A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
202 pág.
livro (2)

Pré-visualização | Página 49 de 50

numa densa rede de relações 
pessoais baseadas principalmente no parentesco e no contato social direto. As 
183
normas em grande parte não eram escritas e os indivíduos estavam ligados 
uns aos outros numa teia de interdependência fechada, que envolvia todos os 
aspectos da vida: a família, o trabalho, as poucas atividades de lazer, etc. Assim, 
a comunidade é um tipo de agrupamento humano no qual se observa um grau 
elevado de intimidade e coesão entre seus membros e onde predominam os 
contatos sociais primários, com influência fundamental da família.
 A Gesellshaft, por outro lado, é a estrutura de leis e outros 
regulamentos que caracterizam as grandes sociedades urbanas industriais. As 
relações sociais são mais formalizadas e impessoais; os indivíduos não dependem 
uns dos outros para seu sustento e estão muito menos obrigados moralmente entre 
si. Portanto, a sociedade designa agrupamentos humanos que se caracterizam 
pelo predomínio de contatos sociais secundários e impessoais, próprios da 
sociedade industrial, da complexa divisão do trabalho e da burocracia.
FONTE: Oliveira (2003, p. 51-52).
A leitura complementar e a distinção trazida até o momento entre 
comunidade e sociedade nos fazem refletir sobre o modo de organização social 
contemporâneo alicerçado por relações sociais cada vez mais indiretas. Surge o 
termo single como um modo de vida buscado constantemente nos dias atuais. 
Principalmente nas cidades grandes é notória a escolha que muitas pessoas 
estão fazendo ao, por exemplo, morarem sozinhas. Até pouco tempo atrás essa 
condição era interpretada como incompetência afetiva. Hoje passa a ser comum 
a busca pelo anonimato, conseguido por uma mudança drástica no estilo de vida 
presenciado atualmente.
O número de pessoas que moram sozinhas no Brasil aumentou 
consideravelmente, segundo dados levantados pelo Censo 2010 divulgado pelo 
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Atualmente são quase 7 
milhões de pessoas que moram sozinhas, o que equivale a cerca de 12,2% dos 
domicílios particulares permanentes no país. Em 2000 o número de domicílios 
com apenas um morador era de aproximadamente 4 milhões, o que representava 
um pouco mais de 9% do total. 
Uma questão fundamental fica diante desse diagnóstico. Por que tantas 
pessoas vêm optando por uma vida solitária? Esta questão pode ser respondida 
por vieses os mais diversos. 
A primeira constatação e um tanto óbvia é que o número de solteiros 
está cada vez maior, sejam eles aqueles que optaram por não se casar ou então 
casar mais tarde, ou aqueles que se divorciaram. É grande também o número de 
viúvos que moram sozinhos. Mais importante do que esta análise conjuntural é 
a emergência de um novo padrão, bastante egoísta e individualista. Os singles 
consideram ser um prejuízo estar com outra pessoa. Os próprios confessam ser 
pouco tolerantes em relação aos outros. Este novo perfil é encontrado muito mais 
em grandes metrópoles do que no campo. 
184
DICAS
Documentário que faz uma análise crítica das novas tecnologias é “Amigos 
virtuais”, exibido pela TV Escola. Neste material é enfatizado o papel dos novos meios de 
comunicação, que possibilitou que muitos relacionamentos sejam mantidos à distância, 
tanto por necessidade quanto por opção. Ao mesmo tempo que nos torna mais “eficientes”, 
contribuiu para um maior isolamento dos indivíduos.
Em termos de prognóstico, restam algumas dúvidas. Será necessário, para 
darmos conta dos novos problemas sociais, retomarmos valores tradicionais e 
modos mais antigos de organização? Serão os singles aqueles que se adequaram 
mais rapidamente à sociedade complexa na qual vivemos, onde privilegia-se a 
competição, a liberdade e a individualidade? 
Segundo Oliveira (2003, p. 55):
A economia capitalista, dinâmica e tecnologicamente inovadora, 
colabora para reforçar a cultura do individualismo e isolamento; 
favorece a formação de uma sociedade com pessoas egocentradas, 
com frágil conexão entre si e que buscam satisfazer apenas as próprias 
vontades e necessidades. A satisfação individualista fica acima de 
qualquer obrigação comunitária.
A grande questão diante desta citação é: será essa uma tendência “natural” 
ou cabe a nós tomarmos a “rédea” da história e revermos nossos erros com o 
intuito de retomarmos os laços sociais que outrora eram mais indispensáveis e 
desejáveis? Se é a Psicologia social a área da Psicologia que tem como objeto de 
estudo primordialmente as relações sociais, é ela uma defensora incondicional do 
ser humano “social” e “comunitário”. Se nos constituímos com o outro e se, da 
mesma forma, contribuímos na constituição de outros “outros”, esta premissa nos 
remete à contramão da tendência atual. Se temos a emergência dos singles, nada 
nos impede de, nas nossas relações cotidianas e no espaço em que nos fazemos 
presentes, reforçarmos a prevalência de um sujeito coletivo e altruísta.
185
A partir do que foi visto neste tópico é importante lembrar que:
• Embora tidos normalmente como sinônimos, o termo comunidade traz a ideia 
de relacionamento próximo, interdependência, enquanto o de sociedade a 
existência de leis formais e de união a partir de interesses bastante objetivos.
• Atualmente temos a prevalência das chamadas “sociedades societárias”, já que 
as “sociedades comunitárias” estão gradativamente desaparecendo. 
• A tendência atual é a prevalência do individualismo e do anonimato, 
características da sociedade contemporânea pautada em relações sociais 
“frias”.
RESUMO DO TÓPICO 5
186
AUTOATIVIDADE
1 Feita a leitura deste tópico, distinga os conceitos de comunidade e sociedade 
expondo qual a tendência atual, a partir dos elementos apresentados no tópico.
187
REFERÊNCIAS
ABERASTURY, A.; KNOBEL, M. Adolescência normal. Porto Alegre: Artes 
Médicas, 1989.
AGUIAR, W. M. J.; BOCK, A. M. B.; OZELLA, S. A orientação profissional com 
adolescentes: um exemplo de prática na abordagem sócio-histórica. In: BOCK, 
A. M. B.; GONÇALVES, M. G. M.; FURTADO, O. (orgs). Psicologia sócio-
histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
ANTUNES, M. A. M. A psicologia no Brasil: leitura histórica sobre sua 
constituição. São Paulo: Unimarco, 1999.
ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H .P. Temas de filosofia. 2. ed. São Paulo: 
Moderna, 1998. p. 235-236.
______. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993.
ATKINSON, R. L. et al. Introdução à psicologia de Hilgard. 13. ed. Porto 
Alegre: Artmed, 2006.
BEAUVOIR, S. de. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
BOCK, A. M. B. A Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em 
psicologia. In: BOCK, A. M. B.; GONÇALVES, M. G. M.; FURTADO O. (Orgs.). 
Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. 3. ed. São 
Paulo: Cortez, 2007.
______. Psicologia e sua ideologia: 40 anos de compromisso com as elites. In: 
BOCK, A. M. B. (org.). Psicologia e o compromisso social. São Paulo: Cortez, 
2003.
BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. de L. T. Psicologias: uma 
introdução ao estudo de psicologia. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.
BOMFIM, E. de M. Psicologia social no Brasil. Belo Horizonte: Edições do 
Campo Social, 2003.
BRAGHIROLLI, E. M. et al. Psicologia geral. 9. ed. Porto Alegre: Vozes, 1990.
BRECHT, B. Nada é impossível de mudar. Disponível em: <http://www.
comunismo.com.br>. Acesso em: 9 mar. 2010.
188
BRUSCHI, M. E. Estudos culturais e pós-modernismo: Psicologia, mídia e 
identidades. In: GUARESCHI, N. M. de F.; BRUSCHI, M. E. (Orgs). Psicologia 
social nos estudos culturais: perspectivas e desafios para uma nova psicologia 
social. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.
CAMPOS, R. H. de F. Introdução: a Psicologia social comunitária. In: CAMPOS, 
R. H. de F. (org.). Psicologia social comunitária: da solidariedade

Crie agora seu perfil grátis para visualizar sem restrições.