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Dermatologia na Sífilis Isabela Candeloro Ribeiro A palavra sífilis vem do grego: sys = porco + philein = amar, sendo assim, significa “amor imundo”. A palavra lues, usada como sinônimo de sífilis vem do latim e significa praga, pestilência, epidemia e corrupção. Doença infecciosa, bacteriana, de transmissão quase sempre sexual (95%), de evolução crônica e sistêmica, pelo Treponema pallidum – patógeno exclusivo do ser humano, destruído pelo calor e falta de umidade e viável em meio favorável (7 dias a 35°C ou 28h a 37°C). Seu diagnóstico pode ser feito por meios diretos e indiretos e é tratada, geralmente, com penicilina. Ressalta-se que o Treponema pallidum não é cultivável. EPIDEMIOLOGIA: 12 milhões de casos novos no mundo (1995), sendo 90% deles nos países subdesenvolvidos. No Brasil (2003) estimou- se 937.000 novos casos. É a 2ª ou 3ª causa de úlcera genital nos países tropicais. De 1998/2004, no Brasil, tivemos 24.448 casos de Sífilis congênita. Nem todas as pessoas expostas adquirem a doença. Há possibilidade de cura espontânea da mesma. Não existem indicadores seguros que apontem maior ou menor susceptibilidade em indivíduos de diferentes sexos, raças e idades. 33% → Adquirem sífilis na primeira relação sexual com pessoa contaminada 63% → Cura espontânea 37% → Desenvolvem para fase crônica TRANSMISSÃO: ❖ Transmissão por via sexual, contato íntimo com área com lesão ativa nos lábios, cavidade oral, seios, genitália (p. ex.: beijo ou toque). O paciente com infecção ativa inocula o T. pallidum na área do corpo que é beijada. ❖ Via congênita: contágio é mais frequente intraútero, embora seja possível a infecção durante o parto (canal do parto) ❖ Transfusão de sangue ou hemoderivados (rara): testagem sorológica nos bancos de sangue, diminuição da incidência. O T. pallidum não sobrevive mais que 24-48h após armazenamento no banco de sangue. ❖ Inoculação acidental: inoculação direta por picada de agulha ou no manuseio de material infectado (a sífilis nos dedos é mais comum entre os profissionais da saúde). Fases de Maior Contágio: ❖ Cancro duro ❖ Lesões de mucosa ❖ Condiloma plano Para efeitos práticos, não há transmissão sexual quatro anos após a aquisição da doença. Fisiopatogenia da Sífilis Primária: O T. pallidum penetra através da mucosa intacta ou da pele lesionada (abrasão no ato sexual). A quantidade de inóculo varia para cada paciente. O treponema se divide a cada 30-33 horas. Logo após a infecção surgem PMNS no local da infecção e podem ser identificados treponemas fagocitados (M.E). Os treponemas não digeridos (resistentes aos fagócitos) darão continuidade ao processo patológico drenados para os gânglios locais. Os PMNS são substituídos por linfócitos T e plasmócitos e a ação dos macrófagos determina o aparecimento de uma mácula avermelhada que evolui para pápula. Em poucos dias esta pápula evolui para uma erosão bem delimitada, tipicamente arredondada, indolor, de superfície limpa. Lesões clínicas aparecem a partir da concetração aproximada de 10^7 bactérias/grama de tecido. O período de incubação é proporcional ao inóculo: durando de 10 a 90 dias (média de 2 a 3 semanas). O período de incubação entre inoculação e aparecimento do cancro duro oscila de 10 a 90 dias. Clínica da Sífilis 1ª: Caracterizada pelo cancro duro no local da inoculação, podendo ocorrer nos genitais, ânus, lábios ou outra área de contato direto com o treponema. Início como pápula única indolor, evoluindo para erosão e enduração → evoluem sem deixar cicatriz, na maioria dos casos. Bases lisas e de bordas elevadas e firmes, de consistência cartilaginosa. Fundo “limpo”, sem exsudato. É indolor, mas sensível ao toque. Pode estar acompanhada de linfadenopatia regional indolor. Salienta-se ainda que tais lesões são extremamente contagiosas (altamente transmissível neste estágio). Dura de 1 a 5 semanas (média de 3) e cura sem tratamento, não deixando cicatriz. 13 a 30% dos pacientes não notam a lesão, por ser indolor. Testes sanguíneos não detectam até 7 dias de evolução do cancro. Fisiopatogenia da Sífilis Secundária: Redução do cancro por resposta celular local predominante Th-1, mas alguns treponemas escapam da fagocitose. Há drenagem para linfonodo e baço – resposta humoral que parece eliminar o treponema (fim do primeiro estágio). Entretanto, após algumas semanas (em média 6 a 8 semanas), há nova proliferação e a doença torna-se generalizada (sencudarismo). Elevação dos níveis de Acs como resposta à grande quantidade de organismos e a deficiência na imunidade celular que permite a proliferação de organismos. Há mudança do tipo de resposta imune: de predomínio de Th1 (celular) para Th2 (humoral). Evento crítico a favor do parasita e o desenvolvimento de infecção crônica. Escape a uma resposta efetiva do sistema imune. Variações antigênicas resultam numa subpopulação de espiroquetas resistentes à fagocitose pelos macrófagos. Ocorre quando o número máximo de treponemas (grande carga antigênica) está presente no corpo, particularmente na corrente sanguínea. Treponemas podem ser demonstrados em vários tecidos, especialmente pele e linfonodos. A presença de treponemas, Ac específicos ou ambos, podem ser detectados no SNC, inclusive no humor aquoso ocular, em até 40% dos pacientes. Clínica da Sífilis 2ª: Espiroquetemia: disseminação do treponema por todo o corpo, com grande variedade de sinais e sintomas. Linfadenopatia generalizada frequente. Sintomas gerais leves: mal-estar, rouquidão, febre, mialgia, faringite, anorexia. Raramente meningites superficiais, irite, periostite, polineurites radiculares, neurites do acústico e do ramo oftálmico do nervo trigêmeo, nefrite (por deposição de imunocomplexos), manifestações hepáticas (hepatite) etc. Há lesões cutâneas em 80% dos casos, sendo descritas como sifílides, de distribuição simétrica e generalizada. Inicialmente máculas superficiais (não tem relevo) que evoluem tardiamente para pápulas e pústulas, sendo acompanhadas de febre, adinamia e astenia. Pode afetar face, tronco, palmas, plantas, genitália e ânus. As lesões podem ser contagiantes (principalmente mucosas). A Roséola Sifilítica é caracterizada por múltiplas máculas eritematosas, sem elevação, lenticulares, arredondadas, descamativas, podendo durar de horar a meses, com média de 4 semanas. Pode haver prurido ou dor ausentes (em geral) em tronco, raízes do MMSS e MMII, palmas e plantas. Há adenopatia generalizada. Sifílides palmoplantares com lesões eritematodescamativas nas mãos e pés (= diagnóstico diferencial de psoríase). Não é patognomônico. Sifílides maculopapulosas: pápulas de distribuição semelhante à da roséola. Podem surgir sobre máculas ou em pele sã. Comuns na face (área de implante do cabelos – coroa venérea), tronco, palmas e plantas. Podem ser disseminadas ou de padrão assimétrico. Também não é patognomônico. Sifilídes anulares: mais comum em negros. Imita a sarcoidose. Sifilídes pustulosas: raras. Apresentam pápulas grandes que sofrem necrose central. Sifílides acneiformes e sifílides rupioides. Sifilídes foliculares papulosas com alopecia em clareira (= “caminho de rato”), alopecia circunscrita, reversível, atingindo folículos pilosos com perda de cabelo, sobrancelhas /cílios e barba. Pode ser a única manifestação clínica do período. Ocorre em 5% dos pacientes infectados. Sinal de Fournier: madarose ciliar e supra-ciliar. O condiloma plano é caracterizado por lesões pápulo-erosivas (pápulas modificadas). Pápulas e placas, úmidas, cinzentas, de 1 a 3cm (não são vegetações como o condiloma acuminado). Regiões de dobras (atrito e umidade): vulva, pênis, ânus, parte interna das coxas, axilas, ângulos da boca e sob mamas pendulares. Concomitante a erupções cutâneas. São extremamente infectantes (a lesão mais infectante da sífilis). As lesões oraissão placas mucosas vermelhas escuras ou cobertas por superfície branca ou cinzenta, friável. Base hiperemiada e bordos delimitados por halo eritematoso. Acometem porção interna dos lábios, língua, laringe e faringe. Altamente infectantes. Ocorre em 1/3 dos casos de sífilis secundária. Incluem o Sinal de Cornill (= despapilamento em áreas da língua), Úlcera em Rastro de Lesma (= erosão em padrão arredondado, oval ou serpigionoso) e Comissurite Angular (= lesões nos cantos da boca, hipertróficas e dolorosas). Com ou sem tratamento as lesões da sífilis 2º somem em 2-10 semanas, exceto adenopatia que pode durar anos. Após o desaparecimento desse quadro inicia-se outro período de latência, temporário ou definitivo. Em 25% dos casos haverá recidiva, 90% em até um ano. Lesões em geral menos numerosas, maiores que as da 2º clássica, mais marcantes, arciformes ou policíclicas e de cor mais intensa. Isto sugere interação mais efetiva dos mecanismos imunes celular e humora contra o agente agresor. Clínica da Sífilis Latente: Período em que não há sintomas clínicos da sífilis e o exame LCR está normal. É composta de duas fases: ❖ Sífilis Latente Recente = fase entre a sífilis 1ª e 2ª. Após o término da sífilis 2ª até um ano após o surgimento do cancro duro. 40% dos pacientes evoluem para essa fase. ❖ Sífilis Latente Tardia = Após um ano do aparecimento do cancro duro. Na fase de latência, o diagnóstico de sífilis somente é possível por meio de testes sorológicos (p. ex., ELISA). Além disso, as recidivas do quadro secundário podem ocorrer até quatro anos após o contato e pode-se dividir em: latente recente (recidivas possíveis) e latente tardia (recidivas muito improváveis). Estágios da Sífilis: ❖ Sífilis recente < 1 ano de evolução: primária, secundária e latente precoce. ❖ Sífilis tardia > 1 ano de evolulão: latente tardia e terciária. Clínica da Sífilis 3ª: Sinais clínicos surgem após no mínimo um ano de infecção (em geral 10 a 15 anos), em até 1/3 dos não tratados. Considera-se como sendo um período destrutivo e não infectante da sífilis. As complicações do terciarismo aparecem isoladas ou associadas, sendo classificadas em: 1) Tardia benigna 2) Nervosa: lesões no cérebro, meninges ou medula 3) Cardiovascular: lesões no coração e aorta A Sífilis Tardia Benigna surge em geral após o 3º ano, podendo estender-se até 20 anos após a infecção. As lesões sifílides nódulo- cutâneas que podem evoluir para lesões gomosas, acometendo pele, subcutâneo, mucosas e ossos. Atingem principalmente pessoas negras. Lesões de extrema desorganização tecidual, que não parecem involuir espontaneamente e deixam cicatrizes inelásticas, em “papel de seda”, muitas vezes com áreas de hipo ou hipercromia (caso se localizem na pele). É benigna por sua pronta resposta à medicação. DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS: ❖ Sífilis 1ª: o Cancroide o Herpes genital o Granuloma inguinal o Linfogranuloma venéreo o Úlceras traumáticas o Infecções bacterianas o Doença de Behçet ❖ Sífilis 2ª: o Psoríase gutata o Farmacodermia o Doença exantemática o Pitiríase Rósea de Gibert ❖ Sífilis 3ª: o Psoríase o Sarcoidose o Leishmaniose o Micoses profundas DIAGNÓSTICO LABORATORIAL: Provas diretas: swab ou raspado das lesões. IFD ou IFI. Campo escuro. Lesões de cancro dura, condiloma plano e outras 2ªs. Visualizar o T. pallidum. Provas indiretas: ❖ Teste Não Treponêmico: o VDRL o RPR, ART, RST, EIA, TRUST o Positivos 1-4 semanas após o cancro 1ª, 6 semanas após exposição o Triagem e monitorização do tratamento o VDRL pode estar negativo na fase de sífilis primária. Além disso, o exame pode resultar em falso- positivo transitório em casos de malária, gravidez, mononucleose infecciosa, viremia e tuberculose; falso-positivo persistente (além de 6 meses), em hanseníase Wirchowiana e em doenças autoimunes (p. ex., lúpus); ou falso-negativas durante a sífilis 2ª (1 a 2%), decorrentes do excesso de anticorpos (= efeito prozona). ❖ Teste Treponêmico: o FTA-ABS, TP-PA, MHA-TP o Positivos antes do RPR TRATAMENTO: ❖ Sífilis Recente ou 1ª: o Penicilina G Benzatina, 2,4 milhões UI, IM, dose única em duas ampolas de 1,2 milhão UI aplicadas cada uma em cada glúteo. ❖ Sífilis 2ª ou Latente com < 1 ano de evolução: o Penicilina G Benzatina, 4,8 milhões UI, IM, duas doses de 2,4 milhões UI divididas em duas semanas. ❖ Sífilis 3ª ou Tardia (> 1 ano) e latente de duração ignorada: o Penicilina G Benzatina, 7,2 milhões UI, IM, três doses de 2,4 milhões UI divididas em três semanas. 1:8 Negativo ou início da infecção 1:16 Dúvida! (Esperar?) 1:32 Confirmado Tratamento em Alérgicos à Penicilina: ❖ Sífilis Recente, 1ª ou 2ª ou latente recente: o Doxiciclina 100mg, V.O., de 12/12h por 14 dias o Tetraciclina 500mg, V.O., de 6/6h por 14 dias* o Eritromicina 500mg, V.O., de 6/6h por 14 dias* o Azitromicina 500mg, V.O por 14 dias * Contraindicados em grávidas. ❖ Sífilis 3ª ou latente Tardia: o Doxiciclina 100mg, V.O., de 12/12h por 28 dias o Tetraciclina 500mg, V.O., de 6/6h por 28 dias o Cloranfenicol 2g IV ou 500mg, V.O., de 6/6h por 30 dias o Exame de LCR Tratamento – reação de Jarisch Herxheimer: Reação febril que ocorre após a 1ª dose de antibiótico na sífilis (em 6 a 12 horas). Febre, calafrios, mialgia, dores articulares, cefaleia, taquicardia, taquipneia, adinamia. Na sífilis 1ª: 50%; na 2º: 90%; latente precoce: 25%. A melhora ocorre em 12 a 24 horas. Seu tratamento é sintomática. Acompanhamento sorológico: ❖ Teste sorológico – VDRL. ❖ Primária, secundária e latente recente: 1, 3, 6, 12 e 24 meses após o tratamento. ❖ Latente tardia e terciária: 12 e 24 meses após o tratamento. ❖ Neurossífilis: 6, 12 e 24 meses após o tratamento. ❖ HIV+: 1, 3, 6, 12 e 24 após tratamento e depois anualmente. Convocação e tratamento dos contatos: ❖ Primária: 3 meses ❖ Secundária: 6 meses ❖ Latente recente: 1 ano ❖ Latente tardia: avaliar cada caso/parceiro atual/filhos ❖ Congênita: mãe e parceiro(s) sexuais. Acompanhamento sorológico – Resposta adequada: ❖ Primária: o 2 títulos (exemplo: 1:32 a 1:8) em 6 meses o 3 títulos em 12 meses o 4 títulos em 24 meses ❖ Secundária: o 3 títulos em 6 meses o 4 títulos em 12 meses ❖ Latente precoce: o 2 títulos em 12 meses.