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Winnicott
na Escola de São Paulo
Elsa Oliveira Dias
Zeljko Loparic
(orgs.)
© by DWW editorial para a edição em língua portuguesa
1ª. edição: maio de 2011
eISBN: 978-85-62487-07-1 (on line)
Diretores: Elsa Oliveira Dias (elsadias@uol.com.br)
Zeljko Loparic (loparicz@uol.com.br)
Conselho editorial: Ariadne Moraes (ariadne.moraes@uol.com.br)
Caroline Vasconcelos Ribeiro (carolinevasconcelos@hotmail.com)
Conceição A. Serralha (serralhac@hotmail.com)
Eder Soares Santos (edersan@hotmail.com)
Oswaldo Giacoia Junior (ogiacoia@hotmail.com)
Róbson Ramos dos Reis (robsonramosdosreis@gmail.com)
Roseana Moraes Garcia (roseanagarcia@uol.com.br)
Vera Laurentiis (veralaurentiis@terra.com.br)
Coordenação editorial: Meire Cristina Gomes (meire@sbpw.com.br)
Diagramação digital: Microart Com. Editoração Eletrônica Ltda. (www.microart.com.br)
Capa: Sandra Rosa
Texto em conformidade com o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária
Eliana Marciela Marquetis – CRB-8 nº 3573
Winnicott na Escola de São Paulo [recurso eletrônico] / Elsa Oliveira Dias e Zeljko Loparic
(orgs.). – São Paulo : DWW Editorial, 2011.
v.: digital. - (Coleção Psicanálise Winnicottiana)
eISBN 978-85-62487-07-1(on line)
1. Winnicott, D. W. (Donald Woods), 1896-1971. 2. Psicanálise. 3. Psicologia educacional. 4.
Psicologia infantil. I. Dias, Elsa Oliveira. II. Loparic, Zeljko. III. Série.
21 CDD 150.195
370.15
155.4
Índice para catálogo sistemático
Psicanálise 150.195
Psicologia educacional 3790.15
Psicologia infantil 155.4
DWW editorial
Rua João Ramalho, 146 – Perdizes
mailto:elsadias@uol.com.br
mailto:loparicz@uol.com.br
mailto:ariadne.moraes@uol.com.br
mailto:carolinevasconcelos@hotmail.com
mailto:serralhac@hotmail.com
mailto:edersan@hotmail.com
mailto:ogiacoia@hotmail.com
mailto:robsonramosdosreis@gmail.com
mailto:roseanagarcia@uol.com.br
mailto:veralaurentiis@terra.com.br
mailto:meire@sbpw.com.br
http://www.microart.com.br/
CEP 05008-000 – São Paulo – SP
Tel.: (11) 3676-0635
E-mail: dwweditorial@sociedadewinnicott.com.br
www.dwweditorial.com.br
mailto:dwweditorial@sociedadewinnicott.com.br
http://www.dwweditorial.com.br/
Sumário
Prefácio
Sobre os autores
Parte I
Surgimento do paradigma winnicottiano
De Freud a Winnicott: aspectos de uma mudança paradigmática
Zeljko Loparic
1. O paradigma freudiano
2. A crise do paradigma freudiano e os principais resultados
da pesquisa revolucionária de Winnicott
3. Detalhamento de alguns aspectos teóricos da revolução
winnicottiana
Referências
A irritabilidade (Reizbarkeit) como característica distintiva do
aparelho psíquico de Freud
João Paulo F. Barretta
1. Introdução
2. O aparelho psíquico na primeira tópica (cap. VII de A
interpretação dos sonhos)
3. A característica essencial do aparelho psíquico freudiano: a
Reizbarkeit
4. Os problemas clínicos enfrentados pelo modelo de 1900 e a
solução freudiana
5. Conclusão
Referências
Winnicott e uma psicanálise sem metapsicologia
Leopoldo Fulgencio
1. Introdução
2. Natureza, função e características dos conceitos meta-
psicológicos para Freud
3. Os sentidos do termo metapsicologia na obra de Winnicott
4. Críticas de Winnicott aos conceitos de pulsão de vida
(Lebenstriebe) e de morte (Todestriebe)
5. A redescrição do conceito de instinto e o abandono do
conceito de pulsão (Trieb)
6. A substituição do conceito de pulsão (Trieb)
7. O abandono da noção de aparelho psíquico
8. O abandono do conceito de libido como uma energia
psíquica
9. A substituição da teorização metapsicológica pela factual
Referências
Winnicott e o Middle Group: a diferença que faz diferença
Ariadne Alvarenga de Rezende Engelberg de Moraes
1. Psicanálise britânica
2. Winnicott: dissidência política ou teórica?
3. Rompimento com Klein
4. Winnicott e os teóricos das relações objetais: a diferença
5. A diferença compreendida como contribuição teórica
Referências
Winnicott e Heidegger: relações entre o amadurecimento pessoal e
a acontecência humana
Eder Soares Santos
1. Introdução
2. Relação entre a teoria psicanalítica de Winnicott e a
filosofia de Heidegger
3. Relação entre a teoria do amadurecimento e a psicanálise
tradicional
4. Heidegger e Winnicott: relação de interlocução
5. A acontecência humana e o amadurecimento pessoal:
relação conceitual
6. Mudança de paradigma em Winnicott
7. Considerações finais
Referências
Heidegger e Winnicott: pensadores da origem (Anfang)
Caroline Vasconcelos Ribeiro
Referências
Parte II
Articulação do paradigma winnicottiano
A teoria winnicottiana do amadurecimento como guia da prática
clínica
Elsa Oliveira Dias
1. Introdução
2. A teoria do amadurecimento como guia da ação terapêutica
3. A teoria do amadurecimento
4. Critérios para uma classificação dos distúrbios psíquicos
5. As diferentes naturezas de um mesmo distúrbio segundo a
teoria do amadurecimento
Referências
O ambiente winnicottiano
Conceição A. Serralha de Araújo
1. O ambiente na obra de Winnicott
2. Winnicott e Freud
3. Considerações finais
Referências
Condições traumáticas na relação mãe-bebê
Orestes Forlenza Neto
Referências
A questão do suicídio na teoria de D. W. Winnicott
Flávio Del Matto Faria
Referências
O papel do pai no processo de amadurecimento em Winnicott
Claudia Dias Rosa
1. Introdução
2. A presença do pai no período de dependência absoluta
3. A presença do pai no período de dependência relativa
4. A presença do pai no estágio do concernimento
5. A presença do pai no estágio edípico
Referências
A incerta conquista da morada da psique no soma em D. W.
Winnicott
Vera Regina F. de Laurentiis
Referências
A teoria do amadurecimento pessoal de D. W. Winnicott e a
fisioterapia
Maria Emília Mendonça
1. No que consiste a teoria winnicottiana do amadurecimento
pessoal
2. Os primeiros estágios do amadurecimento pessoal
3. A compreensão dos primeiros estágios do amadurecimento
pessoal e a fisioterapia
4. Cenário atual da prática do fisioterapeuta
5. Vinheta de um tratamento fisioterápico com a presença de
questões complicadoras
6. Como se dá a formação do fisioterapeuta
7. D. W. Winnicott falando diretamente aos fisioterapeutas
8. Possíveis aproximações entre o pensamento de Winnicott e
aspectos da fisioterapia
Referências
Parte III
Exemplares do paradigma winnicottiano
O caso B: a mãe perfeita e a constituição do si-mesmo
Gabriela Galván
Referências
Os elementos masculino puro e feminino puro na clínica: a história
de Vítor
1. Introdução
2. Com um pé em cada canoa
3. Considerações finais
Referências
O manejo de Winnicott no caso Philip
Maria de Fátima Dias
1. Introdução
2. Diagnóstico
3. A história de Philip
4. O manejo
5. Conclusão
Referências
O uso da consulta terapêutica na clínica da tendência antissocial
Roseana Moraes Garcia
1. A tendência antissocial
2. As consultas terapêuticas
3. Luana
4. Primeira entrevista com a mãe
5. Consulta terapêutica com Luana
6. Segunda entrevista com a mãe
7. Comentários
Referências
Um caso clínico: sobre as repercussões derivadas da atitude de
cuidado no início da apresentação de sintomas antissociais
Alice McCaffrey Busnardo
1. O caso clínico de Pedro
2. O Jogo de Varetas
3. Trechos de sessões
4. Desdobramentos
5. Considerações finais
Referências
A construção do eu de crianças cegas congênitas
Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian
1. A teoria do amadurecimento e a construção do eu da
criança com cegueira congênita
2. O desenvolvimento emocional primitivo e a criança com
cegueira congênita
3. Considerações finais
Referências
Perto das trevas: a história de um colapso
Edna Pereira Vilete
Referências
A função do falso self na produção de uma diva: o caso Maria
Callas
Alfredo Naffah Neto
1. A diva, que fascina...
2. Maria Callas, vida e obra
3. Mimetizando figuras do mundo por meio do falso self: a
criação da diva
Referências
Prefácio
Com a coletânea Winnicott na Escola de São Paulo, comemoramos o
décimo aniversário da fundação, em 2001, do Centro Winnicott de São
Paulo (CWSP). Várias outras datas, relativas a iniciativas afins que tambémempreendemos em conjunto, merecem ser associadas a essa comemoração:
o início, em 1995, da série ininterrupta de Colóquios Winnicott de São
Paulo, de caráter internacional; a criação formal, também em 1995, na
PUC-SP, do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas
(GFPP), credenciado junto ao CNPq e hoje sediado na Unicamp; o
lançamento, por esse grupo, em 1999, da revista Natureza humana. Em
2003, o CWSP abriu a Escola Winnicottiana de Psicanálise, transformada,
em 2005, em filial da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana
(SBPW), fundada nesse mesmo ano com o objetivo de promover o estudo e
o desenvolvimento da psicanálise winnicottiana, bem como a formação de
profissionais que desejam atuar nesse quadro teórico e clínico. Em 2008, a
Sociedade Winnicott ganhou sede própria em São Paulo, que hoje abriga,
além da Escola, a DWW editorial, a editora da Sociedade. Já em 2006,
foram criados os Centros Winnicott do Triângulo Mineiro e de Campinas,
os quais, junto com os mais recentes Grupos Winnicott de Lorena e Belo
Horizonte, desenvolvem, em níveis diferentes, essas mesmas atividades.
A caracterização inicial da psicanálise winnicottiana, usada como base
do ensino na Escola Winnicottiana de Psicanálise e das pesquisas dos
membros dos centros e dos grupos da SBPW, foi feita nos trabalhos
desenvolvidos no quadro do GFPP, de acordo com uma linha de pesquisa
desenvolvida por Zeljko Loparic já em meados dos anos 1980. Tendo
fundado, em 1983, no Centro de Lógica da Unicamp, o Curso de
Especialização em Fundamentos Filosóficos da Psicologia e da Psicanálise,
Loparic começou a trabalhar a filosofia e a história da psicanálise usando
um referencial teórico próprio, elaborado com base na 1) teoria kantiana de
resolução de problemas filosóficos e científicos, 2) teoria dos paradigmas e
das mudanças de paradigmas nas ciências factuais de Thomas S. Kuhn,
inserida no horizonte mais amplo de uma teoria da ciência em geral como
atividade de resolução de problemas e 3) fenomenologia heideggeriana da
relação do homem ao ser, tomada como base para a desconstrução da
metafísica e como ponto de partida para a elaboração de um novo tipo de
saber, tanto filosófico como científico, sobre o homem. Kant era empregado
para repensar a estrutura da psicanálise freudiana, Kuhn para dar um
enfoque metodológico e epistemológico preciso ao estudo do
desenvolvimento das teorias e das práticas clínicas psicanalíticas pós-
freudianas, e Heidegger para desconstruir os ingredientes metafísicos da
psicanálise tradicional e lançar os alicerces filosófico-antropológicos para
uma possível ciência psicanalítica pós-metafísica.
Essa linha de pesquisa, enriquecida pelos trabalhos teórico-clínicos de
Elsa Oliveira Dias sobre Winnicott, recebeu um impulso decisivo das
seguintes descobertas fundamentais, feitas ainda na fase informal da
existência do GFPP, no início dos anos 1990, e consolidadas
posteriormente: 1) Winnicott abandonou o Édipo como complexo nuclear
da psicanálise, substituiu a teoria da sexualidade pela teoria do
amadurecimento pessoal e recusou o modo de teorização metapsicológico,
de inspiração kantiana; 2) ao fazer isso, além de trazer muitas outras
contribuições, Winnicott produziu, por uma operação que pode ser
comparada a um Gestalt switch, uma mudança do paradigma da psicanálise
tradicional e 3) o paradigma winnicottiano da psicanálise, não-edipiano,
maturacional e pós-metapsicológico, admite ser aproximado, de maneira
frutífera, do pensamento do ser de Heidegger, em particular, do projeto
heideggeriano de uma antropologia científica pós-metafísica, explicitado
em Seminários de Zollikon, que incluísse uma psicopatologia e uma terapia
no quadro de uma antropologia filosófica, cujas bases foram lançadas na
analítica existencial de Ser e tempo.
Os trabalhos realizados de acordo com essa linha de pesquisa, criada na
Unicamp, transferida em seguida para a PUC-SP e continuada atualmente
na SBPW, por seus membros e colaboradores, foram divulgados de várias
formas – dissertações e teses, livros e artigos em revistas nacionais e
estrangeiras. Um número significativo de artigos saiu na revista Natureza
humana, que, inicialmente, era uma publicação local do GFPP e,
posteriormente transformada em revista internacional de filosofia e
psicanálise, tornou-se órgão oficial da SBPW e da Sociedade Brasileira de
Fenomenologia. Outros artigos encontram-se disponíveis na Winnicott e-
Prints, revista eletrônica da SBPW, especializada em aspectos teórico-
clínicos da psicanálise winnicottiana.
A presente coletânea, que faz parte da Coleção Psicanálise
Winnicottiana, da DWW editorial, contém uma seleção de artigos
representativos da Escola, escolhidos pelos próprios autores. Vários desses
textos foram corrigidos ou parcialmente modificados, pelos próprios
autores, para a presente publicação. A normatização foi feita segundo as
regras da APA e as datas das publicações originais das obras de D. W.
Winnicott seguem a classificação de K. Hjulmand, publicada na Natureza
humana, v. 1, n. 2, 1999 e também em:
http://www.winnicottnaturezahumana.com.br.
Os artigos selecionados foram divididos tematicamente em três grupos:
os que tratam do surgimento do paradigma winnicottiano, os que articulam
essa reformulação da psicanálise e, por fim, os que apresentam casos
clínicos ou de outro tipo que ilustram as ideias de Winnicott. No artigo de
abertura, Loparic reapresenta e desenvolve uma das suas teses principais
relativas a Winnicott: a de que este autor, ao operar a mudança
paradigmática na psicanálise, alterou a estrutura e os ingredientes do mundo
no qual os psicanalistas formulam e resolvem problemas clínicos, bem
como o seu modo de ver e de falar. O artigo de João Paulo F. Barretta trata
da irritabilidade do aparelho psíquico, um dos conceitos essenciais da teoria
freudiana, retomando as críticas apresentadas anteriormente na sua tese de
doutorado e baseadas na analítica existencial de Heidegger. Leopoldo
Fulgencio, na perspectiva aberta por Loparic, desenvolve uma das teses
iniciais e fundamentais da Escola: a de que Winnicott reescreveu a teoria
psicanalítica sem recorrer ao modo de teorização especulativo,
característico da parte metapsicológica da psicanálise freudiana. Ariadne
Alvarenga de Rezende Engelberg de Moraes examina um momento
importante da história da psicanálise britânica, a relação entre Winnicott e o
assim chamado Middle Group. O primeiro grupo temático contém mais dois
artigos, nos quais a relação entre Winnicott e Heidegger é estudada por Eder
Soares Santos e Caroline Vasconcelos Ribeiro: o primeiro traça um paralelo
entre a teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal e a fenomenologia
da acontecência humana, exposta em Ser e tempo, e a segunda, à luz da
http://www.winnicottnaturezahumana.com.br/
crítica de Heidegger à psicanálise freudiana, mostra a diferença crucial
entre Freud e Winnicott, e, tomando como fio condutor o conceito de
“história de vida”, examina a distinção entre começo e origem.
O segundo grupo temático é encabeçado pelo artigo de Elsa Oliveira
Dias, que explicita o modo como a teoria winnicottiana do amadurecimento
serve de horizonte teórico para a classificação dos distúrbios psíquicos e
como esta, por sua vez, orienta o diagnóstico e a tarefa clínica que daí
decorre. Seguem-se textos que articulam adicionalmente a versão
winnicottiana da teoria psicanalítica. Conceição A. Serralha de Araújo põe
em evidência o ambiente e as relações ambientais, as quais, segundo
Winnicott, fundamentam as relações objetais, tese que implica ser
impossível classificar a psicanálise winnicottiana, junto com a de Klein e de
Fairbairn, entre as teorias das relações objetais. Orestes Forlenza Neto
revisita outro tema central em Winnicott: o do bebê no colo da mãe e os
traumas que podem acontecer nessa situação. Flávio Del Matto Faria
explicita a teoria winnicottiana do suicídio, assunto relativo à problemática
de aniquilação do indivíduo pelas intrusões ambientais na primeira infância,
tal como compreendidapor Winnicott e praticamente inexistente em Freud.
Claudia Dias Rosa dedica-se ao estudo de um tópico que até o presente
momento recebeu pouca atenção nos estudos winnicottianos fora da Escola:
o papel do pai no processo de amadurecimento, mostrando ser este, ao lado
da mãe, figura essencial na constituição de indivíduos sadios. Vera Regina
F. de Laurentiis, tratando da incerta conquista da morada da psique no soma
em Winnicott, e Maria Emília Mendonça, abordando a relação entre a
psicanálise e a fisioterapia, exploram o tema winnicottiano da
personalização, fechando esse grupo de trabalhos com resultados que vão
além da clínica psicanalítica propriamente dita e que chamam por
confrontações adicionais de Winnicott com outras áreas, entre elas a das
práticas preventivas e da medicina, em particular, a psiquiatria e as
neurociências.
O último grupo temático consiste de estudos de casos entendidos como
exemplares do paradigma winnicottiano, isto é, como exemplos de soluções
bem-sucedidas de problemas clínicos tratados ou examinados à luz da
psicanálise winnicottiana. O artigo de Gabriela Galván reconstrói aspectos
centrais de um dos casos clínicos mais importantes relatados por Winnicott,
o caso B, mostrando a conexão entre uma mãe perfeita e as distorções na
constituição do si-mesmo. O artigo coletivo de Cecilia Luiza Montag
Hirchzon, Maria Cecilia Schiller Sampaio Fonseca e Maria Lucia Toledo
Moraes Amiralian apresenta a aplicação clínica de mais um conceito
original de Winnicott: o dos elementos masculino puro e feminino puro.
Maria de Fátima Dias lança luz sobre um procedimento fundamental da
clínica winnicottiana, o manejo, mediante o relato minucioso de um caso
clínico, o de Philip, de 9 anos, em que a família do menino assumiu o
tratamento, sendo orientada de perto por Winnicott. Roseana Moraes
Garcia, a propósito do tratamento da tendência antissocial, apresenta uma
das mais importantes inovações trazidas por Winnicott para a clínica
psicanalítica: as consultas terapêuticas, ilustrando-a com um bem-sucedido
caso, de sua clínica, de uma menina de 8 anos. Alice McCaffrey Busnardo
traz outro caso clínico relativo à mesma área, discutindo as repercussões da
atitude de cuidado no início do tratamento de sintomas antissociais. Maria
Lucia Toledo Moraes Amiralian mostra a relevância da teoria winnicottiana
do amadurecimento a um campo não estritamente psicanalítico: a
construção do eu de crianças cegas congênitas. Edna Pereira Vilete examina
a experiência vivida e contada pelo escritor William Styron à luz dos
conceitos winnicottianos de colapso e de angústia de aniquilamento, assim
como as condições que presidiram a sua recuperação. Por fim, Alfredo
Naffah Neto analisa um caso que ilustra a função do falso si-mesmo (self)
na produção de uma artista excepcional: Maria Callas.
Os trabalhos reunidos nesta coletânea são apenas uma pequena amostra
da produção dos membros da Escola. A totalidade do material encontra-se
disponível nas fontes mencionadas e pode ser identificada nos CV Lattes
dos autores contribuintes, bem como no portal da SBPW:
www.sociedadewinnicott.com.br. Mesmo assim, acreditamos que o leitor
encontrará, neste volume, dados e argumentos suficientes – baseados nas
análises internas da obra de Winnicott tomada no seu todo (esse modo de
proceder é um dos traços distintivos da Escola), nos estudos da história da
psicanálise, nas implicações filosóficas da psicanálise winnicottiana e, por
fim, no material clínico particularmente abundante – para, como indicado
anteriormente, caracterizar a contribuição de Winnicott como uma mudança
http://www.sociedadewinnicott.com.br/
do paradigma da psicanálise, entendendo-se por psicanálise a atividade de
resolução de problemas factuais de um determinado tipo, a saber, de
problemas clínicos.
Em virtude desse resultado fundamental, a leitura de Winnicott praticada
na Escola de São Paulo difere em pontos essenciais de várias outras linhas
de interpretação encontradas na literatura secundária. Em primeiro lugar, a
afirmação de que Winnicott produziu um novo paradigma da psicanálise
implica que ele elaborou uma teoria própria, a qual, assim como a de
Freud, cobre o campo inteiro da psicanálise de modo unitário e articulado –
tese que contradiz todos aqueles, e eles não são poucos, que negam ter
Winnicott uma teoria, chegando mesmo a afirmar que seu pensamento é
apenas fragmentário.
Em segundo lugar, embora Winnicott siga Freud ao apresentar a
psicanálise como uma ciência, uma diferença importante separa esses dois
autores: enquanto Freud constrói a sua disciplina – e a psicologia no seu
todo – como ciência natural, tendo como objeto central de estudo as
pulsões, entidades análogas a forças naturais da física newtoniana, que
agem no interior de um aparelho psíquico pensado segundo o modelo de
uma máquina hidráulica ou de uma entidade biológica, Winnicott toma
como objeto de estudo e de cuidado a natureza humana, que não se
manifesta como uma entidade natural movida por forças, mas como algo
que emerge do nada, preserva a solidão como traço essencial e inerente,
tende a integrar-se numa unidade, para, caso conte com a facilitação
ambiental, tornar-se um ser existente personalizado, capaz de agir no
mundo e até se dar ao luxo de morrer. Essas são as teses pelas quais
Winnicott reposiciona a psicanálise no campo das ciências factuais: a
psicanálise pertence agora ao grupo de ciências humanas, mais
precisamente, ao campo da antropologia, distinto da psicologia quer
naturalista quer não naturalista (por exemplo, a fenomenológica).
Em terceiro lugar, a psicanálise winnicottiana é uma ciência
essencialmente clínica, ou seja, ela é elaborada a partir de problemas que
surgem na clínica psicanalítica – seus conceitos, afirmações e
procedimentos só têm sentido no domínio constituído por esse material – e
é destinada a guiar a resolução desses problemas, isto é, a cura.
Em quarto lugar, por ser uma ciência clínica, a psicanálise winnicottiana
não faz nem pretende fazer nenhuma contribuição direta – Winnicott deixa
isso muito claro – à filosofia, à religião ou à poesia. Essa constatação
contraria, portanto, os leitores que não veem em Winnicott um cientista,
mas um pensador filosofante, como se produzir teorias científicas impedisse
de pensar. Ela tampouco deixa espaço para as teses que misturam Winnicott
com os místicos religiosos em busca do infinito. Opõe-se, por fim, a todas
as tentativas de colocar a sua obra no âmbito da ficção literária. A literatura,
em particular a poesia, dá-nos acesso a toda verdade num flash – Winnicott
concede e valoriza esse ponto, mas adverte que, diferentemente da verdade
científica, a verdade poética não permite acordos intersubjetivos, nem
aplicações no agir humano, inclusive nos procedimentos de cura.
O essencial da contribuição da Escola Winnicottiana de São Paulo aos
estudos winnicottianos pode ser resumido da seguinte forma: a obra de
Winnicott constitui um passo decisivo no progresso da ciência psicanalítica,
da sua forma inicial elaborada por Freud para uma matriz disciplinar que
permite resolver um número de problemas clínicos significativamente
maior, e desenvolver práticas de prevenção e de intervenção social. Como
toda produção que modifica de maneira significativa a direção da pesquisa
numa determinada área, a dos autores reunidos no presente livro suscitou
resistências e ganhou adesões. Os dois lados, cada um a sua maneira,
contribuíram para aumentar o impacto da Escola no campo de estudos sobre
a história e o estado atual da psicanálise tanto no Brasil como no exterior.
Sem dúvida, muitos aspectos do pensamento winnicottiano requerem
articulação e desenvolvimento adicionais. Urge ainda expor a psicanálise ao
diálogo com as ciências do homem de diferentes perspectivas teóricas,
promovendo assim uma reflexão sobre o futuro da disciplina fundada por
Freud. O reconhecimento dessas tarefas, entre várias outras, faz deste
volume apenas um marco num caminho que se estende indefinidamente,
para o desconhecido.
ElsaOliveira Dias
Zeljko Loparic
Sobre os autores
Alfredo Naffah Neto
Psicanalista, mestre em Filosofia pela USP, doutor em Psicologia Clínica
pelo PUC-SP, é professor titular na PUC-SP no Programa de Estudos Pós-
Graduados em Psicologia Clínica, no núcleo de pesquisa: “O método
psicanalítico e as formações da cultura”. Atua, além disso, em consultório
particular como psicanalista e psicoterapeuta de casais e de famílias. Seus
projetos de pesquisa, no momento, versam sobre dois temas: 1)
desenvolvimento da psicopatologia e suas articulações com a técnica na
clínica psicanalítica winnicottiana; 2) articulações entre psicanálise e
música. Suas publicações reúnem vários artigos referentes a esses dois
projetos de pesquisa.
E-mail: naffahneto@gmail.com
Alice McCaffrey Busnardo
Graduação e mestrado pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São
Paulo (USP). Trabalha como psicanalista em consultório particular e
também é professora no Centro Winnicott de São Paulo e de Campinas.
Doutoranda na PUC-SP sob orientação do Prof. Dr. Zeljko Loparic.
E-mail: alibusnardo@gmail.com
Ariadne Alvarenga de Rezende Engelberg de Moraes
Psicóloga clínica formada pela UNIP-SP. Mestre e doutora em Psicologia
Clínica pela PUC-SP. Membro do Grupo de Pesquisa em Filosofia e
Práticas Psicoterápicas (GFPP/Unicamp/CNPq). Tem artigos publicados em
livros e revistas. Professora do Centro Winnicott de São Paulo. Atende em
consultório particular. Foi professora do curso de psicologia da UNIP e
Universidade Mackenzie.
E-mail: ariadne.moraes@uol.com.br.
Caroline Vasconcelos Ribeiro
Professora adjunta na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Psicóloga pela Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ), mestre
em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), doutora em
Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob
mailto:naffahneto@gmail.com
mailto:alibusnardo@gmail.com
mailto:ariadne.moraes@uol.com.br
orientação do professor Dr. Zeljko Loparic. Membro da Sociedade
Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (SBPW) e do Grupo de Pesquisa em
Filosofia e Práticas Psicoterápicas (GFPP/Unicamp/CNPq). Organizou o
vol. 11 do periódico Aprender – caderno de filosofia e psicologia da
educação, dedicado ao estudo da teoria winnicottiana. Organizou, junto
com Suely Aires, o livro: Ensaios de filosofia e psicanálise.
E-mail: carolinevasconcelos@hotmail.com
Cecilia Luiza Montag Hirchzon
Graduação em Ciências Sociais pela FFCLUSP (1960), graduação em
Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP (1970), psicóloga do
Departamento de Psicologia da Aprendizagem do Instituto de Psicologia da
USP (1972 a 1978), formação em Psicanálise pelo Instituto de Psicanálise
da SBPSP (1979), membro associado da SBPSP (1980), professora do
curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes
Sapientae (1980 a 1988), membro associado do Departamento de
Psicanálise do Instituto Sedes Sapientae.
E-mail: cecilu@bol.com.br
Claudia Dias Rosa
Graduada em Psicologia pela PUC-SP, psicanalista, mestre em Psicologia
Clínica pela PUC-SP, doutoranda por essa mesma Universidade, professora
da Escola Winnicottiana de Psicanálise, coordenadora do SAP (Serviço de
Atendimento em Psicanálise) do Centro Winnicott de São Paulo e de
Campinas.
E-mail: claudia@centrowinnicott.com.br
Conceição A. Serralha de Araújo
Graduada em Psicologia pela Universida de Federal de Uberlândia (UFU),
com mestrado e doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUC-SP), sob orientação do Prof. Dr. Zeljko Loparic. Professora
adjunta da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Membro
do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas
(GFPP/Unicamp/CNPq) e do Grupo de Estudo e Pesquisa em Psicanálise
(GEPPSE) da UFTM. Possui vários trabalhos publicados em periódicos
científicos sobre temáticas importantes da psicanálise winnicottiana.
E-mail: serralhac@psicologia.uftm.edu.br
mailto:carolinevasconcelos@hotmail.com
mailto:cecilu@bol.com.br
mailto:claudia@centrowinnicott.com.br
mailto:serralhac@psicologia.uftm.edu.br
Eder Soares Santos
Doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É
membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana (SBFW) e
membro do Grupo de trabalho em Filosofia e Psicanálise da Associação
Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF). Atualmente é professor
adjunto na Universidade Estadual de Londrina no Paraná e coordenador do
mestrado em Filosofia da mesma universidade. Publicou, em 2010, o livro
Winnicott e Heidegger: aproximações e distanciamentos. São Paulo: DWW
editorial.
E-mail: edersan@hotmail.com
Edna Pereira Vilete
Formada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas do Estado da
Guanabara (1960 a 1965). Especialização em Pediatria (1965), Pós-
Graduação em Psiquiatria pelo Instituto de Psiquiatria UFRJ (1969) e
Formação Psicanalítica da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro
(filiada à International Psychoanalytical Association) entre 1971 a 1977.
Docente e Didata do Curso de Formação de Psicanalistas da Sociedade
Psicanalítica do Rio de Janeiro desde 1980. Coordenadora de grupos de
Observação da Relação Mãe-Bebê desde 1981, no Rio de Janeiro e Belo
Horizonte. Fundadora do Espaço Winnicott − Estudos em Psicanálise e
Cultura − Rio de Janeiro, destinado à divulgação da obra de Donald
Winnicott em cursos e colóquios. Coordenadora de Grupos de Estudos no
Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Clínica particular
de Psicanálise desde 1971.
E-mail: edvilete@uol.com.br
Elsa Oliveira Dias
Psicanalista. Graduação em Psicologia pela PUC-SP. Mestre em Filosofia
pela PUC-SP e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, com a tese “A
teoria das psicoses de D. W. Winnicott”. Membro do Grupo de Filosofia e
Práticas Psicoterápicas (GFPP/Unicamp/CNPq). Membro do Conselho
Científico de Natureza humana, Revista Internacional de Filosofia e
Psicanálise. Fundadora do Centro Winnicott de São Paulo (CWSP) e
diretora de ensino e formação da Escola Winnicottiana de Psicanálise desse
Centro. Fundadora da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana.
mailto:edersan@hotmail.com
mailto:edvilete@uol.com.br
Autora de vários artigos sobre D. W. Winnicott, sobre filosofia e
psicanálise, e autora do livro A teoria do amadurecimento de D. W.
Winnicott, publicado em 2003 pela Imago.
E-mail: elsadias@uol.com.br
Flávio Del Matto Faria
Doutor e mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo. Supervisor clínico do Centro Winnicott de São
Paulo. Psicólogo clínico, psicanalista. Especialista em Psicologia Clínica e
em Psicoterapia de adolescentes. Professor responsável e supervisor clínico
do curso de Psicologia da Universidade São Judas Tadeu. Membro
pesquisador do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas
(GFPP/Unicamp/CNPq). Coordenador do Programa de Atenção às
Tentativas de Suicídio da Universidade São Judas Tadeu – PROATES.
E-mail: f.faria@uol.com.br
Gabriela Galván
Psicóloga clínica (PUC-SP), mestre em Psicologia pelo IPUSP (Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo), doutoranda em Psicologia no
IPUSP, especialista em Psicologia Hospitalar, docente do Centro Winnicott
de São Paulo e Campinas.
E-mail: galvan@usp.br
João Paulo Fernandes Barretta
Graduação em Psicologia pela Universidade Mackenzie. Mestrado em
Filosofia pela PUC-SP e doutor em Psicologia Clínica pela PUC-SP.
Professor do Centro Winnicott e da Universidade Paulista (UNIP).
E-mail: jpbarretta@hotmail.com
Leopoldo Fulgencio
Graduado no Instituto de Psicologia da USP, com mestrado, doutorado e
pós-doutorado no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia da
PUC-SP, tendo feito estágio de doutorado em Paris VI - Dennis Diderot.
Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCCampinas.
Suas publicações mais importantes são: “Freud’s metapsychological
speculations” (The International Journal of Psychoanalysis, 86(1), 99-123,
2005) e “Winnicott’s rejection of the basic concepts of Freud’s
metapsychology” (The InternationalJournal of Psychoanalysis, 88(2), 443-
mailto:elsadias@uol.com.br
mailto:f.faria@uol.com.br
mailto:galvan@usp.br
mailto:jpbarretta@hotmail.com
461, 2007). Este artigo, cuja versão em português está sendo aqui
republicada, foi incluído no anuário do International Journal of
Psychoanalysis, nas suas versões em francês, português e espanhol.
E-mail: ful@that.com.br
Maria Cecilia Schiller Sampaio Fonseca
Formada em Psicologia pela PUC-RJ. Formada em Medicina pela
Faculdade de Medicina e Cirurgia RJ (atual Unirio). Membro Efetivo da
SBPRJ. Membro Associado da SBPSP.
E-mail: macefonseca@uol.com.br
Maria Emília Mendonça
Graduação em Educação Física e Fisioterapia pela Universidade Estadual
de Londrina, PR. Especialização em Ginástica Holística, Método Ehrenfried
pela AEDE, Paris, França. Mestrado em Educação-Currículo, pela PUC-SP,
1999. Doutorado em Psicologia Clínica pela PUC-SP em 2007. É diretora
do Instituto Maria Emília Mendonça, formação, pesquisa e cuidados do
corpo, onde coordena há 25 anos uma equipe multidisciplinar. Publicou, em
2000, pela Editora Summus, SP, o livro Ginástica Holística, história e
desenvolvimento de um método de cuidados corporais, fruto do mestrado.
E-mail: maria.emilia.mendonca@hotmail.com
Maria de Fátima Dias
Psicóloga (CRP 06/19071) pela Faculdade Paulistana; é mestre e doutora
em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Filiada à SBPW (Sociedade Brasileira
de Psicanálise Winnicottiana), é professora dos cursos de formação em
Psicanálise Winnicottiana da SBPW, e do curso de Especialização
Interfaces da Psicanálise de D. W. Winnicott da UNISAL. Palestrante e
professora em diversos cursos de extensão e pós-graduação, tem
experiência em docência e coordenação de cursos na área da psicologia.
Estuda especialmente os temas da integração psicossomática, constituição
da sexualidade e desenvolvimento humano.
E-mail: mfatimadias@uol.com.br
Maria Lucia Toledo Moraes Amiralian
Psicóloga pela PUC-SP, doutora em Psicologia Clínica pelo IPUSP, docente
e orientadora da Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do
Desenvolvimento Humano do IPUSP, docente e orientadora do Centro
mailto:ful@that.com.br
mailto:macefonseca@uol.com.br
mailto:maria.emilia.mendonca@hotmail.com
mailto:mfatimadias@uol.com.br
Winnicott de São Paulo, coordenadora do Laboratório Interunidades de
Estudo das Deficiências (LIDE), do IPUSP, e autora do livro
Compreendendo o cego: uma visão psicanalítica da cegueira e dos artigos:
“Conhecendo a deficiência pela óptica das propostas winnicottianas”,
“Deficiência, um novo olhar: contribuições a partir da psicanálise” e “A
clínica do amadurecimento e o atendimento às pessoas com deficiência”.
E-mail: mltma@usp.br
Orestes Forlenza Neto
Formado em medicina pela USP em 1962. Assistente de ensino da cadeira
de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade Federal de São Paulo.
Formação psicanalítica pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São
Paulo. Analista didata pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São
Paulo. Membro do Centro Winnicott de São Paulo. Vários artigos em
revistas de psicanálise e livros.
Roseana Moraes Garcia
Mestrado em Psicologia Clínica PUC-SP (2004). Doutorado em Psicologia
Clínica PUC-SP (2009). Psicanalista. Professora e supervisora da Sociedade
Brasileira de Psicanálise Winnicottiana.
E-mail: roseanagarcia@uol.com.br
Vera Regina Ferraz de Laurentiis
Psicóloga e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Há anos dedica-se à
pesquisa do tema da integração psique-soma, tendo se especializado
também em instituições como o Sedes Sapientiae e o Centro de Educação
Somática e Existencial. Psicoterapeuta, professora e colaboradora do Centro
Winnicott de São Paulo e Campinas, atuou, entre outros, em equipes
interdisciplinares, atendendo pacientes com distúrbios de alimentação, em
crise psiquiátrica, e adictos. Entre seus principais artigos estão “A
possibilidade de um vir a ser psicossomático”, “A construção do corpo”,
“Corpo, imagem ou devir?”.
E-mail: veralaurentiis@terra.com.br
Zeljko Loparic
Doutor em Filosofia, docente da PUC-SP e Unicamp, fundador da Escola
Winnicottiana de Psicanálise (2003), presidente da Sociedade Brasileira de
Psicanálise Winnicottiana (2005) e diretor da editora DWW editorial
mailto:mltma@usp.br
mailto:roseanagarcia@uol.com.br
mailto:veralaurentiis@terra.com.br
(2009). É autor de livros Ética e finitude (1995), Semântica transcendental
de Kant (2000) e Heidegger (2004), entre outros, bem como de um número
de artigos, principalmente sobre Kant, Heidegger, Freud e Winnicott.
E-mail: loparicz@uol.com.br
mailto:loparicz@uol.com.br
Parte I
Surgimento do paradigma
winnicottiano
De Freud a Winnicott: aspectos de uma mudança
paradigmática1
Zeljko Loparic
1. O paradigma freudiano
Não é fácil dizer o que é a psicanálise. Um esclarecimento possível
consiste em evocar a afirmação de Freud, reiterada por Winnicott, de que a
psicanálise é a ciência de um certo tipo de fatos clínicos. Isso posto, coloca-
se uma nova pergunta, ainda mais difícil: que é uma ciência factual e como
devem ser pensados a estrutura interna e o desenvolvimento de uma tal
disciplina? De acordo com Thomas S. Kuhn, um dos mais influentes
epistemólogos da segunda parte do século XX, uma ciência factual madura
é o quadro no qual se desenvolve uma atividade de resolução de problemas
semelhantes a quebra-cabeças. A estrutura interna desse quadro é
caracterizada por uma maneira de ver o mundo e de falar sobre ele,
compartilhada por um grupo institucionalizado, estruturada como um
paradigma ou uma matriz disciplinar. Um paradigma é composto de:
1) exemplares, isto é, problemas centrais que dizem respeito aos fatos
acessíveis em alguma forma de experiência (observação, experimentação,
clínica), acompanhados de suas soluções e
2) compromissos teóricos, dos quais constam:
a) generalizações usadas como guias na pesquisa,
b) modelo ontológico do domínio estudado (a parte propriamente
“metafísica” dos paradigmas),
c) modelo metodológico (os métodos de pesquisa franqueados, analogias
e metáforas permitidas), e
d) valores, alguns deles epistemológicos – relativos ao modo como deve
ser elaborada e praticada a disciplina em questão (capacidade de formular
problemas, tipo de soluções admitidas, simplicidade, consistência interna e
externa, plausibilidade) –, e outros práticos, relacionados à utilidade social
do saber científico.
O desenvolvimento de uma disciplina desse tipo passa por períodos de
pesquisa normal, cumulativa, realizada de acordo com o paradigma
dominante, seguidos de períodos de crise, provocados pelo aumento de
“anomalias” – problemas considerados relevantes, mas que permanecem
não resolvidos. As crises levam uma parte do grupo a se dedicar à pesquisa
revolucionária visando à constituição de um novo paradigma, obedecendo,
contudo, à condição de preservar a capacidade solucionadora da disciplina.
Quando bem-sucedida, essa pesquisa não cumulativa termina em conversão
da parte ou da totalidade do grupo a uma nova maneira de ver o mundo e de
falar sobre ele, comparável a um Gestalt switch perceptivo ou a uma
mudança revolucionária de um regime político, seguida de um novo período
de pesquisa normal. As mudanças nos paradigmas ocorrem, portanto, como
revoluções científicas que substituem os paradigmas (figuras do mundo,
“regimes” teóricos) velhos, em crise, pelos novos, considerados mais
promissores por resolverem tanto os problemas principais já solucionados
como as anomalias e por aumentarem, dessa forma, o poder de resolução de
problemas da ciência em questão.2
Mesmo que a psicanálise tradicional não possa ser considerada uma
ciência factual madura, parece-me frutífero olhar para ela na perspectiva
kuhniana, procurando por formas incipientes de um paradigma e por crises,
seguidas de pesquisa revolucionária.3 Procedendo assim, é possível dizer
que o exemplar principal da disciplina criada pela pesquisa revolucionária
de Freud é o complexo de Édipo, a criança na cama da mãe às voltas com
os conflitos, potenciais geradores de neuroses, que estãorelacionadas à
administração de pulsões sexuais em relações triangulares. A generalização-
guia central é a teoria da sexualidade, centrada na ideia da ativação
progressiva de zonas erógenas, pré-genitais e genitais, com o surgimento de
pontos de fixação pré-genitais. O modelo ontológico do ser humano,
explicitado na parte metapsicológica da teoria, comporta um aparelho
psíquico individual, movido por pulsões libidinais, e outras forças psíquicas
determinadas por leis causais. A metodologia é centrada na interpretação do
material transferencial à luz do complexo de Édipo ou de regressões aos
pontos de fixação. Os valores epistemológicos básicos são os das ciências
naturais, incluindo explicações causais, e o valor prático principal é a
eliminação do sofrimento decorrente dos conflitos internos pulsionais, do
tipo libidinal.
Considerando a importância do exemplar do Édipo na psicanálise de
Freud, convém chamar o seu paradigma de edípico ou triangular. Se
levarmos em conta a natureza sexual da situação edípica, a matriz
disciplinar de Freud pode ser designada como sexual.4
2. A crise do paradigma freudiano e os principais resultados da
pesquisa revolucionária de Winnicott
A psicanálise passou por várias reformulações pelo próprio Freud e seus
seguidores, efetuadas no mais das vezes sob pressão de fatos clínicos. Nas
pesquisas de Winnicott, contudo, o paradigma freudiano como tal entra em
crise, dando lugar à busca por um novo paradigma. O motivo principal da
crise foi o acúmulo de problemas clínicos – entre eles as manifestações da
tendência antissocial e da psicose infantil – que não podiam ser
compreendidos teoricamente nem tratados clinicamente no quadro do
paradigma edípico de Freud, mas que, segundo Winnicott, não deviam ser
eliminados do campo de aplicação da psicanálise.5
Desde 1923, Winnicott constatou a existência de várias manifestações do
que ele posteriormente chamará de tendência antissocial: num extremo, a
avidez (greediness) e a enurese, e, no outro, a delinquência, os distúrbios de
caráter e todos os tipos de psicopatia, incluindo ainda os casos de furto e as
mentiras. A psicanálise da época costumava explicar a delinquência pela
culpa originada de uma ambivalência inconsciente insuperável, a saber, pelo
ódio persistente dirigido à pessoa amada. A ideia básica era a existência de
um sentimento de culpa muito forte, que não podia encontrar saída nem na
sublimação nem na reparação, de modo que a única alternativa era o
indivíduo destruir algo a fim de poder sentir-se culpado. Em outras
palavras, a etiologia da delinquência era vista em termos da luta no mundo
interno do indivíduo, transferida na forma de um acting-out destrutivo, que
perturbava o setting analítico. Por essa razão, Winnicott, tal como os outros
psicanalistas, encaminhava os casos antissociais a clínicas não
psicanalíticas (1989a/1993, p. 439). Ao mesmo tempo, contudo, ele não
conseguia se convencer que se tratava de um erro de seleção de casos (de
aplicação da psicanálise), vendo nisso uma séria limitação da teoria e uma
grave falha da técnica psicanalítica. Concluindo, assim como antes dele
fizeram August Aichhorn e Sándor Ferenczi, que a psicanálise deveria
adaptar sua técnica às necessidades da criança com tendência antissocial ou
do psicopata “sem se transformar em puro manejo, ou seja, sem perder o
seu título de psicanálise” (1965b/1983, p. 115).
Desde essa mesma época, Winnicott deu-se conta, com base em
inúmeros casos clínicos, que crianças sofrendo de distúrbios psíquicos mais
variados, em particular as crianças psicóticas, “revelavam dificuldades no
seu desenvolvimento emocional na infância, mesmo como bebês”, fato que,
segundo ele, dificilmente podia ser encaixado na teoria do complexo de
Édipo (1965b/1983, p. 157). Ele expôs esses casos aos colegas em “artigos
assustados”, reunidos posteriormente num único trabalho: “Apetite e
desordem emocional”, de 1936. Passado o susto, Winnicott acabou
rejeitando a regra básica da metodologia freudiana, a saber, a que exige a
interpretação do material transferencial à luz do complexo de Édipo ou de
regressões aos pontos de fixação da libido a fases pré-genitais.6 Mais uma
vez, a ortodoxia psicanalítica estava em crise.
Na percepção de Winnicott, a principal dificuldade da psicanálise
tradicional em tratar dos casos de tendência antissocial e de psicose decorria
do fato de ela pensar a etiologia dos distúrbios psíquicos em termos
relacionados aos conflitos “pulsionais” intrapsíquicos, deixando de ver que,
pelo menos nesses casos, a patologia ou a anormalidade estava
primariamente no ambiente e só secundariamente na criança. Em outras
palavras, Winnicott entendeu que era necessário mudar a etiologia dos
distúrbios em questão. A partir do início dos anos 1940, ele passara a
sustentar que a tendência antissocial, os comportamentos delinquentes e os
distúrbios de caráter (psicopatias) decorrentes eram causados pela falha
ambiental ocorrida num estágio de dependência relativa, no qual o
indivíduo já adquirira uma organização egoica suficiente para perceber o
fato da deprivação (deprivation) efetiva (perda de um objeto ou de um
quadro de referência que já foi experienciado como bom e disponível) e
para avaliar que a responsabilidade pela perda era do ambiente (que este
ficou lhe devendo algo). Dessa forma, a etiologia tradicional, baseada nos
conceitos de pulsão e de conflito interno, foi substituída pela compreensão
em termos de necessidade pessoal de asseguramento e de perda de
confiança no ambiente, com a consequente crise relativa ao autocontrole e à
identidade pessoal.7
Quanto à psicose, aproximadamente na mesma época,8 Winnicott chegou
à “inesperada conclusão de que a esquizofrenia era uma espécie de doença
provocada por uma deficiência ambiental” (1958a/2000, p. 239). A
esquizofrenia se origina – esta é a tese que Winnicott começará a defender
apoiado, de novo, em dados colhidos na sua intensa clínica pediátrica – no
estágio de dupla dependência, ou seja, no período no qual o indivíduo em
desenvolvimento ainda não adquiriu a capacidade de ter consciência da sua
dependência do ambiente externo e de se dar conta das falhas deste
(1965b/1983, pp. 123-124). Daí se segue – cito agora um texto tardio de
1969 – que “a teoria psicanalítica precisava ser desenvolvida ou
modificada, se é que o analista quer ter esperanças de tornar-se capaz de
lidar com fenômenos esquizoides no tratamento dos pacientes”
(1989a/1993, p. 198). Num outro trabalho, escrito no mesmo ano, Winnicott
enunciara a mesma tese em termos que revelam claramente a sua
preocupação com a inércia intelectual dos psicanalistas, devida à formação
ortodoxa e aos hábitos de trabalho desses profissionais, que impedem o
progresso da psicanálise:
Para fazer progresso no sentido de uma teoria operacional da psicose, os psicanalistas devem
abandonar toda a ideia da esquizofrenia e da paranoia, tal como vistas em termos de regressão, a
partir do complexo de Édipo. A etiologia desses distúrbios leva-nos inevitavelmente a estágios
que precedem o relacionamento de três corpos. O corolário estranho é que existe, na raiz da
psicose, um fator externo. É difícil para os psicanalistas admitir isto, após todo o trabalho que
tiveram chamando a atenção para os fatores internos, ao examinarem a etiologia da
psiconeurose. (1989a/1993, p. 191)
Foi por considerações desse tipo, relacionadas essencialmente à
capacidade de a psicanálise resolver problemas clínicos no seu quadro
teórico – e não por análises abstratas, de cunho especulativo,
exemplificadas pela obra de Lacan9 –, que surgiu a matriz disciplinar da
psicanálise winnicottiana, substancialmente diferente da de Freud. Cabe
destacar, contudo, que a mudança do paradigma freudiano foi elaborada por
Winnicott de maneira a preservar “as pontes que levam da teoria mais
antiga para a mais nova” (1989a/1993, p. 198). Tratava-se de “retornar ao
meio ambiente sem perder tudo o que fora ganho pelo estudo dos fatores
internos” (1989a/1993, p. 439).
Que modificações seriamnecessárias para assegurar o progresso da
psicanálise nos campos assinalados? Em primeiro lugar, era preciso
abandonar o paradigma edípico, baseado, conforme vimos, no papel
estruturante do complexo de Édipo e na teoria da sexualidade concebida
como a teoria-guia da psicanálise. O novo exemplar proposto por Winnicott
é o bebê no colo da mãe, que precisa crescer, isto é, constituir uma base
para continuar existindo e integrar-se numa unidade. A generalização-guia
mais importante é a teoria do amadurecimento pessoal, da qual a teoria da
sexualidade é apenas uma parte. Se supusermos que a mudança
winnicottiana do paradigma freudiano aconteceu, como diria Kuhn, de
forma análoga a um Gestalt switch, ela não podia limitar-se a pontos
isolados, devendo abranger todo o campo teórico da psicanálise. É fácil
mostrar que, de fato, Winnicott também introduziu um novo modelo
ontológico do objeto de estudo da psicanálise, centrado no conceito de
tendência para a integração, para o relacionamento com pessoas e coisas, e
para a parceria psicossomática. A sua metodologia preserva a tarefa de
verbalização do material transferencial, admitindo, contudo, apenas
interpretações baseadas na teoria do amadurecimento, sem recurso à
metapsicologia freudiana, e incluindo também o manejo da regressão à
dependência e do acting-out dos antissociais. O valor principal é a
eliminação de defesas endurecidas, paralisadoras do amadurecimento, e a
facilitação para que agora aconteça o que precisava ter acontecido, mas não
aconteceu; bem como que se junte o que permaneceu ou se tornou
dissociado, ou mesmo cindido. O sofrimento decorrente de conflitos,
internos ou externos, deixa de ser o fundamental, fica em segundo plano,
considerado parte da vida sadia.
Em virtude da importância da relação mãe-bebê na psicanálise de
Winnicott, passei a chamar o seu paradigma de dual. Visto que a
generalização-guia é a teoria do amadurecimento, sugeri ainda que chamá-
lo de maturacional.10 Este termo não deve ser tomado no sentido
exclusivamente biológico, pois, além do lado anatômico-fisiológico, o
desenvolvimento humano tem, ainda, o lado pessoal. Winnicott é claro:
O que temos aí é uma braçada de anatomia e de fisiologia e, acrescentado a isto, um
potencial para o desenvolvimento de uma personalidade humana. Existe uma tendência geral
voltada para o crescimento físico, e uma tendência ao desenvolvimento na parte psíquica da
parceria psicossomática; existem, tanto na área física quanto na psíquica, tendências hereditárias,
e estas, do lado da psique, incluem as tendências que levam à integração ou à conquista da
totalidade. A base de todas as teorias sobre o desenvolvimento da personalidade humana é a
continuidade, a linha da vida, que provavelmente tem início antes do nascimento efetivo do bebê
[...]. (1987a/1988, p. 79)
Ao longo de uma pesquisa conduzida no quadro desse novo paradigma
(e que se estendeu por décadas), Winnicott ofereceu uma articulação
detalhada de duas das suas teses teóricas mais importantes sobre a etiologia
dos distúrbios psíquicos: 1) que o processo fundamental perturbado não é o
desenvolvimento sexual, mas o amadurecimento emocional, e 2) que o fator
externo, isto é, o ambiente facilitador, tem uma importância decisiva no
surgimento dos distúrbios psíquicos. Em primeiro lugar, Winnicott detalhou
os três modos básicos de perturbação do processo de amadurecimento: a
não constituição do si-mesmo, a repressão dos instintos e a perda do objeto
e/ou a perda do quadro de referência já constituído, com a consequente
perda do si-mesmo. Esse desenvolvimento teórico tornou-se, por sua vez, a
base das suas considerações sobre a classificação dos distúrbios psíquicos e
a divisão destes em três categorias básicas, enumeradas aqui na
semiordem11 de seu surgimento durante o processo maturacional: 1) as
psicoses, 2) as depressões reativas e as psiconeuroses e 3) a tendência
antissocial seguida ou não de delinquência e de distúrbios de caráter.12 Em
segundo lugar, Winnicott abordou, em diversos estudos, a etiologia de cada
uma dessas formações em razão de falhas ambientais ocorridas em
diferentes fases do processo de amadurecimento, mostrando, em detalhe,
que as psicoses decorrem da privação da facilitação ambiental na fase de
dependência absoluta, e mesmo relativa, do bebê com relação à mãe-
ambiente facilitador, que as psiconeuroses e as depressões reativas se
devem ao não atendimento ou mesmo à repressão dos instintos nas fases do
concernimento13 ou do Édipo, e que a tendência antissocial é antes uma
reação à deprivação, isto é, à perda da facilitação ambiental já
experienciada como boa e avaliada como uma falha do ambiente
(1989a/1993, p. 440).
Com base em seus estudos sobre a classificação dos distúrbios e a
etiologia destes, Winnicott ampliou e modificou substancialmente o
conceito de clínica psicanalítica, descrevendo três variedades básicas de
“psicoterapia”: a das psicoses, a das depressões reativas e das neuroses, e a
da tendência antissocial (1984a/1995, cap. 27). A variedade da psicoterapia
para as psicoses caracteriza-se, sobretudo, por uma organização complexa
do holding, que permite a regressão à dependência, fenômeno
essencialmente distinto da regressão aos pontos de fixação da libido. No
caso das psicoses, a clínica tradicional revela-se inapropriada precisamente
devido ao erro teórico que consiste em confundir esses dois tipos de
regressão, pois considera “que o termo ‘adaptação às necessidades’ no
tratamento de pacientes esquizoides e no cuidado do lactente significa
satisfazer os impulsos do id” (1965b/1983, p. 217), o que, segundo
Winnicott, é inteiramente inadequado. A segunda variedade, a das
depressões reativas e das neuroses, vale-se do setting clássico desenhado
por Freud e trabalha com interpretação. A terceira, a da tendência
antissocial, na medida em que compete à psicanálise propriamente dita, e
não ao manejo familiar ou social em geral, consiste em admitir a atuação do
paciente como parte da transferência, entendendo que se trata de um sinal
de esperança que precisa ser compreendido como tal e valorizado
positivamente (1965b/1983, p. 217).
3. Detalhamento de alguns aspectos teóricos da revolução
winnicottiana
A fim de preparar a minha análise da teoria da sexualidade elaborada por
Winnicott como parte integrante da sua teoria do amadurecimento, convém
aprofundar alguns pontos teóricos do seu paradigma.14 As diferenças com
Freud servirão de evidências adicionais de que Winnicott produziu uma
mudança na psicanálise que pode ser caracterizada como revolução
científica num sentido próximo ao de Kuhn.
Começo pelo modelo ontológico do objeto de estudo da psicanálise.
Enquanto a psicanálise tradicional estuda o psiquismo humano15 –
concebido metapsicologicamente (especulativamente) como um aparelho
movido a pulsões dirigidas para objetos (o papel central do relacionamento
objetal sendo a satisfação) –, a winnicottiana jamais se distancia da
“relação” factual indivíduo-ambiente, o indivíduo sendo caracterizado pela
tendência para o amadurecimento e o ambiente, investido do papel de
facilitador dessa tendência. De acordo com o preceito de manter abertas as
pontes entre o paradigma antigo e o novo, Winnicott esforçar-se-á por
preservar o que for possível da teoria antiga e, sobretudo, a eficácia clínica
da psicanálise. Nesse espírito, os conceitos de pulsão, de “relação de
objeto”, de aparelho psíquico, de inconsciente etc. serão reinterpretados,
isto é, transpostos para a linguagem experiencial do paradigma
winnicottiano. Tal transposição não é uma simples tradução – visto que os
conceitos metapsicológicos de Freud são, por definição, especulativos, isto
é, não aplicáveis diretamente à experiência clínica –, mas algo semelhante a
uma paráfrase para um campo semântico essencialmente diferente: o da
linguagem que se quer essencialmente descritiva.
O lugar do conceito especulativo de pulsão é ocupado por, pelo menos,
três conceitos radicalmente distintos entre si, todos referentes à experiência
possívelde um bebê humano: 1) o de necessidade (need) do indivíduo
humano de ter um ambiente favorável no qual possa continuar crescendo,
tornar-se alguém (um si-mesmo), e entrar em contato com objetos, e
relacionar-se com eles de diversas maneiras, 2) o de instinto (instinct) ou de
impulso (drive) biológico, de onde se originam as pressões em direção de
objetos externos, e 3) o de desejo (wish), que investe ou cria objetos,
apoiado em sonhos ou fantasias mais ou menos sofisticadas.16 Como sugeri
num trabalho anterior, as necessidades e instintos podem ser englobados
sob o título de urgências e a vida humana pode ser caracterizada pela
urgencialidade, ao invés de pela pulsionalidade (cf. Loparic, 2001b).
Há quem sustente que os termos “instinct” e “drive” de Winnicott são
emprestados das traduções inglesas do termo “Trieb” de Freud, comumente
vertido em português por “pulsão”. Essa interpretação é um sério engano,
como se pode concluir facilmente da comparação das teses de Winnicott
sobre os instintos com a doutrina das pulsões de Freud. Destacarei apenas
três diferenças. Os instintos, diz Winnicott, “são impulsos [drives]
biológicos poderosos que vão e vêm na vida do lactente ou da criança e que
exigem ação” (1988/1990, p. 57). Trata-se, portanto, da animalidade do ser
humano.17 Na obra madura de Freud, as pulsões não são impulsos
biológicos factuais, mas entidades especulativas que existiriam na fronteira
entre o físico e o psíquico ou, então, forças psíquicas de caráter mítico. Em
segundo lugar, o vaivém dos instintos na vida de um indivíduo (a
alternância entre os estados tranquilos e excitados) só passa a fazer sentido,
segundo Winnicott, depois que esse indivíduo integrar seus estados
excitados como internos, o que ocorre na fase de concernimento, portanto,
já bastante longe das fases iniciais. O si-mesmo (the self) tem que “preceder
o uso do instinto pelo si-mesmo” (1971a/1975, p. 137). Em Freud, as
pulsões agem em pleno direito no interior do psiquismo humano desde o
início, por serem seus elementos constitutivos. Em terceiro lugar, Winnicott
rejeita o dualismo pulsional de Freud. A introdução dos conceitos de pulsão
de vida e de morte é o principal “deslize teórico” de Freud, responsável por
graves deficiências da psicanálise tradicional (M. Klein inclusive): a
incapacidade de compreender o processo de amadurecimento pessoal e a
produção das teorias da morte e da agressão, inaceitáveis, porque “falsas”.18
A introdução dos conceitos de necessidade, instinto e desejo permitiu a
Winnicott dar um outro passo extremante importante: redefinir as relações
do indivíduo humano não somente com seus “objetos”, isto é, com outros
seres humanos, mas com seu mundo, de início também essencialmente
humano.19 Como disse anteriormente, todo ser humano necessita estar
alojado (assentado) em um ambiente – em outras palavras, habitar um
ambiente20 – que lhe facilite a resolução das tarefas específicas da fase do
amadurecimento em que se encontra; entre elas, a tarefa de estabelecer,
preservar ou modificar suas relações com objetos.
Essas relações, por seu turno, podem ser de vários tipos radicalmente
diferentes: egoicas, instintuais e desejantes. As primeiras são estabelecidas
para atender às necessidades do processo de integração como tal, os objetos
sendo usados como apoio, consolo, meios para fins, aquilo que concerne à
criança, inspira compadecimento, suscita cuidados etc. Nas relações
instituais, busca-se a diminuição da tensão instintual e a recompensa na
forma do prazer.21 As relações de desejo perseguem várias metas, mais
sofisticadas e, no entanto, talvez menos fundamentais. Em todos os casos, é
a relação com o ambiente – o assentamento nele – que possibilita as
relações objetais, sejam elas de dependência, de satisfação instintual ou de
desejo acompanhado de fantasia.
Darei alguns exemplos de relações egoicas com objetos que apresentam
uma das mais importantes contribuições de Winnicott à teoria psicanalítica
das relações objetais. Na fase da primeira mamada teórica, em virtude da
sua tendência inata para o amadurecimento, o bebê humano, amparado pela
mãe-ambiente subjetivo, vai resolvendo as três tarefas fundamentais do
período inicial do seu amadurecimento: integra-se no tempo e no espaço,
aloja-se no corpo (a sua primeira morada) e inicia o relacionamento com os
objetos. No caso desta última tarefa, o amparo da mãe-ambiente consiste na
apresentação de objetos ainda não objetificados: em primeiro lugar, ela
mesma e seu corpo (mais precisamente, uma parte dele: o seio) como objeto
subjetivo e, em segundo lugar, os seus substitutos, também enquanto
objetos subjetivos. Em outras palavras, nessa situação inicial ainda não
existe a relação com a mãe-objeto como tal, pois ainda não existem dois
entes separados que possam ser relacionados um com o outro. “É
axiomático”, escreve Winnicott, “que não há relação com o objeto
subjetivo” (1989a/1993, p. 221). Trata-se da identificação primária do bebê
com a mãe, pela qual ele é a mãe (o seio).
Em seguida à fase inicial, o ambiente já não é mais simplesmente a mãe,
mas o espaço potencial entre a mãe e o bebê, sustentado, contudo, pela
mãe-ambiente. Nesse “entre” os dois, acontece um desenvolvimento
extremante importante no relacionamento objetal dos bebês: a mãe-objeto
subjetivo e parcial (seio) passa a ser substituída e simbolizada por objetos
transicionais. Na fase do concernimento (estou pulando várias fases;
algumas delas serão consideras a seguir), posterior à separação já
consumada da mãe subjetiva, o ambiente é o círculo benigno, isto é, ainda é
a mãe-ambiente – só que, desta vez, na qualidade de ambiente externo
percebido como tal –, dedicada a sustentar no tempo o uso excitado pelo
bebê dela mesma como mãe-objeto externo, ou seja, aceitando ser objeto do
uso instintual do bebê. E assim por diante, até a mãe tornar-se objeto do
desejo da criança já na fase fálica ou edípica.
Elaborando essas análises, Winnicott desenvolveu uma teoria do
amadurecimento baseada em várias distinções fundamentais, inexistentes
ou, pelo menos, não trabalhadas de maneira satisfatória em textos da
psicanálise tradicional. A mais decisiva delas é a diferença entre o objeto e
o ambiente (mundo), com a ênfase sobre o ambiente enquanto condição
não-objetual possibilitadora de objetos, que é o fundamento de uma outra: a
distinção entre relação com objeto e relações com o ambiente. Dessa forma,
Winnicott abandona um elemento fundamental do componente ontológico
da psicanálise tradicional: a relação sujeito-objeto – embutida tanto na
teoria freudiana da pulsão como na da identificação, e que continua
presente nas fórmulas dos teóricos das relações objetais (Fairbairn) e
mesmo na posição idiossincrática de Lacan –, abrindo essa disciplina para
uma dimensão ontológica essencialmente nova. Essa mudança só pode ser
devidamente apreciada à luz da ontologia fundamental de Heidegger, em
particular, da sua crítica da relação sujeito-objeto e do seu conceito de ser-
no-mundo como modo se ser possibilitador de todas as relações com os
outros seres humanos e com as coisas.
A distinção entre ambiente (mundo) e objeto no ambiente permite ainda
que se estude, de maneira organizada, vários tipos de ambiente – mãe-
ambiente, espaço potencial, mundos interno e externo, círculo benigno,
família, escola, ambiente social – e diversos tipos de objeto – objetos
subjetivos, transicionais, lúdicos, instintuais (“pulsionais”), externos,
internos etc.
A teoria do amadurecimento permite uma reelaboração das posições
tradicionais sobre esses temas, caso elas existam. Por um lado, fica possível
a distinção entre modos sadios (ativos, maduros) e não sadios (reativos,
imaturos) de alojamento em ambientes. Os modos sadios podem ser
ilustrados pelas capacidades do bebê de sair do colo materno, habitar o
espaço potencial, sonhar com um clube, mover-se no círculo benigno da
fase do concernimento etc.; já os modos não sadios, pela tendência de se
agarrar ao colo da mãe, a incapacidade de brincar, de sonhar,pela tendência
para fanstasying, a inibição em virtude da quebra do círculo benigno, o
humor depressivo, bem como defesas ou regressões causadas por conflitos
instintuais nas relações familiares.
Por outro lado, Winnicott distingue entre relacionamento sadio e reativo
com objetos. Pertence ao primeiro tipo chupar o polegar (veremos isso a
seguir), usar objetos externos para atender às necessidades egoicas, usar
objetos em ações que visam à satisfação instintual, poder ser responsável,
poder ser agressivo etc. Da mesma forma, não saber substituir o seio
materno, fetichizar o objeto transicional e não saber escolher entre objetos
são exemplos de modos patológicos (reativos) de relacionamento objetal.
Todos esses conceitos de relação só recebem significado preciso se forem
referidos às fases sucessivas do acontecer maturacional, caracterizadas por
tarefas específicas a serem resolvidas por cada indivíduo, os objetos sendo
de diferentes tipos, de acordo com o grau de amadurecimento alcançado
pelo indivíduo.
Embora continue usando, como observei, as expressões “objeto” e
“relação com objeto” do jargão psicanalítico, sobretudo quando discute com
psicanalistas as relações instintuais com objetos do mundo externo,
Winnicott emprega os termos “pessoa” e “relação pessoal” ou
“interpessoal” cada vez que deseja enfatizar que está tratando de relações
dos seres humanos entre si. De resto, o uso indiscriminado do termo
“objeto” reforça a tendência para o naturalismo objetificante que passou a
dominar as relações inter-humanas e a teorização sobre os seres humanos
nos dias de hoje, apesar de inaceitável tanto do ponto de vista teórico
(filosófico)22 como moral.23 Aos impasses teóricos somam-se os técnicos,
que impedem, para muitos psicanalistas ortodoxos, aceitar e valorizar
positivamente a contribuição pessoal dos pacientes na relação clínica
definida por condições especiais e controladas – o caráter impessoal do
setting tradicional foi também objeto de constantes críticas de Winnicott.24
Por tudo isso, quando se discute a psicanálise em geral e, em particular, a de
Winnicott, creio ser oportuno evitar falar em “relações de objeto” nos
contextos em que se diz algo sobre relacionamentos entre pessoas (entre um
si-mesmo e um outro si-mesmo) e mesmo sobre coisas que não são meros
“objetos externos objetivamente percebidos”, como são as de uso cotidiano
ou as obras de arte.25
Pelos mesmos motivos, convém ter cautela – sempre tomando o cuidado
de não produzir colapso de comunicação – ao usar os termos “sujeito” e
“relação sujeito-objeto”. No início da vida, o bebê humano não é um
sujeito, pois nem ao menos existe como alguém independente. Ele precisa
chegar a existir antes de poder executar qualquer operação mental ou
acional elaborada (ter necessidade instintual, desejar, projetar, pensar, atuar
etc.), antes, portanto, de criar capacidades que são tradicionalmente – na
filosofia e, por influência desta, na psicanálise – tomadas como traços
essenciais da subjetividade humana. Mesmo os adultos escapam
cotidianamente da condição de sujeito, pois, na maioria das vezes, cuidam
dos problemas das suas vidas apoiados na identidade primária, adquirida
muito cedo no processo de amadurecimento pela identificação com a mãe-
objeto facilitada pelos cuidados da mãe-ambiente, anteriormente ao
desenvolvimento da capacidade representacional. A intra-humanidade da
dupla mãe-bebê é anterior à intersubjetividade. Tal como o de objeto, o
conceito de sujeito usado na psicanálise é ambíguo e fonte de confusões
teóricas e clínicas graves.
Além de ter abandonado o conceito de pulsão e modificado de maneira
radical o de relação objetal, Winnicott também substituiu o conceito
freudiano de aparelho psíquico por integração ou identidade pessoal,
resultado do “desenvolvimento emocional da pessoa individual” – tema
principal da teoria winnicottiana do amadurecimento humano.26 É verdade
que Winnicott continuou usando os termos metapsicológicos freudiano que
designam as instâncias psíquicas, mas ele lhes atribuiu outras acepções.
Depois de ter deixado claro que “ego” é um termo teórico sem sentido
determinado na linguagem cotidiana – “usado por conveniência, com
sentido acordado” entre os psicanalistas –, Winnicott o emprega, tal como
faz a psicologia do ego, para falar da “evolução do ego, incluindo o
conceito de tendência para a integração, para a capacidade de
relacionamento com objetos e para a parceria psicossomática” (1989a/1993,
p. 371). Essa tendência atinge um momento decisivo na fase do “EU SOU”,
na qual é criada a diferença entre o si-mesmo e o mundo exterior como tal,
permitindo que o indivíduo se experiencie, pela primeira vez, habitado por
instintos e se torne, com o tempo, responsável por estes. O termo “id” passa
a designar a vida instintual no sentido de um conjunto de funções corpóreas
“registradas, catalogadas, experienciadas e finalmente interpretadas pelo
funcionamento do ego”, isto é, pelo processo integrativo.27 Sendo assim,
sem o ego não há o id – tese que difere radicalmente da afirmação ortodoxa
de o ego ser um desdobramento do id. Finalmente, depois de ter
reconhecido que o termo “superego”, por não fazer parte da linguagem
cotidiana, pode também ser usado “de qualquer maneira que decidirmos”,
Winnicott propõe a distinção entre dois usos: o de Freud e o dele próprio,
feito na teoria do amadurecimento. Em Freud, o “superego” designa algo
que pertence especificamente “à passagem do complexo de Édipo”, mas
que, não obstante, é construído gradualmente pela evolução dos
mecanismos intrapsíquicos que supostamente datam do início da vida do
indivíduo (1989a/1993, p. 355). Segundo a teoria winnicottiana do
amadurecimento, esses mecanismos do funcionamento mental primitivo
“não devem ser chamados de superego”. Cabe, ao invés disso, atentar para a
diferença “entre a idade pré-autônoma e a idade autônoma” e para a
“jornada que vai da dependência à independência” (1989a/1993, p. 355). É
ao longo dessa transição, mais precisamente na fase do concernimento –
isto é, ainda na relação dual, pré-edípica –, que o indivíduo adquire vários
elementos que constituirão a parte essencial da moralidade adulta, a
começar por uma capacidade de reconhecer o outro enquanto outro: a
capacidade de sentir-se pessoalmente responsável (“concernido”) pelos
danos causados ao ambiente decorrentes do uso excitado da mãe-objeto.
Nessa perspectiva, o superego impessoal freudiano da censura, da
culpabilização e da necessidade de punição em termos de lei passa a figurar
como traço do falso si-mesmo ou até mesmo como indício de desvios
patológicos.
Dessa reformulação (no quadro da teoria do amadurecimento) da teoria
estrutural da mente elaborada por Freud decorrem importantes
consequências, tanto para a teoria psicanalítica da origem e do sentido da
moralidade – a sua origem é pré-edípica e o seu sentido desvinculado da lei,
inclusive da lei de incesto – como para a teoria da cultura. “Freud, na sua
topografia da mente, não encontrou lugar para a experiência cultural”,
afirmou Winnicott em 1966 (1988/1990, p. 133). Dois anos mais tarde, ele
estenderá essa crítica a todos os psicanalistas que trabalham no paradigma
freudiano, dizendo que a “abordagem ortodoxa” do ser humano, feita em
termos da metapsicologia, “não concedeu nenhum lugar para a experiência
cultural” (1989a/1993, p. 160). A experiência cultural é um fenômeno que
não acontece no aparelho psíquico, mas no espaço potencial, numa área
entre a mãe e o bebê que não é nem externa (física) nem intrapsíquica, mas
que, não obstante, deve ser pensada como parte da organização do si-
mesmo do bebê. Aberto na fase de transicionalidade (com base na
experiência de confiabilidade do ambiente), esse espaço é inicialmente
ocupado por relacionamentos objetais do tipo não orgiástico, a saber, pelo
brincar, atividade criativa e excitante, não por ser impulsionada pelos
instintos, mas por refletir a precariedade que, na experiência do bebê,
caracteriza o jogo livre entre o mundo subjetivo e o mundo objetivamentepercebido (1988/1990, p. 77).
Uma outra mudança conceitual importante merece ser destacada. De
acordo com a sua visão de que a psicanálise precisa de diferentes tipos de
linguagem, Winnicott praticamente limitou o uso do conceito de
inconsciente freudiano à descrição de excitações instintuais e fantasias
correspondentes que, por serem reprimidas, não são acessíveis à
consciência, e, nesse sentido específico, não integradas (1988/1990, p. 67).
Trata-se de fatos objetivos da vida psíquica, de algo que foi reprimido por
ser inaceitável à consciência, mas que tende a se tornar consciente e que,
levantadas as resistências, pode se tornar consciente. Entretanto, o conceito
freudiano de inconsciente reprimido não pode ser usado para falar das
dissociações e das cisões identificadas por Winnicott em pacientes
psicóticos e outros. Nesses casos, o inconsciente é algo não-mental e
mesmo não-psíquico: a dissociação e a cisão não dizem respeito à não-
aceitabilidade de estados mentais pela consciência ou pelo intelecto, quer
teórico quer prático, mas à não-integração ou, ainda, à desintegração
pessoal e/ou psicossomática – falha concebida seja como uma parada do
amadurecimento seja como uma perda de aquisições já realizadas. Dito em
uma outra linguagem, mais próxima de Heidegger: o inconsciente
winnicottiano consiste no não-acontecido (mas que precisava acontecer) e
no “desacontecido” (mas que precisava continuar sendo); em algo, portanto,
que precisa ser vivido ou revivido e que não necessita de elaboração
representacional ou simbólica.
Exemplo típico do inconsciente winnicottiano não-acontecido e não-
mental são “os cortes no fio da continuidade do si-mesmo”, relacionados às
repetidas fases de reação prolongada a uma intrusão ambiental durante o
parto. Os indivíduos traumatizados devido principalmente à demora desse
processo continuam precisando reencenar os cortes acontecidos, isto é,
nascer pela primeira vez de verdade. Para tanto, buscam oportunidades para
regredir à dependência, mas precisamente a um estado intrauterino, tanto na
vida real (por exemplo, a falsa homossexualidade) como na análise (como a
compulsão a ter uma mão na testa, representando o corpo da mãe). Ao
oferecer o setting adequado para esses “não-nascidos”, o analista propicia a
atuação (acting-out) de traços mnemônicos relativos ao nascimento e
preservados na memória corporal, fenômeno clínico que difere radicalmente
das brincadeiras de crianças que contêm simbolismos ligados ao nascimento
e das fantasias de adultos que, conscientemente ou não, relacionam-se com
o nascimento. Os pacientes desse grupo, em particular os psicóticos,
tendem, diz Winnicott, a “reviver” a experiência do nascimento reativando
certas funções corpóreas e “passando ao largo de fantasias que se
expressam por símbolos” (1958a/2000, p. 272). Esse esforço em desfazer a
não-integração é radicalmente distinto não somente de processos
conscientes, mas também de processos primários no sentido de Freud.
Uma outra ilustração do conceito de winnicottiano de inconsciente não-
mental é dada pela produção, na fase do concernimento (cujo ápice se situa
por volta dos dois anos e meio), de uma ordem ou padrão no mundo interno
mediante um “trabalho que não é mental nem intelectual”. Trata-se de uma
tarefa psicossomática intimamente relacionada “à tarefa da digestão, que
também se realiza à margem do entendimento intelectual, o qual pode
acontecer ou não” (1988/1990, p. 97).
Ao se livrar da teoria freudiana das pulsões, Winnicott abandonou
também a busca do prazer como princípio determinante da vida humana.
Sem ignorar que os indivíduos humanos também procuram obter prazer, ele
nega que isso ocorra, como sustenta Freud, em virtude de um princípio de
funcionamento causal do aparelho psíquico. O indivíduo humano não se
relaciona com outras pessoas por buscar o prazer, mas por precisar da
presença e da confiabilidade dos outros para que sejam atendidas as suas
necessidades egoicas e por necessitar que sejam satisfeitas as suas tensões
instintuais. Neste último caso, “satisfazer” significa, em primeiro lugar,
aplacar ou acalmar; o termo “acalmar” tomado no sentido descritivo e não
metapsicológico (diminuição da pressão “pulsional”). O prazer não fica de
fora, mas tem o sentido de “recompensa” pela satisfação encontrada no
clímax da exigência do instinto (1988/1990, p. 57).
Winnicott também opera várias mudanças importantes no componente
metodológico da matriz disciplinar da psicanálise. Em primeiro lugar,
recusa a teorização metapsicológica, que trabalha com conceitos
especulativos, não testáveis no domínio de dados clínicos, e opta pela
teorização de tipo “empírico”, a que procede “pela observação dos fatos,
pela construção da teoria e seus testes, e pela modificação da teoria de
acordo com a descoberta de novos fatos” (1996a/1997, p. 23). Em segundo
lugar, Winnicott distingue diferentes modos de construção de teorias
empíricas, levando em conta os fatos tratados e a linguagem empregada.
Um desses modos, característico da teoria freudiana das relações instintuais
da fase do Édipo ou das fases ainda mais tardias, vale-se da objetificação do
“material clínico” – isto é, trata os fenômenos clínicos como fatos da
natureza, pertencentes ao mundo externo refletido no psicanalista-espelho –
e emprega uma linguagem também objetificante. Sem abandonar por
completo esse procedimento, Winnicott introduziu de maneira sistemática
um modo de teorização diferente,28 que corresponde a uma atitude
participativa e não-objetificante do analista, empregando uma linguagem de
comunicação direta, também não-objetificante. Essa linguagem é usada
para trazer a palavra aos fatos pertencentes aos mundos próximos da
origem, isto é, para descrever os ambientes nos quais se constitui o ser dos
bebês humanos no período inicial do processo de amadurecimento – que vai
da fase chamada primeira mamada teórica ao estágio do concernimento,
inclusive – ou para descrever os estados muito regredidos de adultos.29
Segundo Winnicott, a “linguagem dos instintos” não pode dizer tudo o que,
na psicanálise, precisa ser dito sobre o ser humano. Usada na caracterização
de fases anteriores à edípica, ela torna-se “errada” (1988/1990, p. 52). Ao
atentar para a multiplicidade de mundos criados e habitados pelo seres
humanos ao longo do processo do amadurecimento, assim como para a
diversidade de objetos e relações com os quais se veem envolvidos,
Winnicott reconheceu a necessidade de usar a multiplicidade dos dizeres30 a
fim de falar desses mundos. Embora desconfiasse de quem se compraz em
introduzir palavras novas, ele modificou radicalmente o vocabulário da
psicanálise. Os termos winnicottianos tais como “solidão essencial”,
“continuidade do ser”, “ambiente”, “confiabilidade”, “experiência do
nascimento”, “colo da mãe”, “objeto subjetivo”, “dois em um” (relação dual
mãe-bebê), “objeto transicional”, “holding”, “manejo”, “apresentação de
objeto”, “uso do objeto”, “brincar”, “estágio de concernimento”,
“moralidade inata”, “senso de responsabilidade”, “experiência cultural”,
“privação”, “deprivação”, “tendência antissocial”, “jogo de rabisco”,
“regressão à dependência”, mesmo sem serem inicialmente cunhados por
ele, são apenas alguns dos que mudaram radicalmente a paisagem
intelectual da psicanálise dos nossos dias.
Seria um engano pensar que essas considerações, de natureza abstrata e
mesmo filosófica, estejam aqui fora do lugar. Winnicott, tal como Freud, é
um pensador radical. A sua obra exige leitores igualmente decididos,
dispostos a levar em conta todos os aspectos importantes do seu novo
paradigma e a romper, quando necessário, com usos estabelecidos.
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1. Este artigo foi originalmente publicado na revista Natureza humana, v. 8, n. 1 (especial), 2006.
2. Várias ideias de Kuhn se aproximam das de Heidegger, entre elas a de que ciência em geral é uma
atividade de resolução de problemas, que no paradigma de toda ciência existe um elemento
ontológico e que a ciência progride por revoluções (cf. Loparic, 1999 e 2001b). A tese de que
Heidegger antecede, por várias décadas, a concepção da ciência empírica proposta por Kuhn e
desenvolvida por autores tais como Steven Toulmin e Dudley Shapere, ainda pouco tratada no Brasil,
foi e continua sendo objeto de numerosos estudos no exterior, sobretudo nos Estados Unidos (cf., por
exemplo, os artigos de Theodor Kisiel e Don Ihde, publicados em Babich, 2001). Um outro paralelo a
ser considerado é aquele entre Kuhn e Kant, levando em conta o fato de o próprio Kuhn ter afirmado
estar desenvolvendo “uma espécie de kantiano pós-darwiniano” (Kuhn, 2000, p. 104). Sobre esse
tema, cf. Hoyningen-Huene, 1993, pp. 33-36 et passim.
3. Vários outros autores aplicaram Kuhn ao estudo da história do pensamento psicanalítico, entre eles
Modell (1968), Levenson (1972), Lifton (1976) e, em particular, Greenberg & Mitchell (1983). O
alcance dos resultados desses dois autores ficou, contudo, severamente limitado pelo fato de eles
considerarem apenas o componente metafísico da teorização psicanalítica, deixando completamente
de lado os exemplares, o principal componente de uma matriz disciplinar do tipo kuhniano. Uma
posição simpática à mesma abordagem foi tomada recentemente por Joyce McDougall (1997, pp.
255-256). Creio que a resistência de certos comentadores a analisar a estrutura e a história da
psicanálise do ponto de vista kuhniano se deve, em boa parte, à falta de familiaridade com a obra de
Kuhn e, de um modo geral, com os problemas da historiografia das ciências factuais. Há quem diga,
por exemplo, que o conceito kuhniano de paradigma não se aplica às ciências humanas. Isso é um
erro, que o leitor poderá verificar ao examinar, com atenção, o Posfácio de Kuhn, 1975 e Kuhn, 2000,
cap. 10.
4. Uma descrição mais detalhada do paradigma edípico encontra-se em Loparic, 2001a e Fulgencio,
2003.
5. O presente parágrafo é uma continuação da análise da crise winnicottiana apresentada nas seções 3
e seguintes de Loparic 2001a.
6. Num texto autobiográfico, de 1967, ele caracteriza a sua posição como “protesto contra a
referência à regressão universal a partir da satisfação/frustração do Id no triângulo edípico”,
acrescentando que, com o tempo, surgiram outros psicanalistas (em particular, Alice Balint) que se
mostravam interessados nesse ponto, e que outros profissionais, que não eram psicanalistas, mas que
tinham grande experiência no tratamento das crianças, entre elas Margaret Lowenfeld e Merrill
Middlemore, estavam defendendo teses semelhantes, sem constituírem, contudo, um grupo coeso
(1989a/1993, pp. 434 e 438).
7. Sobre esse ponto, cf., por exemplo, Winnicott, 1989a/1993, pp. 439-440.
8. Uma indicação sobre essa tomada de posição encontra-se em Winnicott, 1988/1990, p. 2.
9. Veja, por exemplo, a desenvoltura de Lacan no uso de construções auxiliares e de metáforas óticas,
tidas como autorizadas por Freud (Lacan, 1975, p. 90).
10. Visto que o conceito winnicottiano de amadurecimento pode ser interpretado em termos da
fenomenologia heideggeriana da acontecência do ser-no-mundo do ser humano, o paradigma
proposto pelo psicanalista inglês pode ainda ser chamado de acontecencial. Para maiores detalhes
sobre o paradigma winnicottiano, cf. Loparic, 2001a.
11. Falo em semiordem, porque os distúrbios podem surgir sobrepostos.
12. O enunciado clássico dessa classificação encontra-se em Winnicott, 1965a/1980, cap. 9.
13. Esse neologismo é a minha tradução do termo concern de Winnicott.
14. O desconhecimento da importância da teoria winnicottiana do amadurecimento é uma das
principais razões da pobreza conceitual da maioria dos artigos sobre a teoria winnicottianada
sexualidade contidos em Caldwell, 2005. A tese de doutorado de Maria de Fátima Dias (cf. Dias,
2005), elaborada de acordo com o ponto de vista apresentado neste artigo, apresenta um dos poucos
estudos aprofundados sobre esse assunto.
15. Na medida em que o psiquismo é definido, desde Leibniz até Freud, pelas capacidades de
representação e de apetição, as relações humanas originárias, tal como concebidas por Winnicott, não
devem ser ditas relações de ordem “psíquica”. Para uma crítica do psiquismo como conceito
fundamental da psicanálise e para a exposição de uma concepção alternativa do ser humano, baseada
em Heidegger e Winnicott, cf. Loparic, 2001b. Embora essa crítica tenha semelhanças com as
objeções de Lacan à psicologia do ego, a alternativa indicada difere radicalmente da metapsicologia
estruturalista do sujeito apresentada pelo psicanalista francês.
16. Esses três tipos de “tendências” são enumerados em 1989a/1993, nota, p. 199. Faço constar que o
termo winnicottiano drive é traduzido erroneamente por “pulsão”.
17. O conceito winnicottiano de animal humano é esclarecido em Loparic, 2000.
18. Cf. Winnicott, 1988/1990, p. 155; 1987b/1990, pp. 35 e 37. No que segue, o conceito
winnicottiano de instinto será examinado em mais detalhe e contrastado mais uma vez com o
conceito freudiano de pulsão.
19. O jargão psicanalítico brasileiro usa “relação de objeto” e o francês relation d’objet, expressões
que brigam com a gramática das línguas respectivas. Trata-se da tradução problemática dos termos
Objektbeziehung de Freud, para o qual os psicanalistas ingleses (inclusive Winnicott) empregam
object-relationship ou object-relating, ambos perfeitamente idiomáticos. Em Vocabulário de
psicanálise, Laplanche & Pontalis justificam o uso da expressão francesa não gramatical no lugar da
gramatical relation à l’objet, dizendo que a primeira “vem caracterizar” a inter-relação entre o sujeito
e o objeto apontada sobretudo por M. Klein, a saber, o fato de o sujeito constituir o objeto e ser
modelado por este em suas atividades. Temo que uma expressão não gramatical, ao invés de adquirir
um sentido estipulado pela teoria, insista em permanecer sem sentido.
20. Winnicott introduz aqui o conceito de dwelling – habitar, demorar-se, assentar-se –, que pode
proveitosamente ser aproximado dos conceitos heideggerianos de “ser-no-mundo” e “habitar o
mundo”.
21. A ideia da “adaptação materna suficientemente boa às necessidades do bebê” não deve ser
confundida, diz Winnicott, com “o conceito de satisfação, pela mãe, dos impulsos instintuais”
(1989a/1993, p. 188).
22. Essa tendência gerou impasses teóricos que tornam adicionalmente problemático o modo de
teorização adotado por Freud, fato destacado por pensadores como Heidegger e Wittgenstein. No
campo psicanalítico, críticas ao naturalismo objetificante de Freud encontram-se, por exemplo, em
Guntrip, 1975/1996. Ainda estudante de medicina, Harry Guntrip rejeitou “a psicobiologia freudiana
das pulsões [instincts]” por ser mecanicista. Reconhecendo, contudo, a grande importância das
descobertas de Freud na área da psicopatologia, Guntrip se dedicou à tradução “da sua [de Freud]
psicobiologia, ou melhor, dos [seus] dados clínicos para os termos da filosofia de ‘relações pessoais’”
(p. 746).
23. A objetificação tomou conta do modo de pensar e de sentir nos dias de hoje, a tal ponto de,
muitas vezes, parecer oportuno, e mesmo necessário, lembrar aos nossos contemporâneos que os
outros seres humanos com os quais convivem são, antes de tudo, os seus pais, irmãos, amantes,
vizinhos, parceiros etc., e só em condições muito artificiais, ou mesmo patológicas, seus objetos. A
objetificação é parte inerente sem, contudo, ser definitória da existência humana. Um tratamento,
inspirado em Heidegger, da nossa responsabilidade em não objetificar os outros seres humanos e em
deixá-los ser enquanto outros encontra-se em Loparic, 2003.
24. Veja, por exemplo, Winnicott, 1988/1990, p. 79.
25. O conceito de objeto usado na psicanálise tem conotações que lembram o uso desse termo na
linguagem cortesã do século XVII, influenciada pela teoria filosófica da representação (cf. Laplanche
& Pontalis, 1971, p. 407).
26. Em certos textos, ele usa o termo “psicomorfologia” como sinônimo de psicologia dinâmica.
27. Afirmada em 1962, essa tese é retomada literalmente em vários textos posteriores (cf., por
exemplo, 1989a/1993, p. 143).
28. Antes de Winnicott, alguns outros autores, entre eles Sándor Ferenczi, fizeram as primeiras
tentativas nessa mesma direção. Nenhuma delas prosperou, talvez por terem sido severamente
censuradas pelo establishment psicanalítico durante décadas.
29. O primeiro desses mundos é o subjetivo, constituído a partir da identificação primária do bebê
com a mãe-ambiente ou, como Winnicott diz ainda, com a mãe-objeto subjetivo. Essa identificação,
pressuposta em todos os tipos de “relações com objetos” posteriores, não é, ela mesma, uma relação
(objetal). “É axiomático”, diz Winnicott, “que não há relacionamento com objeto subjetivo”
(1989a/1993, p. 221). As relações objetais propriamente ditas só começam depois da criação de um
novo mundo, o mundo externo, o que pressupõe a constituição de um novo sentido de realidade – o
de realidade objetivamente percebida: “O mundo acha-se lá para o relacionamento apenas na medida
em que é objetivamente percebido, sendo aquilo que chamamos de externo à criança” (1989a/1993,
p. 221).
30. A dimensão filosófica desse conceito foi explicitada em Loparic, 2004.
31. As traduções brasileiras dos textos de Winnicott foram parcialmente refeitas.
A irritabilidade (Reizbarkeit) como característica
distintiva do aparelho psíquico de Freud1
João Paulo F. Barretta
1. Introdução
Assim como a psicologia científica moderna, a psicanálise também
surgiu com base nas pesquisas da fisiologia do século XIX e nas teorias
empiristas da mente, embora não tivesse como objeto de estudo os mesmos
que a psicologia – a percepção, a consciência, a memória etc. Seu objetivo
primário não era nem mesmo teórico, mas prático: tratamento de pacientes
neuróticos (psicologia aplicada). Para tanto, desenvolveu primeiramente um
método de tratamento e, posteriormente, uma teoria das neuroses e do
psiquismo em geral que fundamentasse esse método e explicasse os dados
clínicos observados. Contudo, ao desenvolver essas teorias sobre o
tratamento, a neurose e o psiquismo, Freud valeu-se, sem maiores reflexões,
daqueles mesmos conceitos comuns à psicologia, à fisiologia e às filosofias
empiristas da mente de sua época.
Além disso, a exigência epistemológica fundamental de sua teoria do
aparelho psíquico determinava que esta formasse um todo sistemático, isto
é, que os fatos descobertos na clínica e os conceitos introduzidos
formassem uma estrutura, pela qual cada elemento ganharia inteligibilidade
ao serem expostas suas correlações com os outros elementos, e que, como
tal, deveria possuir uma unidade. Isso significa que conceitos heurísticos,
sem referencial empírico, poderiam e deveriam ser introduzidos sempre que
necessários para garantir a unidade e sistematicidade teórica.2 Desse modo,
a teoria freudiana do aparelho psíquico é uma “superestrutura especulativa”,
que “pode ser abandonada ou modificada, sem perda ou pesar, momento em
que a sua insuficiência tenha sido provada” (Freud, 1925/1999, p. 38).
Esse modelo freudiano do psiquismo poderia ser examinado criticamente
com relação aos conceitos psicológicos e fisiológicos que utiliza sem
maiores reflexões ou justificativas, ao pressuposto ontológico de que parte,
à concepção de ciência pressuposta ou à sua adequação à tarefa que se
propõe – a de tornar racional certos fatos contingentes descobertos pela
investigação clínica psicanalítica. De todas essas frentes, optaremos por
identificar o traço distintivo, aquela determinação da natureza do psiquismo
(pressuposto ontológico) que confere unidade ao modelo e que está
subjacente também à sua teoria das neuroses e do método de tratamento, e,
posteriormente, verificaremos emque medida esse ponto de partida é
suficiente para explicar certas descobertas posteriores.
Para tanto, apresentaremos os elementos constituintes do aparelho
psíquico, tal como caracterizado na primeira tópica (seção 2), verificaremos
qual o conceito fundamental que está na base dessa teoria do psiquismo
(seção 3) e indicaremos algumas descobertas clínicas decisivas que parecem
não se encaixar na concepção de psiquismo pressuposta por Freud e as
dificuldades por ele enfrentadas para solucionar esse quebra-cabeça (seção
4). Feito isso, a conclusão (seção 5) mostrará que Freud se manteve preso à
concepção inicial do psiquismo, apesar do surgimento de novas descobertas
que deveriam tê-lo levado, segundo seu próprio conselho, a abandonar esse
modelo desde seus fundamentos e buscar um outro.
2. O aparelho psíquico na primeira tópica (cap. VII de A
interpretação dos sonhos)
De acordo com Freud, o aparelho psíquico é um instrumento
(Instrument) complexo, responsável pela execução de nossas funções
anímicas (Seelenleistungen) como sonhar, julgar, recordar etc. Complexo
significa que possui mais de um componente, as “instâncias” ou “sistemas”
que estabelecem certas relações entre si (passíveis de objetivação espacial
para fins heurísticos).
O aparelho psíquico é composto de três partes e uma direção. As partes
componentes são os sistemas perceptivo, mnemônico e motor; e a direção
seria do primeiro para o último. A consciência, que será examinada
posteriormente, não constitui propriamente um sistema, ainda que esteja
associada ao primeiro. Isso significa apenas que o aparelho psíquico possui
um funcionamento independente dela e que a maior parte dos processos
psíquicos acontecem sem que haja consciência deles.
O sistema perceptivo é o que torna possível a “entrada” de “signos
perceptíveis” (Wahrnehmungszeichen), que serão posteriormente
registrados na memória. Esses Wz consistem basicamente em excitações
(Erregungen) dos órgãos dos sentidos causadas por estímulos (externos ou
internos) e possuem, como tal, um caráter exclusivamente quantitativo. Por
esse motivo, não são sensações (Empfindungen) propriamente ditas que
possuem um caráter qualitativo. O termo sensação é de uso comum no
século XIX e Freud parece utilizá-lo no seu sentido empírico usual de
conteúdo sensível, matéria da percepção; exemplos de sensações poderiam
ser: amarelo, amargo, prazeroso etc.
Segundo Freud, essas qualidades ou sensações se originam na
consciência.3 Esta é concebida, por sua vez, como um órgão sensorial
interno que percebe não os estímulos externos (meras quantidades), mas
qualidades psíquicas, sensações (Empfindungen).4 Ela é concebida de
maneira análoga à percepção externa, com a diferença de ter como objeto
não o mundo externo, mas o próprio aparelho psíquico: “O aparelho
psíquico, que se volta para o mundo externo com seu órgão sensorial do
sistema perceptivo, é, ele próprio, o mundo externo em relação ao órgão
sensorial da consciência” (Freud, 1900/1999, pp. 620-621).
O sistema mnemônico, por sua vez, é o responsável pelo arquivamento
dos signos sensíveis na forma de traços mnêmicos (Erinnerungsspur), que
“transformam as excitações sensoriais momentâneas [Wz] do primeiro
[sistema] em traços duradouros” (Freud, 1900/1999, p. 543). Esse sistema
encontra-se a meio caminho entre o sistema perceptivo e o motor, e sua
característica mais importante para o funcionamento do aparelho psíquico é
conseguir operar sobre os traços mnêmicos através de associações e, com
isso, alcançar diferentes destinos de descarga das excitações. Associar
significa aqui a possibilidade de transmitir a excitação (Erregung) de uma
Vorstellung A para uma outra, B, ao invés de realizar a sua descarga direta.
Visto mais precisamente, na teoria da associação estão implícitas duas teses:
de que é possível transmitir a excitação de uma Vorstellung para outra; de
que essa transmissão não é caótica, mas segue certas leis – as leis da
associação de ideias.
A primeira tese é introduzida em 1894 como hipótese de trabalho, para
se poder explicar a formação do sintoma histérico com base em lembranças
traumáticas antigas e esquecidas. A segunda tese, porém, introduz uma
novidade importante, tanto pelo que afirma quanto pelo que não afirma:
segundo ela, o aparelho psíquico, responsável por todos os processos
psíquicos, só possui a “associação” como forma de trabalhar. Isso significa
que pensamentos, sonhos, chistes etc. devem ser explicados por ela. Para
isso, Freud irá conceber diferentes formas de associação como única
maneira de explicar os diferentes processos psíquicos, e atribuir a cada
forma um sistema mnemônico distinto.
Assim como o sistema perceptivo, também a memória trabalha
independentemente da consciência. Mas as sensações, que têm sua origem
na consciência e que podem se vincular às excitações advindas do sistema
perceptivo, não o podem com relação às do sistema mnemônico.5 Isso
significa que não se tem a sensação de algo que se recorda: o azul, do céu
azul visto, é diferente do azul do céu azul lembrado. Um é nítido, real, o
outro não.
Freud não é claro sobre o que seriam traços de memória ou imagens
mentais sem sensações, ou o que a consciência percebe quando ocorre uma
recordação. Da mesma forma, fica-se sem saber ao certo o que seriam
pensamentos (Gedanken) e pensamentos inconscientes, mas,
aparentemente, pode-se concebê-los como um conjunto de imagens mentais
(ideias, no sentido empirista), sem qualidades sensoriais (simples processos
excitatórios), associadas entre si. E como a associação ocorre no sistema
mnemônico, o pensamento é um processo mental que ocorre na memória.
Esses complexos de ideias (os pensamentos) podem ou não se tornar
conscientes. Isso dependerá de certas condições: que eles atinjam certo grau
de intensidade e/ou que a função da atenção esteja distribuída de uma certa
maneira. A atenção pode ser entendida aqui como sinônimo de consciência.
A tese implícita a essas condições é a da existência de um “limiar de
consciência” e de que, para que um processo psíquico atinja esse limiar, é
uma questão de intensidade e atenção, que estariam ainda em uma relação
complementar: quanto maior uma delas for, menor a outra precisará ser.
Existiriam ainda dois tipos de pensamentos inconscientes – os que
podem e os que não podem se tornar conscientes. Os primeiros seriam pré-
conscientes e os últimos inconscientes. A diferença fundamental entre eles
se deve ao fato de serem arquivados em sistemas mnemônicos distintos e,
portanto, estarem organizados (associados) de maneiras distintas. No
inconsciente, encontram-se fundamentalmente pensamentos de desejo.
Desejo é uma moção ou movimento (Regung) psíquico que busca reinvestir,
reexcitar, a imagem mnêmica oriunda da percepção associada à vivência de
satisfação. O reaparecimento dessa imagem mnêmica (através da percepção
ou da alucinação) é a realização do desejo. E esse pensamento de desejo é a
mais primitiva atividade do aparelho psíquico.
A primazia do desejo como atividade primitiva do aparelho psíquico
deve-se à tendência geral, à direção, que as excitações ou estímulos seguem
nos processos psíquicos. Essa direção ou tendência é introduzida como um
princípio fundamental do funcionamento mental como um todo e, portanto,
determinante de todas as atividades psíquicas: “A primeira coisa a nos saltar
aos olhos é que esse aparelho, composto de sistemas-psi, tem um sentido ou
direção (Richtung). Toda a nossa atividade psíquica parte de estímulos
(internos ou externos) e termina em inervações” (Freud, 1900/1999, p. 542).
O termo “inervações” refere-se basicamente à descarga de quantidades
de excitação através de sua transmissão para o sistema motor.6 Esse sistema
é responsável pelo movimento corporal e, portanto, este é concebido como
descarga de estímulo.
O elemento fundamental da elaboração teórica de Freud sobre o
psiquismo, a respeito do qual voltaremos posteriormente, é a concepção de
que “o aparelho psíquico deve construir-se como um aparelho reflexo” e
que “os processosreflexos continuam a ser o modelo de todas as funções
psíquicas” (Freud, 1900/1999, p. 543), assim como o são dos movimentos
em geral.
Isso é suficiente para se analisar a característica distintiva, o pressuposto
ontológico da teoria freudiana do psiquismo.
3. A característica essencial do aparelho psíquico freudiano: a
Reizbarkeit
A teoria do aparelho psíquico é a versão mais desenvolvida das
elaborações freudianas sobre o psiquismo em geral, e suas descobertas
clínicas posteriores serão elaboradas teoricamente com os mesmos recursos
conceituais aqui apresentados. Desse modo, o que é pressuposto aqui
também o é nas teorias que se desenvolveram com base nesta.
Dos elementos apresentados por Freud na sua teoria do aparelho
psíquico, destacam-se os três sistemas psíquicos (perceptivo, mnemônico e
motor), a direção do psiquismo e a divisão da mente em consciente, pré-
consciente e inconsciente.
O pré-consciente e o inconsciente são instâncias ligadas à memória das
impressões passadas, e o consciente à “observação interna”, quer das
impressões sensoriais atuais, quer das impressões passadas. Todas as
impressões que atravessam o aparelho psíquico, ou melhor, tudo com o que
o aparelho psíquico lida, têm a mesma natureza: excitações
quantitativamente determinadas, até que recebam, na consciência,
características qualitativas e, em especial, a distinção entre prazer e
desprazer. Essas excitações têm sua origem fora do aparelho psíquico, isto
é, são causadas em nós pelo mundo ou por nosso próprio organismo, tal
como estes são descritos pela física e pela fisiologia. Ao mesmo tempo,
uma vez que essas excitações adentram o aparelho psíquico, elas caminham
no sentido da descarga, já que o psiquismo é concebido como um aparelho
reflexo.
Portanto, pode-se dizer que o aparelho psíquico se caracteriza
fundamentalmente por duas atividades: a recepção de estímulos externos e
sua descarga (processo mental primário). A memória, bem como seus
diferentes sistemas (o inconsciente, o pré-consciente etc.), seria secundária
e oriunda da necessidade de se manter uma tensão mínima para fins de
sobrevivência do organismo, de modo que não é neste último que se poderia
encontrar a característica fundamental do aparelho psíquico. Essa
característica distintiva, que reúne em si as duas atividades primordiais do
aparelho psíquico (recepção e descarga de estímulos passíveis de
mensuração), é a “irritabilidade” (Reizbarkeit).
Esse conceito é oriundo da fisiologia do século XIX, empregado de
início por diversos autores, entre eles Johannes Müller, para determinar a
característica distintiva dos organismos vivos diante da natureza inorgânica.
Irritável é aquele organismo (ser vivo) que é afetado, não apenas por forças
mecânicas, mas por estímulos aos quais ele reage, não no sentido da reação
mecânica de um corpo atingido por outro, mas no de “livrar-se” do
estímulo, primordialmente pela fuga ou pela descarga7 (secundariamente
por uma ação específica). Ambas as reações (fuga e descarga) sendo
concebidas como movimentos reflexos. Esse movimento permite constatar
a irritabilidade e é esta (a irritabilidade) que o torna possível. Em seu
Projeto para uma psicologia científica, Freud diz:
O movimento reflexo torna-se compreensível agora como uma forma estabelecida de efetuar
essa descarga: a origem da ação fornece o motivo para o movimento reflexo. Se retrocedermos
ainda mais, poderemos, em primeira instância, vincular o sistema nervoso, como herdeiro da
irritabilidade [Reizbarkeit] geral do protoplasma, com a superfície externa irritável [reizbar].
(Freud, 1895/1999, p. 348)
Desse modo, o que Freud fez foi estender os conceitos de movimento
reflexo e irritabilidade, já empregados no século XIX com relação aos
organismos vivos, para caracterizar o psiquismo.
Essa concepção do psiquismo influenciada pela fisiologia do século XIX
está na base tanto da teoria da ab-reação quanto da postulação do desejo
como atividade fundamental do psiquismo, assim como da construção
auxiliar dos deslocamentos de quantidades de energia de uma representação
mental para outra ou da memória e seus diferentes registros mnemônicos.
Ou seja, está na base tanto da elaboração conceitual dos dados clínicos
quanto da elaboração metapsicológica do aparelho psíquico.
4. Os problemas clínicos enfrentados pelo modelo de 1900 e a
solução freudiana
Dentre os vários problemas enfrentados por Freud após 1900, um deles é
de fundamental importância para a revisão radical do modelo freudiano do
psiquismo. Como foi visto anteriormente, a característica fundamental do
aparelho psíquico é que ele deve ser concebido como uma substância
irritável cujo modelo de ação é o arco reflexo. Esse procedimento de
descarga de excitação é experimentado subjetivamente (através da
consciência) como prazer, daí o chamado princípio do prazer.8
De início, Freud ateve-se à hipótese de que a excitação traumática era
exógena, vinda de fora para dentro do organismo através da percepção.
Contudo, com a descoberta da onipresença da sexualidade, Freud viu-se
obrigado a reformular sua teoria do trauma, substituindo-a pela da fantasia e
atribuindo às pulsões a fonte da excitação traumática.9
Desse modo, o esquema freudiano inicial da neurose é modificado, mas
não sua concepção de psiquismo e, na verdade, o próprio conceito de pulsão
é desenvolvido pelos mesmos conceitos já presentes em sua teoria do
aparelho psíquico. De acordo com Freud, a pulsão é um estímulo (Reiz):
“Qual a relação da ‘pulsão’ com o ‘estímulo’? Nada existe que nos impeça
de subordinar o conceito de ‘pulsão’ ao de ‘estímulo’ e de afirmar que uma
pulsão é um estímulo aplicado à mente” (Freud, 1915/1999, p. 124). Mas
um estímulo com três características próprias: tem origem em fontes
internas de estimulação, surge como uma força constante e a fuga é ineficaz
contra ele.
Sendo assim, a teoria freudiana da sexualidade (pulsões) é pensada com
base nos mesmos conceitos – estímulo e “estimulabilidade” (Reizbarkeit)
do psiquismo – com os quais elaborou sua teoria (especulativa) do aparelho
psíquico. Contudo, com o progresso das investigações psicanalíticas, Freud
depara-se com dados clínicos que parecem ir na contramão desse postulado
fundamental sobre o funcionamento do aparelho psíquico:
Se levarmos em consideração observações como essas, baseadas no comportamento, na
transferência e nos destinos de homens e mulheres, não só encontraremos coragem para supor
que existe realmente na mente uma compulsão à repetição que sobrepuja o princípio de prazer,
como também ficaremos agora inclinados a relacionar com essa compulsão os sonhos que
ocorrem nas neuroses traumáticas e o impulso que leva as crianças a brincar. (Freud, 1920/1999,
p. 33)
Diante da evidência clínica da compulsão à repetição que parece
desprezar o princípio de prazer, Freud teria duas alternativas: fazer uma
revisão de sua tese do princípio diretor do psiquismo, isto é, a tese de que o
psiquismo funciona como um arco reflexo e, portanto, da própria concepção
de psiquismo como uma substância irritável, ou tentar harmonizar a
compulsão à repetição com sua teoria do psiquismo. Ele optou por esta
última. Sua estratégia para tentar reunir esses dois pontos é tratar a
compulsão à repetição como a manifestação de uma pulsão de morte, opor a
pulsão de morte à pulsão de vida e subsumir ambas sob o imperativo da
diminuição da tensão, o Princípio do Nirvana, que seria uma extensão do
princípio do prazer a ponto de caber nele também a aniquilação da vida:
A tendência dominante da vida mental e, talvez, da vida nervosa em geral, é o esforço para
reduzir, para manter constante ou para remover a tensão interna devida aos estímulos (o
“princípio do Nirvana”, para tomar de empréstimo uma expressão de Bárbara Low [1920, 73]),
tendência que encontra expressão no princípio de prazer, e o reconhecimento desse fato constitui
uma de nossas mais fortes razões para acreditar na existência dos instintos de morte. (Freud,
1920/1999, p. 66)
Dois pontos são problemáticos na estratégia freudiana:1) a hipótese
especulativa e pouco convincente de que a compulsão à repetição é fruto de
uma pulsão de morte; 2) que a pulsão de morte possa ser integrada ao
conceito inicial da tendência à diminuição da tensão (modelo do psiquismo
como arco reflexo), o princípio do prazer,10 uma vez que ela surge para
explicar a compulsão à repetição que justamente parece ir contra esse
princípio.
Ou seja, ou a pulsão de morte trabalha no sentido de aniquilar a vida e,
portanto, toda a tensão – nesse caso, continua prevalecendo o princípio
diretor do psiquismo (tendência à descarga de excitação), de modo que a
repetição seria uma forma de obter o prazer máximo (a morte) –, ou a
pulsão de morte trabalha no sentido de gerar desprazer, excitação – nesse
caso, haveria uma tendência no psiquismo ao acúmulo de excitação, o que
iria contra a tese do psiquismo como arco reflexo. Freud parece introduzir
um conceito ambíguo e contraditório, a pulsão de morte, para “resolver”
essa disjunção: a pulsão de morte é uma pulsão e, portanto, um estímulo,
mas um estímulo que não tende a ser descarregado e sim acumulado,
gerando desprazer. Só que esse acúmulo de desprazer visa à morte, isto é, à
aniquilação de toda tensão e, portanto, ao prazer.
Com esse recurso, Freud consegue manter seu modelo inicial. O
psiquismo continua lidando apenas com estímulos, uma vez que ambas as
pulsões são estímulos, e sua tendência geral continua sendo a eliminação da
tensão.
5. Conclusão
O desenvolvimento da teoria freudiana das neuroses e do psiquismo, e
suas descobertas posteriores, encaixam-se no mesmo caso da fisiologia e
psicologia analisado por Merleau-Ponty:11 os resultados da pesquisa
psicanalítica parecem refutar seus pressupostos e, ao invés de se proceder a
uma revisão destes, segue-se incluindo adendos, novos postulados, muitas
vezes contraditórios com outros e com a própria experiência; isso para se
salvar um modelo que, a princípio, tinha sido apresentado como provisório.
Uma alternativa poderia ser, como o fizeram alguns analistas pós-
freudianos, a revisão do princípio diretor dos processos psíquicos e, com
isso, da própria concepção de psiquismo. Essa via parece ter sido
conscientemente adotada por Lacan e Winnicott.
Além dessa crítica dos pressupostos ontológicos de uma teoria por sua
insuficiência na organização do material (empírico) obtido pela
investigação clínica, poder-se-ia, ainda, de acordo com a fenomenologia,
criticar esse conceito fundamental da psicanálise freudiana, a irritabilidade
(Reizbarkeit), diretamente. Essa será a direção que procuraremos adotar em
trabalhos posteriores.
Referências
Fulgencio, L. (2005). Freud’s Metapsychological speculations. International Jounal of
Psychoanalysis, 86, 99-123.
Freud, S. (1999). Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 5).
Frankfurt: Fischer. (Trabalho original publicado em 1905)
Freud, S. (1999). Entwurf einer Psychologie. In S. Freud, Gesammelte Werke Nachtragsband.
Frankfurt: Fischer. (Trabalho original publicado em 1895)
Freud, S. (1999). Jenseits der Lustprinzip. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 13). Frankfurt: Fischer.
(Trabalho original publicado em 1920)
Freud, S. (1999). Selbstdarstellung. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 14). Frankfurt: Fischer.
(Trabalho original publicado em 1925)
Freud, S. (1999). Die Traumdeutung. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 2/3). Frankfurt: Fischer.
(Trabalho original publicado em 1900)
Freud, S. (1999). Triebe und Triebschicksale. In S. Freud, Gesammelte Werke (V. 10). Frankfurt:
Fischer. (Trabalho original publicado em 1915)
Merleau-Ponty, M. (1942). La structure du comportement. Paris: Presses Universitaires de France.
Merleau-Ponty, M. (1945). Phénomenologie de la perception. Paris: Gallimard.
1. Este artigo foi originalmente publicado na revista Natureza humana, v. 8, n. 2 (especial), 2006.
2. Cf. Fulgencio, 2005.
3. “Lá [no mundo externo], segundo o parecer da nossa ciência natural, à qual também devemos
submeter a psicologia aqui, só existem massas em movimento e nada mais” (Freud, 1895/1999, p.
401).
4. Essa separação entre sensação e percepção permite reunir em uma mesma teoria dados de origens
diferentes: a noção da realidade como quantidades em movimento, oriunda das ciências naturais
(física e fisiologia), com os dados empíricos da consciência, as sensações.
5. Essa diferença é necessária para que o aparelho psíquico possa realizar o “teste de realidade”, que
consiste em verificar se uma certa representação mental é real, isto é, oriunda da percepção mental ou
alucinada, isto é, oriunda da memória. E o “teste de realidade”, por sua vez, é necessário, uma vez
que o psiquismo, movido pela sua tendência fundamental de eliminar o excesso de excitação,
tenderia a ficar alucinando a representação mental associada à vivência de satisfação e não
sobreviveria.
6. Há ainda a possibilidade de descarga das excitações através da associação de uma representação
mental com outras, de maneira que a quantidade de excitação se espalhe.
7. Na realidade, há uma série de concepções e modificações que esse conceito sofreu na fisiologia do
século XIX, como a distinção entre os seres orgânicos e inorgânicos, e, em particular, as disputas
entre vitalistas e materialistas mecanicistas, entre os quais se situam Helmholtz, Brücke, Du Bois-
Reymond e outros, todos com influência direta sobre Freud. O esclarecimento dos conceitos de Reiz
e Reizbarkeit, assim como da concepção freudiana deste conceito, serão realizados em trabalhos
futuros.
8. O princípio de realidade seria derivado do princípio de prazer, na medida em que a manutenção de
uma certa quantidade de energia psíquica é necessária para a obtenção de prazer real e que o teste de
realidade é fruto da exigência de satisfação. Sobre isso, Freud diz: “Sob a influência dos instintos de
autopreservação do ego, o princípio de prazer é substituído pelo princípio de realidade. Esse último
princípio não abandona a intenção de, fundamentalmente, obter prazer; não obstante, exige e efetua o
adiamento da satisfação, o abandono de uma série de possibilidades de obtê-la, e a tolerância
temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer”. E mais à frente:
“contudo, no que concerne ao restante, pode-se afirmar com certa justificativa que sua presença não
contradiz a dominância do princípio de prazer” (Freud, 1920/1999, pp. 20-21).
9. “Devo primeiramente esclarecer, repetindo o que já disse em outras publicações, que essas
psiconeuroses, até onde chegam minhas experiências, baseiam-se em forças pulsionais de cunho
sexual. Não quero dizer com isso apenas que a energia da pulsão sexual faz uma contribuição para as
forças que sustentam os fenômenos patológicos (os sintomas), e sim asseverar expressamente que
essa contribuição é a única fonte energética constante da neurose e a mais importante de todas”
(Freud, 1905/1999, p. 155).
10. Cf. Freud: “O princípio de prazer parece, na realidade, servir aos instintos de morte” (Freud,
1920/1999, p. 74).
11. Merleau-Ponty, 1942 e 1945.
Winnicott e uma psicanálise sem metapsicologia1
Leopoldo Fulgencio
1. Introdução
Para mostrar que Winnicott abandonou os conceitos fundamentais da
metapsicologia freudiana, substituindo-os por outros de natureza
epistemológica díspares destes, proponho o seguinte desenvolvimento:
primeiro, retomarei a natureza, a função e as características dos conceitos
metapsicológicos em Freud; segundo, indicarei o sentido do termo
metapsicologia na obra de Winnicott; terceiro, mostrarei que ele abandona
os conceitos metapsicológicos de pulsão de vida (Lebenstriebe) e de morte
(Todestriebe) e, em última instância, também os conceitos de pulsão (Trieb)
em geral e de aparelho psíquico;2 e quarto, que quando usa o termo libido,
não se trata mais de supor uma energia pensada em termos análogos às
energias supostas no campo dos fenômenos físicos, mas uma maneira de
referir-se aos valores dados aos acontecimentos e fantasias relativos às
relações inter-humanas. Realizado essepercurso, poderei afirmar que a
teorização feita por Winnicott é uma teorização de tipo factual, por
oposição à teorização especulativa que caracteriza a teorização
metapsicológica.
2. Natureza, função e características dos conceitos meta-
psicológicos para Freud
Freud utiliza o termo metapsicologia em dois sentidos distintos: por um
lado, enquanto sinônimo de uma teoria psicológica que toma o inconsciente
como aquilo que é propriamente psíquico (Freud, 1900a/1953-74, p. 612),
ou seja, a metapsicologia como a teoria geral de uma psicologia do
inconsciente;3 por outro, a considera como um conjunto de conceitos que
são construções teóricas auxiliares de valor apenas heurístico. Assim, a
metapsicologia ficou conhecida como o constructo teórico que considera os
processos psíquicos segundo três pontos de vista: o dinâmico (que toma o
psiquismo como se fosse movido por forças psíquicas em oposição,
denominadas por Freud Triebe, pulsões), o tópico (que considera o
psiquismo como se fosse um aparelho dividido em instâncias
espacialmente figuráveis) e o econômico (que concebe o psiquismo como se
fosse movimentado por uma energia, que ele caracterizou inicialmente
como um quantum de afeto e, mais tarde, como libido).
A importância metodológica do uso de conceitos na estrutura do como se
não é feita ao acaso; pelo contrário, trata-se, para Freud, de um método de
pesquisa que prega a utilidade de conceitos especulativos para auxiliar na
observação e sistematização dos fenômenos psíquicos, tendo em vista a
explicação de suas relações de determinação recíproca.4 Freud está cônscio
de suas especulações, tanto que, para ele: 1) o conceito de pulsão (Trieb) é
uma ideia abstrata que tem a natureza de uma convenção (1915c/1953-74,
p. 117), caracterizado como um tipo de mitologia da psicanálise
(1933a/1953-74, p. 95; 1933b/1953-74, p. 212); 2) a noção de aparelho
psíquico é uma ficção teórica (1900a/1953-74, p. 603) em relação à qual
não está em questão procurar um substrato empírico que lhe corresponda; e
3) a noção de quantum de afeto, ou libido, é uma construção teórica
auxiliar, útil para compreender os fenômenos clínicos, mas sem
comprovação fenomênica, pensada de forma análoga ao conceito de energia
elétrica ou a de fluido, jamais passível de ser medida (cf. Freud,
1894a/1953-74 e 1914c/1953-74). Para Freud, a metapsicologia
corresponde à superestrutura especulativa (spekulativer Überbau) da
psicanálise “em que cada parte pode ser sacrificada ou trocada sem dano
nem remorso, a partir do momento em que uma insuficiência é constatada”
(1925d/1953-74, pp. 32-33).
Para evitar mal-entendidos, creio ser necessário fazer um esclarecimento,
explicitando a diferença epistemológica entre os fatos, as teorias empíricas
e as teorias especulativas. Os fatos são sempre singulares e contingentes,
enquanto as teorias ou conceitos são sempre universais. Quanto aos
conceitos que compõem as teorias, alguns têm referente empírico
objetivamente dado na realidade fenomênica sensível (seja a dada aos
sentidos externos seja ao sentido interno), enquanto outros não encontram
referente intuitivo possível. Ambos os tipos de conceitos são utilizados nas
teorias científicas, não só nas teorias científicas, mas aqui se trata de seguir
a análise da psicanálise, tal como uma ciência proposta por Freud. Assim,
na psicanálise freudiana, podemos considerar dois tipos de corpos teóricos:
um que se refere aos conceitos construídos por abstração e generalização
dos dados clínicos, a teoria dos fatos clínicos (tais como a que ser refere à
sexualidade infantil, ao complexo de Édipo, à transferência, à resistência
etc.), e outro que corresponde aos conceitos especulativos ou
metapsicológicos, tais como os conceitos de aparelho psíquico e energia
psíquica, que servem como construções auxiliares para ajudar na
observação e sistematização dos dados clínicos (cf. Fulgencio, 2005).
Ao distinguir a teoria clínica da metapsicológica, não estou afirmando
que os fatos clínicos são apreendidos independentemente de teorias, visto
que toda pesquisa científica depende de uma orientação para selecionar
(dentre a multiplicidade de fenômenos que se apresentam) os elementos a
serem observados e para estabelecer tipos de relação a serem procuradas na
ligação e ordenação desses fenômenos. Isso não significa que as teorias que
orientam a pesquisa empírica sejam, necessariamente, especulativas, ainda
que as especulações metapsicológicas tenham um lugar central para Freud.
Um exemplo claro, nesse sentido, está exposto, pelo próprio Freud (“The
neuro-psychoses of defense”, 1894), quando diz que, na sua exposição
sobre as neuroses de defesa (histeria, neurose obsessiva e fobia), ele utilizou
uma hipótese de trabalho na qual supôs que, nas funções mentais, há algo
como um fator quantitativo (montante de afeto, soma de excitação), algo
que é suscetível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga, e que se
difunde pelas marcas mnêmicas das representações, como faria uma carga
elétrica pela superfície dos corpos. Para ele, esse fator não tem nenhum
meio de ser medido (cf. Freud, 1894a/1953-74, p. 60), uma vez que esse
fator quantitativo é apenas um instrumento teórico que possibilita agrupar
os fatos e não um obscuro dado que algum dia seria acessível
empiricamente. Com esse conceito especulativo de quantum de afeto, Freud
pôde colocar a histeria, a neurose obsessiva e a fobia (tão diferentes nas
suas manifestações) como pertencentes a um mesmo grupo de patologias,
caracterizando-as, então, como tendo um mesmo tipo de dinâmica, a saber,
a que procura uma descarga de excitações, ainda que tome caminhos
diferentes para atingir seu objetivo: a histeria buscando essa descarga no
corpo, a neurose obsessiva no pensamento, e a fobia no mundo exterior.
Freud está, em termos metodológicos, reafirmando aquilo que outros
cientistas, em ciências mais maduras, fazem para pesquisar seus objetos, ou
seja, a utilização de ficções heurísticas que ajudam a pesquisar os
fenômenos, cujo valor é justificável pela sua eficácia na resolução de
problemas e não pela sua referência empírica objetivamente dada no mundo
fenomênico (cf. Freud, 1894a/1953-74, pp. 60-61).
A metapsicologia, segundo Freud, é necessária não por ser verdadeira,
mas porque ela é útil para a observação, o agrupamento e a sistematização
dos fatos clínicos. Ela é um instrumento para pesquisar e, tal como todo
instrumento, não se coloca a questão sobre sua veracidade ou falsidade, mas
tão somente sobre sua utilidade.
3. Os sentidos do termo metapsicologia na obra de Winnicott
Winnicott usa o termo metapsicologia com dois sentidos distintos:
primeiro, significando a própria teoria psicanalítica em geral; segundo,
referindo-se a um conjunto de conceitos inadequados para a compreensão
do ser humano do ponto de vista da psicanálise.
No primeiro sentido, a teoria metapsicológica é considerada a teoria que
descreve o processo de amadurecimento emocional do ser humano desde
sua origem.5 No segundo sentido, Winnicott usa o termo metapsicologia
como um conjunto de conceitos abstratos, de obscura referência factual no
campo dos fenômenos, que fornece apenas uma ilusão de compreensão. Em
1954, ele escreve a Anna Freud:
Estou tentando descobrir por que é que tenho uma suspeita tão profunda com esses termos
[metapsicológicos]. Será que é porque eles podem fornecer uma aparência de compreensão onde
tal compreensão não existe? Ou será que é por causa de algo dentro de mim? Pode ser, é claro,
que sejam as duas coisas. (Winnicott, 1987b/1999, p. 58)
Winnicott tem em mente a necessidade de usar uma linguagem teórica
que seja o mais próxima possível dos fatos reconhecíveis na vida
quotidiana: “um escritor da natureza humana precisa ser levado
constantemente em direção a uma linguagem simples, longe do jargão do
psicólogo, mesmo que tal jargão possa contribuir para revistas científicas”
(1957o/1986, p. 127). O que marca sua postura metodológica e
epistemológica é uma constante preocupação em dar conteúdos factuais às
suas teorias,levando-o, nesse sentido, não só a tecer duras críticas a
conceitos tais como os de pulsão de vida (Lebenstriebe) e de morte
(Todestriebe) mas, fundamentalmente, a abandonar os conceitos
especulativos que caracterizam a metapsicologia freudiana.
4. Críticas de Winnicott aos conceitos de pulsão de vida
(Lebenstriebe) e de morte (Todestriebe)
Um ponto de crítica central é o julgamento de Winnicott sobre o valor
dos conceitos de pulsão de vida (Lebenstriebe) e de morte (Todestriebe).
Ele diz de forma clara e direta: “simplesmente não acho válida sua ideia de
pulsão de morte [Todestriebe]” (1965va[1962]/1990, p. 177). Numa carta a
Money-Kyrle, de 1952, ele explicita claramente qual o motivo de seu
incômodo quanto ao uso desses conceitos:
você mais uma vez introduz a pulsão de vida [Lebenstriebe] e a pulsão de morte
[Todestriebe]; você diz que, se elas são parte de nossos dons inatos, um mundo perfeitamente
mau seria tão possível quanto um perfeito. Esse é um exemplo da maneira como o conceito de
pulsão de vida [Lebenstriebe] e de morte [Todestriebe] evita o campo de investigação tão rico do
desenvolvimento inicial do bebê. É uma pena que Melanie tenha feito um esforço tão grande
para conciliar sua opinião com a pulsão de vida [Lebenstriebe] e de morte [Todestriebe], que são
talvez o único erro de Freud. Não preciso lembrá-lo que ele tinha dúvidas a esse respeito quando
introduziu o conceito pela primeira vez; e também de que o termo pulsão de morte [Todestriebe]
é mal-usado na Sociedade mais que qualquer outro, sendo empregado no lugar das palavras
agressividade ou impulso destrutivo ou ódio, de uma maneira que, tenho certeza, teria
horrorizado Freud. (1987b/1999, p. 42)
Winnicott mostra-se até mesmo bem-humorado e espirituoso nos seus
conselhos para que seus colegas da Sociedade Britânica de Psicanálise
abandonassem as confusões geradas pelo uso dos conceitos de pulsão de
vida e de morte. Diz ele a Hans Thorner, em 1966:
Gostaria de dizer, porém, que as coisas ficam confusas, na Sociedade, quando vários termos
são usados como se fossem plenamente aceitos. Tenho certeza de que você sabe exatamente o
que tem em mente quando diz: “partes perigosas... derivadas da pulsão de morte [Todestriebe]...
devem ser expulsas” etc. etc.; eu mesmo não sei o que você quer dizer, e pelo menos metade da
Sociedade deve sentir que você está dizendo “pulsão de morte” [Todestriebe], em vez de usar as
palavras “agressividade” e “ódio”. Você talvez ache que isso não tem importância, e não tem
mesmo, no contexto de seu ensaio, mas seria realmente muito útil para a Sociedade se
conseguíssemos descobrir uma linguagem comum. Qualquer hora dessas, quando você não tiver
nada para fazer, que tal reescrever aquela frase sem usar as palavras “pulsão de morte”
[Todestriebe], só por minha causa? (Winnicott, 1987b/1999, p. 154)
5. A redescrição do conceito de instinto e o abandono do
conceito de pulsão (Trieb)
Não se trata, para Winnicott, de manter os conceitos de pulsão de
autoconservação (Selbsterhaltungstriebe) e pulsão sexual (Sexualtrieb),
abandonando os de pulsão de vida e de morte. A sua proposta é mais
radical: o próprio conceito freudiano de pulsão (Trieb)6 é abandonado. Essa
operação conceitual, de grandes consequências, é realizada sem muito
alarde e não ocorre num único golpe, mas em diversos momentos da sua
obra. Podemos considerar que ele faz isso de duas maneiras: primeiro,
definindo o que ele chama de instinto, cuja análise mostra uma diferença
radical entre o seu conceito e o que Freud denominou Trieb (pulsão);
segundo, de maneira mais dispersa em sua obra, substituindo o conceito de
Trieb pelos conceitos de instinto, desejo, necessidade de ser e tendência
inata à integração.
Freud caracterizou a pulsão (Trieb) como um “conceito fundamental
convencional do qual não podemos prescindir” (1915c/1953-74, p. 117),
isto é, um tipo de mito que serve como uma orientação para procurar a
relação entre os fenômenos e as suas determinações. Note ainda que, para
Freud, as pulsões não são forças físicas, mas psíquicas. Não são forças
propriamente biológicas, mas uma representação psíquica de uma fonte
endossomática ou, ainda, um representante (representans) da fonte
endossomática; são concebidas como um conceito limite entre o soma e o
psíquico (cf. Freud 1905d/1953-74, p. 167).
Ao definir o que são os instintos, Winnicott escreve em 1954, no seu
livro Natureza humana:
Instinto é o termo pelo qual se denominam poderosas forças biológicas que vêm e voltam na
vida do bebê ou da criança, e que exigem ação. A excitação do instinto leva a criança, assim
como qualquer animal, a preparar-se para a satisfação quando o mesmo alcança seu estágio de
máxima exigência. (1988/1988, p. 39)
Para Winnicott, os instintos não são as pulsões (Triebe) – como poder-se-
ia erroneamente supor –, considerando tratar-se apenas de um problema de
tradução do termo alemão Trieb. Segundo Winnicott, os instintos não são
ideias abstratas ou convenções, mas dados empíricos, excitações corporais
que recebem um sentido e que exigem ação para serem satisfeitas. Não é,
pois, um conceito especulativo.
Para Freud, o que importa é a representação psíquica da excitação
corpórea; é essa representação e o jogo de determinações recíprocas que
ocorre entre essa e outras representações que compõem a vida psíquica,
dando a dinâmica explicativa que anima os fenômenos. Pode-se dizer,
então, que, para a psicanálise freudiana, o corpo é praticamente expulso,
ficando apenas a representação desse corpo, ou, ainda, o afeto, que é um
representante da excitação corporal correspondente. Segundo Freud, o
corpo é um problema da medicina ou da biologia, cabendo à psicanálise não
o corpo, mas as suas representações e seus afetos.
Em Winnicott, estamos noutra perspectiva: as vivências e excitações
corporais são elaboradas imaginativamente,7 ou seja, as experiências
corporais recebem um sentido e esse sentido não é o representante das
excitações nem a reapresentação do corpo, mas a qualidade que
caracterizará a própria vivência ou excitação. Não se trata, para Winnicott,
de um jogo de forças entre as representações ou afetos, mas de uma
existência psicossomática que é vivida e significada nas relações inter-
humanas, seja do ponto de vista do si-mesmo, seja do ponto de vista das
relações do indivíduo com o ambiente.
Na orientação metodológica de Freud, há uma passagem necessária entre
a descrição dos fatos clínicos e a elaboração teórica que os concebe (Freud,
1916-17/1953-74, p. 67). A adesão ao ponto de vista dinâmico é uma
escolha epistemológica e metodológica para Freud, na qual devem ser
supostas forças em conflito (apenas duas, equivalentes em dignidade às
forças de atração e repulsão), estando na base das concepções sobre as
causas dos fenômenos e de seus movimentos. Daí a necessidade de Freud
de agrupar os diversos tipos de pulsões8 pertencendo a um ou outro
conjunto mais geral, supondo, assim, um único par de forças que englobaria
todas as outras – as pulsões de autoconservação ou sexuais – e, mais tarde,
aprofundando essa mesma perspectiva, as pulsões de vida e de morte.
Para Winnicott, é irrelevante se estamos diante de um par de instintos ou
lidando com um número maior deles (1988/1988, p. 40).
O ponto de vista dinâmico (ou a dinâmica), para Winnicott, não é o
conflito de forças, mas as relações inter-humanas numa história, em termos
de seus sentimentos, fantasias, desejos e conflitos – tanto os conscientes
como os inconscientes –, ou no que se refere à administração dos instintos.
Quando Freud supôs as pulsões de autoconservação
(Selbsterhaltungstriebe) e as sexuais (Sexualtriebe) como forças análogas às
que se supunha na vida animal, ele também demarcou9 a diferença entre a
noção de Instinkt – que caracterizaria os animais10– e a de Trieb – que
caracteriza o ser humano11 –, considerando que as pulsões não têm a mesma
fixidez na determinação dos comportamentos e objetos que os instintos.
Segundo Winnicott, não é aí que ocorre a distinção entre os homense os
animais, pois, para ele, não há, num momento inicial, uma diferenciação
entre eles (cf. Winnicott, 1988/1988, pp. 39-40). Para Winnicott, o animal
humano tem pressões biológicas tal como os outros animais, mas ele dá a
elas um significado propriamente humano.12
Dentre esses sentidos especificamente humanos, Winnicott explicita, na
sua teoria do amadurecimento pessoal,13 que o homem tem um modo
existencial constituído numa relação de dependência absoluta, característica
do início da vida, que progride (na saúde) em direção a uma relação de
dependência relativa para, depois, uma independência relativa, retornando a
um segundo estado de dependência relativa (na velhice), o que dá um
sentido temporal e relacional à existência, não encontrável, dessa maneira,
noutros animais.
Um outro aspecto que diferencia o ser humano dos outros animais pode
ser reconhecido a partir de uma das características do que Winnicott
denominou de fenômenos transicionais. No artigo “O lugar em que
vivemos”, ele coloca a questão:
O que estamos fazendo enquanto ouvimos uma sinfonia de Beethoven, ao visitar uma galeria
de pintura, lendo Troilo e Cressida na cama, ou jogando tênis? Que está fazendo uma criança
quando fica sentada no chão e brinca sob a guarda da mãe? Que está fazendo um grupo de
adolescentes, quando participa de uma reunião de música popular? (1971q/1996, p. 105)
Ele ressalta, então, que há, ainda, uma outra pergunta mais fundamental
a ser feita, que diz respeito, a saber: “Onde estamos nesse momento (se é
que estamos em algum lugar)?” (1971q/1996, p. 105). Para ele, a distinção
entre interno e externo, bem como a noção de sublimação, não são
suficientes para abordar esse problema. Diz Winnicott:
Já utilizamos os conceitos de interno e externo e desejamos um terceiro conceito. Onde
estamos, quando fazemos o que, na verdade, fazemos grande parte de nosso tempo, a saber,
divertindo-nos? O conceito de sublimação abrange realmente todo o padrão? Podemos auferir
algum proveito do exame desse tempo que se refere à possível existência de um lugar para viver,
e que não pode ser apropriadamente descrito quer pelo termo “interno” quer pelo “externo”?
(1971g/1996, pp. 105-106)
Para ele, não estamos nem no mundo externo nem no interno, mas num
outro mundo diferente destes, um mundo que é, ao mesmo tempo, criado
por nós e encontrado no exterior. E, no que se refere aos animais, ainda que
nestes possa existir algo desse tipo, não encontramos a mesma possibilidade
de criar-encontrar um “lugar para viver” tal como ocorre com o homem.14
6. A substituição do conceito de pulsão (Trieb)
O abandono do conceito de pulsão (Trieb) e a redescrição do conceito de
instinto também corresponde à substituição desses conceitos por outros, não
só outros em termos de conteúdo, mas também de outra natureza
epistemológica. Loparic, ao explicitar a redescrição da teoria da sexualidade
feita por Winnicot, comenta essa modificação:
O lugar do conceito especulativo de pulsão [Trieb] é ocupado por, pelo menos, três conceitos
radicalmente distintos entre si, mas todos referentes à experiência possível de um bebê humano:
1) o de necessidade (need) do indivíduo humano de continuar crescendo e de ser si-mesmo – de
onde surgem todas as outras necessidades da vida humana que só podem ser atendidas a partir da
identificação da mãe com seu bebê –, 2) o de instinto (instinct) ou de drive (impulso) biológico –
de onde se originam as pressões pela satisfação e pela recompensa na forma do prazer15 – e 3) o
de desejo (wish), relacionado à fantasia sofisticada.16 Como sugeri num trabalho anterior
[Loparic 2000], as necessidades e instintos podem ser englobados sob o título de urgências, e a
vida humana pode ser caracterizada pela urgencialidade, ao invés de pela pulsionalidade.
(Loparic, 2005, p. 270)
Não cabe aqui desenvolver uma análise sobre cada um desses conceitos
que, juntos, substituem o conceito de pulsão, mas tão somente indicá-los
explicitando um quadro para que sejam no futuro analisados.
7. O abandono da noção de aparelho psíquico
Quando Freud quis caracterizar qual foi a grande contribuição que a
psicanálise deu à ciência, ele afirmou ser justamente a proposta de tomar o
psiquismo tal como se fosse um aparelho (um telescópio, microscópio ou
qualquer coisa desse tipo) (veja Freud, 1940a/1953-74; 1940b/1953-74;
1933a/1953-74, p. 159).
Justamente essa operação – que toma o ser humano como um objeto e o
psíquico como um aparelho – foi recusada por Winnicott. Quando ele se
refere à psicanálise como uma psicologia dinâmica – “[A psicanálise se
ocupa de] uma questão de sentimentos, de pessoas vivas, de emoções e
instintos, e ela também lida com o inconsciente e com os conflitos
inconscientes que causam os sintomas por não estarem disponíveis para a
consciência” (1996q[1950]/1996, p. 14) –, ele não toma o ser humano como
qualquer objeto da natureza, ao contrário, ele o considera justamente na sua
especificidade humana, marcado por relações que não são de tipo análogo
às que ocorrem entre os aparelhos ou objetos.
Winnicott procurou desenvolver a psicanálise como uma ciência que
pudesse fazer um estudo objetivo da natureza humana. Note, por exemplo,
quando ele afirma:
Talvez vocês estejam começando a perceber que existe certo sentido em transformar o
estudo da natureza humana numa ciência, num processo caracterizado pela observação de fatos,
pela criação de teoria e testagem desta teoria, e pela modificação da teoria de acordo com a
descoberta de novos fatos. (1945h/1996, p. 5)
Ele não está se referindo a um aparelho ou a um objeto, mas à própria
natureza humana. Poder-se-ia perguntar, mas o que é essa natureza humana?
Segundo ele, é um tipo de acontecimento que se realiza numa história
pessoal: “O ser humano é uma amostra temporal da natureza humana”
(1988/1988, p. 11). Para Winnicott, a natureza humana não será jamais
tomada como uma abstração, um conceito filosófico ou uma metáfora, ao
contrário, ele tem sempre no seu horizonte pessoas e suas experiências na
existência.
Ao referir-se ao indivíduo, às pessoas vivas, às emoções, instintos,
fantasias etc., Winnicott nunca trata o homem em termos de funcionamento
de um aparelho. Ao que tudo indica, em nenhum momento ele ficou
seduzido pela ideia de conceber a natureza humana enquanto relações
mecânicas de um aparelho ou como estruturas formais, matemáticas ou
simbólicas; pelo contrário, ele mantinha-se numa linguagem ou teorização
que estava tanto mais próxima quanto possível da descrição das relações
inter-humanas propriamente ditas, o que lhe parecia mais natural ao falar do
ser humano.
Ao abandonar a noção de aparelho psíquico, também foi abandonada a
ideia das instâncias ou sistemas psíquicos que comporiam esse aparelho. No
entanto, Winnicott mantém termos tais como id, ego, superego etc., mas o
faz com o objetivo de manter uma possibilidade de comunicação com seus
colegas psicanalistas, ainda que os use num sentido diferente do que Freud
estabelecera.
Convém, aqui, para salientar a magnitude das transformações propostas
por Winnicott, lembrar da afirmação de Freud, no seu último texto, quando
tinha já 82 anos e estava lúcido sobre os quase 50 anos de desenvolvimento
da ciência psicanalítica: “A psicanálise supõe um postulado fundamental [o
de que o psiquismo pode ser figurado, heuristicamente, em termos de um
aparelho psíquico]: que cabe à filosofia discutir, mas cujos resultados
justificam o valor” (Freud, 1940a/1953-74, p. 144). É forçoso, assim,
considerar que Winnicott não está apenas acrescentando certas
contribuições (como os conceitos de objeto transicional e de falso e
verdadeiro si-mesmo etc.) ao edifício teórico da psicanálise, mas propondo
modificações que alteram esse edifício nos seus fundamentos.
Ao substituir o conceito freudiano de aparelho psíquico pelo de
integração ou identidade pessoal, nota-se que Winnicott realizou uma
mudança no estatuto ontológico do objeto de estudo da psicanálise. Essa
constatação reitera a interpretação segundo a qual a obra de Winnicotté
uma revolução17 na psicanálise, estabelecendo, assim, um novo quadro a
partir do qual os problemas são formulados e as soluções desenvolvidas. É
justamente nesse quadro que tem sido defendida a ideia de que a filosofia
de Heidegger seria adequada como fundamento ontológico da psicanálise
winnicottiana (cf., por exemplo, Loparic, 1999b e 2000, e Dias, 2006).
8. O abandono do conceito de libido como uma energia psíquica
O uso do conceito de libido como sinônimo de um tipo de energia que é
passível de ser escoada, descarregada, armazenada, não foi tão
explicitamente recusado como foram os conceitos de pulsão (Trieb) e de
aparelho psíquico, ainda que Winnicott critique claramente a utilização do
ponto de vista econômico como um tipo de simplificação feita por Freud
(cf. Winnicott, 1958b[1950]/1992, p. 16).
Winnicott usa o termo libido não no sentido forte, que caracteriza o
ponto de vista econômico da metapsicologia freudiana, mas como sinônimo
de relação afetiva ou amorosa, ou, ainda, para referir-se à sexualidade,
dando ao termo um sentido mais vago, para apontar ou referir-se a certos
aspectos observáveis das relações humanas. Se, para Freud, notamos uma
passagem que vai da descrição dos fatos para uma apresentação
metapsicológica em termos dinâmicos e depois econômicos (cf. Freud,
1916-17/1953-74, p. 378), em Winnicott, teríamos exatamente o movimento
inverso, que vai do abandono do ponto de vista dinâmico, tópico e
econômico para a tentativa de descrever os fatos.
Ao apresentar, por exemplo, a sua maneira de conceber a posição
depressiva – momento específico do desenvolvimento no qual a criança se
vê como responsável pelos seus atos e pensamentos na relação com o outro
(1988/1988, Parte II, cap. 1 e 2) –, Winnicott confirma sua preocupação em
apresentar uma construção teórica que seja uma descrição dos fatos,
dizendo: “A aceitação da posição depressiva (tenha ela este ou outro nome)
no constructo teórico implica novas e importantes maneiras de encaminhar
a descrição da natureza humana” (1988/1988, p. 75, os itálicos são meus).
Ao fazer essa descrição, ele não se refere a uma energia que investe os
objetos ou o eu. Não se trata de investimentos energéticos e deslocamentos
de quanta de afeto, mas dos estados tranquilos e excitados da criança em
desenvolvimento na sua relação com a mãe (aqui, sinônimo de “outro”, que
não ela mesma ou parte dela, com o qual se relaciona). Winnicott diz que
essa fase do desenvolvimento “envolve o bebê em sentimentos de culpa,
levando-o a preocupar-se com os relacionamentos, em razão de seus
componentes instintivos ou excitados” (1988/1988, p. 69). O importante,
para ele, não é a capacidade de suportar a excitação ou descarregá-la, tal
como uma máquina pode suportar ou não um determinado regime de
funcionamento, mas sim os valores dados aos sentimentos e fantasias
envolvidos nas relações da criança com o mundo, que nessa fase já está
maduro para se ver como uma unidade ao relacionar-se com as pessoas e
seu ambiente (cf. Winnicott, 1988/1988, p. 69).
9. A substituição da teorização metapsicológica pela factual
Parece, pois, justificável, conceitual e textualmente, afirmar que
Winnicott abandonou os conceitos de pulsão (Trieb), aparelho psíquico e
libido, que estão respectivamente na base dos três pontos de vista que
caracterizam a metapsicologia freudiana, propondo um tipo de teoria que
tem uma ontologia e um conjunto de conceitos de natureza epistemológica
diferentes da teoria utilizada pela psicanálise freudiana ou tradicional. Não
se trata, para Winnicott, de substituir a metapsicologia, a bruxa freudiana,
por uma outra, mas de propor uma teoria psicanalítica sem esse tipo de
especulação ou de feitiçaria.
O abandono da metapsicologia, para Winnicott, não significa recusar
tudo o que Freud e outros analistas pós-freudianos fizeram, em benefício de
suas próprias teorias. Uma série de descobertas feitas por Freud (a
sexualidade infantil, o complexo de Édipo, o inconsciente recalcado, a
transferência, a resistência etc.), Klein (a posição depressiva, o uso do jogo
e da brincadeira na técnica de tratamento de crianças etc.), entre outras
contribuições que caracterizam o desenvolvimento da psicanálise, estão
presentes na teoria psicanalítica winnicottiana, ainda que tenham sido
redescritas ou redefinidas por ele no interior de sua teoria do
amadurecimento pessoal, configurando, assim, a fé de Winnicott no próprio
progresso da psicanálise como uma ciência.
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1. Este artigo foi originalmente publicado na revista Natureza humana, v. 8, n. 1 (especial), 2006. É
uma continuidade do ponto de vista exposto em Fulgencio, 2003 e 2005. Ele corresponde ao
resultado parcial de minha pesquisa de pós-doutorado, “Winnicott e a metapsicologia”, desenvolvida
com o apoio da FAPESP. A interpretação da história e desenvolvimento da psicanálise aqui proposta
se insere na linha de pesquisa do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas
atualmente da Unicamp, iniciada a partir dos trabalhos de Zeljko Loparic (cf.
www.centrowinnicott.com.br/grupofpp).
2. Para distinguir os conceitos freudianos dos winnicottianos – especialmente a distinção entre o
conceito de Trieb (e seus derivados), em Freud, e o de Drive ou de Instinct, utilizados por Winnicott
–, indicarei os termos em alemão para bem caracterizar quando estou me referindo aos conceitos
propostos por Freud. Isso tornará a leitura e a análise das propostas de Winnicott – na redescrição dos
conceitos próprios à metapsicologia freudiana – mais claras e precisas.
3. Veja, por exemplo, Freud, 1901b/1953-74 (Psicopatologia da vida quotidiana, Cap. XII, p. 259),
primeiro texto publicado no qual Freud usa o termo metapsicologia. Nele esse termo refere-se à
teoria geral científica que pode explicar os fenômenos psíquicos. Freud também utilizará o termo
“psicologia das profundezas” (Freud, 1926f/1953-74, p. 265), dando à metapsicologia esse sentido da
teoria geral de sua psicologia científica enquanto uma ciência empírica.
4. Cf., em Fulgencio, 2003 e 2005, uma análise do método especulativo em Freud, cujo fruto maior é
a metapsicologia, reconhecida, então, como um tipo de herança do programa kantiano a priori para
as ciências da natureza.
5. Cf. em Winnicott 1955d[1954]/1992, p. 280; e Winnicott, 1956a[1955]/1992, p. 295.
6. Cf., em Loparic, 1999a, uma análise do termo Trieb na história da filosofia e da psicanálise.
7. Uma análise mais detalhada do conceito de elaboração imaginativa na obra de Winnicott pode ser
encontrada em Loparic, 2000.
8. No início do processo de desenvolvimento da sexualidade, estas são caracterizadas por ele como
parciais.
9. Como foi explicitado na literatura secundária. Veja, por exemplo, a nota de Strachey na introdução
ao “As pulsões e suas vicissitudes”, nas obras completas de Freud em inglês, e os comentários de
Laplanche (1970) em Vida e morte em psicanálise.
10. Produzindo comportamentos mais rigidamente determinados, bem como objetos fixos para que
esses instintos pudessem ser satisfeitos.
11. A qual, diferentemente dos instintos, não teria a mesma rigidez nas suas determinações, nem na
determinação dos seus comportamentos, nem na dos objetos passíveis de uso para sua satisfação.
12. Para uma compreensão do que Winnicott chama de animal humano e do conceito de elaboração
imaginativa, que é a maneira como o ser humano dá sentido às suas vivências corporais, veja
Loparic, 2000.
13. Winnicott apresenta uma teoria do amadurecimento pessoal que redescreve e engloba a teoria da
sexualidade freudiana. Cf. em Dias, 2003 e Loparic, 2005, uma análise detalhada da teoria do
amadurecimento.
14. Um possível aprofundamento dessa perspectiva do homem como criador do mundo no qual vive
poderia ser desenvolvida apoiada numa análise de Heidegger sobre o que é o mundo para o homem,
no qual diferencia o que ocorre com uma pedra, um animal e o homem, afirmando que a pedra é sem
mundo, o animal é pobre de mundo e o homem é um formador de mundo. Cf. Heidegger, 1983/2003,
pp. 205-208.
15. “A ideia da ‘adaptação materna suficientemente boa às necessidades do bebê não deve ser
confundida, diz Winnicott, com ‘o conceito de satisfação, pela mãe, dos impulsos instintuais’ (1989a,
p. 242; tr. br., p. 188)”. Nota de Loparic.
16. “Esses três tipos de ‘tendência’ são enumerados em 1989a, p. 256, nota; tr. br., p. 199. Faço
constar que o termo winnicottiano drive é traduzido erroneamente por ‘pulsão’”. Nota de Loparic.
17. O termo revolução é aqui utilizado no sentido técnico estabelecido por Thomas Kuhn emseu A
estrutura das revoluções científicas (1975). Kuhn usa esse termo, emprestado da política, para
caracterizar a mudança de regime e de fundamento que ocorre no progresso da ciência quando um
paradigma é substituído por outro, por exemplo, para caracterizar o que ocorre, na física, quando da
passagem do paradigma newtoniano para o einsteiniano.
Winnicott e o Middle Group: a diferença que faz
diferença1
Ariadne Alvarenga de Rezende Engelberg de Moraes
1. Psicanálise britânica
Quando foi convidado pelo editor da Karnac Review para escrever um
artigo sobre o tema “A quem pertence Winnicott?”,2 Brett Kahr
prontamente respondeu: a ninguém. Kahr argumenta que Winnicott, uma
pessoa essencialmente independente e antiautoritária, sempre afastou o
pensamento de fundar sua própria escola de psicanálise. Segundo ele,
Winnicott agiu dessa maneira porque sabia que, se tivesse assumido a figura
de pai de uma escola, poderia interferir na trajetória de desenvolvimento de
colegas iniciantes e, dessa forma, frustrar seu desejo pessoal de lhes facilitar
a jornada rumo à independência.
Credita-se a essa posição de Winnicott o fato de não surgir na Inglaterra
o desenvolvimento de uma escola winnicottiana ou um movimento
winnicottiano, mas, sim, a criação de ramos de pensamento independente,
frouxamente interconectados, para os quais Winnicott permanece sendo
fonte de inspiração e sustentação. Todavia, acrescenta Kahr, apesar do
espírito independente de Winnicott, seu legado tem sido preservado, formal
e institucionalmente, por meio de três pequenas organizações, as quais
levam, de alguma maneira, o nome de Winnicott. São elas: The Winnicott
Clinic of Psychotherapy, Winnicott Trust e Squiggle Foundation.
Essa análise realizada por Kahr, fidedigna no que diz respeito à
personalidade de Winnicott, pode suscitar dúvidas sobre o modo de
compreender a atitude do psicanalista na época da grande controvérsia na
psicanálise britânica e parece contraditória com a sua opção de se filiar ao
que ficou denominado Middle Group. Essa decisão, tomada pelo autor da
teoria da transicionalidade, teve implicações em sua vida pessoal, mas foi
no campo teórico-clínico que a repercussão dessa posição pôde ser mais
sentida. A ausência de clareza a respeito desses acontecimentos históricos,
que culminaram em definitivas mudanças teóricas na psicanálise, sem
dúvida acrescenta dificuldades para o reconhecimento do lugar de
Winnicott como pensador, teórico e clínico da psicanálise.
Para compreender essas passagens, faz-se necessário destacar que –
apesar de a cisão entre M. Klein e A. Freud ter assumido ares políticos e,
por sua vez, o agrupamento dissidente do meio poder também ser assim
interpretado –, subjacente a essa cisma britânica, existiam dois níveis de
problemas. O primeiro, referente ao movimento psicanalítico, ao modo de
organização e sucessão de ideias e poder na psicanálise, que, desde S.
Freud, foi muito bem estruturado, a ponto de ser denominado por Balint de
sucessão apostólica. Baseado nessa rígida organização, proposta pelo
criador da psicanálise, reconheciam-se os autores que seriam considerados
discípulos e definiam-se aqueles que se portavam como dissidentes. O
segundo problema, diretamente associado ao primeiro, diz respeito ao
cerceamento de ideias e teorias, já que a base para a aceitação de novas
proposições teóricas estava ligada à concordância e fidelidade às teses
fundamentais da teoria freudiana clássica. Portanto, desde sempre, mas de
um modo não explícito, a forma e a estrutura das filiações exerceram
influência no rumo de desenvolvimento da teoria e prática psicanalítica,3 e
definiram o prestígio dos psicanalistas recém-ingressos, bem como a
qualidade da relação estabelecida entre todos.
Diferenciar esses dois níveis de problemas nunca foi tarefa fácil na
psicanálise, pois, como vimos, existe um entrelaçamento entre eles, que tem
se revelado pernicioso na história do pensamento psicanalítico. Apesar de o
desenvolvimento de novas ideias e, por sua vez, o surgimento de novas
correntes de pensamento serem esperados no interior de uma ciência toda
vez que surgirem problemas não solucionados ou não evidentes nas teorias
anteriores, isso nem sempre aconteceu na psicanálise devido ao fato de uma
nova ideia poder ser interpretada como heresia.
No artigo “Can There Be a Monopoly on Psychoanalysis”, Darian
Leader traduz bem essa questão quando afirma:
As embaraçadas histórias dos grupos de psicanálise dificilmente são edificantes. São
histórias de lutas, separações e às vezes de guerra aberta entre lados antes aliados, de
rompimento de promessas e de amizades. Diferenças teóricas têm levado a diferenças políticas,
e, na mesma proporção, diferenças políticas têm sido disfarçadas como teóricas. Todos que já
estudaram a política institucional do mundo da psicanálise concordam no seguinte: as principais
diferenças giram em torno do treinamento psicanalítico. (Casement, 2004, pp. 246-247)
Fazendo uma análise sobre esse ponto, Bergman (apud Green,
2001/2003, p. 148) divide os teóricos que influenciaram a história da
psicanálise em três grupos: os continuadores, como Herman Numberg e
Otto Fenichel, que estenderam a psicanálise para outros domínios “sem
criar muita controvérsia” com a tradição freudiana; os hereges, como Jung e
Adler, que estiveram perto de Freud e foram influenciados por ele por um
período, mas, após alguma oposição teórica, fundaram suas próprias
escolas; e um terceiro grupo, formado pelos reformadores, que são aqueles
que “aceitam as descobertas fundamentais de Freud, mas acrescentam outro
andar ao edifício por ele construído” (apud Green, 2001/2003, p. 148),
estando entre eles Melanie Klein, Hartmann, Kohut e Winnicott. Segundo
Bergman, os reformadores não existiam enquanto Freud era vivo, pois nessa
época era o próprio psicanalista quem decidia o que era ou não psicanálise.
Por isso, contemporaneamente a Freud, só podiam existir continuadores ou
hereges.
A classificação proposta por Bergman faz nossa atenção voltar-se para a
experiência psicanalítica britânica, na medida em que ele inclui Winnicott
na lista de reformadores. Exige também que retornemos à “sucessão
apostólica” para compreender alguns desdobramentos teóricos e políticos
que nos darão substratos para entender por que Winnicott é considerado o
principal representante da tradição independente britânica, o autor cujo
trabalho causou impacto na Inglaterra não apenas entre seus colegas de
profissão, mas também sobre a cultura, da mesma maneira que seu
pensamento teórico-clínico exerce, mais do que nunca, influência no
universo psicanalítico recente.
Winnicott é considerado um estudioso privilegiado da psicanálise por
haver sido formado e analisado pelas mais importantes figuras de sua época
– E. Jones, J. Rivière, J. Strachey e M. Klein –, que, por sua vez, estiveram
associadas a outros importantes nomes da psicanálise. Melanie Klein,
destacada por Falzeder (Haynal, 1993) como a analista de maior influência
teórica na psicanálise,4 logo após os grandes nomes (Freud, Ferenczi,
Abraham, Sachs, Rank, Jones e A. Freud), foi, sem dúvida, a psicanalista
que causou maior impacto em Winnicott depois de Freud.
Melanie Klein foi a pioneira de toda uma corrente psicanalítica
contemporânea que enfatiza a existência de relações de objeto precoces
como fundadoras do desenvolvimento psíquico e da personalidade. Era
adepta da ideia de que o ego se desenvolvia por meio da internalização de
objetos; acreditava que as pulsões libidinais e agressivas desenvolvem os
relacionamentos objetais, os quais, desde a mais tenra infância, formam a
base do ego. De acordo com ela, “a estrutura da mente é concebida como
um sistema de objetos internos produzidos por transações de relações
objetais e da fantasia inconsciente”, propondo, para dar suporte a essa
visão, “um sistema de relações emocionais reunidas nos conceitos de
posição esquizoparanoide e depressiva, que organiza as atitudes, os
vínculos e, de maneira geral, todo o funcionamento psíquico” (Bleichmar,1992, p. 32).
Apesar de ter como ponto de partida teórico as ideias de Freud e
Abraham, as observações clínicas e hipóteses levantadas por Klein
culminaram em mudança na teoria do desenvolvimento da mente e na de
conflito mental. Com base nessas descobertas, ela passou a sustentar que o
conflito mental estava baseado na luta de emoções e fantasias inconscientes
entre os objetos internos e externos. Essa visão de conflito mostrou-se
oposta à noção clássica de conflito, até então concebido como a luta entre a
pulsão sexual e a defesa.
A inovação teórica de Klein tornou-se evidente no meio psicanalítico da
mesma forma que a dificuldade para enquadrar essas ideias ao corpo teórico
freudiano. De sua parte, Klein, interessada em se manter fiel aos postulados
freudianos, buscou aproximações, por vezes forçadas, entre suas ideias e as
teses centrais da psicanálise tradicional, chegando a formulações como
complexo de Édipo precoce e superego precoce.
No entanto, mesmo tendo realizado descobertas importantes – como a de
que as crianças são capazes de desenvolver a transferência e a formação de
mecanismos de defesas primitivos –, quando escolheu fundamentar suas
inovações teóricas sobre a agressividade, a inveja e a angústia na ideia de
pulsão de morte, Klein terminou por se expor demais. Interessada em
estudar os períodos pré-edípicos do desenvolvimento mental, ela afasta-se
da ideia de fase libidinal como unidade de desenvolvimento, em sentido
cronológico, substituindo-a pela ideia de posição, afirmando que se pode
observar nas crianças pequenas “uma mescla de pulsões orais, anais e
genitais que se sobrepõem a partir das primeiras relações de objeto”
(Bleichmar, 1992, p. 87).
Devido ao caráter de suas proposições, Klein teve três grandes
enfrentamentos em sua carreira científica. O primeiro, em 1927, com A.
Freud, com o tema da análise infantil e o desenvolvimento da transferência;
o segundo, entre 1943-1944, quando Glover propôs expulsá-la sob a
acusação de ela estar se afastando dos princípios básicos da psicanálise e,
por fim, no momento em que elaborou a teoria da inveja primária, que apoia
a base constitucional da agressão humana, provocando o afastamento de
membros de seu grupo, como Paula Heimann. As consequências desses
embates foram de ordem pessoal e teórica, mas, sem dúvida alguma, houve
repercussão no movimento psicanalítico. Há consenso entre comentadores
que o conflito com A. Freud foi o responsável para que o pai desta, S.
Freud, não aceitasse nem apoiasse a obra de Klein, que se autodenominava
discípula freudiana. Os conflitos com Glover provocaram a ruptura entre ela
e sua filha Melita, que o havia apoiado (cf. Bleichmar, 1992, p. 82).
Foi o confronto com A. Freud – que adotou a posição teórica mais
tradicional, isto é, a de que o ego era formado pelas frustrações dos instintos
– que provocou a desagregação da Sociedade Britânica de Psicanálise entre
os seguidores de Klein e os de A. Freud. Como medida paliativa para evitar
um rompimento definitivo entre elas e, consequentemente, a fundação de
outra sociedade de psicanálise, optou-se pelo oferecimento de dois
programas de treinamento, que ficaram conhecidos como a Escola Inglesa5
e a Escola de Viena.
Analistas que questionavam a teoria clássica e aceitavam em parte os
postulados de Klein formaram um grupo à parte e se tornaram conhecidos
como Midlle Group ou grupo independente. Michel Balint, Ronald
Fairbairn, Guntrip e Donald W. Winnicott são os principais representantes
desse grupo, que contava também com Sylvia Payne, Ella Sharpe e
Marjorie Brierley. Todos eles passaram a ser indistintamente conhecidos
como teóricos das relações de objeto.
2. Winnicott: dissidência política ou teórica?
Antes de proceder à analise que estabelecerá as diferenças entre
Winnicott e os outros teóricos do Middle Group, é importante marcar a
posição deste psicanalista em relação aos acontecimentos na Sociedade
Britânica de Psicanálise e também em relação ao distanciamento de M.
Klein, fatos importantes para a compreensão da posição tomada por
Winnicott.
Para Winnicott, a adoção dos dois grupos de formação no auge da
discussão entre M. Klein e A. Freud foi a melhor saída para proteger a
Sociedade Britânica de Psicanálise de uma cisão permanente. Ele
considerou essa fase como um período de reparação que permitiria à
Sociedade se reconciliar, “como qualquer outra sociedade, com o fato de
existirem diferenças científicas que acabam por se resolver
automaticamente com o decorrer do tempo, concomitantemente ao fato de
surgirem diferenças novas” (Winnicott, 1987b/1990, p. 63). Pelo
entendimento de ser a psicanálise uma ciência, a possibilidade de
desacordos teóricos era, para ele, uma realidade que deveria ser enfrentada
com maturidade. Isso significava tratar das diferenças teóricas sem
nenhuma forma de partidarismo político, e muito menos com um fervor
religioso. Era evidente para Winnicott que “a principal identificação de cada
um de nós é com a Sociedade” e não com qualquer grupo que pudesse ser
criado, pois entendia que, “fora da sociedade, os grupos não teriam nenhum
significado e nenhum poder” (1987b/1990, p. 74).
A opção de não se alinhar com nenhum dos dois grupos institucionais foi
firmada pelo reconhecimento de diferenças teóricas insustentáveis entre
suas ideias e as das novas líderes, mas também foi influenciada pelo forte
hermetismo desses grupos, ambos adeptos da sucessão apostólica. Com essa
posição, Winnicott pretendia manter certa independência no
desenvolvimento de suas ideias – muitas delas ainda em fase de elaboração
–, tendo como objetivo final o desenvolvimento da teoria psicanalítica
como ciência, em sua opinião algo maior que ser freudiano ou kleiniano. O
intuito de valorizar a discussão das ideias e a promoção do desenvolvimento
da teoria e da técnica era o que norteava sua participação na Sociedade,
tanto como simples membro como também na posição de presidente. Em
uma carta para Hanna Segal, de fevereiro de 1952, explicita isso quando
afirma com veemência: “minha intenção é não me conter nos encontros da
Sociedade, sempre que a tendência se desviar do relato científico para a
expressão de uma posição política” (1987b/1990, p. 24).
Desse modo, sua atitude de independência não pode ser interpretada
como rejeição da tradição psicanalítica e muito menos como receio em se
posicionar. Deve ser compreendida como crítica àqueles que temem o que é
novo e criativo. Para ele, não há possibilidade de se criar no vazio6 e,
portanto, é impossível ser livre e criativo sem a tradição. Assumia que o
sentido geral da contribuição de Freud havia sido preparar o mundo para o
pensamento psicológico e reconhecia a importância de todos os
desdobramentos teóricos posteriores, estando certo de que pessoalmente
contribuía para o desenvolvimento da teoria e clínica psicanalítica.
Acreditava que o exercício da reflexão, a introdução de novas formas de
pensar, o uso de outra linguagem e até mesmo a discordância de aspectos
teóricos centrais são importantes passos tanto para a confirmação do que se
sabe como para o surgimento de um pensamento original. Era certo para ele
que “qualquer avanço no trabalho científico conquista um ponto de chegada
numa nova plataforma, a partir da qual se pode sentir uma porção ainda
maior do desconhecido” (1987b/1990, p. 31).
Esse modo winnicottiano de ser e fazer foi vivido com os amigos,
exercido com os desafetos e expresso por ele em sua obra e nas cartas
postumamente publicadas. Parece-me um bom exemplo do sentimento de
Winnicott em relação à sua posição diante da Sociedade Britânica de
Psicanálise a citação a seguir, de uma carta para M. Klein, escrita em
novembro de 1952, após uma reunião na Sociedade, na qual ele diz:
A primeira coisa que tenho a dizer é que percebo como é irritante quando quero colocar em
minhas próprias palavras algo que se desenvolve a partir da minha própria evolução e da minha
experiência analítica. Isso é irritante porque suponho que todo mundo quer fazer a mesma coisa,
e numa Sociedadecientífica um de nossos objetivos é encontrar uma linguagem comum. Essa
linguagem, porém, deve ser mantida viva, já que não há nada pior que uma linguagem morta;
[...] o que estou fazendo é irritante, mas acho que também tem seu lado bom. Em primeiro lugar,
não há muitas pessoas criativas na Sociedade, tendo ideias pessoais e originais. Acho que
qualquer um que tenha ideias é realmente bem-vindo, e sempre sinto que sou tolerado na
Sociedade porque tenho ideias... (1987b/1990, p. 30).
Nessa carta, Winnicott, ao mesmo tempo em que admite a necessidade
da organização de novas ideias, mostra como era refratário a qualquer
forma de imposição de um pensamento, mesmo quando justificada pela
exigência do uso de uma linguagem estandardizada, pois sabia que isso
levaria a um empobrecimento da experiência pessoal de quem cria e de
quem compartilha aquilo que foi ou está sendo criado. Um outro momento
em que a posição reticente de Winnicott quanto à oficialização de seu
pensamento é confirmada aparece também em uma carta, de 1968, na qual
afirma se sentir relutante em formalizar a técnica de rabiscos como “rival de
outras técnicas projetivas”, pois isso representaria “uma derrota do principal
objetivo do exercício, caso devesse surgir algo estereotipado como o teste
de Rorschach”, porque, para ele, “a liberdade absoluta é essencial para que
cada modificação, se adequada, possa ser aceita” (1987b/1990, p. 154).
Se, na década de 1940, quando deu início à sua produção intelectual,
uma atitude similar a essa poderia ser interpretada como reverência à
tradição ou receio de bancar um posicionamento, certamente essa
interpretação não se aplicaria ao Winnicott de 1968. Faz mais sentido
pensar que o que pretendia ao tomar essa posição era reafirmar a
preocupação de que o enquadramento de suas ideias viesse a limitar futuros
desenvolvimentos da ciência psicanalítica, pois, de sua parte, nessa época,
ele já assumia e reconhecia as profundas mudanças conceituais introduzidas
por ele no cenário psicanalítico. Em 1965, ao apresentar o trabalho “A
psicologia da loucura: uma contribuição da psicanálise” (Winnicott,
1989vk/1994) para a Sociedade Britânica de Psicanálise, diz sem rodeios:
“possuímos a única formulação realmente útil, que existe, da maneira pela
qual o ser humano psicologicamente se desenvolve de um ser
completamente dependente e imaturo para um estado maduro relativamente
independente” (1989vk/1994, p. 94).
Ao escolher congregar o grupo do meio, Winnicott pretendeu garantir o
livre exercício de seu pensamento, mais do que confirmar uma identificação
com as diretrizes teóricas desse grupo. Como veremos, as diferenças entre
ele e os denominados teóricos das relações objetais são tão fundamentais
que não permitem sequer incluí-lo nessa classificação. No entanto, ao
encontrar esse espaço de reflexão, Winnicott pôde marcar as diferenças
teóricas que fizeram com que se distanciasse de Klein e também pontuar
que os questionamentos mais relevantes feitos à teoria psicanalítica
referiam-se à teoria freudiana tradicional.7 Ao se alojar no grupo
independente, também encontrou o espaço necessário para lidar tanto com o
fato de que “nenhum progresso na teoria psicanalítica é feito sem
pesadelos” (1989xh/1994, p. 348), como com a realidade de que “uma ideia
original precisa de audiência, e a boa audiência consiste naqueles que já
tiveram a ideia” (1989a/1994, p. 362) ou estão diretamente envolvidos com
essas mesmas questões.
3. Rompimento com Klein
É esclarecedor relembrar que, quando valorizou a importância das etapas
primitivas do desenvolvimento emocional, Winnicott ainda não conhecia o
trabalho de Melanie Klein. O encontro com a psicanalista aconteceu por
sugestão de James Strachey e foi – como Winnicott mesmo reconhece em
vários momentos de sua obra – fundamental para o desenvolvimento de
suas ideias. Após um período de estudo e supervisões com Klein, ocorreu o
encerramento da parceria. O distanciamento entre ambos foi motivado pelo
surgimento de importantes divergências teóricas relativas ao papel que o
meio ambiente desempenha no desenvolvimento emocional da criança.
Enquanto para Klein o ambiente devia ser visto simplesmente como um
ponto importante de apoio e cuidado para o bebê recém-nascido, Winnicott
compreendia a relação de dependência do bebê com o ambiente-mãe como
a condição fundamental para o acontecer de uma pessoa. A discordância em
relação a esse ponto se tornou uma questão central entre esses teóricos, pois
o fato de Klein não considerar relevante o papel do ambiente para a
estruturação da personalidade de uma pessoa levou essa psicanalista, na
visão de Winnicott, a tratar de mecanismos profundos em momentos iniciais
do amadurecimento pessoal.
Em uma carta à Dra. Barbara Lantos, de novembro de 1956, Winnicott
aborda, sem receio de ser indelicado, suas diferenças com os kleinianos. Ele
diz:
Existem algumas coisas que os kleinianos fazem na apresentação do seu ponto de vista que
eu desaprovo vigorosamente [...]. Por exemplo, os kleinianos parecem não levar em conta, em
seus pronunciamentos, a imaturidade do ego, de modo que parecem atribuir ao recém-nascido
coisas tais como “o bebê querendo comer a mãe”. Até certo ponto, trata-se de uma questão de
linguagem, mas se deve respeitar o fato de que o desenvolvimento do ego não admite tal
descrição do objetivo do bebê pequeno. Outro erro kleiniano parece-me estar na tentativa de
falar sobre o bebê à parte do cuidado que a mãe dispensa ao bebê, coisa que considero
impossível [...]. (1987b/1990, p. 95)
Apesar do respeito pela qualidade das ideias kleinianas, em especial a
teoria da posição depressiva, a diferença teórica entre esses autores tomou
tal proporção que Winnicott assumiu não “ser capaz de expor o ponto de
vista de Klein de um modo que ela mesma aprovasse” (1965va/1990, p.
161). Ele reconhecia com tranquilidade esse distanciamento e deu como
certo o fato de Klein não tê-lo “incluído como um kleiniano” (1965va/1990,
p. 161). Isso, porém, nunca o impediu de assumir sua dívida teórica com
ela. Winnicott reconhecia o valor da contribuição de Klein para a
psicanálise e para a psiquiatria, pois acreditava que os trabalhos dessa
autora representavam “a tentativa mais vigorosa de estudar os processos
precoces do desenvolvimento da criança, afora o estudo do cuidado da
criança” (1965h/1990, p. 116).
A partir do momento em que percebeu que “inicial não é profundo”,
Winnicott revela que pôde “fazer uso pleno de Klein sem ficar atolado”
(1989f/1994, p. 442). Ou seja, quando constatou que a teoria da posição
depressiva kleiniana – segundo ele, a grande contribuição de Klein – estava
relacionada ao profundo e não ao inicial, sentiu-se livre para tratar das
diferenças observadas entre ambos no que se refere aos importantes
aspectos relacionados à experiência da dependência inicial – sua
contribuição pessoal à psicanálise.8 Compreendeu que o bebê precisa de
tempo e amadurecimento físico e psicológico antes que “a profundidade
apareça” (1989f/ 1994, p. 442), ou seja, antes que um bebê seja capaz de
apreciar uma experiência emocional por inteiro, muita coisa precisa
acontecer.
Para Winnicott, aquilo que é profundo deve ser visto como pertencente à
criança – já constituída como uma pessoa (eu) e separada da mãe – e
referido à “profundidade na fantasia inconsciente”, ou seja, à realidade
psíquica, na qual estão envolvidas a mente e a imaginação da criança (cf.
1958i/1990, p. 103). Por outro lado, quando se trata do que é inicial, faz-se
necessário levar em conta o ambiente. Com essa compreensão, fortaleceu a
ideia de que as condições necessárias para um bebê alcançar a continuidade
de ser, estruturar sua personalidade e tornar-se capaz de existir como uma
pessoa integrada e separada são constituídas inicialmente na unidade mãe-
bebê.
Pessoal e interno são palavras-chave, escolhidas por Winnicott, tanto
para mostrar que existe uma versão mais primitiva daquilo a que Klein se
referiu como “interno” como para apontar o campo teórico construído por
elea partir do momento em que entendeu que inicial não é profundo. Para
ele, é inapropriado usar a palavra interno para designar os fenômenos que
compõem a realidade psíquica do lactente antes da conquista da unidade
psicossomática, pois, no estágio primitivo, o lactente ainda “não
estabeleceu propriamente” (1965j/1990, p. 169) os limites do eu e muito
menos conquistou a capacidade de usar os mecanismos mentais de projeção
e introjeção. Sendo assim, no estágio primitivo, aquilo que será denominado
interno após a personalização “significa pessoal, e pessoal na medida em
que o indivíduo é uma pessoa com um self [si-mesmo] no processo de ser
envolvido” (1965j/1990, p. 169). Dessa forma, “o ambiente facilitador, o
apoio do ego da mãe ao ego imaturo do lactente” são as partes essenciais da
criança como “criatura viável” (1965j/1990, p. 169) que precisam ser
consideradas.
Com essas descobertas, Winnicott expandiu seu trabalho do profundo ao
inicial, ampliando sua compreensão dos estados psicóticos, o que lhe
possibilitou propor que a psicose, e não a neurose, é o paradigma do
adoecer. Mudanças importantes na técnica terapêutica decorreram do
entendimento de que não há um sujeito psíquico munido de mecanismos
mentais e de forças pulsionais interagindo com objetos ao nascer, mas, sim,
um ser humano dotado de uma tendência inata para a integração e que
depende de um ambiente adaptado às suas necessidades para poder
constituir um si-mesmo pessoal e para, quem sabe, vir a se tornar capaz de
se relacionar com objetos. Winnicott, apoiado em sua teoria do
amadurecimento pessoal, viu que, sem as condições de ambiência iniciais
adequadas às necessidades do bebê, as pessoas podem crescer fisicamente,
mas permanecem relacional e emocionalmente imaturas.
Ao assumir que a realidade psíquica da criança está sendo formada
“pelas experiências que constituem o viver na infância, experiências
instintivas ou não, excitadas ou tranquilas” (1955c/2000, p. 370), e que são
realizadas com a mãe desde épocas primitivas, e aceitar que “a história de
um ser humano não começa aos cinco anos, nem aos dois, nem aos seis
meses, mas ao nascer – e antes de nascer, se assim se preferir” (1947b/1982,
p. 96), Winnicott distanciou-se por completo de Klein e desenvolveu mais
intensamente suas ideias em relação ao desenvolvimento inicial,
convencendo-se de que a estruturação da personalidade de uma pessoa, bem
como a condição de ser ou não ser psiquicamente saudável, não podiam
estar atreladas unicamente à resolução dos conflitos pulsionais e edipianos.
Sendo assim, procedeu à redescrição do conceito kleiniano de “posição
depressiva”, acrescentando mudanças significativas, a começar pela
sugestão da mudança de nome para estágio do concernimento. Na
perspectiva winnicottiana, o estágio do concernimento – que deve ser
considerado uma sequência natural para o bebê que teve um bom início – é
um momento fundamental dentro da linha do amadurecimento, por ser o
estágio em que o bebê poderá consolidar as conquistas anteriores e formar
uma base segura para prosseguir o amadurecimento mediante a aquisição da
capacidade para ser concernido. É ainda um estágio anterior ao da
dominância genital e trata do desenvolvimento emocional característico da
fase da lactação na época em que se inicia o desmame, momento em que o
bebê é capaz de se relacionar com apenas um outro – a mãe. Por isso, tem
por característica essencial o fato de todas as experiências relacionadas à
conquista do concernimento acontecerem no interior da relação diádica
inicial. Para ele, a relação diádica inicial “é aquela entre a criança e a mãe
ou mãe substituta, antes que qualquer característica da mãe tenha se
diferenciado e moldado na imagem do pai” (1958g/1990, p. 32). Por essa
razão, a conquista do concernimento deve ser entendida como um
fenômeno pré-edípico, no sentido de que acontece antes da fase de
relacionamentos triangulares, da mesma forma que toda a estrutura e o
dinamismo do estágio do concernimento são não edípicos.
A particularidade de ser uma experiência relacional pré-edípica, somada
ao destaque dado ao ambiente como condição fundamental para o
amadurecimento, constitui a marca da redescrição winnicottiana da posição
depressiva kleiniana e sela a ruptura entre os psicanalistas. Ao sublinhar a
importância da ultrapassagem de algumas etapas do amadurecimento para
que um bebê possa caminhar em direção à conquista do concernimento e, a
partir daí, estar em condição de estabelecer relações com pessoas inteiras,
inicialmente duais e posteriormente triangulares, Winnicott tornou-se um
discípulo dissidente. Como sabemos, Klein permaneceu leal à problemática
edipiana como estruturante da personalidade e seguiu defendendo os
fenômenos que envolvem o bebê na “posição depressiva” como problemas
precoces do complexo de Édipo.
Como participante ativo desses acontecimentos, Winnicott percebia o
desconforto provocado por suas ideias, mas nem de longe pôde imaginar a
amplitude das mudanças que elas provocariam tanto em termos do
movimento psicanalítico como para a teoria e clínica. Estudos recentes
mostram que, quando retirou a supremacia do complexo de Édipo e, em
contrapartida, introduziu na teoria psicanalítica a perspectiva de a saúde e a
doença se constituírem como decorrência do processo de amadurecimento
humano, Winnicott desvelou a necessidade de revisão do paradigma
psicanalítico clássico. Ao dar especial significado ao ambiente no
desenvolvimento da pessoa e, simultaneamente, caracterizar como dual a
principal relação do bebê com o mundo, ele destronou a relação triangular
da posição de paradigma psicanalítico, podendo, portanto, ser considerado o
autor de uma mudança de paradigma na psicanálise.9
4. Winnicott e os teóricos das relações objetais: a diferença
Tendo já mostrado os pontos centrais de divergência entre Winnicott e
M. Klein, e destacado a importância de Winnicott para a história da
psicanálise, falta agora abordar as diferenças entre este autor e os demais
teóricos objetais, como último passo para mostrar a originalidade do
pensamento de Winnicott e justificar a sua não inclusão nesse grupo.
De maneira ampla, pode-se dizer que as teorias das relações objetais – e,
consequentemente, o grupo britânico independente – surgiram como uma
reação à teoria psicanalítica clássica, em razão de os autores terem
encontrado algum tipo de limitação no modelo ego-pulsional da teoria
freudiana. Esse reconhecimento os levou a pensar novos conceitos e
caminhos para a teoria e clínica psicanalítica. Apesar de o ponto de união
dos chamados teóricos das relações objetais ter sido inicialmente as ideias
kleinianas, a posição adotada por alguns desses autores no desenvolvimento
de suas ideias terminou por ser antagônica às da psicanalista, já que Klein,
como vimos, manteve a teoria pulsional freudiana como norteadora de seu
trabalho.
Mesmo admitindo que uma nova orientação teórica surgiu no
pensamento psicanalítico com base nos questionamentos introduzidos por
esses autores, sabe-se que as teorias das relações objetais diferem
amplamente entre si no que diz respeito a conceitos-chave, suposições e
princípios. Por essa razão, para distinguir a contribuição de Winnicott, faz-
se necessário conhecer os pontos de aproximação e distanciamento entre
seus postulados e os dos demais autores. O caminho escolhido para esse
empreendimento será apresentar algumas posições sobre semelhanças e
diferenças existentes entre os teóricos objetais, destacando-se a posição
inovadora de Winnicott.
Um ponto que merece atenção se refere ao fato de vários comentadores,
centrados nessa tarefa de cotejamento, assumirem que, dos quatro principais
representantes do grupo do meio – Michel Balint, Ronald Fairbairn, Guntrip
e Donald W. Winnicott –, este último é, sem dúvida, o mais original, o que
“apresentou o mais compreensivo sistema de pensamento vindo do grupo
britânico do meio” (Summers, 1994, p. 16) e o que “adotou em seu trabalho
um consistente conceito de desenvolvimento, sendo sua visão sobrepsicopatologia e tratamento derivada desse esquema de desenvolvimento”
(Summers, 1994, p. 137). Indo mais além, Summers afirma que, apenas no
trabalho de Winnicott, “existe um sistema de pensar” claro e estabelecido
que “organiza todas as suas ideias sobre desenvolvimento e psicopatologia
em um todo coerente” (Summers, 1994, p. 137). Já Bleichmar (1992)
expressa respeito ao psicanalista britânico, reservando um capítulo de seu
livro para apresentar a teoria winnicottiana e unificando a apresentação do
pensamento de Fairbairn, Guntrip e Balint em um único capítulo. Justifica
isso devido “à grande difusão de sua [Winnicott] obra” (Bleichmar, 1992, p.
210). E mesmo Greenberg & Mitchell (1983), que têm uma visão ambígua a
respeito da contribuição winnicottiana para a psicanálise, ora a acusando de
ser apenas uma emenda ora realçando o seu distanciamento da tradição e os
consequentes embates provocados por isso, reconhecem que a formulação
de Winnicott sobre a emergência de um si-mesmo (self ) “estabelece um
fundamento para a teoria do desenvolvimento radicalmente diferente do
proposto por Freud e Klein, seus predecessores” (Greenberg & Mitchell,
1983, p. 188).
Sobre as diferenças e semelhanças entre os teóricos objetais, Summers
(1994) entende que, apesar de divergirem em muitos aspectos, como o
papel dos instintos na constituição do ego e a importância do ambiente, “o
paradigma que une essas teorias é a compreensão do desenvolvimento e da
patologia como produto da internalização dos relacionamentos
interpessoais” e a visão da “personalidade como um complexo produto dos
relacionamentos objetais iniciais” (Summers, 1994, p. 23).
De sua parte, Rudnytsky (1991) considera que há três pontos de
convergência entre os teóricos das relações objetais: 1) o reconhecimento de
um estado de dependência da mãe na infância; 2) a assunção de que, para os
seres humanos, as necessidades primordiais e o estado de dependência da
mãe ou de cuidados no início da vida não são relativos à satisfação da
sexualidade, mas de relacionamento; 3) que os conceitos de princípio do
prazer e instinto de morte estão imersos em contradições.
Já Eagle (1984) divide os teóricos das relações objetais em quatro grupos
distintos, tendo como base a posição de cada um em relação à teoria dos
instintos freudiana. No primeiro grupo, alojam-se os teóricos como Mahler,
Kernberg, Jacobson, que procuram preservar a tradicional teoria dos
instintos e buscam associá-la às teorias das relações de objeto e do self
devido ao reconhecimento de sua importância. Esses autores percebem a
relevância das relações objetais e do self, mas a assunção continua a ser que
o desenvolvimento dessas áreas está de alguma forma relacionado e sujeito
às vicissitudes da gratificação ou insatisfação dos instintos. O segundo
grupo, representado por Kohut e Modell, aceita tanto a teoria dos instintos
como a psicologia das relações objetais e do self, sendo que cada teórico se
apropria de um grupo diferente de fenômenos para desenvolver seu
pensamento. Situa Fairbain e Guntrip no terceiro grupo – no qual Winnicott
certamente poderia ter sido incluído –, definindo os autores desse grupo
como os que rejeitam abertamente a teoria dos instintos como organizadora
do desenvolvimento emocional e a substituem por uma psicologia das
relações objetais e do self. E, por último, o quarto grupo, representado pela
teoria da hierarquia epigenética de Gedo (Eagle, 1984, pp. 18-19).
Dois pontos precisam ser considerados com base nessas análises: em
primeiro lugar, a noção de ambiente, a compreensão do conceito de
dependência da mãe e o modo de relacionamento mãe-bebê nos momentos
primitivos do existir; em segundo, o papel dos instintos no desenvolvimento
da personalidade.
Não há como contestar que tanto Winnicott como os demais teóricos do
grupo britânico do meio realizavam pesquisas tendo a relação dual como
base. Entretanto, embora questionassem, como Winnicott, a teoria da libido
freudiana como base para o desenvolvimento emocional, todos, menos
Winnicott, assumiam a ideia kleiniana de que, desde o início, o bebê é
dotado de um psiquismo e capaz de se relacionar com um objeto, ou seja, é
capaz de identificar a mãe como um objeto externo e se relacionar com ela
por meio de mecanismos mentais.
Esse ponto é central para marcar a diferença entre esses autores. Abrindo
uma brecha na teoria psicanalítica tradicional, Winnicott propõe que o bebê,
ao nascer, não é uma pessoa inteira, “um ser humano total, um ser que
experiencia a relação com o seio como um objeto separado, um objeto que
experienciou a relação e a respeito do qual tem ideias complicadas”
(Winnicott 1989a/1994, p. 318). Nessa mesma linha, propõe que a mãe, nos
momentos iniciais, é um objeto subjetivo e seu comportamento faz parte do
bebê (unidade mãe-bebê). Portanto, a conquista pelo bebê da capacidade
para se relacionar com objetos externos a ele, inclusive o fato de a mãe ser
vista dessa forma, depende da conquista da integração em um eu unitário.
Do ponto de vista do bebê, pode-se dizer que no início nada existe além
dele próprio; portanto, a mãe é inicialmente parte dele. Assim, várias
passagens de amadurecimento, experienciadas com a mãe-ambiente, são
necessárias para que a integração em uma unidade se confirme e a mãe
possa ser vista como objeto separado: o bebê precisa contar com um
atendimento suficientemente bom da mãe no que diz respeito à adaptação e
à desadaptação; a seguir, a mãe precisará sobreviver à destrutividade
envolvida no caminho de criar a externalidade e colocar o objeto subjetivo
fora da área de onipotência (repudiar o objeto e passar a usá-lo
objetivamente). É essa experiência de “destruição da mãe” que permitirá
torná-la um objeto não-eu, que não faz parte daquilo que é o eu,
configurando-a como parte da externalidade.
Com base nessas experiências, a mãe, que até aqui foi experienciada na
área de controle onipotente como um objeto subjetivo e com o qual o bebê
se relacionava de modo subjetivo, começa a ser vista como fenômeno
externo. Quando o objeto subjetivo é repudiado e tornado externo, o bebê
(que gradativamente desenvolveu a capacidade de usar objetos no período
da transicionalidade) pode usar o objeto (mãe) e conquistar a capacidade de
se relacionar com ela de modo objetivo. Portanto, a capacidade de um bebê
para se relacionar com a mãe depende da conquista da capacidade de ser si
mesmo, o que configura a impossibilidade de o bebê, ao nascer, ser
considerado alguém capaz de relacionamentos. É essa visão tão peculiar do
acontecer da natureza humana que põe em questão o enquadramento do
psicanalista como um teórico das relações objetais.
Winnicott entende que a visão do bebê como entidade total e separada da
mãe, desde os momentos iniciais, levou Fairbairn a “teorizar
categoricamente que a libido busca objetos” (Winnicott, 1989a/1994, p.
318). De maneira oposta, Winnicott não coloca a satisfação instintual como
objetivo primordial da pessoa, tampouco a destaca como parte da tarefa de
constituição de um si-mesmo pessoal, da tarefa de criação da externalidade
(objeto e mundo externo) e do relacionamento que será construído a partir
de então entre as realidades interna e externa. Pelo contrário, ele afirma que
“a gratificação instintiva proporciona ao lactente uma experiência pessoal,
mas pouco afeta a posição do objeto”, pois “a mudança de objeto de
‘subjetivo’ para ‘percebido objetivamente’ é realizada menos efetivamente
por satisfações do que por frustrações” (Winnicott, 1965j/1990, p. 165; os
itálicos são meus).
Outra diferença fundamental entre Winnicott e os colegas do grupo
independente diz respeito à importância efetiva do ambiente. Considerando
o bebê uma entidade completa e capaz de perceber, sentir e reagir por meio
de operações mentais, Fairbairn, Guntrip e Balint deduziram que, se
deslocassem a importância do aspecto inato (em oposição à ênfase de
Klein), o meio ambiente (que para Klein tinha uma importância relativa)
assumiria maior responsabilidade na formação da estruturada
personalidade, o que auxiliaria a explicação de alguns fenômenos clínicos,
como a agressividade. Assim, esses autores definiram que as mães teriam
um papel estruturante, estabelecendo, então, que aquilo que uma pessoa se
torna deve ser compreendido como o resultado das gratificações que lhe são
proporcionadas e das frustrações a que foi submetida na mais tenra infância.
Sendo assim, confirma-se a ideia de que, para eles, a personalidade de uma
pessoa é um produto complexo dos relacionamentos objetais iniciais ou,
dizendo de outra forma, o resultado da internalização dos relacionamentos
interpessoais, em especial do relacionamento com a mãe.
Winnicott, que sem dúvida foi um dos primeiros teóricos a hierarquizar o
papel da mãe (como ambiente) no funcionamento psíquico da criança,
discordou dessa posição. Baseado em sua teoria do amadurecimento
pessoal, descreve o papel da mãe-ambiente não como uma tela para as
projeções do bebê, posteriormente introjetadas, mas compreende a mãe
como uma ativa construtora (por meio da ambiência adaptada) de seu
espaço psíquico. Sua compreensão do papel da mãe-ambiente aponta, como
já descrevemos, para a constituição do si-mesmo em termos de dupla
dependência, pois, como afirma, “o meio ambiente a que me refiro no
conceito de dependência dupla é um ambiente que, essencialmente, não é
constituído de projeções” (Winnicott, 1989a/1994, p. 363). Com o termo
dupla-dependência, designa que “o relacionamento do bebê com fenômenos
ambientais” acontece de modo “que o bebê não tem possibilidade de estar
ciente” do que se passa entre ele e o ambiente (mãe), pois ainda não é um
si-mesmo e a mãe é ainda um objeto subjetivo. Isso é tão certo que, para
Winnicott, “o bebê agora chegado à infância ou ao estado adulto não é
capaz de reproduzi-lo [o ambiente] como um padrão a revelar-se em uma
transferência analítica” (Winnicott, 1989a/1994, p. 363). Dessa forma, falar
em internalização (no sentido de introjeção), projeção e gratificação-
frustração, em momentos primitivos, como aspectos constituidores do si-
mesmo, não faz sentido, pois isso expressa um sentido de causalidade
ausente em sua teoria.
Outro ponto merece ser examinado. Em uma análise crítica das teorias
psicanalíticas, Eagle diz que a rejeição da teoria dos instintos como uma
forma de se afastar do biológico e da herança instintual do homem é um
engano comum aos teóricos objetais. Aqui está mais um aspecto distintivo
da teoria winnicottiana. Winnicott de fato rejeita a teoria dos instintos como
orientadora da compreensão do acontecer humano, mas nem de longe
desconsidera o fator biológico-instintual. Pelo contrário, sua teoria realça a
importância do corpo e de suas funções para a convergência do bebê, de um
não-ser, a ser uma pessoa. O conceito winnicottiano de elaboração
imaginativa é o exemplo concreto de que existe um corpo biológico ativo
que também precisa ser considerado pelo ambiente. Dessa certeza
Winnicott propõe o holding e o manejo como parte das tarefas maternas
iniciais.
E uma última diferença entre esses autores está relacionada à percepção
da importância da contribuição das ideias desenvolvidas para a teoria
psicanalítica. Enquanto Winnicott assume que sua teoria representa um
desenvolvimento da teoria freudiana e, portanto, é uma contribuição para a
teoria psicanalítica, os outros autores não têm uma visão formada sobre
como relacionar suas ideias com a teoria clássica, o que leva alguns a
considerar suas ideias como uma adição àquela ou tratá-las como uma
revisão daquela, sem fazer maiores aprofundamentos. A consequência
nefasta dessa ausência de entendimento sobre como cada novo pensamento
afetou a teoria-base é, segundo Summers (1994), que “as implicações
clínicas decorrentes dessas alterações teóricas não ficam aparentes”
(Summers, 1994, p. 2).
Mais uma vez essa crítica não se aplica a Winnicott. Com base em seus
estudos, a psicose e a depressão tiveram suas etiologias definidas
relacionalmente e foram associadas a uma falha ambiental no atendimento
das necessidades do bebê e da criança. Além disso, ele identificou a
necessidade de alteração na técnica psicanalítica para o atendimento de
pacientes psicóticos e borderlines, realizando também mudanças
fundamentais na relação terapeuta-paciente em razão das inovações que
introduziu na teoria psicanalítica. Com isso, a primazia do conflito edipiano
como estruturante do adoecer psíquico foi rechaçada e, em seu lugar,
surgiram questões ligadas a um período mais primitivo da natureza humana,
relativas à conquista da capacidade de ser e existir, e da consolidação de um
si-mesmo pessoal capaz de relacionar-se com e de responsabilizar-se por
tudo o que sente, pensa e faz.
Winnicott expressava abertamente a maneira como sentia a aproximação
ou o distanciamento entre seu modo de pensar e o dos colegas do Middle
Group. Criticava Fairbairn por declarar o propósito de suplantar as teorias
de Freud e se apresentar como derrubando M. Klein. Da mesma forma,
mostrava-se feliz por perceber que, apesar de trabalharem com base em
ângulos diversos, ele e Balint concordavam sobre a importância da provisão
ambiental nos momentos iniciais do existir humano. Winnicott sempre
respeitou as diferenças, acreditava nas mudanças, mas se sentia convicto
quanto à originalidade de sua contribuição. Como reconhece Rudnytsky
(1993), apesar de Winnicott respeitar os colegas psicanalistas que o
antecederam, ele “raramente credita suas dívidas intelectuais, preferindo
seguir sua idiossincrática linha de desenvolvimento e inspiração vindos do
trabalho clínico” (Rudnytsky, 1993, p. xiii).
5. A diferença compreendida como contribuição teórica
Quando se distanciou de S. Freud e de M. Klein, Winnicott tinha claro o
objetivo de construir uma teoria que propiciasse a compreensão do
desenvolvimento de um viver saudável que pudesse, ao mesmo tempo, ser
um recurso orientador para o entendimento dos distúrbios psíquicos.
Perseguindo esse objetivo, também se distanciou dos colegas britânicos que
mantinham a noção do adoecimento e da causalidade como base para a
compreensão do homem.
Com o desenvolvimento da teoria do amadurecimento pessoal,10
estruturou sua maneira de compreender a natureza humana. Essa teoria
articula os desdobramentos da natureza humana – entendida como a
“estrutura fixa”11 do amadurecimento emocional, governado pela tendência
inata à integração – e pode ser analisada por dois horizontes. Pelo horizonte
ontológico,12 por tratar dos aspectos relacionados à constituição do ser da
pessoa e das situações experienciais que possibilitam ou dificultam a
continuidade de ser e o existir em um modo de viver pessoal e com sentido.
E pelo horizonte ôntico, porque descreve e conceitua as tarefas, conquistas
e dificuldades que são próprias do desenvolvimento e amadurecimento
humano em seu acontecer factual, particular e relacional.
Embora sustentada em uma premissa ontológica – a da presença do outro
para que a pessoa se constitua como um ser13 –, a teoria do amadurecimento
trata dos aspectos ônticos do acontecer humano. A categoria de análise
comum a esses dois horizontes de compreensão é a acontecência humana,14
o amadurecimento, como propõe Winnicott, que se caracteriza por um
desenrolar histórico da natureza humana, orientado por essa tendência inata
à integração, envolvendo fatos, situações e experiências vividas pela pessoa
em sua concretude e totalidade. A asserção da qual parte – e que se torna a
base da teoria winnicottiana do amadurecimento – é: um indivíduo precisa,
primeiramente, constituir-se como uma pessoa para que possa se relacionar
com o outro e com a realidade externa.
A teoria do amadurecimento pessoal descreve os estágios de
desenvolvimento pelos quais um indivíduo passa para constituir um si-
mesmo pessoal, desde o momento da concepção até se tornar capaz de se
relacionar com uma outra pessoa e, a partir daí, poder ter uma existência
compartilhada; destaca também, em cada estágio, o papel do ambiente para
que o acontecer da pessoa se concretize. O estágioinicial, que corresponde
mais ou menos aos quatro ou cinco primeiros meses de vida de um bebê, é
fundamental para o amadurecimento pessoal e para a estruturação da
personalidade. É nesse período de vida, no qual a necessidade vital de ser,
existir e se sentir real como pessoa precisa ser conquistada, que a
dependência do cuidado ambiental é absoluta. A cada necessidade atendida,
o bebê pessoaliza as sensações ativadas no cuidado, passando a reconhecê-
las como próprias. É o apoio da mãe que facilita a organização do si-
mesmo, permite sua continuidade de ser e capacita o bebê, que, com o
tempo, se torna capaz de afirmar sua própria individualidade e de
experienciar um sentimento de identidade pessoal.15
Portanto, fundamentado nessa teoria, Winnicott demonstrou que um
recém-nascido é um esboço humano que se configurará como pessoa
apenas em certas circunstâncias, e, por isso, somente quando alcança o
estatuto de ser uma unidade, um si-mesmo separado da mãe, um bebê pode
relacionar-se com um outro objeto. Dizendo de outra forma, o bebê humano
precisa amadurecer até certo ponto para começar a ter uma psicologia, isto
é, para ter um funcionamento mental e ser capaz de usar mecanismos
mentais como a projeção e a introjeção. Por essa razão, falar de uma
“incorporação comum, associada à experiência oral” (Winnicott,
1987b/1990, p. 68), é o modo apropriado para expressar o que acontece
entre o bebê e a mãe nos estágios mais primitivos do existir – uma forma de
relação em que o mental está abstraído.
Em um amadurecimento saudável, a incorporação do objeto deve
preceder a introjeção mágica. Existe uma diferença entre o seio bom
(ambiente, mãe) incorporado e o seio que foi magicamente introjetado. O
seio bom, que deve ser entendido como a mãe que sobrevive e sustenta a
situação no tempo, quando é incorporado, usado, comido e devorado torna-
se um fenômeno interno e “provoca um aumento inespecífico, generalizado,
de bondade interna” (Winnicott, 1988/1990, p. 95). O ambiente bom passa a
ser parte do si-mesmo pessoal.
De modo diferente, quando há introjeção mágica do seio, ou
internalização do ambiente, como propõe os outros teóricos britânicos, ao
invés da incorporação do ambiente bom, Winnicott considera pensar na
existência de falhas ambientais (nunca reconhecidas pelo bebê como tais)
em momentos primitivos que não favoreceram o amadurecimento pessoal,
originando uma integração fragilizada e/ou dificuldades do bebê em relação
à conquista do concernimento. Quando isso ocorre, o recurso do bebê
(agora uma unidade pessoal) para lidar com uma integração estabelecida de
modo precário é a adoção de defesas rígidas para intermediar a relação com
o outro, estando o falso si-mesmo, uma organização defensiva e altamente
patológica, entre elas.
Para Winnicott, a presença de um ambiente inicial adaptado favorece a
continuidade de um senso de ser e existir, proporcionando segurança
pessoal básica para um existir criativo e responsável que, se incorporado ao
si-mesmo pessoal, permitirá um pleno uso da instintualidade no
relacionamento com o outro, agora plenamente identificado como separado
dele, pois a pessoa tem clara dimensão de quem é, confia e tem esperança
de poder ser si mesmo, uma vez que se reconhece capaz de responsabilizar-
se por seu sentir, pensar e agir. Por essa razão, pode-se entender que, de
acordo com a teoria do amadurecimento pessoal, as conquistas relativas ao
ser e ao fazer são integradas nos estágios iniciais de dependência absoluta e
confirmadas, ou não, no estágio do concernimento, apenas em situação de
ambiência favorável.
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1. Este artigo foi originalmente publicado na revista Natureza humana, v. 10, n. 1, 2008. Teve como
base a comunicação apresentada no “XII Colóquio Winnicott”, cujo tema foi “Winnicott na história
da psicanálise”, ocorrido na PUC-SP, em maio de 2007.
2. “Who Owns Winnicott?”, artigo exclusivo escrito por esse autor para Karnac Review, no qual
avalia as linhas de trabalho, pesquisa e contribuições das três instituições winnicottianas britânicas
que serão citadas a seguir no texto. Brett Kahr também é autor de The Legacy of Winnicott, D. W.
Winnicott – a Biographical Portrait e Forensic Psychotherapy and Psychopathology – Winnicottian
Perspectives.
3. Esse tema é extensamente apresentado por vários autores no livro de Haynal (1993) e
especialmente abordado por Ernst Falzeder no artigo “The Threads of Psychoanalytic Filiations or
Psychoanalysis Taking Effect” (Haynal, 1993).
4. Melanie Klein, que foi analisada por Karl Abraham e S. Ferenczi, teve como supervisionados J.
Bowlby, M. Khan, M. Milner e D. W. Winnicott. Entre seus analisandos, estiveram W. Bion, D.
Meltzer, J. Rickman, C. Scott e H. Segal.
5. Devido ao fato de certos comentadores considerarem que a teoria das relações objetais derivou-se
da psicologia do ego, é necessário destacar que as divergências sobre a formação do ego também se
confirmaram como a base das discrepâncias surgidas, durante as décadas de 1930 a 1950, entre a
escola kleiniana e a escola da psicologia do ego. Hartman, fundador da psicologia do ego, introduziu
na psicanálise a possibilidade de se considerar aspectos de comportamento, desenvolvimento e
funções psíquicas como autônomos das pulsões instintuais. Por essa via, passaram a ser objeto de
consideração na psicanálise fenômenos e fatos relativos ao amadurecimento biológico aplicáveis às
funções psíquicas. No entanto, o conceito de ego autônomo proposto por Hartman, isto é, a rejeição
da influência das relações objetais para a formação do ego, desafiou a posição de alguns teóricos
objetais que consideravam que a frustração nos relacionamentos objetais motivava, por si só, o
desenvolvimento do ego. Além disso, como considera Eagle (1984), apesar das modificações
introduzidas na teoria psicanalítica tradicional, a pretensão dos teóricos do ego era manter a
consistência com o modelo estrutural id-ego da teoria freudiana, posição oposta, por exemplo, a de
Winnicott e outros, que deixaram de considerar o desenvolvimento psicossexual como base para o
desenvolvimento psíquico.
6. De acordo com a teoria do amadurecimento pessoal, cada bebê cria um mundo que já existia, mas
que nunca deixará de ser pessoal.
7. Para interessados nesse tema, indico os trabalhos de Zeljko Loparic e Leopoldo Fulgencio, e os
dos demais autores do Grupo de Filosofia e Práticas Psicoterápicas atualmente da Unicamp.
8. É sempre importante lembrar que Winnicott discordava da proposição kleiniana de que seria
possível um bebê alcançar a posição depressiva muito antes do segundo semestre de vida.
9. Loparic propõe e defende a ideia de que a contribuição winnicottiana para a psicanálise pode ser
entendida, kuhnianamente falando, como um progresso na teoria psicanalítica, um resultado
revolucionário após um período de crise dessa ciência. Outros trabalhos do autor sobre o tema podem
ser consultados no site do Grupo de Pesquisa em Filosofia e Práticas Psicoterápicas da Unicamp,
disponível no portal da Sociedade Brasileira de Psicanálise Winnicottiana
(www.sociedadewinnicott.com.br).
10. Para uma discussão sobre o desenvolvimento dessa teoria, ver Dias, 2003.
11. Loparic diz que o conceito de natureza humana pode ser entendido como “a estrutura fixa da
nossa ontogênese ou, na linguagem menos biologizante e mais característica de Winnicott, do nosso
amadurecimento emocional governado pela tendência inata à integração” (2000, p. 355).
12. Diferentemente de outras tentativas de aproximação entre psicanálise e filosofia por uma análise
epistemológica e/ou metodológica, Loparic propõe que a “afinidade conceitual” existente entre
Winnicott e Heidegger vai além, situando-se, sobretudo, na área da ontologia. Ele apoia essa
aproximação em dois pilares: primeiro, no reconhecido esforço do filósofo alemão em ultrapassar o
pensamento metafísico predominante em nosso século; e, segundo, nas proposições originadas no
estudo da psicanálise winnicottiana, que mostram o distanciamento desse autor das formulações
metapsicológicas clássicas. Essas proposições podem ser assim resumidas: 1) faz parte dos
problemas internos ao existir humano, desde o seu início, a tarefa de elaborar um sentido do ser; 2)
continuar a acomodação dessa questão no interior da metafísica da representação, aceita pela
metapsicologia, não privilegia a humanidade do homem; 3) o reconhecimento de que, em Winnicott,
há diferentes sentidos do ser das coisas intramundanas, que são distintos do ser do ente humano. Com
isso, Loparic entende que Winnicott criou uma teoria original não representacional da constituição de
todos esses sentidos e que, portanto, a aproximação das teses winnicottianas com a hermenêutica
heideggeriana pode resultar proveitosa para o desenvolvimento da psicanálise (cf. Loparic, 1995).
13. O existir humano não é algo dado, como esclarece Loparic, e sim algo que precisa ser integrado
com e no espaço-tempo; para tanto, é “necessária uma ambiência favorável, sem a qual o lactante
nunca poderá sair do não-ser” (Loparic, 1995, p. 56).
14. De acordo com Loparic, a interpretação do conceito winnicotiano de amadurecimento, em termos
da acontecencialidade de Heidegger, permite a constituição de um horizonte ontológico unitário para
a compreensão da ciência winnicottiana da natureza humana (Loparic, 2000, p. 358).
15. Segundo Loparic, ao propor que nos estágios iniciais da relação mãe-bebê está envolvida a
necessidade de afirmar a individualidade e a conquista de um sensode identidade, não de um modo
ingênuo, mas de um ponto de vista do próprio bebê, Winnicott está, na verdade, tratando da questão
do ser e propondo que o sentido originário do ser só pode ser alcançado com o retorno “à
simplicidade originária do ser humano inicialmente experienciada na intimidade da relação entre mãe
e bebê” (Loparic, 1995, p. 47). Desse modo, num contexto que parecia dizer respeito à maternagem
exclusivamente, aparece “a questão da identidade, que consta entre as mais difíceis da filosofia”
(Loparic, 1995, p. 47). Sem dúvida, um problema que envolve a ontologia.
Winnicott e Heidegger: relações entre o
amadurecimento pessoal e a acontecência humana1
Eder Soares Santos
1. Introdução
Em um dos momentos nos quais Heidegger refere-se à criança enquanto
um ser-o-aí (Dasein), por ocasião de uma de suas aulas proferidas após a
publicação de Ser e tempo (1927), ele destaca a necessidade de se pensar
esse ser-o-aí do ponto de vista da infância (Das kindliche Dasein), dizendo
ser necessário se fazer uma revisão (Revision) nas teses centrais da
psicologia, psicanálise, antropologia e etnografia, pois essas disciplinas
deixaram de perceber que suas pesquisas sobre o homem deveriam ser
conduzidas pela concepção de que o ser-o-aí é, fundamentalmente, humano,
e que seu caráter essencial é ser acontecente (Heidegger, 1996, p. 124).2
Sendo assim, para Heidegger, “não poderemos começar a interpretar uma
tal situação (Zustand) [a da infância] como a da criança em sua essência
(Wesen)” até que os fenômenos do psiquismo de um ser-o-aí infantil (frühes
Dasein) não sejam tornados evidentes em sua estrutura ontológica
(Heidegger, 1996, p. 126).
Nessa mesma década em que Heidegger está discutindo essas ideias na
universidade de Friburgo na Alemanha, Winnicott inicia, em Londres, a sua
aproximação com a psicanálise. Entretanto, já desde o início de sua
formação analítica, em que todas as psiconeuroses eram tratadas em termos
de angústias pertencentes à vida pulsional no período de idade relativa aos
4-5 anos das crianças, com o complexo de Édipo como corolário, Winnicott
desconfiava, em função dos casos com que havia se deparado em sua
prática médica, de que alguma coisa estava “errada” na teoria psicanalítica,
sendo preciso estudar os problemas mais iniciais da infância (Winnicott,
1965va[1962]/1996, p. 172).
Esses dois momentos parecem indicar que, tanto da parte de Heidegger
como de Winnicott, é possível encontrar preocupações que impulsionam
questionamentos sobre o homem, seja no horizonte ontológico, seja no
ôntico. Ambos veem a necessidade de elaborar uma teoria que consiga
refletir sobre o ser-o-aí, o homem, de uma maneira em que o que lhe é
essencial ganhe maior relevância. Heidegger passará os anos seguintes às
aulas referidas procurando refletir sobre essa essência, e Winnicott irá se
dedicar a um estudo da natureza humana que leve em conta o seu
amadurecimento desde os estágios mais iniciais do existir humano até a sua
morte, procurando compreender e explicar como surgem e qual o papel que
os distúrbios emocionais desempenham no decorrer desse amadurecer.
O foco de discussão de ambos os autores era diferente. Heidegger
discutia com toda a tradição filosófica, que se esquecera da questão do ser e
só pensava o ente. Winnicott debatia com a tradição psicanalítica, que
tomava a teoria do complexo de Édipo como chave mestra para abrir todas
as portas do psiquismo humano. Heidegger revelou a necessidade de se
“destruírem” os conceitos e os preconceitos da metafísica. Winnicott
mostrou a necessidade de se encontrarem novas chaves que pudessem
destrancar outras portas para a compreensão da natureza humana, e
encontrou-as. Winnicott realizou o que Thomas Kuhn chama de mudança
de paradigmas.
Esses pensadores nunca se encontraram. Um não conheceu, ao que se
sabe, a teoria do outro. Por que e como se poderia aproximá-los? Este artigo
tem por intenção apontar uma forma possível para tal aproximação.3 Como
vimos, a necessidade de se fazer uma “revisão” nas teorias que tratam do
homem era uma ideia comum a ambos e, tendo cada um realizado as
respectivas “revisões” ao seu modo, chegaram a concepções muito afins.
Assim, a teoria do amadurecimento pessoal de Winnicott leva-nos a ver o
homem em sua necessidade de chegar a ser e continuar-a-ser, de chegar a se
integrar como pessoa, de tomar parte e responsabilidade na vida social e
comum, procurando viver uma vida real e espontânea. A teoria da
acontecência humana de Heidegger nos apresenta esse homem, ser-o-aí, nos
seus diferentes modos de ser, apontando, sobretudo, que somos temporais e
finitos.
Ao abordar a natureza humana com base no amadurecimento inicial do
homem, Winnicott viu-se não só obrigado a alterar a linguagem que
descreve esses estágios iniciais como também teve, conscientemente ou
não, de alterar as bases ontológicas sobre as quais suas concepções se
assentavam – sendo esse um dos elementos que permite destacar a sua
mudança paradigmática. Sua concepção sobre ser e continuar-a-ser toca o
tema essencial da teoria heideggeriana presente em Ser e tempo, a saber: o
existir humano é, no seu fundamento, um acontecer temporal e finito. Esse
caráter fundamental do existir humano presente na psicanálise de Winnicott
aponta, por um lado, que a fenomenologia existencial pode lançar alguma
luz na compreensão dos componentes ontológicos dessa psicanálise. Por
outro lado, também é possível perceber que certas discussões avançadas
pela teoria winnicottiana instigam e aclaram indagações ainda pendentes na
teoria heideggeriana como a questão da nascencialidade, da corporeidade
do ser-o-aí e do chegar ao poder-ser do ser-o-aí. Por isso, penso haver aí
relações frutíferas entre a teoria do amadurecimento e a acontecência
humana.
Este e, enquanto um conectivo, mostra que essas teorias podem se
relacionar, isto é, indica que, em uma teoria do amadurecimento pessoal,
deve estar contida a noção de acontecer humano e vice-versa, e que uma
teoria da acontecência humana deveria levar em consideração o
amadurecimento psicossomático do ser humano. Porém, esse e também
aponta que elas não são as mesmas teorias e que cada uma deve preservar o
campo de suas especificidades, abrindo e mantendo as possibilidades de
aproximação e de distanciamento.
Em suma, o que ensaio apresentar são relações entre duas teorias, uma
do campo da psicanálise e outra do domínio da filosofia, que nos mostram
uma forma não naturalista de conceber o ser humano – em ambas, o ser
humano tem sua importância pelo seu próprio existir no mundo.
2. Relação entre a teoria psicanalítica de Winnicott e a filosofia
de Heidegger
Chama a atenção na psicanálise de Winnicott o fato de que, em sua
teoria, o ser humano não é apresentado como um objeto da natureza, mas
sim como uma pessoa que, para existir, precisa do cuidado e atenção de um
outro ser humano. Isso nos leva, diretamente, a pensar que a psicanálise de
Winnicott não se enquadra mais na estrutura do pensamento científico-
naturalista, que toma o ser humano apenas como mais um objeto da
natureza a ser investigado. Pode-se indicar qual é a marca do pensamento
científico-naturalista através da seguinte observação, feita por Heidegger,
no livro intitulado Seminários de Zollikon:
[...] o traço fundamental da natureza de que se fala no pensamento científico-natural é ser
regida por leis. A calculabilidade é uma consequência de ser regida por leis. De tudo que existe
[ist] só se considera aquilo que é mensurável, quantificável. (Heidegger, 1987, p. 30)
Curiosamente, Winnicott escreveu um livro que se intitula Natureza
humana. Do que trata essa natureza? Ele conseguiu, realmente, superar esse
naturalismo alvo das críticas de Heidegger? A resposta parece-nos ser
afirmativa. É preciso saber, então, o que Winnicott entende por natureza
humana. Para ele, “o ser humano é uma amostra-no-tempo da natureza
humana”4 (Winnicott, 1988/1988, p. 11) e a natureza humana “é quase tudo
o que possuímos” (Winnicott, 1988/1988, p. 1). Em Winnicott, isso
significadizer que o que está em jogo na natureza humana e o que a
constitui é o seu acontecimento como ser humano, isto é, a sua continuidade
de ser como pessoa. Ser de maneira contínua no tempo desde o início, ou
seja, desde um pouco antes do nascimento, é o que lhe garante saúde
suficiente para alcançar algo que também nos constitui, a morte. A quebra
dessa continuidade, principalmente no início da vida do ser humano, leva a
uma existência difícil, que pode ser marcada por graves distúrbios
psíquicos, como, por exemplo, as psicoses (Winnicott, 1988/1988, pp. 126-
160).
Essa interpretação da natureza humana não está marcada pela
calculabilidade ou mensurabilidade do que é possível conhecer sobre o ser
humano. Ela está baseada na fragilidade e nas dificuldades que existem no
ter que existir humano. Esse é um dos motivos principais pelos qual
acredito que o estudo da teoria winnicottiana é de grande importância não
só para a psicanálise, mas também para a fenomenologia existencial de
Heidegger.
Com efeito, se a natureza humana, tal como concebida por Winnicott em
sua obra, não está baseada no naturalismo científico, então os fundamentos
de sua teoria psicanalítica não podem ser mais os mesmos da psicanálise
tradicional.5 Essa parece ser também a opinião de Loparic (1995) ao dizer
que, se em Freud podemos observar que os “fundamentos da psicanálise
tradicional pertencem, todos eles, à metafísica da modernidade”, ou seja,
“metafísica pós-cartesiana em que o sentido da realidade do real é um só, o
da presença constante representável” (Loparic, 1995, p. 51), em Winnicott,
percebemos que “a ‘tese da metafísica da psicanálise’ é rejeitada” (Loparic,
1995, p. 51). Por exemplo:
[...] em Winnicott, o acesso representacional ao objeto passa a ser considerado como
derivado e fundamentado em modos de acesso menos “realistas”, mais “brincalhões”, porém
nem por isso menos significativos para a vida humana. A divisão de realidade em externa e
interna não é tomada como pressuposta, mas considerada como adquirida. (Loparic, 1995, p. 51)
O interesse filosófico pela teoria psicanalítica de Winnicott aumenta
ainda mais quando se percebe, em sua obra, temas que foram tratados
originalmente pela fenomenologia existencial de Heidegger, por exemplo: a
tarefa de elaborar um sentido do ser – ignorada tanto pela metafísica como
pela psicanálise tradicional – como consequência da conquista do poder
continuar-a-ser; a ideia de que distúrbios psíquicos graves têm algo a ver
com a temporalização do bebê; a noção de que o sentido de realidade não
está sempre assegurado pelo fato da minha razão.
3. Relação entre a teoria do amadurecimento e a psicanálise
tradicional
Um ponto de partida para se investigar a psicanálise winnicottiana são os
estágios iniciais da teoria do amadurecimento, que se inscreve na história da
psicanálise como uma verdadeira tournant paradigmática. Diferentemente
da psicanálise tradicional – referimo-nos principalmente a Freud e Klein –,
Winnicott recusa decididamente o naturalismo e o determinismo, isto é,
recusa a objetificação do ser humano. Ele não concebe o ser humano como
um mero fato, um efeito de causas, uma coisa em conexão causal com
outras coisas da natureza. O ser humano, principalmente no que tange ao
que é psíquico, não é constituído por um aparelho que é movido pela força
de certas pulsões, mas é um acontecimento temporal que tende a se
desenvolver até a sua morte.
Constituem preocupação da psicanálise tradicional alguns dos seguintes
temas: as pulsões, a forma de relacionamento do sujeito com os objetos
(bons ou maus), os significados e/ou significantes que o sujeito possa
produzir em seu discurso. Isso, com efeito, fez com que, mesmo quando o
estudo psicanalítico se referisse a crianças muito novinhas, nunca se
chegasse ao momento inicial do existir humano, ou melhor, fez com que
nunca se olhasse esse momento como sendo decisivo para o trabalho que
estava sendo realizado, como indica o próprio Winnicott:
Gradualmente, a psicanálise foi ampliada, de modo a abranger até mesmo as crianças muito
novas, digamos de 2 anos e meio de idade. Isto, entretanto, não foi suficiente para o objetivo que
temos em vista aqui, uma vez que as criancinhas de 2 anos e meio estão, surpreendentemente,
muito distantes de seus primeiros meses de vida, a menos que sejam doentes e imaturas.
(Winnicott, 1987a/1999, p. 33)
Otto Rank e Melanie Klein são autores que, à primeira vista, poderiam
ser citados como dois daqueles que tentaram dar alguma contribuição aos
momentos iniciais. Porém, só à primeira vista. Rank, em sua teoria sobre o
trauma do nascimento, estava preocupado com a etiologia da angústia
conforme sua adequação aos rendimentos (Leistungen) do aparelho
psíquico proposto por Freud e não com o bebê em seu momento inicial.
Ademais, suas concepções já foram criticadas inclusive pelo próprio Freud,
que as colocou em dúvida, pois as considerava altamente contestáveis
(höchst anfechtbar) teoricamente (Freud, 1926/1991, p. 166).
Quanto a Klein, embora ela tenha voltado sua atenção para os
relacionamentos iniciais entre mãe e bebê, não chegou a investigar a
possibilidade de que problemas psíquicos pudessem estar ligados aos
estágios mais iniciais do existir e não encerrados nas fantasias do bebê com
relação a um seio bom ou mau.6
A psicanálise, todavia, continuou avançando na constituição da sua
história. E foi Winnicott quem chamou a atenção para a importância desses
primeiros momentos da vida do ser humano através da apresentação dos
estágios iniciais da vida do bebê. Assim, torna-se importante investigar
esses momentos, uma vez que, parece-me, remetem à problemática
ontológica do início do sentido de ser. Esta, na teoria do amadurecimento de
Winnicott, vai nos levar a uma discussão anterior, relativa à continuidade de
ser.
Para que tal investigação seja possível, é preciso atentar para o fato de
que o paradigma a conduzir essa investigação não é mais o mesmo que
conduzira Freud em suas pesquisas, ou seja, aquele da teoria das pulsões,
reforçado pela teoria da sexualidade, tendo como exemplar paradigmático o
complexo de Édipo.7 Estou me referindo aqui à teoria do amadurecimento
pessoal, que tem, como exemplar, o bebê no colo da mãe (Loparic, 1997, p.
58). Essa teoria é formada pelo conjunto das concepções e noções que
Winnicott usa para constituir a sua teoria e prática psicanalíticas, e diz
respeito ao desenvolvimento emocional e psíquico do ser humano desde o
seu nascimento.
Ainda a título de comparação, é possível fazer uma rápida oposição entre
os pontos de vista de Freud e Winnicott, tomando como exemplo a noção de
doença psíquica. Tal como descritas em termos da metapsicologia
freudiana, as doenças psíquicas são distúrbios do funcionamento do
“aparelho” que, por psíquico que seja, pertence ao mesmo âmbito que o dos
objetos das ciências físicas – as forças e os mecanismos. “Quem” adoece na
teoria freudiana é a libido. A teoria do amadurecimento pessoal de
Winnicott diz respeito ao somático e ao psíquico e, por isso, a doença
psíquica tem a ver com a natureza humana e com a capacidade de existir. O
aspecto biológico não é desconsiderado, mas a sua participação depende,
essencialmente, do processo de integração do si-mesmo (self) como uma
unidade na psique e no soma (Dias, 1998, p. 53).
O paradigma da psicanálise de Winnicott diz respeito ao continuar-a-ser
– diríamos ao poder acontecer – e não ao problema edípico. Winnicott –
assim como Freud – estava preocupado, primeiramente, com os problemas
clínicos apresentados pela psicanálise e, por isso, pôde constatar que
existiam distúrbios graves muito precoces nas crianças e mesmo nos bebês,
que em nada se relacionam com a angústia de castração decorrente da
situação edípica. Winnicott constatou que havia angústias do início do
existir humano que causavam graves danos ao “eu” da pessoa e que não são
definíveis em termos de relações pulsionais de objeto. A essas angústias ele
deu o nome de impensáveis. O mais importante a ser observado, no âmbito
detal estudo, no que diz respeito às angústias impensáveis, é que elas
interrompem a continuidade-de-ser do bebê, e que essa interrupção
compromete as possibilidades que este tem de se integrar como um si-
mesmo (self), uma unidade, ou seja, fica comprometido o seu
amadurecimento enquanto continuidade do existir.8
A teoria do amadurecimento, em última instância, diz respeito ao poder
continuar-a-ser da pessoa de forma ininterrupta. Esse amadurecimento não é
automático; ele acontece na relação com outros seres humanos.
A teoria do amadurecimento traz consigo, ainda, questões relacionadas à
conquista de tempo e espaço no início do existir humano (holding), aos
modos de se lidar com esse ser humano (handling) e a como ele apreende a
realidade (object presenting) – temas que deixarei para trabalhar em outra
oportunidade, pois excederiam os limites deste artigo.
4. Heidegger e Winnicott: relação de interlocução
Ao se perguntar pelo sentido do ser, Heidegger tornou possível colocar
em questão a tradição metafísica da filosofia, que ganhou força com o
surgimento da ciência moderna.
Tanto a filosofia quanto a ciência moderna perguntam pelo ente, a fim de
saber o que ele faz e não o que ele é. O perguntar pelo fazer, principalmente
na ciência moderna, significa tomar “a si mesmo como sujeito determinante
para o qual todo ente pesquisável torna-se objeto” (Heidegger, 1987, p.
123), até mesmo o próprio homem. Como consequência, o homem moderno
criou um método científico que pudesse mensurar e calcular
antecipadamente a natureza (Heidegger, 1987, p. 136).
Os questionamentos de Heidegger sobre a ciência, enquanto imposição
de ser a única fonte segura de conhecimento sobre a natureza, parecem
mostrar que não houve nenhum avanço – da perspectiva de um sentido de
ser – em pensar o homem de uma maneira diferente que não fosse aquela de
um objeto (ente) simplesmente dado na natureza. Esse modo de pensar, ao
invés de conduzir o homem a um conhecimento maior do seu ser, leva-o, na
verdade, ao esquecimento de si mesmo e à sua própria destruição.
Dessa forma, para que qualquer estudo sobre o homem possa ser
realizado com algum sucesso, seria preciso, antes, que fosse analisada qual
é a estrutura fundamental do seu sentido de ser – tarefa que Heidegger
procura realizar em Ser e tempo.
Por ter tentado pensar o ser humano em seu sentido de ser e não
enquanto objeto mensurável e calculável da ciência naturalista, Heidegger
se torna um interlocutor de extremo interesse para se pensar a psicanálise
winnicottiana, já que considero que também Winnicott consegue escapar ao
aguilhão do naturalismo. Vejamos a seguir um exemplo dessa interlocução.
5. A acontecência humana e o amadurecimento pessoal: relação
conceitual
Trato agora do conceito de acontecência (Geschichtlichkeit) em
Heidegger. Já de saída, estamos diante de um problema de tradução. Em
português, esse termo fora traduzido por historicidade (tradução que não
deixa de estar correta). Todavia, em alemão, essa palavra também guarda o
sentido de acontecer (Geschehen). Traduzido por historicidade, esse sentido
de acontecer desaparece. Deve-se fazer notar ainda que Heidegger também
usa o termo Historicität que, em sentido estrito, também quer dizer
historicidade. É a diferenciação e a compreensão dessas duas palavras que
permitirá discutir a questão da história (Geschichte) em sua obra.
De fato, Heidegger trata da história e da historicidade, mas, em sua
interpretação, procura se afastar do modo como a tradição metafísica debate
esse tema. Ele procurará mostrar que essa é uma discussão que passa, antes
de tudo, pela compreensão da pergunta sobre o ser, compreensão que é um
modo de ser do ser-o-aí, sendo esse ser entendido como finito e estendido
entre dois fins, nascimento e morte, ou seja, compreendido como um
acontecer (Geschehen) num entre (Zwischen) da existência.
Esse sentido de acontecer está presente no radical da palavra
Geschichtlichkeit – por exemplo, em geschichtlich, em que temos um
advérbio, portanto “um proveniente do verbo”, que tanto pode ser entendido
como acontecente ou como histórico. Para os interesses deste artigo,
concentro-me no sentido desse termo relativo ao acontecer. Desse modo,
por se tratar de uma investigação sobre o sentido do ser compreendido
como um acontecer, opto pelo substantivo em português acontecência9 para
a tradução de Geschichtlichkeit.
O conceito do homem como um ser acontecente é resultado das análises
empreendidas por Heidegger em Ser e tempo.10 Ao questionar a metafísica,
e com esses questionamentos voltar às origens dos fundamentos
metafísicos, o filósofo se perguntou pelo sentido do ser. Essa pergunta é
fundamental e fundante para a fenomenologia existencial, pois é a pergunta
pelo homem destituído de seus afazeres, isto é, não pergunta pelo agir, pelo
fazer. Para Heidegger, em Ser e tempo, a questão que se coloca é a do ser
(Sein) ou, mais propriamente, a pergunta é pelo sentido do ser.
O alvo das nossas preocupações aqui é o ente “que possui em seu ser a
possibilidade de questionar” (Heidegger, 2001, p. 7). Ele pode ser
designado pelo termo ser-o-aí (Dasein) ou por presença. A questão do
sentido do ser é uma questão do ser do ente, isto é, uma indagação sobre o
ser do homem. Em outras palavras, a pergunta é: o que é o homem?
O ser-o-aí é um modo de ser privilegiado, pois é o único que, em sendo,
coloca em jogo o seu próprio ser e estabelece uma relação de ser com seu
próprio ser, ou seja, do ponto de vista ôntico, o homem que é pode
compreender a si mesmo, sendo. Essa compreensão remete o ser a um
questionamento ontológico.
O ser acontecente é desvelado em seu poder-ser originário por meio da
angústia, pela qual o ser do ser-o-aí se mostra como cuidado (Sorge).
Cuidado do meu próprio ser-o-aí como ser-no-mundo e o dos outros em
geral. O cuidar é um fenômeno ontológico fundamental, isto é, no
fenômeno do cuidado, o homem preocupa-se (Fürsorge) com o seu próprio
existir e com o existir em geral (Heidegger, 2001, p. 122). Isso porque o
homem é um ser-no-mundo que, enquanto presença, é também um “ser-com
os outros”, permitindo-lhe a abertura para a convivência. Esse fenômeno do
cuidado se dá em uma temporalidade finita do ser-o-aí, com que se é levado
a pensar em início, fim e um “entre” esses dois extremos, no qual nós
vivemos, acontecemos.
Concedido o fato da acontecência, esta não deve ser pensada de acordo
com o modelo metafísico da ciência natural. Isso significa dizer que toda e
qualquer explicação sobre o homem como um ser acontecente deve fugir do
esquema do objetivismo e determinismo causal. Como resultado, para se
falar do homem como um ser acontecente, é preciso substituir a linguagem
da mensurabilidade e calculabilidade dos objetos e dos entes usada pela
ciência natural, assim como seu método hipotético-dedutivo, por uma
linguagem e método descritivos.
Com essa mudança de linguagem e método, qualquer estudo sobre o
homem ou sobre os diferenciados modos de conhecimentos científicos
deveria ter como base a acontecência, porém, não mais a acontecência
pensada ao modo metafísico das ciências naturais, que transforma o
acontecer humano em determinações objetificantes, pensando-o
simplesmente como mais um ente pesquisável da natureza. Parafraseando
Heidegger quando fala da abertura historiográfica da história, é possível
dizer que, segundo a sua natureza e estrutura ontológica, toda abertura
científica da ciência já está, em si mesma, radicada na acontecência do ser-
o-aí (Heidegger, 2001, p. 392).
Indica-se nesse momento que a questão do ser investigada por Heidegger
obriga-nos a pensar o ente, o homem ou o sujeito – como se costuma
empregar no discurso psicanalítico – com base em uma outra perspectiva.
Nessa nova interpretação do ente, também é preciso repensar a questão do
ser na psicanálise.
Penso que o modo de conceituar sobre o ser humano, tanto em
Heidegger como em Winnicott, possui muitas afinidades plausíveis de
serem estabelecidas quando se utiliza a noção kuhniana de paradigma, e
que,embora suas análises se realizem em níveis teóricos diferentes, o
sentido dado ao existir humano por ambos os pensadores foge dos
parâmetros do homem pensado cartesianamente, calculador e dominador da
natureza. Sendo assim, o sentido do ser do homem não é mais o mesmo que
aquele sustentado pela tradição metafísica.11 O que se estabelece é uma
relação conceitual, na qual se trabalha com os mesmos pressupostos, porém,
em níveis de investigação e problematização diferentes sobre o mesmo
assunto: como é possível um ser “acontecer” das perspectivas do
amadurecimento pessoal e da fenomenologia existencial?
6. Mudança de paradigma em Winnicott
As propostas de Thomas Kuhn (1970) sobre a história e o
desenvolvimento das ciências como um instrumento de trabalho é de grande
valia para, por um lado, verificar as mudanças existentes na psicanálise
winnicottiana em relação à psicanálise tradicional e, por outro, indicar que
os componentes ontológicos observados na psicanálise de Winnicott
guardam alguma relação com a fenomenologia existencial.
Para Kuhn, toda “matriz disciplinar” pode ser compreendida como um
paradigma – um quadro de princípios, conceitos e modelos, alguns
empíricos e outros a priori – que marca, delimita e guia a formulação dos
problemas e os tipos de soluções a serem encontrados. Todavia, dadas
certas situações ou condições, um paradigma pode entrar em crise – ou seja,
não ser mais eficiente na formulação e na resolução dos problemas próprios
ao seu campo de ação – e estar sujeito a uma mudança radical, uma
revolução que termina pela instauração de um paradigma mais eficiente,
implicando, assim, a mudança de certos princípios, conceitos e modelos
básicos que definem o paradigma da disciplina em questão.
Um novo paradigma significa um novo quadro teórico, no qual se
encontra a solução, tanto da maioria dos velhos problemas quanto dos
novos problemas, até então insolúveis ou nem mesmo concebíveis. Assim,
quando uma revolução ocorre e outro paradigma começa a se instalar, é
necessário redescrever os antigos problemas e soluções, visto que as bases
do edifício teórico foram substituídas. Muito é aproveitado, mas numa
perspectiva e com um valor diferente do que tinham no velho paradigma.
Com o auxílio da noção de paradigma de Kuhn, é possível observar que
os componentes teóricos da matriz disciplinar da psicanálise winnicottiana,
quando comparados com a tradicional, são outros. Tome-se, por exemplo, o
paradigma exemplar da psicanálise de Freud e de Winnicott.
O exemplar paradigmático da psicanálise de Freud é o complexo de
Édipo (Loparic, 1997). Este, como um problema concreto, serviu como
critério para que vários problemas e quebra-cabeças em sua teoria
pudessem ser resolvidos, bem como foi útil para o estabelecimento de uma
constelação de crenças e de uma comunidade de psicanalistas.
O paradigma da psicanálise de Winnicott é o do “bebê no colo da mãe”12
(Loparic, 1997), que implica considerar esse bebê sendo segurado pela mãe,
ou seja, deve-se levar em conta o conceito de holding de Winnicott, que, em
última instância, nos leva à noção de cuidado; poder-se-ia dizer paradigma
do cuidado, porém, não há necessidade de se criar mais uma terminologia.
Também implica pensar na noção winnicottiana de que não existe um bebê
sozinho, isto é, nos estágios iniciais, quando se pensa em um bebê, também
se deve pensar em uma mãe que se encontra junto com ele.
Os exemplos paradigmáticos de sofrimentos em Winnicott não são os
das neuroses, mas os das “angústias impensáveis”. “Impensável” porque
antecede a qualquer representação mental e “angústia” por implicar uma
batalha para continuar-a-ser. São problemas que podem surgir da relação
dual entre os bebês e suas mães, e não de uma relação triangular.
Assim, observa-se que, entre a psicanálise winnicottiana e a tradicional,
há rupturas conceituais importantes. Em nosso caso: o abandono do
complexo de Édipo como complexo nuclear (Winnicott, 1988/1988, pp. 49-
50). Ter tomado como paradigma “o bebê no colo da mãe” levou Winnicott
a solucionar questões que a psicanálise tradicional não conseguia resolver
satisfatoriamente.13
7. Considerações finais
Procurei mostrar neste artigo alguns tipos de relações entre a teoria do
amadurecimento pessoal de Winnicott e a teoria da acontecência de
Heidegger. Lancei mão da noção de paradigma de Kuhn para, no quadro do
desenvolvimento histórico da psicanálise, distinguir a teoria psicanalítica de
Winnicott da tradicional (Freud e Klein). Indiquei que, em relação à
tradicional, a winnicottiana promove uma mudança paradigmática em todos
os elementos que compõem a matriz disciplinar da teoria psicanalítica. O
estabelecimento dessa distinção nos permite tomar um dos componentes
dessa matriz para investigação, a saber, o componente ontológico. Essa
escolha pretende mostrar que a ontologia presente na teoria de Winnicott
aproxima-se de um modo de pensar a natureza humana que tem afinidade
com as concepções pós-metafísicas de Heidegger, e que a teoria da
acontecência deste filósofo ilumina a compreensão dos elementos
ontológicos que compõem a teoria winnicottiana.
Desse modo, é possível estabelecer uma ponte para se aproximar da
fenomenologia existencial. Entretanto, antes de realizar essa passagem, faz-
se necessário apresentar os elementos ontológicos que compõem a
psicanálise de Winnicott, procurando destacar que a concepção de
amadurecimento humano, que se deixa ver através desses elementos, situa-
nos diante da necessidade de compreender a precariedade do nosso próprio
existir, de contar com alguém que, inicialmente, nos provê cuidado para que
possamos chegar a ser e poder discutir qual o sentido de ser. A
fenomenologia existencial permite mostrar, por um lado, que pensar o
sentido de ser com base em sua acontecência é uma abordagem que ilumina
a compreensão da natureza humana, mas, por outro, revela que o pensar
filosófico sobre o ser está preso a uma armação conceitual que não lhe
permite avançar a discussão de certas questões impostas por uma teoria do
amadurecimento humano.
É com essa precaução que se deve fazer a travessia da ponte que nos leva
à aproximação com a fenomenologia existencial: mostrar em quais pontos
se tocam a teoria do amadurecimento e a da acontecência humana no que
diz respeito ao cuidado, à preocupação, à noção de tempo, espaço e
realidade, nas concepções sobre o existir e o teorizar sobre o humano e em
certas concepções sobre o conceito de angústia. E, tendo chegado ao outro
lado dessa ponte que aproxima essas teorias, deve-se voltar o olhar para a
outra margem em que se encontrava a psicanálise de Winnicott e perceber
que esta se distancia da fenomenologia existencial de Heidegger e lhe
impõe pensar questões, como a de ser-para-o-início pelas análises sobre a
nascencialidade,14 que já se encontram encaminhadas na teoria do
amadurecimento pessoal.
Sendo assim, percebe-se que as formulações de Winnicott tanto se
aproximam quanto se afastam das de Heidegger, isto é, as análises
winnicottianas apontam discussões ontológicas essenciais, bem como
apresentam descrições existenciárias do modo de ser cotidiano saudável ou
doente. Por isso, deve-se investigar qual é o modo de compreensão presente
em sua psicanálise e qual o seu lugar de localização em relação a um
pensamento pós-metafísico. Através dessa relação de proximidade e
distanciamento entre a psicanálise winnicottiana e a filosofia de Heidegger,
podemos sustentar que, em Winnicott, há uma pré-ontotologia da natureza
humana. Nela o homem não é compreendido enquanto representações ou
pulsões, e sim como possibilidade aberta e paradoxal. Nesse sentido, há
uma pré-ontologia não temática em sua teoria, ou seja, as questões relativas
ao ser se reduzem à dicotomia mais básica da tradição filosófica herdada
desde os gregos, dando aí um passo a mais: ser ou não ser; alcançar ser e
perder-se, nunca chegar a ser (Santos, 2006a). Concluo, assim, que se pode
trabalhar com dois níveis de investigações na psicanálise de Winnicott que
se entretecem:o relativo ao ser e ao ente, pois ambos são temas centrais de
suas investigações.
Levar em consideração o ser e o ente enquanto temas justifica, parece-
me, uma relação de aproximação com a fenomenologia existencial de
Heidegger. Consequentemente, também indica uma relação de
distanciamento, em que se pode perceber algumas contribuições que a
psicanálise de Winnicott pode oferecer à filosofia. Essa psicanálise não é
uma investigação do ser e também não é, necessariamente, uma psicanálise
do ente considerado à luz da mecanicidade do funcionamento psíquico. Ela
se localiza, a meu ver, no permeio da diferença entre ser e ente. Localizo a
psicanálise de Winnicott na abertura (da) e no entre ser e ente, isto é, no
permeio da diferença, que esclarece a necessidade da relação de pertença
latente entre ser e ente referente ao próprio existir. E é por estar nesse
entremeio que as análises sobre uma teoria do amadurecimento pessoal
possuem descrições sobre o psiquismo que remetem a uma compreensão
sobre o homem que é pré-ontológica e acontecencial, mesmo quando se
trata de questões factuais.
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1. Artigo revisado para esta edição, publicado originalmente sob o título “Winnicott e Heidegger:
indicações para um estudo sobre a teoria do amadurecimento pessoal e a acontecência humana” na
revista Natureza humana, v. 9, n. 1, 2007.
2. As traduções presentes neste trabalho são de minha inteira responsabilidade.
3. Podem-se encontrar outras tentativas de aproximação entre a fenomenologia existencial e a
psicanálise, sobretudo a psicanálise de Freud. No entanto, essas tentativas não deram a devida
importância ao fato de que a ontologia da psicanálise tradicional e a da filosofia de Heidegger
trabalham com perspectivas diferentes. A título de consulta, conferir Condrau (1992), Düe (1986) e
Holzhey-Kunz (1994).
4. Essa máxima winnicottiana é um dos pontos principais para se pensar a concepção de homem em
sua psicanálise.
5. Considera-se psicanálise tradicional a que tem por paradigma o complexo de Édipo. Para uma
discussão sobre o futuro dos paradigmas na psicanálise, conferir Loparic (2008a).
6. Para Winnicott, os estágios iniciais e as fantasias dos bebês teorizadas por Klein são conceitos
completamente diferentes. Sobre essas ideias de Klein, ele diz, com certa ironia, que é “um ponto de
vista interessante, do tipo extremo”. Conferir carta a Betty Joseph, 13 de abril de 1954 (Winnicott,
1987b/1987, p. 52).
7. Nota-se que a questão dos instintos (instincts), da sexualidade ou do complexo de Édipo não
deixou de ter sua importância na psicanálise winnicottina, mas esses temas não possuem a mesma
centralidade que têm na teoria freudiana. Para uma discussão sobre esse assunto, conferir Santos
(2001).
8. Esse tema encontra-se tratado mais demoradamente em Santos (2005).
9. Embora não dicionarizada, a palavra “acontecência” existe na literatura brasileira. Ela é usada, por
exemplo, por Vilma Guimarães Rosa no seu livro de contos intitulado Acontecências (apud Loparic,
2000).
10. Os temas apresentados em Ser e tempo já haviam sido trabalhados por Heidegger em preleções
anteriores a 1927. Essas preleções encontram-se em sua edição completa (Gesamtausgabe). A título
de exemplo, conferir Prolegomena zur Geschichte des Zeitbegriffs (1925/1994) e Der Begriff der Zeit
(1924/2004).
11. Desenvolvimentos desse tema podem ser encontrados em Santos (2006a, 2006b).
12. Deve-se fazer notar aqui que essa formulação é um insight de Loparic de como poderia ser
apresentada a teoria psicanalítica de Winnicott. Desde 1996, pelo menos, Loparic vem trabalhando
com a tese de mudança de paradigmas na psicanálise, tomando como contraponto de sua discussão o
paradigma freudiano do complexo de Édipo e o paradigma winnicottiano do “bebê no colo da mãe”.
13. Este é o caso, por exemplo, das psicoses infantis.
14. Um desenvolvimento sobre o estudo da “nascencialidade” em Winnicott pode ser encontrado em
Loparic (2008b).
Heidegger e Winnicott: pensadores da origem
(Anfang)1
Caroline Vasconcelos Ribeiro
Durante mais de uma década, Martin Heidegger ministrou seminários a
um grupo de estudantes de psiquiatria na casa do amigo Medard Boss, em
Zollikon, na Suíça. As atas do seminário registram o esforço do filósofo em
levar esse seleto grupo a experienciar o desabrigo que se instauraquando a
pretensa segurança do pensamento científico-natural é abalada,
desconstruída ontologicamente. O esforço consistia em descortinar um
modo de apreender fenômenos clínicos não devedores do naturalismo, não
servis aos imperativos de mensuração e classificação. Para tanto, o olhar
heideggeriano não se restringia a avaliar os resultados de uma dada prática
clínica, centrando-se em dilemas da psicoterapia. Antes, pretendia uma
análise filosófica acerca das bases ontológicas sobre as quais se edificam
tais ciências. O que implica perguntar pelas concepções de homem, saúde e
doença que permeiam seu arcabouço teórico e determinam sua prática.
Ao conduzir a atenção dos interlocutores para os pressupostos
ontológicos subjacentes à pesquisa científica, o filósofo convida o grupo a
voltar-se para onde o olhar científico não pretende e nem pode se ater.
Heidegger, então, provoca o grupo na direção do espanto e da suspeita
filosófica, para além do consolo dos códigos que classificam. Dirige-se a
conceitos cardeais da psiquiatria, psicologia e psicanálise com sua peculiar
postura desconstrutora, visando a remover “os entulhos acumulados” pelas
mais diversas vertentes epistemológicas. Os enrijecidos conceitos de corpo,
tempo, espaço, causalidade, sofrimento psíquico, esquecimento etc. são
desencobertos, conduzidos às suas fontes, na tentativa de desvelar a
proveniência primeira, a “certidão de nascimento” (Geburtsbriefes) de cada
um.2 Tarefa esta nada simples para filósofos, quiçá para representantes da
ciência natural. Não por acaso Boss, no prefácio à primeira edição da obra
que reúne as atas do seminário, confessa que diante do esforço dos
participantes em acompanhar o fôlego do pensamento de Heidegger,
fantasiava que um marciano estava encontrando pela primeira vez um grupo
de terrestres e tentava comunicar-se com eles.3
Por empreender um procedimento que visa a alcançar as raízes
ontológicas de um campo ôntico de saber, Heidegger teve de lidar com um
ramo de teorização objetificante, com um conjunto instituído de teorias e
técnicas. No caminho dessa tarefa, o filósofo não pôde deixar de esbarrar-se
com a psicanálise e de encaixá-la no rol das ciências naturais herdeiras da
metafísica moderna. Nesse sentido, suas assertivas em relação a Freud são
duras, às vezes desconcertantes, causando, assim, as mais diversas reações
de defesa por parte dos interlocutores educados para ver apenas o que a
ciência autoriza.
Munido com os resultados da analítica existencial do Dasein,4
empreendida em Ser e tempo, Heidegger desafia os participantes do
seminário a pensarem sobre a concepção de homem subjacente em todo
programa de ajuda médica e psicoterápica. Aí aconselha ao terapeuta “[...]
anotar que se trata sempre do existir e não do funcionar de algo. Quando só
se visa este último, não se ajuda o Dasein” (Heidegger, 2001, p. 180).
Dizer que o homem não se reduz a um funcionar de uma máquina
geradora de sintomas, e salientar a dimensão de sua existência, implica
apontar para o fato de que o ser humano não é um efeito da natureza, não
está no mundo como os objetos e as coisas simplesmente subsistentes. Não!
O homem existe. Mais que isso: só o homem existe! Quer dizer, o homem
não se limita a ocorrer no mundo entre tantos outros entes, mas possui o
privilégio ontológico de existir numa certa compreensão de ser e, nessa
compreensão, compreender o seu próprio ser em um mundo. Tal
compreensão (Verstehen) não é da ordem das faculdades que representam,
não tem inicialmente um caráter temático, predicativo. Radica-se na lida
cotidiana com os entes que vêm ao encontro no mundo. Cabe ressaltar que
essa relação do homem com o mundo, além de não se pautar inicialmente
numa ação do entendimento que categoriza, é marcada pela co-
originariedade entre homem e mundo. De modo que o homem não existe
previamente e sai da esfera de sua interioridade – do seu intrapsíquico, se
quisermos – para depois se ater ao mundo. O homem existe como ser-no-
mundo numa eterna doação de sentidos e escolha de possibilidades fáticas.
Ora, o homem heideggeriano não é algo que funciona, não é um
aparelho, uma engenhoca. Repetimos: o homem existe! Não como um mero
ente subsistente, mas como um acontecente (geschichtlich) numa ex-tensão
(Erstreckung) entre nascimento e morte, cuja marca maior é a finitude e a
precariedade de ter que se escolher a todo momento.5 Para este filósofo, tal
ex-tensão não se dá numa sequência linear marcada pelo determinismo
causal, pois “o Dasein não preenche um trajeto e nem um trecho ‘da vida’
já simplesmente dado”. Assim, continua Heidegger (1995b, p. 179):
Compreendido existencialmente, o nascimento não é e nunca pode ser um passado no
sentido do que não é mais simplesmente dado. Da mesma maneira, a morte não tem o modo de
ser de algo que ainda simplesmente não se deu, mas que está pendente e em advento. De fato, o
Dasein só existe nascendo e é nascendo que ele já morre, no sentido de ser-para-a-morte.
Aqui nem a morte se reduz ao perecimento orgânico incontornável, nem
o nascimento é a simples posse biológica da vida, nem o “entre” desta ex-
tensão nascimento-morte é uma corrente disposta numa sequência temporal
linear do tipo passado-presente-futuro. Tomá-los dessa maneira deflagraria
a pretensão naturalista de objetificar o inobjetificável. É evidente que se
poderia retrucar que a morte, a vida e a “ex-tensão” são experiências
materialmente observáveis, até mesmo mensuráveis. Mas uma investigação
que não rende tributos à objetividade não se subordina ao que é palpável,
antes, pergunta pelo sentido. E caminhar rumo ao sentido significa não
entender o homem como um ente natural, cuja trajetória de vida é regida
por determinismos causais, o que implica dizer, em traços largos, que a
morte é a possibilidade inultrapassável que, enquanto possibilidade, lança o
Dasein para seu poder-ser, abrindo-o para si mesmo. Nessa abertura, esse
ente pode assumir-se finito e precário ou escapar para suas incumbências
cotidianas, “numa indiferença imperturbável frente à possibilidade extrema
de sua existência” (Heidegger, 1995b, p. 37).
Dizer que o nascimento não passou e que a morte não se reduz ao que
“ainda não aconteceu” significa arrancar do “fim” e do “começo” a
conotação usual, alertando para o fato de que o ser-para-a-morte prenuncia
o fim como um poder-ser a cada momento da existência.6 Esse “fim” não
quer dizer término, pois, como afirma Heidegger (1995b, p. 124), “o Dasein
não tem um fim aonde chega e simplesmente cessa. Ele existe finitamente”.
Diante de tamanha desconstrução conceitual, não poderíamos considerar
exagerado o testemunho de Boss sobre a tentativa de um marciano
comunicar-se com terrestres. Terrestres que estavam com os pés fincados na
educação científico-natural, certos da segurança desse solo. Cuja máxima
aventura teórica que ousaram foi a de acompanhar a mitológica teoria das
pulsões, a metapsicologia feiticeira e as analogias hidráulico-ferroviárias
utilizadas por Freud para explicar o aparelho psíquico e o jogo de forças
pulsionais.7 Entretanto, por mais que o pai da psicanálise assumisse o
caráter indeterminado do cardeal conceito de pulsão (Trieb) e o tom
especulativo de sua metapsicologia, sempre pleiteou inserir sua nova
ciência no rol das ciências naturais, afirmando que sua teoria, analogamente
a essas ciências, serve-se de construções auxiliares para sistematizar dados
empíricos.8 Em “O esboço da psicanálise”, declara que a sua ciência está
interessada em processos que “são, em si próprios, tão incognoscíveis
quanto aqueles que tratam as outras ciências, a Química ou a Física, por
exemplo; mas é possível estabelecer as leis a que obedecem (...)” (Freud,
1940[1938]/1995, p. 172).
Na busca dessas leis, Freud advoga acerca da ausência de arbitrariedades
na vida anímica. Então, na medida em que não é possível localizar uma
motivação consciente em “todas as nossas decisões motoras”, torna-se
preciso e legítimo supor a existência do inconsciente como fator causal dos
atos psíquicos. Com a instituiçãodo inconsciente, “o determinismo psíquico
prossegue sem nenhuma lacuna” (Freud, 1901b/1995, p. 250). Denunciando
que a psicologia da consciência nunca foi além “das sequências rompidas”
que escondiam algo mais, Freud sustenta que o inconsciente capacitou a
psicanálise a “assumir seu lugar entre as ciências naturais, como ciência”
(Freud, 1940[1938]/1995, p. 172).
É importante ressaltar que, na trilha da restituição “das sequências
rompidas”, o psicanalista lida com representações e afetos remotos, os
quais, nas palavras de Freud, proliferam no escuro – no inconsciente – e
assumem formas distorcidas de expressão (1915d/1995, p. 154). Assim, o
que na vida mental jaz escondido pode expressar-se via sonhos, fantasias,
sintomas, atos falhos, entre outras formas. A remoção de fenômenos
psíquicos dolorosos para o “escuro” é exercida pela repressão, cuja tarefa
maior – em linhas gerais – é evitar o desprazer, afastando da consciência
conteúdos psíquicos insuportáveis.9
A busca de dados sonegados à consciência leva Freud a procurar o
determinismo causal no inconsciente; no entanto, para Heidegger, essa
busca de continuidade das conexões causais encerra um postulado que “não
é tirado das próprias manifestações anímicas, mas é o postulado da ciência
natural moderna” (Heidegger, 2001, p. 222). Ao ocupar-se em preencher as
lacunas da vida psíquica, a psicanálise faz coro ao princípio leibniziano da
Razão Suficiente, para o qual nada é sem razão, sem uma determinação
primeira. Segundo Loparic (2001, p. 122):
Esse princípio, aceito não somente por Freud, mas, de modo geral, pela ciência da natureza
em seu todo, repousa sobre uma determinada concepção de realidade, segundo a qual, só é
efetivamente real e verdadeiro aquilo que obedece ao princípio do fundamento, isto é, da razão
suficiente.
Nessa perspectiva, toda manifestação humana é efeito de uma causa
determinante. Não importa se o fenômeno psíquico em questão é da ordem
da percepção ou da fantasia, tudo alcança a condição de realidade uma vez
que seja passível de ser apreendido de acordo com leis de causalidade. Por
isso, Heidegger (2001, p. 36) afirma contundentemente: “[...] só é real e
verdadeiro aquilo que pode ser subordinado a ininterruptas conexões
causais de forças psicológicas, na opinião de Freud”.
Ora, abordar o existir humano a partir de um princípio (causalidade), que
vale para explicar determinações de entes que não têm o modo de ser do
homem, não seria, no mínimo, um erro categorial? Para Heidegger, sim.
Isso posto, ele alerta para o caráter derivado do saber psicanalítico, na
medida em que converte a vida humana em objeto causalmente explicável –
utilizando, para referir-se ao homem, categorias comuns à matéria – e não
alcança os modos de ser e de adoecer do homem em sua originariedade. Ao
buscar o que funciona, a psicanálise encobre e passa ao largo do que existe.
Atendo-se a esse aparelho que funciona, cabe ao psicanalista se
distinguir dos demais médicos “pela rigorosa fé no determinismo da vida
mental” (Freud, 1910a[1909]/1995, p. 50). E, dada a íntima ligação entre a
doença neurótica e o determinismo de seus sintomas, lançar-se resoluto no
submundo psíquico com o intuito de auxiliar o paciente a preencher as
lacunas na memória, superando as resistências provenientes da repressão
(Freud, 1914g/1995, p. 163). Para tanto, é necessário que o mesmo expresse
tudo o que lhe vier à mente, trazendo à tona material para o trabalho de
interpretação. Diante dessa tarefa, confessa Freud (1905e[1901]/1995, p.
23), convém ao psicanalista “[...] seguir o exemplo daqueles descobridores
que têm a felicidade de trazer à luz do dia, após longo sepultamento, as
inestimáveis, embora mutiladas, relíquias da antiguidade”.
Tarefa árdua, visto que, ao se colocar no caminho da recuperação desse
material mutilado, o analista encontra pela frente resistências que obstruem
o acesso ao inconsciente. E, uma vez que as representações inconscientes
reprimidas chegam à consciência por caminhos indiretos, distorcidos, resta
ao analista buscar o sentido encoberto, traduzindo-as.10 O objetivo maior de
toda essa empreitada é a reconstituição da cadeia de associações,
restabelecendo a continuidade temporal de modo que as lacunas na
consciência sejam minimizadas e tornem-se menos lesivas. O conteúdo
outrora esquecido vem à tona mediante a comunicação verbal do paciente
que, cumprindo a regra fundamental, deve expressar, sem crítica ou seleção,
tudo que lhe ocorrer (Freud, 1912e/1995). Cabe ao analista, diante desse
material às vezes desconexo e caótico, formular interpretações que
restabeleçam as conexões causais e temporais interrompidas pela repressão.
Quer dizer:
A verdade verbalizada deve ser inseria numa história de vida, numa biografia. A história de
vida do paciente nem sempre pode ser comprovada como real. Para os fins da cura psicanalítica,
a diferença entre a história real e fictícia conta menos do que a eliminação das lacunas na trama
das causas mediadas pelo sentido. Mesmo uma história fictícia, desde que assumida
afetivamente, pode corrigir os caminhos das forças que habitam o paciente e que são
causalmente responsáveis pelo seu destino. (Loparic, 1999a, pp. 352-353)
Entender o destino humano sob a ótica da causalidade e sob o jugo de
forças (Kräfte) significa entender o homem qual um ente entre outros,
atribuindo-lhe propriedades estrangeiras ao seu existir. Porém, Heidegger
(1978, p. 17) adverte que, ainda que fossem mil os olhos que visassem a
procurar no homem estados e propriedades (Beschaffenheit und Zustände),
a vida humana nunca se tornaria acessível através de descrições que se
endereçam ao que é objetivamente dado (Vorhandendes).
Diante do exposto, torna-se incontornável a pergunta pelo que se encobre
quando se impõem à vida humana categorias comuns aos objetos. Em
outros termos: a pergunta acerca do alcance existencial da concepção de ser
humano como aparelho psíquico.
Heidegger, em sua veemente crítica à psicanálise nos Seminários de
Zollikon, afirma repetidamente que o modo de proceder dessa ciência
enclausura o homem, o ser-no-mundo, em categorias que obscurecem a
constituição ontológica desse ente. Não havendo na teoria freudiana espaço
legítimo para pensar as relações pré-teóricas e não representacionais do
Dasein, visto que todo aparelho psíquico, desde sempre, lida com a
realidade externa ou interna via representação, e é entendido como uma
máquina mobilizada por forças pulsionais. Ao denunciar que a psicanálise
freudiana é fiel herdeira da metafísica moderna, que enclausurou o homem
na condição de sujeito-representante e o mundo na de objeto-representado,
o filósofo dirige sua crítica para a noção psicanalítica de “história de vida”,
ou seja, para o material nuclear do tratamento analítico. Heidegger (2001, p.
181), então, dispara: “A ‘história de vida’ psicanalítica não é uma história,
mas, na verdade, uma cadeia causal-naturalista, uma cadeia de causa e
efeito e, ainda por cima, uma cadeia construída”.
Diante dessa enfática assertiva, resolvemos aqui desenvolver questões
que possivelmente poderiam ser elaboradas por alguns dos “terrestres”
presentes nos seminários na casa de Boss. Façamos então, a defesa do
cientista: ora, quando Freud (1937d/1995), em “Construções em análise”,
nos fala que o empenho de seu trabalho é o de completar trechos lacunares,
tem em mente a restituição do percurso de vida do paciente a partir da
conexão de fragmentos soterrados, que vêm à tona mediante um infatigável
trabalho interpretativo. Por que isso que ele intenta não poderia ser “uma
história”? E o que haveria de errado numa construção ou re-construção da
“história de vida do paciente”, dado que a mesma detém dados submersos
geradores de patologias psíquicas? E ainda: com que fundamento Heidegger
critica esse trabalho de resgate e reconstrução da “história de vida” do
paciente se, no campo ontológico, ele fez algo análogo com a história do ser
e os fragmentos dos pré-socráticos? Afinal, o filósofo da Floresta Negra
empenhou o grande fôlegode seu pensar na repetição da questão do ser,
cujo sentido estava esquecido, soterrado pelos entulhos acumulados pela
tradição filosófica. E, para tanto, voltou-se para o mais primitivo, o mais
encoberto, a saber, os fragmentos dos primeiros pensadores. Não seria
forçoso afirmar, continuaria argumentando um possível interlocutor de
Zollikon, que ambos os pensadores, em seus devidos campos, empenham-se
em recuperar o passado que foi olvidado. O filósofo, o ser em seu sentido; o
psicanalista, a história primitiva do paciente. Inclusive, seria possível ousar
dizer que até as dificuldades que os dois encontraram no encaminhamento
de seus projetos foram análogas: Heidegger voltou-se para a origem do
pensamento ocidental e deparou-se com fragmentos em uma língua arcaica
de difícil resgate, e Freud, enquanto escavador da alma, ateve-se a
formações inconscientes também fragmentadas e enigmáticas, cuja
recuperação é obstacularizada pelas resistências do paciente. Por fim,
caberia perguntar: será que, ao invés de colocar Freud no lugar de corifeu
da metafísica, que Heidegger pretende desconstruir, não poderíamos indicar
afinidades entre os dois, mesmo que um transite no campo ôntico e o outro
se atenha ao ontológico?
Um olhar apressado nos levaria a responder que sim. Pois, não é difícil
detectar, na obra de ambos, termos comuns: esquecimento, fragmentos,
história, passado, tradução etc. Todavia, convém frear anseios de parcerias e
examinar cautelosamente essas supostas semelhanças, demorando-nos mais
sobre a conotação que esses termos têm no pensamento do filósofo.
Sabemos que o projeto filosófico de Heidegger radica-se na pretensão de
repetir a questão do ser. No caminho desse empreendimento, depara-se com
um duplo esquecimento imperante na história da filosofia: a tradição
esquece de pensar o ser em seu sentido e, ao mesmo tempo, esquece desse
esquecimento. Sendo assim, trata-se de executar uma apropriação positiva
do legado dessa tradição, visando a destruição de suas categorias e
representações cristalizadas, que obstruem o acesso ao que se intenta. Faz-
se necessário, então, que o pensamento retroceda à dimensão do
esquecimento, dê “um passo de volta” (Schritt zurück) rumo ao princípio
inaugural do pensamento filosófico-ocidental, rumo aos fragmentos dos
pré-socráticos.11 Numa passagem de Introdução à metafísica, Heidegger
esclarece o que ele entende por essa repetição, afirmando:
Investigar: o que há com o ser? – não significa nada menos do que re-petir o princípio de
nossa existência espiritual-Histórica, a fim de transformá-lo num outro princípio. [...] Um
princípio, porém, não se repete voltando-se para ele como algo de outros tempos e hoje já
conhecido, que meramente se deva imitar. Um princípio se re-pete, deixando-se, que ele
principie de novo, de modo originário, com tudo o que um verdadeiro princípio traz consigo de
estranho, obscuro e incerto. (Heidegger, 1978, p. 65)
Como entender o gesto heideggeriano em relação ao princípio inaugural
do pensamento, se ele afirma que o pensamento do passado não é algo de
outros tempos? Como poderíamos negar que tal pensamento não só se trata
de algo de outros tempos, mas de algo de muitos séculos atrás?
Trata-se de compreender essa característica do gesto heideggeriano para
com os primeiros gregos, diferenciando o que este filósofo entende como
postura historiográfica e postura Histórica em relação ao passado. Segundo
Heidegger, a partir da perspectiva historiográfica, o passado se faz acessível
como objeto de uma ciência, como um fato que aconteceu, passou, podendo
ser conhecido através de dados e fontes que transmitem o que foi então
registrado.12 Conduzir-se ao princípio grego, guiado por essa perspectiva,
implica ater-se aos registros do pensamento dessa época, lançando mão do
recurso a uma ciência, a etimologia, no sentido de contar com o auxílio da
análise linguística dos radicais que compõem as palavras dos enunciados
legados pelos gregos.13 Na medida em que os fragmentos estão disponíveis,
retomar o princípio do pensamento grego significa ater-se aos mesmos
como “algo” do passado que foi preservado e registrado, prezando para não
deixar de lado o cuidado filológico na realização das traduções. A repetição
da questão do ser deve ser entendida – desde a ótica historiográfica – como
a busca dos registros legados, a fim de examinar o que pensaram os gregos
na alvorada do pensamento ocidental, evitando uma atitude parcial e pouco
objetiva. Essa assepsia objetivante, essa pretensa neutralidade, faz com que
Heidegger (1999) aponte na historiografia a presença de uma relação
calculadora e técnica com o passado. Como seria, então, uma relação
Histórica com o passado?
Desde a perspectiva Histórica adotada por Heidegger, a referência ao
passado se processa de outra maneira, isto é, o passado não é abordado
como algo lacrado num tempo longínquo anterior ao nosso – como um
tempo que simplesmente não é mais – e, sim, como um tempo que vigora
por ter sido presente, devendo ser experimentado na atualidade não como
algo acabado que se apresenta apenas como lembrança, mas como a
vigência de possibilidades que se mantém tencionando com o presente.
Vigorando no presente, o passado se abre como horizonte a ser
experienciado no futuro. Desse modo, Heidegger avança ao encontro do
“princípio” não à procura da literalidade dos fragmentos, mas da
experiência impensada que ali se mantém abrigada. Sua repetição não é
uma mera reconstrução vazia do que já foi e ficou soterrado; ao contrário,
trata-se de uma retomada do passado na medida em que vigora no presente,
de modo a ser ultrapassado em direção ao futuro. Entendido dessa maneira,
o princípio não se alcança através de uma simples recomposição dos
fragmentos, como se faria, por exemplo, com os cacos de um antigo vaso
grego.
Contrariando toda pretensão de transparência objetiva, Heidegger
reconhece o fato de só possuirmos fragmentos dos pré-socráticos como uma
benção e não como um limite. Salientando que, no “caso feliz de uma
conservação integral das palavras originárias, poderíamos ainda mais
facilmente enrijecer o entendimento [...]”. (Heidegger, 1999, p. 53). Desse
modo, esquiva-se de qualquer lamentação acerca do caráter fragmentário do
legado dos primeiros pensadores e afirma:
A posse bibliotecária dos escritos dos pensadores não garante que sejamos capazes, ou
dotados, para seguir no pensamento do que aí foi pensado. Mais essencial do que conservar e
possuir integralmente o escrito do pensador é relacionar-se, mesmo que à distância, com o a-se-
pensar no pensamento desse pensador. [...] A discussão dos fragmentos que se quer pensante
deve obstinar-se apenas a fazer a experiência desse a-se-pensar. (Heidegger, 1999, pp. 52-53)
A discussão com o pensamento do princípio não se reduz a um mero
reavivamento historiográfico do passado. Não visa a uma “escavação”
ferrenha à procura do que existiu, mas foi perdido. Tanto que, para
Heidegger, se, por ironia do destino, fôssemos agraciados com a descoberta
dos escritos integrais de Heráclito, o máximo que aconteceria seria a
dispensa dos filólogos da exaustiva tarefa de reconstrução do texto, nada
mais. Pois, ainda assim, se manteria a tarefa de apropriação do que ali se
mantém aberto ao pensamento, se mantém impensado. Nessa perspectiva, o
passado não é algo que se esgotou, mas algo vigente que guarda e aguarda
um sentido. Porque o concebe dessa maneira, o filósofo se autoriza a
afirmar – na passagem supracitada de Introdução à metafísica – que o
passado não é “algo de outros tempos”. O convite, então, é para
prepararmo-nos para o encontro não do que foi registrado outrora e agora
deve ser resgatado, mas da “palavra ainda por vir”. O que significa voltar-se
para o que, justamente por se manter impensado, continua proposto em
nosso futuro.
Podemos entender agora a assertiva heideggeriana que enfatiza: “um
princípio se re-pete, deixando-se, que ele principie de novo [...]”
(Heidegger, 1978, p. 65). Tal convocação se deve à procura da dimensão
impensada quese mantém guardada na alvorada do pensamento ocidental.
A execução desse passo de volta rumo à fecundidade do princípio não se
processa tendo em mãos a pretensa verificação historiográfica, mas
suportando a indigência de um pensar Histórico que não dispõe e nem
pretende adquirir provas cabais. Essa volta à origem não almeja alcançar
uma interpretação que pague tributo ao imperativo técnico de estabelecer
uma transparente relação de causalidade entre o que se retirou do
“soterramento” e o que se deduziu a partir daí. A abordagem Histórica, nos
moldes heideggerianos, torna legítima a busca até pelo que não se registrou;
mais que isso, pelo não registrável. Quer dizer: a História (Geschichte) não
é mero registro de acontecimentos, é a condição de possibilidade de todo
acontecer (geschehen).
Torna-se imperativo não só delimitar a diferença entre a postura
historiográfica e a Histórica em relação ao princípio, mas, sobretudo, o que
se entende por princípio. Atentemos que o princípio não se reduz a um
registro temporal que, numa sequência de acontecimentos, deu início ao
pensamento grego, isto é, não tem a conotação de um começo (Beginn) que,
como primeiro momento de uma extensão temporal, ficou estagnado no
passado. Ao invés, Heidegger concebe o princípio como uma origem
(Anfang) que não se encontra fossilizada atrás de nós, mas nos envolve,
atraindo previamente a si tudo o que se manifesta, constituindo-se como o
a-ser-pensado.14 Nesse sentido, volta-se para a alvorada do pensamento
ocidental para considerar o que nunca foi pensado. Aqui não se busca
fósseis, aqui se busca a origem que possibilita todo fossilizar. O saber
acerca da origem “nunca poderá ser extraído historiograficamente do texto
dos primeiros pensadores da antiguidade grega, como de um protocolo”
(Heidegger, 1999, p. 186).
Todo registro protocolar, toda representação que se acede a partir de uma
pesquisa historiográfica, apesar de serem datadas num determinado começo
(Beginn), num exato registro temporal, pressupõem, segundo Heidegger, a
origem (Anfang). Esta, como dissemos anteriormente, não se encontra
estagnada num tempo que se perfez; antes, nos envolve e “atrai para si e
erige para si tudo o que vigora” (Heidegger, 1999, p. 186).
Voltando-se para a Anfang do pensamento ocidental, a investigação
heideggeriana volta-se para o ser, para o modo como foi nomeado e
meditado pelos pré-socráticos. Aqui se busca o mistério de nosso destino,
impensável nos moldes da tradição metafísica, cuja pretensão de certeza e
determinação enclausurou a filosofia no território do Beginn.
A passagem de Introdução à metafísica, que tomamos como fio condutor
de nossas investigações, anuncia que pensar o ser “significa nada menos do
que re-petir o princípio de nossa existência espiritual-Histórica”. Quer
dizer: ao esclarecer a conotação que a repetição da questão acerca do ser
tem no bojo de seu pensar, Heidegger atrela essa tarefa necessariamente à
nossa existência. Em que se baseia o estabelecimento desse elo de ligação?
Antes de encaminharmos essas questões, lembremos que temos o
objetivo maior de entender a crítica do filósofo à noção psicanalítica de
“história de vida”. Busquemos previamente o entendimento acerca do nexo
entre homem e ser, presente na filosofia heideggeriana, para, em seguida,
voltarmos nossa atenção para essa problemática anterior.
Vimos anteriormente que, para o filósofo de Ser e tempo, homem é um
ente privilegiado, pois se move sempre numa certa compreensão
(Verstehen) de ser. Uma vez que nossa existência é marcada por essa
referência essencial ao ser, levantar a questão a seu respeito significa
manter uma correspondência intrínseca com a nossa própria história. Quer
dizer: a questão cardeal da filosofia de Heidegger se movimenta não só no
curso da história da filosofia, como também no curso do existir humano
que, por sua vez, é histórico.15
Levar em conta essa característica do Dasein significa lançar a
investigação sobre o ser num outro terreno. Por isso, em Ser e tempo, a
pergunta pelo ser não reverbera o tradicional “o que é o ser” (ti tò ón)? Ao
invés disso, pergunta pelo modo como o ser se dá a compreender, pergunta
pela perspectiva a partir de onde se sustenta a compreensibilidade de algo.
O que significa, para Heidegger, perguntar pelo sentido.16A tradicional
questão do ser se converte na questão do seu sentido. Essa questão não
poderia ser desenvolvida no campo semântico da tradição, afinal, na medida
em que esta restringiu o pensar sobre o ser ao domínio representável dos
entes, aboliu a possibilidade de um pensar não objetivante, que versasse
sobre o âmbito antepredicativo constitutivo do existir humano. O
pensamento tradicional não acede à compreensão pré-teórica do Dasein.
Daí afirmar-se que, no acervo categorial legado pela tradição, o sentido do
ser permanece não apenas inquestionado, mas, sobretudo, inquestionável.
Até este momento de nosso texto, supomos esclarecidas as questões
suscitadas a partir da passagem de Introdução à metafísica, que caracteriza
o significado da “investigação do ser” no âmbito da ontologia
heideggeriana. Em linhas gerais, tentamos esclarecer uma concepção de
princípio que diferencia Anfang de Beginn e História de historiografia. Essa
diferença não é inócua, imprime consequências sobre o modo de proceder
em relação ao passado.
Toda nossa demora no esclarecimento desses conceitos deve-se à
pretensão de nos desvencilharmos da tentativa de aproximação entre a
psicanálise freudiana e a filosofia heideggeriana, a partir da simples
presença de termos comuns. Pleiteamos assegurar que, apesar da utilização
de palavras semelhantes, a significação ontológica emprestada por
Heidegger aos termos difere-se radicalmente da acepção científica de
Freud. Tendo em mãos essa breve caracterização heideggeriana acerca de
termos que também compõem o corpo teórico da psicanálise, cabe-nos
entender a força da assertiva: “a ‘história de vida’ psicanalítica não é uma
história”.
Lembremos primeiramente que a história de vida de um paciente
freudiano é a história de seus investimentos libidinais, de suas catexias
objetais. A execução da tarefa de recuperação do material inconsciente
pressupõe a presença inquestionável de, no mínimo, duas pessoas inteiras –
analista e analisando –, sendo o primeiro com destreza para interpretar e o
segundo com capacidade de “associar livremente”, de curar-se pela fala.
Além de presumir que toda história primitiva do paciente seja passível de
recuperação, visto que os elos que faltam para a reconstrução da cadeia
histórica podem ser acessados no inconsciente.
Ora, tal reconstrução se aproxima muito mais de uma historiografia, uma
vez que resgata registros de “algo” que aconteceu, mas foi censurado e
encaminhado para o inconsciente. A tarefa da ciência psicanalítica e da
historiografia é a de preencher lacunas seguindo a lei do determinismo
causal, tratando o que se busca como objeto acessível mediante tradução e
interpretação. A acessibilidade do material, lembra-nos Loparic (1999a, p.
358), é sempre pressuposta, visto que o inconsciente “pode ser, em
princípio, representado, objetivado e, por isso, verbalizado”. Nada escapa à
dimensão dos pronunciamentos, até mesmo o silêncio é submetido à
impostura da acessibilidade, reduzido à condição de “resistência” que
obstaculariza a condução da regra fundamental. O silêncio não é “algo”,
apenas esconde “algo”. Aqui não há espaço para o que não se emoldura em
representações, para o impensável, para o que não é datável. O “caminho de
volta” freudiano ruma em direção ao primitivo que aconteceu e sofreu ação
da repressão, nunca para o que é incapturável via verbalização. Em termos
heideggerianos, poderíamos afirmar que Freud volta-se para o começo, mas
sequer supõe a possibilidade da origem. E quando visa ao começo, inspira-
se na física, nas ciências naturais, reduzindo o homem a um aparelho, “a um
feixe de dados” (Loparic, 1999a). Contudo, não são os dados
representacionais que fundam o Dasein, ao contrário, o pressupõe. Ditode
outra forma: tais dados são operações derivadas cuja condição de
possibilidade é o acontecer do homem, imerso em suas possibilidades
existenciais.17 Assim: “a partir de um querer, desejar, tender e ansiar como
atos psíquicos não se pode montar um ser-no-mundo, pois este já é sempre
prévio” (Heidegger, 2001, p. 193).
Ao lançar sua crítica à psicanálise freudiana, Heidegger, num mesmo
fôlego, reivindica uma ciência dos fenômenos psíquicos que conceda
legitimidade para o não representável, para o impensável. Que entenda esse
caráter prévio do existir, anterior aos atos psíquicos. Que suporte o
inacessível em sua inacessibilidade.
Supomos que a psicanálise winnicottiana concede terreno legítimo para
tais convocações heideggerianas. Nesse sentido, propomos aqui esboçar
semelhanças entre o pensamento dos dois, guardando as diferentes
proporções que se impõem quando tratamos de um discurso ôntico e de
uma ontologia. Tracejaremos, brevemente, um possível encontro entre essas
reivindicações filosóficas desenvolvidas nos seminários de Zollikon e a
psicanálise de Winnicott.
De início, vale demarcar que a atividade clínica de Winnicott voltou-se,
principalmente, para o atendimento de bebês e suas mães – devido a sua
formação em pediatria – e de psicóticos. Essa experiência leva-o a repensar
o arcabouço teórico do sistema freudiano uma vez que, diante da
vulnerabilidade dos bebês e da dificuldade de verbalização característica de
psicóticos, percebe que “uma grande quantidade de material clínico não se
encaixa nos moldes dessa teoria” (Winnicott, 1954a[1949]/2000, p. 380).
Boa gama de conceitos freudianos, tais como desejo, repressão, complexo
de Édipo, frustração, pulsão, para Winnicott, revelam-se como operações
sofisticadas que pressupõem o cumprimento de uma trajetória de integração
do eu, ou seja, pressupõem pessoas inteiras capazes de manter relações
objetais com o mundo.18 Não que Winnicott descarte em absoluto tais
conceitos, mas nos alerta que não são fundantes da vida humana (em termos
heideggerianos, que não são a origem). Quer dizer: nos estágios mais
primitivos do “existir” não encontramos um aparelho psíquico já
confeccionado e com capacidade para satisfações objetais, cujo drama
maior é obter prazer e evitar o desprazer. Antes, deparamo-nos com um
exemplar humano cujo código genético não é suficiente para garantir-lhe o
sentimento de real, o sentimento de estar vivo (Winnicott,
1987d[1967]/2006, p. 80). Por isso, Winnicott (1960c/1983, p. 43) afirma
que “os lactentes humanos não podem começar a ser exceto sob certas
condições”. Tais condições devem ser cumpridas por uma devoção materna
marcada, inicialmente, pela constância de cuidados corporais, ritmos,
cheiros, toques, enfim, por um processo de adaptação intensa da mãe às
necessidades do bebê.
Tomando como imagem paradigmática de análise o bebê no colo da mãe,
Winnicott nos fala que, se tudo correr bem, desenvolve-se um tipo de
comunicação silenciosa entre os dois, intrinsecamente ligada à capacidade
da mãe de colocar-se no lugar do lactente. Adjetivar essa comunicação
como silenciosa não implica simplesmente registrar o óbvio – que o bebê
não acedeu à linguagem verbal. Silencioso aqui é muito mais que o
contrário de falatório, enfatiza um mútuo contato pré-verbal que estabelece
constância, confiabilidade. E, assentado nessa base de confiabilidade, o
lactente caminha rumo à capacidade “de ter uma existência pessoal”.
Porém, adverte Winnicott (1960c/1983, p. 53), “se o cuidado materno não é
suficientemente bom, então, o lactente não vem a existir, uma vez que não
há continuidade do ser”.
Fica claro que a existência de um “eu” integrado e organizado, capaz de
sentir-se vivo e de distinguir-se dos outros e do mundo, é adquirida e não
garantida desde o nascimento. Como afirma Dias (2006, p. 36), o
nascimento biológico “não coincide com o que se poderia chamar de
nascimento ontológico.” Pois, uma vez que o ser humano incipiente seja
“deixado a sós com seus próprios recursos”, a conquista do sentimento de
ser, ou a sua continuidade, podem estar ameaçadas. Podendo sequer
acontecer! (Winnicott, 1970a/2006, p. 76).
Considerando o grau de falhas e rupturas na provisão do ambiente,19 o
bebê – essa organização em marcha – pode sofrer angústias impensáveis,
como padrão de defesa contra a aniquilação, contra a quebra da
continuidade de ser. O lactente é obrigado a reagir, ao invés de seguir
sendo.20 Se as falhas ambientais “não são logo corrigidas, o bebê será
afetado para sempre, seu desenvolvimento será deturpado, e a comunicação
entrará em colapso” (Winnicott, 1987d[1967]/2006, p. 88). Em caso de
extremo colapso, serão evidenciados sofrimentos de qualidade psicótica
que, “pertencem, clinicamente, à esquizofrenia ou ao aparecimento de um
elemento esquizoide oculto numa personalidade não psicótica nos demais
aspectos” (Winnicott, 1965n[1962]/1983, p. 57). Nesse sentido, pontua
Winnicott, é errado pensar na psicose como um colapso, trata-se, antes, de
uma organização defensiva contra as angústias primitivas. Na verdade, é
provável que o colapso “já tenha acontecido, próximo do início da vida do
indivíduo” (Winnicott, 1974/1994, p. 74). Diz-se “próximo do início da
vida”, pois não se pode tomá-la como algo já dado. Expliquemos melhor:
nos momentos mais primitivos de dependência absoluta, se há falhas e
intrusões em demasia, o bebê é obrigado a reagir, a defender-se. Contudo,
por não se tratar de uma unidade psíquica integrada, essa experiência
dolorosa não pode ser registrada e compreendida enquanto tal; é como se a
vida ainda não tivesse se iniciado. O colapso, ou seja, a quebra na
continuidade de ser incide num momento muito precoce, anterior à
conquista de um “eu” capaz de representar, fazer registros mnemônicos ou
reprimir. Todos esses processos são tardios.
Iremos nos demorar sobre esse tema mais adiante. Por enquanto, cabe-
nos pontuar que, nos estágios mais primitivos, o sofrimento possível é
gerado por angústias impensáveis, não por uma insatisfação da pulsão oral.
Loparic (1997, p. 372) ressalta que tais angústias são consideradas
impensáveis “porque não são definíveis em termos de relações pulsionais
de objeto, baseadas em relações representacionais de objeto (percepção,
fantasia, simbolização)”. Uma vez que se referem a momentos muito
precoces do desenvolvimento humano, tais angústias, acrescenta o autor, se
dão “[...] antes que exista um indivíduo capaz de experienciá-las”. Essas
angústias não habitam o inconsciente reprimido característico dos
neuróticos, antes atingem um ego extremamente imaturo, impedindo a
chance de integração. E, por isso, ela não diz respeito ao passado soterrado
nos porões da psique, pois, desde a perspectiva winnicottiana, tal angústia
só poderia fazer parte do passado se fosse um acontecimento ocorrido para
um ego amadurecido capaz de reuni-lo em seu controle onipotente e de
torná-lo real. Sendo assim, o que está em jogo é a cisão no existir e não a
repressão de representantes psíquicos insuportáveis. Quer dizer: aqui não se
está sob o julgo da censura e das pulsões – isso implicaria uma unidade
psíquica –; o padecimento é da ordem da quebra do processo de integração,
a partir da qual uma vida pode ser vivida. Sem essa integração, os
problemas “[...] não fazem parte da vida e sim da luta pra alcançar a vida”
(Winnicott, 1988/1990, p. 101).
As falhas que incidem nesse “território” primitivo não deflagram uma
frustração de desejos; ao invés, impõem uma privação ambiental num
momento de absoluta dependência, que freia ou até mesmo impede a
possibilidade de se ter uma história pessoal. Diante do exposto, devemos
reconhecer que a precariedade humana é tão pungente que ter uma história
de vida, ao invés de ser uma garantia, é uma conquista. Partimos de uma
não integração e, se tudo correr bem, amadurecemos rumo à integração.
Contudo, essa conquista fundamental não tem um caráter inabalável, deve
ser mantida.
Claro que essa questão da integração demanda muito mais apreço na
tematização; entretanto, devidoao escopo de nosso trabalho, somos
obrigados a abordá-lo de forma sucinta, correndo o risco de
superficialidade. Interessa-nos, ao menos, enfatizar que o sentimento de ser
uma unidade não estará disponível para o bebê a não ser que uma dedicação
materna promova essa integração. O alcance da vida implica um trajeto que,
sem um ambiente facilitador, nunca será percorrido. Eis uma grande
diferença em relação a Freud.
Para o mestre vienense – que teve como modelo clínico a neurose –, a
integração é sempre pressuposta. O aparelho psíquico é dado e não
constituído. A “história” de vida se reconstrói a partir do resgate das
representações psíquicas inconscientes, do enredo edipiano, das
características dos investimentos objetais, enfim. Trata-se de recuperar o
que aconteceu, mas foi censurado. Já o psicanalista inglês não centrou sua
clínica nos dramas neuróticos que pressupõem um “eu” (Winnicott,
1953a[1952]/2000, p. 307). Tal qual Heidegger, deu um passo de volta
rumo ao mais primitivo; nesse caso, rumo à luta humana para a conquista
da integração e da capacidade de ser e continuar a ser. Aqui nada é
pressuposto. Melhor dizendo: o mínimo é pressuposto. Pois, o único
passaporte que o bebê traz para a “barreira alfandegária” da vida é o seu
potencial genético herdado e a tendência ao amadurecimento, tudo o mais
deve ser conquistado! Nesse sentido, a psicanálise winnicottiana aponta
para problemas inapreensíveis no modelo freudiano, a saber, a possibilidade
de cisão do amadurecimento devido a falhas ambientais, devido ao fato de
não acontecer cuidados e devoções que deveriam ter acontecido. Isso que
não aconteceu, não foi experienciado, não pode ser formatado em
representações, reprimido no inconsciente, para, futuramente, ser resgatado
na clínica via interpretação de “associações livres”.
A “história” das “indecências proibidas” dá-se no interior da vida de um
“eu” integrado. Mas, e quando a quebra incide na base, que é condição
necessária para se compor uma história com enredos que narram a atuação
de forças pulsionais no inconsciente reprimido? Aí, nos esclarece Loparic
(1999a, p. 359), o sofrimento não é da ordem das reminiscências, mas de
angústias que são impensáveis e incomunicáveis. Desse modo, o autor
enfatiza que, na teoria de Winnicott, há a formulação de “algo” como um
inconsciente “não acontecido”, fruto do não acontecimento de cuidados
ambientais que, por serem integradores, deveriam ter acontecido. Em
função disso, teríamos uma cisão na continuidade de ser, característica da
psicose. O “local” da cisão não seria a consciência, nem a mente, e sim o
próprio existir. Ao indicar que essas teses winicottianas impõem a
necessidade de uma outra forma de fazer clínica, Loparic acrescenta:
Caso queira cuidar dos sofrimentos desse tipo de paciente, o analista não poderá pressupor a
capacidade de comunicação verbal objetivadora, isto é, a máquina representacional com a qual
opera Freud. [...] Os pacientes winnicottianos típicos não se comunicam para informar os dados
da charada em que se meteram, mas para poder continuar a existir e poder ter, um dia, uma
biografia. (Loparic, 1999a, pp. 362-363)
A palavra “bio-grafia” nomeia, em traços largos, um registro da vida.
Associa-se ao desencadeamento de fatos vivenciados e catalogados numa
linearidade temporal. Poder ter uma biografia significa poder ter uma
narrativa histórica. Embasados num discurso naturalista, diríamos que todo
ente humano tem uma história e uma biografia datável, com dados
encadeados logicamente – “crono-logicamente”. Alguns dados ofereceriam
mais dificuldade de acesso, contudo, seriam ainda assim acessíveis.
Mantendo-nos nessa perspectiva, seria possível afirmar que fatos que não
aconteceram e sequer foram experienciados não teriam condições de atuar
sobre a vida humana a ponto de lesá-la ao extremo. Como se poderia provar
que é justamente o que não foi registrado como acontecimento que gera
patologias? Como resgatar esse material clínico não acontecido,
impensável? Não seria um contrassenso se, diante de um ser humano com
registro de nascimento e documentos identificatórios, lhe subtraíssemos a
biografia?
Estamos novamente em meio ao campo dos conceitos e suas sutilezas.
Para diluir confusões, resta-nos procurar estabelecer a perspectiva que
norteia a análise. Se rendemos tributo à historiografia, partiremos sempre
do começo (Beginn), da marca temporal registrada e registrável, e toda a
avaliação das questões propostas acima pretenderá verificação e
encadeamento lógico. Assim, diante de uma vida humana devidamente
identificada, só poderiam ser computados como elementos de sua história
conteúdos passíveis de serem representados em forma de dados. Não
importa se tais dados concernem à realidade empírica ou à fantasia, se estão
inconscientes ou disponíveis na consciência; a tradução em informações
verbalizáveis deverá ser assegurada. Ora, a partir do que mencionamos
anteriormente, podemos afirmar que esta é a perspectiva adotada pela
psicanálise tradicional. A perspectiva que não põe em dúvida a existência
de um eu dotado da capacidade de ter história com conteúdos encadeados,
segundo leis de causalidade.
Apontada essa perspectiva, convém perguntar: para “onde” seríamos
conduzidos se nos dispuséssemos a pensar a história de vida em termos de
origem e História (Geschchite), tal como Heidegger os concebe? Em outras
palavras: seria viável, no âmbito ôntico da psicanálise, abordarmos a vida
humana para além do começo e da historiografia? Deixemos que o próprio
Winnicott nos indique o caminho:
É possível observar que estou levando vocês para um lugar onde a verbalização perde todo e
qualquer significado. Que ligação pode haver entre tudo isso e a psicanálise, que se fundamentou
num processo de interpretações verbais de pensamentos e ideias verbalizados? Em síntese, eu
diria que a psicanálise teve que partir de uma base de verbalização, e que tal método é
perfeitamente adequado para o tratamento de um paciente que não seja esquizoide ou psicótico,
ou seja, um indivíduo cujas experiências iniciais não tenhamos qualquer dúvida. (Winnicott,
1987d[1967]/2006, p. 81)
O caminho que Winnicott nos convida a percorrer leva-nos para além das
experiências que não temos dúvida, leva-nos até o não experienciável.
Leva-nos ao encontro de um tipo de pessoa que, apesar de parecer estar em
um mundo, não tem a posse do sentimento de real. Suportar esse passo de
volta em direção ao mais primitivo implica suportar o misterioso território
da mutualidade mãe-bebê, do qual nada sabemos em forma de
representações e simbolismos; significa conceder legitimidade a angústias
que, por serem tão precoces, não são reações à ameaça de castração – são
impensáveis. Significa entender que a posse da vida não equivale a um
funcionamento biológico, ou seja, significa entender que viver e
permanecer vivo são frutos de um constante esforço. A consequência disso
é a destituição da interpretação verbal do seu estatuto de técnica primordial,
é o entendimento do silêncio como algo tão primitivamente humano que
não pode ser reduzido à condição de resistência. Em suma, o passo de volta
winnicottiano força-nos a não abordar o ente humano metafisicamente
como uma substância ou um aparelho desde sempre confeccionado.
Diante da imaturidade do exemplar humano, Winnicott, ao invés de
procurar forças e leis que determinam os atos psíquicos, alerta-nos que
sequer podemos localizar no lactente a presença do sentimento de ser. Ora,
não é possível versar sobre esse “território” primitivo munido de uma
semântica que segue os padrões das ciências naturais. Não é possível
objetificar o que “ainda não é”. Em meio a problemas clínicos que desafiam
os imperativos do rigor científico, o autor afirma: “não posso sacrificar um
paciente sobre o altar da ciência” (Winnicott, 1964c/2006, p. 34).
O não servilismo aos ditames das ciências da natureza leva-nos ao
encontro de “algo” impensável, não acontecido, não verbalizável. Mas,
como entrar em contato com “isso” que sequer aconteceu, com “isso”que
se oculta às apreensões positivas? Com “isso” que, apesar de inapreensível,
marca o destino de alguém, fazendo-se presença na pura ausência do não
acontecimento?
Certamente esse contato não poderá se basear no uso exclusivo de
interpretações. Vimos que essa clínica dos pronunciamentos pressupõe um
começo instaurado, um “eu” integrado e falante. Mas estamos tratando do
não acontecido que não se acomoda em representações. Do mais originário
que é inapreensível em termos de datações. Dos momentos inicias de
extrema dependência do lactente em relação à provisão ambiental. Como ter
acesso a um terreno tão misterioso, obscuro?
Ao tratar de pacientes psicóticos extremamente regredidos a esse
momento de dependência absoluta, Winnicott relata que é comum o
paciente molhar o divã, se sujar ou babar. Além de entender esses
fenômenos como inerentes – não como uma complicação –, adverte: “não é
de interpretações que se necessita aqui, e na verdade, qualquer fala ou
movimento pode arruinar todo o processo e causar profunda dor ao
paciente” (Winnicott, 1955d[1954]/2000, p. 386). Afinal, não estamos
diante de uma pessoa que teve êxito em seu processo de integração, cujos
dilemas são de ordem sexual. Falamos de necessidades básicas, não de
desejos. O analista não tem de lidar com enigmas, mas com sentimentos de
inutilidade e irrealidade constitutivos de quem não alcançou a inteireza. Em
função disso, Winnicott (1955d[1954]/2000, p. 388) afirma em tom
profético: “[...] seria muito agradável que pudéssemos aceitar apenas
pacientes cujas mães foram capazes de proporcionar-lhes condições
suficientemente boas no início e nos primeiros meses. Mas esta época da
psicanálise está rumando para um fim”.
Sendo assim, reiteremos a questão: como entrar em comunicação, em
contato, com o que é primitivo no humano?
Acreditamos que a máxima heideggeriana em relação ao princípio vale
como iluminação da resposta. Lembremos o que diz Heidegger, na
passagem que tanto nos serviu neste texto: “Um princípio se re-pete,
deixando-se, que ele principie de novo, de modo originário, com tudo o que
um verdadeiro princípio traz consigo de estranho, obscuro e incerto”. Quer
dizer: diante da impossibilidade de ser formatar o não acontecido nos
moldes dos registros capturáveis, resta ao analista winnicottiano manter-se
ao lado do paciente de modo que o seu princípio não experimentado
principie de novo. Como salienta Dias, o paciente “precisa reviver o
colapso, visto que este não chegou a ser experimentado no momento
original, pelo fato de que o paciente era um bebê e ainda não estava lá,
como um ‘eu’, para experimentá-lo” (Dias, 2002, p. 356)
Ora, nada mais “obscuro e incerto” do que reviver o que não aconteceu.
Chega a ser paradoxal. Entretanto, ao invés de tentar logicizar o paradoxal,
a teoria winnicottiana – assim como a ontologia de Heidegger –, “abriga-o”
sem lhe impor uma transparência estrangeira.
Para Winnicott (1989vu[1968]/1994, p. 186), há momentos em que
“tem-se de permitir que a obscuridade tenha um valor superior ao do falso
esclarecimento”. No âmbito da clínica de psicóticos, abrigar o obscuro
significa suportar a presença do não acontecido em termos de angústias
impensáveis. Significa expor-se a uma análise em que “a lógica não é
aplicável” (Winnicott,1989vu[1968]/1994, p. 99).
Trata-se, como diz Heidegger, de deixar o princípio principiar com tudo
de incerto e obscuro que ele engendra. Em termos clínicos: deixar que o
paciente regrida “[...] à agonia impensável, que nele habita, sem ter sido
experimentada” (Dias, 2002, p. 356). Para tanto, o analista “tem que ser
suficientemente bom para poder proporcionar que aconteça o não
acontecido, isto é, que aconteça uma vida humana que valha a pena”
(Loparic, 1999a, p. 366).
Supomos que essa caracterização da teoria e da clínica winnicottiana
versa sobre o momento anterior à história de vida tal como pensada na
psicanálise tradicional. Talvez pudéssemos dizer que Winnicott nos fala de
uma pré-história ou de uma História no sentido heideggeriano, como
condição de possibilidade para a historiografia. É evidente que a questão
heideggeriana que estamos usando para fazer tais associações não diz
respeito exclusivamente ao homem, mas à História do Ser. Não nos
interessa, e, talvez, nem seja possível equiparar a abordagem heideggeriana
à de Winnicott. Contudo, supomos que seja possível estabelecer uma
afinidade entre os autores no que tange ao modo de proceder em relação ao
passado. Para nenhum dos dois trata-se de algo que aconteceu e foi perdido,
sepultado. Antes, refere-se a algo que ainda “não aconteceu” e que aguarda
um sentido. Esse passado não se reconstitui com técnicas de encadeamento
lógico-causal, nem é buscado para preencher lacunas que geram hiatos na
cadeia da memória. Estamos muito aquém dos registros, do que é passível
de ser catalogado. A dificuldade de acesso não se deve ao dispendioso
trabalho de tradução dos dados. Não estamos no campo dos dados
catalogáveis. Estamos falando da condição de possibilidade de toda e
qualquer catalogação. Em termos clínicos, estamos aquém de qualquer linha
de vida capaz de ser historicizada. A questão diz respeito ao alcance da vida
e não aos dramas inerentes à vida.
Salientando as devidas proporções, podemos apontar afinidades entre o
que é primitivo em Winnicott e a definição ontológica de origem (Anfang)
como o impensado que, ao invés de estar fossilizado no começo, nos impõe
o pensar. Essa origem não se recompõe com técnicas, não se enclausura no
discurso factual, historiográfico. Do mesmo modo, o não acontecido
winnicottiano não pode ser visto como fonte de informações factuais,
datáveis. E, da mesma forma que o começo pressupõe a origem, um “eu”
integrado capaz de viver e relacionar-se com o mundo pressupõe um
desenvolvimento emocional primitivo, inalcançável em termos de
investimentos pulsionais.
Sendo assim, apoiados na diferença heideggeriana entre Anfang e
Beginn, podemos indicar que Winnicott não parte do começo (Beginn), cuja
marca temporal e representacional é dada como certa; ao invés, volta-se
para a primitiva origem (Anfang), anterior ao domínio do objetivável. Isso
evidencia seu modo não metafísico de abordar o homem.
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1. Este texto é uma versão revisada de um artigo com o mesmo título publicado na revista Winnicott
e-Prints, série 2, v. 2, n. 1, 2007.
2. No contexto de Ser e tempo, a destruição da ontologia não tem o caráter de um aniquilamento
desse legado, trata-se de uma desconstrução que remete os termos à origem, eliminando os sentidos
derivados que encobrem seu sentido primordial. Daí afirmar-se que a busca é pela “certidão de
nascimento”. Cf. Heidegger, 1995a.
3. Cf. Prefácio à primeira edição de Medard Boss (Heidegger, 2001).
4. Heidegger preocupa-se em referir-se ao homem escapando das categorias herdadas da metafísica,
quais sejam: animal racional, ego cogito, espírito, sujeito transcendental, enfim. Sendo assim, escolhe
o termo Dasein – que literalmente significa “ser-aí” – para reunir, numa só palavra, tanto a relação do
ser com a essência do homem, como também essa referência fundamental do homem à abertura
(“aí”) do ser enquanto tal. Cf. Heidegger, 1991, p. 58. Por existir uma certa diversidade na tradução
desse termo, optaremos por mantê-lo em alemão.
5. Em Ser e tempo, encontramos o conceito Geschichtlichkeit, traduzido na edição brasileira por
“historicidade”. Tradução que não deixa de ser correta. Contudo, para a palavra alemã geschichtlich,
recorremos à tradução de Loparic (1999a), que opta pelo termo “acontecente”. Tal opção se deve ao
fato de essa tradução preservar o sentido de geschehen (acontecer) presente na raiz da palavra
geschichtlich. Num outro texto – “O ‘animal humano’” –, Loparic (2000) usa a palavra
“acontecência” para o alemão Geschehen, lembrando-nos que, apesar do fato de essa palavra não ser
dicionarizada, ela é usada na literatura brasileira, a exemplo de Vilma Guimarães Rosa no livro
intitulado Acontecências.
6. cf. Nunes, 1992.
7. Remetendo-se ao Fausto de Goethe, Freud, em “Análise terminável e interminável”, faz uma
associação entre a Metapsicologia e a Feiticeiraque Fausto, de mau grado, recorre em busca do
segredo da fonte da juventude. Então, ele lembra a passagem: “So muss denn doch die Hexe dran!”
(cf. Freud, 1937c/1995, p. 241).
8. A inserção da psicanálise no rol das práticas científicas do seu tempo, bem como a formação
científico-natural do seu criador, sempre foram registradas, de diferentes formas, ao longo da obra
freudiana. As pretensões de medição, quantificação, as analogias mecânicas, aparecem tanto no
Freud de “O projeto para psicologia científica” (1895), quanto no das obras “mais psicanalíticas”, por
exemplo, em “A interpretação dos sonhos” (1900), nas “Conferências introdutórias” (1915 e 1916)
nos “Artigos sobre a metapsicologia” (1914-1916). Sobre a herança da metafísica moderna no
conceito freudiano de Trieb (pulsão), ver Loparic, 1999b e Fulgencio, 2003.
9. O paradeiro de um representante pulsional reprimido, bem como suas formações substitutas, é
variável. O dispêndio de energia empregada na repressão relaciona-se também com a quota de afeto
ligada à representação psíquica. Freud, no texto metapsicológico intitulado “Repressão”
(1915d/1995), afirma que esse fator quantitativo do representante pulsional possui três vicissitudes
possíveis, quais sejam: 1) o quantum de afeto pode ser suprimido sem deixar vestígios; 2) pode ser
“qualitativamente colorido”; 3) ou transformado em ansiedade. O caminho do afeto está diretamente
relacionado ao tipo de neurose estabelecida. Cf. Freud, 1915d/1995. No texto de 1926, intitulado
“Inibição, sintoma e angústia”, Freud modifica sua opinião sobre a relação entre ansiedade e
repressão. Cf. Freud, 1926d[1925]/1995.
10. Cf. Freud, 1915d/1995, p. 154.
11. J. Beaufret alerta que se dirigir à origem não implica simplesmente percorrer uma ponte entre a
filosofia contemporânea e o pensamento pré-socrático; para tanto, exige-se um passo que retrocede
rumo à fecundidade impensada do princípio. Cf. Beaufret, 1971.
12. Cf. Heidegger, 2002.
13. Em se tratando do legado dos pré-socráticos, sabe-se que dessas “obras” só temos acesso a
fragmentos que foram citados por pensadores posteriores, como Platão, Aristóteles, Sexto Empírico,
entre outros. Em 1903, o filólogo Hermann Diels compilou-os, enumerando-os, e os publicou sob o
título “Os fragmentos dos pré-socráticos”. Cf. Heidegger, 1999.
14. Literalmente, o termo Anfang pode ser traduzido por “princípio”. No entanto, optamos seguir a
sugestão de tradução de Marlène Zarader por “origem”. Tal escolha deve-se ao fato de que, tanto no
português quanto no francês, princípio e começo denotam uma marca temporal, como um primeiro
momento na extensão de um processo. Já “origem” se aproxima mais da conotação heideggeriana,
que não se restringe ao início de uma extensão linear, mas se refere àquilo de onde qualquer coisa
jorra, nasce. Isso posto, explicitaremos a diferença entre Beginn e Anfang estabelecida no
pensamento heideggeriano com as palavras portuguesas começo e origem, respectivamente. Cf.
Zarader, 1990.
15. Cf. Lévinas, 1967.
16. “Chamamos de sentido, aquilo que pode articular-se a abertura de compreensão. O conceito de
sentido abrange o aparelhamento formal daquilo que pertence necessariamente ao que é articulado
pela interpretação que compreende” (Heidegger, 1995a, p. 117).
17. Cf. Stein, 2005.
18. Vale registrar algumas passagens onde Winnicott caracteriza o desejo, o complexo de Édipo e a
repressão como processos tardios. Cf. Winnicott, 1960c/1983 e 1955d[1954]/2000.
19. Claro que, nos estágios iniciais, falar em ambiente significa necessariamente remeter-se à mãe
devotada. Cf. Winnicott, 1953a[1952]/2000, p. 306 e 1954a[1949]/2000, p. 334.
20. “O conteúdo dessas angústias pode ser assim expresso: 1) ser feito em pedaços; 2) cair para
sempre; 3) completo isolamento, devido a inexistência de qualquer forma de comunicação; 4)
disjunção entre psique e soma” (Winnicott, 1987d[1967]/2006, p. 88).
Parte II
Articulação do paradigma
winnicottiano
A teoria winnicottiana do amadurecimento como
guia da prática clínica1
Elsa Oliveira Dias
1. Introdução
Há várias maneiras de enunciar a novidade da psicanálise de D. W.
Winnicott e uma delas refere-se à prática clínica que decorre da sua nova
perspectiva teórica. Enquanto na psicanálise tradicional existe um método
que caracteriza, por excelência, a própria tarefa analítica – a interpretação
dos conflitos inconscientes relativos a elementos reprimidos –, não se pode
dizer o mesmo da clínica winnicottiana.2 Embora seja perfeitamente
possível explicitar as implicações clínicas de sua teoria, não se pode
formular, num enunciado geral, um método ou uma técnica que definiriam o
modo como se trabalha, psicanaliticamente, na perspectiva winnicottiana. A
razão é simples: o que determina o trabalho a ser feito – e a maneira como
deve ser conduzido um determinado tratamento – é a necessidade do
paciente, e esta varia enormemente conforme a natureza do distúrbio que
este apresenta. Sabemos dos textos winnicottianos já clássicos que o que
serve, por exemplo, para um paciente neurótico ou mesmo depressivo não
serve, de modo algum, para pacientes cuja problemática central é psicótica,
ou mesmo para os antissociais. Os distúrbios psíquicos podem ter naturezas
radicalmente diferentes, como ocorre com os dois pares de distúrbios
mencionados: enquanto as neuroses e as depressões denotam conflito
inconsciente, relativo a material reprimido, e ocorrem em indivíduos cujas
personalidades foram bem fundadas, no início da vida, e que, num certo
momento, adoeceram ao ter que lidar com a ansiedade resultante das
urgências instintuais, as psicoses, assim como a tendência antissocial, são
resultados do fracasso ambiental na sua tarefa de favorecer a continuidade
dos processos de amadurecimento nas etapas mais primitivas em que
impera a dependência. Esses distúrbios apontam para falhas na estruturação
da personalidade ou do caráter.
Pelo fato de haver uma diferença crucial de natureza entre os distúrbios
e, portanto, entre o que se requer no tratamento de um ou de outro tipo de
distúrbio, Winnicott enfatiza a importância essencial do diagnóstico como
guia da ação terapêutica.3
O fato essencial é que baseio meu trabalho no diagnóstico. Continuo a elaborar um
diagnóstico na continuidade do tratamento, um diagnóstico individual e outro social, e trabalho
de acordo com o mesmo diagnóstico. Nesse sentido, faço psicanálise quando o diagnóstico é de
que este indivíduo, em seu ambiente, quer psicanálise [tradicional]. Posso até tentar estabelecer
uma cooperação inconsciente, ainda quando o desejo consciente pela psicanálise está ausente.
Mas, em geral, a psicanálise [cujo método por excelência é a interpretação do conflito reprimido
inconsciente] é para aqueles que a querem, necessitam e podem tolerá-la. (1965d[1962]/1983, p.
154)
Num outro artigo, de 1968, diz ele que “se nossos diagnósticos fossem
melhores, nós nos pouparíamos e pouparíamos aos nossos pacientes, muito
tempo e desespero” (1989xb[1968]/2000, p. 182).
Existem, ainda, complicações adicionais para a clínica que é regida pela
teoria do amadurecimento, pois as necessidades de um determinado
paciente podem variar numa mesma sessão, na medida em que este, a
despeito de padecer de um aspecto doente da personalidade, tem também
aspectos sadios. O analista terá que lidar com ambos, simultaneamente,
atento ao fato de que se há um aspecto doente, este é tão doente quanto
possível e não se pode afrouxar o cuidado, pensando contar com a parte
desenvolvida da personalidade. Além disso, se a análise transcorre bem e o
paciente amadurece, as necessidades variarão ao longo do tratamento e o
analista necessita estar preparado para reconhecer e lidar com todos os
aspectos e fases do amadurecimento, desde os mais sofisticados aos mais
primitivos.
Além de não se poder falar de uma única técnica em Winnicott,
tampouco se pode entender o trabalho analítico, tal como Winnicott o
concebe, como uma técnica. Ao formular sua concepção sobre a tarefa
terapêutica, na introdução ao seu livro Consultas terapêuticasem
psiquiatria infantil (Winnicott, 1971b/1984), Winnicott afirma que o
trabalho terapêutico ali descrito dificilmente pode ser entendido como uma
técnica, já que não existem dois casos iguais; o trabalho não pode sequer ser
copiado porque, afirma, “o terapeuta deverá estar envolvido em cada caso
como pessoa, razão pela qual não há sequer duas entrevistas que sejam
semelhantes quando realizadas por dois psiquiatras” (1971vc/1984, p. 17).
2. A teoria do amadurecimento como guia da ação terapêutica
A clínica winnicottiana está baseada numa teoria dos distúrbios
psíquicos que tem como fundamento a teoria do processo de
amadurecimento pessoal do indivíduo. Essa teoria, segundo o próprio autor,
é a “espinha dorsal” (backbone) do seu trabalho teórico e clínico.4
Winnicott é explícito ao traçar a íntima conexão existente entre a teoria dos
distúrbios psíquicos e a teoria do amadurecimento. Ele diz: “Precisamos
chegar a uma teoria do amadurecimento normal para podermos ser capazes
de compreender as doenças e as várias imaturidades, uma vez que não nos
damos por satisfeitos a menos que possamos preveni-las e curá-las”
(Winnicott 1965vc[1962]/1983, p. 65).
A teoria está baseada em algumas concepções que podem ser
resumidamente apresentadas:
a) Todo indivíduo humano é dotado de uma tendência inata ao
amadurecimento, o que significa, à integração numa unidade. Apesar de
inata, contudo, a tendência não vai de si, como se bastasse a mera passagem
do tempo. Trata-se de uma tendência e não de uma determinação. Para que
a tendência venha a realizar-se, o bebê depende fundamentalmente da
presença de um ambiente facilitador que forneça cuidados suficientemente
bons. Isso é tanto mais verdadeiro quanto mais primitivo o estágio que
consideramos.
b) O amadurecimento começa em algum momento após a concepção e,
quando há saúde, não cessa até a morte.
c) Contrariamente à concepção da psiquiatria, e da própria psicanálise,
que concebem a saúde como ausência de doença – o que parece altamente
insuficiente a Winnicott –, este defende a ideia de que a saúde é um estado
complexo, que tem suas próprias exigências e deve ser pensado em si
mesmo. Por essa razão ele assinala, em sua teoria, a existência de
dificuldades que pertencem ao próprio fato de estar vivo e de amadurecer.
Essa concepção de saúde atravessa todo o pensamento winnicottiano e tem
implicações maiores do que pode parecer à primeira vista, a saber, que,
desde o início, a vida é difícil em si mesma e a tarefa de viver, de continuar
vivo e amadurecer é uma batalha que sempre permanece.
d) Não há nenhum aspecto, saudável ou doente, da existência humana,
cujo sentido seja independente do momento do processo ao qual pertence
ou no qual teve origem. Ou seja, não se pode responder à pergunta sobre o
que significa, por exemplo, a agressividade em Winnicott sem estabelecer a
etapa do amadurecimento a que estamos nos referindo.
3. A teoria do amadurecimento
Em que consiste a teoria do amadurecimento? Na descrição e
conceituação das diferentes tarefas, conquistas e dificuldades que são
inerentes ao crescimento em cada um dos estágios da vida, desde o
momento em que um estado de ser tem início, ainda na vida intrauterina,
estendendo-se pela infância, adolescência, juventude, idade adulta e velhice
até a morte. A ênfase da teoria recai sobre os estágios iniciais, pois é nesse
período que estão sendo constituídos os alicerces da personalidade e da
saúde psíquica. As tarefas que caracterizam os estágios iniciais – a
integração no tempo e no espaço, a habitação da psique no corpo, o início
das relações objetais e a quarta tarefa, constituição do si-mesmo – jamais se
completam e continuam a ser as tarefas fundamentais de toda a vida. Elas
não são de natureza instintual – como serão algumas delas, um pouco mais
tarde –, mas pertencem à linha identitária do amadurecimento; referem-se à
necessidade de existir, de sentir-se real e de chegar a estabelecer-se como
uma identidade unitária.
Apesar de o processo de amadurecimento não ser linear, algumas
conquistas têm pré-requisitos e só podem ser alcançadas depois de outras,
que são a sua condição de possibilidade. Ou seja, a resolução satisfatória
das tarefas de cada estágio depende de ter havido sucesso na resolução das
tarefas dos estágios anteriores. Se ocorre fracasso na resolução da tarefa de
uma certa etapa, novas tarefas vão surgindo, mas o indivíduo, não tendo
feito a aquisição anterior, carece da maturidade necessária para fazer-lhes
frente; ele pode até resolvê-las, mobilizando a mente e/ou uma integração
defensiva do tipo falso si-mesmo, mas, apoiadas em bases falsas, elas não
farão parte intrínseca do seu si-mesmo como aquisições pessoais. Nesse
caso, o processo de amadurecimento pessoal é paralisado e um distúrbio
emocional se estabelece.
4. Critérios para uma classificação dos distúrbios psíquicos
Segundo a teoria winnicottiana dos distúrbios psíquicos, a natureza do
distúrbio está relacionada com a etapa, na linha do amadurecimento, em que
a dificuldade surgiu, ou seja, com o estado de imaturidade ou maturidade
relativa em que o indivíduo se encontrava e com a natureza da tarefa com a
qual o bebê, ou a criança, estava envolvido por ocasião do fracasso
ambiental. Mais precisamente, está relacionada ao ponto, no
amadurecimento, em que o bebê perdeu a esperança de comunicar ao
ambiente que algo anda muito mal, que algo de essencial lhe falta e que
ninguém percebe. A natureza do distúrbio tem também a ver com o tipo de
patologia materna (ou paterna) que é responsável pelo padrão ambiental
traumatizante. Isso nos leva à seguinte exigência com relação ao
diagnóstico: qualquer que seja o fenômeno que queiramos considerar, na
doença ou na saúde, ele só poderá ser devidamente apreciado se levarmos
em conta todo o processo de amadurecimento do indivíduo, desde os
estágios mais primitivos, e se pudermos localizar o estágio em que o
fenômeno teve origem. “Um dos problemas mais difíceis de nossa técnica
psicanalítica”, diz Winnicott, “consiste em saber qual a idade emocional do
paciente num dado momento da relação transferencial” (1958f[1949]/2000,
p. 263). Só assim poderemos compreender a natureza do problema com o
qual o indivíduo está envolvido, proceder a uma classificação do distúrbio e
fornecer cuidados específicos segundo a sua necessidade. É preciso “pensar
sempre em termos do indivíduo que se desenvolve e isto significa retornar a
épocas muito remotas e tentar determinar o ponto de origem”
(1984c[1960]/1989, p. 64).
Em largos traços, pode-se dizer que, segundo Winnicott, as psicoses são
distúrbios relacionados ao fracasso ambiental na sua missão de facilitar as
conquistas dos estágios iniciais – que começam em algum momento da vida
intrauterina e vão até o estágio do EU SOU, que ocorre, em geral, por volta
de um ano ou um ano e meio. Se o ambiente falha repetidas vezes – ao
modo de um padrão estabelecido – em se adaptar às necessidades do bebê
durante a etapa de dependência absoluta, e mesmo relativa, ocorrem
traumas e o processo de amadurecimento pessoal é interrompido, nesse
momento primitivo em que estão sendo constituídos os alicerces da
personalidade. Isso dá origem a um distúrbio psicótico. Naturalmente,
haverá diferentes tipos de distúrbio psicótico segundo a etapa, dentro dos
estágios iniciais, em que o bebê for traumatizado pelas falhas ambientais.
Após a conquista da identidade unitária (nesse marco do
amadurecimento que é o estágio do EU SOU), a criança, que tem agora
entre um e dois anos, terá que defrontar-se, no estágio do concernimento,
com a tarefa de integrar a sua impulsividade instintual. Ela deixa de ser
incompadecida (ruthlessness) para tornar-se compadecida (concern), o que
significa que ela adquire a capacidade de sentir culpa e de responsabilizar-
se pelos resultados da instintualidade tornada pessoal. Quando o ambiente
favorece a conquista, o indivíduo se apropria, sem muito susto, da
destrutividade que pertence à sua própria natureza e, com isso, conquista a
capacidade, naturale saudável, de deprimir a cada vez que a destrutividade
se manifestar. Se a mãe falha na sua tarefa, específica para esse momento,
de sobreviver aos ataques impulsivos da criança, haverá risco de depressão
patológica, pois a criança não sabe o que fazer com a culpa relativa ao fato
de que ela se vê destruindo exatamente aquilo de que mais precisa e a quem
ama.
Nos casos favoráveis, em que também essa conquista da capacidade para
o concernimento é alcançada, a criança, que já pôde sedimentar as bases de
sua personalidade, passará a lidar com as ansiedades que resultam das
relações com outras pessoas, percebidas como externas e cuja existência
não depende dela. Em especial, ela terá que enfrentar a situação triangular
em que o complexo edípico pode ser efetivamente experimentado com
pessoas internas (whole persons).5 As ansiedades aqui mobilizadas são
relativas aos instintos, aos afetos e à fantasia que têm lugar na realidade
psíquica pessoal e desenvolvem ali toda uma novela interior. Nessa etapa, o
ambiente já não tem a mesma importância que tinha nas etapas anteriores,
mas é vital que se mantenha estável de maneira a propiciar boas condições
para que a criança, despreocupada com a segurança do lar, que se mantém
por si mesmo, possa defrontar-se e elaborar sua problemática pessoal
interna, e não sucumbir em uma neurose.
Uma das questões de maior relevância para a clínica winnicottiana
consiste em que, na análise de qualquer tipo de paciente, à medida que o
trabalho prossegue e a confiabilidade se estabelece, a possibilidade de uma
psicose aparecer, ou de elementos psicóticos emergirem, nunca pode ser
excluída, em princípio, pois “pode-se sempre descobrir que há uma psicose
por baixo de todas as outras coisas” (1988/1990, p. 185). A psicose
subjacente pode surgir justamente, na situação analítica, em virtude da
confiabilidade ambiental. Para aqueles analistas que dizem não ter nenhum
interesse em casos de psicose, Winnicott oferece a sua experiência como
resposta: “A minha experiência clínica com casos de adultos deve ser
presumida como sendo a de um psicanalista que, quer lhe agrade ou não,
vê-se envolvido no tratamento de pacientes fronteiriços e daqueles que,
talvez imprevistamente, se tornam esquizoides durante o tratamento”
(1968c[1967]/1994, p. 151).
Segundo Winnicott, a teoria concebida originalmente para a
compreensão das neuroses é insuficiente para dar conta da compreensão e
do tratamento das patologias psicóticas ou dos episódios de natureza
psicótica que surgem no tratamento analítico. Não só ele mesmo, mas
alguns outros psicanalistas, diz Winnicott, vêm chamando a atenção “para a
inaplicabilidade da assim chamada técnica psicanalítica clássica no
tratamento da esquizofrenia” (Winnicott 1964h/1994, p. 372). Essa
afirmação está referida ao fato de que a teoria tradicional – tanto a freudiana
como a kleiniana – usou, para o estudo e a pesquisa sobre as psicoses, os
mesmos elementos conceituais que haviam sido usados para as neuroses,
desconhecendo a natureza essencialmente distinta dos dois tipos de
distúrbio psíquico. Numa neurose pura, se é que tal formação pode ainda
ser suposta, a estrutura da personalidade está intacta e o indivíduo adoece
ao lidar com as dificuldades inerentes à instintualidade no quadro das
relações interpessoais. Nas psicoses, o amadurecimento foi paralisado num
certo momento dos estágios iniciais, em função de um padrão ambiental
traumático. O bebê, por precisar sistematicamente reagir ao trauma, perde a
espontaneidade, a capacidade de descansar e a esperança. Uma cisão
defensiva se opera nele. O verdadeiro si-mesmo, espontâneo e criativo, fica
recuado e protegido da ameaça de aniquilamento, enquanto um falso si-
mesmo se edifica; é este que leva a cabo a tarefa de integrar-se numa
unidade e relacionar-se com a realidade externa; é ele que se apresenta ao
mundo no lugar do eu, sendo, contudo, uma prótese. São esses os casos de
indivíduos que, podendo ser altamente competentes em suas áreas de
atuação e tendo inclusive alcançado sucesso, queixam-se do sentimento de
inutilidade, de uma permanente falta de sentido, e de sentirem, no fundo de
si mesmos, que a vida não vale a pena. Eles se sentem um embuste. O fato é
que, a despeito de sua capacidade de lidar com as exigências da realidade
compartilhada, suas experiências iniciais foram tão deficientes ou
distorcidas que o analista terá que ser a primeira pessoa na vida do paciente
a fornecer certas coisas que são simples e essenciais, e que só podem ser
oferecidas pelo que se chama ambiente suficientemente bom. Essas pessoas
precisam que lhes seja fornecida a oportunidade de viverem experiências
primitivas, com o ambiente desta vez atendendo, com sucesso ao invés de
fracasso, às necessidades específicas do momento. No caso das patologias
psicóticas, se se quer chegar ao problema efetivo do paciente, a regressão à
dependência é necessária. Essa afirmação está baseada numa necessidade
do paciente e não da teoria, ou do que seria uma “técnica” winnicottiana.
5. As diferentes naturezas de um mesmo distúrbio segundo a
teoria do amadurecimento
A classificação winnicottiana dos distúrbios psíquicos segue um critério
maturacional, e não sintomatológico. Isto nos leva ao seguinte: distúrbios
com sintomatologias muito semelhantes podem ser de diferentes naturezas,
conforme o ponto de origem do distúrbio. Este item será usado para
exemplificar esse aspecto. Um bom exemplo pode ser dado pelos diferentes
fenômenos clínicos de ansiedade persecutória ou de susceptibilidade à
perseguição. Segundo Winnicott, os distúrbios paranoicos não configuram
uma categoria nosológica em si mesmos, mas são sempre uma complicação
– que, em geral, torna mais negativo o prognóstico – ou da esquizofrenia,
ou da tendência antissocial, ou da depressão. Sendo de diferentes naturezas,
essas perturbações exigem diferentes abordagens terapêuticas. As
diferenças se põem de manifesto quando se procede ao exame do ponto de
origem do distúrbio e do tipo de deficiência ambiental que o indivíduo
padeceu.
Quando é um aspecto da esquizofrenia, pode-se supor que a
susceptibilidade à perseguição foi instalada muito cedo. É possível
encontrar uma disposição paranoide em bebês muito pequenos. A
primitividade do fenômeno fez com que alguns investigadores, em especial
os de orientação kleiniana, atribuíssem o distúrbio ao fator constitucional.
Segundo Winnicott, contudo, não precisamos da hipótese constitucional se,
ao nos depararmos com fenômenos precoces de ansiedade persecutória,
levarmos em conta 1) a pré-história do bebê – a vida intrauterina, o
nascimento e o período imediatamente subsequente ao nascimento e 2) o
que é extremamente importante e não pode deixar de ser levado em conta
na apreciação dos distúrbios persecutórios primitivos: o fato de a
dependência do bebê ser máxima e significativa tão logo se inicia um
estado de ser, e ao longo dos primeiros meses de vida. Quando se fala em
cuidados suficientemente bons, está-se falando da confiabilidade ambiental
e isto significa, em primeiro lugar, ser capaz de proteger o bebê de
acontecimentos imprevisíveis para ele, ou seja, das descontinuidades que
traumatizam.
Uma disposição paranoide primitiva pode já derivar de uma experiência
traumática de nascimento, devido à demora ou antecipação do parto, tendo
o bebê sido exposto a uma descontinuidade mais prolongada do que a que
podia tolerar (cf. 1958f[1949]/2000, p. 273). Mas, em geral, a disposição
paranoide precoce deriva das invasões ambientais que ocorrem após o
nascimento, devido ao fato de o ambiente não ser capaz, o suficiente, de
proteger o bebê do imprevisível. Essas invasões geram reações imediatas,
que são traumáticas, pois interrompem a continuidade de ser, numa etapa
muito inicial da vida. Se for esse o padrão ambiental, o bebê, ao invés de
simplesmente ser, despreocupado com o que ocorre no ambiente, é tomado
por um estado de alerta que o impede de descansar. O que ocorre, então, é
uma cisão, como parte central de um sistema defensivoprimitivo, que visa
a prevenir a invasão tornada potencial. É nisso que consiste, propriamente,
na teoria winnicottiana, as patologias esquizofrênicas. Winnicott diz que “a
palavra doença torna-se apropriada quando o sentido de segurança não
chegou à vida da criança a tempo de ser incorporado às suas crenças”
(1946b/1987, p. 122; os itálicos são meus).
Deve-se lembrar que, para que ocorram invasões, o ambiente não precisa
ser ativamente invasivo: já será invasivo por não ser facilitador. Explicando
melhor: antes de a psique alojar-se no corpo, as tensões instintuais são tão
intrusivas quanto qualquer coisa intrusiva que venha do ambiente, e para
que essas tensões não interrompam a continuidade de ser, o bebê precisa da
facilitação ativa por parte da mãe na boa resolução da excitação surgida. Se
a mãe, ao atender à urgência instintual, fornecer apoio de ego e propiciar
experiências globais, que incluem mutualidade e comunicação, todo o
percurso deslanchado pela tensão instintual torna-se uma experiência que
fortalece o ego e favorece a coesão psicossomática da criança. Sem esse
apoio, as tensões instintuais, em vez de serem gradualmente integradas e
pessoalizadas, permanecem externas e, com o tempo, tornam-se
perseguidoras, chegando a estabelecer uma disposição paranoide, que pode
tomar a forma de hipocondria, devido à permanente ameaça de
despersonalização.
Outro aspecto relativo à origem muito primitiva da paranoia ocorre
quando o impulso criativo do bebê é inibido, juntamente com a motilidade
que o acompanha e o movimento passa a acontecer apenas como reação à
invasão. Aqui se pode estabelecer, no indivíduo, um padrão de reatividade
em que toda a espontaneidade fica soterrada; não há mais impulsividade
pessoal. O bebê vive, dirá Winnicott, “porque foi atraído pela experiência
erótica, mas, além da vida erótica, que nunca é sentida como real, há uma
vida puramente reativa e agressiva, dependente da experiência de oposição”
(1958b[1950]/2000, p. 303). Essa situação desfavorável está na origem de
uma das formas de disposição paranoide: o indivíduo está sempre
procurando a perseguição que deflagrará o movimento, pois só faz alguma
experiência ao reagir a ela. Para sentir-se vivo, ele passa a necessitar de
uma perseguição contínua.
Uma origem um pouco mais tardia da ansiedade paranoica, mas ainda
dentro dos estágios iniciais, localiza-se no momento em que, a partir da
adaptação absoluta, começa a ocorrer a desadaptação da mãe. Existem
casos em que a confiabilidade ambiental, que havia se estabelecido no
período de dependência absoluta, falha exatamente no momento em que se
inicia a separação da unidade fusional mãe-bebê, e começa a se abrir o
primeiro espaço entre a mãe e o bebê, o espaço potencial, a ser preenchido
pelos objetos transicionais. É nesse ponto, dirá Winnicott, que ocorre “um
perigo alternativo, o de que esse espaço potencial possa ser preenchido com
o que nele é injetado a partir de outrem que não o bebê. Parece que tudo o
que provenha de outrem, nesse espaço, constitui material persecutório, sem
que o bebê disponha de meios para rejeitá-lo” (1967b/1975, p. 141).
É provável que seja esse mesmo tipo de falha ambiental, aliado a uma
exploração precoce das funções mentais, o que está na origem de uma
categoria extremamente incômoda de paranoia, na qual podem estar
incluídas pessoas que ocupam posições de autoridade ou responsabilidade.
Trata-se de indivíduos cujo impulso criativo foi inibido, pois é evidente sua
falta de contato com a experiência sempre mutável da vida, quando ela é
viva. Essas pessoas vivem dominadas por um sistema de pensamento e suas
vidas são rigidamente estruturadas em torno desse sistema; elas mantêm
uma convicção absoluta, que não pode jamais ser posta em dúvida, de que
só é possível viver dentro de um sistema em que estão separando,
rigidamente, o bem do mal. Dúvidas, de maneira geral, estão excluídas do
sistema, pois elas geram inquietação e movimento, o que aproxima o
indivíduo, perigosamente, da vida, diferente dos princípios que, ao
contrário, como diz Winnicott, são coisas mortas. Além disso, esse tipo de
indivíduo, juntamente com os que o cercam, são os únicos eleitos para estar
sempre do lado da verdade: “O sistema deve ser constantemente posto em
prática para explicar algum fato, sendo a alternativa (para o indivíduo que
tem essa enfermidade) uma grave confusão de ideias, uma sensação de caos
e de perda de qualquer previsibilidade” (1969c[1968]/1975, p. 189).
Outro tipo de disposição paranoide, inteiramente distinta das anteriores,
é a que provém do temporário sentimento de perseguição, que pertence ao
amadurecimento normal, relativo à aquisição do estatuto da identidade
unitária. A aquisição do estatuto do EU SOU é sentida, pela criança, como
uma ousadia, pois a separação do eu como identidade unitária implica o
repúdio de tudo o que é não-eu e o indivíduo recém-integrado passa a
aguardar a perseguição retaliadora da realidade externa repudiada. Trata-se,
assinala Winnicott, de uma passagem difícil, na qual a criança se sente
“infinitamente vulnerável”; se ela não for devidamente protegida pelo
ambiente, nesse momento, a suscetibilidade à perseguição, que em princípio
é passageira, pode se instalar como uma característica paranoide da
personalidade.
Outra forma de paranoia é a que está associada à ansiedade pelo aspecto
destrutivo inerente à impulsividade instintual. Nesse caso, é necessário
considerar várias hipóteses. Uma delas consiste em que toda a linha da
agressividade, desde as raízes, foi prejudicada, pois pode ocorrer de a mãe
não ter tolerado os estados excitados do bebê e de este ter tido os seus
impulsos inibidos. Não podendo exercer a impulsividade primitiva voraz,
de maneira incompadecida, ele não tem como integrar, amadurecendo, a
destrutividade que é inerente à instintualidade primitiva. Os impulsos
acabam por se tornar invasivos ou persecutórios, acarretando, talvez, um
estado de hipocondria, que é a forma da paranoia quando a perseguição vem
de dentro. Esse tipo de paranoia manifesta-se pelo temor constante de que
alguma fagulha da agressividade possa escapar ao controle e ganhar terreno.
Mas pode também ocorrer, quando existem perseguidores internos – os
chamados objetos maus, isto é, que foram incorporados durante
experiências insatisfatórias ou persecutórias –, de o indivíduo provocar o
mundo externo para que o persiga, de modo a obter alívio da perseguição
interna, sem expor-se muito à loucura do delírio. Talvez a mais comum das
maneiras pelas quais a paranoia foi compreendida, no pensamento
psicanalítico tradicional, e que também foi considerada por Winnicott com
relação à conquista da capacidade para o concernimento, é aquela em que o
indivíduo é incapaz de chegar a um acordo com a destrutividade pessoal,
talvez por não ter tido o tipo de mãe que favorece a entrada no círculo
benigno. Nesses casos, o indivíduo, maciça e sistematicamente, projeta para
fora, no mundo e nos outros, os impulsos destrutivos que, naturalmente,
acabam por retornar sob a forma de perseguidores.
O que expus foi uma tentativa de apresentar uma amostra da riqueza
diagnóstica contida na teoria do amadurecimento pessoal, quando usada
como guia para o entendimento dos fenômenos da saúde e também dos
distúrbios psíquicos. À luz da teoria do amadurecimento, cada distúrbio
poderá ser visto sob esse largo espectro, o que exige, por parte do analista,
um exame atento do amadurecimento de um dado paciente, desde as fases
mais primitivas. Sem isso, diz o autor, ficaremos empacados em nosso
trabalho. É também esse o sentido da sua afirmação: “A única companhia
que tenho, ao explorar o território desconhecido de um novo caso, é a teoria
que levo comigo e que se tem tornado parte de mim, e em relação à qual
não tenho sequer que pensar de maneira deliberada” (1971vc/1984, p. 14).
Referências
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publicado em 1958f[1949])
1. Este artigo foi originalmente publicado na revista Natureza humana, v. 10, n. 1, 2008.
2. A existência de um método psicanalítico único é possível na psicanálise tradicional devido ao fato
de que os distúrbios psíquicos em geral levam, em última análise, a um conflito pulsional de caráter
edípico ou pré-edípico.
3. Embora a questão do diagnóstico tenha sido essencial na psicanálise dos anos 30 e 40, a razão era
inteiramente diferente: tratava-se, naquele momento, de distinguir os chamados casos bem
escolhidos, tendo em vista que Freud e Anna Freud entendiam que a psicanálise servia apenas para o
tratamento da neurose, e não para o da psicose. Winnicott dará razão a ambos, tendo em vista tratar-
se da psicanálise tal como estes a formularam e a entendiam.
4. Além de Winnicott afirmar inúmeras vezes, ao longo da sua obra, que a teoria do amadurecimento
é central no seu pensamento, ele usa a expressão decisiva “espinha dorsal” (backbone) em
1984e[1969]/1989, p. 184.
5. Para Winnicott, o indivíduo só se torna uma pessoa inteira, uma whole person, quando, após se
integrar numa identidade unitária, num eu, integra também a instintualidade. Ou seja, a integração no
eu ainda não basta; é preciso que ele saiba das consequências do fato de estar vivo e ter apetites, e
tenha a capacidade de levar em conta o outro como pessoa. Com respeito ao Édipo, Winnicott disse:
“Não posso ver nenhum valor na utilização do termo ‘Complexo de Édipo’ quando um ou mais de
um dos três que formam o triângulo é um objeto parcial. No Complexo de Édipo, ao menos do meu
ponto de vista, cada um dos componentes do triângulo é uma pessoa total, não apenas para o
observador, mas especialmente para a própria criança” (1988/1990, p. 67).
O ambiente winnicottiano1
Conceição A. Serralha de Araújo
Ao definir a sua teoria do amadurecimento pessoal, ou teoria do
desenvolvimento emocional do ser humano, Winnicott enfatizou que esta
inclui “a história total do relacionamento individual da criança até seu meio
ambiente específico” (Winnicott, 1971b/1984, p. 14). Para ele, é uma
história que, além de compreender o amadurecimento emocional do bebê,
vai compreender também o amadurecimento emocional das pessoas que
cuidam desse bebê, ou seja, das pessoas responsáveis – a mãe e o pai como
“ambiente suficientemente bom” – pelas condições facilitadoras para que o
crescimento do bebê se efetive. Desse modo, essa teoria abarca a história do
relacionamento do bebê com o seu ambiente, incluindo tanto o que acontece
de modo a facilitar as vivências do bebê, como as interferências que
dificultam ou impedem a suficiência do ambiente e, consequentemente, o
desenvolvimento do bebê.
Winnicott vai considerar, então, um elemento novo em sua teoria; um
elemento antes não considerado da forma como ele o fez e, pode-se dizer
até, sequer nomeado, no meio psicanalítico: o “ambiente”. Esta palavra não
é identificada como um conceito psicanalítico ou termo técnico; não é
encontrada, por exemplo, nos índices remissivos dos 24 volumes da Edição
standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud e, mesmo
tendo sido utilizada por Melanie Klein e por Anna Freud, em referência à
realidade externa, não está presente na psicanálise tradicional da atualidade.
As obras Vocabulário da psicanálise, de Laplanche e Pontalis, e o
Dicionário de psicanálise, de Roudinesco e Plon, por exemplo, atestam esse
fato. Em contrapartida, o dicionário de Jan Abram (2000), que procura
abarcar os conceitos e termos utilizados por Winnicott, tem a palavra
ambiente entre estes.
Ao ser empreendida uma busca do significado dessa palavra na língua
portuguesa, encontra-se o seguinte: “1) aquilo que cerca ou envolve os seres
vivos ou as coisas, por todos os lados; envolvente; 2) aquilo que cerca os
seres vivos ou as coisas, meio ambiente; 3) lugar, sítio, espaço, recinto; 4)
meio” (Ferreira, 1988, p. 36). Na língua inglesa, a palavra ambiente
(environment) é encontrada referindo-se “1) às condições [conditions =
situação (situation) ou arredores (surroundings) nos quais as pessoas vivem,
trabalham ou fazem coisas] nas quais você vive, trabalha etc.; 2) ao mundo
natural, por exemplo, a terra, ar e água, no qual pessoas, animais e plantas
vivem” (Oxford wordpower, 2003, pp. 226 e 139). Em um campo mais
específico como o da psiquiatria, pode-se encontrar, no Dicionário de
psiquiatria de Campbell (1986), o termo ambiente referindo-se a um
“conjunto de elementos externos” que rodeia uma pessoa, que a estimula e a
influencia, podendo ser elementosde ordens física, biológica, social e
cultural.
Vários autores da psicologia americana, tanto os que se aproximam da
psicanálise, como Hartmann e Kohut, quanto aqueles mais distantes desta,
como Skinner, utilizaram esse termo. Em recente estudo sobre a obra de
Skinner, Guimarães (2003), comparando a utilização da noção de ambiente
por esse autor com a noção de sexualidade, ampliada por Freud, comenta
que, para Skinner, ambiente é muito mais que o ambiente físico estrutural,
“incluindo aí o ambiente social, onde se encontram todo tipo de relação
pessoal, interpessoal e relação com o próprio ambiente” (p. 65).
Notam-se, portanto, diferenças quanto à amplitude do termo, mas,
independente desse fato, existe de comum, entre essas abordagens, a
presença do ambiente envolvendo, servindo de base e influenciando os
seres vivos continuamente. Sendo assim, como poderia ser pensado o uso
desse termo por Winnicott? O que ele estava tentando abarcar com o termo
ambiente, que diferencia a sua aplicação do uso feito por esses e outros
autores?
1. O ambiente na obra de Winnicott
Caso se empreenda uma análise mais apurada da teoria winnicottiana,
percebe-se que Winnicott rejeitou os conceitos metapsicológicos, uma vez
que, para ele, estes não conseguiam definir o que pretendiam; e mais, as
próprias pessoas que os utilizavam não se davam conta disso ou
disfarçavam tal situação. Preferiu, em muitos casos, utilizar palavras
coloquiais inglesas e comentou: “devemos todos nós (não sou nenhum anjo)
evitar o uso de palavras inglesas comuns como termos técnicos e não deixar
de usar palavras inglesas comuns quando elas estiverem disponíveis”
(1987b/1990, p. 78). A palavra ambiente foi, portanto, utilizada por ele a
partir desse viés de seu pensamento – assim como outras palavras
coloquiais – para se referir às condições físicas e psicológicas necessárias
ao amadurecimento emocional do ser humano.
A partir do momento em que Winnicott passa a pensar o indivíduo
movido por uma “urgência de viver” e, portanto, por uma necessidade de
continuar a ser ao invés de buscar um objeto que lhe permita descarregar
sua tensão até um nível tolerável, como na teoria freudiana, a busca desse
indivíduo passa a ser pensada como a busca de um ambiente que lhe
possibilite continuar sendo. A compreensão das questões psíquicas
envolvidas no desenvolvimento do ser humano deixa de ser buscada na
“cama da mãe” para ser alcançada no “colo da mãe”. De acordo com
Loparic (1996), o “colo da mãe” será o primeiro ambiente externo com o
qual o indivíduo “nascente” terá contato, e mais, apenas a condição de estar
“assentado no colo da mãe” viabilizará, ao indivíduo, relações objetais.
Ao declarar a importância que atribuía ao papel do ambiente, Winnicott
se colocou numa posição de briga com a enfática tese de Klein acerca do
intrapsíquico. De certa forma, é compreensível o furor que se estabeleceu,
uma vez que, na época, valorizar algo no estudo do psiquismo humano que
abrangesse mais do que apenas as questões intrapsíquicas, dizendo-se ainda
um psicanalista, era inadmissível. Na biografia de Winnicott, escrita por
Brett Kahr, em 1996, há um comentário de Winnicott sobre uma conversa
com sua analista, Joan Riviere, colaboradora de Klein, que ilustra bem o
clima desse período. Ele disse a ela: “‘eu estou quase pronto para escrever
um livro sobre o ambiente’. Ela me disse: ‘Você escreve um livro sobre o
ambiente e eu o transformo em um sapo’. É claro que ela não usou essas
palavras [...], mas foi assim que eu me deparei com o que ela disse” (apud
Kahr, 1996, p. 64). Winnicott, em seu “Pós-escrito: D. W. W. sobre D. W.
W.”, de 1967, escreveu que precisou esperar um longo tempo para que se
sentisse recuperado dessa reação de sua analista.
O conceito winnicottiano ambiente, contudo, não é simples de ser
abarcado plenamente. Winnicott utilizou a palavra ambiente em composição
com outras palavras, apontando detalhes inerentes ao conceito, como
também tentativas de torná-lo mais claro. Entre esses usos, pode-se
encontrar a expressão meio ambiente, com a qual Winnicott faz referência a
um lugar, espaço ou veículo propiciador de condições físicas e psicológicas
nas quais o indivíduo vive. Quando esse meio ambiente fornece condições
100% satisfatórias no atendimento das necessidades do indivíduo,
Winnicott o chama meio ambiente perfeito, embora, aqui, ele se refira a
uma perfeição humana e não à de uma máquina. Entretanto, é preciso
ressaltar que essa perfeição é válida apenas para a fase de dependência
absoluta do indivíduo, na qual ocorre uma identificação primária em que se
estabelece uma unidade (fusão) inicial da mãe com o bebê, e vice-versa,
chamada organização meio ambiente-indivíduo. As condições físicas e
psicológicas, que emanam dessa organização, favorecem esse
amadurecimento, constituindo um ambiente satisfatório, ou seja, um
ambiente facilitador das “várias tendências individuais herdadas, de tal
forma que o desenvolvimento ocorre de acordo com elas” (1986b/1996, p.
18). Assim esse ambiente é, no início, “absolutamente e depois
relativamente importante” e, além de ser necessário, se não for
suficientemente bom, pode enfraquecer e até interromper o amadurecimento
de recursos do bebê.
Duas características são essenciais a esse ambiente. Uma é a
adaptabilidade, ou seja, o ambiente vive um processo dinâmico de se
adaptar, desadaptar e se readaptar às necessidades mutáveis da criança, à
medida que esta se desenvolve. Desse modo, podem ser observadas “as
funções paternais, complementando as funções da mãe, e a função da
família, com sua maneira cada vez mais complexa (à medida que a criança
fica mais velha) de introduzir o princípio de realidade, ao mesmo tempo que
devolve a criança à criança” (Winnicott, 1986b/1996, p. 19).
A outra característica do ambiente satisfatório é a sua qualidade humana,
uma vez que, se não houver a presença do aspecto humano, as tendências
herdadas para o desenvolvimento, por serem poderosas, podem até permitir
o amadurecimento, ou seja, o desencadeamento de processos biológicos no
ser, mas não permitem que este alcance uma “plenitude pessoal”. Para que o
indivíduo chegue a essa plenitude, além da empatia e da dedicação do
ambiente, ele terá que enfrentar decepções e frustrações provocadas pelas
falhas desse mesmo ambiente, devido à condição humana de falibilidade e
imperfeição. Segundo Winnicott,
parte-se do pressuposto de que houve um ambiente facilitador satisfatório, como condição
sine qua non para o início do crescimento e do desenvolvimento individuais. Há genes que
determinam padrões e tendências herdadas para o crescimento e a aquisição de maturidade; não
há crescimento emocional, no entanto, a não ser em relação à provisão ambiental, que precisa
ser satisfatória. Pode-se notar que a palavra “perfeito” não entra nessa frase. A perfeição
pertence às máquinas, e as imperfeições próprias da adaptação humana às necessidades
constituem uma característica essencial do meio ambiente facilitador. (1986b/1996, p. 118, os
itálicos são meus)
As pesquisas sobre a condição de resiliência em pessoas que cresceram
em ambientes adversos só vieram corroborar o que Winnicott chama a
atenção veementemente: para uma criança, viver em “um cortiço pode ser
mais seguro e ‘melhor’ como ambiente facilitador do que uma família com
uma casa bonita, onde não existem as perseguições comuns”,2 mas também
não existe amor e nem identificação com as necessidades da criança
(Winnicott, 1971a/1975, p. 192). Segundo Foster (1999), neuropediatra, até
mesmo para a maturação neurológica é imprescindível um relacionamento
humano.
De acordo com a teoria winnicottiana, as falhas do ambiente em atender
às necessidades prementes da criança podem se tornar cumulativas e, em
consequência, traumáticas, por acontecerem em um momento do
amadurecimento cuja capacidade maturativa da criança não é suficiente
para lidar com a situação. Isso provoca uma organização defensiva que
impede o seu desenvolvimento. Se as falhas acontecem em um momento
em que a criançapode lidar com elas, essas falhas provavelmente não se
transformam em traumas, muito pelo contrário, podem favorecer o
desenvolvimento da mente da criança, tornando-a capaz de criar o seu
ambiente favorável pessoal.
O ambiente capaz de fornecer as condições iniciais de sustentação era
chamado por Winnicott de ambiente inicial. De acordo com Dias, esse
“ambiente inicial deve ser entendido segundo dois [...] aspectos essenciais”
inerentes a ele: “a) [...] não é externo e nem interno; b) [...] é a instância que
sustenta e responde à dependência” (2003, p. 152). Considerando-se este
último aspecto, compreende-se que, inicialmente, o ambiente é a mãe e seu
papel tem importância vital. Suas principais características são:
simplesmente existir; amar o bebê de uma maneira que este possa
compreender, ou seja, fornecendo-lhe cuidados físicos (contato, temperatura
corporal, movimento, quietude etc.); fornecer-lhe condições de viver a
solidão essencial e, mais tarde, a oscilação entre os estados tranquilos e os
excitados; fornecer alimento adequado em tempo também adequado; deixar
que o bebê domine, inicialmente (ou seja, tenha tudo o que possa ocorrer
dentro do âmbito de sua onipotência); apresentar a este o mundo externo,
comedidamente, de acordo com sua capacidade de assimilá-lo; proteger o
bebê de coincidências e choques, ou seja, tornar-lhe os eventos
minimamente previsíveis; e fornecer-lhe estabilidade: uma continuidade de
cuidados que permita ao bebê ir sentindo uma continuidade pessoal e
interna (Winnicott, 1958a/1993).
Entretanto, para tudo isso ocorrer, a mãe precisa receber holding do pai;
o papel inicial deste, liberando a mãe de preocupações alheias ao bebê, é
básico e fundamental. Na teoria de Winnicott, existem dois papéis
complementares e imprescindíveis um ao outro para constituir todo e
qualquer ambiente favorável ao amadurecimento humano: o papel materno
e o papel paterno. Desse modo, ficará impossível deixar de reconhecer que
não existe uma “mãe suficientemente boa” sem um “pai suficientemente
bom”, o que vai contra uma crítica constante à teoria winnicottiana de que
esta não se atentaria ao papel do pai.3 Winnicott comenta:
O tema do ambiente facilitador capacitando o crescimento pessoal e o processo maturacional
tem que ser uma descrição dos cuidados que o pai e a mãe dispensam, e da função da família.
Isso leva à construção da democracia como uma extensão da facilitação familiar, com os
indivíduos maduros eventualmente tomando parte de acordo com sua idade e capacidade na
política e na manutenção e reconstrução da estrutura política. (1986b/1996, p. 92)
É importante ressaltar, contudo, em relação ao primeiro aspecto do
ambiente inicial, que esse ambiente não é percebido pelo bebê como
externo a ele, embora assim seja percebido pelo observador. A objetividade
e a externalidade do ambiente somente serão alcançadas pelo bebê à medida
que os seus recursos hereditários amadureçam e lhe permitam isso, o que só
pode acontecer por meio da facilitação do ambiente. Winnicott adverte,
assim, que, mesmo sendo necessária, essa facilitação não é tudo. Em suas
palavras, “o ambiente favorável torna possível o progresso continuado dos
processos de maturação. Mas, o ambiente não faz a criança. Na melhor das
hipóteses possibilita à criança concretizar seu potencial” (1965b/1990, p.
81).
Apesar dessa constatação, Winnicott frisou sempre a necessidade que o
bebê tem de um ambiente facilitador e as consequências da ausência deste.
Esta última pode interromper e até bloquear definitivamente o
amadurecimento emocional do indivíduo. Segundo Winnicott, “uma pessoa
madura pode participar de seu próprio manejo, uma criança só pode tomar
parte até certo ponto, e um bebê no início depende absolutamente de um
ambiente que pode escolher adaptar-se às suas necessidades ou então não se
adaptar e ignorá-las” (1987b/1990, pp. 41-42). Dessa maneira, se os pais
dependem das tendências hereditárias da criança, a responsabilidade deles
acerca do desenvolvimento desta vai se encontrar então na capacidade que
tiverem de lidar adequadamente com o que for se apresentando, tanto
hereditária quanto “acontecencialmente”.
Segundo Winnicott, a partir de condições favoráveis, o indivíduo
consegue criar condições próprias de cuidado, ou seja, ele “pode
gradualmente vir a criar um meio ambiente pessoal, devido à incorporação
dos cuidados” (1958a/1993, p. 379). A esse ambiente próprio interior,4
Winnicott chama de meio ambiente pessoal, embora a mesma expressão
tenha sido utilizada por ele em outras ocasiões para se referir ao fato de que
as condições eram oferecidas ao indivíduo, por uma pessoa com ele
envolvida. Destarte, ao ambiente cujas condições são proporcionadas por
pessoas não emocionalmente envolvidas com o indivíduo, Winnicott chama
de ambiente impessoal. Em relação a este, os cuidados físicos oferecidos
pela equipe de enfermeiros de um hospital podem ser citados como
exemplo.
Às condições oferecidas à família do indivíduo e, consequentemente, a
este, por pessoas da sociedade próximas a eles, Winnicott chama de
ambiente social imediato. No entanto, ao especificar melhor a natureza do
ambiente que se constitui sempre que as condições são proporcionadas por
pessoas, ele o chama de ambiente humano. Se as condições são oferecidas
por coisas e/ou limites físicos como, por exemplo, uma casa,5 esse ambiente
é chamado de ambiente não-humano. Contudo, Winnicott nomeia, com a
mesma expressão, o ambiente não projetivo, ou seja, o ambiente (mãe, pai,
família, lugar) capaz de afetar o bebê antes de ser constituído por projeções
deste.
As condições advindas da convivência familiar, por sua vez, constituem
o ambiente que Winnicott chama de ambiente doméstico, sendo que esse lar
pode se particularizar, principalmente no início da vida do indivíduo,
constituindo-se em um ambiente emocional simplificado, formado pelas
condições psicológicas básicas fornecidas por uma só pessoa, ou poucas
pessoas, que estejam com ele envolvidas.
Essas condições básicas são, frequentemente, encontradas na obra
winnicottiana, resumidas na expressão mãe-ambiente, que vai se referir às
condições psicológicas de sustentação (holding) no tempo e no espaço, de
manuseio e manejo (handling e management) e de possibilidade de contato
adequado com a realidade, oferecidas pela pessoa cuidadora do indivíduo,
comumente, a mãe.
Já por meio da expressão meio ambiente interno, Winnicott descreve as
condições intrapsíquicas do indivíduo adquiridas em razão da incorporação
de padrões do ambiente externo, como também da construção de um
“padrão pessoal de expectativas” (1988/1990, p. 175; sendo, portanto, o
primeiro significado, aqui relatado, do meio ambiente pessoal). Um ponto
importante de ser comentado é o fato de que esse ambiente interno não
pode ser confundido com o conceito de mundo interno. Na verdade, o
ambiente interno possibilita a construção e a manutenção do mundo interno,
embora esteja concomitantemente sendo constituído. Para essa construção,
primeiramente, contribuem as experiências instintuais do indivíduo, que
independem do lugar e da cultura em que este vive. Em segundo lugar, há a
contribuição das “coisas incorporadas, mantidas ou eliminadas”, que,
embora sejam comuns a todos os indivíduos, podem ter diferenças
dependentes dos costumes e da época como, por exemplo, o seio, a
mamadeira, a água de côco etc. Por último, tem-se a contribuição das
“relações totais”, ou seja, das situações que são passíveis de serem
elaboradas imaginativamente pelo bebê de uma forma ampla, que se
referem à pessoa propriamente numa “situação real, incluindo
acontecimentos com aquela mãe, babá, tia reais, naquela casa, cabana, tenda
reais, com a realidade que se apresenta. A ansiedade, o mau humor e a
falibilidade da mãe deveriam ser incluídos aqui, da mesma forma que a
maternagem suficientemente boa comum. O pai entra indiretamente como
marido e diretamente como mãe-substituta” (1958a/1993, p. 451). Dessa
maneira, o mundo interno pode ser reconhecido na elaboraçãoimaginativa
que a pessoa passa a localizar inconscientemente “dentro de si mesma”
(Winnicott, 1988/1990, p. 5) e o ambiente interno nas condições dentro de
si que a propiciam, sejam elas “boas” ou “más”.
Quanto à qualidade favorável ou desfavorável das condições ambientais
oferecidas ao indivíduo, juntamente com a suficiência ou insuficiência
destas, Winnicott nomeia ambiente suficientemente bom às condições
favoráveis físicas e psicológicas com as quais o indivíduo convive e que são
adequadas o suficiente à necessidade deste; por conseguinte, nomeia
ambiente não suficientemente bom o ambiente cujas condições favoráveis
oferecidas são insuficientes às necessidades do indivíduo. Também vai
chamar de ambiente mau o ambiente cujas condições favoráveis inexistem,
ou seja, as condições oferecidas são “inóspitas” (por serem caóticas, de
insegurança etc.) e não permitem o desenvolvimento global do indivíduo.
Neste caso, o montante de condições à disposição do indivíduo, a provisão
do ambiente, deverá se especializar, promovendo condições de
confiabilidade, segurança e objetividade, após o fracasso da provisão
ambiental inicial. O ambiente tornar-se-á, então, um ambiente
especializado, formado por profissionais como assistente social,
psicanalista, entre outros, e até mesmo pelos próprios pais.
Notam-se, portanto, na teoria de Winnicott, expressões por meio das
quais se apreende, do ponto de vista do observador, tanto referências às
condições emocionais ou psicológicas que envolvem o indivíduo, quanto
referências às condições físicas ou concretas propiciadas pela presença real
de pessoas e/ou coisas. Talvez isso possa ser ilustrado com a tentativa de
um paciente de Winnicott, em sessão, de descrever aquilo de que se dava
conta: “é como o óleo no qual as engrenagens funcionam” (1988/1990, p.
150). Parece que, analogicamente, esse paciente apreendeu bem o que
Winnicott chamou de “meio”, tanto em relação à parte física do ambiente
interno ou externo, quanto às condições possibilitadoras de um bom
funcionamento psíquico que emanam dessa parte, e que, consequentemente,
promovem o desenvolvimento do indivíduo. Já do ponto de vista do bebê,
todas essas condições essenciais, no início, não são percebidas ou
apreendidas, mas o bebê “se torna perceptivo, não de uma falha do cuidado
materno, mas dos resultados, quaisquer que sejam, dessa falha; quer dizer, o
lactente se torna consciente de reagir a alguma irritação” (1965b/1990, p.
51) quando as condições essenciais são insatisfatórias ou inexistentes.
Além de usar a palavra ambiente de forma literal nas expressões acima
enunciadas, Winnicott fez uso, ainda, de outras expressões que insinuam o
seu significado como “condições intrauterinas”, “meio”, “unidade fusional
inicial”, “atitude total”, “maternagem”, “mãe”, e até mesmo “setting”, como
na afirmação: “a psique individual só pode ter início dentro de um
determinado setting” (1958a/1993, p. 379).
O relacionamento que a teoria winnicottiana evidencia como necessário
à continuidade de ser do indivíduo é um relacionamento de mutualidade
entre o indivíduo – psicossomaticamente relacionado em seu ambiente
pessoal – e o ambiente que o envolve, embora este último tenha que
assumir uma responsabilidade maior nesse relacionamento, uma vez que o
bebê, além de ser totalmente dependente do ambiente para desenvolver o
seu potencial herdado, no início, não tem a mínima condição de saber dessa
sua dependência. Nesse ponto, torna-se importante discutir em que
Winnicott se diferenciou de Freud.
2. Winnicott e Freud
Segundo Winnicott (1965b/1990), Freud, de certa forma, “negligenciou a
infância como um estado”. Ao utilizar o termo “negligenciou”, Winnicott
presume que Freud foi “obrigado” a assim proceder por faltar-lhe condições
de discutir o que intuía acerca da importância do cuidado materno. Em uma
nota do texto “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento
mental”, de 1911, Freud comenta uma análise feita sobre o lactente, que
pode ser justificada “desde que se inclua o cuidado que recebe da mãe”
(1911/1996, p. 279).
Para Winnicott, Freud assume, com essa afirmação, não só a importância
do ambiente, mas a questão da dependência do bebê em relação ao
ambiente. Chega até a se perguntar, quando proferiu que “não há coisa
como um lactente”: “Estava eu influenciado, sem sabê-lo, por este rodapé
de Freud?” (1965b/1990, nota p. 40). Pode ser que sim. Contudo, ao
contrário de Freud, Winnicott não negligenciou o aspecto da dependência
absoluta do bebê em relação ao ambiente no início da vida – a dupla
dependência. Ele conseguiu aprofundar seu estudo indo até as questões
mais primárias da vida de um ser humano.
Freud estava totalmente absorvido na descoberta e confirmação dos
elementos que formaram a sua teoria da sexualidade e não conseguiu se
desligar desta para levar em conta outros aspectos concomitantes às
excitações vividas pelo bebê em seu relacionamento com as pessoas (os
objetos). De acordo com Loparic (2005), “o modelo ontológico [de Freud]
do ser humano, explicitado na parte metapsicológica da teoria, comporta
um aparelho psíquico individual, movido por pulsões libidinais, forças
psíquicas determinadas por leis causais” (p. 3). A situação inicial do bebê
freudiano era, então, vista da seguinte maneira:
A primitiva escolha de objeto feita pela criança e dependente de sua necessidade de amparo
exige-nos ainda toda a atenção. Essa escolha dirige-se primeiro a todas as pessoas que lidam
com a criança e logo depois especialmente aos genitores. A relação entre criança e pais não é,
como a observação direta do menino e posteriormente o exame psicanalítico do adulto
concordemente demonstram, absolutamente livre de elementos de excitação sexual. A criança
toma ambos os genitores, e particularmente um deles, como objeto de seus desejos eróticos. Em
geral o incitamento vem dos próprios pais, cuja ternura possui o mais nítido caráter de atividade
sexual, embora inibido em suas finalidades. (Freud, 1910[1909]/1996, pp. 57-58)
A atenção que Freud pede é para a realidade das excitações sexuais
presentes desde o contexto que Winnicott chamou de ambiente inicial.
Entretanto, para enfatizar essa realidade, Freud, nas palavras de Winnicott,
“negligenciou” todas as outras realidades, como a necessidade de segurança
e de confiabilidade, sentimentos que tornariam possíveis, à criança, integrar
essas excitações. Se esta não estiver assegurada, satisfeita em sua
“necessidade de amparo”, as excitações sexuais serão vividas de outra
maneira, dissociadas da integração psique-soma, podendo resultar num
estado de rigidez extrema, oscilando entre a compulsão, de um lado, e o
evitamento dessas excitações, de outro, caracterizando patologias. Como
bem comentou Fulgencio (2003):
Dizer que a sexualidade é um fator importante na regulação e “objetivos” das relações entre
os homens, entre os sujeitos e seus objetos, é [...] um importante dado empírico, mas dizer que
ela é o único guia que regula todas as ações humanas também só pode ser reconhecida como
uma hipótese especulativa, pois seria preciso admitir que todos os processos psíquicos são
guiados pelo princípio do prazer; entretanto, essa hipótese parece encontrar dificuldades em ser
comprovada pela observação. (p. 138)
É como se Freud fechasse os olhos àquilo que primeiramente guia os
pais: a identificação com as necessidades urgentes do bebê, possibilitando o
fornecimento de condições físicas e psicológicas adequadas para que, mais
tarde, este possa experienciar seus desejos eróticos; uma identificação que é
justamente a essência do que Winnicott denominou mãe ambiente. Para este
autor, é a satisfação dessas necessidades – apresentando o que o bebê
precisa no momento em que ele necessita – que ilude o bebê de que é ele
próprio quem cria o mundo que o satisfaz e de que existe um contato direto,
sem separação, com esse mundo. Assim, o mundo subjetivo do bebê se
evidencia: ele é a mãe e a mãe é ele. Aos poucos, começa a ser
desenvolvido um espaço potencial entre o bebê e a mãe,no qual o brincar
poderá acontecer, auxiliando o bebê em seu processo de realização dos
objetos e acontecimentos externos, como também de seu si-mesmo,
permitindo-lhe que se perceba separado da mãe. Nota-se, portanto, que a
diferença do que é prioritário para o desenvolvimento do ser conduz
diferentemente as teorias de Freud e Winnicott.
De acordo com Winnicott (1988/1990), é a natureza humana que faz com
que o ser humano não consiga prescindir da “ilusão de contato” direto com
o outro (realidade externa); é essa ilusão que deverá estar presente desde o
começo para que o bebê não se aflija. Caso se torne muito aflito com a ideia
de não existir um contato direto com a realidade externa, o bebê sentir-se-á
continuamente ameaçado de perder a capacidade de se relacionar. Se essa
ilusão é bem estabelecida e com ela a capacidade para se relacionar, o bebê
poderá seguir em seu desenvolvimento rumo ao reconhecimento da solidão
essencial inerente ao ser humano. Um bebê que alcança esse estágio poderá
dizer:
Eu sei que não há nenhum contato direto entre a realidade externa e eu mesmo, há apenas
uma ilusão de contato, um fenômeno intermediário que funciona muito bem para mim quando
não estou muito cansado. A mim não importa nem um pouco se aí existe ou não um problema
filosófico. (Winnicott, 1988/1990, p. 135)
Se o que existe é uma ilusão de contato, há um espaço potencial entre o
bebê e a mãe desde o começo; e, sendo assim, se houver um ambiente
favorável, fenômenos e objetos transicionais serão produzidos, permitindo o
desenvolvimento e a constituição efetiva desse espaço como uma área
intermediária de experiência, no estágio da transicionalidade, no qual o
bebê começa o seu reconhecimento do mundo objetivo ao mesmo tempo
que integra seu mundo subjetivo. Os fenômenos e objetos transicionais
produzidos facilitarão o encontro com essa realidade objetiva: na ausência
da mãe (ou dos cuidados do ambiente), o bebê produz o objeto transicional
justamente porque não consegue conviver com essa ausência sem uma
conotação trágica; sendo assim, o objeto vem fazer as vezes de uma mãe
que existe e que é confiável.
Com o amadurecimento, quando a ausência já pode ser experienciada de
uma forma tranquila, o objeto transicional é “relegado ao limbo”, perdendo
a sua função. A ausência está ali e não é mais necessária uma presença que
a encubra. Agora ele já pode perceber um objeto como símbolo de uma
falta, pois já reconhece essa falta, embora não deixe de se relacionar com
algum objeto. Melhor dizendo: por ser um ser cuja independência é apenas
relativa e cuja natureza é relacionar-se com o outro (“ser-com-os-outros”),
na falta de um contato direto ele brinca e, na continuidade do brincar, cria
os objetos da cultura, que lhe permitirão se relacionar com os outros mesmo
na ausência destes (Winnicott, 1971a/1975).
3. Considerações finais
Do exposto, pode-se perceber que Winnicott, quando usa a palavra
ambiente isoladamente, faz menção às condições físicas e psicológicas
(tanto subjetivas quanto internas) do ambiente que envolve o ser humano e
que são necessárias ao amadurecimento emocional deste. Assim, a palavra
ambiente, como um conceito ou termo técnico que designa um conjunto de
“condições para”, quando usada de forma isolada, não pode prescindir de
seu aspecto físico ou concreto, ou seja, dos elementos reais (os objetos) que
fornecem as condições para o amadurecimento do bebê. Entre as condições
psicológicas, encontram-se tanto o que é propiciado pelo que é consciente
quanto pelo que é inconsciente.6 Ambiente é, portanto, um termo global.
Faz-se importante salientar que esse ambiente possui a característica de
ser dinâmico, adaptando-se de acordo com cada momento do
amadurecimento do indivíduo. Contudo, caso essa adaptação não ocorra
adequadamente, estabelecem-se dificuldades de relacionamento com a
realidade, tanto interna quanto externa, e, segundo Winnicott, será uma
questão de sorte o quanto o indivíduo será capaz de se relacionar, como
também a qualidade desse relacionamento: a sorte de ter podido contar com
um ambiente “cuja adaptação ativa inicial à necessidade foi suficientemente
boa” (1988/1990, p. 135).
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1. Este texto é uma revisão do texto “O ambiente em Winnicott”, publicado anteriormente na revista
Winnicott e-Prints, série 1, v. 4, n. 1, 2005. Os pontos principais do texto foram desenvolvidos na tese
de doutoramento da autora Uma abordagem teórica e clínica do ambiente a partir de Winnicott,
defendida em 2007, sob orientação do Prof. Dr. Zeljko Loparic, PUC-SP.
2. Winnicott inclui nesse trecho uma nota, identificando o que seriam essas perseguições:
“superpopulação, inanição, infestações, a ameaça constante de doenças físicas, de desastres e das leis
promulgadas por uma sociedade benevolente” (Winnicott, 1971a/1975, p. 192).
3. Ressalta-se aqui que, quando Winnicott fala em “mãe suficientemente boa”, e, acompanhando-o,
diz-se “pai suficientemente bom”, ele está se referindo ao papel materno e ao papel paterno
essenciais ao crescimento saudável da criança. Assim, na falta da mãe biológica, ou do pai biológico,
esses papéis poderão ser desempenhados por quaisquer pessoas da família ou externas

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