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SUMÁRIO 1. O que é o procedimento? ...................................... 3 2. Quais os objetivos do procedimento? ................ 3 3. Quais as indicações do procedimento? ............ 5 4. Contraindicações ....................................................... 8 5. Técnica da paracentese ........................................... 9 Referências bibliográficas ........................................21 3PARACENTESE 1. O QUE É O PROCEDIMENTO? A paracentese nada mais que é uma punção da cavidade peritoneal na intenção de colher o líquido ascítico ou peritoneal. É importante ressaltar que nesse pro- cedimento é feito uma punção, não uma drenagem. Para entendermos a diferença entre elas precisamos sa- ber que a punção envolve a inserção de uma agulha e aspiração do con- teúdo naquele local puncionado. A drenagem, por outro lado, envolve a inserção de um instrumento calibro- so que permanece no local drenando qualquer conteúdo que venha a ser produzido. Imagem: Paracentese (A) x Drenagem (B). A drenagem é pautada na utilização de drenos para a retirada de possíveis conteúdos produzidos em cavidades, principalmente no âmbito pós-operatório. A paracentese é a retirada de um conteúdo já existente, o líquido ascítico. (Fonte: Rev. Bras. Cir. Plást.2009;24(4):521-524) A B Figura 1. Paracentese (A) x Drenagem (B). A drenagem é pautada na utilização de drenos para a retirada de possí- veis conteúdos produzidos em cavidades, principalmente no âmbito pós-operatório. A paracentese é a retirada de um conteúdo já existente, o líquido ascítico. (Fonte: Rev. Bras. Cir. Plást.2009;24(4):521-524) 2. QUAIS OS OBJETIVOS DO PROCEDIMENTO? A paracentese possui tanto objeti- vos propedêuticos como objetivos terapêuticos. O objetivo propedêutico envolve a investigação etiológica da ascite, portanto, a paracentese nesse âmbi- to é feita de forma a ser diagnósti- ca. A paracentese diagnóstica é feita através da avaliação laboratorial do conteúdo peritoneal, de forma a iden- tificar a etiologia subjacente à ascite. Os itens avaliados laboratorialmente serão discutido adiante. 4PARACENTESE PRINCIPAIS CAUSAS DE ASCITE ETIOLOGIA FREQUÊNCIA Cirrose Hepática 81-85% Neoplasias Malignas 10% Insuficiência Cardíaca 3-5% Tuberculose 1-6,5% Diálise Peritoneal 1% Doença Pancreática 1% Outras Causas 2% Tabela 1. Principais causas de ascite e suas frequên- cias. (Fonte: Medicina de Emergência, 13ª Ed, 2019) O objetivo terapêutico da paracen- tese é “aliviar” o paciente do des- conforto gerado pelo acúmulo de líquido ascítico. Muitas vezes o pa- ciente com ascite se apresenta, por exemplo, com intenso desconforto abdominal e/ou respiratório devi- do ao aumento da pressão intra-ab- dominal que também repercute na mecânica respiratória, impedindo a ampla insuflação pulmonar. Portanto, nesses casos, podemos denominar o procedimento como paracentese “de alívio”, cujo objetivo é terapêutico. Diante disso, é feito o esvaziamento do máximo de volume possível do lí- quido peritoneal. Figura 2. Podemos observar, pela anatomia abdominal e torácica, como a presença da ascite pode gerar um aumento da pressão intra-abdominal, impactando na insuflação pulmonar, podendo culminar por fim em des- conforto respiratório. (Fonte: https://bit.ly/3cmWV6n) APLICAÇÃO CLÍNICA: Vamos pensar essa classificação observando casos clínicos? Caso 01: Paciente feminina, 36 anos, começou a cursar com ascite duran- te a gravidez. Nega qualquer patologia prévia. Nesse caso, devemos realizar a para- centese de forma diagnóstica! Caso 02: Paciente masculino, 72 anos, cirrótico por uso abusivo crônico de ál- cool. De 15 em 15 dias, cursa com des- conforto respiratório intenso por acúmu- lo de líquido ascítico. Nesse caso, devemos realizar a para- centese de forma terapêutica! 5PARACENTESE 3. QUAIS AS INDICAÇÕES DO PROCEDIMENTO? Devemos pensar as indicações desse procedimento distinguindo as indica- ções da paracentese diagnóstica para as indicações da paracentese de alívio. A paracentese diagnóstica deve ser indicada em casos de ascite a escla- recer, sem algum diagnóstico prévio. Nesse caso, devemos investigar as possíveis etiologias da ascite, como hepatopatias, cardiopatias, doenças infecciosas, doenças linfoproliferati- vas e carcinomatose peritoneal. Algumas doenças hepáticas cur- sam com hipertensão do sistema porta, normalmente culminando em ascite. Cardiopatias, principalmente insuficiências do lado direito do cora- ção, podem gerar uma congestão do sistema venoso, aumentando o com- ponente hidrostático, que por fim pode vir a gerar um extravasamento líqui- do para diversos espaços, inclusive a cavidade peritoneal. Doenças in- fecciosas podem acometer o peritô- nio, como por exemplo a tuberculose, usualmente gerando um quadro clíni- co que contém a ascite. As doenças linfoproliferativas, como o linfoma, podem gerar a produção e liberação de líquido inflamatório ou linfático para a cavidade abdominal. Por fim, a carcinomatose peritoneal é o aco- metimento da cavidade peritoneal por neoplasias malignas, podendo ser primária ou secundária (metástases). MAPA MENTAL: ASCITE A ESCLARECER – POSSÍVEIS ETIOLOGIAS ASSOCIADAS Fonte: Aula SanarFlix Hipertensão do Sistema Porta Ex: Cirrose Hepática Doenças Hepáticas Carcinomatose Peritoneal Cardiopatias Doenças Linfo proliferativas Doenças infecciosas Acometimento da cavidade peritoneal por neoplasias malignas. Ex: Metástases peritoneais Insuficiência cardíaca (Congestão do sistema venoso e extravasamento para o terceiro espaço) Ex: Insuficiência cardíaca congestiva (ICC) Liberação de líquido inflamatório e linfático para a cavidade Ex: Linfoma Acometem o peritônio Ex: Tuberculose Peritoneal 6PARACENTESE Além disso, indica-se também o procedimento diagnóstico para pa- cientes com ascite que comecem a apresentar uma alteração do seu estado clínico, com piora significa- tiva. Essa piora pode se apresentar através de febre, dor abdominal, encefalopatia, leucocitose/sepse, disfunção renal, acidose ou inter- nação por debilidade do estado clíni- co recém estabelecida. Em pacientes com ascite, devemos sempre pensar que uma alteração do estado clínico pode ser derivada da ascite ou de complicações associadas a esta! Imagine um paciente com doença crônica parenquimatosa do fígado (DCPF) devido ao vírus da Hepati- te C (HCV), com diagnóstico há 5 anos. Esse mesmo paciente compa- rece ao seu ambulatório com queixa de febre, acompanhada de descom- pensação da hepatopatia. Essa des- compensação pode ser marcada por uma alteração do estado mental recente (encefalopatia por deficiên- cia na metabolização de produtos tóxicos como a amônia e a ureia); al- terações da coagulação, sejam elas clínicas ou laboratoriais (petéquias hemorrágicas, relação normatizada internacional (RNI) alargada), por de- ficiência na produção de fatores de coagulação; icterícia por deficiência na conjugação da bilirrubina, entre outros achados. Nesse cenário, de- vemos pensar em uma infecção vi- gente que esteja piorando a função hepática, já comprometida de base. Essa infecção pode ter diversos sítios, seja ele urinário, respiratório, gas- trointestinal. Porém, em um quadro clínico desses, não devemos deixar de pensar na Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE)! A PBE é uma infecção do líquido ascítico por translocação bacteria- na do tubo digestório. Ou seja, nes- se caso a ascite é a própria fonte da infecção, devendo a paracentese ser realizada de forma diagnóstica! SE LIGA! A peritonite bacteriana espon- tânea é uma infecção bacteriana do lí- quido ascítico, na ausência de outra infecção intra-abdominal. Representa uma descompensação aguda da cirrose hepática, piorando significativamente o prognóstico da doença. Apresenta uma alta mortalidade (até 90%) se não tratada, caindo para cerca de 20% se diagnosticada e tratada precocemente. Por esse motivo, ressalta-se que todo pacientecirrótico em descompensa- ção deve ser submetido a uma para- centese diagnóstica! 7PARACENTESE Por fim, a paracentese terapêutica é indicada basicamente para remo- ção de grandes volumes de ascite, na intenção de livrar o paciente dos sintomas compressivos gerados pelo acúmulo de líquido. Além dis- so, também indica-se o procedimen- to em casos de ascites resistentes ao tratamento clínico otimizado, como pacientes em dose máxima de diuréticos. INDICAÇÕES DA PARACENTESE Paracentese Diagnóstica Ascite a esclarecer Deterioração clínica de pacientes portadores de ascite (febre, dor abdominal, encefalopatia hepá- tica, leucocitose, piora da função renal, acidose, entre outros) Paracentese Terapêutica Remoção de grandes volumes de ascite para alívio dos sintomas compressivos Ascites resistentes ao tratamento clínico otimizado Tabela 2. Indicações da Paracentese diagnóstica e terapêutica (Fonte: UptoDate, 2020) MAPA MENTAL: PERITONITE BACTERIANA ESPONTÂNEA E SEU MECANISMO FISIOPATOLÓGICO Peritonite Bacteriana Espontânea Aumento da permeabilidade intestinal Fonte: Adaptado de https://bit.ly/2MkdFR2 Junção celular defeituosa Junção celular normal Translocação da flora bacteriana intestinal Instalação das bactérias no líquido ascítico 8PARACENTESE 4. CONTRAINDICAÇÕES Existem algumas contraindicações para a realização da paracentese, pois mesmo sendo um procedimen- to simples e rápido não deixa de ser invasivo. Em quadros clínicos onde há grande distensão de alças, como em um ab- dome agudo obstrutivo, não se deve realizar a paracentese pelo perigo de perfuração das alças. Além disso, deve-se também indicar esse procedimento com cautela em pacientes que se apresentam com coagulopatia laboratorial, ou seja, plaquetopenia e RNI alargado. Porém, devemos ter em mente que a contraindicação do procedimen- to para essas situações é relativa! Caso a paracentese seja de extre- ma importância para o paciente em questão, devemos tentar minimizar o risco associado ao procedimento e realiza-lo. Como podemos minimizar os poten- ciais riscos da paracentese? Punção guiada ou marcada pela Ul- trassonografia: A paracentese pode ser realizada com o auxílio da ultras- sonografia (USG), realizando a obser- vação do local onde há maior acúmulo de líquido, onde estão mais presen- tes as alças distendidas e onde está concentrada a circulação colateral na parede abdominal, muito comum em pacientes com quadro de hiper- tensão portal. Com o auxílio da USG, podemos marcar o ponto mais se- guro para a punção e efetivá-la! A B C Figura 3. Mensuração do ponto em que deve ser puncionado pela USG (A), de forma a evitar alças intestinais (B) e vasos superficiais da parede abdominal (C). (Fonte: Adaptado de CHEST, 2018) 9PARACENTESE 5. TÉCNICA DA PARACENTESE Podemos pensar na realização da paracentese como um passo a passo. Para isso, teremos algumas etapas. Preparação: A primeira etapa é composta pela pre- paração do material utilizado para o procedimento. Devemos lembrar que a paracentese é realizada como um procedimento estéril, sendo de alto risco de contaminação com material biológico. No âmbito da paracentese, lidamos usualmente com pacientes portadores de hepatites virais crôni- cas, em exemplo, por isso devemos MAPA MENTAL: INDICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES DA PARACENTESE Indicações e Contraindicações da Paracentese Fonte: Aula SanarFlix Diagnóstica Terapêutica Absolutas Relativas Indicações Contraindicações Ascite a esclarecer Alívio dos sintomas compressivos Nenhuma! Grande distensão de alças intestinais Paciente com ascite e deterioração clínica Refratariedade ao tratamento clínico Coagulopatia laboratorial Minimizar os riscos: USG! 10PARACENTESE sempre nos precaver dos acidentes com material biológico. Dessa forma, necessitaremos de an- tisséptico, gaze, campo fenestrado estéril, luva estéril, avental, másca- ra, gorro e óculos, se disponível no local. EQUIPAMENTOS DE PARAMENTAÇÃO, PROTEÇÃO INDIVIDUAL E DEGERMAÇÃO Antisséptico Equipamentos de paramentação Escova com antisséptico Gaze Óculos Cirúrgico Gorro Cirúrgico Máscara Cirúrgica Luva Estéril Avental Cirúrgico Campo Fenestrado Fonte: Aula SanarFlix Para o procedimento propriamente dito, necessitaremos de anestésico (Lidocaína a 2% sem vasoconstrictor), seringa para o anestésico (10mL), agulha para pegar o anestésico (N° 18), agulha para aplicar o anestési- co (N° 22), seringa para colher uma parte do líquido ascítico (20mL), Jelco 14 para a paracentese de alívio e Jelco 16 ou menor para a paracen- tese diagnóstica, além de um equipo estéril, caso seja uma paracentese de alívio. 11PARACENTESE O Jelco é uma agulha revestida com um cateter de silicone, o qual per- manece na cavidade após a punção e retirada da agulha, possibilitan- do a saída do líquido ascítico sem a permanência da agulha na cavidade durante esse procedimento. Quanto maior a sua numeração, menor o seu diâmetro. O equipo é um instrumento que habi- tualmente é utilizado para conectar o soro ao dispositivo de punção venosa periférica. Aqui nesse procedimento ele é utilizado para outra função que será descrita em breve. Além disso, serão utilizados também tubos de análise laboratorial, bem como um tubo específico para cul- tura do conteúdo puncionado. Por fim, devemos nos lembrar do cálice graduado, um objeto de vidro que possui a mensuração do conteúdo ali depositado, de forma a possibili- tar a contagem de quantos litros de líquido ascítico foram retirados no procedimento. MAPA MENTAL: EQUIPAMENTOS NECESSÁRIOS PARA A REALIZAÇÃO DA PARACENTESE Equipamentos necessários para a paracentese Lidocaína a 2% sem vasoconstrictor Seringa de 10 mL (Aplicação do Anestésico) Seringa de 20 mL (Punção) Agulha N° 18 (Aspirar o anestésico) Agulha N° 22 (Aplicação do anestésico) Jelco N°14 (Paracentese de Alívio) e N° 16 (Paracentese diagnóstica) Equipo Estéril (Paracentese de alívio) Tubos de análise laboratorial (Roxo: EDTA, citometria; Amarelo: gel, bioquímica; Vermelho: tubo seco, sorologias) Tubo de Cultura (Análise microbiológica) Cálice Graduado (Coleta do líquido ascítico na paracentese de alívio) Fonte: Aula SanarFlix 12PARACENTESE Técnica: A técnica da paracentese pode ser di- vidida, também, em algumas etapas, de forma a se tornar mais elucidativa. Marcação do ponto: A punção às cegas deve ser reali- zada na fossa ilíaca esquerda, no terço médio entre uma linha ima- ginária traçada entre o umbigo e a espinha ilíaca anterossuperior. Po- demos pensar nesse ponto como um “ponto de McBurney à esquerda”. Caso haja o auxílio do USG, como dito anteriormente, deve-se mapear o abdome em busca de um local onde haja concentração de líquido, poucas alças intestinais e pouca circulação colateral na parede abdominal, dei- xando esse ponto marcado. Imagem: Duas possíveis abordagens para punção na paracentese. A – Formação de uma linha imaginária entre o umbigo e a Espinha Ilíaca Anterossuperior (EIAS), com punção no ponto do terço inferior dessa linha (ponto vermelho). B – Punção no ponto a 3 cm medialmente e 3 cm superiormente a EIAS, evitando os vasos epigástricos inferiores. (Fonte: Uptodate, 2020) Espinha ilíaca ântero-superior Artéria epigástrica inferior Figura 4. Duas possíveis abordagens para punção na paracentese. A – Formação de uma linha imaginária entre o umbigo e a Espinha Ilíaca Anterossuperior (EIAS), com punção no ponto do terço inferior dessa linha (ponto vermelho). B – Punção no ponto a 3 cm medialmente e 3 cm superiormente a EIAS, evitando os vasos epigástricos inferiores. (Fonte: Uptodate, 2020) Anestesia: O primeiro passo antes da punção é a anestesia da pele no local em que ela será feita. Com a agulha N° 22 e seringa com lidocaína deve- mos adentrar o local e sempre as- pirar antes de realizar a injeção do anestésico, de forma a não aplica-lo em algum vaso. A agulha deveser aprofundada a 45° até a cavidade. Você saberá que chegou na cavidade quando aspirar e vier o líquido as- cítico, usualmente de coloração ci- trina! Nesse momento, você recua até não ocorrer mais aspiração de líquido ascítico, significando que você está na borda do peritônio, onde deve realizar mais uma aplicação do anestésico. Após anestesiar o peritô- nio, você deverá realizar o trajeto de saída aplicando o anestésico até a borda da pele, onde deve ser realiza- do um botão anestésico. 13PARACENTESE Figura 5. Demonstração de utilização da agulha de maior calibre para aspirar o anestésico (N° 18) e a utilização de uma agulha com menor calibre (N°22 ou menor) para realização da anestesia. (Fonte: Adaptado de UptoDate, 2020) Punção: Após a anestesia, é feita a punção. Uti- lizando um Jelco (14, se paracentese de alívio) e uma seringa de 20mL, deve-se adentrar o ponto marcado e anestesiado, ultrapassando a pele, subcutâneo, músculo e aponeurose, gordura pré-peritoneal, peritônio e cavidade peritoneal, onde ao aspirar você vai observar a saída de líquido ascítico em sua seringa, a qual deve ser totalmente preenchida para aná- lise laboratorial e cultura. Nesse momento, o cateter do Jelco deve ser inserido mais profunda- mente, de forma a se aproximar da pele, para então ser realizada a re- tirada do dispositivo metálico. Ao retirar esse dispositivo, deve-se ter muito cuidado com o fluxo de saída do líquido ascítico pelo cateter. Mui- tas vezes esse fluxo pode estar in- tenso e acabar gerando um acidente com materiais biológicos. Conexão com Equipo: Em paracenteses de alívio, uma pon- ta do equipo deve ser conectado ao cateter do Jelco, enquanto a outra ponta deve ser depositada no cá- lice graduado, de forma a coletar o líquido ascítico presente no paciente. O Jelco pode ser fixado com micro- pore à pele do paciente, de forma que o seu cateter não saia, “perden- do” a punção realizada. 18 gauge 22 gauge 14PARACENTESE Figura 6. Paracentese. A – Avaliação do sítio de punção por via ultrassonográfica. B – Marcação do sítio de punção e degermação do local. C – Colocação do campo cirúrgico fenestrado. D – Anestesia no local da punção. E – Punção com Jelco. F – Retirada da agulha e fixação do cateter na pele, com micropore. Incorporação ao equipo, por onde é drenado o líquido ascítico até o cálice graduado. (Fonte: Adaptado de British Journal of Hospital Medicine, 2007, Vol 68, No 9) devemos sempre tirar o máximo pos- sível, tendo em mente que existem ris- cos associados a esse procedimento. A retirada de grandes volumes de líquido ascítico gera grandes mobi- lizações de liquido no organismo do paciente. Sabemos que o pacien- te cirrótico “distribui mal” o seu A B C D E F A B C D E F A B C D E F A B C D E F A B C D E F Qual o volume máximo? Não existe um volume máximo na paracentese! Deve-se retirar o vo- lume suficiente para possibilitar um alívio aos sintomas do paciente. Em pacientes com muito desconfor- to, seja ele abdominal ou respiratório, 15PARACENTESE volume corporal, com muita perda de volume para o interstício, a qual é agravada no procedimento da pa- racentese por criar um “espaço li- vre” no abdome. Essas implicações podem culminar em uma Síndrome Hepatorrenal, com uma diminuição da perfusão renal, levando a injúria renal aguda (IRA) por consequên- cia da patologia hepática. É uma pa- tologia grave e que deve ser evitada. HORA DA REVISÃO! Uma complicação ameaçadora da hi- pertensão portal é a síndrome hepator- renal, que se desenvolve principalmen- te em pacientes com doença hepática avançada a terminal. Quando a insufi- ciência renal é rapidamente progressi- va o prognóstico é bastante reservado, com uma sobrevida média de aproxi- madamente duas semanas. O único tratamento confiável para essa pato- logia é o transplante hepático. Já que a insuficiência renal é mais funcional que estrutural, ou seja, a questão não é no parênquima renal, ao melhorar a função hepática e aliviar a hiper- tensão porta, a função renal também vem a melhorar. Atualmente, vem-se considerando a anastomose portos- sistêmica intra-hepática transjugular (TIPS) como um possível tratamento temporário para a melhora da função re- nal, enquanto não é feito o transplante. MAPA MENTAL: MECANISMO DA SÍNDROME HEPATORRENAL Síndrome Hepatorrenal • Cirrose Descompensada • Hipertensão portal grave Fonte: Adaptado de N Engl J Med, 2009; 361:1279-90 • Vasodilatação do sistema arterial esplâncnico • Ascite expressiva • Redução expressiva do volume intravascular • Mecanismos cardíacos de compensação insuficientes • Distribuição de volume desigual • Ativação dos sistema de reabsorção de sódio • Retenção de sódio e água • Baixa perfusão renal • Disfunção renal acentuada 16PARACENTESE Existem alguma forma de evitar a Síndrome Hepatorrenal? Quando há a retirada de mais de 5 Litros de conteúdo ascítico deve- mos, obrigatoriamente, administrar albumina para o paciente, de forma a gerar um estímulo coloidosmótico no sangue para manutenção do vo- lume no compartimento intravascu- lar, evitando a má perfusão renal. Podemos usar uma regra prática para saber quanto de albumina adminis- trar. Para cada 1 L retirado, deve- mos administrar 1 Frasco de Albu- mina. Ou seja, 1:1. Quais exames solicitar? Principalmente em paracenteses diagnósticas, devemos sempre reali- zar a análise macroscópica e labora- torial do material coletado, sendo que a nível laboratorial o líquido é analisa- do no âmbito bioquímico, citológico e bacteriológico. A elucidação diagnóstica se inicia pela avaliação macroscópica do lí- quido ascítico, podendo o mesmo se apresentar seroso (amarelo-citrino, clássico da cirrose), hemorrágico (su- gere neoplasia ou tuberculose), turvo (sugestivo de infecção, podendo ha- ver odor fétido associado), leitoso ou quiloso (linfático) e bilioso (amarela- do e espesso, sugestivo de trauma ou tumores biliares). A B Figura 6. Aspecto Macroscópico do líquido ascítico. A – Aspecto amarelo-citrino. B – Aspecto quiloso. (Fonte: https://bit.ly/2ZSrZbA; https://bit.ly/2Miyrkf) A avaliação bioquímica do conteúdo ascítico é composta basicamente da avaliação de albumina (sorológica e no líquido ascítico) e de proteínas totais, além da avaliação do GASA. O GASA é o gradiente albumina so- ro-ascite. Trocando miúdos, nada mais é que uma relação entre a quantidade de albumina presente no sangue/ quantidade de albumina presente no líquido ascítico. O valor aferido do GASA nos auxilia a encontrar uma etiologia do líquido ascítico. GASA > 1.1 usualmente se refere a um quadro de Hipertensão Portal, ou seja, por doença hepática. GASA < 1.1 fala a favor de outras etiologias, como ascite cardiogênica ou neoplásica. Outras etiologias menos comuns também po- dem gerar ascite, citados na tabela a 17PARACENTESE seguir, de acordo com o GASA encon- trado nas mesmas. PRINCIPAIS CAUSAS DE ASCITE CONFOR- ME O GASA (GRADIENTE DE ALBUMINA SORO-ASCITE) GASA > 1,1 GASA < 1,1 Cirrose Hepática Carcinomatose Peritoneal Hepatite Alcóolica Tuberculose peritoneal Cirrose Cardíaca Ascite Pancreática Insuficiência hepática fulminante Obstrução ou infarto intestinal Metástases Hepáticas maciças Ascite biliar Síndrome de Budd-Chiari Síndrome nefrótica Trombose de Veia porta Vazamento linfático pós-operatório Tabela 3. Principais etiologias da ascite discriminadas de acordo com o GASA (Gradiente albumina soro-asci- te). (Fonte: Medicina de Emergência, 13ª Ed, 2019 A citometria, como o próprio nome elucida, é uma avaliação citológica do líquido ascítico, de forma muito semelhante ao hemograma. Nessa avaliação, devemos nos atentar aos linfócitos, principalmente os polimor- fonucleares. Caso existem > 250 polimorfonucleares (em número absoluto), deve ser realizado o diag- nóstico de PBE e o seu subsequente tratamento. Outro dado que aponta para a PBE é a cultura do líquidoascítico positiva, porém esse exame tem o resultado um pouco tardio. A cultura nada mais é que a avaliação bacteriológica do líquido ascítico. SAIBA MAIS! Os germes comumente encontrados na PBE são a Escherichia coli, Streptococcus sp. e Kle- bsiella pneumoniae. Figura 7. Coloração de Gram em fluido peritoneal, com diagnóstico de Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE). Pode-se observar diferentes germes, incluindo cocos gram positivos e microrganismos entéricos gram ne- gativos. Trata-se de uma “mistura” dos germes da flora intestinal. (Fonte: UptoDate, 2020) Caso a punção demonstre um líquido esbranquiçado e leitoso, devemos pensar que ele pode ter origem lin- fática! Além disso, podemos também já ter uma suspeita por outros fatores clínicos para a presença de uma do- ença linfoproliferativa cursando com ascite. Para melhor avaliar essa situa- ção, podemos dosar a quantidade de triglicérides nele presente. Caso seja > 200mg/dL, devemos pensar em ascite quilosa (linfática). 18PARACENTESE observado em microscopia óptica (MO), em busca de células tumo- rais viáveis. Caso a citologia oncótica esteja positiva, temos um direciona- mento positivo para a carcinomatose peritoneal. Podemos também lançar mão dos marcadores tumorais na análise do líquido ascítico. Por fim, caso haja uma suspeita ela- borada sobre a presença de uma neoplasia primária ou secundária de topografia abdominal, como a carcinomatose peritoneal, deve- mos realizar uma citologia oncóti- ca. Realiza-se um esfregaço em uma lâmina com o líquido ascítico, que é Figura 8. Carcinomatose peritoneal. Achado chamado de “Omental Cake”, se referindo a difusa infiltração da gordura peritoneal por material neoplásico. (Fonte: https://www.atlascirurgico.com.br/artigo/106a-carcinomatose-peritoneal) Acidentes no Procedimento Como estaremos muitas vezes lidan- do com pacientes cuja patologia de base predispõe problemas na coa- gulação, podemos ter que lidar algu- mas vezes com o sangramento, aci- dente que ocorre em cerca de 0,97% dos procedimentos. Os vasos mais calibrosos que podem ser eventual- mente puncionados são as artérias e veias epigástricas inferiores. En- tretanto, na grande maioria das situ- ações a conduta é basicamente a compressão sob o local, sendo muito efetiva habitualmente, não necessi- tando de maiores intervenções. 19PARACENTESE Figura 9. Presença de circulação colateral que pode dificultar o procedimento da paracentese, favorecendo a aciden- tes como o sangramento. Devemos nos atentar principalmente para os vasos epigástricos inferiores. (Fonte: Atlas de Anatomia Humana, 7ª Ed, 2019; Anatomia Orientada para a Clínica, 6ª Ed, 2013) Figura 10. Sangramento de pequena monta durante a punção da paracentese. Usualmente esses sangramen- tos são controlados apenas com a compressão local. (Fonte: http://www.hepcentro.com.br/ascite.htm) De forma mais frequente, em cerca de 5% dos procedimentos, após o mesmo ocorre o vazamento de lí- quido ascítico pelo local da pun- ção, usualmente em pacientes des- nutridos cuja camada subcutânea não consegue vedar devidamente o orifício da punção. De forma seme- lhante ao sangramento, também tem uma ótima resolução apenas com a compressão manual ou através de curativos compressivos. Em alguns poucos casos podem necessitar de pequenas intervenção cirúrgicas, como realização de sutura no local. Por fim, a perfuração de alças intes- tinais pode ser também um acidente do procedimento, que será percebi- da caso seja aspirado gás ou con- teúdo de víscera oca, como fezes e líquido entérico. As consequên- cias mais comuns da perfuração são a contaminação do líquido ascítico (podendo vir a cursar com Peritonite Bacteriana Secundária – PBS, pela conexão temporária da microbiota in- testinal com o líquido ascítico. Ocorre em cerca de 0,58 a 0,63% dos proce- dimentos) e, de forma menos comum, a formação de uma fístula digestiva. Nesses casos, deve-se manter o pa- ciente em observação e análise clini- co-laboratorial constante, de forma a evitar maiores consequências. 20PARACENTESE MAPA MENTAL GERAL: PARACENTESE O que é? O procedimento Grande distensão de alças abdominais Coagulopatias Ambas contrain- dicações são relativas Minimização dos riscos: USG! Punção da cavidade peritoneal Terapêutica Propedêutica Hepatopatias Cardiogênica Doenças Infecciosas Carcinomatose peritoneal Doenças linfoproliferativas Febre, dor abdominal, encefalopatia, leucocitose, disfunção renal e acidose Alívio dos sintomas compressivos Ascites resistentes ao tratamento clínico otimizado Ascite a esclarecer Ascite com piora do estado clínico Atentar para Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE) Infecção bacteriana do líquido ascítico na ausência de outra infecção intra- abdominal Terço inferior entre o umbigo e a Espinha Ilíaca Anterossuperior (EIAS) Preparação Não há volume máximo! Antisséptico, gaze, campo fenestrado, luva estéril, máscara cirúrgica, touca e óculos cirúrgicos Lidocaína a 2% sem vaso, seringa (10 mL e 20 mL), agulha (N° 18 e 22), Jelco (N° 14 ou 16), Equipo, tubos de análise laboratorial, de cultura e cálice graduado Material de proteção Equipamentos necessários USG: acúmulo de líquido, poucas alças intestinais e poucos vasos colaterais Sempre injetar depois de aspirar: Evitar vasos! Anestesiar até a cavidade, retornar anestesiando peritônio, em seguida até a pele (botão anestésico) Ultrapassar pele, subcutâneo, músculo e aponeurose, gordura pré- peritoneal, peritônio e cavidade peritoneal Saberá que adentrou a cavidade quando aspirar o líquido ascítico Adentrar o cateter do Jelco e retirar a agulha Conectar o Jelco ao equipo e esse ao cálice graduado Marcação do ponto Anestesia Punção Conexão com o Equipo Técnica Exames solicitados Retirar o suficiente para aliviar os sintomas Retirada de grandes volumes: Cuidado com a síndrome hepatorrenal! Reposição de albumina: A partir de 5L, 1 frasco para cada litro retirado Contraindicações Compressão local Compressão local, curativos compressivos ou sutura Aspiração de ar ou fezes Pode gerar Peritonite Bacteriana Secundária (PBS) ou fístula digestiva Macroscopia: seroso, hemorrágico, turvo, quiloso e bilioso Avaliação bioquí- mica: Albumina (soro e ascite), proteínas totais e GASA GASA > 1,1: Hepatopatias GASA < 1,1: Outras etiologias (Ex: Cardiogênica) Acidentes Citometria: Células vermelhas e brancas. Polimorfonucleares (PMN) > 250 = PBE! Bacteriologia: Cultura Outros exames: Ascite quilosa: Triglicérides > 200mg/ dL. Carcinomatose peritoneal: Citologia oncótica Eventualmente cocos gram positivos, principalmente germes entéricos (E. coli, K. pneumoniae) GASA (Gradiente albumina soro- ascite): Relação que possibilita a avaliação etiológica da ascite Sangra- mento Vaza- mento pelo local da punção Perfur- ação (menos comum) 21PARACENTESE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Courtney MTowsend et al. SABISTON. Tratado de cirurgia. 18ª. ed. Rio de Janeiro: Elsevier 2010. Millington SJ, Koenig S, Better with Ultrasound: Paracentesis, CHEST (2018), doi: 10.1016/j. chest.2018.03.034. Mittal Rahul. Paracentesis in the management of ascitis. British Journal of Hospital Medicine, September 2007, Vol 68, No 9. MOORE, K. L.; DALLEY, A. F. Anatomia orientada para a clínica. 8ª Ed. Rio de Janeiro: Gua- nabara Koogan, 2019. NETTER, F. H. Atlas de anatomia humana. 7ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. Oliveira, C.Q.; Souza M. M. C.; Moura, C. G. G. Yellowbook: Fluxos e conduta – Emergência. 2ª Ed., Salvador. Sanar, 2019. 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