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Ana de Luca NEUROGENÉTICA Embora a neurologia e a psiquiatria tenham nascido como disciplinas essencialmente independentes, os avanços recentes no campo das neurociências tornaram muito difícil traçar uma linha precisa entre as “doenças do cérebro” (neurológicas) e “da mente” (psiquiátricas). Pesquisas neurológicas e psiquiátricas compartilham uma série de instrumentos, questões e referenciais teóricos. Nos últimos anos, com o crescimento exponencial do número de membros da Society for Neuroscience, associação norte-americana que reúne neurocientistas. CONTRIBUIÇÕES PARA NEUROCIÊNCIA Em neurologia → entre muitos outros insights, a elucidação da base genética de “doenças do cérebro” como a doença de Huntington e dos mecanismos fisiopatológicos subjacentes à doença de Alzheimer, além da perspectiva de utilização de células tronco na terapêutica do acidente vascular encefálico. Em psiquiatria (psicologia) → novas estratégias de pesquisa neurocientífica (que incluem o estudo de linhagens “enriquecidas”, a elucidação das interações gene -ambiente, o emprego de técnicas de neuroimagem para a investigação de distúrbios da regulação neural e o estudo da neuropatologia molecular nas psicoses endógenas) têm contribuído para a identificação dos sistemas disfuncionais no cérebro de pacientes portadores de “doenças da mente”. Evidências - “doenças do cérebro” e “da mente” compartilham muitos referenciais neurocientíficos. A educação de futuros psiquiatras, neurologistas e psicólogos deverá enfatizar a: Neurociência Básica, a Genética, a Neuroanatomia, a Neuropatologia, a Neuroimagem, a Neuropsicologia, a Neurociência Cognitiva, a Fenomenologia Comportamental, a Neuropsicofarmacologia e as intervenções psicológicas. Antes do século XIX: doentes mentais eram fechados em asilos e recebiam diversos tratamentos com a intenção de lhes restituir a razão. A partir do século XIX: distúrbios mentais começaram a ser tratados cientificamente como doenças. Emil Kraepelin (alemão; 1856-1926) é considerado o pai da psiquiatria e considerou fatores psicológico + sociais + biologia no tratamento de pacientes. CONCEITOS Saúde: para a OMS: estado de completo bem estar físico, mental e social. Saúde mental: “um estado de bem-estar no qual o indivíduo percebe o seu próprio potencial, é capaz de lidar com o estresse normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera e de contribuir para a sua comunidade.” Obs. não existia uma definição oficial de saúde mental, mas em 2005 a OMS reformulou o conceito de SAÚDE MENTAL. Doença mental: sofrimento, incapacidade e morbidade devido a perturbações mentais e neurológicas, e por uso de substâncias podendo ainda surgir devido a fatores genéticos, biológicos e psicológicos, bem como a condições sociais adversas e fatores ambientais. A saúde mental é parte integrante da saúde, e nenhuma delas pode existir sem a outra: a saúde mental, física e social são interdependentes e fazem parte de um conceito mais global de saúde. É reconhecida, assim, a influência dos fatores biológicos, psicológicos e sociais nas doenças mentais e físicas. Do mesmo modo, sabe-se que a saúde física exerce uma considerável influência sobre a saúde e o bem-estar mental (OMS). EPIDEMIOLOGIA Enquanto AVE ocupam a terceira posição entre as causas mais frequentes de morte (atrás apenas das doenças cardíacas e do câncer). As doenças do sistema nervoso como um todo são responsáveis por mais hospitalizações, mais cuidados de longa duração, e mais sofrimento crônico do que todos os outros transtornos combinados. ATUALMENTE • Se desconstruiu os estigmas que cercam a questão da saúde mental, com a Reforma Psiquiátrica que pretendeu estabelecer um novo estatuto social para o doente mental, que lhe garanta cidadania, o respeito a seus direitos e sua individualidade. • A reforma psiquiátrica pretendeu modificar o sistema de tratamento clínico da doença mental, eliminando gradualmente a internação como forma de exclusão social. • Este modelo foi substituído por uma rede de serviços territoriais de atenção psicossocial, visando a integração da pessoa que sofre de transtornos mentais a comunidade. Ana de Luca Os transtornos mentais estão descritos em duas publicações tradicionais, com utilização internacional: • CID-10 (Código Internacional de Doenças, da Organização Mundial de Saúde). • DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais, editado pela Associação Norte-Americana de Psiquiatria). Do ponto de vista experimental, as neurociências têm fornecido importantes insights genéticos e biológicos sobre as causas e a patogênese de uma variedade de doenças neurológicas, tais como a distrofia muscular, a doença de Huntington, as doenças dos canais iônicos e as formas familiares da doença de Alzheimer e da esclerose lateral amiotrófica. Infelizmente, a Neurociência não alcançou, na Psiquiatria, o pronto e notável sucesso obtido na Neurologia. TÉCNICAS DA GENÉTICA MOLECULAR E BIOLOGIA CELULAR Transtorno monogênico → ocorre mutação na sequencia do DNA de um único gene. Transtorno poligênico → – ocorre mutação na sequencia do DNA de muitos genes que se somam. Exemplo: Alzheimer - alelo E4 da apolipoproteína E — uma proteína multifuncional que participa do metabolismo dos lipídios cerebrais — é um fator de risco. Em 1980, um estudo realizado em uma grande família de indivíduos portadores da Doença de Huntington em uma ilha no noroeste da Venezuela possibilitou a coleta de amostras de sangue desses indivíduos, e a localização do gene da doença próximo ao fim do braço curto do cromossomo 4, com a subsequente identificaç̧ão da proteína ligada ao gene, a huntingtina, uma entidade progressiva e hereditária caracterizada por demência, alterações da personalidade e distúrbios do movimento, principalmente do tipo coréia. A coréia é uma condição caracterizada por contrações musculares breves, irregulares, arrítmicas e não-repetitivas que fluem de um grupamento muscular para outro. A morte geralmente ocorre uma a duas décadas após a manifestação dos primeiros sintomas. Estes decorrem da morte celular que ocorre no putâmen e no núcleo caudado, dois núcleos da base do telencéfalo. Esquizofrenia Uma revisão dos estudos realizados sobre essa região cromossômica identificou em indivíduos que apresentavam microdeleções na região 22q11 um risco duas vezes maior de desenvolver esquizofrenia do que em parentes de primeiro grau de pacientes portadores de esquizofrenia. A esperança inicial era de que a descoberta das mutações genéticas causadoras de formas familiares dessas doenças possibilitaria a compreensão automática de outras formas muito mais prevalentes de parkinsonismo e esclerose lateral amiotrófica (ou seja, as formas esporádicas). Infelizmente, isto não se mostrou verdadeiro, e a identificação da patogênese subjacente aos casos esporádicos tem sido extremamente difícil. A expansão do Projeto Genoma Humano para a análise do polimorfismo em um grande número de genes relevantes irá iluminar este tópico, bem como diferenças na resposta de pacientes a determinados tipos de intervenções terapêuticas, como a resposta ao lítio no transtorno bipolar e aos vários antidepressivos nas diversas formas de depressão. A complexidade genética, o papel formativo do ambiente e as variações que caracterizam a vulnerabilidade implicam importantes modificações nas principais teses sobre a determinação biológica dos transtornos mentais, sugerindo uma reconfiguração dos limites entre o “social” e o “biológico” nas pesquisas em neurociências.