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MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves ANEMIA DEFINIÇÃO A anemia é uma condição muito comum, especialmente em determinadas faixas etárias, sendo um problema de saúde pública nos países em desenvolvimento. Raramente é uma doença por si só, sendo, quase sempre: Consequência de alguma anormalidade genética ou adquirida. Os eritrócitos têm uma vida média de 100 a 120 dias. Aproximadamente, 1 % da massa eritrocitária é produzida e destruída por dia. Os glóbulos vermelhos senis são retirados da circulação pelos macrófagos do ligado, do baço e da medula óssea. A anemia ocorre quando a massa de glóbulos vermelhos é insuficiente para oxigenar adequadamente os tecidos. → A OMS define anemia como uma redução na concentração de hemoglobina. Definir níveis normais de hemoglobina não é fácil, porque cada indivíduo tem a quantidade de hemoglobina adequada à sua massa muscular ou ao tecido metabolicamente ativo. → Mas, são necessários parâmetros para estudar populações e servir de referência na prática clínica. Parâmetros estabelecidos pela OMS: Grupo por faixa etária/gênero Hemoglobina (g/dL) 6 meses a 5 anos < 11 6 anos a 14 anos < 12 Homem adulto < 13 Mulher adulta pré- menopausa Mulher adulta pós- menopausa < 12 < 13 Gestantes < 11 CLASSIFICAÇÕES Existem muitos modos de classificar as anemias, mas, provavelmente, a maneira mais útil para uma abordagem clinica eficiente é a associação da classificação fisiopatológica e da morfológica, porque elas são facilmente aplicáveis a partir dos dados do hemograma e da contagem de reticulócitos. CLASSIFICAÇÃO FISIOPATOLÓGICA 1. Anemias por falta de produção ou hiporregenerativas. 2. Anemias por excesso de destruição ou regenerativas. 3. Anemias por perdas sanguíneas. ANEMIAS POR FALTA DE PRODUÇÃO OU HIPORREGENERATIVAS São caracterizadas por: → Contagem absoluta de reticulócitos (% de reticulócitos x número de eritrócitos) < 50.000/mm. São sempre decorrentes de produção deficiente de glóbulos vermelhos por: 1. REDUÇÃO DO TECIDO HEMATOPOIÉTICO NORMAL (ACOMETIMENTO PRIMÁRIO OU SECUNDÁRIO DA MEDULA ÓSSEA) Aplasia ou hipoplasia medular São alterações caracterizadas pela redução do tecido hematopoiético com substituição por tecido gorduroso. Podem ser idiopáticas ou induzidas por agentes químicos, físicos, toxinas ou medicamentos. No quadro há anemia e graus variáveis de leucopenia e plaquetopenia porque, além dos precursores da série vermelha, estão comprometidos também as células tronco MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves hematopoiéticas que são as células progenitoras primitivas pluripotentes. Aplasia pura da série vermelha (APSV) A APSV pode ser considerada um subgrupo da aplasia medular, na qual o envolvimento é apenas da série eritrocíticas. As causas do acometimento da série eritrocíticas podem ser várias, desde doença autoimune (frequentemente associada à timoma), infecções virais, exposição a fármacos ou agentes tóxicos até uma anomalia congênita primária da stem cell (síndrome de Blackfan-Diamond) A forma adquirida pode ser aguda ou crônica. Aguda: → É tipicamente associada à infecção pelo parvovífrus B 19, mas pode ser associada a outros agentes infecciosos, como o citomegalovírus, o HIV e os vírus das hepatites. → Nos indivíduos com anemias hemolíticas crônicas e nos imunossuprimidos, a APSV associada à infecção por parvovífrus B 19 é grave. Crônica: → Podem ocorrer em pacientes com doenças linfoproliferativas, timomas, doenças autoimunes ou LES. Síndrome mielodisplásica (SMD) As SMD são resultantes de um defeito clonal que afeta a stem cell medular. Se caracterizam por: → Anemia refratária com pancitopenia no sangue periférico e maturação anormal (displasia) que pode acometer as 3 linhagens celulares, geralmente com medula óssea hipercelular e um grau aumentado de apoptose intramedular. No sangue periférico, existe tipicamente: → Macrocitose; → Neutrófilos hipossegmentados e hipogranulares; e → Plaquetas hipogranulares e de tamanhos variados. As SMD frequentemente evoluem para leucemia aguda, embora a morte possa ocorrer por insuficiência medular sem transformação leucêmica. Infiltrações da medula óssea por tumores hematológicos ou metastáticos e substituições do tecido hematopoiético por fibrose Tanto as infiltrações da medula óssea como a mielofibrose produzem um quadro de insuficiência medular e anemia por falta de produção. Essas alterações causam distúrbios na barreira medula/sangue com: → Liberação de células imaturas da linhagem granulocítica e eritroblastos na circulação (quadro leucoeritroblástico); e → Alteração morfológica dos eritrócitos, sendo a mais característica a presença de hemácias em lágrima (dacriócitos) no sangue periférico. 2. FALTA DE FATORES ESTIMULANTES DA ERITROPOIESE (ERITROPOETINA) A eritropoetina (Epo) é secretada pelos rins em resposta à hipóxia, age nas células precursoras da medula óssea, estimulando a eritropoese. Na insuficiência renal, a produção de Epo diminui gradativamente e a anemia hiporregenerativa se instala. Geralmente, os níveis de Epo permanecem adequados até o índice de depuração da creatinina tornar-se < 30 mL/min. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves 3. FALTA DE ELEMENTOS ESSENCIAIS À ERITROPOESE (FERRO, VITAMINA B12 E ÁCIDO FÓLICO) Aproximadamente 200 bilhões de eritrócitos com mais ou menos 120 dias são degradados diariamente e substituídos por novas células produzidas na medula óssea em indivíduos adultos normais. Em condições de hemólise aumentada, a eritropoese é acelerada pela eritropoetina, com substituição de até 1 trilhão de eritrócitos por dia. A alta atividade proliferativa torna a eritropoese muito sensível às deficiências de nutrientes essenciais como: → Ferro; → Vitamina B 12; e o → Ácido fólico. A!! As anemias carenciais são as anemias mais frequentemente encontradas na prática clínica, sobretudo a deficiência de ferro; O fenótipo da anemia associada à deficiência de cobalamina e de folatos é diferente da anemia por deficiência de ferro; → Esta afeta primariamente a síntese de hemoglobina, levando a um fenótipo microcítico e hipocrômico. A deficiência de folato e/ou vitamina Bl2, em contraste, causa a formação de precursores eritroides microcíticos e megaloblásticos, devido à diminuição de síntese do DNA nos pró- eritroblastos emdivisão. A deficiência de folato e/ou B 12 afeta todas as células que se dividem; → Portanto, o restante da hematopoese também é acometido; e a → Anemia megaloblástica se caracteriza por pancitopenia, macrocitose e presença de neutrófilos hipersegmentados no sangue periférico. 4. ANEMIA DE DOENÇAS CRÔNICAS OU ANEMIA DA INFLAMAÇÃO Ocorre em associação com: → Qualquer tipo de infecção (virai, bacteriana, parasitária e fúngica); → Pacientes com câncer ou com doenças autoimunes (artrite reumatoide, LES e outras vasculites). A inflamação crônica leva à anemia por 3 mecanismos, interferência em: → Metabolismo do ferro; → Produção e nos receptores de Epo; e → Nível dos precursores eritroides, produção de eritrócitos. Na anemia associada com doenças crônicas, o nível de ferro do macrófago está normal ou aumentado, mas o fluxo para o plasma e para os critroblastos da medula óssea está parcialmente bloqueado, devido à ação das ocitocinas inflamatórias. → Assim, o ferro se acumula no macrófago, enquanto o nível plasmático cai e a medula óssea é privada de suprimentos adequados. A proliferação e a diferenciação dos precursores eritroides está diminuída e parece haver inibição do gene da Epo e dos receptoresde Epo, com diminuição da proliferação e aumento da apoptose eritroides. Apesar do mecanismo complexo, a anemia de doenças crônicas é, geralmente, leve a moderada, com concentração de hemoglobina raramente abaixo de 8 g/dL. ANEMIAS POR EXCESSO DE DESTRUIÇÃO OU REGENERATIVAS As anemias regenerativas são definidas como anemias com contagens elevadas de reticulócitos → Reticulócitos > 100.000/ mm3 MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves Essa condição é típica das anemias hemolíticas, mas pode ocorrer também após perdas agudas de sangue. Sob estimulação máxima, a medula óssea pode aumentar sua produção em 6 a 8 vezes. Com compensação medular ideal, a sobrevida dos glóbulos vermelhos na circulação pode encurtar para 15 a 20 dias, sem o desenvolvimento de anemia, mas com a presença de reticulócitos; → Estado hemolítico compensado; Quando a taxa de destruição supera a capacidade de produção da medula óssea, instala-se o quadro de anemia hemolítica. A hemólise pode ocorrer predominantemente na circulação (intravascular) ou, na maioria das vezes, no interior dos macrófagos teci duais (extravascular). Laboratorialmente, as anemias hemolíticas se caracterizam por: → Reticulocitose; → Aumento da bilirrubina indireta; → Aumento de desidrogenase lática (DHL); → Redução de haptoglobina; e → Alterações características no sangue periférico. Elas podem ser: → Causadas por defeitos intrínsecos dos eritrócitos; ou → Secundárias a agressões aos glóbulos vermelhos por agentes extrínsecos A!! A maioria dos defeitos intrínsecos é hereditária, com exceção da hemoglobinúria paroxística noturna, que é causada por um defeito intrínseco adquirido. 1. ALTERAÇÕES INTRÍNSECAS DOS ERITRÓCITOS São anemias, geralmente hereditárias, que decorrem de anormalidades dos vários constituintes do glóbulo vermelho: → Proteínas da membrana; → Enzimas eritrocitárias; e → Hemoglobina. A!! Uma exceção é a hemoglobinúria paroxística noturna, causada por um defeito adquirido. Anemias hereditárias por defeitos da membrana eritrocitária As doenças hereditárias causadas por defeitos da membrana eritrocitária compreendem a esferocitose hereditária, a eliptocitose hereditária e a estomatocitose com suas variantes: → hiper-hidratada (hidrocitose); e → Desidratada (xerocitose). a) Esferocitose hereditária A doença mais frequente desse grupo é a esferocitose hereditária, que é uma doença familiar caracterizada por: → Anemia; → Icterícia intermitente; → Esplenomegalia; e → Resposta favorável a esplenectomia. A forma de herança é autossômica dominante em 75% dos casos. A anemia pode estar presente ou não; mas reticulocitose ocorre sempre, refletindo hemólise e tentativa de compensação medular. No esfregaço de sangue periférico, a presença de esferócitos é característica da doença, embora não seja patognomônico. b) Eliptocitose hereditária A eliptocitose hereditária compreende um grupo de doenças hereditárias no qual a morfologia das hemácias no sangue periférico é o principal elemento para a avaliação diagnóstica e da gravidade do quadro. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves A estomatocitose hereditária compreende uma série de doenças raras do eritrócito, caracterizadas por anormalidades nos mecanismos de regulação do volume celular. Dependendo do tipo de defeito, as células podem ser: → Hiper-hidratadas (hidrocitose hereditária); ou → Desidratadas (xerocitose hereditária). Os pacientes apresentam: → Anemia hemolítica leve a moderada; → Reticulocitose; → Macrocitose; e → Estomatócitos no sangue periférico. Eritroenzimopatias As principais eritroenzimopatias de interesse clinico são: → Deficiências de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) e de piruvatoquinase (PK). a) Deficiência de G6PD A G6PD protege a célula contra a ação de substâncias oxidantes. A deficiência de G6PD leva a redução desse mecanismo protetor, assim, a hemoglobina pode se tomar oxidada e se desnaturar, formando corpúsculos de Heinz; Esses corpúsculos lesam a membrana eritrocitária, causando: → Retirada precoce das hemácias da circulação pelo baço; e → Deficiência enzimática mais comum, a herança é ligada ao cromossomo X. A maioria dos pacientes são assintomáticos, apresentando hemólise apenas durante a exposição a agentes oxidantes, em geral medicamentos. b) Deficiência de PK É a segunda deficiência mais comum, embora pouco frequente. A PK é uma enzima do ciclo da glicólise Na deficiência de PK, menos energia é formada, encurtando a vida média das hemácias, com consequente anemia hemolítica. Não existem alterações morfológicas eritrocitárias especificas na deficiência de PK e os pacientes apresentam quadro clinico de intensidades variáveis. Defeitos da hemoglobina As doenças da hemoglobina podem ser causadas por defeitos estruturais ou de síntese de uma ou mais cadeias globínicas. a) Anemia falciforme É a hemoglobinopatia mais frequente em nosso meio. Ela é causada por uma mutação no gene da cadeia globínicas beta, que leva à substituição, na 6º posição, de ácido glutâmico por valina, com: → Produção de hemoglobina S em vez de hemoglobina A. O estado homozigoto para essa mutação (HbSS) corresponde à anemia falciforme. Essa substituição (de ácido glutâmico por vali na) causa alterações na solubilidade das moléculas de hemoglobina no estado desoxigenado, levando à sua polimerização e organização em longos filamentos, com: → Lesão da membrana celular; e → Destruição precoce das hemácias. Além da hemólise, existe o fenómeno vaso- oclusivo, de fisiopatologia extremamente complexa, que é a marca registrada da doença e responsável por grande parte da morbidade e da mortalidade. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves Os principais locais acometidos pelo fenómeno vaso-oclusivo são: → Medula óssea; → Baço, que perde precocemente a função; → Rins; → SNC; e → Pulmões. Os eritrócitos falciformes são facilmente visualizados no esfregaço de sangue periférico. Os defeitos de síntese das cadeias globínicas causam as talassemias, que são denominadas de acordo com a cadeia que está ausente ou diminuída: → Alfa-talassemia, quando há diminuição de síntese de cadeia alfa; → Beta-talassemia, quando há redução de síntese de cadeia beta; e assim por diante. As talassemias são causadas por diversas alterações gênicas, e não por uma mutação em um ponto determinado de uma das cadeias globínicas, como nas hemoglobinopatias A intensidade do quadro clinico depende do grau de deficiência da cadeia acometida, variando com formas: → Muito graves, chamadas de major; até → Praticamente assintomáticas (minor); e → Totalmente assintomáticas (silenciosas). Os eritrócitos hipocrômicos e microcíticos, assim como precursores eritroides (eritroblastos), são achados característicos do esfregaço de sangue periférico de pacientes com talassemia. Hemoglobinúria paroxística noturna (HPN) A HPN é uma doença clonal, adquirida, da célula tronco hematopoiética, que se caracteriza por: → Hemólise intravascular; → Tendência à trombose; e → Graus variáveis de insuficiência medular. É causada por uma mutação no gene PIG-A (fosfatidil inositol glican classe A), localizado no cromossomo X, que leva à ausência ou diminuição de GPI (glicosilfosfatidilinositol); → Composto que ancora diferentes moléculas na superfície celular. Entre as moléculas ancoradas estão as responsáveis por inibir a ativação do complemento (CDSS e CDS9), que protegem as células da lise complemento-induzida. Na ausência de GPI, o complemento ativado não é inibido, havendo e: → Formação do complexode ataque à membrana; e → Lise celular. 2. AGRESSÃO DOS ERITRÓCITOS POR FATORES EXTRÍNSECOS Os eritrócitos normais podem ser afetados por fatores extrínsecos, como exposição a: → Venenos e toxinas; → Parasitas; → Agentes infecciosos; → Agentes físicos; → Traumas mecânicos; → Hipofosfatemia; → Certos medicamentos; → Anticorpos. Síndrome de fragmentação eritrocitária As síndromes de fragmentação eritrocitária podem ser devido as anormalidades do coração e grandes vasos ou de pequenos vasos (anemias hemolíticas microangiopáticas). Caracterizam-se por: → Sinais de hemólise intravascular ( DHL, hemoglobinemia, de haptoglobina e hemoglobinúria); e → Presença de eritrócitos fragmentados (esquizócitos) no sangue periférico. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves As anormalidades do coração e grandes vasos incluem: → Próteses valvares; → Valvoplastias; → Ruptura de cordas tendíneas; → Enxertos intracardíacos; e → Doença valvar não operada (mais frequentemente estenose aórtica). Nesses casos, o tratamento da doença de base leva ao desaparecimento da anemia. As anemias hemolíticas microangiopáticas associam-se a várias doenças, como: → Púrpura trombocitopênica trombótica (PTT) e síndrome hemolítico-urêmica; → Carcinomas disseminados; → Complicações da gravidez/puerpério → Hipertensão maligna; → Coagulação intravascular disseminada; → Infecções; → Doenças imunes e hemangiomas gigantes (doença de Kasabach Merritt). a) Púrpura trombocitopênica trombótica (PTT) Talvez a maior dificuldade diagnóstica seja relacionada à PTT, que é uma doença grave, potencialmente fatal, caracterizada por: → Plaquetopenia; → Anemia hemolítica microangiopática; → Alterações neurológicas; → Febre; e → Alterações renais (eventualmente). É causada pela falha em degradar multímeros de fator de VWB de altíssimo peso molecular, com formação de trombos plaquetários. Anemias hemolíticas imunológicas As anemias hemolíticas imunológicas são causadas por anticorpos contra os eritrócitos que podem ser: → Autoanticorpos; ou → Aloanticorpos. a) Autoanticorpos Causam as anemias hemolíticas autoimunes (AHAI) que podem ocorrer como: → Doenças primárias; ou → Doenças secundárias ao/a: uso de determinados medicamentos, doenças autoimunes ou neoplásicas (mais comumente leucemia linfoide crónica e linfomas bem diferenciados). b) Aloanticorpos São dirigidos contra hemácias que não são próprias do paciente e podem ocorrer: → Na gravidez (passagem de sangue fetal para a circulação materna); → Após transfusão de sangue incompatível; e → Após transplante de órgãos. O teste da antiglobulina (teste de Coombs) é o teste-chave para distinguir anemias hemolíticas imunológicas das anemias hemolítícas de outras etiologias. → Ele fornece ainda algumas informações sobre a natureza (IgG, IgM) e a sensibilidade térmica do anticorpo (frio ou quente). Teste de Coombs direto: revela a presença de anticorpos ligados à hemácia; Teste de Coombs indireto: revela a presença de anticorpos no soro. A!! Nas anemias hemolíticas autoimunes, os anticorpos estão ligados às hemácias do paciente, portanto será positivo o teste de Coombs direto. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves ANEMIAS POR PERDAS SANUÍNEAS São decorrentes de perdas agudas ou crônicas de sangue. a) Perdas agudas As perdas agudas (anemias pós-hemorrágicas) podem representar uma situação de emergência e são compensadas pela medula óssea normal, desde que os estoques de ferro estejam preservados. Os sintomas dependem da intensidade da perda. Perdas agudas de 500 a 1.000 mL (10 a 20% do volume sanguíneo) podem ser assintomáticas ou pouco sintomáticas em indivíduos sem doenças associadas. b) Perdas crônicas As perdas crônicas causam espoliação de ferro e, consequentemente, anemia por falta de produção (anemia ferropênica). CLASSIFICAÇÃO MORFOLÓGICA A classificação morfológica baseia-se nos índices hematimétricos, que atualmente são determinados por contadores eletrônicos de células. Assim, juntamente com as determinações da concentração de hemoglobina, do número de hemácias e do hematócrito, são fornecidos também: → Volume corpuscular médio (VCM); → Hemoglobina corpuscular média (HCM); → Concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM); e → Red cell distribuition widthi (RDW). O RDW é um índice que reflete o grau de anisocitose, que é a variação de tamanho dos eritrócitos. Embora não seja utilizado para a classificação das anemias, é importante ressaltar que, nas anemias adquiridas, ele se altera antes do VCM; → Quando começam a coexistir células de tamanho maior ou menor com as de tamanho normal e o número delas ainda não é suficiente para alterar a média e refletir-se no VCM. De acordo com o VCM (medido em fentolitros - fl), as anemias podem ser classificadas do ponto de vista morfológico, conforn1e segue: → Microcíticas (VCM < 80 fl); → Macrocíticas (VCM > 100 fl); → Normocíticas (VCM 80 a 100 fl). MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS As manifestações clínicas da anemia são variáveis e dependem da etiologia, da gravidade, da velocidade de instalação, das eventuais comorbidades e dos mecanismos compensatórios que o paciente foi capaz de mobilizar. As queixas mais comumente observadas são: → Astenia; → Dispneia e → Palpitações (principalmente aos esforços, que se acentuam à medida que a anemia se intensifica). Também são relativamente comuns queixas de: → Tontura; → Cefaleia; → Zumbidos; → Claudicação intermitente; e → Angina pectoris nos pacientes com doença arterial aterosclerótica. EXAME FÍSICO Ao exame físico, o paciente, em geral encontra- se pálido. Pode-se ainda observar hipotrofia das papilas da língua anemias ferropriva e megaloblástica), edema maleolar, entre outros sinais. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves A icterícia e a esplenomegalia são sinais sugestivos de anemia hemolítica ou de anemia megaloblástica. Outros achados podem sugerir síndromes de falência ou infiltração da medula óssea (MO), como a presença de petéquias e a febre. MICROCÍTICA 1. ANEMIA FERROPRIVA A maioria dos casos de AF decorre de perda aumentada de sangue ou da demanda aumentada por ferro, observada: → Na infância, especialmente nos lactentes prematuros; → Na adolescência; e → Na gestação. Nos adultos, presume-se que a AF decorra de perda de sangue, especialmente na menstruação. Nos homens e nas mulheres após a menopausa, é recomendável investigar sangramento por TGI, que pode ser oculto e assintomático. A deficiência de ferro representa a causa mais comum de anemia. Causas de AF muito observadas nas duas últimas décadas são o uso prolongado de inibidores da bomba de prótons e a cirurgia bariátrica, que podem acarretar má absorção do ferro. Não é comum a deficiência por falta de ingestão desse metal, exceto em crianças em regime alimentar restrito ao leite por períodos prolongados, pois o leite é relativamente pobre em ferro. Em resumo, a AF é sempre decorrente de uma condição clínica subjacente, que deve ser investigada. O quadro clínico já foi descrito acima e, em essência, não difere do de outros tipos de anemia, com a exceção da perversão do apetite. Diagnóstico Característica morfológica: anemia microcítica e hipocrômica. Ferritina < 10 ng% Ferro sérico: pode estra normal ou diminuído (< 30mcg%); baixo estoque Transferrina: costuma estra aumentada; o que resulta em saturação reduzida da transferrina (< 15%) Capacidade de ligação ao ferro (TBIC) alta. Profilaxia (gestação) É feita com ferro oral, durante a gestação e a lactação, emantida por 3 a 6 meses após a recuperação dos níveis hematimétricos; Tem por finalidade de manter reserva mínima de ferro: 300mg/dia de sulfato ferroso (60mg de ferro elementar). Tratamento O tratamento padrão é a suplementação de sal de ferro por VO, na dose de 50-200 mg/dia de ferro elementar (o ferro elementar corresponde a 20% da massa do sulfato ferroso) para adultos. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves Em caso de intolerância ao sal de ferro oral ou por suposta ou confirmada má absorção, pode-se administrar ferro por via parenteral (sacarato de hidróxido férrico ou carboximaltose férrica). A suplementação de ferro deve ser feita até a normalização da: → Concentração de Hb; → Reservas de ferro (ferritina) A transfusão de hemácias deverá ser reservada para pacientes com sintomas que denotam grave hipóxia tecidual. 2. TALASSEMIA MINOR É doença hereditária resultante de um defeito genético na síntese de uma ou mais cadeias globínicas da hemoglobina. Há dois principais tipos de talassemia - alfa e beta – que podem se manifestar como: → Minor (ou traço talassêmico); → Intermédia; ou → Major. Essa condição não costuma acarretar queixas. Diagnóstico Característica morfológica: anemia microcítica e hipocrômica acentuada, desproporcionais ao grau de anemia, que é leve, por causa da elevada concentração de hemácias, às vezes, acima da faixa da normalidade Ferritina: níveis elevados > 10 ng/mL, com saturação normal ou pouco elevada da transferrina A medida do grau de anisocitose (RDW, do inglês red cell distribution width) em geral mostra valores dentro ou próximos da normalidade. Tratamento O tratamento varia de: → Simples observação e acompanhamento, nas formas mais brandas (alfa talassemia ou beta talassemia minor); até → Transfusões sanguíneas frequentes e esplenectomia, nas formas mais severas (beta talassemia major). Condutas gerais: → Controlar a infecção urinária. → Prescrever ácido fólico: 5mg/dia, VO. → Não administrar suplementos ferruginosos. → Não prescrever drogas oxidativas como as sulfas. As pacientes com talassemia devem ser encaminhadas para aconselhamento genético. NORMOCÍTICA 1. ANEMIA FALCIFORME Ocorre por mutação que substitui o ácido glutâmico por valina na posição 6 da cadeia ß da globina. A hemácia com a globina mutante quando desoxigenada torna a clássica forma de foice, perdendo a flexibilidade necessária para atravessar os pequenos capilares. Os heterozigotos para a mutação apresentam uma entidade benigna (traço falciforme), sem ocorrência de anemia ou obstrução vascular. Diagnóstico Anemia crônica, crises de dor osteoarticular, icterícia e história familiar frequentemente positiva. O diagnóstico é feito pela eletroforese de hemoglobina que detecta a presença da hemoglobina mutante (Hemoglobina S). Conduta Investigar infecção urinária. Suplementar ácido fólico: 5mg/dia, VO; → Ferro é contraindicado. Transfusões com concentrado de hemácias lavadas nos casos de hemoglobina < 7g%. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves Evitar a ocorrência de fatores que precipitam a crise falcêmica, como: → Desidratação; → Acidose; → Hipotensão arterial; → Hipoxemia; e → Infecção. A indicação de operação cesariana está condicionada a fatores obstétricos. As pacientes com anemia falciforme devem ser encaminhadas para aconselhamento genético. Crise falcêmica → Internação e hidratação. → Transfusão de concentrado de hemácias (objetivo: % de HbS para < 40% e a Hb para 10g/dl) → Sedação e analgesia com 50mg IM de Meperidina, se necessário. → Investigar possíveis focos de infecção. 1. ANEMIA DE DOENÇA INFLAMATÓRIA CRÔNICA A segunda mais prevalente nos pacientes com anemia e a primeira em pacientes internados ou com doença crônica. Ocorre em doenças que causam ativação imune e inflamação, tais como: → Infecção crônica; → Doenças autoimunes; e → Câncer. Os sintomas e sinais são similares aos das outras anemias, entretanto, é comum haver no quadro clínico características específicas da doença de base, por exemplo: → Artrite (artrite reumatoide); → Linfadenomegalia (linfoma, tuberculose), etc. Diagnóstico O diagnóstico da ADI às vezes é dificultado por: → Sua concomitância com a deficiência de ferro, ou de outro nutriente, com a hemorragia; → Fenômeno inflamatório não ser evidente. Laboratorialmente, a anemia da ADI se caracteriza por ser: → Leve a moderada (Hb ≥ 8,5-9,0 g/dL); → Normocítica (VCM: 80-100 fL) → Normocrômica. Observam-se ainda: → Hipoferremia; → Hipotransferrinemia (saturação da transferrina < 20%); e → Hiperferritinemia (a ferritina é proteína de fase aguda, de modo que seus níveis séricos aumentam na inflamação) Além disso, observam-se com frequência: → da velocidade de hemossedimentação dos níveis séricos da proteína C reativa e do fibrinogênio; e → policlonal das gamaglobulinas. É importante investigar a causa da anemia, que pode não ser evidente. Recomenda- se avaliar: → Funções renal, hepática e tireoidiana (o hipotireoidismo é causa de anemia leve a moderada); e → Dosar a vitamina D, que exerce regulação negativa sobre a produção de hepcidina, (indivíduos com hipovitaminose D podem apresentar anemia, em geral de leve intensidade). MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves Tratamento Tratamento da doença de base. O tratamento de suporte pode ser realizado com reposição de eritropoetina para os casos onde há deficiência e administração de ferro por via parenteral. A transfusão de concentrados de hemácias deverá ser reservada para os pacientes sintomáticos. MACROCÍTICA 1. ANEMIA MEGALOBLÁSTICA Pode ser causada por deficiência de vitamina B12 ou ácido fólico, que ocorre por: → Baixa ingesta (deficiência de folato); ou → Impacto na absorção, como é o caso da anemia perniciosa (deficiência de vitamina B12). Diagnóstico Neutrófilos plurissegmentados no sangue periférico. A deficiência de vitamina B12 pode cursar com pancitopenia. A investigação inicia-se pela dosagem de ácido fólico e vitamina B12. As dosagens séricas de ácido metilmalônico e homocisteina são usadas para confirmação diagnóstica. Profilaxia Reposição rotineira de ácido fólico, 5 mg/ dia, VO. Conduta Investigar as principais causas da deficiência de ácido fólico: nutricional, má absorção intestinal e uso de anticonvulsivantes, pirimetamina, trimetropim e álcool. Tratamento → Ácido fólico VO, 5 mg/dia; e/ou → Vitamina B12, IM. 2. ANEMIAS APLÁSTICA (AA) OU APLASIA DA MEDULAÓSSEA É uma doença rara, e uma das mais frequentes síndromes de falência medular, caracterizada por: → Pancitopenia moderada a grave no sangue periférico; e → Hipocelularidade acentuada na medula óssea. Diagnóstico O seu diagnóstico não é fácil, por isso deve ser de exclusão, tendo em vista que várias outras causas de pancitopenia podem apresentar quadro clínico semelhante ao de aplasia. É uma doença desencadeada por causas congênitas ou adquiridas. Adquiridas A maioria dos pacientes apresentam essa forma. Principais causas: → Uso de medicamentos; → Infecções ativas; → Neoplasias hematológicas; → Invasão medular por neoplasias não hematológicas; → Doenças sistêmicas (como as colagenoses); e → Exposição à radiação e a agentes químicos. Postula-se que a AA ocorra devido a uma agressão à célula tronco hematopoiética pluripotente, acarretando sua diminuição em número ou até sua ausência na medula óssea. A doença pode se manifestar de diferentes formas e intensidades, desde falência medular fulminante até apresentação indolente mantida sob observaçãoclínica e suporte transfusional individualizado. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves A aplasia geralmente decorre de quadros infecciosos recorrentes, por vezes graves pela: → Neutropenia; → Sangramentos cutaneomucosos secundários à trombocitopenia; e → Astenia devido à síndrome anêmica Congênitas Formas constitucionais: → Disceratose congênita; → Anemia de Fanconi; → Síndrome de Shwachman-Diamond; → Trombocitopenia amegacariocítica. Estas formas são tratadas com medidas de suporte ou transplante alogênico de medula óssea. Quando a aplasia aparece como uma manifestação idiossincrática, a utilização de imunossoupressores pode ser benéfica. Diagnóstico Pancitopenia no sangue periférico: → Hemoglobina < 10 g/dl; → Plaquetas < 50.000/mm3; e → Neutrófilos < 1.500/mm3; Baixa contagem de reticulócitos (abaixo do limite considerado normal pelo método). Medula óssea hipocelular à biópsia, com diminuição de todos os elementos hematopoiéticos e seus precursores, na ausência de células estranhas à medula óssea, fibrose ou hematofagocitose. As análises citogenética e imunofenotípica complementares podem auxiliar na diferenciação diagnóstica, porém isoladamente não devem ser utilizadas como ferramenta diagnóstica. A!! Cabe lembrar que diversas outras doenças não hematológicas podem simular um quadro de aplasia, como infecções virais e bacterianas (hepatites, micobactérias), déficits vitamínicos (vitamina B12 e ácido fólico), doenças reumatológicas (LES, artrite reumatoide) e neoplasias sólidas com invasão medular. Classificação Moderada: → Medula óssea com menos de 30% de celularidade e presença de pelo menos citopenia em duas séries (hemoglobina < 10 g/dl, plaquetas < 50.000/mm3 ou neutrófilos < 1.500/mm3); e → Com ausência de pancitopenia grave (definida pela presença de no mínimo 2 dos 3 seguintes critérios: contagens de reticulócitos < 20.000/mm3, neutrometria < 500/mm3 e plaquetometria < 20.000/mm3); Grave: → Medula óssea com menos de 25% de celularidade, ou com menos de 50% de celularidade e em que menos de 30% das células são precursores hematopoiéticos; e → Presença de no mínimo 2 dos 3 critérios: contagens de reticulócitos < 20.000/mm3, neutrometria < 500/mm3 e plaquetometria < 20.000/mm3. Muito grave: → O número de neutrófilos < 200/mm3. A!! A classificação da gravidade da doença auxilia na indicação do tratamento mais adequado a ser instituído. MÓDULO FADIGA, PERDA DE PESO E ANEMIA – P1 | Luíza Moura e Vitória Neves