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Ana Clara Quirino – 69 Página | 1 FACULDADE DE MEDICINA DE BARBACENA GASTROENTEROLOGIA, CLÍNICA MÉDICA I AULA 5 – Prof. José Eugênio SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL Definição o É uma doença funcional de diagnóstico de exclusão, com distúrbio da motilidade intestinal, que preencha os seguintes critérios: Dor abdominal iniciada há 6 meses com piora há 3 meses, associadas há 2 ou mais dos seguintes sintomas: Relação da dor com a evacuação (melhora depois da evacuação); Mudança na frequência das evacuações (demais - diarreia ou de menos - constipação); Mudança na forma/aparência das fezes: ressecadas ou líquidas. o Sintomas que auxiliam no diagnóstico: Frequência das evacuações: 3 ou menos evacuações (constipação) por semana ou mais que 3 evacuações por dia (diarreia); Fezes endurecidas ou encaroçadas constipação; Fezes amolecidas ou aquosas diarreia; Esforço na evacuação, chamado de TENESMO; Sensação de esvaziamento incompleto, chamado de PUXO (comum no paciente constipado); Urgência para evacuação, no caso da diarreia; Muco nas fezes ou CATARRO, comum na diarreia; Flatulência e/ou distensão abdominal GASES (diarreia e constipação). o Sinonímia Colite Colite nervosa: + usado Cólon espástico Diarreia nervosa Síndrome do Cólon Irritável (SCI) Fisiopatologia o Envolve alterações funcionais, porém sem alterações anatômicas ou bioquímicas, portanto sem marcadores evidentes (exames de imagem e laboratorial); o Principais alterações funcionais: 1. Alteração da sensibilidade visceral: – O paciente sente muito mais dor que o normal; Ana Clara Quirino – 69 Página | 2 – A hipersensibilidade visceral provoca estímulo de dor durante a digestão e labilidade emocional – Individuo saudável: possui mecanismo de filtragem, o estimulo fisiológico não provoca dor nem sintomas, apenas o estimulo nocivo (infecção intestinal, parasita); – Individuo com SII: tanto o estimulo fisiológico quanto o nocivo provoca sintomas. Acredita-se que o “filtro” deste estímulo não funciona nos portadores. 2. Alteração da motilidade intestinal: – A serotonina (5HT) é quem modula os reflexos peristálticos através dos seus receptores na parede intestinal. Os medicamentos mais modernos são esses: 3. Redução da tolerância à distensão: – Experiência de distensão do reto com balão mostra que a mínima distensão ocasiona vontade de evacuar, principalmente nos pacientes com diarreia; – Há um > da sensibilidade à dor/ – Mesma quantidade de gases no paciente com SII e em outro sem SII, o 1º terá dor e o 2º não terá dor. Labilidade emocional Epidemiologia: dados do Consenso Latino Americano (muito prevalente) 5 HT3 – antagonista 5 HT4 - agonista A doença começa na adolescência, mas o paciente procura o médico em idade mais avançada. Ana Clara Quirino – 69 Página | 3 Classificação antiga: 3 subgrupos SII – C: predominância de constipação SII – D: predominância de diarreia SII – A: alternância de sintomas Classificação atual – Roma IV: 4 subgrupos o SII – C (SII com constipação): Fezes endurecidas/encaroçadas em 25% ou mais das evacuações e fezes amolecidas/aquosas em menos de 25%. o SII – D (SII com diarréia): Fezes amolecidas/aquosas em 25% ou mais das evacuações e fezes endurecidas/encaroçadas em menos de 25%. o SII – M (SII mista): Fezes endurecidas/encaroçadas em 25% ou mais das evacuações e amolecidas/aquosas em 25% ou mais. o SII – U (SII não subtipada): Sem alterações na consistência das fezes para classificá-las como C, D ou M; O paciente tem o quadro clinico, mas não tem alteração nas fezes. Tríade prática: Aspectos dos sintomas o Diarreia: Geralmente indolor (não é via de regra), porém com tenesmo De 3 a 6 episódios pôr dia, com pouco volume Fezes pastosas ou líquidas, geralmente com muco/catarro (gosma) Geralmente matinal ou até após almoço Não desperta o paciente durante a noite Duração variável, porém de 1 a 5 dias o Constipação: Fezes mais endurecidas que o normal Ressecadas, afiladas ou cibalos (depois de 2/3 dentro do intestino as fezes perdem água e desidrata); Ana Clara Quirino – 69 Página | 4 Às vezes com muco e sem sangue (se apresenta sangue: pensar em outro diagnóstico associado ou então deve ser revisto o diagnóstico de SII) Dor abdominal difusa, acentuadamente no hemiadome esquerdo (cólon descendente/E é mais estreito, e as fezes já estão formadas ou quase); Sensação de esvaziamento incompleto (puxo). o Meteorismo: Intenso: excesso de gases, com ou sem eliminação de flatos, resultando em importante distensão abdominal (“barriga inchada”); Causado e piorado por alimentos que fermentam – exemplos: que contêm sorbitol (suco de pera, maçã, pêssego), lactose (leite), rafinoze (feijão). o Dor abdominal: Geralmente em cólica, difusa ou localizada no flanco e fossa ilíaca esquerda, com ou sem distensão; Melhorada pela evacuação ou eliminação de flatos; Piora com a constipação prolongada e após a alimentação; Às vezes a dor ou distensão predomina sobre as alterações intestinais (QP= dor, desconforto, mal estar na barriga). ESCALA DE BRISTOL: Tipos 1 e 2: Prisão de Ventre ou Constipação verdadeira Tipo 3: Constipação leve Tipo 4: Fezes normais Tipo 5: Fezes fáceis de evacuar Tipos 6 e 7: Diarreia Ana Clara Quirino – 69 Página | 5 o Labilidade emocional: Indivíduos que têm tendência a somatizar; Angustia, depressão, ansiedade predispõe a doenças funcionais Epidemia nos idosos durante a pandemia: muito tempo em casa sem ver ninguém. o Outros sintomas do TGI: náuseas, pirose, azia, disfagia o Outros sintomas sistêmicos: Cansaço, sudorese, polaciúria, palpitação, dispneia, lombalgia, cefaleia, dismenorréia,etc. Exame Físico o Pode ser insignificante; o Leve distensão abdominal (perguntar se ocorre durante o dia, se o manequim é 38 de manha e 42 de tarde?); o Dor na região do sigmoide; o RHA aumentado ou reduzido; o Toque retal doloroso. Diagnóstico o Aspectos clínicos favoráveis ao diagnóstico, além dos critérios de Roma IV: sempre começando há 6 meses atrás (15 dias esquece) Dor abdominal baixa Piora com a alimentação, melhora com a evacuação Alterações do hábito intestinal (diarreia e constipação) Sintomas não despertam o paciente de madrugada Distensão abdominal Evacuação com pequeno volume Sintomas crônicos de severidade variável o Aspectos clínicos desfavoráveis ao diagnóstico: Aparecimento no idoso Sintomas despertam o paciente Hemorragia (exceto quando há doenças associadas que causam hemorragia): não é comum, porém o paciente constipado pode ter hemorroida e sangrar Evolução progressiva: neoplasia, doença orgânica Febre e perda de peso: doença funcional não causa isso Esteatorréia Desidratação Diagnóstico Diferencial: Patologias orgânicas Doença inflamatória Intestinal (DII): doença de chron (dor intensa e complicações) e retocolite ulcerativa (sangramento); Colite microscópica: colonoscopia normal, mas biópsia alterada; Ana Clara Quirino – 69 Página | 6 Super Crescimento Bacteriano Intestinal: excesso de bactérias comum nos diabéticos (doença orgânica, trata com antibiótico); Intolerância às dissacaridases (lactose, frutose, rafinose): afasta a causa e o paciente melhora; Doença Celíaca; Sensibilidade ao glúten NÃO celíaco: sensibilidade ao glúten sem ter doença celíaca; Parasitoses. Exames Complementares o EPF: 3 amostras, muitas vezes há “falso negativo” (tem parasita e não mostra); o Pesquisa de sangue ocultocom técnica de anticorpo monoclonal específico para hemácia humana se positivo: doença orgânica; o Enema opaco: pouco esclarecedor; o Reto-sigmoidoscopia: pouco esclarecedor; o Diagnóstico sempre de exclusão: padrão ouro para exclusão de doença orgânica: colonoscopia com biópsia (descartar colite microscópica); o Lembrando que pode ter doença funcional + orgânica associadas; o Maioria dos casos o diagnóstico é clínico. Tratamento o Objetivos: Melhorar os sintomas; Modificar os fatores que agravam a doença, sobretudo alimentares e emocionais; Orientar ao paciente para se adequar à síndrome (não tem cura, doença crônica). o Tratar quanto à predominância dos sintomas: Diarreia ou Constipação. a) Tratamento - dietético Eliminar as “bombas intestinais” Pois reduz o meteorismo, a flatulência e a diarreia Leite: devido à lactose Pêssego, uva, ameixa, maçã, pêra, chocolate e doce: devido a frutose e sorbitol; Feijão, cerveja, repolho, batata dôce, ervilha, grão de bico, lentilha, milho: devido à rafinose; Alho, pimenta do reino, refrigerantes; Fibras: Essenciais na melhora da constipação, porém com cuidado devido ao aumento do meteorismo, caso não melhore a constipação. Ana Clara Quirino – 69 Página | 7 Consumo médio de fibra: 17 grs/dia (baixo) National Cancer Institute recomenda 30 grs/dia Deve associar o uso de 1 a 2 litros de água/dia Fibras em medicamentos: solúveis, insolúveis, sintéticas e pré- bióticas b) Tratamento - medicamentoso – Relaxantes da musculatura lisa seletivo do trato gastrointestinal: Indicados para dor e distensão Trimebutina: 200mg tid Pinavério: 100mg bid Octilônio: 40mg tid Mebeverina: 200mg bid. – Agonista 5HT – 4 (serotonina) Prucaloprida: 2mg, somente para mulheres entre 18 e 65 anos (para SII-Constipativa severa) – Agonista 5HT – 3 (serotonina) Ondansetrona: 8mg (para SII-Diarréica) - também usado como importante anti-emético – Enzimas p/ pcts. q/ pioram ao uso do leite: Lactase: 1 cp. mastigável sempre que ingerir leite c) Tratamento: (ainda não lançados no BR) – Bloqueador de canal de CLORO Lubiprostone (para SII-C) – Antibióticos para SII pós infecciosa: Rifamixina (para SII-D) d) Outros tratamentos medicamentosos: atuam na labilidade emocional e podem melhorar o quadro – Antidepressivos: Depressão e ansiedade (incidência alta na SII): mesmo nos não deprimidos, em baixa dose atua modulando a sensibilidade visceral, reduzindo e ajudando na tolerância da dor (principalmente os tricíclicos); Aumenta levemente o trânsito: paroxetina, fluoxetina e escitalopran (Inibidores da recaptação da serotonina) – Indicados na SII-C Diminui o trânsito: Amitriptilina, Nortriptilina, e Imipramina (triciclicos) – Indicados na SII-D Sempre associar probióticos nas formas diarreicas Sempre associar simbióticos (associação probiotico + prebiotico/laxativo) nas formas constipativas O objetivo é melhorar a disbiose, que é o desequilíbrio da microbiota (flora intestinal) A disbiose, hoje considerada o grande detalhe da SII. Ana Clara Quirino – 69 Página | 8 e) Psicoterapia – Quase todo quadro de SII tem com “pano de fundo” uma labilidade emocional, sendo que em alguns casos, há necessidade de apoio psicoterápico; – É fundamental a relação médico-paciente (confiança entre ambos). Evolução o Doença crônica benigna, às vezes o paciente melhora quando acostuma com a doença ou toma real conhecimento da pouca gravidade da mesma, porém sempre agravada pela labilidade emocional; o Pode nos casos da constipação, com o tempo, formar doenças hemorroidária ou doença diverticular dos cólons, ou seja, doenças orgânicas. Dieta anti-constipativa: (indicado para SII-C) Aumente o consumo de alimentos ricos em fibras: Cereais integrais: Pão integral - Arroz integral - Centeio (Pão preto) - Farinha integral de trigo Farelo e Germe de trigo - Bolachas com fibra - Granola - Aveia Frutas cruas: mamão (diariamente), laranja com bagaço, maracujá com semente Frutas secas: Ameixa seca - Uva passa - Figo - Tâmara - Damasco Legumes e verduras (mas sem exagero, pois possibilita a formação de gases) Semente de linhaça: Pura ou em pó, com água ou suco. Habitue a ingerir a 2 litros de água por dia; Não abuse nos refrigerantes e cerveja. Tome chá todo dia: carqueja, babosa e de ameixa (meio litro de água com 6 ameixas pretas). Caso fique 3 dias sem evacuar, bata no liquidificador: 1 copo de leite gelado, meio mamão papaia e 4 ameixas secas e tome à vontade OU 1 copo de leite gelado, germe de trigo, semente de linhaça, maçã e tome à vontade. Respeite a vontade de evacuar (evitar contração retrograda que endureça mais ainda as fezes). Não fique segurando. Evite o uso abusivo de laxantes. Pratique exercícios físicos (caminhada, corrida, natação, etc.). Tome Activia e Yakult à vontade. Troque o leite comum (mesmo que desnatado) pelo leite com baixo teor de lactose ou de soja Lembre-se que qualquer labilidade emocional (estresse, ansiedade, depressão, irritabilidade, impaciência, preocupações excessivas) pode agravar seu caso. Ana Clara Quirino – 69 Página | 9 Dieta anti-diarréica (indicado para SII-D): Evite o uso excessivo do leite. Substitua-o por ricota, leite com baixo teor de lactose ou sem lactose ou leite de soja, iogurte desnatado, Yakult e Activia, que podem ser usados. Evite café, refrigerantes, chocolates, chá mate e chá preto, pois estes alimentos contêm substâncias “irritantes” ao intestino. Evite bebidas alcoólicas, principalmente cerveja. Evite o uso excessivo de repolho, ervilha, grão de bico e principalmente feijão. Prefira as verduras e legumes cozidos, mesmo assim sem excessos. Evite carnes gordurosas. Substitua a carne vermelha pela carne branca (frango e peixe) Prefira as fibras solúveis (farinha de milho, trigo, aveia, fécula de arroz, batata e maçã) e evite as fibras insolúveis (farelo de trigo, legumes e verduras cruas), pois as fibras solúveis auxiliam na formação de fezes, dando-lhes mais consistência, mesmo podendo aumentar um pouco os gases intestinais. Lembre-se que qualquer labilidade emocional (estresse, ansiedade, depressão, irritabilidade, impaciência, preocupações excessivas) pode agravar seu caso. OBS: ESTA DIETA NÃO É PARA DIARREIA AGUDA Dieta para redução de gases intestinais Evite o uso excessivo de: Leite natural, integral, desnatado ou em pó, que são as principais causas de gases (porém leite com baixo teor de lactose ou sem lactose ou de soja, podem ser usados). Derivados do leite (porém Yakult e Activia podem ser usados livremente) Vitamina de leite com fruta Alimentos com trigo, centeio, aveia e cevada (ou seja, com GLUTEN) Cerveja e refrigerantes Pêra, maçã, pêssego, laranja e mexerica. Feijão, Aveia e Milho Repolho, batata doce, couve-flor, couve, brócolis, grão de bico, lentilha, Alho, cebola e pimenta. Principais causadores de gases: LEITE, GLUTEN, CERVEJA E REFRIGERANTE Nada disso acima está proibido, mas deve ser evitado o excesso; Use à vontade, para ajudar a reduzir os gases: chá de sálvia, erva- cidreira, espinheira santa e hortelã.