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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS DISCIPLINA - LITERATURA BRASILEIRA IV PROFª CILAINE ALVES CUNHA Juliet da Silva Rodrigues IDEIAS DE UM CANÁRIO, DE MACHADO DE ASSIS E UM CANÁRIO CHEIO DE IDEIAS, DE LUÍS FELIPE RIBEIRO São Paulo 2016 O conto de Machado de Assis se inicia com o narrador apresentando uma história que muitos julgam sem crédito - diz - e logo passa a palavra à personagem Macedo, que de início é desqualificado pelo narrador ao usar expressões como: “dado a estudos de ornitologia” e “caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito”. Luís Felipe Ribeiro analisa este trecho e diz: “O que Machado faz, com astúcia de mestre, é deslocar o foco da enunciação de cima de sua imagem para projetá-lo em um outro que termina sendo o responsável pelos fatos narrados. Se absurdos ou inverossímeis, Machado poderá piscar o canto do olho como a dizer: “Eu não avisei?”.” (RIBEIRO, p.2). A fábula propriamente ocorre mais ou menos dentro de um ou dois meses. Macedo fora forçado, por um acontecimento adverso, a entrar na loja de belchior; um mundo decadente e pobre como ficará entendido mais adiante. Macedo faz mal juízo da loja e de seu dono, descrevendo-o de tal forma que acaba por reificá-lo; ele não se mexe em nenhum momento, tem a aparência de trapos, sem vida interior, é tão objeto quanto suas mercadorias. A loja também é descrita como um mundo escuro, atulhado de bugigangas. A desordem interessa Macedo pelo caráter exótico da cena que vê. E nessa cena a descrição da loja é feita justapondo os objetos num longo período gramatical, o que demonstra uma certa monotonia. A própria loja é descrita como “destroço”, “desolação geral”, “naufrágio”, “cemitério”. O único ser provido de vida é o canário, que por sua vez está preso dentro de uma gaiola velha, e isso chama atenção de Macedo, que o descreve usando palavras tais quais “cor”, “animação”, “raio de sol”. A partir de então, vão surgindo ao longo do conto paralelismos entre a loja escura e decadente e o mundo ensolarado e vasto; o mundo dos pobres e comerciantes de quinquilharias e o mundo dos proprietários, de Macedo e - possivelmente - dos leitores da época de Machado. Diante da seguinte frase: “Não atribuo essa imagem ao canário, senão porque falo a gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois.” (ASSIS, 1994a, p. 32), nos parece que a frase é dita pelo primeiro narrador e o referente de “ele” seria Macedo, posto que o leitor ainda não sabe que o canário fala. O estranhamento faz parte da estrutura que Machado monta para que a responsabilidade dos fatos narrados seja toda de Macedo e o que está em causa é a sua perspectiva. O diálogo a seguir demonstra, segundo Ribeiro, como Macedo divide o mundo: entre proprietários e propriedades. — Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela? E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto: — Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de pessoa doente; vai-te curar, amigo... — Como — interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol? — Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou que confundes. — Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado. — Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo. (ASSIS, 1994a, p. 32-33) Achamos natural Macedo indagar sobre o dono do canário pois, se tratando de animais de estimação, nossa perspectiva de proprietário de animais é naturalizada. Porém, a justificativa de Macedo para que o canário estivesse na loja cria um estranhamento; isso se dá na passagem em que ele pergunta se não seria a miséria ou a ociosidade que levaria o canário (um raio de sol) àquele cemitério. “Miséria” e “ociosidade” são justificativas comuns dadas aos pobres como motivos para serem pobres: o fatalismo da miséria e a preguiça em trabalhar. Num trilado, o canário diz que Macedo não está em seu juízo perfeito, utilizando do mesmo recurso retórico que o narrador de terceira pessoa usa para desacreditar o narrador-personagem. O canário diz que as ideias de Macedo são de gente doente: “vai te curar, amigo”, emprestando caráter fisiológico ao que ele considera um disparate. Macedo fica mais espantado com a retórica que com o fato do canário falar. Novamente a comparação com o raio de sol e o cemitério nos faz pensar que o sol é o representante do naturalismo que incide luz ao cemitério do romantismo decadente; lembrando que é Macedo quem escolhe estas palavras. Quanto ao canário considerar o velho como seu criado, Ribeiro chama atenção desse aspecto: “O canário, compartilhando com Macedo a ideologia dos proprietários, inverte seu discurso e sua visão de mundo. O mundo é sim constituído de proprietários: os canários. E a sua explicação é irretorquível do ponto de vista da lógica dominante.” (RIBEIRO, p.6). Só depois é que Macedo fica espantado com o fato de entender perfeitamente a linguagem do canário, que aos seus ouvidos chegam legíveis, mas do bico do animal sai apenas o trilo. Uma linguagem da natureza que se torna língua propriamente ao passar pelo crivo humano. O olhar, a observação são o ponto de partida para qualquer estudo empírico; e passados pelo intelecto do artista, será transformada em arte, posto que no contexto histórico do conto, o crivo da razão é a do cientificismo. No conto é o ouvir que vai se transformar em ciência e filosofia, segundo, é claro, as aspirações de Macedo. Perguntado ao canário se ele sente saudades do céu e de sua liberdade, a ave não entende. Macedo insiste e pergunta ao canário o que este pensa sobre o mundo. Com ar professoral, o canário diz: “o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.” (ASSIS, 1994a, p.33). O velho acorda e vende o canário (no qual havia adquirido-o com um conjunto de navalhas) a Macedo, desmentindo o que a ave dissera sobre os canários serem os donos do mundo. Essa passagem já indica a tese do conto: o mundo é diferente segundo a perspectiva de cada um. Macedo compra-lhe nova gaiola e a coloca na varanda de sua casa, de onde o canário poderia ver um pouco do céu azul e o jardim com um repuxo no meio. O intuito de Macedo é fazer um estudo minucioso para proveito próprio, para “assombrar o século”. Não apenas as ideias do pássaro acerca de vários assuntos são anotadas, também são estudados sua língua e sua biologia. Sobre a definição do mundo que faz parte das observações de Macedo, ao ser perguntado novamente, o canário responde algo diferente da vez que estava na loja, três semanas antes: “— O mundo (...) é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.” (ASSIS, 1994a, p 33). A retórica também havia sofrido modificações (posto que a linguagem reflete a realidade). Tomado pela mania que os estudos lhe acometiam,dito que “todo eu era canário.”, Macedo cai doente, febril. E, não sem antes desdenhar do criado, que não teria qualquer preparo científico para entender a língua do pássaro, o canário lhe escapa. Já estando são, faz um passeio à chácara de um amigo e lá encontra o canário que lhe chama. Aparentemente, o amigo acha que ele está falando sozinho. Macedo pergunta como vai o jardim com o repuxo e o canário não entende. Volta a perguntar como vai o mundo e o canário muda sua definição de mundo (não sem antes desqualificar Macedo): “O mundo (...) é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.” (ASSIS, 1994a, p.34). Macedo não compreende o que o canário diz, o mundo para ele não pode ser um e depois outro. O canário não se prende às verdades eternas e imutáveis, mas Macedo sim. E no final, existe mesmo uma loja de belchior? - pergunta o canário. Temos então um narrador de primeira pessoa, membro da aristocracia, afeito ao cientificismo, que é constantemente desqualificado, tanto pelo narrador de terceira pessoa quanto pelo canário, assim como ele faz com seus criados (e provavelmente com todos que não se identificam como proprietários). Suas obsessões em analisar cientificamente o canário se transformaram em febre. E é neste momento que o canário lhe escapa. Para Machado, o sentimento de seita (no qual implica uma espécie de febre ritualística), faz com que o naturalismo vire um dogma: “Este messianismo literário não tem a torça da universalidade nem da vitalidade; traz consigo a decrepitude.” (ASSIS, 1994b, p. 8). Machado afirma que o naturalismo não dá conta da representação da realidade. Não se trata de estabelecer o melhor esquema de representar a realidade, pois não existe uma realidade; existem muitos pontos de vistas permeados por diversas realidades. A indagação do canário, que fecha o conto, nos faz pensar: estamos excluindo realidades que julgamos não existir em detrimento das que melhor nos parece? Estamos identificados com Macedo? Machado está rindo de nós? Pode parecer que Machado desaprova ferrenhamente o realismo-naturalismo, mas como ele mesmo esclarece num texto sobre Eça de Queirós, “(...) alguma coisa há no Realismo que pode ser colhido, em proveito da imaginação e da arte. Mas sair de um excesso para cair em outro, não é regenerar nada; é trocar o agente da corrupção.” (ASSIS, 1994b, p.8). Novamente, os paralelismos entre o mundo da loja de belchior (o obscurantismo do romantismo) e o mundo vasto e iluminado (a racionalidade cientificista) de Macedo se chocam, mas cabe ao artista colher o melhor dos dois mundos e de muitos outros para que sua obra não seja excludente (ou, se for, que seja consciente disso). Bibliografia: ASSIS, Machado de. Ideias do canário. Páginas Recolhidas. Texto-Fonte: Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. II, 1994. Disponível em : <http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/contos/macn006.pdf>. Acessado em 28 de novembro 2016. ______. Eça de Queirós: O Primo Basílio. Texto-Fonte: Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994. Disponível em: <http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/critica/mact27.pdf>. Acessado em 28 de novembro de 2016 RIBEIRO, Luís Felipe. Um canário cheio de ideias. Disponível em: <http://docplayer.com.br/2666969-Um-canario-cheio-de-ideias-1.html>. Acessado em: 28 de novembro de 2016 http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/contos/macn006.pdf http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/critica/mact27.pdf