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DIÁRIO DO MIKHAEL_FINAL (1)

E-book com relato de pais sobre a luta contra a depressão do filho Mikhael, a dor do suicídio, o luto, o amor e a busca por esperança; inclui prefácio do psicólogo Adauto Souza.

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Prévia do material em texto

2 
 
Ao nosso filho amado Mikhael, com saudades! 
Nos veremos em breve. 
Papa e Mama 
 3 
Autores: 
Mikhael Elias 
Daniel Mastral 
Isabela Mastral 
 
Capista: Ariane Santos 
Prefácio: Psicólogo Adauto Souza 
Compilação de textos: Luciana Alves 
Tradução do Diário: Simone Alves 
Diagramação: Luciana Alves 
Revisão: Alda Alves, Simone Alves e Luciana Alves 
 
Lançamento do E-book: 15/02/2019 
 
Distribuição Gratuita 
Site: www.danielmastral.com.br 
 
Contato com os autores: 
danielmastral@hotmail.com 
 4 
Prefácio 
Essa é uma história de amor. 
Também de dor, afinal, o amor é sofredor. 
Essa é uma história de batalhas que produzem danos incuráveis, já que a 
vida não pode ser substituída. 
Essa é uma jornada de muito aprendizado, de ensinamentos, de lágrimas, de 
aflições e de perda. Mas, acima de tudo, essa é uma história de amor. 
É uma história de amor porque é o amor que nos faz lutar, que nos dá 
esperança fazendo-nos continuar, que nos assiste na solidão. E quando a noite cai 
e tudo que se tem é a saudade, só o amor pode servir de refrigério ao coração. 
Essa é a história da dor que se multiplica, da dor que concebe outra dor e do 
desejo de silenciá-la. Falar sobre ela não é uma tarefa fácil. Porque essa dor não 
tem rosto, não possui forma, não se anuncia quando chega e não possui prazo para 
ir embora. Muitas vezes, não permite saber de sua origem ou de seu destino  ela 
apenas aparece. E sem oferecer convite, pode levar ao mais sombrio dos calvários. 
Como se fosse um vírus que se espalha, e envolve todas as emoções, ofusca 
os horizontes, destrói os sonhos e interrompe a vida. Mas, lembre-se que essa é 
uma história de amor. Permita que o amor te alcance, te abrace, te transforme. 
Essa é a história do amor de um pai, de uma mãe e de um filho, que apesar 
da sua angústia, não deixou de os amar. Todavia, esse filho não suportou a dor, a 
dor da depressão. 
 5 
A depressão não escolhe idade, sexo, crença ou classe social. Não é 
frescura, não é exagero. Mas, pode-se dizer que é o grande mal do século. Um mal 
que vem ceifando vidas, arruinando lares, arrastando pessoas para o mais árduo 
sofrimento e assolando os que estão ao redor. Essa é a dor que produz outra dor, a 
dor que se multiplica. Mas, apesar de tudo, essa é uma história de amor. 
Essa história não foi escrita para acentuar angústias. Mesmo que haja 
tristeza em seu conteúdo, ela não é feita apenas disso. Ao contrário, ela é aqui 
relatada para orientar, para sinalizar que além da escuridão existe luz, e que, 
sobretudo, é possível concluir a jornada de dor sem precisar deixar a vida. 
Muitos trilharam o caminho dessa dor e conseguiram vencer. Outros 
sucumbiram, mas não deixaram de amar, e talvez tenham amado tanto que não 
suportaram ver os seus amados sofrendo com seu sofrimento. Preferiram partir, 
mas partindo geraram mais dor. Lembre-se, essa é a dor que produz outra dor. 
Mas, acima de tudo, essa é uma história de amor. 
A história do amor de um pai e do amor de uma mãe que juntos lutaram 
contra a depressão do filho. É a história do amor do filho que muito amou os pais, 
a vida, as pessoas e os animais, mas que adoeceu acometido de profunda 
depressão. 
A depressão faz o coração sangrar, transforma a existência em martírio, 
levando para longe o sentido da vida. A depressão engana, ilude e distorce a 
visão. Faz com que se acredite, erroneamente, que a morte possibilitará paz aos 
que ficarem. 
A depressão levanta muros ao redor, revestidos de espelhos que impedem 
que se contemple além deles, limitando a visão à própria imagem, à imagem da 
dor. Porque olhos em abundante depressão são incapazes de se enxergarem no 
 6 
espelho. Tudo que podem ver é um reflexo de dor em um espelho que não reflete 
vida. 
Olhos depressivos não conseguem perceber a devastação que o suicídio 
causa, não percebem o sofrimento que será deixado aos que ficarem quando se 
atravessa a linha que divide a vida da morte. Mas, apesar de toda essa angústia, o 
amor está lá, latente. Porque essa também é uma história de esperança, visto que 
enquanto houver vida a esperança florescerá nos campos. 
Essa é uma história de amor, porque somente o amor leva um pai a ter fé, 
somente o amor faz uma mãe ter esperança para lutar contra algo tão hediondo, 
tão terrível e devastador. Somente o amor encoraja pais a se colocarem de lado 
para viver única e exclusivamente para o filho que sofre de depressão. E somente 
o amor é capaz de sustentar a vida quando se perde essa batalha e o filho amado 
parte para a eternidade. 
A depressão pode levar à morte, mas o amor permanece aqui, ele nunca 
falha, não adoece e não morre. 
A saudade machuca, o amor conforta. A dor traz culpa, o amor o bálsamo. 
A tristeza pune, o amor absolve. 
Essa é uma história de amor, porque por amor se lutou e por amor se 
chorou. E aqueles que sucumbem à depressão, por não suportarem a dor, levam 
consigo o amor dos que ficam e deixam com eles a dor que portavam em 
proporções ainda maiores, porque a saudade açoita e queima como brasa. 
Contudo, essa é uma história de amor. 
Antes de ler, deixe de lado seus conceitos e julgamentos, pois cada um é 
solitário em seu próprio sofrimento e não cabe a alguém julgar. 
 7 
Após ler, absorva o que de bom você encontrar para a sua vida, e não 
presuma ou suponha algo, porque somente os que sofreram com os aguilhões da 
depressão sabem o que é estar isolado nas águas frias da dor. 
Se você é alguém que está imerso nessas águas, saiba que o amor poderá te 
conduzir até que você possa atracar em um porto seguro. 
Meu respeito e solidariedade aos meus amados amigos Daniel Mastral e 
Isabela Mastral, pais do jovem Mikhael Elias, por quem nutro profundo pesar pela 
terrível dor que dentro de si se formou e levou-o embora, mas que agora, 
encontra-se nos braços do Pai. 
O amor é a força que encoraja na luta e que sustenta na perda. Porque essa é 
uma história de amor. 
 
 
 
Adauto Souza, psicólogo, pai, amigo e cristão. 
IG: @adautosouza_psicologo 
 
“Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior 
destes é o amor” I Coríntios 13:13 
 
* * * * * 
 8 
DIÁRIO DO MIKHAEL 
- DOS PORÕES DA ALMA AOS JARDINS DO PARAÍSO – 
 
 
 
 
“Digo-lhes verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não 
morrer, continuará ele só. Mas se morrer, dará muito fruto.” João 12:24 
 
 
 
“Entre a eternidade e o último suspiro, paira um abismo de misericórdia”. 
 
 
* * * * * 
 
 9 
 
 10 
Isabela Conta 
Fiquei parada, olhando para meu marido. 
"Cadê o Mikhael?" 
"Aconteceu... o que a gente já esperava... ele...", sua voz embargou um 
pouco. "Ele se matou". 
* * * * * 
Não lembro de perguntar nada na hora. Fiquei olhando para ele. A gente 
sabia que era uma doença muito grave; mas na véspera... na véspera houvera um 
fio a mais de esperança: ele ia ter acesso à internação no Instituto de Psiquiatria 
do Hospital das Clínicas. Não só nós estávamos contentes, mas até o Mikhael se 
animou com a possibilidade, depois de muita conversa. 
"Uma clínica não é o suficiente para você", havia dito a médica na véspera 
de sua morte, na primeira consulta. "Você precisa do apoio de uma instituição, de 
cuidado diário, de uma equipe grande". 
Por que uma primeira consulta na véspera da morte? Haveriam de imaginar 
que não demos atenção ao quadro e não cuidamos de nosso filho. Muito pelo 
contrário. 
Havíamos procurado ajuda mais de um ano e meio antes. Nessa época, 
porém, depois de um afundamento depressivo importante aos 14 anos, Mikhael 
melhorou. A nova médica, no dia 21 de dezembro, foi muito humana. 
 11 
Mikhael já havia passado por outros quatro psiquiatras, contando com o da 
Clínica e a última que o encaminhou para esta colega que conseguiria a internação 
no Hospital das Clínicas. 
Mikhael se sentiu acolhido de cara comesta 
nova médica. Gostou dela porque ela fez empatia, 
olhou nos olhos, escutou. Ela esclareceu todas as 
dúvidas dele, incentivou. Não fez um alarido com 
os cortes nos braços, a dificuldade de higienizar o 
próprio corpo, ou a incapacidade de voltar a estudar, pelo menos, inglês. 
"Nós vamos tratar da sua mente. Depois, você vai ver que o resto vem 
naturalmente". – disse a médica. 
O que deixou Mikhael triste naquele dia 21 foi saber que a internação 
duraria por volta de seis meses. Mas, a médica disse que podia parecer demorado, 
mas valeria a pena; o prepararia para a vida. Para viver! 
"Já perdi um ano da escola. Vou perder outro? E passei o ano todo 
sozinho... agora que meus amigos vão estar em férias, vou ser internado de novo?" 
– ele falou. 
"Nós vamos cuidar de você. Toda uma equipe! No momento, você precisa 
de mais do que apenas uma internação em clínica, como foi em julho. Mais do 
que os seus pais podem dar, os dois, sozinhos. Você precisa de mais, e é isso que 
vamos conseguir. ", - continuou a médica. 
Mikhael foi ficando animado e esperançoso. Era melhor do que ficar só, 
trancado no quarto, chorando, jogando videogame e esperando por uma melhora 
que não vinha. Pelo contrário: Só estava piorando. 
 12 
"Vou dar prioridade máxima para o caso dele", ela explicou para meu 
marido. Preocupado - porque Mikhael tinha se cortado na véspera -, Daniel indaga 
quanto tempo levaria para surgir a vaga. 
"Entre cinco, dez dias. Mas pode até ser antes", concluiu a médica. 
"Se ele tiver qualquer intercorrência", falou a médica, para tranquilizar meu 
marido. "Vocês podem ir para esse pronto-socorro". Fez a guia de 
encaminhamento. Era um serviço no qual confiava e onde Mikhael poderia 
permanecer numa espécie de enfermaria, enquanto esperava a vaga no HC. 
"Mas, pai, fique tranquilo. Estou vendo que está tudo bem. Vai dar tudo 
certo." e olhando para Mikhael perguntou: "Você não vai fazer nenhuma 
bobagem, né?". "Não, não", respondeu Mikhael. 
* * * * * 
Ah, nós lamentamos tanto que não tenhamos tido tempo de tentar um 
tratamento com ela...! Que não tenhamos tido tempo de internar o Mikhael. 
Mikhael tinha sofrido na clínica que tinha sido internado, porque 
misturavam os pacientes psiquiátricos com os dependentes químicos. 
Mesmo assim, ele fez amizade, ele fazia amizade fácil. A psicóloga-chefe 
da clínica disse que uma das meninas era apaixonada pelo Mikhael, ela gostava de 
ser chamada de L. Ele contou sobre a menina em uma de nossas visitas, e notei a 
pulseira da amizade no pulso dele, a garota tinha feito na aula de artesanato, e ele 
mesmo estava fazendo uma pequena caixinha para ela em retribuição. Mikhael fez 
grande amizade com C., que até deixou um bilhete em seu diário. Após a alta os 
dois conversaram pelo telefone uma vez. 
 13 
* * * * * 
Mikhael era só um menino carregando uma dor tão terrível dentro de si, tão 
grande, pesada e instransponível que corroeu sua alma, a ponto de não restar 
nada, só uma casca. 
Uma casca que ainda respirava. Que ainda lutava. Que ainda tomava a 
medicação toda sem questionar. Que jamais disse que não ia mais à terapia. Que 
tentou acatar as regras, até o ponto em que a doença expandiu tanto que ele já não 
se importava com nada. Nem consigo mesmo, que dirá as regras. 
Nós o perdemos. 
Nós perdemos o Mikhael e vivemos o luto por 
ele muito antes do dia da sua morte. Meses antes, 
porque já não conseguíamos encontrar nosso filho ali. 
Tinha desaparecido. 
Mesmo fazendo tudo! Mesmo fazendo tudo que estava ao nosso alcance! 
Essa é uma dor dilacerante. Esmagadora. Assistir ao sofrimento do 
Mikhael, do nosso filhotinho, ver ele morrendo diante dos nossos olhos, aos 
poucos. Perceber que todo o esforço que fazíamos, tudo em que nos 
empenhávamos, todas as conversas, o amparo e incentivo, o amor... Não era 
capaz de curá-lo, ou trazê-lo de volta. 
Toda a terapia. Toda a medicação. As consultas. O apoio. 
A dor de ver um ser tão amado morrer aos poucos, e com tanto sofrimento, 
não deveria existir. Simplesmente, deveria ser possível trocar de lugar com ele, 
 14 
viver a doença por ele! Como eu pedi a Deus, mais de uma vez - "Estou mais 
acostumada...". 
A verdade é que nós estávamos morrendo com ele, um pouco a cada dia. 
* * * * * 
Dia 22 de dezembro. Fim da tarde. Eu já tinha ligado, para o Daniel 
algumas vezes, porque os dois não estavam em casa, mas Daniel atendeu e disse 
que ligava em seguida. 
Fiquei cismada. Olhei o quarto do Mikhael, mas 
não vi nada de errado. Então esperei. 
Depois daquela notícia gélida, eu não sabia o que 
sentir. Daniel entra em casa, vou atrás. Acho que ele começou a me contar o que 
aconteceu. Não desmaio. Não vejo tudo rodando. Não grito. Só sinto as lágrimas. 
Em silêncio. 
Eu achei que os dois estavam juntos, meu marido e meu filho. Não imaginei 
que tinha acontecido e que receberia a notícia naquela tarde de sábado, a notícia 
que nenhuma mãe deveria receber. 
* * * * * 
Eu me mantive bem por alguns meses, mas depois comecei a notar 
sintomas, de novo em mim, da depressão, aparecendo devagar. Eu já os conhecia, 
já tinha vivido e superado. Mas, a agressividade da dor constante, da preocupação 
constante, da tristeza constante, da incerteza e do medo fizeram, os sintomas 
voltarem. 
 15 
Às vezes, eu só precisava ficar quieta um pouco, para me preservar, porque 
aprendi a conhecer os meus limites emocionais, os sinais e os desencadeantes da 
doença em mim. Isso não queria dizer omissão, de forma alguma. Às vezes, só 
precisava de um pouco de afastamento emocional, tentar esconder do coração um 
pouquinho daquele horror todo. Por isso, eu não fui na primeira consulta com a 
médica nova, embora tenha estado em todas da médica anterior, e nas duas vezes 
em que a terapeuta - a psicóloga - me convidou. 
Eu tinha minhas limitações. 
O mesmo se dava com o Daniel. Ele não conhecia os sinais da depressão 
até que os sentiu em si mesmo. Isso se somou à ansiedade extrema. Tinha dias que 
ele precisava ficar quieto, ou senão ia explodir. Todos os terapeutas que ele 
buscou no período diziam a mesma coisa a ele: "Você não pode sucumbir, tem 
que encontrar válvulas de escape. 
Mas, não havia. Quando você ama muito alguém, nunca há; porque é 
impossível descansar a mente mesmo que o corpo esteja em outro lugar. Nós dois 
paramos a vida para ficar com o Mikhael. 
Em seis meses, se saímos de casa umas sete ou oito vezes foi muito, e é 
uma estimativa alta. Daniel deixou a academia, parou com a escrita dos livros e 
com os seminários. A vigilância era constante sobre nosso pequeno, nosso amado, 
nosso único filho. Daniel de manhã, eu à noite. Mikhael nunca ficava sozinho. 
E como ele não tinha vontade de sair, a gente também não saía. Os dias 
começaram a parecer todos iguais. Ninguém sabia direito o que tinha feito, o que 
tinha comido, qual era o dia da semana. 
 
 16 
Dormir era difícil, acordar ainda mais. Eu me confundia com os meus 
próprios remédios, não me lembrava se tinha tomado ou não, mesmo com os 
frascos à minha frente. "Será que já tomei... ou ainda não?", pensava. Esquecia 
minha comida dentro do microondas e só ia lembrar horas depois. Estava 
arrumando alguma coisa em casa, e misturava tarefas, ia me lembrar de terminar 
algo já começado depois de um bom tempo. 
* * * * * 
Depois que Mikhael morreu é impossível não se questionar: "E se eu 
tivesse feito isso; se eu não tivesse feito aquilo; se eu tivesse um pouco mais de 
força, de paciência, de amor, de qualquer coisa que ele precisasse... e se; e se". 
E se... 
Quando essa dor começar a diminuir, se é que isso é possível, se é que é 
possível voltar a ter alguma paz e tranquilidade, alguma alegria, isso vai vir da 
certeza de que fizemos o nosso melhor. Não negamos toda e qualquer ajuda, tudo. 
Até o limite das nossas forças como pais. 
* * * * * 
Daniel foi falando - quando acordou, Mikhael nãoestava. Isso jamais 
acontecia. Não tinha um recado explicando se tinha saído. Mesmo assim meu 
marido ainda imaginou que ele pudesse ter apenas ido dar uma volta, e ia retornar 
dizendo que "Precisou, que tinha ido caminhar e que esqueceu de deixar um 
bilhete". 
Ele contou os detalhes da procura, que levou o dia todo. Só não levou mais 
tempo, porque o irmão policial do Daniel agilizou as coisas. Eu não entendia 
 17 
metade da burocracia, e nem mesmo como exatamente ele conseguiu encontrar 
nosso filho, que saiu sem qualquer documento. 
Não me lembro do resto do dia. Por que ele não me chamou para ir 
também? Por que não me permitiu ajudá-lo? "Você não iria suportar a burocracia 
e a espera. No começo, eu não achei que ele tinha feito isso". 
Ele chorou, lembrando que precisou reconhecer o corpo. Esse foi um dos 
motivos pelos quais também lamentei não ter ido. Daniel não pode ver uma 
coisinha médica qualquer pela televisão. Eu poderia ter reconhecido o corpo. 
Tenho um último vislumbre, dele indo para o quarto na sexta-feira à noite, 
depois que ficou um pouco com as amigas no McDonald’s. Quando eu percebi, a 
luz já estava apagada. Tinha sido um dia cansativo. 
* * * * * 
Daniel tenta cochilar um pouco. No domingo, dia 23 de dezembro, ele tem 
que enfrentar as burocracias do IML, delegacias e cemitério, para poder sepultar 
nosso pequeno. 
Eu passo a noite acordada, e sem condições emocionais de acompanhá-lo, 
não conseguiria, queria manter a imagem dele preservada em minha mente. 
Muita dor. 
Falo. Falo. Falo com Deus. Choro. choro. 
* * * * * 
 18 
Mikhael sempre foi dócil, obediente; adorava o conceito de "Família". Em 
qualquer lugar, em casa, na rua, ele às vezes gritava: "Abraço de família", quando 
estava feliz, ou quando alguma coisa boa tinha acontecido a um de nós. As 
pessoas sorriam ao nosso redor com o jeitinho dele. 
Se por acaso eu tinha alguma descompensação (por conta da depressão, e 
também da síndrome de borderline), ele era afastado imediatamente. Mas, alguma 
coisa ficou em sua memória. Outras ele aumentou. Outras viraram memórias-
fantasma que nunca ocorreram. Há crianças que realmente vêm de lares terríveis, 
e passam por traumas violentos, não foi o caso do Mikhael. 
A psicóloga olhou dezenas dos desenhos que ele fez ao alongo dos anos e 
que eu guardei. Qualquer coisinha que ele fazia, ou me dava, eu guardava. Ela não 
encontrou nenhuma característica de doença psiquiátrica. 
A casa amarela, a família feliz de mãos dadas, 
na proporção certa - ele no meio, eu de rabo-de-cavalo 
vermelho, o pai do outro lado. Os bichos ao redor. 
Céu. Sol amarelo. Todo mundo sorrindo. A terapeuta 
falou: Não há nada de errado ali. 
Mas, em algum momento, a doença girou uma 
chave. Foi como colocar alguma coisa ruim em 
ignição. Foi tão pavoroso e tão triste. De repente, 
as memórias ruins dele estavam impregnadas. Na tentativa de diminuir os 
"traumas", a parte ruim prevaleceu, e ele esqueceu todo o resto, 90% da vida dele, 
até os 14 anos foi feliz, completa e cheia de significado. 
* * * * * 
 19 
A primeira vez que Mikhael lidou com a morte foi aos três anos. Vovó 
Nadya, minha mãe. Ele dizia, na hora do banho, que a gente tinha que convidá-la 
para vir em casa, não me lembro o porquê. Estávamos na frente do espelho, eu 
penteando seu cabelo, terminando de vestí-lo. Engoli seco. “A vovó Nadya não 
vai poder visitar a gente por enquanto. Ela foi morar no céu”. E assim se saiu uma 
conversa rápida sobre isso, e disse que futuramente estaríamos todos juntos de 
novo. 
Houveram outras mortes. Teve nossos gatinhos Mambo e Merengue, e o 
nosso cãozinho o Mel. Ele entendeu que morreram porque ficaram muito velhos e 
doentes. Mas, esses foram ainda na antiga casa que morávamos. 
Na atual casa morreu a Julie, nossa cadela, a 
veterinária disse que ela melhoraria. Mikhael com 12 anos 
acreditou. Quando a Julie morreu de repente, foi um baque 
muito forte para ele. O Tango, o coelho. Mikhael aguentou 
ficar comigo a noite toda enquanto ele agonizava, e eu tentei 
deixá-lo mais confortável possível, quando entrou em forte 
insuficiência respiratória. Mikhael cavou o túmulo no jardim. 
Nós o enterramos. 
E morreu a Patinha. 
A morte da Patinha foi o start da doença depressiva do Mikhael. Insidiosa, 
sutil, sorrateira no começo. Um período de notas ruins por causa da perda da 
amiguinha. Mas depois, vieram as férias e ele parecia ter superado. 
* * * * * 
 20 
Mikhael contou que teve o mesmo sonho de forma recorrente: “Eu estava 
sentado no banco de pedra em frente de casa. Quando me via, a Patinha, que 
estava do outro lado da rua, vinha na minha direção. Ela era atropelada, só que 
não morria. Então, estava transformada em um leopardo”. E o que mais me 
chamou a atenção foi: “Ela estava forte. Ela estava Plena”. Plena. Estranha 
escolha de palavra. Inspirada (em sua forma gloriosa, seu corpo imortal). 
Se o Pai, que tudo conhece, deu a meu filho esses sonhos tantas vezes a 
ponto de ele me contar mais de uma vez; é porque sabia da intensidade da perda. 
* * * * * 
"Eu te amo" - ele me dizia isso todo dia; às vezes, mais de uma vez. E eu 
respondia o mesmo. Sempre tinha abraço, beijo, história para dormir. Risadas. 
Tantas e tantas coisinhas do dia a dia, do amor, da amizade, do companheirismo e 
da alegria juntos. Não há como resumir, ele era meu amigo, desde pequenininho. 
Ele sempre me fez sorrir, me fez querer ser uma mãe boa. A melhor mãe possível. 
Depois de ter passado por alguns problemas 
com minha própria doença, escrevi um cartão com 
corações, dizendo estar melhor, e que tinha sentido 
muita saudade dele. Que íamos passear com as 
cachorras e ver muito desenho. 
"Não sei viver sem você! Você é especial 
demais, e eu te amo mais que tudo na vida. Comprei 
esse presente para quando você dormir, lembrar 
sempre de sua mamãe. O nome dele é Eli. Mil beijos, 
meu amor" 
 21 
A cartinha está datada de novembro de 2010. Ele tinha sete anos. Não 
muito depois disso eu teria a consulta com o Dr. Alexandre, que fez o meu 
tratamento e acertou nos meus medicamentos, e passaria a viver melhor. 
Na verdade, eu não estava procurando um presente. Eu vi o ursinho numa 
loja que não era nem de brinquedos, por acaso, e escolhi esse nome por ser um 
diminutivo de Elias. Acho que ele nunca nem percebeu isso. 
Mikhael dormiu com o Eli até o final da vida. E o sepultamos junto com 
nosso filho. 
O Eli esteve perto mesmo ali, quando só o corpinho 
do nosso filho ainda restava. Meu eterno coração de mãe, 
imperfeito, mas entregue; a afirmação de um amor que 
transcende a morte; e um eterno pedido de perdão por toda 
vez que, involuntariamente, fiz com que ele sofresse de 
alguma forma, ou se assustasse. 
O que ele viu do quadro clínico foi pouco, mas para 
as crianças as coisas são grandes. Ele era sensível, e sempre viveu num ambiente 
de muita paz, de harmonia, de resguardo, respeito, amor, compreensão. Não havia 
choradeiras, pesadelos no meio da noite, castigos. 
Acho outro bilhetinho meu: "Oi, meu amor, bom dia! Você é a criança mais 
especial, mais obediente, mais bondosa, justa e sincera que conheço! Tenho super-
orgulho de ser sua mãe." 
Dói muito no meu coração que os distúrbios da mente dele apagaram 
muitas das nossas lembranças, e ele tinha que me perguntar se eu tinha orgulho 
dele. Eu sempre tive! Ele cometeu erros na adolescência - como todo adolescente 
 22 
- e não estou justificando. As típicas teimosias, desejo de liberdade, de se 
identificar e pertencer a um grupo, a sensação de onipotência. A rebeldia. 
Com 13 anos, ele começou a questionar algumas coisas, a rejeitar outras, 
mas permanecemos companheiros. Sempre admirei o rapaz educado, cordial, 
gentil, inteligente, comunicativo, bonito! Que não desprezava ninguém, não tinha 
preconceitos e acreditava que o ser humano era bom, que todas as pessoas eram 
dignas de atenção.Mikhael era leal aos seus amigos e dava grande valor a eles. Era engraçado, 
uma boa companhia. Quem conhecia o Mikhael, de verdade, sabia disso. Era 
impossível não gostar dele. 
Tanto é que, aos 14 anos, o celular dele não parava de tocar, ele sempre era 
chamado pelos amigos para sair. 
Infelizmente, a doença destruiu grande parte disso. Ele não conseguia mais 
cultivar as amizades, mesmo assim, algumas permaneceram, mesmo quando ele já 
estava bem doente... 
* * * * * 
Ali, no quarto, eu me despedi do Mikhael. Apenas falei, falei... o que meu 
coração sentia. Nós sempre conversamos muito. Apesar de que, no final, ele 
estava mais ligado ao pai, disputava a atenção dele. Mas, naquela hora isso não 
importava. Estava enterrando o corpo do nosso filho com a certeza de que ele já 
estava no Céu. 
Essa certeza nos sustenta, embora não aplaque a dor. Não é uma suposição, 
ou um desejo da alma ferida, uma vontade desesperada, uma assustada esperança. 
Não. É uma certeza plena. Ele era nosso Filho da Promessa. 
 23 
Chorei e chorei, falei e falei, me despedindo do meu amorzinho. Pedi que 
minhas palavras lhe fossem transmitidas ipsis litteris, porque ele já não estava 
entre nós desde às 8h12 da manhã do dia anterior. 
Não o culpei, de modo algum. Eu entendia sua dor profunda, seu cansaço 
infinito, a ausência total de sonhos ou esperança. Nós, seus pais, não tínhamos o 
poder de criar sonhos e parar a dor. Só podíamos estancar um pouco. 
Agora, tudo tinha passado. Nós - eu e Daniel - sabíamos que ele estava 
bem. Muito bem. 
Meu marido saiu do cemitério, e quando chegou em casa eu ainda estava 
naquele clima de despedida, falando e orando. Sem expectadores humanos, sem 
palavras de consolo humanas. O consolo veio das palavras do Pai - Papai. 
* * * * * 
O nosso filho da Promessa tinha uma missão no Mundo, mas ao final da 
missão havia morte. Uma morte jovem. 
Ele percorreu o caminho mais difícil. Suas escolhas erradas começaram 
como mera curiosidade de adolescente; depois, com o início da doença, se 
tornaram vícios desenfreados. 
A morte da Patinha foi um dos gatilhos fortes. É 
incrível pensar que aquela gata morreu pouco mais de um 
ano e meio antes dele... Mas, era uma amiga importante do 
Mikhael, sempre atrás dele, sempre junto, até mesmo no 
banco de pedra de manhã, enquanto ele esperava o ônibus 
escolar. Não importava o tempo, todo dia, a ligação entre 
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eles era forte. Muito forte! Ela foi adotada e foi o Mikhael que a viu primeiro, ela 
o amou e vice-versa. Quem conhece de verdade os animais compreende sua 
incrível capacidade de amar ... 
Acordei com ele entrando no quarto, chorando. Tudo tinha sido tão rápido 
que eles nem pensaram em me chamar. Voaram para a veterinária. 
Mais tarde, o Mikhael disse, que o pai falava: “calma, calma, calma”, mas 
estava em pânico. 
A gatinha estava toda ensanguentada, quebrada. Ferida de morte. 
“Mama!”- ele veio me chamar, em lágrimas. 
Se aproximou da cama, eu acordei de imediato. 
“A Patinha está morta!”. 
Um misto de dor, e desespero. 
“O que aconteceu, o que ...?” 
“Ela foi atropelada”. 
Senti um choque. Um baque no peito. Não era possível. 
“Vem, desce ...”, ele me pediu. 
Eu sai em seguida do quarto, expliquei para ele que a separação era apenas 
temporária, ele tinha dificuldade em compreender isso. 
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“Mas como você pode ter certeza? Certeza de que ela foi para o Céu, e não 
apenas vai desaparecer para sempre, como se não tivesse existido?”. 
“Tudo que Deus criou era bom. Os animais são bons. Deus não permite que 
eles deixem de existir. Ela vai estar lá, esperando por você”. 
Como é difícil falar essas coisas. 
Outro gatilho foi o distanciamento que houve de uma amiga que era mais 
próxima que uma irmã, devido a problemas emocionais da mesma. Eu não sei o 
que ele entendeu, ou o que foi alegado a ele. Mais tarde, quando eu vi o quanto ele 
se culpava, e como se achava o responsável pela perda da amiga, eu contei que a 
culpa não era dele. 
A morte da Patinha foi no primeiro semestre do oitavo ano, e a perda da 
amiga, no final desse mesmo ano, os dois fatos deram o start de vez na doença. 
Mikhael estava com 13 anos. 
A autoimagem ruim do Mikhael começou com essas perdas. Se algo não 
dava certo, se alguém o abandonava... a culpa era dele. 
A sensação de perda, de ficar só, de ser abandonado passou a dominar a 
vida dele. Qualquer percalço e ele tomava a culpa para si. Disse que uma grande 
amiga saiu do nosso bairro e se mudou por causa dele. 
Mikhael se achava o culpado, único culpado. 
Uma baixa autoestima arrasadora estava se formando na mente dele. Ele 
teve um quadro depressivo nesse ano, que nos assustou de verdade. Pensamos que 
teríamos que interná-lo. 
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Deus deu ao Mikhael uns anos a mais para mudar de rumo. Ele já estava 
mentindo para nós, escapando de ônibus e indo ao centro da cidade, à rua 25 de 
março, a Paulista, começou uma conversa esquisita de que "ele não era burguês", 
“que onde moravam era chato”. “São Paulo é que era divertido”. 
Esse discurso não combinava com ele, ou com qualquer uma das amigas e 
amigos que ele tinha na escola. 
No início do nono ano, quando completou 14 anos, uma de suas melhores 
amigas organizou uma festa surpresa para o Mikhael, e foi surpresa mesmo! Na 
filmagem dá pra ver a cara dele, enquanto um outro amigo jogava confete do 
andar de cima. Essa amiga, D., combinou tudo com a gente, nós compramos a 
comida, e um dos amigos cedeu a casa. Ela mesma fez o bolo, os outros levaram 
salgadinhos, pirulitos, tiraram fotos. 
Ele tinha mais uma chance, de entrar no plano perfeito de Deus para a vida 
dele e cumprir sua missão na Terra. 
Choro. Choro. 
À noite é mais difícil. Ele tinha o mesmo ritmo biológico que o meu. Nas 
férias, ficava acordado de madrugada, às vezes, até de manhã. Isso depois dos dez 
anos. Ele estava sempre ali, fazendo suas coisas, eu fazendo as minhas. A gente 
inventava um macarrão, conversava. Ele me contava alguma coisa. Tinha um 
senso de humor ótimo e quando se tornou adolescente, uma visão de mundo com 
uma pitada de "pimenta". Suas "tiradas" eram ótimas, engraçadas. Contava as 
coisas de um jeito muito próprio porque tinha bom humor - e senso de humor! 
E o humor dele era bom, porque não magoava ninguém. 
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A porta do quarto dele sempre aberta, eu ali pertinho, na sala. Quando 
passava ali, sempre, sempre recebia um olhar, um sorriso, um beijinho. Nunca 
mais essas noites tranquilas aconteceram depois que ele adoeceu. 
Da mesma forma, as manhãs. Quando éramos só nós dois, nos finais de 
semana, durante as viagens longas do Daniel, era no quarto dele que eu entrava 
quando acordava. De pijama, zonza de sono, não precisava pedir licença. Ele 
também parava o que estivesse fazendo para falar comigo. Ficávamos falando de 
qualquer coisa. 
Como ele tinha deitado tarde 
como eu, acordava igualmente 
tarde. A gente tomava café às duas 
da tarde. Almoçava de noite. 
Jantava de madrugada. Isso nunca 
mais vai acontecer nessa vida ... 
Se tinha que estudar, a gente estudava. Eu estudei com ele até o sexto ano, 
todas as matérias, aí aos poucos fui soltando durante o fundamental dois. Dava 
uma ajuda se ele estivesse muito perdido. Costumava ter sempre boas notas. Todo 
mundo conhecia o Mikhael. Ele nasceu, cresceu e viveu sempre no mesmo bairro. 
Desde pequenininho ele tinha brilho nos olhos e gostava de conversar com todas 
as pessoas, sobre tudo. Sempre sorrindo e tecendo comentários, era o jeito dele. 
Ele estava sempre rindo, com brilho em seus olhos, o sorriso franco e 
aberto para todas as pessoas. Até os desconhecidos que passaram a conhecê-lo: no 
mercado, na farmácia, na padaria, no restaurante, no cabelereiro. Aquela vizinha 
que eu nunca nem vi, e sequer sabia o meu nome virou para mim na manicure: 
“Você é a mãe do Mikhael, né? Meu Deus, olha, ele é uma pessoa muito educada, 
a mais educada queeu já conheci na vida." 
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Já havia escutado isso de professores e de mães dos (as) amiguinhos (as). 
Respeito pelo próximo e vontade de conversar com todos era nato, era dele, 
nasceu assim; o fato é que todo mundo conhecia o Mikhael. 
As pessoas raramente me chamam pelo meu nome, quando muito 
“doutora”, mas com ele era diferente, onde a gente chegava era: “E aí Mikhael! O 
que vai ser hoje?”. “Seu filho é uma graça” diz a cabeleireira para mim, depois 
que Mikhael levanta e diz “adorei o corte” e dar um abraço caloroso na mulher 
recatada coreana. 
É. 
Ele era um doce, amável, terno, inteligente e carismático. Leal aos amigos, 
amava os animais. Extremamente amoroso conosco, seu pai e sua mãe. 
Pai, mãe e filho sempre. 
Era assim que era. 
As pessoas reparavam. 
* * * * * 
De repente, Daniel entra no quarto, nos abraçamos. Ele tinha um rosto 
cansado e abatido. 
“Eu pedia a Deus que me concedesse a força de Sansão…“. 
Isso não era gracejo. A força me foi concedida e ele nem percebeu, mas foi 
mais forte do que imaginava ser. Não sei se choramos juntos novamente, quando 
um está abatido o outro precisava estar mais forte. 
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A vida nos ensinou que os dois não podem fraquejar ao mesmo tempo. 
Nessa altura, eu estava acordada a mais de 24 horas. O dia mais horrível das 
nossas vidas. Fomos sentar na sala e ele me contou umas coisas, ele tinha que 
repetir, ficava difícil falar todos os detalhes, começo meio e fim e quanto seu 
coração estava despedaçado. 
Perguntamos várias coisas para Deus. Por causa do cansaço do Daniel, não 
conseguimos ouvir todas as respostas naquele momento. Mas, ele não sentiu dor 
alguma, no momento da morte. 
Quando eu estava no quarto, durante o “meu sepultamento” particular e 
concomitante, lembro que, dentre todas as palavras de amor, elogios e a gratidão e 
a honra de ter sido mãe dele, disse que me orgulhei de sua força e coragem ... 
* * * * * 
Por causa do trabalho que temos, Mikhael sempre foi preservado dos 
holofotes. Pouco falamos dele nos livros ou de qualquer outra maneira. Não era 
prudente expor nossa vida familiar. 
E como foi bom ter o Mikhael como 
filho. Ele só nos trouxe alegria e orgulho. Só 
coisas boas e momentos bons, que 
vivenciamos tanto em família, quanto durante 
as viagens do Daniel, ou quando o Daniel saia 
com ele. 
Daniel sempre junto em tudo, pai coruja, um super pai. Praticamente, único 
pai no meio das mães, nas aulas de natação de bebês, parquinho, cinema infantil, 
volta nos shoppings. Fazíamos tudo sempre juntos, nós três. Essa será sempre uma 
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marca muito forte nas nossas vidas e na nossa família: união e amor 
incondicional. 
Nunca precisamos gritar com Mikhael, dar castigos, brigar. Ele era 
obediente e sempre falava que não gostava de nos magoar. Com ele, tudo era 
alegre, tranquilo, cheio de vida. 
O Mikhael assistia a um desenho uma única vez, e decorava as frases 
inteiras. Depois, repetia, era muito engraçado e nós acabamos decorando também, 
a gente ria muito. 
Foi muito bom ser mãe. É estranho pensar que eu não sou mais… Mamãe. 
“Mama!” Como ele sempre me chamava. “Mama” e “Papa”, apelidos carinhosos 
que ele escolheu naturalmente, substituindo o papai e mamãe. Mais tarde, às vezes 
ele me chamava carinhosamente de “Muffin“, e o pai de “Panda“. Fomos pais 
extremamente presentes. 
Daniel se fez único na vida do filho, um amigo, um parceiro. 
Tudo o que se pode fazer durante a infância, fizemos e aproveitamos. Era 
difícil viajarmos em família. Primeiro, porque não tínhamos muito dinheiro para 
férias. E depois não podíamos viajar e deixar nossos bichinhos: a Nina já velinha, 
a Lira não desgruda de mim, a Aisha tinha uma ligação muito grande com 
Mikhael, assim como a Patinha. Por isso, Daniel viajou por poucos dias com 
Mikhael, algumas vezes, e eu fiquei com os bichos. Tudo bem! Era legal, eles 
conviverem e os bichos não se ressentiam. 
* * * * * 
Quando a terapeuta e a psiquiatra do Mikhael vieram vê-lo em casa, 
estavam, de certa forma, à caça de um “culpado”. 
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E, claro, a culpada só podia ser a mãe, louca, borderline. 
Não adiantava o que eu falasse, parecia que não estavam me ouvindo. Fui 
ignorada várias vezes, embora num desses dias, eu tenha sido a única que dei o 
“palpite” certo sobre a polêmica questão de pegar ônibus sozinho. Claro. Um 
garoto de 15 anos, quase 16, pode até pegar ônibus, mas não na condição em que 
ele estava, e nem para ir onde queria ir. 
A psiquiatra estava liberando isso, bem como a terapeuta. Uma das 
características do Mikhael, e que ele usou algumas vezes, era de ser extremamente 
persuasivo e convincente (uma das características do borderline). 
Eu alertei à terapeuta: “Ele está te enrolando”. 
Mikhael começou a desenvolver um quadro de distúrbio de personalidade, 
não sabendo mais quem era, e como era, e nem como queria ser, por isso, não 
queria mais ver as fotos dele espalhadas pelas casa. Neste momento, a discussão 
era a respeito de dois painéis familiares que estavam na cozinha, se deviam ou não 
permanecer. 
“Veja, fulana terapeuta”, eu tirei todas as fotos do Mikhael da casa toda. 
Mas, o que estaremos ensinando ao meu filho se tirarmos os painéis? São 
momentos de celebração, momentos de vida, fotos de natal, dos bichos. O direito 
de um termina, quando começa o do outro. Mikhael pode passar pela cozinha e 
dizer: “ah, esses painéis são coisas da minha mãe”, e deixar para lá. 
A terapeuta foi até em casa para falar sobre isso. Por isso, eu disse: “Não 
são fotos os problemas dele, o problema dele não é o externo e sim o interno e 
profundo”. 
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Nessa fase da doença Mikhael tinha desenvolvido uma autoestima tão baixa 
que não suportava nem o próprio rosto. Primeiro nas fotos, depois nos espelhos, 
que ele cobria com a tolha de banho. 
Eu não sei de onde saiu esse pensamento. Uma parte de sua pseudo 
“feiura”, acredito, fosse culpa: por ter fugido de ônibus para o centro da cidade, 
Paulista, 25 de Março e por começar a andar com pessoas tóxicas. 
Nenhum dos amigos dele estavam autorizados a saírem de ônibus sozinhos. 
Então, ele ia sozinho, escondido e sem nossa permissão. Ou ele ia com outros 
jovens que trabalhavam na redondeza, mas não moravam no bairro. 
* * * * * 
A inauguração dessa loja do McDonald’s perto de casa parecia ser legal, à 
princípio, seria um bom local para os adolescentes se encontrarem. No começo foi 
assim. Depois, começou a ficar um lugar duvidoso. E já com a doença instalada 
em um jovem adolescente, louco para viajar “pela bola azul”, como ele dizia… 
Bom… Uma coisa chamou outra. 
Nós achávamos, sinceramente, que ele estava aqui por perto, no bairro, que 
ele jamais seria capaz de mentir, de beber e de fumar. De se autodepreciar tanto, a 
ponto de achar que não era bom e digno de ninguém, exceto de alguns que não 
eram seus amigos, mas ele achava, no momento, que eram. 
E eles sabiam o que tinha acontecido; que Mikhael tinha se cortado muito, e 
que tomara também remédios, que ficou em coma por mais de 12 horas e passou 
três dias na UTI. Quando ele teve alta para enfermaria, nos disseram que teriam 
que remover direto para uma clínica psiquiátrica do convênio. Como nos haviam 
sinalizado a possibilidade, optamos pela internação domiciliar. 
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Bem contente de estar em casa, grato por sua vida ter sido salva, querendo 
prosseguir e querendo caminhar. Tinha perdido os últimos 45 dias de aula, em 
licença médica, mas estava feliz em poder aproveitar as férias, ver os amigos e 
retomar no outro semestre a escola. 
Na quinta-feira, duas amigas vieram visitá-lo em casa, e os três foram andar 
de bicicleta, ele estava bem, embora com pouca resistência física. 
Na sexta-feira, toda a turma de adolescentes se reuniu no Fast Food. Era a 
primeira vez que o Mikhael ia lá, após uma tentativa de suicídio mais séria, que o 
deixou na UTI (era a segunda, a primeira foi mais branda,porque ele não soube 
combinar os remédios para ter êxito). 
Mikhael nunca mexia em remédios, eu controlava isso, se ele tinha uma dor 
de cabeça, enjoo, sempre me falava. E eu sempre o medicava. Ele nunca nem 
chegou perto dos remédios. Mas aconteceu… O que gerou a licença médica e o 
início da escalada da doença a patamares tão altos, que parecia que jamais iria 
atingir o platô. 
Nesta sexta-feira, no Fast Food, alguma coisa aconteceu. Não com os 
amigos dele, mas com alguém que não era amigo dele de verdade. 
O que um adolescente espera? 
Ser recebido com alegria, com calor humano, com ternura. 
Mas alguém falou algo sobre as cicatrizes, debocharam daquela dor. Logo 
ele veio pra casa, e não foi mais o mesmo. A pequena chama de querer viver se 
apagou. Passou sábado e domingo, ele se cortou todo de novo. Como poderíamos 
livrá-lo da internação assim? 
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* * * * * 
A noite foi puro terror, internar meu filho?? 
Sou médica, conheço os serviços psiquiátricos, já li muito sobre internações 
em sanatórios, distúrbios da mente, suicídio, histórias reais. 
Mikhael foi preservado o melhor possível dos sinais da minha própria 
condição. Não foi isso que desencadeou a doença. Ele presenciou pouco, mas 
criança vê tudo grande, e esse assunto foi muito tratado em terapia. Eu não era 
uma mãe-vilã. 
Até mães saudáveis erram, o foco devia ser: “OK, você me contou algo 
ruim ... me fala algo bom da sua mãe ...” 
E isso não existiu. A terapeuta chefe da clínica onde Mikhael ficou 
internado veio me dar um abraço e falar para mim e 
para o Daniel que nosso filho descrevia a própria mãe 
como uma pessoa extremamente forte. Uma heroína, 
porque agora ele entendia o que eu havia passado, e 
sabia que meu quadro havia sido pior. E, se eu venci, 
ele também podia vencer. 
Queria ser forte e corajoso igual a sua mãe, mas isso mudou radicalmente 
quando teve alta e tinha terapia. De repente, me hostilizava, e me provocava de 
propósito, me humilhava. Depois se arrependia, vinha chorando, pedir desculpas, 
acontecia várias vezes. Às vezes, era tão agressivo que me dava medo. Mesmo 
com palavras, ele admitiu ao Daniel que seria capaz de me agredir fisicamente. 
Por isso, vejo que a terapia não vinha surtindo efeito. Não trazia melhoras. 
* * * * * 
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De manhã, segunda feira, era 25 de junho de 2018 – meu aniversário. 
Tinha pensado e orado muito, mais uma noite em claro. Para me distrair, fiz 
um cordão de pescoço para ele. Mikhael sempre andou com um cordão com um 
pingente de flor de lis de aço, delicadamente trabalhado, tinha sido um presente 
meu para o Daniel. Mas, depois o nome Mikhael foi gravado no pingente e ele 
passou a usar. Ele decidiu tirar este cordão, quando já não sabia quem ele era, E 
que queria matar o Mikhael, então, tinha começado o transtorno dissociativo de 
identidade. Passou a achar defeitos horríveis em si mesmo, e se tornou uma 
pessoa oposta a ele. 
Que tristeza ... 
* * * * * 
Já faz parte do quadro de Borderline a manipulação das pessoas pelas 
emoções. E Mikhael era muito inteligente, seu QI era acima do normal. Ele, às 
vezes, ia mau em matemática ou física, porque estava começando o quadro 
depressivo. 
Ele tinha sono na aula. Dormia. Uma vez dormiu no pátio. Outra vez, 
roubou uma faca, subiu ao andar mais alto do prédio da escola e ficou olhando 
para baixo, procurando uma fenda na tela. 
Mikhael cresceu nessa escola, começou ali 
com três anos de idade. Todos conheciam ele 
muito bem, inclusive as donas da escola. 
Ligam para o Daniel: “Mikhael está 
dormindo no pátio”; “Mikhael está estranho”; 
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“Mikhael está no topo da quadra de esportes”; “Mikhael se trancou no banheiro”... 
Vontade de chamar a atenção? Rebeldia de adolescente? Ou sinais de algo 
mais sério? 
* * * * * 
Final do ano de 2017, 9.o. ano, um alívio, ele conseguiu passar de ano, 
depois de todos os nossos esforços. Professora particular de física e matemática, e 
eu e o Daniel dividimos as demais matérias e estudávamos com ele. 
Tivemos a alegria de vê-lo se formar e vestir uma 
beca. 
Foi escolhido como um dos oradores da turma. A 
formatura foi linda e sensível. 
Ele estava feliz. O sorriso radiante. 
Entendo agora, neste exato momento, que Deus nos concedeu mais um ano. 
Mas, como mãe, e ouvindo certos comentários dele, eu sabia que ele se 
envergonhava da própria imagem. Embora o sorriso irradiasse perto dos amigos, 
nas fotos ficava contido, opaco. 
Quando eu dizia: “Você tá tão alto. Tão gato. Tão bonito ...” A resposta era 
sempre uma veemente negativa, e eu ficava imaginando de onde aquilo vinha. 
Por que uma repulsa intensa? Por que? Quando ele começou o 1.o ano do 
ensino médio, na mesma escola e na mesma turma, passou a não querer estudar 
“demais”. 
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Se sentia cansado. Sem vontade. Sem foco. Foi mal em tudo no primeiro 
bimestre. Daniel achou até que seria de propósito, pois ele queria estudar em uma 
escola mais longe de casa, onde ele sabia que tinha duas amigas. 
Sabemos que ele sofreu bullying ali; professores não souberam lidar com a 
situação. Acabaram por expô-lo na sala, quando ele praticou o cutting; não foram 
sábios e isso mexeu muito com ele. 
A mudança de escola foi um fiasco total. Foi bem recebido, mas depois a 
temida e repetida sensação de rejeição, de ser abandonado ... o perseguia. 
O Mikhael acreditava na bondade inerente ao ser humano. Mas, estava 
errado. Não é inerente. Não é frequente. Sei que ele sofreu com a falsidade de 
pessoas, sei que ele sofreu com as perdas e com a rejeição. 
O distúrbio de imagem corporal apareceu mais claro para o final. Ele via 
defeitos absolutamente inexistentes. Se fechou. Se tornou tímido. 
É triste para os pais ver isso. Fica a pergunta sempre: É uma coisa da fase? 
Adolescentes geralmente são encanados com o corpo, com a voz, com 
mudanças... Ou era mais que isso? Sabíamos que era mais que isso. 
* * * * * 
Por que deixar de andar com os amigos de sempre, com quem cresceu, para 
se associar com pessoas tóxicas? 
“E aí, Mikhael, vai uma?” Bebidas. 
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Pouco antes de morrer ele já era considerado com dependente químico. 
Tinha bebidas escondidas pela casa, que os amigos entregavam pela cerca, e só 
achamos após a sua morte. 
Dois dias antes de sua morte, uma pessoa trouxe uma bebida para ele dentro 
de casa. Chegou com uma sacola e saiu sem ela. Sequer cumprimentou o Daniel, 
que achou a bebida de imediato. Dias após sua morte, achei uma outra garrafa 
pela metade. 
Associado a isso, fumava cada vez mais. Quando saiu da clínica estava 
sem fumar. Mas, após as sessões com a terapeuta, ela adotou a conduta do “dano 
menor”. 
“Melhor fumar, que se cortar”. 
Mikhael dizia que o acalmava, foi uma verdadeira confusão! Sem consultar 
os prontuários, profissionais, os pais, a nova psiquiatra, ele voltou a fazer uso de 
algo que estava sanado na vida dele. 
Se ele iria voltar a fumar, não sabemos. Mas o fumo conflitava com a 
medicação (lítio) e podia deflagrar sintomas. 
Todos fomos contra: a psiquiatra, o pessoal da clínica e nós. Mas, a 
terapeuta disse que “sim.” 
A agressividade dele querendo aqueles cigarros de volta era além do 
suportável. Conseguimos segurar por uns dias, mas era preciso praticamente sedá-
lo com Rivotril e Prometazina, pois dizia que só o cigarro o acalmava. 
Por fim, diante daquele inferno emocional terrível... Cedemos. 
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Tem gente que acha que os bordes são ótimos atores. Que fingem muito 
bem e mudam da candura para o ódio em segundos. 
Pode ser que uma parte fosse encenação, para conseguir o que queria. 
Mas, uma coisa eu sei, e até me lembro de um dia na faculdade de 
medicina, quando um dos professores-doutores começou uma aula teórica 
dizendo: “A doença psiquiátrica é das que mais está imersa no sofrimento. Não 
importa que o paciente é desagradável, que suas atitudes se tornam insuportáveis, 
que as pessoas próximas, às vezes, perdem a paciência.“É frescura”. “É de 
propósito”. Ou “é demônio”. Eu digo que o sofrimento é totalmente real, e é 
muito profundo”. 
Eu nunca me esqueci disso. “O sofrimento dos doentes psiquiátricos é real e 
muito mais profundo”. 
Uma parte, é a própria doença: angústia, pavor, apatia, ideias suicidas, 
sono, falta de objetivos, incapacidade de fazer as mínimas coisas que fazia antes, 
até mesmo tomar banho e cuidar da higiene, ou frequentar a escola, seguir 
horários. Isso falando só da depressão. 
Outra parte é o descaso das pessoas, o julgamento, as pechas e rótulos. 
* * * * * 
Daniel levantou às 7h10. Naquele dia, o dia do meu aniversário. 
Tínhamos que dar a sequência no processo de internação. Ele tinha se 
cortado mais uma vez. 
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O Hospital já tinha optado por encaminhar direto da enfermaria para a 
clínica. Nós é que quisemos tentar a internação domiciliar. 
Mas diante disso... Novos cortes... Não dava para ficar sem orientação 
profissional. 
Como médica, eu sabia disso: era um caso clássico, não tinha o que pensar. 
Ele podia se matar no dia seguinte. 
Tinha acabado de sair da UTI. Estava bem até sair do Fast Food. 
É por isso que eu sei que a imagem deturpada que ele começou a criar dele 
mesmo era real. 
Ele começou a se aliar a quem não prestava. Um dia ele me disse que não 
queria ser “playboy”. 
E eu disse: “Ah, playboy? Moramos de aluguel. Sabia que quem lhe disse 
isso está te ofendendo? Onde e de quem ouviu isso? Não são de seus amigos que 
conheço desde que nasceram. Você ouviu isso do pessoal que ronda esta 
lanchonete? Eles não são seus amigos!”. 
Mikha ficava furioso. 
“Você não conhece meus amigos”. 
“Mas, conheço a vida, meu filho. Quem te chama de playboy te dá bebidas 
e cigarros cada vez que você sai na rua, não são seus amigos, ainda mais quando 
sabem do que aconteceu”. Ele não ouvia, ele não concordava, não aceitava, não 
entendia e não obedecia. 
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E ele quase não saia, não podia. Sua vidinha foi se espremendo dentro da 
“caixinha do borderline”. 
As medicações mudaram de dose. Depois mudaram de medicação. E dose. 
A psiquiatria é assim, tentativa e erro. 
Em todo o tempo, nas noites mais sinistras em que ele andava pela casa 
inquieto, irritado, batendo as coisas, me desacatando, querendo remédios para 
dormir ... outras ele tinha crises horrorosas de choro e desespero, e começava a 
falar comigo em inglês. 
O que ele detestava em matemática era bom em inglês. 
Foi de zero a 100 em poucos meses. A dona da escola adorava o Mikhael e 
falou para o Daniel que via o quanto ele era querido ali. 
Ele era o segundo melhor aluno da escola, ao saber do problema do 
Mikhael, a dona disse que ele não ia repetir o nível. Prometeu ajudá-lo com 
algumas aulas particulares e disse que ele ia 
tirar de letra. Continuaria indo para o próximo 
nível e faria as provas depois. 
Ao sair da clínica, no final de junho, 
tinha perdido as férias com os amigos, afinal. 
Ficou acertado que a volta às aulas da 
escola era inviável. Ele não tinha concentração 
nem estrutura emocional. Retomaria apenas 
para as aulas de inglês. 
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Ele tinha se descoberto com a profissão. Queria ser professor, ter uma 
escola de inglês. Se continuasse, poderia prestar o Cambridge no ano seguinte. 
Queria fazer a faculdade de letras – em inglês – para ampliar seus 
horizontes e possibilidades. 
Era um lindo sonho, uma proposta de vida maravilhosa que permitiria 
tantas coisas. 
Ele queria fazer intercâmbio durante o segundo ano do ensino médio, com 
16 anos. Mas esse dia nunca chegou. 
Ver seu filho com a vida destroçada é a pior dor de uma mãe. 
Ele vinha até mim chorando, balbuciando em inglês, e só Deus sabe como 
conseguia me comunicar. Eu não sou fluente para falar. (A gente estava tentando 
treinar juntos, também queria melhorar o meu inglês). 
Mas, entendia o que ele falava. Estava acostumada ao sotaque e vocabulário 
dele. 
Em uma ocasião ele me disse, até rindo, que não entendia como eu 
assimilava aquela bagunça verbal mergulhada em choro. 
Disse que ao falar em inglês era como se ele estivesse falando de outra 
pessoa. 
Várias vezes, carinhoso e me agradeceu; disse que “minha paciência era 
infinita”. 
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“Mal sabe você, meu filho. Eu tinha que me mostrar forte por você. Mas, 
meu coração estava em frangalhos”. 
Vê-lo sozinho, no quarto fechado, jogando videogame e vendo vídeos no 
YouTube, cortava tanto meu coração, que eu queria sair correndo, eu não queria 
ver aquilo… 
Porque não fui eu que adoeci? Eu já era a borderline, a distêmica, a 
depressiva. Tive sintomas por metade de minha vida, e outros por mais da metade 
como, a fibromialgia e a insônia. 
Isso tudo foi me incapacitando. Só consegui fazer o meu papel de escritora, 
porque determinava meu tempo e o horário. Fui mãe em tempo integral e não 
carrega qualquer culpa: eu fiz o melhor. 
Eu me superei pelo meu filho e pelo meu marido até ficar estável. 
Por isso, eu sofri tanto vendo Mikhael daquele jeito. 
“Por que, meu Deus, essa doença? Por que a minha maldita genética de 
novo? E o Daniel, de novo viver coisas assim? Ele não merece isso!“ 
* * * * * 
Um pesadelo. Uma desgraça. 
Era inteligente, até demais. Esperto. Queria “ver a bola azul“; fazer planos 
de viagens que não chegou a hora de acontecer. 
A porta entreaberta! 
Uma saída! 
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“Você não precisa ser playboy“. 
“Mikhael é gente como a gente“. 
De fato. Ele não desprezava ninguém. Ninguém era ínfimo demais para ser 
visto. 
“Aqui é chato. Um marasmo. Não tem nada para fazer“. 
“Como você aguenta? Você vai obedecer seus pais?“ 
Ele se aproximou de umas meninas primeiro. Uma tinha os pais mais 
permissivos do mundo; a outra era borderline e a mãe optava pelo “dado menor“. 
Bebida? Em casa tudo bem. 
Quem se importava que haviam menores de idade? 
Pais viajando e companhias bebendo até cair. 
Então, claro, atrás das garotas tem os rapazes. Às vezes, maiores de idade e 
com carro. 
Como o Mikhael estava nesses lugares? Mentindo. E nós acreditávamos 
nele. Ensinamos a não mentir. Mas, ele não seguiu o que ensinamos. 
“Vamos, Mikhael?” E ele foi. 
A porta entreabrindo, a porta do Mundo! 
“Bebe aí, cara!” 
 45 
Nas primeiras vezes: “não, eu não bebo”. 
“O cara não bebe!” 
Então, um dia experimenta. 
Certo dia, meio sem querer, ele me conta, do cara que perdeu a carta porque 
entrou na contramão a toda. Verdade? Podia ser. 
Na última viagem com o pai, nas férias, depois da formatura, tudo acabava 
de vir à tona. 
As saídas. As mentiras. Quando achávamos que ele estava na casa de 
vizinhos próximos, protegido… Ele estava no carro de um maluco. 
Na viagem mesmo com dinheiro no bolso, pegou um souvenir numa loja. 
“Sou menor“. “Estou sem documento.” De onde vinha essa cultura de rua? Eu 
estudei isso. Sabia disso. A importância do grupo para o adolescente. 
Apesar de tudo, Mikhael aos 13 anos, 14 anos, quando tudo começou era 
criança. Não conhecia a malícia e a maldade da vida. A terapeuta chefe da clínica 
colocou de forma muito simples. 
“Por que? Mas, por que ele se afastou de todos os valores que ensinamos?” 
“Pelo grupo. Pela aceitação do grupo”. 
O grupo que tinha libertado ele: para o centro de São Paulo, rua 25 de 
março e locais longe de casa. 
Quando começaram os sintomas da doença, veio a avalanche, tudo 
desmoronou de uma vez; onde estavam os grandes amigos? 
 46 
Saindo da pizzaria com o pai no sábado, Mikhael ia até ao McDonald’s 
encontrar uma amiga. Estava cinco a dez minutos de distância. 
Mikhael não chega. Ela liga para o Daniel, que ficou esperando na pizzaria. 
Quando saiu para procurar, ao passar pelo “point” ele viu: alguém dando uma 
garrafa na mão do meu filho e ele virando goela abaixo. 
Ele não podia passar por ali. Estava tudo bem até então. 
“Vai, aí?“ 
E a desgraça aconteceu. Uma vida interrompida. Aprendi livre-arbítrio. 
Ele já não conseguia nem queria parar de fumar ou beber. “Nãovou mais 
mentir pra vocês”, era vontade de acertar. “Mas se eu sair, eu vou beber”. 
Confesso que ficávamos indignados. 
Tivemos uns dias bacanas durante uma das suas últimas semanas de vida. 
Na sexta-feira, à noite, falei que até a Bíblia não era contra beber, porque 
Jesus tinha transformado água em vinho. O problema era se embriagar. 
Falei, ao nos despedirmos “Tenha juízo; não misture bebidas. Evite 
destilados…” 
Não adiantou. Talvez, ele até quisesse obedecer, mas não podia. Os vícios 
eram uma tentativa de aplacar a dor da doença. 
Quando eu e Daniel olhávamos para ele, não o víamos mais. Não era mais 
ele. Seus olhos estavam diferentes. Até sua respiração. 
 47 
“Quais são seus sonhos para o futuro?” - perguntou a última psiquiatra - 
com 35 anos de experiência com adolescentes. Ficou com ele numa consulta de 
quase duas horas. 
Não havia sonhos. Não havia horizontes. 
A vaga no IPQHC deu esperança a todos nós. Até 
ele se animou; ajudou Daniel a fazer a mala. Na sexta-
feira ele se encontrou com as amigas, mas pediu pra ser 
buscado muito mais cedo. 
“Ah, Papa… Acho que perdi a capacidade de me 
relacionar com as pessoas. Fiquei tanto tempo sozinho no 
quarto. O contato social me cansa.” 
Eu o vi pouco nesse dia. Deus tinha pedido que eu me afastasse um pouco 
dele, e que eu poderia demonstrar que estava magoada. Ele vinha me agredindo 
muito. Falando coisas horríveis. “Lembrava” de fatos ruins que jamais 
aconteceram. E, afirmava não se lembrar das coisas boas. Na hora da fúria, gritava 
que me odiava. Os olhos dele mostravam ódio. 
Ele sabia que errava, mas quando vinham esses impulsos de agressividade, 
eram incontroláveis. Ele passou a se punir. Passou a dormir no chão: “não mereço 
dormir na cama”. Se cortava novamente. Mereço sentir dor. Uma fase terminal de 
uma doença pavorosa. Depois vinha, chorava, pedia desculpa e dizia que amava. 
* * * * * 
No dia da internação na clínica, engolir as lágrimas e fazer o que precisava. 
Ambulância, triagem e internação. 
 48 
Despedida. 
Na volta para casa eu não conseguia respirar. Só abri o vidro do táxi, e olhei 
para fora. 
“Não prefere o ar?“ 
“Preciso de ar” 
Dez dias de espera para primeira visita. Um tormento. Daniel chorava o 
tempo todo. Entrei no modo frenesi “arrumar tudo” para a volta dele. E chorava 
também. É lógico. Parecia que tudo ia ficar bem. 
Quando ele voltou para casa, fazia tempo que não via meu marido tão feliz, 
tão alegre! 
Durante alguns dias, ele é o nosso Mikhael de novo. Entretanto, era 
esperado que houvesse recaídas, para depois estabilizar. 
E houve. 
E ouvir choro, lágrimas no escuro e torrentes de frases em inglês, que eu 
escutava. 
Meu coração cortado e sangrando. 
Porque o dele também estava partido, quebrado, sangrando e se tornando 
oco. Tudo que ele foi até os 14 anos se diluiu como tinta posta na água. Cada vez 
mais transparente, até não haver nada. 
Então, começaram as alterações de medicação. Com elas, alterações de 
apetite e de metabolismo. De humor. De agressividade. De sono. 
 49 
Ele passou por uma compulsão alimentar severa. Só ingeria açúcar e 
carboidratos em quantidades enormes. 
Ganhou peso. Não chegou a faixa de sobrepeso, mas estava bem além do 
que costumava ser. 
Diante disso, a maldosa doença fez com que ele tivesse asco do próprio 
corpo. 
Chegou ao ponto dele não conseguir entrar no banho e ver o próprio corpo, 
com isso não tomava banho. Não queria se ver “gordo“, embora seu IMC 
estivesse dentro da normalidade. 
Lavei seu cabelo duas vezes, porque era choro, desespero, insegurança. 
“Oh, Deus, meu Deus…”. 
Bulimia. Anorexia. 
Dias sem comer nada, porque estava gordo, feio, horroroso. 
Não adiantava falar, implorar, dar bronca, e explicar os efeitos daquilo 
a longo prazo… 
Não há palavras para descrever nosso desespero. O quadro dele cada vez 
agregava mais alguns diagnósticos, dependência química do álcool, anorexia, 
depressão e borderline. Sem falar no fumo desenfreado. Um quadro muito grave. 
Naquela sexta-feira, 21 de dezembro de 2018, a esperança do Hospital das 
Clínicas. 
 50 
Eu conheço o serviço; a equipe é multidisciplinar, é um dos hospitais escola 
da USP, um trânsito de residentes, professores e troca de alunos o tempo todo. As 
pessoas são separadas por idade e por diagnóstico, não é uma miscelânea. 
Certamente, ele será entrevistado por um grupo de alunos internos, o que 
significa receber atenção exclusiva, de pelo menos três ou quatro alunos, além dos 
médicos, equipe de enfermagem, equipe de psicologia. 
É um lugar onde muita coisa acontece e há muito respeito pelos pacientes. 
 
* * * * * 
No dia 22 ele se matou. No dia 23 de dezembro, no dia em que a médica 
encerrava seus atividades do ano, a vaga no Instituto de Psiquiatria do Hospital 
das Clínicas surgiu. 
Ela ligou, toda contente, no fim da tarde: “tenho boas notícias!” - disse ao 
Daniel. 
“Naquele dia mesmo eu dei andamento no pedido da vaga, queria 
encaminhar o Mikhael o quanto antes. Pedi urgência, mas nem acreditei que a 
vaga surgiu hoje, no domingo?! Olha, vocês tem que ir pra lá e dar entrada 
hoje…“ 
“Doutora… Não adianta mais” 
“Como assim?“ 
“Acabei de sepultar meu filho. Ele se suicidou“. 
 51 
Uma médica experiente. Que tinha dado guia de encaminhamento para o 
serviço de enfermaria em que ela confiava, caso houvesse a mínima 
intercorrência, antes de surgir a vaga. Ela disse que não viu sinais de que havia 
perigo iminente. Nem o Daniel, nem eu, porque ele chegou contente do encontro 
com as amigas. 
Daniel foi deitar. Quando percebi, Mikhael tinha desligado a televisão e 
também foi dormir. Fui me deitar às 6h30 da manhã. 
Alguma coisa aconteceu à noite… Medo de ser internado de novo. Ele 
havia dito que se mataria antes disso acontecer, mas foi um pânico não 
premeditado. 
Eu choro e me pergunto: “por que ele não veio até a sala como tantas vezes 
fez, e quando não conseguia dormir?”. 
Deitava no sofá, ficava mexendo no cabelo dele e aí, rapidamente ele 
adormecia. 
“Por que eu não fui lá antes dele dormir? Por que não fui falar melhor do 
IPQ para ele?”. 
É que ele já sabia tudo, inclusive que o horário das visitas era liderado. E, 
todos os dias. O pai ou mãe podiam inclusive dormir com ele. Isso, na hora da 
consulta, o deixou contente. Nós também. 
Havia muita esperança no ar… 
* * * * * 
 52 
Ele devia estar esperando eu subir para deitar. 6h30. Saiu pela janela. O 
horário da morte foi 8h12 da manhã. 
E ele se foi. Sem um bilhete. Sem um abraço de despedida. Sem pestanejar. 
Um acesso de loucura. Foi uma doença terrível, que transformou sua 
personalidade completamente. 
O Mikhael que nós criamos, o Mikhael que todos conheciam, nunca agiria 
assim. Mas a dor tinha que acabar. 
* * * * * 
E a desgraça desse ano, pela Graça do Pai, com o tempo, com a cura das 
feridas e dos espinhos, vai diminuir até um latejar surdo. Vão ficar as saudades, 
que já são grandes, porque ele já não estava aqui, há muitos meses. Era uma casca 
que respirava, uma pessoa desconhecida, imprevisível e sofrida. 
Doía nele. Doía em nós. Eu queria poder não olhar, queria poder fugir… Eu 
queria ficar no lugar dele. 
Como pedi pra Deus mais uma vez, “deixa o Mikhael bem; eu vou aguentar 
melhor; estou mais acostumada a esse tipo de dor”. 
Eu experimentei todos os sintomas dele, até anorexia, compulsão… Meu 
coquetel de remédios dava arrepios nos cabelos de qualquer um, até dos médicos. 
Se alguém precisava morrer, podia ter sido eu. 
Nem nos nossos piores pesadelos podíamos imaginar esse desfecho. 
Compreendemos o propósito. Aceitamos o propósito. Mas a dor é grande demais. 
 53 
Em breve, estaremos juntos. Pena que a máquina de tempo terrestre é tão 
lenta. 
Como Paulo, terminaremos com honra. Não falta muito… 
“Combati o bom combate, terminei a carreira; guardei a fé”. 
* * * * * 
 
 
 54 
 
 55 
Mikhael Conta 
Página 1 
Eu seique não sou importante para você garota, mas você é muito 
importante para mim. 
Onde você está? 
Fique tranquila, eu volto amanhã. 
Meus amigos te xingam, porém eu entendo eles, falo com você uma vez por 
semana. 
Acordei em um dia muito estranho, não senti que estava acordado, era 
como se ainda estivesse em um sonho. 
Quando se tem insônia, você nunca sabe se está acordado ou não. 
By C. (colega de clínica – escreveu no diário) 
Página 2 
Eu acho que cheguei num ponto que não há nada a fazer... então, eu vou 
escrever algumas palavras aqui. 
Eu vou começar contando a todos vocês sobre pessoas que conheci aqui. 
C.: ele é bom, um dos poucos amigos aqui... Infelizmente, ele está saindo 
em 5 dias! Quero dizer, eu estou feliz por ele, claro, mas vai ser esquisito sem ele 
aqui... 
 56 
A.: ele é o cara MAIS ESPERTO nesta merda de lugar! Ele é tipo tímido e 
antissocial, mas ele é um cara bom, uma vez que você começa a conhecê-lo um 
pouco mais. Ontem à noite, ele teve que ir para a Enfermaria Intensiva 
H. (ou L. apelido): Ela é uma menina tão fofa quando está feliz!!! Quando 
eu a vi pela primeira vez, ela estava no sofá chorando. Eu também estava 
preocupado com ela, porque eu não a tinha visto o dia inteiro... 
Página 3 
Ch.: no começo eu gostava dele, mas então eu percebi como ele era infantil 
(e ele é também muito violento). 
An.: Ele também estava saindo em apenas alguns dias. Eu não estou tão 
triste em relação a ele, porque eu falei com ele somente uma vez. Eu tenho que 
dizer que ele é muito engraçado e tudo, mas para mim, ele não parece ser uma boa 
pessoa. 
* * * * * 
É a mesma hora desde que escrevi aqui, mas eu quero dizer algumas 
coisas... 
Eu ainda acho que An. é uma pessoa tóxica, mas eu quero conhecê-lo um 
pouco melhor. 
“Você sabia que ele é adotado?”. 
Agora, eu acho que posso entender sua culpa um pouco melhor... Sua 
família toda não gosta dele, porque ele é alcoólatra e tudo... Mas, ele quer ficar 
melhor, eu posso sentir isto. 
 57 
Página 4 
Bom, deixando este episódio, podemos continuar? 
Jo.: Ele é grosseiro, irritante, barulhento e violento. Basicamente, eu não 
poderia odiá-lo mais. 
Mw: Ele é super legal, gentil e fofo, mas algumas vezes ele fica tão triste... 
Pobre Mw. 
Fullulu: Este é um nome falso, claro... Mas, deixe-me contar sobre este 
garoto... Ele é um idiota, e eu odeio sua personalidade. 
* * * * * 
Eu, definitivamente, odeio depressão... Por que eu tenho que ser 
depressivo? Por que alguém tem? 
Depressão levou tudo de mim... Minha casa, minha família, meus 
amigos, meu foco nos estudos, minha saúde mental e a coisa mais importante 
de todas: 
Página 5 
MINHA FELICIDADE. Bem agora, eu estou triste, e queria saber, 
porque?! Eu não estou arruinado, sabe!!! Este tipo de coisa acontece o tempo 
TODO, e agora eu também estou irritado, porque eu não consigo ficar 
melhor. 
* * * * * 
Eu fumei novamente. Eu estava tentando parar, mas eu consegui somente 
quatro dias... Eu vou tentar novamente algum dia... Eu espero. 
 58 
Hoje, tivemos uma briga enorme no corredor. Ch. contra Harry Potter. 
KKK! Ch. foi para a EI (Enfermaria Intensiva), e a enfermeira foi empurrada 
pelas costas (arremessada). 
* * * * * 
Eu não me sinto bem, estou preguiçoso e perturbado. Isto tem poucos 
dias, mas eu estou pior hoje... Eu espero que eu fique melhor amanhã, mas eu 
não tenho certeza de que isto acontecerá. 
* * * * * 
Outro dia, começou no inferno e aqui eu estou. Eu me sinto um pouco 
melhor (só um pouco). Eu acho que a febre está diminuindo, finalmente. 
Sobre a briga de ontem, nós nos ferramos, porque agora TODOS os garotos 
estão trancados na área dos quartos. 
Página 6 
MERDA, EU GOSTARIA DE ESTAR MORTO de novo. 
 
Página 7 
 59 
Eu ainda não estou bem quando se trata da minha doença, mas quem 
se importa, certo? 
Hoje, estou ficando realmente estressado com um garoto chamado Aracú 
(nome falso novamente, garotos não se preocupam comigo). Este filho da mãe não 
gosta de mim, por desconhecidas razões, e ele não para de roubar minhas coisas. 
Ele é uma das poucas pessoas aqui que eu realmente não gosto, se não for o único. 
Há muitos outros filhos da mãe aqui, mas Aracú é o único que eu não posso 
lidar, e fazer coisas um pouco piores, como você já sabe, todos os garotos estão 
trancados na área dos quartos masculinos! 
Você pode entender o que eu estou dizendo? 
* * * * * 
Poema 
Tentar mudar sua mente 
É como o tempo 
E você não faz 
Meu coração bater como você costumava fazer... 
Eu tenho esperado por um sinal 
Nós poderíamos salvar uns aos outros para o melhor 
Página 8 
Minha mente é uma pista 
 60 
E está ficando difícil de respirar. 
Você está lá? 
Me conte 
Você está lá? 
Mude se você quer mudar 
Você está lá? 
Me conte 
Você está lá? 
Talvez, um dia nós voltaremos juntos. 
* * * * * 
Todo o meu corpo dói, pessoas acham que eu estou depressivo 
novamente, mas é só uma dor física que eu sinto. 
O que mais me dá raiva é que basicamente tenho que implorar para a 
enfermeira por uma simples medicação. 
* * * * * 
Você sabe, eu sofri muito bullying quando eu era mais novo, e agora eu 
sinto que irá começar tudo de novo. 
Página 9 
 61 
Aracú, simplesmente não me deixará sozinho. E já falei para todos vocês 
que ele está sempre tentando roubar minhas coisas, mas agora ele não vai parar de 
jogar coisas no meu cabelo e me incomodar. Eu sei que não é muito, mas eu já 
passei por isto antes, sei que isto é só o começo. 
* * * * * 
Eles roubaram minha caneta e está ficando difícil não chorar... 
Se as coisas não melhorarem logo, eu vou me matar... 
A coisa é: Como eu vou me matar num lugar especialmente feito para 
tomar conta de suicidas? 
* * * * * 
Por alguma razão, a clínica está quase vazia, mas Deus, como parece 
enorme! Sem todas aquelas pessoas irritantes, este lugar pode ser realmente muito 
relaxante... A enfermeira pensa que eu estou triste, mas não é agradável ter tempo 
para você mesmo? 
* * * * * 
 
Tem poucas horas desde que eu vi Aracú pela última vez. 
 
Página 10 
Eu não sei o que aconteceu com o garoto, mas eu não me importo, porque é 
maravilhoso não tê-lo ao meu redor... 
 62 
 
 
 
 
* * * * * 
Eu realmente não sei o que está acontecendo comigo, mas por alguma razão 
eu não aguento mais o Fullulu. Eu já disse que eu não gosto da personalidade 
dele, e talvez seja isto! Ele é tão idiota! 
* * * * * 
Página 11 
Eu tenho uma coisa boa para contar agora: meu pai me disse que ele não me 
deixará aqui por mais de um mês. 
* * * * * 
Eu estou bem triste agora, tudo o que eu quero fazer é chorar... 
Infelizmente, eu não posso, porque provavelmente eu teria que ir para a 
Enfermaria intensiva... 
DESENHO 
Cabeça do Menino: “minha 
mente” 
Balão: esta é a razão... para 
chorar?! 
Círculo: literalmente nada 
 63 
Pelo menos, Aracú está lá agora, porque ele amaldiçoou um dos 
professores. Kk. 
* * * * * 
Hoje eu me sinto muito melhor em relação a tudo! Mas, as pessoas parecem 
não acreditar muito nisto... Eu não vou mentir, eu estou com receio deste dia, 
porque todas às vezes em que acordei me sentindo bem, as coisas acabam num dia 
ruim... 
* * * * * 
Nós fomos ao jardim por uma hora, e é muito relaxante porque quase todos 
os meninos vão jogar futebol ou se jogar na piscina, e somente eu e a professora 
(o nome dela é T., e ela é legal), e meus poucos amigos, é claro, ficamos 
conversando. 
Página 12 
Mas, eu gostaria de dizer: EU TENHO QUE me livrar do Fullulu! Ele está 
ficando SUPER irritante... Ele só fala sobre o quanto ele quer um cigarro, e o 
quanto violento ele é... blá blá blá. 
Eu acho que ele está se tornando tóxico como o inferno, para uma pessoa 
como eu (um depressivo), porque ele só reclama sobre tudo, e eu tenho que me 
manter positivo. Algumas vezes, ele vem bem na minha frente só para cortar seus 
braços, QUE DROGA?! O que você está tentandofazer? Chamar minha atenção? 
Me fazer ficar aqui um pouco mais? Não sei, mas está me estressando de verdade. 
* * * * * 
 64 
Eu sempre quis falar (atualmente escrever, não me importa kk) sobre um jogo 
aqui, mas eu nunca tive paciência. Apesar de que agora, eu não tenho nada para 
fazer! Eu acho que este é o melhor momento para isto! O jogo sobre o qual eu vou 
falar é: Persona 5. 
Página 13 
Persona 5 é um JRPG, liberado no início de 2018. O jogo conta a história 
de um adolescente chamado Hitsu, que é injustamente processado por violência 
contra um político. Ele é levado para Tokio, no Japão, e ele vai passar um ano sob 
liberdade condicional, de outra maneira, ele vai ter um registro criminal para o 
resto da sua vida. 
Hitsu agora estuda na Academia Shujin, e lá, ele encontra um enorme 
segredo, que mudará sua vida para sempre! (Você vai ter que jogar se você quiser 
encontrar Niggy). 
Quando se trata da jogabilidade, nós temos duas diferentes “partes”: no 
mundo real, quando você vai viver a vida de um adolescente normal, significa que 
você vai ter que estudar para as provas, sair com os amigos que você faz ao longo 
da história, conseguir emprego, etc. 
Atenção: Eu vou continuar falando sobre P5 quando eu estiver a fim, ok? 
Página 14 
Se há uma coisa que eu já aprendi sobre este lugar é que TODOS os 
domingos são chatos como o inferno (eu poderia dizer que todos os dias aqui são 
chatos, mas esta clínica realmente tem seu pontos altos). 
* * * * * 
 65 
“Era uma vez, o dia em que todo dia era bom, delicioso gosto e o bom 
gosto das nuvens serem feitas de algodão. Dava para ser herói no mesmo dia em 
que escolhia ser vilão, acabava tudo em beijo, colo, um carinho e talvez um 
arranhão. E tudo voltava a ser novo no outro dia sem muita preocupação. É que 
a gente quer crescer, e quando cresce quer voltar ao início, porque um joelho 
ralado dói bem menos que um coração partido”. 
Página 15 
Tradução da letra da música de inglês para o português. 
* * * * * 
Página 16 e 17 
 
Página 18 
Às vezes, eu me pego pensando... Quando as coisas ficaram tão 
erradas? Quando eu cheguei aqui? 
 66 
Minha vida era feliz, algum dia... Quando eu era uma criança! Eu não 
tinha amigos, de qualquer maneira, mas eu não me importava! Eu costumava 
assistir desenhos como Pokémon e Scooby-Doo, jogar vídeo game, escalar 
árvores e muitas coisas. 
Mas, então eu cresci e, pouco a pouco, este Mikhael morreu e agora seu 
corpo morto permanece perdido no meu passado. 
Pirulitos tornaram-se cigarros. O delicioso suco de laranja feito pela 
mamãe virou vodka pura. Ambos ilegais. 
Eu fiquei triste com todos estes acontecimentos, então eu percebi pela 
primeira vez que eu não temeria mais a morte. 
Então, eu tentei, eu tentei acabar com esta vida, eu quase consegui, mas 
eu tive sorte (sorte ou azar?). 
Página 19 
E depois disto tudo eu acordei em um hospital, tudo escuro, eu mal 
conseguia ver nada, mas eu pude ouvir minha mãe chorar, então eu perguntei a 
ela: 
- Mãe, o que aconteceu? 
- Você está em coma por quase um dia, filho. 
- Você pensou que eu ia morrer, mãe? 
- Sim, eu pensei. 
E, então eu adormeci novamente. 
 67 
E, finalmente, eu cheguei aqui, o pequeno pedaço do inferno que nós 
chamamos de Clínica. 
* * * * * 
Eu apenas explodi com Fullulu. Ele não parava de cortar seus braços na 
minha frente! 
Agora, eu estou estável, mas eu estou me esforçando para me manter assim 
e tudo, e se eu tiver que excluí-lo da minha vida, então eu farei. 
Página 20 
C. está saindo amanhã... Eu não posso falar de verdade como eu estou me 
sentindo... Porque eu não sei... Eu estou feliz por ele, triste porque eu não vou vê-
lo novamente (por enquanto), assustado porque eu estou perdendo um dos meus 
dois amigos aqui (e não ter aliados aqui pode ser perigoso). 
Basicamente, tudo está misturado na minha cabeça agora. 
* * * * * 
Eu já te contei que aqui todas as noites nós temos uma questão? A questão 
de hoje à noite é que os meninos quebraram uma cama! Foi um escândalo! A 
coisa boa é que meu colega de quarto foi para a EI (Enfermaria Intensiva). Ele não 
é um garoto ruim, mas agora eu tenho o quarto só para mim! 
 
 68 
 
 
* * * * * 
Página 21 
E, finalmente o dia chegou. C. está oficialmente terminando sua história 
aqui na clínica em poucas horas. Isto é estranho como o inferno! As coisas, 
definitivamente, estão ficando piores para mim aqui. Eu acho que a melhor coisa 
para mim agora é: novos aliados! Quanto menos aliados você tem, mais 
vulnerável você ficará. 
* * * * * 
Sim, é isto... C. foi para a realidade agora. Eu dei a ele meu boné roxo, pelo 
menos ele terá alguma coisa para se lembrar de mim. Kkk. 
Eu não estou triste (só um pouco), eu só estou chocado... Quem vai 
incomodar Aw. e nos fazer dar risada? Quem vai me acordar de manhã? Merda, 
nós perdemos um amigo. 
* * * * * 
 69 
Há um garoto chamado Di. aqui, e ele é definitivamente, muito estranho. 
Página 22 
Ele dorme o dia todo, mas hoje ele estava acordado, e enquanto ele tava 
falando comigo, eu percebi algumas coisas, ele queria que eu escrevesse uma 
carta para a L. (lembra dela?), então ele ficou bravo comigo porque ele não gostou 
da carta que eu escrevi. 
Ele também é um idiota! Ele pensa que homossexualismo é errado, porque 
“a bíblia diz que é”, e ele é gay. 
Mas, esqueça sobre todas estas loucuras! 
Vamos falar sobre coisas boas! Hoje é meu 16º dia aqui, e eu estou indo 
para o dia 20! Agora, pense comigo: se eu vou sair em 30 dias, então eu deveria 
sair em 14 dias! Isto é realmente legal! 
* * * * * 
Aracú está de volta, mas para minha surpresa, ele não está me incomodando 
muito. Isto é muito bom, hehe. 
Agora, todos os garotos estão jogando futebol americano, menos eu e A., 
kkkk... 
Página 23 
A. está lendo um livro sobre um serial killer, e eu estou escrevendo várias 
coisas aqui. 
 70 
É interessante assistir ao comportamento de todo mundo. Mw., por 
exemplo, estava tentando ser legal com os mais novos, mas neste ponto do jogo, 
ele está muito estressado, eu acho. 
* * * * * 
Eu acabo de receber uma grande bomba! Fullulu GOSTA DE MIM!!! 
Como, inferno?! Eu estava lendo o meu livro e ele entrou no meu quarto. 
Ele me disse: 
- Há alguém que eu gosto, mas esta pessoa não gosta de mim (não 
retribui)... 
Então, eu perguntei: 
- Quem? 
- VOCÊ 
Página 24 
QUE DROGA! 
Eu fiquei em PÂNICO! Eu não quero que ele fique com o coração partido, 
mas o que eu posso fazer? Namorar ele contra a minha vontade? DE JEITO 
NENHUM! Eu até tentei conversar com ele, mas ele ficou bravo e saiu... 
Eu até pedi conselho para o Aw.! Ele só podia rir, mas como eu posso 
culpá-lo?! Até eu estava rindo muito, porque eu não estava esperando por isto, de 
qualquer maneira! 
 71 
* * * * * 
Página 25 
Agora, eles roubaram minha caneta de verdade. Eu estou escrevendo com 
um lápis que eu encontrei. Eu sabia que eles a roubariam de qualquer jeito, por 
que eu estou surpreso? 
* * * * * 
Fullulu até tentou se matar, isto é uma grande merda! Esta MERDA de 
inferno não pode ficar pior agora. 
Ele veio até mim e disse que foi bom ter me encontrado, e foi para o seu 
quarto. “Que esquisito” eu pensei. 
* * * * * 
A cena do M. (nome real do Fullulu) não sairia da minha cabeça. Todas as 
vezes que eu fecho meus olhos, eu vejo os mesmos flashes. Era horrível. Eu tenho 
certeza que eu não vou dormir esta noite. Eu, provavelmente, vou conversar com a 
Y. (uma das médicas aqui), e buscar algum conselho. 
* * * * * 
Página 26 
M. ainda não está de volta, e eu meio que já sabia o que aconteceria, mas 
agora está ficando real: eu nunca verei M. novamente. Eu gostei dele, como um 
amigo, mas eu sabia: eu vou perdê-lo... Eu me pergunto se ele ainda está vivo. 
 72 
Eu até tive um sonho sobre isto. Eu estava com ele, na clínica, e ele estava 
conversando com outros garotos, mas seu pescoço estava cortado! Mas,ele ainda 
falava normalmente. 
Eu perguntei para a Y. sobre isto agora, e ela me disse umas coisas bem 
interessantes, como bloquear este tipo de pensamento. 
* * * * * 
Hoje, eu não fiz uma única coisa, além de ler, é claro. O Trono de Vidro é 
um livro bom, talvez não o melhor que eu já tenha lido, mas um bom livro. 
* * * * * 
A terapeuta veio e me disse que M. está oficialmente BEM! Agora eu posso 
dizer com certeza que SALVEI a vida de alguém (que estranho dizer uma coisa 
como esta). 
* * * * * 
Página 27 
Que merda é esta!? M. está de volta. 
Eu pensei que ele não estava voltando, mas estava! Eu senti como num 
sonho quando eu o vi vivo, andando, conversando etc. 
Foi como no meu sonho, porque ele tem uma estrela grande no seu pescoço, 
mas ele ainda parece normal, e até um pouco mais sorridente, em minha opinião. 
* * * * * 
 73 
Meu pai me disse que eu vou sair deste lugar em 45 dias (máximo). Eu tive 
dois sentimentos em relação a isto: eu me senti aliviado porque eu sei quando eu 
vou sair daqui, e também um pouco triste, porque vai levar um longo tempo. 
* * * * * 
Eu estou ficando tipo triste porque eu entendi que eu não estou nem na 
metade do meu tratamento. 
45-20=25 dias, este é o caminho que espera por mim, e o pior: Aw. está 
saindo também... 
Página 28 
Eu sinto que eu vou acabar como o pequeno Vic.... Uma criança solitária, 
perdida aqui, no meio de lugar nenhum. 
* * * * * 
Aw. está fora durante o dia e eu tenho que admitir... Não é tão ruim! Eu 
acho... É chato de fato, mas não é desesperador como eu pensei que seria. 
* * * * * 
Meus pais vieram me visitar, mas honestamente, eles simplesmente estão 
deixando as coisas piores... Eles não pararam de me contar quantas restrições eu 
teria, ou quão fragilizadas as minhas emoções estão, e tudo mais. 
Agora mesmo, eu não queria ficar aqui, mas ainda eu não quero ir para 
casa, porque eu sei quão ruim as coisas vão ficar. 
Página 29 
 74 
Para ser MUITO honesto, tudo o que eu quero é paz, eu quero ser 
deixado em paz, e isto é tudo... Mas, em casa, eu tenho certeza que eu não 
terei paz... Eu terei que fazer alguma coisa todos os dias, eu não serei 
autorizado a sair de casa sem meus pais, e tudo. Talvez este lugar fosse 
melhor para mim. 
* * * * * 
Esta clínica é estranha, muitas pessoas sumiram, eu não vi nenhuma 
garota hoje... Tudo está ficando cinza novamente... Eu não tenho objetivos de 
vida agora, você sabe? Minha principal razão para viver era ir para casa, 
mas agora... Qual é meu objetivo agora? Sair daqui e viver para sempre 
sozinho com meus pais me arrastando de um lado para o outro, tendo 
NENHUMA liberdade?! Eu sinto muito, mas eu não posso ver como isto pode 
ser bom... 
 
 
 
Página 30 
 
 
 
Página 31 
Quando eu era menor, meus pais me perguntavam o que eu queria 
fazer quando eu ficasse mais velho, e você sabe o que eu respondia? 
PROIBIDO 
FUMAR 
PROIBIDO 
ÁREAS 
EXTERNAS 
PROIBIDO 
BEBER 
PROIBIDO 
VIDA SOCIAL 
PROIBIDO 
LIBERDADE 
 75 
- Eu quero explorar a bola azul! (a bola azul significa o mundo, no caso 
de você ser um idiota kkk). 
Então eu fiquei mais velho, e eu poderia iniciar minha exploração em 
uma escala menor, mas eu já estava feliz! Mas, então, eu fui proibido de 
voltar para casa tarde, e agora eu não posso nem sair de casa sozinho... 
O que aconteceu com o meu sonho? 
* * * * * 
Quando nós vamos ao jardim, tipo me lembra às vezes que eu me reunia 
com alguns amigos para beber e ter alguma diversão... Tudo que nunca mais será 
repetido... 
Eu quero chorar... Não por causa de todas as coisas que eu acabei de dizer. 
Realmente, eu nem sei porque eu quero chorar... Eu gostaria de ter algo 
para me sustentar agora mesmo. Isto é tudo o que eu preciso para continuar. 
* * * * * 
Página 32 
PARTE 1 
Se eu te dissesse que ia somente machucar. 
Se eu te avisasse que o fogo ia te queimar, você prosseguiria? 
Você me deixaria fazer se nós 
 76 
Fizéssemos tudo isto em nome do amor. 
Você me deixaria conduzir mesmo quando estiver cego, no escuro, no meio 
da noite 
No silêncio, quando não há ninguém ao seu lado. 
Você chamaria em nome do amor? 
PARTE 2 
Se eu dissesse a você, nós enlouqueceríamos com todas as mentiras. 
Você subiria? Viria me encontrar no céu. 
Página 33 
Você confiaria em mim? 
Quando você pula de trás! 
Você cairia em nome do amor? 
Quando esta loucura, quando este veneno na sua cabeça, quando a tristeza 
deixar, você quebrado na sua cama, eu abraçarei você, nas profundidades do seu 
desespero. 
E tudo isto é em nome do amor! 
PARTE 3 
 77 
Eu queria testemunhar, gritando a mentira sagrada, você me trazendo de 
volta para a vida. 
E isto é tudo em nome do amor! 
* * * * * 
Eu cheguei à conclusão que eu não odeio este lugar, eu odeio as pessoas 
aqui... Há algumas realmente ruins e pessoas irritantes aqui, e por causa destas 
pessoas, este lugar tornou-se um pedaço do inferno... 
Página 34 
Agora, tudo o que eu quero é meu pai e minha mãe aqui para me 
abraçar... Eu estava bravo quando eles vieram pela última vez, e eu sou um 
idiota por ter sido um idiota com eles... 
Eu não quero morrer novamente... 
* * * * * 
Aqui começa a grande merda, bomba! Estou fora. Estou fora da clínica. 
Meu pai só veio, fez algumas perguntas, e então ele disse que me levaria para 
casa! Eu tive um grande dia, mas então eu percebi como eu estou ferrado! 
Se eu saísse da clínica, eu estaria ferrado. Agora, se eu sair da clínica, eu 
vou ferrar com todos os outros, todos os outros, todos os outros!!! 
Página 35 
Eu só estou preocupado... 
 78 
Eu mal posso resumir... 
 
Desculpe, eu fiquei um pouco estressado (por 
ter riscado e rasgado a folha). 
 
 
* * * * * 
Página 36 
Em Branco – Página rasgada 
 
* * * * * 
Página 37 
 
Página 38 
 79 
 
* * * * * 
Página 39 
23/07/18 – 12h43 
Meu pai quer me levar ao shopping novamente! Ele acha que eu estou triste 
de novo, porque ontem eu tive permissão para sair, mas eu não quis... Eu não 
estou triste, tudo o que eu queria era jogar videogame e relaxar... Mas, meu pai 
não queria me deixar sozinho em casa, e eu até o entendo... Ele tem suas razões 
depois de tudo. 
* * * * * 
23/07/18 – 15h41 
Eu estou triste novamente, e eu sei que é normal que ele fique preocupado, 
mas eu sou culpado, porque quando eu estou triste eu deixo meu pai triste... Ele 
chora somente porque eu fico nervoso com ele... Eu não quero ser tóxico para 
ninguém! A grande questão é que eu não posso controlar minha raiva. E para 
tornar as coisas um pouco piores, minha mãe me deixa muito nervoso algumas 
 80 
vezes, porque ela parece não entender que eu não estou 100% bem e ela fala sobre 
coisas que não me fazem tão bem. 
Eu não vou mentir, hoje eu pensei em cortar meus braços novamente, mas 
eu não pensei em suicídio. (não ainda, pelo menos...) 
 
 
Página 40 
Toda hora eu sinto que eu estou incomodando alguém nesta casa, pelo 
menos na clínica eu sei que se eu ficasse quieto, eu não incomodaria ninguém. 
Agora, a questão é: Eu deveria ter vindo embora? Para mim, está tudo bem, mas 
eu não sei se é o melhor para os meus pais, especialmente meu pai, porque ele é o 
maior afetado por esta situação. 
Agora mesmo, ele pediu para jogar vídeo game comigo, mas eu 
simplesmente não tenho força para fazer isto neste momento... SOCORRO! 
Se eu estou vivo, por que? 
Deus, por favor, me diga: Qual é a lição? Qual é o ponto? Deus me dê um 
sinal, ou eu terei que desistir? Estar vivo machuca demais. 
Eles disseram: eu vou abraçar você, nas profundezas do meu desespero. 
 81 
Mas, agora eu me encontro sozinho. Eu não aguento mais! Todo este 
barulho, todas estas pessoas falando, está ficando cada vez mais difícil respirar, 
mas ninguém parece perceber! Talvez eles não se preocupem tanto quanto 
parecem fazer. 
Página 41 
 
 
Página 42 
23/07/18 – Uma hora qualquer 
Meus pais pegaram meus cigarrosnovamente, porque eu estou bravo! Mas, 
o gatilho não é o hábito de fumar! Eu me odeio por deixá-los para baixo, a 
verdadeira questão é que os cigarros NÃO são o gatilho. 
 82 
Agora eu vou passar 3 dias sem fumar! MERDA! Agora eu estou realmente 
ferrado. 
Eles dizem que querem ajudar, mas isto obviamente não está ajudando! 
Quando eu fico bravo, não é um grande negócio, mas eles fazem pequenas 
coisas que fazem com que eu fique mesmo mais bravo! 
Meu pai já disse que pode ser que eu vá para outra clínica... Sim, eu acho 
que nasci para viver no inferno de qualquer maneira. 
Página 43 
 
 
 
Este garoto encontrou a paz. 
 
 
 
 
 
 83 
 
Página 44 
 
 
Esta garota encontrará muito em breve. 
 
 
Página 45 
 
 
 
Eles vão se encontrar no escuro. 
 
 
 
 
Página 46 
Ou talvez no céu. 
 84 
Página 47 
Talvez até no inferno. 
 
Página 48 
23/07/18 – 10h35 
Agora eu vou voltar para a clínica com certeza! Quando eu estava tomando 
banho, eu peguei alguma coisa afiada e cortei minhas pernas. Eu estou tentando 
ficar calmo, então eles não me encontrariam, mas eu sei que vão e então, eu 
voltarei para aquele lugar horrível, e desta vez, eles não me tirarão de lá. Meses, 
meses e mais meses trancado no inferno. 
Quando eu me refiro ao inferno neste caso, eu não quero dizer o verdadeiro 
inferno. 
Eu já quero fumar, mas eu não posso! Eu simplesmente não sei o que fazer! 
Eu quero chorar, mas ao mesmo tempo, eu quero cortar meus braços (este é o 
motivo de eu ter feito aquilo na minha perna), e eu também quero socar alguma 
coisa até que ela esteja morta (eu não estou brincando e estou preocupado). Além 
disso, eu quero beber gasolina. É desesperador porque, obviamente, eu não posso 
fazer nada daquelas coisas, e aparentemente NADA pode me segurar. Eu já tomei 
três comprimidos de rivotril e não sinto nenhuma mudança, pelo amor de Deus!! 
Página 49 
Eu também queria te contar sobre um sonho que eu tenho tido desde que eu 
saí da clínica... Eu sempre sonho que as pessoas de lá estão sussurrando sobre 
mim... Coisas como “ele era um idiota de qualquer maneira”, “Obrigado Deus por 
 85 
ele ter saído”, “ Eu não poderia aguentá-lo mais”, “ Eu espero que ele morra lá 
fora” e etc. 
Neste sonho, os amigos que eu fiz lá estavam dizendo todas aquelas coisas 
horríveis, então eu sei que é um sonho de mentira, mas ainda me incomoda 
bastante... 
Eu não sinto mais vontade de morrer, mas algumas vezes, só por um curto 
momento, eu sinto que desapareço, só partindo para sempre e nunca mais 
voltando. Claro que eu não faria! Eu não sou tão burro... Eu sou menor, então eu 
não posso sair de SP por minha conta, eu não tenho dinheiro suficiente, e não 
tenho um lugar para ficar. Mas, algum dia, em um futuro distante, eu deixarei 
todas aquelas pessoas de plástico aqui. 
Eu prometo. 
Página 50 
PROMETIDO 
(socorro, eu preciso de um cigarro). 
Página 51 
Atualmente, eu acho que há um jeito para eu pegar meus cigarros de volta... 
Deixe me explicar: 
Meus pais acham que o maior problema é meu hábito de fumar, então eles 
não vão me deixar fumar por alguns dias, mas se eu continuar agindo como um 
maníaco total, e fizer coisas ainda piores, eles finalmente vão perceber que 
cigarros não são uma questão! Então, finalmente eu voltarei a fumar. 
 86 
Eu sei que eu estou ficando mais forte em relação aos medicamentos, mas 
ainda tem bastante efeito sobre mim, então não me importo se escrever algo 
errado, ok? Eu tomei três comprimidos de rivotril, depois de tudo... 
Agora eu estou sozinho, minha mãe está no banheiro, e meu pai está 
dormindo. Eu poderia facilmente me matar agora (neste exato momento), mas eu 
não farei. Eu quero, mas por algum motivo eu não farei. Eu só me cortei e tudo 
vai ficar bem. (Eu espero). 
Eu me sinto culpado pelo meu pai... 
Página 52 
Quando eu voltei da clínica, e eu nunca vi meu pai tão feliz antes na minha 
vida e agora ele está bravo e triste por MINHA causa! Porque eu fiquei pior... Eu 
não cuido de mim, mas eu realmente me importo com ele, e com minha mãe 
também, é logico. É minha culpa, eles estarem se sentindo deste jeito! Eu 
tenho que ficar melhor o mais cedo possível. 
Quando eu tentei me matar, tudo o que eu queria era paz, mas agora tudo o 
que consegui é mais e mais problemas. Eu não posso sair do meu quarto hoje à 
noite! 
Pelo menos, há uma boa notícia! Eu vou ter uma casa na árvore no jardim! 
Não vai ser enorme ou coisa assim, mas já é algo! Apesar de eu tratar meu pai 
como merda, quando eu estou nervoso... Eu me sinto mal por isto. 
 
* * * * * 
 87 
Página 53 
Quem eu amo (de verdade) 
Coração dividido em 3 partes: 
 amo 
 quase amor 
 odeio 
Confuso 
Nota: eu farei a mesma coisa na próxima página. 
Página 54 
TERAPIA – PARTE 1 
EU GOSTO E EU FAÇO EU GOSTO, MAS NÃO FAÇO 
- jogar videogame 
- sair 
- ouvir música 
- ficar com meus pais 
- fumar 
- eu estou tentando fazer as coisas 
voltarem ao normal na minha vida 
- ficar feliz 
- criar novos projetos 
- ser positivo 
- dormir sem rivotril 
- beber 
- fumar 
- usar drogas fortes 
 88 
- me matar 
NÃO GOSTO, MAS FAÇO NÃO GOSTO E NÃO FAÇO 
- sorriso falso 
- me machucar 
- pensar sobre morte 
- ficar quieto quando preciso de 
ajuda 
- brigar com meus pais 
- beber quando eles não estão por 
perto 
- ficar triste do nada 
- não usar drogas 
- eu não tenho tentado me matar 
desde a última vez 
- eu não cortei meus braços (ou 
pernas) 
- eu não matei ninguém 
 
 
Página 55 
TERAPIA – PARTE 2 
Tabela dividida em: 
 Amo (Apreciar) 
 Quase lá (Conversar) 
 Odeio (Evitar) 
 
* * * * * 
 
 89 
Página 56 
Eu realmente não acho que estas coisas de terapia vão funcionar, MAS 
vamos ver, certo?! Eu vou desenhar alguma coisa, QUALQUER COISA! Só 
porque eu quero. 
 
 
(caixa do border) 
 
 
 
Eu estava errado, sinto muito... A coisa é que eu não sou bom em nada, 
além do Inglês, e isto é completamente inútil se você pensar sobre isto... 
Página 57 
 
 90 
Página 58 
Eu gostaria de poder ser bom em alguma coisa, pelo menos alguma coisa, 
porque inglês não é o suficiente para me dar um bom futuro, entende? Eu me sinto 
tipo inútil por isto... Meus pais não me falariam isto, mas eu sei que eles 
esperavam mais de mim, e então eles descobriram que eu sou um fracasso em 
absolutamente tudo! Eu deveria ser mais, eu deveria deixá-los orgulhosos! Mas, 
eu simplesmente não posso... 
Página 59 
 
Página 60 
Você sabe o que isto significa? Morte, e tudo o que eu queria agora era 
morrer, mas então eu destruiria a vida dos meus pais. Eu sei, porque eu já 
tentei antes, e agora as coisas estão piores para mim. Para eles, eu tenho 
cinco anos de idade. 
Agora imagine como a vida deles seria se eu tivesse tido sucesso na 
minha tentativa (eu quase tive). Eles estariam destruídos. Mas, agora eu 
penso: no estado em que estou, eu sou claramente tóxico para eles, se eu 
 91 
talvez deixasse a vida deles, as coisas não seriam melhor? Não me entendam 
mal, eu não vou me matar. 
Página 61 
Mas, se eu for para a minha futura casa da árvore?! Eu estou honestamente 
pensando sobre realmente morar lá!, É claro, lá não tem cozinha, nem banheiro, 
mas eu posso encontrar um jeito para tudo! Tão logo a casa esteja pronta, é claro, 
KKK. 
* * * * * 
26/07/18 – 1h26 
Eu levantei triste e novamente meu pai estava tentando me acalmar, e então 
eu fiquei bravo e tudo o que pude fazer, foi gritar com todo mundo e quebrar um 
copo. Meu pai ficou tão nervoso que ele tomou três comprimidos de rivotril para 
dormir! Tipo, como eu posso ser TÃO irritante quando eu nem quero ficar 
nervoso. 
Página 62 
Mas, há boas notícias! Minha casa da árvore vai ser maior! Eu juro por 
Deus que eu vou viver naquele lugar! Você pode imaginar? No lugar onde 
somente você tem autorização para entrar! Eu não posso fazer nada lá dentro, mas 
tudo bem! É oMEU lugar! MINHA casa. 
Agora mesmo eu me sinto triste, só um pouco bravo e MUITO ansioso. 
Não é por causa da casa da árvore, eu só sei que é realmente ruim! Porque agora 
eu quero sentir dor, mas se eu me cortar eu voltarei para clínica, e isto é 
desesperador! 
 92 
Quando esse sentimento vem por alguma razão, fica difícil pra respirar, e 
então eu acho que vou chorar e quebrar coisas. 
Página 63 
E agora eu simplesmente perdi 10 páginas. 
 
(Páginas rasgadas) 
Página 64 
27/07/18 – 7h30 
Foda-se! Foda-se tudo! Meus pais disseram ontem, DE VERDADE, que se 
eu não me acalmar eu estou voltando para a clínica NOVAMENTE! 
Então, foda-se o tratamento, foda-se o autocontrole, foda-se tudo! 
Eu cortei meus braços, minhas pernas, e ainda quero cortar meu rosto, 
talvez eu faça isso... Eu já estou no fundo do poço, certo? Qual é o problema?! 
Eu não vou nem me incomodar em esconder minha faca. 
 93 
* * * * * 
Página 65 
27/07/18 – 9h55 
Eu gostaria que meus pais vissem os meus cortes, e que eles ficassem 
SUPER bravos comigo (quando tudo que eu queria era um abraço). 
Eu estava ficando pior, e pior, e não pararia! Além disso, agora ele pensa 
que eu não o amo, ou minha mãe. Ele simplesmente não entende que isso é 
impulsivo. 
Eu estou doente e não posso controlar! Minha mãe também tá no fundo do 
poço, porque ela não estava lá, para me fazer parar. 
Basicamente, eu sou o grande problema na casa, eu não deveria estar lá...E 
eu não estarei, porque eu estou voltando para outra clínica. 
Página 66 
Honestamente, tudo o que eu quero agora é ir pra uma clínica imaginária, 
onde todo mundo é gentil e fofo. 
Eu também acho que o projeto da casa da árvore, acabou de verdade agora. 
Pelo que eu entendo, ele acha que eu não o amo, ou algo que não é verdade! 
 
* * * * * 
 94 
Página 67 
27/07/18 – 10h53 
Eu me sinto um pouquinho melhor agora, talvez até um pouco feliz... 
Embora eu queira chorar. Que esquisito, né? Minha tia, a Ti, está aqui comigo, e 
ela sempre me faz sentir melhor de alguma maneira. 
 
 
 
 
 
* * * * * 
Página 68 
 
 
 
 
 
 95 
Página 69 
Agora é oficial, eu deveria ter morrido naquele dia, minha vida está 
ruim e está ficando pior. Meus pais não vão parar de chorar, isso tudo é por 
minha causa. Eu estou lutando e todo mundo ao meu redor também... Por 
minha causa, porque não consigo ficar melhor, é TUDO minha culpa! Eu 
gostaria que eu pudesse ser o melhor filho, melhor amigo, uma pessoa 
melhor. 
* * * * * 
27/07/18 – 13h15 
Agora, nós estamos tendo o pior almoço de sempre, ou talvez eu estou 
tendo o pior almoço de sempre. Eles estão agindo normal, como se nada tivesse 
acontecido. 
Página 70 
Mas, eu não posso falar, nem uma simples palavra. Pelo menos, meu pai 
está começando a relaxar. Ele disse que tão logo voltará a rotina dele. 
Uma coisa a mais: o projeto da casa da árvore se foi. 
* * * * * 
27/07/18 – 13h51 
Meus pais estão, finalmente, deixando passar, mas eu ainda não posso fazer 
o mesmo, porque há um pensamento na minha mente que não partirá sozinho: 
“este estava suposto para ser um BOM dia e eu destruí tudo, simplesmente como 
 96 
eu sempre faço”. Nós estávamos programados para ir ao shopping, comprar uma 
vitrola, passear, e nos divertirmos, mas NÃO, o foda depressivo garotinho aqui, 
TEM que ferrar as coisas com uma crise ferrada, que ele não poderia controlar! 
* * * * * 
Hoje meu pai veio conversar comigo... Ele me disse que parou tudo para 
ficar cuidando de mim. 
* * * * * 
Página 71 
28/07/18 – 16h33 
Eu estou feliz agora, claro que eu ainda me sinto culpado por todo o 
problema que eu causei, mas agora meu pai não parece mais bravo, e uma amiga 
minha está vindo em casa, e eu acho que é muito gentil da parte dela fazer isto. De 
TODOS os meus “amigos”, ela foi a única que não me deixou... 
Meu projeto da casa na árvore está ativo de novo, aparentemente. 
Talvez, eu esteja ficando melhor... Hoje eu me senti feliz, triste e bravo. Por 
exemplo, quando eu comecei a escrever esta nota, eu estava feliz, e agora me sinto 
triste. Mas, o ponto é, nada muito extremo. 
Quando eu me senti bravo, eu não quis fazer ninguém sofrer até morrer, 
quando eu me senti triste, eu não me senti como se estivesse me matando. Talvez 
isto seja bom, certo? 
 
 97 
 Página 72 
Mas, ainda há mais uma coisa me incomodando: eu me sinto sozinho, mas 
quando eu estou com pessoas ao redor, eu perco a direção dos meus sentimentos 
muito facilmente, e afasto as pessoas. Eu estou com medo de estar fazendo isto 
com esta minha amiga! Eu não quero a perder. Eu não quero perder ninguém 
mais, porque eu já perdi muitas pessoas! Meus amigos, as pessoas que eu confiei, 
aquelas que eu me entreguei. Eu também perdi parte da minha família. 
O nome dela é D., e ela é minha última bala no gatilho, então EU NÃO 
POSSO perder o tiro. 
Ela é pequena, engraçada, tipo tímida, elegante, bonita... Ela tem cabelo 
preto curto, pele de pêssego e olhos castanhos. 
* * * * * 
Página 73 
29/07/18 – 13h52 
É engraçado como eu venho perdendo mais e mais na vida... 
Eu estou ficando pior a cada dia, agora eu não posso jogar vídeo game 
sem ter uma crise... Eu cortei meus braços NOVAMENTE, mas meus pais 
não podem saber, porque de outra forma eu voltarei para a clínica. 
Pelo menos, agora eu conheço um pouco mais sobre meu diagnóstico... Eu 
fui diagnosticado com depressão, bipolaridade e traços borderline. Uau, vida, não 
satisfeita em me dar uma doença mental, me deu três. Droga! 
 98 
 
 
 
 
Isto é exatamente como meu braço está agora. 
Eu odeio minha vida. 
Foda-se todo mundo! 
Eu estou feliz! Vamos comprar tudo! 
Página 74 
Pelo menos, ontem foi divertido quando D. chegou. Nós tínhamos muitas 
coisas para conversar, nós jogamos vídeo game (é bem engraçado quando nós não 
estamos sozinhos). Nós também fizemos brigadeiro e pedimos pizza para entrega! 
Mas, nós também tivemos conversas sérias sobre minha doença e principalmente 
sobre meus pensamentos. 
Falei para ela que eu não sabia se eu era mesmo o Mikhael, e que eu já não 
sabia o que era! Será que não sou menino? 
Página 75 
Primeiro, se isso for uma verdade como meus pais iriam reagir. 
 
 99 
Segundo, se a reação deles for ruim, eu não estou pronto para suportá-la, 
não agora, não com tudo o que está acontecendo em minha vida bem agora. 
E terceiro, eu ainda não estou certo sobre o que eu sinto sobre isto, mas eu 
tenho pensado a respeito. Estou confuso. 
Eu já tentei deixar este pensamento ir e esquecer sobre isto. 
E se eu me arrepender da minha decisão? 
Eu procurei muito na internet e todas as pessoas trans disseram que antes 
da transição eles odiavam seus corpos! 
Mas, eu não ODEIO meu corpo, eu também não vou dizer que eu gosto, 
mas ok! 
Conclusão: não há conclusão porque eu estou muito confuso agora... 
Há muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, e eu preciso de algum tempo 
para relaxar. Kkk 
Página 76 
Obrigado diário, por me ajudar, por me ouvir sem nenhum julgamento no 
rosto. Você e a D. são meus favoritos sempre. 
Quando eu falei a ela sobre isto, ela não me julgou em nenhum momento, 
ela até perguntou como eu queria ser chamado! Infelizmente, eu ainda não sei a 
resposta, mas eu REALMENTE apreciei sua bondade comigo, nos bons e maus 
momentos. 
* * * * * 
 100 
Página 77 
30/07/18 – 16h28 
Eu acho que meu pai sabe que eu estou com dúvidas de quem eu sou. Ele 
veio falar comigo e disse exatamente assim: 
“Filho, eu te amo de qualquer jeito. Tanto bipolar ou borderline, não 
importa. Também não importa se você é Mikhael, ou Mikhaela, ou Alexandra, 
tanto faz. Eu te amo de qualquer maneira”. 
 
Eu fiquei com a mente SUPER confusa quando ele disse isto, por que 
COMO ele saberia?! Só a D. sabe sobre isto! Então eu perguntei a ele por que ele 
estava sendo tão “afetivo” de repente, e então ele disse que ele percebeu, e tudo 
mais... 
Página78 
CLARO, que eu estou feliz que ele esteja concordando, mas eu também 
estou ATERRORIZADO! Tipo, se eles perguntam, como eu faço para dizer 
“sim”? Minha mãe disse que ela vai conversar com o meu pai e então ela quer 
uma conversa comigo. 
 101 
PELO AMOR DE DEUS!!! 
Nem mesmo quando eu enfrentei a morte, eu senti tanto medo, como eu 
estou sentindo agora mesmo! Eu quero dizer, eu quero considerar que eles já 
“sabem”, mas são positivos a este respeito, ou pelo menos, não negativos... 
Eles vão mesmo ajudar neste processo? Tudo parece tão fácil para mim, o 
que vai dar errado? 
Bem, de fato, se isto vai acontecer e eles realmente me ajudarem nisso eu 
terei com certeza mais uma razão para dizer que meus pais são OS 
MELHORES. 
 
 
Página 79 e 80 
 
 
Página 81 
30/07/18 – 18h37 
Como meu pai descobriu sobre isso? 
Sabia? Meu pai tem uma amiga chamada Débora e ela é da polícia de elite. 
Uma vez, ele disse que se eu tentasse trocar a minha senha de rede social, um 
 102 
aplicativo especial no seu telefone iria notificá-lo sobre o que eu fiz. O que 
significa é que ele tem mais controle sobre meu aparelho celular do que parece ... 
Mudando de assunto um pouco, eu vou dizer o que eu fiz o dia todo: eu 
gastei meu dia na minha cama ouvindo música. Teve uma parte ruim, pois eu 
estava triste, mas também teve uma parte boa! Eu aprendi muito mais sobre os 
Beatles, Rolling Stones, Amy Winehouse, Janes Joplin ... 
* * * * * 
Página 82 
30/07/18 – 20h10 
Eu acabo de sair da terapia e, eu disse a ela tudo sobre a minha situação, e 
ela disse que eu deveria me descrever, então vamos fazer isso. 
Página 83 
Não sou perfeito, tenho, tipo, algumas instabilidades. O que acontece é que 
tenho uma doença ... sou um borderline, e isto faz com que minhas emoções 
explodam em qualquer lugar. Posso começar a chorar ou ficar super bravo sem 
nenhuma razão. Quero as pessoas ao meu lado, mas ainda expulso todo mundo. 
Me sinto culpado por isso. MAS, estou ficando melhor, então tudo bem. 
* * * * * 
31/07/18 – 12h14 
Eu estou saindo com meu pai, mas eu sinto que eu não vou gostar, porque 
eu estou confuso e falei isso para eles. 
 103 
Página 84 
31/07/18 – tarde 
Eu tenho pensado em jeitos de falar com os meus pais sobre minhas 
dúvidas sobre gênero, ou personalidade, e eu decidi que é a melhor maneira de 
contar a eles, é não contar! Eu simplesmente deixarei as coisas acontecerem 
naturalmente. 
Eu só peguei os meus remédios e agora vou dormir para contar meus dias, 
tchau! 
* * * * * 
01/08/18 – 15h30 
Está chovendo e eu estou tipo triste ... é quase como um relacionamento 
tóxico, porque eu amo a chuva, mas não como ela me deixa triste ... 
Eu, simplesmente, voltei para a escola de inglês, mas eu não sei se eu gosto. 
A nova professora parece boa, mas é seu primeiro dia e ela está um pouco 
perdida. 
Página 85 
Eu ainda não tive chance de contar. 
Eu saí com meu pai e minha tia, e eu tive que ir ao banheiro, e então de 
novo eu tive uma dúvida: banheiro feminino ou banheiro masculino? Minhas 
mãos começaram a suar, saí do banheiro tremendo e tentando o meu melhor para 
não chorar. 
 104 
Página 86 
Resultado disto: Segurei por 7 horas ou mais a vontade de ir ao banheiro. 
* * * * * 
Página 87 
01/08/18 – 18h05 
Na sexta-feira eu poderei sair e meu pai vai me dar algum dinheiro. Eu acho 
que eu vou comprar algo, uma peça de roupa nova, eu vou me sentir melhor com 
o meu corpo. 
* * * * * 
01/08/18 – 11h48 
Eu, simplesmente, tive uma crise imensa poucas horas atrás. Tudo começou 
quando eu estava contando para os meus pais quão chato foi rever coisas 
saudáveis e não saudáveis, e minha mãe fez uma brincadeira, dizendo que fumar 
era bastante insalubre. Eu sei que ela está certa, mas eu fiquei muito chateado, 
então. Depois disto, nós tivemos uma curta, mas intensa discussão. 
Depois de tudo isto, eu só me isolei para acalmar e relaxar, mas então de 
repente, eu mudei de extrema raiva para extrema tristeza... 
Página 88 
Então, eu comecei a chorar MUITO, meus pais tentaram falar comigo, 
mas eu não conseguia responder, meu corpo não estava se mexendo, eu só 
conseguia chorar em voz alta e tentar me desculpar. 
 105 
Após meia hora de choro, minha mãe me deu remédios para dormir... 
Ajuda, mas agora está bem difícil para eu escrever aqui. 
Eu pensei que ia ser meu primeiro dia oficial “normal e estável” na 
minha vida, então estou um pouco desapontado comigo mesmo... Eu poderia 
até dizer que estou com raiva de mim mesmo! 
Eu fico bravo por muito pouco, então eu fico triste por causa de um 
pouco de culpa que vem junto com a raiva. 
Quando eu me acalmei (por causa dos remédios), eu ainda tive que 
pedir a eles para que me deixassem sozinho um pouco, para que eu pudesse 
limpar meu rosto destruído e cabelo, depois de tudo, eu não poderia estar 
mais envergonhado... 
* * * * * 
Página 89 
02/08/18 – 16h19 
Eu acabei de chegar da terapia, e eu pude falar muito com a terapeuta. 
A verdade é que eu não tenho coragem ainda, pois não sei quem eu sou, ou 
se sou. 
Pelo menos, não com palavras... 
Por alguma razão eu me sinto egoísta... Minha terapeuta disse que não 
apenas minha tia, mas meu pai também foram até o consultório dela para 
 106 
perguntar se o que eu faço está sendo para chamar a atenção, como se eu estivesse 
os testando! 
Eu me senti mal porque , eu estava de fato os testando! 
Eu só queria saber como eles reagiriam, eu estava feliz, porque EU PENSEI 
que eles estavam aceitando as coisas naturalmente, mas O QUE é que eles pensam 
de mim? 
Página 90 
Um menino adolescente, que está desesperado por atenção? Isto é o 
OPOSTO de mim! Tudo o que eu desejo é que eu tivesse nascido e sido tudo 
normal, isto é tudo! 
Ou talvez, só tivesse o poder de me tornar uma outra pessoa 
instantaneamente! 
Por que eles pensam isto de mim? Por que alguém faria todas estas coisas 
por atenção? Isto é uma coisa arriscada no nosso mundo, há muitas pessoas ruins 
do lado de fora, POR QUE alguém faria isto só para chamar atenção? 
Não é legal quando alguém olha fixamente para você, num jeito esquisito? 
Quando você está indo cumprimentar alguém, e a pessoa olha para você 
com dúvida, ou com medo, ou tanto faz, e então nem olha no seu rosto, ISTO É 
BOM? Droga! 
Página 91 
Pelo menos, minha terapeuta disse a eles que ela não acreditava nisto. 
 107 
Aparentemente, uma pessoa que me conhece há dois ou três meses mais ou 
menos, me conhece melhor que a minha família, ou não? 
Apesar que eu muitas vezes extrapolo, e eles tem razão. 
* * * * * 
02/08/18 - ????? 
Eu conversei com o meu pai sobre aquela coisa, e ele me contou uma 
história toda diferente (o que faz mais sentido). Basicamente, é só mais umas das 
muitas histórias loucas que aquela psicóloga da Clínica disse. 
Mas, não é sobre isto que quero falar a respeito... 
A coisa é que EU, REALMENTE, acho que minha tia sabe sobre minha 
dúvida de gênero e que eu penso em morte. 
Eu sei que ela pode “raquear” meu telefone, de outra forma meu pai não 
saberia, que eu estava procurando coisas, relacionadas à morte no meu telefone. 
Eu acho que ela estava procurando meu histórico no google e encontrou 
alguma coisa relacionada a isto... 
Página 92 
Ela me mandou uma mensagem falando sobre uma YouTuber que fala 
bastante sobre o assunto, porque ele é uma mulher transexual e tudo. 
Não satisfeita, ela vai me dar o livro dela! Eu espero que todos vocês já 
saibam sobre o que ela fala, certo? Assim como outros livros. 
 108 
Primeiro, o que meu pai disse em 30/07/18, então isto! Não pode ser uma 
coincidência! Isto é tudo TÃO de repente para ser! Mas, eu acho que eles 
pensam que estou confuso, e eu posso até estar, mas não muito! 
Eu só estou com medo de falar para eles! Na verdade, eu estou 
ATERRORIZADO! 
Ela até me perguntou se eu vou ler, porque ela já o comprou outros livros, 
de outros assuntos,até em inglês e eu não li. Eu não sei se eu posso lidar com 
isso... 
 
 
 
Como eu faço para voar? 
* * * * * 
Página 93 
03/08/18 – 12h17 – dias: 57 
Lembram do C.? Da clínica? Nós estamos conversando novamente! Ok, eu 
só queria que todos vocês soubessem. 
 
 109 
 
 
 
 
 
 
Eu também quero contar que eu acordei REALMENTE triste... está 
chovendo muito forte lá fora... De jeito nenhum eu vou sair! E mesmo se eu fosse, 
quem mais iria? 
NINGUÉM, é claro... 
Eu estou me sentindo feio hoje, eu não sei porque, mas eu me sinto o 
mais feio do mundo. 
* * * * * 
03/08/18 – 13h53 – dias: 57 
Eu acho que talvez eu consiga sair, porque a chuva está diminuindo um 
pouco, mas ainda preferiria chamar alguém para vir aqui na minha casa... Na 
realidade, eu já tentei chamar a M. (uma amiga minha), mas ela ainda não me 
respondeu... Eu estou ficando meio sem esperança. 
* * * * * 
 110 
Página 94 
03/08/18 – 16h40 
Toda esta restrição está começando a me irritar. 
Eles dizem que minha vida só vai voltar ao normal quando eu ficar melhor, 
mas eu não estou indo tão bem... Eu fiquei SUPER nervoso só porque eu tinha 
perdido meu isqueiro! Então, significa que eu ficarei em casa, por ainda mais 
tempo! 
Tudo o que eu faço, o dia todo e todos os dias é NADA! Eu não posso sair, 
ou ficar sozinho por um segundo! 
Saco, eu deveria ter pego mais comprimidos no dia em que eu tentei me 
matar. 
Página 95 
Quando eu fiz isto, tudo o que eu queria era paz, e agora tudo o que eu 
tenho é problema. 
Tudo é problema! 
Eu luto para fazer minha mente pensar como uma pessoa normal, eu 
luto para conter minhas crises, e quando eu não posso, eu sinto ainda mais 
nervoso, porque mais uma vez FALHEI! 
Eu luto para lidar com a solidão, eu digo para mim mesmo: “você tem 
muitas pessoas que se preocupam com você”, mas alguma coisa dentro de 
 111 
mim diz: “todos eles te deixaram para trás, você empurrou todos para longe, 
você é um pedaço de merda”. 
Todos os dias eu acordo e tento pensar que vai ser um “dia normal”, 
mas em algum momento eu sempre luto com alguma coisa... Tudo o que eu 
quero é minha vida de volta... 
Há uma peça de teatro que eu realmente queria ir SOZINHO e POR MIM 
MESMO. O nome da peça é: “A visita da velha senhora”. A sessão termina dia 30 
de setembro, então para minha linha da morte ficar melhor é até 29 de setembro. 
Eu tenho que, pela minha honra, fazer isto. Eu TENHO! 
* * * * * 
Página 96 
03/08/18 – 21h07 – dias: 57 
Alguma coisa REALMENTE boa aconteceu! Meu pai vai para a Bienal do 
Livro amanhã, e ele disse que me deixará no shopping SOZINHO, e esta ainda 
não é a melhor parte: Ele também disse que eu posso voltar para casa por conta 
própria também! 
Eu estava conversando com ele sobre o que eu escrevi mais cedo e nós 
fizemos este acordo: ele me dá mais liberdade, e eu provarei que eu valho esta 
confiança, e você APOSTA que eu posso fazer isto! 
* * * * * 
 
 112 
04/08/18 - 12h28 – dias: 56 
Estou animado, mas também com medo... 
* * * * * 
Página 97 
Eu só espero que não entre em apuros ... 
* * * * * 
04/08/18 – 13h34 – dias: 56 
Comprei um panda para o meu pai, como um presente de obrigado! 
E voltei sozinho para casa, peguei trem e ônibus, me senti livre e feliz. Fiz 
uma cartinha para dar junto com o Panda, espero que ele goste! 
 
 
 
 
 
 
 113 
 
 
 
 
 
 
 
Página 98 
05/08/18 – 00h20 - dias: 55 
Hoje (na verdade ontem, mas o que quer que seja, você entendeu) eu estava 
autorizado para sair à noite, e a ÚNICA pessoa que poderia me encontrar era a D. 
Estava realmente bom, é importante vê-la novamente! Nós tivemos uma 
longa conversa sobre como nós éramos insensatos antes, e como nós estamos 
agora. Isto me fez perceber que eu não era o único que tinha mudado nos últimos 
meses. 
Página 99 
Ela me disse que no tempo que nós costumávamos nos encontrar, ela estava 
lutando tanto quanto eu estava. Ela me disse que se sentia solitária em casa, como 
se ela estivesse trancada em sua mente, ou como se ela estivesse perdendo alguma 
coisa lá fora. Mas ao mesmo tempo, quando ela estava de fato com amigos, ela 
 114 
ainda sentia solidão dentro dela (o que me deixa impressionado, porque eu 
costumava me encaixar, na mesma linha de pensamento). 
Ela também me disse que ela queria ficar mais magra (ela já é). 
Mas, eu posso ver que está melhor. Ela está bem bonita de corpo, engordou 
um pouquinho, e isto é SUPER positivo! 
Página 100 
Após esta conversa, nós falamos sobre muitas outras coisas e então nós 
compramos cookies no supermercado e ela andou comigo até a minha casa! Ela é 
super legal, fofa, feliz, estilosa, TUDO! 
É como se dissessem: “nossos melhores amigos vão se destacar quando 
você estiver passando por um momento ruim”. 
Faz sentido porque eu tive muitos amigos quando eu estava “feliz”, 
mas uma vez que eu fiquei para baixo, todos desapareceram... 
Todos menos D. É fácil dizer “Sinto muito sua falta”, “vamos sair qualquer 
hora”, “você está melhor?”, mas D. fez mais que simplesmente isto, ela se fez 
presente na minha vida! 
Eu acho que eu posso dizer que ela é de fato, minha melhor amiga neste 
momento. 
* * * * * 
06/08/18 – 22h35 - dias: 54 
Eu estou meio que triste hoje, apesar de ter tido realmente um ótimo dia. 
 115 
Página 101 
Eu fui para a aula de inglês que é totalmente uma DROGA, mas tudo bem, 
porque acabou agora! Eu encontrei L. (uma das minhas poucas ainda amadas 
amigas) pela primeira vez desde que eu deixei a clínica (eu sei, é realmente muito 
tempo), mas tudo bem, porque nós tivemos uma conversa boa, realmente... 
Depois que ela saiu, EU TENTEI, ajudar outra amiga, porque ela transou 
com um garoto sem preservativo, e então ela queria que eu comprasse a “pílula do 
dia seguinte”, e lógico que não deu certo, porque eu não poderia comprar... 
Página 102 
Mas ainda assim, foi divertido para nós dois! 
(Eu REALMENTE desejo que ela não esteja grávida) 
ELA TEM 14 ANOS – Preocupante! 
* * * * * 
07/08/18 – 21h13 - dias: 53 
Eu ainda continuo me sentindo deprimido, e eu não sei o motivo... Eu 
não quero viver este pesadelo novamente! Mas, eu também sei que eu cometi 
um erro... Eu não contei para a terapeuta sobre isto! Ela acha que eu estou 
me sentindo melhor, mas eu não sei se eu estou! Eu não sei se é normal ou 
não, e eu estou com medo da resposta! 
* * * * * 
 
 116 
Página 103 
É normal se sentir triste algumas vezes, mas este já é o segundo dia, e 
eu sei onde isto pode me levar... MORTE ou a CLÍNICA. Obviamente, 
nenhum dos dois é bom. 
Eu só fico pensando, que eu não posso passar por tudo aquilo 
novamente, eu simplesmente não posso. Eu não tenho estrutura, nem 
coragem para isto, eu sei que meus pais sentem o mesmo. 
O mundo continua se movendo, mas eu não acho que eu possa me 
manter, por este tempo existindo. 
P.S.: Há muitas coisas na minha cabeça agora... Droga, eu não quero voltar 
para a clínica, aquele lugar é sombrio, obscuro, bizarro e triste na maioria das 
vezes. 
Página 104 
É triste porque você vê que TODO MUNDO está doente lá, e então 
você percebe que você é tão doente e louco e problemático como eles são... 
Só porque eu saí daquele pedaço de inferno, não significa que eu mudei 
completamente... 
 Eu fiz tudo certo. 
 Por que tudo parece frio e cinza? Por que nada mudou? Por que? 
* * * * * 
 
 117 
Página 105 
 
* * * * * 
Página 106 
08/08/18 15h18 – dias: 52 
Eu deitei na minha cama, um cigarro na minha mão. 
Eu vejo a fumaça no ar, como uma ladeira infinita, até que o vento a 
derrube. 
Eu olho para as cicatrizes no meu braço e percebo que está ficando difícil 
permanecer acordado novamente. 
Apesar de que eu não estou sonolento... Eu estou cansado de me sentir 
triste. 
Spanish Sahara (música), no último volume, é a principal razão para eu 
ainda estar acordado. 
 118 
Eu tenho que dormir novamente. O que eu faço?O cigarro está quase no fim agora, e se eu não estou destinado a estar? 
Eu realmente preciso de outro cigarro... 
Página 107 
Você sabe, ontem minha mãe fez a última jogada, veio me perguntar se eu 
tinha dúvidas sobre a minha sexualidade. 
Merda, eu não posso dizer que eu não estava nervoso, mas no final de tudo 
eu poderia ser desmentido. Eu meio que queria dizer a ela, mas como se nem eu 
sei? 
Agora, eu REALMENTE, tenho dúvidas, muitas delas! 
De novo, tudo o que eu posso dizer é DROGA. 
Eu ainda estou me sentindo depressivo, mas isto está ficando maior, eu 
posso sentir isto. 
Hoje, eu simplesmente não poderia ir para a aula de inglês.... Coisas não 
estão indo tão bem... 
Página 108 
Há um olhar em seus olhos. 
Como dois buracos negros no Céu. 
 
 119 
Pink Floyd (Shine on your crazy Diamond – Brilhe, diamante louco) 
* * * * * 
Página 109 
15/08/18 – 15h30 – dias: DANE-SE 
Há muito na minha mente, eu estou ficando cada vez pior. 
Ontem à noite, eu me cortei novamente, mas eu não poderia cortar 
meus braços, então eu queimei minha perna com um cigarro. Realmente 
machuca, mas ninguém pode descobrir. 
Agora eu estou no inglês, e este é o ÚLTIMO lugar que eu queria estar! 
A professora percebeu que eu estou triste, e eu não sei o que fazer. 
* * * * * 
Página 110 
20/08/18 – 20h45 – dias: quem se importa 
Sabe? Eu não deveria me sentir culpado sobre querer me matar... Eu 
sempre penso: 
 “Oh, e meus pais?! Ou meus amigos?” 
Sabe? Eu nunca pedi para nascer! Eu nunca pedi para viver! Para 
existir! 
 120 
Então, POR QUE eu deveria me preocupar sobre o que as pessoas 
querem de mim agora?! 
Eu NÃO quero mais sofrer! 
Eu não quero sentir nada, ao ponto que eu quero sentir qualquer coisa! 
Eu não quero sentir lágrimas no meu rosto novamente! 
Eu estou CANSADO de me sentir culpado! 
E se eu sinto vontade de desistir, então eu vou. E desta vez, eu terei 
certeza que eu morri de verdade. 
A VIDA ME DEVASTOU. 
Página 111 
Amanhã, eu vou finalmente encontrar a psiquiatra novamente, e meu 
último desejo é que ela me dê alguns novos remédios, e então eu nunca 
chorarei novamente. 
Honestamente, eu acho que eu simplesmente não quero que funcione... 
Eu quero morrer. 
* * * * * 
25/08/18 – 01h28 
A vida me decepciona. Recentemente eu peguei um monte de remédios 
para dormir, um após o outro. Mas, agora minha mãe, disse que eu não posso mais 
pegá-los. Eu me sinto preso num pesadelo, o pesadelo da realidade. 
 121 
Página 112 
Para fazer as coisas ficarem um pouco pior, eu pensei que amanhã eu 
poderia ir para a casa da minha tia e prima usando o transporte público, e eu sei 
que não é o melhor, mas pelo menos eu faria isto sozinho, entende? 
É claro que não aconteceu, eu recebi uma mensagem do meu pai dizendo 
que um táxi me pegaria, o que significa que agora estou chateado e preso em uma 
realidade de merda. 
A pior parte é que eu tenho que ir, porque meu pai fez muitas mudanças no 
seu cronograma, então eu poderia ir, mas eu só não quero ir! Droga gostaria que 
meus pais nunca tivessem me encontrado em coma, no chão do banheiro naquele 
dia. 
Eu QUASE consegui, e agora minha vida só piorou. 
Eles ficam suspeitando de mim o tempo todo (eles não me deixam nem 
trancar a porta do banheiro), eles não me deixam sair, quando eles finalmente 
deixam, eu tenho que voltar cedo, tudo o que eu faço é tentar encontrar alguma 
coisa alegre, mas eu ainda não encontrei... Meu único desejo é ter câncer e morrer. 
Falando nisto, eu vou fumar um cigarro. 
* * * * * 
25/08/18 – 03h45 
Eu tomei uma decisão, eu quero morrer, mas desta vez, será de 
verdade. 
Medicina não vai funcionar, eu preciso pensar num plano bom. 
 122 
Por que? Porque eu odeio minha vida! 
Racionalmente falando, eu sei que eu tenho uma boa vida: moro em 
uma casa que não me falta nada, suporte da família, amor, etc. 
Mas, eu não consigo me sentir feliz! E, como eu disse, eu nunca pedi 
para nascer... 
Então, eu vou parar com a medicina em segredo, e com tempo eu vou 
me sentir pior e eu vou querer me matar, mas desta vez eu tenho um plano, 
quero dizer, está quase pronto. 
Página 113 
Eu sei que vai ser chato sair com minha tia, mas eu pretendo ficar feliz, e 
pedir para ir ao Edifício Itália, o prédio mais alto de São Paulo. 
Uma vez que eu vá lá, eu analisarei se é possível pular de lá. Se for 
possível, então eu fugirei de casa algum outro dia e vou pular, e se não funcionar, 
eu posso sempre pular em frente de uma linha de metrô. 
Eu não me sinto mais culpado, esta é a minha vida, e eu não pedi por nada 
disto. 
Nós nascemos como um robô, e todo seu destino já está determinado! 
EU NÃO aceito isto, meus pais ficarão abalados, eu sei, mas pelo 
menos, eles sentirão o que eu senti: tristeza PROFUNDA, desespero, raiva, 
até nada. 
 
 123 
Página 114 
Eu estou cansado de “mantenha sua cabeça erguida”, “é só um momento”, 
“passará”, “menos drama, Mikhael”, “saia da cama”, “só tome os seus remédios”, 
“só seja paciente”, etc. 
Eu quero dormir ou morrer, e pessoalmente eu prefiro morrer. 
Eles não me deixam fazer nada nem mesmo dar uma CAMINHADA! 
Eu fui para uma caminhada, falei para eles que eu estava fazendo isto, então 
eles disseram “ok”, e dez minutos depois eu tive que voltar, só porque eu não 
estava exatamente onde minha mãe pensou que eu estaria. 
Mas, eu não estava fazendo nada errado, e eu acreditei que eu poderia fazer. 
Foi estressante e humilhante. 
* * * * * 
25/08/18 – 7h25 
Minha memória está uma droga, então eu acho que vou escrever a mesma 
coisa novamente, mas tanto faz. 
Página 115 
Hoje, eu terei que passar o dia com a minha tia, e é uma merda, mas desde 
que eu estou planejando me matar em poucos dias, quem se importa! 
Eu estou assustado como o inferno, mas é hoje, e eu espero que eu não 
morra. 
 124 
27/08/2018 
Então, muito mudou desde a última vez... 
Eu finalmente disse aos meus pais que eu acho que sou outro gênero, sou 
uma menina, Chloe. 
Mas eu ainda me sinto triste... Eu nem sei quem sou. 
* * * * * 
Página 116 
04/09/2018 – 14h28 
Eu tive um sonho ontem... Eu estava em um quarto (não o meu) e alguma 
coisa estava fora em relação aquele lugar. Eu fui ao banheiro e encontrei um 
recipiente com drogas e quatro pílulas. Eu peguei e usei tudo de uma vez só, e 
olhei no espelho, enquanto minhas mãos estavam sobre a pia, e vi meu rosto como 
um estranho, que tem graves problemas com drogas. 
Desde então quero matar alguém e me matar logo depois! Eu sei que tudo 
isso não tem conexão, mas de alguma maneira este sonho me mudou. Na última 
noite eu estava procurando por corpos mortos na internet. EU NÃO POSSO parar 
de pensar sobre o sonho, e sim, eu sei que eu deveria contar isso para alguém, mas 
eu não quero. 
Agora que eu penso sobre isso, poderia ser simples ... 
* * * * * 
 
 125 
Página 121 
24/09/2018 – 16h30 
Eu talvez esteja errado, mas eu acho que estas são minhas últimas páginas 
nesse diário. 
Eu planejo me matar amanhã, eu não posso mais suportar! 
Mas, eu não vou me matar agora ...é muito tarde, e meu plano é pular em 
uma linha de metro. 
Espero que tudo dê certo. 
 
DESCULPA MAMA E PAPA. 
* * * * * 
24/09/2018 – 18h08 
Eu me pergunto se alguém vai chorar pela minha morte amanhã, quero 
dizer, meus pais vão, mas e sobre meus amigos? Eu acho que a D. e a L. vão, 
talvez a B. também, mas quem mais. Agora que eu estou próximo da morte, eu só 
posso pensar o quão insignificante eu sou para as pessoas ... 
 
 126 
Página 122 
Em pouco tempo, as pessoas nem lembrarão meu nome. 
Se as pessoas não se preocupam comigo, eu não tenho planos para o 
futuro... Qual é o ponto?! 
Estar vivo machuca muito, se Deus existe, por favor me dê um sinal ou 
eu terei que partir! 
Eu não posso nem ser honesto com a terapeuta, ou então eu serei 
mandado para a clínica, esta vida é um INFERNO, e eu tenho que fugir dela 
de uma vez.Se eu não for para uma clínica, minha vida não será muito melhor. Vai se 
resumir no vídeo game, e se você acha que é o paraíso, bem, não é, porque você 
ficará aborrecido em pouco tempo e sua vida será resumida em mentira. 
Página 123 
14/09/2018 – 14h27 
Minha vida tem sido miserável ... eu não faço nada o dia todo ... eu somente 
“assisto o dia passar” como a terapeuta disse. 
Minha amiga D. disse algo para mim hoje, e isto não sairá da minha cabeça. 
“Você está somente se desenhando fazendo isso”. 
Ela esta absolutamente certa ... 
 127 
Eu não estudo/ não trabalho / não ajudo a sociedade ... e eu não quero ... eu 
quero me esconder de fato, mas eu sei que não deveria. 
* * * * * 
16/09/2018 – 00h24 
Eu estou bêbado e triste, eu cheguei em casa muito tarde e meus pais estão 
chateados ... eu só queria fazer alguma coisa divertida com a minha vida uma 
vez... 
Página 124 
Minha vida é basicamente entediante, pois eu só jogo vídeo game o dia 
inteiro, mas é de propósito. Eu só desejo que eu estivesse morto, não porque eu só 
jogo vídeo game o dia inteiro, por causa de tudo. 
Página 125 
Você sabe, eu acordei bem cedo, e desde que eu abri meus olhos eu já 
queria ir dormir, e eu não poderia fazer. 
 
POR FAVOR FAÇA PARAR 
LÁGRIMAS ... 
 
 
 
 128 
Página 126 
 
EU NÃO AGUENTO MAIS 
Socorro! 
 
 
 
 
Página 127 
25/09/2018 – 00h00 
Agora que eu estou próximo da morte, eu espero que se o céu ou o inferno 
realmente existem, eu seriamente desejo ir para o céu. 
* * * * * 
25/09/2018 - ??:?? 
Eu estou fraco, o plano falhou TOTALMENTE. Ninguém saiu, mas ainda 
eu deveria ter feito isto. 
Eu conversei novamente com os meus pais sobre a Chloe. 
Recentemente eu fiz uma lista de “por que eu quero morrer” 
 129 
Página 128 
POR QUE EU QUERO MORRER 
 Odeio meu cabelo. 
 Odeio minha voz. 
 Odeio meu corpo. 
 Odeio Transtorno de Personalidade Borderline. 
 Odeio minha vida social. 
 Odeio não ter coragem para mudar alguma coisa ou pelo menos me matar. 
 Odeio ter sentimentos instáveis o tempo todo. 
 Odeio ser capaz de me abrir para um diário (sempre). 
 Odeio desapontar minha família e amigos. 
 Odeio querer matar alguém e sentir o seu sangue morto. 
 Odeio quando as pessoas me ferram. 
 Odeio minha vida inteira. 
 Odeio não ir para a escola. 
 Odeio ser julgado. 
 Odeio “me manter” ou “pensar em coisas boas”. 
 Odeio aqueles que não cuidam, e odeio aqueles que cuidam demais. 
 
Página 129 
EU ODEIO TODOS VOCÊS 
 
* * * * * 
 
 130 
Página 130 
26/09/18 – 10h37 
Hoje meus pais saíram, então vai ser difícil sair de casa, minha tia esta 
comigo. 
Eu estava desesperado tentando encontrar o momento certo para o suicídio, 
mas agora eu finalmente encontrei. 
Aos finais de semana, meus amigos geralmente saem, incluindo eu. Então 
na sexta-feira, se eu pedir para sair, eles não iriam nem se incomodar, e me dariam 
até um pouco de dinheiro, o mesmo será útil para eu comprar um passe de 
transporte e ir à linha azul do metrô, porque não há barreiras para as pessoas 
pularem. 
Esta linha de metrô é bastante distante da minha casa e o jeito mais fácil 
seria pular de uma estação de trem, mas eles são muito lentos e eu provavelmente 
só ficaria realmente machucado e não morreria. 
 
Página 131 
Só mais poucos dias... 
 
* * * * * 
 
 
 131 
Página 132 
Eu não sei que dia é, nem o horário. 
Tudo morre, mas nunca termina... Eu morri. Muito tempo atrás eu 
morri, mas ainda não há fim para mim. 
Minha felicidade e satisfação com a vida morreu, mas eu continuo 
sorrindo e andando e correndo e falando e comendo! Assim como todo 
mundo, assim como um zumbi verdadeiro. 
Onde está meu final? Eu PRECISO encontrar meu fim, então eu 
poderei ter paz. 
 
 
 
 
 
 
* * * * * 
 132 
 
 133 
Daniel Conta 
Decidimos publicar os relatos de nosso filho, registrado em seu diário, sob 
o ponto de vista dele mesmo, imerso em uma dor tão profunda; conhecida como 
depressão. 
Perder um filho, nosso único 
filho, está sendo muito doloroso. 
Parece um pesadelo sem fim... 
Seria como se uma estaca 
atravessasse seu peito, rasgando sua 
carne e músculos. 
Deus, em Sua sabedoria, retira 
esta estaca aos poucos. Com o tempo, 
pois, se fosse retirada de uma só vez, 
jorraria sangue e nos levaria a morte. 
Assim, aos poucos os tecidos 
vão se aproximando, se juntando, até 
serem suturados. A cicatriz ficará para sempre. Mas, a dor será gradualmente 
substituída por saudades e esta por boas lembranças. Além da certeza de um 
reencontro na Eternidade. 
Quando o amigo que Jesus muito amava, Lázaro ficou doente ele foi 
informado. mas não saiu de imediato. Jesus chega no quarto dia. Lázaro já tinha 
sido sepultado e seu corpo já estava em decomposição e cheirava mal. 
Reparem na fala das irmãs de Lázaro, Marta e Maria. Ambas apresentam 
um lamento; “Se o Senhor estivesse aqui...” 
 134 
Mas, não havia nelas rancor, ira. Não brigaram com Jesus, não 
questionaram Seu Amor. Elas tinham aceitado a situação... 
Neste caso, havia um propósito. E para tudo há um! 
Às vezes, não entendemos com nossa razão limitada. 
“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os 
vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. 
Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os 
meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos 
mais altos do que os vossos pensamentos.” 
Isaías 55:8,9 
“As coisas encobertas pertencem ao Senhor, ao nosso Deus, mas as 
reveladas pertencem a nós e aos nossos filhos...” 
Deuteronômio 29:29 
“O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo 
línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; 
Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier 
o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. 
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria 
como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de 
menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a 
 135 
face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou 
conhecido.” 
1 Coríntios 13:8-12 
Confesso que não está fácil viver este luto... 
Porém, aprendi a aceitar os desígnios de Deus, sem questioná-los, sem 
murmuração. Sei que as respostas virão aos poucos, na medida que esta estaca é 
removida de nossos corações. 
Mas, entendo que em tudo há 
propósito. Não faltaram orações. Não 
faltaram abraços. Não faltou 
acolhimento. Não faltou amor... 
Rimos muitas vezes juntos. 
Porém, depois que a doença se instalou ele não sorria mais. E eu chorava com ele, 
enxugava suas lágrimas e sempre dizia: “você sozinho não consegue, mas juntos 
em família e com Deus nós venceremos.” 
A depressão piorou e evoluiu. 
Afinal ele já tentara se matar antes. Por intoxicação exógena. Por Deus, 
minha esposa o encontrou a tempo de mantê-lo vivo através de manobras médicas 
até que eu chegasse com a ambulância. Foram quatro dias de UTI, 12 horas em 
coma profundo e a incerteza se ele voltaria bem ou com alguma sequela. 
Teve outra recaída e se cortou fundo, buscou as artérias. Mais uma vez a 
rapidez de ter uma médica em casa acaba por salvá-lo. Mas, desta vez tivemos que 
interná-lo. Foram 22 dias em uma clínica psiquiátrica. 
 136 
Retiramos nosso filho da clínica e mantivemos um tratamento intensivo 
com ele. 
Ao sair da clínica verificamos que ele estava com Guna (Gengivite 
ulcerativa necrosante aguda), conhecida também por boca de trincheira, era 
comum em soldados de guerra por este motivo levou este nome. Tratamos. 
Mikhael tinha terapia duas à três vezes na semana, a psiquiatra vinha em 
casa a cada 15 dias. Já que haviam dias que ele não conseguia sair da cama. 
Medicamentos foram sendo ajustados. E ele apresentava pequenos 
momentos de melhora. 
No entanto, não contemplava o futuro, nãotinha planos... O que o 
classificava ainda como paciente de risco. 
Vigiávamos ele dia e noite, em revezamento com a Isabela. Parei com os 
seminários, não tive mais inspiração para escrever. Apenas conseguia, a muito 
custo, e na força de Deus, gravar os vídeos semanais para abençoar as vidas. 
Para quem não me conhece; os vídeos são gratuitos. 
Passamos a viver de ofertas voluntárias de amor, vinda do remanescente 
fiel. Até que no dia 21 de dezembro de 2018, fomos juntos a outra médica, 
especialista em transtornos de adolescentes, indicada pela que já o acompanhava. 
Ele havia se cortado novamente na véspera. A médica viu os cortes; mas, 
considerou como uma recaída. 
 137 
Na longa entrevista ela notou que ele estava bem e disposto a se engajar no 
tratamento. Ela solicitou uma vaga no Hospital das Clínicas em São Paulo, que 
possui um prédio somente para psiquiatria. 
Ela explicou detalhadamente o funcionamento da instituição. Eu e minha 
esposa poderíamos visitá-lo todos os dias, e até ficar internado junto com ele! 
Mikhael ficou radiante em saber que não ficaria sozinho. Voltou para casa muito 
feliz e animado, todo falante. 
Mas, sábado dia 22 de dezembro de 2018 quando acordei não o vi em 
casa... Eram por volta das 8h30 da manhã. Ele saiu sem celular e sem 
documentos... Inicialmente, pensei que ele tinha decidido dar uma volta pelo 
bairro para espairecer. 
Rodei o bairro todo, perguntei por ele em todo lugar. Todos o conheciam. 
As amigas mais próximas começaram uma campanha nas redes sociais para tentar 
achá-lo. 
Não quis acordar Isabela que teve péssima noite e estava sob efeitos de 
calmantes. 
Fui até a delegacia mais próxima registrar queixa de desaparecimento, 
minha prima me acompanhou. Mas, já havia pedido ao meu irmão policial e sua 
noiva a virem conosco. A ajuda deles foi fundamental. 
Na delegacia me perguntaram qual a queixa. Eu respondi; 
“Desaparecimento de um menor com problemas psiquiátricos”. 
A resposta foi dura para um pai desesperado; “não podemos registrar 
queixa, só depois de 24 horas, mas se você ainda quiser fazer, em quatro horas 
podemos te atender.” Era 12h30...Meu irmão chegou, mostrou seu distintivo e o 
 138 
B.O. foi feito em 15 minutos. Não havia ocorrência de alguém sem identificação 
naquela região. Partimos ao hospital mais próximo. 
Pesquisam e não encontraram entrada de nenhum desconhecido. 
Estávamos já saindo, quando Deus nos envia um anjo, uma senhora que 
pergunta gentilmente: “precisam de ajuda em algo?” 
Relatamos o fato, ate onde conhecíamos. Ela nos levou à assistente social. 
E, mais uma vez, vi a intervenção de Deus. Ela se lembrou que uma mulher 
deu entrada no hospital pela manhã em choque, por ter testemunhado um suicídio 
na plataforma de trem. Relatou que a pessoa estava com os braços cortados e 
deitou sobre os trilhos, repousando o pescoço em um deles. 
Depois, só ouviu o impacto, pessoas gritando, ambulância chegando... e ela 
por ter ficado em choque, foi levada ao hospital. 
Aquilo me gelou o coração... 
Meu irmão encontrou dois policiais que estavam escoltando um preso, e 
perguntou se eles podiam mandar um rádio para a delegacia onde o suicídio 
ocorreu. Já que a perícia teria que ser feita por eles. 
A delegacia confirmou... Mas pediu para identificarmos as fotos antes de 
nos enviar ao IML. 
Chegamos e a delegacia estava fechada para almoço. Novamente, o 
coleguismo entre policiais nos ajudou. Foram muito solícitos e sensíveis. 
Escolheram a foto “menos pior” e me mostraram. Eu o reconheci... Era meu filho! 
Meu amigo, meu parceiro... 
 139 
Mesmo assim tinha que ir ao IML para reconhecimento. Foi a pior cena que 
vi em minha vida. Ele ainda carregava no pulso esquerdo uma pulseira que 
mandamos fazer para ele, anos antes disso. Ela era de prata e tinha apenas uma 
frase: Força. 
Infelizmente ele não teve... 
Queria poder cremá-lo para ser menos doloroso e poder jogar as cinzas em 
lugares que ele gostava. 
Mas, me disseram que em casos de suicídio não pode. 
Nem jazigo eu tinha... 
Então, minha tia em imensa generosidade, me cedeu 
uma vaga no jazigo dela. Um local que mais parece um 
jardim. 
Mas, só poderia retirar o corpo no dia seguinte após a 
necropsia. 
Cheguei em casa e tive que dar a notícia a Isabela... Mais uma cena muito 
triste e profundamente dolorosa... 
Isabela ficou em choque, e disse que não tinha forças para ir ao 
sepultamento. 
Queria a imagem dele vivo, preservada em sua memória. Chorou muito, 
tomou mais calmantes...e ficou em casa. 
 140 
Pediu que eu tirasse uma foto dele já arrumado para o sepultamento, 
coberto com flores brancas. Escolheu as flores que iriam no jazigo também. 
Minhas primas se mobilizaram rápido para comprar as flores que Isabela 
havia solicitado. Não sabíamos a hora do sepultamento, pois dependia ainda de 
uma grande burocracia. 
Acabou sendo as 16h30 do dia 23 de dezembro de 2018. Chegamos no IML 
às 7h. 
A pergunta que nos assombrava: por quê? 
Conversando com alguns terapeutas soube que o suicida, normalmente, tira 
sua vida por amor àqueles que ele ama, e que sabe que também o amam. 
Você já viu um mendigo tentando suicídio? 
Pessoas mal amadas, abandonadas, acabam se prostituindo, se drogando, 
mas não buscam a morte. 
Ou encontram forças para superação, e tornam-se grandes artistas, 
escritores, cantores, etc. 
Alguns dias antes desta tragédia Mikhael falou 
para mim: “Papa, estou sendo um estorvo a você e a 
mamãe. Só estou te dando gastos, com médicos, 
terapia, remédios. Até você está tomando 
medicamento e fazendo terapia. Mamãe voltou a 
tomar antidepressivos. Você, papa, parou de fazer 
academia. Já faz um ano que parou sua vida para 
 141 
cuidar de mim. Não faz mais seminários, não consegue escrever seus livros e mal 
consegue gravar os vídeos dominicais. Vejo tristeza em seu olhar, papa. Vejo 
você chorando no escuro. Vejo a mamãe abatida, tendo que tomar remédios para 
dormir, e você também. Não estou melhorando. Mas, estou piorando a vida de 
vocês que tanto amo. Você é o melhor pai do mundo, é a força que me protege. 
Me apoia, incentiva, me dá colo, enxuga minhas lágrimas... Mas, ver vocês assim 
não quero mais. Prefiro a morte. Vocês sentirão minha falta, eu sei. Mas, o tempo 
passará e serei somente uma boa lembrança. E não mais um peso!”. 
Ouvi aquelas palavras atônito, perplexo. Abracei com força, não muita, pois 
ele já estava fraco e mal comia. 
Não contive as lágrimas e disse a ele:” Papa vai estar com você sempre! 
Você é lindo, inteligente, capaz, amoroso, nunca fez mal a ninguém, tornou-se até 
vegetariano para não colaborar com o que fazem nos matadouros (ele tinha visto 
um documentário). Você, meu filho, é muito amado, não só pelos seus pais, mas 
por todos que tem o privilégio de te conhecer. Você é puro, às vezes ingênuo. Não 
tem preconceito em seu coração, não discrimina ninguém. Não julga ninguém. 
Abraça a todos. Sente a dor de alguém que está em alguma dificuldade. Você não 
é digno de estar neste mundo. Mas o mundo precisa de pessoas como você para 
iluminar o caminho daqueles que estão perdidos. Não pense bobagem. Papa está 
aqui! Vamos cuidar de você!” 
Aparentemente aquilo trouxe a ele consolo e forças. 
Quando lembrei desta conversa entendi que a morte dele foi por amor a nós. 
Além de tirar a dor imensa que só ele saberia descrever. Cujo relato está 
registrado no diário dele, acima. 
* * * * * 
 142 
Mikhael não nasceu assim, isso foi um progresso rápido e dolorido. 
Ele sempre foi um menino alegre, feliz, espontâneo, falante, inteligente, 
educado. E sempre demos atenção a ele, e sempre fizemos de tudo para que ele 
pudesse ter acesso a tudo que ele tivesse interesse, nos dobramos e redobramos 
para darmos a ele várias oportunidades. 
Fez natação enquanto bebê, e aprendeu rápido, foi muito desenvolto. E a 
medida que crescia foi mudando de estágios,até completar e aprender os quatro 
estilos muito bem. 
Mikhael entrou na escola com três anos de idade. Optamos por colocar ele 
na escola mais cedo, para ele ter amiguinhos e socializar melhor. 
E assim foi, ele fez amigos durante todo o período que 
ele esteve nesta escola, se interessou desde pequeno 
pelo inglês. Sempre oferecíamos esportes para ele 
praticar, ele fez por um tempo judô, patinação no gelo, 
hip hop e teatro. E em muitos lugares ele ganhava bolsa 
ou meia bolsa, pois ele era muito desinibido e cativante. 
Chegou a fazer um book fotográfico e fez vários testes para propagandas, 
mas priorizamos os estudos e ele não pode dar continuidade. 
Na patinação no gelo, ele fez uma apresentação, assim como no hip hop e 
depois no teatro com duas peças. Em uma peça ele foi o Romeu e na outra o 
Capitão Gancho. 
 143 
Ao se formar no nono ano da escola, ele foi um 
dos oradores da turma. 
No começo do ano de 2018, no primeiro ano do 
ensino médio, Mikhael pediu para mudar de escola, ele 
queria estar com outras colegas que haviam mudado 
também. 
Ele já começava a não acreditar em si mesmo. Queria ir para uma escola 
mais fraca, de acordo com os conceitos dele, pois ele achava que não teria 
condições de passar nesta escola, por achar mais forte. 
No final de 2017, ele 
havia ficado de recuperação, 
e o ajudamos de todas as 
formas para que ele 
conseguisse passar de ano, e 
conseguiu. O ano havia sido 
difícil para ele, foi uma 
sequência de perdas, ele já 
havia perdido a nossa 
cadelinha que estava 
velhinha, ele teve que lidar com a morte, ele desmaiou ao saber que ela havia 
partido. 
Ele havia adotado uma gatinha, e deu o nome de Patinha, esta gata era 
muito grudada nele, eles dormiam juntos, e onde ele ia ela ia atrás. Em 2017 ela 
foi atropelada perto de casa, e chegou agonizando como se pedisse ajuda, 
corremos com ela para o veterinário, mas infelizmente não havia nada que 
 144 
pudéssemos fazer. Mikhael ficou desconsolado, e foi muito difícil, esta perda 
mexeu muito com ele, ele mudou! 
Depois ele perdeu o Sansão, o coelho. Os coelhos são bichinhos muito 
frágeis, e do dia para noite ele acordou ruim, Mikhael e Isabela ficaram do lado 
dele, juntos na partida. Temos um pequeno jardim na frente de casa, e ele mesmo 
fez um buraco para enterrá-lo. 
Uma amiga dele tentou o suicídio, e ele se sentiu impotente, ela havia feito 
o cutting, ele fez também. 
No DNA do Mikhael havia uma predisposição para a Síndrome de 
Borderline, assim como a depressão, pois a Isabela havia tido. Quando menor, ele 
havia visto algumas crises da mãe, mesmo tentando tirá-lo de perto. Isabela 
conseguiu sair do quadro, e o Mikhael tinha muito orgulho disso. Mais tarde, ele 
veio a relatar isso para a Psicóloga da clínica que ficou internado. 
Sobre a mudança da escola, acatamos o pleito dele, pois o que mais 
queríamos era ver nosso filho feliz e bem. 
Após sair da escola anterior, ele relatou que um professor zombou dos 
cortes em seu braço, ele já havia começado com o cutting – “bonita a tatuagem no 
seu braço “- o expôs a sala. 
As aulas começaram na escola nova, e o comportamento dele mudou 
drasticamente, foi como se tivesse girado uma chave nele. Mikhael sempre foi 
dócil, amigo, companheiro, sempre nos contou tudo. Nunca ficou de castigo, 
nunca levantamos o tom da voz com ele e nunca demos sequer uma palmada. 
Ele começou a mentir. 
 145 
Havíamos combinado uma regra, ele tinha horários para estar em casa, e 
locais que poderia e não poderia ir. Dávamos um dinheiro contado a ele, e ele 
sempre prestava contas. Um dia, ele disse que 
iria encontrar os colegas no fast food, mas 
tínhamos acesso de onde ele estava pelo 
aplicativo do SnapChat, e ele sem querer 
mandou um vídeo para mim, só que era para 
uma amiga da onde ele estava, num centro de 
comércios longe de casa. Quando ele percebeu o erro, em meia hora estava em 
casa. 
Ficamos decepcionados, nunca pensamos que nosso filho pudesse mentir 
para nós. Sempre fomos parceiros, amigos, mais do que pai e filho! Ele nos disse 
que nunca mais mentiria, e acreditamos! Ensinamos o nosso filho sempre a dizer a 
verdade, sempre falar o que pensa. Nunca o reprimimos, pelo contrário. 
Ele quis mudar o corte de cabelo, pintar o cabelo de diversas cores, fazer 
piercing, ser vegetariano..., o apoiávamos, pois o amor faz isso, apoia. 
Mas ele continuou mentindo! 
 
Mikhael nesta altura, já tinha passado com um psiquiatra e um 
neuropsicólogo. O psiquiatra o diagnosticou com uma crise de ansiedade, e o 
neuropsicólogo nos testes aplicados, verificou que ele não tinha déficit de atenção 
(que era uma queixa dele), e que ele tinha um QI acima da média. 
E aqui fica o alerta aos jovens: “Não mintam e nem omitam nada aos seus 
pais! Somente eles te amam verdadeiramente, e sabem o que se passa com 
você.” 
 
 146 
Amava Inglês, e nos testes propostos chegou a pular um estágio, faltava um 
ano para conclusão de seu curso, e ele queria ser professor de inglês, e ter um 
método próprio e quem sabe uma escola de inglês. 
A escola me ligou à tarde, e disse que ele havia dormido em cima da mesa. 
Fui correndo até a escola, e verifiquei que ele tinha tomado remédios. Fomos para 
casa, Isabela ficou monitorando ele. 
Aqui começava a nossa trágica história. 
Mikhael não estava bem, ele não conseguia nos falar o que não estava bem 
nele. Ele começou as terapias com a psicóloga, e fomos a um outro psiquiatra e 
iniciou o tratamento medicamentoso. 
 
Ele começou a ter medo de situações e, de ficar sozinho, e com isso 
começamos a nos desdobrar para que ele estivesse sempre junto conosco. Mas 
manteve sua rotina de escola, e sair com amigos. Só que não tinha mais coragem 
de voltar ao inglês, se dizia com vergonha. Acatamos. 
E na nova escola ele sofreu mais uma exposição vinda de um professor, que 
ao ver as marcas em seus braços disse alto: “Você esta se cortando, isso é 
problema psiquiátrico”. Ele ainda tentou desconversar, mas o professor continuou. 
Um alerta: procure vários especialistas, busque várias opiniões. Mikhael foi há 
cinco psiquiatras diferentes, e todos chegaram ao mesmo diagnóstico: 
Borderline e depressão. 
 147 
Como ele estava quase entrando nas férias, a psiquiatra achou melhor dar 
um atestado de 30 dias, falamos com a coordenação e direção, e encaminhamos 
toda a documentação da médica. 
 
A escola se comprometeu a resolver a questão com os professores e alunos, 
e passou tarefas para que ele fizesse em casa, mas ele começou a não conseguir 
mais se concentrar. 
Um dia em casa, ele estava bem, falante, jogando um jogo no vídeo game, 
eu precisava ir a um almoço. O convidei para ir, mas ele não quis, e disse que 
gostaria de ficar em casa. 
Duas horas depois, recebo um telefonema da Isabela, e vou voando para 
casa, já com uma ambulância, ela não me disse o que estava acontecendo, só me 
disse que ele não estava bem. Quando cheguei, ela estava o mantendo vivo, com 
respiração boca a boca e massagem cardíaca. 
Mikhael começou a ter amizades tóxicas, que ofereceram bebida a ele, 
mesmo sabendo que ele era um paciente de risco, e que não podia beber, pois 
alterava os medicamentos que ele tomava. 
Alerta aos Professores: tratem este tema com o amor que ele merece, a 
história de nosso filho poderia ter sido outra, se ele encontrasse a empatia 
dentro do ambiente escolar. Às vezes, uma única palavra, ou um único gesto, 
levará a destruição. 
 148 
 
E ele mentia até para os amigos, dizendo que os pais haviam liberado 
bebida, e que até compravam para ele. O que seria um absurdo. 
Mikhael começou a ter outras doenças associativas, além da depressão 
(Distúrbio mental caracterizado por depressão persistente ou perda de interesse 
em atividades, prejudicando significativamente o dia a dia), e Borderline (as 
características principais incluem o medo do abandono, relacionamentos intensos 
einstáveis, explosões emocionais extremas, comportamento autodestrutivo e 
sentimento crônico de vazio), tais como: 
Anorexia (não se alimentava). Bulimia (vomitava o que comia). Alcoolismo 
(bebia escondido). Fumante (fumava mais de 10 cigarros ao dia – terapia do dano 
menor). Síndrome de Electra (queria a minha atenção de forma exclusiva, 
chegando a agredir verbalmente a Isabela, caso ela se aproximasse). Distúrbios de 
personalidade / transtorno dissociativo de identidade (não sabia mais se ele era 
menino ou menina, e nem quem ele era). Falava sozinho (por muitas vezes). Tinha 
muitos surtos (onde chorava e falava somente em inglês). Automutilação 
(cutting). 
Se tornou agressivo por algumas vezes, ao ponto da Isabela ter ficado com 
medo de ficar sozinha com ele. Estava em internação doméstica saia com o aval 
da psicóloga, que achava que ele tinha que ter uma vida social controlada. 
Algumas vezes a psicóloga fez o papel de acompanhante terapêutica. 
Mais um alerta aos amigos: Se você sabe que seu colega está em tratamento, 
não ofereça bebidas e nem drogas a ele, ele está doente mentalmente, e isso 
poderá trazer muitos riscos a ele. 
 149 
 
A internação vem de pedido médico, e não dos pais. A ordem médica é: ele 
só pode ser internado se tentar contra a vida dele ou de outra pessoa. Por isso, foi 
internado quando tentou o suicídio e se cortou. 
Como no dia 20 de dezembro ele havia se cortado (tentado contra a vida), 
ele mesmo já estava ciente que seria internado, e ele mesmo fez a mala, para caso 
realmente fosse. 
* * * * * 
Mikhael sempre foi de escrever, ele sempre teve diários. O diário que 
apresentamos a vocês foi o que ele produziu na clínica até os últimos dias. E 
todas às vezes que ele produzia textos no diário, informávamos a terapeuta sobre o 
conteúdo. 
Este trecho abaixo, foi retirado do diário anterior à clínica. Fomos ao 
shopping, vimos um filme, e foi um dia muito bom. Ele estava reclamando da sua 
aparência, estava com muitas espinhas, devido à adolescência. Incentivei-o a 
entrar na loja de cosméticos e escolher algo que pudesse acalmar a pele, tratar e 
cobrir um pouco, para ele se sentir melhor. E ele se sentiu confiante, orgulhoso de 
si mesmo, pois pode escolher sozinho sem a minha presença. 
Como era bom ver ele animado! Sempre fazíamos estes passeios só nós 
dois. Meu melhor amigo. 
28/03/2018 – 17h31 
Vocês podem se perguntar, e por que não o internaram novamente? 
 150 
Eu não poderia estar mais feliz agora, o filme foi impressionante, “A vida é 
uma festa”, e depois que terminou nós fomos na Sephora comprar alguma coisa 
para cobrir a minha pele com acne. Quando eu terminei de escolher percebi que 
não tinha dinheiro para comprar o que eu queria, então meu PAI simplesmente 
pagou tudo para mim. 
Eu não estou emotivo porque ele comprou estas coisas para mim, eu estou 
emotivo, pois ele está sendo o melhor pai de todos. Vendo ele aparecer na loja e 
comprando as coisas para MIM, me emocionou. 
Também o filme foi muito legal, não foi o melhor filme de todos, mas eu já 
estava esperando por isso. No final a experiência valeu a pena! 
 
* * * * * 
“O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei. 
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos”. 
João 15:12,13 
Jesus não tinha túmulo, mas foi cedido a Ele. Assim como Deus, em Sua 
Graça, nos permitiu ter um local para enterrá-lo com dignidade. 
 151 
Depressão é uma doença grave. A doença do século. O número de suicidas 
é alarmante, a cada 40 segundos alguém tira sua própria vida em algum lugar do 
mundo. 
Não se fala muito disso, pois acham que isso pode influenciar mais pessoas 
a fazerem o mesmo. 
E este silêncio só tem piorado as coisas... 
 
Queremos romper este silêncio. 
Há tratamento e controle. 
Em alguns casos, até há cura. 
Mas, depressão não é “frescura”. 
Depressão não é “demônio” 
Depressão não é “preguiça”. 
É uma enorme dor na alma. 
Dor que muitos, por ignorância, não entendem e, pior, depreciam quem já 
está deprimido. 
Depressão, borderline, bipolaridade, esquizofrenia, transtorno de personalidade, 
etc. São doenças conhecidas, estudadas e catalogadas. Têm CID (Classificação 
Internacional de Doenças). 
 152 
Só quem perdeu um filho ou filha sabe o 
que digo. 
Não existem próteses para amputação da 
alma. 
Mas, Deus nos reconforta, através das 
orações dos justos. Existe um propósito para tudo; 
encontre-o. 
Encontramos um dos propósitos, um ato imensurável de amor a nós e o 
desejo desesperado de se livrar da dor dele. 
O legado que ele deixou, expresso nas linhas de seu diário farão muitos 
entenderem a dimensão desta doença. 
Pais e mães, se notarem algum destes sinais em seus filhos, procure ajuda 
médica: 
 Conflitos com sua sexualidade (pode ser natural e normal, mas se vier agregado 
a outros sintomas, pode haver algo por trás); 
 Rendimento escolar cai; 
 Deixar de cuidar de sua higiene pessoal; 
 Passar muito tempo no quarto; 
 Crises de choro; 
 Fazer planos para o dia seguinte, mas na hora, não consegue sair da cama; 
 Passam a comer mal – ou nem comer; 
 Não conseguem terminar algo que iniciaram; 
 Mudança abrupta de humor; 
 Medo de ser abandonado(a); 
 153 
 Auto mutilação; 
 Entre outras. 
 
Pode ser por herança genética ou um trauma na primeira infância. 
Não há ainda nenhum dado conclusivo a respeito – mas, sabemos que o 
apoio medicamentoso estabiliza os sintomas. Além de terapia – onde pode drenar 
o abcesso em sua alma. 
Costuma-se manifestar na primeira infância, início da adolescência ou 
início da fase adulta – 21 à 30 anos. 
Só quem vive pode ter uma centelha do que é 
esta dor... 
Não há parâmetros para comparação. 
Cada dor é sentida e vivida de forma 
diferente. 
Dor tal que ele não suportou... 
Não é demônio – é um desbalanço neuroquímico... 
 154 
E acabou com sua vida no dia 22 dezembro de 2018. 
 
A alma grita, mas o corpo fica paralisado! 
Queremos pode contribuir um pouco com pais que perderam seus filhos e 
filhas, quer seja por suicídio, quer por acidente. 
Como consolar? 
Como responder as inúmeras questões que nos passam pela mente? 
Os relatos que tenho recebido me emocionam... pois conhecemos parte 
desta dor... 
Muitas pessoas compartilharam suas experiências. Já que, falar disso em 
alguns sistemas religiosos é um verdadeiro tabu. 
O que, infelizmente, tem corroborado inclusive para tantos suicídios de 
Pastores e Pastoras. 
Não foi falta de fé deles, mas falta de amor nosso, muitas vezes. 
Anelamos poder contribuir com milhares de jovens que passam por este vale. 
 
Trazendo a eles, esperança e dizer que conhecemos em parte sua dor. 
 
E também para dizer que há uma saída. 
 
Lute pela vida, não desista! 
 
Existe tratamento que o trará a uma vida normal novamente. 
 
Peça ajuda!!!! 
 155 
 
Caso 1: 
“Sou grata a Deus pela sua vida, os seus vídeos e suas palavras têm me 
ajudado muito. Perdi meu filho também por suicídio, ele foi diagnosticado com 
transtorno bipolar, durante muito tempo lutei com ele, medicamentos e terapia, 
mas sempre ele largava o tratamento. 
Sempre foi um filho amoroso, trabalhador, honesto, fazia faculdade de 
direito, passou em um concurso público aos dezoito anos . 
Mas, dia 25 de setembro de 2017, aos 22 anos ele preferiu ir embora, 
cometeu suicídio com tiro na cabeça. 
E assistindo seu vídeo pude compreender o quanto meu filho me amava, e 
queria me poupar por me amar tanto, e queria se livrar da dor tamanha que ele 
sentia, cometendo esse ato. 
A dor é grande demais, a saudade a cada dia é maior. Mas Deus nós ampara 
e guia, nos mostrando pessoas como vocês que passaram pela mesma dor. E 
vivemos com pessoas que ainda apontam o dedo e dizem: "você sabe que seu 
filho foi pro inferno né?". 
Quem somos nós pra julgar, sei que um dia ainda vou rever meu filho, 
como vocêsvão rever o seu. Graça e paz , e que Deus abençoe sua vida e da sua 
família”. M.P 
* * * * * 
Relatos de perdas 
 156 
Caso 2: 
“Meus sinceros sentimentos ao senhor e sua esposa. É uma dor 
insuportável, pois posso muito bem entender. 
Meu amado e único filho também se suicidou, no fim de setembro de 2018, 
com 16 anos. Não há palavras que confortem neste momento. Eu como mãe não 
aguento a dor e está muito difícil pra aceitar tudo isso, pois perder um filho é 
muito triste. 
Obrigado Pastor Daniel, mesmo nesta situação dolorosa, por fazer este 
vídeo tão emocional. Desejo ao senhor e toda sua família muita força de Deus e 
Jesus. Sem Eles eu também já não estaria mais neste mundo, pois a dor que sinto 
pela perda do meu filho é insuportável. Que Deus nos fortaleça e todas as pessoas 
que também já tiveram que passar por isso ou estão passando”. A.A 
* * * * * 
Caso 3: 
“Sou também uma mãe enlutada pelo suicídio da minha única filha M. 
Recebam o meu abraço, o nosso luto é o mais dolorido, por mais que tenhamos 
lutado, perdermos essa guerra pela depressão, essa dor da alma. Sei que no fundo 
eles queriam estar aqui com a gente , mas o sofrimento deles os venceu. Deus no 
controle sempre”. C.M 
* * * * * 
 
 
 157 
 
Caso 1: 
“Não sei exatamente quando aquelas trevas começaram, mas foi devagar... 
até que um dia me dei conta que estava acorrentada, no meio do inferno. 
É uma tarefa hercúlea explicar em palavras o que você sente, e o que você 
vê quando tem depressão. Eu me sentia um cadáver ambulante, algo dentro de 
mim corroía e queimava como fogo, e eu a chamava de a Dor. Não sei de onde 
veio. Quando saía da escola atravessava a rua devagar, porque torcia ser 
atropelada por um ônibus. De carro, não usava cinto, porque queria morrer em um 
acidente. Comecei assim, mas depois de um tempo ficou pior. 
Gostava de brincar com facas e fogo na esperança de me machucar. 
Comecei a cortar os pulsos e no banho dava tapas no meu próprio rosto e 
em todo o corpo. A dor interna me fazia criar dor física, no intuito de a fazer 
acabar. Nunca funcionou. Ao longo do tempo acentuou-se meu transtorno de 
ansiedade e desenvolvi transtorno do pânico e fobia social. 
Tive episódios de despersonalização e quase pulei do último andar do 
prédio da faculdade... e várias vezes precisei ser levada para o hospital. Mas sabe, 
comecei um tratamento psiquiátrico. 
Fiz terapia. Comecei exercício físico. Mas todas as mudanças que 
ocorreram foram mínimas comparadas com a minha própria decisão de me 
permitir, de dar uma chance a mim mesma. 
Relatos de Recuperação 
 158 
Como diz o ditado, “se você estiver atravessando um inferno, não pare de 
andar” e é isso que eu diria para as pessoas. 
É difícil, mas você aprende a parar de ser um carrasco consigo mesmo, 
você aprende a valorizar cada passo seu, você aprende a se apaixonar pela 
existência e você aprende a treinar sua mente para ser sua aliada, e não sua 
inimiga. Nunca deixei de ser humana, alguns dias são mais difíceis que outros, a 
gente cai, chora... mas hoje, apesar de tudo, tenho paz. Hoje sou feliz.” A.S 
* * * * * 
Caso 2: 
“Prezada Eu Recuperada, 
Se você está lendo isto é porque nós fizemos essa recuperação acontecer. 
Eu quis que fosse você escrevendo esta carta para mim para me dar a certeza de 
que farei isso - e alguns conselhos, se você puder. Eu acho que eu não tenho que 
lhe dizer como é difícil, mas vou recuperá-la de qualquer maneira. 
Tenho dias em que é muito difícil manter minha mente longe da dor. Eu 
penso em voltar para os velhos hábitos, que nos ferem tanto. Eu tento me projetar 
em você, mas você recuperada parece ainda algo muito obscuro e quase 
inacessível. Eu imagino que você está lendo esta carta agora e pensa quão tola eu 
sou (não ria, lembre-se que eu sou você); e isso é bom, porque você vai dizer que 
eu estava errada e não havia necessidade de me torturar todas as noites com os 
meus pensamentos. 
Estou tentando imaginar como você (eu) estará no futuro.... Você ainda tem 
as cicatrizes? Será que elas fazem você triste ou te tornaram mais forte? Você está 
finalmente feliz ou você desistiu da vida? Eu tenho um monte de perguntas. 
 159 
De verdade, eu penso em você, no futuro, como uma pessoa forte, agora que você 
está recuperada e atravessou esse inferno de emoções e pensamentos negativos, de 
medos e dores. Realmente, não importa se você tem as cicatrizes; elas vão ser 
como medalhas no peito de um soldado. Eu quero e preciso acreditar que você 
conquistou a batalha que você foi e é capaz de fazer coisas incríveis em sua vida; 
porque não há nenhuma batalha mais difícil que eu tenha conhecido do que esta 
de lutar contra uma doença invisível que mata lentamente. Eu só quero pedir-lhe 
mais uma coisa. Nunca esqueça a dor que eu estou sentindo agora. Não se debruce 
mais nela, mas mantenha o seu coração sensível à dor dos outros. Eu quero que 
você deixe vestígios de esperança por onde você for – esperança de que podemos 
iluminar essa escuridão que estamos a atravessar. Quero olhar para você e 
conhecê-la um dia, não tão longe no futuro, e ter orgulho de você, não só porque 
você fez isso, mas porque você ajudou outros também. E o mais importante, eu 
quero que sejamos a mesma pessoa: recuperada, compreensiva e mais forte do que 
nunca”. Obrigada” A. F 
* * * * * 
Caso 3: 
“E muito triste isso... Faz 4 anos quando tentei o suicídio... porém sou 
julgada até hoje por muitos "cristãos", sei que todos os nossos atos tens suas 
consequências... 
Tenho total consciência disso e não me vitimizo por isso...porém vejo que a 
"igreja" não sabe o que é perdão e o amor, está sempre pronta a julgar e a 
condenar. Enrustida de preconceitos e ódio... triste isso. 
Mas é o que estamos vivendo nestes últimos dias...” M.M 
 160 
 
 “Meu amado neto dizer-lhe adeus foi o 
momento mais terrível da minha vida, jamais 
esquecerei suas palavras – “Vovó eu amo você”. 
Sua memória viverá sempre através do meu 
amor e das minhas eternas saudades ... 
De sua avó que continuará te amando para sempre ...” 
Regina (avó) 
* * * * * 
“Meu querido sobrinho 
Quero deixar registrado o quanto foi importante na minha vida, sempre 
sendo uma pessoa do bem e muito carinhoso com todos, não tinha interesse nas 
suas amizades, era uma pessoa autêntica, verdadeira, dizia o que pensava e não 
ligava para o que os outros iriam dizer a seu respeito, inclusive, tinha se tornado 
vegano, por causa do amor que tinha pelos animais, preferia adoção à compra, sua 
personalidade era ímpar. 
Saiba que seu nascimento foi a melhor coisa que aconteceu em nossa 
família, desde pequeno já demonstrava sua imensa felicidade em nos ver, vinha 
correndo quando nos via chegando e dava aquele abraço tão gostoso, pura 
demonstração de um amor sem falsidades. Queria ter proporcionado a você 
muitos outros momentos felizes, como aqueles em que fomos juntos ao Ibirapuera 
Palavras de quem conheceu o Mikhael 
 161 
andar de skate, nossa caminhada na feira de artes, de Embu das Artes, como era 
bom estar ao seu lado... 
Meu sobrinho se foi, e a dor que sinto é muito grande, não consigo acreditar 
que isso é real, sei que agora está lá em cima ao lado de Deus, olhando por nós. 
Dói muito saber que nunca mais poderei ver seu sorriso ou sentir seu abraço. Que 
a força e a fé estejam ao meu lado para superar este momento de tristeza. 
Descanse em paz, meu sobrinho, e saiba que você jamais será esquecido, será 
eternamente recordado como um ser bom e maravilhoso. Tínhamos combinado de 
fazer uma viagem assim que estivesse melhor, mas por infelicidade do destino não 
foi possível. Sei que estava passando por momentos difíceis na sua vida, mas 
acreditava que iria suportar e sair, voltando a viver uma vida normal, com 
liberdade e sem preconceitos. Fique em paz. “ 
Laercio (tio) 
* * * * * 
“A vida é mesmo tão frágil... 
No último encontroque tivemos, demos risadas, falamos sobre seus planos 
para 2019, senti uma esperança de que você estava se recuperando, na despedida 
me falou: “precisamos nos ver mais”, e me deu aquele abraço apertado, tão sua 
marca, sempre foi assim; desde pequeninho. 
Infelizmente, não vamos nos ver mais para fazermos aquela viagem de 
aventuras, trilhas e cachoeiras, que combinamos tanto. 
Como adoraria poder voltar o relógio e ter mais um encontro, teria tanta 
coisa pra lhe falar! 
 162 
Você era tão gentil, amoroso, inteligente e muito corajoso! Infelizmente, foi 
essa coragem que levou você a interromper sua vida de forma trágica e cedo 
demais... 
Se a vida é mesmo tão frágil, você nos seus quinze anos, nos ensinou que o 
amor verdadeiro está nos gestos simples, nunca pedia nada, mas sempre oferecia 
um sorriso e um abraço tão verdadeiro. 
Mikhael, a saudade é imensa, do tamanho do amor que sempre terei por 
você... 
Que os anjos estejam ao seu lado, te oferecendo a paz, que você tanto 
buscou nesta vida ...” 
Adriana (tia) 
* * * * * 
"Uma luz se apaga para iluminar o caminho de muitos que aqui ficam. 
Agora, nas mãos de Deus, fico muito tranquilo em saber que sua jornada 
será de muita paz. 
Te amarei eternamente..." 
Maurício (tio) 
* * * * * 
 
 
 163 
“Querido Mikhael 
Quando me casei com o seu tio, automaticamente me tornei sua tia e, com 
essa pequena palavra, o ônus do amor incondicional. 
Quando te conheci, ah... como foi fácil te amar! Foi amor à primeira vista!! 
Você tinha um jeito tão cativante, inteligente, bondoso e irônico, que a sua 
companhia era um deleite para o coração e a alma. 
Lembro de você com carinho todos os dias e agradeço pelos momentos tão 
maravilhosos e únicos que tive o prazer de vivenciar ao seu lado. O céu ganhou 
um anjo. 
Te amo meu primeiro sobrinho, Mikha! Sentirei muito a sua falta! Você era 
único!” 
Nani (tia) 
* * * * * 
“Mikhael, menino lindo, que foi ao encontro de Deus cedo demais. 
Desde esse triste dia, eu rezo a Deus, para que você esteja em um lugar de 
paz. 
Sua memória jamais será esquecida”. 
Alda (tia) 
* * * * * 
 
 164 
Mikhael, o sorriso dos seus olhos está gravado no meu coração para 
sempre.” 
Simone (prima) 
* * * * * 
“Inicialmente, era um aluno que precisava saber um pouco mais de 
matemática, mas como as relações da vida não têm a mesma exatidão dos 
números, ao longo do tempo, somamos e multiplicamos respeito, admiração com 
muitas trocas... enquanto eu ensinava matemática ele dividia comigo seu 
conhecimento em inglês, numa expressão de pura solidariedade com a professora 
que tinha o que aprender. Esse curto convívio me permitiu conhecer um jovem 
alegre, educado, sensível e com muito interesse, subtraindo da minha vida 
momentos de dor e tristeza e espero que eu tenha contribuído com ele nisso 
também. 
Essa partida deixou um profundo ensinamento sobre Mikhael, um jovem 
que amava e respeitava seus pais, que lutava com muita coragem e sensibilidade 
para sobreviver diante das controvérsias da vida e que primava pela felicidade de 
todos. 
Em nós fica a saudade, a doce lembrança de um convívio alegre e, ao 
mesmo tempo, imprime uma marca, com a mesma clareza e lógica matemática, 
quanto à necessidade de, em conjunto, reconhecermos o protagonismo dos jovens 
na complexa construção de um mundo melhor. 
Muitas saudades” 
Angela (Professora de Matemática) 
 165 
* * * * * 
“Mikhael, chegou de uma forma inesperada, carinhoso e de uma 
sensibilidade linda, tive a honra de conhecê-lo quando ainda criança, muito 
atencioso comigo, brincamos muito, um dia fui até sua casa e fez questão de 
mostrar seus brinquedos preferidos, como imaginar que um dia isso tudo 
acabaria? 
Uma vez olhou para mim e me apelidou de Pokémon, não conheço os 
personagens, mas ele disse que eu era o bichinho do desenho, o que era mais 
carente rsrsrs ... rimos muito, pois sou mesmo rsrsrs, e desde então ficou esse 
apelido pessoal! 
Mikhael, sei que nos encontraremos em breve, não imagino o que você 
tenha sentido, mas a sua luta tem sido a minha diariamente, obrigada por ter me 
permitido fazer parte de um pedacinho da sua história, e olha só, seu pai e sua tia 
estão sempre suprindo minha carência rsrsrs. Sem palavras, você é e foi especial.” 
Débora (amiga) 
* * * * * 
"Eu conheço o Mikhael há mais ou menos oito anos, o conheci na escola, e 
no começo não éramos tão próximos, mas cada vez fomos nos aproximando mais. 
Ele era daquele tipo de amigo que te ajudava sempre, quando eu estava triste ou 
nervosa ele me abraçava e tentava me animar, era muito bom saber que ele estava 
lá para mim, ele se importava comigo. 
A gente sempre saia para conversar, ou só tentar se distrair desse peso que a 
vida é, e ajudava muito, ficávamos conversando sobre tudo, nossos problemas, 
 166 
ouvindo música e rindo de qualquer coisa, mesmo se não tivesse nada para fazer a 
gente estava lá, só aproveitando a companhia um do outro. 
Não tem como explicar, ele me ensinou coisas que eu nunca vou esquecer, 
nós éramos melhores amigos, afinal. Ele conseguia fazer qualquer um ter um dia 
melhor, e está sendo muito difícil acordar sabendo que eu nunca mais vou poder 
ver o sorriso dele ou sentir seu abraço, a saudade dói muito, mas eu só espero que 
ele esteja num lugar melhor e não sinta mais dor." 
D. (amiga) 
* * * * * 
“Começo dizendo que a morte dele foi a perda de uma pessoa engraçada, 
meiga, forte e que fazia meus dias melhores, meu melhor amigo. Nós viramos 
amigos no sexto ano, éramos grudados, como carne e unha. 
Quase todas as sextas saíamos e íamos andar de bicicleta, jogar vídeo game, 
comer pizza e eram os melhores momentos da minha vida, ele era um pontinho de 
luz, energia e alegria, uma pessoa que sabia ouvir, sabia falar, sabia cuidar, amar, 
sonhar e tudo o que você possa imaginar. 
Passamos momentos inesquecíveis juntos. 
A adolescência chegou e com isso seus problemas se manifestaram mais 
intensamente, mas no fundo eu sabia que ele ainda estava lá, como um pontinho 
de luz na escuridão. 
Eu o conhecia, eu o amava e entendia que apesar de todos os problemas 
graves que enfrentava, era cheio de amor, esperançoso, tinha os olhos agitados, o 
toque leve e o abraço apertado. 
 167 
Ele tinha planos para o futuro, ele era como qualquer um de nós, lutava 
pelo que queria. Eu me lembro dele falando o quanto estava animado pra voltar 
pra escola, pra fazer cursos, sempre esperançoso, ansioso, muito forte. 
Fizemos tudo o que podíamos, tudo mesmo, mas infelizmente, o outro lado 
venceu. 
Nunca vou esquecer dele e dos nossos momentos em seu pequeno tempo de 
vida. Ele era luz, carinho, felicidade, esperança. 
Eu desejo força a todos os seus amigos e familiares, obrigada por me 
deixarem experimentar essa mistura tão louca e doce que era o Mikhael, meu 
melhor amigo.” 
L. (amiga) 
* * * * * 
“Me lembro bem quando soube que chegaria um novo aluno na sala, e 
minha mãe me falou para te receber, para que não se sentisse sozinho... 
De repente, viramos melhores amigos, ganhei um amigo bondoso, 
generoso, engraçado, carinhoso e cada minuto com esse amigo era especial e 
cheio de coisas boas, e foi assim durante esse tempo todo. 
Todos os momentos que passamos juntos foram especiais, e sou muito grata 
a Deus por isso, porque sempre terei lindas histórias pra contar, que tive com meu 
verdadeiro melhor amigo... 
Os desenhos do Scooby Doo, nunca mais serão os mesmo sem você!!! 
 168 
Sentirei muita saudade... Te amo pra sempre... “ 
R. (amiga) 
* * * * * 
“Eu não falei nada porque eu não sabia o que falar, o que fazer, o que 
sentir. 
Não dá pra voltar no tempo, não dá pra apoiar mais, conversar mais, mas dá 
pra rezar, dá pra desejar o melhor agora pra você, dá para lembrar das melhores 
partes, das risadas, das conversas, do quanto você foi e é importante. 
Mikha, eu te amo tanto, e eu sei quepoucas pessoas tiveram o privilégio de 
conhecer essa pessoa LINDA que você é por dentro, obrigada por ser UM 
AMIGO INCRÍVEL! 
Nossas brincadeiras são as melhores, e sempre deixou as pessoas que ama 
em primeiro lugar. 
Espalhem amor, luz !!!! Isso muda as pessoas.” 
T. (amiga) 
* * * * * 
“O Mikhael sempre foi um grande amigo meu, ter a amizade dele, era um 
privilégio. 
Era um menino expansivo, extrovertido, sua alegria, sua risada era 
contagiante. 
 169 
Era um menino super inteligente, se expressava de uma maneira 
impressionante. 
Passamos por momentos inesquecíveis, muito felizes, e são apenas essas 
memórias que levo pra sempre no meu coração.” 
M. (amiga) 
* * * * * 
“Conheci a pessoa alegre e sensível, conheci uma pessoa incrível que 
animava todo mundo e sempre aparecia com um sorriso no rosto. 
A primeira vez que encontrei com ele, foi a melhor. Eu não estava muito 
bem no dia, e ele viu, só ele viu. Quando nós estávamos sozinhos ele olhou no 
meu olho e me disse que estava tudo bem, que tudo passa, mesmo não sabendo o 
que tinha acontecido. 
Eu queria ter dito isso a ele. 
Ele foi meu alerta, agora eu senti na pele a realidade, pessoas tem 
problemas e mesmo assim alegram os outros, mesmo assim mostram felicidade, 
sorriem, conversam e dançam. 
Eu não aceitei ainda que ele se foi, ele estava em tudo, presente sempre e 
era tão amado. Eu senti muito, mesmo não sendo próxima, eu nem sei se ele 
lembrava de mim, mas eu sempre lembrei. Queria ter convivido um pouco mais, 
conversado um pouco mais, queria ter ajudado e ter dado um abraço pra ele 
lembrar que nunca esteve sozinho. Mas tudo acaba, e acabou, acabou e ele 
continua aqui. Eu não entendo a dor dele, mas espero que tenha passado e que 
tudo esteja bem.” 
 170 
M.F (colega) 
* * * * * 
“O Mikhael era uma pessoa que sempre transmitia alegria e felicidade para 
mim e acredito que para todos os amigos com quem ele convivia. 
Eu sempre que estava mal ou mais ou menos, ele me animava, me fazia 
sorrir, rir, e me divertir. 
Ele não era de se abrir muito conosco, raramente falava de seus problemas 
comigo, ou com os outros, mas mesmo triste, ele aparecia para a gente com um 
sorriso no rosto, tentando fazer a gente se divertir. 
Para mim, o que deixou mais marcado em minhas memorias, é que o Mikha 
foi meu amigo durante nove anos, e ele sempre me considerou como uma amiga, 
com quem ele podia contar. Mesmo brigando várias e várias vezes, por razoes 
bobas ate, a gente sempre acabava voltando, e se falando, e saindo juntos. 
Eu, particularmente, não tenho um número relativo de amigos com quem 
posso/podia contar para chamar para sair e me divertir. O Mikha era um amigo... 
não, ele era um melhor amigo, que eu sabia que se eu quisesse sair, eu poderia 
contar com ele. 
Não tem como resumir tudo o que o Mikhael foi, mas posso-lhes dizer que 
ele era um menino de ouro, e o céu ganhou uma estrela muito brilhante e linda, 
para nos iluminar nos dias ruins.” 
B. (amiga) 
* * * * * 
 171 
“Que lindo sorriso. Ainda me lembro da primeira vez que conheci o 
Mikhael. Ele veio fazer um teste de nível na escola e sentou na minha frente, 
super confiante. Fiquei surpresa ao ver que ele falava e conversava em Inglês, 
com tanta tranquilidade. Ele estava confortável. Me contava o seu passado, o seu 
futuro. Ele tinha sonhos e desejos, como qualquer menino da sua idade. Mas, 
naquele momento, o que me chamava a atenção, era a facilidade com o Inglês. Era 
um talento que havia nascido com ele. 
Se encantou com a sua própria habilidade. Queria aprender, queria ensinar. 
Passava pelas salas de aulas, e conseguia apenas ver as conversas com 
risadas e sorrisos. Um menino charmoso, muito inteligente. Sempre sentia algo 
diferente nele. 
Ficam as boas lembranças, um doce sorriso. 
Tocou no coração de muitas pessoas, e deixa esperança e força para aqueles 
que sentem a mesma dor, o mesmo sofrimento. 
You will be dearly missed.” 
NK (escola de inglês) 
* * * * * 
“Mikha foi de cara a pessoinha que mais me chamou atenção quando 
cheguei para trabalhar na escola, tão doce, leve, de uma educação ímpar! Sempre 
carinhoso, amável e companheiro. No último ano dele na escola (nono ano), 
lembro-me de um dia o ver super agitado, no intervalo me procurou para pedir 
ajuda de qual flor comprar, para presentear seu Papa, porque era aniversário 
dele... e como o amava! Eternas saudades do meu arco-íris!” 
 172 
Maria (escola) 
* * * * * 
“Mikhael era um anjo, Deus nos presenteou com sua vida em nossas vidas. 
Sempre meigo, desde bebê, fascinado pelo filme Carros e Scooby-Doo. 
Logo que começou a falar, quando via um carro, ele já dizia qual era o modelo e 
marca, era um talento dele, memorização. 
Sempre feliz, alegre e cativante. Esbanjando alegria aonde fosse. E uma 
educação fora do comum: “Prazer em te conhecer”, era o que ele sempre dizia e 
em pouco tempo ele já vinha com algum elogio: “Seu cabelo é lindo” ou “Você é 
muito legal”. Tinha dentro dele uma vivacidade enorme. 
Suas falas sempre com uma pitada de humor, que nos faziam rir, pois como 
podia uma criança fazer isso de forma tão fofa e natural? 
Quando era surpreendido, arregalava bem seus olhos, aí podíamos ver que 
eram castanhos esverdeados, mas quando nasceu era um azul lindo, que mais 
parecia o mar. 
Quando ele entrou na escola, pensávamos que ia chorar, mas não, acenou e 
entrou feliz da vida. Já começou a se interessar pela língua inglesa, voltava feliz 
cantando uma nova música que aprendera. 
Mikhael era das artes, gostava de dançar e de atuar. Fez aulas de dança, 
patinação artística, circo, e teatro, e em uma apresentação de uma peça se 
destacou, com seu jeito engraçado. Foi protagonista e nós babamos. 
 173 
Gostava de nadar e sabia os quatro estilos. Fez algumas 
aulas de judô, mas era da paz, pediu para sair, pois não queria 
machucar ninguém. 
Ele me chamava de Ti, e eu muitas vezes fui sua 
confidente e muitas vezes ele foi meu confidente. Meu 
parceiro. Ríamos muito, não permitia que ele no tempo que 
estivesse ao meu lado, ficasse triste por algum motivo, fazia cócegas nele para 
sempre ver o seu sorriso lindo. 
Meu bebê, meu menino! 
Em tão pouco tempo de vida, eu traria inúmeras histórias dele, pois ele foi e 
é especial, tão especial que o Pai o recolheu. 
Apaixonado por animais, e principalmente pelos seus, se tornou 
vegetariano, não se permitia comer bichinhos. 
Eu me lembro dele com seus cinco anos, me explicando que a água do 
mundo iria acabar se não tomássemos cuidado. Ele com seu jeito sério de falar, 
quando acreditava em alguma causa. Era a coisa mais linda! 
Um dia, ele me trouxe um anel azul de plástico, e me pediu em namoro, e 
prontamente aceitei, não podia desperdiçar um bom partido..., e guardo até hoje 
este anel, pois sei que foi um ato de amor, assim como todas as cartinhas e 
desenhos. 
Tinha inúmeros amigos, muitos, muitos .... 
 174 
Falava com todos, e amava a todos. Não via maldade nas pessoas, e por 
isso, às vezes sofria quando alguém fazia ou falava algo que não ia de encontro a 
sua índole. 
Achava que o mundo era bom, que todos eram bons, e sempre tinha uma 
explicação para o que acontecia... era um defensor. 
Na escola tinha pavor das aulas de matemática e geometria, me falava: 
“Não vou precisar disso Ti, vou ser fotógrafo”, aí enquanto ele crescia, ele 
mudava as profissões: “vou viajar pela bola azul” (ser mochileiro), “vou ser 
professor de inglês”, “quero ter uma escola de inglês”. 
Tudo o que o Mikhael quis, ou pensava, apoiávamos, não tínhamos 
barreiras, só queríamos ele feliz, independente de qualquer coisa. Sempre 
dizíamos: “você pode ser quem quiser”. 
O brilho dele foi se apagando com a doença, como uma estrela, mas no meu 
coração ele brilhará para sempre. 
E todos os dias em que ele me perguntava, “quanto você me ama Ti?”, eu 
sempre respondia “meu amor é infinito, te amareieternamente, meu lindo”. 
E honrarei minha palavra: “Te amarei para sempre, minha vida”. 
Saudades eternas, está doendo muito, mas com a certeza de que você está 
bem e feliz ao lado do Pai.” 
Sua Ti /Luciana (prima/tia/mãe) 
* * * * * 
 175 
Para você que passa por isso saiba: você não está sozinho nesta luta! 
É necessário viver o luto... Alguns preferem o isolamento, como nosso 
caso. Outros preferem estar cercados de amigos ou familiares... Há que opte por 
fazer uma viagem. 
Queremos dar um panorama clínico desta doença do século. 
O que é depressão? 
“A depressão é um transtorno mental caracterizado por tristeza persistente e 
pela perda de interesse em atividades que, normalmente, são prazerosas, 
acompanhadas da incapacidade de realizar atividades diárias, durante pelo menos 
duas semanas. 
Além disso, pessoas com depressão, normalmente, apresentam vários dos 
seguintes sintomas: perda de energia, mudanças no apetite, aumento ou redução 
do sono, ansiedade, perda de concentração, indecisão, inquietude, sensação de que 
não valem nada, culpa ou desesperança e pensamentos de suicídio ou de causar 
danos a si mesmas. 
A depressão pode afetar qualquer pessoa. 
Não é um sinal de fraqueza. 
É um transtorno tratável por meio de psicoterapia, medicamentos 
antidepressivos ou uma combinação de ambos.1” 
 
1https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5372:depr
essao-o-que-voce-precisa-saber&Itemid=822 
 176 
 
2 
 
 
 
 
 
Padre Fábio de Melo sempre foi muito claro sobre a sua luta contra a 
depressão e síndrome do pânico. 
“Há um ano eu enfrentei crise de pânico e quadro depressivo. Foi o pior 
momento da minha vida. Aprendi muito com tudo o que vivi. Tristeza não é 
doença, mas, quando se estende no tempo, pode ser. É preciso estar atento à 
duração dela em nós. Há muita ignorância no trato com pessoas depressivas. É 
comum escutar que é frescura, exagero, falta do que fazer, quando de fato se trata 
de um quadro depressivo. Só quem sofre sabe!”, disse Fábio de Melo. “Achei 
importante compartilhar”, finalizou no Instagram3. 
“O jornalista Ricardo Boechat revelou em 2015, que sofreu com a 
depressão. Ele foi diagnosticado com a doença após sofrer um colapso minutos 
antes de entrar no ar. O médico revelou ao apresentador que ele apresentava 
sintomas do surto depressivo. "Quem cai em um quadro desses perde qualquer 
 
2 https://www.minhavida.com.br/saude/temas/depressao 
3 https://vejasp.abril.com.br/blog/pop/padre-fabio-de-melo-depressao/ 
 177 
condição de ficar ativo, de pensar as coisas mais simples. É como se a pessoa 
morresse ficando viva", desabafou por meio de relato na BandNews Fm”.4 
Filmes que tratam do tema ou que mostram personagens com 
características depressivas: 
 As horas (2001) 
 The Babadook (2014) 
 Melancolia (2011) 
 As virgens suicidas (1999) 
 As horas (2002) 
 As Faces de Helen (2009) 
 Ela (2013) 
 As vantagens de ser invisível (2012) 
 A felicidade não se compra (1946) 
 Beleza Americana (1999) 
 A liberdade é azul (1993) 
* * * * * 
O que é síndrome de borderline? 
Borderline é uma perturbação da personalidade, na qual predominam 
comportamentos impulsivos, autodestrutivos, sentimentos de vazio interno e 
mecanismo de defesa do ego muito primitivos. 
Consiste em um transtorno fronteiriço (borderline = fronteira, em inglês) 
com descargas afetivas impulsivas, na irregularidade e contradição nas relações 
 
4 https://www.minhavida.com.br/bem-estar/materias/33686-6-famosos-que-ja-tiveram-
depressao-e-contaram-como-e 
 178 
afetivas, na insegurança a respeito da própria identidade, nas disforias e, 
ocasionalmente, nas ideações delirantes, apesar de faltar a confusão 
esquizofrênica. 
Avassaladores sentimentos imaginários de abandono e terrível 
desmoronamento do ego, desintegração da identidade e da autoimagem. São 
impulsivos, mantêm suas relações interpessoais como um elástico que se tensiona 
ao máximo, as suas emoções e humor são fios desencapados em curto-circuito. 
Sentem-se esburacados e autolesionam a pele para aplacar a dor da alma, sempre 
encharcados pela sensação, quase nunca real, de perda de pessoas que lhes são 
queridas. Assim, viveu o inferno psíquico, de Amy Winehouse e muitos outros no 
mundo. 
They tried to make me go to rehab/ But I said no, no, no (Eles tentaram me 
fazer ir para a reabilitação/Mas eu disse não, não, não), a inglesa Amy 
Winehouse, cantora de Soul que teve o auge de sua carreira com o lançamento do 
álbum Back to Black em 2006, com a música Rehab, resume com precisão a 
autodestruição que Amy procurou através do não tratamento, bebidas e drogas. Os 
transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substância psicoativa, 
foi algo visível, concreto e palpável na vida de Amy, e de seu Transtorno de 
Personalidade Borderline, o que tornou uma de suas marcantes características. 
Esse transtorno de personalidade pode ser causado por: 
Predisposição genética, ou seja, se uma pessoa da família tem esse 
transtorno, existe a probabilidade de um parente próximo desenvolver esse 
distúrbio. 
 179 
Experiências traumáticas na infância ou em outra fase da existência, podem 
desencadear essa síndrome, dependendo da sensibilidade e predisposição mental e 
emocional da pessoa. 
Separações bruscas de entes queridos, seja por rompimento afetivo ou 
morte, que causaram muita dor e sofrimento para a pessoa. 
Bullying ou abuso psicológico ou sexual, em algum momento da existência 
do indivíduo. 
Vivência de situações de terror e pânico, que deixaram marcas emocionais 
muito fortes e profundas. 
Problemas neurológicos como uma disfunção cerebral em partes do cérebro 
que estão relacionadas com as emoções, podem causar o surgimento desse 
transtorno. 
Algumas características de pessoas com a Síndrome de borderline 
(lembrando que essas características por muitas vezes estão associadas, não se 
apresentam de maneira solitária): 
 Hiperatividade emocional; 
 Emoções dúbias e conflitantes; 
 Instabilidade afetiva; 
 Humor e equilíbrio emocional em constante oscilação; 
 Ira intensa e inapropriada; 
 Agitação física; 
 Sentimento de vazio ou tédio; 
 Sentimento de ódio, ira e vergonha em relação a si mesmo; 
 Incapacidade de manter os pensamentos estáveis; 
 180 
 Dificuldade de aprender com as experiências passadas; 
 Autoimagem instável e com características extremas; 
 Sentimentos crônicos de vazio; 
 Pensamentos antecipados de abandono; 
 Temor excessivo de sofrer rejeição; 
 Seus objetivos e valores acompanham suas instabilidades emocionais e 
afetivas; 
 Não suportam ficar sozinhos; 
 Dificuldade de concentração; 
 Seus pensamentos tendem a seguir um padrão rígido, inflexível e 
impulsivo; 
 Pensamentos envoltos em auto reprovações e autocríticas; 
 Baixa tolerância a frustração; 
 Ideias paranoides transitórias; despersonalização, perda de senso de 
realidade ou sintomas dissociativos; 
 Aborrecimentos frequentes; 
 Necessidade de controle externo; 
 Padrões de aparência oscilante; 
 Nível de energia física incomuns, que se manifestam em explosões 
inesperadas de impulsividade; 
 Brigas e conflitos frequentes; 
 Comportamento recorrente de automutilação ou tentativa de suicídio; 
 Relações interpessoais intensas e caóticas; 
 Dependência excessiva dos outros; 
 Boa adaptação social superficial; 
 Tendência a fazer passeios solitários para tentar refletir sem influência ao 
redor; 
 Comportamentos frequentes para proteger-se de possíveis separações 
afetivas; 
 181 
 Chantagens emocionais constantes e atos de irresponsabilidade; 
 Comportamento paradoxal em suas relações interpessoais; 
 Frequente comparação a outros, com uma visão autodepreciativa; Dificuldade em expressar suas necessidades e sentimentos; 
 Distúrbios alimentares (anorexia e/ou bulimia); 
 Distúrbios sexuais e dificuldade de enquadramento com o seu gênero 
devido ao distúrbios de personalidade; 
 Facilidade em serem influenciados e manipulados, assim como tendência a 
manipular as pessoas ao seu redor para ter controle externo das situações; 
 Estilo de se vestir variável e instável. 
Tratamento: 
O tratamento é feito majoritariamente através de psicoterapia, podendo ser 
associada a medicamentos estabilizadores de humor, antidepressivos e 
antipsicóticos. Outro método para tratar é o internamento em clínica psiquiátrica 
quando o paciente está passando por muito estresse e seus impulsos 
autodestrutivos e suicidas estão mais acentuados. 
Devido aos problemas com autoimagem e impulsividade, diversas áreas da 
vida de um borderline podem ser afetadas. As complicações podem aparecer na 
carreira, relacionamentos, educação, entre outros. 
Algumas das possíveis complicações são: 
 Mudanças de emprego ou demissões frequentes; 
 Largar a faculdade, nunca se graduar; 
 Problemas com a lei, incluindo possibilidade de prisão; 
 Relacionamentos conflituosos, divórcio; 
 Automutilação e internações frequentes; 
 182 
 Envolvimento em relacionamentos abusivos; 
 Gravidez não planejada; 
 Infecções e doenças sexualmente transmissíveis; 
 Acidentes automobilísticos; 
 Lutas físicas; 
 Overdose de medicamentos; 
 Tentativas de suicídio.; 
 Dependência química e/ou alcoólica. 
Automutilação: 
As mutilações não ficam aparentes, geralmente a pessoa esconde estes 
ferimentos usando roupas de manga comprida e calças mesmo no calor. Evitam 
usar roupa de banho, mesmo que em clubes, praias ou piscina. 
Cortes, queimaduras, furos são indícios de dor emocional intensa. 
Verificamos uma série de comunidades virtuais que incentivam este 
autoextermínio, e orientam como esconder dos pais e amigos. 
"Comecei com 11 anos. Era uma forma de expressar a vergonha que 
tinha de mim mesma em meu corpo. Era como colocar para fora o jeito com que 
me sentia. Eram tantos sentimentos conflitantes. A única maneira de 
conseguir aliviar minhas dores na hora era de machucar a mim mesma", disse a 
cantora e atriz Demi Lovato. 
Depois deste relato, muitos jovens conseguiram falar com seus pais sobre o 
assunto, pois tiveram na cantora uma espécie de espelho, Demi Lovato foi 
internada algumas vezes, para tratar os distúrbios alimentares, as automutilações, 
e os pensamentos suicidas. 
 183 
Shirley Manson, vocalista do Garbage, falou sobre a época em que teve 
depressão, no início da vida adulta, por meio de um artigo publicado no New York 
Times. 
“Eu tive um inimigo. Eu tinha uma faca. E o futuro era nosso. O problema, 
é claro, de qualquer prática de autoflagelação é que, uma vez que você escolha se 
entregar a ela, fica melhor, mais eficiente. Eu comecei a me machucar mais 
regularmente. Os cortes foram mais profundos. Eu escondi as cicatrizes sob 
minhas meias e nunca dei uma palavra sobre isso para ninguém. Eu comecei a 
namorar uma pessoa amorosa e respeitosa que também passou a ser um incrível 
comunicador. O corte parou abruptamente. Eu estava sofrendo de extrema 
“síndrome do impostor”, constantemente me medindo contra os meus colegas, 
sinceramente acreditando que eles tinham feito tudo certo e eu tinha conseguido 
tudo muito errado. A angústia mental que eu estava infligindo a mim mesmo era 
extrema e me tirou da cabeça. Em momentos histéricos e extremos, achei que, se 
conseguisse colocar minhas mãos em uma pequena faca, isso traria algum alívio e 
eu seria capaz de lidar com o estresse. Hoje tento permanecer vigilante contra 
esses velhos padrões de pensamento”. 
 
Genética: 
Pais e responsáveis: converse com o seu filho (a), tente entender o que ele está 
pensando, o que está sentindo, o que está angustiando. Muitos relatam alívio ao 
fazer isso com o seu próprio corpo, mas isso é um sinal de ALERTA. Procure 
ajuda psiquiátrica. E guarde objetos pontiagudos. 
 184 
A Síndrome de Borderline é cerca de cinco vezes mais provável de ocorrer 
se uma pessoa tiver um familiar próximo (parentes biológicos de primeiro grau) 
com o transtorno. 
Famosos diagnosticados com Síndrome de Borderline: 
Entre os casos mais conhecidos está Amy Winehouse, Lady Di, Britney 
Spears, Angelina Jolie, Hugh Laurie (o famoso Dr. House), Jim Carrey 
(diagnosticado Bipolar com Transtorno Borderline), Woody Allen, Brandon 
Marshall, Kurt Cobain, Winona Rider e Christina Ricci (a garotinha da família 
Adams). 
Filmes que tratam do tema ou que mostram personagens com 
características borderline: 
 Allure (2017) 
 Borderline (2008) 
 Geração Prozac (Prozac Nation, 2001) 
 Sete dias com Marilyn (My Week with Marilyn, 2011) 
 Garota Interrompida (Girl, Interrupted, 1999) 
 Gia – Fama e Destruição (Gia, 1998) 
 Atração Fatal (Fatal Atraction, 1987) 
 Mulher Solteira Procura (Single White Female, 1992) 
 Monster – Desejo Assassino (Monster, 2003) 
 Margot e o Casamento (Margot at the Wedding, 2007) 
 Bem-vindos ao meu mundo (Welcome to Me, 2014) 
 Betty Blue (37°2 le matin, 1986) 
 Jovens Adultos (Young Adult, 2011) 
 Sybil (2007) 
 185 
* * * * * 
Suicídio: 
“A cada 40 segundos, alguém no mundo interrompe a própria vida. 
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS – março de 2018), o número de 
óbitos autoprovocados é significativamente maior que aqueles causados por 
homicídio: 800 mil por ano, contra 470 mil. Na faixa etária entre 15 e 29 anos, o 
suicídio já é a segunda causa morte por atos violentos no mundo. Só não mata 
mais que o acidentes de trânsito. 
Uma revisão de casos conduzida pela OMS com dados de 15.629 suicídios 
ilustra bem essa situação: 35,8% das vítimas tinham transtorno de humor; 22,4% 
eram dependentes químicas; 10,6% tinham esquizofrenia; 11,6%, transtorno de 
personalidade; 6,1%, transtorno de ansiedade; 1%, transtorno mental orgânico 
(disfunção cerebral permanente ou temporária que tem múltiplas causas não 
psiquiátricas, incluindo concussões, coágulos e lesões); 3,6%, transtorno de 
ajustamento (depressão/ansiedade deflagradas por mudanças ou traumas); 0,3%, 
outros distúrbios psicóticos, e 5,1%, outros diagnósticos psiquiátricos. Os 3,1% 
restantes não significam ausência de doença mental, mas a falta de um diagnóstico 
adequado. 
O Brasil não tem um plano nacional de prevenção de suicídio, documento 
previsto apenas para 2020, quando o país deverá comprovar redução de 10% na 
taxa de suicídio, conforme compromisso firmado com a OMS. O primeiro boletim 
epidemiológico sobre o tema, porém, mostra que a realidade brasileira caminha na 
direção contrária. Lançado no ano passado, durante a apresentação da Agenda 
 186 
Estratégica de Prevenção do Suicídio, o levantamento mostra que a taxa em 100 
mil aumentou de 5,3, em 2011, para 5,7, em 2015.”5 
Um levantamento mostra que muitos atos foram cometidos por jogos ou 
desafios na internet, o que mostra que nem sempre o suicídio está associado a uma 
doença mental. 
 
“As ligações de prevenção de 
suicídio feitas para o Centro de Valorização da 
Vida (CVV), por meio do número 188, passaram 
a ser gratuitas para todo o Brasil desde 1º de 
julho de 2018, após assinatura de um convênio 
com o Ministério da Saúde. 
O CVV é uma associação civil sem fins 
lucrativos que trabalha com prevenção ao suicídio, por meio de voluntários que 
dão apoio emocional à todas as pessoas que querem e precisam conversar. Eles 
recebem treinamento adequado e não precisam ter formação em psicologia. Todas 
as ligações são sigilosas.”6 e 7 
 
5 https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-
saude/2018/06/24/interna_ciencia_saude,690529/suicidio-e-responsavel-por-800-mil-
mortes-anuais-e-avanca-pelos-paises.shtml 
6 https://g1.globo.com/bemestar/noticia/2018/09/20/suicidios-aumentam-23-em-1-ano-e-brasil-tem-1-caso-a-cada-46-minutos.ghtml 
7 https://www.cvv.org.br/ 
Pais e responsáveis, acompanhem de perto o que seus filhos assistem na 
internet, não é uma invasão de privacidade e nem desrespeito, é um cuidado 
para eliminar um risco. 
 187 
As pessoas não querem acabar com a sua vida, elas querem acabar com 
suas dores, aplacar a angústia e com o seu vazio. 
A maioria das pessoas ainda alimenta a ideia de que alguém que recorre ao 
suicídio é sempre uma pessoa adulta, que sofre por ter que lidar com graves 
problemas. Esse tipo de pensamento somente serve para aumentar a displicência e 
dificultar a prevenção do suicídio na infância e adolescência. 
De acordo com a psicóloga Maitê Hammoud: “As estatísticas indicam que o 
suicídio é mais frequente entre adolescentes e idosos. Os principais aspectos que 
estão atrelados a este fato são: 8 
 Por serem imediatistas, os adolescentes têm dificuldade de pensar a longo 
prazo, o que serve para intensificar o sofrimento diante de traumas ou conflitos. 
Rapidamente, a intensidade destas emoções pode evoluir para a sensação de 
sentir-se sem opções para lidar com a dor; 
 Por estarem em desenvolvimento, é característico da idade se identificar e 
se vincular a subgrupos que esboçam suas futuras características de adulto 
envolvendo afinidades e valores em comum. Por este comportamento, todo e 
qualquer grupo fica vulnerável à exclusão e reprovação de outros grupos de sua 
convivência, favorecendo o sentimento de inadequação e exclusão; 
 Outra característica chave do desenvolvimento nesta idade é o repertório 
para identificar e verbalizar suas emoções, algo que ainda está em construção. As 
crianças e adolescentes dificilmente terão repertório e segurança para falar sobre 
seus sentimentos e dificuldades com seus pais ou professores; 
 
8 https://br.mundopsicologos.com/artigos/suicidio-entre-criancas-e-adolescentes-um-
drama-constante 
 188 
 A violência e opressão característica do bullying também tende a despertar 
a projeção de tais sentimentos e ideias de fracasso em sua família, ou seja, 
mesmo que não existam cobranças e reprovações em seu núcleo 
familiar, crianças e adolescentes tendem a fantasiar que em sua família 
exista um sentimento velado de desgosto”. 
* * * * * 
 
* * * * * 
Não posso deixar de citar os mecanismos de auxílio e dar bases bíblicas 
para que possam entender a extensão e profundidade do amor de Deus. 
O famoso ator, vencedor de diversos prêmios em sua brilhante carreira – 
Robin Williams tinha tudo que muitos procuram nas igrejas: 
 Fama 
 Reconhecimento 
 Dinheiro 
 Poder 
Mesmo assim... ele se enforca em sua mansão... 
Fique atento ao que é dito nas entrelinhas, sejam verbal ou não verbal, escute o 
que a pessoa tem a dizer, não menospreze o sentimento do outro, exercite a 
empatia, respeite o tempo do outro ao falar – não interrompa – mostre que tem 
interesse e preste atenção, busque apoio profissional, acolha e se faça presente 
sem julgamentos. Nenhuma dor é comparada a outra, portanto, você não sabe 
quanto o outro esta sofrendo. 
 189 
Portanto, não está ligado a ser rico ou pobre. Esta doença no cérebro, assim 
como temos no coração, no estômago, nos rins. Afeta muita gente! 
Cérebro é um órgão como todos os outros e está sujeito a adoecer. 
(Explicamos isso em mais detalhes em nosso livro – Alerta Geral – 
Cura e Restauração do Corpo”) 
O mesmo se repete em milhares de casos... Desde pessoas conhecidas até os 
anônimos. 
Queremos dar voz a estes que sofrem calados... 
 
Trazer esperança... e conforto. 
Queremos te ajudar... 
Jesus ouviu o mesmo: 
“Os que passavam lançavam lhe insultos, balançando a cabeça e dizendo: 
"Você que destrói o templo e o reedifica em três dias, salve-se! Desça da cruz, se 
é Filho de Deus!" Da mesma forma, os chefes dos sacerdotes, os mestres da lei e 
os líderes religiosos zombavam dele, dizendo: "Salvou os outros, mas não é capaz 
de salvar a si mesmo! E é o rei de Israel! Desça agora da cruz, e creremos nele.” 
Mateus 27:39-42 
Alguns poderiam dizer: mas Daniel como você quer nos ajudar se não 
conseguiu se ajudar? 
 190 
Paulo passou por muitas aflições: 
 Naufrágios 
 Apedrejamento 
 Açoites 
 Prisão 
 Fome 
 Frio 
 Solidão 
Na vida teremos aflições... 
Por alguma razão, Deus não permitiu que Paulo curasse aquele que 
considerava como um filho; Timóteo... 
Em contraste a isso, um lenço de Paulo curava enfermos a distância. 
São mistérios de Deus... Assim como Elizeu morreu da doença que tinha. O 
grande Elizeu, porção dobrada de Elias! 
Claro; não faremos apologia a suicídio. Só queremos que compreendam 
esta dor... 
Não sabemos tudo e nem entenderemos tudo. 
"Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma 
que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada 
para medir vocês. "Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e 
não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao 
seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? 
 191 
Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para 
tirar o cisco do olho do seu irmão”. Mateus 7:1-5 
"Nem todo aquele que me diz: “Senhor, Senhor”, entrará no Reino dos 
céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos 
me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? Em 
teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?” Então eu 
lhes direi claramente: “Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que 
praticam o mal!” Mateus 7:21-23 
Muitos religiosos irão ouvir esta terrível frase... 
Sabe para quem Jesus disse isso? Para aqueles que se dizem cristãos. 
Mas, não manifestam amor... 
Só vaidade. 
Julgamentos. 
“Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me 
levanto; de longe percebes os meus pensamentos. Sabes muito bem quando 
trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos te são bem conhecidos. 
Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, 
Senhor. Tu me cercas, por trás e pela frente, e pões a tua mão sobre mim. Tal 
conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance, é tão elevado 
que não o posso atingir. Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para 
onde poderia fugir da tua presença?” Salmos 139:1-7 
Só Deus pode julgar... E o Amor Dele nos persegue. Não há lugar para se 
esconder, Ele te encontra. Mas, Ele é amor!!!! 
 192 
O que nos separa deste Amor? 
“E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o 
Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus. Sabemos que 
Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram 
chamados de acordo com o seu propósito. Pois aqueles que de antemão 
conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, 
a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, 
também chamou; aos que chamou, também justificou; ao que justificou, também 
glorificou. Que diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será 
contra nós? Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por 
todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas? 
Quem fará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os 
justifica. Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu; e mais, que 
ressuscitou e está à direita de Deus, e também intercede por nós. Quem nos 
separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou 
fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: "Por amor de ti 
enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas 
ao matadouro". 
“Mas, em todas estas coisas somos mais que vencedores, pormeio daquele 
que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem 
demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem 
profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do 
amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” 
Romanos 8:27-39 
Nada pode nos separar deste amor. Nem mesmo a morte... Aqui não há 
qualquer divisão do tipo de morte. 
 193 
É uma esfera de amor que nossa religiosidade e esfriamento do amor não 
nos permite alcançar... 
Ah, Daniel, mas na bíblia está escrito “não matarás”. 
Davi, homem segundo o coração de Deus, matou milhares... Foi adúltero e 
homicida. 
Porém, a Graça de Deus o alcançou, mediante seu arrependimento. 
Está entre os heróis da fé! 
Salomão seu filho, construiu o templo, mas acabou se inclinando a deuses 
pagãos. 
Porém, ao final de sua vida, quando escreve Eclesiastes, mostra um homem 
cansado e arrependido... O Amor o alcançou. 
Sansão idem. Fez muitas bobagens ao longo de sua vida. Foi enganado, 
capturado, tiraram sua visão e passou a ser torturado. Mesmo assim, quando teve 
uma oportunidade pediu a Deus força, mais uma vez! Ele sabia que iria morrer. 
Ele se suicidou. Nossa religiosidade não permitiria que estivesse entre os heróis 
da fé. (Juízes 16:28-30) 
 194 
 
Nossa religiosidade não permitiria que Raabe, a prostituta, estivesse entre 
as heroínas da fé. 
Nossa religiosidade condenaria aquela mulher adúltera que Jesus defendeu. 
Os que tinham pedras nas mãos se sentiam legitimados pelas leis mosaicas. Jesus, 
mais uma vez, rompe os tabus. 
Ao fim ele se ergue, olha nos olhos dela e pergunta; onde estão teus 
acusadores? Eu também não te condeno. Vá e não peques mais. 
Certamente muitos religiosos de nosso século estariam ali, com pedras nas 
mãos... 
Não entendemos o amor de Deus, pois nosso amor é imperito e tem se 
esfriado a cada dia mais. 
Não existe auto homicídio e sim suicídio. O termo suicídio tem origem 
no latim, na junção das palavras sui (si mesmo) e caederes (ação de matar), ou 
seja, é um ato que consiste em por fim, intencionalmente, à própria vida. Num 
aspecto geral, define-se suicídio como um ato voluntário em que um indivíduo 
possui a intenção e provoca a própria morte. 
Já o homicídio é um termo que deriva do latim homicidĭum e que se 
refere à morte de um ser humano causada por outra pessoa. O termo, por 
conseguinte, pode ser usado como sinônimo de assassinato ou crime. Ou seja, 
neste caso se faz necessário a presença de um agente. 
 195 
Um policial não pode reagir quando um bandido lhe ameaça sua vida? Ele 
tem o dever e direito de matar em sua defesa. E isso o levaria ao inferno. 
Moisés pediu a morte. 
Jó pediu a morte...E tudo foi tirado dele... 
Elias teve profunda depressão... 
Hoje entendo melhor isso... 
Acho que já passamos por todas as provações desta terra. Não consigo 
imaginar algo pior do que ter sepultado meu filho... 
Quando Paulo diz que seu viver é Cristo e a morte; lucro.... 
Ele não temia a morte. 
Queria apenas combater o bom combate, terminar a carreira e guardar e fé. 
Pedro nega Jesus por três vezes... 
Pouco depois de dizer que daria a sua vida pela Dele. 
Naquele tempo existia o pecado de blasfêmia. Que é imperdoável... 
Veja vídeo no YouTube : “Possessão demoníaca e Blasfêmia” 
 196 
"Aquele que não está comigo, está contra mim; e aquele que comigo não 
ajunta, espalha. Por esse motivo eu lhes digo: todo pecado e blasfêmia serão 
perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada”. 
Mateus 12:30,31 
Quem cometeu este pecado? 
Fariseus? 
Doutores da Lei? 
Povo que pediu sua crucificação? 
E até Pedro.... Quando seus olhos se cruzam... Pedro chora... Se arrepende... 
Olhar de Jesus não trazia acusação. Apenas amor... 
Depois de ressurreto aparece a Pedro e dá uma missão a ele: Apascente meu 
rebanho. 
Jesus conhece a Lei do Pai, por isso diz: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem 
o que fazem...” 
Que amor é esse? Que dá sua vida por nós? 
Meu filho deu sua vida por amor a nós, seus pais... 
Não queria ser peso. Não queria nos desapontar... 
Teve também seu túmulo cedido... Pela minha tia... E pela Graça, o 
achamos no mesmo dia. Eu não suportaria o hiato da espera. 
 197 
Obrigado a todos que nos ajudaram e nos ajudam a passar este vale. 
* * * * * 
Mais casos de suicídio na Bíblia. 
“O combate foi se tornando cada vez mais violento em torno de Saul, até 
que os flecheiros o alcançaram e o feriram gravemente. Então, Saul ordenou ao 
seu escudeiro: "Tire sua espada e mate-me com ela, senão sofrerei a vergonha de 
cair nas mãos desses incircuncisos". 
Mas, seu escudeiro estava apavorado e não quis fazê-lo. Saul, então, 
pegou a própria espada e jogou-se sobre ela. Quando o escudeiro viu que Saul 
estava morto, jogou-se também sobre sua espada e morreu com ele”. 
1 Samuel 31:3-5 
Onde está escrito que Saul está no inferno? 
“Quando Zinri viu que a cidade tinha sido tomada, entrou na cidadela do 
palácio real e incendiou o palácio em torno de si, e morreu.” 
1 Reis 16:18 
“Vendo Aitofel que o seu conselho não havia sido aceito, selou seu jumento 
e foi para casa, para a sua cidade natal; pôs seus negócios em ordem, e depois 
se enforcou. Ele foi sepultado no túmulo de seu pai”. 
2 Samuel 17:23 
Planejou seu suicídio... 
 198 
Mais famoso de todos – Judas. 
“De manhã cedo, todos os chefes dos sacerdotes e líderes religiosos do 
povo tomaram a decisão de condenar Jesus à morte. E, amarrando-o, levaram-no 
e o entregaram a Pilatos, o governador. Quando Judas, que o havia traído, viu 
que Jesus fora condenado, foi tomado de remorso e devolveu aos chefes dos 
sacerdotes e aos líderes religiosos as trinta moedas de prata. E disse: "Pequei, 
pois traí sangue inocente". Eles retrucaram: "Que nos importa? A 
responsabilidade é sua". Então Judas jogou o dinheiro dentro do templo, saindo, 
foi e enforcou-se.” 
Mateus 27:1-5 
Onde está escrito que Judas está no inferno? 
Ele mostrou arrependimento, devolveu as moedas, e reconheceu que 
entregou sangue inocente. Não suportando está dor, se enforca. Jesus é amor... 
Rompeu os dogmas. 
“Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo 
o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de 
boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas”. 
Filipenses 4:8 
“Não se vendem cinco pardais por duas moedinhas? Contudo, nenhum 
deles é esquecido por Deus. Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos 
contados. Não tenham medo; vocês valem mais do que muitos pardais!”. 
Lucas 12:6,7 
 199 
“Pois, da mesma forma que o Pai ressuscita os mortos e lhes dá vida, o 
Filho também dá vida a quem ele quer dá-la. Além disso, o Pai a ninguém julga, 
mas confiou todo julgamento ao Filho” 
João 5:21,22 
Não confiou este julgamento a nós. 
Como julgar com amor se não amamos? Como julgar com justiça se não 
somos justos? 
“Dia após dia, todo sacerdote apresenta-se e exerce os seus deveres 
religiosos; repetidamente oferece os mesmos sacrifícios, que nunca podem 
remover os pecados. 
Mas, quando este sacerdote acabou de oferecer, para sempre, um único 
sacrifício pelos pecados, assentou-se à direita de Deus. 
Daí em diante, ele está esperando até que os seus inimigos sejam colocados 
como estrado dos seus pés; porque, por meio de um único sacrifício, ele 
aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados. 
O Espírito Santo também nos testifica a este respeito. Primeiro ele diz: 
"Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor. 
Porei as minhas leis em seus corações e as escreverei em suas mentes"; 
e acrescenta: "Dos seus pecados e iniquidades não me lembrarei mais". 
Onde essas coisas foram perdoadas, não há mais necessidade de sacrifício 
pelo pecado”. 
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Hebreus 10:11-18 
“Pois vocêssão salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, 
é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie.” 
Efésios 2:8,9 
Você viu alguma menção bíblica que os suicidas foram para o inferno? 
Deus conhece sua dor... Ele te acolhe sem julgar. Sendo Amor, jamais traria 
mais dor e sofrimento a quem já sofre tanto... 
 
“Mas, meu pastor disse que não!” - É ele quem julga? 
Este conceito de suicida ir para inferno ou purgatório, terço bizantino, 
mártires, indulgências, veio com a Igreja Católica. Não há esteio bíblico para 
fundamentar esta afirmação... 
Sempre teremos cristãos sem Cristo e religiosos para apontar os dedos, 
dizendo que foi falta de fé, falta de Deus, falta de libertação. O que podemos dizer 
é que nas palavras destes que acusam, falta amor, e Jesus é expressão majoritária 
do amor! 
Em tão pouco tempo do nosso luto, não faltaram pessoas sem amor que 
vieram nos trazer palavras de maldição, mas Graças a Deus, estamos cercados de 
uma maioria que estão ao nosso lado, e que também quer lutar pela saúde mental 
Papais e mamães – Seus filhos estão na Jerusalém Celestial. 
 201 
de muitos que ainda padecem. Que amam a Deus acima de todas as coisas, que 
são empáticos, que praticam o amor. 
Quem ama não aponta os dedos, mas sim estende as mãos, ampara, acolhe, 
abençoa. Faça você a diferença. No momento de dor e perda, fique ao lado de 
pessoas que verdadeiramente lhe amam. Deus nos deu pessoas amorosas e 
verdadeiros parceiros nesta travessia. Se afaste de pessoas que em vez de somar 
forças, subtrai as suas forças. 
Papais e Mamães que perderam seus pequenos, 
saibam que a dor de seus filhos (as) cessou... 
E um dia vocês os verão novamente. 
A quem vive esta dor... Lute pela vida. 
Aceite o tratamento. 
Aceite ajuda. 
Aceite os medicamentos. 
Aceite terapia. 
Há centenas de casos narrados que mostram que muitos atravessaram este 
vale... E hoje estão bem... 
Alguns até tem canal no YouTube destinado a ajudar. 
Pois, passaram por tratamentos, clínicas, internações. 
 202 
E hoje estão compensados e felizes... E estão ajudando tantos.... Que Deus 
possa trazer sorriso de volta aos seus lábios! Não desista! Lute! 
Aos pais que não notaram os sinais... Ou que, assim como eu fizeram de 
tudo e perderam esta batalha. Não se culpem... Só Deus conhece nossos limites. 
Que este relato e o diário, possa ajudar a muitos. Para a honra de Deus. 
Trazendo mais esperança. Força. Acolhimento... 
Jovens, lutem pela vida! A vida é bela, se você desistir, deixará na terra um 
rastro de dor. Mas, se persistir, vencerá. E ajudará a muitos que estão passando 
este vale sombrio. Não se entregue, muitos estarão ao seu lado. Fale com seus 
pais, seus parentes próximos, professores, amigos, vizinhos. Peça ajuda! 
Pais, não negligenciem a dor de seus filhos(as), ajude-os. Abrace, conforte, 
acolha, vivam mais tempo juntos. 
Eu me diverti muito com Mikhael. Era mais que um filho; era uma amigo, 
companheiro e confidente. 
Sempre, todos os dias, nos abraçávamos, e repetíamos palavras de amor. 
Jamais esquecerei estes momentos. 
Não levo culpa na bagagem. Pois, sei que fiz de tudo. Ofereci os melhores 
profissionais, os melhores medicamentos, muito amor, muito acolhimento, 
amparo emocional e espiritual. Parei minha vida para cuidar dele por um ano. E 
faria tudo de novo. 
Infelizmente, a dor dele precisaria de mais tempo para ser tratada. E ele não 
suportou esperar. A vaga no centro de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São 
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Paulo, me informou que a vaga dele estava garantida. Já era tarde. Tinha acabado 
de sepultá-lo. 
Em memória de um coração puro e bom; Mikhael. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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“A morte não é nada. 
Eu somente passei 
para o outro lado do Caminho. 
Eu sou eu, vocês são vocês. 
O que eu era para vocês, 
eu continuarei sendo. 
Me dêem o nome 
que vocês sempre me deram, 
falem comigo 
como vocês sempre fizeram. 
Vocês continuam vivendo 
no mundo das criaturas, 
eu estou vivendo 
no mundo do Criador. 
Não utilizem um tom solene 
ou triste, continuem a rir 
daquilo que nos fazia rir juntos. 
Rezem, sorriam, pensem em mim. 
Rezem por mim. 
Que meu nome seja pronunciado 
como sempre foi, 
sem ênfase de nenhum tipo. 
Sem nenhum traço de sombra 
ou tristeza. 
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A vida significa tudo 
o que ela sempre significou, 
o fio não foi cortado. 
Porque eu estaria fora 
de seus pensamentos, 
agora que estou apenas fora 
de suas vistas? 
Eu não estou longe, 
apenas estou 
do outro lado do Caminho… 
Você que aí ficou, siga em frente, 
a vida continua, linda e bela 
como sempre foi.” 
Santo Agostinho 
 
 
 
 
 
 
 
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Que Deus dê forças aos que estão fracos, ilumine o caminho dos perdidos, 
console os que choram e liberte os que estão vivendo este cativeiro na mente. 
Força na jornada 
Honra, ao Cordeiro. 
 
“Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, 
nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem 
profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do 
amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.” Romanos 8:38-39. 
 
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 “Não tirei minha vida. Apenas já havia morrido, 
eu era uma casca. Um corpo que não era meu... 
Pais maravilhosos me ensinaram que nada me 
separaria do amor do Pai... Jesus!!! 
Como é difícil entender o porquê. Não desisti da 
vida, passei a viver. 
E como é bom viver na minha essência real, no meu mundo natural, alguns 
o chamam de céu, eu chamo de lar! Aqui estamos juntos ligados com lembranças 
vividas, as más lembranças não me machucam mais... Estou para receber minha 
coroa e minha certidão de vida eterna... Paguei minha sentença, cumpri minha 
missão, se assim não fosse não conseguiria partir. 
Estou feliz!” 
Mikha 
 
 
 
 
 
 
 
	Padre Fábio de Melo sempre foi muito claro sobre a sua luta contra a depressão e síndrome do pânico.
	“Há um ano eu enfrentei crise de pânico e quadro depressivo. Foi o pior momento da minha vida. Aprendi muito com tudo o que vivi. Tristeza não é doença, mas, quando se estende no tempo, pode ser. É preciso estar atento à duração dela em nós. Há muita ...
	“O jornalista Ricardo Boechat revelou em 2015, que sofreu com a depressão. Ele foi diagnosticado com a doença após sofrer um colapso minutos antes de entrar no ar. O médico revelou ao apresentador que ele apresentava sintomas do surto depressivo. "Que...
	Filmes que tratam do tema ou que mostram personagens com características depressivas:
	Automutilação:
	As mutilações não ficam aparentes, geralmente a pessoa esconde estes ferimentos usando roupas de manga comprida e calças mesmo no calor. Evitam usar roupa de banho, mesmo que em clubes, praias ou piscina.
	Cortes, queimaduras, furos são indícios de dor emocional intensa.
	Verificamos uma série de comunidades virtuais que incentivam este autoextermínio, e orientam como esconder dos pais e amigos.
	"Comecei com 11 anos. Era uma forma de expressar a vergonha que tinha de mim mesma em meu corpo. Era como colocar para fora o jeito com que me sentia. Eram tantos sentimentos conflitantes. A única maneira de conseguir aliviar minhas dores na hora era ...
	Depois deste relato, muitos jovens conseguiram falar com seus pais sobre o assunto, pois tiveram na cantora uma espécie de espelho, Demi Lovato foi internada algumas vezes, para tratar os distúrbios alimentares, as automutilações, e os pensamentos sui...
	Shirley Manson, vocalista do Garbage, falou sobre a época em que teve depressão, no início da vida adulta, por meio de um artigo publicado no New York Times.
	Genética:
	Pais e responsáveis: converse com o seu filho (a), tente entender o que ele está pensando, o que está sentindo, o que estáangustiando. Muitos relatam alívio ao fazer isso com o seu próprio corpo, mas isso é um sinal de ALERTA. Procure ajuda psiquiátr...

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