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O�stetríci� Trabalho de parto ● Definição O trabalho de parto representa as últimas horas da gestação humana, caracterizado por contrações uterinas fortes e dolorosas que efetuam a dilatação cervical e fazem o feto descer através do canal de parto. A falta de reatividade miometrial é suspensa e o colo passa pelos processos de amadurecimento, apagamento e perda da coesão estrutural. ● Teorias Três teorias contemporâneas gerais descrevem o início do trabalho de parto. Visto de maneira simplista, a primeira é a perda funcional dos fatores de manutenção da gestação. A segunda se concentra na síntese de fatores que induzem a parturição. A terceira sugere que o feto maduro seja a fonte do sinal inicial para o início da parturição. As pesquisas atuais sustentam um modelo que abrange os três temas. ● Compartimentos maternos e fetais 1) Útero → Miométrio: A camada miometrial do útero é composta de feixes de células musculares lisas circundadas por tecido conectivo. Diferentemente dos músculos esquelético ou cardíaco, a célula muscular lisa não é terminalmente diferenciada e, assim, é prontamente adaptável a mudanças ambientais. Vários estímulos, como estiramento mecânico, inflamação e sinais endócrinos e parácrinos, podem modular a transição da célula muscular lisa entre os fenótipos que fornecem crescimento, proliferação, secreção e contratilidade celular. → Endométrio: Revestindo as espessas paredes musculares uterinas, o endométrio é transformado pelos hormônios gestacionais, passando a ser chamado de decídua. Composta de células estromais e células imunes maternas, a decídua serve para manter a gestação por meio de funções imunorreguladoras únicas que suprimem os sinais inflamatórios durante a gestação. Porém, ao final da gestação, ocorre a ativação da decídua. Com isso, ela passa a induzir sinais inflamatórios e suspende a imunossupressão ativa, o que contribui para iniciar a parturição. → Colo: Durante a gestação, o colo uterino tem múltiplas funções, incluindo: (1) manter a função de barreira de forma a proteger o trato reprodutivo contra infecções; (2) manter a competência cervical, apesar das forças gravitacionais crescentes à medida que o feto aumenta de tamanho; e (3) coordenar as O�stetríci� alterações da matriz extracelular que permitem aumentos progressivos da complacência dos tecidos. 2) Placenta Além de fornecer a troca de nutrientes e resíduos entre a mãe e o feto, a placenta é uma fonte importante de hormônios esteroides, fatores de crescimento e outros mediadores que mantêm a gestação e potencialmente auxiliam a transição para a parturição. As membranas fetais – âmnio, córion e decídua adjacente – formam um envoltório importante de tecidos ao redor do feto, que serve como proteção fisiológica, imunológica e metabólica contra a iniciação inoportuna da parturição. O âmnio fornece praticamente toda a força tênsil das membranas fetais para resistir a lacerações e rupturas. Esse tecido avascular é altamente resistente à penetração por leucócitos, microrganismos e células neoplásicas. Além disso, ele forma um filtro seletivo que impede que partículas de secreções originadas do pulmão e da pele alcancem o compartimento materno. Dessa maneira, os tecidos maternos são protegidos contra os constituintes do líquido amniótico, que poderiam acelerar prematuramente a ativação da decídua ou do miométrio ou poderiam gerar efeitos adversos, como a embolia por líquido amniótico. O córion é uma camada de tecido principalmente protetora e oferece aceitação imunológica. Ele é também enriquecido com enzimas que inativam uterotônicos, que são agentes que estimulam as contrações. As enzimas inativadoras incluem prostaglandina-desidrogenase, ocitocinase e encefalinase. ● Períodos clínicos do parto ⇒ Fase latente A fase latente do parto é, portanto, a fase do período premonitório em que as contrações uterinas tornam-se progressivamente mais intensas, na ausência de dilatação progressiva e rápida do colo. Possui duração aproximada de 14 horas em multíparas e de 20 horas em nulíparas. A transição para a fase ativa do trabalho de parto (período de dilatação) é gradativa. [Período premonitório: À medida que o momento do parto se aproxima, há uma descida do fundo uterino (2 a 4 cm), com a acomodação da apresentação ao canal do parto. As contrações uterinas, ainda irregulares, levam à formação e adelgaçamento do segmento uterino inferior e O�stetríci� orientação do colo uterino, que passa a se alinhar ao eixo vaginal. As gestantes começam a perceber as contrações uterinas, por vezes com cólicas, porém incoordenadas e irregulares, podendo ser confundidas com contrações reais de trabalho de parto. Ocorre, também, aumento das secreções cervicais e a saída do tampão mucoso endocervical. Neste período, também ocorre o amolecimento, apagamento e centralização progressivos do colo uterino.] O apagamento cervical é a “obliteração” ou “subida” do colo. Ele se evidencia clinicamente pelo encurtamento do canal cervical, que começa com comprimento aproximado de 3 cm e termina simplesmente com um orifício circular com bordas praticamente da espessura de uma folha de papel. ⇒ Trabalho de parto ativo - 1. Período de Dilatação Inicia-se no final da fase latente (dilatação entre 3 e 5 cm) e termina quando o colo uterino encontra-se totalmente dilatado (10 cm nas gestações a termo). A duração do período de dilatação difere entre primíparas e multíparas. Nas primíparas é mais demorado, apresentando duração aproximada de 10 a 12 horas. Nas multíparas costuma ser mais rápido, com duração de 6 a 8 horas. O colo uterino, nas multíparas, caracteristicamente, dilata-se e apaga-se durante o trabalho de parto, enquanto nas primíparas o apagamento ocorre antes do início do trabalho. - 2. Período Expulsivo Tem início no final do período de dilatação (dilatação total do colo uterino: 10 cm) e termina com a expulsão total do feto. Dura em média 50 minutos nas primíparas e 20 minutos nas multíparas. É considerado prolongado caso apresente duração superior a uma hora. O diagnóstico do período expulsivo pode ser feito de várias formas. A mais precisa é através do toque vaginal, quando percebemos que não há mais colo uterino a se interpor entre a apresentação e o canal vaginal (dilatação total do colo uterino). As contrações uterinas atingem seu máximo, com uma frequência de 5 em 10 minutos, durando de 60 a 70 segundos. A gestante apresenta O�stetríci� esforços expulsivos (puxos) e desejo de defecar. - 3. Secundamento, delivramento, decedura, dequitação ou dequitadura Corresponde ao descolamento e expulsão da placenta e das membranas ovulares. Ocorre cerca de 10 a 20 minutos após o período expulsivo. É considerado prolongado quando ultrapassa 30 minutos. No entanto, geralmente após duas a três contrações uterinas a placenta já está totalmente descolada. A forma do útero modifica-se de “achatada” (com a placenta ainda inserida no fundo uterino) para globosa. ⇒ Quarto Período do Parto Tem início no final do secundamento e estende-se até uma hora após o parto. Este período demanda observação cautelosa pelo risco de hemorragias. Representa a hemostasia do sítio de inserção placentário. Os mecanismos de hemostasia nesta fase são: − Miotamponagem: caracteriza-se pela contração da musculatura uterina, que desencadeia uma consequente ligadura dos vasos uteroplacentários (ligaduras vivas de Pinard). − Trombotamponagem: formação de trombos (coágulos) nos grandes vasos uteroplacentários e hematoma intrauterino que promovem o tamponamento de arteríolas e veias abertas no sítio placentário. − Indiferença miouterina: o útero se torna “apático” e, do ponto de vista dinâmico, apresenta fases de contração e relaxamento, podendo se encher progressivamente com sangue. − Contração uterina “fixa”: depois de decorrida uma hora, o útero adquire maior tônus,a contração se sobrepõe ao relaxamento. Assim, o útero se mantém contraído, constituindo o chamado globo de segurança de Pinard. ● Boas práticas de assistência ao parto normal FASE LATENTE - A conduta é expectante. - Podendo a duração ser de até cercade 20h . - Os ocitócicos devem ser evitados, devido ao risco aumentado de cesariana, em decorrência do colo desfavorável. MOMENTO DA INTERNAÇÃO HOSPITALAR: Parturientes com menos de 4 cm de dilatação, quando internadas, aumentam o risco de intervenções obstétricas como O�stetríci� analgesia peridural, administração de ocitocina e cesariana. PREPARO NA ADMISSÃO: - Solicitação de exames de rotina, como teste rápido de HIV e VDRL - Checagem da cultura de Streptococcus do grupo B → para saber quais pacientes necessitarão de profilaxia antibiótica durante o trabalho de parto - Verificação da carteira pré-natal → tipagem sanguínea e o Rh materno, todos os exames realizados durante a gestação e também a sinalização de alguma patologia ocorrida durante a gestação e de que no momento precisamos cuidar adequadamente (por exemplo, hipertensão, diabetes). - Não realizamos nenhum procedimento de tricotomia ou enteróclise (enema), assunto já superado por ser ineficiente o procedimento. - Também a punção de veia periférica está proscrita, sendo realizada somente em casos em que deveremos medicar a paciente por algum motivo. - A avaliação do bem-estar fetal é realizada por cardiotocografia de 20 minutos, na qual poderemos constatar a boa condição fetal. A monitorização contínua dos batimentos cardíacos fetais fica restrita ao alto risco. - O feto deve ser auscultado a cada 30 minutos, enquanto a parturiente estiver no pré-parto. A ausculta deverá ser antes, durante e após as contrações (até 40 segundos após), para termos uma avaliação adequada do bem-estar fetal e podermos observar acelerações transitórias ou algum tipo de desaceleração dos batimentos cardíacos fetais. - Durante a fase ativa do trabalho de parto, pode haver variações na força e na frequência das contrações, mas geralmente são de 3 em 3 minutos até o final da fase de O�stetríci� dilatação e de 2 em 2 minutos no período expulsivo. A duração varia de 30 a 90 segundos, geralmente 1 minuto. - Durante a fase de dilatação, a gestante deve ficar da maneira que escolher, pois será a que melhor lhe dará conforto e resistência para absorver os incômodos das contrações uterinas. - Devemos estimular que gestantes em trabalho de parto possam deambular, nem que seja de vez em quando, pois o movimento do corpo move as articulações da bacia, facilitando a passagem do concepto pelo canal de parto e, em geral, causando maior conforto à parturiente, principalmente durante as contrações uterinas. Bolas, cavalos de pau, espaldares de ginástica ou cordas são alguns artifícios usados para diminuir o desconforto das contrações e facilitar a descida fetal. - O bom senso manda que possamos administrar, ao menos, líquidos claros para as gestantes durante todo o trabalho de parto. Mesmo procedimentos de urgência em obstetrícia, nos dias hoje e na maioria das vezes, são realizados com bloqueio anestésico, e não com anestesia geral, e isso facilita manter a paciente acordada, com chances quase zero de aspiração de conteúdo gástrico. Líquidos claros são os alimentos que têm trânsito intestinal fácil e não deixam resíduos. Café (sem creme ou leite), chá, sucos de frutas sem a polpa (maçã, uva branca e limonada), caldos, consumê, gelatinas (não vermelhas), mel, açúcar, caramelos claros duros e sal são exemplos de alimentos do grupo dos líquidos claros. - Não existe nenhuma necessidade de realizar exames de hora em hora, principalmente na fase latente do trabalho de parto. Intervalos de 4 horas para o toque vaginal na fase latente parecem estar adequados e também a cada 2 horas de intervalo na fase ativa do trabalho de parto. O�stetríci� O�stetríci� - Quando se atinge 10 cm de dilatação (dilatação completa), é um indicativo de que esse feto deva nascer em no máximo 4 horas. Estando o concepto em boas condições, podemos estimar que em nulíparas o tempo será entre 60 e 240 minutos, enquanto para quem já teve parto prévio será de 60 até 120 minutos. - Nesse período, a ausculta dos batimentos cardíacos fetais deve ser realizada a cada 5 minutos, sendo frequente e comum o aparecimento de desacelerações do tipo I (durante a contração), com recuperação plena após a contração. A monitorização contínua fica restrita à presença de mecônio ou alguma suspeita de situação fetal não tranquilizadora. - A episiotomia nos dias de hoje deve ser restrita às necessidades de aceleração do desprendimento da cabeça fetal (situação fetal não tranquilizadora), cansaço materno, instrumentação de parto (alguns advogam a não realização da episiotomia mesmo com instrumentação) e convicção do parteiro de que haverá ruptura perineal. - “Puxos” espontâneos são contrações dos músculos retos abdominais reflexas a pressão da cabeça fetal sobre o períneo durante a contração. Esses “puxos” não devem ser solicitados, e sim estimulados quando aparecem voluntariamente da parturiente. - Imediatamente antes do desprendimento da cabeça fetal, necessitamos fazer a “proteção” do períneo. Apesar de não haver consenso de qual o melhor método de proteção perineal, uma das maneiras aceitas é pressionar com os dedos ou com uma compressa o períneo contra a cabeça fetal, quase nascida, e com a outra mão dificultar a saída abrupta da cabeça fetal, para que ela possa nascer lentamente e com a menor possibilidade de laceração perineal. - A manobra de Kristeler (empurrar o fundo do útero com a contração uterina), se não está proscrita, deve ser usada somente por obstetra muito experiente, em situação extrema, pois seu potencial deletério é bem superior ao seu benefício (ruptura uterina, descolamento prematuro de placenta, entre outros). O�stetríci� - Imediatamente após a liberação do ombro posterior, já podemos realizar a prevenção do sangramento uterino aumentado aplicando 10 UI de ocitocina, IM, manobra de consenso mundial e que não precisa ser mais justificada ou debatida. - Retirado o concepto, imediatamente o colocamos no abdome materno, para contato pele a pele com sua mãe, e providenciamos um campo para cobrir o recém-nascido. Estando ele com bom tônus, boa coloração e geralmente tendo chorado, aguardamos no mínimo 1 minuto e faremos a ligadura do cordão umbilical com um cordclamp, pinça e tesoura. - Segue-se a dequitação, ou descolamento da placenta, que ocorrerá entre 5 e 30 minutos após o nascimento do concepto. Apesar de existir defesa para aguardar até 60 minutos pela saída da placenta, ao decorrer 30 minutos obtemos o consentimento informado da paciente, chamamos o anestesista se ele ainda não estiver presente, anestesiamos a puérpera e realizamos a retirada manual da placenta, seguida de curetagem, se necessário. - A tração do cordão umbilical na dequitação deve ser suave o suficiente para não tracionar o útero (evitar inversão uterina) e não romper o cordão umbilical. Orientamos apenas “dirigir” a saída da placenta pela vagina/vulva sem propriamente tracionar. - Retiraremos a placenta com rotações contínuas sobre o seu próprio eixo, propiciando a saída por inteiro das membranas amnióticas. O�stetríci� CUIDADOS MATERNOS IMEDIATAMENTE APÓS O PARTO - O mecanismo próprio inicial para evitar o sangramento anormal é a contratura miometrial uterina, por isso o útero fica como “bola” dura, palpável no abdome materno ligeiramente abaixo da cicatriz umbilical. A contratura miometrial oblitera os vasos e confere um tempo para a ação do estado de hipercoagulação da gestante poder formar trombos nas grandes artérias que irrigavam a placenta. ● O partograma → O partograma é uma representação gráficada evolução do trabalho de parto, cujo uso se tornou obrigatório em toda maternidade a partir de 1994 (OMS). A fase ativa é dividida em três períodos: fase de aceleração (dilatação inicial, com duração de cerca de uma hora), fase de inclinação máxima (dilatação linear e rápida) e fase de desaceleração (dilatação em velocidade constante), na qual ocorre normalmente a descida da apresentação. Esta usualmente ocorre O�stetríci� de forma tardia na fase ativa de dilatação, tornando-se mais rápida após 8 cm de dilatação. O padrão de descida varia de acordo com a paridade da paciente, sendo mais tardia nas multíparas (próximo da dilatação total). As marcações são iniciadas na fase ativa do trabalho de parto (a partir de 3/4 cm), anotando-se a hora em que os registros foram iniciados. A taxa normal de dilatação do colo varia em torno de 1,2 a 1,5 cm/h. Se a dilatação for inferior a 1 cm/h, as marcações irão se aproximar da “linha de alerta”. O alerta implica simplesmente a necessidade de uma melhor observação clínica. Se houver parada ou atraso maior da dilatação, a dilatação ultrapassará a “linha de ação”, ficando à direita desta linha e indicando a necessidade de correção do problema (parto disfuncional). O trabalho de parto disfuncional não representa um diagnóstico em si, mas um sinal de que existe alguma anormalidade no andamento do parto e cuja causa deve ser investigada e, se possível, corrigida. O�stetríci� O�stetríci� ● Distocias O�stetríci�