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1 BASES NEUROLOGICAS E PSICOFARMACOLOGIA DOS TRANST. DEPRESSIVOS 1 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ............................................................................................... 2 2. BASES NEUROBIOLOGICAS E PSICOFARMACOLOGIA DOS TRANSTORNOS DEPRESSIVOS UNIPOLAR E BIPOLAR .......................................................... 4 REFERENCIA .................................................................................................. 19 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 INTRODUÇÃO O transtorno de humor bipolar (THB) é uma doença grave, incurável e de distribuição cosmopolita, afetando cerca de 1,5% dos homens e mulheres em todo o mundo. É considerada uma doença complexa, apresentando diversos quadros clínicos e vários modelos neurobiológicos e etiológicos que visam explicar o surgimento e a manifestação da doença. Desde os anos de 1970, estudos bioquímicos, genéticos e neuroendócrinos têm apresentado novos referenciais sobre a etiopatogenia do THB. Mesmo que já se possa considerar o THB uma doença bem estudada quando se analisa o número de estudos realizados avaliando diferentes aspectos neurobiológicos na doença, deve-se considerar que ainda existem poucos achados representativos que demonstrem evidências consistentes da associação entre estes achados com a etiopatogenia do THB. Ainda que a doença seja de difícil avaliação quanto à relação de causa e efeito entre o surgimento dos sintomas e os achados bioquímicos e moleculares descritos em pacientes bipolares, inúmeras alterações na função cerebral têm sido descritas em pacientes apresentando quadros de depressão e mania. Pesquisas utilizando modelos genéticos, neuro anatômicos, neuroquímicos e de neuroimagem no THB têm trazido importantes referenciais teóricos e conceituais para o melhor entendimento de como determinados mecanismos biológicos podem afetar a apresentação clínica, o curso e a resposta farmacológica na doença. A utilização de modelos animais também tem trazido novos conhecimentos sobre a neurobiologia do THB (Machado-Vieira et al., 2004). Os fatores neurobiológicos intracelulares e intercelulares envolvidos na fisiopatologia do THB incluem alterações em sistemas de neurotransmissão, segundos-mensageiros, vias de transcrição de sinal e regulação na expressão gênica. Apesar da grande quantidade e diversidade de estudos avaliando a biologia da doença, ainda pouco se sabe sobre a real associação entre os achados neurobiológicos do THB e as alterações comportamentais e neurovegetativas observadas nesses pacientes. A seguir, são descritos os principais achados neurobiológicos relacionados ao THB, divididos de acordo com o tipo de modelo utilizado. 4 2. BASES NEUROBIOOGICAS E PSICOFARMACOLOGIA DOS TRANSTORNOS DEPRESSIVOS UNIPOLAR E BIPOLAR Estudos têm descrito alterações neuroquímicas no THB, por meio da avaliação de diversos hormônios, neurotransmissores e seus metabólitos, segundos- mensageiros, fatores neuro tróficos e gênicos, tanto em plasma, líquor, plaquetas e fatias de cérebro. Com exceção da tireoide e do eixo adrenal, existem dados muito limitados relacionados à neuro endocrinologia do THB, especialmente no que se refere à mania aguda. Com relação às alterações em sistemas de neurotransmissão associados à doença, estudos têm descrito alterações na regulação de aminas biogênicas no THB (Young et al. 1994). Esses estudos têm demonstrado alterações na regulação dos sistemas no adrenérgico, serotonérgico, dopaminérgico e colinérgico. Essas aminas biogênicas são amplamente distribuídas no sistema límbico, as quais estão envolvidas na modulação do sono–vigília, do apetite, de funções endócrinas e de estados comportamentais, como irritabilidade e medo. Também tem sido sugerido que as alterações relacionadas a esses neurotransmissores monoaminérgicos possam ocorrer no THB em virtude de alterações na sensibilidade de seus receptores. Estudos avaliando o metabolismo no adrenérgico em pacientes maníacos comparados com controles normais descrevem aumento nos níveis ligúricos do metabólito da noradrenalina, 3-metoxi-4-hidroxifenilmetil-glicol (MHPG), e também elevação nos níveis urinários de noradrenalina. Quando utilizado o lítio, foi observada uma diminuição significativa desses marcadores nos pacientes maníacos. Outro neurotransmissor relacionado à biologia do THB é o ácido gama-aminobutírico (GABA). 5 Com relação ao sistema serotonérgico, anormalidades em genes do sistema serotonérgico, assim como elevação de cálcio intracelular induzido por serotonina (5- HT), são achados neurobiológicos descritos na mania bipolar. Com relação à noradrenalina, o conceito geral relaciona-se com aumento no turnover no adrenérgico na mania e diminuição na depressão. Porém, a noradrenalina é metabolizada também perifericamente pelo sistema simpático, o que pode dificultar a caracterização desses achados como provenientes do SNC. Da mesma forma, a presença de polimorfismos em genes moduladores da formação de dopamina, como a dopamina beta-hidroxilase sugere a participação do metabolismo dopaminérgico na doença. Cabe lembrar que, por ser uma doença multifatorial e poligênica do ponto de vista biológico, esses achados relacionados a alterações em sistemas de neurotransmissão tornam-se pouco representativos se avaliados de forma isolada. Futuros estudos que busquem trazer novos conhecimentos sobre a interrelação metabólica entre os diversos sistemas de neurotransmissão supostamente alterados no THB poderão propiciar melhor avaliação da importância desses achados. O estudo da possível relação entre as anormalidades observadas nesses sistemas de neurotransmissão e a manifestação clínica do THB também O ácido gama aminobutírico (GABA), principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central, também parece estar envolvido no THB. O GABA modula a atividade de vários neurotransmissores, incluindo serotonina, dopamina e noradrenalina. A síntese do GABA iniciasse pela descarboxilação de seu precursor, o glutamato. Diminuição nos níveis de GABA tem sido descrita no cérebro, líquor e plasma de pacientes bipolares. Também a maioria dos estabilizadores do humor apresenta efeitos terapêuticos mediados por modulação gabaérgica. Além disso, achados de disfunções no metabolismo da dopamina no THB relacionam-se aos achados de indução de mania com o uso de estimulantes com propriedades dopaminérgicas e polimorfismos em genes como a dopamina beta- hidroxilase, entre outros achados. 6 auxiliará na avaliação da influência de determinadas alteraçõesbioquímicas na modulação tanto do humor como de funções cognitivas e neurovegetativas. Em relação à amígdala, mais especificamente, um estudo observou diminuição significativa à esquerda, dois estudos encontraram aumento da amígdala, enquanto um estudo não encontrou diferenças entre bipolares e controles. Na região do hipocampo, um estudo demonstrou aumento significativo do hipocampo direito em pacientes bipolares, e outros quatro estudos não descreveram diferenças nesta região. No córtex pré-frontal (CPF), dois estudos demonstraram diminuição significativa especificamente da região submental de indivíduos bipolares com história familiar positiva para transtornos de humor, e outros cinco estudos não encontraram diferenças significativas no volume total ou em outras sub-regiões do CPF. Dessa forma, os achados neuro anatômicos das diversas regiões corticais cerebrais sugerem, principalmente, alterações da amígdala e diminuição do CPF submental, estruturas que são intimamente conectadas a regiões subcríticas e estão relacionadas com o controle da resposta emocional. Estudos que avaliaram os gânglios basais demonstraram aumento significativo do estriado, globo pálido e núcleo caudado em pacientes com THB. Alterações na estrutura cerebral também têm sido descritas no THB, por meio de estudos de neuroimagem (Soares e Mann, 1997). A maioria dos estudos que avaliaram o volume cerebral total e o grau de atrofia cortical não demonstrou diferenças significativas entre indivíduos bipolares e controles, enquanto um estudo encontrou a relação inversa entre a idade e o volume da substância cinzenta cerebral em indivíduos com THB, sugerindo uma possível perda neuronal induzida pelo transtorno. Além disso, o mesmo grupo encontrou aumento significativo da substância cinzenta cerebral em bipolares em uso de lítio, em comparação com controles normais e bipolares sem uso do fármaco. Estudos que avaliaram regiões cerebrais específicas de pacientes com THB demonstraram diminuição do volume temporal em bipolares masculinos, redução significativa apenas no córtex temporal esquerdo e aumento significativo do giro temporal superior anterior, em relação a esquizofrênicos e controles. No entanto, outros cinco estudos não observaram alterações volumétricas no córtex temporal entre bipolares e controles. 7 Um estudo demonstrou relação inversa entre a idade e o volume do putâmen, sobretudo em bipolares do tipo I, sugerindo alterações neurodegenerativas relacionadas com a idade nesta região. No entanto, seis estudos não encontraram alterações volumétricas significativas nos gânglios basais entre bipolares e controles. Os resultados observados nas regiões subcríticas e fossa posterior sugerem comprometimento dos gânglios da base e do cerebelo, estruturas associadas à modulação do afeto e da atenção, respectivamente. Em resumo, diminuição no córtex pré-frontal parece ser o achado mais consistente no estudo topográfico cerebral de pacientes bipolares. Também tem sido relatado alargamento de ventrículos, porém de forma menos consistente que na esquizofrenia. Ainda, alterações no volume de hipocampo e amígdala têm sido descritas na doença, porém sem homogeneidade destes achados específicos. Estudos realizados nos anos de 1990 descrevem de forma consistente a presença de hiper intensidades em substância branca subcrítica em bipolares, usualmente associadas a alterações vasculares, as quais são denominadas de “objetos brilhantes não-identificados”. Estima-se que indivíduos com THB possuem um risco três vezes maior de apresentar lesões hiper intensas em substância branca, que é a constatação mais prevalente nos estudos em neuroimagem. Cabe lembrar que tais achados não foram considerados como específicos ao THB, já que foi observada associação entre este 8 achado com idade avançada e alteração vascular em significativa proporção dos pacientes bipolares que apresentavam esta alteração. Com o uso de ressonância magnética funcional têm-se examinado as áreas cerebrais que ficam ativas em voluntários sadios versus pacientes com THB em vários estágios do transtorno (depressão, hipomancia, eutimia) por meio de paradigmas de ativação emocional utilizando estímulos com valência afetiva ou neutra. Tanto controles como pacientes com THB ativam regiões cerebrais relacionadas com controle dos afetos, incluindo o córtex pré-frontal e regiões anteriores do giro do cíngulo. Pacientes com transtorno bipolar utilizam áreas cerebrais diferentes (por exemplo, tálamo e hipotálamo) dos controles saudáveis (regiões do córtex frontal). Em contraste com controles saudáveis, pacientes com THB têm ativações adicionais em regiões subcríticas, tais como amígdala, tálamo, hipotálamo e porções mediais do globo pálido. Em tarefas de indução afetiva, pacientes bipolares em fase depressiva e na hipomancia apresentam ativações semelhantes entre si, mas diferentes dos padrões encontrados em controles saudáveis. Entretanto, as evidências sugerem que os pacientes com THB apresentam padrões de ativação subcrítica, que são tanto relacionados ao traço (THB) como ao estado (fase do humor). A técnica de espectroscopia por ressonância magnética (MRS) tem possibilitado o estudo do metabolismo de regiões específicas do cérebro humano in vivo (Stanley et al., 2002). Utilizando a espectroscopia por ressonância com próton (HMRS), dois estudos demonstraram aumento dos compostos de colina em pacientes bipolares eutímicos e deprimidos, sugerindo alteração do metabolismo dos fosfolipídios de membrana nesta amostra. No lobo frontal, foi observado aumento dos compostos de colina no córtex cingulado anterior direito, bem como diminuição significativa do N-acetil-aspartato na substância cinzenta de pacientes maníacos e mistos e no CPF dorsolateral de bipolares em eutimia, o que sugere diminuição da viabilidade neuronal nestas regiões. Dois estudos recentes demonstraram aumento significativo do pico de glutamato/glutamina no CPF dorsolateral esquerdo de bipolares maníacos e no giro cingulado de bipolares em uma amostra de bipolares em episódio depressivo ou 9 misto. Possíveis alterações do metabolismo dos fosfolipídios de membrana associados à fisiopatogênica do THB. Além disso, achados de diminuição do N-aceta aspartato no CPF e hipocampo sugerem a hipótese de disfunção neuronal no THB. Os estudos de neuroimagem estrutural e funcional convergem para um modelo de disfunção do circuito de regulação do humor, que compreende o CPF, o complexo amígdala–hipocampo, tálamo, gânglios da base e suas interconexões. Ainda, por meio de exames de tomografia por emissão de pósitrons (PET), observa-se ativação de regiões límbicas (porção submental do giro do cíngulo e ínsula anterior) e desativação cortical (córtex pré-frontal D e parietal inferior) tanto na indução de tristeza em indivíduos normais, como em portadores de transtorno depressivos. Com o tratamento para depressão, ocorrem mudanças recíprocas, pois há aumento na atividade das regiões corticais e diminuição na atividade límbica. Estudos avaliando a taxa de metabolismo cerebral global apresentam resultados controversos, como diminuição, aumento e nenhuma diferença entre pacientes bipolares e controles. Em relação ao CPF, diversos estudos descrevem diminuição no metabolismo da glicose durante episódio depressivo, observado pela técnica de PET. Na mania, como regra geral, observam-se diminuição significativa do metabolismo do CPF dorsolateral esquerdo e aumento do metabolismo no CPF submental. Ainda foi demonstrada diminuição do metabolismo da amígdala esquerda em bipolares maníacos e deprimidos com história familiar positiva. Os achados com PET e tomografia por emissão de fóton único (SPECT) sugerem, com certa consistência, hipometabolismocerebral durante a fase depressiva do THB e, embora com menos consistência, tendência ao hiper metabolismo em algumas sub-regiões cerebrais durante a fase maníaca. Cabe salientar que resultados isolados ou controversos necessitam de replicação por meio de estudos com amostras mais representativas e com melhor controle dos potenciais vieses. Estudos futuros devem determinar com mais precisão a participação e integração das diferentes regiões cerebrais durante o processamento de emoções, nas diferentes fases do transtorno (Stoll et al., 2000). 10 As proteínas G são um grupo de proteínas que desempenham papel fundamental na transcrição de informação celular através da membrana plasmática e têm sido associadas à fisiopatogenia do THB. Diversos sistemas de receptores do SNC são modulados pelas proteínas G, incluindo os receptores no adrenérgicos, serotoninérgicos, dopaminérgicos, colinérgicos e histaminérgicos, entre outros. A ativação de neuro receptores modula o fluxo de íons através de canais de membrana, além de controlar a atividade de uma variedade de enzimas “efetoras” das células da membrana, as quais regulam a função celular via produção de segundos- mensageiros intracelulares. O AMPc é um segundo-mensageiro responsável pela sinalização intracelular, que também parece mediar a ação terapêutica dos estabilizadores de humor pela regulação exercida na liberação de neurotransmissores e expressão gênica no cérebro. A proteína G ativa a fosfolípide C (PLC), formando os segundos mensageiros diacilglicerol (DAC) e inositol-trifosfato (IP3 ). O DAC age ativando a proteína quinase C (PKC), gerando aumento na excitabilidade neuronal e na liberação de neurotransmissores. Estudos têm descrito aumento de PKC no THB, mas pouco se sabe sobre a importância deste achado na biologia e na manifestação clínica da doença. Já o IP3 age liberando os estoques de Ca+2 intracelular, necessários para a modulação neuronal. Estudos demonstram aumento nos níveis intracelulares de cálcio em pacientes com THB, especialmente associado à mania. No entanto, pouco se pode inferir sobre a possível associação entre esses achados com a etiopatogenia e a manifestação da doença, já que a maioria das pesquisas que descrevem achados relacionando o THB com alterações em segundos mensageiros envolve um pequeno número de pacientes A ligação de um neurotransmissor ao seu receptor de membrana desencadeia uma cascata de processos neuroquímicos que incluem os sistemas de segundosmensageiros, e vários destes têm sido associados à etiopatogenia do THB (Ghaemi et al., 1999). Os segundos-mensageiros associados à etiopatogenia do THB são as proteínas G, AMPc (monofosfato cíclico de adenosina), PKC (proteína quinase C) e IP3 (inosotol-trifosfato), entre outros (Manji e Lenox, 2000). 11 em estudos post-mortem ou via avaliação de material biológico de origem periférica. Conhecimentos adicionais relativos à etiopatogenia do THB também têm surgido a partir de estudos avaliando os efeitos dos estabilizadores do humor em diversos sistemas de neurotransmissão, neuroplasticidade e em cascatas de segundos e terceiros mensageiros (Manji et al., 2000). Também, tem-se buscado relacionar esses efeitos bioquímicos com os efeitos terapêuticos de tais fármacos. Pesquisadores têm investigado os efeitos de estabilizadores do humor na atividade de fatores de transcrição ligados ao DNA (por exemplo, AP-1) e relacionados à manutenção da vitalidade celular. O lítio, em concentrações terapêuticas, tem demonstrado aumentar a captação de AP-1. É sabido que os genes regulados pela AP-1 incluem vários neuropeptídios, neurotoxinas, receptores, fatores de transcrição e enzimas que estão envolvidos na neuroplasticidade e neuro proteção. Porém, o significado clínico dessa constatação permanece desconhecido, podendo-se perguntar: será que os conhecidos estabilizadores de humor serão os neuro protetores de amanhã? O exato efeito da alteração na expressão desses genes ainda não está claramente elucidado. O valproato e a olanzapina também parecem estar associados a modificações similares na expressão de marcadores relacionados à neuroplasticidade, incluindo-se o fator neuro trófico derivado do cérebro. Estudos recentes sugerem que o THB esteja relacionado a disfunções mitocondriais. Em estudo post-mortem avaliando genes nucleares em hipocampo de pacientes bipolares, foi encontrada diminuição na expressão de inúmeros genes diretamente relacionados à atividade mitocondrial (Konradi et al., 2004). Esse estudo corrobora dados anteriores e a hipótese de Kato, da Universidade de Tóquio, que sugere depleção mitocondrial e alteração no metabolismo energético de bipolares (Kato e Kato, 2000). Entretanto, os resultados que reforçam essa hipótese são ainda pouco conclusivos. 12 Segundo Rajkowska (2002), os achados neurobiológicos mais consistentes e representativos do THB são alterações em células gliais. Estudos demonstraram significativa diminuição no número e na densidade glial (não no tamanho) no THB. Outro estudo também descreveu diminuição na densidade de oligodendrócitos (tipo de célula glial) na mesma área. Essa alteração não deve ser considerada como o principal achado neuropatológico no THB, mas sim determinadas alterações neuronais (especialmente em neurônios não piramidais gabaérgicos). Como base para tal argumentação, observa-se que há apenas um estudo que demonstrou redução na densidade glial em bipolares sem uso de estabilizadores do humor. Em outra revisão, foram descritas alterações metabólicas integradas entre neurônios e glia na doença. Como base referencial, cabe lembrar que os achados de estudos histopatológicos no THB foram obtidos por meio da utilização de pequenas amostras de pacientes, sem replicação posterior. Em resumo, achados neuropatológicos descritos a partir da realização de estudos post-mortem, os quais demonstraram alterações morfológicas e morte de neurônios e células gliais em cérebro de pacientes bipolares, são inconclusivos. Esses estudos foram realizados utilizando pacientes suicidas, com poli farmácia, dependência química e outros fatores representativos de viés amostral. O tamanho da amostra desses estudos limitou-se a dez, no máximo vinte pacientes, o que, pela lógica científica, exclui a possibilidade de extrapolar esses achados como sendo característicos da doença, mesmo que alguns autores assim proponham. Quanto aos estudos genéticos no THB, ainda não existe nenhum marcador genético associado diretamente com o surgimento da doença. Todos esses avanços descritos no estudo da neurobiologia do THB devem ser interpretados com cautela e sem generalizações. Em alguns tópicos, diversos achados devem ser replicados e conduzidos com amostras maiores e menos heterogêneas. A falta de modelos animais da doença que incluam os ciclos de mania e depressão e que tenham suficiente validade preditiva e de construto para extrapolar os achados encontrados para humanos é um dos fatores que limitam a produção de novos conhecimentos sobre as bases biológicas do THB. As perspectivas mais promissoras no estudo das bases biológicas da bipolaridade parecem estar associadas com a realização de estudos genéticos, de 13 biologia molecular e neuroimagem funcional em portadores. Essas linhas de pesquisa têm provido descobertas recentes e ainda poderão trazer importantes contribuições sobre a etiopatogenia do THB. O uso continuado dos estabilizadores do humor parece ser fundamental não somente para manter o quadro de humor estável, mas também para evitar o surgimento de modificações bioquímicas relacionadas a certo grau de dano neural. Por outro lado, a não aderência ao tratamento farmacológico e a consequente agudização do THB pode determinar danos celulares secundários e alterar de formaconsistente, e por vezes irreversível, o processo cognitivo e o curso e prognóstico da doença. Estudos que avaliem a modulação induzida pelos estabilizadores de humor em sistemas de neurotransmissão e neuro proteção neurônio-gliais poderão prover novos conhecimentos sobre a neurobiologia e auxiliar a descoberta de novas opções terapêuticas para o tratamento dos pacientes portadores dessa doença tão complexa. Os transtornos mentais estão entre as principais causas de morbidade no mundo. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), eles afetam de 5 a 25% da população adulta e estão entre as seis principais causas de incapacidade. Segundo estimativas do Ministério da Saúde, no Brasil, cerca de 23 milhões de pessoas (12% da população) necessitam de atendimento em saúde mental e pelo menos 5 milhões de brasileiros (5% da população) sofrem com transtornos mentais graves e persistentes. A OMS atribui 25% do total de anos vividos com incapacidade (YLDs) aos transtornos mentais, como depressão unipolar, transtornos relacionados ao uso de álcool, esquizofrenia e transtorno bipolar. Esses transtornos também estabelecem interações desfavoráveis em outros problemas médicos, resultando em maior morbidade e mortalidade3, 4. Portadores de transtornos mentais costumam ter hábitos de vida menos saudáveis que a população geral (sedentarismo, dieta inadequada, tabagismo e uso de substâncias) e sua saúde física tende a ser negligenciada por profissionais de saúde e desfavorecida pela própria organização dos serviços de saúde. Apenas a minoria desses indivíduos recebe algum tipo de tratamento em serviços de saúde e o início do tratamento é frequentemente é tardio. Inquéritos comunitários demonstram que menos de metade dos portadores de transtornos mentais buscam tratamento em serviços de saúde (46,2% entre os portadores de 14 transtornos graves e 18,3% entre os demais transtornos). Um dos principais motivos é a relutância devido ao potencial de se expor ao estigma. A rota para a procura de tratamento implica também uma sequência de interações entre a disponibilidade ou acessibilidade dos serviços de saúde e crenças ou atitudes acerca dos transtornos mentais e de seu tratamento12. O transtorno bipolar do humor (TB) é uma entidade diagnóstica relativamente nova na classificação psiquiátrica, adotada oficialmente desde a publicação do DSMIII (terceira revisão do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 1980)1. Nesse sistema classificatório emergiu o grupamento dos transtornos afetivos ou transtornos do humor, que substituíram a tradicional entidade nosológica conhecida como psicose maníaco-depressivai (PMD), descrita por Kraepelin início do século passado. Tende a evoluir com múltiplas recorrências e sintomas Inter episódicos de menor gravidade, especialmente depressivos. A partir de sua delimitação, o TB passou a ser descrito como uma condição habitualmente crônica e associada com significativa morbidade, incapacidade e a elevado risco de mortalidade 22, 23, 24, com pior prognóstico do que a depressão unipolar. Os portadores desse transtorno apresentam também altas taxas de suicídio, desemprego, divórcio, utilização de serviços médicos e hospitalizações. O tratamento do TB envolve a terapêutica para seus episódios agudos e estratégias de longo prazo, que incluem medidas farmacológicas e intervenções psicossociais. O tratamento é O grupo dos transtornos de humor foi constituído pelo transtorno depressivo unipolar e pelo TB, quadros cuja característica básica é a ocorrência de variações patológicas de humor que engendram um cortejo de manifestações sintomáticas associadas. O TB é um dos transtornos mentais potencialmente mais graves e prevalentes. Caracteriza-se pela ocorrência de episódios depressivos e episódios maníacos ou mistos (TB tipo I) ou hipomaníacos (TB tipo II)ii, sucedidos ou intercalados com períodos de remissão. É uma condição de curso prolongado, de início precoce e associada com elevados custos sociais e pessoais. 15 eficaz na remissão dos sintomas, na prevenção de novos episódios e na melhora do seu prognóstico. Apesar disso, de 12 a 64% dos pacientes não aderem ao tratamento e, dentre os vários fatores responsáveis por esse fenômeno, o estigma também é apontado29, 30, 31. Inquéritos comunitários apontam frequências durante a vida de 1-2%, para o TB32, 33, mas considera-se que existe disparidade entre a importância do transtorno na prática psiquiátrica clínica e sua prevalência relativamente baixa nos estudos populacionais. Tal disparidade é atribuída às definições conservadoras do TB utilizadas nessas estimativas de prevalência. Por causa delas, grande parte daqueles que atualmente recebem o diagnóstico de depressão unipolar apresentariam evidências de bipolaridade que não são reconhecidas com a aplicação dos critérios diagnósticos restritos preconizados nas classificações psiquiátricas oficiais38. Isso também teria impactos na clínica, já que grande número de pacientes permaneceria longo tempo sem o diagnóstico correto e, portanto, expostos aos prejuízos da falta da terapêutica adequada e aos efeitos adversos de tratamentos inadequados. A falta de insight dos próprios pacientes a respeito das manifestações mais leves do polo maníaco é outro fator que concorreria para o baixo reconhecimento do transtorno. Desde a década de 1980, o TB vem sendo objeto de crescente interesse no campo da Psiquiatria41. As concepções sobre o TB vêm sendo constantemente reformuladas, e existe uma tendência à ampliação de sua abrangência de modo a incluir variações de humor mais sutis e transitórias, gerando estimativas de prevalência mais altas, de até 10%42, 43. As repercussões das mudanças nas definições do TB sobre a prática psiquiátrica são desconhecidas. Não tivemos acesso a estudos que identificam como suas mudanças conceituais afetaram as noções que profissionais de saúde, o público em geral e os pacientes e seus familiares têm sobre o TB. O estigma associado ao TB também é outro tema pouco abordado na literatura. As crenças e atitudes dos psiquiatras têm grande impacto sobre a opinião pública, devendo ser conhecidas e consideradas ao se propor medidas para melhorar a assistência médica aos transtornos mentais. Conhecer as concepções destes profissionais pode ampliar a compreensão de suas influências sobre as intervenções 16 psiquiátricas, sobre as atitudes e crenças de pacientes, de seus familiares e de outros profissionais de saúde diante deste transtorno mental. As influências mútuas entre cultura e a evolução dos conceitos médicos, no caso do TB, e seus efeitos nas maneiras de pensar e agir dos psiquiatras entrevistados. Constituiu um esforço de integrar dados históricos e epidemiológicos com interpretações culturais de percepções dos psiquiatras acerca da evolução dos conceitos sobre o TB e do estigma associado a esse transtorno. Com isso, pode ajudar a compreender como as mudanças nos conceitos repercutiram sobre as concepções e práticas dos profissionais diretamente envolvidos no tratamento desses pacientes. A partir de tal compreensão, são possíveis alguns esclarecimentos sobre a assimilação dos conceitos psiquiátricos científicos pelos profissionais de saúde e suas influências sobre a prática clínica e sobre a vida dos portadores de TB. Expusemos como as mudanças recentes nas concepções sobre o TB e o fenômeno relacionado do aumento da prevalência do TB podem ser concebidos como construções culturais. Estabelecemos caminhos interpretativos sobre a influência mútua entre o conhecimento médico e fatores sociais e culturais na construção dos conceitos sobre o TB e na manutenção do estigma em relação a esse e outros transtornos mentais. Verificamos também como as práticas dos psiquiatras são afetadas por esses conceitos, queeles próprios ajudam a construir, sustentar e difundir. Pudemos constatar entre esses profissionais a predominância da concepção biomédica sobre o TB, cujo tratamento é considerado eminentemente medicamentoso. Mudanças conceituais sobre o transtorno foram assumidas em sua prática, apesar das críticas e desconfianças em relação aos interesses que as motivaram. Eles adotam as mudanças na medida em que permitem flexibilidade para indicar intervenções baseadas em sua própria experiência clínica. A diminuição do estigma em relação ao TB nos últimos anos é outro benefício reconhecido, embora o estigma permaneça como um desafio que esses indivíduos enfrentam, especialmente no campo do trabalho. A adesão é considerada a principal dificuldade encontrada na condução do tratamento, como consequência de comprometimentos do insight, da falta de informação e do próprio estigma. Persistem fortes influências dos modelos psicopatológicos predominantes à época da formação desses profissionais, especialmente baseados na oposição entre 220 neurose e psicose. 17 Eles assumem que as concepções adotadas pela medicina podem refletir ideologias e interesses econômicos e denunciam a banalização do diagnóstico psiquiátrico. Demonstram algumas práticas de resistência ao modelo biomédico hegemônico, como interesse na busca do sentido pessoal das experiências dos pacientes e o incentivo à tomada de responsabilidades sobre a própria vida. As intervenções terapêuticas, entretanto, ficam centradas em casos individuais e nos aspectos neurobiológicos do transtorno, com intervenções pouco voltadas aos aspectos sociais. A evolução e construção das concepções recentes sobre o TB oferecem uma ilustração sobre as relações de influências mútuas entre a cultura e a ciência. Evidenciam o desafio de avaliar criticamente as concepções científicas sobre os transtornos mentais e de manter a Psiquiatria como campo integrador entre as perspectivas biológicas e psicossociais, diante das pressões de interesses econômicos e ideológicos. A situação do TB expõe alguns desafios da abordagem dos transtornos mentais em saúde pública, que implica lidar com situações tão extremas, como por um lado, os excessos (de diagnósticos, da medicalização, do consumo e outros bens da cultura), e por outro lado, com carências de acesso à assistência médica de qualidade e outros recursos em saúde. Somam-se a isso outras barreiras à assistência em saúde e à qualidade de vida em geral, em que o estigma representa outro desafio a ser enfrentado. Uma das mais importantes medidas de combate ao estigma envolve as próprias interações com profissionais e com os serviços de saúde. Neste estudo, identificamos algumas atitudes e práticas que podem inadvertidamente contribuir para reforçar estereótipos e discriminações. Grande parte das técnicas para investigação do estigma favorece o predomínio de respostas socialmente desejáveis, o que pode constituir numa limitação deste 18 estudo. Consideramos a susceptibilidade das entrevistas a esse tipo de respostas, particularmente porque concepções negativas sobre transtornos mentais podem constituir em um grande tabu para o grupo estudado. Outra limitação decorre de não termos observado diretamente as relações com o grupo dos portadores de TB, já que nem sempre as reais situações de discriminação podem ser avaliadas a partir das atitudes ou crenças relatadas. Ao explorar de forma inédita a perspectiva de psiquiatras, este estudo pode ampliar a compreensão sobre o estigma associado ao TB e as suas implicações e sobre as forças e condições sociais, culturais e morais que contribuem para a sua manutenção. Assim, seus resultados podem orientar futuras pesquisas sobre o tema e construir sobre as políticas públicas e intervenções para combater esse estigma em diferentes níveis, como na elaboração de abordagens educativas e de intervenções que tenham impactos positivos na assistência, por exemplo, na adesão ao tratamento ou na organização de serviços de saúde voltados para esse grupo de pacientes. Também podem auxiliar no esclarecimento e na abordagem de alguns entraves na assistência profissional aos portadores desses transtornos. 19 REFERÊNCIA GHAEMI, S.N.; BOIMAN, E.E.; GOODWIN, F.K. - Kindling and Second Messengers: an Approach to the Neurobiology of Recurrence in Bipolar Disorder. Biol Psychiatry 45: 137-144, 1999. KATO, T.; KATO, N. - Mitochondrial Dysfunction in Bipolar Disorder. Bipolar Disorders 2: 80-190, 2000. KONRADI, C.; EATON, M.; MACDONALD, M.L. et al. - Molecular Evidence for Mitochondrial Dysfunction in Bipolar Disorder. Arch Gen Psychiatry 61: 300-308, 2004. 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