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Educação_e_Luta_de_Classes Ponce

Livro sobre a história da educação e luta de classes, de Aníbal Ponce. Reúne capítulos sobre educação em comunidades primitivas, Grécia (Esparta/Atenas), Roma, feudalismo, sociedade burguesa e a "nova educação", além de prefácios, bibliografia e tradução de José Severo de Camargo Pereira.

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Dados lnternacionais de Catalogayao na Publicayao (CIP) 
(Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 
Ponce, Anfbal, 1898-1938 
Educavao e !uta de classes I Anfbal Ponce, traduvao de Jose 
Severo de Camargo Pereira.- 18. ed.- Sao Paulo: Cortez, 2001. 
Bibliografia 
ISBN 85-249-0241-8 
1. Conflito social 2. Educavao- Hist6ria I. Titulo II. Serie. 
90-0131 
lndic~s para catalogo sistematico: 
1. Educavao : Hist6ria 370.9 
2. Educavao e Sociedade 370.19 
3. Luta de classes: Sociologia 303.6 
CDD-370.9 
-303.6 
-310.19 
ANiBAL PONCE 
Traduc;iio de 
Jose Severo de Camargo Pereira 
(Do Instituto de Matematica e Estatfstica da USP) 
18aedigao 
@C.ORTEZ 
~EDITORQ 
EDUCA<;:AO E LUTA DE CLASSES 
Anfbal Ponce 
Capa: DAC 
Revisiio: Agnaldo Alves de Oliveira 
Composit;iio: Dany Editora Ltda. 
Coordenar;iio editorial: Danilo A. Q. Morales 
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem 
autoriza(iao expressa do tradutor e do editor. 
©do esp6Iio 
Direitos para esta edi(iao 
CORTEZ EDITORA 
Rua Bartira, 317 - Perdizes 
05009-000 - Sao Paulo - SP 
Tel.: (II) 3864-0111 Fax: (II) 3864-4290 
E-mai I: cortez@ cortezedi lora. com. br 
www.cortezeditora.com.br 
Impresso no Brasil- abril de 2001 
SUMARIO 
Prefacio da segunda edic;:ao . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 
Prefacio da traduc;:ao brasileira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 
I. A EDUCA~AO NA COMUNIDADE PRIMITIV A . . . . . . . . . 17 
II. A EDUCA~AO DO HOMEM ANTIGO . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 
Primeira parte - Esparta e Atenas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 
III. A EDUCA~AO DO HOMEM ANTIGO . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 
Segunda parte - Roma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 
IV. A EDUCA~AO DO HOMEM FEUDAL . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 
V. A EDUCA~AO DO HOMEM BURGUES . . . . . . . . . . . . . . . . 111 
Primeira parte - Do Renascimento ate o Seculo XVIII . . . . Ill 
VI. A EDUCA~AO DO HOMEM BURGUES ................ 133 
Segunda parte - Da Revoluc;:ao Francesa ao Seculo XIX . . . 133 
VII. A NOVA EDUCA~AO. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153 
Primeira parte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153 
VIII. A NOV A EDUCA~AO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 167 
Segunda parte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 167 
Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 183 
5 
PREFACIO DA SECUNDA EDI<;AO 
Em fins de 1963, veio a luz a primeira edic,:ao da traduc,:ao brasileira 
deste livro de Anfbal Ponce, publicado originalmente em 1937, pouco 
antes da tnigica e prematura1 morte do scu Autor, num desastre, no 
Mexico. Foi bern acolhida pela crftica e pelo publico em geral, mas a 
epoca escolhida para o seu lanc,:amento nao foi muito feliz, como logo se 
constatou pelos acontecimentos polfticos que se desencadearam no Brasil 
logo no inicio do ano seguinte. Os exemplares existentes em livrarias e 
depositos foram recolhidos compulsoriamente e durante o "qtiinqiii!nio 
revoluciomirio" seguinte a presente obra esteve fora de mercado no Brasil. 
1. Anfbal Norberto Ponce Speratti nasceu em Buenos Aires em 6 de junho de 1898 
e faleceu na Ciudad de Mexico etn 18 de maio de 1938, em conseqiiencia dos ferimentos 
recebidos num desastre de autom6vel ocorrido perto de Zitacuaro, na estrada que liga Morelia 
a Capital. 
Anfbal Ponce fez seus estudos elementares na cidade de Dolores e os secundarios no 
Colegio Nacional Central da capital argentina, ingressando em seguida na Faculdade de 
Medicina, que abandonou no 3° ano, sem completar o curso. 
Sua carreira de escritor, primeiramente como ensafsta e depois como fil6sofo, historiador 
e cientista, comec,:ou muito cedo, em 1917, na revista Nosotros, dirigida por Alfredo Bianchi. 
Em 1920, Ponce conhece Ingenieros, com quem conviveu estreitamente nos cinco anos seguintes 
e que o influenciou profundamente, moldando a mentalidade liberal, positivista e pre-socialista 
do jovem Anfbal. Com a morte de Ingenieros, Ponce continua sozinho o seu amadurecimento 
intelectual, encaminhando-se pouco a pouco para o materialismo dialetico, que acaba abrac,:ando 
definitivamente por volta de 1930, depois de uma estada na Europa, principalmente em Paris. 
De volta a patria, inicia Ponce uma militancia socialista ativa entre operarios e estudantes, 
especialmente entre estes ultimos, pronunciando conferencias, ministrando cursos e escrevendo 
artigos. Em 1930, funda com outros intelectuais portenhos o Colegio Livre de Estudos 
Superiores, onde ministrou, em 1934, urn curso de Hist6ria da Educac,:ao que se converteria, 
7 
Hoje, decorridos quase 20 anos desde o seu lanc;arnento original, ja 
ern "plena abertura", a traduc;ao brasileira de Educaci6n y Lucha de Clases 
esta sendo relanc;ada, praticarnente sern rnodificac;oes. Apenas as alterac;oes 
ortograficas necessarias e a atualizac;ao da nota (do Tradutor) n° 7 da 
pagina 156, segundo os dados do Censo de 1970, publicados no Anuario 
Estatfstico do Brasil, 1978. Essas inforrnac;oes atualizadas ( os dados do 
Censo de 1980 ainda nao forarn publicados) sao as seguintes: 
1. Pessoas de 10 anos e mais que sabem fer e escrever: 44.848.108 
(68%), das quais 22.889.036 sao hornens (51%) e 21.959.072, rnulheres 
(49%); 
2. Pessoas de 10 anos e mais que niio sabem fer e escrever: 
21.098.428 (32%), das quais 9.657.476 sao homens (46%) e 11.440.952, 
rnulheres (54%); 
3. Pessoas de 10 anos e mais que tern curso primario (de 4 anos) 
completo, inclusive cursos supletivos: 8.796.754; 
4. Pessoas que possuem curso media completo, inclusive cursos 
supletivos ( r e 2° graus): 4.789.776; 
5. Pessoas que possuem curso superior completo: 593.009. 
Jose Severo de Camargo Pereira 
Sao Paulo, fevereiro de 1981 
tres anos mais tarde, no presente livro. Em 1933, preside em Montevideu o Congresso 
Latino-Americano Contra a Guerra lmperialista. Em 1936, funda a revista Dialetica. 
Essa atividade politica acaba despertando a ira das autoridades ditatoriais argentinas 
(em 6/9/30, o Presidente Yrigoyen havia sido deposto pelo General Uriburu) e Ponce e 
demitido pelo General-Presidente Agostini Justo da sua catedra de Psicologia do lnstituto 
Professoral Secundario e do seu cargo no Laborat6rio do Hospicio de las Mercedes, sob o 
pretexto de que !he faltava urn diploma de curso superior para exercer essas fun~6es. 
Impedido de continuar trabalhando em sua patria, Ponce emigra entao para o Mexico, 
no infcio de I 937, onde continua sua carreira de professor e de escritor ate sua morte, no 
ano seguinte. Suas obras sao numerosas, com destaque especial para as seguintes publica~6es: 
Problemas de Psicologia lnfantil (1931), Dos Hombres: Marx y Fourier (1933), Ambicidn 
y Angustia de los Adolescentes (1936), Educacidn y Lucha de C/ases (1937), Humanismo 
Burgues y Humanismo Proletario (1938) e £1 Viento en el Mundo (1939), titulos nem sempre 
respeitados nas diversas edi~oes que conheceram. 
8 
PREFACIO DA TRADU<;AO BRASILEIRA 
Poi corn inegavel prazer que indicarnos este livro de Anfbal Ponce 
para integrar esta COLEyAO DE ESTUDOS SOCIAlS E FILOSOFICOS, 
e que nos encarregarnos da sua traduc;ao. Nao nos rnoveu, ao faze-lo, 
outro rnotivo que nao o de alargar os horizontes bibliograficos do leitor 
brasileiro ern geral, e dos alunos das nossas escolas norrnais, institutos de 
educac;ao e faculdades de filosofia ern particular. 
No campo da Hist6ria da Educac;ao, a bibliografia acessfvel ao leitor 
brasileiro e extrernarnente pobre. N6s nos lernbrarnos rnuito bern de que 
quando iniciarnos o nosso curso de escola normal - e bern verdade que 
nurna cidade do interior do estado, mas nurna cidade relativarnente grande, 
Piracicaba -, s6 tfnharnos a nossa disposic;ao dois livros nesse terreno: 
urn antigo e ja bastante surradocompendia frances, escrito por Gabriel 
Cornpayre, que lfarnos na biblioteca da escola, e as No~oes de Hist6ria 
da Educa~iio, de Afranio Peixoto, hoje, ao que sabernos, esgotadas, mas 
que, na epoca, conseguirnos cornprar, nurna bela encadernac;ao de percalina 
verrnelha, ern urna das livrarias da cidade. Ja quase no firn do curso, 
apareceu nas livrarias da rninha terra, que naquela ocasiao erarn quatro, 
e eu acho que ainda sao, outro livro de Hist6ria da Educac;ao, que foi 
urn sucesso, apesar de ser urna simples brochura, sem capa de percalina 
verrnelha e sern tftulo ern letras douradas: o de Paul Monroe, nao o 
grande, ern cinco volumes, ern ingles, que isso seria exigir dernasiado de 
livreiros do interior, mas o pequeno, a traduc;ao publicada pela Cornpanhia 
Editora Nacional na sua colec;ao intitulada Atualidades Pedag6gicas. E esta 
situac;ao de verdadeira penuria bibliografica nao rnudou rnuito no decenio 
seguinte: os rnesrnos dois livros rnencionados, rnais tres novas publicac;oes: 
urna de L. Luzuriaga, outra de T. M. Santos, arnbas tarnbern da Nacional, 
9 
e urn compendia publicado pela Saraiva. Mais urn decenio e, novamente, 
apenas mais dois livros vieram enriquecer o mercado brasileiro, ambos da 
Editora Nacional, urn de Rene Hubert e outro do ja citado Lorenzo 
Luzuriaga, mas este ultimo tratando somente de urn aspecto do problema: 
a hist6ria da educac;ao publica. Em rela<;:ao aos livros estrangeiros, a 
situa<;:ao nao era muito melhor: no interior, nada, mas nas livrarias das 
grandes cidades existiam a venda alguns poucos exemplares da primeira 
edi<;:ao castelhana da presente obra, e uns tantos mais do bern documentado 
e bern escrito livro de H. I. Marrou (Histoire de !'Education dans 
l'Antiquite), e nada mais. 0 trabalho de Marrou e urn born livro de 
Hist6ria da Educa<;:ao, nao ha como negar, mas o seu alto pre<;:o coloca-o 
fora do alcance do bolso do publico estudantil em geral, ao mesmo tempo 
que as suas massudas 600 paginas desencorajam qualquer leitor que nao 
esteja decididamente interessado em Hist6ria da Educa<;:ao, e isso dando 
de barato que o frances seja urn idioma facilmente lido e compreendido 
pela maioria dos nossos estudantes de pedagogia. Alem disso, esse livro 
de H. I. Marrou aborda apenas urn campo relativamente restrito dentro 
da Hist6ria da Educa<;:ao, mais restrito ainda do que o seu tftulo sugere, 
porque ele, na realidade, praticamente s6 trata da educa<;:ao na Grecia e 
no Imperio Romano. 
Nessas condi<;:oes, nao temos duvidas em afirmar que o presente 
livro de Anfbal Ponce vern contribuir bastante para aumentar a bibliografia 
acessfvel aos que se interessam pelos problemas hist6rico-educacionais em 
nossa terra. 
Mas o presente trabalho nao foi indicado por n6s a Editora Fulgor 
apenas porque sao poucas as obras de Hist6ria da Educa<;:ao existentes no 
mercado brasileiro. A nosso ver, o trabalho de Anfbal Ponce apresenta, 
sobre os mencionados, algumas vantagens. 
Em primeiro Iugar, ele nao e uma simples exposi<;:ao das pniticas 
pedag6gicas, dos sistemas escolares e das correntes filos6fico-educacionais 
que encontramos nos diferentes povos e nas diversas epocas da hist6ria 
da humanidade. 0 autor considera a educa<;:ao como urn fenomeno social 
de superestrutura e, portanto, defende, ao Iongo de toda a obra, a ideia 
de que bs fatos educacionais s6 podem ser convenientemente entendidos 
quando expostos conjuntamente com uma analise s6cio-econ6mica das 
sociedades em que tern Iugar. Assim, juntamente com a apresenta<;:ao dos 
fatos educacionais e com a exposi<;:ao das concep<;:5es filos6fico-educacionais, 
o Autor procura sempre, e as vezes com rara felicidade, fazer uma analise 
da subestrutura economica da sociedade correspondente. 
Em segundo Iugar, o presente livro nao e uma exposi<;:ao desconchavada 
da Hist6ria da Educa<;:ao. De fato, lendo-se o trabalho de Anfbal Ponce, 
10 
percebe-se claramente a existencia de uma ideia central ao Iongo de toda 
a obra. 0 Autor defende uma ideia, defende uma tese; ele mostra, atravcs 
dos sucessivos capitulos, isto e, atraves dos diversos povos e das diferentes 
epocas, que a principal caracterfstica da educa<;:ao, desde 0 instante do 
aparecimento da sociedade dividida em classes - vale dizer, desde o 
infcio dos tempos propriamente hist6ricos -, pode ser encontrada numa 
progressiva "populariza<;:ao" da cultura. Propriedade praticamente exclusiva 
das classes dominantes, a educa<;:ao era, inicialmente, negada quase que 
totalmente as classes menos favorecidas. Mas as transforma<;:oes economicas 
por que passaram inevitavelmente todas as sociedades foram provocando 
modifica<;:oes sensfveis no status quo, foram fazendo com que massas cada 
vez maiores de indivfduos tivessem acesso a uma educa<;:ao conveniente. 
Todavia, e claro que essas transforma<;:oes mencionadas nao ocorreram 
sempre suavemente. Muito ao contrario. As mais das vezes, as classes 
desfavorecidas tiveram de lutar, e freqtientemente de modo violento -
Revolu<;:ao Francesa e Revolu<;:ao Sovietica, os dois exemplos principais, 
a emancipa<;:ao da burguesia e a liberta<;:ao do proletariado - pelos seus 
direitos. Nessas condi<;:oes, no fim de contas, o estudo da Hist6ria da 
Educa<;:ao e inseparavel do estudo dessas lutas mantidas pelas classes 
desfavorecidas contra as classes dominantes, no sentido de conquistarem 
o direito sagrado de se educarem. 
Alias, essa ideia de defender uma tese ao Iongo de urn trabalho de 
Hist6ria da Educa<;:ao nao e propria unica e exclusivamente do livro de 
Anfbal Ponce. E o que tambem acontece, por exemplo, com o de Marrou, 
citado logo no infcio deste Prefacio. De fato, esse autor, logo na Introdu<;:ao 
do seu livro, esbo<;:a o plano geral do seu trabalho, tece considera<;:oes a 
respeito do fenomeno educativo em geral e tenta tra<;:ar a sua "curva 
evolutiva" a partir do seculo X a.C., afirmando que, a partir dessa data, 
a hist6ria da educa<;:ao reflete a passagem progressiva de uma cultura de 
nobres guerreiros, para uma cultura de escribas. Nao ha duvida de que a 
afirma<;:ao de Marrou e verdadeira, s6 que ele percebeu apenas uma faceta 
do problema e, na realidade, apenas a faceta exterior. Por detras da 
mudan<;:a apontada, existe toda uma realidade s6cio-econ6mica, toda uma 
!uta de interesses, toda uma !uta de classes, que nao foi percebida pelo 
autor frances. 
Outra caracterfstica importante do livro de Anfbal Ponce reside no 
Capftulo II da sua obra, em que o Autor trata do problema da educa<;:ao 
grega. Nao que haja, af, grandes novidades, na apresenta<;:ao ou na 
interpreta<;:ao dos fatos. Quase tudo que se encontra nesse capitulo pode 
tambem ser encontrado em Morgan, por exemplo, ou nos autores da 
chamada escola do materialismo hist6rico, em Engels, por exemplo. Mas 
isso nao quer dizer que a interpreta<;:ao apresentada da sociedade grega e 
II 
da sua educac;ao seja bastante conhecida. Ao contrario, e bastante comum, 
mesmo nos chamados bons livros de Historia da Educac;ao, ou de Historia 
da Civilizac;ao, encontrarmos interpretac;oes "romanticas", inteiramente di-
vorciadas da realidade. 
De fato, a epoca cantada por Romero - cerca de 1500 a.C. 
tern sido freqiientemente descrita como uma verdadeira "idade media", em 
virtude de possfveis analogias formais existentes entre a estrutura polfti-
co-economico-social da sociedade de entao, e a da Idade Media propriamente 
dita. Nessa linha de ideias, reconhece-se, comumente, que, nos primordios 
da sociedade grega, existia urn rei, que vivia cercado por uma aristocracia 
de guerreiros, uma verdadeira corte, no sentido moderno do termo. Essa 
comunidade de guerreiros teria durado ate o momento em que o rei, em 
paga dos servic;os recebidos, distribuiu, aos seus companheiros de armas, 
verdadeiros "feudos" que, pouco a pouco, foram-se tornando hereditarios. 
A cultura grega, nas suas origens, tern sido apresentada, por muitos 
historiadores, como urn privilegio dessa classe de guerreiros, cujos membros 
aparecem comoverdadeiros cavaleiros, no sentido medieval do termo. Eles 
sao apresentados como se entretendo com jogos de salao, com divertimentos 
musicais, com torneios de cac;a, com batalhas, como apreciadores da beleza, 
como respeitadores da mulher e como amantes das coisas do espfrito. 
Essa imagem da vida grega e inteiramente falsa. Na epoca heroica, 
cantada por Romero, a Grecia ja havia sido conquistada pelos helenos 
que, descendo das regioes montanhosas do Norte, subjugaram e expulsaram 
os habitantes da Helade. Nessa ocasiao, as tribos gregas ja se apresentavam 
unidas e habitavam cidades nao muito numerosas nem muito populosas, 
onde as gens e as fratrias viviam mais ou menos independentemente umas 
das outras. Ravia ja urn comec;o de aristocracia, baseada na incipiente 
desigualdade de fortuna ( desigualdade essa que, alias, viria a se acentuar 
demasiadamente com o correr do tempo), e a escravatura ja era uma 
pratica estabelecida, mas os antigos costumes comunistas tribais primitivos 
ainda nao estavam inteiramente esquecidos, nem havia desaparecido total-
mente a antiga organizac;ao social gentflica. 0 proprio Romero nos da 
disso testemunho, ao por na boca de Nestor estas palavras, dirigidas a 
Agamenon, por ocasiao da Guerra de Troia: "... disponha as tropas por 
fratrias e tribos, de modo que a tribo auxilie a tribo, e a fratria auxilie 
a fratria ... " (Ilfada, II, 362.) Por essa ocasiao, os gregos, do mesmo modo 
que outros povos do estagio superior da Barbarie, estavam organizados 
em gens, fratrias e tribos que, mais tarde, viriam a se unir para formar 
cidades-nac;oes, como a ateniense e a espartana, por exemplo. A autoridade 
polftico-administrativa estava nas maos de urn Conselho (Bule, em grego), 
prototipo dos senados modernos, formado pelos chefes de gens. Esse 
Conselho tomava resoluc;oes a respeito de todos os assuntos, mas tinha a 
12 
sua liberdade de ac;ao limitada por uma Assembleia Popular (Agora, em 
grego) naqueles problemas de magna importancia. Essa Assembleia era 
constitufda por todos os gentios e, nela, todos, sem excec;ao, tinham o 
direito de se fazerem ouvir. Ravia, ainda, urn chefe, impropriamente 
considerado como urn rei por muitos autores, o Basileus, que era eleito 
livremente pelos gentios. Esse chefe tinha func;oes sacerdotais, militares 
e, em alguns casos, tambem judiciais. 0 Basileus nao era, portanto, urn 
rei, nem na acepc;ao moderna da palavra, nem no sentido medieval do 
termo. No proprio Romero, nunca urn Basileus aparece desempenhando o 
papel de rei. Agamenon, por exemplo, que era urn Basileus, aparece na 
Ilfada apenas como o comandante supremo de urn exercito confederado, 
em operac;oes de guerra. E, mesmo como comandante militar supremo, o 
seu poder nao era discricionario, porque as suas ac;oes eram limitadas por 
uma Agora democratica. Aristoteles tambem testemunha no mesmo sentido 
de que o Basileus nao pode ser considerado urn rei. De fato, ao se referir 
a epoca heroica, afirma que a Basileia (Governo do Basileus, expressao 
essa que, muitas vezes, tern sido impropriamente traduzida pela palavra 
reino) era urn governo sobre homens livres, e que o Basileus era, ao 
mesmo tempo, urn chefe militar, urn juiz e urn sacerdote. Confira-se, nesse 
sentido, Aristoteles: Polftica, capftulos IX e X. 
Urn dos principais responsaveis por essa falsa interpretac;ao da 
estrutura polftico-social da sociedade grega da epoca heroica foi urn escritor 
ingles do seculo passado, Gladstone, que, no seu livro Juventus Mundi, 
apresentou os chefes gregos como reis e prfncipes adornados por qualidades 
"cavalheirescas". Desde essa epoca, como faz ressaltar Haldane (La Filosoj{a 
Marxista y las Ciencias), essas inverdades historicas tern sido constantemente 
repetidas e difundidas. 
A respeito desse assunto, as palavras de Morgan nao deixam margem 
a qualquer duvida: "A Monarquia e incompatfvel com as instituic;oes 
gentflicas pelo fato de estas serem essencialmente democraticas. Cada gen, 
fratria ou tribo era urn corpo autonomo, completamente organizado; e onde 
varias tribos se fundiram em uma nac;ao, o governo resultante estava 
organizado em harmonia com os princfpios que animavam as suas partes 
constituintes." Confira-se Morgan: La Sociedad Primitiva, pagina 224. 
Consulte-se, tambem, no mesmo sentido, o excelente e poucas vezes citado 
livro de Fustel de Coulanges: A Cidade Antiga. 
Nao devemos, portanto, ter duvidas de que, nos seus primordios, as 
instituic;oes polftico-sociais dos gregos eram essencialmente democraticas, 
pela razao mesma de serem gentflicas. 
E so a partir do seculo VII a.C., mais ou menos, que essas instituic;oes 
comec;aram a sofrer transformac;oes de vulto, como uma conseqiiencia das 
13 
mudanc;:as experimentadas pela infra-estrutura econ6mica da sociedade grega 
de entao. Ate essa epoca, as tribos gregas viveram baseadas numa economia 
quase que inteiramente agricola. Ravia ainda alguma atividade pastoril e 
tambem urn pouco de industria domestica. Nao se cogitava de trocas de 
caniter propriamente comercial; nas obras de Romero, sao poucos os 
comerciantes que aparecem, e, assim mesmo, estrangeiros, fenfcios. Os 
gentios eram os donos da terra, e a trabalhavam por suas pr6prias maos, 
auxiliados por seus familiares e tambem por escravos. Mas e conveniente 
esclarecer que, ate essa epoca, esses escravos eram os descendentes dos 
antigos habitantes da regiao, ou eram prisioneiros de guerra, a quem se 
perdoara a vida em troca de trabalho; ainda nao se cogitava da escravizac;:ao 
dos companheiros tribais, mas esta nova escravidao nao deveria tardar a 
aparecer, com o advento do capitalismo comercial, que ja se fazia anunciar. 
Mas, a partir do seculo VII a.C., a economia comercial, com o 
maior rendimento do trabalho humano, produzido pelas novas tecnicas 
descobertas, comec;:ou a sobrepujar nitidamente a economia agricola gentflica 
que predominara ate entao, provocando modificac;:oes de vulto na estrutura 
social, as mais importantes das quais foram a acentuac;:ao das desigualdades 
de fortuna, que Jevaram ao aparecimento das classes sociais, o aparecimento 
da escravidao dos companheiros tribais, o desaparecimento das instituic;:oes 
gentflicas democraticas, a busca e a conquista de novos mercados etc. 
Essas modificac;:oes na estrutura social, como nao poderia deixar de ser, 
tiveram importantes reflexos na educac;:ao. Mas nao e necessaria continuar 
porque, agora, nao farlamos mais do que repetir a materia exposta, e com 
muita propriedade, no Capitulo II. Uma observac;:ao, ainda, em todo caso. 
0 Autor passa muito de !eve sobre urn dos importantes aspectos da 
educac;:ao grega: o problema da homossexualidade e da pederastia, que 
impregnaram toda a vida grega e, em particular, a educac;:ao. Nao e este 
o momento adequado para tecermos considerac;:oes a respeito do assunto, 
porque este Prefacio ja vai Iongo demais, mas nao nos podemos furtar a 
obrigac;:ao de chamar a atenc;:ao do leitor para a importancia do problema 
- basta lembrar, por exemplo, o "batalhao sagrado de Tebas", formado 
por pares de jovens amantes - indicando, por exemplo, o citado livro 
de Marrou, onde ha urn born estudo do problema, e onde o Jeitor interessado 
tambem encontrara indicac;:oes bibliograficas especializadas. 
0 presente livro de Anfbal Ponce apresenta ainda outra vantagem 
que, eventualmente, para certo tipo de leitor, poderia ser uma desvantagem. 
E urn livro de sfntese. Sao quase duzentas paginas para tratar de toda a 
hist6ria da educac;:ao, desde as sociedades primitivas, ate as tendencias 
educacionais contemporaneas. "Nessas condic;:oes, e evidente que o Autor 
tern de se Jimitar a discutir OS problemas tratados em rapidas pinceJadas, 
que apanhem, apenas, as linhas gerais de desenvolvimento, deixando 
14 
praticamente de lado qualquer analise mais detalhada da situac;:ao. Trata-se, 
portanto, de uma obra de sfntese e isso, como dissemos, pode ser urn 
bern, ou pode ser urn mal, dependendo do tipo de leitor considerado.E 
urn bern porque se trata de urn tipo de livro de leitura mais amena, menos 
cansativa e mais interessante, capaz de atingir urn publico bastante numeroso, 
composto tanto pelo leitor nao iniciado nos problemas de hist6ria da 
educac;:ao, que deseja, apenas, uma visao geral do assunto, quanto pelo 
leitor especialista na materia, que dcseja uma obra de coroamento de 
estudos, que possa sintetizar, em poucas linhas, as muitas informac;:oes, 
talvez urn pouco desconexas, que tern a respeito da educac;:ao das diversas 
sociedades e das diferentes epocas. E isso porque esta obra de Anfbal 
Ponce, apesar de ser de sfntese, nao e superficial. Por outro !ado, o 
presente trabalho nao se destina aqueles que pretendem realizar urn estudo 
minucioso e sistematico dos problemas hist6rico-educacionais, porque esses 
nao irao encontrar, nesta obra, os detalhes informativos por que anseiam. 
Foi pelas raz6es expostas acima que indicamos, com prazer, o 
presente livro de Anfbal Ponce, para integrar esta COLE<;AO DE ESTUDOS 
SOCIAlS E FILOSOFICOS, da Editora Fulgor. 
Sao Paulo, marc;:o de 1963 
JOSE SEVERO DE CAMARGO PEREIRA 
15 
CAPITULO I 
A EDUCA\=AO NA COMUNIDADE PRIMITIV A 
Os trabalhos de Morgan· a respeito dos indios norte-americanos 
tao admirados por Marx, a ponto de inspirar-lhe urn livro que, alias, 
apenas teve tempo de esbor;ar, mas que Engels conseguiu reconstruir em 
grande parte
2 
- demonstraram a existencia de urn comunismo tribal como 
origem pre-hist6rica de todos os povos conhecidos. 
Coletividade pequena, assentada sobre a propriedade comum da terra 
e unida por lar;os de sangue3, os seus membros eram indivfduos livres, 
com direitos iguais, qu~e ajustaram as suas vidas as resolur;oes de UIJl 
conselho forrnado democraticamente por todos os adultos, homens e 
IJ1Ulheres, da tribo. 0 que era produzido em comum era repartido com 
todos, e imedlatamente consumido. 0 pequeno desenvolvimento dos ins-
trumentos de trabalho impedia que se produzisse mais do que o necessaria 
para a vida cotidiana e, portanto, a acumular;ao de bens. 
Mesmo em tribos contemporaneas, como acontece no sudoeste de 
Vit6ria, muitas vezes nao se encontra nenhum instrumento de produr;ao 
alem de uma grosseira acha de pedra. Apenas com tais recursos, e 
I. Morgan: La Sociedad Primitiva. 
2. Engels: El Origen de Ia Familia, de Ia Propiedad Privada y del Estado. No pr6logo 
da primeira edic;:iio, aparecida em 1884, Engels afirmava que o seu Iivro constitufa a execuc;:iio 
de urn testamento, na medida em que procurava suprir, com dificuldade e baseado em 
anotac;:iies de Marx, o livro que este nao havia podido terminar. 
3. A palavra gens, que Morgan empregava para designar estas comunidades, significa 
engendrar e alude ao caniter de urn grupo que se jacta de ter uma ascendencia comum. 
17 
perfeitamente compreensfvel que a tribo despenda todas as horas de cada 
dia s6 para substituir o que foi consumido no dia anterior. Se o estagio 
de desenvolvimento de uma sociedade deve ser avaliado pelo domfnio que 
ela conseguiu sobre a natureza, e evidente que o nfvel das comunidades 
primitivas nao poderia ser mais baixo. Escrava da natureza, a comunidade 
persistia, mas nao progredia. 
A execu~ao de determinadas tarefas, que apenas urn membra da 
comunidade nao podia realizar, deu Iugar a urn precoce come~o de divisao 
de trabalho de acordo com as diferen~as existentes entre os sexos, mas 
seni o menor submetimento par parte das mulheres. Como debaixo do 
mesmo teto viviam muitos membros da comunidade - e, as vezes, a 
tribo inteira -, a dire~ao da economia domestica, entregue as mulheres, 
nao era, como acontece entre n6s, urn assunto de natureza privada, e sim 
uma verdadeira fun~fi_o publica, socialmente tiio necessaria quanta a de 
fornecer alimentos, a cargo dos homens. Entre os bosqufmanos atuais, por 
exemplo, as mulheres, alem de cuidarem do acampamento, recolhem as 
larvas, as formigas e os gafanhotos que fazem parte da sua alimenta~ao, 
e sao tao conscientes da igualdade dos seus direitos em compara~ao com 
os homens que, segundo conta Paul Descamps, nao dao formigas aos seus 
esposos sempre que estes fracassam nas suas ca~adas ... 4. 
Na comunidade primitiva, as mulheres estavam em pe de igualdade 
com os homens5, e o mesmo acontecia com as crian~as. Ate os 7 anos, 
idade a partir da qual ja deviam come~ar a viver as suas pr6prias expensas, 
as crian~as acompanhavam os adultos em todos os seus trabalhos, ajuda-
vam-nos na medida das suas for~as e, como recompensa, recebiam a sua 
por~ao de alimentos como qualquer outro membra da comunidade. A sua 
educa~iio niio estava confiada a ninguem em especial, e sim a vigilancia 
difusa do ambiente. Merce de uma insensfvel e esponti'inea assimila~ao do 
seu meio ambiente, a crian~a ia pouco a pouco se amoldando aos padroes 
reverenciados pelo grupo. A convivencia diaria que mantinha com os 
adultos a introduzia nas cren~as e nas praticas que o seu grupo social 
tinha por melhores. Presa as costas da sua mae, metida dentro de urn 
saco, a crian~a percebia a vida da sociedade que a cercava e compartilhava 
dela, ajustando-se ao seu ritmo e as suas normas e, como a sua mae 
andava sem cessar de urn lado para o outro, o aleitamento durava varios 
4. Descamps: Etat Social des Peuples Sauvages, p:ig. 129. 
5. Uma das ideias mais absurdas que nos transmitiu a filosofia do seculo XVIII e a 
de que, na origem da sociedade, a mulher foi escrava do homem. Entre todcis os selvagens 
e entre os b:irbaros do estagio medio e inferior, e em grande parte ate mesmo entre os do 
est:igio superior, a mulher nao s6 tern uma posi~ao livre, como tambem e muito considerada. 
Engels, ob. cit., p:ig. 46. 
18 
1 
anos, a crian~a adquiria a sua primeira educa~ao sem que ninguem a 
dirigisse expressamente.6 
Urn pouco mais tarde, quando a ocasiao o extgta, os adultos 
explicavam as crian~as como elas deveriam comportar-se em determinadas 
circunstancias. Usando uma terminologia a gosto dos educadores atuais, 
dirfamos que, nas comunidades primitivas, o ensino era para a vida e 
por meio da vida; para aprender a manejar o arcos a crian~a ca~ava; para 
aprender a guiar urn barco, navegava. As crian~as se educavam tomando 
parte nas fun~6es da coletividade. E, porque tomavam parte nas fun~oes 
sociais, elas se mantinham, nao obstante as diferen~as naturais, no mesmo 
nfvel que os adultos. 
Nunca eram as crian~as castigadas durante o seu aprendizado. "Dei-
xam-nas crescer com todas as suas qualidades e defeitos. As crian~as sao 
mimadas pela mae e quando, em algtim momenta de impaciencia, esta 
chega a castiga-las, o pai por sua vez castiga a impaciente."7 Apesar de 
entregues ao seu proprio desenvolvimento - Bildung, como diriam seculos 
mais tarde Goethe e Humboldt -, nem por isso as crian~as deixavam de 
se converter em adultos, de acordo com a vontade impessoal do ambiente: 
adultos tao identicos uns aos outros que Marx dizia, com justi~a, que 
ainda se encontravam ligados a comunidade por urn verdadeiro "cordao 
umbilical". 8 
Este fato parece-me suficientemente importante para justificar urn 
momenta de reflexao. Se os pais deixavam os filhos em completa liberdade, 
como e que os adultos iriam assemelhar-se tanto, uns aos outros, mais 
tarde? Se nao existia nenhum mecanismo educativo especial, nenhuma 
"escola" que imprimisse as crian~as uma mentalidade social uniforme, em 
virtude . de que a anarquia da infancia se transformava na disciplina da 
maturidade? Estamos tao acostumados a identificar a Escola com a Educa~ao, 
e esta com a no~ao individualista de um educador e um educando, que 
nos custa urn pouco reconhecer que a educa~iio na comunidade primitiva 
era uma fun~iio espontanea da sociedade em conjunto, da mesma forma 
que a linguagem e a moral. E, do mesmo modo que e 6bvio que a 
crian~a nao precisa recorrer a nenhuma institui~ao para aprender a falar, 
tambem devemos reconhecer como nao menos evidente que, numa sociedade 
em que a totalidade dos bens esta a disposi~aode todos, a silenciosa 
6. Letourneau: L'Evolution de !'Education dans les Diverses Races Humaines, p:ig. 39. 
7. Descamps, ob. cit., p:ig. 82. 
8. Marx: El Capital, tomo I, p:ig. 54, da tradu~ao de Justo. 
19 
imita~iio das gera~oes anteriores9 pode ser suficiente para ir levando a 
uma meta comum a inevitavel desigualdade dos temperamentos indivi-
duais. 
Devemos, entao, dizer que o primitivo niio recebia uma educa~iio 
de acordo com a sua "natureza"? Se, por "natureza", quisermos significar 
a "essencia do homem", tal como apareceria se eliminassemos as influencias 
sociais, salta aos olhos o absurdo da pergunta. Nunca, em nenhum momento, 
existiu urn homem nessas condic;oes. 0 homem, enquanto homem, e social, 
isto e, esta moldado por urn ambiente historico de que nao pode ser 
separado. 
0 homem das comunidades primitivas tambem tinha uma concep~iio 
propria do mundo, ainda que nunca a tivesse formulado expressamente. 
Essa concepc;iio do mundo, que nos parece pueril, refletia, por urn lado, 
o fnfimo domfnio que o primitivo havia alcanc;ado sobre a natureza e, 
pelo outro, a organiza~iio econ6mica da tribo, estreitamente vinculada a 
esse domfnio. Uma vez que na organiza~iio da comunidade primitiva niio 
existiam graus nem hierarquias, o primitivo sup6s que a natureza tambem 
estava organizada desse modo: por esse motivo, a sua religiiio foi uma 
religiao sem deuses. Os primitivos acreditavam em forc;as difusas10 que 
9. "Sob o regime tribal, a caracterfstica essencial da educa~ao reside no fato de ser 
difusa e administrada indistintamente por todos os elementos do cia. Nao M mestres 
determinados, nem inspetores especiais para a forrna~ao da juventude: esses papeis sao 
desempenhados por todos os anciaos e pelo conjunto das gera~oes anteriores." Dukheim: 
Education et Sociologie, pag. 81. 
10. Os primitivos tern uma interessante "concep~ao religiosa" a respeito do mundo em 
geral: o animismo. De acordo com essa concep~ao, acreditam que o mundo, desde os objetos 
inanimados, ate o homem, esta habitado por uma multidao de espfritos benfazejos e malfazejos. 
Mas esses espfritos nao "pertencem" ao objeto que habitam no momento, porque sao passfveis 
de transmigra~ao. Originariamente, esses espfritos eram quase materiais, mas, depois de uma 
evolu~ao mais ou menos prolongada, come~aram a se desmaterializar, convertendo-se em 
"puros espfritos". 0 animismo pode ser dividido em dois perfodos: pre-animismo (animatismo, 
para alguns autores) e animismo propriamente dito. No primeiro perfodo, o mundo ainda 
nao esta povoado por espfritos, de modo que o homem seria capaz de influenciar diretamente 
a natureza, pela propria for~.a do seu pensamento. E de se notar que nunca se encontrou 
urn povo primitivo que estivesse exclusivamente na fase pre-animista. No perfodo animista 
propriamente dito surgem os espfritos e, simultaneamente, o primitivo passa a acreditar que 
e capaz de influenciar a natureza de dois diferentes modos: diretamente, pelo poder do seu 
pensamento (artes magicas), e indiretamente (sortilegios), influenciando em primeiro Iugar 
os espfritos que a governam. Esses dois modos de influenciar o mundo exterior coexistem 
e se completam. 
No pensar de certos autores, o animismo seria urn estagio natural na evolu~ao da 
humanidade, que passaria por Ires etapas principais no seu desenvolvimento, a saber: fase 
animista-mitol6gica, fase religiosa e fase cientffica. (Nota do Tradutor.) 
20 
f' 
I' 
I 
" 
impregnavam tudo o que ex1stia, da mesma maneira que as influencias 
sociais impregnavam todos os membros da tribo. 11 
Dessa concepc;iio do mundo - a unica possfvel numa sociedade 
rudimentar em que todos os seus membros ocupavam a mesma posic;iio 
na produc;iio - derivava logicamente o ideal pedag6gico a que as crianc;as 
deveriam se ajustar. 0 dever ser, no qual esta a raiz do fato educativo, 
lhes era sugerido pelo seu meio social desde o momento do nascimento. 
Com o idioma que aprendiam a falar, recebiam certa maneira de associar 
ou de idear; com as coisas que viam e com as vozes que escutavam, as 
crian~as se impregnavam das ideias e dos sentimentos elaborados pelas 
gera~6es anteriores e submergiam de maneira irresistfvel numa ordem 
social que as influenciava e as moldava. Nada viam e nada sentiam, a 
niio ser atraves das maneiras consagradas pelo seu grupo. A sua consciencia 
era urn fragmento da consciencia social, e se desenvolvia dentro dela. 
Assim, antes de a crianc;a deixar as costas da sua mae, ela ja havia 
recebido, de urn modo confuso certamente, mas com relevos pondeniveis, 
o ideal pedagogico que o seu grupo considerava fundamental para a sua 
propria existencia. Em que consistia esse ideal? Em adquirir, a ponto de 
torna-lo imperativo como uma tendencia organica, o sentimento profundo 
de que niio havia nada, mas absolutamente nada, superior aos interesses 
e as necessidades da tribo. 12 
Se desejassemos, agora, ir colocando marcos decisivos para o de-
senvolvimento deste curso, poderfamos dizer que, numa sociedade sem 
classes como a comunidade primitiva, os fins da educa~ao derivam da 
estrutura homogenea do ambiente social, identificam-se com os interesses 
comuns do grupo e se realizam igualitariamente em todos os seus membros, 
de modo espontaneo e integral: espontaneo na medida em que niio existia 
II. Nao creio ser necessano recor.dar aqui os trabalhos classicos de Durkheim, de 
Levy-Bruhl e .da sua escola, que confirmam amplamente as interpreta~oes marxistas, tal como 
Bucarin o indicou em La Tlu!orie du Materialisme Historique, pag. 218. 
12. Na sessao de 2 de junho de 1929 da Sociedade Francesa de Filosofia, quando de 
uma discussao a respeito da "alma primitiva", Levy-Bruhl mostrou bern que nas sociedades 
inferiores "a unidade nao reside no indivfduo e sim no grupo de que este sente ser membro. 
Em algumas sociedades, esta solidariedade assume urn carater quase organico". Cf. Bulletin 
de Ia Societe Franraise de Philosophie, agosto-setembro de 1929. Nestas condi~oes, em 
rela~ao a essas sociedades, e absurdo falar de "subordina~ao do indivfduo a sociedade", 
como muitos o fazem - Auspiais entre eles - e isso pela simples razao de que a no~ao 
de indivfduo ainda nao esta formada. 
Marx tinha razao quando dizia que "no infcio da civiliza~ao nao sao as pessoas 
individuais e sim famflias, tribos etc. que se opoem umas as outras" (Cf. El Capital, tomo 
I, pag. 269, da tradu~ao de Justo), mas se equivocava, como reconheceu mais tarde, ao crer 
que a familia fosse anterior a tribo. 
21 
nenhuma institui~ao destinada a inculca-los, integral no sentido que cada 
membra da tribo incorporava mais ou menos bern tudo o que na referida 
comunidade era possfvel receber e elaborar. 
Este conceito de educa~ao, como uma fun~ao espontanea da sociedade, 
mediante a qual as novas gera~6es se assemelham as mais velhas 13 , era 
adequado para a comunidade primitiva, mas deixou de se-lo a medida que 
esta foi lentamente se transformando numa sociedade dividida em classes. 14 
0 aparecimento das classes sociais teve, provavelmente, uma dupla 
origem: o escasso rendimento do trabalho humano e a substitui~ao da 
propriedade comum pela propriedade privada. 15 
}
0 Ja dissemos que, na comunidade primitiva, uma divisao rudimentar 
do trabalho distribuiu precocemente as tarefas, em fun~ao de sexo e idade. 
Mas a diferencia~ao nao parou af. A distribui~ao dos produtos, a admi-
nistra~ao da justi~a, a dire~ao das guerras, a supervisao do sistema de 
irriga~ao etc. foram exigindo, pouco a pouco, certas formas de trabalho 
social ligeiramente diferentes do trabalho material propriamente dito. Com 
as rudimentares tecnicas da epoca, o trabalho material era de tal modo 
cansativo que o indivfduo que se dedicava ao cultivo da terra, por exemplo, 
nao podia desempenhar, ao mesmo tempo, nenhuma das outras fun~6es 
que a vida tribal exigia. Portanto, o aparecimento de urn grupo de individuos 
13. Ernst Krieck escreveu paginas muito justas a respeito da educavao espontaneaque 
brota da convivencia. Cf. Bosquejo de /a Ciencia de /a EducachJn, pags. 29, 34 e 67. No 
entanto, a sua incompreensao do marxismo impediu-o de desenvolver com exatidao o seu 
pensamento. Tudo quanto escreveu a respeito da influencia da "comunidade" e inatacavel 
enquanto se aplica a comunidade primitiva, mas carece de valor para as comunidades nao 
homogeneas, como sao todas as sociedades divididas em classes. 0 mesmo podemos dizer 
de Wyneken e de Durkheim, se bern que o ultimo tenha suspeitado que a educavao difere 
em funvao das classes sociais. 
14. 0 Capitulo LII do Le Capital (tomo XIV, pags. 219-221, da traduvao de Molitor) 
chama-se As Classes, e Marx, nele, perguntava que e que forma uma classe? Mas e sabido 
que, infelizmente, o manuscrito do Capital ficou interrompido nesse ponto. 
Bucarin define classe social como "urn conjunto de indivfduos que desempenham a 
mesma funvao na produ~ao, e que tern, na produvao, identicas relav6es com os indivfduos 
e os meios de trabalho". (La Theorie du Mate~lisme Historique, pag. 229.) 
Lenine, num discurso pronunciado no III Congresso Pan-Russo da Uniao das Juventudes 
Comunistas, de modo mais didatico e expressivo, definiu classe social do seguinte modo: 
"Que sao as classes em geral? E o que permite a uma fravao da sociedade ~propriar-se do 
trabalho da outra. Se uma fra~ao da sociedade apossar-se de todo o solo, passaremos a ter 
a classe dos proprietarios da terra e a classe dos camponeses. Se uma fravao da sociedade 
possui as fabricas, as av6es e o capital, enquanto a outra trabalha nessas fabricas, temos a 
classe dos capitalistas e a dos proletarios." \ 
15. Cf. Engels: Anti-Diihring, pags. 190 e 308. No mesmo sentido, cf. Bucarin: La 
Theorie du Materialisme Historique, pag. 309. 
22 
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libertos do trabalho material era uma conseqiiencia inevitavel da fnfima 
produtividade da for~a humana de trabalho. 16 
Apesar de estarem sob a tutela da comunidade - porque nao se 
lhes reconhecia nenhuma importancia especial -, os "funcionarios" que 
receberam a custodia de determinados interesses sociais fizeram derivar 
desses interesses certa exalta~ao de poderes. 0 encarregado da distribui~ao 
de vfveres, por exemplo, dispunha de alguns homens que cuidavam dos 
depositos, e nao e diffcil imaginar de que maneira a sua relativa preeminencia 
foi-se convertendo com o tempo numa verdadeira hegemonia. No entanto, 
para nos tern importancia ressaltar que as classes sociais, que, posterior-
mente, chegaram a ser "privilegiadas", desempenhavam, no inicio, fum;;oes 
uteis. A sua relativa supremacia inicial foi, a principia, urn fato aceito 
voluntariamente e, de certo modo, espontaneo. Qualquer desigualdade de 
inteligencia, de habilidade ou de carater poderia servir de base para uma 
diferen~a que, com o tempo, poderia engendrar urn submetimento. 
No punho de uma clava milenaria encontrada em Hieracompolis 
(Egito) podemos ver a figura de urn rei escavando urn canal de irriga~ao 
com as proprias maos17 ; da mesma forma, se examinarmos com alguma 
aten~ao os mais velhos cantos da literatura egfpcia, veremos que o Farao 
e sempre celebrado como o que irriga e cultiva. Essa intima liga~ao 
existente entre os monarcas egfpcios e a agricultura do pafs demonstra de 
que modo as suas fun~oes derivaram em grande parte da necessidade de 
centralizar o controle dos canais de irriga~ao. A medida que a pratica de 
represar as aguas do Nilo foi-se estendendo, mais deve ter-se acentuado 
a necessidade de urn organismo que tivesse a seu cargo a diffcil missao 
de dirigir e controlar essas tarefas, pais a abertura extemporanea das 
comportas poderia fazer com que as aguas baixassem antes da satura~ao 
adequada dos terrenos altos, e destrufssem, de passagem, as obras situadas 
em terrenos mais baixos. Tratava-se, sem duvida, de tarefas complicadas, 
16. "S6 quando os homens se alvaram do seu primitivo estado animal e o seu trabalho, 
portanto, ja se apresenta associado em certo grau e que apareceram relar;iJes em que o 
supertrabalho de uns constitui condir;iio para a existencia de outros. Nos prim6rdios da 
civilizavao, as forvas produtivas adquiridas pelo trabalho eram poucas, mas tambem eram 
diminutas as necessidades, uma vez que estas se desenvolvem paralelamente com os meios 
de satisfavao. Alem disso, proporcionalmente fi!lando, o numero dos que viviam d custa do 
trabalho alheio era, nesses primt5rdios, insignificante em rela(:iio d massa dos que se 
entregavam diretamente d produr;iio." Marx: El Capital, tomo I, pag. 395, da traduvao de 
Justo. (0 italico e nosso.) 
17. Gompertz: La Panera de Egipto, pag. 86. Os primitivos reis-pastores chineses 
tambem eram "os reguladores do tempo". Cf. Richard Wilhelm: Histoire de Ia Civilisation 
Chinoise, pag. 67. 
23 
que exigiam larga experiencia e um conhecimento exato do calenddrio 
solar. 
0 que dissemos a respeito do guardiao dos vfveres e o que acabamos 
de dizer do controlador da irrigac;:ao tambem se aplica aos outros funcionarios 
que representavam a tribo no seu contato diario com os poderes misteriosos 
da natureza. As forc;:as mfsticas que o primitivo supunha existirem nos 
seres inanimados e nos animados apresentavam urn carater caprichoso e 
urn humor diffcil. Cerim6nias complicadas e ritos precisos constitufam, 
por isso, como que antedl.maras inevitaveis, por que se teria de passar 
para alcanc;:ar essas forc;:as. 18 Urn "funcionario" - sacerdote, medico e 
mago -, tao necessario quanta qualquer outro, aconselhava, protegia e 
curava os membros da tribo. Da mesma forma que acontecia com os 
outros funcionarios, tambem nele ia surgindo essa nova caracterfstica, que 
iria acentuar-se, cada vez mais, na comunidade em transic;:ao: a direr,;iio 
do trabalho se separa do proprio trabalho, ao mesmo tempo que as forr,;as 
mentais se separam das Jfsicas. 
2a Mas esta divisao da sociedade em "administradores" e "execu-
tadores" nao teria levado a formac;:ao das classes, tal como hoje as 
conhecemos, se outro processo paralelo nao tivesse ocorrido ao mesmo 
tempo. As modificac;:oes introduzidas na tecnica - especialmente a do-
mesticac;:ao dos animais e o seu emprego na agricultura, como auxiliares 
do hornern - aumentararn de tal modo o poder do trabalho humano que 
a comunidade, a partir desse momenta, comer,;ou a produzir mais do que 
o necessaria para o seu proprio sustento. Apareceu urn excedente de 
produtos, e o interdimbio desses bens, que ate entao era exfguo 19, adquiriu 
tal vulto que se foram acentuando as diferenc;:as de "fortuna". Cada urn 
dos produtores, aliviado urn pouco do seu trabalho, passou a produzir para 
as suas pr6prias necessidades e tambem para fazer trocas com as tribos 
vizinhas. Surgiu pela primeira vez a possibilidade do ocio; 6cio fecundo, 
de conseqiiencias remotfssimas, que nao s6 permitia fabricar outros ins-
trumentos de trabalho e buscar materias-primas, como tambem refletir a 
18. Robinson: Introduction il l'Histoire des Religions, pags. 25 e 26. 
19. "A troca de mercadorias come~a onde terminam as comunidades; nos seus pontos 
de contato sao comunidades estranhas ou sao membros de comunidades estranhas. Mas, no 
momento em que, para a vida extragruJ'lT!, as coisas se transformam em mercadorias, a 
mesma transforma~ao tambem se da para a vida intracomunal... Ao mesmo tempo, a 
necessidade de objetos de uso de procedencia estrangeira vai-se arraigando pouco a pouco. 
A contfnua repeti~ao da troca faz dela urn processo social regular. Colin o decorrer do tempo, 
pelo menos uma parte dos produtos e intencionalmente produzida para fins de comercio. A 
partir desse momento ... consolida-se a separa~iio entre a utilidade das coisas para a satisfa~ao 
de necessidades imediatas, e a sua utilidade para o comercio: o valor de uso se separa do 
valor de troca." Marx: El Capital, tomo I, pag. (\0, da tradu~ao de Justo. 
24 
{ 
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respeito dessas tecnicas. Em outras palavras: criar os rudimentos mais 
grosseiros daquilo que,posteriormente, viria a se chamar ciencia, cultura, 
ideologias. 
Com o aumento do seu rendimento, o trabalho do homem adquiriu 
certo valor. Em outros tempos, quando a produc;:ao era exfgua, e o cultivo 
consistia, por exemplo, apenas em semear alguns graos depois de arranhar 
o solo entre troncos cortados20, o aumento da natalidade era severarnente 
reprimido.21 A comunidade se mostrava tao incapaz de assegurar a ali-
mentac;:ao de indivfduos alern de certo numero que, quando uma tribo 
vencia outra, ela se apoderava das riquezas desta, mas tambem matava 
todos os seus membros, porque recebe-los no seu seio seria catastr6fico. 
Mas, tao cedo o bem-estar da tribo aumentou, por causa das novas tecnicas 
de produc;:ao, as prisioneiros de guerra passaram a ser desejados, e o 
inimigo vencido passou a ter a sua vida garantida com a condic;:ao de 
transformar-se em escravo. A medida que cresciam os rebanhos, maior 
era a necessidade de indivfduos que cuidassem deles, mas como a reproduc;:ao 
dos animais era rnais rapida do que a humana, era 6bvio que apenas a 
tribo, com a sua natalidade, nao poderia satisfazer a mencionada exigencia 
de brac;:os.22 Agora, incorporar indivfduos estranhos a tribo, para explorar 
o seu trabalho, era, ao mesmo tempo, necessaria e possfvel. 
E desnecessario dizer que o trabalho escravo aumentou o excedente 
de produtos de que a comunidade dispunha, produtos esses que os 
"administradores", como representantes da comunidade, comerciavarn, tanto 
com as tribos vizinhas, quanta com as longfnquas. As coisas continuaram 
assirn ate que as func;:oes dos "organizadores" passararn a ser hereditarias, 
e a propriedade comum da tribo - terras e rebanhos - passou a constituir 
propriedade privada das famflias que a administravam e defendiam. Donas 
dos produtos, a partir desse momento as famflias dirigentes passaram 
tambem a ser donas dos homens.23 
Essa transformac;:ao tern grande importiincia para n6s. Na sociedade 
primitiva, a colaborac;:ao entre os homens se fundarnentava na propriedade 
20. Era assim que os indios da America do Norte plantavam o milho quando chegaram 
os conquistadores. Nao muito mais perfeita era a Tacla que os incas usavam para cavar, 
apoiando o pe sobre uns paus em forma de cruz. 
21. Descamps, ob. cit., pag. 45. 
22. Engels: El Origen de Ia Familia, de Ia Propiedad Privada y del Estado, pags. 
51-52. 
23. "Esse remanescente de urn fundo social de produ~iio e de reserva base de todo o 
progresso social, politico e intelectual, passou a ser patrim6nio de uma classe privilegiada 
que obteve nesse mesmo momento, e por esse meio, a hegemonia polftica e a dire(iio 
espiritual." Engels: Anti-Diihring, pag. 208. 
25 
coletiva e nos la<;:os de sangue; na sociedade que come<;:ou a se dividir 
em classes, a propriedade passou a ser privada e os vfnculos de sangue 
retrocederam diante do novo vfnculo que a escravidao inaugurou: o que 
impunha o poder do homem sobre o homem. Desde esse momento, os 
fins da educa<;:ao deixaram de estar implicitos na estrutura total da 
comunidade. Em outras palavras: com o desaparecimento dos interesses 
comuns a todos os membros iguais de urn grupo e a sua substitui<;:ao por 
interesses distintos, pouco a pouco antagonicos, o processo educativo, que 
ate entao era unico, sofreu uma parti<;:ao: a desigualdade economica entre 
os "organizadores" - cada vez mais exploradores - e os "executores" 
- cada vez mais explorados - trouxe, necessariamente, a desigualdade 
das educat;;oes respectivas. As famflias dirigentes que organizavam a 
produ<;:ao social e retinham em suas maos a distribui<;:ao e a defesa 
organizaram e distribufram tambem, de acordo com os seus interesses, 
nao apenas os produtos, mas tambem os rituais, as cren<;:as e as tecnicas 
que os membros da tribo deviam receber. Libertas do trabalho material, 
o seu 6cio nao foi nem esteril, nem injusto, a princfpio. Com os rudimentares 
instrumentos da epoca, nao seria concebfvel que alguem se entregasse a 
fun<;:oes necessdrias, mas niio produtivas, a menos que muitos outros 
trabalhassem para esse alguem. Mas, se a apari<;:ao das classes sociais foi 
uma conseqtiencia inevitavel da escassa produtividade do trabalho humano, 
tambem nao e menos certo que os que se libertaram do trabalho manual 
aproveitaram a vantagem conseguida para defender a sua situa<;:ao, niio 
divulgando os seus conhecimentos, para prolongar a incompetencia das 
massas e, ao mesmo tempo, assegurar a estabilidade dos grupos dirigentes. 
Nos primeiros tempos da comunidade primitiva, qualquer urn podia 
ser, momentaneamente, juiz e chefe, mas, agora que a estrutura social 
come<;:ava a complicar-se, certos conhecimentos passaram a ser requeridos 
para o desempenho de determinadas fun<;:oes, conhecimentos esses que os 
seus detentores come<;:aram a apreciar como fonte de dom[nio. Os que 
conviviam com os "organizadores" dispunham de mais facilidades do que 
os membros comuns da tribo, para aprender essa missao. Por esse motivo, 
os funcionarios que representavam os interesses comunais costumavam ser 
eleitos entre os membros da mesma familia. Cada "organizador" educava 
os seus parentes para o desempenho do seu cargo, e predispunha o resto 
da comunidade para que os elegess~. 24 Com o passar do tempo, essa 
elei<;:ao se fez desnecessaria: os "organizadores" passaram a designar 
aqueles que deveriam sucede-los e, desse modo, as fun<;:oes de dire<;:ao 
passaram a ser patrimonio de urn pequeno grupo que defendia ciufnentamente 
" 24. Bogdanof. Economia Polftica, pag. 39. 
26 
~ 
os seus segredos. Para os que nada tinham, cabia o saber do vulgo; 
para os afortunados, o saber de iniciat;;iio. 
As cerim6nias de iniciat;;iio constituem o primeiro esbo<;:o de urn 
processo educativo diferenciado, que, por isso mesmo, ja nao era espontaneo, 
mas coercitivo. Elas representam o rudimento do que mais tarde viria a 
ser a escola a servi<;:o de uma classe. Os magos, os sacerdotes e os sabios 
- primeiramente simples depositarios e, posteriormente, donos do saber 
da tribo - assumem pouco a pouco, juntamente com a fun<;:ao geral de 
conselheiros, a fun<;:ao mais restrita de iniciadores. Cada tribo foi recolhendo 
atraves dos anos uma larga experiencia que foi sendo cristalizada em 
tradi<;:6es e mitos. Mescla ca6tica de saber autentico e de supersti<;:oes 
religiosas, esse acervo cultural constitufa o reservat6rio espiritual que 
protegia o grupo na sua !uta contra a natureza e contra os grupos rivais. 
Nas cerim6nias de inicia<;:ao, os sacerdotes explicavam aos mais seletos 
dos jovens da classe dirigente o significado oculto desses mitos e a 
essencia dessas tradi<;:oes. Essas cerim6nias de inicia<;:ao eram acompanhadas 
ou precedidas por provas duras, dolorosas e, as vezes, mortais, destinadas 
a experimentar a tempera dos futuros dirigentes e a salientar de modo 
. impressionante25 o cardter intransfer!vel das coisas ensinadas. 
Do ponto de vista educativo, a partir desse momento ha uma diferen<;:a 
bern grande de nfvel entre os iniciados e os niio-iniciados; na classe 
superior, ainda vamos constatar o mesmo fato se compararmos a criant;;a 
com o adulto. Esta ja recebe menos educa<;:ao e alimentos do que o adulto. 
Da mesma forma, come<;:a a haver uma hierarquia em fun<;:ao da idade, 
acompanhada de uma submissao autoritaria que exclui o antigo tratamento 
benevolo demonstrado para com a infancia, ao mesmo tempo que surgem 
as reprimendas e os castigos. 
Quando a comunidade primitiva ainda nao se havia dividido em 
classes, quando a vida social era sempre igual a si mesma e diferia pouco 
de indivfduo para indivfduo, a propria simplicidade das praticas morais 
colocava as crian<;:as sem esfor<;:o no caminho do habito, e nao era necessaria 
nenhuma disciplina. Porem, agora que surgiram na tribo as relat;;oes de 
dominancia e submissiio, agora que a vida social se complicou ate diferir 
bastante de indivfduo. para indivfduo, de acordo com o Iugar que cada 
25. "Nas festas de iniciar,:ao, quando o jovemingressa no cfrculo dos adultos, consegue-se 
cssa fin ali dade [ fazer com que ele conher,:a as obrigar,:iies sociais superiores] nao s6 fisicamente, 
por processos magicos, mas tambem atraves da inculcar,:ao dos costumes prescritos pela tribo, 
t:specialmente o respeito e a obediencia aos velhos, na alma dos jovens, sensibilizada a toda 
cspecie de impressiies por meio de jejuns e vigflias. E essa sugestao continua forte durante 
toda a vida." Graebner: El Mundo del Hombre Primitivo, pag. 38. 
27 
urn ocupa na produ~ao, resulta evidente tambem que ja nao e possfvel 
confiar a educa~ao das crian~as a orienta~ao espontiinea do seu meio 
ambiente. Estudando 104 sociedades primitivas, Steinmetz verificou que 
em apenas 13 delas a educa~ao era severa. Mas o interessante e notar 
que esses 13 povos ja eram relativamente mais civilizados do que os 
outros.26 
A educariio sistematica, organizada e violenta, surge no momenta 
em que a educariio perde o seu primitivo carater homogeneo e integral.27 
A primitiva concep~ao do mundo como uma realidade ao mesmo 
tempo mfstica e natural, uma realidade por onde circulam forras difusas, 
e agora substitufda por outra concep~ao, em que se reflete a mesma no~ao 
de hierarquia que apareceu na estrutura econ6mica da tribo: deuses domi-
nadores e crentes submissos dao urn matiz original as novas cren~as da 
tribo. Cren~as tao diretamente ligadas a essencia das classes sociais, que 
a continua~ao da vida depois da morte - comum a todos no infcio -
passa mais tarde a ser urn privilegio dos nobres.28 
Nao e necessaria dizer que a educariio imposta pelos nobres se 
encarrega de difundir e refor~ar esse privilegio. Uma vez constitufdas as 
classes sociais, passa a ser urn dogma pedag6gico a sua conservariio, e 
quanto mais a educa~ao conserva o status quo, mais ela e julgada adequada. 
Ja nem tudo o que a educa~ao inculca nos educandos tern por finalidade 
o bern comum, a nao ser na medida em que "esse bern comum" pode 
ser uma premissa necessaria para manter e refor~ar as classes dominantes. 
Para estas, a riqueza e o saber; para as outras, o trabalho e a ignoriincia. 
Esse fato se repete com uma regularidade impressionante nas origens 
de todas as culturas: entre os polinesios, entre os incas, ou entre os 
chineses. Relata-nos Letourneau que os primeiros europeus que visitaram 
as ilhas da Polinesia ouviram dos labios dos membros privilegiados das 
tribos a seguinte afirma~ao: "que lhes parecia muito conveniente instruir 
os seus pr6prios filhos, mas que era inteiramente inutil fazer o mesmo 
com os filhos do povo, que estavam destinados a viver sempre em estado 
servil e a nao ter, portanto, nem propriedades, nem servidores".29 Nao 
26. Citado por Durkheim em L'Education Morale, pag. 210. 
27. Saverio de Dominicis: Scienza Comparata della Educazione, pags. 325 e 470. 
28. "E sabido ha bastante tempo que os polinesios, que do ponto de vista da organiza\=iio 
social possuem classes nobres e nao-nobres, espw.iotuais e nao-espirituais, atribuem a essas 
classes destinos diferentes depois da morte. Ao plebeu, cabera depois da morte urn destino 
sombrio, ao passo que as almas dos nobres e dos caciques subirao ate os deuses... Em 
Tonga, tambem na Polinesia, a separa\=iio ainda e maior: sd os nobres tem alma imortal. 
Para os outros, tudo termina com a mrnte." Graebner, ob. cit., pag. 78. (0 grifo e nosso.) 
" 29. Letourneau, ob. cit., pag. 122. 0 grifo nao esta no original. 
28 
' 
pensavam diferentemente as classes dirigentes entre os incas; pelo menos 
e isso que deduzimos quando vemos Tupaque lupanqui afirmar que nao 
e Ifcito ensinar as crian~as plebeias as ciencias que pertencem aos nobres, 
para evitar que "gentes baixas se elevem, se ensoberbem, desprezem e 
apoquentem a republica; para elas e suficiente aprender os offcios dos 
seus antepassados, porque o mandar e o governar nao sao coisas pr6prias 
dos plebeus, ao mesmo tempo que seria urn agravo a republica e a 
profissao permitir que os plebeus fa~am essas coisas".30 Nao teria sido 
tambem a mesma voz a que ressoou varios seculos atras entre os sabios 
taofstas da China que acreditavam que nao se devia conceder o saber ao 
povo, porque ele desperta desejos, afirmando que ao homem do povo 
bastariam "musculos s6lidos e vontade escassa, est6mago satisfeito e 
cora~ao vazio"?31 
Acompanhando as transforma~5es experimentadas pela propriedade, 
a situa~ao social da mulher tambem sofreu modifica~5es de vulto. Na 
comunidade primitiva, em que imperava o matrimonio grupal, ou urn 
casamento facilmente dissoluvel, a paternidade era diffcil de ser estabelecida, 
e a filia~ao, por esse motivo, se transmitia pela linha materna. 0 matriar-
cado32 sempre aparece junto a essas formas de comunidade fundadas na 
30. Prescot: Historia de Ia Conquista del Peru, con Observaciones Preliminares Sobre 
Ia Civilizacidn de los Incas, pag. 33. 
31. Wilhelm, ob. cit., pag. 163. 
32. Parece que ha aqui uma impropriedade de linguagem da parte do Autor que, 
provavelmente, queria dizer matrilinearidade, em vez de matriarcado. Essa palavra matriarcado 
se presta a confundir o leitor nao versado em Antropologia, merce do significado popular 
do termo. Nesse sentido popular de "governo das mulheres", isto e, de uma sociedade em 
que o poder politico esta inteiramente nas maos das mulheres, nunca existiu, ou, pelo menos, 
nunca se encontrou uma sociedade primitiva em que se tenha positivado a existencia desse 
tipo de organiza\=iiO politico-social. Na concep~ao antropol6gica do termo, matriarcal seria 
qualquer sociedade em que a preeminencia feminina esta institucionalizada em varios aspectos 
importantes da cultura, em detrimento da posi~ao masculina. Nesse sentido do termo, temos 
varias sociedades primitivas - iroqueses, zufii, mairs etc. -em que encontramos organiza~ao 
matriarcal, mas no conjunto das sociedades primitivas conhecidas, a domina~ao masculina e 
bastante mais generalizada. Na opiniao de Margaret Mead ("Woman Position in Society" in 
Encyclopaedia '!f the Social Sciences, vol. XV), e entre os iroqueses que vamos encontrar 
"urn dos mais conspfcuos exemplos do poder politico da mulher na sociedade primitiva; as 
mulheres sao os eleitores, os crfticos oficiais e os censures dos seus jovens parentes 
masculinos" ... Em todo caso, e diffcil separar os "matriarcados" que encontramos em varias 
sociedades primitivas, da gerontocracia, que e uma institui~ao bastante mais difundida, quase 
universal. De fato, por causa da maior longevidade feminina - fato que e observado em 
todas as sociedades, e com maior intensidade nas sociedades primitivas - e possfvel que 
os exemplos encontrados de acentuada inlluencia politico-social das mulheres nao passem 
de uma conseqtiencia da gerontocracia. 
Por outro !ado, matrilinearidade seria urn sistema de usos e costumes baseado na 
dcscendencia em linha materna - heran~a do nome, da propriedade, da posi~ao social etc. -
29 
propriedade comum do solo. Mas quando a domestica<;ao dos animais 
provocou urn aumento da riqueza social, a propriedade privada come<;ou 
a substituir a coletiva: as terras foram repartidas entre os "organizadores", 
e tiveram Iugar grandes transforma<;6es. Para assegurar a perpetuidade da 
riqueza privada atraves das gera<;6es e o beneffcio exclusivo dos seus 
pr6prios filhos - e nao dos filhos dos outros, como ocorreria se o 
matriarcado tivesse subsistido -, a filia<;ao paterna substituiu a materna, 
e uma nova forma de famflia, mon6gama agora, apareceu.33 Com ela, a 
de que podemos encontrar abundantes exemplos, tanto em sociedades primitivas, quanta em 
sociedades civilizadas. 
E bastante comum encontrarmos a matrilinearidade associada ao matriarcado, mas e 
preciso nao esquecer que as pniticas matrilineares nao sao incompatfveis com uma acentuada 
predominiincia masculina na sociedade (patriarcado ). 
Alem de matriarcal e matrilinear, uma sociedade ainda pode ser classificada como 
matrilocal ou patrilocal. No primeiro caso, o marido vai morarna casa ou na aldeia da 
sua mulher, com exceyaO dos chefes, que permanecem sempre na sua casa. No segundo 
caso, a mulher e que se muda. E preciso distinguir ainda se a matrilocacidade e permanente, 
ou se e passageira (marido morando junto com a familia da sua mulher para pagar, com 
os seus serviyos, o "preyo de compra da esposa"). 
Os primeiros autores que chamaram a aten~ao dos estudiosos para os problemas do 
matriarcado e da matrilinearidade foram J. J. Bachofen (Das Mutterrecht), L. H. Morgan 
(La Sociedad Primitiva), R. Mac Lennan (Primitive Marriage) e E. Westermarck (A Short 
History (Jf Marriage), que, como evolucionistas que eram, admitiram o matriarcado e a 
matrilinearidade como institui~oes anteriores ao patriarcado e a patrilinearidade. Esse ponto 
de vista, extremamente "iecundo sem duvida, precisa, contudo, ser reconhecido como uma 
simples hip6tese de trabalho, e nao como uma conclusao estabelecida. (Nota do Tradutor.) 
33. Morgan encontrou entre os iroqueses uma forma de familia, mon6gama e facilmente 
dissoluvel, que denominou famflia por emparelhamento. Todavia, o sistema de parentesco 
vigente entre os iroqueses nao estava de acordo com o seu sistema familiar. Por exemplo, 
o iroques chamava filhos nao s6 os seus pr6prios, como ainda os dos seus irmiios, que, por 
sua vez, o chamavam pai; ja aos filhos das suas irmiis tratava ele de sobrinhos, e era por 
eles tratado de tio. Correspondentemente, os filhos de irmiios do mesmo sexo tratavam-se 
mutuamente de irmiios, ao passo que os filhos de irmiios de sexo d!ferente tratavam-se 
mutuamente de primos. Posteriormente foi descoberto nas Ilhas Sandufche (Havaf) urn tipo 
de familia que era perfeitamente coerente com o sistema de parentesco relatado por Morgan. 
0 curiosa e que tambem ali nao havia correspondencia entre o sistema familiar vigente e 
os la~os de parentesco. No Havaf, todos os filhos de irmaos e irmas tratavam-se mutuamente 
de irmiios, e chamavam os seus tios e as suas tias de pai e mile, respectivamente. 
Correspondentemente, todos eram chamados filhos, tanto pelos seus verdadeiros pais, quanta 
pelos seus tios e tias. 
Tanto o sistema de parentesco vigente entre os mencionados indios americanos, quanta 
o das II has Sandufche levavam a supor a existencia de urn tipo de organiza~ao ·familiar 
diverso do vigente no momento, organiza~ao familiar essa que, tendo desaparecido, deixou 
marcas visfveis no sistema de parentesco. 0 tipo de familia que poderia ter da~o origem 
ao sistema de parentesco encontrado por Morgan foi, como dissemos, encontrado posteriormente 
nas Jlhas Sandufche, mas o que poderia ter dado margem ao sistema de parentesco vigente 
nessas Jlhas nao foi encontrado em Iugar algum. Mas esse tipo de familia deveria ter existido 
30 
mulher foi relegada a urn segundo plano, passando a ocupar-se tiio-somente 
comfunroes domesticas, que deixaram de ser sociais. A mulher, antigamente, 
quando, juntamente com 0 homem, desempenhava fun<;5es uteis a comu-
nidade, gozava dos mesmos direitos que este; mas perdeu essa igualdade 
c passou a servidao no momento em que ficou afastada do trabalho social 
produtivo, para cuidar apenas do seu esposo e dos seus filhos. A sua 
educarao, ao mesmo tempo, passou a ser uma educariio pouco superior 
d de uma crianra. 
Nessa famflia patriarcal, que se organizou baseada na propriedade 
privada, Marx notou argutamente que ja existiam em germe todas as 
contradi<;6es do nosso mundo de hoje: urn marido autoritario, que representa 
a classe opressora, e uma esposa submissa, que representa a classe oprimida. 
Antes de abandonarmos o tema da educa<;ao do "homem primitivo", 
no momento da sua transi<;ao para o "homem antigo", chamemos a aten<;ao 
do leitor para urn fato que reputamos muito importante: no momento em 
que surgem a propriedade privada e a sociedade de classes, aparecem 
tambem, como conseqtiencias necessarias, uma religiao com deuses, a 
cduca<;ao secreta, a autoridade paterna, a submissao da mulher e dos filhos, 
c a separa<;ao entre OS trabalhadores e OS sabios. Sem deixar, entretanto, 
de ter fun<;5es socialmente uteis, a administra<;ao dos bens da coletividade 
transformou-se na opressao dos homens, e a dire<;ao, no poder de explora<;ao. 
Os defensores armados das obras de irriga<;ao ou dos depositos de vfveres 
passaram a ser os servidores armados do patriarca, do rei ou do "saquem".34 
porque, do contrario, seria diffcil arranjar uma explica~ao plausfvel para o sistema de 
parentesco encontrado no Havaf. 0 fato de persistir urn sistema de parentesco, mesmo depois 
do desaparecimento do tipo de familia que !he den origem, e facilmente compreensfvel por 
scr a familia urn elemento diniimico, e o sistema de parentesco, urn elemento estatico. Este 
·"' se modifica a largos intervalos, ao passo que a estrutura familiar muda dia a dia. 
No sistema de parentesco encontrado por Morgan, e que corresponde ao tipo de familia 
dcscoberto nas Ilhas Sandufche, dois irmaos nao podiam contrair matrimonio, isto e, nao 
podiam ser o pai e a mae da mesma crianya. Por outro !ado, o sistema de parentesco 
vigorante nas Ilhas Sandufche supoe urn tipo de familia em que isso seria possfvel. Continuando 
com esse raciocfnio, vamos chegar a urn tipo de familia, tambem nunca encontrado, que o 
Rev. Fison denominou matriml!nio grupal, e no qual certo numero de homens estaria casado, 
potencial ou realmente, com certo numero de mulheres. Evidentemente, nesta organiza~ao 
familiar, todas as crian~as iriam considerar-se, reciprocamente, irmaos, e encarar como pai 
,. como mae todos os homens e todas as mulheres do grupo, respectivamente. 
Esta hip6tese do matrimonio grupal, extremamente fecunda em conseqiiencias, tern sido 
uq•,ada por muitos autores. Westermarck, por exemplo, recusou-se sempre a admitir que esse 
I q>o de familia tivesse existido, e ainda hoje Thurnwald segue-lhe as pegadas. (Nota do 
Tradutor.) 
34. Denominayiio dos membros do conselho das tribos iroquesas da America do Norte. 
I ·:u1 iroques, esse nome significa "conselheiro do povo". Tratava-se de urn representante tribal 
31 
0 soberano e a sua famflia, os funcionarios e os magos, os sacerdotes e 
os guerreiros passaram, desde esse momento, a constituir uma classe 
compacta, com interesses comuns, em grande parte opostos ao do grupo 
total. 
Mas ainda estava faltando alguma coisa: uma instituic;:ao que nao so 
defendesse a nova forma privada de adquirir riquezas, em oposic;:ao as 
tradic;:oes comunistas da tribo, como tambem que legitimasse e perpetuasse 
a nascente divisao em classes e o "direito" de a classe proprietaria explorar 
e dominar os que nada possufam. E essa instituic;:ao surgiu: o Estado.35 
Instrumento poderoso nas maos da classe exploradora, o Estado teve 
no chefe supremo o seu representante e o seu cimo. Convinha aos interesses 
dos ricos revesti-lo de urn halo religioso. Guerreiros e escribas, sacerdotes 
e artistas - cada qual no seu campo - contribufram para cria-lo. E, 
ainda que eles, pessoalmente, nao tivessem a menor duvida a respeito da 
natureza do grande chefe, e que nao vacilassem em dep6-lo todas as vezes 
em que se mostrava inutil ou covarde - como o fizeram os chancas da 
America do Sui com o inca Urco, filho do Sol36 -, tambem e certo que 
fomentavam de todos os modos possfveis a submissao supersticiosa da 
plebe. Desde a piramide imponente, ate a cerimonia pomposa, tudo 
contribufa para reforc;:ar esse prestfgio, para infundir na alma das massas 
o carater divino das classes abastadas. Naqueles tempos, as classes favo-
recidas nao dispunham dos poderosos meios de persuasao e divulgac;:ao 
que hoje estao ao alcance dos seus herdeiros: o jornal de seis edic;:oes 
diarias, que se vende aos milhares, o telegrafo, que so transmite de urn 
hemisferio a 6utro as ri'otfcias que convem aos seus interesses. Mas os 
detalhes mais triviais em aparencia se carregavam, mesmo nas sociedades 
mais afastadas da nossa, com intenso significado de domfnio. As crenc;:as 
na superioridadedas classes dirigentes esboroar-se-iam com o tempo, se 
nao fossem periodicamente reavivadas. 0 Professor Malinovisqui, da Uni-
versidade de Londres, que estudou cuidadosamente os atuais aborigines 
do noroeste da Melanesia, conta-nos o seguinte fato, que ele proprio 
presenciou: "0 cerimonial importante e complexo que acompanha as 
manifestac;:oes de respeito para com as pessoas de qualidade repousa sobre 
a ideia de que urn homem de nobre linhagem deve permanecer sempre 
em urn nfvel fisicamente superior ao dos indivfduos que nao pertencem 
eleito livremente pelos iroqueses para representa-los no conselho das tribos. Seria correspondente 
aos nossos vereadores, ou deputados. Cf., a respeito, L. H. Morgan: La Sociedad Primitiva, 
especialmente o Capitulo V. (Nota do Tradutor.) 
35. Engels: El Origen de la Familia, de la Propiedad Privada y del Estado, pag. 101. 
36. Baudin: El Imperio de los Incas y /a Conquista Espwiola, pag. 13. .. 
32 
"' 
;, sua classe. Em presenc;:a de urn nobre, todos os homens de classe inferior 
dcvem abaixar a cabec;:a, ou inclinar-se, ou ajoelhar-se, de acordo com o 
scu grau de inferioridade. Sob nenhum pretexto devem levantar a cabec;:a 
de modo que esta fique mais alta do que a do seu chefe. A casa deste 
G guarnecida de pequenos estrados; durante as reunioes da tribo, o chefe 
coloca-se sobre urn deles, de modo que os assistentes possam circular 
livremente, mantendo-se sempre em urn nfvel inferior ao seu. Quando urn 
plebeu tern de passar junto a urn grupo de nobres que estao sentados no 
chao, ele deve gritar de Ionge tocai (de pe); imediatamente os chefes se 
lcvantam, enquanto o plebeu passa de rastros. Poder-se-ia pensar, por 
causa da complicac;:ao, que chega a ser embarac;:osa, desse cerimonial, que 
os indivfduos freqiientemente se sintam tentados a desrespeita-lo, mas tal 
nao se da. Quando estava na aldeia conversando com o chefe, tive a 
oportunidade de ve-lo varias vezes levantar-se imediatamente ao grito de 
tocai. Isso acontecia cada quinze minutos, mais ou menos, e o chefe 
permanecia de pe, enquanto o plebeu passava lentamente, inclinado ate o 
chao."37 Mas riao eram so as cerimonias do protocolo que contribufam 
para educar as massas na submissao e no respeito. A religiao, a arte e 
a sabedoria as hipnotizavam diariamente com uma exaltac;:ao das classes 
governantes. Existia uma escrita sagrada e outra profana, uma musica dos 
grandes e outra dos miseraveis, uma imortalidade para aqueles e uma 
mortalidade para estes e, alem disso, o desenho do corpo humano variava 
de acordo com a hierarquia social do retratado. Urn dos maiores egiptologos 
modernos, Ehrmann, assegura que os pintores egfpcios representam os 
simples mortais empregando uma tecnica naturalista, ao passo que estili-
zavam o corpo dos poderosos. Urn amplo peito, por exemplo, era uma 
caracterfstica so permitida nos desenhos que representavam nobres, e essa 
caracterfstica tinha tal intenc;:ao social que o artista nao a alterava, mesmo 
que a perspectiva o exigisse.38 
Descrevemos os modos de atuac;:ao da religiao e da arte para podermos 
compreender de que modo a educac;:ao ministrada pela classe dominante 
sufocava, com variados recursos, as possfveis rebeldias das classes domi-
nadas. Mas como a nos interessa, em especial, a conduta dos "conselheiros" 
c dos "iriiciadores" da tribo, escolhamos urn fato que mostre bern de que 
modo o saber uniu, desde o infcio, o seu destino ao das classes opressoras. 
Havia no Egito antigo urn dispositivo admiravel para a epoca, chamado 
ni!Ometro, que permitia conhecer com boa exatidao o crescimento das 
37. Malin6visqui: La Vida Sexual de los Salvajes del Noroeste de la Melanesia, 
rag. 36. 
38. Citado por Bucarin: La Theorie du Materialisme Historique, pag. 209. 
33 
aguas do Nilo e prognosticar o volume da futura colheita. De acordo com 
essas informa~6es, que eram mantidas em segredo, os sacerdotes aconse-
Ihavam os lavradores. As classes inferiores recebiam desse modo urn 
excelente servi~o, que a propria ignorancia em que viviam, provocada por 
urn trabalho ininterrupto, impossibilitava que realizassem. Mas o nil6metro 
servia duplamente as classes dirigentes, ainda que 0 objetivo fosse urn s6. 
Por urn !ado, quanto maior fosse a colheita, maiores os impostos39, por 
outro, aquelas informa~6es precisas a respeito da iminencia do crescimento 
das aguas - informa~6es essas que s6 as autoridades estavam em condi~6es 
de possuir - emprestavam ao soberano a ascendencia das divindades: no 
momento oportuno, o Fara6 Ian~ava no rio as suas ordens escritas, e entao 
- s6 entao - as aguas obedientes come~avam a subir ... 
I 
39. Nao e necessaria dizer que na comunidade primitiva nao exmtiam impastos. 
34 
CAPITULO II 
A EDUCA<;AO DO HOMEM ANTIGO 
Primeira Parte - Esparta e Atenas 
A passagem da comunidade primitiva para a sociedade dividida em 
classes exige algumas advertencias previas para nao incorrermos em erros 
muito comuns. Quando estudamos as origens das classes sociais, temos a 
tendencia de supor que logo em seguida aparece a !uta consciente entre 
essas classes. 
A !uta consciente propriamente dita entre as classes de uma sociedade, 
no entanto, nao se desenvolve, a nao ser em determinado momento da 
evolu~ao dessa sociedade, 1 e requer, portanto, urn extenso perfodo preliminar 
em que ja existem contradi~6es entre os interesses das classes existentes, 
mas em que essas contradi~6es apenas se manifestam de modo obscuro 
e insidioso. Poi o que afirmaram Marx e Engels no primeiro paragrafo 
do Manifesto Comunista, quando disseram que a hist6ria da sociedade 
humana era a hist6ria das Iutas entre opressores e oprimidos, "!uta 
ininterrupta, velada algumas vezes, franca e aberta outras"?b"S"se-escla-
recimento fica complementado com a distin~ao fundamental que Marx ja 
havia feito em Mise ria da Filosofia, entre classe em si e classe para si. 3 
A classe em si, apenas com existencia econ6micaJ...se define pelo papel 
I. Bucarin: La Theorie du Materialisme Historique, pag. 33. 
2. Marx e Engels: El Manifiesto Comunista, pag. 60. (0 grifo e nosso.) 
3. Marx: Miseria de Ia Filost!ffa, pag. 106-107. 
35 
que desempenha no processo da produc;ao; a classe para si, com existencia 
econom1ca e ps1col6gica, se define como uma classe que ja adquiri:u 
consciencia do papel . hist6ricq que desempenha, is to e, como ;rna classe 
que sabe a q~ Para que a classe em si se converta em classe 
para si, e necessaria, portanto, urn Iongo processo de esclarecimento, em 
que os te6ricos e as pr6prias peripecias da !uta desempenham uma 
amplfssima func;ao.4 
Mais ciumentas dos seus bens, por causa da imporHincia dos interesses 
que deviam defender e pela possibilidade de refletir a respeito desses 
interesses, mediante o "6cio" que lhes era assegurado pelo trabalho alheio, 
as classes opressoras adquiriram, em relac;ao as oprimidas, uma consciencia 
mais clara de si pr6prias. Em virtude desta maior precisao de prop6sitos, 
elas adaptaram bern a sua educac;ao, e a que ministravam aos outros, aos 
fins que visavam. 
Para ser eficaz, toda educac;ao imposta pelas classes proprietarias 
deve cumprir as tres finalidadesessenciais seguintes: I o destruir os vestfgios 
d~uer tradic;ao inimiga, 2o consolidar e ampliar a ;ua pr6Qria sitld.!!S:~..O 
ct'e classe dominante, e 3° prevenir uma possfvel rebeliao das classes_ 
dominadas. No plano da educa(:iio, a classe dominante opera, assim, em 
ires frentes distintas, e ainda que cada uma dessas frentes exija uma 
atenc;ao desigual segundo as epocas, a classe dominante nao as esquece 
nun ca. 
No momenta da hist6ria humana em que se efetua a transformaQiio 
da sociedade comunista primitiva em sociedade dividida em classes, a 
educac;ao tern como fins especfficos a !uta contra as tradi<;6es do comuniSil!_O 
tribal, a incu!cac;ao da ideia de que as classes dominantes s6 pretendem 
assegur~r a vida das domin'idas, e a vigilancia atenta para extirpar e 
corrigir qualquer movimento de protesto da parte dosoprimidos.--~-
0 ideal pedag6gico ja nao pode ser o mesmo para todos; nao s6 
as classes dominantes tern ideais muito distintos dos da classe dominada, 
como ainda tentam fazer com que a massa laboriosa aceite essa desiguald1!.,de 
de educac;ao como uma desigualdade imposta pela natureza das coisas, 
l!ma desigualdade, portanto, contra a qual seria loucura rebelar-se. 
Vamos estudar agora, numa rapida viagem pela Grecia e por Roma, 
de que modo as classes exploradoras conseguiram cumprir os seus prop6sitos 
na Antigiiidade. 
Quando os .~ entraram para a Hist6ria, r_estavam apenas alguns 
vestfgios do comunismo primitivo. As notfcias mais remotas indicam que 
-
4. Lenine: Que Hacer? 
36 
.. 
o matriarcado foi substitufdo pel a autoridade paterna ou, o que vern a dar 
no ~esmo, que a propriedade coletiva foi vencida pela privada. Bachofen 
comentou sagazmente a Orestia de Esquilo como urn sistema revelador 
deste momenta em que ainda Iutam o agonizante direito materna e o 
direito paterno, cada vez mais triunfador. 
qs chefes militares, os basileus, a,i.nda eram eleitos pela comunidade, 
mas ja· havia uma tendencia para que essa (unc;ao fosse transmitida ds;, 
12ai a filho. Desde o seculo X ate o VIII a.C., as tribos gregas v~ 
quase que exclusivamente da agriculturih, cada famflia constituindo urn 
todo que se bastava a si mesmo. Em tais condic;oes s6 podiam vender o 
que sobrava das suas necessidades. ao mesmo tempo que s6 compraY.i!IJl 
cfs"_poucos produtos que a terra nao fornecia, ou os escassos utensflios 
que a industria domestica nao sabia fabricar. Nesse momenta, ainda nao 
havia comercjQ. na Greet!.:_ os comerciantes que figuram na Odisseia sao 
todos f~s.5 ~-
Mas e desnecessario dizer que ja comec;avam a surgir diferenc;as de 
classe. Ja existiam escravQs, e ja vimos que os "funcronarios" estavam 
em via de se converterem em nobreza~editaria. A partir do seculo VII 
a,C., com o aumento do rendimento do trabalho humanQ... a economia 
~~ comec;ou a suplantar a puramente ~grfcola~ Pouco a pouco, 
comec;ou-se a produJ!r tambem com fins comerciais. S9b o controle e 
para o Qroveitodas classes dominantes, o comercio foi confiado aos 
e~avos e aos estrangeiros. Desligadas do trabalho manual e do intercambio 
dos produtos, as classes superiores ja eram nessa epoca socialmente 
improdutivas. · 
Ainda que, para o grego patricio, o comercio continuasse sendo tao 
indigno quanto o trabalho, nem por isso ele deixava de embolsar os 
proventos que os seus escravos obtinham como mercadores ou como 
artesaos. Eram ILUmerosos os escravos e os libertos que viviam Ionge dos 
seus amos, tr~ando no comercio on no artesanato, _e entregando aos_ 
s~ores tudo o que ganhavam ou uma parte a.penas dos seus lucr~. 
0 avaro famoso de que fala Teofrasto nos seus Caracteres entregou a 
urn escravo a direc;ao dos seus neg6cios.6 
Mas o pequeno desenvolvimento das tecnicas_de produ~ao_e__QQ§ 
m~i.os de transporte da epoca niio poderia permitir urn grande desenyo]-
v_imento ao pequeno comercio. Transportando-se poucas vezes de uma 
cidade para outra com custosas caravanas ou, mais freqiientemente, co-
mcrciando em sua propria cidade, o pequeno comerciante se entregava a 
5. Bernard: Les Pheniciens er l'Odyssee. 
6. Teofrasto: Caracteres, pag. 70. 
37 
esse genero de vida, porque nao servia para nenhum outro mister. Invalidos, 
doentes, e mesmo mulheres, eram os que se dedicavam especialmente ao 
tr:ifico de mercadorias, porque, se o pequeno comercio ja tinha uma longa 
hist6ria, 0 grande comercio, isto e, 0 comercio marftimo, que daria mais 
tarde esplendor a Grecia, custou bastante a implantar-se. 
0 escasso desenvolvimento dos meios de prodw;ao nao permj_tia 
......------. > 
lan£ar no mercado urn grande excedente de produtos. E sabido que quase 
toda a tecnica dos antigos se re~umia JULi.orr;:a humana, ajudada por 
alEancas, roletes e pianos inc:Unado_~ ....... }e vinte escravos nao bastavam 
para urn trabalho, usavam cern, ou trezentos, ou mil. Com semelhante 
facilidade e economia, n~ havia necessidade de aperfeir;:oar as tecnic_i!s 
d.e trahalhn.. Ainda no seculo VI a.C., o arquiteto do primeiro templo de 
Efeso nao dispunha de maquinas para Ievantar as enormes arquitraves do 
ediffcio. Recorreu, entao, ao unico procedimento que a Antigliidade conhecia: 
amontoou sacos de areia, formando urn plano inclinado, ate chegar a altura 
do cimo das colunas, e empurrou por eles as arquitraves, a forc;a de 
brac;os. Assim, mesmo quando se empreendiam trabalhos gigantescos, os 
processos empregados eram artesanais. 0 mesmo ocorria na agricultura: 
basta dizer que o primitivo e grosseiro arado permaneceu inalterado durante 
seculos. 
Todavia, a partir do seculo V a.C., as exigencias de urn comercio 
cada vez mais florescente impuseram duas inovac;oes de enorme imp~:­
a cunhagem de moedas, que facilitou muito o processo da troca, e.. o 
ap_erfeic;oamento dos aparelhos de navegac;ao, que permitiu as grandes 
viagens marftimas.7 0 comercio marftimo enriqueceu a nobreza, e ainda 
que o leitor tenha ouvido muitas vezes que o unico ideal do cidadao 
grego era a beleza, parece que esse ideal nao era incompatfvel com a 
mais infqua usura. 8 , 
EmprestandQ dinheirQ ~ob llipoteca, o nqbre - que ja era dono de 
muitas terras - ia-se assenhoreando das terras alheias. E, como ao antigo 
chefe eleito por todos havia sucedido o arconte, eleito unicamente pela 
nobreza, nada tern de assombroso que surgisse uma legislac;ao feroz, 
destinada a proteger o credor contra o devedor O_cidadao pobre que 
p~dera as suas terras poderia considerar-se feliz se lhe permitissym 
C?ntinuar cultivando essas mesmas terras na qualid~.s;_de........co.leno,... fQ!!l_J!. 
condic;ao de entregar ao novo proprietario cinco sextol)_do_..-seu .. tr..ab-a-lho. 
7. Saglio: "Machina", in Dictionnaire des Antiquites Grecques et Romaines, de Darenberg 
e Saglio, tomo III, parte II, pag. 1463. 
8. A taxa de 18% era legal. Cf. Wallon: Histoire de l'Esclavage dans l'Antiquite, tomo 
1, pag. 202. 
38 
-
Isso acontecia no melhor dos casos, porque podia ocorrer que o 
valor . irado da terra nao fosse suficiente para cobrir o adiantamento 
recebido. Nesse caso, o deve or ven Ia os seus 1 os como es , ou ·-se vendia a si proprio, quando nao os tinha. As dfvidas se uniam a guerra 
para aumentar o numero de escravos. Os escravos ja nao eram os membros 
de uma tribo estranha, a quem se concedia a vida, em troca de urn 
trabalho sem descanso. Outra guerra, nao externa, mas interna, comec;ava 
agora a produzi-los: a guerra do credor contra o devedor, guerra que nao 
cessa por urn s6 instante 1stona da Antigliidade.9 
Temos, entao, de urn lado, a concentrac;:ao gradu_&_da propriedad~J.~ 
em poucas maos e, do outro, urn empobrecimento cada vez mais acentuado ~ 
das massas. Eis af o prohlemiJ social que aparece obstinadamente na C"fr6cia "> 
antiga. Capazes tao-somente de dominar a natureza dentro de limites muito 
reduzidos, OS Estados agrfcolas da Antigliidade nao podiam deixar de 
encarar a guerra como urn modo natural de adquirir novas riquezas. 10 
P.9.ssuidor de terras, proprietario de escravos e guerreir~~iLJ!L.Q.. 
homem das classes dominantes. 0 -~"' ~ ~~ -~ ~~ 
oU:_., ~ 
Em relac;ao a educacao de que necessita.Ya e~h.Q.!illllil, Esparta e 
Atenas apresentam aspectos algo diferentes que nos importa precisar, para 
ir destacando, pouco a pouco, 0 carater de classe da educac;ao grega. 
Ainda que se tenha falado muitas vezes da existencia de urn 
"comunismo aristocn'itico" em Esparta, a expressao nao e inteiramente 
exata. E verdade que Licurgo repartiu em partes iguais a terra ~ as 
nove mil famflias que formavam a classe ~}!Q~i.2!:,. mas tambem e verdade 
que nao Jogrou exito quando tentou distribuir, dessa mesma forma, OS 
\ instrumentos de cultivo. 11 
\ _ ____...---t;:> tO~ ~ ~ ~ "f~ f..~ 
9. Os termos devedor e credor, ainda que sejam demasiado vagos para descrever com 
exatidao as lutas sociais da Antigiiidade, parecem preferfveis, contudo,a tendencia de 
lransladar para essa epoca modernas expressoes como burgueses, proletarios, capitalistas etc., 
com as quais se deforma involuntariamente o carater original das lutas antigas. Cf. uma 
advertencia do proprio Marx em Le Capital, tomo I, pag. 107, nota I da tradu~ao de Molitor. 
La se critica a Mommsen por haver falado, em sua Hisuiria Romana, de capital e de 
dom(nio do capital. Da mesma forma, no tomo I, pag. 121, nota I da tradu~ao de Justo e 
no tomo XIV, pag. 65 da tradu~ao de Molitor. 
10. Arist6teles: Politique, pags. 28-29. Eis as palavras textuais de Arist6teles: "A guerra 
e, de certo modo, urn meio natural de adquirir, uma vez que se refere a esta cara que se 
dcve dar aos animais selvagens e aos homens que, nascidos para obedecer, se recusam a 
submeter-se; e uma guerra que a propria natureza tornou leg(tima." Para maiores detalhes, 
cf. Cicotti: "Pace e Guerra nei Poemi Omerici e Isiodei", in Rivista Italiana de Sociologia, 
a no IV, fasc. VI, pags. 696-707. 
I I. Beer: Histoire Generate du Socialisme et des Luttes Sociales, tomo I, pag. 75. 
39 
nr f1 
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Fl 
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J' !~ 1 
11 
Apesar da reforma de Licurgo, continuou existindo desigualdade de 
fortuna entre os cidadaos espartanos, e · essa .desigualdade acentuou-se com 
o tempo. Temos, por exemplo, a chamada @:garquia dos lguaTi;)_ que 
concentrou em suas maos quase todas as terras e o poder. 4~~ 
Apesar de donos da terra, os espartanos nao podiam vende-las ou 
lega-las. A sociedade espartana constitufa uma especie de transi~ao entre 
a antiga comunidade primitiva e uma nova sociedade que nao tardaria a 
implantar-se, em que imperava a propriedade privada. 
Q late de terra que o espartano recebia do Fst<~do era transm.itido 
pq_JJ!eran~a ao filho mills velbo e, na ausencia deste, volvia ao E~_ta,gg. 
Como rc;tribuic;ao pelo usufruto da terra, os espartanos se compro-
metia_gl a pres tar os servi~os, e~ecialmente guerreiros, d~ue sua Cla~e 
social necessitava para a defesa ou a expansao. Os filhos defeituosos ou 
debeis eram imolados, porque os interesses da classe proprietaria ficariam 
comprometidos se urn lote passasse as maos de urn herdeiro incapaz para 
o manejo das armas. 
Alem disso, o numero de espartanos propriamente ditos - os nove 
mil cidadaos dos tempos de Licurgo - era bastante exfguo em rela~ao 
ao numero de habitantes submetidos ao seu poder: os 220.000 ilotas, que 
tinham sido dominados depois de sangrentas batalhas e qu~avam 
reduzidos a condicao de trabalhadores_agrfcolas escg_yo~P. e OS 100.000 
periecos,_ que se entregaram sem luta e que CQ._nseguiram com isso a 
liberdade pessoal (liberdade bastante reduzida, que aproV'eitavam para as 
faillas do comercio e da industria, e que os espartanos cobravam atraves 
de freqiientfssimos impastos), mas nao OS direitos cfvicos. 
E verdade que os mais motternos historiadores da Grecia negam que 
os ilotas tenham sido servos no mesmo sentido em que, na ldade Media, 
se empregava a expressao "servos da gleba". 13 Mas, quer os ilotas tenham 
sido escravos na expressao completa da palavra, quer, como parece mais 
possfvel, tenham sido apenas indivfduos semilivres, que pagavam tributos 
aos espartanos, a sua situa~ao nao se alteraria muito, em essencia. Do 
ponto de vista da educa~ao, a conduta das classes superiores se dirigia 
contra eles. QjJrigados a viver entre uma popnla~ao -niiQ inteiramente 1 
submetida e muito mais numerosa do QUcL1LS.L!.a, as classes superiores 
transformaram a sua organiza~ao social num acampamento militar e f1Zeram 
com que a sua educacao estimulasse as virtudes guerreiras.,__. 
12. "Os ilotas eram escravos", afirma Curtius em sua Historia de Grecia, tomo I, 
pag. 277. 
13. Barbagallo: Le Dec/in d'une Civilisation, pag. 314 e segs. Em rela<;:ao a semiliberdade 
de que gozavam, ver a pag. 87. 
40 
• 
•·---~~~~~ • f'"'>- •• O...~A,.-,~ 0._~-
~,;;v y- ~ . ~:::;:~w, 
,/ ~ ~~~ 
~OS sete anos, 9 Estado apode_£ava-se do jovem espartallQ, e nao 
mais abria mao dele. De fato, ate aos quarenta e cinco anos pertencia a 
exercito ati~ e ate aos sessenta, a reserva .. E como o exercito era, na 
realidade, "a nobreza em armas", o espartano vivia permanentemente com 
a espada em punho. 
Como l;lS mulheres tambem faziam parte desse exercito e dirigiam 
urn Jar que nao era francamente mon6gamo - ate o extremo de ser 
freqiiente o fato de varios irmaos terem em comum uma s6 esposa14 -, 
elas se mantinham num n6!el niio inferior ao do homem 
As caracterfsticas da educa~ao militar compartilhada pelos homens S. ~ 
e pelas mulheres espartanas sao tao conhecidas que nao vale a pena iff 
perdermos tempo em descreve-las. Ninguem ignora ate que ponto se 1 
recorria a severidade e a crueldade15 para transformar os mo~os e as , . 
mo~as em rijos soldados, nem desconhece como se fomentava descarada- "~ r· 
mente as praticas do amor homossexual para estreitar os la~os de com- ~~ -. 
panheirismo. Assegurar a superioridade militar sabre as classes submetidas, ~ 1 r 
eis o fim supremo da educac;ao, lj.gjdamente disciplinada por meio .da I 1 
pratica da ginastica e austeramente controlada pelos eforos, os cinco v 
magistrados que exerciam, por delega~ao da nobreza, urn poder quase · ~" 
absoluto. Que produzia semelhante educa~ao? "Selvagens brutais, taciturnos, 
astutos, crueis e, as vezes, her6icos" 16, mas sempre capazes df!~mandar e 
de fazer-se obedecer. 
.. "'>~.,..._. Instruc,;ao, no senti do moderno do termo, quase nao existia entre os 
espart;'nos. Poucos entre os nobres sabiam ler e contar, e era tal o desprezo 
que votavam a tudo que nao fossem "virtudes" guerreiras, que OS jovens 
estavam proibidos de se interessarem por qualquer assunto que pudesse 
distraf-los dos exercfcios militares. 17 
Se esse era o ideal pedag6gico das classes superiores, bastante 
diferente era o que impunham aos ilotas e aos periecos. Temerosos por -
14. Curtius: ob. cit, tomo I, pag. 277. No mesmo sentido, cf. Plutarco: Vidas Paralelas, 
tomo I, pag. 141 e segs. 
15. Na cerimonia chamada "do latego", por exemplo, todos os anos os jovens eram 
a<;:oitados violentamente diante do altar de Artemisa, sem que se lhes permitisse queixarem-se, 
sob pena de desonra. 0 que se mostrava mais impassive! era proclamado o "vencedor do 
altar". 
16. Guillaume: "Education Chez les Spartiates", in Nouveau Dictionnaire de Pedagogie, 
de Buisson. A respeito da educa<;:ao guerreira dos astecas, cf. Alegria: La Educacit5n en 
Mexico, Antes y Despues de Ia Conquista, pag. 42 e segs. 
17. Plutarco: Vidas Paralelas, tomo I, pag. 156: "Porque das coisas boas e invejaveis 
que Licurgo preparou para os seus concidadaos uma foi a sobra de tempo, mio lhes permitindo 
que se dedicassem, de nenhum modo, ils artes mecdnicas." 
41 
~~sa do mimero e da rebeldia dos ilotas, os nobres nao lhes .,permit~19 
nenhum exercfcio gimistico e, sob 0 pretexto de mostrar aos seus pr6prios 
filhos o quanto era abomimivel a embriaguez, obrigavam os ilotas a beber 
em excesso e a desfilar embriagados durante os banquetes. Mas como, 
apesar de tudo isso - de proibi~ao dos exercfcios e da embriaguez que 
fomentavam para embrutece-los -, os ilotas se revoltaram no ano 464 
a.C., as classes "seletas" lan~aram mao de urn recurso verdadeiramente 
decisivo: organizaram uma legiao especial chamada Cripteia, ou "embos-
cada". Os jovens nobres, ageis e valentes, que a integravam, emboscavam-se 
a noite pelos caminhos e assassinavam os ilotas mais robustos ou rebeldes. 18 
Quando a olhamos friamente, surge em toda a sua extensao o carater 
de classe da educa~ao espa~na. Sociedade guerreira, formada a custa d.o 
trabalho do ilota e do comercio do perieco, Esparta se apropriava e vivia 
as expensas do trabalho alheio. Integralmente dedicado a sua fun~ao de 
dominador e de guerreiro, 9-- espartano nobre nao cultivava outro sab~ 
que nao o das coisas das armas, e nao s6 reservava para si -~~_&es 
conhecimentos, como castigava ferozmente, nas classes oprimt9l!§_,_j.QQ9 __ ~ 
qual uer intento de compartilha-lo oude apropriar-se dele. Mas, nao 
contente com acentuar as 1 eren~as de educa~io-segundo -as classes, o 
espartano ainda se esfor~ava por manter sub~ ___ f_'!!:~!J!_les.jd:.QL.Q$_ 
esgavos, por meio do terror e da emkdagJJ£Z... Enquanto, por urn !ado, 
a educa~ao refor~ava o poder dos exploradores, frenava, pelo outro, as 
massas exploradas. 19 
I 8. Eis como Plutarco descreveu essas fa~anhas dos jovens de "mais jufzo": "Em 
determinadas epocas, os magistrados enviavam a diversos Iugares os jovens que pareciam 
ter mais jufzo, os quais Ievavam apenas a espada e os alimentos absolutamente necess:irios. 
Espalhados por lugares escondidos, repousavam de dia, mas de noite safam pelos caminhos 
e matavam os ilotas que conseguiam encontrar, e, muitas vezes, indo pelos campos, liquidavam 
os ilotas mais robustos e poderosos. Refere-se Tucfdides, na sua HisttJria da Guerra do 
Peloponeso, que, tendo sido coroados como Iivres aqueles ilotas que os espartanos haviam 
primeiramente notado como sobressaindo em coragem, percorriam, assim, o templo dos deuses 
e dali a pouco desapareceram de repente, sendo mais de dois mil, sem que na ocasiao, ou 
mesmo depois, alguem tenha podido explicar como foram mortos." Torno I, pag. 162. (0 
grifo e nosso.) Platiio, em Les Lois, in Oeuvres Completes, tomo VII, pags. 25 e 330, da 
uma versiio distinta da Cripteia. Como o testemunho de Plutarco e terminante, niio seria 
impossfvel que a Cripteia, tal como Platiio a descreveu - exercfcio militar em que os 
jovens eram Ian~ados a campanha e em que, durante certo tempo, deveriam viver escondidos 
sem se deixarem surpreender por ninguem -, fosse completada ou aperfei~oada por alguns 
desses "trabalhos praticos" a que s6 Plutarco se referiu. 
I 9. Entre os espartanos nao vamos encontrar os chamados "te6ricos" da educa~ao que 
existiram entre os atenienses e os romanos. As disposi~6es relativas a educa~ao estavam 
implfcitas nos costumes. Parece-me, portanto, completamente injustificada a opiniao de 
Hailman (Historia de Ia Pedagogia, pag. 15), que faz de Pitagoras nada menos do que "o 
42 
I 
~ 
f 
~ 
Com diferen~as exteriores, que em nada modificavam o seu sentido 
social, a mesma situa~ao vai ser encontrada na "democratica" Atenas. Mas 
estamos tao acostumados a uma descri~ao idflica da vida grega, que nos 
custa urn pouco perceber a crueza originaria, sob o colorido falso e a 
reconstru~ao convencional. 
A Grecia de Schiller e de Renan, de Ruskin e de Taine continua 
seduzindo os espfritos com miragens enganadoras. Em vao Nietzsche 
mostrou violentamente os aspectos sombrios da vida grega; em vao Deonna, 
Picard e Schuh! continuam, em nossos dias, a chamar a aten~ao para o 
que ha de falso e grotesco nos pretendidos dogmas a respeito da "perfei~ao" 
e da "serenidade" da vida ateniense. 0 "milagre" de que falou Renan 
continua fascinando de Ionge o mundo, com a calma e a luz que atribui 
ao mundo helenico.20 
E preciso que tenhamos a coragem necessaria para afastar os mitos 
literarios e para reconhecer o proprietario de escravos e o avarento 
calculador nesses pretensos semideuses que discursavam, sempre com 
palavras harmoniosas, debaixo de porticos de marmore branco.21 
.['0:aior produtora de mercadorias do que &.parta,. as circunstancia~ 
nao impuseram a Atenas uma organizac;ao tao estritamente militar. Mas, 
por isso mesmo, _\iS diferencas de fortuna dentro da classe su~rior foram.. 
~ais marcantes. Ja sabemos de que modo os grandes proprietarios se 
apropriavam das terras dos pequenos. Urn seculo antes de Hesfodo aludir 
em seus cantos a opressao dos camponeses e ao orgulho dos ricos, os 
camponeses de Megara, espoliados dos seus bens, se haviam lan~ado, em 
640 a.C., contra os rebanhos dos grandes proprietarios, massacrando-os.22 
A expansao do comercio ja estava impondo m~ 
A procura de la obrigava os atenienses a converter os _campq_s__em extenso~ 
pastos, e a reunir sob urn so pro~_t~.!i9_J22~L9.~_F_rr;u)1!..L~tao 
tinham sido propriedade de varios. No mesmo seculo VI a.C., as grandes-
mais nobre representante do sistema d6rico de educa~ao". Creio que mais razao tinha 
Davidson quando, apesar de incluir Pitagoras entre os d6ricos, afirmava que ele "enxertou 
no ideal dt5rico uma teologia mfstico-etica e uma teoria matematica do mundo ffsico". 
(Aristotle and the Ancient Educacional Ideals, pag. 29.) 
20. Cf. especialmente Schuh!: Essai sur Ia Formation de Ia Pensee Grecque, pag. I 
e segs. 
2 I. Spengler ridiculariza com razao os "classicistas alemaes" que creem que os atenienses 
"passavam a vida filosofando as margens do Ilisos, em pura contempla~ao da beleza". Cf. 
La Decadencia de Occidente, tomo III, pag. 60. 
22. As contradi~6es entre as classes ja eram tao acentuadas que nas poesias de Teognis, 
na segunda metade do seculo VI a.C., os adjetivos "born" e "mau" niio serviam para designar 
os valores morais, e sim para designar as classes superiores e inferiores, respectivamente. 
Cf. Gompertz: Les Penseurs de Ia Grece, tomo II, pag. 80. 
43 
quantidades de azeitonas que deviam ser exportadas levaram a urn processo 
semelhante. 0 comercio e_g_botim ds gt1erm fillo so haviam alterado a 
-·- . - ~~~.~..=-
velha organizac;ao, em grande parte comunista, dos tempos de Homero, 
como tinham provocado o aparecimento de desigualdades entre os proprios 
cidadaos. Assim, por exemplo-;crosoms gmasws que tui1clonavam-nos 
arrectores de Atenas, no seculo VI a.C., E3!ra a educac;ao militar dos jovens, 
urn deles - a Academia - estava destinado aos mais patrfcios, enquanto 
o outro - o Cinosarges - era frequentado pelos oe-situa~~o urn .. pouco 
inferior. · · -· - -------------------·--·· .. ·-
Q2m o aumento da rigueza, o numerci de escravos cresceu rapida-
mente23, de tal modo que para cada cidadao livre existiam pelo menos 
deWito escravos e mais de dois metecos (esJrangeiro~ e liherto~ou 
menos equivalentes aos periecos dos espartanos). Para manter subjugado 
tal exercito de escravos, era impossfvel prescindir da "nobreza em armas". 
Ao Estado, servidor da nobreza, intert':s~~~'l.?._P_9X:tlt1119, __ fun<fi!!!lt:l1.talmente, 
a preparayao ffsica dos seus 9ciadaos,_ de _<!C:_c:>~d<? .C:()l11d. ~s. ~'virtudes" 
valorizadas pelos guerreiros. Palestras, gimisios, instituic;oes de efehos, tudo 
estava preparado para isso. As representac;oes no teatro, a conversa nos 
banquetes, as discuss6es na Agora24 refon;avam nos jovens a consciencia 
da sua propria classe, como classe . dominante. Ao terminar o jovem o 
seu perfodo de ~. urn exame de ~verificava ate que ponto ele 
havia chegado em sua educag_~!.. tanto no manejo das armas, g_~~!()_ na 
compreenslio dos dever.es de cidadao 
Da mesma forma que entre os espartanos, em Atenas havia urn total 
desprezo pelo trabalho. E verdade que, em outros tempos, Ul1sses foi 
ca-p~~-cre~;~struir-;-;~a casa, de fazer 0 seu leito e de provar repetidas 
vezes a sua perfcia na construc;ao de barcos e de arados. Tambem e 
verdade que a sua mulher bordava com suas proprias maos e que as suas 
filhas, apesar de princesas, iam ate o rio ou a fonte lavar a roupa da 
casa.25 As propriedades ainda nao eram muito extensas e o proprio senhor 
e sua familia cuidavam muitas vezes delas, !ado a !ado com os seus 
escravos. Estes nao eram muito numerosos e a sua situac;ao estava Ionge 
de ser desesperadora. Eram tratados com bondade e talvez com afeto. 
23. A respeito do numero de escravos em Atenas, cf. E. Cicotti: El Ocaso de fa 
Esclavitud en el Mundo Antiguo, tomo I, pag. 157. No mesmo sentido, cf. Barbagallo, ob. 
cit., pag. 24. 
24. "A universidade grega era a cidade, e a cidade grega era uma universidade, uma 
Kultur Staat, como dizem os alemaes." Davidson, ob. cit., pag. 90. 
25. Croiset: Las Democracias Antiguas, pag. 22. 
44 . , 
l\Jas, i!,. medida que a extensao das suas terras foi aume11ta!l_dg, o 
proprietario foi-se afastando cada vez mais. do trabalho direto e do trato 
afivel em relac;ao aos s~escravos:-co~fiadas-aos cuidados -de escravos 
intendentes, que as faziam produzi!:__IJ_a_ra__ ()~~ID0~1~Iras ja nao 
r~_cebi~Ip, senao raras vezes, a visita do proprietario. 
E verdade que os antigos continuaram celebrando a agricultura como 
a mae e a nutriz das artes, mas e preciso nao nos esquecermos de que 
entre eles a terra era a forma fundamental da rigueza26, e que o "lavrador", 
elogiado por-Xenofonte, nao era o homem que tr;balha a terra com os 
seus proprios brac;os e sim o que dirige e "alenta os seus trabalhadores 
como urn general, os seus soldados". Afirma ainda que quem deseja ser 
urn born agricultor "deve procurar capatazes doceis e ativos".27 
E claro que, a medida que esses trabalhadores "doceis e ativos" (os 
escravos) aumentavam em numero, o proprietario nao so se distanciava 
das suas terras, como comec;ava a considerar como proprio de escravos 
ou de pobret6es o trabalho direto da terra, ou qualquer outra forma de 
trabalho. 
A divisao do trabalho, fundada na escravidao, tornava incompatfvel 
o exercfcio de urn offcio com a considerac;ao que urn governante deve 
ter em relac;ao a si proprio. "Os trabalhadores sao quase todos escravos", 
afirma Aristoteles. "Nunca uma republica bem organizada os admitira 
entre os seus cidadiios e, se os admitir, nao lhes concedera a totalidade 
do direitos cfvicos, direitos esses que devem ser reservados aos que niio 
necessitam trabalhar para viver."28 
Mesmo aos olhos de Pericles e de Platao, Ffdias nao passava de 
urn artesao29, e por isso Aristoteles proibia terminantemente que se ensinasse 
aos jovens as artes mecanicas e os trabalhos assalariados: "porque nao 
somente alteram a beleza do corpo, como tambem tiram ao pensamento 
toda atividade e elevac;ao".30 
Ainda que submetidos a uma disciplina menos brutal do que a que 
imperava em Esparta, os jovens atenien · uerra 
como a sua ocupac;ao fundamental, e o despotismo como a mais perfeita 
Lp~C<~J.ej -
26. "A terra proporciona aos que a cultivam tudo o que e essencial it vida." Xenofonte: 
Oeuvres Completes tomo I, pag. 151. 
27. Xenofonte, ob. cit., pags. 175 e 177. 
28. Arist6teles, ob. cit., pag. 139. Cf., no mesmo sentido, pags. 92, 93 e 265-266. 
29. Messer: Historia de fa Pedagogfa, pag. 39. 
30. Arist6teles, ob. cit., pags. 265-266. Nas pags. 92-93 ja havia dito: "Num estado 
bern construfdo, os cidadclos mio devem ter de se ocupar com as primeiras necessidades 
da vida; essa e uma opiniclo compartilhada por todos." 
45 
f9rma de governo .. A inso!encia dos que compunham as classes dirigentes31 , 
inclusive dos que passavam por amigos do povo, ficou bern marcada nas 
figuras de Alcibfades e de Mfdias. 
Os desplantes de Alcibfades sao demasiado conhecidos para insistirrnos 
a respeito; tambem nao e necessaria lembrar 0 luxo faustoso dos seus 
carros e cavalos, ou o fato de que usava em sua mesa as ta~as de ouro 
que Atenas reservava para as cerim6nias, ou o fato de que nao titubeou 
em esbofetear urn homem ilustre, que apenas conhecia, para ganhar uma 
aposta.32 Menos refinado do que Alcibfades, mas tao insolente quanta ele, 
Mfdias gostava de ostentar o seu luxo e de mostrar a todos que a riqueza 
constitui for~a. Desgra~ado de quem o ofendia, mas ele se outorgava o 
direito de ofender impunemente a todos os que nao !he eram simpaticos.33 
Arist6teles tinha razao de sabra para dizer que "ao passo que a 
Constitui~ao assegura"'iios ricos a superioridade polftica, estes s6 se interessam 
por satisfazer o seu orgulho e a sua ambi~ao". 34 Deveriam ser muitos 
esses governantes, aos quais tambem alude Antfstenes no Banquete de 
Xenofonte: "tao sedentos de riqueza, que sao capazes de cometer crimes 
que envergonhariam os mais necessitados". 35 Depois de se referir a lentidao 
da Justi~a e dos processos em Atenas, o mesmo Xenofonte diz em outra 
oportunidade: "alguns dizem que o senado e o povo atendem rapidamente 
quando veem dinheiro. Estou de acordo que com dinheiro se fazem muitas 
coisas em Atenas e muito mais se faria se fossem mais numerosos os 
homens endinheirados".36 
Nao e sem razao que o poeta Menandro cantava o ouro em urn dos 
seus versos: "ele torna escravos os livres", mas tambem abre "as portas 
do inferno". 37 
31. "Os oligarcas deveriam renunciar a prestar juramentos semelhantes aos que agora 
prestam; eis os juramentos que atualmente fazem em alguns Estados: 'Eu serei o inimigo 
constante do povo e eu lhe farei todo o mal que puder' ." Arist6teles, ob. cit., pag. 441. 
32. Plutarco: Vidas Paralelas, tomo III, pags. 14, 17 e 19. 
33. Weil: Les Plaidoyers Politiques de Demosthene pag. 91. Dem6stenes assegurava, 
na querela contra Mfdias, que "os cidadaos comuns sao demasiado debeis para resistir-lhe 
individualmente; mas, reunidos em assembleia judicial, podem castiga-lo", pag. I 00. 
34. Arist6teles, ob. cit., pag. 427. 
35. Xenofonte, ob. cit., tomo I, pag. 122. Cf., tambem, tomo I, pag. 76 quando Socrates 
diz ao filho de Pericles que os atenienses "preferem urn lucro obtido a custa dos outros, a 
uma ajuda recfproca". Cf., tambem, tomo II, pag. 468. 
36. Xenofonte, ob. cit., tomo II, pag. 49. 
37. Menandro: Fragments, pag. 100. 
46 
Esses eram os "veneraveis cidadaos que o jovem ateniense encontrava 
comumente nos banquetes, nos porticos, no Jar, na Agora. Que opiniao 
teriam a respeito do homem e da vida e, portanto, que ideal de educa~ao 
consideravam o melhor? 0 que pensavam a respeito do homem foi expresso 
por Arist6teles com extrema nitidez numa frase famosa que, infelizmente, 
foi muito mal interpretada: 
"0 homem e urn animal politico por natureza."38 Polltico, entenda-se 
bern, e nao social, como se tern traduzido muitas vezes, falseando vio-
lentamente a inten~ao do autor.39 Porque "animal polftico" tern em Arist6teles 
uma significa~ao bastante diversa da moderna. Politico deriva de polis, 
que quer dizer cidade, isto e, a forma suprema do Estado entre OS gregos. 
Assim, pois, para Arist6teles, a essencia do homem residia na sua capacidade 
de ser cidadao, e como a cidadania era urn privilegio das classes dirigentes, 
eis 0 verdadeiro sentido da celebre expressao do famoso estagirita: s6 e 
homem o homem das classes dirigentes.40 
Formar o homem das classes dirigentes, eis o ideal da educa~ao 
grega, e quando o mesmo Arist6teles define, em outra oportunidade, a 
nobreza como "antiga riqueza e virtude"41 , voltamos a encontrar o mesmo 
pensamento expresso ainda de modo mais preciso. Nessa expressao, "antiga 
riqueza", aplicada aos nobres, percebe-se muito bern a inten~ao de Aris-
t6teles, de distinguir entre as velhas riquezas dos proprietarios de terras 
e as novas riquezas dos comerciantes e dos industriais, que ja come~avam 
a se opor aquelas. A expressao virtude requer alguns comentarios. Que 
entendia Arist6teles por "virtude", is to e, por arete? Demos a palavra a 
Thomas Davidson, arguto historiador burgues da educa~ao grega: a classe 
abonada "considerou que nao tinha outros deveres a nao ser o de governar 
as outras classes e o de cultivar a virtude ( arete), terrno que, apesar de 
38. Essa e a tradw;:ao textual de Thurot (La Morale et La Politique d'Aristote, pag. 
10), mas logo acrescenta entre parenteses, para "aclarar" o texto, "isto e, destinado a viver 
em sociedade", o que e falso. 
39. Barthelemy Saint-Hilaire, por exemplo: "o homem e urn ser social", pag. 7 da 
obra ja citada. 
40. Essa e tambem a interpreta~ao de Marx. Cf. El Capital, tomo I, pag. 249, nota I 
da tradu~ao de Justo. Sidney Hook (Pour Comprendre Marx, pag. 81) diz: "Arist6teles 
definia o homem como urn animal polftico, o que significa literalmente urn animal citadino, 
que mora na cidade." 
41. Eis, aqui, o paragrafo completo: "Muitas pessoas, s6 pelo fato de terem origem 
ilustre, isto e, de possu{rem a virtude e a riqueza dos seus antepassados, que lhes assegura 
a nobreza, acreditam, por causa apenas dessa desigualdade, estar muito acima da igualdade 
comum." Tradu~ao de Barthelemy Saint-Hilaire, pag. 395. 
47 
ter significado diversas coisas em diferentes epocas, sempre implicou 
aquelas qualidades que capacitam umhomem para governar".42 
Para os gregos, portanto, "virtude" nunca significou "valor moral" 
e tampouco - a nao ser no ocaso da vida grega - "se atribuiu virtude 
a urn homem que nao tivesse origem nobre e riqueza territoriaf'.43 E o 
que se depreende tambem desta outra passagem de Arist6teles: "A apren-
dizagem da virtude e incompatfvel com uma vida de trabalhador e de 
artesao."44 
Nos primeiros tempos da vida ateniense, quando entre os Aquiles e 
os Agamenons urn s6 entre cern sabia ler e escrever, a "virtude" do 
homem das classes dirigentes nao estava muito distante do ideal guerreiro 
e brutal dos espartanos. Entretanto, posteriormente, quando a sociedade 
foi complicando a sua estrutura e o trabalho dos escravos assegurou as 
classes dirigerrtes urn bem-estar cada vez mais acentuado, outros elementos 
foram-se incorporando ao ideal de "virtude".45 Desvinculadas totalmente 
do trabalho produtivo, essas classes passaram, pouco a pouco, a considerar 
as atividades alheias a vida pratica e as necessidades basicas, como as 
verdadeiramente caracterfsticas das classes superiores. 0 tempo dedicado 
a essas ocupac;6es e as pr6prias ocupac;6es foram qualificados com uma 
palavra intraduzfvel- diagogos- que significa algo como "6cio elegante", 
"jogo nobre", "repouso distinto". E como as concepc;6es religiosas refletem 
passo a passo os movimentos da sociedade que as produz, os deuses 
combativos e guerreiros das epocas barbaras foram cedendo o seu posto 
para outros deuses equilibrados e serenos que saboreavam no Olimpo uma 
vida de perpetuo diagogos. 
A partir desse momento, nao s6 a teoria se afirmou em relac;ao a 
pnitica, como tambem se apresentou como o seu coroamento. Mas se pelo 
caminho da teoria OS atenienses logo chegariam a filosofia, a arte e a 
42. Davidson: La Educacidn del Pueblo Griego y su ln:flujo en la Civilizacidn, pag. 
61. Em rela~iio ao sentido exato da palavra virtude, com que habitualmente se traduz a 
palavra grega arete empregada por Arist6teles, ver uma explica~ao mais detalhada em 
Davidson: Aristotle and the Ancient Educational Ideals, pag. 8. 
43. Davidson: La Educacidn del Pueblo Griego y su ln:flujo en la Civilizacidn, pag. 66. 
44. Arist6teles, ob. cit., pag. 39. Ainda na mesma pagina: "Trabalhar nas coisas 
indispensaveis da vida para a pessoa de urn indivfduo e ser escravo, ao passo que trabalhar 
para o publico e ser operario e mercenario." 
45. "Desde que os nossos pais, por causa da prosperidade conseguida, puderam gozar 
as do~uras do 6cio, eles se entregaram com magnifico ardor a virtude; orgulhosos dos seus 
triunfos passados e dos exitos que conseguiram desde as guerras medicas, eles cultivaram 
todas as ciencias com mais paixao do que discemimento, e elevaram ate a arte da flauta a 
dignidade de uma ciencia." Arist6teles, ob. cit., pag. 184. 
48 
I: 
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literatura - tudo isso que eles chamaram Musica, porque estava sob os 
auspfcios das musas -, tambem e preciso que nao nos esquec;amos, em 
nenhum momento, de que, por vida pnitica, urn nobre ateniense nao 
entendia nada parecido com as preocupac;oes do nosso trabalho, mas sim 
os deveres de urn marido, de urn pai e de urn proprietario, de urn lado, 
e os quefazeres cfvicos e religiosos do governo, do outro. 
Ao mesmo tempo que este aspecto diag6gico da vida foi aumentando 
de importancia para o ateniense nobre, este comec;ou a perceber que os 
seus filhos necessitavam do auxflio de uma nova instituic;ao, que ate agora 
ainda nao encontramos: a escola que ensina a fer e a escrever. 
Fundada segundo se ere por volta de 600 a.C., a escola elementar 
vinha desempenhar uma func;ao que nao podia ser desempenhada satisfa-
toriamente pela tradic;ao oral, nem pela simples imitac;ao dos adultos. 0 
governo de uma sociedade complexa como a de Atenas exigia algo mais 
do que a direc;ao de urn acampamento como Esparta. Parece que desde 
ha algum tempo ja funcionavam umas poucas escolas, onde metecos e 
rapsodistas ensinavam os interessados a fixar em sfmbolos os neg6cios e 
OS cantos, mas tambem e verdade que SO a partir dessa epoca e que as 
letras, como se dizia entao, se incorporam a educac;ao dos eupdtridas, 
isto e, dos nobres. 
Apesar de serem capazes de apreciar os prazeres da poesia, da arte 
e da filosofia - de gozar o "6cio digno" -, esses nobres nao se 
esqueciam, contudo, de que continuavam a ser, antes de tudo, homens de 
armas. Indo ao campo de esportes de manha ou a escola de musica no 
perfodo da tarde, os seus filhos passavam alternadamente das maos do 
citarista as do paidotriba. A primeira denominac;ao ilustra de imediato 
certos aspectos da educac;ao infantil, mas muito mais interessante e a 
segunda - que em grego significa "castigador de crianc;as" -, que mostra 
claramente ter o ensino militar perdido muito pouco da sua antiga rudeza. 
0 que acabamos de dizer a respeito do carater de classe da educac;ao 
ateniense nao parece estar de acordo com alguns outros fatos conhecidos. 
Tem-se afirmado, por exemplo, que em Atenas - pelo menos na Atenas 
anterior a Pericles - a educac;ao era livre e que o Estado nao intervinha 
na designac;ao dos professores, nem nas materias que eram ensinadas. S6 
a partir dos dezoito anos, ja agora efebo, e que o jovem ateniense passava 
a ser dirigido pelo Estado, e, como a efebia era uma instituic;ao de 
aperfeic;oamento militar e cfvico, poder-se-ia deduzir, com aparente razao, 
que o Estado tomava a seu cargo unicamente o ensino superior das artes 
militares e das func;oes do governo. Devemos reconhecer que as escolas 
elementares eram todas dirigidas por particulares, dos quais o Estado nao 
exigia nenhuma garantia, da mesma forma que tambem devemos reconhecer 
49 
que a ausencia de programas oficiais deixava os mestres em aparente 
liberdade.46 
Por outro lado, tambem e verdade que o Estado regulamentava o 
tipo de educac;:ao que a crianc;:a deveria receber no seio da familia e nas 
escolas particulares47, que urn funciomirio policial cuidava para que existisse 
moderac;:ao e decencia nas escolas, que urn magistrado, chamado sofronista, 
velava para que os jovens nao desrespeitassem as conveniencias sociais 
nas suas reuni6es, que o Are6pago, por sua vez, vigiava constantemente 
os jovens e que, finalmente, o zeloso e terrfvel arconte-rei - a quem 
Renan atribufa func;:oes inquisitoriais - espiava a menor infrac;:ao a ordem 
e as leis, a religiao e a moral. "Desde que urn homem cresce, e uma vez 
que as leis ensinam que existem deuses, nao cometeni ele jamais qualquer 
ac;:ao fmpia, nem pronunciani discursos contnirios as leis", sentencia cla-
ramente Platao. E para nao deixar nenhuma duvida a respeito do seu 
pensamento, acrescentou logo abaixo: "N6s damos como fundamento das 
noss' leis a existencia dos deuses."48 
A "liberdade" de ensino ndo implicava, portanto, a liberdade de 
doutrina. 0 professor nao moldava os seus discfpulos de acordo com as 
suas pr6prias concepc;:oes; devia formar neles os futuros governantes e 
inculcar neles, pela mesma razao, o amor a patria, as instituic;:oes e aos 
deuses. 
Mas a "liberdade de ensino" nao s6 descarregava sobre os ombros 
dos particulares os gastos de uma instituic;:ao que o Estado nao custeava, 
como tambem trazia as classes dominantes uma vantagem de primeira 
ordem. 0 Estado impedia a entrada nos ginasios dos }ovens que nao 
haviam freqiientado as escolas e as palestras particulares. Com isso, o 
Estado, que estava a servic;:o da aristocracia latifundiaria, conseguia preencher 
os seus objetivos fundamentais: s6 por excec;:ao e que os pequenos 
proprietarios conseguiam custear os estudos dos seus filhos ate os 16 anos, 
idade em que ingressavam no gimisio, e, como s6 eram elegfveis para os 
cargos estatais os }ovens que haviam passado pelo ensino do ginasio, 
compreende-se que o resultado do "ensino livre" tenha sido a concentrac;:ao 
dos cargos existentes nas maos das famflias nobres. 
46. Girad: "L'Education Athenienne" in Dictionnaire des Antiquites Grecques et Romaines, 
de Darenberge Saglio, I" parte, pag. 473. 
47. Homero, por exemplo, servia de texto em todas. Na opiniao dos gregos, Homero 
havia escrito para agradar; mas, acima de tudo, para ensinar pelo que era consjderado como 
o educador por antonomasia. A Odisseia em especial era apreciada como "uma cole<;:ao de 
bons conselhos e ate de boas receitas para a vida cotidiana". Cf. Bernard: Introduction a 
l'Odyssee, tomo II, pags. 237 e 241. 
48. Platao: Les Lois, in Oeuvres Completes, tomo VIII, pags. 212 e 217. 
50 
Tudo isso, que n6s demoramos tanto para expor, foi dito por 
Xenofonte com a sua franqueza habitual em duas linhas de uma claridadc 
meridiana, ainda que se referindo a educac;:ao dos persas: "E permitido a 
todos os persas (livres) enviar os seus filhos as escolas comuns. No 
entanto, s6 os que podem criar os seus filhos para ndo fazerem nada e 
que OS enviam; OS que n{io 0 podem, n{io OS enviam".49 
Alguns dos preceitos de Solon sao particularmente ilustrativos. "As 
crianc;:as - afirma ele - devem, antes de tudo, aprender a nadar e a 
ler; em seguida, os pobres devem-se exercitar na agricultura ou em uma 
industria qualquer, ao passo que os ricos devem se preocupar com a 
musica e a equitac;:ao e entregar-se a filosofia, a cac;:a e a freqtiencia aos 
ginasios".50 0 filho de urn artesao, quando nao continuava sendo urn 
analfabeto (apesar da lei), apenas conseguia adquirir os mais elementares 
conhecimentos de leitura, escrita e calculo. 0 filho do nobre, por outro 
!ado, podia completar integralmente todo o programa de uma educac;ao 
que compreendia todos os graus de ensino: escola elementar e palestra 
ate os 14 anos, ginasio ate os 16, efebia ate os 18, cidadania, dos 20 
aos 50, e vida diag6gica, dos 50 ate a morte. 
Essa era, antes do seculo V a.C., a educac;:ao de urn nobre ateniense, 
proprietario de terras e de escravos, a educac;:ao de urn "homem ateniense",51 
que desprezava o trabalho e o comercio, mas que, depois de tomar parte 
em combates e no governo, colocava o "6cio digno" como fim e recompensa 
de uma existencia bern vivida. 
Mas, a partir do seculo V a.C., urn poderoso movimento se esboc;:a 
contra essa educac;:ao, a "velha educac;:ao" de que falara Arist6fanes em 
As Nuvens. Quais foram os iniciadores desse movimento? Em nome de 
que classes sociais eles reclamavam ou impunham uma "nova educac;:ao"? 
E o que iremos ver em seguida. 
Ja dissemos que, por volta do quinto seculo antes de Cristo, o 
comercio marftimo e o desenvolvimento do comercio impuseram urn ritmo 
bern distinto a vida ateniense. A nobreza tradicional, OS eupatridas -
que fundava a sua hegemonia na posse da terra -, viu crescer e afirmar-se 
49. Xenofonte, ob. cit., tomo II, pag. 198. E sabido que a Ciropedia de Xenofonte, 
de onde foram extraidas estas palavras, era uma especie de novela pedag6gica. Tudo que 
ele afirma a respeito da educa<;:iio dos persas nao passa de uma satira dissimulada dos 
costumes atenienses. A respeito do carater classista da educa<;:iio em Atenas, Platao afirma: 
"Os filhos dos ricos nao apenas sao enviados mais cedo as escolas, como tambem sao os 
ultimos a abandona-las". Cf. Didlogos, tomo II, pag. 63. 
50. Citado por Buisson no seu artigo do Nouveau Dictionnaire de Pedagogie, pag. 127. 
51. Era assim que os oradores se dirigiam aos cidadaos. A expressao niio significa o 
mesmo que "ateniense" apenas. 
51 
outra classe social ate entiio desprezada, a dos metecos ou comerciantes, 
cuja riqueza estava de tal modo ligada aos neg6cios da navega<;:iio, que 
mais de uma vez foi denominada "a gente das costas".52 Uma vez vencida 
a Persia e assegurado o comercio maritimo, uma nova riqueza levantou-se 
arrogantemente diante da velha riqueza dos nobres. 0 diagogos ou "6cio 
digno", que ate entiio havia sido urn privilegio destes ultimos, come<;:ou 
a ser algo como urn presente que o dinheiro dava a muitos. Alguns 
"novos-ricos", como Cleon, o curtidor, e Hiperbolos, a fabricante de 
lampadas, come<;:am a galgar os postos estatais, e a nobreza, apesar de 
se escandalizar com isso, nao deixa de olha-los com respeito. Cefalos, o 
pai de Lisias, apesar de ser urn meteco fabricante de escudos, figura em 
nada menos do que na Republica de Platiio, e, pouco tempo depois, 
Dem6stenes, sem nenhum constrangimento, aludira a fortuna adquirida por 
seu pai, como armeiro e ebanista. 
A crescente importancia dos comerciantes, dos armadores e dos 
in~ustriais - gentes novas que nao possuiam "gloriosos av6s" - provocou, 
de baixo para cima, uma transforma<;:iio que se revela em muitas coisas: 
a tragedia foi substituida pela comedia, a no<;:ao do dever, pela de bem-estar, 
as cren<;:as religiosas, pelo ceticismo ironico e gozador. Apesar de nao ser 
muito grande, a movimentagao de mercadorias rompeu as velhas cadeias 
e, a forga de produzir para comerciar e de acumular riquezas, os interesses 
comuns acabaram sendo substituidos pelos do individuo. E este se sente 
tao feliz e seguro de si mesmo que langa pelos labios do poeta Tim6teo 
o seu orgulhoso desafio: "Fora daqui com a velha Musa". Ha nesse seculo 
de Pericles algo que lembra o de Voltaire: a confianga na vida, a ilusao 
de urn progresso sem fim, a curiosidade pela tecnica dos oficios. Ate uma 
necessidade de inven<;:6es parece desabrochar por todas as partes, a tal 
ponto que, na Constitui<;:iio de Mileto, Hip6damo promete privilegios para 
os inventores de novas tecnicas, capazes de trazer beneficios para o 
Estado.53 
Ide6logos autenticos da "nova riqueza", os sofistas afirmam que "o 
homem e a medida de todas as coisas", e parecem encerrar nessa frase 
a mesma doutrina que muitos seculos mais tarde se transformara na 
bimdeira do individualismo burgues. Todas as ideias recebidas comegam 
a parecer "relativas" aos seus olhos, e se o subjetivismo no campo moral 
ja era em si perigoso, a maneira como Trasimaco, por exemplo, enfrentava 
52. Croiset, ob. cit., pag. 40. 
53. Citado por Schuh!, ob. cit., pag. j36. 0 mesmo autor escreve: "Nesse momenta, 
urn desenvolvimento da civiliza<;:ao, no sentido medinico, nao teria sido inconcebfvel". Ha 
exagero, mas marca bern esse momenta. 
52 
o direito positivo quase chegava a ser revolucionaria. "0 direito positivo 
- afirmava - e 0 que convem ao mais forte". 54 
Extraordin:iria ousadia essa que nos mostra o caminho percorrido 
pelo homem desde os "costumes invariaveis" dos primitivos ate esse 
momento singular em que ele comega a compreender a pequena importancia 
de muitos dogmas e a tirania de muitas tradig6es. Para esse "novo homem", 
era necessaria uma nova educagiio, mas nenhuma das escolas que existiam 
em Atenas era capaz de proporciona-la. 0 ideal que dominava ate entao 
era o ideal que os senhores da terra haviam concebido e imposto, ao 
passo que o novo ideal era o dos comerciantes e industriais, que ate entiio 
tinham estado excluidos do ginasio. Os sofistas se apropriaram sagazmente 
dele e langaram no mercado o seu trabalho intelectual. 
Sendo tambem artesiios eles pr6prios, os sofistas niio desdenhavam 
o trabalho, nem a propaganda ruidosa da rua, e para provar o quanto 
estimavam os depreciados trabalhos dos artesiios, alguns deles, como Hipias, 
se apresentaram em Olimpia com roupas e sapatos feitos por suas pr6prias 
miios.55 
Atacando frontalmente a tradigao dominante, os sofistas se propuseram 
dar aos atenienses niio s6 os conhecimentos que a vida pratica requeria, 
como tambem secularizar a conduta, tornando-a independente da religiao.56 
Niio importa que muitas vezes tenham descambado para o charlatanismo 
e se tenham perdido no vazio. A sua curiosidade enciclopedica - a 
palimatia como diziam os gregos - se orientava para as ciencias nascentes, 
langava audazmente os porques e abria caminhos em todas as dire<;:6es. 
Nao ha duvida de que Socrates ca<;:oava de alguns deles, mas nao de 
todos.57 A ciencia desinteressada nao tinha atrativos para ele, e, alem 
disso, ele havia transformado o problema moral no centro predileto das 
suas meditag6es. Porem, se algumas vezeslhe foi facil demonstrar a 
54. Uma excelente monografia de con junto e a de Raul Richter: La Filosl!{ia Presocrdtica: 
Slicrates y los Sl!fistas, no tomo I, pag. 93 de Los Grandes Pensadores. 
55. Platao: Didlogos, tomo I, pag. 40. Socrates, que se aproximava tanto dos sofistas 
em varios aspectos, exaltava tambem as virtudes do trabalho, que ele mesmo conheceu como 
escultor. Nas Memorables aconselha a Aristarco, que vive na miseria, a que se decida a 
trabalhar como artesiio "Quais sao os homens mais sabios - pergunta-lhe Socrates - os 
que permanecem no 6cio, ou os que se ocupam com coisas iiteis? Quais sao os mais justos, 
os que trabalham, ou os que, sem nada fazer, discutem a respeito dos meios de subsistencia?" 
Cf. Xenofonte, ob. cit., tomo I, pag. 58. 
56. Robin: La Pensee Grecque et /es Origines de /'Esprit Scient(fique, pag. 59. 
57. "Trata-se de urn exagero que ja durou muito afirmar que Socrates viveu em guerra 
encarni9ada contra os sofistas em geral. E necessaria abrir uma exce<;:ao para urn mestre de 
real valor, Protagoras, que era estimado por Socrates". Dantu: L'Education d'Apres P/iuon, 
pag. 105 e nota 3. 
53 
eficacia da sua propria ironia, isso se deveu, em parte, ao fato de que 
os indivfduos com quem conversava ja tinham escutado os sofistas e se 
haviam enriquecido com uma instru<rao ampla e variada. E verdade que 
se tratava de uma instruc,:ao demasiado forrnalista - como todo ensino 
de carater enciclopedico que e ministrado de maneira apressada -, cujos 
pontos fracas nao poderiam escapar a sagacidade de Socrates. No entanto, 
os seus contemporaneos consideravam-no como urn dos sofistas, e nao se 
enganavam de todo. 0 seu ensino, da mesma forma que o dos sofistas, 
estava impregnado de urn forte carater antitradicional e devia inspirar, 
como de fato inspirava, uma firrne reat,:ao conservadora. Para o aristocrata 
Platao, a capacidade de pensar e de entrever as ideias eternas dependia 
de urn sexto sentido que so urna exfgua rninoria - os rnais seletos entre 
os nobres - possufa. Para o artesao Socrates, a capacidade de pensar era 
cornurn a todos, e bastava sirnplesrnente dialogar corn destreza para ensinar 
os hornens a tirarem conclusoes: vigorosa afirrna<rao do pensamento reflexive 
perante o dogma intangfvel das idades anteriores. 
0 sofista Damao, preceptor de Pericles, gostava de dizer que para 
reforrnar os costumes de urn povo basta acrescentar ou suprirnir urna corda 
~lira. 58 E clara que, expresso desse modo, esse pensamento e falso; mas 
a sua verdade torna-se evidente quando o inverternos. Alga irnportante 
deve ter ocorrido na estrutura econ6mica de urn povo para que as suas 
classes dorninantes sentissern a necessidade de acrescentar urna corda a 
lira. E isso foi o que ocorreu por volta do seculo V: os aperfeit,:oarnentos 
da tecnica nao so levararn os tocadores de flauta a introduzir audazes 
rnodulat,:5es na musica, como tarnbern perrnitiram acrescentar duas cordas 
a lira. Os velhos cantos doricos, de caracterfsticas simples e como que 
adaptados a festas de guerreiros, forarn substitufdos pelos cantos lfdios, 
ou pelos frfgios, rnais cornplicados e languidos, rnais proprios de festas 
de hornens satisfeitos. Uma educat,:ao para a prosperidade - eudemonismo, 
ern grego - era a educat,:ao reclamada por todos. A "virtude" do proprietano 
guerreiro, que pretendia, acima de tudo, forrnar soldados, empalidecia diante 
do "bem-estar" do homem enriquecido e prospero, que aspirava forrnar 
indivfduos conscientes do seu proprio valor e capazes de abrir novas carninhos 
a qualquer custo. Par isso, tao logo urn sofista se abrigava a uma sombra 
no ginasio, logo se via rodeado de jubilosos discfpulos enriquecidos. 
Os jovens que seguiam os sofistas,59 que escutavam Socrates, que 
freqiientavarn os ginasios eram ricos. Os ginasios se converterarn, por volta 
58. Platiio: La Republica o Co/oquios Sobre Ia Justicia, tomo I, pag. 207. Cf. a nota 
2, a respeito de Damiio. 
59. Nas "Definiciones" que estiio no final de La Republica, Platiio define o sofista 
como urn homem que "anda a ca~a de jovens ricos e de destaque, para obter algum proveito", 
tomo II, pag. 327. 
54 
do seculo IV, em centros de reuniao da sociedade elegante. Freqiienta-los 
era e2uivalente a declarar que nao se estava obrigado a trabalhar para 
viver. 
0 
E, qui<ra, foram muitos os amigos e discfpulos de Socrates, como 
esse jovem Querefao,61 de tez palida e corpo enfermi<ro, que vi via encerrado 
durante o dia e que so a noite aparecia nos cenaculos, ao modo de urn 
fragil Marcel Proust. Que buscavam os jovens nas bern pagas li<r5es dos 
sofistas? Uma coisa acima de tudo: a sabedoria pratica, que evita os 
escolhos e conselhos fecundos capazes de garantir exitos na oratoria 
polftica. De fato, Protagoras assinalava como fim da educat,:ao: "dar bons 
conselhos em assuntos domesticos, para que os jovens arranjem as suas 
casas do melhor modo possfvel, da mesma forma que capacita-Ios em 
assuntos politicos, para serem capazes de dominar os negocios da cidade".62 
0 saber desinteressado nao seduzia OS jovens do seculo V, e Socrates 
compartilhava de tal modo essa opiniao que os aconselhava a volver as 
costas aos problemas diffceis da Geometria e dos corpos celestes, "porque 
nao via nesses estudos nenhuma utilidade" 63 
A orat6ria polftica, por outro !ado, requeria conhecimentos variados 
mas superficiais e, acima de tudo, riqueza dialetica, desenvoltura e agilidade 
mental. Mais do que o saber propriamente tecnico do advogado, uti! sem 
duvida, mas nao indispensavel, porque a parte jurfdica das alega<r6es 
poderia ser entregue a qualquer log6grafo especializado, interessava agora 
conhecer todas essas veredas do raciocfnio capcioso pelas quais se vai 
habilrnente empurrando o adversario ate faze-Io despencar numa arrnadilha 
de efeito fulminante. 64 
Mesmo sem estar investido de qualquer funt,:ao oficial, o orador de 
prestfgio, que dominava o seu audit6rio, podia ter em suas maos a dire<rao 
da Assembleia. 
A comedia grega satirizou bastante a vida desses oradores, com as 
suas riquezas de origem duvidosa e uma conduta igualmente pouco 
transparente. Sem negar o que havia de Iegftimo em semelhante reproche,65 
60. Girard: "L'Education Athenienne", pags. 298-302. 
61. Cf. a nota 2 de Hilaire van Daele, na pag. 167 da sua tradu~iio de Arist6fanes, 
tomo I. 
62. Messer: Filosr!ffa Antigua y Medieval, pag. 636. 
63. Xenofonte, ob. cit., tomo I, pag. 131. 
64. "A eloq(iencia do seculo V e, acima de tudo, urn instrumento de !uta, e o produto 
robusto e vivaz dos debates, violentos ou graves, das assembleias polfticas e judiciais; para 
conseguir a adesao de urn audit6rio vibrante e diffcil, para rebater uma acusa~ao ou conseguir 
uma condena~ao, o ateniense deve saber manejar a palavra publica". Cloche: La Civilisation 
Athenienne, pag. 88. 
65. 0 exemplo de Hiperides e representativo. Eis o que diz Girard, como resumo da 
sua biografia: "Tal era Hiperides em sua vida particular: urn homem sensual que cedia sem 
55 
compreende-se, e ate se justifica, o auto-engrandecimento daqueles adven-
tfcios, filhos e netos de algum industrial, banqueiro ou comerciante des-
prezado pelos patrfcios, a quem eles vingavam a antiga humilha<;ao, nao 
s6 manejando os neg6cios da nobreza, como tambem controlando nos seus 
mfnimos detalhes a sua polftica. 
0 aparecimento das novas classes sociais havia transformado de tal 
modo as velhas rela<;6es que a sua influencia se fez sentir ate na disciplina 
mantida nas escolas. 0 latego do mestre e o bastao do ginasiarca comer_;aram 
a ser vistas como instrumentos de tortura. Em todos os lugares se clamava 
por uma escola mais humana, mais alegre, · me nos rfgida. Os filhos dos 
comerciantes e dos industriais recusavam-se a viver na escola como em 
uma caserna. 
De fato, a "velha educa<;ao" impunha as crian<;as uma disciplina 
militar. Na sua ida a escola do gramdtico ou do citarista, as crian<;as 
eram acompanhadas por urn escravo - pedagogo- ate urn Iugar em 
que se reuniam todas as crian<;as do mesmo bairro. Formavam, entao, 
uma coluna, e marchavam em ordem para a escola, com passos rftmicos 
e olhos baixos.66 Mas, as crian<;as de agora67, que Arist6fanes criticava, 
ja nao iam em forma<;ao; ao contrario, separadas e alegres, encaminhavam-se 
; para a escola olhando tranqiiilamente tudo o que encontravam. E quando 
voltavam para casa, acrescenta Arist6fanes, chamavam o pai de "velho 
chocho". 
De que modo reagiram as classes dirigentes contra essa irrup<;ao de 
novas classes, que as amea<;avam nos terrenos economico, polftico, religioso, 
moral e educacional? Por meio de urn poderoso movimento de terror 
polftico e de vigiHincia pedag6gica. Urn decreta instigado pelo adivinho 
Dispeites68 exigiu que 0 povo denunciasse todos OS que nao prestavam 
homenagem as coisas divinas, ou que ensinavam teorias heterodoxas a 
respeito das coisas celestes, e os culpados come<;aram a cair, urn atras do 
outro: Anaxagoras, acusado de impiedade em 433 a.C., Diagoras, que teve 
a cabe<;a posta a premia no ano 415 a.C., Protagoras, que foi desterrado, 
e Socrates, que foi condenado a heber cicuta no ano 399 a.C. Essa 
persegui<;ao nao visava apenas a pessoas, atingia tambem os livros. Por 
exemplo, todos os que haviam comprado as obras de Protagoras receberam 
reservas as tenta<;:6es que a licenciosa vida do seu seculo prodigalizava, urn homem desenfrenado 
em suas paixoes, urn homem que nao se incomodava com as opinioes alheias, nem com os 
seus deveres, nem com a sua dignidade de pai, urn homem que gastava em loucas dissipa<;:6es 
as riquezas que ganhava com a sua eloqiiencia". Girard: La Elocuencia Atica, pag. 88. 
66. Arist6fanes: Les Nuees, tomo I, pag. 205, da tradw;ao de Hilaire van Daele. 
67. Ano 423, em que foi representada a pe<;:a As Nuvens, de Arist6fanes. 
68. Cf. Glatz: La Cite Grecque, pags. 196 e 236. 
56 
ordens do heraldo para depositar os seus exemplares na Agora, para serem 
queimados.69 Assim, a "luminosa" Atenas castigava com urn auto-de-fe 
os que haviam ousado pensar em desacordo com as normas consagradas. 
Mas, a rea<;ao nao se dirigiu apenas contra adultos suspeitos. 0 
Estado compreendeu a necessidade de controlar de urn modo mais minucioso 
o ensino das escolas, de modo a impedir que as crian<;as fossem contaminadas 
por ideias subversivas. Arist6teles se queixou da excessiva liberdade que 
o Estado havia, ate entao, concedido aos mestres, e exigiu que se exercesse 
uma vigiHincia mais rigorosa sobre o que ensinavam e sobre os metodos 
empregados.7° E nao decorrerao muitos anos ate que apare<;am pela primeira 
vez os programas oficiais.71 
Te6ricos da educa<;ao propriamente dita, Platao e Arist6teles inter-
pretaram, cada qual a seu modo, o sentir das classes dominantes nesse 
momenta tormentoso da vida ateniense. De que modo conseguir a "harmonia' 
social, perturbada pelas contradi<;6es existentes entre as classes, contradi<;a< 
essa que a Guerra do Peloponeso havia tornado mais aguda? Como atalhm 
as rebelioes do individualismo indisciplinado que o comercio e a industria 
introduziram? De que modo seria possfvel, ao mesmo tempo, refor<;ar o 
poder das classes dominantes? Eis af os problemas que Platao e Arist6teles 
enfrentaram; as respostas oferecidas por eles ja sao, em grande parte, 
conhecidas por n6s. 
Qual e, para Platao, 0 fim supremo da educa<;ao?72 Formar OS 
guardiiies do Estado, que saibam ordenar e obedecer, de acordo com a 
justi(;a. Mas, que era a justira para Platao? A justi<;a era uma harmonia: 
uma harmonia que o indivfduo deve manter dentro de si mesmo, fazendo 
com que a sabedoria, a for<;a e a prudencia em sintonia, e que a sociedade 
tambem deve conseguir entre as tres "virtudes" que correspondem as 
classes em que ela se divide: a sabedoria dos fil6sofos, a fon;a dos 
69. Os livros de Protagoras foram "recolhidos das maos dos que os possufam e 
queimados no forum, sob pregao". Cf. Di6genes Laercio: Vidas, Opiniones y Sentenciais de 
los Fih!si!fos Mds /lustres, tomo II, pag. 200. Laercio afirma que a causa imediata do castigo 
foi urn tratado de Protagoras que come<;:ava assim: "Nao sei se ha ou nao deuses, porque 
sao muitas as coisas que impedem que o saibamos, desde a obscuridade do assunto, ate a 
brevidade da vida humana". A respeito dos processos por impiedade em Atenas, cf. Derenne: 
Les Proces d'Jmpiete, pags. 48 e segs. 
70. Arist6teles: Morale £1 Nicomaque, I, 13, 7. 
71. Darenberg e Saglio: Dictionnaire des Antiquites Grec·ques et Romaines, I parte, 
pag. 473. 
72. Ao abordar o problema educativo, Platao declara expressamente que nao se propoe 
definir a educa<;:ao dos comerciantes ou a de outras profiss6es, mas sim a que leva a 
forma<;:ao de cidadaos integrais. Platao: Oeuvres Completes, tomo VII, pag. 52. 
57 
I 
guerreiros e a prudencia dos trabalhadores. Segundo Platao, a justic;:a sera 
conseguida desde que cada classe social realize a sua func;:ao propria, sem 
ameac;:ar o equilfbrio geral, nem procurar desempenhar func;:6es que nao 
sejam as suasY Que cada classe aja, pois, de acordo com a virtude que 
Jhe e propria: que OS fiJosofos pensem, que OS guerreiros Jutem, que OS 
trabalhadores trabalhem para os filosofos e os guerreiros.74 
Se essa justic;:a se realizasse - estranha justic;:a, como o leitor ve, 
mas a unica que as classes dirigentes sao capazes de conceber -, a 
sociedade jamais enfrentaria qualquer dificuldade. 0 afa que as aristocracias 
demonstram de querer manter-se indefinidamente no poder se revela sem 
reticencias na "harmonia" de Platao, e encontra numa metafora famosa a 
sua expressao mais exata: "Uma republica - diz Platao - que desde os 
seus primeiros tempos assegurou aos seus membros uma formac;iio feliz75 , 
se parece a urn cfrculo cuja circunferencia se estenda sem cessar" .76 
Que aconteceria, porem, se cada classe nao permanecesse no seu 
posto? 0 proprio Platao responde mais tarde a essa pergunta numa passagem 
de As Leis, em que alude as desgrac;:as que podem atingir todo o povo, 
quando os seus membros se creem capazes de julgar tudo: "Tal estado 
de espfrito - afirma ele - conduz aos piores excessos, porque essa 
independencia leva aquela outra que destroi a autoridade dos arcontes; 
em seguida, passa-se ao menosprezo do poder paterno e ja nao se tern, 
para com a velhice e os seus conselhos, a submissao devida. A medida 
que se aproxima o termino da extrema liberdade, chega-se ao abalamento 
das proprias leis, e quando se alcanc;:a esse limite ja nao se respeitam 
nem promessas nem juramentos; ja nao se reconhecem os deuses77 , e se 
renova a audacia dos antigos Titas". 
A referencia aos Titas nao e uma simples figura literaria. Temeroso 
da multidao, Platao sempre viu nela "uma especie de monstro feroz"78 , 
73. Platao: La Republica, tomo I, pag. 199. 
74. "A Republica, de Platao, na medida em que a divisao do trabalho figura nela como 
princfpio formador do Estado, nao passa da idealiza.;:ao ateniense do modelo egipcio de 
castas, porque para ele, como para outros contemporil.neos seus, como, por exemplo, !socrates, 
o Egito e considerado como urn modelo de pais industrial, e conserva esse carater ainda 
para os gregos do tempo do Imperio Romano". Marx: El Capital, trad. de Justo, tomo I, 
pag. 230. Cf., tambem, a nota 3 da pag. 259. 
75. Quer dizer, que cada classe cumpra satisfeita a sua "virtude". 
76. Platao: La Republica, tomo I, pag. 206. 
77. Convem recordar que Platao diz em As Leis que "damos como fundamento das 
nossas leis, os deuses". Platao: Oeuvres Completes, tomo VIII, pag. 217. 
78. Platao: La Republica, XI, 4. 456, 493, VII, 547. 
.'iR 
que e necessario manter afastado e na mais absoluta dependencia. Exclui-lo 
da vida intelectual dos fil6sofos e da vida moral dos guerreiros, nao so 
era necessario para Platao, porque a pratica absorvente dos offcios nao 
permitia o "6cio" que o estudo requer, como tambem era absolutamente 
indispensavel para manter sonolento o "monstro feroz" e impedi-lo de 
renovara audacia dos Titiis. 
Mais franco ainda do que Platao, Arist6teles nao se ampara em 
metaforas c mitos, nem disfarc;:a o seu pensamento por meio deles. Vamos 
encontrar nos seus escritos muito pouco de harmonias musicais e de 
sociedades comparadas a organismos. Nao apenas sustentou que a escravidao 
estava na natureza das coisas79, como afirmou - como ja dissemos -
que as classes industriais sao incapazes de "virtude" e de poder politico. 
Alem disso, reservando para muito poucos a visao do divino - expressao 
essa que significa teoria -, lanc;:ou com crueldade o seu sarcasmo sangrento: 
"Quando os teares funcionarem sozinhos e as cftaras tocarem por si 
mesmas, entao ja nao necessitaremos de escravos, nem de patr6es de 
escravos". 80 
Tinham razao Arist6teles e Platao: uma sociedade fundada no trabalho 
escravo niio podia assegurar cultura para todos. 0 rendimento da forc;:a 
humana era tao exfguo que urn homem nao podia estudar e trabalhar ao 
mesmo tempo. Portanto, aos fil6sofos caberia a direc;:ao da sociedade, aos 
guerreiros, protege-la e aos escravos, manter as duas classes anteriores. A 
separac;:ao entre forc;:a ffsica e forc;:a mental impunha ao mundo antigo estas 
duas enormidades: para trabalhar, era necessario gemer nas miserias da 
escravidao e, para estudar, era preciso refugiar-se no egofsmo da solidao. 
Foi necessario esperar vinte e tres seculos para que se cumprisse 
ao pe da letra a profecia involuntaria de Arist6teles: os teares comec;:aram 
a funcionar sozinhos, e as cftaras, a soar sem ci-tarista. Mas ainda foi 
necessario decorrer mais urn seculo para que os homens pusessem em 
pratica a profecia inteira. Uma vez que a maquina libertou o homem do 
trabalho ininterrupto, em nossos dias ja nao existe Iugar para os escravos 
e os patr6es. 
79. Arist6teles: Politique, pag. 14. 
80. "Se cada instrumento pudesse, de fato, trabalhar por si mesmo, ao receber uma 
ordem ou adivinha-la - com as estatuas de Dedalos, ou as tripodes de Vulcano, que se 
apresentavam sozinhas, como diz o poeta, as reunioes dos deuses -, se as lan.;:adeiras 
tecessem sozinhas, se o arco se movesse por si s6 sobre as cordas da citara, os empresarios 
nao necessitariam de empregados, nem os patroes necessitariam de escravos". Arist6teles: 
Politique, pag. 13. 
59 
,. 
CAPITULO III 
A EDUCA<;AO DO HOMEM ANTIGO 
Segunda Parte - Roma 
Da comunidade primitiva com "reis" eleitos, Roma tambem passou, 
como todos os povos conhecidos, a sociedade de classes, baseada na 
escravidao. Grandes proprietarios, os patrfcios, monopolizavam o poder, 
as expensas dos pequenos proprietarios, OS plebeus, que, apesar de livres, 
estavam exclufdos dos postos dirigentes. As reivindica~oes incessantes dos 
plebeus lhes deram, no ano 287 a.C., a igualdade polftica. Patrfcios e 
plebeus, fundidos numa nova nobreza, assumiram desde essa epoca a 
dire~ao polftica da sociedade. As rivalidades comerciais com os povos 
vizinhos levaram Roma incessantemente a novas guerras, e, da mesma 
forma que a Grecia ascendeu triunfalmente depois da guerra com os persas, 
Roma se enriqueceu com a derrota de Cartago e se inundou de escravos 
e de ouro. 
Nos primeiros tempos da Republica - epoca da "velha educa~ao" 
- Cincinato, da mesma forma que Ulisses na Grecia, arava os seus 
campos com o seu proprio esfor~o. A divisao do trabalho, que ainda nao 
se mostrava muito acentuada, apenas exigia urn pequeno numero de 
escravos. 0 proprietario rural compartilhava com os seus servidores a 
canseira dos trabalhos agrfcolas. A colabora~ao no trabalho diminufa as 
distancias sociais, e ate uma especie de familiaridade atenuava a hierarquia. 1 
I. Paul Louis: Le Travail dans le Monde Romain, pag. 59. 
61 
• 
Os filhos do proprietario recebiam a sua educac;ao ao !ado do pai, 
acompanhando-o nos seus trabalhos, escutando as suas observac;oes, aju-
dando-o nas suas tarefas mais simples. Uma vez que toda a riqueza 
provinha da terra, era natural que as coisas agrfcolas assumissem para os 
jovens uma importancia fundamental. A influencia polftica exercida por 
uma familia era func;ao direta da extensao das terras que possufa. Ja foi 
observado que 0 adjetivo locuples, que significava "opulento", e uma 
CI'J·trac;ao das palavras loci plenus, que, textualmente, querem dizer: "o 
que tern abundancia de domfnios". 
A posse da terra tambem assegurava os melhores postos no exercito. 
Os custosos cavalos e as armas pesadas eram privativos dos poderosos. 
Ate o seculo II a.C., as legi6es nao se compunham de soldados profissionais 
e sim de grandes e pequenos proprietarios, que abandonavam temporaria-
mente as suas propriedades para se dedicar as !ides guerreiras e, comumente, 
obter mais riqueza, em terras e escravos. 
A agricultura, a guerra e a politica constitu{am o programa que 
urn romano nobre devia realizar. Para aprende-lo, a unica maneira era a 
pratica. Ja vimos que, junto ao pai, o jovem romano aprendia os segredos 
da agricultura. A guerra, ele travava conhecimento com ela, primeiro nos 
campos de exercfcio, depois na coorte do general. Em relac;ao a polftica, 
ele se adestrava assistindo as sess6es em que se debatiam os assuntos 
mais ruidosos. Perto da porta do Senado, havia alguns banquinhos reservados 
aos jovens, e, freqiientando-o, eles se familiarizavam, como ouvintes, com 
as proprias func;oes que logo mais deveriam desempenhar. 
Aos vinte anos, o jovem nobre, que ja sabia arar a terra e que ja 
havia assistido a algumas batalhas no exercito e no Senado, estava pronto 
para a vida publica. Quanto a instruc;ao propriamente dita, ele recebera 
rudimentos de algum escravo letrado, a quem o seu pai delegara essas 
responsabilidades. Nao devemos ter muitas ilus6es a respeito da eficacia 
de tal pedagogo. Mais cumplice do jovem do que seu professor, o escravo 
!he ministrava uma instruc;ao que ia muito pouco alem das primeiras 
letras.2 Alias, nao se necessitava de muito mais. Quando, anos mais tarde, 
era a vez do rapaz falar no Senado, ele nao pensava na oratoria e sim 
na ac;ao. Mas, por essa ocasiao, muito antes de que !he ocorresse teorizar 
a respeito das regras do bern falar, das vantagens de levar por escrito 
suas alegac;6es3, ou de cuidar das minucias do estilo, aquele homem, 
apenas medianamente instrufdo, ja se transformara num artista do discurso. 
2. Boissier: "L'Education Chez les Romains", pag. 1785 do Dictionnaire de Pedagogie, 
de Buisson. 
3. Hortencio foi o primeiro orador que escreveu urn discurso, no caso para defender 
Messala. Boissier: Tacite, pag. 199. 
62 
Segundo o conceito dos romanos, o "orador" era o homem par 
excelencia. Em uma formula conhecida, Catao o definiu "como urn homem 
de bern (vir bonnus), habil na arte de falar". A formula e vaga se 
prestarmos atenc;ao apenas as palavras. De fato, que quer dizer na realidade 
"homem de bern"? Mas quando, anos mais tarde, Quintiliano aprova essa 
definic;ao e a explica, ja nao pode haver a menor duvida a respeito do 
sentido exato das palavras de Catao. 0 orador ~ diz Quintiliano - "e 
o verdadeiro politico, o homem nascido para a administrac;ao dos assuntos 
publicos e privados, capaz de reger um estado com os seus conselhos, 
de estabelece-lo mediante leis, e de reforma-lo pela justic;a".4 
E, mais adiante, depois de reconhecer o retrato do "orador" perfeito 
num personagem que Virgilio apresenta tranqiiilizando, com suas palavras, 
o populacho amotinado5, afirma: "Eis af, antes de tudo, o homem de 
bem".6 0 homem de bern, o vir bonnus da definic;ao de Catao, e o homem 
das classes dirigentes, a quem a educac;ao desenvolveu as qualidades 
necessarias, nao so para cuidar dos interesses dessas classes e aumenta-los, 
como, tambem, para defende-las contra as ameac;as do "populacho amo-
tinado". Era essa, em suas linhas mestras, a educac;ao e o ideal de urn 
romano opulento - locuples - nos velhos tempos da "virtude" republicana. 
Mas nao havia decorrido muitos anos e ja Salustio - da mesma 
forma que Hesfodo, na Grecia - lamentava o orgulho dos ricose a 
miseria dos pobres. A grande propriedade, crescendo as expensas da 
pequena, nao so aumentava o numero dos que nada tinham, como tambem 
exigia, cada vez com mais urgencia, uma multidao de trabalhadores 
escravos. 
Se, nos meados do seculo V a.C., so exiStia urn escravo para cada 
dezesseis homens livres, depois da Segunda Guerra Punica o numero de 
escravos era o dobro do de homens livres. A conquista das Galias, realizada 
por Julio Cesar, rendeu mais de urn milhao de escravos, e o proprio 
Cesar, de uma feita, vendeu mais de cinqiienta mil. Nas grandes casas 
romanas, havia urn escravo especial chamado nomenclator, cuja unica 
missao era carregar a lista dos escravos do senhor; e e sabido que, na 
opiniao de Horacia, ter apenas dez escravos ja era urn sinal de miseria. 
As "gloriosas" legi6es romanas eram seguidas por urn bando de 
mercadores de escravos - os mancones - que compravam aos soldados 
os seus prisioneiros. Dessa forma, "roendo os povos ate os ossos", Roma 
assegurou as suas classes dirigentes o "ocio com dignidade" de que falava 
4. Quintiliano e Plfnio, o Mo((o: Oeuvres Completes, pag. 3. 
5. Quintiliano e Plfnio, o Mo((o, ob. cit., pag. 450. 
6. Habemus igitur ante omnia virum bonum. 
63 
Horacio. Sem nenhuma remunera9ao, sem ser interrompido pelo servi9o 
militar nem pelas guerras, o trabalho do escravo produzia urn rendimento 
continuo. A enorme divisao do trabalho a que se podia chegar com 
semelhante massa de escravos atribufa a cada homem urn reduzido setor 
especializado, com as conseqiientes vantagens para a produ9ao. E essa 
especializa9ao havia chegado a tal ponto entre os escravos, que Cfcero 
criticava Pisao, dizendo de mau gosto o fato de o escravo que recebia 
as visitas desempenhar tambem uma fun9ao qualquer na cozinha da casa. 
Mas, a medida que os domfnios rurais aumentaram de tamanho, 
levando tambem a urn aumento do numero de escravos, as rela96es entre 
amo e escravo adquiriram urn aspecto diferente do que tinham na epoca 
da pequena propriedade. Vivendo Ionge das suas terras, o romano nobre 
ja nao era urn colaborador dos scus cscravos 7, que estavam debaixo das 
ordens de urn intendente - urn Iiberto ou urn escravo de confian9a -
que cuidava atentamente das rendas do seu patrao. Apareceu, entao, o 
desprezo pelo trabalho como uma ocupa9ao propria de escravos, de modo 
que em Roma tambem vamos encontrar, sem grandes varia96es, o mesmo 
antagonismo entre "trabalho" e "6cio", que assinalamos anteriormente na 
Grecia. 
E evidente que s6 pelo terror e que seria possfvel manter na obediencia 
urn tao grande numero de escravos. Alem de trabalharem acorrentados, 
os escravos eram severamente vigiados. Em Roma nao existia, como em 
Esparta, uma institui9ao semelhante a mencionada Cripteia, que lhe permitia 
exterminar os ilotas descontentes, mas urn sistema ainda mais perfido 
levava aos mesmos resultados. Os escravos mais robustos e temfveis nao 
eram apunhalados a trai9ao como em Esparta, mas educados como gla-
diadores, com o que Roma conseguia, ao mesmo tempo, distrair-se e 
proteger-se. 0 sangue que corria nos anfiteatros nao tinha valor para o 
romano nobre; "sangue vil", diria Tacita, algum tempo depois.8 Nao havia, 
portanto, nenhum escrupulo em derrama-lo, da mesma forma que aqueles 
desgra9ados nao mereciam nenhuma considera9ao. Numa ocasiao em que, 
sob o pretexto de nao ter sido descoberto o assassino de urn nobre rico, 
se condenou a morte os quatrocentos escravos que viviam na sua vila, 
Tacito reconheceu que "nao ha outro modo de sujeitar esta rale, a nao 
ser pelo terror". 
7. "0 tipo do grande proprietario territorial romano nao e 0 do granJe!ro que dirige 
pessoalmente a explora~ao das suas terras. Ao contrario, trata-se de urn homem que vive 
nas cidades, que se entrega a polftica e que quer, antes de tudo, obter rendas em dinheiro"_ 
Max Weber: "La Decadencia de Ia Cultura Antigua", pag. 37. 
8. Boissier: Tacite, pag. 140. 
64 
Nao e necessaria dizer que, depois de cada subleva9ao de escravos, 
aparecia uma lei que recomendava melhor tratamento aos escravos, e que 
amea9ava punir todos os que abusassem deles. Catao, o austero Catao, 
resumo e prot6tipo das virtudes romanas - aquele que uma vez conseguiu 
expulsar Manlio do Senado, porque este havia beijado sua esposa em 
presen9a de sua filha9 -, passou a vida vociferando contra o luxo e 
falando da necessidade de criar impastos, proporcionais ao numero de 
escravos de cada nobre. Mas, da mesma forma que o ideal da beleza nao 
era, em Atenas, incompatfvel com a usura, tambem em Roma as virtudes 
do vir bonnus nao eram incompatfveis, ja nao digo com a usura, mas ate 
com aquelas fun96es que entre n6s sao desempenhadas pelos caftens ... 
Catao nao s6 martirizava os seus escravos, como os instrufa em certas 
artes, para vende-los mais caro posteriormente; nao s6 abandonava, como 
o "ferro velho", 10 os escravos inservfveis, como cobrava uma taxa dos 
que queriam se divertir com as suas escravas. 11 
0 terror e os castigos, pelo fato de terem sido durante muito tempo 
o unico acicate para manter desperto o trabalho do escravo, repercutiram 
de modo extenso e contraproducente sobre o rendimento desse trabalho. 
Com maus-tratos nao se conseguia produzir nada de boa qualidade, nem 
em quantidades apreciaveis. Alem disso, nao era possfvel entregar aparelhos 
complicados ou tecnicos, que exigiam certo esmero, nas maos de homens 
que trabalhavam com rancor. Por outro lado, com aparelhagem tosca, nem 
as terras rendiam satisfatoriamente, nem a explora9ao das minas podia ir 
muito Ionge. Incapazes de fertilizar o solo e de trabalhar a fundo o 
mineral, os romanos estavam sempre a procura de novas terras aniveis. 
E como estas exigiam muitos bra9os, o exercito de escravos se tornava 
cada vez mais compacta. Para remediar de algum modo esta falta de 
qualidade do trabalho do escravo, os proprietarios come9aram a premiar 
os melhores trabalhadores, oferecendo-lhes algum peculium, alem da pos-
sibilidade de comprar a sua liberdade. E como esse pre9o era sempre 
superior ao de compra, resultava que libertar escravos era urn neg6cio 
quase tao born quanto adquiri-los. Os escravos libertos e os pequenos 
proprietarios que, no seculo IV a.C., foram arruinados pelos latifundios, 
passaram a se dedicar ao comercio e as industrias livres. 
Da mesma forma que os periecos espartanos e os metecos atenienses, 
estes comerciantes e artesaos nao deviam ao Estado nada do que sabiam. 
9. Plutarco: Vidas Paralelas, tomo IV, pag. 81. 
10. Plutarco, ob. cit., tomo IV, pag. 60. Cf., no mesmo sentido, o ja varias vezes 
citado livro de Paul Louis, pags. 182-183. 
I L Plutarco, ob. cit., tomo IV, pag. 87. 
65 
.., 
Os que haviam sido antigos escravos aprenderam o seu offcio em casa 
dos seus amos, de algum velho e instrufdo escravo. Nesse sentido, cada 
lar romano foi para os escravos uma escola elementar de artes e oj{cios. 
Os que haviam sido antigos proprietarios, ao contrario, tiveram de aprender 
agora, dos escravos instrufdos, muitas coisas que, ate entao, tinham 
considerado desprezfveis. 
A necessidade de uma "nova educa~ao" come~ou a se fazer sentir 
em Roma a partir do seculo IV a.C., da mesma forma que, urn seculo 
atras, na Grecia, no mesmo momenta em que a antiga classe aristocrdtica 
e rural comer;a a ceder posir;oes a outra classe que se firmava, a 
comerciante e industrial. Unidos em confrarias e corpora~6es, os comer-
ciantes e os artesaos, que haviam aprendido a defender-se desse modo, 
come~aram a ter influencia polftica e a gozar de considera~ao social. A 
partir do seculo III a.C., eles tern Iugar de honra nos espetaculos e passam 
a ser convidados para os banquetes. 
Fatos muito importantes devem ter acontecido para que a aristocracia 
latifundiaria haja come~ado a se retirar diante dessa nova aristocracia do 
dinheiro. De fato, nao tinha limites o desprezo que os velhos aristocratas 
sentiam por tudo que se referia aos neg6cios. Leis estritas, que possivelmente 
nunca foram cumpridasao pe da letra, mas que ilustram bastante pela 
clara inten~ao que tinham, proibiam · aos senadores armar navios de mais 
de 300 anforas, 12 is to e, s6 podiam armar navios de uma tonelagem tao 
exigua que nao podiam servir para atividades comerciais. A nova nobreza, 
a dos cavaleiros, 13 se encarregou precisamente de todos esses neg6cios 
honestos e desonestos que a nobreza senatorial julgava indignos de efetuar 
diretamente. 
Diretamente, entenda-se bern, porque aqueles patricios orgulhosos 
nao (inham o menor escnipulo em equipar em nome dos seus escravos e 
libertos os mesmos navios que nao podiam fretar em seu nome. 14 
12. Louis, ob. cit, pag. 139. 
13. A ordem dos cavaleiros, colocada na hierarquia social logo abaixo da ordem 
senatorial, era uma nobreza de segundo grau, uma especie de alta burguesia que havia 
tornado a sua denomina~ao do Iugar que os seus membros ocupavam no velho exercito. 
Eles haviam se transformado em larga escala em uma classe de financistas e homens de 
neg6cio, urn verdadeiro partido politico, cujas lutas com a ordem senatorial foram uma das 
grandes causas da queda da Republica. Bloch: L'Empire Romain: Evolution et Decadence, 
pag. 67. 
14. E o que fazia Catao, por exemplo, segundo Plutarco. Convencido de que "era 
homem admiravel e divino no tocante a fama, o que deixava nas suas gavetas mais dinheiro 
posto por ele do que o que recebeu" (tomo IV, pag. 89), entregou-se tambem a fraude "e 
justamente c1 mais desacreditada de todas, a maritima. Fez com que muitos fraudadores 
66 
0 desprezo por todas as formas de trabalho nao deixou de ser, por 
1sso, o tra~o fundamental da nobreza. Os escultores e os pintores estavam 
num nivel tao inferior como o de qualquer artesao. S6 se conhece em 
Roma urn jovem nobre que se dedicou a esses misteres: o neto de Messala. 
Mas essa exce~ao nao pode ser mais eloqiiente: Messala permitiu que ele 
aprendesse pintura, porque se tratava de uma crian~a surda-muda ... 15 
Mas, como ja dissemos, a partir do seculo IV a.C., os membros da 
nova classe come~aram a ter opiniao diversa. Achando insuficiente a 
educa~ao ministrada ate entao aos nobres, come~aram a exigir uma nova 
educa~ao. Apareceu, entao, em Roma, da mesma forma que anteriormente 
havia acontecido com a Grecia, uma turba de professores: os ludimagister, 
para a educa~ao primaria, os gramdticos, para a media, e os retores, para 
a superior. 
A primeira noticia segura a respeito de uma escola primaria em 
Roma data do ano de 449 a.C. Tratava-se de uma escola particular, alias 
como todas as da epoca, para onde as familias menos ricas enviavam os 
seus filhos. As que nao podiam pagar professores particulares para os 
seus filhos entravam em acordo para custear os gastos de uma escola. 
Artesao como qualquer outro, o professor primario - o ludimagister -
era urn antigo escravo, urn velho soldado ou urn proprietario arruinado, 
que alugava urn estreito compartimento chamado pergula e abria ali a sua 
"loja de instru~ao". Como as instala~6es davam para a rua, todos os rufdos 
chegavam ate a escola, e, para que a semelhan~a com os outros "neg6cios" 
fosse completa, as primeiras escolas que se abriram em Roma se instalaram 
no Foro, entre as mil e uma tendas de mercadorias que ali existiam. Nao 
e necessaria dizer que 0 oficio de professor, da mesma forma que qualquer 
outro em que se ganhava urn salario, era profundamente desprezado. Aos 
olhos dos romanos, da mesma forma que na opiniao dos gregos, o saldrio 
era uma prova de servidao, e e sabido que Seneca, depois de Cicero, se 
recusou a incluir a profissao de professor entre as profiss6es liberais, isto 
e, entre as profiss6es dos "homens livres". 
Os ludimagister, eram, sem duvida, homens "livres", mas o fato de 
terem de trabalhar para viver os situava em urn plano de nitida inferioridade. 
A sorte dos artesaos era de fato terrivel: o homem livre, mas pobre, que 
formassem uma companhia, e havendo reunido cinqtienta deles, com outros tantos barcos, 
tomou parte nessa empresa por meio do seu Iiberto de nome Quintao, que cooperava e 
navegava com os outros; assim, o risco nao era todo seu, mas, ao contrario, o perigo era 
pequeno, e o lucro era grande". (Torno IV, pag. 88.) 
15. Pottier: "L'Education Chez les Romains", in Dictionnaire des Antiquites Grecques 
et Romaines, de Darenberg e Saglio, parte II, pag. 487. 
67 
' 
queria trabalhar honradamente, tinha que competir com o trabalho escravo, 
muito mais barato do que o seu. A desvantagem dessa situagao o manietava 
com dfvidas que nao podia redimir e, em pouco tempo, passava da sua 
misenivel "liberdade", a olhar invejosamente para a situagao, menos mi-
senivel talvez, dos escravos. 16 
Mal instaladas, as escolas de primeiras letras dispunham apenas de 
uns bancos para os alunos e de uma cadeira para o mestre. Poucos cubos, 
esferas quase sempre, alguns mapas as vezes, eis todo o material escolar 
disponfvel. Com a vara na mao, o mestre fazia os alunos repetirem 
interminavelmente mon6tonas ligoes a respeito do texto das Doze Tabuas. 
0 pagamento obtido pelos mestres era naturalmente muito exfguo, 
a ponto de eles serem fon;:ados a cxercer conjuntamente outros offcios, 
como o de copista, por cxcmplo. 17 Mas, tamhcm havia outra circunsHincia 
que agravava ainda mais a sua dcsgnu;a: em principia, o professor niio 
estava /ega/mente autorizado a cohrar pelo seu ensino, ainda que se 
admitissc que rccchcssc prcscntcs dos scus alunos. Posteriormente, esses 
prcscntcs tcndcram a sc transformar em salario fixo, pago pelas famflias 
dos alunos, mas as leis continuaram ignorando a existencia desse pagamento, 
tanto que, ate o fim do Imperio, nao era possfvel reclamar juridicamente 
contra os pais que se recusavam a pagar as lig5es recebidas pelos seus 
filhos. 18 
A situagao era urn pouco diferente em relagao aos mestres do ensino 
medio (gramaticos) e aos do ensino superior (retores). Enquanto Roma 
foi um Estado pequeno, as suas classes dominantes puderam se contentar 
com a limitada educagao que mencionamos. Mas, a medida que o comercio 
e as guerras foram fazendo com que ela entrasse em contato com outros 
16. "No mundo antigo, so podia ser homem livre o dono de urn pedac;:o de terra que 
!he fornecesse a materia-prima necessaria para produzir os objetos mais indispensaveis. E o 
homem que nao possufa esse pedac;:o de terra era obrigado a se por a servic;:o dos que o 
possufam. Economicamente, era um homem perdido; nao podia dedicar-se a industria, ja que 
esta, no sentido moderno do termo, nao existia, uma vez que todos produziam pessoalmente 
a maior parte dos objetos de que necessitavam". Hartmann: La Decadencia del Mundo 
Antiguo, pags. 20-21. 
17. 0 conceito em que era tido o offcio de professor pode ser deduzido do seguinte 
trecho de La Necromancia, de Luciano, em que Menipo descreve para Fil6nidas as castigos 
que viu nos infernos e a triste condic;:ao a que se veem reduzidos os que, na Terra, foram 
reis e satrapas: "E certo que te ririas muito mais se tivesses vista os que foram reis e 
satrapas entre nos mendigando no inferno, ou sendo obrigados, par necessidade, a vender 
pescado salgado ou a ensinar as primeiras letras". Luciano: Obras Completas, tomo I, pag. 
282. 
18. Courbaud: "Ludus, Ludimagister", in Dictionnaire des Antiquites Grecques et 
Romaines, de Darenberg e Saglio, tomo III, parag. II, pags. 1379-1386. 
68 
povos e foram provocando novas necessidades, a instrugao sumaria de 
que falamos deixou de ser suficiente. 0 grammaticus levou de casa em 
casa a instrugao enciclopedica necessaria para a polftica, para os neg6cios 
e para as disputas nos tribunais. Desde a dicgao esmerada, ate urn rapido 
bosquejo filos6fico, o essencial da cultura era ensinado pelos gramaticos, 
crfticos capazes que, de certo modo, formavam a opiniao publica. 
Mas ainda estava faltando alguma coisa: ja nao bastava aos enri-
quecidos19 uma cultura geral que tornasse menos insolente o resplendor 
do ouro, faltava a cultura especializada que conduzia em linhareta aos 
altos cargos oficiais. A eloqiiencia, na teoria e na pratica, a eloqiiencia 
no amplo sentido que comegaram a dar-lhe os romanos: essa foi a novidade 
trazida pelos retores. Luxuosa novidade, que se tinha de pagar a tal prego, 
que s6 estava ao alcance dos ricos. 
Tacito, por exemplo, era urn "homem novo", isto e, urn homem que 
nao tinha nenhum parente no Senado. Seu pai, urn astuto novo-rico, 
esforgou-se, por essa razao, para dar ao seu filho a educagao do orador, 
uma educagao que pudesse leva-lo aos triunfos reservados ate entao aos 
nobres. A figura de Aper, do seu Dialogo dos Oradores, e precisamente 
o retrato de urn desses parvenus que Tacito conhecia tao bern, e que 
buscavam exatamente na eloqiiencia OS exitos rapidos e ruidosos. ZO 
0 retor nao se esquecia de urn s6 detalhe: tinha algo de poeta e 
de ator, de advogado e de musico, de janota e de professor de boas 
maneiras. Previa os gestos mais insignificantes e os discutia a fundo. 
Sabia, por exemplo, ate que altura devia-se levantar o brago no ex6rdio 
e como estender a mao durante a argumentagao. Graves polemicas se 
travavam assim sobre coisas que para n6s nao passam de trivialidades. 
Plfnio, o Velho, aconselhava, por exemplo, que o orador que transpira e 
enxuga a fronte deve ter muito cuidado para nao desarranjar a cabeleira. 
Grave erro, replica Quintiliano: uma cabeleira ligeiramente em desordem 
e uma toga nas mesmas condig5es nao ficam mal para urn orador 
emocionado.Z1 
19. Que a educac;:ao era patrimonio exclusivo dos ricos, o reconheceu Plutarco num 
trecho do seu livro intitulado De Libero Educandis: "Qualquer urn poderia observar-me: Tu 
que has prometido dar conselhos para a educac;:ao dos nobres, esqueces os pobres e a plebe, 
e procuras instruir apenas os ricos. Nao e diffcil responder a essa observac;:ao. Eu desejaria 
ardentemente que a instruc;:ao fosse comum a todos, mas, se alguns (cidadaos livres), par 
serem indigentes, nao podem utilizar os meus conselhos, que eles acusem a sorte e nao 
aquele que da esses conselhos". Bassi: ll Pensiero Morale, Pedagogico, Religioso di Plutarco, 
Studi e Testi, pag. 74. 
20. Tacita: La Germania y Didlogo de los Oradores, pag. 49 e segs. 
21. Boissier: "L'Education Chez les Romains", in Nouveau Dictionnaire de Pidagogie, 
de Buisson, pag. 1787. 
69 
' 
Coisinhas de urn povo em decadencia, ou refinamentos de professores 
que complicam de proposito os assuntos para assim aumentar a importancia 
da escola? Pensar assim seria ignorar uma das mais poderosas armas de 
governo de urn tempo em que os assuntos se resolviam pela palavra. Os 
advogados romanos apresentavam os seus clientes nos tribunais e os faziam 
gemer e implorar em posturas convenientes: mulheres vestidas de luto, 
crianc,:as desgrenhadas, velhos soldados que rasgavam as roupas para mostrar 
as suas cicatrizes.22 Essa era a atmosfera teatral do tribunal; era, tambem, 
a atmosfera do Senado e ate a que se respirava no exercito. Quando Cesar 
passou o Rubidio - conta Suetonio -, "fez com que comparecessem 
diante dele os tribunos do povo que, expulsos de Roma, tinham vindo ao 
seu acampamento. Arerigou aos soldados e invocou a sua fidelidade, 
chorando e rasgando a roupa sobre o peito". 23 Para nos, isso e demasiado, 
mas, para eles, talvez ainda fosse pouco. 
Sem os poderosos meios de propaganda de que disp6em as classes 
favorecidas de hoje, como nao iria ter importiincia na educac,:ao do futuro 
homem de governo a maneira de levar a toga, de estender o brac,:o, de 
transmitir a VOZ toda a gama de cntonac,:oes Segundo a paixao - diz 
Cicero - que "pretenda aparentar, ou queira sugerir"?24 "Emocionar -
acrescentou depois- e toda a eloqiiencia". 25 Distingue, por isso, o orador, 
do filosofo: este fala para instruir, ao passo que o primeiro fala para 
conseguir adesao. 26 
Aristoteles ja havia assinalado que o raciocfnio oratorio nao se baseia 
exatamente na verdade. "Quando se trata de conter a urn populacho 
ignorante e tumultuoso - dizia o grego -, de pouco pode servir urn 
silogismo." E que outra coisa pensava o romano, quando colocava em 
pianos distintos o filosofo que demonstra, e o orador que sugere? 
Nada de extraordinario, pois, que Quintiliano propusesse formar o 
futuro orador desde o berc,:o, e que se preocupasse em escolher-lhe uma 
ama sem linguagem viciosa, "porque urn vaso conserva sempre o perfume 
22. Em seu livro sobre o orador, Cicero recorda alguns dos processos que empregou 
para enternecer os jufzes. Para despertar a compaixao, diz: "tenho levado uma crian~a pela 
mao, e, algumas vezes, ao fazer com que urn acusado ilustre se levantasse ou ao apresentar 
seu filho pequeno e fnigil em meus bra~os, fiz com que o plenario se inundasse de lagrimas 
e solu<;:os" (plangore et lamentatione complerimus .fiJrum). Cicero: L'Orateur, pag. 129. 
23. Suet6nio: Los Doce Cesares, pag. 43. 
24. Cicero, ob. cit., pag. 54. Na pagina 57, aconselha o orad or a falar de pe, para 
parecer mais alto, caminhar pouco, e estender os bra~os somente nos momentos pateticos. 
25. Cicero, ob. cit., pags. 69 e 126. 
26. Cicero, ob. cit., pag. 61. 
70 
<Jilt' rcccbeu em primeiro lugar". 27 As func,:6es que na sociedade moderna 
dt·scmpcnham o pulpito, a imprensa, a tribuna, o foro, o congresso, a 
··scola e tambem a universidade estavam reservadas naquele tempo ao 
()rador. 28 Como nao prepara-lo desde o berc,:o para o que ia ser a vida 
intcira? Urn imperador que nao soubesse expressar-se com eloqiiencia 
parcceria, so por isso, indigno de reinar, e quando se soube que era 
.Seneca quem escrevia os discursos de Nero, foi urn esciindalo monstruoso. 
Uma medida de particular importancia tomada por Augusto acentuou 
as diferenc,:as existentes entre o aristocrata latifundiario, que batia em 
rctirada, e o aristocrata do dinheiro, que cada dia ganhava urn novo posto. 
0 servic,:o militar havia sido ate entao urn dever do latifundiario que, 
assim, defendia as suas proprias terras. Com a criac,:ao de urn exercito 
permanente, Augusto separou as "virtudes" civis, das militares. A guerra 
se transformou numa profissao e o romano rico, aliviado dessa carga, viu 
que lhe sobrava tempo para outras coisas. Catao continuava sustentando 
que o romano que nao fosse soldado, lavrador e magistrado trafa a sua 
cidade, mas em vao; da mesma forma, foi em vao que Quintiliano definiu 
a filosofia como uma "indolencia impertinente" (pigritia arrogans).29 As 
novas correntes tinham Seneca como interprete e, pelos seus labios, faziam 
o "elogio do ocio". 30 0 impulso individualista, que as industrias e o 
comercio trazem sempre consigo, transformara nao so a situac,:ao recfproca 
das classes sociais, como, tambem, as ideologias que ate entao haviam 
sido dominantes. Urn desejo de bem-estar pessoal, de ceticismo ironico, 
de cinismo talvez, vai dando a Roma urn novo colorido. Tao contrario 
ao ate entao dominante que, no ano 92 a.C., dois cerisores implacaveis, 
Domfcio Aenobarbus e Licfnio Crassus, ordenaram o fechamento das novas 
escolas. Enquanto a retorica foi ensinada em grego, a sua difusao nao 
inquietou ninguem, porque, ficando reduzida ao pequeno cfrculo das pessoas 
cultas que falavam esse idioma, acreditava-se que as novidades nao seriam 
perigosas. Mas os novas retores comer,;aram a ensinar em latim, isto e, 
no idioma de todos. Como e que OS velhos patrfcios, que durante varios 
seculos se opuseram a que os plebeus conhecessem o texto das Doze 
Tabuas, nao se iriam opor, agora, a essa invasao da classe media no 
proprio terreno da cultura? "Nossos antepassados - diz o edito -
regulamentaram o que queriam que fosse ensinado as crianc,:as, bern como 
quais as escolas que deveriam freqiientar. No que tange as novidades que 
sao contrarias aos habitos e aos costumes dos nossos pais, elas nos 
27. Quintiliano e Plinio, o Mo~o, ob. cit., pag. 5. 
28. Monroe: Historia de Ia Pedagog(a, tomo III, pag. 272. 
29. Quintiliano, ob. cit., XII, 3, 12. 
30. Salomone: Seneca e Suoi Pensieri di Filosofia e di Pedagogia.71 
' 
desgostam e achamo-las condemiveis". As novas escolas foram fechadas, 
mas algum tempo depois elas ressurgiram mais fortes e triunfantes. A 
causa dos grandes proprietarios, que os censores defendiam no front 
pedag6gico, ja estava perdida havia muito tempo. De que modo ela poderia 
firmar-se num terreno que estava, juntamente com outros, sendo conquistado 
pela nova aristocracia do dinheiro? As escolas publicas primarias foram 
uma criar,:ao dos comerciantes, dos industriais, dos negotiadores; as escolas 
publicas superiores tambem foram uma exigencia do poderio crescente 
dessas classes, urn modo de assegurar melhor a direr,:ao polftica dos seus 
neg6cios. A aristocracia senatorial nao s6 foi obrigada a aceitar as novidades, 
como ainda teve de apressar-se para nao perder o passo. 0 que ignorasse 
as artes da ret6rica corria o risco de ser vencido nessas lutas orat6rias, 
cujo premio era o brilho e o poder.31 Mas os comerciantes, sempre 
avarentos,32 achavam que os retores particulares cobravam demasiado caro. 
Sugeriram, entao, aos retores, o mesmo processo que os professores 
primarios ja tinham adotado: abrir escolas. Nos tempos de Augusto ou 
nos de Tiberio, cerca de vinte reputadas escolas atrafam os jovens enri-
quecidos. A crianr,:a rica, que aos 7 anos havia entrado para a escola do 
magister, e que aos 12 comer,:ava a freqiientar a do gramdtico, aos 16 se 
punha em contato com o ensinamento do retor, que exigia, na realidade, 
a vida inteira para ser assimilado com proveito. E verdade que o Imperio 
havia liquidado com a eloqiiencia polftica, "pacificando-a", como a tudo 
o mais. Mas, ao mesmo tempo, havia aberto a carreira da burocracia33 
junto aos exitos do foro, que havia deixado intactos. A anedota de Suetonio, 
que nos mostra Augusto exonerando urn oficial do seu exercito por causa 
de urn erro de ortografia, 34 nao pode ser mais clara. A complicada e tosca 
organizar,:ao do Imperio necessitava de urn enorme exercito de adminis-
3 I. "Quando alguns jovens receberam essa instru~ao, todos se viram obrigados a isso". 
Boissier: "L'Instruction Publique dans L'Empire Romain", in Revue des Deux Mondes, mar~o 
de 1884, pag. 325. 
32. Era no que deveria pensar Plutarco quando escreveu: "Muitos pais chegam a tais 
extremos de avareza e desamor a seus filhos, que escolhem como preceptores homens de 
pouca importfincia para poder pagar menos e obter, assim, uma ignorfincia barata". Bassi, 
ob. cit., pag. 72. 
33. "Os conceitos burocniticos que nasceram no novo Estado romano diferenciam-se, 
pois, bastante de todas as ideias anteriores a respeito da administra~ao do Estado. Antigamente, 
os funcionarios eram eleitos pelo povo e ocupavam postos honorijicos, e os cidadaos 
consideravam urn dever aceita-Ios. Mas os funciondrios do Imperador eram, ao contrario, 
qualquer coisa como empregados particulares, e eram pagos ... Em torno do Imperador 
formou-se desse modo uma hierarquia de funcionanos cada vez mais absorvente, uma 
hierarquia que deveria, com o tempo, anular por completo todos os demais funcionarios". 
Hartmann. La Decadencia del Mundo Antiguo, pag. 54. 
34. Suet6nio: Los Doce Cesares, pag. 139. 
72 
tradores, delegados, empregados e secretarios. Apesar dos seus VICIOs e 
da sua rotina, a burocracia assegurava uma estabilidade relativa, malgrado 
a queda e a ascensao dos imperadores. A hist6ria nao conservou o nome 
dos funcionarios que, as vezes, desempenhavam tarefas essenciais para a 
marcha do Imperio, e que os imperadores recebiam e transmitiam por 
heranr,:a. Estacio fala de urn liberto da Casa Real, que foi algo como urn 
ministro da fazenda sob sete ou oito prfncipes, e que desempenhou o 
cargo de Secretario de Estado sob Domiciano, Nero e Trajano. Essa 
continuidade nas mesmas funr,:oes sob imperadores diferentes nao devia 
ser tao rara como, talvez, tenhamos tendencia a supor. 35 
Uma vez que nao podiam formar "oradores", como nos tempos 
republicanos, os retores ensinavam aos seus ricos alunos tudo quanta 
poderia ser essencial para a burocracia do Imperio. Os conhecimentos 
propriamente tecnicos nao eram ensinados pelo retor, mas ele ensinava a 
defender igualmente as causas mais opostas, com argumentos sutis e de 
efeito. 0 ensino pratico se compunha de tres graus: o primeiro, chamado 
tesis, tratando de quest6es gerais, nao tinha nenhum interesse especial; o 
segundo, chamado causas, de marcado carater forense, era urn pequeno 
ensaio dos processos judiciais; 0 ultimo, denominado controversia, 0 que 
realinente atrafa o interesse de todos, tinha algo de novela, de polftica, 
de teatro e da arte de governar. Os alunos discutiam sobre temas caprichosos, 
que refletiam mais ou menos bern os assuntos reais. 36 Os debatedores 
eram estimulados pelos seus companheiros, e o publico assistia entusiasmado 
ao nascimento de muitas reputar,:oes instantaneas. Os exitos obtidos pelos 
seus alunos recafam tambem sobre os seus professores que, desse modo, 
se convertiam em candidatos a certos postos decorativos ou de responsa-
bilidade: Secretario de Estado, Governador de Provincia, Prefeito do Pret6rio 
etc. 
Muitas rivalidades, que, as vezes, tocavam as raias da violencia, 
derivavam, naturalmente, desse novo mercado que se abria aos gramdticos. 
Esse fato e tanto mais singular porque a concorrencia entre comerciantes 
e entre artesaos nao pode existir na Antigiiidade, a nao ser em proporr,:oes 
muito escassas. 0 comercio e a produr,:ao daqueles tempos eram muito 
35. Boissier: Tacite, pag. 186, nota 1: "Sao esses esquecidos, esses desconhecidos que, 
muito freqiientemente, conduzem o Imperio". Ainda que a expressao conduzir seja urn tanto 
forte, o pensamento de Boissier e justo. Os inconvenientes dessa mesma burocracia estao 
bern indicados por Louis, ob. cit., pag. 295. 
36. Veja-se urn dos temas: "Duas cidades vizinhas eram governadas por tiranos. Urn 
deles e assassinado, e a outra cidade exige que o assassino !he seja entregue, amea~ando 
uma guerra no caso de nao ser atendida na sua exigencia. 0 assassino pede para ser 
extraditado ... Paul Guiraud: Historia Romana, pag. 120. 
73 
diversos dos de agora. 0 comercio se resumia quase que exclusivamente 
a objetos de grande valor, OS unicos que podiam suportar grandes despesas 
de transporte. Pelas mesmas raz6es, o tnifico de mercadorias s6 interessava 
ao pequeno nucleo formado pela classe proprietaria. 0 comerciante nao 
se interessava em satisfazer uma vasta clientela, e sim em servir a uns 
quantos fregueses poderosos. Da mesma forma, ou talvez em escala ainda 
mais reduzida, eram as lutas entre artesaos. 0 de.sejo de produzir mais e 
melhor, que leva a concorrencia, se desenvolve paralelamente ao grau de 
desenvolvimento do mercado em causa. Num regime economico assentado 
sabre a escravidao, esse mercado nao s6 e exfguo, como tambem o artesao 
livre se encontra em situa~ao inferior a do escravo, cujo trabalho e muito 
mais barato. No Jar do patrao, os escravos produziam nao s6 para as 
necessidades do amo e para as suas pr6prias, como, tambem, para as do 
comercio. A concorrencia entre o proprietario de escravos e o trabalhador 
livre nao poderia ser mais ruinosa para este ultimo. 
Havia, entretanto, entre certos artesaos, a possibilidade de competir, 
porque nao tinham de enfrentar no seu offcio a rivalidade do trabalho 
escravo. Esses novas artesaos foram, precisamente, os retores e os fil6sofos, 
em primeiro Iugar, e os gramaticos, em segundo. Quanta mais crescia a 
burocracia do Imperio, mais se acentuava a concorrencia entre os professores 
que preparavam candidatos para os cargos oficiais. Em varias cidades do 
Imperio - Autun, Bordeus, Atenas - o ensino passou a ser uma 
verdadeira industria, de que dependia a prosperidade dessas cidades. Os 
professores disputavam entre si futuros alunos, tao logo estes desembar-
cavam, exatamente como fazcm hoje os agenciadores de hoteis nas esta~6es 
de desembarque de passageiros.37 Alguns subornavam os escravos que 
acompanhavam os jovens, ao passo queoutros - como conta Fil6strato 
- chegavam ao cumulo de incluir entre os meritos das suas escolas a 
formosura de certas criadas condescendentes, cuja conduta leviana destoava 
nao pouco da castidade da filosofia. 
Mas, apesar de recorrerem aos exageros da propaganda, os retores 
e os fil6sofos nao queriam ser considerados artesaos. Que os professores 
primarios fossem inclufdos na turba desprezfvel dos assalariados, !he parecia 
muito bern. 0 nome de discfpulo que os ludimagister davam aos seus 
alunos era malvisto pelos retores. Eles preferiam chama-los "ouvintes", 
procurando disfar~ar por esse meio a sua indiscutfvel qualidade de assa-
lariados. Apesar disso, os proprietarios de terras e os banqueiros os olhavam 
com desprezo, c ja dissemos que Cicero havia interpretado o sentir da 
sua classe quando afirmou que "a profissao de professor nao e digna de 
37. Boissier. artigo citado, in Revue des Deux Mondes, pag. 338. 
74 
um homem de certa categoria". 38 E verdade que, a medida que diminufam 
as grandes fortunas e que aumentava o numero de escravos libertos, ia 
scndo considerado cada vez menos ignominioso receber dinheiro em troca 
Jc algum trabalho. Sem perder nada do antigo decorum, Quintiliano o 
rcconhece num paragrafo cheio de argucias de advogado. Nao lhe parece 
bern, afirma, que o orador cobre pelos seus servi~os, "mas, se o seu 
patrimonio exigir algum suplemento, podera, segundo as leis de todos os 
sabios, concordar com que reconhe~am os seus servi~os". E, poucas linhas 
mais abaixo, acrescenta que, nesse caso, o orador "nao recebera nada a 
tftulo de salario, e sim a titulo de mutua benevolencia, e sabendo, ainda, 
que sempre deu mais do que recebeu". 39 
Vamos ver, agora, de que modo esses mesmos retores orgulhosos 
foram os primeiros a disputar subsfdios do Estado, e de que modo tambem 
tiveram muita honra em pertencer ao Servi~o do Imperador, urn pouco 
como Corneill afirmava estar inclufdo entre os servidores de Richelieu. 
Antes de estudarmos de que modo o Estado come~ou a estimular 
a instruyao primaria, vimos que ele a havia deixado em maos de particulares, 
sem se preocupar com a preparayao dos professores. "Livre", no mesmo 
sentido que teve entre os atenienses, a instruyao privada nao implicava, 
portanto, "liberdade de doutrina". E conhecida a enorme importiincia que 
o censor tinha entre os romanos. A censura, disse Plutarco, "e o complemento 
do governo, e tern, alem de outras, a faculdade de examinar a vida e os 
costumes, porque nao ha nenhum ato importante, nem o casamento, nem 
a procriayao, nem metoda originario da vida, nem os banquetes, que possa 
estar livre de exames e de correiyao".40 E, pais, perfeitamente legftimo 
supor que a educayao que se ministrava nas escolas devesse estar com-
preendida entre as coisas que a censura nao podia deixar livres de "exames 
e de correi~ao". As escolas, por outro !ado, funcionavam em locais que 
abriam, freqtientemente, para a rua, quando nao se localizavam sob urn 
simples portico. Os transeuntes se detinham muitas vezes para observar 
as peripecias de uma li~ao, e elas costumavam ser tao ruidosas que o 
voluptuoso Marcial anota entre os motivos que o levavam a abandonar 
Roma, o canto dos escolares, que o impedia de dormir ate mais tarde. 
Pode-se, com justi~a, supor que urn ensino que nao se ajustasse as crenyas 
religiosas e as praticas consagradas - esses velhos costumes sabre os 
quais, segundo Plfnio, se assentava a Republica - atrafsse, de imediato, 
sabre o magister audaz, uma reayao da parte dos censores, muito mais 
38. Cicero: L'Orateur, pag. 143: "AI dignitatem docere non habes". 
39. Quintiliano e Plinio, o Mo<;:o: Oeuvres Completes, pag. 463. 
40. Plutarco: Vidas Paralelas, tomo IV, pag. 77. 
75 
I 
energ1ca, sem duvida, do que a que vimos surgir no ano 92 a.C., contra 
as escolas dos retores. 
A instru~ao privada, pois, sempre esteve sob vigilfincia em Roma, 
ainda que nao sob intervens,:ao direta. Augusto foi o primeiro governante 
que nomeou funciomirios com essa finalidade precfpua: uma especie de 
regente com a unica funs,:ao de vigiar o ensino dos jovens.41 
Mas, nao muito posteriormente, ocorreram outros fatos que revelaram 
o infcio de uma nova polftica estatal. A partir de Nero, os professores 
de gram:itica (grammatici), os de ret6rica (oratores) e os de filosofia 
(philosophi) foram liberados das obrigas,:oes publicas, isto e, daquelas 
obrigas,:oes a que nem os nobres podiam escapar. Julio Cesar havia-lhes 
reconhecido o direito de cidadania; Nero os desobrigava agora dos encargos, 
alguns deles bastante pesados, que essa cidadania acarretava: a obrigas,:ao 
de prestar servis,:o militar, de desempenhar o sacerd6cio, de cumprir as 
obrigas,:oes judiciais, de custear as suas expensas determinadas embaixadas, 
de dar hospedagem as tropas romanas e a certos mensageiros oficiais. 
Libertar os professores desses encargos publicos significava, pois, 
que as classes governantes estimulavam o ensino superior, reconhecendo-o 
como urn instrumento vital para o seu proprio domfnio. E falamos em 
ensino publico "superior" porque esse privilegio nao foi outorgado aos 
professores primarios que, por estarem em contato direto com os cidadaos 
pobres e COlli OS desprezfveis artesaos, nao podiam interessar as classes 
superiores. 
Vespasiano deu urn passo alem (ano 70 ou 79), ao conceder subsfdios 
a determinados retores.42 Sempre aos retores e nunca aos professores 
primarios, que eram os que realmente necessitavam de ajuda. 0 ensino, 
que ate entao havia sido uma industria livre, tendia a dividir-se em duas 
partes: urn ensino superior, cada vez mais "protegido", e urn ensino inferior 
"livre", submetido a todas as forrnas de concorrencia.43 
Adriano tornou permanentes os subsfdios que ate entao haviam sido 
irregulares, e pos em pr:itica duas iniciativas importantes: colocou a 
disposis,:ao dos retores urn amplo local do Estado - o Athenaeum Romanum 
41. Barbagallo: Lo Stato e L'Instruzione Pubblica nell'Jmpero Romano, pag. 30. 
42. Suet6nio: Los Doce Cesares, pag. 379. 
43. "Para o Estado romano, que se incomodava unicamente com as classes superiores, 
nao existia mais do que uma especie de instru<;:ao a que era necessaria outorgar privilegios 
e garantias: a instru<;:ao media e a superior e, as vezes, tambem a profissional. A elementar, 
ao contrario, devia ser abandonada a todos os azares da concorrencia e a todos os golpes 
do destino". Barbagallo, ob. cit., pag. 93. 
76 
para que ditassem as suas lis,:oes, e incorporou juristas ao Conselho 
do Imperador, ate entao integrado apenas por senadores. 
Ate o seculo II a.C., o ensino do Direito foi tao livre como qualquer 
outro ensino: aprendia-se Direito ouvindo-se os jurisconsultos quando estes 
eram abordados pelos seus clientes, isto e, convivendo com os mestres 
mais ilustres. Mas, a partir de Adriano, o ensino do Direito comes,:ou a 
ser particularmente cuidado. 0 Estado necessitava sobretudo da ciencia 
dos administradores e, ao incorporar jurisconsultos ao Conselho do Im-
perador, . demonstrava de maneira clara que classe de especialistas a 
burocracia requeria. 
Antonio Pio estendeu as regalias de que falamos a certa especie de 
professores que preparavam secretarios e copistas, com o que acentuou 
a orientas,:ao que o ensino ja apresentava, de preparar candidatos aos 
empregos publicos. 
0 mesmo Antonio Pio - ou, talvez, Marco Aurelio - exigiu que 
as cidades mais importantes do Imperio custeassem com as suas rendas 
os salarios dos retores e dos fil6sofos. Ainda que o Imperador interferisse 
na instrus,:ao, subvencionando professores ou incitando as municipalidades 
a fazerem o mesmo, nao havia ainda ensino a cargo do Estado. Ate o 
seculo V, os professores nao eram funcionarios do Estado, mas ja eram 
funcionarios das municipalidades. 
Estas aceitaram de rna vontade a nova carga que o Imperio havia 
lans,:ado sobre as suas costas, e trataram de fugir a essa obrigas,:ao enquanto 
puderam. Isso significava qtie os professoresrecebiam os seus salarios 
com muita irregularidade: as vezes urn ano sim, outro nao. Libanio refere-se 
aos professores de Antioquia, que nem ao menos tinham uma casa para 
morar e que habitavam vivendas improvisadas, como os remendoes de 
sapatos. "Empenhavam as j6ias de suas esposas, afirma. E quando veem 
o padeiro, tern vontade de segui-lo, porque sentem fome, mas, ao mesmo 
tempo, precisam fugir, por causa do que lhe devem".44 
A situas,:ao chegou a tal ponto que Constantino baixou uma lei 
ordenando que os seus salarios fossem pagos pontualmente, mas como o 
montante destes continuava ao arbftrio das cidades, Graciano precisou fixar 
o quanto cada municipalidade deveria pagar, isto e, inscreveu nos ors,:amentos 
municipais, como encargos obrigat6rios, os salarios dos professores. A 
nomeas,:ao dos professores ficava a cargo das cidades e se realizava 
freqiientemente por concurso, mas o Imperador Juliano (ano 362) se 
reservou o direito de confirma-los para que, desse modo - segundo disse 
44. Boissier, artigo citado, in Revue des Deux Mondes, pag. 332. 
77 
numa formula elegante - "a aprovar;ao do Imperador acrescente urn novo 
titulo ao escolhido pela cidade". Juliano sabia muito bern o que pretendia: 
temeroso de que os cristaos se apossassem do ensino no Imperio, resolveu 
interferir desse modo na nomear;ao dos professores. A partir desse ano, 
o Imperador passou a exercer esse privilegio de modo oficial e regular. 
0 ensino a cargo do Estado surgiu pela primeira vez na hist6ria da 
humanidade. 
J a estudamos a historia do seu aparecimento, desde as primeiras 
concessoes de cidadania outorgadas por Julio Cesar, ate a oficializar;ao do 
ensino, efetivada por Juliano: Teodosio e Valentiano (ano 425) foram ate 
o limite extremo, estabelecendo o monopolio estatal, isto e, proibindo 
qualquer forma de ensino fora do estatal. 
Que fator dirigiu tao complicada evolur;ao? Ja o indicamos, mas nao 
e demais repetir: a necessidade que as classes dominantes tinham de 
preparar funcion6.rios para o Estado. Se excetuarmos os poucos arquitetos 
e geometras que as tecnicas rudimentares da epoca exigiam, pode-se dizer 
que os funcionarios publicos se formavam nas escolas, e que era com 
essa finalidade, e nao por outro motivo, que o Estado se preocupava em 
ensinar.45 
Quando o Imperador Constancio Cloro nomeou Eumenes professor 
de Autun, sem se incomodar com o fato de que a nomear;ao cabia as 
municipalidades, o beneficiado agradeceu a nomear;ao com urn Iongo 
discurso de repugnante adular;ao, em que felicitava o Imperador por este 
"ter-se ocupado com a escolha de urn professor, com o mesmo zelo que 
45. 0 Edito de Diocleciano (ano 301) da uma lista bastante completa do corpo de 
mestres e de professores de Roma. Tal como a reproduz Barbagallo (ob. cit., pag. 195), a 
enumera~ao e desordenada. Para maior clareza, classifico-a assim: I o educa~ao ffsica: 
professores de ginastica ou ceromatiae; 2° ensino auxiliar: mestres que acompanhavam os 
alunos a escola, assistiam as li~6es e vigiavam os alunos (pedagogi); 3° ensino elementar: 
mestres elementares de leitura e escrita (magistri institutores litteratum), e mestres elementares 
de aritmetica (calculadores); 4o ensino medio: mestres de lingua e literatura grega e latina 
(grammatici graeci sibe Iatini); so ensino superior: mestres de ret6rica (oratores sibe sophistae); 
6° ensino profissional e tecnico: mestres de estenografia (notarii), mestres de caligrafia 
(librarii sibe antiquari), mestres de geometria (geometrae), mestres de arquitetura (architecti 
magistri). Se acrescentarmos a esta lista os medicos e os juristas, que nao figuram nela, 
poderemos ter uma ideia aproximada do ensino ministrado em Roma. 
Em rela~ao ao que ganhava cada urn, podemos proceder do seguinte modo, que evitara 
o falar em denarios e a redu~ao do seu valor a nossa moeda atual, opera~ao diffcil e quase 
sempre duvidosa. Se tomarmos o ntimero I como unidade de medida, dirfamos que os 
professores de ginastica, os pedagogos, os mestres de primeiras letras e os calfgrafos ganhavam 
I; os calculadores e os esten6grafos ganhavam I ,5; os arquitetos ganhavam 2 e os retores 
ganhavam 5. 
78 
teria se se tratasse de nomear o chefe de urn esquadrao de cavalaria ou 
de uma coorte pre tori ana". E acrescentava que, ao estimular o ensino, o 
Imperador havia tido a generosa intenr;ao de "niio deixar vagar sem guia 
essa juventude que deve urn dia preencher os tribunais e ocupar os cargos 
da Casa Imperial". 
A frase de Eumenes nao tern uma palavra de mais ou de menos, 
e ainda que a primeira parte da frase ("nao deixar vagar sem guia essa 
juventude") possa parecer urn simples adorno literario de retor, ela encerra 
urn conteudo muito mais preciso do que parece. Para escolher os funcionarios 
e os juristas de que necessitava, o Imperador nao se circunscrevia a 
ministrar-lhes determinado ensino, sem se incomodar com tudo o mais. 
Enquanto eram estudantes, o Imperador vigiava os seus atos, controlava 
as suas opinioes, prestava atenr;ao aos seus menores gestos. Os assuntos 
ensinados estavam, alem disso, fortemente impregnados de patriotismo e 
celebravam a todo momento a gloria do prfncipe. "Os jovens - dizia 
urn professor contemporaneo do Imperador Constancio - veem e admiram 
nas escolas cartas geognificas em que estao marcados todos os pafses, 
todos os mares, todas as cidades, todos os povos e todas as nar;oes que 
os invictos prfncipes protegem com o seu amor, deslumbram com a sua 
virtude, mantem escravos com o terror".46 
Essa influencia constante nao era, contudo, a unica. 0 Imperador 
necessitava muito mais dos seus futuros funcionarios, de modo que, em 
370, Valentiniano publicou urn regulamento disciplinar para os estudantes 
que freqiientavam o Ateneu Romano. Uma das disposir;oes desse regulamento 
exigia certas cedulas de identidade referendadas pela policia, declarar;oes 
precisas a respeito dos meios de vida do estudante e da sua educar;ao 
anterior, bern como exigia que se remetessem ao gabinete do Imperador 
as classificar;oes obtidas pelos estudantes, acompanhadas de algumas apre-
ciar;oes a respeito da sua conduta nos espetaculos publicos e nos banquetes. 
Que resultava dessa vigilancia? Uma conseqiiencia necessaria que 
Gaston Boissier enuncia em termos exatos, apesar de nao ter compreendido 
o seu claro sentido: "Os retoricos da epoca de Augusto, de quem Seneca, 
o pai, nos transmitiu as declarar;oes, e os retoricos do seculo IV, que 
floresceram nas Galias, falam e pensam praticamente do mesmo modo; a 
respeito dos homens e das coisas, eles tern as mesmas ideias".47 
No discurso de Eumenes ja encontramos as razoes dessa uniformidade: 
o Imperador escolhia os professores com o mesmo cuidado corn que 
escolhia os seus capitaes. Enquanto alunos, a sua conduta estava sob 
46. Barbagallo, ob. cit., pag. 207. 
47. Boissier, artigo citado, in Revue des Deux Mondes, pag. 346. 
79 
vigiHincia direta da autoridade polftica, e essa vigilancia continuava quando 
eles passavam a professores. No dia em que Justiniano suprimiu boa parte 
das escolas do Imperio, o seu unico conselheiro para essa grave medida 
foi o Prefeito de Constantinopla.48 
Como poderemos, pais, ficar assombrados com o fato de Eumenes 
elogiar, no seu discurso, o cuidado com que o Imperador escolhia os 
professores, "como se se tratasse de escolher o chefe de urn esquadrao 
de cavalaria ou de uma coorte pretoriana"? Apenas surgiu na hist6ria o 
ensino oficial, e ja apareceu em seguida a inevitavel compara~ao com o 
exercito. 0 corpo de professores e um regimento que defende, como 0 
militar, os interesses do Estado, e que caminha com ele ao mesmo passo. 
Tao logo os exercitos romanos ocupavam urn novo pafs, os retores 
instalavam as suas escolas junto as tendas dos soldados. 0 retor seguia 
as pegadas do general vitorioso, da mesma forma que o general seguia 
as pegadas dos comerciantes,49 e isso tanto nas areias da Africa, quanta 
nas neves da Bretanha. Plutarco descreveu comque habilidade foi necessaria 
servir-se da educa~ao para habituar os espanh6is a viverem em paz com 
os romanos. "As armas nao tinham conseguido submete-los, a nao ser 
parcialmente; foi a educa~ao que os domou".50 
Depois da compara~ao dos professores com os capitaes, n6s os vemos 
agora "domando" como aqueles, a servi~o das classes superiores: reduzindo 
inimigos fora de Roma; quebrando rebeldes dentro de Roma. 
Em uma comedia de Plauto, chamada Os Cativos, urn escravo 
lorarius, isto e, urn escravo encarregado de vigiar os outros escravos, 
dirige-se com as seguintes palavras a urn grupo de prisioneiros que ate 
entao tinham sido cidadaos: "Desde que esta e a vontade dos deuses, e 
necessaria que vos submetais a vossa desgra~a. Nao ha outra maneira de 
torna-la menos penosa. Sei que ereis de condi~ao livre, mas, uma vez 
que, agora, sois prisioneiros, fareis mais ligeira a nossa servidao se vos 
mostrardes mais submissos a vontade do amo. Um amo jamais se equivoca; 
ate o mal que os faz deve ser olhado como um bem". 51 
Terrfveis palavras que urn escravo dirigia a outros escravos e que 
os professores, tambem, pronunciavam sem sabe-lo. 
48. Barbagallo, ob. cit., pag. 400 e segs. 
49. Os aventureiros do comercio (negotiatores) "precediam as legioes com risco de 
vida, e preparavam, com as suas operar(}es, as operar{)es militares que viriam em seguida". 
Louis: Le Travail dans le Monde Romain, pags. 252-253. (0 grifo e nosso.) 
50. Boissier: La Fin du Paganisme, tomo I, pag. 228. 
51. Theatre Complet des Latins. Comprenant Plaute, Terence et Seneque, le Tragique, 
pag. 64. 
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I 
' 
CAPITULO IV 
A EDUCA<;AO DO HOMEM FEUDAL 
Depois de assegurar a grandeza do mundo antigo, a economia 
fundada sobre o trabalho escravo provocou, insensivelmente, o seu 
desmoronamento. 1 
0 sistema de trabalho por meio do escravo consumia tantos homens 
"quanta os nossos altos-fornos devoram carvao".2 Dependia, portanto, do 
fornecimento regular de escravos para o mercado de trabalho, e deveria 
cessar no momenta em que o "carvao" se acabou, ou em que passou a 
ser inutilizavel. 
Alem disso, a medida que OS povos conquistados deixavam de 
fornecer escravos e riquezas, mais aumentavam os impastos, as taxas, as 
requisi~oes. A miseria foi crescendo de tal forma, que a explora~ao dos 
domfnios enormes - latifundia - por verdadeiros exercitos de escravos 
ja nao produzia rendas compensadoras. 0 cultivo em pequena escala voltou 
a ser o unico que compensava, o que e a mesma coisa que dizer que a 
escravidiio se tornou desnecessaria. 0 escravo passou a produzir menos 
do que custava a sua manuten~ao, e a partir desse momenta ele desapareceu 
como urn sistema de explorariio em grande escala. 
1. Cf., especialmente, o ja citado livro de E. Cicotti: El Ocaso de La Esclavitud en el 
Mundo Antiguo. 
2. Max Weber: "La Decadencia de Ia Cultura Antigua", in Revista de Occidente, julho 
de 1926, pag. 40. 
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Creio que seria ofender o leitor se nos nos detivessemos em demonstrar 
que o cristianismo pouco teve que fazer nesse declinar do mundo antigo3, 
e nessa extinr;ao da escravidao que, com tanta facilidade, costuma ser 
atribufda a Igreja Catolica. Em primeiro Iugar, porque uma religiao -
isto e, uma superestrutura - nao pode alterar OS fundamentos economicos 
de urn regime, do qual e urn reflexo e, em segundo, porque o cristianismo 
nao so tolerou a escravidao, como ainda a sancionou em muitos concflios. 
Para citar apenas urn exemplo, o Concflio de Gangra, em 324, resolveu 
que, "se alguem, sob o pretexto da piedade religiosa, ensinasse o escravo 
a nao estimar o seu senhor, ou a subtrair-se aos seus servir;os, ou a nao 
servir de born animo e com toda a boa vontade, que caia sobre ele o 
anatema".4 
Nos estertores do mundo antigo, portanto, as grandes extensoes de 
terras estavam subdivididas em parcelas pequenas, confiadas a colonos 
livres que pagavam ao amo uma renda fixa anual. Esses colonos, apesar 
de nao serem propriamente escravos, tambem nao eram homens totalmente 
livrcs. 
Entre as rufnas do mundo antigo, eles foram o primeiro indfcio do 
novo regime economico que come<;ava a se estabelecer, fundado nao mais 
sobre o trabalho do escravo c do colono, mas sobre o do servo e do 
viliio. Ainda que do ponto de vista dos cxplorados a situar;ao nao tenha 
mudado muito, nao podemos deixar de reconhecer que algumas diferenr;as 
ja comer;avam a surgir. 0 escravo era urn objeto, nao uma pessoa. Ao 
compra-lo, o senhor !he assegurava uma existencia miseravel, mas segura; 
ele nao precisava pensar no seu sustento, nem se incomodar com a 
concorrencia do trabalho alheio. Os vili5es, descendentes dos antigos colonos 
romanos, cram, ao contrario, livres oufrancos. Nao se vendiam, ofereciam-se. 
Quando queriam viver do fruto do seu trabalho, procuravam alguem que 
tivesse terras para explorar e !he propunham o cultivo de um lote, em 
troca de alguma compensar;ao. Q pedido do trabalhador constitufa urn ato 
jurfdico chamado suplica ou precaria; o consentimento do proprietario 
constitufa outro ato jurfdico, chamado concessiio ou prestaria. Em troca 
da concessao obtida, o viliio se comprometia a entregar ao senhor uma 
parte do fruto do seu trabalho e, alem disso, a prestar certos servir;os 
3. "0 Imperio estava condenado e deveria sucumbir com ou sem cristianismo''. Bloch: 
L'Empire Romain: Evolution et Decadence, prig. 310. 
4. Cicotti, ob. cit., tomo I, prig. 35. Hri abundantes provas em Wallon: Histoire de 
L'Esclavalie dans l'Antiquite, tomo III, pags. 334 e 335. Compreender-se-ri tudo o que ha 
de falso e de ridiculo nesta opiniiio de Hegel: "A verdadeira raziio para niio mais haver 
escravos na Europa crista reside na propria essencia do cristianismo". Hegel: Lo!iique, 
prig. 208. 
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I 
pessoais. 0 viliio era, portanto, mais livre do que o escravo, porque ele 
reconhecia uma autoridade que ele proprio havia querido reconhecer. 
Teoricamente, esse ato de direito privado ja contem em essencia todo o 
regime feudal, regime que supoe, como acabamos de ver, urn lar;o contratual 
de vassalagem entre homens que tern poderes e necessidades diferentes. 
Teoricamente tambem, se o viliio firmava com o senhor urn contrato como 
urn homem livre, o servo nao firmava contrato, nem era livre. Descendente 
dos antigos escravos, o servo estava, como aqueles, ao servir;o total do 
seu senhor, e nao podia, em momento algum, abandonar esse servir;o.5 
Na pratica, entretanto, o viliio se assemelhava bastante ao servo, de 
tal modo que muitos autores se recusam a fazer a diferenr;a que mencio-
namos, preferindo reunir os servos e os vili5es sob a denominar;ao de 
campesinos.6 
Dono da terra, que continuava sendo a forma fundamental da riqueza, 
o senhor tambem era dono dos instrumentos essenciais da produr;ao, em 
particular dos moinhos. 0 trigo, por exemplo, que os camponeses colhiam 
devia ser mofdo nos moinhos do senhor.7 
Do ponto de vista dos donos da terra, a servidao representava uma 
real vantagem sobre a escravidao. Era necessaria um grande capital para 
adquirir e manter os escravos necessarios, ao passo que a servidao nao 
requeria nenhum gasto; o servo custeava a sua propria vida, e todas as 
vicissitudes do trabalho corriam por sua conta. A servidao constitufa, pois, 
a unica maneira de que o patrao dispunha para tirar proveitos dos seus 
fundos, ao mesmo tempo que tambem constitufa o unico modo dos que 
nao possufam terras proverem o seu proprio sustento. 
A terra cedida era trabalhada pelo vassalo, direta ou indiretamente, 
porque a este cabia o direito de subempreitar a concessao recebida; desse 
modo, um indivfduo podia ser, ao mesmo tempo, v~ssalo e . amo. Os 
verdadeiros trabalhadores da terra eram naturalmente os servos, e nessa 
longa hierarquia de senhores e vassalos, o mundo feudal repousava, no 
fim de contas, sobre os ombros dos servos,8 da mesma forma que o 
5. Calmette: La Societe Feodale, prig. 109. 
6. Engels, por exemplo. 
7. Durante a !dade Media,possuir moinhos constituiu um privilegio senhorial. 0 verso 
3.378 do Poema de Mfo Cid alude aos moinhos do Cid e aos tributos que cobrava. 
8. "Sobre os camponeses repousavam todas as outras camadas sociais: principes, 
funcionarios, nobreza, clero, patriarcado e burguesia. Quer pertencesse a um principe, a um 
barao, a um bispo, a um monasterio ou a uma cidade, o campones era tratado em todos 
os lugares como uma coisa, como um animal de carga, ou, ainda, de forma pior. Se era 
um servo, o senhor dispunha dele a vontade; se era um arrendatario, as presta~6es o 
83 
mundo antigo era sustentado pelos escravos. 0 que o servo produzia por 
meio de urn trabalho sem descanso ia passando, como tributo, de mao 
em mao, do viliio ao castelao, do castelao ao barao, deste ao visconde, 
do visconde ao conde; deste ao marques, do marques ao duque, e do 
duque ao rei. Nesta comprida lista, que sofre algumas variagoes segundo 
as epocas e as regioes, cada grau implicava vassalagem em relagao ao 
superior, e patronagem em relagao ao inferior.9 
Mas, se no sentido vertical havia relag6es mais ou menos claras de 
hierarquia, no sentido horizontal - entre condes, ou entre bar6es etc. -
nao havia nenhuma especie de regulamentagao, o que provocava conflitos 
constantes por motivos de somenos. 
Na linguagcm dos tc6ricos da ldade Media, o feudalismo conhecia 
tres "varicdadcs" sociais: os bellatores, ou guerreiros, os oradores, ou 
religiosos, c os laboratores, ou trabalhadores. Se compararrnos essas 
"variedades" com as correspondentes do mundo antigo, nao iremos encontrar 
nenhuma diferenga superficial, mas se nos aprofundarmos urn pouco mais 
descobriremos uma novidade: a excegao do Egito, que tinha uma classe 
sacerdotal poderosa, nao vamos encontrar, nem em Roma, nem na Grecia, 
esmagavam. Devia empregar a maior parte do seu tempo cuidando das terras do seu senhor. 
Com o que ganhava em suas raras horas disponfveis, devia pagar dfzimos, tributos, taxas, 
viaticum (imposto militar), impostos do Estado e taxas do Imperio. Nao podia casar-se nem 
morrer sem pagar uma taxa ao senhor. Alem das presta~oes ordimirias, devia juntar, para o 
senhor, legumes, frutas, pe~as de ca~a, lenha etc. 0 direito de pescar e de ca~ar pertencia 
ao senhor, e o campones deveria assistir tranqiiilamente a destrui~ao das suas colheitas. Os 
campos e os bosques, que antigamente pertenciam as aldeias, tinham sido arrebatados pelo 
senhor. E da mesma forma que dispunha das suas propriedades, o senhor dispunha a vontade 
da pessoa do campones, da sua mulher e das suas filhas. 0 senhor tinha o direito da pernada 
[Direito que o senhor feudal tinha de passar a perna sobre o Ieito de todos os seus vassalos 
recem-casados. Nota do Tradutor] e podia, quando o desejava, encarcerar e tortur.ar os 
camponeses". Engels.: La Guerre des Paysans en Allemagne, pags. 48-49. 
9. Esta frase pode-se pres tar a confusoes. Nao h:i duvida de que, na hierarquia feudal, 
temos cavaleiros, baronetes (estes s6 na Gra-Bretanha), banks, viscondes, condes, marqueses, 
duques, prfncipes, arquiduques ou griio-duques ( os primeiros na Austria e os segundos na 
Russia, mas sempre como tftulos reservados aos membros da Famflia Imperial), reis e 
imperadores, tftulos esses que foram citados na ordem crescente de importancia. Todavia, 
seria errado supor que existisse uma verdadeira ordem hier6.rquica Iigando os portadores 
desses tftulos, como acontece no exercito, onde urn capitao, por exemplo, e sempre urn 
superior, em rela~ao a urn tenente, e urn subordinado, em rela~ao a urn major. Todos esses 
baroes, condes, duques etc. eram mais ou menos independentes uns em rela~ao aos outros 
e, muitas vezes, inclusive em rela~ao aos reis e aos imperadores. Sao conhecidas inurneras 
disputas e Iutas armadas entre esses diversos nobres, e entre eles e o proprio poder real, 
como, por exemplo, a celebre !uta entre Carlos, o temer:irio Duque de Borgonha, e o Rei 
da Fran~a, que chegou, mesmo, a ser prisioneiro do seu, teoricamente, poderoso vassalo. 
(Nota do Tradutor.) 
84 
,, 
uma Igreja claramente independente. Na Grecia, os sacerdotes eram eleitos, 
e encontramos muitas vezes mulheres entre eles. 0 Estado e a Igreja, 
amplamente interligados, ainda nao se tinham constitufdo como organismos 
distintos. 0 monop6lio de culto, reservado aos patrfcios, fez com que os 
sacerdotes se transformassem em "funciomirios" de uma classe que con-
siderava a religiao como urn dos seus muitos sistemas de dominagao. 
Estreitamente unidos as classes superiores, os sacerdotes defendiam, ao 
mesmo tempo, os seus interesses e os dessas classes, e, para nao recorrermos 
a nada, a nao ser ao testemunho de Montesquieu, vale a pena recordar 
que, em Roma, sempre que uma lei de carater popular tinha probabilidade 
de ser aprovada, aparecia algum augure que descobria sinais desfavoraveis 
no ceu, e a assembleia era imediatamente dissolvida ... 10 
As transformagoes que a sociedade sofreu durante o feudalismo 
impuseram no domfnio religioso, em relagao a Antigiiidade, algumas 
diferengas de importancia, ainda que nao de molde a alterar o seu conteudo 
de classe. A religiao crista, que nos seus comegos encarnou os ideais 
confusos, mas rebeldes, dos explorados de Israel11 , encontrou entre os 
romanos que nada possufam uma atmosfera propfcia para a sua difusao. 12 
Perseguido a princfpio como uma ameaga, o cristianismo foi atenuando 
pouco a pouco o seu fmpeto inicial, de tal modo que, quando, no decorrer 
de poucos seculos, se transformou na religiao do Imperio, ele jd havia 
perdido totalmente a sua primitiva significafiiO. Os gritos contra a pro-
priedade privada e contra a exploragao por parte dos poderosos, que 
ressoaram todavia durante algum tempo entre os primeiros padres da Igreja, 
foram-se extinguindo13, nao sem o protesto das massas. Ao inves de 
robustecer a sua rebeldia com a voz varonil dos primeiros profetas - o 
iracundo Miqueias, o vigoroso Isafas, o tremendo Ezequiel -, o cristianismo 
canalizou para urn mundo extraterreno as suas inquietagoes e as suas 
esperangas .. Enquanto o escravo e o servo sofriam sob os seus senhores, 
o cristianismo proclamava que eles eram iguais diante de Deus. Descoberta 
maravilhosa que respeitava o status quo terreno, enquanto nao chegava o 
momenta de altera-lo, mas no ceu ... 
10. Montesquieu: Grandeza y Decadencia de los Romanos, pag. 73. 
II. Beer, ob. cit., pag. 186. 
12. Renan: Les Api!tres, pags. I 16-117. 
13. Bloch, ob. cit.: "Se o cristianismo se tivesse encerrado obstinadamente nos seus 
princfpios, nao vemos de que modo o Imperio teria se transformado em Imperio cristao", 
p:ig. 302. E, mais alem, na p:ig. 306: "A paz se fez (entre o Imperio e a Igreja), mas as 
expensas do cristianismo, nao da Igreja". 
85 
' 
Depois do intransigente Tertuliano veio o acomodado Minucio, e 
enquanto o cristianismo puro 14 se refugiava na solidao, para mortificar a 
carne pecadora, os bispos desviavam para as fundac,;6es piedosas as riquezas 
dos leigos. Em maos de urn clero disciplinado, OS domfnios da Igreja 
foram-se dilatando, e entre os muitos senhores em que o mundo antigo 
se desagregava, a Igreja se apresentou como urn deles: possuidora de 
terras e guerreira, da mesma forma que todos os outros. 15 A abadia do 
Monte Saint Michel, por exemplo, foi uma das prac,;as-fortes mais poderosas 
da Idade Media. 16 
Historiando a origem da moeda, E. Curtius afirmou que os "templos 
foram o berc,;o da civilizac,;ao monetaria, tanto que nas pec,;as que serviam 
de moeda esteve gravado, durante muito tempo, o emblema sagrado". 17 
0 Templo de Delos, como todos sabem, nao s6 acumulava grandes riquezas, 
como ainda fazia emprestimos a particulares, e ate mesmo ao Estado. 0 
devedor assinava, evidentemente, hipotecas, e apresentava fiadores. Neste 
particular, portanto, a Igreja Cat61ica apenas estava sendo continuadora de 
veneraveis tradic,;oes, e se dcdicou a essa func,;ao com tal zelo que, em 
poucos seculos, passou a controlar quase toda a economiafeudal. Esta-
belecimentos de cconomia fcchada, os monasterios ja cram, nos comec,;os 
do seculo VIII, OS postos avanc,;ados mais firmes do comercio e da industria: 
em 794, no Monastcrio de Tours, cerca de 20 mil homens trabalhavam 
sob as ordens de Alcufno. Mas e necessaria dizer tambem que S. Bernardo, 
o mais ilustre monge da Idade Media, se op6s vivamente a que os retiros 
santos sofressem essa invasao aurffera, mas apenas tinha S. Bernardo 
fechado os olhos e ja a sua ordem voltou a comerciar com o trigo e as 
vinhas e, alem disso, adquiriu uma poderosa frota mercante, para nao 
depender de ninguem no seu comercio por rios e mares ... 18 
14. Renan chama a atenqao para o fato de que "quando paises inteiros se converteram 
ao cristianismo, as regras das primeiras igrejas se converteram em utopias e se refugiaram 
nos monasterios. Nesse sentid!J, a vida monastica nao passa de uma continuaqao das igrejas 
primitivas. 0 convento e uma conseqiiencia necessaria do espirito cristao: s6 ai e que ha 
cristianismo". Cf. Les Ap!itres, pag. 128. 
15. 0 carater francamente feudal da Igreja toma-se patente quando estudamos a 
Eigenkirche, ou seja, a igreja de propriedade privada: "Uma igreja podia ser propriedade 
particular de urn ou de varios leigos, que mantinham nela urn clerigo para os serviqos 
religiosos, e que cobravam os dizimos ou direitos que cabiam a igreja. Quando o neg6cio 
nao prosperava ou deixava de interessa-los, eles vendiam o seu dominio sobre a igreja, ou 
sobre uma parte deJa, exatamente como se se tratasse de urn moinho ou de uma herdade". 
Cf. Torres Lopez: "La Doctrina de las Iglesias Propias en los Autores Espafioles", in Anuario 
de /a Historia del Derecho Espaiiol, tomo II, pag. 402. 
16. Wallon: Saint Louis, tomo II, pag. 350. 
17. Curtius: Historia de Grecia, tomo I, pag. 343. 
18. Evans: La Civilisation en France au Moyen Age, pag. 122. 
86 
Em virtude de que circunstancias os monasterios adquiriram essa 
supremacia econ6mica que explica a sua hegemonia social e, conseqiien-
temente, a pedag6gica? 0 problema e complicado e remonta as origens 
do poder econ6mico da Igreja. Mas, ainda que correndo o risco de incorrer 
aparentemente num excesso de esquematismo, podemos resumir numa s6 
Iinha a resposta: porque os monasterios foram, durante toda a !dade 
Media, poderosas institui<;oes bancdrias de credito rural. Em urn regime 
como o feudal, baseado exclusivamente no trabalho da terra, e ple<;masmo 
ressaltar a importfmcia de uma instituic,;ao que nao s6 tomou em suas 
maos a direc,;ao da agricultura, como organizou laboriosamente a primeira 
economia estavel19 que se conhcce: economia isenta, em grande parte, 
dos meios de aquisi<;fio violenta que caracterizaram o mundo feudat?0 
A economia do senhor feudal repousava, em primeiro Iugar, sobre 
urn aglomerado de produtores servis que trabalhavam para ele sem se 
ajustar a urn plano comum, e, em segundo Iugar, sobre as riquezas 
aleat6rias que as guerras e os saques lhe proporcionavam. A economia 
mondstica, por outro lado, se apoiava numa organizac,;ao de trabalho que 
estava submetida a estritas regras disciplinares. 0 castelo feudal era quase 
que s6 uma tenda de campanha, em que o senhor repousava dos saques 
efetuados, enquanto se preparava para outra incursao. 0 monasterio, ao 
contrario, era uma lic,;ao viva de trabalho organizado e "racionalizado", a 
tal ponto que deveria vir a influir nao pouco sobre as burguesias posteriores. 
Toda riqueza que chegava as maos do nobre era para ser gasta; o fausto 
e a prodigalidade sao caracterfsticas do senhor. Por outro lado, todas as 
riquezas que chegavam ao monasterio eram entesouradas e aumentadas. 
Alem disso, e bern sabido que o celibato foi imposto ao clero principalmente 
para evitar que as riquezas acumuladas passassem a herdeiros particulares, 
ao inves de continuarem concentradas na comunidade. 
Seria, portanto, bern ingenuo atribuir somente a superstic,;ao e a 
ignorancia que campeavam naqueles tempos a influencia efetiva exercida 
pelos monasterios. Em uma epoca em que a agricultura era rudimentar, 
em que a tecnica se mostrava atrasada, e a seguranc,;a da vida se havia 
tornado pouco menos do que impossfvel, os monasterios se converteram, 
por causa das suas riquezas, em instituic,;oes de emprestimo e em poderosos 
centros de credito rural. A cada instante, pessimas colheitas ameac,;avam 
19. "Na Idade Media, s6 encontramos contabilidade agricola nos convenlos". Marx: Le 
Capital, tomo V, pag. 228, nota, trad. de Molitor. 
20. Cf., a respei'o do desenvolvimento deste ponto, Inchausti: Orfgenes del Poder 
Econdmico de /a Iglesia. 
87 
matar de fome o campones.21 Para atravessar esses maus perfodos, ele 
precisava recorrer a alguem. Quem, melhor do que o monasterio, poderia 
proporcionar-lhe essa ajuda, ainda que ela implicasse naturalmente numa 
hipoteca?22 Ajuda excelente, que, algumas vezes, salvou o campones, mas 
que na maior parte das vezes "obrigou" o monasterio a ficar com as 
terras do campones... Se isto ocorria com os camponeses, outra tambem 
nao foi a origem da situac;ao do relativo privilegio de que os monges 
gozavam em relac;ao aos senhores feudais. Emprestando dinheiro a reis e 
a pr{ncipes, os monasterios garantiram, mediante convenios pecuniarios, a 
relativa seguranc;a em que viviam, e enquanto, por urn lado, continham o 
poder arbitn'irio dos senhores, absorviam, pelo outro, as parcelas dos 
camponeses.23 
Mas, apesar da explicac;ao dada, ainda falta esclarecer urn problema 
importante. E freqtientemente afirmado que os monasterios enobreceram o 
trabalho manual, tao depreciado pelos antigos. A afirmac;ao e tao falsa 
quanto aquela outra relativa a participac;ao do cristianismo na libertac;ao 
dos escravos. Nao ha duvida de que se trabalhava nos monasterios, e de 
acordo com urn plano prcciso. Mas isso nao quer dizer que todos os 
membros do monasterio trabalhassem, como se se tratasse de uma comu-
nidade primitiva sem classes, ou de uma igreja dos primeiros tempos do 
cristianismo.24 Niio s6 o abade pertencia sempre a nobreza - S. Bernardo, 
21. "Os menores acidentes atmosfericos provocavam uma miseria geral. De 987 a 1059, 
isto e, num espac;:o de 73 anos, temos notfcia de 48 perfodos de penuria extrema". Morin: 
Origine de Ia Democratie: Ia France au Moyen Age, pag. 33. 
22. "A Igreja proibiu os emprestimos mediante juros, mas nao proibiu a venda de 
propriedades para saldar dfvidas, nem a cessao dessas propriedades em garantia ... A Igreja 
e as corporac;:oes religiosas obtiveram desse modo grandes beneffcios, especialmente no tempo 
das cruzadas. Sem a proibic;:ao da cobranc;:a de juros, nem as igrejas, nem os monasteries 
teriam podido enriquecer tanto". Marx: Le Capital, tomo XIII, pag. 249, trad. de Molitor. 
23. "Antes do modo de produc;:ao capitalista, o capital usuario assumia duas formas 
caracterfsticas: a usura, pelo emprestimo de dinheiro a senhores pr6digos, principalmente 
proprietaries territoriais, e a usura, pelo emprestimo de dinheiro aos pequenos produtores, 
donos das suas pr6prias condic;:oes de trabalho, incluindo o artesao e, sobretudo, o campones, 
porque este, antes do aparecimento do modo de produc;:ao capitalista, constitufa a grande 
maioria dos produtores independentes". Marx: Le Capital, tomo XIII, pag. 220, trad. de 
Molitor. 
24. A respeito das primeiras igrejas, cf. Renan, ob. cit., pags. 75-76. Ainda que Renan 
afirme que os primeiros ensaios do cristianismo foram "essencialmente comunistas" (pag. 
147), ele reconhece na pag. 79 que esse comunismo nao foi "nem tao rigoroso, nem tao 
universal". 0 importante e chamar a atenc;:ao para o fate de que o cristianismo se apresentou 
sob a forma de uma "associac;:ao de socorro mutuo" (pag. 117), e que foi por esse motive 
acolhido com alvoroc;:o pelos miseraveis. 
88 
por exemplo, era da Casa de Borgonha25 - como tambem "os trabalhos 
mais penosos - e o historiador beneditino Besse que o diz - estavam 
a cargo dos servos e dos escravos". Dentro dosmonasterios, tidos por 
alguns autores como urn modelo de "vida perfeita", a divisiio em classes 
continuava existindo, sem nenhuma modificafiio; de urn lado, os monges, 
dedicados ao culto e ao estudo, do outro, os escravos, os servos e os 
conversos, destinados ao trabalho ... 26 
Dispondo de semelhante poderio, nada tern de assombroso o fato 
de que os monasterios tambem tivessem sido as primeiras "escolas" 
medievais. Desde o seculo VII, encontramos monasterios espalhados por 
todos os pafses que constitufram o velho Imperio Romano. Desaparecidas 
as escolas "pagas", a lgreja se apressou em tomar em suas maos a instruc;ao 
publica. Mas como a influencia cultural dos monasterios tern sido, pro-
positadamente, muito exagerada, tornemos claro que as escolas mon6.sticas 
eram de duas categorias: umas, destinadas a instruc;ao dos futuros monges, 
chamadas "escolas para oblatas", em que se ministrava a instruc;ao religiosa 
necessaria para a epoca, categoria essa que, no momento, nao nos interessa, 
e outras, destinadas a "instruc;ao" da plebe, que eram as verdadeiras 
"escolas monasticas". Apressemo-nos a esclarecer que nessas escolas -
as unicas que podiam ser freqtientadas pela massa - nao se ensinava a 
ler, nem a escrever. A finalidade dessas escolas niio era instruir a plebe, 
mas familiarizar as massas campesinas com as doutrinas cristiis e, ao 
mesmo tempo, mante-las d6ceis e conformadas. Herdeiras das escolas 
catequistas dos primeiros tempos do cristianismo, estas escolas nao se 
incomodavam com a instrufiio, mas sim com a pregafiio. E, de fato, se 
recordarmos que, para a Igreja, tudo o que nao desvia o homem do pecado 
e positivamente danoso, nada tern de estranho que, Ionge de se preocupar 
com o nfvel cultural das massas, ela barrasse cuidadosamente todos os 
caminhos que pudessem servir para o esclarecimento dessas massas. 
Para que perder tempo e despender esforc;os com a educac;ao das 
massas, quando esse mesmo historiador beneditino que mencionamos ja 
havia, ha pouco tempo, escrito com chocante franqueza que os trabalhadores 
dos monasterios - hommes de peine (homens de trabalho brac;al) - pelo 
. simples Jato de serem analfabetos, "apresentavam mais resistencia a fadiga 
25. S. Bernardo era filho de Tercelin, le Saur, Senhor de Fontaines, perto de Dijon, 
e de Aleth, filha do Conde de Montbard, aparentado com os antigos duques de Borgonha. 
Cf. Georges Goyau: Saint Bernard, pags. 7-8. 
26. Na Ordem des Templfuios se repetiu depois urn fen6meno analogo: Iemos, de urn 
lade, os .freres du convent e, do outro os .freres du metier, nobres, aqueles, de classe inferior, 
estes. 
89 
e eram capazes de suportar uma tarefa mais longa e mais penosa"?27 Se 
os monges fossem tao ignorantes quanto os camponeses - como acontecia 
em alguns monasterios muito pobres -, a acusa~ao de opressores que 
levantamos seria injusta, mas n6s ja vimos que as exigencias da economia 
rural haviam levado os monges a terem uma instru~ao verdadeiramente 
superior. 0 "saber do vulgo" e o "saber de inicia~ao", que mencionamos 
anteriormente, ressurgem, agora, em toda a sua crueza. Durante a Idade 
Media, todos os que tinham interesses culturais e que nao eram filhos de 
servos s6 poderiam satisfazer a sua curiosidade intelectual entrando para 
urn convento, isto e, isolando-se do resto do mundo, levantando uma 
muralha entre a sua cultura e a ignorancia das massas. Quando se diz 
que os monasterios foram, durante toda a Idade Media, as unicas univer-
sidades e as unicas editoras, devemos entender essa afirma~ao no sentido 
de "universidades aristocraticas" e de "edi~oes para bibli6filos". Dado o 
tempo enorme de que dispunham os monges, e a felicidade de desfrutar 
sossego num tempo de tumultos constantes, o que assombra nao e, pois, 
o fato de que tivessem aprendido alguma coisa, mas o pouco que chegaram 
a saber. Isidoro de Sevilha (570-636), urn dos mais perfeitos representantes 
desses tempos, reuniu num volume, que denominou Origens ou Etimologias, 
todos os conhecimentos que, na sua opiniao, mereciam interesse. Ainda 
que essa obra tenha urn fndice impressionante, que vai da Medicina a 
Astronomia e da Metalurgia a Geografia, ela compreende urn s6 volume 
e nao passa, em geral, de urn fastidioso catalogo de names. 
E verdade que dois seculos depois da morte de Isidoro, e a medida 
que o Imperio se reconstrufa, os monasterios foram criando ao lado das 
escolas para oblatas, isto e, para crian~as destinadas a vida monastica, 
outras escolas chamadas "externas", que se destinavam ao clerigos seculares 
e a .alguns nobres que queriam estudar, mas que nao pretendiam tomar 
habito. Essa expressao externa se presta a erros; eram escolas externas 
no sentido de que se situavam fora dos muros do convento, e nao no 
sentido moderno de externato. Verdadeiros "internatos", na acep~ao moderna 
do vocabulo, essas escolas submetiam os seus alunos a uma disciplina 
rigorosa, que durava muitos anos. 0 Didrio de Walafried Strabo - que 
foi aluno da escola do Monasterio de Reichenau, de 815 a 823- descreve 
com minucias a vida nessas escolas e esclarece-nos a respeito dos metodos 
nelas empregados. Para termos uma ideia do que eram esses metodos, 
basta o seguinte detalhe: nao sabendo uma palavra de latim, Strabo aprendeu 
a ler nessa lfngua, sem compreender, portanto, uma s6 palavra do que 
lia. Nao e de espantar, portanto, que ele tenha achado muito estranho 
27. Besse: Les Moines de l'Ancienne France, pags. 249-250. 
90 
"que se pudesse ler e, ao mesmo tempo, compreender o que se lia", coisa 
que descobriu quando, urn dia, caiu-lhe nas maos urn livro escrito no seu 
idioma materno ... 28 Gramatica, ret6rica e dialetica eram as colunas mestras 
do ensino dessas escolas.29 Mas e preciso destacar que, nos exercfcios 
destas duas ultimas disciplinas, se recorria freqi.ientemente as coler;oes 
jurfdicas, em busca dos temas que os alunos deveriam abordar em discursos 
e replicas, e que alguns outros exercfcios chamados, urn pouco deprecia-
tivamente, dictamen prosaicum orientavam os alunos na reda~ao de cartas, 
documentos e escritos de carater mercantil. 
Os profess ores de W alafried - desde o abade ate o professor de 
gramdtica - haviam, em mais de uma ocasiao, desempenhado missoes 
importantes para o Imperador, inclusive missoes diplomaticas. Citavam, 
muitas vezes, em suas li~oes, observa~6es pessoais, o que, segundo 
Walafried, dava a elas urn relevo "plastico". 
Em troca, os seus companheiros de estudo lhe falavam de castelos 
e palacios, de residencias de duques e de esplendidas festas. Apenas 
prestado o exame de gramdtica, quase todos eles abandonavam, por isso, 
a escola, para continuar, Ionge dela, a educa~ao cavalheiresca que desejavam 
e que a escola do monasterio nao ministrava. 
Juristas doutos, secretdrios prdticos e dialeticos hdbeis, capazes de 
aconselhar imperadores e de fazer-se pagar regiamente pelos seus servir;os, 
eis os produtos das escolas "externas" dos monasterios. 
Onde se formavam os guerreiros - os bellatores -, esses homens 
de armas que tiravam os seus filhos das escolas monasticas tao logo eles 
aprendiam gramdtica? 
Preocupados unicamente em aumentar as suas riquezas pela violencia 
e pelo saque, os senhores feudais desprezavam a instru~ao e a cultura. 
Ainda que, muitas vezes, soubesse ler, o nobre corisiderava o escrever 
como uma coisa de mulheres. 0 proprio Carlos Magno, que foi aluno de 
Pedro, de Pisa, e de Alcufno, e que se esfor~ou tanto para preparar juristas 
habeis, tentou aprender a escrever, mas nao o conseguiu. Da mesma forma, 
tambem Dfaz, de Vivar, o Cid Campeador, que se ilustrou bastante em 
Direito, mas que, apesar disso, cometia erros "imperdoaveis"30, ao escrever. 
28. 0 diario de Walafried Strabo esta transcrito integralmente na Historia de Ia 
Pedagogfa, de Messer, pags. 109-124. 
29. Gramatica, Dialetica e Ret6rica constitufam o Trivium; Aritmetica, Geometria, 
Astronomia e Musica formavam o Quadrivium, e essas disciplinas em conjunto constitufama clerezia, ou sete artes liberais. 
30. "0 Cid sobressaiu nos exercfcios cavaleirescos; ilustrou-se bastante em materia de 
direito, mas nao muito em gramatica, porque em seus escritos encontramos a palavra afirmo 
91 
0 xadrez e a poesia chegaram, no fim de contas, a constituir todos 
os seus adornos, da mesma forma que a equitac,:ao, o tiro com arco, e a 
cac,:a, todas as suas ocupac,:6es. A nobreza careceu de escolas no sentido 
estrito, mas nao de educac,:ao. Com urn sistema parecido ao dos efebos 
da nobreza grega, a nobreza medieval formava os seus cavaleiros atraves 
de sucessivas "iniciac,:6es". 0 jovem nobre vivia sob a tutela materna ate 
os sete anos, ocasiao em que entrava como pajem ao servic,:o de urn 
cavaleiro amigo. Aos quatorze, era promovido a escudeiro, e nessa qualidade 
acompanhava o seu cavaleiro as guerras, torneios e cac,:adas. Por volta dos 
vinte e urn anos, era armado cavaleiro. 
De acordo com as exigencias da classe social que representava, a 
cavalaria foi uma idealiza(:iio das virtudes guerreiras. A fidelidade ao 
senhor passou a ser a caracterfstica principal do cavaleiro, e o torneio 
passou a ser a principal preparac,:ao para a guerra. E verdade que o nobre, 
alem de ser urn guerreiro, era dono de uma grande extensao territorial, 
povoada de servos, e a administrac,:ao desse domfnio certamente haveria 
de forc,:a-lo a preocupar-se com as func,:6es de governador e com as de 
juiz. Mas seria ignorar a propria essencia do feudalismo se pudessemos 
supor, por urn momenta que fosse, que o cavaleiro seria capaz de se 
preocupar com essas coisas. Nenhum nobre jamais pensou em seus domfnios, 
a nao ser como uma fonte de renda, nem nos seus feudatarios, a nao ser 
em termos de saques, tributos e multas. Nos seus domfnios, abandonava 
todas as suas func,:6es, inclusive a de administrar justic,:a, em maos de 
administradores e intendentesY 0 nobre apenas cuidava da arte militar, 
porque a guerra era a sua profissiio?2 0 cavaleiro, investido pela Igreja 
como "bravo e leal", como "defensor de peregrinos, viuvas e orraos", o 
cavaleiro que teria considerado como a maior das humilhac,:6es lavrar com 
as suas proprias maos urn pedac,:o de terra, esse cavaleiro achava extre-
mamente natural assaltar os domfnios dos seus adversarios, saquear os 
seus camponeses, roubar o seu gado e fazer alguns prisioneiros de 
importancia para depois obter gordos resgates.33 
escrita com urn s6 f, e ate oc, sem h, o que constituiu uma falta imperdoavel". Menendez 
Pidal: La Espana del Cid, tomo I, pag. 140. 
31. Seignobos: Histoire Sincere de La Nation Fran(·aise, pag. 147. 
32. Anatole France: Vie de Jeanne D'Arc, tomo I, pag. XLVIII. Tambem encontramos 
dados iiteis em Philippe Monnier: Le Quattrocento, tomo I, pags. 29-30. 
33. "Naqueles tempos, uma das coisas mais importantes da guerra era a captura de 
prisioneiros. 0 resgate de urn prisioneiro de importancia era uma das mais sedutoras promessas 
da !uta, tanto para o cavaleiro quanto para o soldado mercenario". Huizinga: El Otono de 
Ia Edad Media, tomo II, pag. 139. 
92 
As guerras entre os senhores feudais eram guerras de cobic,:a34, e a 
honra de urn nobre era tanto mais suscetfvel, quanto maior fosse a sua 
sede de tesouros. 0 nobre que se lanc,:ava a conquista de novos reinos 
nao se lanc,:ava a uma guerra como as que nos sao familiares atualmente, 
isto e, uma guerra que permitia a conquista de novas regi6es industriais, 
de colOnias fornecedoras de materia-prima, ou de novos mercados consu-
midores. 0 nobre nao se interessava por conseguir novas fontes de riqueza, 
·mas sim pela riqueza ja produzida e armazenada: abastecimentos militares, 
provisoes estocadas nos castelos, tributos pagos pelas cidades etc.35 
0 Cid, torturando Ben Iehaf, para que ele confessasse onde havia 
escondido o cinto da Sultana, e o "her6i'' verdadeiro da !dade Media, o 
"cavaleiro sem mancha e sem reproche". 
A vida cavaleiresca foi rodeada de tantas fantasias pela Iiteratura e 
pela lenda, que nos e urn pouco diffcil perceber a verdadeira realidade. 
Os torneios, como festas de nobres ociosos, so surgiram nos tempos da 
decadencia do feudalismo. Durante o esplendor da nobreza, os torneios 
eram operac,:6es lucrativas, que poucas vezes punham em risco a vida do 
cavaleiro.36 De fato, nao havia grande perigo de vida para urn homem 
protegido por uma armadura completa. 0 pior que lhe podia acontecer 
era ser derrubado do cavalo e, nesse caso, entregar-se como prisioneiro, 
perdendo a sua montaria e as suas armas para o vencedor, que ganhava, 
assim, uma pequena fortuna. 0 equipamento do cavaleiro era carfssimo, 
desde o peitoral de couro, ate a sela alta, passando pelo elmo e pela 
espada. Alem disso, o proprio cavalo custava uma exorbitancia, por causa 
da desorganizada pecuaria da epoca e da pobreza da agricultura. Durante 
a Idade Media, na Espanha, por exemplo, o prec,:o de urn cavalo equivalia 
ao de 25 bois, e os dos arreios, a outro tanto.37 
Com semelhantes riscos pecuniarios, pouco Iugar havia nos torneios 
para reverencias mutuas, apesar de eles raramente envolverem perigo de 
morte. Da mesma forma, o vencedor, depois das boas pancadas que em 
geral tambem recebia, raramente ficava para tomar parte num desfile de 
encerr.~mento, como estamos habituados a ver no cinema. Em Lagny, por 
34. "Durante a epoca puramente feudal, encontramos por toda parte pequenas guerras 
locais, em que nao cabe descobrir outro motivo econ6mico alem da inveja que urn senhor 
nutria pelos bens de outro". Huizinga, ob. cit., pag. 3 I. 
35. S6 no Levante, em 1090, o Cid recebia como tributo 50.000 demirios anuais dos 
Betir, 10.000 de Ben Rozin, 10.000 de Ben Cacim, 8.000 de Ben Lupon, 6.000 do Castelo 
de Segorbe, 3.000 do de Almenar, 2.000 do de Lfria e 52.000 do Rei de Valenc;a. Cf., a 
rcspeito, Menendez Pidal, ob. cit., tomo I, pag. 416. 
36. Anatole France, ob. cit., tomo I, pag. XL VIII. 
37. Menendez Pidal: La Espana del Cid, tomo I, pag. 143. 
93 
exemplo, houve uma vez urn torneio em que tomaram parte mais de tres 
mil cavaleiros de uma so vez; conclufdo o torneio, quando se procurou 
o Marechal Guilherme para proclama-lo vencedor da peleja, foram encon-
tra-lo numa ferraria, com a cabec;a apoiada numa bigorna, a espera de 
que o ferreiro, a poder de martelos e tenazes, o livrasse do elmo amassado.38 
Alem disso, a prisao que existia em cada castelo nao era urn carcere, 
onde vassalos delinqtientes expiavam os seus delitos, e sim urn Iugar 
seguro, em que se guardavam "seqtiestrados" importantes. E, quando as 
coisas apertavam, o senhor feudal nao tinha nenhum escrupulo em ir, ele 
mesmo em pessoa, roubar, pelos caminhos, os viajantes descuidados. E 
esses senhores feudais, as vezes, eram urn simples cavaleiro catalao, outras, 
eram o proprio Rei de Navarra. 39 
Reis dessa especie tinham os vassalos que mereciam. Como o rei 
nao. estava vinculado aos nobres, a nao ser pelo juramenta de fidelidade 
que estes prestavam, esses vfnculos podiam ser rompidos a qualquer 
momento, pela vontade de qualquer das partes. Se o rei podia expulsar 
das suas terras, scm nenhum motivo plausfvel, urn vassalo, este, por sua 
vez, podia qucbrar o juramenta de fidelidade que prestara e ate declarar 
guerra ao rei. Quando o Cid caiu em desgrac;a, ele se p6s ao servic;o dos 
mouros e nao teve nenhum escrupulo em atacar os domfnios do Rei de 
Aragao, roubando e fazendo prisioneiros durante cinco dias. 0 Conde de 
Carriao tambem serviu ao filho de Almanzor, e o proprio Tancredo, o 
Cruzado, nao teve escrupulos em guerrear Baldufno, com o apoio do Emir 
de Alepo! 
A grande propriedade de entao nao era formada, como se poderia 
crer, por latifundios: tanto as propriedades dos senhores feudais, quanto 
as dos monasterios, estavam tiio fracionadas que era freqtiente os senhores 
da epoca serem obrigados a se transportar com 0 seu sequito de herdade 
em herdade, para consumir o que as suas propriedades produziam. Essas 
andanc;as implicavam muitos gastos e expunhamos senhores feudais a 
muitos riscos, e muitas vezes os rancores de algum vizinho as transformavam 
numa catastrofe. 
Tal genero de vida tinha, necessariamente, que arruinar os senhores 
feudais. Para guerrear, como eles o faziam - algumas vezes a favor do 
seu partido, outras contra, mas sempre em proveito proprio -, era necessaria 
manter em pe de guerra urn grande sequito, o que ex1g1a uma enorme 
quantidade de armas, tendas e cavalos.40 Alem disso, a prodigalidade que 
38. Evans, ob. cit., prig. 45. 
39. Menendez Pidal: Poes{a Jup,laresca y Jup,lares, pag. 98. 
40. 0 sequito do senhor feudal era formado pelos seus parentes, por empregados e 
por amigos que, em troca <ln sua fidelidade, buscavam amparo e participa~ao no botim. 
QLl 
I! 
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distinguia o nobre do vilao forc;ava o senhor feudal a grandes gastos, e 
como ele niio era produtor, mas um parasita que explorava os seus 
vassalos, ele nunca sabia qual a sua receita e qual a sua despesa. 
Por necessidades monetarias, o senhor feudal foi abrindo mao de 
muitos de seus privilegios e, quando em seus domfnios comec;ou a se 
formar uma nova classe social que exigia urn Iugar ao sol, o senhor nao 
teve outro recurso a nao ser vender essa Iiberdade. Essa e a origem da 
lenda do senhor "bondoso" que libertava os seus servos, da mesma forma 
que, antigamente, o romano "austero" concedia alforria aos seus escravos. 
As origens da nova classe social que comec;ou a se formar durante 
a Idade Media sao urn pouco obscuras, mas sabemos que ela apareceu 
no proprio momento em que uma importante transformac;ao econ6mica 
abalou as proprias bases do feudalismo. Ate o seculo X, as cidades nao 
passavam de miseraveis vilas. Os seus habitantes se resumiam a uns 
poucos artesaos e domesticos, que trabalhavam para o senhor feudal, sob 
as mesmas condic;oes que eram impostas aos servos da gleba. Mas, a 
partir do seculo XI, progressivas modificac;oes tecnicas provocaram urn 
florescimento do comercio. Ate esse momento, o senhor feudal, que era 
dono da cidade, ou burgo41 , so tinha que comprar uns poucos objetos de 
luxo, provenientes do Oriente. Os camponeses dos seus domfnios lhe 
traziam alimentos e as materias-primas, que os artesaos da cidade traba-
lhavam. Mas tao logo entrou em circulac;ao o dinheiro, o senhor feudal 
achou vantajoso permitir que os seus artesaos - mediante retribuic;ao 
econ6mica - passassem a trabalhar para terceiros, ao .mesmo tempo que 
achou interessante permitir a entrada de mercadorias nos seus castelos.42 
E, assim, as cidades se transjormaram em centros de comercio, onde os 
produtores trocavam os seus produtos. Surgiu, entao, uma profunda trans-
formac;ao: o que ate ontem era apenas uma fortaleza, comerava agora a 
ser um mercado. Os seus habitantes, chamados burgueses, acabaram se 
fundindo em uma classe predisposta a uma vida pacifica e urbana, bern 
distinta da vida guerreira e rural, que era apanagio da nobreza. 
A transformac;ao econ6mica mencionada nao atingiu apenas as cidades. 
Quando os servos e os colonos encontraram nas cidades urn mercado para 
os seus produtos, eles comec;aram a pagar em dinheiro os tributos devidos 
ao senhor, e a vislumbrar, ao mesmo tempo, a possibilidade de limitar 
de algum modo o seu poder. Sublevac;oes nas cidades e nos campos 
41. Essa palavra deriva do alemao burp,, que significa cidade fortificada. Oficialmente, 
pelo menos, surgiu em 1134. 
42. "Que era uma cidade na !dade Media? Apenas urn castelo que prosperou". 
Funck-Brentano: Le Moyen Age. 
95 
' 
indicaram aos nobres que os tempos comec;;avam a mudar. Associados em 
corporac;;oes de ajuda mutua, os burgueses massacraram alguns senhores 
feudais, religiosos e leigos. Foi uma medida salutar, que sugeriu a neces-
sidade de reformar o estado de coisas, apesar das reac;;oes violentas que 
provocou. 0 senhor feudal outorgou, entao, uma carta a cidade, Iimitando 
dessa forma o seu proprio poder. 0 que essa carta tinha de essencial era 
o seguinte: o senhor deixava de impor tributos e multas ao seu capricho, 
comprometendo-se a estabelecer e a respeitar urn c6digo tarifario. Os 
colonos, por sua vez, conseguiram obter cartas de franquia semelhantes; 
o mesmo acontecendo tambem com os servos. E, dessa forma, os camponeses 
e os burgueses compraram ao senhor feudal o poder absoluto que ate 
aquela epoca este exercia sobre os seus hens. 
Tal transformac;;ao na economia e nas relac;;oes entre as classes tinha 
necessariamente de repercutir na educac;;ao'. 0 aparecimento dos burgueses 
citadinos obrigou a Igreja a deslocar o centro do seu ensino. Se, ate o 
seculo XI, poderiam bastar as escolas dos monasterios, agora ja eram 
necessarias as escolas das catedrais. 0 ensino passou, assim, das miios 
dos manges para as do clero secular. Perdido nas solid6es rurais, o 
monasterio ja nao podia servir de sustentacula para a hegemonia da Igreja, 
numa epoca em que o comercio que nascia nas cidades ja comec;;ilVa a 
exigir outra especie de instruc;;ao. E preciso ressaltar que, naquele tempo, 
a burguesia niio tinha nenhuma inten~iio revolucionaria. Apenas nascida 
como classe, a burguesia se achava profundamente inebriada pelas cartas 
de franquia que havia conseguido arrancar a nobreza feudal. Por numerosos 
que tenham sido os conflitos sustentados contra os senhores feudais, a 
burguesia da epoca nao era, de nenhum modo, antifeudal: desejava apenas 
ter urn Iugar dentro do regime feudal, de acordo com os seus interesses 
economicos e politicos. Usando a Iinguagem de Marx, poderfamos dizer 
que a burguesia ja era uma classe em si, mas nao uma classe para si, 
isto e, ainda nao tinha consciencia de que os seus interesses eram distintos 
dos do feudalismo. Nao devemos perder de vista estas caracterfsticas, para 
compreendermos todas as transac;;oes, acordos e tateios que, desde o seculo 
XI ate o seculo XVIII, marcaram o movimento Iento, mas ascendente, da 
burguesia. 
Na verdade, as escolas catedralfcias ja existiam ha alguns seculos, 
com uma organizac;;ao semelhante a das monasticas e, tambem, divididas 
em externas, para os leigos, e internas, para o clero. 0 centro das suas 
preocupac;;oes pedag6gicas era sem duvida a teologia. "Amar e venerar a 
Deus" era para Alcufno a suprema aspirac;;ao do sabio. Com semelhante 
ideal, nao e necessaria dizer que, nas escolas das catedrais, da mesma 
forma que nas dos conventos, o que menos importava era a instruc;;ao. 0 
canto coral era considerado mais importante do que "todas as sete artes 
96 
liberais juntas", e, grac;;as ao esmero com que o cultivavam, nao podemos 
nos surpreender com o renome da escola de Metz, famosa em todo o 
Imperio, pelo ensino que ministrava aos cantores. 
Mas, sob a influencia da nova burguesia, que extgta a sua parte na 
instruc;;ao, a escola catedralfcia foi, no seculo XI, o germe da universidade.43 
No domfnio intelectual, a funda~iio das universidades equivaleu a outorga 
de uma nova carta de franquia a burguesia.44 Ha pouco dissemos que a 
burguesia conseguiu triunfar nas suas primeiras escaramuc;;as contra os 
senhores feudais mediante associac;;oes juramentadas. As guildas e corpo-
ra~oes haviam favorecido bastante os comerciantes da Antigiiidade e 
pesaram bastante tambem na Roma do seculo III. Ressurgiram agora essas 
associac;;oes com mais vigor, nao s6 assegurando a burguesia os seus 
triunfos economicos, como tambem abrindo caminho para a sua primeira 
vit6ria intelectual. A palavra universidade - universitas - era empregada 
na ldade Media para designar qualquer assembleia corporativa, fosse ela 
de sapateiros ou de carpinteiros. Nunca era empregada em urn sentido 
absoluto, de modo que a expressao Universidade de Bolonha, por exemplo, 
era apenas uma abreviac;;ao comoda da expressao Universidade dos Mestres 
e Estudantes de Bolonha. No infcio, as universidades nao passaram de 
reuni6es livres de homens que se propuseram o cultivo das ciencias. A 
expansao do comercio, que esta na base deste renascimento - e que 
tambem levou os cruzados a conquistaros Dardanelos45 -, havia alargado 
43. Na fachada da Catedral de Paris ainda podemos apreciar as figuras simb6licas que 
nos transportam a esse momenta da hist6ria da educa9ao: a Dialetica e a serpente da 
sabedoria, a Gramatica e o latego dos castigos, a Aritmetica contando nos dedos, a Geometria 
e os seus compasses, a Astronomia e o seu astrolabio, a Musica e os seus sinos. 
44. A universidade foi "uma especie de comuna intelectual". Morin: Origine de la 
Democratie: La France au Moyen Age, pag. 90. 
45. l)urante muito tempo as cruzadas foram consideradas como guerras religiosas 
provocadas por motivos piedosos e cristaos, para a reconquista dos lugares santos, conquistados 
pelos turcos. Essa ideia simplista come9ou a ser combatida no seculo XVIII, ocasiao em 
que Voltaire, com a sua admiravel irreverencia, afirmou que as cruzadas nao passaram de 
urn tolo empreendimento, dirigido por criminosos irresponsaveis. Hoje, e evidente que nao 
podemos continuar sustentando que as cruzadas tiveram uma causa unica, seja ela espfrito 
religiose, interesses econilmicos ou ambi96es polfticas: os motivos econilmicos e politicos 
existiram sem duvida, e ate desempenharam urn importantfssimo papel nesse movimento, 
mas tambem e certo que foram os motivos religiosos que deram as cruzadas a sua caracterfstica 
principal de guerra santa. As cruzadas - apenas urn epis6dio, ainda que importante pelas 
suas conseqiiencias, da continuada !uta entre o Ocidente e o Oriente - podem ser mais 
bern compreendidas se atentarmos para as condi96es vigentes na Europa ocidental, no seculo 
XI. Predominava entre as popula96es cristas incultas urn verdadeiro espfrito de ascetismo, 
uma verdadeira psicose religiosa que for9ava os homens e as mulheres a buscar a salva9ao 
das suas almas por meio de uma estrita disciplina, de jejuns, de torturas, de mutila96es e 
97 
' 
de tal modo os horizontes da epoca, que correntes de toda a especJe 
comer;:aram a revolver a atmosfera da Europa. Ao mesmo tempo que, no 
mundo crist:'io, se afirmava ser a Terra plana, falava-se vagamente que, 
no Califado de Cordoba, a Geografia era ensinada com o auxflio de 
esferas. E a burguesia que, mais do que qualquer outra classe social, 
percebia a importancia vital desses problemas, compreendeu a necessidade 
de criar uma atmosfera intelectual mais adequada. 
E a universidade !he proporcionou esse ambiente. Como todas as 
corporar;:oes, a universidade tambem submetia os seus membros a uma 
sucessao de provas e de graus. E fato sabido que o artesao46 que desejava 
trabalhar num oficio qualquer devia se inscrever no gremio respectivo, 
trabalhando primeiro como aprendiz, e, depois como oficial, ate chegar a 
mestre. 
0 mesmo acontecia na universidade: o jovem que desejava estudar 
artes Iiberais deveria adquirir passo a passo, em urn processo semelhante, 
os graus de bacharel, de licenciado e de doutor. Mas a universidade ainda 
apresentava uma caracteristica so sua, que a transformou na primeira 
organizar;:iio francamente liberal da /dade Media. Nao so eram os estudantes 
que determinavam quando deviam ter inicio as aulas, qual deveria ser a 
de arriscadas peregrina~6es. Destas, a vtstta aos lugares santos era a mais valiosa, capaz, 
por si s6, de resgatar qualquer pecado cometido pelo peregrina, por mais hediondo que 
tivesse sido, e garantir a sua alma urn Iugar no ceu. Se aliamos a isso o sistema de vida 
que imperava na aristocracia feudal daqueles tempos, composta, no fim de contas, por 
verdadeiros guerreiros profissionais, acostumados a ver em qualquer guerra urn excelente 
meio de conquistar riquezas e fama, podemos compreender de que modo foi passive! o 
movimento das cruzadas. Podemos compreender, entao, que, quando os turcos se apoderaram 
da Palestina - o que, diga-se de passagem, nao impedia totalmente as peregrina~6es, nem 
significava a profana~ao dos lugares santos, porque os maometanos, de acordo com os 
pr6prios ensinamentos do Alcorao, respeitavam os judeus e os cristaos, s6 combatendo a fio 
de espada os pagaos -, quando o Imperador de Biziincio pediu socorro ao Papa, para a 
defesa dos seus territ6rios, e Urbano II, no Concilio de Clermont, percebendo a oportunidade 
que se !he oferecia de superar o Cisma Ortodoxo e restabelecer o prestigio papal, grandemente 
amea~ado, levantou a bandeira da guerra santa, acenando com a possibilidade de grandes 
pilhagens e com a salva~ao eterna das almas dos que atendessem ao sen apelo, de toda a 
Europa acorreram milhares de pessoas - homens, mulheres e crian~as, de tal maneira que 
a primeira cruzada pode ser considerada como uma multidao informe, com urn nucleo 
combatente - para a !uta contra o Isla. Apesar dos interesses comerciais envolvidos, 
especialmente de Veneza, Pisa e Genova, que, alias, foram as cidades que mais proveito 
tiraram da primeira cruzada, merce dos privilegios comerciais que lhes foram concedidos 
pela ajuda prestada pelos seus navios, nao nos parece passive! querermos ver nas cruzadas 
apenas urn movimento de expansao econ6mico-comercial. (Nota do Tradutor.) 
46. "0 individuo nao se transformava em artesao a sen bel-prazer: para exercer urn 
oficio era necessaria passar por uma extensa serie de inicia~6es custosas, ser aceito pela 
corpora~ao e pagar uma taxa de ingresso bastante consideravel". Morin, ob. cit., pag. 93. 
98 
...... 
sua durar;:ao etc., como tambem o proprio grupo governante so tinha 
poderes delegados47. Os estudantes fiscalizavam os seus professores de 
urn modo que espantaria os anti-reformistas de hoje, que querem volver 
ao reinado da toga e do capelo: se o doutor pulava urn panigrafo do Iivro 
que estava comentando, os alunos o multavam, e o mesmo acontecia 
quando ele procurava se eximir de esclarecer uma dificuldade, alegando 
que isso seria feito mais tarde, ou quando insistia demasiado a respeito 
de outros desenvolvimentos ... 48 
A fundar;:iio das universidades permitiu que a burguesia participasse 
de muitas das vantagens da nobreza e do clero, que ate entiio lhe tinham 
sido negadas. Urn dos privilegios municipais outorgado por Afonso de 
Poitiers, no seculo XIII, por exemplo, foi o de permitir que os filhos dos 
burgueses ingressassem nas ordens religiosas. E se esse fato e ilustrativo 
no que tange a Igreja, a lenta formar;:ao da nobreza "de toga", por oposir;:ao 
a autentica, que era "de espada", mostra tambem de que modo a burguesia, 
por intermedio das universidades, ia-se apoderando dajustir;:a e da burocracia. 
A conquista de urn titulo universitario elevava o burgues quase ao nivel 
da nobreza, e desde o momento em que ostentava orgulhosamente os 
signos da dignidade doutoral - a borla, o capelo, o anel e o livro -, 
ele ja comer;:ava a ser encarado como urn nobre49; tinha privilegio nos 
processos e precedencia no passo. 
As cidades passaram a eleger agora os seus embaixadores e oficiais 
entre os mais ilustres doutores em Direito, o que ha pouco tempo era 
privilegio do clero. Os documentos de maior responsabilidade eram redigidos 
pelos doutores; e sabido, por exemplo, que foi Rolandino Passeggeri que 
redigiu a energica resposta que a Comuna de Bolonha deu a uma amear;:adora 
carta de Frederico II. 50 
Pelos motivos apontados, a Igreja e os reis trataram de ter as 
universidades sob sua influencia. E, ainda que muitos reis tenham tido a 
iniciativa de fundar universidades e conceder-lhes privilegios - como foi 
o caso, por exemplo, de Frederico I, com a Universidade de Bolonha em 
1158, concedendo aos estudantes ate urn tribunal de justir;:a proprio -, a 
Igreja nao se deixou superar, e a Faculdade de Teologia foi colocada a 
testa das universidades. Os estatutos de 1317 prescreviam que o Reitor 
47. Rashdall: Universities of Europe in the Middle Age, pags. 518-525. 
48. Langlois: "Les Universites du Moyen Age", pag. 801. 
49. "Tanto em Paris quanta em Bolonha, muitos jovens solicitavam que se lhes 
concedesse o titulo de licenciado mesmo sem estudar, nao com a inten~ao -de ensinar, mas 
apcnas para terem urntitulo". Langlois, ob. cit., pag. 806. 
50. Zaccagnini: La Vita dei Maestri e degli Scolari nello Studio di Bologna nei Secoli 
X Ill e XIV, pag. 22. 
99 
• 
da Universidade de Bolonha devia ser urn eclesiastico erudito, solteiro e 
usar batina. 
Mas, ainda que nominalmente eclesidstica, a universidade era leiga 
no espfrito. Na epoca de Inocencio II, a Universidade de Paris teve urn 
atrito com 0 Chanceler da Catedral, que pretendia que OS candidatos a 
licenciatura !he jurassem fidelidade. Ele suspeitava que o controle da 
universidade !he estava escapando das maos e se referia, por causa disso, 
as assembleias de professores - ele empregava o termo conjuras - com 
a mesma indignac;:ao com que os bispos do seculo XI se referiam a esses 
convent{culos de vil6es, que conseguiram as cartas de franquia para as 
cidades. 0 Papa serviu de arbitro. Fie! a sua polftica, o Sumo Pontffice 
previu a grandeza futura da universidade e se pronunciou a seu favor, 
esperando o seu reconhecimento. A exigencia de que o reitor fosse clerigo 
caiu em desuso.51 Os interesses intelectuais, que a principia eram exclu-
sivamente religiosos, passaram a ser filos6ficos e 16gicos. A aspera disputa 
entre nominalistas e realistas, que incendiou os animas no fim da Idade 
Media, nao era absurda, nem grotesca. Sob a aparente puerilidade dessas 
posic;:6es filos6ficas se escondia o profunda conflito do feudalismo com a 
burguesia. De fato, quase todas as heresias encontraram suas justificac;:6es 
no nominalismo, ao passo que a ortodoxia falava pela boca dos realistas. 
Nos tempos em que afirmava orgulhosamente o seu poderio, a Igreja dizia 
pela boca de Santo Agostinho: "creio para compreender" (credo ut inteligam), 
mas, depois, quando ja comec;:ava a se sentir ameac;:ada, Abelardo inverteu 
a frase dizendo: "compreendo para crer". Urn tfmido, mas inegavel, esboc;:o 
de racionalismo burgues assomava nessa frase, sem que o te6logo que a 
pronunciava tivesse, sem duvida, a menor consciencia disso. Por essa 
razao, se a burguesia voltairiana dos fins do seculo XVIII tivesse adquirido 
urn sentido mais fino da hist6ria, ela, Ionge de condenar precipitadamente 
toda a Idade Media, teria reconhecido Roscelino, Abelardo e Guilherme, 
de Ocam, como seus vanguardeiros.52 Mas, apesar de heterodoxos, eles 
ainda nao eram incredulos. Apesar de se mostrarem atrevidos na interpretac;:ao 
dos dogmas, eles aceitavam a revelac;:ao. A incredulidade nao pode surgir 
enquanto nao se descobre que, ao !ado da religiao que se professa, ha 
outras religi6es que nao estao desprovidas de razao. 53 Isso s6 iria ocorrer 
urn seculo mais tarde, quando o comercio e as cruzadas trouxeram urn 
conhecimento mais exato do islamismo e do judafsmo. 
51. Zaccagnini, ob. cit., pags. 9-10. 
52. Sartiaux: Foi et Science au Moyen Age, pag. 240. 
53. Renan: Averrhoes et l'Averrohisme, pags. 281-282. 
100 
I 
l 
.... 
A riqueza dos comerciantes e dos industriais estava criando agora 
nas universidades medievais urn clima adequado para o aparecimento dos 
doutores, da mesma forma que, muito tempo antes, no seculo V a.C., em 
Atenas, tinha feito surgir os sofistas e, mais tarde, ja em Roma, os retores. 
De fato, era a riqueza dos comerciantes e dos artesaos que dominava as 
universidades. Todos os seus membros, dos estudantes ao reitor, eram 
ricos. Tanto o sequito do reitor quanta as suas vestimentas eram muito 
dispendiosos, e o mesmo acontecia com o dos pr6prios professores. Mas 
ha uma caracterfstica que os marca mais fortemente ainda: todos, com 
muito poucas excefoes, eram usurdrios.54 Os seus estipendios provinham 
de duas fontes: dos pr6prios alunos e das rendas da cidade. Ja mencionamos 
que recebiam encargos oficiais e particulares; alem disso, obtinha~ Iueras 
comerciando com livros e fazendo emprestimos aos alunos. 0 simples 
fato de que o ensino era pago indica bern qual a especie de alunos que 
freqtientavam a universidade. Gozavam todos de boa situac;:ao financeira, 
o suficiente para pagar os seus professores, as pens6es em que viviam, 
custear viagens e pagar as enormes taxas exigidas, de certo modo equi-
valentes as das nossas universidades atuais. A cerimonia final da aprovac;:ao 
- o conventdrio -, por exemplo, exigia muitos gastos. 0 diplomando 
devia dar varios presentes ao promotor (correspondente ao nosso orientador 
de tese), aos doutores que integravam a sua banca examinadora e ao 
doutor que havia pronunciado o sermao de encerramento.55 E, se isso 
acontecia por ocasiao da formatura, o mesmo acontecia quando do ingresso 
na universidade. Os pr6prios estudantes exigiam que o "calouro" patrocinasse 
urn !auto festim, como parte do trote a que o submetiam. 
Estes fatos parecem contradizer urn pouco o carater tradicional do 
estudante da Idade Media, que anda sempre em apuros financeiros e que 
chega a roubar e a pedir .esmolas para conseguir dinheiro. Nao ha duvida 
de que a maior parte deles nao dispunha de muito dinheiro na carteira. 
Mas afirmar isso nao contradiz o que dissemos anteriormente: a vida 
dissoluta que levavam - jogo, bebidas e mulheres - explica por que 
ficavam quase "prontos" pouco depois de receberem a mesada paterna.56 
Dessas desordens57 e do desejo de levar uma vida de aventuras proprio 
54. "Desta culpa (a usura) estiio manchados mais ou menos todos os grandes mestres 
da Universidade de Bolonha." Zaccagnini, ob. cit., pag. 18. Cf., no mesmo sentido, as pags. 
35 e 37. 
55. Zaccagnini, ob. cit., pag. 84. 
56. Zaccagnini, ob. cit., pag. 48. 
57. A respeito dos estudantes de Paris, Robert de Sorbon dizia que "conhecem melhor 
as regras do jogo de dados, do que as de 16gica". Funk-Brentano ob. cit., pag. 195. Na pagina 
196 da mesma obra, encontramos viarias cartas de estudantes pedindo dinheiro aos seus pais. 
101 
I 
da juventude, nasceu o tipo de estudante vagabundo - o goliardo -
que, juntamente com os soldados, constituiu o terror das tavernas e dos 
pomares. Mas estes estudantes - burgueses e ate nobres - tornavam 
bern claras as diferen~as que os distinguiam dos pobres-diabos. Urn hino 
da epoca, de caniter blasfemo, muito popular entre OS estudantes ing]eses, 
ressalta muito claramente o caniter da classe a que pertencia o estudante 
medieval: "Deus, tu que has criado os camponeses para servirem aos 
cavaleiros e aos estudantes, que puseste em n6s 6dio a eles, deixa-nos 
viver as expensas do seu trabalho, aproveitar de suas mulheres e mata-Ios 
por fim; pelo nosso senhor Baco, que bebe e levanta o seu capo, pelos 
seculos dos seculos, amem."58 
Enquanto a burguesia mais rica triunfava nas universidades, a pequena 
burguesia invadia as escolas primarias. Nos meados do seculo XIII, os 
magistrados das cidades come~aram a exigir escolas primarias, que as 
cidades custeariam e administrariam. Tratava-se de uma iniciativa que se 
dirigia diretamente contra o controle mantido pela Igreja. Os avan~os da 
grande burguesia no terreno universitario nao comprometiam muito esse 
controle, mas pretender dirigir escolas municipais equivalia a urn verdadeiro 
desafio. Neste terreno, a !uta nao foi facil, e dois seculos transcorreram 
antes de a burguesia conseguir uma vit6ria. Nesse interregna, as cidades 
se viram for~adas a aceitar a inspe~ao eclesiastica em suas escolas, e 
muitas vezes aconteceu de as escolas catedralfcias e as municipais terem 
o mesmo professor. 
0 ensino ministrado nas escolas municipais ja estava menos divorciado 
das necessidades praticas da vida. Em vez do latim, ensinava-se o idioma 
nacional59, em vez do predomfnio total do trivium e do quadrivium, nor;oes 
de Geografia, Hist6ria e de Ciencias Naturais. Mas nao se pense que as 
escolas municipais fossem gratuitas: apesar de o municipio pagar certo 
estipendio aos professores - soldos de fame, naturalmente -, os alunos 
deviam pagar diretamente os professores pelos seus ensinamentos, e esse 
pagamento era proporcional as dificuldades das materias ensinadas.60 Essas 
escolas continuavam, portanto, a ser escolas para privilegiados,e nao 
podia ser de outro modo. A burguesia, repetimos, nao tinha nada de 
revolucionario nessa epoca. Reformadora, no maximo, ela crescia e pros-
perava dentro do molde feudal. 0 seu primeiro triunfo, a obten~ao das 
cartas de franquia, significou a extensao dos privilegios senhoriais as 
cidades. Nesse sentido, a comuna poderia ser chamada de "urn senhorio 
58. Messer: Historia de Ia Pedagogfa, pag. 165. 
59. Monroe: Historia de Ia Pedagogfa, tomo II, pag. 162. 
60. Wickert: Historia de Ia Pedagogfa, pag. 44. 
102 
1 
I 
.... 
hurgues", e era sob esse disfarce que a burguesia progredia lentamente. 
Antes de continuar, anotemos novamente que, se para a Igreja e para o 
scnhor feudal a escola nunca significou ilustra~ao popular, tambem para 
a burguesia, pelo menos nesse momenta hist6rico, ela nao tinha esse 
scntido. Impregnadas do espfrito das corpora~6es, as primeiras escolas da 
hurguesia tambem apresentavam o carater fechado dos gremios. Para as 
corpora~6es de professores, tudo o que se referia ao ensino do seu offcio 
cstava revestido do maximo segredo. Por exemplo: sao famosas as reservas 
com que os arquitetos medievais defendiam as regras da arte da constru~ao, 
e uma curiosa contraprova desse hermetismo dos gremios pode ser encontrada 
nas estranhas suposi~oes que o povo tinha a respeito de como obter 
melhores tintas para tecidos. Dado o carater da organiza~ao gremial, nem 
o aprendiz, nem o oficial - apesar de explorados - se sentiam como 
membros de uma classe a parte, que se opunha a dos exploradores, 
constitufda pelos "mestres" dos gremios. 0 artesao, no maximo, poderia 
se sentir como urn explorado temporario. Os gremios estavam organizados 
de tal forma que os "mestres" provinham dos oficiais, e estes, dos 
aprendizes. Cada artesao trabalhava, portanto, com a esperan~a de vir a 
se converter urn dia em explorador de outros artesaos.61 Se acrescentarmos 
a esse fato a falta de grandes massas de operarios naquelas reduzidas 
oficinas, o raquitismo da industria artesanal que, nao exigindo grandes 
capitais, permitia que os oficiais fossem donas dos seus instrumentos de 
trabalho, e a quota inicial paga pelos aprendizes ao ingressarem nas 
agremia~6es respectivas, o que, sem diivida, impedia a entrada dos que 
ja nao dispunham de alguns recursos, compreender-se-a bern que as "escolas 
municipais" do seculo XIII, apesar de constitufrem urn enorme progresso 
em rela~ao as monasticas, tambem nada tinham de "populares"' ainda que 
tivessem conseguido abrir uma grande brecha no ensino ministrado pela 
Igreja: a substitui~ao do latim pelos idiomas nacionais,· e uma tendencia 
maior a ressaltar a importancia da Aritmetica e da Geografia. 
Estas duas ultimas materias tinham para os comerciantes urn interesse 
tao grande que eles as ministravam de maneira intensiva em certas escolas 
especiais que poderfamos chamar de escolas de contabilidade. Em Floren~a, 
Genova e Bolonha, todas cidades ativamente comerciais, faziam-se neces-
sarias escolas adequadas para comerciantes e banqueiros. N as esc alas 
propriamente religiosas - destinadas ao ensino dos manges - o ensino 
da contabilidade tambem tinha uma grande importancia, o que se explica 
quando se recorda os enormes interesses comerciais e bancarios ligados 
ao monasterio. 
61. W. Roces: "Introdu~ao" da edi~ao Cenit do Manifesto Comunista, pag. 28. 
103 
I 
Foi urn monge - o italiano Luca Palaciolo - que desenvolveu 
com maior perfei~ao o sistema contabil de partida dobrada.62 Era essa 
mesma ciencia contabil tao bern conhecida pelos monasterios que os 
mestres dos gremios queriam agora dominar. E que, a medida que come~ava 
a produzir para urn mercado mais amplo, o "mestre" artesao ia-se trans-
formando num comerciante. Surgiu por causa desses fatos todos uma nova 
luta contra a Igreja a respeito daquele tipo de ensino que o monasterio 
chamava de dictamen prosaicum. Rivais da Igreja, tanto nas universidades 
quanto nas escolas de nfvel mais baixo, os leigos cultos come~aram a 
disputar a ela os postos de confian~a junto aos grandes senhores e junto 
as comunas. 
A catedral gotica, a escolastica e a universidade nao correspondem, 
pois, ao perfodo em que a Igreja alcan~a triunfante o seu maximo esplendor, 
mas sim ao perfodo da sua historia em que ela come~a a pactuar com 
as potencias rivais. Os fins do seculo XI e os come~os do seculo XII se 
caracterizam pelo apogeu das heresias, mas, ao mesmo tempo, pelas 
catedrais, pelos doutores e pelas comunas. 0 dogma e atacado por varios 
!ados, e os primeiros assaltos partem exatamente das cidades, com o seu 
comercio e os seus artesaos. 
"Quando se ere, nao se necessita de outra coisa alem da fe", havia 
dito Tertuliano, nos primeiros tempos da Igreja. Essa era a voz autentica 
de urn poderoso movimento que acreditava cegamente na sua propria 
fortaleza. Era a voz que animava os monasterios dos primeiros tempos e 
as igrejas romanicas, com a sua rudez primitiva, o seu aspecto maci~o e 
as suas naves escuras. Mas a catedral, ao contrario, enorme, sonora e 
clara, levava consigo urn fmpeto jubiloso que espantava os monges mais 
autenticos.63 De fato, a catedral nao servia apenas para o culto: "Era 
mercado, bolsa de comercio e seara da abundancia. Nela eram levantados 
tablados para representa~oes teatrais e para bailes; nela, os professores e 
estudantes realizavam as suas assembleias e, em certos dias, a cidade 
inteira discutia os seus negocios."64 
62. Messer, ob. cit., pag. 140. 
63. Cf. Evans, ob. cit., pag. 115, a respeito dos protestos de S. Bernardo contra o 
embelezamento das catedrais. 
64. Elie Faure percebeu bern a rela<;:ao existente entre as catedrais e o triunfo das 
comunas. Escreve em "La Cathedrale et Ia Commune", pags. 116 a 126: "A majestade, a 
grandeza, a 16gica e a beleza das catedrais sao diretamente proporcionais ao poder do 
organismo comunal." No mesmo sentido cf. o ja citado livro de Wallon: Saint Louis, tomo 
II, pag. 345. 0 que se passaria freqiientemente nas catedrais pode ser suspeitado por detalhes 
como os seguintes: o Conselho de Estrasburgo distribufa, todos os anos, 1.100 litros de 
vinho entre os que passavam a noite de S. Adolfo na catedral, "velando e orando". Huizinga: 
El Otoiio de Ia Edad Media, tomo II, pag. 21. 
104 
Esse despertar da vida comercial, ruidosa e movedi~a, essa afirma~ao 
dos negocios e do calculo, que opunha a catedral ao monasterio, e o 
burgues letrado aos senhores da espada ou da cruz, solidificou-se no plano 
intelectual nessa outra "catedral" impressionante que foi chamada de 
escolastica. Desde o seculo XI ate o XV, a escolastica representou no 
front cultural urn verdadeiro compromisso entre a mentalidade do feudalismo 
em decadencia e a da burguesia em ascensao; urn compromisso entre a 
fe, o realismo e o desprezo pelos sentidos, de urn lado, e a razao, o 
nominalismo e a experiencia, do outro. 
Amea~ada de perder o controle que exerceu sobre esse poderoso 
instrumento de domfnio que e a cultura, a Igreja lan~ou a luta, como 
uma alcateia, as ordens de pregadores e os mendicantes; ferozes, os 
dominicanos; untuosos, os franciscanos. "Caes do Senhor", os primeiros, 
a eles coube a triste gloria de fundar a Inquisi~ao. 
Para nos, que estamos acostumados a ler jornais e revistas, e urn 
pouco diffcil imaginar o efeito de uma prega~ao organizada. A Igreja, nas 
suas prega~oes, lan~ou mao dos efeitos mais teatrais e sugestivos que 
podemos imaginar. Uma testemunha visual, Massuccio, relatou em paginas 
inflamadas de indigna~ao algumas dessas comedias escandalosas que teve 
a oportunidade de presenciar. Muitas vezes, alguns cumplices do pregador 
se espalhavam pelo auditorio e, fingindo-se de cegos, de surdos ou de 
doentes, "curavam-se" ao tocar uma relfquia. No mesmo instante, todos 
reconheciam que estavam em presen~a de urn milagre e bimbalhavam os 
sinos. Outras vezes, urn comparsa do pregador acusava-o de mentiroso, 
e, logo mais, o ousado acusador se sentia possufdo pelo demonio e 
come~ava a se agitarem estranhas contor~oes. Entao, o pregador se 
aproximava dele, curava-o e convertia-o.65 Tudo o que dissemos anterior-
mente a respeito do "orador" romano e dos seus gestos calculados, 
destinados a impressionar a multidao, reaparece agora nos "pregadores"66, 
mas em escala muito maior por causa da natureza dos recursos empregados: 
especialmente o terror da morte, dessa morte macabra, com mandfbulas 
descarnadas e 6rbitas vazias, que a Igreja Cat61ica estilizou com urn 
rebuscamento intencional. Em Paris, em 1429, o irmao Ricardo pregou 
durante dez dias. Falava desde as cinco ate as onze da manha, no Cemiterio 
dos Inocentes, sob uma galeria em que estava pintada a dan~a da morte, 
e que se situava a poucos metros de fossas transbordantes de cranios e 
65. Burckhardt: La Civilisation en Jtalie au Temps de /a Renaissance, tomo II, pag. 
226-227. 
66. Nenhum efeito era demasiado grosseiro para eles, nem a passagem do riso ao 
pranto, nem a eleva<;:iio da voz, mesmo desmesurada. Cf. Huizinga: £/ Otoiio de /a Edad 
Media, tomo I, pag. 69. ) 
.. 105 
I 
de tibias. Quando, depois do decimo sermao, anunciou que esse seria o 
ultimo, as mulheres e OS homens solur;avam.67 
Sob essa amear;a do terror religioso, as heresias acalmaram-se durante 
algum tempo, e as inovar;5es mais ou menos perigosas foram detidas, mas 
o impulso dado pela economia no seculo XI ja nao podia ser detido. Ja 
se vizinhava a chamada "era das invenr;5es". A erudir;ao, que ate entao 
havia sido uma prerrogativa escolastica, tornava-se dia a dia mais leiga. 
Era em vao que, nas universidades, os estudantes que nao falavam em 
latim eram severamente castigados. A gerar;ao que acolheu nas universidades 
os idiomas "nacionais" deveria suceder outra que os empregaria nas escolas, 
e ja comer;ava a despontar uma terceira, mais feliz ainda, que comer;aria 
a ter livros impressos (1455).68 
Coube a Florenr;a - a formidavel Nova Iorque do seculo XV -
a gloria de acentuar, mais vigorosamente que qualquer outra cidade, esse 
movimento poderoso das nascentes burguesias. 0 primeiro grego que trouxe 
para o Ocidente os tesouros culturais da sua patria esteve, desde 1336, a 
soldo da burguesia florentina. 
No pr6logo do seu Decamer6n, Boccaccio (1313-1370) se despediu 
do sinistro feudalismo, que se caracterizava por cavaleiros brutais e por 
uma religiao sem alegria.69 "A vida, a verdadeira vida - dizia Boccaccio 
- e esta vida humana, feita de engenho e instinto". A tristeza havia 
deixado de ser "santa" e a carne, de ser "mfsera". Florenr;a despertava 
do pesadelo do Inferno dantesco com uma esperanr;a fresca, e para ressaltar 
de maneira inequfvoca o sentido original da nova classe social, que se 
tornava cada vez menos tfmida, fez dos Medicis - a sua mais poderosa 
familia de banqueiros - os prfncipes que deveriam dirigir os seus destinos. 
Mas o brilho extraordinario do Renascimento, com o esplendor da 
sua arte e a pompa das suas festas, nao modificou em nada a situar;ao 
dos explorados. "Escrevo para os eruditos, nao para a plebe", dizia 
Poligiano. E era esse o pensamento de todo o Humanismo: povo significava 
plebe, vulgo significava canalha. E essa opiniao ainda se tornou mais forte 
com o passar do seculo. Em 1400, e Leonardo Bruni quem diz: "Sempre 
suspeitei das multidoes"; em 1500, e Guicciardini quem afirma: "Quem 
diz povo, diz louco, porque o povo e urn monstro cheio de confus5es e 
de erros". Nem uma duvida, nem uma excer;ao. Em relar;ao ao povo, os 
humanistas s6 demonstram desprezo, injuria e sarcasmo. Apesar do intenso 
movimento educativo que caracterizou o Renascimento, em nenhuma opor-
67. Huizinga. ob. cit., tomo I, pags. 15-16. 
68. Os estuaantes se agrupavam nas universidades por "na~6es". 
69. Gebhart: Conteurs Florentins du Moyen Age, pag. 78. 
106 
tunidade surgiu a mais tfmida tentativa de educar;ao "popular".70 E verdade 
que, em relar;ao as antigas escolas das corporar;5es, as novas significavam 
urn progresso nao pequeno. E verdade que, pela boca de Leon Battista 
Alberti (1404-1472), urn representante da burguesia, o Humanismo afirmava 
que a "ciencia deve ser libertada das suas prisoes e espalhada a maos-cheias", 
com a condir;ao de que o indivfduo se eleve sabre a sua propria classe, 
para conseguir uma educa({iio adequada as posi({oes superiores. Todos os 
pedagogos do Renascimento, desde Agricola (1444-1485), ate Melanchton 
(1497-1560), eram filhos de burgueses ricos e viveram como preceptores 
de nobres e de filhos de burgueses ricos. Gianfranco Gonzaga, Marques 
de Mantua, cujo filho foi a1uno de Vittorino da Feltre (1378-1446), o 
primeiro pedagogo a surgir naqueles tempos, era urn "uomo nuovo", isto 
e, urn parvenu. 01hado com receio pelas familias de mais renome, buscou, 
por isso, urn homem douto, que fosse capaz de dar mais brilho a sua 
corte. 
A cultura renascentista descansava de fato sobre as finanr;as dos 
banqueiros. Cosme de Medicis nao passava de urn simples mercador, sem 
mais titulos e antepassados do que o comum dos negociantes. A sua anna 
principal era o dinheiro, e ele a manejava muito bern. Em pouco tempo 
passou a ser erector de todos: dos pequenos e dos grandes, dos prfncipes 
e dos pontffices. E passou a patrocinar, entao, pintores, tradutores, cinze-
ladores e escultores.71 
Como uma rea((ii.O ao feudalismo teocratico, o burgues do Renasci-
mento volveu os olhos para a Antigiiidade, para retomar a cadeia da 
unidade hist6rica no mesmo elo em que o feudalismo, aparentemente, a 
rompera. Helenizar era, entao, urn modo de se opor a Igreja e a nobreza. 
Se, para o feudalismo, a virtude dominante era a submissao, para a 
burguesia mercantil do Renascimento, essa virtude passou a ser a indivi-
dualidade triunfante, a afirmar;ao da propria personalidade. Petrarca ja 
havia dito que o "verdadeiro nobre nao nasce, mas se faz". Era o que, 
agora, todos afirmavam pelos labios ou pela pena de Latini, de Alberti, 
ou de Pantano. Volver aos antigos era um modo indireto de renegar a 
Igreja e a escolastica; urn modo de romper com o passado imediato e 
de retomar como bandeira do seculo XV os ideais greco-romanos de uma 
cultura leiga, eqi.iidistante do dogmatismo eclesiastico, do ascetismo mo-
nastico e do pessimismo indelevel do pecado original. Mas volver os olhos 
para a Roma antiga, da paz e do direito, tambem significava repudiar o 
poder arbitrario do feudalismo, em que o capricho do senhor tinha for({a 
70. Woodward: La Pedagog(a del Rinascimento, pag. 49. 
71. Monnier: Le Quattrocento, tomo I, pag. 144. 
\, 107 
I 
de lei. 0 ideal latino que Quintiliano72 refletia no seu Orador, como 
exemplo de urn tipo que o comercio cosmopolita do seculo II a.C. havia 
imposto em Roma, nao diferia muito desse "culto homem de neg6cios" 
que o Renascimento aspirou tornar uma realidade. Qualquer coisa assim 
como o "orador" de Quintiliano que se tivesse acostumado a predicar a 
prudente economia; algo assim como aquela masserizia tao celebrada por 
Alberti, em que ja assomava o profundo carater do burgues: que os gastos 
jamais ultrapassem a receita. 
0 Renascimento se propos formar homens de neg6cios que tambem 
fossem cidadiios cultos e diplomatas htibeis. Uma lingua universal, urn 
tipo uniforme de cultura, a paz perpetua, eis as aspira~oes de Erasmo 
(1467-1536) e do seu tempo. Podemos reconhecer facilmente por detras 
dessas aspira~oes as necessidades do comercio. Para conseguir esses 
objetivos a burguesia pediu o apoio dos monarcas, isto e, daqueles 
potentados feudais que haviam crescido em importancia ate se transformarem 
em senhores dos seus rivais vencidos e humilhados. Os humanistas, os 
interpretes da burguesia mercantil buscaram a ajuda dos reis na Inglaterra, 
na Fran<;:a e na Alemanha: Henrique VIII, Francisco I e Carlos V, 
respectivamente. E ela espeniva conseguir uma paz que facilitasse o 
comercio, leis que nao entravassem os neg6cios 73 e uma administra~ao 
honesta, que nao dilapidasse os fundos retirados das suas arcas?4 
Interessada diretamente na lutacontra os baroes feudais, a burguesia 
emprestou dinheiro aos reis e apoiou-os de todos os modos. As armas de 
fogo nao SO transformaram OS metodos de guerra, COffiO tambem apressaram 
a queda da vassalagem. Apesar de toda a sua armadura, pouco podia fazer 
urn cavaleiro diante de urn vilao armado de mosquete, e Polo Vitelli 
estava certo quando arrancou os olhos e cortou as maos dos arcabuzeiros 
que fez prisioneiros, "porque lhe parecia monstruoso que urn nobre cavaleiro 
72. Durante o Concflio de Constan~a (1414-1418), Poggio Bracciolini descobriu em S. 
Gall urn exemplar quase completo das obras de Quintiliano. 
73. Mesmo dentro dos muros das cidades, havia interminaveis entraves ao comercio: 
"As carretas de mercadorias deviam pagar direitos de entrada, taxas para atravessar as pontes, 
para atravessar os domfnios dos monasterios, para atravessar as barreiras que separavam os 
bairros, para atravessar o territ6rio inviolavel do hospital ou do conde, devia pagar a cada 
passo, sob todos os pretextos, a todos os inumeraveis donos dos neg6cios publicos." Cf. 
Morin: Origine de Ia Democratie: La France au Moyen Age, pag. 30. 
74. "Os cidadiios de urn Estado do ultimo perfodo da !dade Media que suportam 
pesados encargos e carecem de voz na administra~iio dos fundos publicos, vivem em 
permanente desconfian~a, tendo duvidas a respeito de como empregar o seu dinheiro: 
dilapida-lo ou emprega-lo para o proveito e a utilidade do pais." Cf. Huizinga: El Otofio 
de Ia Edad Media, tomo I, pag. 22. 
108 
.till. 
pudesse ser ferido desse modo, por urn infante desprezfvel".75 Ate entao, 
a ciencia da guerra se resumia em manter-se montado. Mas, agora, as 
coisas tinham mudado por completo: para fabricar p6lvora e armas de 
fogo necessitava-se de dinheiro e de industrias. Mas ambas essas coisas 
estavam nas maos da burguesia, que, por esse motivo, apontava as suas 
baterias em dire~ao as muralhas dos castelos imponentes.76 Quando estes 
come~aram a cair, a nobreza perdeu a sua hegemonia; declinou tambem 
a "educa~ao cavalheiresca", no momento em que os torneios passaram a 
ser inuteis. 
Se a hist6ria marcasse os seus capftulos nao com grandes aconteci-
mentos de caniter polftico, mas com outros menos brilhantes, mas mais 
significativos, talvez ela tivesse ressaltado urn incidente que foi minusculo 
no seu tempo, mas que se reveste para nos de uma ironia quase simb61ica: 
Jacques de Lalaing, que constituiu a flor e a nata dos cavaleiros andantes 
a moda da Borgonha, foi ferido de morte por urn tiro de canhao. 
0 homem feudal sucumbira. Os burgueses compraram as suas terras; 
a p6lvora derrubou os seus castelos. Os navios apontavam agora as rotas 
de urn continente remoto, mais inacessfvel do que as princesas de Tripoli, 
que s6 poderia ser conquistado mediante a industria e o comercio. 
Ja estavam regressando a Espanha as caravelas carregadas de ouro. 
Urn novo Deus havia nascido: "0 ouro e excelente", dizia Colombo a 
Rainha Isabel, na linguagem franca da burguesia genovesa. "Com ele se 
conseguem tesouros, e quem possui tesouros pode fazer o que quiser neste 
mundo, ate levar as almas ao parafso.''77 
75. Burckhardt: w Civilisation en Italie au Temps de la Renaissance; tomo I, pag. 125. 
76. Antes das armas de fogo, os castelos s6 podiam ser tornados depois de demorados 
assedios; os meios de defesa e de contra-ataque do alto de uma fortaleza eram muito 
superiores aos de assalto e de demoli~ao, de que dispunham os sitiadores. Cf. Menendez 
Pidal: w Espana del Cid, tomo II, pag. 510. 
77. Comparar esta frase de Colombo, que consta da famosa carla que ele enviou da 
Jamaica, com os versos de Menandro (Fragments, pag. 100): "o ouro transforma os homens 
Iivres em servos, mas tambem abre as portas do inferno". 
109 
I 
CAPITULO V 
A EDUCA\=AO DO HOMEM BURGUES 
Primeira Parte - Do Renascimento ate o Seculo XVIII 
Quando Ponocrato se encarregou da educa~ao do jovem Gargantua, 
imediatamente lhe deu de beber a agua do eleboro, "para que se esquecesse 
de tudo quanto havia aprendido com os seus antigos preceptores". 1 
Rabelais (1483-1553) expressava desse modo, pela boca dos seus 
personagens, as aspira~oes mais intimas da burguesia renascentista diante 
das tradi~oes do feudalismo cat6lico. Tendo sido aluno dos monges de 
Fontenay-le-Comte,2 Rabelais havia conhecido em seus primeiros anos esse 
ensino tiranico da Idade Media, em que os jovens passavam do trivium 
ao quadrivium, numa monotonia sem fim. Queria, portanto, para o seu 
Gargantua, a agua do eleboro para eliminar-lhe da memoria a velha 
educa~ao, e deixar limpa a sua alma para o novo ensino. 
E que outra coisa desejava tambem Lutero quando, ao recordar os 
seus anos de estudante em Magdeburgo, desaprovava essas "escolas em 
que urn jovem passava vinte ou trinta anos estudando Donato e Alexandre, 
sem aprender uma unica palavra? Surgiu urn novo mundo, em que as 
coisas se pass am de urn modo bern distinto". 3 
I. Rabelais: Gargantua et Pantagruel, pag. 82. 
2. Anatole France: Rabelais, pag. 6. Cf., tambem, Gebhart: "Rabelais", in Nouveau 
Dictionnaire de Pedagogie, de Buisson, pag. 1725. 
3. Monroe: Historia de Ia Pedagogia, tomo III, pag. 90. 
111 
I 
Assim falavam dois contemporaneos, que haviam nascido no mesmo 
ano; ambos eram frades, mas, enquanto urn deles abandonaria a sotaina, 
o outro fundaria, em oposi<;ao a Igreja Cat6lica, outra lgreja dogmatica.4 
Se dentro do movimento humanista cabiam posi<;6es tao distintas, precisamos 
reconhecer que a designa<;ao e vaga, e que se presta a confus6es. 
Onde a burguesia havia alcan<;ado certo esplendor, como em Floren<;a, 
por exemplo, desenvolveu-se tambem a "ala esquerda" do movimento 
humanista.5 A volta ao paganismo, que, de certo modo, pode ser considerada 
como a sua bandeira, tambem significava urn resoluto desacato a lgreja 
Cat6lica, na medida em que esta constituia a sintese e a sanr;ao do 
poderio feudal. Por outro lado, onde a burguesia se mostrava debil, como 
acontecia na Alemanha,6 a "ala direita" do mesmo movimento humanista 
s6 chegou a formular a necessidade de uma reforma dentro da lgreja. 
Apoiada por muitos nobres empobrecidos, que esperavam enriquecer 
a custa dos despojos da lgreja, a Reforma, da mesma forma que o 
Renascimento, nao perdeu por esse motivo o carater fundamental que lhe 
foi imposto pela burguesia moderada. Mas a alian<;a com a nobreza media 
e com a pequena - prejudicadas pela grande nobreza - explica os 
matizes turvos e equfvocos que o Humanismo e a Reforma assumiram 
em muitos dos seus te6ricos mais ilustres, como aconteceu com Montaigne, 
por exemplo, que, apesar de ter pertencido a pequena nobreza e de ter 
sido urn servidor da Igreja, nao e contado, com razao, por ela, entre os 
seus adeptos. 
"Reformadores", "pagaos", ou "cat6licos tfbios", os humanistas ex-
pressavam confusamente as transforma<;6es que o nascente capitalismo 
comercial impunha a estrutura economica do feudalismo. Ao nobre desa-
lojado -dos seus castelos e obrigado a incorporar-se a monarquia como 
funcionario ou palaciano, ja de pouco servia a velha educa<;ao "cavalhei-
4. "Longe de corresponder a urn debilitamento, a Reforma marcou urn renascimento 
do mais rigido espfrito cristiio." Cf Renan: Les Ap!ltres pags. LX-LXI. Cf., no mesmo 
sentido, Michele!, pr6logo das Memoires, de Lutero, tomo I, pag. X. "Qualquer que seja a 
simpatia que a amavel e poderosa personalidade de Lutero possa inspirar, niio devemos por 
isso modificar o nosso jufzo a respeito da teoria que ele ensinou, ou a respeito das 
conseqiiencias que derivam necessariamente deJa. Esse homem, que usou de maneira tao 
energica a liberdade, ressuscitou a teoria agostiniana do aniquilamento da liberdade. Imolou 
o livre-arbftrio a gra9a, o homem, a Deus, a moral a uma especie de fatalidade providenciaL" 
"Lutero - escrevia o jovem Marx - venceu a servidiio por devo91io, porque substituiu a 
escravidiio pela convic91io, e, se quebrou a fe na autoridade, foi porque restaurou a autoridade 
da fe."Marx: Oeuvres Philosophiques, tomo I, pag. 97. 
5. Burckhardt observa que em Floren9a abundavam os ateus. Cf Burckhardt, ob. cit, 
tomo II, pag. 336. 
6. Engels: La Guerre des Paysans en Allemagne, pag. 36. 
112 
resca". Montaigne, que falava como urn representante desses nobres, nao 
s6 abominava a guerra, como tambem exigia para o ')ovem de ascendencia 
nobre", para o qual planejava uma .educa<;ao, urn tipo de ensino diferente 
do que tinha recebido ate agora. "Seguindo a expressao a Socrates -
afirmava Montaigne -, deverfamos limitar o campo dos nossos estudos 
as coisas de provada utilidade".7 Ler e escrever ja nao eram considerados 
pelos nobres como coisas de mulheres. E, em 1598, foi fundado na 
Turfngia o Collegium /lustre, que foi uma verdadeira academia para nobres.8 
Se a educa<;ao cavalheiresca ja nao servia para esse nobre que tendia 
a se transformar em cortesao, tampouco eram uteis a dialetica e a teologia 
ao born burgues que fretava navios para viagens ao Novo Mundo. "Os 
silogismos, as oposi<;6es, as conjun<;6es, as disjun<;6es, as explana<;6es, as 
enuncia<;6es - diz Lufs Vives - sao como os enigmas com que se 
assombra a crian<;as e a velhas."9 Comerciante de trigo e de vinhos, 10 
Vives estava em excelentes condi<;6es para assegurar que "nenhum aspecto 
da vida pode prescindir da no<;aO de numero" II, e que "nao e a argumenta<;aO 
o que elucida a verdade, mas sim, a indaga<;ao da natureza, e observa<;ao 
sensfvel"P "0 estudante - acrescenta - nao deve envergonhar-se de 
entrar em lojas e em fabricas, de fazer perguntas aos comerciantes, de 
conhecer os detalhes das suas tarefas. Antigamente, os homens cultos 
desdenhavam indagar a respeito daquelas coisas que sao tao uteis conhecer 
e recordar na vida."13 
Tanto para Montaigne, que era Senhor de Perigord, quanto para Lufs 
Vives, que era urn comerciante, o util e o pratico passam agora a constituir 
preocupa<;6es de primeiro plano. Em oposi<;ao a vida "santa" dos monges 
e a vida "cavalheiresca" dos bar6es, OS humanistas defendiam OUtra especie 
de vida, que fosse mais laica do que aquela, e menos predadora do que 
esta. 
Esse interesse pela vida terrena dos neg6cios, pela investiga<;ao e 
pela razao, esse cuidado em assimilar ensinamentos, em vez de simplesmente 
recebe-los, adquirem o seu verdadeiro alcance inovador quando os com-
paramos com as tradi<;6es que dominavam o ensino feudal. Na Idade 
7. Montaigne: Ensayos Pedag6gicos, pag. 86. 
8. Painter: Historia de Ia Pedagogia, pag. 208. 
9. Vives: Tratado de Ia Enseiianza, pag. XVI. 
10. Vives, ob. cit, pag. CLXXVI. 
II. Vives, ob. cit., pag. CLXXVI. 
12. Vives, ob. cit., pag. XVII. 
13. Vives, ob. cit., pag. XXXIX 
113 
Media, nao se dizia estudar urn curso de Moral, mas sim ler um livro 
de Moral; ao inves de seguir urn curso usava-se sempre a expressao ouvir 
um livro (audire, ligere librum). 14 Tanto para Sao Tomas, no seculo XIII, 
quanto para Santo Agostinho, no seculo IV, o unico mestre era Deus. 15 
Conseqiientemente, durante a Idade Media, a Dbra de qualquer docente s6 
poderia ser secundaria e acidental, qualquer coisa como a tarefa de urn 
guia que coopera com Deus. A pedagogia de S. Tomas, da mesma forma 
que toda a sua filosofia, era completamente oposta a essa nova concep<;ao 
do conhecimento e da verdade como constru<;6es humanas, como rea<;6es 
humanas. 16 0 individualismo burgues, que ja havia apontado na arte 
italiana, e que exigia no campo religioso o livre comentario das Sagradas 
Escrituras, no campo educacional estava a exigir uma disciplina menos 
rude, uma maior considera<;ao pela personalidade do educando, urn ambiente 
mais claro e mais alegre. A primeira escola inaugurada pelo primeiro 
pedagogo do Renascimento tinha urn nome que, de certo modo, era 
simb6lico: La Casa Gioiosa. 
Nao importa que muitos te6ricos renascentistas tenham, timidamente, 
dado urn passo atras, quando se viram obrigados a extrair dos fatos as 
suas conseqi.iencias ultimas, que, necessariamente, deveriam ser ceticas ou 
ateias. Nao importa que o proprio Lufs Vives tenha declarado que se 
submeteria sempre ao jufzo da Igreja, "ainda que ele me pare<;a em 
oposi<;ao aos mais firmes fundamentos da razao" .17 Tanto em Vives, quanto 
em Montaigne, quanto em Erasmo, e muito diffcil distinguir quando deixam 
de ser sinceros, e passam a ser covardes. 18 Mas, se nos enunciados gerais 
eles se mostram sustentaculos mais ou menos fieis do catolicismo, 19 nem 
por isso conseguiam enganar os defensores autenticos da Igreja. Estes 
consideravam-nos como "ateus" e inimigos. Deixavam aqueles de dar-lhes, 
em grande parte, razao? Urn ex-aluno de Tomas de Kempis, Rodolfo 
Agrfcola ( 1443-1485), consultado pel as autoridades de Antuerpia a respeito 
14. Bonilla e San Martin: Luis Vives y fa Filos(!ffa del Renacimiento pags. 45 e 46. 
15. Tomas de Aquino: ll Maestro. 
16. Ciocchetti: S. Tomaso, pag. 105. 
17. Vives: ob. cit., pag. XXI. 
18. Precisamos reconhecer que eles tinham motivos para ser prudentes: basta dizer que 
Etienne Dole, o sabio impressor de Liao, foi queimado vivo, s6 porque se atreveu a afirrnar 
que nao existia qualquer diferen~a essencial entre a alma do homem e a dos animais ... Cf. 
Batiffol: Le Siecle de fa Renaissance, pag. 103. 
19. "Sendo a religiao o centro a que tudo se refere, tenha em conta o mestre, em 
qualquer explica~iio, que e cristiio, e deve, portanto, separar e ocultar tudo o que seja 
contr:irio a sa inteligencia, salientando em seguida as coisas que sejam favoraveis aos bons 
costumes." Cf. Vives, ob. cit., pag. I. 
114 
t 
j 
da escola que pretendiam fundar, respondeu textualmente: "nao escolher 
nem urn te6logo, nem urn ret6rico".20 0 que de estranho existe no fato 
de a Igreja, meio seculo depois desta resposta, e ja bern alerta a respeito 
das verdadeiras inten<;6es do Humanismo, ter come<;ado a dirigir contra 
ele as suas mais temfveis armas? De fato, urn dia Pierre de Ia Ramee 
( 1515-1572) atreveu-se a dizer que Arist6teles nao havia definido bern a 
L6gica. Isso foi suficiente para que a Igreja conseguisse de Francisco I 
urn decreto que foi publicado ao som de trombetas pelas ruas de Paris, 
declarando-o "temerario, arrogante, impudico, ignorante, murmurador e 
mentiroso".21 Alguns acharam que esse decreto era muito benevolo, e urn 
colega seu, o professor cat6lico Jacques Charpentier, exigiu para ele pelo 
menos o desterro. Mas como era urn homem combativo, Pierre de Ia 
Ramee nao se deixou abater pela condena<;ao sofrida: estimulado pelo 
combate, atacou de frente a universidade, denunciou os seus metodos 
antiquados e a negligencia dos seus professores. No mesmo ano, a sua 
biblioteca foi incendiada. Vivendo algum tempo escondido, errante em 
outras ocasioes, Pierre de Ia Ramee nao tinha ilusao a respeito da sorte 
que o esperava. "Uma vez que, em defesa da verdade, declaramos guerra 
a escolastica e aos sofistas, devemos estar prontos a aceitar, se necessaria, 
uma morte intrepida.'.n Pierre de Ia Ramee usa aqui uma expressao injusta 
quando tacha de sofistas os escolasticos da universidade. Queria, sem 
duvida, dizer charlatoes, o que era exato; mas tambem e certo que, no 
sentido preciso da sua fun<;ao hist6rica, os humanistas estavam mais 
pr6ximos dos sofistas do que os escolasticos. De fato, os humanistas, da 
mesma forma que os sofistas, provinham desse movimento de liberta<;ao 
que acompanha habitualmente o comercio florescente; da mesma forma 
que os sofistas, os humanistas defendiam tambem os direitos da razao, 
contra . as exigencias do ensino dogmatico. Mas deixando de !ado esse 
erro de interpreta<;ao, e justo reconhecermos nas palavras de Pierre de Ia 
Ramee a tempera de uma alma her6ica. 23 Voltando a Fran<;a em 1571, 
ele foi assassinado algum tempo depois da sua chegada, na terceira noite 
do massacre de Sao Bartolomeu. Teria sido a sua morte urn dos muitos 
crimes que foram cometidos em momentos de confusao e de loucura? De 
nenhum modo. Esta perfeitamente demonstrado que a mao do assassino20. Painter, ob. cit., pag. 170. 
21. Renan: Questions Contemporaines pag. 139. 
22. Compayre: "Ramus", in Nouveau Dictionnaire de Pedagogie, de Buisson, pag. 1733. 
23. Que diferen~a em rela~ao as palavras de Erasmo, quando Lutero o instava a lutar 
com mais brio! "Consegue-se mais com a modera~ao polftica - dizia ele - do que com 
a arrebata9ao ... E necessaria procurar nao dizer nada com urn ar de arrogiincia e de rebeldia." 
Cf. Lutero: Memoires, tomo I, pag. 59. 
115 
foi dirigida por Jacques Charpentier, o mesmo que vinte e nove anos 
antes havia pedido para Pierre de Ia Ramee a pena de desterro. E ele 
celebrou esse crime com burlas atrozes.24 Quem foi Jacques Charpentier? 
Urn lente de Matematica do Colegio de Fran9a, que obedecia cegamente 
as ordens dos jesuftas. 
Os jesuftas! E a primeira vez que os mencionamos, e ja aparecem 
envolvidos num crime. A Companhia de Jesus tinha sido fundada em 
1534,25 para por a servi9o da Igreja o exercito discip1inado que as 
circunstancias requeriam. Obra de urn ex-capiHio, a Companhia possufa a 
rigidez e a ordem caracterfsticas das milfcias mi1itares, mas, acima de 
tudo, e1a, mais do que qua1quer outra organiza9ao, sabia encurtar os 
caminhos mediante sendas oblfquas, ou fingir uma retirada para atacar de 
surpresa, mais tarde. Depois de discip1inar os seus so1dados ate a nega9ao 
absoluta da personalidade, a Companhia passou a combater em duas frentes: 
contra o protestantismo cismatico e contra os leigos incredulos. 
As origens das quatro correntes pedag6gicas que vao desde o secu1o 
XVI ate o seculo XVIII ja estao diante dos nossos olhos: a que expressa 
os interesses na nobreza cortesa, a que serve a Igreja feudal, a que reflete 
os anelos da burguesia protestante, e a que traduz as tfmidas afirma96es 
da burguesia nao-religiosa. Como se concretizarao esses interesses? Como 
eles se expressarao nos ideais da educar,;ao? Eis os temas que vamos 
abordar agora em grandes pinceladas, abrangendo o perfodo que se estende 
do Humanismo a Revolu9ao Francesa. 
Apesar de ter sido menos audaz do que o Renascimento pagao, a 
Reforma protestante teve conseqiiencias mais vastas. Do modo pelo qual 
expressou as suas reivindicar,;oes, o Renascimento nao poderia desbordar 
o estreito cfrculo da burguesia patricia que lhe deu impu1so:· "honorabilidade", 
como se dizia na Alemanha. 0 grego, o hebraico e o latim classico eram 
OS seus idiomas, idiomas economicamente inacessfveis a media e a pequena 
burguesia. De fato, os estudos superiores durante o Renascimento eram 
extraordinariamente caros. E, como os estudos inferiores de carater popular 
nao existiam, compreende-se faci1mente o alcance desta observar,;ao de 
Pierre de Ia Ramee: "E coisa bern indigna e o fato de o caminho que 
conduz a filosofia estar fechado e proibido a pobreza. "26 
24. Cf. Renan, ob. cit., pag. 151. 
25. 0 Papa aprovou-a em 1540. Dois anos depois foi reorganizada a Inquisi'<ao. A 
lgreja concentrava as suas for'<as para a grande "ofensiva". 
26. Compayre, artigo cit., pag. 1735. 
116 
I 
I 
II 
A Reforma, ao contnirio, expondo as suas reivindicar,;oes em idioma 
nacional27 e conservando-se fie! ao cristianismo, nao s6 conseguiu arrastar 
a media e a pequena burguesia, como tambem as massas camponesas e 
pre-proletdrias, que, alias, pretenderam ir mais Longe ainda. Desde o 
infcio da Reforma, as contradir,;oes latentes existentes no movimento haviam 
surgido nos seus te6ricos mais ilustres: Martinho Lutero e Tomas Munzer. 
Enquanto Lutero, como interprete que era da burguesia moderada e da 
pequena nobreza, s6 pretendia acabar com o poderio do clero e instituir 
uma Igreja pouco dispendiosa, Munzer, como interprete dos elementos 
campesinos e plebeus da Reforma, acreditava que havia chegado o momento 
de ajustar contas com os opressores. Nao se contentava, portanto, com as 
meias tintas de Lutero, e reclamava nada menos do que a igualdade civil 
e social.28 
Quando percebeu que as massas pretendiam ir mais Ionge do que 
o imaginado, Lutero as traiu: nao s6 diminuiu a intensidade da guerra de 
extermfnio que mantinha contra Roma, como ainda tomou parte em todas 
as negociar,;oes que lhe foram impostas pelos prfncipes que haviam aderido 
a Reforma. Cada vez mais servidor desses prfncipes, Lutero chegou a 
afirmar, na sua Carta aos Prfncipes da Saxonia Contra o Espfrito Rebelde, 
que Munzer era urn instrumento de Satanas e que devia, portanto, ser 
expu1so do pafs, porque divulgava ensinamentos nocivos e incitava revoltas 
e resistencias armadas contra as autoridades constitufdas. 29 
Para compreendermos bern o exato alcance das ideias pedag6gicas 
de Lutero, nao devemos perder de vista os dados anteriores. E verdade 
que o protestantismo, ao dar ao homem a responsabilidade da sua fe e 
ao colocar a fonte dessa fe nas Sagradas Escrituras, assumiu, ao mesmo 
tempo, a obriga9ao de colocar todos os fieis em condi96es de salvar as 
suas almas mediante a leitura da Bfblia. Desse modo, a instrw;ao elementar 
passava a ser o primeiro dever da caridade, e ainda que, no fanatismo 
de Lutero, nao sobrasse muito Iugar para o saber profano, nao e menos 
27. U m detalhe significative mostra essas diferen'<as ate nos nomes dos humanistas e 
dos reformadores: enquanto aque1es traduziam para o grego os seus nomes - Erasmo, por 
exemplo, e a tradu'<ao grega do nome Didier, que significa "desejo" - estes, como Lutero 
e Zwinglio, conservavam a forma nacional dos seus nomes. 
28. "Da igualdade dos homens perante Deus, a heresia de Munzer deduzia a igualdade 
civil e, em parte, a igua1dade sociaL Igualdade da nobreza e dos camponeses, dos patricios, 
dos burgueses privi1egiados e dos plebeus; supressao das presta'<6es feudais, dos rendimentos, 
dos impostos, dos privi1egios, em uma palavra, das desigualdades sociais mais not6rias, eis 
as reivindica'<6es sustentadas com maior ou menor nitidez, e consideradas como conseqtiencias 
necessarias da doutrina crista prirnitiva." Cf. Engels: La Guerre des Paysans en Allenulf{ne, 
pag. 57. 
29. Engels, ob. cit., pag. 72. 
117 
, 
certo que ele, num sermao famoso, aconselhou os pais a qQe enviassem 
os seus filhos a escola. Mas, se o protestantismo se preocupava com a 
educac,:ao "popular" (1524), no sentido de difundir as primeiras letras, que 
nao eram sequer levadas em conta pelas escolas momisticas cat6licas, ele 
o fazia, como dissemos, na medida em que a difusao da leitura permitia 
o manuseio da Biblia e orientava o povo na direc,:ao da Igreja Reformada.30 
In_terprete da burguesia em grau maior do que pensava, Lutero compreendeu 
a estreita re1ac,:ao que existia entre a difusao da rede escolar e a prosperidade 
economica. "A prosperidade de uma cidade - dizia Lutero - nao consiste 
somente em possuir grande tesouros, fortes muralhas, belos ediffcios, 
grandes provisoes de mosquetes e armaduras ... 0 Tesouro melhor e mais 
valioso de uma cidade consiste em ter muitos cidadaos puros, inteligentes, 
honrados e hem educados, porque estes podem recolher, preservar e usar 
convenientemente tudo o que ha de bom."31 Mas, se Lutero foi urn dos 
primeiros a afirmar que a instruc,:ao constitufa uma fonte de riqueza e de 
poder para a burguesia, tambem nao e menos certo que ele nem de Ionge 
pensou em estender esses beneficios as massas populares. As multid6es 
miseraveis inspiravam-lhe ao mesmo tempo desprezo e temor. Empregava 
para designa-las uma expressao pitoresca - Herr Omnes - isto e, "o 
senhor todo o mundo". "Nao se pode brincar muito com o senhor todo 
o mundo - escreveu ele. Deus instituiu as autoridades porque deseja que 
haja ordem aqui na Terra."32 E pouco depois volvia ao mesmo assunto, 
com uma franqueza que era quase cinismo: devemos recorrer aos meios 
espirituais para obrigar os verdadeiros cristaos a reconhecerem os seus 
erros, "mas o senhor todo o mundo deve ser obrigado violentamente a 
trabalhar e a cumprir os seus deveres piedosos, da mesma forma que 
mantemos acorrentados e aprisionados os animais selvagens".33 0 homemdas classes inferiores continuou, portanto, exclufdo da educac,:ao, e a tal 
ponto que urn historiador da pedagogia, de marcada tendencia protestante 
- Painter -, reconheceu "que nao se fundou nenhum sistema popular 
de instruc,:ao".34 0 horizonte mental das aldeias nao se havia modificado 
em nada: em vez de professores, continuavam recebendo pregadores. A 
30. 0 ensino nessas escolas se limitava a religiao, ao latim e ao canto eclesiastico. 
Cf., a respeito, uma observaviio sobre os "Regulamentos Escolares da Sax6nia" ( 1528), 
escritos por Melanchton, que consta da Historia de Ia Pedagog(a, de Weimer, pag. 57. 
31. Painter, ob. cit., pag. 194. 
32. Memoires de Luther, Ecrits par lui Meme, Traduits et Mis en Ordre par Michele!, 
tomo I, pag. 154. 
33. Idem, p. 156. E, em outra oportunidade, Lutero acrescenta: "Nenhuma toleriincia 
e nenhuma misericordia para com os camponeses, que devem ser tratados como caes raivosos", 
tomo I, pag. 201. 
34. Painter: ob. cit., pag. 196. 
118 
seguinte ordem do Eleitor do Brandemburgo, em 1573, mostra claramente 
o que era uma escola rural da epoca: "Em todos os sabados de tarde, ou 
quando o pastor o ordenar, o sepultador da aldeia lera ao povo, e 
especialmente as crianc,:as e aos jovens servidores, o pequeno catecismo 
de Lutero e os ensinara a rezar. Da mesma maneira, antes e depois de 
ler e de repetir o catecismo, cantarao, e a juventude serao ensinados os 
salmos em alemao; onde existirem capelas, esses exercfcios serao feitos 
nelas, algumas vezes, e, outras vezes, em casas particulares, para que a 
juventude de todas as aldeias possa ser ensinada e nao fique abandonada."35 
A intenc,:ao do protestantismo era, pois, educar a burguesia abonada 
e, ao mesmo tempo, nao "abandonar" as classes desfavorecidas. 
Ja dissemos que a Companhia de Jesus saiu a campo para fortalecer 
o poder papal e defender a Igreja contra os que a ameac,:avam. No terreno 
estritamente pedag6gico, os jesuftas se esmeraram em dar aos seus colegios 
o mais brilhante verniz cultural possfvel. Sem se preocupar com a educac,:ao 
popular, os jesuftas se esforc,:aram para controlar a educac,:ao dos nobres 
e dos burgueses abonados.36 Conselheiros dos grandes senhores, diretores 
espirituais das grandes damas,37 professores solfcitos das crianc,:as bem-
nascidas, os jesuftas se insinuaram de tal modo na vida do seculo que, 
em pouco tempo, estavam a testa do ensino. Os seus professores, nao ha 
duvida, eram os mais bern preparados, o seu ensino era o mais bern 
dirigido. Desde a soletrac,:ao, ate as representac,:6es teatrais que tanto 
apreciavam, os jesuftas interpretavam as menores exigencias da epoca, 
para dar aos seus alunos a melhor educw;ao passive!, que fosse compativel 
com os interesses da lgreja e da sua Ordem. Em uma carta de Languet, 
datada de agosto de 1571, podemos ler que "os jesuftas eclipsavam em 
reputac,:ao a todos os outros professores, e, pouco a pouco, faziam a 
Sorbonne cair em descredito". 38 Nesse ano, os jesuftas ainda nao haviam 
formulado o seu plano de estudos. A Companhia ja tinha 30 anos de 
existencia, e ainda que a Con~tituic,:ao projetada em 1540 por Inacio de 
Loyola fizesse referencia a esse plano, a Companhia nao encontrava as 
formulas necessarias. Cinqiienta e nove anos tardou ela para elabora-lo; 
35. Painter, ob. cit., pag. 208. 
36. Messer, ob. cit., pag. 222. 
37. "0 jesuita nao e apenas confessor mas tambem dire tor e, como tal, e consultado 
a respeito de tudo. E, sendo diretor, niio se sente obrigado a guardar segredo, de tal modo 
que uma vintena de diretores, que vivam juntos, podem, em conjunto, examinar e combinar 
as milhares de almas que estiio abertas para eles, e que eles conhecem a fundo ... Casamentos, 
testamentos, todos os atos dos seus penitentes podem ser discutidos e preparados nesses 
conciliabulos." Michelet: Les Jesuites, pag. 9, nota I. 
38. Renan, ob. cit., pag. 147. 
119 
I 
reuniu para isso uma grande experiencia, convocou freqiientes assembleias 
dos seus membros, e s6 depois de muito calcular e retocar e que publicou, 
em 1599, o seu Regulamento de Estudos (Ratio atque Institutio studiorum 
S. J.). Exce~ao feita para a modifica~ao introduzida em 1822, esse plano, 
vigente ate hoje nos colegios jesuftas, e a mais perfeita organiza~ao que 
se conhece para quebrar nos alunos o mais tfmido assomo de independencia 
pessoal e para conseguir, portanto, nas esferas mais distintas do governo, 
das finan~as e das universidades, colaboradores ativos, zelosos, e, freqiien-
temente, insuspeitos. "Da mesma maneira que se enfaixam os membros 
da crian~a desde o ber~o - escrevia o jesufta Cerutti na sua Apologia 
- e tambem necessaria enfaixar-se a vontade, para que conserve pelo 
resto da vida uma feliz e sauddvel flexibilidade."39 Tudo estava previsto, 
regulamentado e discutido, desde a posi~ao das maos, ate o modo de 
levantar os olhos. 0 proprio ensino das letras classicas, em que os jesuftas 
alcan~aram grande mestria, nunca pOde superar esse despotismo religioso 
que impregnava o ensino. De fato, como interpretar os autores profanos, 
"de modo que, mesmo continuando profanos, chegassem a ser sempre 
defensores de Cristo"? A inten~ao da Companhia era apoderar-se do ensino 
classico para po-lo a servi~o da Igreja, ainda que para isso fosse necessaria 
realizar as mutila~oes mais grosseiras ou as interpreta~oes mais ridfculas. 
"As belas-letras - afirrnam as Constitui(:oes - s6 servem para chegar-se 
mais facilmente a conhecer e a servir melhor a Deus." A cultura intelectual 
era inculcada de tal modo que nao se corresse o perigo de uma emancipa~ao 
intelectual.40 Exclufa-se, por isso, da educa~ao, os conhecimentos hist6ricos 
e os cientfficos, a me nos que a hist6ria fosse deturpada · de tal forma que 
ficasse irreconhecfvel ou que a ciencia fosse tao superficial, que mais 
parecesse uma brincadeira de salao. A educa~ao jesufta s6 usava os recursos 
pedag6gicos como urn instrumento de domfnio. Especializados sobretudo 
no ensino medio, os jesuftas conseguiram de tal forma realizar os seus 
prop6sitos que, desde OS fins do seculo XVI ate OS 'come~os do seculo 
XVIII, ninguem se atreveu a disputar a Companhia de Jesus a hegemonia 
pedag6gica que a Igreja havia reconquistado. Essa epoca corresponde aos 
tempos aureos da monarquia absoluta, e podemos compreender por que, 
durante o Iongo tempo em que a peqtiena e a media burguesia tiveram 
de canter as suas impaciencias, esteve em maos dos jesuftas a educa~ao 
39. Citado por Michelet em Les Jesuites, pags. 56-57 
40. Ao referir-se a Arist6teles, o Regulamento de Estudos aconselha que os alunos nao 
se detenham naqueles seus interpretadores que mostraram pouca considera~ao para com a 
lgreja. Recomenda, por exemplo, que Averr6is seja citado sem elogios e, se passive!, que 
se demonstre que o pouco de born que ele escreveu s6 era born porque havia sido copiado 
de algum outro autor. .. Renan: Averrlwes et l'Averrhoi:fme, pag. 400. 
120 
dos nobres e da alta burguesia. De fato, afirrnamos mais uma vez, os 
jesuftas nunca se importaram com a educa~ao da pequena burguesia ou 
com a das chamadas camadas "populares".41 E verdade que encontramos 
na sua Constitui(:iio uma passagem em que podemos ler que "seria uma 
obra de caridade ensinar os ignorantes a ler e a escrever". Mas, logo 
depois, surge esta outra passagem, de sentido nao duvidoso: "Nenhuma 
das pessoas empregadas em servi~os domesticos pela Companhia devera 
saber ler e escrever, e elas nao deverao ser instrufdas nesses assuntos, a 
nao ser com o consentimento do Geral da Ordem, porque para servir a 
Jesus basta a simplicidade e a humildade".42 
Mas, se os jesuftas desprezavam de modo tao claro tudo o que se 
referia a educa~ao popular,43 havia outras ordens cat6licas que se enc:ar-
41. Feita de modo tao geral, esta afirma~ao nao corresponde a realidade. Quando 
queremos estudar a atua~ao da Companhia de Jesus no campo educacional, precisamos 
considerar separadamente a a~ao desenvolvida na Europa, daa~ao desenvolvida no mundo 
colonial, especialmente na America Espanhola e na America Portuguesa. Fundada especialmente 
para combater a Reforma, na Europa, a atua~ao da Companhia voltou-se para a educa~ao 
das classes nao-populares, porque era nesse terreno que havia o perigo da implanta~ao do 
germe do protestantismo e, posteriorrnente, tambem do germe do livre-pensamento. As massas 
populares, por outro !ado, deveriam ser conservadas na maior ignorancia possfvel porque, 
assim, seria mais facil mante-las dominadas. Mas, no mundo colonial, a situa~ao era bastante 
diferente, obrigando a Companhia a atuar em duas frentes: a educa(:iio das classes dirigentes 
e a catequese das popula(:(Jes indigenas ... E na America Espanhola, especialmente nas missoes 
do Paraguai, que vamos encontrar os melhores exemplos da atua~ao da Companhia no terreno 
da educa~ao popular, mas essa atua~ao tambem se fez sentir no Brasil. Vindos com o 
Primeiro Governador-Geral, Tome de Sousa, em 1549, e sob a dire~ao do Padre Manuel da 
Nobrega, os jesuftas trataram logo de fundar escolas: aulas elementares na Bahia, sob a 
dire~ao do Padre Vicente Rodrigues, em Sao Vicente, sob a dire~ao do Padre Leonardo 
Nunes, em Sao Paulo, sob a dire~ao do Padre Jose de Anchieta etc. Assim, a primeira 
atua~ao dos jesuftas em nossa terra visou a catequese das popula~oes indfgenas e a educa~ao 
dos filhos dos colonos recem-chegados. Mas, logo depois, estendendo a sua a~ao, os jesuftas 
passaram tambem a manter escolas medias, ate superiores, no estilo das suas congeneres 
europeias, descritas pelo Autor. Os jesuftas foram expulsos de Portugal e das suas colonias 
em 1759, por ordem do Marques de Pombal, da Fran~a e das suas colonias em 1764, por 
ordem do Duque de Choiseul, e da Espanha e das suas colonias em 1767, por ordem do 
Conde de Aranda. Sob a pressao combinada desses ministros e mais de Du Tillot, de Parma, 
e do Principe Kaunitz, da Austria, todos ma~aos, o Papa foi obrigado a publicar, em 1773, a 
bula da dissolu~ao da Companhia, a mandar prender o seu Geral e a fechar o famoso Collegio 
di Gesri, de Roma. Em 1814, a Companhia foi reorganizada mas, apesar de todos os seus 
esfor~os, nunca mais ela pode reassumir a posi~ao privilegiada que tinha em todo o mundo 
cat6lico, no terreno da educa~ao media e, mesmo, no da superior. (Nota do Tradutor.) 
42. Compayre: "Jesuites", in Nouveau Dictionnaire de Pidagogie, de Buisson, pags. 
902-907. 
43. Os pretensos princfpios "democraticos" defendidos por Suarez e pelos esco1asticos 
do seculo XVI nao foram mais do que urn artiffcio para lutar contra os reis. Cf. Giuseppe 
Saita: La Scolastica del Secolo XVI e la Politica del Gesuiti, pags. 178, 186, 233 e 284. 
121 
regavam dessa educa~ao. Nao e o caso de falarmos agora dos membros 
da Ordem de S. Jeronimo, nem dos Irmaos das Escolas Cristas. Basta 
recordarmos que Tomas de Kempis, o autor de A lmita({iio de Cristo, foi 
urn dos membros desta ordem, para compreendermos que esses religiosos 
nao eram movidos pelo desejo de instruir as. massas, e sim pela inten~ao 
de salvar as suas almas, abrindo-lhes as paginas da Escritura. "Guarda-te 
do desejo de saber demasiado - afirma Kempis -, e urn grande insensato 
o que busca algo que nao seja a sua propria salvac;ao."44 Em relac;ao aos 
Irmaos das Escolas Cristas,45 basta assinalar que a regra mais importante 
das suas escolas era de guardar silencio, mestres e discfpulos; era prati-
camente proibido falar com os professores, e os castigos corporais alcanc;aram 
nelas uma verdadeira consagrac;ao. 46 
Prefiro, em troca, deter-me urn momento na figura de Charles Demia, 
tao incensado pelos catolicos como o iniciador do ensino primario gratuito. 
Por sugestao da Confraria do Santfssimo Sacramento, o padre Demia 
dirigiu em 1666 as suas elogiadas Exorta({oes as autoridades municipais 
de Liao. Mais de urn seculo depois da Carta de Lutero (1524), a Igreja 
Catolica tomava em rela~ao a instruc;ao nas cidades uma atitude semelhante 
a defendida nessa Carta. Por que a iniciativa partiu precisamente de Liao? 
Porque Liao ja era nessa epoca uma importante cidade industrial e mercantil, 
em que as revoltas operarias iam-se fazendo cada vez mais freqtientes. 0 
proprio Demia, ao referir-se as suas gest6es, explica que "tendo tornado 
consciencia de que a juventude de Liao, especialmente os filhos do povo, 
estava desmoralizada por falta de instru~ao, resolveu consagrar todos os 
seus esfor~os ao restabelecimento da disciplina e do ensino do catolicismo 
nas escolas;'.47 Pedia, por isso, escolas gratuitas para o povo. Vemos que, 
ate aqui, os catolicos tern razao nas suas afirmag6es a respeito de Demia. 
Mas, o que era ensinado nessas escolas? Os consules da cidade nos 
informam a respeito em 30 de novembro de 1670, sem nenhuma pretensao 
a serem ironicos: de fato, ao concederem subvengao a uma dessas escolas, 
declaram que nessas escolas se ensinavam "os princfpios da religiao crista 
e ate a ler e a escrever". 48 Outra caracterfstica importante dessas escolas 
44. A respeito ua "instru~ao" ministrada por esses religiosos, ver Compayre: Histoire 
Critique des Doctrines de l'i'ducation en France, Depuis le XV/e Siecle, tomo I, pag. 121. 
45. Fundadas por La Salle, em 1634. 
46. Monroe, ob. cit., tomo III, pags. 125-126. Entre os jesuftas acontecia o mesmo. 
Mas, estes niio mentiam quando afirmavam que nenhum jesufta jamais havia castigado urn 
aluno, porque havia urn "castigador" especial que se encarregava desses assuntos e que niio 
.fazia parte da Ordem. 
47. Compayre: Carlos Demia y los Orfgenes de La Ensefianza Primaria, pag. 22. 
48. Idem, pag. 26. 
122 
I 
I 
j 
levou alguns dos seus admiradores a ver em Charles Demia urn precursor 
da escola do trabalho. Demia queria, de fato, ensinar trabalhos manuais49 
nas suas escolas, mas de tal modo "que as escolas venham a ser agencias 
de informa~ao ou lugares de mercado em que as pessoas abonadas pudessem 
ir buscar servidores domesticos ou empregados comerciais ou industriais".50 
Alem disso, os professores dessas escolas visitavam as famflias dos seus 
alunos para colher informag6es a respeito dos "costumes e das praticas 
religiosas dos seus pais", e interferiam diretamente nos correios para que 
nao se difundissem os livros contaminados de heresias.51 Alem disso, os 
mestres deviam praticar exercfcios religiosos e fazer retiros espirituais.52 
Em rela~ao as professoras, que deviam cuidar da educagao das meninas, 
Demia prescreve que levem consigo "uma esponja molhada em agua benta" 
sempre que saiam em viagem.53 
Colocar sob o controle da lgreja a escassa instrugao que se ministrava 
na epoca e orientar para a mansidao as aspira~6es dos trabalhadores, esses 
eram, na realidade, os propositos fundamentais das escolas populares de 
Demia. 
Que e que impelia a Igreja a langar-se, de urn !ado, a conquista 
das classes dirigentes e, do outro, ao encontro das massas, para assumir, 
desde o infcio, a diregao dos operarios? 
0 mercado comercial, que o Descobrimento da America ampliou 
enormemente, repercutiu fundo na tecnica de produ~ao. Os instrumentos 
que eram empregados ate entao requeriam processos individuais de trabalho, 
isto e, eram feitos para serem usados por urn so operario. Mas, pressionada 
pelas exigencias do comercio que se desenvolvia, a burguesia da epoca 
concentrou e modificou esses meios de produ({iio, ate entiio isolados e 
mesquinhos, transformando-os na enorme forga que todos conhecemos.54 
A partir do seculo XVI, a burguesia comegou a reunir os operarios, 
ate entao esparsos, para conseguir urn trabalho de cooperagao. Por meio 
de uma gradual socializa~ao dos trabalhadores e dos instrumentos de 
produ~ao, foi-se passando da coopera~ao simples a manufatura e, desta, 
49. Idem, pags. 27 e 112. 
50. Idem, pag. 38. 
51. Idem, pags. 45 e 51. 
52. Idem, pags. 59 e 69-75. 
53. Idem, pag. 126, nota 1. 
54. "0 desenvolvimento das for~as produtivas do trabalho social constitm a m1ssao 
hist6rica e a legitimidadedo capital." Marx: Le Capital, tradu~ao de Molitor, tomo X, 
pag. 203. 
123 
a grande industria. Nao podemos expor minuciosamente aqui este processo,55 
e, alias, niio e mesmo este o objetivo deste livro. Mas assinalaremos a 
sua principal caracterfstica. Quando a maquina de fiar substituiu o fuso, 
e o tear mecanico, o manual, a prodw;ao deixou de ser uma serie de 
atos individuais, para se converter numa serie de atos coletivos. Essa 
maneira de transformar as mesquinhas ferramentas do artesiio em maquinas 
cada vez mais poderosas, e por isso mesmo, s6 manejaveis por urn conjunto 
de trabalhadores, colocou nas maos da burguesia urn instrumento tao eficaz 
que, em poucos seculos, a humanidade progrediu mais do que em todos 
os milenios anteriores. 0 domfnio sobre a natureza, com que o homem 
sonhava desde a infiincia da humanidade, influenciou as ideologias. Dois 
seculos antes, Agricola havia aconselhado aos seus contemporaneos a que 
"considerassem suspeito tudo o que lhes havia sido ensinado ate entao", 
eo mesmo aconselhavam agora Bacon (1561-1626), Descartes (1596-1650) 
e Pascal (1623-1662). 0 primeiro afirmava que a verdade muda com o 
tempo, o segundo aconselhava que s6 a evidencia poderia convencer 
alguem, e o terceiro insistia em que a experimenta~iio era o unico criterio 
seguro no campo cientffico. 
0 Novum Organum, de Bacon, data de 1620; o Discurso do Metoda, 
de Descartes, data de 1637; o Fragmento de um Tratado Sabre o Vazio, 
de Pascal, data de 1651.56 Com a diferen~a de poucos anos, a Filosofia 
e a Ciencia refletiam as profundas modifica~6es que a economia ia 
introduzindo na estrutura social. Mas ainda estava faltando algo. Enquanto 
Galileu (1564-1642) descobria os satelites de Jupiter e Harvey (1578-1657), 
a circula~ao do sangue, nas escolas da burguesia continuava-se ensinando 
as ciencias dos antigos, quer dizer, uma anatomia sem disseca~6es e uma 
ffsica sem experimentos. Bacon afirmava que "o poder aumenta com os 
conhecimentos", mas a burguesia tardava em introduzir nas suas escolas 
essa promessa tentadora. E bern verdade que a Igreja estava sempre 
vigilante, e que Descartes desistiu de publicar o seu livro sobre o mundo 
(1633), quando soube o que estava ocorrendo com Galileu, em RomaY 
Apesar de tudo isso, urn pastor protestante da Moravia - pastor, para 
que se tornasse mais claro o carater ainda indeciso da burguesia, que se 
ia tornando cada vez mais revolucionaria sem o saber -, Joao Amos 
55. Marx, ob. cit., tomo I, sec~ao IV. 
56. Segundo Brunschwicg, de 1647. 
57. Descartes admitia o movimento da Terra no seu Traite du Monde ou de Ia Lumiere. 
No Discurso do Metodo, Descartes, referindo-se a essa obra, diz que "algumas considera~6es 
me impedem de publica-la". E, de fato, ela s6 veio a luz dezessete anos depois da morte 
do seu autor. 
124 
Comenio (1592-1671), chamou a si a tarefa de apresentar no terreno 
educativo o quarto grande livro que faltava: vinte anos depois do Discurso 
do Metoda, surgiu a Didatica Magna (1657). Nao importa que, no Capitulo 
III, Comenio afirme que a vida terrena e apenas uma prepara~iio para a 
eterna, porque o titulo do Capitulo XIX caracteriza a sua obra como urn 
livro do seu seculo: "Bases para Rapidez do Ensino, com Economia de 
Tempo e de Fadiga."58 
Economia de tempo! Estas palavras tern urn sabor tao original que 
merecem alguns comentarios. 0 · tempo niio tinha nenhum valor para os 
antigos: os romanos o consideravam res incorporalis e, portanto, sem 
pre~o. Quando se vive no 6cio, e nao e necessaria competir com ninguem, 
a vida segue o seu curso a passo de tartaruga. Mas, agora, as coisas 
tinham mudado: uma das primeiras medidas do protestantismo - religiao 
burguesa por excelencia - foi abolir a infinidade de festividades com 
que o catolicismo medieval se comprazia, para aumentar, assim, o numero 
de dias uteis.59 Ainda haveria de transcorrer urn seculo antes de Franklin 
enunciar a sua celebre senten~a - "tempo e dinheiro" -, mas a burguesia 
capitalista manufatureira ja tinha tornado consciencia disso. De fato, a 
burguesia apressava o passo para acompanhar o ritmo da produ~ao. Comenio 
proclamou a necessidade de economizar tempo no terreno educativo; trinta 
e tres anos depois da Didatica Magna, John Floyer criou o instrumento 
adequado para a medida do tempo, acrescentando ao rel6gio, em 1690, o 
ponteiro dos segundos:60 
Mas economizar tempo nao passava de urn dos aspectos da "nova 
educa~ao", da qual Comenio foi o te6rico admiravel. Ensinar rapidamente 
nao bastava, tambem era necessaria ensinar "solidamente". "Em vez dos 
livros mortos - diz Comenio -, por que nao podemos abrir o livro 
vivo da natureza? Devemos apresentar a juventude as pr6prias coisas, em 
vez das suas sombras." Seria diffcil expressar com melhores palavras os 
desejos da grande burguesia e, tambem, da pequena burguesia das fabricas 
e das oficinas. 
No seu Discurso do Metoda, Descartes havia dito: em Iugar da 
"filosofia especulativa que se ensina nas escolas, deverfamos ter uma 
filosofia pratica, por meio da qual, conhecendo as a~6es do fogo, da agua, 
58. Comenio: Didactica Magna, pag. 225. 
59. "Transformando em dias uteis quase todos OS dias de festas. tradicionais, o 
protestantismo ja desempenha urn importante papel na genese do capital." Marx: El Capital, 
tomo I, pag. 207. 
60. Sombart: Les Bourgeois, pag. 395. 
125 
.._ 
do ar, dos astros e de todos os outros corpos que nos rodeiam, tiio bem 
quanta conhecemos os oj{cios dos nossos artesiios, pudessemos emprega-los 
do mesmo modo a todos os fins que lhes sao proprios, tornando-nos, 
assim, amos e donas da Natureza". 61 E o que afirmava Comenio na 
linguagem nao muito diferente dos pedagogos? "Os mecanicos - afirmava 
Comenio - nao fazem para o aprendiz uma conferencia a respeito do 
seu offcio, mas o poem diante de urn profissional, para que ele observe 
como este procede; colocam, depois, urn instrumento em suas maos, 
ensinam-no a usa-lo, e recomendam que ele imite o mestre. S6 fazendo 
e que se pode aprender a fazer, escrevendo, a escrever, pintando, a 
pintar." Em vez de palavras - "sombras das coisas" -, faltava as escolas 
o conhecimento das coisas. Era esse o sentido do seu Mundo Ilustrado 
(Orbe Pistus), de 1658, urn livro para as escolas, abarrotado de figuras, 
que ate o seculo XVIII dominou a literatura infantil. 
Sim, com Comenio, a necessidade de uma "nova educa<;:ao" ressoava 
como urn apelo, desde a Moravia; com Locke (1632-1704 ), esse mesmo 
apelo se fazia ouvir desde Bristol. Enojado da Universidade de Oxford 
- como havia acontecido com Bacon, em rela9ao a de Cambridge -, 
Locke perguntava de que poderia servir o latim para homens que vao 
trabalhar em oficinas. "Ninguem poderia crer - afirmava ele -, a menos 
que o veja com os seus proprios olhos, que se obrigue uma crian9a a 
aprender os rudimentos de urn idioma que nunca usara, ao mesmo tempo 
que se olvida 0 cdlculo, que e tiio util nas oficinas e escrit6rios, e em 
todas as circunstiincias da ·vida." A burguesia se expressava agora por 
meio das palavras de Locke, e de urn modo tao decidido que, nem bern 
eram transcorridos dois anos desde a publica9ao do seu livro capital a 
respeito da educa9ao (1693), e ja vamos encontra-lo como Comissario do 
Comercio, do Rei Guilherme. E, para que fique completo o retrato destes 
homens, que so em parte tinham consciencia do seu tempo, e preciso 
acrescentar que o filosofo que escrevia estas frases havia sido preceptor 
do neto de urn antiquado conde, que se referia sempre a figura de urn 
jovem gentleman, todas as vezes que escrevia algo a respeito da educa9ao.62 
Nobreza bern aburguesada essa, que tanto necessitava do calculo 
para a vida! Nobreza feudal-capitalista, bastante comum no seculo XVII; 
nobres influentes que se associavam aos banqueiros burgueses para participar, 
depois, dos seus lucros.63 As guerras feudais e a revolu9ao burguesa de 
61. Descartes: Discours de Ia Methode, pag. 47, in Oeuvres Choises. 
62. Wickert: Historiade fa Pedagogia, pag. 84. 
63. Sombart, ob. cit., pag. 99. 
126 
II 
~ 
1648 arruinaram de tal modo a nobreza, que esta se viu obrigada a 
incorporar-se a urn movimento dirigido por nao-nobres. A obra pedagogica 
fundamental de Locke - Pensamentos a Respeito da Educar;iio - data 
de 1693, e, apesar de ele so se preocupar nela com a educa<;:ao do jovem 
gentleman, Locke nao se esqueceu de aconselhar o estudo da escritura9ao 
comercial como "absolutamente necessaria". Alguns seculos atras, os gastos 
da nobreza nao precisavam ser contabilizados: esbanjar dinheiro, com 
elegante desprezo, era uma caracterfstica do nobre, e poucas coisas o 
fizeram rir tanto como aquelas paginas em que L. B. Alberti, urn burgues 
tfpico do seculo XV, aconselhava os seus leitores a usar roupas de luxo, 
mas nao acinturadas porque: "1. a roupa parece menos ampla e menos 
distinta; 2. porque prende-la na cintura gasta o pano e poe em evidencia 
a trama, de tal modo que, ainda que a roupa seja nova, ela se gastara e 
envelhecera no Iugar em que foi usado o cinto".64 
Urn seculo depois desses conselhos, Locke apontava ao jovem 
gentleman o mesmo caminho anteriormente indicado por Alberti. A no9ao 
dos gastos, aconselhava ele, deve estar sempre dentro de "limites justos" 
e, para isso, nao ha nada melhor do que "uma contabilidade exata e bern 
feita". 65 
A incorpora<;:ao da Geografia e da Aritmetica, da Historia e do 
Direito Civil a educa9ao do jovem gentleman indicava que a nobreza 
havia mudado completamente de orienta<;:ao. 
0 comercio e a industria haviam diminufdo as distancias que existiam 
ate entao entre o burgues e o nobre; haviam introduzido a necessidade 
de novos metodos na educa9ao, e, acelerando o progresso cientffico, 
minavam cada vez mais os dogmas veneraveis. Mas nao se tratava apenas 
disso~ eles afrouxavam cada vez mais os entraves que o feudalismo 
impunha a sua propria expansao: os privilegios das corpora9oes, os 
obstaculos ao trafico, a tirania das alfil.ndegas, as diferen<;:as existentes 
entre as legisla<;:oes, os costumes e os idiomas. 
Os fisiocratas lan9aram, entao, contra as barreiras do feudalismo, o 
seu famoso lema: "Deixai fazer, deixai passar."66 A liberdade de comercio, 
que era para a burguesia uma questiio vital, trouxe tambem consigo, 
como uma conseqiiencia necessaria, a liberdade desse outro comercio de 
crenr;as e de ideias. 0 proprio Locke, pedagogo e economista, publicou, 
64. L. B. Alberti: I Libri della Famiglia, pag. 189. 
65. Locke: Pensamientos Acerca de La Educaci6n, pags. 383-385. 
66. P. Ghio: La Formation Historique de l'Economie Politique, pag. 85. 
127 
em 1688, a sua Carta Sobre a Tolerfincia. Recordemo-nos do tftulo, e 
notemos a nova ideia que introduz. 
Sob a forma oblfqua do defsmo, primeiro, e depois sob a forma 
mais crua do ceticismo, a burguesia se esfor~ava por expulsar a Igreja 
dos seus ultimos redutos. Aquele "silencio dos espa~os", que amedrontava 
Pascal, ja nao impressionava nem mesmo as marquesas que gostavam de 
rodear Fontenelle. 
A crftica desapiedada contra a nobreza e contra a "infame", para 
empregar o epfteto que Voltaire dava a Igreja, obrigou a burguesia a 
reconsiderar todos os seus problemas. Essa necessidade de esquecer tudo 
e come~ar de novo, de "abrir novos livros, para novas contas" foi 
admiravelmente expressa por Rousseau (1712-1778) com os seus paradoxos, 
a princfpio desconcertantes, a respeito da volta a natureza. Cada vez que, 
num regime social, se vislumbra a possibilidade iminente de uma derrocada, 
surge sempre, como urn sintoma infalfvel, a necessidade de urn retorno a 
natureza. Quando da decadencia do mundo antigo, foram os est6icos que 
proclamaram a urgencia de uma vida mais simples; quando da decadencia 
do feudalismo, foram os renascentistas que, em nome de uma "volta ao 
antigo", impuseram urn paganismo da carne e da beleza; e, agora, quando 
a monarquia, levantada sobre as rufnas do feudalismo, sentia que a sua 
antiga aliada, a burguesia, ia crescendo em ambi~ao e em ousadia, surge 
Rousseau, para proclamar, com urn entusiasmo ardente, o Evangelho da 
Natureza. Evangelho em que ressurgiam, mais vigorosos do que nunca, o 
individualismo dos sofistas, o culto da personalidade dos est6icos, a "volta 
aos antigos" dos renascentistas. "A felicidade suprema dos filhos da Terra 
e a personalidade", sentenciara Goethe logo mais. E que outra coisa que 
nao o individualismo burgues se escondia sob tantas 111anifesta~6es apa-
rentemente distintas: ironia de Voltaire, ingenuidade de Rousseau, moralismo 
de Kant? 
Depois de tantos seculos de sujeir;iio feudal, a burguesia afirmava 
os direitos do indiv{duo como premissa necessaria para a satisfa~ao dos 
seus interesses. Liberdade absoluta para contratar, comerciar, crer, viajar 
e pensar. Nunca, como entao, se falou tanto em "humanidade", "cultura", 
"razao" e "luzes". E e justo reconhecermos que a burguesia comandou o 
assalto ao mundo feudal e a monarquia absoluta com tal denodo, com 
tanto brilho e com urn entusiasmo tao contagioso, que, por um momenta, 
a burguesia assumiu diante da nobreza o papel de defensora dos direitos 
gerais da sociedade. Depois de derrotar os bar6es, apoiando-se na burguesia, 
o Rei buscava o apoio da nobreza, para conter os burgueses. Mas a 
nobreza ja havia perdido ha muito tempo aquela fun~ao de prote~ao que 
128 
nos come~os do feudalismo deu aos bar6es uma missao social que e, de 
certo modo, inegavel. Ja nos tempos da Reforma, Lutero aconselhava os 
habitantes das cidades a tomar em suas maos o ensino das escolas, porque 
os "pobres nobres" estao sempre muito ocupados "com os altos neg6cios 
da adega, da alcova e da cozinha". Mas a nobreza do seculo XVIII ainda 
estava mais ocupada com altfssimos neg6cios, do que a do tempo de 
Lutero ... 
Em sua novela satfrica, Les Bijoux Indiscrets, Diderot se referia a 
educa~ao do Prfncipe Nangogue nos seguintes termos: "Gra~as as suas 
felizes disposi~6es, e as nao interrompidas li~6es dos seus mestres, Nangogue 
nao ignorou nada do que urn prfncipe deve aprender nos seus quinze 
primeiros anos de vida, de tal modo que, aos vinte, sabia beber, comer 
e dormir tao bern quanto qualquer potentado da sua idade."67 
Os privilegios que a nobreza tinha em outros tempos, quando a 
produ~ao era escassa e o comercio exfguo, quando as mais curtas viagens 
de uma cidade a outra implicavam riscos que custamos a compreender, 
pareciam agora insustentaveis, agora que Nesker, o banqueiro de Genebra, 
era a derradeira esperan~a do ultimo Capeto. 
Para que uma classe possa assumir a representa~ao de uma sociedade 
- ensinava o jovem Marx na sua Critica da Filosofia do Direito de 
Hegel- e necessaria que todos os vfcios da sociedade estejam concentrados 
em outra classe, isto e, "que determinada classe seja do escfindalo publico, 
a personifica~ao do obstaculo geral, a encarna~ao de urn crime not6rio 
para todos, de tal maneira que ao emancipa-los dessa classe se realize a 
emancipa~ao de todos".68 Nos fins do seculo XVIII, a nobreza era 
evidentemente a classe do escandalo publico. Para OS burgueses e OS 
artesaos, para os trabalhadores e os camponeses, ela era a encarna~ao de 
urn crime not6rio para todos. Contra ela, o Tiers Etat assumiu a representa~ao 
dos interesses sociais ofendidos e de todas as humilha~5es ate entao 
sofridas em silencio e, bern seguro ja da sua for~a e do seu animo, lan~ou 
aos nobres o seu desafio: "Que e que somos? Nada. Que e que deverfamos 
ser? Tudo." 
Os que assim falavam nao o faziam apenas em nome da burguesia. 
Nem a burguesia, nem o proletariado ja se haviam separado do Terceiro 
Estado que os englobava conjuntamente. Conseqiientemente, o movimento 
de que falamos teve urn impulso inicial como nao se havia visto outro 
67. Diderot: Los Dijes Indiscretos, pag. 10. 
68. Marx: Oeuvres Philosophiques, tomo I, pag. 102. 
129 
( 
desde a Reforma. Mas, da mesma forma que nesta, o que existia de 
contradit6rio nos elementos que constitufam o Terceiro Estado serefletia 
na ideologia nao muito homogenea dos seus te6ricos: desde a esquerda 
dos "materialistas", ate a direita dos "fisiocratas", orgulhosos aqueles de 
extrair as conseqiiencias mais audazes, ciosos estes de se manterem em 
posi<;6es moderadas. De fato, que diferen<;a entre o defsmo de Voltaire e 
o atefsmo de D'Holbach!69 Que diferen<;a, tambem, entre a educa<;ao 
egofsta que Rousseau aspirava para o seu Emilio, sempre acompanhado 
pelo seu criado, e a educa<;ao generosa que Diderot exigia, por conta do 
Estado, para todos os cidadaos do pafs! Mas essas diferen<;as nao eram, 
na epoca, percebidas com a clareza com que as vemos hoje. Os "fil6sofos" 
e os "enciclopedistas" formavam mais ou menos urn todo compacto que 
se preparava para o assalto a Bastilha ideo16gica. Com os seus erros, as 
suas confus6es e as suas torpezas, os ide61ogos do Tiers Etat alcan<;aram 
em certos momentos a fibra caracterfstica dos revoluciomirios. Uma fibra 
tao forte e tao varonil que nao podemos evocar esse instante da hist6ria 
da humanidade sem reconhecer que a burguesia que o inspirava alcan<;ou 
nesse momento o ponto mais alto de toda a sua vida. "Na ordem da 
natureza - dizia Rousseau - todos os homens sao iguais: o estado de 
homem e a sua voca<;ao comum, e ao que esteja bern dirigido para ela 
nao !he faltani nada do que a tal estado corresponda. Para mim, tern 
pouca importancia 0 fato de 0 meu discfpulo estar destinado a Carreira 
das armas, a Igreja, ou as !ides forenses. Antes do destino escolhido para 
ele pelos seus pais, a Natureza o chama para a vida humana. Viver e o 
que eu desejo ensinar-Ihe. Quando sair das minhas maos, ele nao sera 
magistrado, soldado, ou sacerdote, ele sera, antes de tudo, urn homem."70 
Nao nos detenhamos agora nas suas frases equfvocas, nem nas suas 
promessas falazes. A burguesia prometia por meio do Emflio nao urn novo 
tipo de homem, mas sim o Homem total, liberado, pleno. Veremos na 
69. "D'Holbach e os outros materialistas franceses dessa epoca niio eram tanto os 
ide61ogos da burguesia quanta os ide6logos do Tiers Etat. nessa epoca hist6rica em que o 
espfrito revoluciomirio penetrava profundamente esse estado. Os materialistas compunham a 
ala esquerda do exercito ideo16gico do Terceiro Estado. E, quando esse estado se dividiu 
por sua vez, quando, de urn !ado, deu nascimento a burguesia e, do outro, ao proletariado, 
entiio os ide61ogos do proletariado come~aram a tomar como base o materialismo, exatamente 
porque esta era a doutrina filos6fica extremista daquele tempo." Plecanov: Le Materialisme 
Militant, pag. 57. 
70. Rousseau: Emile, tomo I, pag. 34. Kant, que recebeu a influencia de Rousseau, 
escrevia pouco depois no seu Tratado de Pedagogia: "Ha muitos germes na humanidade e 
esta em nossas miios desenvolver proporcionalmente as nossas disposi~oes naturais, para dar 
il humanidade todo o seu desenvolvimento." Cf. Duproix: Kant et Fichte et le Probleme de 
l' Education, pag. 52. 
130 
proxima li<;ao tudo o que havia de falso nesse ideal exteriormente tao 
magnifico, e tambem descobriremos por que, ao atrai<;oa-lo, a burguesia 
teve de ir descendo de miseria em miseria ate a agonia total que 
presenciamos. Detenhamo-nos hoje no seu momento luminoso: quando 
ergueu para o mundo uma esperan<;a tao magnifica que conseguiu durante 
alguns anos inflamar com ela os exercitos gloriosos dos que nada tinham. 
131 
CAPITULO VI 
A EDUCA<::AO DO HOMEM BURGUES 
Segunda Parte - Da Revolu~ao Francesa ao Seculo XIX 
"Vossa Majestade - escrevia Voltaire em 1757 ao seu amigo, o 
Rei da Prussia - prestani urn servi~o imortal a Humanidade se conseguir 
destruir essa infame supersti~aoi, niio digo na canalha, indigna de ser 
esclarecida e para a qual ,todos os jugos siio bans, mas na gente de 
peso."2 
Quase vinte anos depois desta carta de Voltaire (1694-1778), Diderot 
(1713-1784) se dirigia a outra majestade, a Imperatriz Catarina da Russia, 
e a aconselhava a respeito do Plano de uma Universidade, destinada a 
ministrar instru~ao para todos. "E born que todos saibam ler, escrever e 
contar - dizia ele -, desde o Primeiro-Ministro ao mais humilde dos 
camponeses." E pouco mais adiante, depois de indagar por que a nobreza 
se havia oposto a instru~ao dos camponeses, respondia nestes termos: 
"Porque e mais dificil explorar urn campones que sabe ler do que urn 
·analfabeto."3 
I. A religiiio crista. 
2. Carlini: La Religione nella Scuola, pag. 16. 
3. Cornpayre: "Diderot", pag. 478 do Nouveau Dictionnaire de Pedagogie, de Buisson: 
"Quando niio se quer enganar ninguern, quando niio se tern paixoes ou interesses a disfarc;:ar 
- dizia tambern Helvetius -, niio se terne o saber e o born senso populares." Keirn: 
Helvetius, sa Vie et son Oeuvre, pag. 500. 
133 
Ambos eram representantes do Terceiro Estado. Par que, entao, 
opinioes tao opostas? E que, como ja vimos, Voltaire era urn interprete 
da alta burguesia e da nobreza letrada, ao passo que Diderot representava 
as aspira~oes dos artesaos e dos operarios.4 E fato bern sabido que o 
assalto definitivo ao mundo feudal foi comandado pela direita da burguesia, 
que !he imprimiu a sua marca, e ainda que a pequena burguesia, sob o 
impulso de Robespierre, tenha conseguido arrastar a grande burguesia ate 
conseqiiencias extremas, tambem nao e menos verdade que esse controle 
nao esteve durante muito tempo em suas maos. Tao logo a burguesia 
conseguiu triunfar, pode-se ver que a "humanidade" e a "razao" que tanto 
havia alardeado nao passavam da humanidade e da razao "burguesa". Na 
Declarar;iio dos Direitos do Homem e do Cidadiio, a "propriedade" aparece 
imediatamente depois da "liberdade", entre os direitos "naturais e impres-
critfveis". E se, por acaso, esse segundo artigo da Declarar;iio poder-se-ia 
prestar a equfvocos, ai esta 0 ultimo artigo para dirimir quaisquer duvidas, 
afirmando que a propriedade e "urn direito inviolavel e sagrado". Alem 
disso, urn decreta de 14 de junho de 1791 declarava que qualquer coliga~ao 
operaria constituia "urn atentado a liberdade e a Declara~ao dos Direitos 
do Homem", passive! de ser punida mediante uma multa de quinhentas 
Iibras e a cassa~ao, por urn ano, dos direitos da cidadania ativa ... 5 
As palavras grandiloqiientes desfaziam-se no ar, os ideais "magnificos" 
deixavam a descoberto a realidade pobre e mesquinha. E verdade que, 
agora, a Catedral de Notre Dame era o Templo da Razao, mas a burguesia 
se incomodava tao pouco com a nova deusa que dois de seus representantes 
mais conspicuos - Talleyrand e Saint-Simon - tiveram de amargar 
durante uma temporada nas celas de Santa Pelagia porque foram surpreen-
didos negociando nada menos do que com o proprio chumbo do Templo 
da Razao ... 
6 
Danton, o orador inflamado e eloqiiente, nao perdia nenhuma 
oportunidade para realizar urn born negocio, mesmo que eles - como o 
provou Mathiez - implicassem alguma trai~ao a Patria. E, para que nada 
faltasse a essa crua realidade, 0 proprio Rouget de L'Isle, o proprio autor 
do canto de guerra da Revolu~ao, compos algumas decadas depois outro 
hino, chamado 0 Canto dos Industriais ... 7 A Revolu~ao, que come~ara 
4. Nao devemos, todavia, exagerar o "extremismo" de Diderot; da mesma forma que 
Voltaire, ele tambem acreditava na necessidade social da religiao Cf. Compayre: Histoire 
Critique des Doctrines de /'Education en France Depuis le XV/e Siecle, tomo II, prig. 178. 
5. Marx: El Capital, tradu~ao de Justo, tomo I, pag. 581. Como conseqiiencia dessa 
disposi~ao legal foram abolidas as greves operarias, que s6 recomec;:aram em 1822, depois 
da restaurac;:ao. 
6. Leroy: La Vie Veritable du Comte Henri de Saint-Simon, pag. 161. 
7. Eis alguns dos seus versos: Deployant ses ailes dorees!L'industrie au cent mille 
pas/Joyeuse parcourt nos climats/Et fertilise nos contrees .. Honneur a nous, enfants de l'industrie' 
134 
... 
com urn clamoroso apelo aos "filhos da patria", terminava em beneficia 
cxclusivo dos "filhos da industria" ... 
As massas exploradas da Antigiiidadee do Feudalismo apenas haviam 
trocado de senhor. Para que a burguesia conseguisse realizar o seu 
prodigioso desenvolvimento nao eram suficientes o desenvolvimento do 
comercio e o alargamento quase mundial do mercado. Era preciso, atem 
disso, que exercitos compactos de trabalhadores livres fossem recrutados 
para oferecer OS seus bra~os a burguesia.8 Esse "trabalhador livre" surgiu 
na historia nos fins do seculo XV e come~os do seculo XVI. A rufna do 
mundo feudal libertara os servos, da mesma forma que a queda do mundo 
antigo havia emancipado os escravos. 0 empobrecimento dos senhores 
feudais obrigou-os a dissolver as suas hastes e a liquidar as suas cortes, 
ao mesmo tempo que o enriquecimento da burguesia expulsou os pequenos 
proprietarios das suas terras, para converte-las em campos de cria~ao. E 
verdade que, em outras epocas, trabalhadores livres ja tinham oferecido 
os seus bra~os no mercado de trabalho, na Grecia, em Roma e durante 
a Idade Media. Mas, antes do seculo XVI, o campones que alugava os 
seus bra~os temporariamente era tambem dono de uma pequena extensao 
de terra, capaz de sustenta-lo em casos extremos. 0 trabalho assalariado 
nao passava, para ele, de uma ajuda, de uma ocupa~ao subsidiaria. Mas, 
a partir do seculo XVI, ja o assalariado momentaneo havia-se convertido 
em assalariado permanente, ate a morte. 0 seu unico meio de subsistencia 
era a for~a dos seus bra~os. 
Outro fenomeno extremamente importante tambem come~ou a ma-
nifestar-se nessa ocasiao. Quando a produ~ao de mercadorias - isto e, a 
produ~ao destinada a troca e nao ao comercio interno - alcan~ou 
determinado nfvel, nova forma de apropria~ao surgiu no mundo. Na forma 
de apropria~ao que Marx chamou de "capitalista", o trabalhador ja nao 
colhe os frutos do seu trabalho. No inicio, o trabalhador trocava o objeto 
que havia produzido por outro, que havia sido produzido do mesmo modo 
e que tinha valor equivalente. Com o estabelecimento do comercio mundial 
e com o aparecimento de enormes massas de "trabalhadores livres" que 
ofereciam a venda a sua for~a de trabalho, surgiram os alicerces de urn 
novo regime: urn regime em que o capitalista da ao trabalhador muito 
menos do que o valor do objeto produzido. Em outras palavras: o capitalista 
se apodera, sem nenhuma retribui~ao, de uma consideravel parte do trabalho 
alheio, de tal modo que o salario com que "paga" os seus operarios mal 
8. Marx: Le Capital, tomo V, pags. 59-60, traduc;:ao de Molitor. 
135 
da para que estes possam se manter e possam voltar a vender ao capitalista, 
nas mesmas condi96es, a sua for9a de trabalho.9 
Com a substitui9ao do regime feudal pelo burgues, piorou a situa9ao 
das massas, mas os novos amos nao se importavam absolutamente com 
isso. Formar individuos aptos para a competir;iio do mercado, esse foi o 
ideal da burguesia triunfadora. ldeallogico, sem duvida, para uma sociedade 
em que a sede de lucros lan9ava os homens uns contra os outros, em 
urn tropel de produtores independentes. Produzir, e produzir cada vez mais 
para conquistar novos mercados ou esmagar algum rival, essa foi, desde 
0 infcio, a unica preocupa9a0 da burguesia triunfante. Que nenhum obstaculo 
dificulte o seu comercio, que nenhuma dificuldade paralise a sua industria. 
Se, para conquistar algum novo mercado, for necessaria liquidar popula96es 
inteiras, que assim seja feito; se, para nao interromper o trabalho das 
maquinas, for necessario engajar mulheres e crian9as, que assim seja 
tam bern. 
Para ser coerente com os ideais da classe que representava, Rousseau 
( 1712-1778), como ja o dissemos, nao se incomodou com a educa9ao das 
massas e sim, apenas, com a educa9ao de urn indivfduo suficientemente 
abastado para permitir-se o luxo de contratar urn preceptor. De fato, o 
seu Emflio era urn jovem rico, que vivia das rendas e que nao dava urn 
so passo sem o seu mestre. 
Poder-se-ia argumentar que Rousseau nao foi urn realizador e que 
o seu Emflio e apenas urn romance. Vejamos, pois, a influencia que 
Rousseau exerceu sobre urn pedagogo que manteve contato direto com os 
fatos da educa9ao, urn educador que fundava institutos e dirigia escolas, 
urn mestre que admirava tao ardentemente o ilustre genebrino que chegou 
a dar a sua propria filha o nome de Emflia. Refiro-me a Basedow 
(1723-1790). 
Filho de urn cabeleireiro, Basedow havia sido em sua mocidade o 
preceptor do filho de urn grande senhor. Todavia, desejoso de aplicar em 
escala maior as ideias de Rousseau, conseguiu do Prfncipe Leopoldo 
Frederico a ajuda necessaria para fundar o seu famoso Filantropino (1774). 
Segundo suas proprias palavras, o fim da educa9ao consistia em formar 
"cidadaos do mundo, e em prepara-los para uma existencia util e feliz". 
Como se preparavam esses "cidadaos do mundo"? E o que vamos escutar 
9. "0 dinheiro que o operano recebe e gas to por ele para manter a sua for~a de 
trabalho. 0 que equivale a dizer, quando consideramos em conjunto a classe capitalista e a 
oper:iria, que o trabalhador gasta o dinheiro que recebe com a unica finalidade de permitir 
que o capitalista conserve os meios que fazem com que ele continue sendo capitalista." 
Marx: Le Capital, tomo VII, p:ig. 216, trad. de Molitor. 
136 
...... 
do proprio Basedow. Antes de tudo, ele distinguia dois tipos de escolas, 
uma para os pobres e outra para os filhos dos cidadaos mais eminentes. 10 
"Nao ha nenhum inconveniente em separar as escolas grandes (populares) 
das pequenas (para OS ricos e tambem para a classe media), porque e 
muito grande a diferen9a de habitos e de condi9ao existentes entre as 
classes a que se destinam essas escolas. Os filhos das classes superiores 
devem e podem come9ar bern cedo a se instrufrem, e como devem ir 
mais Longe do que os outros, estao obrigados a estudar mais ... As crian9as 
das grandes escolas (populares) devem, por outro lado, de acordo com a 
finalidade a que deve obedecer a sua instru9ao, dedicar pelo menos metade 
do seu tempo aos trabalhos manuais, para que nao se tornem inabeis em 
uma atividade que nao e tao necessaria, a niio ser por motivos de saude, 
as classes que trabalham mais com o cerebro do que com as maos." 11 
Nas "grandes escolas" - diz Basedow, em seguida -, alem de 
ensinar a ler, a escrever e a contar, os mestres tambem devem cuidar 
"daqueles deveres que sao proprios das classes populares". 12 Mas como 
nessas escolas existia urn so professor, que estava encarregado de ensinar 
muitos alunos de idades bastante distintas, o que provocava graves difi-
culdades de ordem tecnica, Basedow se consolava com estas palavras 
simples e chocantes: "Felizmente, as crian9as plebeias necessitam de menos 
instru9ao do que as outras, e devem dedicar metade do seu tempo aos 
trabalhos manuais."13 
Parece-me que nao e necessaria dizer mais nada para se compreender 
em qual dessas escolas se podia formar os "cidadaos do mundo": enquanto 
nas escolas populares a instru9ao, felizmente, devia ser exfgua, nas outras, 
ao contrario, os vfcios ou os defeitos eram castigados "transformando-se 
uma hora de estudos, em uma hora de trabalhos manuais". 14 
Filangieri (1752-1788) tambem se expressava de forma parecida. Na 
sua Ciencia da Legislar;iio podemos, de fato, ler: "0 agricultor, o ferreira 
etc. niio necessitam mais do que uma instrur;iio facil e breve para adquirir 
as no96es necessarias para a sua conduta civil e para os progressos da 
sua arte. 15 Nao se poderia dizer o mesmo em rela9ao aos homens destinados 
10. Basedow: Re/azione ai Filantropi e ai Potesti Intorno aile Scuo/e, ag/i Studi e 
alia Loro Azione sui Bene Pubblico, p:ig. 40. 
II. Basedow, ob. cit., p:ig. 41. 
12. Basedow, ob. cit., p:ig. 49. 
13. Basedow, ob. cit., p:igs. 51 e 140. 
14. E o que dizia o artigo 10° do Regulamento Intemo do Filantropino. Cf. Basedow, 
ob. cit., p:ig. 218. 
15. Essa era tambem a opiniiio de La Chalotais (1701-1785), crftico agudo do ensino 
jesufta e urn dos primeiros autores a considerar a instru~iio como urn dever do Estado. No 
137( 
a servir a sociedade com os seus talentos. Que diferen~a entre os tempos 
exigidos pela instru~ao de uns e outros!" 16 "A educa~ao publica - dizia 
ele, em outra ocasiao - exige, para ser universal, que todos os indivfduos 
da sociedade participem dela, mas cada um de acordo com as circunstancias 
e com o seu destino. Assim, o colono deve ser instrufdo para ser colono, 
e nao para ser magistrado. Assim, o artesao deve receber na infancia uma 
instru~ao que possa afasta-lo do vfcio e conduzi-lo a virtude, ao amor a 
Patria, ao respeito as leis, uma instru~ao que possa facilitar-lhe o progresso 
na sua arte, mas nunca uma instrw;:ao que possibilite a dire~ao dos 
neg6cios da Patria e a administra~ao do governo. Em resumo, para ser 
universal, a educa~ao publica deve ser tal que todas as classes, todas as 
ordens do Estado dela participem, mas nao uma educa~ao em que todas 
as classes tenham a mesma parte." 17 
0 pensamento da burguesia revolucionaria do seculo XVIII se ex-
pressava de modo tao claro atraves das palavras de Basedow e de Filangieri 
que pode parecer urn esfor~o inutil trazer novas cita~6es para esclarece-lo. 
No entanto, as ideias que temos a respeito da Revolu~ao Francesa alimentam 
de tal modo as doutrinas chamadas liberais que nao creio ser esfor~o 
inutil tentar apanhar o sentido mais fntimo dessas ideias. Nem sempre a 
tarefa e tao facil como no caso dos dois exemplos citados. A igualdade 
perante a lei, que foi uma das mais habeis descobertas da burguesia,18 
dissimula as vezes com tanta perffdia a intimidade do pensamento que, 
freqiientemente, e necessaria aguardar muito tempo antes de se conseguir 
descobrir essa intimidade. Mirabeau, urn dos grandes da Revolu~ao, tratou 
de temas educativos em varios dos seus discursos, nos quais, alias, muitos 
tern querido ver, e parece que com razao, a mao de Cabanis. Mas, quer 
tenham sido escritos por Cabanis, quer tenham sido escritos por Reybaz, 
como asseguram outros, o certo e que Mira beau (17 49-1791) defendeu as 
ideias ali contidas. No primeiro discurso, Mirabeau fazia uma afirma~ao 
errada, que depois iria ser repetida inumeras vezes pelos te6ricos da 
burguesia: "Todos os legis/adores antigos - dizia ele - se serviram da 
educa~ao publica como urn meio adequado para manter e difundir as 
seu Ensaio Sobre a Educarao Nacional e Plano de Estudos para a Juventude (1763), La 
Chalotais se opunha a que se ensinasse a ler e a escrever a rnuitas pessoas que nao "deviam 
aprender nada a/em do manejo da lima e do martelo". Cornentando urna passagern do 
trabalho de La Chalotais, Greard acrescentava: "Como todos os parlarnentares e fil6sofos do 
seu tempo, La Chalotais pouco se preocupava corn a necessidade de desenvolver a instru~ao 
do grande nurnero; nao tinha ele ern vista rnais do que urna elite." Cf. Greard: "La Chalotais", 
in Nouveau Dictionnaire de Pedagogie, de Buisson, pag. 934. 
16. Citado par Stoppoloni no seu Talleyrand, pag. 93. 
17. Stoppo1oni, ob. cit., pag. 97, nota 2. 
18. Cf. Marx: "La Question Juive", in Oeuvres Philosophiques, tomo I, trad. de Molitor. 
138 
··""~' institui~oes ... Quanto a v6s, senhores, nao tendes opinioes favoritas 
" difimdir, nenhum Jim particular a cumprir; a vossa finalidade unica 
, , •11siste em dar ao homem o em pre go de todas as suas faculdades, o 
, wrcfcio de todos os seus direitos, em colocar a existencia publica acima 
d.t~; cxistencias individuais livremente desenvolvidas, a vontade geral sobre 
,,., vontades particulares". 19 Podemos dizer que, depois de reconhecer que 
.til' cssa data todas as educa~6es se haviam preocupado em servir os 
lltlcrcsses das classes superiores, Mirabeau assegurava que a educa~ao 
J,urguesa escapava a essa lei: ela se propunha formar "o homem", "o ser 
illnnano". Mas, logo em seguida, ele se opunha a gratuidade do ensino, 
porque assim rebaixar-se-ia o seu nfvel, ao eliminar-se a concorrencia, e 
pmque, desse modo, "arrancar-se-iam muitos homens do seu Iugar natu-
ui/".20 Mas isso significava exatamente o mesmo que era afirmado por 
I ;ilangieri: que cada urn dos membros da sociedade deve compartilhar da 
nluca~ao de acordo como seu "destino economico" e as suas "circunsHincias 
sociais". 
Mas, e Condorcet, e Pestalozzi? A instru~ao do "povo", "a igualdade 
diante das luzes" nao foram, por acaso, a medula da concep~ao polftica 
c social de Condorcet? Alem da gratuidade do ensino primario, nao propos 
cle tambem a gratuidade do ensino superior? Tudo isso e certo, nao ha 
duvida alguma, mas com a certeza aparente de todos os ideais de uma 
rcvolu~ao que, depois de eliminar as desigualdades ate entao engendradas 
pelo nascimento, proclamou sem rebu~os que s6 existem entre os homens 
as diferen~as que surgem do dinheiro. 
0 famoso plano de Condorcet - Rapport -, lido na Assembleia 
Legislativa nos dias 20 e 21 de abril de 1792, reflete de modo tao exato 
os ideais hip6critas da burguesia, que vale a pena nos determos alguns 
instantes em examina-lo. Quase todos os problemas que ainda hoje preo-
cupam os mestres e educadores sao ali propostos e examinados. Condorcet 
(1743-1794) concede ao Estado nao s6 o direito de controlar o ensino, 
como tambem a obriga~ao de instruirY De instruir mesmo, nao de educar, 
porque Condorcet deixa a forma~ao das cren~as religiosas, filos6ficas e 
morais a cargo dos padres. Na sua opiniao, a instru~ao publica deve 
assegurar a todos urn mfnimo de cultura, de tal modo "que nao deixe 
passar despercebido qualquer talento, e possa oferecer-lhe todos os recursos 
que ate agora s6 estavam ao alcance dos filhos dos ricos". Com a difusao 
das luzes, poder-se-a multiplicar as descobertas que irao aumentar o poder 
19. Guillaume: "Mirabeau", in Nouveau Dictionnaire de Pedagogie, de Buisson, pag. 1325. 
20. Guillaume, ob. cit., pag. 1321. 
21. Vial: Condorcet y Ia Educaci6n Democrdtica. 
139 
( 
do homem sobre a natureza. No importante Iugar ate entao reservado ao 
ensino das letras, Condorcet coloca agora o ensino das ciencias; suprime 
entre as faculdades a de Teologia, que continuava sendo a mais import(!.nte, 
e assegura que o estudo das ciencias combate a mesquinhez do espfrito 
e os preconceitos, constituindo para isso urn remedio mais eficaz do que 
a filosofia. "As pr6prias coisas e nao as suas sombras", como dizia 
Comenio, entram agora nas escolas, mas com urn tom mais franco do 
que o do pastor da Moravia e sem sua crenc;a de que esta vida e uma 
preparac;ao para a outra. 
Como orientac;ao geral, nao era possfvel interpretar de melhor maneira 
o espfrito da burguesia nesse instante: cientffica, cetica e pratica, e por 
isso mesmo desejosa de que as tecnicas perdessem os segredos com que, 
ate entao, as "corporac;6es" as haviam cercado. A orientac;ao geral do 
plano e excelente e o mesmo acontece com os seus detalhes. Nao s6 ele 
se op6e terminantemente ao ensino religioso nas escolas - "os povos 
que sao educados por sacerdotes nao podem ser livres", sao as suas 
palavras textuais - como tambem niio permite que o Estado imponha a 
crianra qualquer credo. A "liberdade de consciencia" deve ser respeitada, 
tanto do ponto de vista religioso, quanta do social. "Que o poder do 
Estado - afirma - termine no umbra/ da escola, e que cada professor 
possa ensinar as opinioes que acredita verdadeiras, e niio as que o Estado 
ere verdadeiras.'m o Estado deve por a crianc;a em condic;ao de conhecer 
todas as ideias, para poder escolher livremente entre elas. Mas Condorcet 
ainda pretende mais, alem de proibir ao Estado qualquer ingerencia nas 
coisas da educac;ao, impondo determinado credo politico aos alunos; 
Condorcet nega ao Estado duas coisas fundamentais, a saber: o monop6lio 
do ensino e a nomeariio dos professores. 
_Recusa o monop61io do ensino em nome da liberdade. As escolas 
particulares devem existir lado a lado com as oficiais, porque umas 
estimulam as outras por causa da rivalidade que se estabelece entre elas. 
Livre concorrencia entre as escolas do Estado e as particulares, e nenhuma 
intervenc;aopolftica do Estado nas escolas, eis, em essencia, o que pretende 
Condorcet. Mas, se o Estado tivesse o poder de nomear os professores, 
facil lhe seria dominar as escolas atraves destes. Esse fato nao escapou 
a argucia de Condorcet, que recusou, entao, esse poder ao Estado. Propos, 
entao, que os professores fossem eleitos por "sociedades cientfficas", 
constitufdas em cada departamento pelos homens eruditos mais esclarecidos. 
Em resumo, Condorcet quer que o Estado funde escolas e pague os seus 
professores, mas sem exercer nenhuma tutela sobre eles. 
22. Vial, ob. cit., pag. 23. 
140 
Considerado isoladamente, o Rapport de Condorcet parece a obra 
de urn visionario, de urn te6rico, de urn "idealista". Taine, em paginas 
vigorosas, mas falsas, difundiu a ideia de que os dirigentes da Revoluc;ao 
Francesa eram pensadores que viviam tao afastados da vida que pretendiam 
que esta obedecesse aos seus pianos. Mas aqueles "te6ricos" de que fala 
Taine sabiam muito bern o que propunham. E vejamos se nao era isso 
que acontecia com Condorcet. Urn ano depois da apresentac;ao do seu 
informe, Condorcet continuava defendendo a independencia absoluta para 
a educac;ao superior, mas ja admitia agora que o ensino primario deveria 
ser dirigido e vigiado pelo Estado ... 
Como e possfvel que no transcurso de urn ano apenas o nosso 
"idealista" tenha mudado tanto de pensar? Mas a contradic;ao e apenas 
superficial. 0 pretenso visionario conhecia bern o caminho que percorria. 
Quando, nos dias 20 e 21 de abril de 1792, Condorcet leu o seu informe 
na Assembleia Legislativa, a burguesia, apesar de triunfante, ainda nao 
tinha em suas maos a maquina administrativa. Nao s6 a Monarquia ainda 
estava de pe, como ainda continuava representando urn perigo. Mas, poucos 
meses depois da apresentac;ao do dito informe, a Republica foi proclamada. 
E, naturalmente, ao reeditar o seu informe urn ano depois, por ordem da 
Convenc;ao, Condorcet introduziu nele as modificac;6es que mencionamos. 
Quer dizer, enquanto o poder estatal continuava nas miios da classe 
inimiga, era necessaria impedir a qualquer prero o controle estatal nas 
escolas: nao permitir que o Estado nomeasse os professores e exigir a 
existencia das escolas particulares (burguesas, neste caso), em cuja fundac;ao 
o Rei nao pudesse interferir. Mas, assim que a burguesia se apoderou 
da maquina administrativa, Condorcet passou a afirmar que as escolas 
deveriam estar sob a vigilancia e a administrariio dC! Estado. Nao se 
poderia exigir de urn "visionario" maior consciencia de classe ... 
Poder-se-ia afirmar que, apesar de tudo, o informe de Condorcet 
constituiu urn grande passo adiante e que a proposic;ao de gratuidade do 
ensino constituiu, por si s6, urn grande merito. Nao e possfvel nega-lo, 
mas neste largo esboc;o que estamos fazendo da hist6ria da educac;ao a 
nossa felicidade nao consiste em falar em meritos ou em demeritos. 
Condorcet propiciou, de fato, a gratuidade do ensino, que s6 muito tempo 
depois viria a implantar-se definitivamente. Mas apesar dessa gratuidade, 
foram as escolas do seu tempo freqiientadas por crianc;as nao pertencentes 
a pequena e a media burguesia? 0 impressionante triunfo das maquinas 
no seculo XVIII e a extraordinaria expansao comercial que teve Iugar 
nessa epoca nao s6 mobilizaram enormes massas de homens, como tambem 
incorporaram as mulheres e as crianc;as a explorac;ao capitalista. No dizer 
de Marx, aqueles foram "os tempos orgiasticos do capital". E foi exatamente 
141 
nessa epoca, em que ate crian~as de 5 anos trabalhavam, que Condorcet 
declarou gratuitas as escolas ... ! Grande vantagem, para uma crian~a que 
desde os 5 anos deve ganhar o pao de cada dia, o fato de as escolas 
serem gratuitas! Se ela nao pode freqi.ienta-la, que !he importa que a 
escola seja gratuita ou nao? Condorcet era bastante inteligente para 
compreender que dentro do sistema capitalista a gratuidade escolar tinha 
pouca imporH1ncia, e tanto e verdade que o compreendeu que ele proprio 
se apressou a propor a concessao de pensoes e de bolsas de estudos.23 
Nao nos interessam por agora os seus paliativos, mas convem ressaltar 
que nas pr6prias origens da escola burguesa, "gratuita e popular", urn 
dos seus fundadores mais ilustres reconhecia que ndo se tratava de uma 
escola destinada as massas. 
E Pestalozzi, nao se encarregou ele de preparar o caminho para 
elas? E tao grande a gloria que cerca o nome deste insigne educador que 
nos custa urn pouco aproximarmo-nos desta figura maxima do santuario 
pedagogico. 
Discfpulo da Revolw;:ao Francesa, e especialmente de Rousseau, 
Pestalozzi (1746-1827) passa nao so por ter sido o introdutor de uma 
nova tecnica pedagogica - o que e exato - como tambem por ser o 
"educador da humanidade", como reza o seu epitafio. Mais do que qualquer 
outro educador do seu tempo, Pestalozzi se interessou pelos camponeses; 
mas, ainda que esse sentimento tenha sido autentico e generoso, nao e 
menos certo que ele passou a vida educando crian~as ricas. Nas poucas 
vezes em que acolheu em sua casa crian~as pobres, com a inten~ao de 
educa-las, ele atuou como filantropo e como industrial. "Tendo fracassado 
definitivamente como agricultor - afirrna o seu biografo Guillaume -, 
Pestalozzi quis tentar a carreira industrial. Em 1774, instalou em urn 
edificio contfguo a granja de Neuhof, ediffcio esse que mandou construir 
especialmente, uma industria para a fia~ao de algodao. Pretendia acolher 
em sua casa algumas crian~as pobres para emprega-las nesse facil trabalho, 
que, pensava, logo daria bons lucros. Isto constituia a seu ver uma feliz 
especula~ao industrial, ao mesmo tempo que uma boa a~ao."24 
Cetico em algumas ocasioes, defsta em outras, Pestalozzi nao duvidava 
de que a organiza~ao burguesa, com todos os seus defeitos, tinha como 
23. 0 projeto de Lepelletier, apresentado por Robespierre a Conven~lio em 13 de ju1ho 
de 1793, era, neste sentido, muito mais avan9ado, apesar de ser igualmente irrealizavel: 
"Pec;o que decreteis - dizia e1e - que desde a idade dos 5 anos ate os 12 anos para os 
var6es, e ate os 11 para as meninas, todos sem distinr;iio e sem excer;iio se eduquem em 
comum, as expensas da Republica." Gotteland. Hacia la Educacidn Integral Ffsica, Intelectual 
y Moral, piig. 74. 
24. Guillaume: Pestaloui: Eswdio Biogrdfico, piig. 29. 
142 
au tor o proprio Deus, 25 e se algo podia ser esperado no senti do de melhorar 
urn pouco as coisas, esse algo, na sua opiniao, deveria ter origem na boa 
vontade dos poderosos e dos principes. Na ultima parte de Leonardo e 
Gertrudes, Pestalozzi propos urn codigo completo de reforrnas sociais para 
uso dos senhores ilustrados que desejassem assegurar a felicidade dos 
seus camponeses. "Leonardo e Gertrudes - afirrna Pestalozzi numa carta 
a urn amigo - sera o eterno testemunho do que eu tentei para salvar 
a aristocracia honrada, mas os meus esfor~os so foram recompensados 
com ingratidoes, a tal ponto que o born Imperador Leopoldo falava de 
mim em seus ultimos dias como de urn abade de Saint-Pierre."26 
Na sua opiniao, os prfncipes eram os responsaveis pela situa~ao 
revolucionaria, por causa da sua cegueira e das suas mas administra~oes. 
A Revolu~ao Francesa, com a qual simpatizava - porque acreditava que 
ela constitu{a urn castigo Justo para os erro dos nobres -, inquietava-o 
sobremodo. E como nunca teve papas na Ifngua ao aconselhar reis e 
na~oes, ele enviou a Fran~a uma mensagem concitando-a a cessar a 
propaganda revolucionaria porque "as reforrnas de que os povos necessitarn 
podern ser-lhes concedidas pelos seus governantes atuais, sem transtornos 
nem violencias" _27 
0 campones conservador e tfmido que existia em Pestalozzi nao 
queria nada com mudan~as e revoltas. Mais pomposo do que Rousseau, 
e mais declamador, Pestalozzi gostava de falar tambem em fundar escolas 
de "homens". Mas adrnitia que existiarn tantos hornens e tantas educa~oes 
quanta classes, e como a ordem social havia sido criada por Deus, o 
filho do aldeaodeve ser aldeao, e o filho do comerciante, comerciante. 
Nenhuma educa~ao teve urn carater mais manso do que a de Pestalozzi. 
A sua bondade sofria, certa:mente, com a sorte dos explorados, especialmente 
com a dos camponenses, que tao de perto conhecia. Mas ele nunca 
pretendeu outra coisa a nao ser educar os pobres para que estes aceitassern 
de born grado a sua pobreza.28 
Apesar de, no princfpio da sua vida, ter educado algumas crian~as 
pobres e, mais tarde, ter recolhido muitas outras no seu orfanato, nunca 
!he ocorreu a possibilidade de dar a elas a mesma educa~ao que ministrava 
as crian~as ricas.29 Da mesma forma, nunca pensol.i que a estas fosse 
25. Guillaume, ob. cit., pag. 55. 
26. Guillaume, ob. cit., piig. 82. 
27. A Assemb1eia Legis1ativa proclamou-o cidadiio frances em 1792. 
28. Natorp: Pestaloui, su Vida y sus Ideas, pag. 14. Cf., no mesmo sentido, Wickert: 
Historia de La Pedagogia, piig. 129. 
29. Nada mais fa1so, pois, do que o elogio de Compayre: "Pestalozzi tern direito aos 
aplausos de todo\ aque1es que se preocupam com o futuro das classes inferiores." Cf. 
143 
possfvel educar por meio do trabalho. E verdade que ensinou muitas vezes 
trabalhos manuais no seu internato, mas do mesmo modo como sao 
ensinados nas mais modernas escolas atuais, isto e, como urn exercfcio 
ou uma distrar,:ao mais ou menos desordenada.30 A sua atitude, portanto, 
nao podia ser mais conseqiiente: o "apostolo" do ensino "popular" dividia 
o seu ensino e o seu metodo de acordo com a classe social a que 
pertenciam os seus educandos. 
Os pedagegos mais autenticos da revolur,:ao burguesa, Condorcet e 
Pestalozzi, ja nos mostraram quais as intenr,:6es da burguesia no campo 
educativo. 
E, cinqiienta anos depois da Revolur,:ao Francesa, elas nao eram 
muito diferentes das que Herbart (1776-1841) expressava em nome da 
burguesia do seu tempo. No seu lnformes de urn Preceptor, Herbart nos 
conta detalhadamente como se deve ensinar ciencias naturais, acompanhando 
cada aula com demonstrar,:6es experimentais31 , mas, ao mesmo tempo, 
anota que as crianr,:as que !he foram confiadas recebem os ensinamentos 
de Cristo para que reconher,:am "os sinais da providencia no progresso 
para a perfeir,:ao".32 Anos mais tarde, na sua Pedagogia Cera!, ele insiste 
a respeito do mesmo tema: "A religiao nunca podera ocupar no fundo do 
corar,:ao o Iugar tranqiiilo que !he corresponde, se a sua ideia fundamental 
nao foi inculcada desde a primeira infiincia.'m E, trinta anos mais tarde, no 
seu Bosquejo, volta de novo a falar a respeito de religiao: "0 conteudo da 
instrur,:ao religiosa deve ser determinado pelos teologos, mas a filosofia ha 
de demonstrar que nenhum saber esta em condir,:6es de sobrepujar a seguranr,:a 
da crenr,:a religiosa."34 "E necessaria unir a educar,:ao religiosa a propriamente 
moral para humilhar desse modo a presunr,:ao de crer haver realizado algo."35
1 
Desde a carta de Voltaire a Frederico Guilherme36, nos meados ~ 
seculo XVIII, ate as palavras de Herbart, nos meados do seculo XIX'; a 
Compayre: Histoire Critique des Doctrines de /'Education en France, Depuis le XV!e Siecle, 
tomo II, pag. 108. 
30. Urn ex-a1uno de !verdon afirma: "Os trabalhos manuais constavam do programa 
de Pestalozzi; foram ensinados freqiientemente no instituto, mas jamais de um modo regular 
e continuado." Citado por Guillaume, ob. cit., pag. 188. 
31. Herbart: lnformes de un Preceptor, pag. 47. 
32. Herbart: ob. cit., pag. 82. Na pagina 56 conta tambem de que forma insistiu para 
que urn dos seus a1unos meditasse a respeito do "poder invisfvel que reina sobre todos n6s 
e sobre os nossos antecessores". 
33. Herbart: Pedagog(a General Derivada del Fin de Ia Educaci£5n, pag. 225. 
34. Herbart: Bosquejo de Pedagogfa, pag. 191. 
35. Herbart, ob. cit., pag. 18. 
36. Trata-se, evidentemente, de urn cochilo do Autor. 0 amigo de Voltaire, com quem 
este se correspondia e que chegou mesmo a hospeda-lo, foi Frederico II da Prussia e niio 
seu pai, Frederico Guilherme, cognominado o Rei Sargento. (Nota do Tradutor.) 
144 
f 
j 
t 
situar,:ao nao mudou muito, portanto. Continua sendo a mesma que uma 
anedota atribufda a Voltaire ja mostrava claramente. Contam que uma 
noite em que varios amigos discutiam a respeito de religiao em sua casa, 
Voltaire interrompeu a conversa para impedir que os seus criados a 
escutassem; e so depois que estes se retiraram e que ele permitiu que o 
assunto voltasse a baila, "porque absolutamente nao pretendia ser assassinado 
ou roubado durante a noite". 0 prfncipe da burguesia demonstrava claramente 
as suas intenr,:6es com esse gesto: uma vez que a "gente de bern" - la 
bonne compagnie - havia triunfado, era necessaria impedir, mediante a 
religiao e a ignorancia, a ascensao das mass as. 37 
Mas a burguesia nao podia recusar instrur,:ao ao povo, na mesma 
medida em que o fizeram a Antigiiidade e o Feudalismo. As maquinas 
complicadas que a industria criava nao podiam ser eficazmente dirigidas 
pelo saber misenivel de urn servo ou de urn escravo. "Para manejar certas 
ferramentas e necessaria aprender a ler, dizia Sarmiento (1811-1888) a 
Alberdi, numa polemica notoria. Em Copiaco se paga 14 pesos ao operario 
rude, e 50 ao operario ingles que, pelo fato de saber ler, recebe as 
encomendas mais delicadas e todo o trabalho que requeira o uso da 
inteligencia. Para manejar o arado e necessaria saber ler! So nos Estados 
Unidos e que se generalizou o uso de arados aperfeir,:oados, porque so 
nesse pafs e que o trabalhador rural, que deve maneja-los, sabe ler. No 
Chile, por agora38, e impossfvel popularizar as maquinas de arar, de trilhar, 
de debulhar milho, porque nao ha pessoal para maneja-las, e eu proprio 
vi numa fazenda quebrar-se a debulhadeira no proprio instante em que 
era posta a funcionar."39 0 testemunho de Sarmiento e terminante: o 
trabalhador assalariado jd niio podera satisfazer o seu padriio se niio 
dispuser ao menos de uma educa<;iio elementar. E pois necessaria procura-la, 
como uma condir,:ao sine qua non para ser explorado.40 Em outras epocas, 
37. Nos projetos de Talleyrand ( 1754-1838) a respeito da instruc;iio publica, figurava 
o ensino da religiiio (artigo V do regulamento das escolas primarias) e da hist6ria sagrada 
(artigo VI do regulamento das chamadas escolas de "distrito"). 0 autor desses edificantes 
projetos era o mesmo ex-bispo que, ao receber a notfcia da sua excomunhiio, escreveu as 
seguintes linhas ao Duque de Lauzun: "Sabera V. s•. a ultima notfcia: a minha excomunhiio; 
venha consolar-me e cear comigo. Em breve, todos me negariio agua e fogo. Por essa raziio, 
esta noite s6 comeremos pratos frios e s6 beberemos vinhos gelados ... " Cf. Stoppoloni: 
Talleyrand, pag. 14. 
38. 1853. 
39. Sarmiento: Las Ciento y Una, pag. 125. 
40. A prova do que afirmamos pode ser encontrada nos pafses de pequeno desenvolvimento 
industrial, como e o caso das colonias; nessas regi5es, onde a exp1orac;iio capitalista niio 
requer trabalhadores especializados, a burguesia niio se preocupa com a instruc;iio popular. 
Depois de urn seculo de ocupac;iio na Argelia, a burguesia francesa reconhece em urn dos 
( 145 
quando o trabalho era confiado ao servo e ao escravo, em que os 
instrumentos de trabalho eram primitivos e as tecnicas rudimentares, o 
aprendizado do trabalhador requeria uma atenc;ao muito pequena. Entretanto, 
nos tiltimos tempos do Imperio Romano, quando o brac;o escravo comec;ou 
a rarear, tratou-se, de suprir essa deficiencia mediante a educm;iio de 
trabalhadores escolhidos.41 Agora, em condic;oes diversas, sem dtivida, 
voltou a aparecer essa diferenc;a entre trabalhadores niio especializados, 
capazes apenas de realizar as tarefas mais grosseiras, e trabalhadores 
especializados, em condic;oes de se encarregarem daquelas tarefas que 
exigem urn nfvel mediano de cultura. Mas, ao !ado dos openirios nao 
qualificados e dos trabalhadores especializados, o capitalismo requeria 
tambem a existencia de openirios altamente especializados,detentores de 
uma cultura verdadeiramente excepcional. Cada progresso da qufmica, por 
exemplo, nao so multiplicava o ntimero dos materiais uteis e das aplicac;oes 
conhecidas, como tambem estendia as esferas de aplicac;ao do capital. A 
livre concorrencia exigia uma modifica~iio constante das tecnicas de 
produ~iio e uma necessidade permanente de inven~oes.42 0 capitalismo 
incorporava aos seus pianos de trabalho cientffico a livre investigac;ao, da 
mesma forma que o Feudalismo implicava a religiao e o dogmatismo. 
Favorecer o trabalho cientffico, mediante escolas tecnicas e laboratorios 
de altos estudos, foi, desde essa epoca, uma questao vital para o capitalismo. 
As escolas tradicionais nao estavam em condic;oes de satisfazer essa 
exigencia, nem mesmo as criadas sob a influencia direta da Revoluc;ao 
Francesa. Longe das influencias oficiais, junto as proprias fabricas e como 
frutos diretos da iniciativa privada, comec;aram a surgir as escolas poli-
tecnicas. A burguesia do seculo XIX preparava nelas os seus peritos 
industriais, da mesma forma que a do seculo XVI preparava nas suas 
escolas comerciais os seus peritos mercantis. Uma educac;ao primaria para 
as massas, uma educac;ao superior para os tecnicos, eis o que, em essencia, 
a burguesia exigia no campo da educac;ao. 
Reservava, todavia, para os seus pr6prios filhos outra forma de 
educac;ao - o ensino media - em que as ciencias ocupavam urn Iugar 
discreto, em que o saber continuava livresco e bastante divorciado da vida 
real. Enquanto nas outras escolas a orientac;ao era francamente pr:itica e 
seus ultimos recenseamentos que a propon;:ao de analfabetos se eleva a 98%. Na Indochina, 
depois de 70 anos de ocupa9ao, s6 I 0% da popula9ao e que recebe rudimentos de ensino. 
Cf. Boyer: L'Ecole Lai"que Contre Ia Classe Ouvriere, pag. 8. 
41. Weber: "La Decadencia de Ia Cultura Antigua". 
42. La Chalotais propunha, nos meados do seculo XVIII, que se inclufsse entre as 
materias do ensino superior "a arte de inventar", e colocava essa disciplina acima da Filosofia 
e do espfrito filos6fico. Cf. o artigo de Greard a que nos referimos na nota 15. 
146 
• i 
impregnada de intenc;ao utilitaria, por que nessas escolas de ensino medio 
prosseguia-se cultivando o "ocio digno", isto e, esse ensino de puro adorno 
que os jesuftas inculcaram em outros tempos aos nobres?43 Como se 
explica que, no nosso seculo, urn homem como Durkheim tivesse podido 
pronunciar estas palavras: "Com excec;ao de alguns casos raros, que nao 
modificam a essencia da coisa, os homens da minha gerac;ao foram 
educados nos liceus, de acordo com urn ideal que nao diferia muito 
daquele que inspirava os colegios jesuftas dos tempos do Rei Sol".44 0 
ideal pedagogico dos jesuftas e conhecido por nos: buscar uma cultura 
aparatosa e brilhante, como propria de homens que devem dirigir muito 
de cima os negocios desta terra, e aos quais nao interessa, portanto, as 
minticias e as mesquinharias desse trabalho. 
Como explicar, pois, este fenomeno, em aparencia contradit6rio, de 
que a educac;ao de adorno criada para uma classe ociosa "dos tempos do 
Rei Sol" possa continuar servindo aos interesses de outra classe social, e 
exatamente de uma classe que proclamou o trabalho como a virtude 
fundamental? 0 problema fica esclarecido quando nos nos dirigimos 
diretamente as suas rafzes. 
Nos primeiros tempos da burguesia, ainda nao se mostravam muito 
acentuadas as diferenc;as existentes entre o operario e o mestre do seu 
gremio. Viviam sob o mesmo teto e colaboravam nas mesmas tarefas. 
Mas logo que o "mestre" do gremio se converteu em comerciante e 
comec;ou a organizar a produc;ao em grande escala, o patriio, transformado 
em capitalista, foi se separando cada vez mais do trabalho materia/.45 E, 
a medida que as distancias entre o capitalista que dirige e o operario que 
produz aumentavam, mais desaparecia a antiga colaborac;ao que existia 
entre eles, e mais se acentuava o carater desp6tico do capitalista. E isso 
pela razao extremamente simples de que a orientac;ao geral da produc;ao 
capitalista consiste em valorizar o mais possfvel o capital e, portanto, em 
explorar e tiranizar cada vez mais a forc;a de trabalho do operario. Distancia 
do trabalho material, por urn lado, despotismo, pelo outro, eis af os dois 
43. "A elite de uma democracia deve-se dividir em duas partes: uma, a mais elevada, 
que se orienta para as carreiras 1iberais, e outra, que se dirige para as carreiras industriais, 
comerciais, agrfcolas e co1oniais, carreiras tao necessarias quanto as primeiras, mas que sao, 
por defini~ao, mais materiaLs." Fouillee: La Reforme de l'Enseignement par Ia Philosophie, 
pag. 106. 
44. Durkheim: Education et Sociologie, pag. 137. 
45. Marx: El Capital, tomo I, pag. 253 da trad. de Justo: "Da mesma forma que o 
exercito necessita de chefes e de oficiais, uma massa de operfirios que trabalha sob o mesmo 
capital necessita de oficiais industriais superiores (diretores, gerentes) e de suboficiais 
(inspetores, capatazes, zeladores, contramestres) que comandam em nome do capital durante 
todo o processo do trabalho." Cf., especialmente, as pags 252-253. 
147 
'-.. 
tra~os fundamentais da psicologia do capitalista. E que outra coisa encon-
tramos tambem na psicologia do barao feudal, tao distinta da do burgues 
em outros pontos?46 0 triunfo do capitalismo, sabre o Feudalismo, apenas 
significou realmente triunfo do metoda de explorariio burguesa sabre o 
de explorariio feudal. E, pelo fato de que nem o capitalista, nem o nobre, 
participavam diretamente do trabalho, ambos podiam prescindir dessa 
cultura tecnica que o primeiro exigia dos seus especialistas.47 Nos livros 
em que Carnegie contou a sua vida e seus .neg6cios podemos comprovar 
abundantemente a fantastica ignorancia deste rei de a~o em rela~ao aos 
problemas tecnicos-cientfficos concernentes a esse metal.48 Da mesma 
forma, nos livros em que Ford narra as peripecias da sua industria podemos 
constatar o desprezo que devotava a Edison, que, na sua opiniao, sabia 
demasiado para ser urn born capitalista.49 Em rela~ao a estudos e diplomas, 
Carnegie apenas demonstra desprezo, e, numa conhecida pagina, confessou 
ele, deste modo, o seu segredo: "0 segredo do exito consiste exclusivamente 
na arte de fazer os outros trabalharem."50 
Para "fazer OS outros trabalharem" nao e necessaria certamente muita 
ciencia. Como estranhar, pois, que, ao !ado das escolas industriais e 
superiores, destinadas a preparar os capatazes e os tecnicos do exercito 
industrial, a burguesia tenha reservado para os seus filhos outro tipo de 
ensino, inteiramente separado do trabalho, que considerava como o unico 
46. A respeito da afinidade existente entre os tra~os fundamentais do burgues capitalista 
e os do senhor feudal, ver Bucarin: La Theorie du Materialisme Historique, pug. 281. Hu 
urn exemplo ilustrativo em Dubreton: La Maniere Forte, pug. 31. Para o desenvolvimento 
desta tese, consultar Procr6visqui: Teorfa de Ia Revolucilin Proletaria, pugs. 37 e segs. 
47. "A ciencia, em geral, niio custa nada ao capitalista, o que niio impede que este a 
explore. A ciencia 'estrangeira' se incorpora ao capital, da mesma forma que o trabalho 
estrangeiro. Mas a apropria~iio capitalista e a apropria~iio pessoal da ciencia ou da riqueza 
material sao coisas completamente distintas. 0 proprio Dr. Ure lamentava a grosseira ignoriincia 
de meciinica demonstrada pelos seus queridos fabricantes exploradores de muquinas, e Liebig 
nos conta coisas horripilantes a respeito da ignoriincia de qufmica demonstrada pelos industriais 
ingleses do ramo." Marx: El Capital, tomo I pug. 294, nota 3 da trad. de Justo. Cf., tambem, 
o tomo IX, pug. 199, nota I da tradu~iio de Molitor. 
48. Veja-se, por exemplo, a sua atitude em relayiio ao novo processo que o qufmico 
ingles Bessemer acabava de descobrir. 
49. Cf. Lewinshon: A Ia Conquete de Ia Richesse, pug. 212. 
50. Cf. Lafon: "Carnegie". 0 epitufio que Carnegie compos para a sua tumba expressaessa mesma ideia, mas de modo menos cfnico: "Aqui jaz urn homem que soube agrupar 
homens mais subios do que ele." Como se ve, a "ciencia" do capitalista niio e muito mais 
complicada do que a do antigo dono de escravos. "Saber empregar escravos - dizia 
Arist6teles - e a ciencia do patriio. Essa ciencia niio e, na verdade, nem muito extensa, 
nem muito alta: consiste em saber ordenar o que os escravos devem fazer. Assim, desde 
que o patriio possa desembara~ar-se desses encargos, ele os confia a urn intendente, para 
entregar-se a vida polftica, ou a filosofia." Arist6teles: Politique, pug. 24. 
148 
I ,, 
I 
d 
tipo de ensino verdadeiramente digno das classes superiores? Defendendo 
o ensino chamado "classico", Weiss disse: "N6s apreciamos tanto quanto 
qualquer outro tudo o que corresponde ao domfnio da inteligencia e da 
tecnica, ciencia naturais e hist6ricas, Matematica, Economia, Estatfstica, 
Filosofia, Arqueologia etc., mas os numeros e as abstra~oes, a Geometria 
e as suas dedu~oes, as ciencias naturais e as suas classifica~oes, a Hist6ria 
e os seus fenomenos, a L6gica e as suas leis nao sao mais do que parte 
do homem e do entendimento humano. As humanidades e as letras, por 
outro lado, silo o proprio homem; elimimi-Ias da educa~ao e como que 
eliminar o homem do proprio homem."51 
Cabe, agora, perguntar: Quem sao esses privilegiados, capazes de 
adquirir essa cultura que, por ser independente do trabalho produtivo, e 
considerada pelos te6ricos da burguesia como a que caracteriza propriamente 
o "homem"?52 Urn inspetor frances de instru~ao publica vai-nos responder: 
"0 aluno que freqlienta os nossos liceus e o que esta em condi~oes de 
esperar ate os 22 anos para ganhar a vida."53 Nao se pode expressar com 
mais franqueza 0 carater de classe e a orienta~ao geral do ensino medio. 
0 caminho que leva as universidades e, por isso mesmo, as altas posi~oes 
governamentais impoe urn tipo de instru~ao tao distante do trabalho 
produtivo que apenas se diferencia da que ministravam os jesuftas nos 
tempos do Rei Sol, uma instruriio tiio inacessivel as grandes massas que 
s6 podem beneficiar-se dela aqueles que absolutamente niio tem de se 
incomodar com o seu proprio sustento. 
0 ensino secundario, acrescenta mais adiante o mesmo Vial, deve 
capacitar as classes medias "a guiar a vontade naciona1".54 "Enquanto a 
nossa imperfeita organiza~ao social continuar proibindo ao grande numero 
0 acesso a cultura moral e intelectual", e necessaria que 0 povo [isto e, 
os operarios e os camponeses] aprenda atraves das classes medias, "a 
pensar, a querer e a atuar".55 
Essa afirma~ao nao requer esclarecimentos: pela pena de urn dos 
seus funcionarios mais autorizados, a burguesia capitalista reconheceu que 
51. Weiss: "L'Education Classique et les Exercises Scolaires". E a mesma ideia que, 
na Alemanha, era expressada de forma mais concisa: "0 ginasio clussico deve formar o 
homem ao passo que as Realschulen devem formar o prdtico. Cf. Fouillee, ob. cit., pug. 97. 
52. Sorel ressalta muito bern que, habitualmente, niio se considera alguma coisa como 
"verdadeiramente nobre" a niio ser quando "niio tern ela nenhuma influencia, mesmo indireta, 
sobre a produ~iio." Cf. Sorel: La Ruine du Monde Antique, pug. 88. 
53. Vial: L'Enseignement Secondaire et /a Democratie, pug. 44. 
54. Vial, ob. cit., pug. Ill. 
55. Vial, ob. cit., pugs. 324-325. 
j ( 
149 
a sua organiza<;:ao social "profbe" ao grande numero "o acesso a cultura 
moral e intelectual", e enquanto isso durar - isto e, enquanto a burguesia 
continuar como classe dominante . - o grande numero de vera "pensar, 
querer e atuar" por meio da burguesia. 
Urn seculo depois do plano de Condorcet, eis em que resultou a 
"difusao das luzes" e o "ensino para todos". 
A burguesia sabe demasiado bern o que faz. Quase ao mesmo tempo 
em que Sarmiento assegurava que nao se podia manejar uma ferramenta 
sem saber Ier, urn fabricante ingles de vidros - Mr. Geddes - afirmava 
a uma comissao investigadora: "A meu ver, a maior parte da educa<;:ao 
de que tern desfrutado uma parte da classe trabaJhadora durante OS U)timos 
anos e prejudicial e perigosa, porque a torna demasiado independente."56 
Nada mais adequado para mostrar as contradi<;:6es que existem na 
burguesia do que citar essas duas atitudes tao distintas no plano pedag6gico: 
de urn lado, a necessidade de instruir as massas, para eleva-las ate o nfvel 
das tecnicas da nova produ<;:ao e, do outro, o temor de que essa mesma 
instru<;:ao as tome cada dia menos assustadi<;:as e menos humildes. A 
burguesia solucionou esse conflito entre os seus temores e os seus interesses 
dosando com parcimonia o ensino primario e impregnando-o de um 
cerrado espfrito de classe, como para niio comprometer, com o pretexto 
das "fuzes", a explorar;iio do operario, que constitui a propria base da 
sua existencia.57 
Alem disso, razoes de outra ordem tambem a levaram a se preocupar 
como "povo". Nos tempos orgiasticos do capital, a voracidade da burguesia 
havia feito com que mulheres e crian<;:as trabalhassem em condi<;:6es 
realmente infquas. Mas essa procura doida de uma mao-de-obra cada vez 
mais barata amear;ava aniquilar essas mesmas classes sofredoras de que 
o capital se nutre. Os pr6prios interesses da burguesia fizeram com que 
esta percebesse o quanto insensato seria matar a sua galinha dos ovos de 
ouro, e ao mesmo tempo que a sua sede de lucro a levava a destruir o 
Jar operario - o mesmo Jar de Leonardo e Gertrudes, em que Pestalozzi 
havia depositado as suas dindidas esperan<;:as -, os seus te6ricos se 
apressaram a proclamar "os sagrados direitos da infiincia" ... 
56. Citado por Marx no El Capital, tomo I, pag. 307, nota I da tradu~ao de Justo. 
Desde essa epoca, a opiniao nao mudou. "As classes dirigentes locais - disse em outubro 
de 1907 ao Comissario da Emigra~ao, Sr. Adolfo Rossi, urn proprietario bastante conceituado 
em Catanzaro - sempre tern sustentado, e ainda o fazem, que saber ler e escrever e uma 
desgra~a." Cf. Salvemini: Problemi Educativi e Sociali dell'Italia d'Oggi, pags. 76-77. 
57. No livro de Adrien Dansette - L'Education Populaire en Angleterre - ha dados 
muito ilustrativos a respeito do carater da educa~ao popular, especialmente no que se refere 
a educa~ao de adultos e a chamada "extensao universitaria". 
150 
Nessa ocasiao, como em muitas outras, salta aos olhos a agudeza 
de uma observa<;:ao de Marx: quanto mais alquebrada estiver a ordem das 
coisas, mais hip6crita se torna a ideologia da classe dirigente. A burguesia 
nao s6 deixou correr algumas lagrimas sobre a desgra<;:ada causa da 
infiincia, como ainda responsabilizou o "abandono culpavel dos pais" pelo 
ocorrido. Como se, antes de decidir-se a "proteger", com leis nunca 
cumpridas, o desamparo das crian<;:as operarias, nao tivesse sido essa 
mesma burguesia quem primeiro destruiu as antigas condi<;:6es familiares! 
Ainda faltava, contudo, uma hipocrisia: no mesmo seculo em que 
Jules Simon publicava urn livro com este tftulo terrfvel - 0 Operario 
de Oito Anos -, no mesmo seculo em que o numero de suicfdios de 
crian<;:as se elevava de modo tragico58 ; no mesmo seculo em que Lino 
Ferriani, Procurador do Reino da Italia, denunciava que na sua patria se 
compravam criancinhas por trinta Iiras, para obriga-las a trabalhar nas 
industrias vidreiras do estrangeiro59 ; nesse mesmo seculo, a sensfvel Ellen 
Key anunciou comovida que tfnhamos entrado no "seculo das crianci-
nhas" ... 60 
58. Moreau de Tours: Du Suicide chez les Enfants, pag. 12. 
59. Ferriani: La Explotacirin /nfantil, pag. II. 
60. Como vivem e como se alimentam as crian~as de Buenos Aires? A unica estatfstica 
oficial que temos foi realizada em 1932 pelo XII Conselho Escolar, entre varias escolas do 
seu setor. As conclus6es sao realmente espantosas. Das 3.755 crian~as investigadas (entre 6 
e 14 anos), 41 nao comem nada de manha cedo; 797, apenas pao, apenas cha-mate, ou 
apenas cha com pao; 495 tomam cha-mate e comem pao com manteiga;938 tomam apenas 
cafe com Ieite; 1.267 tomam cafe com Ieite e comem pao, e apenas 174 (que corresponde 
a aproximadamente 0,45% do total) tern uma refei~ao matinal mais completa. E isso em 
1932, quando o pao e o Ieite ainda nao haviam alcan~ado os vergonhosos pre~os atuais. 0 
que comerao agora essas crian~as? 
E no almo~o? Ha os que nada comem, ha os que tomam cafe com Ieite, ha os que 
tomam apenas sopa e os que comem apenas urn cozido. Sao ao todo, 1.515. Os que comem 
dois pratos frugais sao 1.732. Para o jantar temos o mesmo quadro, mas com tintas ainda 
mais sombrias. 
Como dormem e onde o fazem? Em media, as famflias dessas crian~as constam de 
5,5 pessoas cada uma; 1.120 crian~as dorrnem em camas individuais; 1.783 delas dormem 
com uma companhia; 702 delas repartem o sen leito com duas pessoas, e ha as que o 
fazem com quatro, ou com cinco ... 
151 
( 
! 
/ 
CAPITULO VII 
A NOV A EDUCAC::AO 
Primeira Parte 
As aspira~6es da burguesia no terreno pedag6gico, tao pomposamente 
enunciadas por Rousseau e tao pobremente realizadas por Pestalozzi e 
seus discfpulos, pareceram, por volta de 1880, quase uma realidade. 0 
advento da escola laica, conseguido por essa epoca depois de violentos 
debates, punha, de certo modo, urn ponto final a batalha empreendida 
alguns seculos atnis com a inten~ao confessada de arrebatar a Igreja o 
controle do ensino. 
Mas, na realidade, o advento da escola laica nao foi uma vit6ria, 
foi apenas uma transa~ao. Depois da Revolu~ao Francesa, a restaura~ao 
momirquica foi acompanhada em todas as partes por uma feroz rea~ao 
nas escolas. Uma rea~ao tao feroz que provocou por sua vez, da parte 
da burguesia liberal, urn 6dio a Igreja, perfeitamente companivel ao dos 
primeiros dias da Revolu~ao. Logo no dia seguinte ao da subida de Luis 
Felipe ao trono- prot6tipo do rei burgues -, uma multidao de comerciantes 
e openirios irrompeu a sede da arquidiocese de Paris, quebrando janelas, 
destruindo m6veis e lan~ando ao Sena vestimentas eclesiasticas, calices e 
imagens. 0 diario oficial - Le Moniteur - se Iimitou a publicar poucas 
linhas a respeito dessa justa indigna~ao do povo. 1 
I. Dubreton Casimir Perier, pags. 70-77. 
153 
I 
I 
Nao se passaram muitos anos quando algumas vozes, que reclamavam 
o cumprimento das promessas com que a burguesia conquistou, em 1830, 
() apoio do proletariado, vieram demonstrar as classes dirigentes que talvez 
fosse oportuno volver os olhos ao Padre-nosso da infancia. A her6ica 
subleva<_;:ao dos tecel6es de Liao, em primeiro Iugar, e do proletariado de 
Paris, depois, fez com que a burguesia se aproximasse da lgreja, e como 
esta nao empresta gratuitamente a sua colabora<_;:ao para nada, o resultado 
dessa aproxima<_;:ao foi uma considenivel invasao do clero nas atribui<_;:6es 
estatais, tao consideravel que, no terreno pedag6gico, e impossfvel imaginar 
uma submissao mais completa da escola aos interesses da Igreja, do que 
a que ocorreu na Fran<_;:a, em meados do seculo XIX, como uma decorrencia 
da chamada Lei Falloux. 
As tentativas que a burguesia liberal empreendeu desde essa epoca, 
no sentido de arrebatar de novo a Igreja a conquistada hegemonia no 
terreno pedag6gico, ressentiram-se da existencia de graves contradi<_;:6es. A 
burguesia era inimiga da lgreja, mas, ao mesmo tempo, necessitava dela. 
lnimiga, na medida em que pretendia realizar os seus neg6cios sem a 
interferencia desse "s6cio" de ma-fe, que sempre estava disposto a apro-
priar-se dos melhores bocados; aliada, na medida em que via na Igreja, 
e com razao, urn poderoso instrumento para inculcar nas massas operarias 
a sagrada virtude de se deixar tosquiar sem protestos. 
A escola laica que resultou desse conflito estava, portanto, muito 
Ionge de ser revolucionaria: ela pretendia tao-somente regulamentar o 
ensino religioso ministrado nas escolas, de modo a evitar conflitos no seio 
de uma institui<_;:ao que era freqlientada por burgueses pertencentes a varios 
credos. E tanto isso e verdade que todas as vezes que os paladinos dessa 
lei se viram obrigados a expor francamente as suas ideias, estas se 
mostraram bern mais retr6gradas do que as expostas urn seculo atras pela 
ala esquerda do Terceiro Estado. Em vez de combater· a lgreja, como o 
fazia Voltaire, em vez de afirmar que urn povo educado por sacerdotes 
nao pode ser urn povo livre, como o fez Condorcet, os que na ocasiao 
defendiam o laicismo se limitaram, no fundo, a proclamar o seu maximo 
respeito pelo Jato religioso. "Nao nos sentimos autorizados pelos nossos 
eleitores a combater nenhuma cren<_;:a", declarava Jules Ferry. E, no 
Congresso Pedag6gico de 1881, esse mesmo parlamentar aconselhava aos 
professores "que se guardassem dos fanatismos, tanto do religioso quanto 
do nao-religioso, que sao igualmente maus".2 Mais explfcito ainda, Ernest 
Lavisse, no seu famoso Discurso as Crian(:aS, dizia que OS enciclopedistas 
procederam muito mal "referindo-se impensadamente ao espfrito religioso, 
2. Citado por Buisson na pag. 12 da sua Enseiianza Laica. 
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opw ,. 11111 podcr legftimo e forte". 3 "Quando observamos, estrita neutralidade 
illlo·so·cnla ·- c 6 necessaria que nao se !he oponha o menor impedimenta, 
IIIIIJ'IIl"lll ll'm o direito de queixar-se. Os escolares tern as suas horas leigas 
,. ,,., .~uas horas religiosas. Nao se introduziu na sua existencia nenhuma 
1""11111 ku;:·1o". "A escola ntio esta nunca demasiado longe da Igreja". 4 
l'\llll"ssivas palavras essas nos labios de urn campeao do laicismo; tao 
1 l.u a.s no seu aspecto politico, que pronuncia-las equivale a dizer: a 
IHII)',IIl'sia e a Igreja se estorvam mutuamente muitas vezes, mas como 
lt'lll lllll inimigo comum pela frente seria insensato que elas se separassem 
d1"111asiado uma da outra.5 
Cinqlienta anos ja transcorreram desde essa ocasiao. De acordo com 
as dcclara<_;:6es expressas dos seus pr6prios te6ricos, a burguesia nao foi 
capaz de dar as massas durante todo esse tempo nem mesmo aquele 
mrnimo de ensino que convinha aos seus pr6prios interesses. Se tomarmos 
como fndice da eficacia da escola primaria a porcentagem de alunos que 
conseguiram termimi-la, somos obrigados a concluir que s<l urn numero 
muito reduzido de crian<_;:as esta em condi<_;:oes de cursa-Ia de ponta a 
ponta: 45% na Prussia, 41% na Austria, 25% na Bclgica. Na Argentina, 
a estatfstica escolar de 1916 demonstrou que, dos alunos que tenninaram 
o quarto ano primario, s6 20% terminaram os seus estudos no Colcgio 
Nacional e que, portanto, 80% das crian<_;:as argentinas nao recebem instru<,:ao 
suficiente. De cada 100 alunos do primeiro ano, 55 cursam tambcm o 
segundo, 31, o terceiro, 19, o quarto, 10, o quinto, e, 6, o sexto. Resulta 
daf uma perda anual de respectivamente 45, 69, 81, 90 e 94%, que se 
mantem constante. 
Esses numeros sao tao claros que urn ex-mtmstro argentino da 
instru~ao publica, Carlos Saavedra Lamas, declarava h:i nao muito tempo 
que o nosso sistema atual de educa<_;:ao era inepto, "porque nao atendia 
as necessidades de toda a popula<_;:ao segundo idade, situa~;ao escolar e 
tendencias".6 Seculo e meio ap6s a Revolu<_;:ao Francesa, a burguesia 
reconheceu, portanto, e pelas palavras dos seus pr6prios ministros, que as 
suas escolas nao asseguram as massas o mfnimo necessaria de educa~;ao 
de que necessitam. 
3. Lavisse: Discurso a los Niiios, pag. 6. 
4. Lavisse, ob. cit., pag. 8. 
5. Na Argentina, a Lei no 1420 de Educa9iio Comum exclui dos programas o ensino 
da religiao, mas niio o profbe. Ao contnirio, no programa de instru9iio moral destinado ao 
quarto ano fala-se da "reverencia a Deus e da obediencia as suas leis". 
6. Schallzman: Humanizaci!Jn de Ia Pedagogfa, pag. 96. 
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E verdade que os espfritos mais reaciomirios se atreveram a negar 
essa realidade: nao e verdade que a escola burguesa nao possa dar instru~ao 
a todos, ela apenas elimina os realmente incapazes de receber essa instru~ao. 
Essa e a opiniao que se percebe em muitos pedagogos contemporiineos, 
mesmo nos mais

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