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As úlceras genitais representam uma síndrome clínica, sendo muitas vezes causadas por Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), e se manifestam como lesões ulcerativas erosivas, precedidas ou não por pústulas e/ou vesículas, acompanhadas ou não de dor, ardor, prurido, drenagem de material mucopurulento, sangramento e linfadenopatia (íngua) regional. Várias IST se manifestam com úlceras genitais em alguma fase da doença, cujos agentes etiológicos infecciosos mais comuns são: Treponema pallidum (sífilis); HSV-1 e HSV-2 (herpes perioral e genital, respectivamente); Haemophilus ducreyi (cancroide); Chlamydia trachomatis, sorotipos L1, L2 e L3 (LGV); Klebsiella granulomatis (donovanose). O herpes genital é a doença ulcerosa genital de maior prevalência, além de ser uma infecção crônica. ETIOLOGIA É causado pelo herpes simples vírus (HSV). Os HSV tipos 1 e 2 pertencem à família Herpesviridae. Embora os HSV-1 e HSV- 2 possam provocar lesões em qualquer parte do corpo, há predomínio do tipo 2 nas lesões genitais e do tipo 1 nas lesões periorais. FISIOPATOLOGIA O vírus infecta células epidermais, formando eritema e pápulas na mucosa. Com a morte celular e a lise da parece celular, formam-se bolhas, que se rompem e levam, em regra, à úlcera dolorosa. Essas lesões, então, cicatrizam e formam crostas. Assim, as três fases das lesões são vesículas, úlceras e crostas. Após a infecção genital, o HSV ascende pelos nervos periféricos sensoriais, penetra nos núcleos das células dos gânglios sensitivos e entra em um estado de latência. A ocorrência de infecção do gânglio sensitivo não é reduzida por qualquer medida terapêutica, o que resulta em recorrência das lesões. HERPES GENITAL QUADRO CLÍNICO Os primeiros sintomas normalmente surgem após seis dias de contato com o vírus. Inicialmente, são vesículas de conteúdo citrino agrupadas em cachos sobre uma base eritematosa que se rompem rapidamente e originam úlceras policíclicas, cujos fundos apresentam-se recobertos por um induto amarelado e que regridem espontaneamente em aproximadamente sete a dez dias. Febre, mal-estar, dores no corpo e ardência ao urinar, com ou sem retenção urinária. Além de ínguas dolorosas na região da virilha. Se a infecção atingir o colo do útero, é comum o corrimento vaginal, que pode ser abundante. Entre os homens, o acometimento da uretra pode provocar corrimento e raramente é acompanhado de lesões extragenitais. O quadro pode durar de duas a três semanas. A repetição da infecção deve-se à reativação viral. Essa reativação decorre de quadros infecciosos, exposição à radiação ultravioleta, traumatismos locais, menstruação, estresse físico ou emocional, uso prolongado de antibióticos e/ou imunodeficiência. O quadro clínico das recorrências é menos intenso que o observado na primeira infecção e pode ser precedido de sintomas característicos, como prurido leve ou sensação de “queimação”, mialgias e “fisgadas” nas pernas, quadris e região anogenital. As lesões têm regressão espontânea em sete a dez dias, com ou sem cicatriz. A tendência natural dos surtos é se tornarem menos intensos e menos frequentes com o passar do tempo. DIAGNÓSTICO O diagnóstico baseia-se essencialmente na apresentação clínica das lesões. O diagnóstico laboratorial pode efetuar-se por cultura celular, PCR e testes sorológicos. O isolamento viral em cultura de células tem elevada sensibilidade quando existem lesões detectáveis. As vesículas devem ser perfuradas com uma agulha e o líquido colhido com uma zaragatoa. Um resultado negativo, no entanto, não exclui a infecção herpética. As técnicas de biologia molecular podem detectar simultaneamente os três agentes mais frequentes de úlcera genital (Treponema pallidum, Haemophilus ducreyi e os vírus Herpes simplex tipo 1 ou 2). Os testes sorológicos podem demorar entre 8 a 12 semanas após a infecção primária a tornarem-se positivos e servem sobretudo para o aconselhamento de casais, quando um tem sorologia positiva e o outro não. Estes testes não devem ser utilizados para diagnosticar infecções agudas. TRATAMENTO O tratamento deve ser iniciado nos primeiros cinco dias após o início dos sintomas para a infecção herpética primária e no primeiro dia ou durante o pródomo para as infecções recorrentes. A duração do tratamento deve ser prolongada se não existir cicatrização das úlceras após 10 dias. Quando há persistência das lesões ou recorrência destas apesar de tratamento, deve-se efetuar colheita para estudo da sensibilidade. ETIOLOGIA Bactéria Haemophilus ducreyi. QUADRO CLÍNICO Possui borda irregular e fundo sujo, recoberto por induto amarelado, necrótico e fétido. Quando removido, revela tecido de granulação friável e de base não infiltrada. As localizações mais frequentes, no homem, são o frênulo e o sulco bálano-prepucial, e na mulher, a fúrcula e a face interna dos pequenos e grandes lábios. Lesões satélites por autoinoculação são comuns, assim como cicatrizes desfigurantes. É acompanhado de adenite inguinal em 30% a 50% dos casos, um bubão inflamatório unilateral que tende a fistulizar por um único orifício. DIAGNÓSTICO A microscopia de esfregaços obtidos de lesões com exsudato abundante pode permitir a identificação de estreptobacilos organizados dois a dois, configuração comparada a “trilhos de trem”. Esse exame tem sensibilidade e especificidade bastante inferiores em relação à cultura. O seu diagnóstico definitivo é por isolamento em cultura a partir da úlcera ou do aspirado ganglionar. Na ausência de cultura, o diagnóstico baseia- se nos sinais clínicos, na negatividade da pesquisa de Treponema pallidum e Herpes simples no exsudado da lesão e na sorologia negativa para sífilis uma semana após o início das lesões. TRATAMENTO O tratamento é realizado com Azitromicina 1 grama em dose única. As úlceras devem ser mantidas secas e limpas e as adenomegálias com flutuação devem ser aspiradas, evitando-se a drenagem cirúrgica que atrasa a cicatrização. ETIOLOGIA Espiroqueta Treponema pallidum. CLASSIFICAÇÃO Sífilis primária ou cancro duro: ocorre após contato sexual com indivíduo infectado, em um período de incubação de 10 a 90 dias; Sífilis secundária: associada a bacteremia que se desenvolve entre 6 semanas e 6 meses após o surgimento do cancro; Sífilis latente: se caracteriza por sororreatividade sem evidências de doença primaria, secundaria ou terciaria; Sífilis terciária: pode surgir até 20 anos após a latência e se caracteriza por envolvimento cardiovascular, do sistema nervoso central e do sistema musculoesquelético. QUADRO CLÍNICO A sífilis que causa lesão genital é a primária, que se caracteriza por uma úlcera única, CANCRO MOLE SÍFILIS indolor, de bordas elevadas e que se cicatriza espontaneamente mesmo sem tratamento. Tipicamente é acompanhado de aumento dos linfonodos regionais, mais frequentemente unilaterais, em geral múltiplos, sendo que um se destaca pelo maior tamanho. São indolores, de consistência elástica e não supurativos. DIAGNÓSTICO Microscopia de campo escuro; Imunoflorescência direta; Pesquisa de anticorpos; Técnica de pcr. A vantagem da microscopia de campo escuro é a possibilidade de visualização da mobilidade em saca-rolhas, característica deste microrganismo. A sensibilidade oscila entre 73 e 78%. A imunoflorescência direta pode ser efetuada por técnicos menos especializados e não obriga à execução imediata do exame após a colheita. Tem uma sensibilidade de 73 a 100%, mas é mais dispendiosa, sendo necessário a existência de um microscópio de fluorescência. Os testes sorológicos permitem apenas um diagnóstico presuntivo e podem ser negativos até 3-4 semanasapós a transmissão de T. pallidum. Dividem-se em dois tipos: Testes não treponêmicos ou não específicos: Existem dois testes, o VDRL e o RPR, que se tornam positivos cerca de uma a quatro semanas após o aparecimento do cancro. Têm uma sensibilidade entre 78-87% e são fáceis de executar, sendo ideais para o rastreio desta infecção, necessitando, no entanto de confirmação com os testes treponêmicos. Estes testes devem ser também utilizados na monitorização da terapêutica. A sero-reversão ocorre cerca de seis meses após a terapêutica adequada, mas pode demorar anos ou não ocorrer em alguns casos raros, para os quais não se encontra explicação. Como desvantagem principal têm a possibilidade de originar falsos positivos, pela existência de anticorpos contra os antígenos utilizados em situações como gravidez, lúpus, hanseníase e toxicodependência. Testes treponêmicos ou específicos: Utilizam como antígeno T. pallidum para detectar anticorpos contra os componentes celulares treponêmicos. Existem testes de hemaglutinação (TPHA), de imunoflorescência indirecta (FTA-ABS), Elisa e Westernblot. Por serem testes com uma especificidade elevada são utilizados como testes confirmatórios. O FTA-ABS é o que mais precocemente se torna reativo. A sero-reversão após a terapêutica é rara e só ocorre muitos anos após a mesma. TRATAMENTO O tratamento da sífilis primária é realizado com Peniciliza benzatina 2,4 milhões de UI em dose única. ETIOLOGIA Chlamydia trachomatis sorotipos L1, L2 e L3. QUADRO CLÍNICO A fase de inoculação inicia-se por pápula, pústula ou pequena úlcera indolor, que desaparece sem deixar sequela. Pode ocorrer no reto e raramente na uretra ou no colo do útero. Dependendo de sua localização, pode apresentar exsudato mucopurulento. A fase de disseminação linfática regional desenvolve-se entre uma e seis semanas após a infecção. Em especial na mulher, a cadeia LINFOGRANULOMA VENEREO ganglionar acometida depende da localização da lesão inicial. Na última fase clínica da doença, chamada fase de sequela, o comprometimento dos gânglios evolui com fusão de linfonodos em uma grande massa, com liquefação e fistulização por orifícios múltiplos. O contato orogenital pode causar glossite ulcerativa com linfadenopatia regional. Pode cursar com proctite ou proctocolite. A doença pode ser acompanhada de sintomas gerais, como febre, mal-estar, anorexia, emagrecimento, artralgia, sudorese noturna e meningismo. DIAGNÓSTICO O diagnóstico é baseado nos sintomas e sinais clínicos, associados a títulos de anticorpos elevados. O diagnóstico laboratorial, à semelhança das outras infecções por Chlamydia trachomatis, pode-se realizar por cultura celular, imunoflorescência ou técnica de biologia molecular a partir do exsudado da úlcera ou endouretral, colhido por zaragatoa. A cultura tem, no entanto, uma sensibilidade inferior a 50%. TRATAMENTO O tratamento é realizado com Doxiciclina 100 mg duas vezes ao dia por 21 dias. À semelhança do cancro mole, as adenomegálias com flutuação devem também ser aspiradas através da pele sã. As fístulas e estenoses têm indicação cirúrgica. Também chamada de granuloma inguinal, é uma infecção crônica progressiva, causada pela bactéria Klebsiella granulomatis. Acomete preferencialmente a pele e mucosas das regiões da genitália, da virilha e do ânus. Causa úlceras e destrói a pele infectada. É pouco frequente, ocorrendo na maioria das vezes em climas tropicais e subtropicais. ETIOLOGIA Bactéria Klebsiella granulomatis. QUADRO CLÍNICO A lesão inicial pode ter aspectos variados. Pode iniciar-se com uma úlcera de borda plana que evolui para uma úlcera hipertrófica ou vegetante, com fundo granuloso, sendo única ou múltipla, bem delimitada, que evolui lenta e progressivamente. Tem aspecto vermelho vivo e fácil sangramento à manipulação. Há predileção pelas dobras cutâneas ou mucosas, com frequente “configuração em espelho”. As lesões costumam ser múltiplas, sendo frequente a configuração “em espelho”. Não ocorre adenopatia, mas raramente podem-se formar pseudobubões na região inguinal. Sem tratamento, as lesões podem deformar o local acometido. DIAGNÓSTICO O diagnóstico é baseado na clínica. A visualização microscópica dos corpos de Donovan (microorganismos vacúolos nos macrófagos) com a sua forma em alfinete de dama, após biópsia e coloração de Giemsa ou Wright, complementa o diagnóstico. DONOVANOSE O isolamento do microrganismo em cultura é difícil. TRATAMENTO O tratamento é realizado com Doxiciclina 100 mg duas vezes ao dia por 21 dias ou até sumir a lesão. Ministério da Saúde (Brasil). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Brasília: Ministério da Saúde, 2019. Halvorsen, JA, Brevig, T, Torkild AAS, Skar, A, Slevolden EM, Moi H. Genital Ulcers as Initial Manifestation of Epstein-Barr Virus Infection: Two New Cases and a Review of the Literature. 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