamos afirmar que Freud volta-se para o começo, mas sequer supõe a possibilidade da origem. E quando visa ao começo, inspira- se na física, nas ciências naturais, reduzindo o homem a um aparelho, “a um feixe de dados” (Loparic, 1999a). Contudo, não são os dados representacionais que fundam o Dasein, ao contrário, o pressupõe. Ditode outra forma: tais dados são operações derivadas cuja condição de possibilidade é o acontecer do homem, imerso em suas possibilidades existenciais.17 Assim: “a partir de um querer, desejar, tender e ansiar como atos psíquicos não se pode montar um ser-no-mundo, pois este já é sempre prévio” (Heidegger, 2001, p. 193). Ao lançar sua crítica à psicanálise freudiana, Heidegger, num mesmo fôlego, reivindica uma ciência dos fenômenos psíquicos que conceda legitimidade para o não representável, para o impensável. Que entenda esse caráter prévio do existir, anterior aos atos psíquicos. Que suporte o inacessível em sua inacessibilidade. Supomos que a psicanálise winnicottiana concede terreno legítimo para tais convocações heideggerianas. Nesse sentido, propomos aqui esboçar semelhanças entre o pensamento dos dois, guardando as diferentes proporções que se impõem quando tratamos de um discurso ôntico e de uma ontologia. Tracejaremos, brevemente, um possível encontro entre essas reivindicações filosóficas desenvolvidas nos seminários de Zollikon e a psicanálise de Winnicott. De início, vale demarcar que a atividade clínica de Winnicott voltou-se, principalmente, para o atendimento de bebês e suas mães – devido a sua formação em pediatria – e de psicóticos. Essa experiência leva-o a repensar o arcabouço teórico do sistema freudiano uma vez que, diante da vulnerabilidade dos bebês e da dificuldade de verbalização característica de psicóticos, percebe que “uma grande quantidade de material clínico não se encaixa nos moldes dessa teoria” (Winnicott, 1954a[1949]/2000, p. 380). Boa gama de conceitos freudianos, tais como desejo, repressão, complexo de Édipo, frustração, pulsão, para Winnicott, revelam-se como operações sofisticadas que pressupõem o cumprimento de uma trajetória de integração do eu, ou seja, pressupõem pessoas inteiras capazes de manter relações objetais com o mundo.18 Não que Winnicott descarte em absoluto tais conceitos, mas nos alerta que não são fundantes da vida humana (em termos heideggerianos, que não são a origem). Quer dizer: nos estágios mais primitivos do “existir” não encontramos um aparelho psíquico já confeccionado e com capacidade para satisfações objetais, cujo drama maior é obter prazer e evitar o desprazer. Antes, deparamo-nos com um exemplar humano cujo código genético não é suficiente para garantir-lhe o sentimento de real, o sentimento de estar vivo (Winnicott, 1987d[1967]/2006, p. 80). Por isso, Winnicott (1960c/1983, p. 43) afirma que “os lactentes humanos não podem começar a ser exceto sob certas condições”. Tais condições devem ser cumpridas por uma devoção materna marcada, inicialmente, pela constância de cuidados corporais, ritmos, cheiros, toques, enfim, por um processo de adaptação intensa da mãe às necessidades do bebê. Tomando como imagem paradigmática de análise o bebê no colo da mãe, Winnicott nos fala que, se tudo correr bem, desenvolve-se um tipo de comunicação silenciosa entre os dois, intrinsecamente ligada à capacidade da mãe de colocar-se no lugar do lactente. Adjetivar essa comunicação como silenciosa não implica simplesmente registrar o óbvio – que o bebê não acedeu à linguagem verbal. Silencioso aqui é muito mais que o contrário de falatório, enfatiza um mútuo contato pré-verbal que estabelece constância, confiabilidade. E, assentado nessa base de confiabilidade, o lactente caminha rumo à capacidade “de ter uma existência pessoal”. Porém, adverte Winnicott (1960c/1983, p. 53), “se o cuidado materno não é suficientemente bom, então, o lactente não vem a existir, uma vez que não há continuidade do ser”. Fica claro que a existência de um “eu” integrado e organizado, capaz de sentir-se vivo e de distinguir-se dos outros e do mundo, é adquirida e não garantida desde o nascimento. Como afirma Dias (2006, p. 36), o nascimento biológico “não coincide com o que se poderia chamar de nascimento ontológico.” Pois, uma vez que o ser humano incipiente seja “deixado a sós com seus próprios recursos”, a conquista do sentimento de ser, ou a sua continuidade, podem estar ameaçadas. Podendo sequer acontecer! (Winnicott, 1970a/2006, p. 76). Considerando o grau de falhas e rupturas na provisão do ambiente,19 o bebê – essa organização em marcha – pode sofrer angústias impensáveis, como padrão de defesa contra a aniquilação, contra a quebra da continuidade de ser. O lactente é obrigado a reagir, ao invés de seguir sendo.20 Se as falhas ambientais “não são logo corrigidas, o bebê será afetado para sempre, seu desenvolvimento será deturpado, e a comunicação entrará em colapso” (Winnicott, 1987d[1967]/2006, p. 88). Em caso de extremo colapso, serão evidenciados sofrimentos de qualidade psicótica que, “pertencem, clinicamente, à esquizofrenia ou ao aparecimento de um elemento esquizoide oculto numa personalidade não psicótica nos demais aspectos” (Winnicott, 1965n[1962]/1983, p. 57). Nesse sentido, pontua Winnicott, é errado pensar na psicose como um colapso, trata-se, antes, de uma organização defensiva contra as angústias primitivas. Na verdade, é provável que o colapso “já tenha acontecido, próximo do início da vida do indivíduo” (Winnicott, 1974/1994, p. 74). Diz-se “próximo do início da vida”, pois não se pode tomá-la como algo já dado. Expliquemos melhor: nos momentos mais primitivos de dependência absoluta, se há falhas e intrusões em demasia, o bebê é obrigado a reagir, a defender-se. Contudo, por não se tratar de uma unidade psíquica integrada, essa experiência dolorosa não pode ser registrada e compreendida enquanto tal; é como se a vida ainda não tivesse se iniciado. O colapso, ou seja, a quebra na continuidade de ser incide num momento muito precoce, anterior à conquista de um “eu” capaz de representar, fazer registros mnemônicos ou reprimir. Todos esses processos são tardios. Iremos nos demorar sobre esse tema mais adiante. Por enquanto, cabe- nos pontuar que, nos estágios mais primitivos, o sofrimento possível é gerado por angústias impensáveis, não por uma insatisfação da pulsão oral. Loparic (1997, p. 372) ressalta que tais angústias são consideradas impensáveis “porque não são definíveis em termos de relações pulsionais de objeto, baseadas em relações representacionais de objeto (percepção, fantasia, simbolização)”. Uma vez que se referem a momentos muito precoces do desenvolvimento humano, tais angústias, acrescenta o autor, se dão “[...] antes que exista um indivíduo capaz de experienciá-las”. Essas angústias não habitam o inconsciente reprimido característico dos neuróticos, antes atingem um ego extremamente imaturo, impedindo a chance de integração. E, por isso, ela não diz respeito ao passado soterrado nos porões da psique, pois, desde a perspectiva winnicottiana, tal angústia só poderia fazer parte do passado se fosse um acontecimento ocorrido para um ego amadurecido capaz de reuni-lo em seu controle onipotente e de torná-lo real. Sendo assim, o que está em jogo é a cisão no existir e não a repressão de representantes psíquicos insuportáveis. Quer dizer: aqui não se está sob o julgo da censura e das pulsões – isso implicaria uma unidade psíquica –; o padecimento é da ordem da quebra do processo de integração, a partir da qual uma vida pode ser vivida. Sem essa integração, os problemas “[...] não fazem parte da vida e sim da luta pra alcançar a vida” (Winnicott, 1988/1990, p. 101). As falhas que incidem nesse “território” primitivo não deflagram uma frustração de desejos; ao invés, impõem uma privação ambiental num momento de absoluta dependência, que freia ou até mesmo impede a possibilidade de se ter uma história pessoal. Diante do exposto, devemos reconhecer que a precariedade humana é tão pungente que ter uma história de vida, ao invés de ser uma garantia, é uma conquista. Partimos de uma não integração e, se tudo correr bem, amadurecemos rumo à integração. Contudo, essa conquista fundamental não tem um caráter inabalável, deve ser mantida. Claro que essa questão da integração demanda muito mais apreço na tematização; entretanto, devidoao escopo de nosso trabalho, somos obrigados a abordá-lo de forma sucinta, correndo o risco de superficialidade. Interessa-nos, ao menos, enfatizar que o sentimento de ser uma unidade não estará disponível para o bebê a não ser que uma dedicação materna promova essa integração. O alcance da vida implica um trajeto que, sem um ambiente facilitador, nunca será percorrido. Eis uma grande diferença em relação a Freud. Para o mestre vienense – que teve como modelo clínico a neurose –, a integração é sempre pressuposta. O aparelho psíquico é dado e não constituído. A “história” de vida se reconstrói a partir do resgate das representações psíquicas inconscientes, do enredo edipiano, das características dos investimentos objetais, enfim. Trata-se de recuperar o que aconteceu, mas foi censurado. Já o psicanalista inglês não centrou sua clínica nos dramas neuróticos que pressupõem um “eu” (Winnicott, 1953a[1952]/2000, p. 307). Tal qual Heidegger, deu um passo de volta rumo ao mais primitivo; nesse caso, rumo à luta humana para a conquista da integração e da capacidade de ser e continuar a ser. Aqui nada é pressuposto. Melhor dizendo: o mínimo é pressuposto. Pois, o único passaporte que o bebê traz para a “barreira alfandegária” da vida é o seu potencial genético herdado e a tendência ao amadurecimento, tudo o mais deve ser conquistado! Nesse sentido, a psicanálise winnicottiana aponta para problemas inapreensíveis no modelo freudiano, a saber, a possibilidade de cisão do amadurecimento devido a falhas ambientais, devido ao fato de não acontecer cuidados e devoções que deveriam ter acontecido. Isso que não aconteceu, não foi experienciado, não pode ser formatado em representações, reprimido no inconsciente, para, futuramente, ser resgatado na clínica via interpretação de “associações livres”. A “história” das “indecências proibidas” dá-se no interior da vida de um “eu” integrado. Mas, e quando a quebra incide na base, que é condição necessária para se compor uma história com enredos que narram a atuação de forças pulsionais no inconsciente reprimido? Aí, nos esclarece Loparic (1999a, p. 359), o sofrimento não é da ordem das reminiscências, mas de angústias que são impensáveis e incomunicáveis. Desse modo, o autor enfatiza que, na teoria de Winnicott, há a formulação de “algo” como um inconsciente “não acontecido”, fruto do não acontecimento de cuidados ambientais que, por serem integradores, deveriam ter acontecido. Em função disso, teríamos uma cisão na continuidade de ser, característica da psicose. O “local” da cisão não seria a consciência, nem a mente, e sim o próprio existir. Ao indicar que essas teses winicottianas impõem a necessidade de uma outra forma de fazer clínica, Loparic acrescenta: Caso queira cuidar dos sofrimentos desse tipo de paciente, o analista não poderá pressupor a capacidade de comunicação verbal objetivadora, isto é, a máquina representacional com a qual opera Freud. [...] Os pacientes winnicottianos típicos não se comunicam para informar os dados da charada em que se meteram, mas para poder continuar a existir e poder ter, um dia, uma biografia. (Loparic, 1999a, pp. 362-363) A palavra “bio-grafia” nomeia, em traços largos, um registro da vida. Associa-se ao desencadeamento de fatos vivenciados e catalogados numa linearidade temporal. Poder ter uma biografia significa poder ter uma narrativa histórica. Embasados num discurso naturalista, diríamos que todo ente humano tem uma história e uma biografia datável, com dados encadeados logicamente – “crono-logicamente”. Alguns dados ofereceriam mais dificuldade de acesso, contudo, seriam ainda assim acessíveis. Mantendo-nos nessa perspectiva, seria possível afirmar que fatos que não aconteceram e sequer foram experienciados não teriam condições de atuar sobre a vida humana a ponto de lesá-la ao extremo. Como se poderia provar que é justamente o que não foi registrado como acontecimento que gera patologias? Como resgatar esse material clínico não acontecido, impensável? Não seria um contrassenso se, diante de um ser humano com registro de nascimento e documentos identificatórios, lhe subtraíssemos a biografia? Estamos novamente em meio ao campo dos conceitos e suas sutilezas. Para diluir confusões, resta-nos procurar estabelecer a perspectiva que norteia a análise. Se rendemos tributo à historiografia, partiremos sempre do começo (Beginn), da marca temporal registrada e registrável, e toda a avaliação das questões propostas acima pretenderá verificação e encadeamento lógico. Assim, diante de uma vida humana devidamente identificada, só poderiam ser computados como elementos de sua história conteúdos passíveis de serem representados em forma de dados. Não importa se tais dados concernem à realidade empírica ou à fantasia, se estão inconscientes ou disponíveis na consciência; a tradução em informações verbalizáveis deverá ser assegurada. Ora, a partir do que mencionamos anteriormente, podemos afirmar que esta é a perspectiva adotada pela psicanálise tradicional. A perspectiva que não põe em dúvida a existência de um eu dotado da capacidade de ter história com conteúdos encadeados, segundo leis de causalidade. Apontada essa perspectiva, convém perguntar: para “onde” seríamos conduzidos se nos dispuséssemos a pensar a história de vida em termos de origem e História (Geschchite), tal como Heidegger os concebe? Em outras palavras: seria viável, no âmbito ôntico da psicanálise, abordarmos a vida humana para além do começo e da historiografia? Deixemos que o próprio Winnicott nos indique o caminho: É possível observar que estou levando vocês para um lugar onde a verbalização perde todo e qualquer significado. Que ligação pode haver entre tudo isso e a psicanálise, que se fundamentou num processo de interpretações verbais de pensamentos e ideias verbalizados? Em síntese, eu diria que a psicanálise teve que partir de uma base de verbalização, e que tal método é perfeitamente adequado para o tratamento de um paciente que não seja esquizoide ou psicótico, ou seja, um indivíduo cujas experiências iniciais não tenhamos qualquer dúvida. (Winnicott, 1987d[1967]/2006, p. 81) O caminho que Winnicott nos convida a percorrer leva-nos para além das experiências que não temos dúvida, leva-nos até o não experienciável. Leva-nos ao encontro de um tipo de pessoa que, apesar de parecer estar em um mundo, não tem a posse do sentimento de real. Suportar esse passo de volta em direção ao mais primitivo implica suportar o misterioso território da mutualidade mãe-bebê, do qual nada sabemos em forma de representações e simbolismos; significa conceder legitimidade a angústias que, por serem tão precoces, não são reações à ameaça de castração – são impensáveis. Significa entender que a posse da vida não equivale a um funcionamento biológico, ou seja, significa entender que viver e permanecer vivo são frutos de um constante esforço. A consequência disso é a destituição da interpretação verbal do seu estatuto de técnica primordial, é o entendimento do silêncio como algo tão primitivamente humano que não pode ser reduzido à condição de resistência. Em suma, o passo de volta winnicottiano força-nos a não abordar o ente humano metafisicamente como uma substância ou um aparelho desde sempre confeccionado. Diante da imaturidade do exemplar humano, Winnicott, ao invés de procurar forças e leis que determinam os atos psíquicos, alerta-nos que sequer podemos localizar no lactente a presença do sentimento de ser. Ora, não é possível versar sobre esse “território” primitivo munido de uma semântica que segue os padrões das ciências naturais. Não é possível objetificar o que “ainda não é”. Em meio a problemas clínicos que desafiam os imperativos do rigor científico, o autor afirma: “não posso sacrificar um paciente sobre o altar da ciência” (Winnicott, 1964c/2006, p. 34). O não servilismo aos ditames das ciências da natureza leva-nos ao encontro de “algo” impensável, não acontecido, não verbalizável. Mas, como entrar em contato com “isso” que sequer aconteceu, com “isso”que se oculta às apreensões positivas? Com “isso” que, apesar de inapreensível, marca o destino de alguém, fazendo-se presença na pura ausência do não acontecimento? Certamente esse contato não poderá se basear no uso exclusivo de interpretações. Vimos que essa clínica dos pronunciamentos pressupõe um começo instaurado, um “eu” integrado e falante. Mas estamos tratando do não acontecido que não se acomoda em representações. Do mais originário que é inapreensível em termos de datações. Dos momentos inicias de extrema dependência do lactente em relação à provisão ambiental. Como ter acesso a um terreno tão misterioso, obscuro? Ao tratar de pacientes psicóticos extremamente regredidos a esse momento de dependência absoluta, Winnicott relata que é comum o paciente molhar o divã, se sujar ou babar. Além de entender esses fenômenos como inerentes – não como uma complicação –, adverte: “não é de interpretações que se necessita aqui, e na verdade, qualquer fala ou movimento pode arruinar todo o processo e causar profunda dor ao paciente” (Winnicott, 1955d[1954]/2000, p. 386). Afinal, não estamos diante de uma pessoa que teve êxito em seu processo de integração, cujos dilemas são de ordem sexual. Falamos de necessidades básicas, não de desejos. O analista não tem de lidar com enigmas, mas com sentimentos de inutilidade e irrealidade constitutivos de quem não alcançou a inteireza. Em função disso, Winnicott (1955d[1954]/2000, p. 388) afirma em tom profético: “[...] seria muito agradável que pudéssemos aceitar apenas pacientes cujas mães foram capazes de proporcionar-lhes condições suficientemente boas no início e nos primeiros meses. Mas esta época da psicanálise está rumando para um fim”. Sendo assim, reiteremos a questão: como entrar em comunicação, em contato, com o que é primitivo no humano? Acreditamos que a máxima heideggeriana em relação ao princípio vale como iluminação da resposta. Lembremos o que diz Heidegger, na passagem que tanto nos serviu neste texto: “Um princípio se re-pete, deixando-se, que ele principie de novo, de modo originário, com tudo o que um verdadeiro princípio traz consigo de estranho, obscuro e incerto”. Quer dizer: diante da impossibilidade de ser formatar o não acontecido nos moldes dos registros capturáveis, resta ao analista winnicottiano manter-se ao lado do paciente de modo que o seu princípio não experimentado principie de novo. Como salienta Dias, o paciente “precisa reviver o colapso, visto que este não chegou a ser experimentado no momento original, pelo fato de que o paciente era um bebê e ainda não estava lá, como um ‘eu’, para experimentá-lo” (Dias, 2002, p. 356) Ora, nada mais “obscuro e incerto” do que reviver o que não aconteceu. Chega a ser paradoxal. Entretanto, ao invés de tentar logicizar o paradoxal, a teoria winnicottiana – assim como a ontologia de Heidegger –, “abriga-o” sem lhe impor uma transparência estrangeira. Para Winnicott (1989vu[1968]/1994, p. 186), há momentos em que “tem-se de permitir que a obscuridade tenha um valor superior ao do falso esclarecimento”. No âmbito da clínica de psicóticos, abrigar o obscuro significa suportar a presença do não acontecido em termos de angústias impensáveis. Significa expor-se a uma análise em que “a lógica não é aplicável” (Winnicott,1989vu[1968]/1994, p. 99). Trata-se, como diz Heidegger, de deixar o princípio principiar com tudo de incerto e obscuro que ele engendra. Em termos clínicos: deixar que o paciente regrida “[...] à agonia impensável, que nele habita, sem ter sido experimentada” (Dias, 2002, p. 356). Para tanto, o analista “tem que ser suficientemente bom para poder proporcionar que aconteça o não acontecido, isto é, que aconteça uma vida humana que valha a pena” (Loparic, 1999a, p. 366). Supomos que essa caracterização da teoria e da clínica winnicottiana versa sobre o momento anterior à história de vida tal como pensada na psicanálise tradicional. Talvez pudéssemos dizer que Winnicott nos fala de uma pré-história ou de uma História no sentido heideggeriano, como condição de possibilidade para a historiografia. É evidente que a questão heideggeriana que estamos usando para fazer tais associações não diz respeito exclusivamente ao homem, mas à História do Ser. Não nos interessa, e, talvez, nem seja possível equiparar a abordagem heideggeriana à de Winnicott. Contudo, supomos que seja possível estabelecer uma afinidade entre os autores no que tange ao modo de proceder em relação ao passado. Para nenhum dos dois trata-se de algo que aconteceu e foi perdido, sepultado. Antes, refere-se a algo que ainda “não aconteceu” e que aguarda um sentido. Esse passado não se reconstitui com técnicas de encadeamento lógico-causal, nem é buscado para preencher lacunas que geram hiatos na cadeia da memória. Estamos muito aquém dos registros, do que é passível de ser catalogado. A dificuldade de acesso não se deve ao dispendioso trabalho de tradução dos dados. Não estamos no campo dos dados catalogáveis. Estamos falando da condição de possibilidade de toda e qualquer catalogação. Em termos clínicos, estamos aquém de qualquer linha de vida capaz de ser historicizada. A questão diz respeito ao alcance da vida e não aos dramas inerentes à vida. Salientando as devidas proporções, podemos apontar afinidades entre o que é primitivo em Winnicott e a definição ontológica de origem (Anfang) como o impensado que, ao invés de estar fossilizado no começo, nos impõe o pensar. Essa origem não se recompõe com técnicas, não se enclausura no discurso factual, historiográfico. Do mesmo modo, o não acontecido winnicottiano não pode ser visto como fonte de informações factuais, datáveis. E, da mesma forma que o começo pressupõe a origem, um “eu” integrado capaz de viver e relacionar-se com o mundo pressupõe um desenvolvimento emocional primitivo, inalcançável em termos de investimentos pulsionais. Sendo assim, apoiados na diferença heideggeriana entre Anfang e Beginn, podemos indicar que Winnicott não parte do começo (Beginn), cuja marca temporal e representacional é dada como certa; ao invés, volta-se para a primitiva origem (Anfang), anterior ao domínio do objetivável. Isso evidencia seu modo não metafísico de abordar o homem. Referências Beaufret, J. (1971). Introduction aux philosophies de l´existence. Paris: Denöel. Dias, E. (2002). Da sobrevivência do analista. Natureza humana, 4(2), 341-362. Dias, E. (2006). Winnicott e Heidegger: temporalidade e esquizofrenia. Winnicott e-Prints, 5(1), 30- 50. Freud, S. (1995). Análise terminável e interminável. In S. Freud, Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (V. 23). Rio de Janeiro: Imago. 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No contexto de Ser e tempo, a destruição da ontologia não tem o caráter de um aniquilamento desse legado, trata-se de uma desconstrução que remete os termos à origem, eliminando os sentidos derivados que encobrem seu sentido primordial. Daí afirmar-se que a busca é pela “certidão de nascimento”. Cf. Heidegger, 1995a. 3. Cf. Prefácio à primeira edição de Medard Boss (Heidegger, 2001). 4. Heidegger preocupa-se em referir-se ao homem escapando das categorias herdadas da metafísica, quais sejam: animal racional, ego cogito, espírito, sujeito transcendental, enfim. Sendo assim, escolhe o termo Dasein – que literalmente significa “ser-aí” – para reunir, numa só palavra, tanto a relação do ser com a essência do homem, como também essa referência fundamental do homem à abertura (“aí”) do ser enquanto tal. Cf. Heidegger, 1991, p. 58. Por existir uma certa diversidade na tradução desse termo, optaremos por mantê-lo em alemão. 5. Em Ser e tempo, encontramos o conceito Geschichtlichkeit, traduzido na edição brasileira por “historicidade”. Tradução que não deixa de ser correta. Contudo, para a palavra alemã geschichtlich, recorremos à tradução de Loparic (1999a), que opta pelo termo “acontecente”. Tal opção se deve ao fato de essa tradução preservar o sentido de geschehen (acontecer) presente na raiz da palavra geschichtlich. Num outro texto – “O ‘animal humano’” –, Loparic (2000) usa a palavra “acontecência” para o alemão Geschehen, lembrando-nos que, apesar do fato de essa palavra não ser dicionarizada, ela é usada na literatura brasileira, a exemplo de Vilma Guimarães Rosa no livro intitulado Acontecências. 6. cf. Nunes, 1992. 7. Remetendo-se ao Fausto de Goethe, Freud, em “Análise terminável e interminável”, faz uma associação entre a Metapsicologia e a Feiticeiraque Fausto, de mau grado, recorre em busca do segredo da fonte da juventude. Então, ele lembra a passagem: “So muss denn doch die Hexe dran!” (cf. Freud, 1937c/1995, p. 241). 8. A inserção da psicanálise no rol das práticas científicas do seu tempo, bem como a formação científico-natural do seu criador, sempre foram registradas, de diferentes formas, ao longo da obra freudiana. As pretensões de medição, quantificação, as analogias mecânicas, aparecem tanto no Freud de “O projeto para psicologia científica” (1895), quanto no das obras “mais psicanalíticas”, por exemplo, em “A interpretação dos sonhos” (1900), nas “Conferências introdutórias” (1915 e 1916) nos “Artigos sobre a metapsicologia” (1914-1916). Sobre a herança da metafísica moderna no conceito freudiano de Trieb (pulsão), ver Loparic, 1999b e Fulgencio, 2003. 9. O paradeiro de um representante pulsional reprimido, bem como suas formações substitutas, é variável. O dispêndio de energia empregada na repressão relaciona-se também com a quota de afeto ligada à representação psíquica. Freud, no texto metapsicológico intitulado “Repressão” (1915d/1995), afirma que esse fator quantitativo do representante pulsional possui três vicissitudes possíveis, quais sejam: 1) o quantum de afeto pode ser suprimido sem deixar vestígios; 2) pode ser “qualitativamente colorido”; 3) ou transformado em ansiedade. O caminho do afeto está diretamente relacionado ao tipo de neurose estabelecida. Cf. Freud, 1915d/1995. No texto de 1926, intitulado “Inibição, sintoma e angústia”, Freud modifica sua opinião sobre a relação entre ansiedade e repressão. Cf. Freud, 1926d[1925]/1995. 10. Cf. Freud, 1915d/1995, p. 154. 11. J. Beaufret alerta que se dirigir à origem não implica simplesmente percorrer uma ponte entre a filosofia contemporânea e o pensamento pré-socrático; para tanto, exige-se um passo que retrocede rumo à fecundidade impensada do princípio. Cf. Beaufret, 1971. 12. Cf. Heidegger, 2002. 13. Em se tratando do legado dos pré-socráticos, sabe-se que dessas “obras” só temos acesso a fragmentos que foram citados por pensadores posteriores, como Platão, Aristóteles, Sexto Empírico, entre outros. Em 1903, o filólogo Hermann Diels compilou-os, enumerando-os, e os publicou sob o título “Os fragmentos dos pré-socráticos”. Cf. Heidegger, 1999. 14. Literalmente, o termo Anfang pode ser traduzido por “princípio”. No entanto, optamos seguir a sugestão de tradução de Marlène Zarader por “origem”. Tal escolha deve-se ao fato de que, tanto no português quanto no francês, princípio e começo denotam uma marca temporal, como um primeiro momento na extensão de um processo. Já “origem” se aproxima mais da conotação heideggeriana, que não se restringe ao início de uma extensão linear, mas se refere àquilo de onde qualquer coisa jorra, nasce. Isso posto, explicitaremos a diferença entre Beginn e Anfang estabelecida no pensamento heideggeriano com as palavras portuguesas começo e origem, respectivamente. Cf. Zarader, 1990. 15. Cf. Lévinas, 1967. 16. “Chamamos de sentido, aquilo que pode articular-se a abertura de compreensão. O conceito de sentido abrange o aparelhamento formal daquilo que pertence necessariamente ao que é articulado pela interpretação que compreende” (Heidegger, 1995a, p. 117). 17. Cf. Stein, 2005. 18. Vale registrar algumas passagens onde Winnicott caracteriza o desejo, o complexo de Édipo e a repressão como processos tardios. Cf. Winnicott, 1960c/1983 e 1955d[1954]/2000. 19. Claro que, nos estágios iniciais, falar em ambiente significa necessariamente remeter-se à mãe devotada. Cf. Winnicott, 1953a[1952]/2000, p. 306 e 1954a[1949]/2000, p. 334. 20. “O conteúdo dessas angústias pode ser assim expresso: 1) ser feito em pedaços; 2) cair para sempre; 3) completo isolamento, devido a inexistência de qualquer forma de comunicação; 4) disjunção entre psique e soma” (Winnicott, 1987d[1967]/2006, p. 88). Parte II Articulação do paradigma winnicottiano A teoria winnicottiana do amadurecimento como guia da prática clínica1 Elsa Oliveira Dias 1. Introdução Há várias maneiras de enunciar a novidade da psicanálise de D. W. Winnicott e uma delas refere-se à prática clínica que decorre da sua nova perspectiva teórica. Enquanto na psicanálise tradicional existe um método que caracteriza, por excelência, a própria tarefa analítica – a interpretação dos conflitos inconscientes relativos a elementos reprimidos –, não se pode dizer o mesmo da clínica winnicottiana.2 Embora seja perfeitamente possível explicitar as implicações clínicas de sua teoria, não se pode formular, num enunciado geral, um método ou uma técnica que definiriam o modo como se trabalha, psicanaliticamente, na perspectiva winnicottiana. A razão é simples: o que determina o trabalho a ser feito – e a maneira como deve ser conduzido um determinado tratamento – é a necessidade do paciente, e esta varia enormemente conforme a natureza do distúrbio que este apresenta. Sabemos dos textos winnicottianos já clássicos que o que serve, por exemplo, para um paciente neurótico ou mesmo depressivo não serve, de modo algum, para pacientes cuja problemática central é psicótica, ou mesmo para os antissociais. Os distúrbios psíquicos podem ter naturezas radicalmente diferentes, como ocorre com os dois pares de distúrbios mencionados: enquanto as neuroses e as depressões denotam conflito inconsciente, relativo a material reprimido, e ocorrem em indivíduos cujas personalidades foram bem fundadas, no início da vida, e que, num certo momento, adoeceram ao ter que lidar com a ansiedade resultante das urgências instintuais, as psicoses, assim como a tendência antissocial, são resultados do fracasso ambiental na sua tarefa de favorecer a continuidade dos processos de amadurecimento nas etapas mais primitivas em que impera a dependência. Esses distúrbios apontam para falhas na estruturação da personalidade ou do caráter. Pelo fato de haver uma diferença crucial de natureza entre os distúrbios e, portanto, entre o que se requer no tratamento de um ou de outro tipo de distúrbio, Winnicott enfatiza a importância essencial do diagnóstico como guia da ação terapêutica.3 O fato essencial é que baseio meu trabalho no diagnóstico. Continuo a elaborar um diagnóstico na continuidade do tratamento, um diagnóstico individual e outro social, e trabalho de acordo com o mesmo diagnóstico. Nesse sentido, faço psicanálise quando o diagnóstico é de que este indivíduo, em seu ambiente, quer psicanálise [tradicional]. Posso até tentar estabelecer uma cooperação inconsciente, ainda quando o desejo consciente pela psicanálise está ausente. Mas, em geral, a psicanálise [cujo método por excelência é a interpretação do conflito reprimido inconsciente] é para aqueles que a querem, necessitam e podem tolerá-la. (1965d[1962]/1983, p. 154) Num outro artigo, de 1968, diz ele que “se nossos diagnósticos fossem melhores, nós nos pouparíamos e pouparíamos aos nossos pacientes, muito tempo e desespero” (1989xb[1968]/2000, p. 182). Existem, ainda, complicações adicionais para a clínica que é regida pela teoria do amadurecimento, pois as necessidades de um determinado paciente podem variar numa mesma sessão, na medida em que este, a despeito de padecer de um aspecto doente da personalidade, tem também aspectos sadios. O analista terá que lidar com ambos, simultaneamente, atento ao fato de que se há um aspecto doente, este é tão doente quanto possível e não se pode afrouxar o cuidado, pensando contar com a parte desenvolvida da personalidade. Além disso, se a análise transcorre bem e o paciente amadurece, as necessidades variarão ao longo do tratamento e o analista necessita estar preparado para reconhecer e lidar com todos os aspectos e fases do amadurecimento, desde os mais sofisticados aos mais primitivos. Além de não se poder falar de uma única técnica em Winnicott, tampouco se pode entender o trabalho analítico, tal como Winnicott o concebe, como uma técnica. Ao formular sua concepção sobre a tarefa terapêutica, na introdução ao seu livro Consultas terapêuticasem psiquiatria infantil (Winnicott, 1971b/1984), Winnicott afirma que o trabalho terapêutico ali descrito dificilmente pode ser entendido como uma técnica, já que não existem dois casos iguais; o trabalho não pode sequer ser copiado porque, afirma, “o terapeuta deverá estar envolvido em cada caso como pessoa, razão pela qual não há sequer duas entrevistas que sejam semelhantes quando realizadas por dois psiquiatras” (1971vc/1984, p. 17). 2. A teoria do amadurecimento como guia da ação terapêutica A clínica winnicottiana está baseada numa teoria dos distúrbios psíquicos que tem como fundamento a teoria do processo de amadurecimento pessoal do indivíduo. Essa teoria, segundo o próprio autor, é a “espinha dorsal” (backbone) do seu trabalho teórico e clínico.4 Winnicott é explícito ao traçar a íntima conexão existente entre a teoria dos distúrbios psíquicos e a teoria do amadurecimento. Ele diz: “Precisamos chegar a uma teoria do amadurecimento normal para podermos ser capazes de compreender as doenças e as várias imaturidades, uma vez que não nos damos por satisfeitos a menos que possamos preveni-las e curá-las” (Winnicott 1965vc[1962]/1983, p. 65). A teoria está baseada em algumas concepções que podem ser resumidamente apresentadas: a) Todo indivíduo humano é dotado de uma tendência inata ao amadurecimento, o que significa, à integração numa unidade. Apesar de inata, contudo, a tendência não vai de si, como se bastasse a mera passagem do tempo. Trata-se de uma tendência e não de uma determinação. Para que a tendência venha a realizar-se, o bebê depende fundamentalmente da presença de um ambiente facilitador que forneça cuidados suficientemente bons. Isso é tanto mais verdadeiro quanto mais primitivo o estágio que consideramos. b) O amadurecimento começa em algum momento após a concepção e, quando há saúde, não cessa até a morte. c) Contrariamente à concepção da psiquiatria, e da própria psicanálise, que concebem a saúde como ausência de doença – o que parece altamente insuficiente a Winnicott –, este defende a ideia de que a saúde é um estado complexo, que tem suas próprias exigências e deve ser pensado em si mesmo. Por essa razão ele assinala, em sua teoria, a existência de dificuldades que pertencem ao próprio fato de estar vivo e de amadurecer. Essa concepção de saúde atravessa todo o pensamento winnicottiano e tem implicações maiores do que pode parecer à primeira vista, a saber, que, desde o início, a vida é difícil em si mesma e a tarefa de viver, de continuar vivo e amadurecer é uma batalha que sempre permanece. d) Não há nenhum aspecto, saudável ou doente, da existência humana, cujo sentido seja independente do momento do processo ao qual pertence ou no qual teve origem. Ou seja, não se pode responder à pergunta sobre o que significa, por exemplo, a agressividade em Winnicott sem estabelecer a etapa do amadurecimento a que estamos nos referindo. 3. A teoria do amadurecimento Em que consiste a teoria do amadurecimento? Na descrição e conceituação das diferentes tarefas, conquistas e dificuldades que são inerentes ao crescimento em cada um dos estágios da vida, desde o momento em que um estado de ser tem início, ainda na vida intrauterina, estendendo-se pela infância, adolescência, juventude, idade adulta e velhice até a morte. A ênfase da teoria recai sobre os estágios iniciais, pois é nesse período que estão sendo constituídos os alicerces da personalidade e da saúde psíquica. As tarefas que caracterizam os estágios iniciais – a integração no tempo e no espaço, a habitação da psique no corpo, o início das relações objetais e a quarta tarefa, constituição do si-mesmo – jamais se completam e continuam a ser as tarefas fundamentais de toda a vida. Elas não são de natureza instintual – como serão algumas delas, um pouco mais tarde –, mas pertencem à linha identitária do amadurecimento; referem-se à necessidade de existir, de sentir-se real e de chegar a estabelecer-se como uma identidade unitária. Apesar de o processo de amadurecimento não ser linear, algumas conquistas têm pré-requisitos e só podem ser alcançadas depois de outras, que são a sua condição de possibilidade. Ou seja, a resolução satisfatória das tarefas de cada estágio depende de ter havido sucesso na resolução das tarefas dos estágios anteriores. Se ocorre fracasso na resolução da tarefa de uma certa etapa, novas tarefas vão surgindo, mas o indivíduo, não tendo feito a aquisição anterior, carece da maturidade necessária para fazer-lhes frente; ele pode até resolvê-las, mobilizando a mente e/ou uma integração defensiva do tipo falso si-mesmo, mas, apoiadas em bases falsas, elas não farão parte intrínseca do seu si-mesmo como aquisições pessoais. Nesse caso, o processo de amadurecimento pessoal é paralisado e um distúrbio emocional se estabelece. 4. Critérios para uma classificação dos distúrbios psíquicos Segundo a teoria winnicottiana dos distúrbios psíquicos, a natureza do distúrbio está relacionada com a etapa, na linha do amadurecimento, em que a dificuldade surgiu, ou seja, com o estado de imaturidade ou maturidade relativa em que o indivíduo se encontrava e com a natureza da tarefa com a qual o bebê, ou a criança, estava envolvido por ocasião do fracasso ambiental. Mais precisamente, está relacionada ao ponto, no amadurecimento, em que o bebê perdeu a esperança de comunicar ao ambiente que algo anda muito mal, que algo de essencial lhe falta e que ninguém percebe. A natureza do distúrbio tem também a ver com o tipo de patologia materna (ou paterna) que é responsável pelo padrão ambiental traumatizante. Isso nos leva à seguinte exigência com relação ao diagnóstico: qualquer que seja o fenômeno que queiramos considerar, na doença ou na saúde, ele só poderá ser devidamente apreciado se levarmos em conta todo o processo de amadurecimento do indivíduo, desde os estágios mais primitivos, e se pudermos localizar o estágio em que o fenômeno teve origem. “Um dos problemas mais difíceis de nossa técnica psicanalítica”, diz Winnicott, “consiste em saber qual a idade emocional do paciente num dado momento da relação transferencial” (1958f[1949]/2000, p. 263). Só assim poderemos compreender a natureza do problema com o qual o indivíduo está envolvido, proceder a uma classificação do distúrbio e fornecer cuidados específicos segundo a sua necessidade. É preciso “pensar sempre em termos do indivíduo que se desenvolve e isto significa retornar a épocas muito remotas e tentar determinar o ponto de origem” (1984c[1960]/1989, p. 64). Em largos traços, pode-se dizer que, segundo Winnicott, as psicoses são distúrbios relacionados ao fracasso ambiental na sua missão de facilitar as conquistas dos estágios iniciais – que começam em algum momento da vida intrauterina e vão até o estágio do EU SOU, que ocorre, em geral, por volta de um ano ou um ano e meio. Se o ambiente falha repetidas vezes – ao modo de um padrão estabelecido – em se adaptar às necessidades do bebê durante a etapa de dependência absoluta, e mesmo relativa, ocorrem traumas e o processo de amadurecimento pessoal é interrompido, nesse momento primitivo em que estão sendo constituídos os alicerces da personalidade. Isso dá origem a um distúrbio psicótico. Naturalmente, haverá diferentes tipos de distúrbio psicótico segundo a etapa, dentro dos estágios iniciais, em que o bebê for traumatizado pelas falhas ambientais. Após a conquista da identidade unitária (nesse marco do amadurecimento que é o estágio do EU SOU), a criança, que tem agora entre um e dois anos, terá que defrontar-se, no estágio do concernimento, com a tarefa de integrar a sua impulsividade instintual. Ela deixa de ser incompadecida (ruthlessness) para tornar-se compadecida (concern), o que significa que ela adquire a capacidade de sentir culpa e de responsabilizar- se pelos resultados da instintualidade tornada pessoal. Quando o ambiente favorece a conquista, o indivíduo se apropria, sem muito susto, da destrutividade que pertence à sua própria natureza e, com isso, conquista a capacidade, naturale saudável, de deprimir a cada vez que a destrutividade se manifestar. Se a mãe falha na sua tarefa, específica para esse momento, de sobreviver aos ataques impulsivos da criança, haverá risco de depressão patológica, pois a criança não sabe o que fazer com a culpa relativa ao fato de que ela se vê destruindo exatamente aquilo de que mais precisa e a quem ama. Nos casos favoráveis, em que também essa conquista da capacidade para o concernimento é alcançada, a criança, que já pôde sedimentar as bases de sua personalidade, passará a lidar com as ansiedades que resultam das relações com outras pessoas, percebidas como externas e cuja existência não depende dela. Em especial, ela terá que enfrentar a situação triangular em que o complexo edípico pode ser efetivamente experimentado com pessoas internas (whole persons).5 As ansiedades aqui mobilizadas são relativas aos instintos, aos afetos e à fantasia que têm lugar na realidade psíquica pessoal e desenvolvem ali toda uma novela interior. Nessa etapa, o ambiente já não tem a mesma importância que tinha nas etapas anteriores, mas é vital que se mantenha estável de maneira a propiciar boas condições para que a criança, despreocupada com a segurança do lar, que se mantém por si mesmo, possa defrontar-se e elaborar sua problemática pessoal interna, e não sucumbir em uma neurose. Uma das questões de maior relevância para a clínica winnicottiana consiste em que, na análise de qualquer tipo de paciente, à medida que o trabalho prossegue e a confiabilidade se estabelece, a possibilidade de uma psicose aparecer, ou de elementos psicóticos emergirem, nunca pode ser excluída, em princípio, pois “pode-se sempre descobrir que há uma psicose por baixo de todas as outras coisas” (1988/1990, p. 185). A psicose subjacente pode surgir justamente, na situação analítica, em virtude da confiabilidade ambiental. Para aqueles analistas que dizem não ter nenhum interesse em casos de psicose, Winnicott oferece a sua experiência como resposta: “A minha experiência clínica com casos de adultos deve ser presumida como sendo a de um psicanalista que, quer lhe agrade ou não, vê-se envolvido no tratamento de pacientes fronteiriços e daqueles que, talvez imprevistamente, se tornam esquizoides durante o tratamento” (1968c[1967]/1994, p. 151). Segundo Winnicott, a teoria concebida originalmente para a compreensão das neuroses é insuficiente para dar conta da compreensão e do tratamento das patologias psicóticas ou dos episódios de natureza psicótica que surgem no tratamento analítico. Não só ele mesmo, mas alguns outros psicanalistas, diz Winnicott, vêm chamando a atenção “para a inaplicabilidade da assim chamada técnica psicanalítica clássica no tratamento da esquizofrenia” (Winnicott 1964h/1994, p. 372). Essa afirmação está referida ao fato de que a teoria tradicional – tanto a freudiana como a kleiniana – usou, para o estudo e a pesquisa sobre as psicoses, os mesmos elementos conceituais que haviam sido usados para as neuroses, desconhecendo a natureza essencialmente distinta dos dois tipos de distúrbio psíquico. Numa neurose pura, se é que tal formação pode ainda ser suposta, a estrutura da personalidade está intacta e o indivíduo adoece ao lidar com as dificuldades inerentes à instintualidade no quadro das relações interpessoais. Nas psicoses, o amadurecimento foi paralisado num certo momento dos estágios iniciais, em função de um padrão ambiental traumático. O bebê, por precisar sistematicamente reagir ao trauma, perde a espontaneidade, a capacidade de descansar e a esperança. Uma cisão defensiva se opera nele. O verdadeiro si-mesmo, espontâneo e criativo, fica recuado e protegido da ameaça de aniquilamento, enquanto um falso si- mesmo se edifica; é este que leva a cabo a tarefa de integrar-se numa unidade e relacionar-se com a realidade externa; é ele que se apresenta ao mundo no lugar do eu, sendo, contudo, uma prótese. São esses os casos de indivíduos que, podendo ser altamente competentes em suas áreas de atuação e tendo inclusive alcançado sucesso, queixam-se do sentimento de inutilidade, de uma permanente falta de sentido, e de sentirem, no fundo de si mesmos, que a vida não vale a pena. Eles se sentem um embuste. O fato é que, a despeito de sua capacidade de lidar com as exigências da realidade compartilhada, suas experiências iniciais foram tão deficientes ou distorcidas que o analista terá que ser a primeira pessoa na vida do paciente a fornecer certas coisas que são simples e essenciais, e que só podem ser oferecidas pelo que se chama ambiente suficientemente bom. Essas pessoas precisam que lhes seja fornecida a oportunidade de viverem experiências primitivas, com o ambiente desta vez atendendo, com sucesso ao invés de fracasso, às necessidades específicas do momento. No caso das patologias psicóticas, se se quer chegar ao problema efetivo do paciente, a regressão à dependência é necessária. Essa afirmação está baseada numa necessidade do paciente e não da teoria, ou do que seria uma “técnica” winnicottiana. 5. As diferentes naturezas de um mesmo distúrbio segundo a teoria do amadurecimento A classificação winnicottiana dos distúrbios psíquicos segue um critério maturacional, e não sintomatológico. Isto nos leva ao seguinte: distúrbios com sintomatologias muito semelhantes podem ser de diferentes naturezas, conforme o ponto de origem do distúrbio. Este item será usado para exemplificar esse aspecto. Um bom exemplo pode ser dado pelos diferentes fenômenos clínicos de ansiedade persecutória ou de susceptibilidade à perseguição. Segundo Winnicott, os distúrbios paranoicos não configuram uma categoria nosológica em si mesmos, mas são sempre uma complicação – que, em geral, torna mais negativo o prognóstico – ou da esquizofrenia, ou da tendência antissocial, ou da depressão. Sendo de diferentes naturezas, essas perturbações exigem diferentes abordagens terapêuticas. As diferenças se põem de manifesto quando se procede ao exame do ponto de origem do distúrbio e do tipo de deficiência ambiental que o indivíduo padeceu. Quando é um aspecto da esquizofrenia, pode-se supor que a susceptibilidade à perseguição foi instalada muito cedo. É possível encontrar uma disposição paranoide em bebês muito pequenos. A primitividade do fenômeno fez com que alguns investigadores, em especial os de orientação kleiniana, atribuíssem o distúrbio ao fator constitucional. Segundo Winnicott, contudo, não precisamos da hipótese constitucional se, ao nos depararmos com fenômenos precoces de ansiedade persecutória, levarmos em conta 1) a pré-história do bebê – a vida intrauterina, o nascimento e o período imediatamente subsequente ao nascimento e 2) o que é extremamente importante e não pode deixar de ser levado em conta na apreciação dos distúrbios persecutórios primitivos: o fato de a dependência do bebê ser máxima e significativa tão logo se inicia um estado de ser, e ao longo dos primeiros meses de vida. Quando se fala em cuidados suficientemente bons, está-se falando da confiabilidade ambiental e isto significa, em primeiro lugar, ser capaz de proteger o bebê de acontecimentos imprevisíveis para ele, ou seja, das descontinuidades que traumatizam. Uma disposição paranoide primitiva pode já derivar de uma experiência traumática de nascimento, devido à demora ou antecipação do parto, tendo o bebê sido exposto a uma descontinuidade mais prolongada do que a que podia tolerar (cf. 1958f[1949]/2000, p. 273). Mas, em geral, a disposição paranoide precoce deriva das invasões ambientais que ocorrem após o nascimento, devido ao fato de o ambiente não ser capaz, o suficiente, de proteger o bebê do imprevisível. Essas invasões geram reações imediatas, que são traumáticas, pois interrompem a continuidade de ser, numa etapa muito inicial da vida. Se for esse o padrão ambiental, o bebê, ao invés de simplesmente ser, despreocupado com o que ocorre no ambiente, é tomado por um estado de alerta que o impede de descansar. O que ocorre, então, é uma cisão, como parte central de um sistema defensivoprimitivo, que visa a prevenir a invasão tornada potencial. É nisso que consiste, propriamente, na teoria winnicottiana, as patologias esquizofrênicas. Winnicott diz que “a palavra doença torna-se apropriada quando o sentido de segurança não chegou à vida da criança a tempo de ser incorporado às suas crenças” (1946b/1987, p. 122; os itálicos são meus). Deve-se lembrar que, para que ocorram invasões, o ambiente não precisa ser ativamente invasivo: já será invasivo por não ser facilitador. Explicando melhor: antes de a psique alojar-se no corpo, as tensões instintuais são tão intrusivas quanto qualquer coisa intrusiva que venha do ambiente, e para que essas tensões não interrompam a continuidade de ser, o bebê precisa da facilitação ativa por parte da mãe na boa resolução da excitação surgida. Se a mãe, ao atender à urgência instintual, fornecer apoio de ego e propiciar experiências globais, que incluem mutualidade e comunicação, todo o percurso deslanchado pela tensão instintual torna-se uma experiência que fortalece o ego e favorece a coesão psicossomática da criança. Sem esse apoio, as tensões instintuais, em vez de serem gradualmente integradas e pessoalizadas, permanecem externas e, com o tempo, tornam-se perseguidoras, chegando a estabelecer uma disposição paranoide, que pode tomar a forma de hipocondria, devido à permanente ameaça de despersonalização. Outro aspecto relativo à origem muito primitiva da paranoia ocorre quando o impulso criativo do bebê é inibido, juntamente com a motilidade que o acompanha e o movimento passa a acontecer apenas como reação à invasão. Aqui se pode estabelecer, no indivíduo, um padrão de reatividade em que toda a espontaneidade fica soterrada; não há mais impulsividade pessoal. O bebê vive, dirá Winnicott, “porque foi atraído pela experiência erótica, mas, além da vida erótica, que nunca é sentida como real, há uma vida puramente reativa e agressiva, dependente da experiência de oposição” (1958b[1950]/2000, p. 303). Essa situação desfavorável está na origem de uma das formas de disposição paranoide: o indivíduo está sempre procurando a perseguição que deflagrará o movimento, pois só faz alguma experiência ao reagir a ela. Para sentir-se vivo, ele passa a necessitar de uma perseguição contínua. Uma origem um pouco mais tardia da ansiedade paranoica, mas ainda dentro dos estágios iniciais, localiza-se no momento em que, a partir da adaptação absoluta, começa a ocorrer a desadaptação da mãe. Existem casos em que a confiabilidade ambiental, que havia se estabelecido no período de dependência absoluta, falha exatamente no momento em que se inicia a separação da unidade fusional mãe-bebê, e começa a se abrir o primeiro espaço entre a mãe e o bebê, o espaço potencial, a ser preenchido pelos objetos transicionais. É nesse ponto, dirá Winnicott, que ocorre “um perigo alternativo, o de que esse espaço potencial possa ser preenchido com o que nele é injetado a partir de outrem que não o bebê. Parece que tudo o que provenha de outrem, nesse espaço, constitui material persecutório, sem que o bebê disponha de meios para rejeitá-lo” (1967b/1975, p. 141). É provável que seja esse mesmo tipo de falha ambiental, aliado a uma exploração precoce das funções mentais, o que está na origem de uma categoria extremamente incômoda de paranoia, na qual podem estar incluídas pessoas que ocupam posições de autoridade ou responsabilidade. Trata-se de indivíduos cujo impulso criativo foi inibido, pois é evidente sua falta de contato com a experiência sempre mutável da vida, quando ela é viva. Essas pessoas vivem dominadas por um sistema de pensamento e suas vidas são rigidamente estruturadas em torno desse sistema; elas mantêm uma convicção absoluta, que não pode jamais ser posta em dúvida, de que só é possível viver dentro de um sistema em que estão separando, rigidamente, o bem do mal. Dúvidas, de maneira geral, estão excluídas do sistema, pois elas geram inquietação e movimento, o que aproxima o indivíduo, perigosamente, da vida, diferente dos princípios que, ao contrário, como diz Winnicott, são coisas mortas. Além disso, esse tipo de indivíduo, juntamente com os que o cercam, são os únicos eleitos para estar sempre do lado da verdade: “O sistema deve ser constantemente posto em prática para explicar algum fato, sendo a alternativa (para o indivíduo que tem essa enfermidade) uma grave confusão de ideias, uma sensação de caos e de perda de qualquer previsibilidade” (1969c[1968]/1975, p. 189). Outro tipo de disposição paranoide, inteiramente distinta das anteriores, é a que provém do temporário sentimento de perseguição, que pertence ao amadurecimento normal, relativo à aquisição do estatuto da identidade unitária. A aquisição do estatuto do EU SOU é sentida, pela criança, como uma ousadia, pois a separação do eu como identidade unitária implica o repúdio de tudo o que é não-eu e o indivíduo recém-integrado passa a aguardar a perseguição retaliadora da realidade externa repudiada. Trata-se, assinala Winnicott, de uma passagem difícil, na qual a criança se sente “infinitamente vulnerável”; se ela não for devidamente protegida pelo ambiente, nesse momento, a suscetibilidade à perseguição, que em princípio é passageira, pode se instalar como uma característica paranoide da personalidade. Outra forma de paranoia é a que está associada à ansiedade pelo aspecto destrutivo inerente à impulsividade instintual. Nesse caso, é necessário considerar várias hipóteses. Uma delas consiste em que toda a linha da agressividade, desde as raízes, foi prejudicada, pois pode ocorrer de a mãe não ter tolerado os estados excitados do bebê e de este ter tido os seus impulsos inibidos. Não podendo exercer a impulsividade primitiva voraz, de maneira incompadecida, ele não tem como integrar, amadurecendo, a destrutividade que é inerente à instintualidade primitiva. Os impulsos acabam por se tornar invasivos ou persecutórios, acarretando, talvez, um estado de hipocondria, que é a forma da paranoia quando a perseguição vem de dentro. Esse tipo de paranoia manifesta-se pelo temor constante de que alguma fagulha da agressividade possa escapar ao controle e ganhar terreno. Mas pode também ocorrer, quando existem perseguidores internos – os chamados objetos maus, isto é, que foram incorporados durante experiências insatisfatórias ou persecutórias –, de o indivíduo provocar o mundo externo para que o persiga, de modo a obter alívio da perseguição interna, sem expor-se muito à loucura do delírio. Talvez a mais comum das maneiras pelas quais a paranoia foi compreendida, no pensamento psicanalítico tradicional, e que também foi considerada por Winnicott com relação à conquista da capacidade para o concernimento, é aquela em que o indivíduo é incapaz de chegar a um acordo com a destrutividade pessoal, talvez por não ter tido o tipo de mãe que favorece a entrada no círculo benigno. Nesses casos, o indivíduo, maciça e sistematicamente, projeta para fora, no mundo e nos outros, os impulsos destrutivos que, naturalmente, acabam por retornar sob a forma de perseguidores. O que expus foi uma tentativa de apresentar uma amostra da riqueza diagnóstica contida na teoria do amadurecimento pessoal, quando usada como guia para o entendimento dos fenômenos da saúde e também dos distúrbios psíquicos. À luz da teoria do amadurecimento, cada distúrbio poderá ser visto sob esse largo espectro, o que exige, por parte do analista, um exame atento do amadurecimento de um dado paciente, desde as fases mais primitivas. Sem isso, diz o autor, ficaremos empacados em nosso trabalho. É também esse o sentido da sua afirmação: “A única companhia que tenho, ao explorar o território desconhecido de um novo caso, é a teoria que levo comigo e que se tem tornado parte de mim, e em relação à qual não tenho sequer que pensar de maneira deliberada” (1971vc/1984, p. 14). Referências Dias, E. O. (2003). A teoria do amadurecimento de D. W. Winnicott. Rio de Janeiro: Imago. Winnicott, D. W. (1975). O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago.(Trabalho original publicado em 1971a) Winnicott, D. W. (1975). Conceitos contemporâneos de desenvolvimento adolescente e suas implicações para a educação superior. In D. Winnicott (1975/1971a), O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago. 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Embora a questão do diagnóstico tenha sido essencial na psicanálise dos anos 30 e 40, a razão era inteiramente diferente: tratava-se, naquele momento, de distinguir os chamados casos bem escolhidos, tendo em vista que Freud e Anna Freud entendiam que a psicanálise servia apenas para o tratamento da neurose, e não para o da psicose. Winnicott dará razão a ambos, tendo em vista tratar- se da psicanálise tal como estes a formularam e a entendiam. 4. Além de Winnicott afirmar inúmeras vezes, ao longo da sua obra, que a teoria do amadurecimento é central no seu pensamento, ele usa a expressão decisiva “espinha dorsal” (backbone) em 1984e[1969]/1989, p. 184. 5. Para Winnicott, o indivíduo só se torna uma pessoa inteira, uma whole person, quando, após se integrar numa identidade unitária, num eu, integra também a instintualidade. Ou seja, a integração no eu ainda não basta; é preciso que ele saiba das consequências do fato de estar vivo e ter apetites, e tenha a capacidade de levar em conta o outro como pessoa. Com respeito ao Édipo, Winnicott disse: “Não posso ver nenhum valor na utilização do termo ‘Complexo de Édipo’ quando um ou mais de um dos três que formam o triângulo é um objeto parcial. No Complexo de Édipo, ao menos do meu ponto de vista, cada um dos componentes do triângulo é uma pessoa total, não apenas para o observador, mas especialmente para a própria criança” (1988/1990, p. 67). O ambiente winnicottiano1 Conceição A. Serralha de Araújo Ao definir a sua teoria do amadurecimento pessoal, ou teoria do desenvolvimento emocional do ser humano, Winnicott enfatizou que esta inclui “a história total do relacionamento individual da criança até seu meio ambiente específico” (Winnicott, 1971b/1984, p. 14). Para ele, é uma história que, além de compreender o amadurecimento emocional do bebê, vai compreender também o amadurecimento emocional das pessoas que cuidam desse bebê, ou seja, das pessoas responsáveis – a mãe e o pai como “ambiente suficientemente bom” – pelas condições facilitadoras para que o crescimento do bebê se efetive. Desse modo, essa teoria abarca a história do relacionamento do bebê com o seu ambiente, incluindo tanto o que acontece de modo a facilitar as vivências do bebê, como as interferências que dificultam ou impedem a suficiência do ambiente e, consequentemente, o desenvolvimento do bebê. Winnicott vai considerar, então, um elemento novo em sua teoria; um elemento antes não considerado da forma como ele o fez e, pode-se dizer até, sequer nomeado, no meio psicanalítico: o “ambiente”. Esta palavra não é identificada como um conceito psicanalítico ou termo técnico; não é encontrada, por exemplo, nos índices remissivos dos 24 volumes da Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud e, mesmo tendo sido utilizada por Melanie Klein e por Anna Freud, em referência à realidade externa, não está presente na psicanálise tradicional da atualidade. As obras Vocabulário da psicanálise, de Laplanche e Pontalis, e o Dicionário de psicanálise, de Roudinesco e Plon, por exemplo, atestam esse fato. Em contrapartida, o dicionário de Jan Abram (2000), que procura abarcar os conceitos e termos utilizados por Winnicott, tem a palavra ambiente entre estes. Ao ser empreendida uma busca do significado dessa palavra na língua portuguesa, encontra-se o seguinte: “1) aquilo que cerca ou envolve os seres vivos ou as coisas, por todos os lados; envolvente; 2) aquilo que cerca os seres vivos ou as coisas, meio ambiente; 3) lugar, sítio, espaço, recinto; 4) meio” (Ferreira, 1988, p. 36). Na língua inglesa, a palavra ambiente (environment) é encontrada referindo-se “1) às condições [conditions = situação (situation) ou arredores (surroundings) nos quais as pessoas vivem, trabalham ou fazem coisas] nas quais você vive, trabalha etc.; 2) ao mundo natural, por exemplo, a terra, ar e água, no qual pessoas, animais e plantas vivem” (Oxford wordpower, 2003, pp. 226 e 139). Em um campo mais específico como o da psiquiatria, pode-se encontrar, no Dicionário de psiquiatria de Campbell (1986), o termo ambiente referindo-se a um “conjunto de elementos externos” que rodeia uma pessoa, que a estimula e a influencia, podendo ser elementosde ordens física, biológica, social e cultural. Vários autores da psicologia americana, tanto os que se aproximam da psicanálise, como Hartmann e Kohut, quanto aqueles mais distantes desta, como Skinner, utilizaram esse termo. Em recente estudo sobre a obra de Skinner, Guimarães (2003), comparando a utilização da noção de ambiente por esse autor com a noção de sexualidade, ampliada por Freud, comenta que, para Skinner, ambiente é muito mais que o ambiente físico estrutural, “incluindo aí o ambiente social, onde se encontram todo tipo de relação pessoal, interpessoal e relação com o próprio ambiente” (p. 65). Notam-se, portanto, diferenças quanto à amplitude do termo, mas, independente desse fato, existe de comum, entre essas abordagens, a presença do ambiente envolvendo, servindo de base e influenciando os seres vivos continuamente. Sendo assim, como poderia ser pensado o uso desse termo por Winnicott? O que ele estava tentando abarcar com o termo ambiente, que diferencia a sua aplicação do uso feito por esses e outros autores? 1. O ambiente na obra de Winnicott Caso se empreenda uma análise mais apurada da teoria winnicottiana, percebe-se que Winnicott rejeitou os conceitos metapsicológicos, uma vez que, para ele, estes não conseguiam definir o que pretendiam; e mais, as próprias pessoas que os utilizavam não se davam conta disso ou disfarçavam tal situação. Preferiu, em muitos casos, utilizar palavras coloquiais inglesas e comentou: “devemos todos nós (não sou nenhum anjo) evitar o uso de palavras inglesas comuns como termos técnicos e não deixar de usar palavras inglesas comuns quando elas estiverem disponíveis” (1987b/1990, p. 78). A palavra ambiente foi, portanto, utilizada por ele a partir desse viés de seu pensamento – assim como outras palavras coloquiais – para se referir às condições físicas e psicológicas necessárias ao amadurecimento emocional do ser humano. A partir do momento em que Winnicott passa a pensar o indivíduo movido por uma “urgência de viver” e, portanto, por uma necessidade de continuar a ser ao invés de buscar um objeto que lhe permita descarregar sua tensão até um nível tolerável, como na teoria freudiana, a busca desse indivíduo passa a ser pensada como a busca de um ambiente que lhe possibilite continuar sendo. A compreensão das questões psíquicas envolvidas no desenvolvimento do ser humano deixa de ser buscada na “cama da mãe” para ser alcançada no “colo da mãe”. De acordo com Loparic (1996), o “colo da mãe” será o primeiro ambiente externo com o qual o indivíduo “nascente” terá contato, e mais, apenas a condição de estar “assentado no colo da mãe” viabilizará, ao indivíduo, relações objetais. Ao declarar a importância que atribuía ao papel do ambiente, Winnicott se colocou numa posição de briga com a enfática tese de Klein acerca do intrapsíquico. De certa forma, é compreensível o furor que se estabeleceu, uma vez que, na época, valorizar algo no estudo do psiquismo humano que abrangesse mais do que apenas as questões intrapsíquicas, dizendo-se ainda um psicanalista, era inadmissível. Na biografia de Winnicott, escrita por Brett Kahr, em 1996, há um comentário de Winnicott sobre uma conversa com sua analista, Joan Riviere, colaboradora de Klein, que ilustra bem o clima desse período. Ele disse a ela: “‘eu estou quase pronto para escrever um livro sobre o ambiente’. Ela me disse: ‘Você escreve um livro sobre o ambiente e eu o transformo em um sapo’. É claro que ela não usou essas palavras [...], mas foi assim que eu me deparei com o que ela disse” (apud Kahr, 1996, p. 64). Winnicott, em seu “Pós-escrito: D. W. W. sobre D. W. W.”, de 1967, escreveu que precisou esperar um longo tempo para que se sentisse recuperado dessa reação de sua analista. O conceito winnicottiano ambiente, contudo, não é simples de ser abarcado plenamente. Winnicott utilizou a palavra ambiente em composição com outras palavras, apontando detalhes inerentes ao conceito, como também tentativas de torná-lo mais claro. Entre esses usos, pode-se encontrar a expressão meio ambiente, com a qual Winnicott faz referência a um lugar, espaço ou veículo propiciador de condições físicas e psicológicas nas quais o indivíduo vive. Quando esse meio ambiente fornece condições 100% satisfatórias no atendimento das necessidades do indivíduo, Winnicott o chama meio ambiente perfeito, embora, aqui, ele se refira a uma perfeição humana e não à de uma máquina. Entretanto, é preciso ressaltar que essa perfeição é válida apenas para a fase de dependência absoluta do indivíduo, na qual ocorre uma identificação primária em que se estabelece uma unidade (fusão) inicial da mãe com o bebê, e vice-versa, chamada organização meio ambiente-indivíduo. As condições físicas e psicológicas, que emanam dessa organização, favorecem esse amadurecimento, constituindo um ambiente satisfatório, ou seja, um ambiente facilitador das “várias tendências individuais herdadas, de tal forma que o desenvolvimento ocorre de acordo com elas” (1986b/1996, p. 18). Assim esse ambiente é, no início, “absolutamente e depois relativamente importante” e, além de ser necessário, se não for suficientemente bom, pode enfraquecer e até interromper o amadurecimento de recursos do bebê. Duas características são essenciais a esse ambiente. Uma é a adaptabilidade, ou seja, o ambiente vive um processo dinâmico de se adaptar, desadaptar e se readaptar às necessidades mutáveis da criança, à medida que esta se desenvolve. Desse modo, podem ser observadas “as funções paternais, complementando as funções da mãe, e a função da família, com sua maneira cada vez mais complexa (à medida que a criança fica mais velha) de introduzir o princípio de realidade, ao mesmo tempo que devolve a criança à criança” (Winnicott, 1986b/1996, p. 19). A outra característica do ambiente satisfatório é a sua qualidade humana, uma vez que, se não houver a presença do aspecto humano, as tendências herdadas para o desenvolvimento, por serem poderosas, podem até permitir o amadurecimento, ou seja, o desencadeamento de processos biológicos no ser, mas não permitem que este alcance uma “plenitude pessoal”. Para que o indivíduo chegue a essa plenitude, além da empatia e da dedicação do ambiente, ele terá que enfrentar decepções e frustrações provocadas pelas falhas desse mesmo ambiente, devido à condição humana de falibilidade e imperfeição. Segundo Winnicott, parte-se do pressuposto de que houve um ambiente facilitador satisfatório, como condição sine qua non para o início do crescimento e do desenvolvimento individuais. Há genes que determinam padrões e tendências herdadas para o crescimento e a aquisição de maturidade; não há crescimento emocional, no entanto, a não ser em relação à provisão ambiental, que precisa ser satisfatória. Pode-se notar que a palavra “perfeito” não entra nessa frase. A perfeição pertence às máquinas, e as imperfeições próprias da adaptação humana às necessidades constituem uma característica essencial do meio ambiente facilitador. (1986b/1996, p. 118, os itálicos são meus) As pesquisas sobre a condição de resiliência em pessoas que cresceram em ambientes adversos só vieram corroborar o que Winnicott chama a atenção veementemente: para uma criança, viver em “um cortiço pode ser mais seguro e ‘melhor’ como ambiente facilitador do que uma família com uma casa bonita, onde não existem as perseguições comuns”,2 mas também não existe amor e nem identificação com as necessidades da criança (Winnicott, 1971a/1975, p. 192). Segundo Foster (1999), neuropediatra, até mesmo para a maturação neurológica é imprescindível um relacionamento humano. De acordo com a teoria winnicottiana, as falhas do ambiente em atender às necessidades prementes da criança podem se tornar cumulativas e, em consequência, traumáticas, por acontecerem em um momento do amadurecimento cuja capacidade maturativa da criança não é suficiente para lidar com a situação. Isso provoca uma organização defensiva que impede o seu desenvolvimento. Se as falhas acontecem em um momento em que a criançapode lidar com elas, essas falhas provavelmente não se transformam em traumas, muito pelo contrário, podem favorecer o desenvolvimento da mente da criança, tornando-a capaz de criar o seu ambiente favorável pessoal. O ambiente capaz de fornecer as condições iniciais de sustentação era chamado por Winnicott de ambiente inicial. De acordo com Dias, esse “ambiente inicial deve ser entendido segundo dois [...] aspectos essenciais” inerentes a ele: “a) [...] não é externo e nem interno; b) [...] é a instância que sustenta e responde à dependência” (2003, p. 152). Considerando-se este último aspecto, compreende-se que, inicialmente, o ambiente é a mãe e seu papel tem importância vital. Suas principais características são: simplesmente existir; amar o bebê de uma maneira que este possa compreender, ou seja, fornecendo-lhe cuidados físicos (contato, temperatura corporal, movimento, quietude etc.); fornecer-lhe condições de viver a solidão essencial e, mais tarde, a oscilação entre os estados tranquilos e os excitados; fornecer alimento adequado em tempo também adequado; deixar que o bebê domine, inicialmente (ou seja, tenha tudo o que possa ocorrer dentro do âmbito de sua onipotência); apresentar a este o mundo externo, comedidamente, de acordo com sua capacidade de assimilá-lo; proteger o bebê de coincidências e choques, ou seja, tornar-lhe os eventos minimamente previsíveis; e fornecer-lhe estabilidade: uma continuidade de cuidados que permita ao bebê ir sentindo uma continuidade pessoal e interna (Winnicott, 1958a/1993). Entretanto, para tudo isso ocorrer, a mãe precisa receber holding do pai; o papel inicial deste, liberando a mãe de preocupações alheias ao bebê, é básico e fundamental. Na teoria de Winnicott, existem dois papéis complementares e imprescindíveis um ao outro para constituir todo e qualquer ambiente favorável ao amadurecimento humano: o papel materno e o papel paterno. Desse modo, ficará impossível deixar de reconhecer que não existe uma “mãe suficientemente boa” sem um “pai suficientemente bom”, o que vai contra uma crítica constante à teoria winnicottiana de que esta não se atentaria ao papel do pai.3 Winnicott comenta: O tema do ambiente facilitador capacitando o crescimento pessoal e o processo maturacional tem que ser uma descrição dos cuidados que o pai e a mãe dispensam, e da função da família. Isso leva à construção da democracia como uma extensão da facilitação familiar, com os indivíduos maduros eventualmente tomando parte de acordo com sua idade e capacidade na política e na manutenção e reconstrução da estrutura política. (1986b/1996, p. 92) É importante ressaltar, contudo, em relação ao primeiro aspecto do ambiente inicial, que esse ambiente não é percebido pelo bebê como externo a ele, embora assim seja percebido pelo observador. A objetividade e a externalidade do ambiente somente serão alcançadas pelo bebê à medida que os seus recursos hereditários amadureçam e lhe permitam isso, o que só pode acontecer por meio da facilitação do ambiente. Winnicott adverte, assim, que, mesmo sendo necessária, essa facilitação não é tudo. Em suas palavras, “o ambiente favorável torna possível o progresso continuado dos processos de maturação. Mas, o ambiente não faz a criança. Na melhor das hipóteses possibilita à criança concretizar seu potencial” (1965b/1990, p. 81). Apesar dessa constatação, Winnicott frisou sempre a necessidade que o bebê tem de um ambiente facilitador e as consequências da ausência deste. Esta última pode interromper e até bloquear definitivamente o amadurecimento emocional do indivíduo. Segundo Winnicott, “uma pessoa madura pode participar de seu próprio manejo, uma criança só pode tomar parte até certo ponto, e um bebê no início depende absolutamente de um ambiente que pode escolher adaptar-se às suas necessidades ou então não se adaptar e ignorá-las” (1987b/1990, pp. 41-42). Dessa maneira, se os pais dependem das tendências hereditárias da criança, a responsabilidade deles acerca do desenvolvimento desta vai se encontrar então na capacidade que tiverem de lidar adequadamente com o que for se apresentando, tanto hereditária quanto “acontecencialmente”. Segundo Winnicott, a partir de condições favoráveis, o indivíduo consegue criar condições próprias de cuidado, ou seja, ele “pode gradualmente vir a criar um meio ambiente pessoal, devido à incorporação dos cuidados” (1958a/1993, p. 379). A esse ambiente próprio interior,4 Winnicott chama de meio ambiente pessoal, embora a mesma expressão tenha sido utilizada por ele em outras ocasiões para se referir ao fato de que as condições eram oferecidas ao indivíduo, por uma pessoa com ele envolvida. Destarte, ao ambiente cujas condições são proporcionadas por pessoas não emocionalmente envolvidas com o indivíduo, Winnicott chama de ambiente impessoal. Em relação a este, os cuidados físicos oferecidos pela equipe de enfermeiros de um hospital podem ser citados como exemplo. Às condições oferecidas à família do indivíduo e, consequentemente, a este, por pessoas da sociedade próximas a eles, Winnicott chama de ambiente social imediato. No entanto, ao especificar melhor a natureza do ambiente que se constitui sempre que as condições são proporcionadas por pessoas, ele o chama de ambiente humano. Se as condições são oferecidas por coisas e/ou limites físicos como, por exemplo, uma casa,5 esse ambiente é chamado de ambiente não-humano. Contudo, Winnicott nomeia, com a mesma expressão, o ambiente não projetivo, ou seja, o ambiente (mãe, pai, família, lugar) capaz de afetar o bebê antes de ser constituído por projeções deste. As condições advindas da convivência familiar, por sua vez, constituem o ambiente que Winnicott chama de ambiente doméstico, sendo que esse lar pode se particularizar, principalmente no início da vida do indivíduo, constituindo-se em um ambiente emocional simplificado, formado pelas condições psicológicas básicas fornecidas por uma só pessoa, ou poucas pessoas, que estejam com ele envolvidas. Essas condições básicas são, frequentemente, encontradas na obra winnicottiana, resumidas na expressão mãe-ambiente, que vai se referir às condições psicológicas de sustentação (holding) no tempo e no espaço, de manuseio e manejo (handling e management) e de possibilidade de contato adequado com a realidade, oferecidas pela pessoa cuidadora do indivíduo, comumente, a mãe. Já por meio da expressão meio ambiente interno, Winnicott descreve as condições intrapsíquicas do indivíduo adquiridas em razão da incorporação de padrões do ambiente externo, como também da construção de um “padrão pessoal de expectativas” (1988/1990, p. 175; sendo, portanto, o primeiro significado, aqui relatado, do meio ambiente pessoal). Um ponto importante de ser comentado é o fato de que esse ambiente interno não pode ser confundido com o conceito de mundo interno. Na verdade, o ambiente interno possibilita a construção e a manutenção do mundo interno, embora esteja concomitantemente sendo constituído. Para essa construção, primeiramente, contribuem as experiências instintuais do indivíduo, que independem do lugar e da cultura em que este vive. Em segundo lugar, há a contribuição das “coisas incorporadas, mantidas ou eliminadas”, que, embora sejam comuns a todos os indivíduos, podem ter diferenças dependentes dos costumes e da época como, por exemplo, o seio, a mamadeira, a água de côco etc. Por último, tem-se a contribuição das “relações totais”, ou seja, das situações que são passíveis de serem elaboradas imaginativamente pelo bebê de uma forma ampla, que se referem à pessoa propriamente numa “situação real, incluindo acontecimentos com aquela mãe, babá, tia reais, naquela casa, cabana, tenda reais, com a realidade que se apresenta. A ansiedade, o mau humor e a falibilidade da mãe deveriam ser incluídos aqui, da mesma forma que a maternagem suficientemente boa comum. O pai entra indiretamente como marido e diretamente como mãe-substituta” (1958a/1993, p. 451). Dessa maneira, o mundo interno pode ser reconhecido na elaboraçãoimaginativa que a pessoa passa a localizar inconscientemente “dentro de si mesma” (Winnicott, 1988/1990, p. 5) e o ambiente interno nas condições dentro de si que a propiciam, sejam elas “boas” ou “más”. Quanto à qualidade favorável ou desfavorável das condições ambientais oferecidas ao indivíduo, juntamente com a suficiência ou insuficiência destas, Winnicott nomeia ambiente suficientemente bom às condições favoráveis físicas e psicológicas com as quais o indivíduo convive e que são adequadas o suficiente à necessidade deste; por conseguinte, nomeia ambiente não suficientemente bom o ambiente cujas condições favoráveis oferecidas são insuficientes às necessidades do indivíduo. Também vai chamar de ambiente mau o ambiente cujas condições favoráveis inexistem, ou seja, as condições oferecidas são “inóspitas” (por serem caóticas, de insegurança etc.) e não permitem o desenvolvimento global do indivíduo. Neste caso, o montante de condições à disposição do indivíduo, a provisão do ambiente, deverá se especializar, promovendo condições de confiabilidade, segurança e objetividade, após o fracasso da provisão ambiental inicial. O ambiente tornar-se-á, então, um ambiente especializado, formado por profissionais como assistente social, psicanalista, entre outros, e até mesmo pelos próprios pais. Notam-se, portanto, na teoria de Winnicott, expressões por meio das quais se apreende, do ponto de vista do observador, tanto referências às condições emocionais ou psicológicas que envolvem o indivíduo, quanto referências às condições físicas ou concretas propiciadas pela presença real de pessoas e/ou coisas. Talvez isso possa ser ilustrado com a tentativa de um paciente de Winnicott, em sessão, de descrever aquilo de que se dava conta: “é como o óleo no qual as engrenagens funcionam” (1988/1990, p. 150). Parece que, analogicamente, esse paciente apreendeu bem o que Winnicott chamou de “meio”, tanto em relação à parte física do ambiente interno ou externo, quanto às condições possibilitadoras de um bom funcionamento psíquico que emanam dessa parte, e que, consequentemente, promovem o desenvolvimento do indivíduo. Já do ponto de vista do bebê, todas essas condições essenciais, no início, não são percebidas ou apreendidas, mas o bebê “se torna perceptivo, não de uma falha do cuidado materno, mas dos resultados, quaisquer que sejam, dessa falha; quer dizer, o lactente se torna consciente de reagir a alguma irritação” (1965b/1990, p. 51) quando as condições essenciais são insatisfatórias ou inexistentes. Além de usar a palavra ambiente de forma literal nas expressões acima enunciadas, Winnicott fez uso, ainda, de outras expressões que insinuam o seu significado como “condições intrauterinas”, “meio”, “unidade fusional inicial”, “atitude total”, “maternagem”, “mãe”, e até mesmo “setting”, como na afirmação: “a psique individual só pode ter início dentro de um determinado setting” (1958a/1993, p. 379). O relacionamento que a teoria winnicottiana evidencia como necessário à continuidade de ser do indivíduo é um relacionamento de mutualidade entre o indivíduo – psicossomaticamente relacionado em seu ambiente pessoal – e o ambiente que o envolve, embora este último tenha que assumir uma responsabilidade maior nesse relacionamento, uma vez que o bebê, além de ser totalmente dependente do ambiente para desenvolver o seu potencial herdado, no início, não tem a mínima condição de saber dessa sua dependência. Nesse ponto, torna-se importante discutir em que Winnicott se diferenciou de Freud. 2. Winnicott e Freud Segundo Winnicott (1965b/1990), Freud, de certa forma, “negligenciou a infância como um estado”. Ao utilizar o termo “negligenciou”, Winnicott presume que Freud foi “obrigado” a assim proceder por faltar-lhe condições de discutir o que intuía acerca da importância do cuidado materno. Em uma nota do texto “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”, de 1911, Freud comenta uma análise feita sobre o lactente, que pode ser justificada “desde que se inclua o cuidado que recebe da mãe” (1911/1996, p. 279). Para Winnicott, Freud assume, com essa afirmação, não só a importância do ambiente, mas a questão da dependência do bebê em relação ao ambiente. Chega até a se perguntar, quando proferiu que “não há coisa como um lactente”: “Estava eu influenciado, sem sabê-lo, por este rodapé de Freud?” (1965b/1990, nota p. 40). Pode ser que sim. Contudo, ao contrário de Freud, Winnicott não negligenciou o aspecto da dependência absoluta do bebê em relação ao ambiente no início da vida – a dupla dependência. Ele conseguiu aprofundar seu estudo indo até as questões mais primárias da vida de um ser humano. Freud estava totalmente absorvido na descoberta e confirmação dos elementos que formaram a sua teoria da sexualidade e não conseguiu se desligar desta para levar em conta outros aspectos concomitantes às excitações vividas pelo bebê em seu relacionamento com as pessoas (os objetos). De acordo com Loparic (2005), “o modelo ontológico [de Freud] do ser humano, explicitado na parte metapsicológica da teoria, comporta um aparelho psíquico individual, movido por pulsões libidinais, forças psíquicas determinadas por leis causais” (p. 3). A situação inicial do bebê freudiano era, então, vista da seguinte maneira: A primitiva escolha de objeto feita pela criança e dependente de sua necessidade de amparo exige-nos ainda toda a atenção. Essa escolha dirige-se primeiro a todas as pessoas que lidam com a criança e logo depois especialmente aos genitores. A relação entre criança e pais não é, como a observação direta do menino e posteriormente o exame psicanalítico do adulto concordemente demonstram, absolutamente livre de elementos de excitação sexual. A criança toma ambos os genitores, e particularmente um deles, como objeto de seus desejos eróticos. Em geral o incitamento vem dos próprios pais, cuja ternura possui o mais nítido caráter de atividade sexual, embora inibido em suas finalidades. (Freud, 1910[1909]/1996, pp. 57-58) A atenção que Freud pede é para a realidade das excitações sexuais presentes desde o contexto que Winnicott chamou de ambiente inicial. Entretanto, para enfatizar essa realidade, Freud, nas palavras de Winnicott, “negligenciou” todas as outras realidades, como a necessidade de segurança e de confiabilidade, sentimentos que tornariam possíveis, à criança, integrar essas excitações. Se esta não estiver assegurada, satisfeita em sua “necessidade de amparo”, as excitações sexuais serão vividas de outra maneira, dissociadas da integração psique-soma, podendo resultar num estado de rigidez extrema, oscilando entre a compulsão, de um lado, e o evitamento dessas excitações, de outro, caracterizando patologias. Como bem comentou Fulgencio (2003): Dizer que a sexualidade é um fator importante na regulação e “objetivos” das relações entre os homens, entre os sujeitos e seus objetos, é [...] um importante dado empírico, mas dizer que ela é o único guia que regula todas as ações humanas também só pode ser reconhecida como uma hipótese especulativa, pois seria preciso admitir que todos os processos psíquicos são guiados pelo princípio do prazer; entretanto, essa hipótese parece encontrar dificuldades em ser comprovada pela observação. (p. 138) É como se Freud fechasse os olhos àquilo que primeiramente guia os pais: a identificação com as necessidades urgentes do bebê, possibilitando o fornecimento de condições físicas e psicológicas adequadas para que, mais tarde, este possa experienciar seus desejos eróticos; uma identificação que é justamente a essência do que Winnicott denominou mãe ambiente. Para este autor, é a satisfação dessas necessidades – apresentando o que o bebê precisa no momento em que ele necessita – que ilude o bebê de que é ele próprio quem cria o mundo que o satisfaz e de que existe um contato direto, sem separação, com esse mundo. Assim, o mundo subjetivo do bebê se evidencia: ele é a mãe e a mãe é ele. Aos poucos, começa a ser desenvolvido um espaço potencial entre o bebê e a mãe,no qual o brincar poderá acontecer, auxiliando o bebê em seu processo de realização dos objetos e acontecimentos externos, como também de seu si-mesmo, permitindo-lhe que se perceba separado da mãe. Nota-se, portanto, que a diferença do que é prioritário para o desenvolvimento do ser conduz diferentemente as teorias de Freud e Winnicott. De acordo com Winnicott (1988/1990), é a natureza humana que faz com que o ser humano não consiga prescindir da “ilusão de contato” direto com o outro (realidade externa); é essa ilusão que deverá estar presente desde o começo para que o bebê não se aflija. Caso se torne muito aflito com a ideia de não existir um contato direto com a realidade externa, o bebê sentir-se-á continuamente ameaçado de perder a capacidade de se relacionar. Se essa ilusão é bem estabelecida e com ela a capacidade para se relacionar, o bebê poderá seguir em seu desenvolvimento rumo ao reconhecimento da solidão essencial inerente ao ser humano. Um bebê que alcança esse estágio poderá dizer: Eu sei que não há nenhum contato direto entre a realidade externa e eu mesmo, há apenas uma ilusão de contato, um fenômeno intermediário que funciona muito bem para mim quando não estou muito cansado. A mim não importa nem um pouco se aí existe ou não um problema filosófico. (Winnicott, 1988/1990, p. 135) Se o que existe é uma ilusão de contato, há um espaço potencial entre o bebê e a mãe desde o começo; e, sendo assim, se houver um ambiente favorável, fenômenos e objetos transicionais serão produzidos, permitindo o desenvolvimento e a constituição efetiva desse espaço como uma área intermediária de experiência, no estágio da transicionalidade, no qual o bebê começa o seu reconhecimento do mundo objetivo ao mesmo tempo que integra seu mundo subjetivo. Os fenômenos e objetos transicionais produzidos facilitarão o encontro com essa realidade objetiva: na ausência da mãe (ou dos cuidados do ambiente), o bebê produz o objeto transicional justamente porque não consegue conviver com essa ausência sem uma conotação trágica; sendo assim, o objeto vem fazer as vezes de uma mãe que existe e que é confiável. Com o amadurecimento, quando a ausência já pode ser experienciada de uma forma tranquila, o objeto transicional é “relegado ao limbo”, perdendo a sua função. A ausência está ali e não é mais necessária uma presença que a encubra. Agora ele já pode perceber um objeto como símbolo de uma falta, pois já reconhece essa falta, embora não deixe de se relacionar com algum objeto. Melhor dizendo: por ser um ser cuja independência é apenas relativa e cuja natureza é relacionar-se com o outro (“ser-com-os-outros”), na falta de um contato direto ele brinca e, na continuidade do brincar, cria os objetos da cultura, que lhe permitirão se relacionar com os outros mesmo na ausência destes (Winnicott, 1971a/1975). 3. Considerações finais Do exposto, pode-se perceber que Winnicott, quando usa a palavra ambiente isoladamente, faz menção às condições físicas e psicológicas (tanto subjetivas quanto internas) do ambiente que envolve o ser humano e que são necessárias ao amadurecimento emocional deste. Assim, a palavra ambiente, como um conceito ou termo técnico que designa um conjunto de “condições para”, quando usada de forma isolada, não pode prescindir de seu aspecto físico ou concreto, ou seja, dos elementos reais (os objetos) que fornecem as condições para o amadurecimento do bebê. Entre as condições psicológicas, encontram-se tanto o que é propiciado pelo que é consciente quanto pelo que é inconsciente.6 Ambiente é, portanto, um termo global. Faz-se importante salientar que esse ambiente possui a característica de ser dinâmico, adaptando-se de acordo com cada momento do amadurecimento do indivíduo. Contudo, caso essa adaptação não ocorra adequadamente, estabelecem-se dificuldades de relacionamento com a realidade, tanto interna quanto externa, e, segundo Winnicott, será uma questão de sorte o quanto o indivíduo será capaz de se relacionar, como também a qualidade desse relacionamento: a sorte de ter podido contar com um ambiente “cuja adaptação ativa inicial à necessidade foi suficientemente boa” (1988/1990, p. 135). Referências Abram, J. (2000). A linguagem de Winnicott. Rio de Janeiro: Revinter. Araújo, C. A. (2005). O ambiente em Winnicott. Winnicott e-Prints, 4(1). Campbell, R. J. (1986). Dicionário de psiquiatria. São Paulo: Martins Fontes. Dias, E. O. 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Winnicott inclui nesse trecho uma nota, identificando o que seriam essas perseguições: “superpopulação, inanição, infestações, a ameaça constante de doenças físicas, de desastres e das leis promulgadas por uma sociedade benevolente” (Winnicott, 1971a/1975, p. 192). 3. Ressalta-se aqui que, quando Winnicott fala em “mãe suficientemente boa”, e, acompanhando-o, diz-se “pai suficientemente bom”, ele está se referindo ao papel materno e ao papel paterno essenciais ao crescimento saudável da criança. Assim, na falta da mãe biológica, ou do pai biológico, esses papéis poderão ser desempenhados por quaisquer pessoas da família ou externas