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1 1 www.festivalvi l lalobos.com.br twit ter : @fv lobos i ns tagram.com/fes t i va lv i l la lobosfacebook .com/fes t i va lv i l la lobos III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões Anais do III Simpósio Nacional Villa-Lobos: análise musical, história e conexões 55º Festival Villa-Lobos. 1ª Edição Rio de Janeiro Sarau Agência de Cultura e PPGM-UFRJ 2018 3 COMITÊ EDITORIAL III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: ANÁLISE MUSICAL, HISTÓRIA E CONEXÕES. Coordenação Geral: PROF. Dr. Antonio J. Augusto Comissão organizadora: PROF. Dr. Pauxy Gentil-Nunes, PROF. Dr. Antonio J. Augusto Comissão Científi ca: PROF. Dra. Lúcia Barrenechea; PROF. Dr. Humberto Amorim e PROF. Dr. Antonio J. Augusto Diagramador dos Anais: Nando Mercês Simpósio Nacional Villa-Lobos (1: 2018: Rio de Janeiro, RJ) Anais do III Simpósio Nacional Villa-Lobos: análise musi- cal, história e conexões. Festival Villa-Lobos 2017, realizado entre os dias 02 e 05 de novembro de 2017, no Centro Cultu- ral do Banco do Brasil (CCBB), Rio de Janeiro, 55º Festival Villa-Lobos / [organização] Antonio J Augusto, Lúcia Barre- nechea e Humberto Amorim [et al.] - Rio de Janeiro: Sarau Agência de Cultura Brasileira, PPGM/UFRJ, 2018 1ª Edição. Modo de acesso: http://festivalvillalobos.com.br/site/simpo- sio-nacional-villalobos ISSN 2527-1652 1. Música 2. Villa-Lobos, Heitor, 1887-1959 3. Musicolo- gia 4. Música brasileira. I. Augusto, Antonio J II. Amo- rim, Humberto III. Barrenechea, Lúcia IV Título 4 Índice CONFERÊNCIAS Villa-Lobos e(m) seu tempo Humberto Amorim 06 Heitor Villa-Lobos: o compositor e seus intérpretes Hugo Pilger 21 MESA REDONDA I:PROCESSOS E PERMANÊNCIAS Quarteto nº 17 de Villa-Lobos: síntese de processos composicionais Roberto Macedo Ribeiro 31 Trio nº 2 de Marcelo Rauta: infl uências villalobianas e procedimentos composicionais Wesley Higino e Willian Lizardo 46 MESA REDONDA II: RECEPÇÃO E CIRCULAÇÃO Heitor Villa-Lobos e o americanismo musical de Francisco Curt Lange Loque Arcanjo Júnior 60 A Dança Frenética: ecos da crítica no Rio de Janeiro e São Paulo nos anos 1920 Maria Aparecida dos Reis Valiatti Passamae 73 MESA REDONDA III: RELAÇÕES E TROCAS O Violão em estudos - entre Villa-Lobos e Mignone Cyro M. Delvizio 83 O desafi o de compor para violão solista e orquestra Elodie Bouny 97 MESA REDONDA IV: OS CHOROS “Alma Brasileira”: impressões e refl exões sobre o “Choros nº5” Maristela Rocha de Almeida Magalhães e Thalyson Rodrigues 111 Villa-Lobos e o Choros N.° 4 (1926): Ruptura ou Tradição? Reginaldo Thimóteo 122 de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 5 de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões CONFERÊNCIAS 6 de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões Conferência I Villa-Lobos e(m) seu tempo Humberto Amorim UFRJ – humbertoamorim@ufrj.br Articular uma relação de Villa-lobos no (e com o) tempo tem sido um desafi o per- cuciente para musicólogos, ensaístas e estudiosos. Ora se distanciando e ora se amalgamando, duas visões - mito vs homem - têm orientado a abordagem desta personagem múltipla e esqui- va, cujo instante-já parece deslocar-se através de furos multifacetados na rede de um presente (ou melhor, presentes) enquanto instância humana e histórica. Como abordar Villa-Lobos e(m) seus tempos? Ou, ainda, como (des)compreender Villa-Lobos e(m) nosso tempo? São inquieta- ções que serviram de fagulha para o desenvolvimento deste ensaio. A primeira articulação - a do mito - parece sugerir a signifi cação de uma vida de- sencarnada, alheia, em parte, às vicissitudes, desafi os e possibilidades oferecidas pelo campo sociocultural durante uma determinada trajetória artística. Este modo de apreender Villa-Lobos, ainda tão marcante nas publicações sobre o tema e na visão geral sobre o compositor, insinua uma relação paradoxal sobre a personagem: Villa só pode estar em seu (ou em nosso tempo) na medida em que está fora dele, como um estranho extemporâneo ou gênio predestinado, fadado a viver sob o signo de um thelos que já fora (pré) determinado antes e/ou depois de sua existência. Tal visão, inclusive, parece ter sido instigada pela atuação e construção de si pro- movida pelo próprio compositor. Enquanto era vivo, “ao mesmo tempo que fazia músicas, agia no sentido de inseri-las em diferentes universos simbólicos e de atribuir-lhes sentidos e signi- fi cados” (GUÉRIOS, 2003: 27)1. Articulou-se, quase sempre (e de modo especial a partir da década de 1920), para a afi rmação da imagem de um artista transcendente. O desejo de instituir uma “natureza cósmica” para sua produção e existência fi ca explícito em vários depoimentos, dados em situações diversas, bem como nos escritos daqueles que com ele conviveram. Em artigo publicado na revista Ariel, comentando o retorno de Villa-Lobos recém- chegado de Paris, o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) nos revela como “a ardente fé” e “egotismo” do compositor já desfraldavam a busca por uma identidade, uma imagem pessoal: Villa-Lobos acaba de chegar de Paris. Quem chega de Paris espera-se que venha cheio de Paris. Entretanto Villa-Lobos chegou de lá cheio de Villa-Lobos. A ardente fé, a vontade tenaz, a fecunda capacidade de trabalho que o caracterizam, renovam a cada momento em torno dele aquela atmosfera de egotismo tão propicia às criações verda- deiramente pessoais (BANDEIRA, 1924: 475). 1 Para mais detalhes, cf. o capítulo 1, Imagens de Villa-Lobos, em: (GUÉRIOS, 2003: 16-34). 7 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO Em entrevista concedida em junho de 1964, a Hermínio Bello de Carvalho, Tomas Terán2, por sua vez, revela como Villa-Lobos teve importante atuação na formação dos mitos a seu respeito: As lendas que se formavam sobre Villa eram também uma consequência do espírito mordaz, alegre e programaticamente polêmico do compositor. Em Paris, dera entre- vista, dizendo-se antropófago, e lembra Terán que, num jantar, descrevia como se des- trinchava um corpo humano, e, depois de minuciosa encenação, assustava com esga- res (acentuados por um olhar vivo, aberto e penetrante) seu interlocutor. A descrição, geralmente, causava o espanto que ele esperava. Era hábil: uma de suas brincadeiras consistia em jogar para o alto, aparando-o sem prejuízos, um jogo de xícaras de café: xícara-pires. Emborcava-as, jogando-as para o alto. A sensação que obteve foi maior quando, certa vez, numa casa de família, fez a brin- cadeira com um jogo caríssimo de xícaras chinesas. Era o ‘charmeur’, a personalidade que sabia cativar plenamente e que atingia seus objetivos através de meios de persuasão personalíssimos (CARVALHO, 1988: 162). A tentativa de fi xar sobre sua personalidade esta aura charmosa e persuasiva fi ca ainda mais evidente no autorretrato delineado pelo compositor em diversos depoimentos, en- trevistas e manuscritos: Eu não sou um folclorista - me dizia Villa-Lobos, recentemente -. ‘O folclore não me preocupa. Minha música é como é, porque a sinto assim. Não caço temas para utilizá-los depois. Escrevo minhas composições com o espírito de quem faz música pura. Entrego-me completamente ao meu temperamento. Acham muito brasileira mi- nha música!.É, sobretudo, porque refl ete uma sensibilidade absolutamente brasileira. Essa é a minha sensibilidade: não desejaria ter outra [...] Quase todos os meus motivos musicais são de minha invenção. E quando, em meus Choros, por exemplo, assoma um motivo típico, sempre tem sido transformado de acordo com meu temperamento. E se algum recorda, por seu caráter – com afi rmava Florent Schmidt – alguma canção popular de São Paulo, é porque essas canções são as que embalaram minha infância, sendo, portanto, as mais aptas a me comover. Sinto-as do mesmo modo que um russo sentiria os estribilhos dos cocheiros de Petrouchka’[...] 3 (apud CARPENTIER, 1928: 10). Se, quando no turbilhão das raças de uma nação nova, surge um artista de tempera- mento, embora sem um meio suscetível e sufi cientemente educado como as tradicio- nais civilizações dos velhos países, meio de um povo em formação, por conseguinte difícil de compreendê-lo, ele sofrerá fatalmente os embates de uma luta inglória no 2 Pianista espanhol (Valencia 1895 - Río de Janeiro 1964) que alcançou grande sucesso em Paris, na década de 1920. Segundo relato de Segovia: “(...) Tomás Terán, na crista da onda, lotando as salas do concerto e levando a platéia ao delírio. Quando toca Albeniz, até mesmo os críticos chamam-no ‘Toreador del piano’...” (Apud CARVALHO, 1988: 158). A amizade entre Terán e Villa-Lobos era tão próxima que chegaram a morar juntos durante a primeira estada do compositor em Paris (1923-1924). 3 Tradução livre de: “Yo no soy folklorista – me decía Villa-Lobos, recientemente -. ‘El follklore no me preocupa. Mi música es como es, porque la siento así. No cazo temas para utilizarlos después. Escribo mis com- posiciones con el espíritu de quien hace música pura. Me entrego completamente a mi temperamento. Hallan muy brasilena mi música!. Es, sobre todo, porque refl eja una sensibilidad absolutamente brasileña. Esa es mi sensibili- dad; no lograria tener outra... Casi todos mis motivos musicales son de mi invención. Y cuando, em mis Choros, por ejemplo, asoma un motivo típico, siempre ha sido transformado de acuerdo com mi temperamento. Y si alguno recuerda, por su carácter – como afi rmaba Florent Schmidt – alguna canción popular de São Paulo, es porque esas canciones son las que arrullaron mi niñez, siendo, por lo tanto, las más aptas a conmoverme. Las siento del mismo modo que un ruso sentiria los estribilos de cocheros de Petrouchka’...” 8 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO caminho sinuoso da sua predestinação. A originalidade natural será a sua única e verdadeira salvação. De todas as Artes, a que mais desperta a sensibilidade dos seres vivos é a música. Ela é um dos milagres da arte e o artista concentra os mistérios da Natureza [...] O criador original é aquele que, embora demonstrando na sua obra o conhecimento exato da diversidade do estilo na Música, empregando de uma maneira elevada mo- tivos folclóricos do país onde tem vivido e formado sua mentalidade, deixa transpa- recer nas suas composições as tendências naturais da sua predestinação e infl uências éticas do seu feitio... (Acervo do Museu Villa-Lobos). Julgo que sempre devamos crer na intenção de toda obra de arte, embora ela nos pare- ça confusa na primeira impressão. Porque ela nasce de uma função divina, misteriosa, inexplicável e passa, fatalmente, para uma outra função no mesmo estado psíquico em que nasceu. (Acervo do Museu Villa-Lobos). Peço perdão a todos de ter que falar um pouco da minha vida em relação a esse Brasil. Mas é necessário que possa, talvez, servir de exemplo aos jovens de seguir essa mes- ma trilha, esse mesmo destino que Deus me deu. Nunca na minha vida procurei a cultura, a erudição, o saber e mesmo a sabedoria nos livros, nas doutrinas, nas teorias, nas formas ortodoxas. Nunca. Porque o meu livro era o Brasil. (Transcrição de Conferência, 1951)4 [...] Eu fui levado a me servir desses elementos da natureza para formar minha música. E mas, não é bem a questão humana, é sobretudo, a questão cósmica. É a natureza do Brasil, a variedade, o mistério do Amazonas, os rios misteriosos que temos, rios incríveis como o rio São Francisco. (apud KATER, 1991: 89) 5 E, por fi m: “A minha obra é consequência da predestinação. Se ela é em grande quantidade, é porque é fruto de uma terra extensa, generosa e quente” (Acervo do Museu Villa -Lobos). 6 Em todos os relatos, parece nítida a intenção de se afi rmar como artista livre, origi- nal por natureza, predestinado e imbuído de uma “função divina, misteriosa e inexplicável”. É o próprio Villa quem inicialmente sugere um princípio “cósmico” à sua criação, posicionando-a, assim, em outro plano de análise que escapa de sua feição humana e dela se distancia. O mito atemporal começa a derrubar, então, o homem de carne e osso, paradoxalmente este mesmo que operava suas articulações dentro dos bojos socioculturais que o circundavam. Esse posicionamento pode sugerir explicação para uma série de atitudes que, até o imprescindível trabalho de Guérios (2003), ainda eram pouco discutidas por seus biógrafos: a redatação de obras para evitar a constatação de possíveis infl uências de outros compositores, sobretudo Stravinsky (Amazonas, Uirapuru e o Trio para Oboé, Clarineta e Fagote, por exem- 4 Essa conferência foi proferida em João Pessoa, no estado da Paraíba, e publicada com a voz original do compositor, em Cd comercial. 5 Entrevista concedida a Madeleine Milhaud, a 12 de março de 1952, em Paris. Encontrava-se nos acervos do I.N.A - Instituto Nacional de Audiovisual, em Paris, sendo material desconhecido até a transcrição e publicação no artigo de Carlos Kater. 6 Importante ressaltar as datas dos depoimentos: o de Manuel Bandeira é de 1924; o inicial do compositor é de 1928; o segundo é da década de 1930; o terceiro é da década de 1940; o seguinte é de 1951; o posterior é de 1952; e o último é de 1957. Nota-se, portanto, que o desenho de tal “predestinação” foi algo que o acompanhou por toda a vida a partir da década de 1920. 9 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO plo)7; a maneira como dimensionava o seu autodidatismo8; a invenção de odisseias aventurei- ras em torno de suas viagens e, sobretudo, a forma como se comportava em relação às críticas que recebia: “[...] o relacionamento do compositor com quem falava a seu respeito [em desacor- do com sua autoimagem] parecia, no mínimo, difícil” (GUÉRIOS, 2003: 35). Na reunião destes lances de dados impetrados por Villa, sua potência criadora desponta como instância ao lado do jogo temporal (ou seja, fora dele), e não propriamente articulada a partir dele. Neste sentido, o que se projeta diante de nós é uma imagem de Villa-Lobos aparta- do de seu tempo, duas retas paralelas que, embora caminhem juntas, somente se tocam quando é preciso (re) afi rmar a construção do mito desencarnado. Ou, em outras palavras, a produção - intencional ou não - de um monumento9: “O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro - voluntária ou involuntariamente - determinada imagem de si próprias. No limite, não existe um documento-verdade. Todo o documento é men- tira” (LE GOFF, 1990: 545). A contínua reprodução e naturalização desta imagem monumental, longe de ser fortuita, é fruto de um sinuoso método, cujas possíveis inconveniências são susci- tadas por Michel de Certeau em a Invenção do Cotidiano: O inconveniente do método, condição do seu sucesso, é extrair os documentos de seu contexto histórico e eliminar as operações dos locutores em circunstâncias par- ticulares de tempo, de lugar e competição. Ou seja, acabam sendo exercidas em um ‘campo próprio’ que é distante das formas variadas com que, de fato, são utilizadas nas práticas e nos usos. Daí o privilégio que esses estudos concedem aos discursos, coisa deste mundo que é aquela que se pode mais facilmente captar, registrar, trans- portar e abordar em lugar seguro, enquanto o ato de palavra não pode separar-se da circunstância”(CERTEAU, 1994: 81-82, grifo nosso). A notável habilidade social de Villa-Lobos para impor a si e aos outros uma ima- 7 “Villa-Lobos fazia recuar várias composições em vários anos. Uma das intenções esperadas era demons- trar que o caráter brasileiro de sua música existia desde cedo, mesmo quando ele compunha, de fato, num espírito inteiramente francês e internacional. Era uma legitimação de precocidade nacionalista” (COLI, 2006: 73). Para mais detalhes, ver também: (GUÉRIOS, 2003: 100-128, capítulo 4). 8 . Mesmo nos estudos mais recentes sobre Villa-Lobos, a formação musical do compositor continua a fomentar dúvidas. Na última edição de seu livro, por exemplo, Mariz afi rma: “fi cou comprovado que Villa-Lobos jamais esteve matriculado no antigo Instituto Nacional de Música, apesar de ele me haver afi rmado ter sido aluno de Benno [Breno] Niedenberger, Frederico Nascimento e Agnello França naquela instituição” (MARIZ, 2005: 163). No entanto, as pesquisas de Avelino Romero Pereira mostraram que houve, sim, inscrição de Villa-Lobos no Instituto Nacional de Música, nos cursos noturnos, suspensos por Henrique Oswald em 1904, quando este acabara de assumir a direção da casa. Villa-Lobos teve seus estudos interrompidos, portanto, não com a perspectiva de novas viagens pelo Brasil, conforme sugerem seus primeiros biógrafos, mas com o fechamento do curso no qual estava inscrito. O mais revelador é que Villa-Lobos estava matriculado em duas cadeiras: Violoncelo e Solfejo! Para mais detalhes, ver: (PEREIRA, 1995: item “Uma greve no INM”). 9 “O monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos [...] O monumento tem como características o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntá- ria, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos” (LE GOFF, 1990: 536). 10 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO gem mítica10 de si, resulta, muitas vezes, no apagamento de sua trajetória social em face às particularidades de um “campo próprio”, delineado, como nos aponta Certeau, em condições excepcionais de tempo, lugar e competição. Mesmo a análise técnica de sua produção acaba recorrendo ao gênio nos momentos em que se torna difícil uma abordagem contextualizada e mais profunda de seus procedimentos composicionais característicos11. Em sua História Social da Música, o apontamento de Henry Raynor parece confrontar tal perspectiva: A música só pode existir na sociedade; não pode existir, como também não o pode uma peça, meramente como página impressa, pois ambas pressupõem executantes e ouvintes. Está, pois, aberta a todas as infl uências que a sociedade pode exercer, bem como às mudanças nas crenças, hábitos e costumes sociais (RAYNOR, 1981: 9). Essa imagem de um Villa-Lobos extemporâneo acaba por atravessar, de modo mui- to particular, a sua portentosa obra para violão. Pelas particularidades idiomáticas e força musi- cal, não é mero encômio considerá-la a mais determinante coleção de um compositor brasileiro para o instrumento. Além das obras orquestrais (Concerto e Introdução aos Choros) e de suas 07 peças para música de câmera com a participação do instrumento12, sua obra solo compreende a Valsa de Concerto n. 2 (1904), a Suíte Popular Brasileira (6 peças, incluindo a Valse-Choro recém- descoberta nos acervos da editora francesa Max-Eschig), o Choros 1 (1920), os 12 Estudos (1929), os 05 Prelúdios (1940), além de quase duas dezenas de peças que se encontram per- didas e/ou extraviadas. A relevância de tal conjunto tem sido esquadrinhada pela musicologia brasileira em livros (PEREIRA, 1984; SANTOS, 1975) e uma portentosa quantidade de artigos publicados nas últimas décadas, além de ser um repertório recorrente nas salas de concerto, no Brasil e mundo afora. Contudo, é preciso olhar o iceberg para além de seu contorno aparente. A aura extemporânea de Villa projeta uma imagem sobre o violão de concerto brasileiro como algo que se inicia (e muitas vezes se encerra) idiomaticamente a partir de sua obra. O cerne deste idiomatismo instrumental, aliás, foi por nós esboçado em estudos anteriores (AMORIM, 2009) através da análise de quase 50 procedimentos característicos de sua escrita, muitos dos quais destilam a modernidade sobre o repertório do violão e descortinam uma série de possibilidades criativas, texturais e mecânicas no trato do instrumento. Muitos destes recursos são comumente considerados inéditos e/ou criações do pró- 10 Quando elaborava a primeira edição de seu livro, Mariz fez pesquisas com o intuito de fi nalizar as dú- vidas sobre a data de nascimento de Villa-Lobos, que oscilava então, e de acordo com os depoimentos do próprio Villa-Lobos, entre 1881 e 1891. Acabou por descobrir a certidão de batismo de sua irmã, Carmen, na Igreja de São José. Nela, também, constava a data de nascimento e batizado do compositor. Na última edição de seu livro, Mariz comenta: “Villa-Lobos fi cou contrariado com a minha descoberta, pois eliminava uma fonte de debates e especulações” (MARIZ, 2005: 160). 11 Com a publicação de Villa-Lobos: processos composicionais, estudo de referência neste campo, SAL- LES (2009) inaugura um novo horizonte de possibilidades na compreensão da produção do compositor. 12 São elas: Sexteto Místico (1917); Modinha (1925); Distribuição de Flores (1932); Ária das Bachianas Brasileiras n. 5 (1938); Canção do Poeta do Século XVIII (1953); Canção do Amor (1958); e Veleiros (1958). 11 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO prio Villa, desconsiderando-se em que medida os personagens com quem conviveu e os am- bientes nos quais se articulou foram decisivos para que ele alcançasse tal síntese, em um contí- nuo processo de bricolagem e manipulação das diversas condições de possibilidade disponíveis em seu tempo. Em diferentes momentos de sua vida, a permanência e/ou passagem por cidades culturalmente efervescentes (como Rio de Janeiro, Paris e Nova Iorque) somadas à imersão em iniciativas que extrapolaram o âmbito da música (como o projeto de educação musical conhe- cido por Canto Orfeônico), foram fatores que contribuíram para formar uma rede complexa de experiências que certamente tiveram ingerência na relação de Villa-Lobos com a música e com o violão. Hoje, por exemplo, já é possível comprovar o signifi cativo infl uxo dos personagens conhecidos como chorões na maneira de Villa-Lobos compreender o instrumento, bem como de que modo foram decisivas as vivências compartilhadas com ilustres violonistas de seu tempo, tais como Andrés Segovia (1893-1987), Regino Sainz de la Maza (1896-1981), Olga Praguer Coelho (1909-2008) e Abel Carlevaro (1916-2001). Além disso, o próprio compositor deixou testemunhos (cf. CARVALHO, 1963: 3-4) narrando o seu conhecimento de métodos e auto- res clássicos do violão: Ferdinando Carulli (1770-1841), Fernando Sor (1778-1839), Dionisio Aguado (1784-1849) e Matteo Carcassi (1792-1853). Havia, portanto, uma amálgama de in- fl uências das mais variadas no jeito de Villa pensar o instrumento e criar os eixos estruturantes de seu sotaque violonístico. No entanto, a partir do entrelaçamento destas diversas camadas que ajudaram a compor o seu singular vocabulário instrumental, ainda não há estudos sobre as possíveis rela- ções de Villa-Lobos com os violonistas brasileiros (ou radicados no Brasil) que, ao longo das décadas fi nais do século XIX e iniciais do XX, dedicaram-se primordialmente ao estudo do “violão de concerto”. O desconhecimento sobre tais personagens e a difi culdade de acessar suas obras tornam-se impeditivos cruciais para o mapeamento das conexões e distanciamentos entre a escrita de diferentes compositores do instrumento naquele período. Até o momento, quando nos referimos à escrita para violão de compositores brasi- leiros anteriores à década de 1950, trabalha-se basicamente em cima de três vertentes: 1) Em princípio, isolado, HeitorVilla-Lobos, como um criador extemporâneo que teria elevado o idiomatismo do instrumento a partir de sua própria genialidade; 2) Depois, um grupo de violonistas que conseguiu impregnar um “sotaque” próprio ao violão advindo da imersão do instrumento nos gêneros populares urbanos que pipocaram no Brasil desde o século XVII e que, muitas vezes, mesclaram-se às danças europeias aqui en- tronizadas durante e depois da colonização. Neste segundo processo, é possível sugerir que se concentram algumas das fagulhas que engendraram o conceito genérico - e nem sempre muito preciso - do que seria um “violão instrumental brasileiro”; 3) Finalmente, um terceiro grupo - não necessariamente vinculado à tradição ante- 12 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO rior - que, embora reconhecido pelo caráter pioneiro, tem sua produção distinguida como em- brionária, com suas peças quase sempre encaradas como cópias simplifi cadas e/ou sem muitas contribuições em relação às dos autores ocidentais que já circulavam em território brasileiro. São obras as quais se atribuem, geralmente, um singular valor histórico que, contudo, não é necessariamente correspondido pelo mesmo valor musical. Esta imagem geral e turva sobre os compositores que escreveram para o instrumen- to antes de 1950 concorre para a formação do paradigma dicotômico que tem guiado concei- tualmente a maioria dos estudos dedicados ao tema (inclusive, mea culpa, os nossos): de um lado, Villa-Lobos; do outro, o seu tempo e os seus contemporâneos. O fato é que a síntese da escrita de Villa marcou tão indelevelmente a história do violão que, para justifi ca-la, torna-se mais fácil retirá-lo de seu percurso histórico e da teia complexa de relações estabelecidas com seus pares e com os espaços que frequentou. A tarefa de fazer o caminho inverso - ou seja, a de projetá-lo em seu tempo - esbarra nas poucas referências, fontes e estudos disponíveis. Entretanto, aos poucos, a descoberta e ampliação do conhecimento sobre personagens coevos podem nos trazer pistas de como Villa atingiu os resultados originais de sua escrita para violão a partir das ferramentas que, na verda- de, estavam disponíveis na teia cultural que “oferece ao indivíduo um horizonte de possibilida- des latentes - uma jaula fl exível e invisível dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de cada um” (GINZBURG, 1987: 27). Do bojo desta jaula é que Villa-Lobos primeiramente se articulou. Mas outros compositores-violonistas brasileiros ou radicados no Brasil também. Neste sentido, e na tentativa de articular uma abordagem que privilegie um olhar de (e sobre) Villa-Lobos em seu tempo, faremos uma breve (e ainda inicial) análise de suas pos- síveis conexões com um de seus contemporâneos, o violonista Melchior Cortez (1882-1947). 1. Melchior Cortez, uma introdução Figura obliterada nas narrativas históricas do violão no Brasil, Melchior Cortez (1882-1947) é um exemplo concreto de como a manipulação de algumas ferramentas idio- máticas do instrumento, naquele período, não se restringia ao instinto genial deste ou daquele compositor. Nascido em Portugal (1882) e radicado no Brasil desde os nove anos de idade (1891), Cortez foi uma fi gura atuante no cenário do violão carioca nas três primeiras décadas do século XX. Sua contribuição concentra-se em uma tríplice perspectiva: 1) Concertista, fez diversas apresentações documentadas pela imprensa carioca, chegando a apresentar-se, em 1927, em duo com Quincas Laranjeiras no Teatro Casino de Copacabana, além de ter alcançado, em 1929, o palco do Instituto Nacional de Música com algumas de suas alunas; 2) Professor, deu aulas regulares em pelo menos quatro editoras/lojas musicais 13 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO (Casa Beethoven, Guitarra de Prata, Casa Buschmann & Guimarães e Casa Arthur Napoleão) e fundou, em 1927, a Academia Brasileira de Violão, com a qual iniciou dezenas de estudantes mulheres nos preceitos da escola de “violão clássico” que pretendia amplamente difundir no Rio de Janeiro; 3) Compositor/autor, publicou diversos de seus trabalhos (peças originais, arranjos, transcrições e métodos) por diferentes editoras, sendo a principal delas a Casa Romero y Fer- nandez, da Argentina. Neste último ramo de atuação, através de fontes recolhidas em jornais, revistas, tes- temunhos, entrevistas e acervos públicos e privados, conseguimos levantar 16 registros de sua produção para o instrumento, dos quais localizamos 11 obras. A diversidade das peças encontra- das demonstra quão versátil foi a natureza das publicações editoriais do violonista nas décadas iniciais do século XX, variando entre composições próprias, métodos, transcrições, arranjos ou ainda músicas concebidas por outros compositores-violonistas, mas que foram anotadas em partitura por Cortez. Além de aumentar o ainda pequeno conhecimento sobre o repertório produzido neste período, as 11 obras localizadas revelam um uso muito particular dos recursos técnico- musicais do violão, indicando, muitas vezes, o domínio de certos idiomatismos que, até o mo- mento, eram quase que exclusivamente vinculados à produção de Villa-Lobos. E isto se nota desde a sua obra mais antiga que suscitamos, a elegia Ilusão Perdida (1909). Diante de uma breve análise, tentaremos estabelecer algumas conexões entre a escrita e a maneira de ambos pensarem o violão a partir das próprias topografi as, possibilidades e limi- tações do instrumento. 2. Breve análise de Ilusão perdida (1909) e possíveis estreitamentos entre a escrita de Mel- chior Cortez e Villa-Lobos Primeira publicação do compositor de que se tem notícia, a elegia Ilusão Perdida foi lançada pela Casa Beethoven em 1909. Localizada no Rio de Janeiro à Rua do Ouvidor n. 175, esta editora foi o lugar onde Melchior Cortez deu classes de violão por volta de 1910 (GAZETA DE NOTÍCIAS, 1910) e onde possivelmente publicou pelo menos mais duas de suas transcrições: Souvenir du Pará e Marche Louis XVI. 14 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO Fig. 1. Capa da edição de Ilusão Perdida, de Melchior Cortez, publicada pela Casa Beethoven em 1909. Fonte: acervo pessoal do autor a partir de cópia localizada nos acervos da Divisão de Música (DIMAS) da Fun- dação Biblioteca Nacional (FBN). Dedicada ao amigo Monteiro Diniz, ativo professor de música e animador cultural do período, a partitura da obra foi localizada no Acervo da Divisão de Música (DIMAS) da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) durante o período de pesquisa-residência que realizamos na instituição (2015-2017). Nominalmente, ela já havia sido citada em um catálogo de peças realizado pela pesquisadora Fernanda PEREIRA (2007: 124). Seu conteúdo, no entanto, per- manecia desconhecido. À época de sua publicação, o violonista tinha entre 28 e 29 anos, estava no início de sua atividade editorial e ainda assinava artisticamente com o nome intermediário abreviado: Melchior P. [Pinto] Cortez. Fig. 2. Cabeçalho da publicação de Ilusão Perdida, de Melchior Cortez. Fonte: Casa Beethoven, Acervo DIMAS/ FBN. Contudo, apesar de constar dentre suas produções inaugurais, a obra apresenta al- guns recursos idiomáticos surpreendentes, muitos dos quais, resguardadas as devidas propor- ções, aproximam-se daqueles utilizados por Heitor Villa-Lobos em algumas de suas peças mais representativas, reconhecidas pelo uso idiossincrático do instrumento. Eis alguns exemplos: 1) Já em seus primeiros compassos, um harmônico pedal na 12ª casa da 6ª corda é intercalado por uma sequência de ligados que se movimentam em sentido vertical, horizontal 15 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO e oblíquo pelo braço do violão, em uma textura que recorda o trecho escalar do Estudo n. 1, de Heitor Villa-Lobos. Fig. 3. Harmônico pedal e sequência de ligados em sentido vertical, horizontal e oblíquo pelo braço do violão. Compassos 1, 2 e 3 de Ilusão Perdida, de Melchior Cortez. Fonte: Casa Beethoven, Acervo DIMAS/ FBN. 2) Logo na sequência (comps. 5 e 6), outrointeressante recurso é explorado pelo compositor: uma mesma nota repetida em 3 oitavas vai progressivamente se distanciando da base em movimentos paralelos de vai e vem até atingir o intervalo de uma 5ª justa 13. Também foi um recurso utilizado por Villa-Lobos em diferentes passagens, sendo a mais característica aquela que consta no fi m da seção B de uma de suas peças mais conhecidas, o Prelúdio n. 1. Fig. 4. Paralelismos de notas em 3 oitavas em movimento de vai e vem. Compassos 5, 6 e 7 de Ilusão Perdida, de Melchior Cortez. Fonte: Casa Beethoven, Acervo DIMAS/ FBN. 3) O motivo do tema (uma melodia exposta na região grave que se intercala com dois acordes repetidos na região aguda no compasso seguinte) também apresenta uma textura que remete a trechos de peças de Heitor Villa-Lobos, especialmente a ambiência temática do Prelúdio 4, peça que tem a mesma tonalidade e uma ligação dos elementos estruturais seme- lhante, sobretudo em relação ao modo como se organizam e se entrelaçam a melodia, a harmo- nia e o ritmo. 13 Ou seja, através de uma fi guração rítmica de semínima pontuada + semicolcheia, o E em três oitavas vai progressivamente se distanciando e voltando à base até alcançar o B por intervalos diâtonicos: E - E; E - F#; E- G; E - A; E - B. 16 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO Fig. 5. Melodia do tema no grave intercalada com acordes repetidos no agudo. Na sequência da peça, Melchior Cortez preserva a estrutura, mas inverte as regiões (a melodia passa para o agudo e os acordes de acompanha- mento vão para a região média, em harmônicos). Fonte: Casa Beethoven, Acervo DIMAS/ FBN. 4) Dentre os idiomatismos mais frequentes na produção de Villa-Lobos, um dos mais recorrentes se dá na utilização de paralelismos horizontais, recurso que ocorre quando uma determinada fôrma (seja bicorde, oitava paralela ou acorde) se translada no braço do violão mantendo a sua estrutura. Também foi um recurso explorado por Melchior Cortez em algumas de suas obras, incluindo as oitavas paralelas empregadas nos compassos fi nais de Ilusão Per- dida: 14 Fig. 6. Oitavas em movimento paralelo horizontal nos compassos fi nais (35-38) da elegia Ilusão Perdida, de Melchior Cortez. Fonte: Casa Beethoven, Acervo DIMAS/FBN. Ainda nesta passagem, observa-se a utilização de harmônicos naturais nos dois últimos compassos, recurso que Melchior utilizou ostensivamente em sua produção (chegando a conceber seções inteiras com a ferramenta, como na Marche Louis XVI). Tal recurso também foi explorado massivamente em praticamente toda a obra de Villa-Lobos, sendo um de seus usos mais expressivos aquele encontrado na seção A’ do Prelúdio 4 (compassos 27-32), onde o tema principal da peça é reapresentado integralmente valendo-se desta textura. 5) O uso idiomático das cordas graves do violão (4ª, 5ª e 6ª). Ora conduzindo temas cantantes, ora desenhos contrapontísticos, ora transições entre seções e mesmo momentos onde todo o discurso musical é desenvolvido na região grave (por exemplo, a introdução do Estudo 8 e o Più Mosso do Estudo 12), este é outro recurso que perpassa do primeiro ao último ciclo das peças de Villa-Lobos e que também integra decisivamente o vocabulário instrumental de Melchior Cortez. 14 O exemplo aponta um erro da edição original no 2º tempo do 2º compasso: na voz aguda, trocou-se a nota mi (E) da oitava paralela por um ré (D). 17 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO Fig. 7. Melodia conduzida na 5ª corda do violão na elegia Ilusão Perdida (compassos 7-8), de Melchior Cortez. Fonte: Casa Beethoven, Acervo DIMAS/FBN. Por razões espaciais, não faremos aqui a análise das outras obras de Melchior Cor- tez e suas possíveis conexões com o repertório villalobiano (tarefa que merece ser aprofundada em estudos futuros), mas tais estreitamentos parecem ainda mais nítidos quando volvemos um primeiro olhar para o restante de sua produção conhecida, especialmente as originais Colibri, Marche Louis XVI, Peteneras Sevillanas e transcrições como o Fado Liró, a Elegie op. 10 (J. Massenet) e a Valse op. 69 n. 2 (F. Chopin). Outros cinco elementos que aparecem com recor- rência na obra de ambos são os seguintes: 1) Uso do baixo na condução de uma voz intermediária: quando uma linha melódi- ca conduzida pela 4ª ou 5ª corda fi ca entre um acompanhamento nas cordas agudas e um baixo ainda mais grave ditando a harmonia; 2) Uso recorrente das tonalidades que privilegiam as cordas soltas: Mi maior, Mi menor, Lá maior e Lá menor são as principais. É outra característica que atravessa signifi cati- vamente a produção de ambos; 3) Uso de cordas soltas com efeito pedal: quando as cordas soltas se repetem por diferentes encadeamentos melódicos e/ou harmônicos. São exemplos de Villa-Lobos: os com- passos 24-29 da Gavota-Choro; os acordes cromáticos da introdução da Valsa de Concerto nº 2; os compassos 15-20 do Estudo nº 1 (compassos 15-20); por sua vez, Melchior Cortez utiliza o recurso (ao modo de Villa, integrando-o simultaneamente aos paralelismos horizontais de acor- des) na introdução que criou para a valsa Gemidos d’Alma, do cantor, violonista e compositor Josué de Barros (1888-1959). 4) Uso de cordas soltas como elemento mediador entre as passagens de cordas: quando ambos propositadamente usam as cordas soltas para mediar saltos ou passagens entre as cordas do violão, como ocorre entre os compassos 22-29 do Estudo 12, no caso de Villa-Lobos; e também como é característico durante quase toda a costura de Peteneras Sevillanas, no caso de Melchior Cortez. 5) Exploração da timbragem e tensão características de cada corda: quando Villa -Lobos pede que uma determinada melodia ou passagem seja tocada especifi camente em uma corda, um recurso utilizado no compasso 80 do Schottisch-Choro, nos compassos 33-54 da Valsa-Choro, além de na primeira seção do Prelúdio 4 (compassos 1-10), onde a partitura indica que as notas do tema devem ser tangidas em cordas específi cas (3ª, 4ª, 5ª e 6ª), somente para ilustrar alguns dos casos mais representativos. A produção de Melchior Cortez (especialmente 18 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO suas transcrições) são todas permeadas por exemplos do gênero, o que revela o quão este com- positor também sabia explorar com propriedade os diferenciados timbres das cordas do violão. Ao relacionar possíveis recursos idiomáticos comuns entre peças de Villa-Lobos e Melchior Cortez, o objetivo não é meramente tomar a produção de um pela do outro (e vice-ver- sa), mesmo porque Villa entrelaça estes elementos a partir de estruturas harmônicas, rítmicas e texturais mais densas (inclusive mesclando diversos destes elementos idiossincráticos simul- taneamente), mas apenas reconhecer que tais ferramentas já estavam no rol de possibilidades criativas de outros compositores do período. Além disso, vale pontuar que estes dois personagens travaram algum nível de con- tato direto ainda na década de 1900, quando ambos integraram o elenco de uma apresentação coletiva coordenada pelo professor Monteiro Diniz, em 23 de maio de 1909 (mesmo ano de publicação da elegia de Cortez), e cujo programa incluía a encenação de uma comédia e a rea- lização de um concerto no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro. O objetivo da festa era angariar fundos para a Capela de Santo Antônio, recém-erigida no bairro de Vila Isabel. Na ocasião, além do próprio Monteiro Diniz, Villa também mostrou ao público suas habilidades ao violão: Festa no Jardim Zoologico [...]A 1ª parte será ás 2 horas, sendo executados pelo conjucto de bandolins, bandur- ras, guitarras e violões, os seguintes números: a) Divertimento ‘avant.garde’ (Santos); b) Marcha e fado. Revista Santo Antonio (Milano), cantado por senhoritas; c) Polka -marcha “Est elle Jolie?” (R. Talamo); d) Nocturno, sólo de violão (C. Garcia); e) Valsa 2ª (Villas Lobo). 2ª parte, ás 3 ½ horas: “Clume”, comedia em 1 acto (Cármen Lobo); 2) Fado (Ro- bles); valsa lenta, “Walkirie”; 4) Fado corrido, cantos e variações em láe ré maior, arranjo de Montemiz; 5) Tarantella Napolitana (L. Ecuma); 6) Scherzo e tarantela (Rovinazzi). Tomarão parte as senhoritas Maria Machado, Irene Moura, Zulmira Gardey e Olin- da Borges, e os Srs. Dr. John Mac Niven, Aurelio Machado, Melchior Cortez e os professores Monteiro Diniz e Heitor Villas Lobo (GAZETA DE NOTÍCIAS, 1909, grifos nossos). Villa-Lobos participa duplamente da apresentação: como compositor e intérprete da Valsa 2ª. Como o manuscrito da valsa que compõe a sua Suíte Popular Brasileira data apenas de 1912 e não há, em seu catálogo de obras, indicação de valsas para violão perdidas antes de 1909, muito provavelmente a peça tocada pelo maestro brasileiro foi a Valsa de Concerto nº 2, obra escrita em 1904 e que aparentemente foi abreviada na grafi a para a publicação no jornal. Neste sentido, é emblemático que a peça tocada por Villa apresente recursos idio- máticos que foram amplamente utilizados por Melchior Cortez em suas obras, notadamente os paralelismos (horizontais, verticais, de acordes), harmônicos, sucessão de ligados (simples e compostos), cordas soltas como pedal, rasgueios e o uso do baixo como recurso tímbrico e condutor de melodias, só para citar alguns exemplos. Embora ainda não seja possível averiguar se o contato entre eles fora além dos 19 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO encontros em concertos coletivos, é difícil imaginar que, em um círculo tão restrito como o do violão carioca no início do século XX, estes personagens não tenham tido o mínimo de infl uên- cias recíprocas, já que ambos eram fi guras reconhecidas na cena violonística do Rio de Janeiro. Pelo menos, pode-se afi rmar que os dois compartilharam um ambiente musical comum que já permitia o uso de certos recursos idiomáticos com naturalidade. Nas décadas seguintes ao encontro, Villa-Lobos levaria às últimas consequências (especialmente nos campos harmônico, textural e técnico) tais ferramentas, elevando o idioma- tismo do violão a um outro patamar e abrindo defi nitivamente as suas portas para uma escrita moderna que, ainda hoje, soa atual. Contudo, a produção de Cortez revela que, embora a brico- lagem produzida por Villa seja completamente original, os recursos técnicos por ele utilizados eram, na verdade, mecanismos disponibilizados pelo estado da arte aos violonistas daquela época. Em outras palavras, a hipótese instilada é a de que a obra de ambos está longe de emergir do nada, como instância deslocada e/ou fora de seu tempo. Em estudos anteriores, já defl agramos o quão Villa se deixou marcar pelos seus contemporâneos do instrumento no Bra- sil, notadamente os “chorões”. A relação de sua escrita com a de Melchior Cortez representa um outro passo no mapeamento mais amplo das possibilidades criativas do período, uma vez que este é um personagem que se vincula, no Brasil., de modo mais estrito à tradição do “violão de concerto”. Portanto, se ainda não é possível assegurar que entre Villa-Lobos e Melchior Cortez houve uma infl uência direta e recíproca, também não é fora de propósito sugerir que ambos ar- ticularam, ainda que por caminhos diferentes, as ferramentas idiomáticas do violão disponíveis em seu tempo. Ademais, Cortez passou a ter Villa como uma grande referência ao longo de sua carreira, conforme se depreende do seguinte trecho de sua entrevista concedida ao Diário de Notícias em março de 1933: - Em que fontes devemos buscar ensinamentos para uma completa victoria no ponto de vista musical? - Não há necessidade de recorrer aos vizinhos, pois, dentro de nossa casa temos gran- des harmonistas e grandes contra-pontistas. Tudo é questão do governo querer lançar mão delles. Haja vista o nosso maestro Heitor Villas Lobos, o quanto se tem esforçado e demonstrado o que é a boa musica e o que se póde fazer em prol da cultura musical de um povo. Melhor exemplo não é preciso. Como este existem muitos outros. É questão do braço forte do governo, porque o nosso povo é muito inteligente e muito dócil (DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 1933). Em síntese, o que nos ensejou destacar neste estudo e ensaio embrionários (e que pre- tendemos aprofundar em estudos futuros) é que a produção de Melchior Cortez para violão sugere que alguns dos recursos instrumentais mais característicos da obra de Villa-Lobos também foram utilizados por outros compositores, no Rio de Janeiro, já em fi ns da década de 1900. Cada qual a seu modo, Melchior e Villa projetaram uma identidade de escrita que compreendia o instrumento a partir 20 AMORIM, H. VILLA-LOBOS E(M) SEU TEMPO de suas próprias dinâmicas, topografi as, possibilidades e limitações. Em ambos, o violão é tomado a partir do próprio violão, uma sugestão, talvez, de que Villa poderia não ter chegado às bricolagens que alcançou se não caminhasse ao lado dos personagens com os quais conviveu (direta ou indireta- mente) e se não estivesse completamente imerso às teias - jaulas fl exíveis - de seu tempo. REFERÊNCIAS AMORIM, H. Heitor Villa-Lobos e o Violão. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Música, 2009. BANDEIRA, Manuel. Villa-Lobos. Revista Ariel. Rio de Janeiro, Ano II, vol. XIII, p. 475- 477, 1924. CARPENTIER, Alejo. Hector Villa-Lobos. In: Gaceta Musical, Paris, 1 (7-8): 6-13, jul./ago, 1928. CARVALHO, H.B. Villa-Lobos, uma conferência. Rio de Janeiro: Museu Villa-Lobos, 1963. ______. O canto do pajé. Villa-Lobos e a música popular brasileira. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano I: as artes do fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. COLI, Jorge. Heitor Villa-Lobos: Moderno e Nacional. 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Essa colaboração traz contribuições importantes para o repertório dos instrumentos e, de forma ge- ral, obras tornam-se consequentemente mais idiomáticas. É famosa a relação de Johannes Brahms (1833-1897) com Joseph Joachim (1831-1907), que resultou no Concerto para violino em Ré maior, Opus 77 e no Concerto Duplo para violino e violoncelo em Lá menor, Opus 102. O Concerto para violino foi dedicado a Joachim, que ao ser apresentado à partitura, sugeriu muitas modifi cações para torná-la mais idiomática, e Brahms,com alguma relutância aceitou. Em relação ao Concerto Duplo, o caso foi um pouco diferente: Devo informá-lo da minha última tolice. Trata-se de um concerto para violino e vio- loncelo! Sobretudo, devido minhas relações com Joachim, queria abandonar essa ideia, mas não pude fazer nada. Nas questões artísticas, por sorte, fi camos sempre em terreno amigável. Jamais teria pensado no entanto, que entre nós se instaurasse nova- mente uma ligação pessoal (BRAHMS apud FLADT, 1984, [s.p.]). Segundo Fladt (1984), essa carta de Brahms fora direcionada à casa Simrock, editora de sua música em 1887 e tinha o propósito de tentar restabelecer as relações com o amigo Joachim, “pelo menos no âmbito de um empenho musical comum” (FLADT, 1984, [s.p.]). Possivelmente a empreitada deu certo pois, assim como aconteceu no Concerto para violino, “houve um novo intercâmbio de experiências entre Brahms e Joachim no que diz respeito a questões de compo- sição e técnica de execução especialmente” (FLADT, 1984, [s.p.]). No repertório para violoncelo, um caso famoso de encomenda por parte de intérpretes é o do Concerto para violoncelo, Opus 104 em Si menor de Antonín Dvorak (1841-1904): Solicitado por Hanus Wihan, o violoncelista do Quarteto de Cordas da Boêmia, a lhe escrever um Concerto, Dvorak relutou de inicio ante os enormes problemas de equi- líbrio que teria de enfrentar. Mas ao ouvir em Brooklyn um Concerto para violoncelo escrito por Victor Herbert, decidiu-se a atender ao pedido de Wihan, e a obra alcançou um tal sucesso que Brahms declarou que, tivesse ele sabido que um concerto para violoncelo era realizável, há muito tempo teria escrito um (CLAPHAM, 1983 [s.p.]). No entanto, a amizade nutrida entre Dvorak e Wihan (1855-1920) pode ter sofrido um abalo por causa deste mesmo Concerto: 23 HEITOR VILLA-LOBOS: O COMPOSITOR E SEUS INTÉRPRETESPILGER, H.V Dvorak conheceu as piores difi culdades quando da primeira execução do concerto: tendo prometido a Wihan fazê-lo tocar nessa estreia, fi cou horrorizado ao saber que a Sociedade Filarmônica de Londres havia, sem consultá-lo, contratado Leo Stern para o concerto, previsto para o dia 19 de março de 1896. Imediatamente remeteu ao secre- tario uma carta de protesto, onde dizia em substância o seguinte: “Lamento informá-lo de que não poderei reger o Concerto para violoncelo, tendo prometido ao meu amigo Wihan que seria ele quem o tocaria. Se V.S. programar o concerto, não conte com a minha presença. Mas seria feliz em vir em outra ocasião (CLAPHAM, 1983, [s.p.]). Claphan completa que, apesar do teor contundente da carta, Dvorak retrocedeu: “Ele acabou por aceitar reger mesmo com Stern, mas ignora-se se conseguiu fazer perdoar por Wihan. Wihan havia proposto cadências para o primeiro e para o último movimentos, mas Dvorak acreditou dever recusá-las” (CLAPHAM, 1983, [s.p.]). Com os relatos acima, pode-se afi rmar ser comum no meio musical tais colaborações. Com Heitor Villa-Lobos (1887-1959) não foi diferente e há citações que esclarecem que, assim como Brahms, buscava ajuda dos intérpretes para que suas obras fi cassem mais adequadas à técnica e idiomatismo do instrumento. O pianista João de Souza Lima (1898-1982) relatou o seguinte: Nossa camaradagem foi se tornando cada vez mais intensa, e Villa-Lobos, com aquela simplicidade de todo grande artista, aparecia diariamente ao meu Studio e, no meu piano, esboçava muito dos seus trabalhos, entre os quais o Rudepoema e a Prole do Bebê, número 2. Para estes e outros trabalhos consultava-me sobre problemas de exe- cução pianística, pois desejava que fossem de uma perfeita realização instrumental (LIMA, 1982, p. 100). Villa-Lobos, assim como a maioria dos grandes compositores, começou a receber inú- meras encomendas vindas de grandes intérpretes no entanto, nem todas obtiveram a devida acolhida por parte do compositor: Contou-me [Villa-Lobos] que, na oportunidade de uma das poucas vindas, ao Rio de Janeiro, do famoso violinista Jascha Heifetz, foi este procurá-lo para encomendar- lhe, por alta soma, a composição de um concerto. Desagradado, com as recomenda- ções que o virtuose então lhe fi zera quanto à elaboração da obra, recusou-se a em- preendê-la, de vez que somente entendia fazer música em estado de inteira liberdade. Transcorridos alguns anos, visitando os Estados Unidos da América, teve ensejo de conhecer melhor o ilustre violinista e de admirá-lo, qual o grande e digno artista que é. Adveio-lhe, daí sincero arrependimento de não haver composto o concerto, a cuja encomenda, se reiterada, atenderia, com muito júbilo, mesmo sem qualquer remune- ração e admitindo razoáveis sugestões (GOMES, 1965, p. 62). Outro caso de encomenda não atendida é narrado a seguir: “Um casal de franceses” (Ida Presti e Lagoya) lhe haviam solicitado um concerto para dois violões e orquestra, mas não tinham como pagar. “Música de graça é... desgra- ça”. Daí só aceitar encomendas, mediante pagamento. Perguntei-lhe se Segovia havia pago os 12 estudos que ele encomendara, ele respondeu que não, mas que ele era mui- to generoso, sempre mandando muitos presentes para ele, Villa, e sua companheira Mindinha (CARVALHO, 1969, p. 126). 24 HEITOR VILLA-LOBOS: O COMPOSITOR E SEUS INTÉRPRETESPILGER, H.V Há situação em que entra em jogo o poder de persuasão da pessoa que faz a encomenda e, logicamente, suas condições fi nanceiras: Sou testemunha presencial das lutas para alcançar a celebridade. Por isso tínhamos o privilégio de confi denciar certos detalhes de sua carreira artística. Certa vez, e penso que este episódio é pouco conhecido, revelou-me que, estando nos Estados Unidos, na cidade de Nova York, foi procurado no hotel de sua hospedagem por uma senhora que declarou ser pianista e desejava que ele compusesse um concerto para piano e orquestra. - “Senhor Villa-Lobos, gosto de sua música, tenho entusiasmo pelo seu estilo e talento de composição. Desejava, para executar, um concerto seu, de piano e orquestra. Proponho-lhe, como pagamento, a quantia de três mil dólares”. - “Minha senhora”, respondeu ele, “sinto não poder considerar sua proposta, pois devo retornar ao Brasil dentro de vinte dias. Não há tempo para esta obra”. - “Mas, Senhor Villa -Lobos, vamos aumentar para quatro mil dólares”. - “Minha Senhora”, fez ele, “não se trata de dólares, mas de tempo”. A Senhora Ellen Ballon, que era a grande pianista em questão, não desanimou. De volta à casa telefonou para o hotel, insistindo: - “Se- nhor Villa-Lobos, pense agora em cinco mil dólares”. Aí Villa-Lobos considerou e respondeu: - “Minha Senhora, não quero negar-lhe mais e resolvo que me procure ao fi nal dos vinte dias e será o que sair. Venha buscar o seu concerto! (...) Mais tarde, uns dois anos depois, Villa-Lobos recebe algum dinheiro de seus trabalhos e escreve a Miss Ballon que deseja readquirir seu concerto e pedia aceitasse o reembolso. Miss Ballon respondeu delicadamente que o concerto não tinha mais preço e que viria ao Rio de Janeiro executá-lo sob sua regência. Assim aconteceu mais tarde, no Teatro Municipal, em audiência espetacular. Miss Ellen Ballon gravou em L.P. o Concerto n° 1 de piano e orquestra, - gravação London [selo de gravação], ganhando muita vezes os cinco mil dólares do preço do custo... (MARTINS, 1965, p. 112-113). Na citação abaixo, na qual um solista tenta encomendar um outro concerto para har- mônica, que não o dedicado a John Sebastian (1914-1980), não foi a cabo pois a questão fi nan- ceira não foi abordada: Disse-me ele [Villa-Lobos] que nessa noite esperava uma visita, a de um grande vir- tuose da gaita de boca, internacionalmente conhecido que vinha vê-lo e fazer ouvir em suas gravações algumas das obras que ele havia interpretado, com ou sem orquestra, nos grandes centros musicais da Europa e do Continente Americano. Ele havia sido o introdutor do modesto instrumento na esfera da música de alta classe e Villa-Lobos havia passeado sobre os seus óculos, compondo para o concorrentemais tardiamen- te surgido, John Sebastian (...). O nosso virtuose também queria um para ele, mas Villa-Lobos só escrevia concertos dessa natureza por encomenda e essas encomendas deviam ser bem pagas. Vamos, pois, assistir a um desses duelos entre o negociador, sabido e esperto que era Villa-Lobos, e o solicitante cheio de si, consciente dos seus méritos, mortifi cado pelo que já considerava uma humilhação prévia. A cena não de- cepcionou nossa expectativa. Tivemos, primeiramente, uma extraordinária demons- tração de virtuosismo instrumental. Sobre as gaitas minúsculas que nosso artista tirava do bolso, acomodados em preciosos estojos e ouvindo os discos em fi ta magnética ou em discos, ouvindo nesses discos as composições que mestres eminentes da música contemporânea haviam escrito para o “ás” da harmônica oral, ali fi camos durante bas- tante tempo. Mas Villa-Lobos permanecia impassível, observando o interlocutor com uma desconfi ança. A conversa que ele esperava, não vinha. E, como ela não veio, ape- sar de o compositor haver encaminhado habilmente o assunto na boa direção, o nosso homenzinho saiu do hotel com as mãos abanando ou, mais realisticamente, carregan- do de volta as suas gravações, os seus instrumentos, o seu toca-discos e magnetofone, mas sem aquilo por que viera: - a promessa de um novo Concerto (AZEVEDO, 1966, p. 130-131). 25 HEITOR VILLA-LOBOS: O COMPOSITOR E SEUS INTÉRPRETESPILGER, H.V Muito interessante é uma outra história, que trata da gênese do Concerto para Harpa, encomendada pelo virtuose Nicanor Zabaleta (1907-1993): No Hotel Beford, em Paris, 1952, Villa-Lobos recebe a visita do famoso harpista espa- nhol Nicanor Zabaleta: - “desejo encomendar-lhe um Concerto para meu instrumento; não gostaria que usasse arpejos; prefi ro notas plaqués, batidas, em acordes”. Enfi m, uma série de recomendações especiais (VILLA-LOBOS [Arminda], 1981, p. 129). A respeito desse pedido, Villa-Lobos mais tarde comentou: “...lastimo que Zabaleta tenha tanto preconceito contra arpejos; compreendo-o, po- rém, receia baratear seu instrumento. E como está errado! Poderia criar inovações com arpejos e a obra seria, assim, bem mais interessante!” (VILLA-LOBOS apud VILLA-LOBOS [Arminda] 1981, p. 129). A citação acima deixa claro como Villa-Lobos estava sempre preocupado em descobrir novas sonoridades, contribuindo desta forma com o desenvolvimento técnico e idiomático dos instrumentos. Apesar de valorizar as encomendas comissionadas, Villa-Lobos demonstrou apreço aos amigos músicos dedicando-lhes várias obras. Naturalmente, como resultado há importantes composições que nasceram da afeição que o compositor nutria pelo intérprete em questão: Anos e anos consecutivos o grande Amigo Andrés Segovia insistia com Villa-Lobos para que compusesse um concerto para violão e orquestra. E a história se inicia: Villa -Lobos só concordaria em escrevê-lo se pudesse utilizar um microfone. Apaixonado pelo violão, Villa-Lobos ainda o preferia como instrumento íntimo, que ecoasse com caráter recôndito.(...) O nosso Segovia sempre apelando para nós: - “Mindinha, lem- bra ao Heitor (assim Segovia o chamava) que componha o meu Concerto” (VILLA -LOBOS [Arminda], 1980, p. 135) Uma fonte interessante de como Villa-Lobos se relacionava com seus intérpretes vem de declarações deixadas pelo violoncelista brasileiro responsável pela encomenda do Concerto nº 2 para violoncelo e orquestra e há muitos anos radicado nos Estados Unidos, Aldo Parisot (n. 1921). Parisot acompanhou de perto o processo de composição desse concerto através de cartas e permanecendo junto do compositor durante uma semana no hotel em que Villa-Lobos estava hospedado em Nova York. Mais tarde ele relatou a experiência: Eu fui de New Haven para Nova York todos os dias durante uma semana e lá eu pra- ticava no seu quarto de hotel - escalas, estudos, concertos - enquanto ele estava escre- vendo. De um lado ele tinha o concerto para violoncelo e do outro uma sinfonia, e ele fi cava pulando de um para outro. E quem lá foi durante todas essas sessões? Andrés Segovia!...1 (ALDO PARISOT apud AQUINO, 2000, p. 24). Questionado pela esposa de Parisot sobre que tipo de composição tinha em mente, Villa -Lobos teria respondido: 1 “I went to New York from New Haven every Day for one week and there I practiced in his hotel room - scales, etudes, concertos - while he was writing. On one side he had the cello concerto, on the other side a sym- phony, and he was jumping from one to the other. And who was there during all those sessions? Andrés Segovia! ...” 26 HEITOR VILLA-LOBOS: O COMPOSITOR E SEUS INTÉRPRETESPILGER, H.V (…) Agora, aqui vai a resposta para sua simpática esposa: quando um pai pode di- zer que seu fi lho será isso ou aquilo? Sendo assim, eu não sei o que poderá sair de minha caneta e desta maneira, é impossível para mim fazer alguma promessa sobre o Concerto para Violoncelo e Orquestra. A única coisa que eu posso declarar é que eu escreverei uma obra com sinceridade; vamos ver se esta sinceridade agradará ou não (VILLA-LOBOS apud AQUINO, 2000, p. i)2. O fato de Villa-Lobos ter sido violoncelista, lhe deu segurança para que essa relação compositor e intérprete com Parisot se tornasse mais completa, ou seja, tinha segurança abso- luta sobre a viabilidade técnica do que escrevia: “... Parisot relembra que durante o processo composicional do Segundo Concerto para Violoncelo, em 1953, Villa-Lobos estava constante- mente demonstrando no violoncelo como uma certa frase ou efeito deveria soar3” (PARISOT apud AQUINO, 2000, p. 4). Peter Dauelsberg (n. 1933), em entrevista concedida em 2011, afi rma que Parisot tinha pedido para Villa-Lobos fazer o segundo andamento do Concerto nº 2 para violoncelo e orques- tra mais ou menos como a Ária/Cantilena da Bachianas Brasileiras nº 5, sendo que Villa-Lobos teria dito: “Nunca!”, mas quando a obra fi cou pronta, “Villa-Lobos reconheceu que Parisot havia conseguido” (DAUELSBERG, 2011). A exemplo do que aconteceu com Joachim e Brahms, Parisot efetuou alterações na parte do solista e segundo Aquino (2000), colaborou com Villa-Lobos em muitos aspectos da partitu- ra, especialmente nas passagens que mostram mais virtuosismo: Apesar de sua estreita participação durante o processo composicional e pelo fato, do compositor ter sido um talentoso violoncelista, Aldo Parisot continuou a alterar a parte do violoncelo, tanto na estreia quanto na subsequente gravação da obra. Ele alegou que essas alterações foram feitas, para que a obra soasse mais idiomática para o instrumento. De acordo com ele, Villa-Lobos aprovou essas mudanças, embora elas não tenham aparecido na publicação da partitura4 (AQUINO, 2000, p. 24 e 25). Mas a relação entre compositor e intérprete não se restringe somente a colaboração durante o processo de criação de um concerto. O compositor pode dar muitas indicações aos in- térpretes como estes devem realizar uma determinada passagem ou mesmo auxiliar na decodi- fi cação da partitura5. Villa-Lobos muitas vezes contribuiu amiúde não só com seus intérpretes, 2 “(...) Now , here is the answer to your kind wife: when can a father say that the ‘Son’ will be this or that? Now then, I don’t know that will come out of my pen and thus it will be impossible for me to make any promise about the Concerto for Violoncello and Orchestra. The only thing I can declare is that I shall write a work with sincerity; it remains to be seen, nevertheless, if this sincerity will please or not.” 3 “Parisot, recounts that during the compositional process of the Second Cello Concerto, in 1953, Villa-Lo- bos was always demonstrating on the cello how a certain phrase or effect should sound.” 4 “Despite his close participation during the compositional process and the fact that the composer was an accomplished cellist, Aldo Parisot continued to alter the cello part both in the fi rst performance and in his sub- sequent recording of the work. He claims (sic) (claimed) thatthese alterations were done so that the work would sound more idiomatic to the instrument. According to him, Villa-Lobos approved these changes, even though they did not appear in the published score.” 5 Especialmente na música contemporânea, devido aos inúmeros recursos usados, como por exemplo a técnica expandida, esse auxílio pode ser decisivo para uma correta interpretação. 27 HEITOR VILLA-LOBOS: O COMPOSITOR E SEUS INTÉRPRETESPILGER, H.V mas com praticamente todos que iam a seu encontro em busca de alguma informação: Chegavam as visitas domingueiras: Andrés Segovia, José Limon, Horzowsky, críticos de músicas e jovens artistas para aprenderem dele a inspiração para as suas interpre- tações. Vinham cantores e quartetos ensaiar com ele. Ali era o culto da música em sua mais séria e compenetrada expressão. “Eu sou um profi ssional”, dizia com severidade ao referir-se à música. Às vezes concentrado, silente, ia cobrindo as pautas com as notas negras que fl uíam dos dedos dando expressão às páginas, enquanto conversáva- mos a meia voz, respeitando o silêncio do Mestre. Sentia-se bem de ter aquele rumor de vozes perto que não o molestavam em nada. Ou eram dias em que artistas vinham tocar ou cantar para saber a opinião do Maestro (VASCONCELOS, 1965, p. 59). Villa-Lobos sabia da importância desses atos. Tinha consciência que a partitura não passa de um código, e como tal precisa ser, além de corretamente decodifi cada, compreendida no seu aspecto mais íntimo: “O que acontece (...) é que nem todo mundo escreve exatamente o que pensa e uma boa orquestra, embora toque tudo o que está escrito, não tem obrigação de adivinhar” (VILLA-LOBOS apud NÓBREGA, 1966, p. 11). Ao ser questionado sobre a qualidade dos músicos da Orquestra BBC de Londres em 1948, Villa-Lobos, ciente da difi culdade que a música brasileira traz aos intérpretes, declarou: Naturalmente como latino e fi lho de um país tropical (...) senti que os solistas não interpretam, na execução, o saboroso das frases sentimentais tão características da mentalidade do povo do Brasil (sem contudo serem do aspecto do rubato italiano), e ainda mais sendo elas pousadas sobre uma unidade mecânica de ritmo bem próprio (VILLA-LOBOS, 1969, p. 116). Além da contextualização histórica e cultural que o intérprete precisa fazer da obra, espera-se também que contribua com o seu ponto de vista, num processo de recriação artística: De passagem, notemos o conteúdo de criação contido no ato de interpretar, e a pre- cariedade da notação musical quanto a sua função específi ca, pois fi xa a matéria mas não consegue fi xar o espírito, as entidades estéticas que se integram em obra de arte. Por isso, reside aí a margem de criação por parte do intérprete (VILLA-LOBOS apud CALDEIRA FILHO, 1972, p. 109). A busca de informações por parte dos solistas não signifi ca em hipótese alguma, incapa- cidade em compreender uma determinada obra, mas em muitos casos, a necessidade de tentar manter intacta a concepção imaginada originalmente pelo compositor. Por isso muitas vezes é possível ver grandes intérpretes ávidos por algum momento de privacidade com o compositor da obra que irá apresentar: Dias antes do concerto eis-nos a vê-lo ali sentado, junto ao seu velho Gaveau, mos- trando a Guiomar Novaes - essa prodigiosa deusa do piano - o concerto para esse ins- trumento e orquestra, há dias executado brilhantemente, por Souza Lima. O concerto é difi cílimo e requer virtuosidade pianística excepcional. Há trechos cuja interpreta- ção só um grande mestre do teclado conseguirá vencer. Naquela luz um pouco velada do apartamento, nós, a um canto da janela com o Dr. Octavio Pinto, marido de Guio- mar Novaes e Arminda nos deslumbrávamos vendo aquelas duas almas elevadas pela música. Guiomar Novaes com o braço esquerdo apoiado sobre o espaldar da cadeira 28 HEITOR VILLA-LOBOS: O COMPOSITOR E SEUS INTÉRPRETESPILGER, H.V em que Villa-Lobos estava assentado e a mão direita sobre o teclado ia intervindo na leitura que o Maestro fazia, com um elan e uma vibração incomuns. A parte da orques- tra, Villa-Lobos cantava como podia... Sim, como podia, porque aquelas escalas, rapi- díssimas não há quem as cante e a parte de piano ele ia defendendo também da melhor forma. Guiomar Novaes, ao lado, estava magnetizada (BARROS, [s.d.], p. 120). Fato semelhante aconteceu com a Bachianas Brasileiras nº 4, escrita originalmente para piano solo: Tive um aperto no coração. Mais de uma vez, em minha casa, ouvira o Mestre acon- selhar jovens pianistas que haviam abordado essa peça e vinham submeter suas in- terpretações ao compositor. Ele acabava sentando-se ao piano e executando de uma maneira inigualável, pela regularidade rítmica, pela severa economia de colorido so- noro - aquela linha melódica de modinha e de ária, tão pura, tão nua, tão cheia de gra- ça. A menor afetação pode turbá-la; o mais leve descontrole dinâmico. Mas os dedos desajeitados de Villa-Lobos, que não era um pianista, obedeciam como um pelotão de guardas reais em parada, ao comando de sua inteligência interpretativa; nervos de aço transmitindo esse comando. Nenhuma precipitação. Nenhum desequilíbrio. O peso do quinto dedo sempre igual ao do primeiro (AZEVEDO, 1965, p. 137). Num interessante artigo escrito por João da Cunha Caldeira Filho (1900-1982) para a Editora Fermata de São Paulo em 1971, Villa-Lobos discorreu longamente sobre o importante papel do intérprete. Interpretação é o ato pelo qual o indivíduo exprime a sua capacidade de dar existência sonora (real ou atual), à obra de arte musical. O intérprete ou executante, por um lado, é dotado da capacidade para realizar a execução vocal ou instrumental; por outro lado, suas potencialidades artísticas estão também estruturadas em concordância com esse tipo de capacidade, cujos impulsos levam à execução. Não se trata, porém, de mera atualização sonora, tal a de uma pianola. Trata-se de traduzir a criação do abstrato para o concreto, do imaginário para o real, para o atual. Aí se situa a importância das infl exões expressivas da linguagem musical, em tudo análogas - enquanto a lingua- gem musical apresentar analogias - às da linguagem oral, na qual a enunciação do pensamento se faz sempre mediante a atribuição de uma carga expressiva à locução. É como declamar. Nenhuma indicação de expressão se encontra do texto poético es- crito: o declamador terá de verifi car o seu dizer, completando com essa ‘vida’ a comu- nicabilidade original da criação poética. Para tanto, no campo da música, o executante terá de penetrar, e substancialmente, no espírito da criação do compositor. Aí está a parte criadora de interpretação, pois esta deve ser também planejada, previamente concebida, de sorte a atualizar a obra como um objeto - coisa signifi cante - dando-lhe no tempo a estabilidade e a coerência que, no espírito do autor, lhe informaram a exis- tência. Assim, interpretar é um comportamento expressivo relativo à atualização da obra de arte musical (VILLA-LOBOS apud CALDEIRA FILHO, 1972, p. 102-103). Num outro artigo publicado em O Estado de São Paulo em 16/11/1969, Caldeira Filho sinteti- za de forma convincente o papel das partes envolvidas no processo de realização musical: “(...) a obra de arte musical é uma expressão, ou como se diz comumente, uma mensagem, escrita pelo compositor, transmitida pelo executante e recebida pelo ouvinte” (CALDEIRA FILHO, 1972 b, p. 111). 29 HEITOR VILLA-LOBOS: O COMPOSITOR E SEUS INTÉRPRETESPILGER, H.V Conclusão É possível concluir que Villa-Lobos exercia um poder muito grande perante seus intér- pretes. O fl uxo desta relação não era muito equilibrada, já que Villa-Lobos, além de concepções muito claras, conhecia os instrumentos de forma prodigiosa. Walter Burle Marx relatou o se- guinte: Dirigindo em Chicago, durante um ensaio, o harpista que era uma pessoa desagra- dável, afi rmou que a música escrita era impossível de ser executada. Villa-Lobos desceu do podium, o que nãoera seu costume nos últimos anos, tomou então seu lugar e executou o trecho na harpa, levantando em seguida sem dizer uma palavra e recebendo uma ovação da orquestra. Depois de saber desta proeza na harpa perguntei ao Villa-Lobos que instrumentos ele tocava e ele respondeu-me que só não tocava oboé, o qual procurou aprender mais tarde (MARX, 1977, p. 184). Villa-Lobos tinha nítido em sua mente o resultado musical do que escrevia e as nuances da música brasileira lhe eram muito caras. Para isso atribuía aos intérpretes o papel de cocria- dores, tendo estes a responsabilidade de “penetrar, e substancialmente, no espírito da criação” pois a performance, segundo ele, também deve ser previamente concebida a fi m de dar à obra, uma existência sonora. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AQUINO, Felipe José Avellar de. Villa-Lobos’s Cello Concerto nº 2: a Portrait of Brazil. 2000. Tese (Doutorado em Música) - University of Rochester, New York. 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Rio de Janeiro: MEC-Mu- seu Villa-Lobos, v. 3, p. 115-118, 1969. 31 MESA REDONDA I: PROCESSOS E PERMANÊNCIAS de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 32 Quarteto nº 17 de Villa-Lobos: síntese de processos composicionais1 Roberto Macedo Ribeiro2 Escola de Música – UFRJ – robertomacedo@musica.ufrj.br Resumo: O conjunto dos 17 quartetos de cordas de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) oferece um campo bastante vasto para o estudo dos elementos estilísticos que constituem a linguagem do com- positor. Além do aspecto quantitativo, algo incomum para um compositor do século XX, o que mais chama a atenção é o fato dos quartetos estarem dispostos de tal forma a abranger quase toda a tra- jetória artística de Villa-Lobos. O primeiro movimento do 17o Quarteto (1957), que é considerado como portador da síntese dos procedimentos composicionais encontrados nos últimos quartetos, é analisado aqui, buscando rastrear traços que elucidem os processos composicionais respectivos. Palavras-chave: Villa-Lobos. Quarteto de cordas. Análise estilística. Processos composicionais. Quartet nº 17 of Villa-Lobos: synthesis of compositional processes Abstract: The set of the 17 string quartets by Heitor Villa-Lobos (1887-1959) offers a vast fi eld for the study of the stylistic elements that constitute the language of the composer. In addition to the quantitative aspect, something unusual for a composer of the twentieth century, what is most striking is the fact that the quartets were distributed in such a way as to cover almost the entire artistic tra- jectory of Villa-Lobos. The fi rst movement of the 17th Quartet (1957), which is considered to carry the synthesis of the compositional procedures found in the last quartets, is analysed here, seeking to trace hints that elucidate the respective compositional processes. Keywords: Villa-Lobos. String Quartet. Stylistic analysis. Compositional processes. O décimo sétimo quarteto de cordas, o último composto por Villa-Lobos, revela- se como o ponto culminante de um processo de síntese de linguagem, que se inicia a partir do décimo primeiro quarteto, processo este que consiste numa espécie de fi ltragem de todo o elemento acessório, tornando-se paradigmático para o entendimento do pensamento musical de Villa no período fi nal de sua vida. Portanto, essa obra se mostra como um campo privilegiado de estudo, no intuito de se alcançar um aprofundamento das características que compõem o estilo composicional de Villa, com foco tanto no vocabulário e sintaxes harmônicas quanto na manipulação motívica. Simultaneamente, objetiva-se situar a escrita dessa obra na moldu- ra dos processos e soluções composicionais referentes à música do século XX. Optou-se por 1 Esta obra pertence à fase denominada de “universalista” de Villa-Lobos. Os recursos composicionais empregados revelam uma espécie de depuração, seleção e síntese de tudo o que fora anteriormente experimentado, incluindo-se aí o uso de elementos ligados de alguma forma à música popular (RIBEIRO, 2002, f. 314). Este quar- teto é contemporâneo de outras obras, nas quais é possível reconhecer, em grande parte, as mesmas características: a ópera Yerma (1956), a 12a Sinfonia (1956) e o oratório Bendita Sabedoria (1958). Dedicado a Arminda (“Min- dinha”), sua segunda esposa, o 17o Quarteto, foi estreado pelo Quarteto Budapest em 1959 (ESTRELLA, 1970, p. 128), sendo que Eero Tarasti menciona a estreia fora do Brasil em 1964, em Londres, pelo Quarteto do Rio de Janeiro (TARASTI, 1995, p. 321). 2 ROBERTO MACEDO RIBEIRO é compositor, professor, pianista, nascido no Rio de Janeiro. Mestre em Música (Composição – EM/ UFRJ) e Bacharel em Música (Regência – EM/UFRJ). Está lotado no setor de Contraponto e Fuga do Departamento de Composição da Escola de Música da UFRJ, onde leciona as disciplinas Contraponto e Instrumentação e Orquestração. Tem peças estreadas em Bienais da Música Brasileira Contemporâ- nea e nos Panoramas da Música Brasileira Atual, além de música de câmara e para orquestra executadas no Brasil e no exterior. de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 33 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. convergir o trabalho analítico sobre o 1º movimento, por ser a parte de maior extensão da obra. O referencial teórico originário que norteou a análise foi o livro Guidelines to a Musical Analy- sis de Jan LaRue (1970), que, por sua vez balizara as observações de Ribeiro (2002)3. Preliminarmente, como colocado em outra oportunidade pelo presente autor, Os primeiroscompassos do 1o movimento já demonstram um domínio completo da escrita específi ca para o quarteto de cordas, adquirido, com certeza, pelo trabalho mais constante para essa formação instrumental, principalmente após o 8o Quarteto. Isso se expressa, sem dúvida, através de uma capacidade maior em lidar com o diálogo entre os quatro instrumentos, ao mesmo tempo em que se encontra plenamente amadurecida a capacidade de realizar a total fusão entre as vozes instrumentais. Há muito estão superadas a necessidade de busca de uma igualdade por meio de uma textura contrapontística densa, como no 2o quarteto (1915), a exploração de efeitos tímbricos ouvidos no 3o Quarteto, das ‘pipocas’ (1916), e a tentativa de extrapolação da sonoridade camerística, vista no 7o quarteto (1942). Em suma, por meio de uma análise superfi cial da peça, mostra-se evidente a conquista do amadurecimento de uma escrita própria para o quarteto, emoldurada pela linguagem do autor, consolidada já há algum tempo (RIBEIRO, 2002, f. 315). De fato, ao tratar das especifi cidades da escrita para o quarteto de cordas, Bernard Fournier (1999) menciona como qualidades intrínsecas, frente a outros meios e gêneros came- rísticos: - a homogeneidade, tanto tímbrica quanto expressiva do conjunto, para a qual con- tribui uma escrita que ele denomina de “fusional” e que faz com que o quarteto pareça, na verdade, um só instrumento, ao mesmo tempo em que se mantém resguardada (e até mesmo valorizada) a individualidade polifônica de cada parte (FOURNIER, , p. 26 – 27); - a “quaternidade”, ou seja, a escritura a quatro partes, que se caracteriza princi- palmente por um diálogo, no qual os instrumentos estão em igualdade de condições (idem, p. 29 – 31). Confrontando os indicativos apontados por Fournier, com as afi rmações do presen- te autor, acima citadas, é possível se inferir que o 17º quarteto seja o ponto culminante de uma trajetória de refi namento composicional. Nesse particular, vale atentar para o fato de que o conhecimento desses traços idio- máticos da escrita quartetística é elemento essencial à abordagem analítica desse gênero ca- merístico e que, no presente caso, emoldura o estudo da elaboração motívica e da organização harmônica do 1º movimento, o que engloba o vocabulário harmônico e mecanismos de conexão entre os acordes. 3 As ferramentas de análise foram retiradas de outras importantes fontes bibliográfi cas, voltadas para abor- dagem analítica do repertório da música do século XX, referenciadas no decorrer do texto e no fi nal do artigo. 34 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. 1 – Questões Formais – articulação de material temático e centricidade: A organização geral do 17º quarteto obedece à disposição clássica em quatro movimentos, adotada a partir do 2o quarteto, com a parte lenta ocupando a segunda posição na sequência, valendo dizer que esta disposição encontra-se presente na maioria dos quartetos que vêm após o 7º. É esta, portanto, a ordem dos movimentos: 1o movimento – Allegro non troppo; 2o movimento – Lento; 3o movimento – Allegro vivace (scherzo) e 4o movimento – Allegro vivace (com fuoco). A forma ternária do tipo A-B-A’ é patente, sendo que a este plano se soma uma extensa parte conclusiva, a título de fi nalização4. A seção A (c. 1 a 48) está subdividida em três subseções: a (c. 1 a 21), b (c. 22 a 36) e c (c. 36 a 48). Uma suposta subdivisão binária não privilegia, neste caso, as mudanças relacionadas ao material temático, à organização textural, isto sem mencionar ainda a questão relativa à centricidade. Na 1a subseção é exposto e desenvolvido o primeiro e mais importante material do movimento: o inciso encontrado logo no primeiro compasso. Sua fragmentação, já a partir do compasso 4, aponta para a estratégia composicional escolhida: fazer derivar de um único elemento a maior parte do conteúdo do movimento. Assim, o material da 1a subseção já está associado ao trabalho de elaboração motívica, feita com base no desmembramento e na justaposição de elementos de uma única célula. Verifi ca-se ainda que, a partir do compasso 12, a confi guração textural da primeira subseção – resultado do tipo de manipulação do material descrito acima – começa por se desfazer, as três partes inferiores assumindo paulatinamente o caráter de sustentação harmônica. A 2a subseção tem o Ré como centro e nela o 1o violino expõe uma nova ideia, um fragmento de escala descendente, trabalhado sequencialmente. Com base nesse recurso, a subseção se estende até o compasso 36, onde, elipticamente, tem início a 3a subseção. Na subseção c são expostos dois novos elementos: o primeiro de caráter melódico (c. 36 a 39) e o segundo de feição rítmica mais acentuada. 4 A agregação de uma seção conclusiva a uma disposição ternária encontra, no caso dos quartetos de Villa-Lobos, o seu primeiro exemplo ao fi nal do último movimento do 2o quarteto, fazendo-se presente em outros quartetos do mesmo autor. É possível se questionar se o molde pretendido seria, no entanto, uma foram binária: A – B // A’ – C. Entretanto, a organização, seja no campo harmônico, seja no campo motívico ou temático (além do agógico) demonstram que a pretensão do autor era fazer com que a seção C possuísse claras funções conclusivas. Dentro dum enquadramento ternário da forma, é possível se considerar uma suposta pretensão de emular a forma sonata, contudo, numa abordagem bem livre do paradigma vigente no fi nal do séc. XVIII (ROSEN, p. 330). 35 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. A seção central – B (c. 49 a 80) – Meno Mosso, propõe um novo material, além de nova textura e organização rítmica, dividindo-se em duas subseções: A primeira subseção – d (c. 49 a 59) - apresenta a fórmula de acompanhamento como uma espécie de ostinato. Após um compasso introdutório (c. 49), um novo elemento é apresentado pela viola. O centro projetado inicialmente é o Mi. Na segunda subseção – e (c. 59 a 80), a viola continua mantendo (pelo menos inicialmente) a condução melódica. A partir do compasso 63, a fi gura do acompanhamento, antes realizada pelos dois violinos, é transferida para a viola e violoncelo, assumindo o 1o violino a tarefa de encaminhar a melodia. A dominante de Dó, ampliada por reiteração (c. 71 a 76), indica o fi nal da seção numa cadência à dominante efetuando-se sua resolução no compasso 80. A seção A’ (c. 81 a 128) consiste da repetição integral da seção A ao intervalo de terça maior superior. A parte conclusiva – Allegro piu mosso (c. 129 a 165), cuja extensão é pouco maior do que a da seção central, é formada por uma sucessão de pequenos segmentos, cada qual apresentando um tipo distinto de material e disposição polifônica. Uma cadência sobre o acorde de nona menor, tendo Dó como fundamental, encerra este trecho no compasso 160, donde se encaminha a cadência fi nal, com dois acordes, a tríade de Lá menor e a tríade de Dó com sexta acrescentada5. O Dó pode ser considerado o centro principal do 1º movimento. A primeira harmonia – uma tríade menor com sexta e sétima maiores acrescentadas (c. 1.4) - e também o acorde fi nal, projetariam, em grande escala, a centralidade do Dó. No entanto, o processo de defi nição deste (como dos demais) possíveis centros tonais variam consideravelmente ao longo da peça, e nenhum polo ganha estabilidade, mesmo dentro de uma mesma seção. O problema se torna ainda mais complexo tendo em vista o deslocamento uma terça maior acima de todo o conjunto da seção reexpositiva.15 Se, no início da 1a seção, o acorde de abertura é tomado como referencial, na verdade, como se sabe, este fato em si, não é sufi ciente para que seja estabelecido, desde então, um centro num âmbito maior. A estruturação harmônica presente nos compassos 1 a 8 não oferece subsídios claros para defi nir um foco. Um pálido indício é dado 5 A defi nição de centricidade em peças do repertório pós-tonal,é adotada por diversos autores, entre eles, Joseph Straus, que afi rma que “na ausência da harmonia funcional e do encadeamento tradicional, os compositores uma variedade de meios contextuais de reforço” (STRAUS, 2013, p. 144). O que se pode verifi car na música de Villa é, muitas vezes, a justaposição de alguns dos processos descritos por Straus, com outros patentemente ema- nados da common practice. 36 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. pelas notas estruturais da parte melódica. O Dó encontrado no primeiro tempo do compasso 8 é antecedido por um segmento descendente6, apresentando características de um ponto de chegada da trajetória melódica a partir de uma dominante. Figura 1 – Esquema melódico do trecho (c. 5 a 8) – 1º violino. A linha do baixo, situada entre os compassos 16 e 20, enfatiza o Dó como centro, não só por meio da reiteração, mas pela sua própria trajetória descendente. Isto é corroborado por uma maior clareza e direcionalidade presentes na estrutura harmônica, especialmente com a harmonia de sexta aumentada cumprindo as funções de dominante no compasso 19. A progressão dominante-tônica (esta, com sétima maior acrescentada) fornece elementos sufi cientes para afi rmar que o Dó cumpre papel de centro da 1a subseção. Já na 2a subseção, pelo menos ao início, a centralidade do Ré é incontestável. Não só a harmonia inicial (c. 22) como a fórmula de acompanhamento, presente a partir do compasso 25, confi rmam esta assertiva. Contudo, o Ré recolocado na posição de centro tonal, assume esta condição de maneira efêmera, visto que um acorde de sexta aumentada (sexta alemã – c. 34.3) resolve sobre a tríade de Si maior. Este último acorde aqui substitui a função de dominante de Mi. Não se vê, logo ao início da 3a subseção, um centro explicitado. Oculta dentro de um acorde de nona, ele só vai aparecer antecedido por uma dominante no compasso 40, mesmo assim na forma de acorde com sexta e sétima maior acrescentadas. Sucede-se um trecho em que é abandonado, por completo, o conteúdo escalar de Mi maior, observando-se uma passagem harmônica sequencial, por quartas (cc. 43 a 46) e que sofre uma resolução defectiva ao início do compasso 48 sobre uma tríade de Fá maior. 6 Como sugere Paulo de Tarso Salles, esse segmento descendente apresenta a característica comum de fi guração em dois registros, na forma de “ziguezague” (SALLES, 2009, p. 114 a 119). 37 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. 1 21 22 36 36 48 49 59 59 80 81 100 102 113 115 128 129 165 Seção A Seção B Seção A’ Parte Conclusiva a b c d e a b c Dó ÆDó Ré ÆMi Mi ÆFá MiÆ Fá# Fá# Æ Dó MiÆMi Fá# Sol# Sol# Lá Dó Dó# (Lá) Dó Figura 2 – Esquema estrutural do 1º movimento - divisão em seções e subseções e polarização 2. Elaboração Motívica e Temática: Conforme apontado por Ribeiro, o primeiro gesto melódico, enunciado pelo 1º violino, é formado por (…) uma estrutura que contém duas tríades, sendo a primeira a de Dó menor (o que de pronto sugere uma tonalidade) e a segunda de Si maior. Nesse caso específi co prevalece a tríade de Dó, já que sua fundamental é reiterada, e a parte inferior (violoncelo) perfaz um arpejo sobre este mesmo acorde. De toda forma, sendo o Si a nota mais aguda, decerto que a tríade de Si acaba por se transformar num outro ponto focal que compete com o acorde de Dó menor. Outro fato que merece menção especial é a simetria de sua disposição, tendo o Mib como eixo. É fato sabido que as estruturas intervalares simétricas criam ambiguidades tonais, tais como os acordes de quinta aumentada, de quinta diminuta, de sétima diminuta, para não citar formações mais complexas. (RIBEIRO, 2002, f. 326) Resta saber se existe na sua organização intervalar algum dado que permita dirigir posteriores observações. No exemplo a seguir foi transcrita apenas sua estrutura intervalar. Figura 3 – estrutura intervalar do primeiro gesto melódico do 1º mov. do 17º Quarteto. O exame do inciso (doravante motivo I), tomando como referência a formulação teórica de Forte / Straus, revela os seguintes traços: a) tanto a forma normal (FN) quanto a forma prima (FP) do inciso – [01478] – deixam claro a simetria intervalar interna, e que isso se revela pelos três tetracordes contidos -, [0147), [0148] e [0156]; b) a confi guração original comporta os tricordes [037] e [036] e [048], correspondentes respectivamente às tríades perfeitas, diminutas e aumentadas, além das formas [014], [015] e [016]. 38 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. Essas observações já nos permitem avaliar alguns desdobramentos do motivo I no campo melódico como, por exemplo, no compasso 57. Aqui, é elidida a repetição da tríade diminuta (Sib-Réb-Mi) e o último intervalo é modifi cado: em vez de uma quarta justa ascendente, uma terça descendente, estabelecendo assim uma nova confi guração: a forma [01457] que contém uma nova díade: o intervalo de tom inteiro, inexistente no agrupamento original. Figura 4 – Segmento melódico do c. 5 – 1º violino, dobrado duas oitavas abaixo pela viola Tal modifi cação se mostra relevante para derivações motívicas, pois, de certa forma, “diatoniza” o conteúdo do parâmetro melódico e harmônico posteriores, seja na subseção b e c, seja na seção central (B). A segunda derivação direta de I (c. 6) amplia o desenho original, com alteração da matriz rítmica e o acréscimo de um intervalo de quinta justa ascendente, sendo que no compasso 9 é encontrada a terceira derivação direta de I, com o intervalo de terça maior usado no compasso 5 é disposto agora na forma ascendente [01469]. As derivações a partir do inciso I no campo melódico indicam um processo de acumulação contínua de novas unidades intervalares adicionadas a um subconjunto básico [0147]. Mesmo os gestos melódicos que não demonstram nenhuma vinculação direta com o motivo I apresentam-se como derivações remotas, pelo mesmo processo de ampliação do conjunto inicial (c. 10 e 11 - 1o vln. e vla.), ou motivo II, como pode ser visto na fi gura 3 Figura 5 – Motivo II como gesto melódico (1º violino e viola) e respectivos tricordes (FP) Ou seja, como constatado por Ribeiro, a sonoridade do conjunto inicial permeia grande 7 As possíveis derivações do motivo no campo harmônico serão objeto de estudo nos itens afi ns, ou seja, na análise do vocabulário harmônico. 39 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. parte do conteúdo melódico da 1a subseção. (RIBEIRO, f. 359). Na subseção b são empregadas novas fi guras, secundárias, mas que têm desdobramentos tanto dentro da própria 2a como na 3a subseção e na seção central. O motivo III dá início ao desenho melódico da subseção b. Fora isso, ele constitui o fator mais relevante da estrutura sequencial, entre os compassos 22 e 26, bem como sua derivação mais importante – III’ – encontrada no compasso 28, quando o desenho descendente é ampliado, mas os valores encurtados (diminuição), dando lugar ao aparecimento das tercinas. Figura 6 – Derivação motívica no conteúdo melódico da 2a subseção – b (1º violino c. 1 22 e 28). A derivação mais importante – por fi gurar em ponto de articulação formal, é encontrada nos compassos 31 e 32: sua confi guração rítmica está alterada, fi gurando totalmente em tercinas, invertida a direção, assumindo agora a forma de escala ascendente. Figura 7 – Escala ascendente como derivação do motivo III - c. 32 - 1º violino 3. Organização Harmônica. O primeiro ponto a se verifi car é o conteúdo harmônico fornecido pelo somatório das partes do 1o violino e do violoncelo no inciso inicial (c. 1.1 a 1.3). Figura 8 – Conjuntos de notas presentes no primeiro compasso – 1º violino e violoncelo. 40 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAISRIBEIRO, R. M. A forma total é a do conjunto [013569], ao passo que a parte do violoncelo corresponde à forma prima [0258]8, o que demonstra que, se de um lado há subgrupos que são comuns às duas vozes - [036] e [037], há elementos que estão presentes apenas na parte do 1o violino, como é o caso das tríades aumentadas [048] e dos conjuntos [014] e [015]. Contudo, há uma confi guração que não participa da parte do 1o violino: [025], mas que é parte fundamental do desenho do violoncelo. O primeiro agregado harmônico [02458], no 4o tempo do compasso 1, revela a fusão dos dois estratos (1o violino e violoncelo), com uma disposição que privilegia a tríade menor sobre o Dó, fi cando claro que a omissão do Fá# retira o confl ito que poderia existir com a fundamental. O mais importante, porém, é verifi car como a sonoridade deste acorde, em especial o intervalo de sexta menor (ou quinta aumentada), produz os fatores que presidirão o tipo de encadeamento harmônico que se segue (c. 2 a 4.3). Figura 9 – Organização harmônica do gesto inicial (c. 1) e seu desdobramento nos compassos 2 a 4. O desenvolvimento de todo o trecho mostra como os acordes derivam da formação resultante do somatório da parte superior e inferior do inciso que abre o movimento. 8 Essa forma prima constitui o que se convencionou chamar de “acorde de Tristão”. Esse é um agregado harmônico cuja presença na obra de Villa é apontada por Bruno Kiefer (1986, p. 42) e também por Paulo de Tarso Salles (op. cit., p. 28 – 36). 41 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. Figura 10 – conteúdo harmônico do 1º compasso e suas derivações ao longo da 1a subseção. Ao longo da 1a parte da subseção, patenteia-se a relação entre formações que, num primeiro olhar, aparentemente não possuiriam nenhum vínculo formal. Algumas matrizes intervalares são mantidas (invariâncias) e que estabelecem o vínculo entre agregados harmônicos, e que são representadas pelos conjuntos [026] e [0258], todas elas relacionadas diretamente ao primeiro acorde (c. 1.4) e, indiretamente, à célula melódica com que começa o movimento. Há também um contraste com o conteúdo melódico, que expande mais diretamente os elementos característicos da parte superior do inciso inicial. Permanece, no trecho entre o compasso 9 e 15, em substituição à lógica funcional, a conexão entre os acordes produzida por conduções das partes em que é mantido o maior número de notas comuns e no qual se privilegia o mínimo deslocamento das vozes, quase sempre por semitons em movimento paralelo, ou seja, de condução parcimoniosa, como se vê no exemplo a seguir. Figura 11 – representação esquemática da condução parcimoniosa das vozes na conexão entre acordes (c. 9 - 15) Mesmo ao aproximar-se o fi nal da 1a subseção (c. 10 a 12), quando a textura não apresenta características tão fortes de fragmentação do material quanto nos primeiros oito compassos, a presença das tríades aumentadas [048] em movimento paralelo na estrutura harmônica mantém uma conexão, ainda que remota, com os eventos harmônicos da abertura do movimento. Um outro traço que também permeia o processo de organização harmônica, pelo 42 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. menos no 1º movimento desse quarteto, é a presença de dois estratos (ou camadas) harmônicos, um constituído de um paralelismo descendente (muitas vezes cromático), que é interrompido por uma progressão substituta à fórmula funcional dominante-tônica. Em grande parte dos casos, a dominante é substituída por um acorde de sexta aumentada, que assume a função de dominante. Figura 12 – representação esquemática das camadas diferenciadas – compassos 17 a 19. Em outras situações, o processo culmina com a substituição da dominante por uma tríade com sexta maior acrescentada (FP [0258]), como ocorre entre os compassos 32 e 33, na subseção b. Figura 13 – progressão com linha do baixo cromática e tríade menor com sexta acrescentada com função de dominante de Ré (c. 32 e 33). Ou por sétimas da dominante secundárias, antecedidas das progressões formadas por paralelismos de acordes de sétima. 43 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. Figura 14 – progressão com linha do baixo cromática e acorde de dominante secundária do VI de empréstimo (c. 68 - 69). Mais signifi cativo, caso se opte pela adoção de uma concepção analítica que admite um maior grau de abstração no tratamento do material harmônico, é a subdivisão em camadas a partir do conteúdo intervalar. É o que se pode depreender da análise do início da seção conclusiva (c. 129 a 133). É evidente aqui a existência de duas camadas harmônicas no segmento inicial: uma formada pelas duas vozes superiores (1o e 2o violinos) e a outra pelas quatro partes inferiores (viola e violoncelo). De pronto, no substrato inferior será encontrado o conjunto [01378], cuja confi guração se relaciona diretamente com o inciso inicial [01478]. Este conjunto contém a maior parte das formas presentes na harmonia da 1a subseção da obra, das quais as mais relevantes são [0158], [026] e [015] notando-se, entretanto, a ausência da tríade diminuta [036]. As duas partes superiores pertencem, por sua vez, ao conjunto [01368] onde estão inclusos os subconjuntos [026] e [025] mais a tríade diminuta [036), todos presentes no primeiro acorde assim como na parte grave (violoncelo) do 1o inciso, desempenhando importante papel na elaboração harmônica da 1a subseção do movimento. Figura 15 – relação em grande escala do conteúdo intervalar do primeiro compasso e do início da seção conclusiva e a divisão em camadas harmônicas (c. 129 - 133). 4. Considerações fi nais: A análise empreendida no presente trabalho tinha como objetivo mostrar, de forma resumida, alguns dos procedimentos adotados por Villa-Lobos na escrita do seu 44 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. último quarteto. Forma e meio instrumental que tem sido considerado o mais desafi ador aos compositores por exigir grande aporte técnico aliado a uma igualmente capacidade criativa, o quarteto de cordas se confi gura, na produção villalobiana, numa espécie de síntese da maioria dos recursos e modus operandi em termos de composição musical. O estudo do 17º quarteto apresenta um Villa-Lobos com domínio totalmente consistente do material musical, tanto nas grandes, quanto nas médias e pequenas dimensões, dentro das diretrizes analíticas assentadas por LaRue (1998, p. 5 – 9). Considerando-se o fato de que a análise partiu inicialmente de aspectos macroestruturais, no sentido de oferecer um enquadramento mais amplo para um detalhamento posterior, e que esse último se deu sobre dois aspectos – elaboração motívica e organização harmônica – é possível afi rmar-se que a consolidação dos dados compilados permite se chegar às seguintes conclusões: a) Grande Escala - a relação entre os polos ou centros da seção A e B é de terça maior Dó – Mi, sendo que a cadência fi nal desta última estabelece o Dó como centro tonal, o que cria a expectativa de um retorno de A (como A’) iniciando-se em Dó. No entanto, tendo em vista que a seção A’ inicia polarizando o Mi, as seções extremas não se conectam em grande escala a partir do mesmo patamar tonal, mas sim por meio de uma relação de terças – Dó – Mi. O retorno e estabilização de Dó têm lugar no início da parte conclusiva; - em cada um dos segmentos da seção conclusiva são trabalhados elementos motívicos pertencentes a cada subseção de A, com os desdobramentos da fi gura inicial I concentrados na estrutura harmônica, enquanto os motivos II e III projetam-se na elaboração do conteúdo melódico; - o inciso que abre o movimento fornece matrizes de construção harmônica, não somente para o começo da 1a seção, mas produz consequências no conteúdo harmônico do início da parte conclusiva. Assim sendo, oseventos harmônicos da parte conclusiva e da 1a parte da subseção a estão inter-relacionados pelos mesmos tipos de material intervalar, em especial os conjuntos [025] e [026]. Constata-se, portanto, um processo de derivação harmônica que atua não apenas em pequena escala, mas que relaciona eventos harmônicos separados no tempo, conferindo coesão, principalmente entre seções que não se conectam diretamente por intermédio do material temático. - o trabalho motívico não se caracteriza meramente por um jogo construtivo, indo mais além: enseja muitas vezes uma elaboração consistente de uma sonoridade básica (um 45 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. conjunto de intervalos) que permeia organicamente a dimensão horizontal, vertical e temporal de passagens e até de movimentos inteiros. b) Média escala e pequena escala: - uma matriz intervalar, presente no primeiro gesto, subjaz a todas as derivações motívicas no campo melódico na primeira subseção, por exemplo; - sintaxe constituída de paralelismos harmônicos (quase sempre descendentes) formados de acordes de 7ª; - divisão do material harmônico em camadas ou estratos harmônicos, cada uma delas com sua lógica de condução e tipologia; - lógica de conexão entre acordes que muitas das vezes recusa a sintaxe tonal, mas que recorre ao princípio da condução parcimoniosa, isto é, de um mínimo movimento das vozes no encadeamento entre acordes. Por fi m, os traços acima apontados demonstram características marcadamente pessoais de Villa-Lobos no trato com o quarteto, mas, ao mesmo tempo, apontam para uma consistência na utilização dos meios técnicos a seu dispor que expressam uma síntese de processos composicionais encontrados em outras fases, colocando-o em situação bastante favorável perante os avanços conquistados na composição musical ao longo da primeira metade do século XX. REFERÊNCIAS: ESTRELLA, Arnaldo. Os Quartetos de Cordas de Villa-Lobos. Rio de Janeiro: MEC/DAC - Museu Villa-Lobos, 1978. 142 p. FOURNIER, Bernard. L’esthétique du quatuor à cordes. Paris: Fayard, 1999. 706 p. KIEFER, Bruno. Villa-Lobos e o modernismo. Porto Alegre: Movimento, 1986. LARUE, Jan. Análisis del estilo musical. Original em inglês: Guidelines for Style Analysis. Cooper City: Spanpress, 1998, 186 p.. ROSEN, Charles. Sonata Forms. New York e London: Norton, 1980, 344p.. 46 QUARTETO Nº 17 DE VILLA-LOBOS: SÍNTESE DE PROCESSOS COMPOSICIONAIS RIBEIRO, R. M. SALLES, Paulo de Tarso. Villa-Lobos: processos composicionais. Campinas: Editora da Uni- camp, 2009, 263 p.. STRAUS, Joseph N. Introdução à Teoria Pós-tonal. Original em inglês: Introduction to Post-tonal theory. Trad. Ricardo Bordini. São Paulo: Editora da Unesp, 2012, Salvador: EDU- FBA, 2013, 310 p.. TARASTI, Eero. Heitor Villa-Lobos: The Life and Works, 1887-1959. Jefferson: McFarland, 1995. 438 p.. RIBEIRO, Roberto Macedo. A Escrita Polifônica dos Quartetos de Cordas de Villa-Lobos:um estudo do 1º, 2º e 17º quartetos. 2002. 498 f. Dissertação de Mestrado (Mestrado em Música) – PPGM/Escola de Música/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2002. 47 Trio nº 2 de Marcelo Rauta: infl uências villalobianas e procedimentos composicionais Wesley Higino1 UNIRIO - wesley.nhp@gmail.com Willian Lizardo2 UFRJ - willianlizardo@gmail.com Resumo: Este artigo busca demonstrar as infl uências exercidas por Heitor Villa-Lobos, através de seus procedimentos composicionais e o tratamento dado por ele ao material folclórico, na obra Trio nº 2, do compositor contemporâneo Marcelo Rauta. Esta obra é dedicada à memória de Villa -Lobos e nela, Rauta utiliza algumas melodias populares tradicionais brasileiras como: Os escra- vos de Jó, Marcha Soldado, Terezinha de Jesus, Fui no Itororó, Caranguejo, O pastorzinho e A alface já nasceu, algumas delas retiradas do Guia Prático de Villa-Lobos. Observamos que apesar dos procedimentos composicionais adotados por ambos serem os mesmos, o resultado musical é diverso. Palavras-chave: Villa-Lobos. Procedimentos composicionais. Canção folclórica. Dialogismo. Marcelo Rauta. The Trio nº 2 of Marcelo Rauta: infl uences of Heitor Villa-Lobos and compositional proce- dures Abstract: This paper seeks to demonstrate the infl uences of Heitor Villa-Lobos, through his com- positional procedures and his treatment of the folkloric material, on the chamber music piece Trio nº 2, by contemporary composer Marcelo Rauta. This piece is dedicated to the memory of Vil- la-Lobos and throughout the piece, Rauta uses melodies from traditional brazilian folk songs: Os escravos de Jó, Marcha Soldado, Terezinha de Jesus, Fui no Itororó, Caranguejo, O pastorzinho and A alface já nasceu, some of them taken from Villa-Lobos’s Practical Guide. Although both of them use the same compositional procedures, the musical result is entirely different. Keywords: Villa-Lobos. Compositional procedures. Folk song. Dialogism. Marcelo Rauta. INTRODUÇÃO No início do século XX, a fi gura de maior destaque no cenário musical brasileiro foi Heitor Villa-Lobos (1887-1959). O compositor foi capaz de interagir tanto com tendências es- téticas vanguardistas europeias quanto com músicas populares e canções folclóricas nacionais, no intuito de promover a afi rmação da chamada “música brasileira” idealizada no movimento modernista brasileiro. Por sua notoriedade, Villa-Lobos foi capaz de infl uenciar a obra de diver- sos compositores brasileiros, entre eles Marcelo Rauta. 1 WESLEY HIGINO. UNIRIO. Mestrando em Música pela UNIRIO. Bacharel em violino pela Faculda- de de Música do Espírito Santo. Recebe orientação regular da Profª Me. Carla Rincón (Quarteto Radamés Gna- talli) desde o ano de 2012. Atualmente é Mestrando em Música pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) na área de Musicologia e linha de pesquisa Linguagem e Estruturação Musical, sob orientação do Prof. Dr. Marcus Wolff. 2 WILLIAN LIZARDO. UFRJ. Professor da Faculdade de Música do Espírito Santo. Mestrando em Mú- sica pela UFRJ. Bacharel em piano pela Faculdade de Música do Espírito Santo. Recebe orientação regular da pianista e professora Linda Bustani desde o ano de 2016. Atualmente é Mestrando em Música pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na área de Práticas Interpretativas e na linha de pesquisa Processos do Desen- volvimento Artístico onde é orientado pela Profª Drª Miriam Grosman. de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 48 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. Marcelo Rauta é natural de Guarapari (ES), doutorando em Educação Musical pela UNIRIO, sob orientação da Profª Drª Ermelinda A. Paz, mestre e bacharel em composição pela UFRJ, orientado por João Guilherme Ripper, Marcos Vinícius Nogueira e Paulo Peloso. Atuou como professor de harmonia, análise musical e contraponto na Faculdade de Música do Espírito Santo (FRAGA, 2015). Em sua intensa atividade composicional Rauta possui 45 obras publi- cadas pela editora Periferia Music (Barcelona/Espanha) e pela Academia Brasileira de Música (Rio de Janeiro/RJ). Além das obras publicadas, o compositor possui um extenso catálogo de obras que abrangem variados instrumentos e formações. Rauta pode ser considerado como um dos compositores contemporâneos mais atuantes do Espírito Santo e pesquisas sobre sua obra têm colaborado para um melhor enten- dimento da música realizada no Estado. Neste artigo, assim, objetivamos expor aproximações e infl uências dos processos criativos de Villa-Lobos na obra de Marcelo Rauta, em especial no Trio nº 2, objeto de estudo deste trabalho. HEITOR VILLA-LOBOS E A CULTURA POPULAR Em suas viagens pelo país, o compositor pôde ter contato com diversas formas de cultura popular, e tal fato ajudou a formar a imagem de Villa-Lobos como pesquisador damúsica brasileira. Segundo Neves (2008), Villa-Lobos verá o folclore e as tradições populares como um todo, uma mescla complexa, de onde não se pode isolar um ou outro elemento. Assim, sua música não se prende às características negras ou indígenas, procurando refl etir sempre um clima sonoro que, como já disseram muitos autores, mostra mais a terra do que a raça. Para Neves (2008), havia vários pontos comuns entre o trabalho pessoal de Villa -Lobos e as ideias modernistas, principalmente sua busca pela nacionalização da criação mu- sical, através do aproveitamento do folclore e as experiências composicionais em ebulição na- quele período, com destaque para os esquemas harmônicos de superposição de tonalidades e afastamento das normas cadenciais tradicionais. Kostka afi rma que: O século XX levou compositores à necessidade cada vez maior de meios alternativos de organização musical e de um vocabulário que pudesse dialogar e agregar adequa- damente variados métodos e conceitos. É possível observar cada um desses caminhos se ramifi cando em várias direções criando assim um grande conjunto de estilos musi- cais, fi losofi as e práticas e sua inexorável sobreposição, mesmo quando aparentam um distanciamento (KOSTKA, 2008, p. 427) Para além das questões musicais, a funcionalidade da obra de arte e seu emprego social e educativo, são pontos concordantes entre o pensamento do compositor e do poeta Má- rio de Andrade. Este era categórico ao afi rmar que os compositores brasileiros teriam de cola- borar para a determinação e a normalização dos caracteres étnicos da música brasileira e para a 49 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. afi rmação nacional. (NEVES, 2008, p. 78). Na década de 1930, Villa-Lobos receberá apoio político para pôr em prática seus ideais educacionais junto à ideologia do Estado Novo, no governo de Getúlio Vargas. Seu progra- ma incluía a difusão do conhecimento de música nas escolas primárias a partir do canto, buscando formar a mentalidade infantil para cantar a grandeza da pátria e o trabalho de construí-la, podendo desenvolver a disciplina, o civismo, o espírito patriótico, fomentando o trabalho em conjunto e preparando futuras plateias. Com esse fi m, o compositor elabora uma coletânea de canções po- pulares folclóricas para ser utilizado nas aulas de canto orfeônico, o Guia Prático, conjunto de 137 peças retiradas da tradição popular e grafadas em partitura, algumas delas harmonizadas e rearranjadas por ele, buscando despertar a sensibilidade da criança por meio da percepção rítmica, sonora, dos intervalos, dos timbres, dos acordes, da dinâmica. Nele, o compositor produz arranjos que podem ser de fácil acesso para vozes e instrumentos, “dando-lhes forma mais elaborada, ape- sar de, por vezes, revesti-las de uma atmosfera de ingenuidade e de improvisação despretensiosa, que são características do folclore” (GANDELMAN, 2011, p. 22). MARCELO RAUTA No Trio nº 2 de Marcelo Rauta, há o emprego de melodias presentes na infância do compositor e algumas das melodias catalogadas no Guia Prático como: Os escravos de Jó, Terezinha de Jesus, Fui no Itororó, Caranguejo, O pastorzinho e A alface já nasceu. Também destacamos a utilização da construção cíclica (característico em César Franck), onde o com- positor usa materiais expostos no primeiro movimento também no último movimento da obra. Esse procedimento é similar em outras obras do compositor. Sua admiração pelo processo criativo villalobiano o motivou a criar a Sinfonietta nº 4 que traz procedimentos composicionais presentes no Choros nº 10 de Villa-Lobos (FRAGA, 2015). No trecho a seguir, em entrevista concedida à pesquisadora Gomes, Rauta comenta sua proximidade com os procedimentos composicionais villalobianos: [...] confesso ter abusado da afi nação do violão em quartas para escrever nesta lingua- gem, o procedimento que mais usei nos últimos dez anos. Sou fã de Villa-Lobos, estu- do seus procedimentos composicionais e, assim, também me interessei por consultar suas obras para violão, em especial os estudos (RAUTA, Marcelo. Entrevista conce- dida pelo compositor no dia 08 de outubro de 2015 à Sabrina Souza Gomes, p. 6). A maior parte dos procedimentos composicionais utilizados por Marcelo Rauta foi estabelecida no decorrer do século XX, mas também podemos observar o emprego de procedi- mentos característicos de outros períodos da história da música. Segue um trecho de entrevista realizada pelo autor com Marcelo Rauta, onde o compositor comenta os procedimentos compo- sicionais usados em sua produção: Observo o padrão estético da forma, da forma aberta (fantasia e improvisação), uso de 50 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. centros tonais, imitações, paralelismos, superposições de segundas, quartas e sétimas, clusters, escalas naturais (maior/menor) e artifi ciais, modalismos, texturas contra- pontísticas, textura de melodia acompanhada (inclusive o baixo d’Alberto), texturas fi gurativas, monofonias, elementos rítmicos/construções melódicas populares e fol- clóricas da música brasileira e do mundo, ou seja, um padrão relativamente amplo e de escolhas que misturadas podem se tornar híbridas. Não sou preocupado em utilizar uma só linguagem ou estética para cada obra (RAUTA, Marcelo. Entrevista concedida ao autor no dia 05 de junho de 2017). No trecho acima transcrito, podemos observar sua busca por não utilizar somente uma linguagem ou estética, mas a possibilidade de equilibrar elementos diversifi cados em uma obra, evidenciando assim o dialogismo característico em sua obra. Para Avvad (2010), os com- positores brasileiros contemporâneos seriam desprovidos do preconceito em utilizar elementos ligados às estéticas anteriores ou ultrapassadas, e revisitariam tais elementos com liberdade, apropriando-se de determinados elementos estéticos, ou recriando-os à sua própria maneira. DIÁLOGOS ENTRE MARCELO RAUTA, HEITOR VILLA-LOBOS E A CULTURA POPULAR BRASILEIRA A criação artística ou científi ca estará sempre em diálogo com conhecimentos e produções passados; seja apropriando-se dos modos criativos anteriores, seja negando-se par- cialmente a aproximação de tais modos. “A obra criativa representa um processo histórico con- tínuo, onde cada forma nova tem por base a precedente.” (VIGOTSKI, 2014). Mikhail Bakhtin no início do século XX em seus estudos de literatura compara- da de romances do século XIX, “[...] estabelece a noção de dialogismo - diálogo ao mesmo tempo interno e externo à obra - que estabelece relações com as diferentes vozes internas e com diferentes textos sociais.” (ALÓS, 2006, p. 1). Para Bakhtin, um texto não subsiste sem o outro, seja atraindo-o ou rejeitando-o, e assim, permitindo que ocorra um diálogo entre dois [ou mais] discursos. Esse tipo de diálogo pode ser observado no momento da criação musical. Um com- positor conscientemente ou não, trabalha dentro de um sistema musical - e porque não cultural - que o precede e que propõe um diálogo, onde, dentro das inúmeras possibilidades que este sis- tema lhe oferece, o compositor escolhe os caminhos que lhe aprouver para a construção de seu “novo” texto (ou discurso) musical. “Um discurso, qualquer que seja, nunca é isolado, nunca é falado por uma única voz, é discursado por muitas vozes geradoras de textos, discursos que se intercalam no tempo e no espaço.” (ZANI, 2003, p. 125). Salientamos que a relação dialógica existente entre o discurso antecedente com o discurso “novo”, de forma alguma pressupõe qualquer relação hierarquizante entre os mesmos. 51 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. Pelo contrário, a constante relação entre eles gera transformação e novidade. Ambos possuem seus valores. Alós (2006) argumenta também na mesma direção: A palavra do mesmoe a palavra do outro não se miscigenam homogeneamente no processo de enunciação narrativa, perdendo suas características próprias e formando um terceiro elemento; ao contrário, ambas mantêm determinadas particularidades dis- cursivas em confronto, organizadas em uma mesma enunciação narrativa [...] (ALÓS, 2006, p. 3). Têm-se assim, a concretização do dialogismo bakhtiniano. Através dessa perspec- tiva poderemos observar no objeto de estudo deste artigo, relações dialógicas entre os proce- dimentos composicionais utilizados por Marcelo Rauta com os procedimentos villalobianos; além do diálogo realizado por Rauta com canções folclóricas brasileiras. A seguir iremos expor tais relações dialógicas. SIMETRIA O Trio Nº2 se inicia com um material temático (Comp. 1 a 6) que possui uma cons- trução intervalar baseada principalmente em cromatismos descendentes. Esse material, porém, é repetido imediatamente (Comp. 7 a 12), mas de forma transposta, o que sugere uma simetria translacional (SALLES, 2009) por transposição direta do material original, repetido uma quar- ta acima da altura original. Observe a Figura 1: Figura 1: Simetria translacional. Comp. 1 a 12. Fonte: Editoração dos autores. Podemos observar este mesmo procedimento em A Prole do Bebê Nº1 Caboclinha de Villa-Lobos. O ostinato inicial é reutilizado de forma transposta em diferentes momentos, sugerindo também, simetria translacional. Observe as fi guras 2 e 3 para melhor compreensão. 52 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. Figura 2: Ostinato inicial em Caboclinha. Comp. 1 e 2. Fonte: Editoração dos autores. Figura 3: Reutilização do ostinato inicial em Caboclinha. Comp. 37 a 40. Fonte: Editoração dos autores. Salientamos que o uso de simetrias pode ser uma ferramenta valiosa para uma cons- trução musical coesa, ocasionada pelo reaproveitamento de materiais. OSTINATO A partir do compasso 27, inicia-se uma seção onde observamos a apresentação de um ostinato de particular importância. O compositor apresenta no piano, esse ostinato que será reproduzido em 48 compassos no decorrer do primeiro movimento da peça, o que corresponde a 20% de sua duração total. Na seção fi nal, ele funcionará como fundo textural, sendo sobre- posto por outros materiais temáticos apresentados anteriormente, intercalados entre o violino e o violoncelo. O ostinato e os materiais temáticos estão representados na Figura 6. Figura 6: Setas: fi gurações temáticas reutilizadas. Destaque: Ostinato. Comp. 211 a 219. Fonte: Editoração dos autores. 53 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. Essa forma de utilização do ostinato pode ser encontrada também nas obras de Villa-Lobos. A saber; enquanto há uma simultaneidade de apresentação de diversos materiais no eixo vertical, horizontalmente o ostinato proporciona organicidade aos eventos diversos que ocorrem (SALLES, 2009). Abaixo, na Figura 7, podemos observar um exemplo onde Villa-Lo- bos utiliza o ostinato como fundo textural em contraposição à fi guração melódica. Figura 7: Figuração melódica e fundo textural. Quarteto Nº5 de Villa-Lobos, primeiro movimento. Comp. 101. Fonte: Editoração dos autores. UTILIZAÇÃO E TRATAMENTO DE MELODIAS FOLCLÓRICAS Tal como comentado em seções anteriores, devido ao ensejo de se construir uma identidade nacional na música brasileira, Villa-Lobos incorporou em suas composições cantigas folclóricas que receberam diferentes tratamentos harmônicos, sejam eles próximos da harmonia tonal tradicional, ou até mesmo tratamentos harmônicos tonais expandidos. Nas Cirandinhas de 1926, o tratamento harmônico tradicional pode ser observado nas diversas pe- ças que compõe essa coleção (Zangou-se o Cravo com a Rosa, por exemplo). Já em A Prole do Bebê Nº 1, Villa-Lobos dá um tratamento tonal expandido às melodias folclóricas utilizadas (Polichinelo, por exemplo). Observe os exemplos nas Figuras 8 e 9. Figura 8: Acompanhamento harmônico tonal tradicional. Cirandinhas Nº1. Comp. 17 a 20. Fonte: Editoração dos autores. 54 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. Figura 9: Acompanhamento harmônico tonal expandido. Canção folclórica em destaque. A Prole do Bebê Nº 1, Polichinelo. Comp. 23 a 33. Fonte: Editora Casa Arthur Napoleão, Rio de Janeiro. Marcelo Rauta trabalha da mesma forma no Trio Nº 2. O tratamento harmônico dado por Rauta para as melodias folclóricas são tradicionais ou expandidos. Estruturalmente, porém, observamos uma série de sobreposições de temas, texturas e tonalidades, gerando estru- turas complexas. Em outros momentos, podemos observar construções harmônicas simples e tradicionais, o que nos revela em Rauta, o interesse pela mescla de procedimentos e construção de contrastes. A primeira citação melódica folclórica no Trio Nº 2 ocorre no compasso 29. Rauta cita a canção Os escravos de Jó de forma variada sob um fundo textural gerado pelo principal ostinato utilizado na peça. Observe na Figura 10, a melodia folclórica tal como ela é conhecida, e na Figura 11, como a melodia foi trabalhada no Trio Nº 2. Figura 10: Canção folclórica Os escravos de Jó. Primeira frase musical. Fonte: Editoração dos autores. Figura 11: Ostinato e melodia folclórica variada. Comp. 27 a 31. Fonte: Editoração dos autores. A segunda canção folclórica utilizada é Marcha Soldado. Inicialmente o compositor a apresenta de forma variada, mas logo depois ele a cita na forma original. Destacamos o trata- 55 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. mento tonal tradicional dado à canção. Abaixo, observe a Figura 12 para mais detalhes. Figura 12: Melodia folclórica com tratamento harmônico tonal tradicional. Comp. 52 a 64. Fonte: Editoração dos autores. Nos compassos 123 a 137, ocorre uma superposição de materiais temáticos. São eles: a canção folclórica Marcha Soldado no violino (com variação), o material temático inicial no piano, e um ostinato no violoncelo. Observe a Figura 13. Figura 12: Superposição de materiais. Comp. 121 a 132. Fonte: Editoração dos autores. ELEMENTOS CONTRAPONTÍSTICOS Bach é fonte de inspiração e estudo de Villa-Lobos desde pelo menos 1910, quando o compositor realiza uma transcrição de uma fuga do Cravo bem temperado de Bach, para vio- 56 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. loncelo e piano. O ciclo das Bachianas é a afi rmação maior da valorização por Villa-Lobos da produção musical de Bach. Citamos em especial a Bachianas Brasileiras Nº1 para octeto de violoncelos, que em seu último movimento intitulado Fuga (Conversa), Villa-Lobos constrói uma exposição fugada inspirada nos moldes bachianos. Observe a Figura 13, onde exemplifi - camos um trecho da exposição. Figura 13: Entradas em estilo fugado indicadas pelas setas. Bachianas Brasileiras Nº1 Comp. 1 a 9. Fonte: Edi- toração dos autores. Marcelo Rauta se inspira também nesse estilo composicional. No Trio Nº 2, toda a seção que engloba os compassos 148 a 199 está estruturada a partir de procedimentos contra- pontísticos que incluem imitações e stretti. O “sujeito” dessas construções é a frase inicial de Os escravos de Jó. Observe as Figuras 14 e 15 para melhor visualização. Figura 14: Entradas temáticas em estilo fugado estão indicadas pelas setas. Comp. 148 a 153. Fonte: Editoração dos autores. 57 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. Figura 15: Entradas em stretto indicadas pelas setas. Comp. 180 a 199. Fonte: Editoração dos autores. SOBREPOSIÇÃO DE ACORDES (CLUSTER) Dentro da variedade de procedimentos adotados por Villa-Lobos em suas obras, podemos listar também a sobreposição de acordes (Clusters).José Maria Neves (1988), em “Villa-Lobos e os choros”, comenta elementos característicos da linguagem villalobiana e lista dentre eles a sobreposição de acordes. [...] três processos [harmônicos] são mais frequentes: a harmonia no sentido convencio- nal dando roupagem a melodias e preservando suas características tonais, às vezes utili- zando marcha de acordes; com emprego de massas sonoras formadas por superposição de acordes ou “cluster”, e por último um processo mais horizontal, próximo à concepção contrapontística, com grande quantidade de elementos melódicos. (NEVES, 1988, p. 6). Separamos um exemplo em A Prole do Bebê Nº 2 de Villa-Lobos onde podemos observar o uso desse procedimento composicional (Figura 16). Figura 16: Superposição de acordes em destaque. O Lobosinho de vidro em A Prole do Bebê Nº 2. Comp. 180 a 199. Fonte: Max Eschig, Paris. Marcelo Rauta no Trio Nº2 faz uso do mesmo procedimento. A partir do com- passo 200, há uma sobreposição de acordes e tonalidades. Na “mão esquerda” da parte do piano há as notas, Dó, Ré, Mi, Fá e Sol, na “direita” Dó, Mib, Solb e Lá, o que gera uma sobreposição 58 TRIO Nº 2 DE MARCELO RAUTA: INFLUÊNCIAS VILLA- LOBIANAS E PROCEDIMENTOS COMPOSICIONAIS HIGINO, W. ; LIZARDO, W. de acordes (Dó maior, Dó menor com quinta diminuta e Ré menor). Entre o violoncelo e o vio- lino há sobreposição de tonalidade, Dó maior no violoncelo e Dó# maior no violino. Observe a Figura 17 para melhor entendimento. Figura 17: Sobreposição acordes e tonalidades. Comp. 200 a 205. Fonte: Editoração dos autores. CONCLUSÕES A partir das análises realizadas, pudemos observar os diálogos existentes no mo- mento da criação musical. Villa-Lobos e Bach; Canções folclóricas com Rauta e Villa-Lobos; Villa-Lobos e Rauta; ambos e a tradição musical ocidental… Através desses diálogos, obser- vamos a importância dos mesmos para a criação. É como diz o ditado: “Quem conta um conto, aumenta um ponto”. Diálogo gera transformação e novidade. Assim, este trabalho não preten- deu esgotar todas as possibilidades de refl exão a respeito das infl uências exercidas por Heitor Villa-Lobos na obra de Marcelo Rauta, mas sim, oferecer subsídios e novas informações para a ampliação da pesquisa sobre música contemporânea brasileira, em especial a música de Mar- celo Rauta. REFERÊNCIAS ALÓS, Anselmo Peres. Texto Literário, Texto Cultural, Intertextualidade. Revista Virtual de Estudos da Linguagem, Brasil, v. 4, n. 6, p.1-25, mar. 2006. Disponível em: <http://www. revel.inf.br/fi les/artigos/revel_6_texto_literario.pdf>. 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Vitória. KOSTKA, Stefan. PAYNE, Dorothy. Harmonia Tonal. Traduzido a partir da Sexta Edição, de 2008 por Hugo L. Ribeiro, Jamary Oliveira e Ricardo Bordini. Última atualização: 14 abr. 2015. Disponível em: < http://hugoribeiro.com.br/bd-harmonia.php >. Acesso em 3 de set. 2017. NEVES, José Maria. Música Contemporânea Brasileira. 2ª edição revista e ampliada por Salomea Gandelman. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2008. _______. Villa-Lobos e os choros. Rio de Janeiro: UFRJ, 1988. PILGER, Hugo Vargas. Heitor Villa-Lobos: O violoncelo e seu idiomatismo. Curitiba: Crv, 2013. RAUTA, Marcelo. Entrevista concedida pelo compositor no dia 08 de outubro de 2015 à Sabri- na Souza Gomes. _______. Entrevista concedida pelo compositor ao autor no dia 05 de junho de 2017. SALLES, Paulo de Tarso. Villa-Lobos: Processos Composicionais. São Paulo: Unicamp, 2009. ZANI, Ricardo. Intertextualidade: considerações em torno do dialogismo. em Questão, Rio Grande do Sul, v. 9, n. 1, p.121-132, jan. 2003. Disponível em: <http://seer.ufrgs.br/index.php/ EmQuestao/article/view/65>. Acesso em: 25 out. 2017. VIGOTSKI, Lev Semionovich. Imaginação e criatividade na infância. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2014. Tradução de João Pedro Fróis. 60 MESA REDONDA II: RECEPÇÃO E CIRCULAÇÃO de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 61 Heitor Villa-Lobos e o americanismo musical de Francisco Curt Lange1 Loque Arcanjo Júnior2 (UFMG/UEMG/UNIBH) arcanjo.loque@gmail.com Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar os diálogos entre Heitor Villa-Lobos e o projeto musicológico e editorial de Francisco Curt Lange intitulado Americanismo Musical. A partir do levantamento da documentação presente no Acervo Curt Lange, localizado na Biblioteca Central da Universidade Federal de Minas Gerais, em especial as cartas trocadas entre estes interlocutores e o material musicológico disponível no acervo, tornou-se possível perceber, entre aproximações e dis- tanciamentos, o papel desempenhado pelo musicólogo alemão radicado no Uruguai na divulgação, circulação e internacionalização da obra do compositor brasileiro no contexto político e cultural dos anos 1930 e 1940. Palavras-chave: Villa-Lobos. Curt Lange. Americanismo. nacionalismo. Heitor Villa-Lobos and the musical americanism of Francisco Curt Lange Abstract: This article aims to analyze the dialogues between Heitor Villa-Lobos and the musicology and editorial project of Francisco Curt Lange entitled Americanismo Musical. From the survey of the documentation present in the Acervo Curt Lange, located in the Central Library of the Federal University of Minas Gerais, especially the letters exchanged between these interlocutors and the available musicological material in the collection, it became possible to perceive that between ap- proximations and distances the the role played by the German musicologist based in Uruguay in the dissemination, circulation and internationalization of the work of the Brazilian composer in the political and cultural context of the 1930s and 1940s. Key words: Villa-Lobos. Curt Lange. Americanism. nationalism. 1. Francisco Curt Lange e o Americanismo Musical: pan-americanismo, nacionalis- mo e musicologia Creemos, sin embargo, que la era del nacionalismo ha llegado a su mayor oscilación y que el péndulo se dirige al otro extremo. (F. Curt Lange, 1946) Franz Kurt Lange, musicólogo idealizador do Americanismo Musical, nasceu em Eilemburg, Prússia, atual Alemanha, em 1903. Mais tarde, quando adquiriu cidadania uruguaia, 1 Este artigo é parte da pesquisa de Pós-doutorado desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Mú- sica da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais, na linha de Pesquisa Música e Cultura, sob a supervisão da professora Dra. Edite Maria Oliveira da Rocha. 2 LOQUE ARCANJO JÚNIOR, Doutor e mestre em História Social da Cultura e especialista. em Histó- ria da Cultura e da Arte pela UFMG. Pós-doutorado em andamento na Escola de Música da UFMG na linha de pesquisa Música e Cultura. Professor da Escola de Música da UEMG. Principais publicações, artigos: Um músico brasileiro em Nova York: o Pan-Americanismo na obra de Heitor Villa-Lobos (1939-1945). Revista Estudos Po- líticos, v. 6, p. 467-486, 2016. O violão de Heitor Villa-Lobos: entre a Belle Époque cariocae as rodas de choro. e-Hum, v. 6, p. 1, 2013. História da Música: Refl exões teórico-metodológicas. Modus UEMG, v. 07, p. 3-13, 2012 Livros publicados: Heitor Villa-Lobos os sons de uma nação imaginada. 1. ed. Belo Horizonte: Editora Letramen- to, 2016. . O ritmo da mistura e o compasso da História: o modernismo musical nas Bachianas Brasilerias de Heitor Villa-Lobos. Rio de Janeiro: E-papers, 2008. de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 62 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . passou a se chamar Francisco Curt Lange. Na sua infância mudaria frequentemente de residên- cia por imposição das atividades profi ssionais do pai, Franz Josep Lange, engenheiro de acús- tica de alta sofi sticação, que chegou ainda jovem a residir na Rússia. A residência defi nitiva da família Lange seria em Bremen, cidade vizinha de Hamburgo. Josep, herdeiro de uma fortuna, manteve com conforto a família durante a adolescência de Kurt Lange. Sua mãe, Elisabeth Von Luchsenring Klauss Lange, tocava piano e cantava. Em um universo familiar muito favorável, o jovem Kurt Lange iniciou sua formação musical aos seis anos, por meio das aulas de violino e, posteriormente, de piano (MOURÃO, 1990). Apesar da Primeira Guerra Mundial, Kurt Lange completou seus estudos sem atropelos e partiu para Munique para estudar arquitetura na Escola Politécnica Superior daquela cidade, além de doutorar-se em musicologia comparativa com Von Hornbostel, em Berlim. Formado numa tradição de estudos musicológicos que se caracterizava pela narrativa dos grandes vultos da música universal, sua vinculação à história comparada da música, com seu professor Ernst Buecken, teria mais tarde uma importância fundamental nos seus estudos sobre a música na América Hispânica e nos Estados Unidos. Nas palavras de Buecken: “os objetos de observação são obras, os estilos, as culturas nas suas formas de desenvolvimento: posicionados um ao lado do outro, um contra o outro, um em relação ao outro” (MOURÃO, 1990, p. 23). Como ocorrera com diversos outros intelectuais alemães, Lange emigrou para a Amé- rica do Sul fugindo da crise que assolava seu país natal. Chegou, inicialmente, em Buenos Aires e visitou Córdoba e Mar del Plata, radicando-se no Uruguai, a partir de 1926, onde permaneceu até fi ns da década de 1940. À mesma maneira que Koellreuter, Curt Lange faz parte de um grande número de imigrantes alemães que vieram para a América no período entre guerras. “Entre o fi nal da Primeira Guerra e 1933 chegaram em torno de 80.000 alemães para o Brasil, constituindo-se esse período como o mais intensivo de imigração alemã para o país em toda a história da imigração alemã” (GERTZ, 1996, p. 85-105). Depois da Primeira Guerra Mundial, ocorreu uma onda de emigração alemã para a América Latina que, numericamente, ultrapassou muito àquela ocorrida no século XIX. O Brasil, durante a República de Weimar, com mais de 58.000 alemães, segundo as estatísticas governamentais, tornava-se novamente o principal alvo da emigração alemã para a América Latina e, com isto, o segundo alvo mais importante da emigra- ção alemã além-mar, perdendo apenas para os Estados Unidos. (RINKE, 2008). Para compreender a América musical desenhada por Curt Lange, por meio de seu projeto musicológico intitulado Americanismo Musical, é importante perceber que o seu pro- jeto correspondia às estratégias de atuação da União Pan-Americana. Neste sentido, Lange realizaria na Biblioteca do Congresso de Washington, por solicitação do secretário de Estado dos Estados Unidos, a Primeira Conferência de Relações Interamericanas no campo da música. Como ressonância desses interesses, foi ofi cializado pelo governo do Uruguai, em 26 de junho 63 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . de 1940, o Instituto Interamericano de Musicologia, por iniciativa de Curt Lange e recomenda- ção da VIII Conferência Internacional Americana de Lima (1938), do Congresso Internacional de Musicologia de Nova York e da já mencionada Conferência de Relações Interamericanas de Washington, estas duas últimas de 1939 (BUSCACIO, 2009). O pan-americanismo teve como marco ofi cial a Primeira Conferência Internacional Americana, nas sessões que ocorreram de 2 de outubro de 1889 a 19 de abril de 1890. O termo teria aparecido pela primeira vez na imprensa norte-americana e, assim, passou a ser utilizado para designar a Conferência Pan-americana e as reuniões posteriores. Desta forma, o termo pan-americanismo difundiu-se e passou a denominar o conjunto de políticas de incentivo à integração dos países americanos, sob a hegemonia dos Estados Unidos, que buscavam, fun- damentalmente, o crescimento das exportações de seus produtos para o restante do continente. Como resultado desta primeira conferência, foi criado o Departamento Comercial das Repú- blicas Americanas, posteriormente denominado União PanAmericana. Encontros periódicos foram realizados durante toda a primeira metade do século XX, em diversas capitais do conti- nente, até que, em 1948, na Conferência de Bogotá, foi criada a OEA – Organização dos Esta- dos Americanos. Este intervalo de 58 anos foi marcado por tensas relações entre os países hispano-a- mericanos e os Estado Unidos, devido à agressiva política intervencionista conhecida como política do Big Stick. A partir dos anos de 1930, com a Política de Boa Vizinhança de Franklin Roosevelt, os Estados Unidos, com o objetivo de reforçar sua hegemonia na América Latina, substituem as ações de força por estratégias de relações culturais. No caso dos estudos sobre as relações entre a América Latina e o Brasil, na mesma direção da história das representações destacada por Burke (2005) e Chartier (1990), Baggio (1998) destacou as diferentes imagens e representações construídas pelos intelectuais brasilei- ros de fi ns do século XIX e das primeiras décadas do século XX (Eduardo Prado, Manoel de Oliveira Lima, José Veríssimo, Manoel Bomfi m, Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Artur Orlando e Silvio Romero), demonstrando a fl uidez e a variação presentes na identifi cação dos intelectuais brasileiros com a América Hispânica. A ideia de integração esteve presente por diversos momentos na história da América Latina durante o século XX, debate ligado às relações com os Estados Unidos e à busca por uma identidade comum a todas as nações americanas. O lugar do Brasil dentro deste cenário foi sempre oscilante: ora o país se apresentou como parte integrante da América, ora como o outro diferente. De acordo com Kátia Baggio: A necessidade de constituir e fortalecer uma identidade nacional brasileira levou mui- tos historiadores, cientistas sociais e ensaístas a reforçar as diferenças do Brasil em 64 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . relação aos demais países americanos. Éramos únicos, singulares, particulares: termos recorrentes no discurso destes autores. Este distanciamento do Brasil em relação aos países hispânicos foi, de certa maneira, incorporado pela sociedade brasileira. A iden- tifi cação dos brasileiros como latino-americanos é fl uida, variável, mais ou menos presente dependendo das circunstâncias e do momento histórico. A América Hispâ- nica – vista a partir de olhares brasileiros – é uma outra América, ainda que façamos parte deste todo complexo e contraditório denominado América Latina. (BAGGIO, 1998, p. 9). Estes estudos mais recentes sobre a América Latina têm demonstrado que “há no pen- samento brasileiro sobre a América Hispânica signifi cativas imagens e representações de discri- minação. Essa ‘outra’ América é vista como um lugar menos desenvolvido e mais caótico que o Brasil” (DORELLA, 2010, p. 104-122). A primeira metade do século XX é um momento em que os intelectuais brasileiros nutriam grande resistência emrelação aos países hispano-ameri- canos, resistência que remontaria ao processo de colonização e às rivalidades entre Espanha e Portugal. Em 1939, Curt Lange se encontrava em uma intensa atividade política e musical nos Estado Unidos, pois, para a VIII Conferência Internacional Americana, teriam sido encomenda- dos a ele, pelo secretário de Estado Cordel Hill, uns quarenta programas musicais de composi- tores latino-americanos para serem apresentados nos Estados Unidos ainda naquele ano. Ainda de acordo com Curt Lange, nesse momento foi vislumbrada a visita de Villa-Lobos àquele país. Porém, isto iria ocorrer somente em 1944 (CURT LANGE , 1988, p. 25). Em agosto de 1941, Aaron Copland, membro do Comitê de Música do Departamento de Estado dos E.U.A., iniciou seus contatos pessoais com artistas da América Latina. Nessas viagens, Copland aproximou-se dos músicos latino-americanos e brasileiros, em especial, incluindo os que não compartilhavam com a política de Boa Vizinhança defendida por Roosevelt. Numa conjuntura caracterizada pelo anti-americanismo de Villa-Lobos, Copland destacou esse compositor como o seu principal interlocutor. (CONTIER, 2004). Para Buscacio (2009), há mais de uma década Curt Lange tentava estabelecer um pro- jeto de integração da América por meio de contatos nos países hispano-americanos, no Brasil e nos Estados Unidos. O musicólogo tentou transformar seus projetos em programas apoiados pela União Pan-Americana. Porém, os Estados Unidos, ao contrário, estavam mais interessa- dos em investir em políticas que estivessem sob seu controle e, de preferência, que estivessem sediadas em seu próprio território. Nesse sentido, o projeto de Curt Lange, sediado no Uruguai, foi descartado de forma ofi cial, apesar de o musicólogo ter sido importante interlocutor dos nor- te-americanos no contexto dos anos 1940, graças à impressionante rede de relações construída por ele com as principais personalidades e compositores da vida musical da América Hispânica e do Brasil, como confi rma sua correspondência pessoal. 65 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . 2. Heitor Villa-Lobos e o americanismo musical de Francisco Curt Lange: aproxi- mações e distanciamentos Para discutir os diálogos de Villa-Lobos com o Americanismo Musical, deve-se obser- var que, durante o século XIX, a Europa foi invadida por movimentos ideológicos internacionais – os panismos – que tinham como proposta reunir, em torno de um centro dominante, países, povos, ou comunidades de parentesco vinculadas a questões étnicas, linguísticas e culturais. Como exemplos citamos: pan-americanismo, pangermanismo, paneslavismo, pan-islamismo, etc. Entretanto, a particularidade do pan-americanismo era seu caráter geográfi co continental, embora não deixasse de ter sua intenção política, apesar de não conter um plano estritamente político em termos doutrinários (ARDAO, 1987, p. 157-171). Para Ardao (1987), o que se percebe é que, por detrás dos conceitos de “pan-ameri- canismo” e “latino-americanismo”, escondidos sob o viés de integração cultural e política, se escondem os projetos de dominação tanto dos Estados Unidos quanto da França, que iniciavam seu processo de expansão industrial e consequentemente expansão imperialista. E que desses conceitos percebe-se, além da busca de aproximações e de dominações, que havia também uma tomada de posicionamento das nações hispano-americanas. É difícil dizer qual dos projetos políticos saiu vitorioso nesse “confl ito pela América Latina”. O projeto francês talvez tenha se dado de maneira um pouco mais sutil, mais “cultural”, com a adesão e difusão de intelectuais hispano-americanos ligados à França, em oposição ao intervencionismo militar norteamerica- no. Historicamente, a atuação norteamericana parece apagar de certa forma o brilho francês, ou talvez a historiografi a careça de estudos aprofundados sobre o projeto francês de intervenção na América Latina. Entre os anos 1930 e 1940, o movimento musical e musicológico, denominado por seu criador, a partir de 1933, Americanismo Musical, apresentava algumas metas centrais que são identifi cadas nos seus textos: a integração musical e musicológica do continente americano; o incentivo a publicações no campo musical e musicológico; a fundação de instituições culturais, discotecas e bibliotecas, responsáveis pela guarda da cultura musical e musicológica das Amé- ricas. Projetos expressos por meio de publicações tais como o Dicionário Latino-Americano de Música; Guia Profi ssional Latino-Americano e, em especial, os Boletins Latino Americano de Música. O contato entre Curt Lange e Villa-Lobos foi mediado por Mário de Andrade. Em 8 de março de 1933, Curt Lange escreveu uma carta para o musicólogo brasileiro na qual solicitava o contato com diversos personagens do cenário musical brasileiro, dentre eles, Villa-Lobos: Gostaria também que me colocasse em contato, se possível imediatamente, com os seguintes senhores: Villa-Lobos, Lorenzo Fernández, que sei que é um velho amigo 66 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . seu, o Sr. Braga e o Sr. Burle-Max, eu ouço constantemente. É possível que hoje adi- cionarei as cartas aos senhores, solicitando que você as envie aos destinatários com algumas linhas, mas se você não tiver tempo, enviarei em poucos dias.3 (ACL 2.1. S15.001.152). [Tradução do autor]. Daquele momento em diante, Mário de Andrade passou a ser um dos mediadores entre Curt Lange e nomes importantes do modernismo musical brasileiro: Villa-Lobos e Lorenzo Fernandez, além de Andrade Muricy e Renato Almeida. Na mesma data, Curt Lange escreveu a primeira carta para Villa-Lobos, na qual ao se apresentar, destacou os objetivos do contato: Por intermédio do Senhor. Professor Mário de Andrade de São Paulo, permito-me enviar estas linhas solicitando sua colaboração em uma obra que me permito detalhar em breves linhas: Sendo professor em Ciências Musicais na Universidade e diretor da Discoteca Nacional do Governo tenho desenvolvido, dentre outras obras um Léxico Sul Americano de Música no qual pretendo tratar das manifestações culturais desde o ponto de vista histórico, crítico, biográfi co, estético e científi co (...). Agradeceria infi nitamente a você, estimado maestro, se me repassasse alguns contatos de músicos, intérpretes, cantores e outras personalidades vivas ou não que podem ser incluidas ou mesmo dados sobre organizações ofi ciais e seus respectivos diretores. Também preciso de uma relação de obras de sua autoria impressas em discos com indicação de marca, número e outros detalhes. correspondentes.4 (ACL 2.2.001.104). [Tradução do autor]. Podemos perceber, a partir do material presente no Acervo Curt Lange-Biblioteca Central/UFMG, que Villa-Lobos correspondeu às demandas iniciais de Curt Lange, em especial pelo envio daqueles materiais solicitados pelo musicólogo alemão. Neste sentido, o material en- viado por Villa-Lobos viria, posteriormente a compor parte da produção musicológica de Curt Lange, em especial o Boletin Latinoamericano de Música em 1946. Em carta timbrada do Departamento de Educação, escrita ainda em 1933, Villa-Lobos afi rmava que: Sobre os bailados Amazonas e Pedra Bonita, junto remeto programas. Amazonas foi escrito em 1917. (...) [...] Junto remeto as músicas que me solicita, podendo ser procu- rada na Casa Arthur Napoleão, ou então na SEMA. Um abraço amigo do Villa-Lobos. (ACL 2.2S.1096). 3 Le agradecería también si me pusiera en contacto, si es posible inmediatamente, con los siguientes seño- res: Villa-Lobos, Lorenzo Fernández, de quien sé que eres un viejo amigo, el señor Braga y el señor Burle-Max, oigo constantemente. Es posible que hoy mismo yo agregue las cartas a los señores señores, pidiendo que las remita a los destinatarios con unas pocas líneas, pero si no tiene tiempo, las enviaré dentro de pocos días. 4 Por intermédiodo Senhor. Professor Mário de Andrade de São Paulo, permito-me enviarle estas líneas solicitando sú colaboración em uma obra que me permito detallar em breves rasgos a continuación: Siendo profes- sor em Ciencias Musicales em la Univerdidad e diretor de la Discoteca Nacional del Gobierno, he empreendido, entre otras obras la de um Léxico Sudmericano de Música em el cual tratar é todas las manifestaciones musicales desde el punto de vista histórico, crítico, biográfi co, estético y científi co (...). Agradecería infi nitamente a Ud., estimado maestro, que me facilitara algunas direcciones de músicos, ejecutantes, cantantes e otras personalidades vivientes y también desaparecidas que pueden ser incluidas en la obra, lo mismo que datos sobre organizaciones ofi ciales, y sus respectivos directores. También necesitaría la ración de las obras suyas impresas en discos, con indicación de marca, número y otros detalles correspondientes. 67 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . Sobre uma possível ida de Curt Lange ao Rio de Janeiro para desenvolvimento de suas pesquisas musicológicas, Villa-Lobos afi rmou que “Quanto à sua viagem ao Rio, vou trabalhar para que possa proporcionar a sua vinda, que me dará grande prazer” (ACL2.2S.1096). A pri- meira viagem de Curt Lange ao Brasil, o musicólogo alemão iria concretizá-la no ano de 1934, graças ao convite do maestro Walter Burle-Marx, que havia conhecido o musicólogo no ano anterior, em Montevidéu. Realizou uma série de conferências no Conservatório Brasileiro de Música, na Associação Brasileira de Imprensa e no Instituto de Educação Caetano de Campos. Curt Lange permaneceu durante um mês, tempo sufi ciente para travar relações com fi guras im- portantes das artes e da política brasileira: o próprio Villa-Lobos, Mário de Andrade, Luiz Hei- tor Correa de Azevedo, Francisco Mignone, Lorenzo Fernandez, Camargo Guarnieri, Guiomar Novaes, Oneida Alvarenga, Anísio Teixeira, Cândido Portinari, entre outros. Sua permanência mais longa no Brasil aconteceria apenas em 1944, para a polêmica publicação do VI Volume do Boletim Latino Americano de Música dedicado à música e à musicologia brasileira. Villa-Lobos passou a reconhecer a importância de Curt Lange para a divulgação de sua obra, pois, seu intercâmbio com o projeto do musicólogo fi ca explícito na carta enviada pelo compositor brasileiro no dia 10 de janeiro de 1935. Nela, Villa-Lobos afi rmou: Caro amigo Curt Lange Com todo prazer respondo a sua carta pedindo-lhe mil desculpas por não ter enviado desde logo a composição que me fora solicitada. Não o fi z imediatamente, foi somen- te por estar muito ocupado. [...] Agradeço-lhe a amizade testemunhada e todo apoio dispendido a minha obra, que são da mesma maneira sinceramente retribuídos. Breve lhe escreverei mais detalhadamente. Um grande abraço do amigo. (ACL 2.2S.1096). [Tradução do autor]. Em carta escrita por Villa-Lobos em 29 de julho de 1936, nota-se, mais uma vez, que o musicólogo alemão foi um interlocutor ativo em relação à divulgação das composições do maestro. Este papel desempenhado por Curt Lange fi ca explicito na fala do compositor brasilei- ro ao afi rmar: “tenho o prazer de remeter alguns dados sobre meu trabalho na SEMA e minha atuação na Europa e a minha música ‘Jeribáu’ que pode ser publicada no Boletim sob sua inte- ligente direção. Um abraço amigo de Villa-Lobos”. (ACL 2.2 S15.1096). Em carta enviada a Villa-Lobos no dia 9 de agosto de 1936, Curt Lange destacava a importância do material enviado pelo compositor brasileiro para a publicação do Boletin. De acordo com ele: Meu querido amigo, Recebi com a consequente alegria um material precioso que você colocou à minha disposição e que farei saber no terceiro volume do Boletim que aparecerá em outubro. Sim, é possível integralmente. Lamento apenas que você seja tão breve em sua carta e que você não detalhe suas atividades futuras no Rio.5 (ACL 2.1 S15.110) 5 Mi querido amigo, He recibido con consiguiente alegría un material precioso que pone Ud. A mi dis- posición y que daré a conocer en el tercer tomo del Boletín que aparecerá en octubre. Sí posible integralmente. 68 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . Em 8 setembro de 1936, Villa-Lobos informava a Curt Lange sobre suas atividades na SEMA e além de destacar outras atividades ligadas ao governo Vargas, ratifi cou o envio de no- tas dos jornais sobre a concentração de canto orfeônico realizada no “Dia da Pátria”, celebrado no dia anterior. Segundo Villa-Lobos: Prezado professor Curt Lange, Só hoje pude responder a sua estimada carta do dia 9 do mês p. f, devido a grandes trabalhos que tenho tido ultimamente. Realizei ontem uma concentração cívica com conjunto de 20000 crianças escolares e mil músicos de banda, cujas notas nos jornais, tenho o prazer de lhe enviar. (ACL 2.2 S15.1096). Em outra carta, datada de 13 de abril de 1938, podemos observar, novamente, os inter- câmbios musicais proporcionados por Curt Lange em relação à circulação da obra de Villa-Lo- bos impressa e também gravada. Nesta carta, Villa-Lobos disse: Prezado amigo professor Curt Lange, Recebeu a música manuscrita “Dança do Índio Branco” que lhe enviei? É inédita e está sendo gravada pelo grande pianista Tomás Terán em disco Victor. Fui convidado ofi cialmente para representar o Brasil e reger dois concertos no centenário da cidade de Bogotá-Colômbia, porém não decidi ainda sobre minha ida, pelos inúmeros afaze- res que me prendem atualmente no Brasil. (ACL 2.2 S15.027). É muito signifi cativo notar que as atividades políticas e burocráticas de Villa-Lobos e a historicidade das relações entre os intelectuais brasileiros e a América Hispânica explicam este hiato existente entre a tentativa de Curt Lange em levar Villa-Lobos aos Estados Unidos e a primeira viagem do maestro àquele país, ao fi nal de 1944. Se, num primeiro momento, Villa-Lo- bos era resistente em relação ao projeto de integração musical que envolvia diretamente Curt Lange, num segundo, a ligação direta com os Estado Unidos foi levada a cabo pelo compositor brasileiro. Em 1940, Villa-Lobos foi convidado por Curt Lange para fazer uma série de concertos em Montevidéu. Aceitando o convite, o músico brasileiro organizou uma “Embaixada Artística Brasileira” para os concertos no SODRE – Serviço Ofi cial de Difusão Rádio Elétrica do Uru- guai, órgão dirigido por Curt Lange. Poucos meses antes da viagem, Villa-Lobos solicitou a Curt Lange que ele conseguisse que os músicos brasileiros da Embaixada realizassem alguns concertos remunerados atuando como solistas no Uruguai durante a estada destes naquele país, “atendendo a que o governo não lhes pagará sufi cientemente para indenizá-los do prejuízo que os mesmos terão aqui nas suas atividades artísticas” (2.2S15.1096). Por iniciativa do SODRE, Villa-Lobos levou ao público uruguaio algumas de suas obras escritas nas décadas de 1910 e 1920. Sob a direção do maestro brasileiro, o concerto Lamento tan sólo que Ud. Sea tan escueto en su carta y que no me detalle algunas de sus futuras actividades en Río. 69 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . contou com a apresentação de três peças de sua autoria e outras obras de cinco compositores da música nacionalista brasileira. Mas, é muito signifi cativo observar que os recortes de jornais da época, selecionados por Curt Lange em seu arquivo, apresentavam, na mesma direção do Ame- ricanismo Musical de Curt Lange, Villa-Lobos como “o mais alto valor musical da América” (JORNAL EL DIÁRIO, 1940, ACL 2.2S15.1096) “Artista mais genial e original da América, “Villa-Lobos terminou a audição com uma suíte de danças afroamericanas” (LA TRIBUNA POPULAR, 1940, ACL 2.2S15.1096). Os jornais presentes no arquivo Curt Lange que analisaram os concertos realizados por Villa-Lobos atribuem, portanto, uma identidade “americana”tanto à sua obra, quanto à sua imagem enquanto compositor. Nestes concertos realizados no Uruguai, o repertório contava ainda com obras de outros compositores nacionalistas, tais como Lorenzo Fernandez e Fran- cisco Mignone. É muito signifi cativo notar também que as danças afroamericanas citadas pelo jornal La Tribuna Popular são as Danças Características Africanas, que foram escritas entre 1914 e 1916, e apresentadas por Villa-Lobos durante a Semana de Arte Moderna de 1922 (LA TRIBUNA POPULAR, 1940). Em carta enviada no dia 4 de fevereiro de 1941, Villa-Lobos falava de maneira bastante informal sobre sua visita a Montevideo, onde conhecera a família de Curt Lange. Nas palavras do compositor brasileiro: Venho hoje responder as suas duas cartas, não tenho feito há mais tempo por estar longe da cidade. Como vai D. Maria e os fi lhinhos? Tenho tido grande saudades de todos os amigos dessa “hermoza ciudad” e de “los ninos de las escuelas”. Gostou do espanhol? Saberá por acaso se as escolas da Venezuela e Argentina receberam mi- nhas cartas? Um grande abraço a todos da família e aos amigos que aí fi caram (ACL 2.2S15.1096). Além destas trocas de informações e diálogos muito positivos para ambas as partes, apre- sentaram-se, também, resistências e difi culdades para concretização do projeto de Curt Lange, difi culdades estas ligadas às complexas relações políticas do Brasil com diferentes projetos de integração que envolviam a América Hispânica. As difi culdades encontradas por Curt Lange para conseguir apoio fi nanceiro e político para estabelecer um diálogo mais próximo com seus interlocutores brasileiros e para a publicação do referido Boletim pode ser atribuída, também, às constantes transformações no cenário político brasileiro nos anos 1930 e 1940. Foi um contexto no qual o Brasil viveu episódios que alteravam signifi cativamente, por meio de crises políticas, o papel dos intelectuais em relação ao Estado: Revolução Constitucionalista de São Paulo em 1932, o Estado Novo de 1937-1945, dentre outros eventos. Ecos deste cenário conturbado podem ser percebidos na correspondência entre Curt Lan- ge e Villa-Lobos. A intenção de uma segunda viagem ao Brasil não se realizou com o apoio de 70 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . Villa-Lobos devido às divergências político-culturais e às mudanças constantes daquele con- texto. A carta enviada em 13 de abril de 1938, em resposta à carta de Curt Lange datada de 12 de março na qual o musicólogo solicitara apoio para um retorno ao Brasil, deixa implícita esta perspectiva. Nela, Villa-Lobos afi rmou que “comunico ao caro amigo que estou aguardando a reforma desta superintendência, a fi m de ver o que é possível para que o ilustre amigo venha ao Brasil”. (ACL 2.2S15.1096) Em carta enviada a Curt Lange naquele mesmo ano, Mário de Andrade, da mesma forma que Villa-Lobos, expressava sua preocupação com a infl uência das mudanças políticas no seu lugar social e no seu trabalho. Nesse momento específi co, os dois pesquisadores já tratavam, também, do projeto de Lange para a publicação do Boletim Latino Americano de Musicologia dedicado ao Brasil e da viagem do musicólogo ao Rio de Janeiro: As coisas aqui se transformaram completamente com a mudança política. Nada mais posso prometer ou garantir, pois subiu gente do partido oposto e estamos sendo fe- rozmente combatidos. Não vale a pena levantar o problema da publicação agora. Meu destino não é político, mas cultural [...] Por enquanto não passo de um funcionário subalterno. Muito cordialmente e tristonho. (ACL 2.2S15.027). As difi culdades encontradas por Curt Lange para publicação do Boletin dedicado ao Bra- sil já começam a fi car evidentes nas cartas trocadas com Villa-Lobos a partir de 1941. Numa delas Villa-Lobos deixa implícita estas difi culdades e também um afastamento em relação ao projeto editorial de Curt Lange ao afi rmar na carta que “Sobre o seu projetado Boletim, tomarei as necessárias providências por ocasião de sua próxima vinda ao Brasil [...]. Quanto à música que me pede, poderei mandar-lhe uma, simplesmente como amigo, visto já ter, de longa data, editores” (ACL 2.2S15.1096). Ao analisar a rede construída por Curt Lange com os modernistas no Brasil, Cesar Maia Buscacio afi rma que “Curt Lange percebia com grande animosidade a postura de Villa -Lobos no interior do campo musical”. Numa carta enviada a Camargo Guarnieri em 1940, o musicólogo alemão afi rmou: A partir de 9 de novembro irei ao norte argentino para fazer alguns estudos. Gostaria também de ir ao Brasil no próximo ano, mas ainda não sei como e como preparar minha viagem. Nada pode ser esperado de Villa-Lobos, porque ele pensa apenas em si mesmo. Eu já sabia disso e, pelo mesmo motivo, nunca pedi nada. Também estou satisfeito por ter vindo, porque acima de tudo, há sua personalidade forte.6 [Tradução do autor]. Ao analisar estes embates entre Villa-Lobos e Curt Lange, Assis (2016) afi rma que 6 A partir del 9 de noviembre me iré al norte argentino para hacer unos estudios. Gustosamente iría también al Brasil en el año que viene, pero no sé aún cómo y en qué forma preparar mi viaje. De Villa-Lobos nada puede esperarse, pues piensa sólo en sí mismo. Yo ya sabía esto y por la misma razón no le pediré nunca nada. Me satis- face asimismo que haya venido, porque por encima de todo, está su recia personalidad. 71 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . A série dos seis volumes do Boletim Latino-Americano de Música (BLAM), publica- da entre 1935 e 1946, contendo artigos de diferentes especialistas da musicologia que se praticava nas três Américas - incluindo textos de etnomusicólogos e historiadores, além de partituras inéditas encomendadas por Curt Lange para serem editadas em seu Suplemento Musical -, embora venha sendo citada em recentes trabalhos de cunho ainda não encontrou acolhida efetiva nos estudos brasileiros, sobretudo o Boletim Tomo VI, de 1946, que foi integralmente dedicado às práticas musicais do Brasil. (...) A obtenção do fi nanciamento para a publicação da primeira parte do Boletim se deu, de acordo com seu editor, graças à infl uência e o prestígio de Villa-Lobos nos meios públicos. A admiração e o reconhecimento de Lange expressos a Villa-Lobos no prólogo do Boletim, não foi impedimento para que o músico brasileiro tentasse inviabilizar sua circulação, assunto que detalharemos mais adiante. Destaca-se tam- bém o espaço privilegiado atribuído a Villa-Lobos. Além de assinar dois trabalhos que juntos somam quase 200 páginas (1/3 da publicação), sua obra é objeto de aná- lise por dois outros autores: Souza Lima e Lorenzo Fernandez. Soma-se, ainda, a publicação das Bachianas Brasileiras 06, no Suplemento Musical que acompanha o Boletim. A presença de duas peças dodecafônicas no Suplemento Musical, em meio a outras dezessete obras com forte traço nacionalista simbolizava, por um lado, que o Americanismo Musical de Lange não se limitava à produção musical “ofi cializada” do Brasil ou de qualquer outro país contemplado nos BLAM (haja visto que outras obras dodecafônicas de compositores americanos já haviam aparecido em números anteriores), mas, por outro lado, foi responsável pela forte reação de Villa-Lobos e seus colegas (ASSIS, 2016, p.10). O distanciamento de Villa-Lobos em relação ao trabalho de Curt Lange fi ca evidente ao observarmos a morosidade com a qual Villa-Lobos cuidava das questões burocráticas relacio- nadas à publicação do Boletín. Esta indiferença foi o motivo da carta enviada, em 1944, a Mário de Andrade na qual Curt Lange frisava sua indignação com o músico brasileiro: Villa-Lobos fala abertamente a certas pessoas e até a um amigo meu que se o Boletim não sair como ele quer, tirará o seu título e o fará sair editado com o nome do seu famoso Conservatório [...]. Não gosto de brigar, mas se Villa-Lobos quiser, ele terá. Nunca vi emparte alguma uma pessoa que seja mais detestada que este homem. (ACL 2.1.001.068) Em artigo intitulado Distanciamentos e Aproximações, publicado no Estado de São Paulo no dia 10 de maio de 1942, Mário de Andrade já apontava para o distanciamento em relação ao projeto musicológico de Curt Lange ao afi rmar: Os compositores brasileiros andam preocupados com certas observações e exemplos apresentados ultimamente por compositores e críticos do resto das Américas a respei- to da música nacional. No último número do seu admirável boletin latino-americano de música, o professor Curt Lange, insistindo sobre o caráter fortemente ‘folclórico’ de certas obras de compositores brasileiros, chama atenção para o grupo, aliás interes- santíssimo, de compositores chilenos, já... libertos da pesquisa nacionalizante. [...] E na Argentina, no Uruguay, por várias partes da América, surgem grupos de composi- tores moços, não sei se direi... avançadíssimos, mas resolutamente convertidos à ‘mú- sica pura’, despreocupados por completo de soluções técnicas nacionais para as obras. [...] Eu não conheço sufi cientemente a situação erudita nos outros países americanos, e por isso nada quero censurar a ninguém. Mas, entre nós, o caso talvez seja outro. A carta enviada a Villa-Lobos em 16 de junho de 1946 aponta a insatisfação de Curt Lange com o compositor brasileiro. Sobre os exemplares do Suplemento Musical referentes ao Boletim Latino-Americano de Música dedicado ao Brasil, Curt Lange afi rmava que Villa-Lobos 72 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . já estava distribuindo a publicação sem sua autorização. Nesta mesma carta, o musicólogo ex- pressa seu desagrado referente ao não recebimento de valores ligados aos subsídios do governo brasileiro referentes à obra. O tom das cartas a partir deste ano de 1946 tornou-se muito menos amigável. Nas palavras de Curt Lange: Eu soube pelas notícias de várias pessoas amigas que você já está distribuindo o Su- plemento Musical do Boletim. Houve comentários nos jornais, dos quais eu não tenho recebido nenhum deles. Peço-lhe de me dar notícias sobre este particular, pois na minha última eu já reclamei os Suplementos para iniciar a distribuição, a qual é mais necessária porque a gente já fi cou cansada de esperar, e a chegada do suplemento é uma espécie de alívio o justifi cativo. A minha situação também agrava-se de dia em dia. Peço-lhe de “acompanhar”, como Você disse, o processo, porque aqui preciso reintegrar dinheiro que recebi do governo em prestação e pagar uma série de dívidas, muitas delas urgentes, pelo fato de ter-se originado exclusivamente pelo nosso regres- so. (ACL 2.1S15.488). Em carta enviada por Villa-Lobos no dia 14 de junho de 1946, ele justifi ca a morosidade do processo mais uma vez dizendo sobre o contexto político e menciona outros dois interlocu- tores importantes do grupo de Lange: Cláudio Santoro e J. Koellreuter. Não temos descuidado absolutamente de tratar do caso dos Cr$15.000 que você de- verá receber. [...] Felizmente, foi há dias aprovado pelo presidente Dutra e espero que não demorará a solução de seu recebimento, assim cremos. Quanto à importância do “Boletim”, o pagamento está dependendo apenas do Koellreuter que temos mandado recado pelo Santoro para que nos procure afi m de poder lhe ser entregue a mesma. Infelizmente não poderei facilitar a você o adiantamento que me pede, pois tive com minha mãe inúmeras despesas, inclusive a compra de um apartamento em que ele morava e que estou ainda pagando. Além destas despesas, quero dizer-lhe que para a confecção do Suplemento Musical, devo dar de minhas economias talvez 15.000 cruzeiros (ACL 2.2S15.1096). As questões que envolvem estas polêmicas presentes nas cartas e que se referem à publicação do referido Boletim não podem ser reduzidas apenas a questões pessoais entre os interlocutores. No caso de Villa-Lobos, o compositor, ao longo de sua trajetória, compartilhou ideias, linguagens musicais, projetos estéticos, aderiu a novas práticas, mas se afastou de outras, contrariou amigos e se aproximou de outros. Neste jogo identitário de aproximações e afasta- mentos, construído por meio de redes de sociabilidades observadas na tessitura do pentagrama e da sonoridade, imaginou uma nação sonora, construiu um rosto musical e imagético do Brasil. O modernismo de Villa-Lobos, construídos desde o início do século XX, pode ser compreendido a partir do estudo das suas relações com outros projetos internacionais, com os quais o compositor manteve diálogo. O Americanismo Musical e o Música Viva, projetos pan-americanos de integração musical, sofreram resistência por parte do compositor brasileiro em função de questões políticas e não apenas estéticas. O acirramento das tensões envolvendo a publicação do Boletim Latino Americano de Música, expresso na correspondência com Curt Lange em especial no ano de 1946, se explicam a partir da compreensão dos fatores políticos 73 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . relacionados ao fi nal da ditadura do Estado Novo, regime ao qual o compositor brasileiro estava vinculado por estar à frente da Secretaria de Educação Musical e Artística submetida à pasta de Gustavo Capanema. Mas por outro lado, as relações com o musicólogo teuto-uruguaio foram fundamentais para a difusão e a internacionalização da obra do compositor. Diversos trabalhos acadêmicos destacam a presença e a difusão da imagem e da mú- sica de Heitor Villa-Lobos no exterior. Apesar disso, a temática carece de uma refl exão mais conceitual e historiográfi ca. Os contatos do compositor como universo cultural de Paris a partir de suas duas viagens realizadas em 1923 e em 1927-1930 e a presença dele nos Estados Uni- dos, a partir de 1944, são destacados como marcos para a internacionalização da música do compositor brasileiro. Com relação à França, além de suas viagens à capital daquele país foram destacados pela memória historiográfi ca, dentre outros temas: importância do contato de Villa -Lobos com Darius Mihaud no Brasil, com o pianista Arthur Rubinstein, com a intelectualidade francesa de modo geral e com o mecenato paulista logo após a Semana de Arte Moderna que fi nanciara a ida do compositor à capital francesa. Nesta mesma direção, os objetivos deste texto se concentraram na tentativa de pensar o papel de Curt Lange para a difusão e para a recepção da obra de Villa-Lobos no Uruguai, deslo- cando, numa perspectiva historiográfi ca, o eixo de diálogo sobre o compositor para a América Hispânica e para a interface entre a história e as relações internacionais. Para tanto, pretende-se expandir futuramente a refl exão sobre a visita de Villa-Lobos ao Uruguai realizada em 1940. Investigar, também, o lugar de Villa-Lobos e da “Embaixada Artística Brasileira”, em relação aos intercâmbios internacionais do Brasil naquele contexto, bem como o papel de Villa-Lobos e sua obra. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARDAO, A. Panamericanismo y latinoamericanismo. In: Zea, Leopoldo (coord.). América La- tina en sus ideas. México. Leopoldo Zea (org.), Siglo XXI. Unesco. 1986. p. 157-171. ASSIS, A. C. O Boletin Latino Americano de Música VI (1946): entre linhas, músicas e ideias XXVI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música, B. Hori- zonte, 2016. BAGGIO, Kátia Gerab. A “outra” América: a América Latina na visão dos intelectuais bra- sileiros das primeiras décadas republicanas. São Paulo: Departamento de História, FFLCH, USP, 1998 (Tese de doutorado). 74 HEITOR VILLA-LOBOS E O AMERICANISMO MUSICAL DE FRANCISCO CURT LANGE JUNIOR, L.A . CURT LANGE, Francisco. Boletín Latino-americano de Música. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1946. BURKE, Peter. 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Este trabalho apresenta e discute a evolução da crítica musical desde o século XVIII até o século XX, com suas principais características. Faz uma breve abordagem das características socio- culturais das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro para, então, expor as críticas publicadas nos jornais sobre o trecho sinfônico do bailado Dança Frenética, do primeiro ato da ópera Zoé de Heitor Villa-Lobos, apresentada, no Teatro Municipal de São Paulo, em 1922, pela orquestra da Sociedade de Cultura Artística e, no mesmo ano, apresentada no Rio de Janeiro pela orquestra Filarmônica de Viena. As críticas abordadas neste artigo foram publicadas pelos jornais paulistas Correio Paulistano e Folha da Noite e pelo Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, esse, a cargo de Oscar Guanabarino. Palavras-chave: Villa-Lobos. Dança frenética. Crítica musical. Oscar Guanabarino. The Dança Frenética (Frenetic Dance): echoes of critique on Rio de Janeiro and São Paulo in the 1920’s Abstract. This paper presents and discusses the evolution of musical criticism from the eighteenth century to the twentieth century with its main characteristics. Briefl y discusses the socio-cultural characteristics of the cities of São Paulo and Rio de Janeiro, and then exposes the critics published in the newspapers about the symphonic piece of Dança Frenética (Frenetic Dance), from the fi rst act of the opera Zoé by Heitor Villa-Lobos as composer, presented at the Municipal Theater of São Paulo in 1922 by the Orchestra da Sociedade de Cultura Artística (Society of Artistic Culture Orchestra) and in the same year presented in Rio de Janeiro by the Vienna Philharmonic Orchestra. The criti- cisms addressed in this article were published by the newspapers Correio Paulistano and Folha da Noite from the City of São Paulo and the Jornal do Commercio on Rio de Janeiro, this one by Oscar Guanabarino responsability. Keywords. Villa-Lobos. Dança frenética (Frenetic dance). Musical criticism. Oscar Guanabarino. Introdução A última década do século XIX e as primeiras do século XX foram de fortes trans- formações no Brasil com o advento da República (1889) e o aparato ideológico positivista que 1 MARIA APARECIDA DOS REIS VALIATTI PASSAMAE atua como violista da Orquestra Sinfônica do Estado do Espírito Santo, Coordenadora Pedagógica da Pós-graduação lato sensu em Música de Câmara da Alpha Cursos e como empresária musical no mercado de Vitória. Além destas, atuou também como violista na Orquestra da Universidade Federal do Espírito Santo e da Orquestra da Faculdade de Música do Espírito Santo. Professora de viola no Programa Vale Música até 2008. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestre em Mu- sicologia. Instituto de Ensino Superior Professor Nelson Abel de Almeida, Pós-graduação latu sensu em Educação Pré-escolar. Faculdade de Música do Espírito Santo, Bacharel em piano e em viola e Licenciatura em Música. Uni- versidade Federal do Espírito Santo, Licenciatura Plena em Pedagogia. Prêmio FUNARTE em produção crítica em música 2016. Análise da sonata para viola e piano de Radamés Gnattali: primeiro movimento (ANPPOM, 2015). A crítica na mudança dos paradigmas da apreciação musical do século XX (ANPPOM, 2015). Temporada lírica de 1922: os cenários do Rio de Janeiro, Europa e América do Sul (VI SIM-UFRJ, 2015). Oscar Guanabarino e o português brasileiro no canto erudito (SIMPOM, 2014). A pedagogia do piano: o método de Oscar Guanabarino (XIV SEMPEM, 2014). Radamés Gnattali, a era Vargas, e a construção da identidade nacional (ANPPOM, 2011). CD Melodiário (MD-Musicservice Ltda, 1997). de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 77 A DANÇA FRENÉTICA: ECOS DA CRÍTICA NO RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO NOS ANOS 1920 PASSAMAE, M. A. R. V. permeava o pensamento da ofi cialidade jovem do Exército que derrubou o Império e direciona- va as ações do governo na busca de uma modernização que fosse representativa de uma nova mentalidade do novo regime. Nesse contexto, duas cidades despontavam para a modernidade representativa do novo regime: o Rio de Janeiro, a capital da República, e a cidade de São Paulo, com uma grande parcela de sua elite muito vibrante e empreendedora. “O Rio de Janeiro, a capital, passara por fortes transformações no início do século XX para readequar a cidade ao formato das capitais dos países importantes do mundo, no mo- delo parisiense de urbanização” e, conforme mencionado, “para romper com o passado colonial e imperial” pela busca da consolidação do novo regime. (PASSAMAE, 2015, p. 3). São Paulo, por essa época, era uma realidade totalmente diferente da cidade do Rio de Janeiro, que usufruía os benefícios da bela urbanização, herança da política que lhe trouxe a aparência da Paris da belle époque (PASSAMAE, 2013, p. 71). Possuía suas especifi cidades confi guradas, ao contrário do Rio com seu cosmopolitismo parisiense, no “[...] empenho das elites locais, mergulhadas num universo de imigrantes de múltiplas nacionalidades em bus- car uma mítica identidade regional empreendedora” (PINTO, 1999, p. 140 apud PASSAMAE, 2013, p. 71). O objetivo deste trabalho é apresentar e discutir os cenários da crítica musical no contexto da obra Dança Frenética, de Heitor Villa-Lobos, ambientada no Rio de Janeiro eem São Paulo com suas diferentes especifi cidades regionais, ou seja, nos diferentes contextos so- cioculturais de cada ambiente regional. As cidades do Rio de Janeiro e São Paulo no início da década de 1920 As transformações por que passara a cidade do Rio de Janeiro em princípios do século XX para se adequar como Capital da República recém instalada, como já mencionado, não se confi gurava apenas com suas mudanças físicas de inspiração parisiense. A cidade, repre- sentativa do país, deveria se mostrar também como um espelho da transformação que o regime republicano se propôs a implantar. Nesse contexto, a Capital deveria também espelhar uma sociedade culturalmente alinhada com os padrões urbanísticos europeus. Do ponto de vista artístico, comparativamente à cidade de São Paulo, “[...] o am- biente musical do Rio não era apenas mais encorpado [...]”; era também muito mais entrosado nas novas tendências, especialmente as francesas. Milhaud trabalhara como adido da embai- 78 A DANÇA FRENÉTICA: ECOS DA CRÍTICA NO RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO NOS ANOS 1920 PASSAMAE, M. A. R. V. xada francesa no Rio, entre 1917 e 1918, e surpreendeu-se com a descoberta de “[...] uma elite viajada e bem informada que lhe permitia viver num ambiente sintonizado com a cultura de seu país” (GONÇALVES, 2012, p. 234 apud PASSAMAE, 2013, p. 71). São Paulo, por outro lado, passava, na década de 20, por transformações vigorosas “[...] de todas as naturezas: econômicas, sociais, administrativas e principalmente culturais”. Sua conformação não era conhecida em sua totalidade, pois ainda se formava. A composição desse semblante se apoiava, “[...] por um lado na infl uência do modelo civilizador e modernizador da Belle Époque europeia - particularmente a francesa - e de outro numa sólida herança cultural, advinda das nossas raízes coloniais” (PINTO, 1999, p. 140 apud PASSAMAE, 2013, p. 71). O cenário da crítica musical A crítica musical do século XIX foi submetida a uma mudança de estilo que já vi- nha se apresentando desde fi ns do século XVIII. Assim, “tornou-se pesada, mais simples e aces- sível, também mais fl exível, ao que a mentalidade romântica acrescentou o entusiasmo, a poesia e às vezes o idealismo na abordagem e apreciação da música” (SUPICIC, 1997, p. 671). No século XVIII, o crítico musical era um especialista, músicos competentes ou mesmo teóricos. Com o aumento do público e o novo cenário da música e dos músicos no século XIX “[...] quase todo mundo começou a sentir-se com direito de dar palpite nessa área, o que contribuiu para o desenvolvimento de um certo diletantismo e impressionismo crítico”. A crítica profi ssional e competente, de um lado, e a que não o era, de outro, passaram a coexistir lado a lado. Músicos notáveis e de renome, como Schumann e Berlioz, foram críticos. Mas escritores metidos, “sem competência específi ca, como Stendhal e Balzac, formavam um numeroso grupo que também escreveu sobre música” ( SUPICIC, 1997, p 671-72). O que se consolidou como a principal característica da crítica musical do século XIX, entretanto, “foi o fato dela ter enfrentado praticamente as mesmas contestações que a estética da música”. Assim, foi desaparecendo aos poucos “toda a unidade de concepções que a fundamentava no século anterior” e, para isso, as movimentações da sociedade, ocorridas na época, vieram a contribuir sobremaneira, visto encontrarem-se “marcados cada vez mais por divisões de toda espécie – fi losófi cas, políticas e sociais”. Como contraponto “à competência profi ssional e ao brilho estilístico de certos críticos, como Hanslick”, por exemplo, “somava-se todo um mundo de intenções malévolas, apadrinhamentos e partis pris que levava os críticos a dizerem absurdos e desviarem-se dos verdadeiros objetivos de uma crítica musical autêntica e respeitadora da verdade” (SUPICIC, 1997, p. 671). O problema parece persistir ao longo do século XX, como pode ser observado no 79 A DANÇA FRENÉTICA: ECOS DA CRÍTICA NO RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO NOS ANOS 1920 PASSAMAE, M. A. R. V. artigo de Liliana Harb Bollos, intitulado Crítica musical no jornal: uma refl exão sobre a cultura brasileira. Embora o foco do texto seja a crítica jornalística de música popular, a autora comen- ta a crítica jornalística de música erudita efetuada por escritores na primeira metade do século XX e a transição para os cronistas na segunda metade. Assim, segundo a autora, “a crítica de música erudita [...] produziu um jornalismo cultural de características literárias desde a primei- ra metade do século XX com expoentes importantes da nossa cultura como os escritores Mário de Andrade, Murilo Mendes e Otto Maria Carpeaux” (BOLLOS, 2005, p. 271). Vale observar que alguns desses personagens possuíam também formação musical, embora suas atividades principais fi cassem no campo da poesia e literatura. Mário de Andrade, por exemplo, lecionava piano e atuava como musicólogo com obras de etnomusicologia e Otto Maria Carpeaux, erudito de primorosa formação, autor de vasta obra literária que inclui Uma Nova História da Música, entre outros expoentes da cultura brasileira. Sobre a crítica, a partir da etimologia, a autora estabelece uma defi nição funcional na qual a crítica teria como função “fragmentar uma obra de arte, colocar em crise a ideia que se tem do objeto, para, assim, poder interpretá-la” (BOLLOS, 2005, p. 271). Pelo menos é o que deveria acontecer como padrão. Por outro lado, citando Adorno, mostra que, de modo geral, aos críticos musicais jornalísticos do século XX, falta conhecimento do objeto, ou seja, da música e, nesse sentido, a crítica passa a sofrer uma infl uência subjetiva muito além do razoável e a análise vem, de certa forma, contaminada. Infl uenciado pela indústria cultural e pelo poder dos meios de comunicação (e mais tarde pela obrigatoriedade do diploma de jornalismo), esse formato de jornalismo im- pôs novos padrões à crítica musical, sendo o escritor substituído pelo ‘cronista’, pelo jornalista não-especialista, e irá explorar do texto um caráter mais ideológico e histó- rico e menos estético, deixando os aspectos musicais para segundo plano (BOLLOS, 2005, p. 271). Um dos mais importantes críticos de artes das últimas décadas do século XIX e das primeiras do século XX, Oscar Guanabarino de Sousa Silva (Niterói, 1851 – Rio de Janeiro, 1937), chegou a debater com outro colega, crítico de outro jornal, essas lacunas na formação técnica de um lado e, de outro lado, a questão do caráter duvidoso, também citado por Bollos em seu artigo, numa citação direta de Adorno. Na troca de acusações, Oscar Guanabarino dá-lhe as alcunhas de crítico impossível e crítico ladrão. A primeira se relacionava com a alegada incompetência musical do antagonis- ta: o aprendizado do crítico impossível estava impossibilitado – por isso impossível – devido ao seu início tardio na profi ssão de crítico musical, cujas possibilidades de educar o ouvido e sedi- mentar sua capacidade de observação se encontram difi cultadas. A segunda alcunha, a de crítico 80 A DANÇA FRENÉTICA: ECOS DA CRÍTICA NO RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO NOS ANOS 1920 PASSAMAE, M. A. R. V. ladrão, refere-se à prática do antagonista em copiar e publicar, como seus, textos de terceiros mais de oito vezes após ter sido pilhado no ato (PASSAMAE, 2013, p. 83). É nesse contexto, que emergem as críticas da obra de Heitor Villa-Lobos intitulada A Dança Frenética. As críticas de Dança Frenética de Heitor Villa-Lobos Segundo o catálogo Villa-Lobos e sua obra, do Museu Villa-Lobos, a peça intitu- lada Dança Frenética é um trecho sinfônico de um bailado do primeiro ato da ópera Zoé, em 3 atos, com libreto de Renato Vianna2, composta no Rio de Janeiro por Heitor Villa-Lobos, em 1919 (MUSEU VILLA-LOBOS, 2010, p. 75). A peça foi apresentada em São Paulo, em 07 de março de 1922, cerca de duas sema- nas após o festival da Semana de Arte Moderna de São Paulo (11/02 a 18/02/1922) e noticiada na colunaRegistro de Arte do jornal Correio Paulistano que não vem assinada. Segundo o jor- nal, a obra foi apresentada “perante uma seleta assistência, [...] no Theatro Municipal, [como] mais um interessante sarau da Sociedade de Cultura Artística, com um concerto sinfônico, em que foram executados exclusivamente trechos do compositor patrício Sr. Villa-Lobos”3. A nota do jornal é bastante favorável ao programa apresentado, com raros e mui- to cuidadosamente elegantes comentários desfavoráveis, registrando que as obras foram “[...] reveladoras de um perfeito conhecimento dos modernos processos de orquestração, as compo- sições do festejado maestro produziram, em conjunto, favorável impressão na assistência”. O comentário jornalístico informa que as peças estavam “[...] subordinadas a vários gêneros [...]” e que foram escritas em épocas diferentes. As composições incluídas no programa “[...] evi- denciaram também um belo talento, preocupado, porém não raro com inovações nem sempre felizes”. Desconsiderando as infelizes inovações, prossegue o jornal afi rmando que seria “justo reconhecer em vários trabalhos, como no poema baile Naufrágio de Klenikos, no pre- lúdio sinfônico da ópera Izakt (sic!)4 e em parte da Dança Frenética, da ópera Zoé, raras qua- lidades de orquestrador aliadas a certa felicidade de inspiração”. A reação do público também foi noticiada como sendo diversa daquela da Semana de Arte Moderna: “[...] a assistência, que por vezes se mostrou excessivamente reservada, não lhe regateou, porém, sinceros aplausos no fi nal do concerto”, inclusive ao “talentoso violoncelista Newton de Pádua” coberto “com fartas 2 Renato Vianna (Rio de Janeiro RJ 1894 - idem 1953). Autor, diretor, ator. Autor do único espetáculo que, no ano em que nasce o Modernismo no Brasil, procura criar uma estética nova. 3 Correio Paulistano: 8-3-1922, quarta-feira, p. 4. [Registro de Arte]. 4 Provavelmente referem-se à opera Izath. 81 A DANÇA FRENÉTICA: ECOS DA CRÍTICA NO RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO NOS ANOS 1920 PASSAMAE, M. A. R. V. palmas a ótima execução que deu ao concerto primeiro de violoncelo e orquestra”5. A orquestra, da Sociedade de Concertos Sinfônicos, foi regida pelo maestro Villa-Lobos. Vale lembrar que outros jornais, como o Folha da Noite6, em meados de fevereiro, em matéria também não assinada, referindo-se à Semana de Arte Moderna, comenta que as ex- pectativas eram tenebrosas devido às promessas prévias dos promotores e, embora o programa apresentado houvesse sido inusitado, os ditos “reformadores” da arte passaram “a gozar da re- putação de idiotas”. Não obstante o jornal ter considerado Villa-Lobos “um grande compositor e [...] um temperamento artístico excepcional”, considera também que as tendências mostradas no programa da Semana “estariam melhor num capítulo de psicopatologia”. A mesma peça foi apresentada no Rio de Janeiro pela Filarmônica de Viena sob o maestro Felix Weingartner (1863 – 1942), acompanhada de perto por Oscar Guanabarino, o pianista, professor e crítico nos jornais O Paiz e Jornal do Commercio. Guanabarino não foi menos duro com a composição do que apresentou a Folha da Noite. No contexto das polêmicas ocorridas por ocasião da Semana de Arte Moderna, Guanabarino “não aceita [...] que se julgue genial qualquer artista que transgrida os cânones dos procedimentos artísticos apenas pela transgressão: não se trata [...] de reproduzir sons, mas produzir sons com arte”. Para o crítico, a obra nada mais era que um “[...] amontoados de notas que chocalham [...] como se todos os músicos da orquestra [...] tocassem pela primeira vez [...] que assim perdem o seu colorido, o seu timbre, a sua nobreza e majestade, transformando [...] em guizos, berros e latidos” (PASSAMAE, 2013, p. 69-70). A obra fora também repudiada pelo público e o “repúdio da plateia carioca à peça do maestro Villa-Lobos, consubstanciado em risos durante a execução, ensejou comentário do poeta Ronald de Carvalho” ao que, Oscar Guanabarino confronta os cenários dos “concertos da Filarmônica de Viena e os dirigidos pelo maestro Francisco Braga” com a orquestra da So- ciedade de Cultura Artística do Rio de Janeiro que nunca aconteciam diante de “[...] poltronas vazias, como aconteceu agora com os concertos futuristas do Sr. Villa-Lobos” (PASSAMAE, 2013, p. 70). Sobre os textos críticos de Oscar Guanabarino, Clovis Marques7 escreve sobre “duas reações contraditórias de Guanabarino à música de um Heitor Villa-Lobos que então ainda não era o monstro modernista que esse crítico viria a invectivar com regularidade”. Se- gundo o autor, “[...] sob a batuta de Weingartner em 1920, Guanabarino se ‘encheu de alegria’ 5 Correio Paulistano: 8-3-1922, quarta-feira, p. 4. [Registro de Arte]. 6 Folha da Noite, 14-02-1922, São Paulo. 7 Clovis Marques é co-autor da obra O Municipal do Rio enfi m contado, organizado por Núbia Melhem Santos. Publicou um artigo com excertos de sua participação na obra coletiva, utilizado neste artigo. 82 A DANÇA FRENÉTICA: ECOS DA CRÍTICA NO RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO NOS ANOS 1920 PASSAMAE, M. A. R. V. com a audição de O naufrágio de Kleonikos, de Villa-Lobos, ‘já executado nesta Capital, mas muito antes do Pelléas et Mélisande’”. Guanabarino prossegue na crítica elogiosa, na opinião de Marques, de O naufrágio de Kleonikos: “[...] vimos, então, que Debussy não é esse gênio que mereça tão alto pedestal como querem os músicos futuristas ou coisa que o valha. O traba- lho do nosso patrício vale muito mais do que a partitura do nefelibata francês”. Prosseguindo, ainda segundo Marques, Guanabarino justifi ca sua apreciação sobre O naufrágio no contexto da obra de Debussy: Lá estão os mesmos processos, os mesmos efeitos, o mesmo sistema de harmonia dissonante tomando a exceção como regra, a escala de tons inteiros, etc.; mas no fi nal há mú- sica, há arte, há o belo contemplativo na melodia cantada pelo violoncelo acompanhado por efeitos delicadíssimos e originais obtidos das harpas e clarinetes. O Sr. Villa-Lobos merecia uma ovação dos seus patrícios (MARQUES, 2011, p. 5). A contradição, por outro lado, é apresentada quando, em 1922, dois anos depois, portanto, Guanabarino encerrava, segundo Marques, “uma das críticas dos concertos dos fi lar- mônicos vienenses regidos por Weingartner”: “[O público] Aplaudiu também o Ave! Libertas, de Leopoldo Miguez, e com cer- teza não compreendeu a Dança frenética de Villa-Lobos, talvez por estar errado o título, que deveria ser Dança de S. Guido, com uma nota explicativa que dissesse: Para ser executada por músicos epilépticos e ser ouvida por paranóicos” (MARQUES, 2011, p. 5). Não há contradição. O autor se refere à reação negativa do crítico e da platéia ca- rioca ao Pelléas et Mélisande, de fato. Guanabarino ousou “expor o insuportável de Pelléas et Mellissande e, ao mesmo tempo, elogiar L’enfant prodigue, ambas de Debussy” (PASSAMAE, 2013, p. 70). Não se trata de contradição para Guanabarino que, mais de uma vez considerou obras de Villa-Lobos um desperdício de talento devido a erros por falta de revisão. Conclusão O espírito de mudança para consolidar a transição do regime monárquico para o republicano espraiou-se pelas maiores cidades brasileiras entre a última década do século XIX e as primeiras décadas do século XX, tendo como uma de suas vertentes a Semana de Arte Moderna de São Paulo, cuja capital vinha se desenvolvendo espantosamente devido à intensa imigração e à parte operosa de sua elite. O Rio de Janeiro guardava a tradição de ex-capital imperial e, em 1922, a capital 83 A DANÇA FRENÉTICA: ECOS DA CRÍTICA NO RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO NOS ANOS 1920 PASSAMAE, M. A. R. V. da República já se encontrava totalmente remodelada no formato da belle époque parisiense, com uma população mais sofi sticada e infl uenciada pela convivência com o corpo diplomático da República. A crítica de arte, principalmente a das artes musicais, já vinha se desenvolvendo desde o séculoXVIII, quando era exercida por músicos e profi ssionais com formação adequada. Durante o século XIX, foi se transformando com o aumento do público, pois, neste período, já se desvinculara de serem demandadas pela aristocracia e pela Igreja, como ocorria no século anterior. Se, de um lado, fi guras de elevado conhecimento técnico como Hanslick e músicos como Schumann e Berlioz, estiveram nessa atividade de críticos, por outro lado, grandes escritores carentes de competência específi ca, como Stendhal e Balzac, também se meteram a escrever críticas de artes musicais. Mas havia muitos sem uma coisa ou outra e cujas motivações eram de más intenções, tendenciosas e de apadrinhamentos que os levavam a dizer absurdos em relação aos objetivos de uma crítica musical autêntica e verdadeira. Esse processo continuou no século XX, apenas deixando de ser exercido pelos grandes escritores, mas guar- dando os vícios observados anteriormente, em parte, com carência de conhecimento técnico e em parte motivada por interesses nem sempre virtuosos, com as exceções de sempre. A constatação pode ser verifi cada num debate aberto pela imprensa especializada entre Oscar Guanabarino e um outro crítico musical sem qualquer capacitação e com baixo padrão moral e ético. Heitor Villa-Lobos compôs, em 1919, a ópera Zoé em 3 atos, com libreto de Renato Vianna, na qual, em seu primeiro ato, há um bailado intitulado Dança Frenética, com um trecho sinfônico apresentado, em 1922, em São Paulo, pela orquestra da Sociedade de Cultura Artís- tica, regida pelo compositor e, no mesmo ano, no Rio de Janeiro pela orquestra Filarmônica de Viena. As críticas publicadas pelos jornais da época, tanto em São Paulo quanto no Rio, não são, de modo geral, favoráveis à obra e repercutem a mesma impressão do público, com exceção do Correio Paulistano, cuja crítica é apresentada numa linguagem menos contundente que os demais e relata que a obra apresenta, “não raro, [...] inovações nem sempre felizes”. Outros jornais paulistanos são mais contundentes, classifi cando o programa como caso de psi- copatia, como é o caso do Folha da Noite. A crítica efetuada pelo principal articulista de arte carioca, Oscar Guanabarino, foi muito ácida, acompanhando a linha do Folha da Noite. Para o crítico carioca, a obra se resume 84 A DANÇA FRENÉTICA: ECOS DA CRÍTICA NO RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO NOS ANOS 1920 PASSAMAE, M. A. R. V. num “amontoado de notas que chocalham como se todos os músicos da orquestra tocassem pela primeira vez” e, portanto, as notas “[...] perdem o seu colorido, o seu timbre, a sua nobreza e majestade, transformando [-se] em guizos, berros e latidos”. Portanto, nesse caso, não se tem uma peça musical. Alguns autores avaliam como contraditórias as críticas de Guanabarino que, se de um lado, detona Dança Frenética, de outro, elogia O naufrágio de Kleonikos, comparativa- mente ao Pelléas et Mélisande de Claude Debussy, que havia sido rejeitado pelo público e por ele mesmo ao publicar sua crítica sobe essa obra. Guanabarino, acerca de O naufrágio de Kleonikos, informa que possui os mesmos processos, os mesmos efeitos e o mesmo sistema de harmonia dissonante do Pelléas et Mélisande, porém, a obra de Villa-Lobos possui o belo contemplativo na melodia do violoncelo, entre outras passagens elogiadas. Ou seja, há arte na obra do compositor brasileiro. Esse posicionamento de Guanabarino não pode ser avaliado como contraditório, visto que esse crítico não se atém ao indivíduo compositor, mas à obra composta. Igualmente, detonou Pelléas et Mélisande, de um lado, e elogiou muito o L’enfant prodigue do mesmo compositor, do outro. Assim, verifi ca-se que, de modo geral, o trecho sinfônico do bailado Dança Fre- nética, do primeiro ato da ópera Zoé, composta por Villa-Lobos em 1919, não foi muito bem aceita pela crítica especializada tanto em São Paulo, quando foi executada no Teatro Municipal pela orquestra da Sociedade de Cultura Artística daquela cidade, regida pelo compositor, quan- to no Rio de Janeiro, quando foi executada pela Orquestra Filarmônica de Viena, regida por Felix Weingartner. REFERÊNCIAS BOLLOS, Liliana Harb. Crítica Musical no Brasil: Uma refl exão sobre a cultura brasileira. Opus, Goiânia, v.11, n.11, p. 270-282, dez. 2005. GONÇALVES, Marcos Augusto. 1922: a semana que não terminou. 14. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2012. MARQUES, Clóvis. O municipal do Rio enfi m contado. Disponível em: <http://opiniaoenoti- cia.com.br/cultura/o-municipal-do-rio-enfi m-contado/>. Acesso em: 15 jul. 2017. MUSEU VILLA-LOBOS. Catálogo das Obras de Villa-Lobos. Disponível em: <http://museu- 85 A DANÇA FRENÉTICA: ECOS DA CRÍTICA NO RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO NOS ANOS 1920 PASSAMAE, M. A. R. V. villalobos.org.br/bancodad/VLSO_1.0.1.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2017. PASSAMAE, Maria Aparecida dos Reis Valiatti. Oscar Guanabarino e sua produção crítica de 1922: 2013. Dissertação (Mestrado em Musicologia) - Universidade Federal do Rio de Ja- neiro, Rio de Janeiro, 2013. PASSAMAE, Maria Aparecida dos Reis Valiatti. Temporada lírica de 1922: os cenários do Rio de Janeiro, Europa e América do Sul. In: VI SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE MUSICOLO- GIA DA UFRJ, n. 6., 2015, Rio de Janeiro/RJ. Anais... Rio de Janeiro: VI Sim, 2015. p 2 – 15. PINTO, Maria Inez Machado Borges. Cultura de massas e representações na paulicéia dos anos 20. Revista Brasileira de História, São Paulo: Departamento de História/FFLCH-USP, v. 19, n. 38, 1999. SUPICIC, Ivo. Situação sócio-histórica da música no século XIX. In: MASSIN, Jean; MAS- SIN, Brigitte. História da música ocidental. Trad. Ângela Ramalho Viana, Carlos Sussekind e Maria Teresa Resende Costa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 661-672. 86 de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões MESA REDONDA III: RELAÇÕES E TROCAS 87 O Violão em estudos - entre Villa-Lobos e Mignone Cyro M. Delvizio1 PPGMUS ECA-USP, cyrodel@gmail.com R esumo: A prática violonística brasileira pode se orgulhar de ter em sua produção algumas das séries de “Estudos” mais célebres mundialmente. Enquanto os “12 Estudos para violão” (1929) de Heitor Villa-Lobos são amplamente adotados didaticamente, tocados e gravados ao redor do globo, o mesmo não pode ser dito a respeito da série homônima de Francisco Mignone, embora também celebrizada internacionalmente, mas dessa vez por suas difi culdades que para muitos beiram a impossibilidade. Tal mito tem criado uma barreira (ou ao menos uma falta de estímulo) aos intérpretes a enfrentar, discutir (academicamente ou não) executar e gravar os estudos Mignonianos, fato também estimulado por uma natural comparação ao marco gerado pelos estudos Villa- lobianos, já bem absorvidos pela comunidade violonistica. O objetivo deste artigo é promover uma comparação entre os mesmos que não busque julgá-los uns à luz dos outros, mas entender e valorizar suas qualidades, defeitos, similitudes e diferenças. Palavras-chave: Estudos para violão. Francisco Mignone. Heitor Villa-Lobos. Brazilian classical guitar in studies: between Villa-Lobos and Mignone Abstract: The Brazilian classica l guitar community can be proud of having some of the most celebrated guitar studies series. While the 12 Etudes (1929) by Heitor Villa-Lobos are worldwide didactically used, played and recorded, the same is not true for those written by Francisco Mignone, o although also internationally praised, but this time considered of having technique diffi culties almost impossible to overcome. This myth created a barrier (or at least a lack of incentive) to guitar players to face, discuss (academically or not) perform and record the Mignone’s studies, fact also intensifi ed by the natural comparison with the foundation stone provided by Villa-Lobos’s studies, already well comprehended by the guitar community. The main goal of this article is to provide a impartial comparisonbetween those cicle of studies, praising it’s differences, qualities, defects, similarities and differences. Keywords: Guitar. Studies. Etudes. Francisco Mignone. Heitor Villa-Lobos. Violão! “O mais paradoxal dos instrumentos musicais é um dos elementos mais fortes e vivos da cultura brasileira” (GLOEDEN, 2002, p. 5). Tanto isso é verdade que o brasileiro pode se gabar de alguns feitos de sua produção violonística: instrumento democrático, possui incontáveis bons executantes, produziu alguns dos mais célebres duos de violões da história (Duo Abreu, Duo Assad, etc) e, fi nalmente, produziu algumas das mais respeitadas séries de prelúdios e estudos violonísticos, em nítido legado Villalobiano. Inegável é a quebra de paradigmas que seus “12 Estudos” geraram, confi gurando base didática do violão moderno. Já os “12 estudos” de Francisco Mignone, foram celebrizados como quase inatingíveis técnicamente e consequentemente pouco visitados. 1 CYRO DELVIZIO. Doutorando em Performance já qualifi cado na ECA-USP sob orientação do Dr. Edelton Gloeden com tese focada nos Estudos para violão de Francisco Mignone. Mestre em Musicologia (UFRJ, 2011) orientado pela Dra. Marcia Taborda e Bacharel em violão (UFRJ, 2008) orientado pelos Drs. Graça Alan e Turíbio Santos. Duas vezes professor Substituto na EM-UFRJ. Sua dissertação foi contemplada com o “Prêmio Funarte de Produção Crítica em Música 2013” e publicada em 3 versões: Português impressa e Ingles, impressa e e-book.O lançamento foi realizado por meio de recitais-palestra no Brasil e exterior, notadamente no “GFA International Convention 2015”, “New Mexico Classical Guitar Festival” e “New Orleans International Guitar Festival”, entre outros. de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 88 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE A canonização de Villa-Lobos, embora ele não seja “o vilão da situação atual” também “pode contribuir para colocar a produção de nossos importantes compositores em segundo plano” (GLOEDEN, 2002, p. 1-2). Dessa forma, teceremos comparações entre estes dois corpos de estudos, valorizando suas especifi cidades a fi m de tentar entender o fenômeno que os cerca, trazendo para o âmbito acadêmico uma discussão que tem perdurado décadas na informalidade. Relação com violão em ambos os casos A primeira diferença notável entre tais compositores reside em sua relação com o instrumento: enquanto “o violão esteve presente na vida e na obra de Heitor Villa-Lobos” “desde sua primeira composição [...] até a década fi nal de sua vida” (AMORIM, 2009, p.19), Mignone somente se aproximaria em sua maduridade. Embora ambos tenham tido contato com o chorões, apenas Villa-Lobos o fez com o violão, o que lhe propiciou convívio com os maiores nomes do violão local (Sátiro Billhar, José do Cavaquinho, João Pernambuco, Donga, e Quincas Laranjeiras, entre outros), além de declarar ter contato com os métodos tradicionais (Carulli, Sor, Aguado e Carcassi), gerando conhecimento profundo do instrumento (AMORIM, 2009, p.47-50; TABORDA, 2004, p. 58-59 e 77-78). Já Mignone utilizou a fl auta nesses encontros, o que ao menos lhe familiarizou com o vocabulário violonístico. Mesmo com tal proximidade, e apesar de ter composto quatro obras em 1953, Mignone somente acreditou no valor artístico do instrumento após ouvir Barbosa Lima em 1970, o que lhe incentivou a compor seus estudos tomando Villa-Lobos como ponto de partida: “Villa-Lobos indiscutivelmente deu ao violão novas e insuspeitadas possibilidades [...] relendo e estudando Villa-Lobos, me propus a ampliar e especular ainda mais as possibilidades do mais romântico dos instrumentos de corda. Cada estudo, por mim escrito, tem uma peculiaridade técnica que permite ao executor o emprego de todos os seus recursos artísticos interpretativos” (MIGNONE apud APRO, 2004, p.127). Os objetivos e características dos estudos Trataremos de descrever os principais objetivos de desenvolvimento da técnica violonística almejados em cada estudo, baseado em estruturas texturais, articulações, efeitos, etc. 89 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE Descrição dos (principais) objetivos técnicos dos 12 estudos de Villa-Lobos: O Ciclo de Doze de Villa-Lobos foi completados em 1929, mas teve seu início de composição em 19242, quando da estadia do compositor brasileiro na França e de seu contato com o violonista espanhol Andrés Segóvia, a quem a obra foi dedicada. Este ciclo está basicamente dividido em dois: até a primeira metade, eles são direcionados à técnica instrumental específi ca, sendo que os 6 últimos são mistos de estudos de técnica com questões musicais mais abrangentes em termos de interpretação (ANTUNES e FERNANDES, 2009, p. 30) Estudo 1 (Mi menor / A-B monotemática): Estudo de arpejos (ritornellos a cada compasso). Em padrão fi xo, a mão direira (a partir de agora MD) ascende e descende em cordas muitas vezes não adjacentes. Mão esquerda (a partir de agora ME) em um acorde estático por compasso. Ocorrência de acorde paralelos na ME. Ocorrência de uma escala com ligados. Parece-nos um estudo mais focado em MD do que em ME. Há ritornellos na maior parte dos compassos. Estudo 2 (Lá maior / A-B monotemática): Estudo de arpejos com ligados (ritornellos a cada compasso). ME também com um acorde por compasso, mas agora não estático, ou seja, há amplo translados e saltos. Ocorrência de uma escala que atravessa quase toda a extensão do instrumento. Segundo Amorim “na escrita, talvez seja o menos audacioso”, porém demanda “alto nível de exigência técnica” para sua execução (AMORIM, 2009, p.133). Segundo Turíbio Santos (1975, p.16, apud AMORIM, 2009, p.133) parte de uma ideia básica de Dionísio Aguado enquanto Thiago Abdalla (2005, p. 30) vê semelhanças com o “Estudo Nº 20” de Mateo Carcassi. Estudo 3 (Ré maior / Seção única monotemática): Estudo de acordes chapados e arpejos aplicados por vezes em notas ornamentais (apojeaturas e bordaduras) em ligados da ME, dando uma impressão escalar (na ME e na grafi a musical) ainda que tocados com um padrão de arpejo na MD. Há ritornellos a cada compasso. “A existência de arpejos (como é explícito, logo abaixo do título na edição de 1953) é de importância secundária perto do intenso trabalho na técnica dos ligados” (ABDALLA, 2005, p. 30). Estudo 4 (Sol maior / A-A´-B-B´-Coda): É um estudo de acordes repetidos, onde a MD trabalha em blocos e por vezes salta pelas cordas. A escrita polifônica utiliza “harmonia a quatro partes onde impera o movimento paralelo das vozes, a não resolução dos acordes e as modulações sem preparações” (PEREIRA, 1984, p. 38 apud AMORIM, 2009, p.135). “Há nada menos que 20 alternâncias da unidade” de compasso neste estudo (AMORIM, 2009, p.135). Estudo 5 (Dó maior): É um estudo polifônico (a 3 vozes), consequentemente 2 Como veremos mais a frente, Humberto Amorim (2009, p. 127) aponta uma datação diferente para tal obra. 90 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE exigindo independência de movimentos dos dedos de ambas a mãos e legato. Para Antunes e Fernandes (2009, p. 30) “há uma nítida alusão à viola caipira, com acompanhamento em terças [paralelas] e melodia propositadamente monótona”. Estudo 6 (Mi menor / Seção única repetida variada): É também um estudo de acordes, mas agora trocados rapidamente (em colcheias) exigindo maior movimentação da ME aplicada inicialmente à trabalho em blocos da MD. O estudo é repetido com padrão mais complexo de MD onde os blocos de acorde são alternados contra o polegar. Estudo 7 (Mi maior / A-B-A`-C): Há trabalhos técnicos diferentes em cada seção, respectivamente, Escalas, Arpejos (com 3 planos diferentes: melodia, baixo e recheio harmônico), acordes paralelos chapados contra baixo e trinados (de MD em acordes paralelos). Estudo 8 (Dó sustenido menor / Introdução-A-A´-A-Codamonotemática): Estudo também misto. Introdução em dois planos com intervalos paralelos nas cordas graves contra baixo. A melodia exposta no baixo é repetida na seção seguinte pela voz superior, agora em arpejo em três planos diferentes (similar ao estudo 7). Há passagens em ligados que lembram o Estudo 3 e ocorrências interessantes de arpejos em sextinas “elemento técnico que será foco de toda a seção central do Estudo nº11 (arpejo circular p, i, m, a, m, i, p, ....)” (ABDALLA, 2005, p. 35). Estudo 9 (Fá sustenido menor / Seção única repetida variada): Para Amorim “a ideia fundamental consiste nas variadas ornamentações do tema principal ... muito simples, consistido de uma melodia em graus conjuntos de caráter descendente” (AMORIM 2009, p.135). Para Antunes e Fernandes (2009, p. 30) “é mais voltado, principalmente à sua segunda parte, aos ligados, e sua alusão novamente à viola caipira é preponderante”. Estudo 10 (Si menor / A-B-C-A’-Coda): Estudo principalmente de independência da ME. Possui introdução e codas cujo trabalho da MD realiza saltos em acordes similares ao estudo 4, enquanto a ME segura acordes paralelos ascendentes, alternados com fi guração de ligados, que passam a ser o foco principal na seção seguinte em ostinato onde é introduzida nova melodia nos baixos, em textura semelhante ao estudo 3 e 9. O estudo é fi nalizados com rasgueios e com arpejo de digitação escovada na MD. Estudo 11 (Mi menor / A-B-A’-B’-A): o Estudo 11 possui trabalhos de melodia acompanhada (em três planos, com melodia principal agora na voz intermediária), terças repetidas contra melodia (também em terças) no baixo, acordes de arpejo descendente com translados verticais do indicador (ou outro dedo) da MD (escovados), arpejo em sextinas MD 91 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE (com 3 cordas em uníssos) com movimento paralelo da ME, toque duplo de polegar MD. Abdalla (2005, p. 33) encontra semelhanças com o Estudo 4 no que tange à ocorrência de acordes repetidos, que neste estudo aparecem em terças maiores. Estudo 12 (Lá menor / A-A´-B-A-Coda): Estudo de arraste (glissando) de acordes paralelos da ME, aliado a movimento repetitivo em blocos da MD. Também aparecem escalas (com modelo de imitação vertical na ME), acordes de arpejo descendente com translados verticais de dedos da MD (p, i ou am escovados), e seção de melodia nas cordas graves sobre ostinato da sexta corda solta (resolvido tecnicamente de várias formas). Trocas constantes de fórmula de compasso. Descrição dos (principais) objetivos técnicos dos 12 estudos de Francisco Mignone: Estudo 1 – Vivo (Lá menor): Estudo de arpejos em tercinas, com longa melodia cantabile (que segundo APRO, 2004, p.92, remete ao Estudo Brilhante de Francisco Tárrega e Sinfonia n.4 de Brahms) normalmente na voz superior, mas por vezes a atenção melódica se volta a outras vozes. Faz uso de grande parte da tessitura do instrumento. Também há a ocorrência de ligados e harmônicos articifi cais. Estudo 2 – Seresteiro (Ré menor): Estudo seresteiro em ABA. Primeira seção se baseia em longa melodia com resposta de acordes chapados. Já a segunda, focaliza diferentes padrões de arpejos, primeiro com melodia na voz inferior e posteriormente na voz superior. Há passagens escalares cadenciais entre frases ou seções. Estudo 3 – Tempo de chorinho (Sol maior): Estudo misto, iniciado por trabalho de melodia com respostas no baixo (alla baixaria de choro). A melodia superior aparece em escalas, terças, décimas e em blocos de acordes com 3 ou 4 notas, com conotação caipira. Há grandes e súbitas mudanças de agógica. Estudo 4 – Allegro Scherzoso (Mi menor): Estudo de ligados de grande agilidade em ritmo de galope. Primeiramente ligados ascendentes aplicados a arpejos (com notas de passagem) de grande extensão. Em seguida ligados descendentes acompanhados por pontuações de acordes. Há seção lenta com melodia na voz inferior acompanhada por acordes no contratempo, depois repetida em arpejos. Estudo 5 – Vagaroso (Lá menor): Estudo lento e interpretativo também de caráter seresteiro com uma variedade de texturas. Inicia-se com blocos de acordes (4 notas) contra baixo (com uma voz a três vozes), gerando saltos verticais de MD similares a repetição do Estudo 6 92 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE de Villa-Lobos. A segunda seção (que é rememorada no fi nal) apresenta acordes de 5 notas com notas ligadas, o que trabalha independência da ME e a dinâmica suave exige controle da MD. A melodia principal do estudo somente é apresentada na segunda página, primeiramente na voz inferior (polegar) acompanhada por pontuações de acordes chapados e arpejados. No compasso 64, a mesma melodia aparece na voz superior acompanhada por acordes quebrados. Também há aparições de escalas cromáticas, acordes chapados repetidos insistentemente e harmônicos artifi ciais. Estudo 6 – Assai Vivo (Sol maior): De caráter amaxixado, trabalha principalmente arpejos variados, mas com ocorrência de outras texturas, como escalas (seja de ligação ou cadenciais) e melodia no baixo pontuada por acordes. O tema principal (re)aparece nos compassos 1, 55 e 76) sempre com tratamento textural distinto. Na primeira seção ocorrem notas repetidas no meio dos arpejos pouco usuais ao instrumento, mas que se tornaram idiomáticas de Mignone. Estudo 7 – Molto Lento/Cantiga de ninar3 (Fá sustenido menor): Estudo interpretativo em “tonalidade pouco familiar entre os violonistas” (ANTUNES e FERNANDES, 2009, p. 31) criando difi culdades severas de sustentação de legato na ME, mesmo com o alerta do compositor no rodapé da partitura ao dizer que a obra “foi escrita desse jeito apenas para que o executor faça vibrar os sons o mais que possível”. Tais difi culdades podem ser sanadas por digitação atenciosa. A textura é de melodia (1 ou 2 vozes paralelas) acompanhada por pontuações de acordes cheios. Há ocorrência de harmônicos naturais e artifi ciais. Estudo 8 – Allegro (Sol menor): “Um dos mais difíceis da série, possui elementos de trabalho que vão de arpejos e escalas até a rasgueados e notas repetidas” (ANTUNES e FERNANDES, 2009, p. 31). Contrastando com a harmonia áspera e ritmo frenético predominante da peça, a peça é fi nalizada com acordes maiores paralelos de conotação também caipira. Estudo 9 – Allegro Moderato (Sol maior): Também preconiza o trabalho de arpejos (em posição fechada), mas neste caso com muitas mudanças de padrões (MD), que às vezes ocorrem a cada compasso, em atitude pouco habitual ao instrumento mas benéfi ca ao estudo. A sonoridade remete à viola caipira e é ainda mais evidenciada na seção lenta, por suas melodias em terças, décimas e em blocos de acordes. Há ocorrência eventual de escalas ligando seções. Estudo 10 – Lento e com muito sentimento (Fá menor): “Mostra os desafi os de melodia acompanhada com o peso correto dos acordes” (ANTUNES e FERNANDES, 2009, p. 31) sobretudo na primeira e ultima seção, que em tonalidade também ingrata somada a andamento lento, também exige molto legato realizável apenas com trabalho de independência 3 Subtítulo no manuscrito. 93 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE de movimentação dos dedos da ME. A seção central também trabalha melodia acompanhada, mas agora em arpejo também em posição fechada. Estudo 11 – Andante (Ré menor): “Com seu subtítulo Spleen (que nos remete rapidamente a aspectos da literatura romântica, inclusive a de autores brasileiros da primeira metade do século dezenove), é novamente mais um estudo de interpretação (ANTUNES e FERNANDES, 2009, p. 31)”. A primeira seção apresenta melodia que se movimenta primeiramente em blocos de acordes chapados na região médio-grave, contra pontuações no baixo, exigindo trabalho em blocos da MD. Em seguida a melodia é desenvolvida pela voz superior com acompanhamento mais complexo, levando ao clímax no compasso 26 com interessante e rara fi guraçãoem quiálteras de 7. O fi nal sutil é alcançado pelo uso de harmônicos e reexposição variada da introdução. Estudo 12 – Com velocidade (Mi menor): É considerado um dos mais difíceis da série, principalmente por sua extenuante primeira seção de escrita muito pianística e consequentemente pouco violonística (sobretudo para ME), que trabalha acordes chapados com melodia em ligados, passagens escalares, arpejos, fi nalizada por uma interessante rememoração do tema no baixo. A seção contrastante é diametralmente mais simples, com melodia (em Décimas e Oitavas) quase folclórica numa “remota alusão à canção O cravo brigou com a rosa” (APRO, 2004, p.111), num nítido propósito de dar descanso ao intérprete. Após repetição da primeira seção, retornasse a este tema quase folclórico, agora levemente modifi cado e tocado em acordes cheios sob a indicação molto aperggiato, fi nalizados com súbita escala descendente e acordes sforzando. Idiomatismo Para esta seção, tomaremos como ponto de partida o tópico “Síntese dos elementos que caracterizam a escrita de Villa-Lobos para violão” do livro de Amorim (2009, p.167-172), comparando-o com os procedimentos habituais dos estudos de Mignone. Paralelismo horizontal: para Amorim, trata-se de movimentos paralelos de acordes com grande translado. Em Villa-Lobos esse movimento é empregado em acordes diminutos e meio-diminutos (comp. 9-14 do Estudo 4 e comp. 6-11 do Estudo 6) enquanto em Mignone aparece em acordes maiores (Estudo VII, comp. 32). Utilização de paralelismos verticais: para Amorim, trata-se de movimento de desenho igual desenho na ME que são repetidos em várias cordas. VL comp. 44-45 do Estudo 10 e comp. 22-29 do Estudo 12. Em Mignone, “forçando um pouco a barra”, é encontrado no 94 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE início e fi nal da Coda do Estudo 12. Uso idiomático das cordas graves (4ª, 5ª e 6ª): Mignone também faz este uso, mas não sendo violonista não o faz de forma tão idiomática quanto Villa-Lobos. Harmônicos: para Amorim, Villa-Lobos faz uso extensivo de harmônicos naturais, enquanto Mignone utiliza mais os harmônicos artifi ciais, e por vezes (principalmente no manuscrito) os utiliza em duas e até três notas simultâneas, o que exige certo malabarismo do intérprete e, assim sendo, são comumente simplifi cados pela maioria dos intérpretes, sem grande prejuízo musical. Uso de tonalidades que privilegiam as cordas soltas: Villa-Lobos o faz em 7 de seus estudos, enquanto Mignone em 6, mas nem sempre parece fazê-lo pautado na existência de cordas soltas, que em nossa impressão existem em menor número em sua obra (contabilizar essa ocorrência em ambos os ciclos seria demasiado fastidioso). Uso de cordas soltas como efeito pedal: ambos os compositores o usam. VL no comp. 15-20 do Estudo 1 e Mignone no comp. 57-61 do Estudo 1 e comp. 52-58 do Estudo 4, por exemplo. Uso da afi nação natural do instrumento como elemento musical: embora seja um procedimento Villa-Lobiano ocorrente em várias obras (concerto para violão, Prelúdio 3 e Distribuição das Flores), mas não nos seus estudos, citamos este elemento por ele curiosamente ocorrer também no comp. 67-69 do Estudo 4 de Mignone, mesmo sem ele ser violonista. Este procedimento virou uma das marcas da Sonata de Alberto Ginastera, que inicia-se com este acorde de cordas abertas. Exploração de toda a extensão do instrumento: ambos os compositores sabem “passear” pelos registros do instrumento com maestria. Villa-Lobos nas escalas do Estudo 2 e nos comp. 9-14 do Estudo 4, enquanto Mignone o faz no comp. 37-43 e 57-67 do Estudo 1, comp. 31-32 do Estudo 2, comp. 65-69 do Estudo 3, comp. 31-33 do Estudo 4, comp. 90-95 do Estudo 6, comp. 1-4, 15-17 e 48-50 do Estudo 12. Uso extensivo de sinais e recursos de expressão: ambos os compositores o fazem, mas Mignone mais frequentemente, até assustando possíveis intérpretes tal seu detalhismo interpretativo. Além disso, Villa-Lobos possui vários erros de edição, fruto de falta de revisão, enquanto Mignone declara: “... sou e serei sempre um eterno insatisfeito, refaço cinco ou mais vezes as minhas obras” (Francisco Mignone aos 80 anos, excertos da entrevista ao Jornal do 95 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE Brasil, a 6/4/1968, apud MARIZ, p.45, 1997). Utilização do ritornelo como recurso técnico e expressivo: Villa-Lobos o usa mais frequentemente, mais especifi camente em seus 3 primeiros estudos. Mignone apenas no Estudo 4, embora tenha preferido a grafi a por extenso de repetição de compasso. Exigência do intérprete de fi no controle tímbrico e dinâmico do instrumento: intimamente ligado aos sinais interpretativos descritos em tópico anterior, ambos os ciclos necessitam de tal habilidade. Melodias acompanhadas por acordes quebrados: Villa-Lobos os usa no comp. 15-23 do Estudo 8 e Mignone a partir do comp. 64 do Estudo 5, em padrão menos orgânico. Linhas cromáticas: existentes em ambos os ciclos. Exploração do potencial harmônico do violão: cada qual o faz à sua maneira, Villa- Lobos mais voltado a elementos orgânicos como fôrmas de acordes, paralelismos (horizontais e verticais) e Mignone, embora também use paralelismo e fôrmas, o faz menos frequentemente, mas não deixa de ser menos inventivo no uso arrojado do violão como instrumento harmônico (o Estudo VII basta para comprovar isso). Exploração das capacidades polifônicas do violão: enquanto Villa-Lobos dedica um estudo inteiramente a este procedimento composicional e ainda o utiliza “nos Estudos nº 3 (compassos 3-5, 8, 12, 13, 19-22 e 26 -30), diversas seções dos nºs 4 e 9, na parte B do nº 7, em quase totalidade do nº 8, na parte B do nº 10 (em que temos a sobreposição de notas fi xas com ligados – um dos momentos de maior difi culdade técnica do ciclo) e, no Estudo nº 11, de modo geral” (ABDALLA, 2005, p. 30), Mignone praticamente não o utiliza, privilegiando a melodia acompanhada (que por sua vez às vezes sugere vozes distintas) e havendo no máximo insinuações polifônicas mas normalmente justapostas e não simultâneas. Uso constante de quiálteras: ocorrente em ambos compositores. Intercalação de passagens atonais em peças tonais: ocorrente em ambos compositores. Villa-Lobos nos Estudos 1, 10 e 12, Mignone nos Estudo 1, 2 e 8. Passagens de grande intensidade sonora: ocorrente em ambos compositores. Alternância de unidade de compasso em uma mesma peça: Amorim ressalta o 96 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE exemplo do Estudo 4 de Villa-Lobos, onde ocorrem 20 alternâncias de unidade em apenas 65 compassos. Mignone usa este recurso mais parcimoniosamente (apenas nos Estudos 4 e 8). Escalas com digitações oblíquas: ocorrente apenas nos estudos 7 e 10 de Villa- Lobos. Utilização de ornamentos como recurso principal na composição: tratando-se de ideia totalmente Villalobiana no Estudos 7, 9 e 10, ela não ocorre em Mignone. Uso de notas repetidas como transição entre seções ou partes de seções: novamente um procedimento bastante Villalobiano consequentemente não explorado por Mignone. Em contrapartida este último autor as explora de maneira distinta dentro de arpejos, provendo-lhes articulação rítmica. Apesar de procedimento criativo, ele é pouco usual para os instrumentistas, embora seja musicalmente efi caz e passível de ser absorvido com estudo. Utilização de rasgueios de mão direita: Este procedimento totalmente característico do instrumento e merecedor de estudos específi cos é raramente utilizado em ambos os ciclos, aparecendo apenas no Estudo 12 de Villa e fi nal do 3 de Mignone, embora existam interpretes que os usem em outras passagens. Arpejos com efeito de trêmulo: trata-se de efeito praticamente de ocorrência isolada na história musical, onde Villa-Lobos propõe, no Estudo 11, passagem de uníssono em três cordas diferentes, tocadas em arpejo rápido resultado em um trêmulo. No entanto, o efeito habitualmente nomeadotrêmulo pelos violonistas (rápida e insistente reiteração de uma nota em una corda) não é utilizado por nenhum dos compositores, sendo outro vocabulário técnico merecedor de estudos específi cos. Capacidade de interpenetrar idiomatismos de instrumentos distintos: Amorim nota a semelhança de passagens dos Estudos Villa-lobianos com o violoncelo, instrumento também tocado pelo compositor. Mignone apresenta atitude semelhante, mas em relação aos dois instrumentos que tocava: a fl auta e o piano. Caráter programático de algumas peças: Villa-Lobos não o faz em seus estudos, mas em seu ciclo de prelúdios, enquanto Barbosa-Lima sugere que Mignone tinha a ideia de colocar subtítulos dessa natureza em seus estudos, apenas parcialmente realizada (há estudos com subtítulos de “seresteiro”, “tempo de chorinho”, “cantiga de ninar”, o que não são o bastante para serem chamados de programáticos). 97 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE Difi culdades Uma das questões mais polêmicas em relação a estas séries de estudos remete às suas difi culdades. A tendência habitual (e de certa forma errônea) é a de se pensar que o ciclo de Mignone é “mais difícil” simplesmente baseando essa opinião em uma impressão auditiva ou na repetição de verdades alheias (em outras palavras o “ouvi falar...”), fato compreensível quando poucos se aventuraram a tocar tais estudos. Por outro lado, muitos estudantes são apresentados muito cedo a estudos (por vezes difíceis) de Villa-Lobos e essa exposição precoce somada ao estudo intenso e prolongado os faz, anos depois, julgá-los “fáceis” simplesmente por estarem em sua zona de conforto. Com esses fatores em conta, gostaríamos de desmistifi car essa falsa relação de difi culdade entre os estudos, ao relembrar que o critério de difi culdade é muito relativo (sobretudo em estudos tão complexos e variados tecnicamente como os aqui discutidos). Dessa forma, cremos que um estudante pode ter uma facilidade escalar para o Estudo 7 de Villa-Lobos e não apresentar a mesma propensão para os ligados do Estudo 3 ou 10 do mesmo autor. As difi culdades aparentes em Mignone são derivadas de um duplo fenômeno: por um lado sua escrita é menos orgânica (algo esperado se tratando de compositor não violonista) e por outro seus idiomatismos e passagens problemáticas foram menos decifrados e discutidos quanto os de Villa-Lobos. Portanto, acreditamos ser menos uma questão de difi culdade e mais uma questão de aproximação da comunidade violonística. Ademais, há estudos de Mignone bastante acessíveis como os de número 2, 10 e 11 e mais ou menos medianos como o 1, 3, 5 e 7, dependendo sempre da especifi cidade de quem estiver julgando. A título de exemplo, reproduzimos abaixo tabela de Thiago Abdalla, a qual expõe uma proposta de hierarquização de difi culdades entre estudos brasileiros de quatro autores, mesmo que não seja indiscutível. Para exemplifi car o quão distintas podem ser as opiniões, nossa avaliação teria algumas diferenças em relação à de Abdala no que tange às obras de Villa-Lobos e Mignone. Em nosso julgamento, a ordem de difi culdade progressiva dos estudos de Mignone após estudo diligente por mais de 2 anos, seria mais ou menos a seguinte: 2, 11, 10, 7, 5, 3, 1, 4, 6, 9, 8 e 12. Mesmo assim não consideremos nossa opinião isenta. Tomamos como exemplo os de número 4 e 6, que foram as primeiras obras a serem estudadas por nós e que, portanto, podem estar sendo 98 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE subestimadas nesta hierarquização. Já na relação entre os ciclos de estudos, custamos acreditar que o 4 de Mignone e o 5 de Villa-Lobos têm o mesmo nível de difi culdade (como exposto na tabela), por exigirem habilidades completamente distintas, sendo assim sua comparação de difi culdade totalmente pessoal. Com isso queremos enaltecer o valor da proposta de Abdalla, mas não sem deixar o leitor ciente de sua subjetividade. Estrutura e duração dos estudos Outra diferença notável entre as séries de estudos é sua duração, sendo a de Mignone mais longa que a de Villa-Lobos, autor que segundo Mário de Andrade “se expressa [...] muito melhor dentro das formas estruturalmente de pequena duração no tempo” (apud AMORIM, 2009, p.125). Assim sendo, reunimos na tabela abaixo as durações médias de ambos os ciclos, para melhor sua visualização. 99 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE Com tal organização, expressa-se em números uma impressão habitual de que os estudos de Mignone tendem mais ao desenvolvimento de ideias, resultando em 7-17 minutos a mais na duração total e 1 minuto a mais na duração média das peças. Tudo o que foi exposto aqui não é um demérito, apenas uma constatação das diferentes características dos compositores. O hiato – gravações, performances e escritos Um último grande fator a ser considerando nesta comparação e habitualmente ignorado em obras desse calibre é a ocorrência de grande descompasso entre a composição e sua absorção (tanto pelos instrumentistas quanto pelo público apreciador). Obviamente esse fenomeno não ocorre em qualquer obra musical, mas é frequente, sobretudo em obras que contenham inovações técnicas, musicais (e etc), como nos grupos de estudos selecionados, cada um a sua maneira. É como se além do tempo de gestação da obra pelo compositor, ela muitas vezes precisasse de uma segunda gestação, agora pelos intérpretes (para resolverem suas questões técnico-interpretativas e de grafi a) e público (para deglutirem suas inovações de sonoridade até fi nalmente conseguir apreciá-las). A história comprova que esse fenômeno é verdadeiro em relação ao Estudos de Villa-Lobos. Compostos “na década de 1920, durante as duas passagens de Villa-Lobos por Paris: de 1923 a 1925 e de 1927 a 1930” (AMORIM, 2009, p.127), eles foram publicados apenas em 1953 pela editora francesa Max Eschig (mais de 20 anos depois). Mesmo dedicados ao espanhol Andres Segóvia, violonista mais célebre de sua época e com prefácio do mesmo, 100 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE estes estudos ainda tardariam muito a encontrar o intérprete capaz de divulgá-los a um público maior. Segóvia, embora declarasse em seu prefácio que considerava os estudos “de surpreendente efi cácia para o desenvolvimento das técnicas de ambas as mãos” e “de valores estéticos permanentes de obras de concerto” (Max Eschig, 1953 p.1) somente tocou e gravou os estudos de números 1 e 7. Conhecendo-se a personalidade e preferências do espanhol (que em suas encomendas estava sempre voltado para a música nacionalista de seu país e sempre pesava por obrigar seus alunos a seguir suas digitações em masterclasses), podemos imaginar que o ciclo de estudos villalobiano não se adequava a este intérprete, tanto por estética, quanto por ter de se sujeitar às digitações de Villa-Lobos para fazê-los funcionar. Ele mesmo revela que “não quis variar nenhuma digitação que Villa-Lobos marcou” e que “devemos estrita obediência a seu desejo, mesmo a custa de nos submetermos a maiores esforços de ordem técnica” (Max Eschig, 1953, p.1). Essa declaração simplesmente não soa como Segovia, conhecido por impor o seu ímpeto artístico sobre as obras em uma visão artística do romantismo-tardio. Imaginamos que, talvez, ele não quis mexer no que não conseguia decifrar, ou ao menos que não quis gastar seu precioso tempo revisando obras de uma estética que não estava comprometido... Mas isso recai no âmbito da pura conjecturação. Enquanto Segóvia deu pouco proveito à obra a ele dedicada, o brasileiro Turíbio Santos soube aproveitá-la para lançar sua carreira (somada a outros feitos) se tornando o concertista ideal para a tarefa de defendê-la frente aos apreciadores do violão. Em 1963 ele gravaria os 12 estudos a convite de Arminda Villa-Lobos e os apresentaria no dia 21 de novembro daquele mesmo ano no Palácio Gustavo Capanema do Rio de Janeiro, confi gurandoa primeira performance integral em concerto (SANTOS, 2015, p.29). Resumidamente, a partir dai (do esforço deste intérprete, entre inúmeros outros) os estudos ganharam mundo, criando- se uma reação em cadeia para sua popularização e consequente divulgação. Para dar-se conta de seu sucesso atual, basta dizer que Amorim levantou a existência de ao menos 93 gravações parciais ou integrais desses estudos (ver Amorim, 2007, Anexos, p.231-234), sendo que o próprio Turibio os gravaria 4 vezes... Com isso podemos contabilizar um espantososo hiato de ao menos 33 anos entre a composição e o momento de início de sua aceitação, celebrização e mais, sua compreensão pelo meio violonístico. Hoje os estudos de Villa-Lobos integram programas de conservatórios e universidades, sendo parte indispensável de qualquer formação violonística, ao mesmo tempo em que fi guram nos concertos dos mais prestigiados intérpretes internacionais e pode-se dizer que há certo consenso de como resolver seus problemas técnicos, interpretativos e de grafi a. Por outro lado, eis a situação dos estudos de Mignone: compostos em 1970 eles foram editados logo em seguida em 1973 pela Columbia Music Company, e não tardaram tanto 101 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE a ser gravados em LP pelo próprio dedicatário da obra, em 1978, pela Polygram (esgotado), que também nos declarou ter feito várias performances parciais do ciclo em concertos. Porém, após esse pontapé, temos conhecimento de poucos intérpretes que se dedicaram aos mesmos (dos quais elencaríamos Fábio Zanon, Paulo Pedrassoli, Flávio Apro e o próprio autor deste artigo) havendo apenas a gravação de Flávio Apro disponível comercialmente. Nestes anos este ciclo ganhou indiscutível notoriedade, mas infelizmente aliada a uma reputação de que suas difi culdades seriam intransponíveis. O âmbito acadêmico também não tem sido favorável ao ciclo Mignoniano: enquanto a obra violonística de Villa-Lobos foi foco direto ao menos de 22 pesquisas de mestrado e doutorado (resultando em dissertações e teses) e indireto de mais 7 (esses números foram contabilizados nas referências bibliográfi cas de Amorim, 2009, p.179-183) sem falar em incontáveis artigos. Enquanto isso, temos conhecimento de apenas 5 dissertações dedicadas à obra violonística de Mignone somadas a cerca de 4 artigos (alguns deles de foco indireto). Acreditando na circularidade de conhecimentos entre a prática e teoria, entre o universo acadêmico e extra-acadêmico, temos certeza de que quanto mais numerosas forem as discussões sobre estes estudos de Mignone (acadêmicas ou não), tal qual ocorreram com os de Villa-Lobos, sua absorção pela comunidade violonística crescerá (e também consequentes performances e gravações) e, com tal desmistifi cação, virá a revitalização de um ciclo brasileiro da maior importância histórica, estética, técnica e musical. Passados 46 anos desde a composição dos 12 Estudos para violão de Mignone, é chegado o momento de a comunidade violonística reavaliar a atenção que tem dado a esta obra. REFERÊNCIAS ABDALLA, Thiago. “Análise Técnico-interpretativa dos ciclos de Estudo para violão de César Guerra-Peixe, Radamés Gnatalli e Heitor Villa-Lobos”. Trabalho de Conclusão de curso (TCC). ECA-USP, 2005. AMORIM, Humberto. “Heitor Villa-Lobos: uma revisão bibliográfi ca e considerações sobre a a produção violonística”. Dissertação de mestrado, UNIRIO, 2007. AMORIM, Humberto. “Heitor Villa-Lobos e o violão”. Academia Brasileira de Música, Rio de Janeiro, 2009. 102 DELVIZIO, C. M. O VIOLÃO EM ESTUDOS - ENTRE VILLA-LOBOS E MIGNONE ANTUNES, Gilson e FERNANDES, Marcelo. “Aplicações Técnico-Instrumentais e Similaridades nos Estudos para Violão de Heitor Villa-Lobos, Radamés Gnattali e Francisco Mignone”. Simpósio Internacional Villa-Lobos, USP, 2009. Disponível no link www2.eca.usp. br/etam/vilalobos/resumos/CO005.pdf acesso em 03/12/2016. APRO, Flávio. “Os fundamentos da interpretação musical: aplicabilidade nos 12 etudos para violão de Francisco Mignone”. Dissertação de mestrado, UNESP, 2004. GLOEDEN, Edelton. “As 12 valsas brasileiras em forma de estudos para violão de Francisco Mignone: um ciclo revisitado”. Tese de doutorado, USP, 2002. MARIZ, Vasco (org.). “Francisco Mignone, O homem e a obra”. Rio de Janeiro, p.45, Funarte & ED.UERJ, 1997. SANTOS, Turibio. “Caminhos, encruzilhadas e mistérios...”, 2ª ed. ARTVIVA, 2015. TABORDA, Márcia. “Violão e identidade nacional - Rio de Janeiro 1830-1930”. Tese de Doutorado, UFRJ, Rio de Janeiro, 2004. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2011. Partituras: “Douze Etudes pour guitare” de Heitor Villa-Lobos, Max Eschig, 1953. “Twelve Etudes” de Francisco Mignone, Columbia Music Company, 1973. 103 O desafi o de compor para violão solista e orquestra Elodie Bouny/Universidade Federal do Rio de Janeiro eloviolao@gmail.com Escrever para violão solista e orquestra constitui um desafi o para os compositores e o presente artigo trata dessas questões. Por natureza, o violão é um instrumento que, difi cilmente, consegue se sobressair à frente de uma orquestra, mas isso não impediu uma produção ampla para essa formação, sobretudo, depois da segunda metade do século XX. Por meio de análises de trechos de obras compostas com essa formação, este artigo apresenta estratégias no sentido de facilitar a escrita para violão solista e orquestra, tendo como objetivos valorizar o timbre do violão e estabelecer um equilíbrio sonoro entre o solista e a orquestra. Palavras-chave: Concerto para violão. Orquestra. Timbre. Composição. The Challenge of composing for guitar and orchestra Writing for guitar and orchestra is a challenge for composers and this article addresses these issues. By nature, the guitar is an instrument that can hardly stand out in front of an orchestra, but this did not prevent a broad production for this formation, especially after the second half of the twentieth century. This article presents strategies to facilitate writing for solo guitar and orchestra, with the purpose of evaluating the timbre of the guitar and establishing a sound balance between the soloist and the orchestra. Keywords: Guitar Orchestra. Orchestra. Timbre. Composition. INTRODUÇÃO Este artigo apresenta aspectos acerca da escrita para violão solista e orquestra, e apresenta, também, questões que esse tipo de escrita levanta sendo que, uma delas, consiste em lidar com o timbre intimista do violão e com a mistura desse timbre com o da orquestra. Existem mais de mil de concertos escritos para violão e mais de trezentos gravados. Porém, apesar dessa realidade, escrever para violão e orquestra não deixa de ser uma tarefa delicada, podendo-se dizer, ousada. O violão era, originalmente, designado para cumprir o papel de acompanhador, mas foi conquistando, aos poucos, seu lugar como instrumento solista, a partir do século XIX, com o surgimento de peças virtuosísticas e de estrutura formal mais complexas. Dionisio Aguado, Fernando Sor, Mauro Giuliani, Fernando Carulli, Napoleon Coste, são alguns exemplos de compositores que começaram a estabelecer o novo repertório solista desse instrumento durante o século XIX. O primeiro concerto para violão solista e orquestra tocado em público ocorreu em de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 104 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA 1808 e foi composto por Mauro Giuliani1. Desde então, vários compositores se interessaram por essa formação, resultando em um repertório crescente para violão e orquestra. Porém, a escrita para violão e orquestra, apresenta problemas, principalmente no que diz respeito ao equilíbrio e mistura dos timbres. Desta forma, a principal questão levantada neste artigo é: quais são as estratégias possíveis para valorizar o timbre do violão solista junto à orquestra? Para tanto, este artigo está estruturadoem itens distintos sendo que o primeiro deles está reservado à contextualização histórica do timbre, da orquestra e da formação para solista e orquestra. Num primeiro momento conceituei o timbre a partir de diferentes vieses. Por outro lado, observa-se que o violão é pouco comentado nos métodos tradicionais de orquestração, nos quais não existem descrições detalhadas das possibilidades técnicas do instrumento, nem descrição de tessituras; isso provavelmente ocorre por não ser um instrumento da orquestra. Portanto, faço a seguir essa descrição do violão e das suas possibilidades. Vale deixar claro que quando cito o violão solista na formação de concerto considero, nesses casos, que o violão é amplifi cado. Hoje em dia, é difícil imaginar um violonista solista tocando na frente de uma orquestra sem amplifi cação, a não ser que essa escolha seja conceitual. Apresento brevemente o Concerto para violão e pequena orquestra de Villa-Lobos que foi uma obra marcante para a formação de concerto para violão, e pode se dizer, uma obra polêmica por diversas razões, que são expostas neste momento do artigo. Destaco a seguir o Concerto de Aranjuez em que analiso vários trechos da obra e demonstro como o autor, Joaquim Rodrigo, conseguiu valorizar o violão, a orquestra e a mistura dos timbres instrumentais. Finalizo o artigo tecendo consideração fi nais sobre esse concerto destacando como o compositor criou texturas orquestrais que permitem que o violão se sobressaia. O timbre do violão O timbre é um dos princípios básicos do som e está em toda parte; somos rodeados por timbres. Porém, é difícil atribuir ao timbre uma defi nição clara, abrangente e defi nitiva. 1 Mauro Sergio Giuseppe Pantaleo Giuliani (1781-1829) foi um violoncelista, violonista e compositor italiano (Nota da autora). 105 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA Nesse sentido, Manoury (1991, tradução da autora) afi rma: “falar de timbre é como falar de gosto.” As diferentes tentativas de apropriação do timbre, como componente musical, ao longo do século XX, entraram em confl ito tanto no que diz respeito à sua natureza quanto à sua defi nição. Contudo, sabemos que hoje em dia, o timbre se impõe claramente como elemento fundamental da composição. E, por mais que se sabia sobre o timbre, mais o horizonte desse total entendimento fi ca distante. Para introduzir essa análise sobre o timbre do violão, gostaria de lembrar um trecho de um depoimento, de Andrés Segovia, considerado, até hoje, o pai do violão. Esse depoimento foi concedido a Christopher Nupen autor de um documentário, de 1967, denominado Andrés Segovia at Los Olivos. De fato, [o violão] é como uma orquestra que olhamos com binóculos ao contrário. O que quero dizer é que todos os instrumentos da orquestra estão dentro do violão, mas com menos potencia sonora. Ele tem diferentes cores e timbres, e por isso é necessário desenvolver essas qualidades do instrumento (SEGOVIA, apud NUPEN, 1967. Tradução desta autora). Na maioria dos métodos de orquestração, podemos achar uma tabela que descreve o timbre dos instrumentos segundo a tessitura em que eles se encontram; não se vê nada parecido para violão. Diante disso é que proponho descrever os timbres do violão segundo as tessituras e digitações normalmente usadas. A fi g. 1 a seguir ilustra o resultado dessa minha descrição. 106 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA Figura 1 – Descrição do timbre do violão Fonte: elaborado pela autora (2017). Ressalta-se, contudo, que essa descrição não pode ser considerada uma referência perfeita, porque nela o papel da mão direita é totalmente deixado de lado. Sabe-se que na produção do som o papel da mão direita é de suma importância, pois é responsável por pulsar a corda. A maneira de fazer a corda vibrar pode mudar muito e o ato de pulsar da corda depende de vários fatores tais como: qualidade das unhas, formato das unhas, ponto onde a corda é pulsada, angulo de ataque da unha, dentre outros. A afi rmação de Traube (2004), transcrita a seguir, reforça essa minha ideia: Os principais parâmetros que afetam o envelope espectral são a escolha das cordas, a posição do ataque da corda, e a direção na qual a corda deixa o dedo/unha que a acionou. Além de usar cordas diferenciadas, o método mais efetivo para variar o timbre de uma nota é mudar o ponto de ataque da corda (TRAUBE, 2004, p. 20). Dependendo do ponto onde a corda é pulsada, por exemplo, podemos obter timbres bem diferentes: perto do cavalete o som é ponticello e tem uma característica metálica e nasal; entre a boca e o cavalete o som é bem projetado e tem um caráter muito brilhante; na altura da boca do violão, é considerado o ponto neutro de ataque; é um som cheio e brilhante com excelente projeção. Ainda temos o som sul tasto, que ocorre quando a corda é pulsada entre as casas XIV e XIX, e que tem uma característica doce. Existe, também, a possibilidade de se obter um som fl autado e muito doce, porém, com pouca projeção, pulsando a corda na sua metade, na altura da casa XII. É preciso levar em conta, também, a importância do uso das diferentes madeiras na construção do instrumento. As madeiras que são tradicionalmente usadas para a fabricação do tampo – parte vibrante mais importante do violão – são o Spruce e o Red Cedar. Tradicionalmente, o spruce – o pinho – era mais utilizado para a construção do tampo. Trata-se de uma madeira fl exível que oferece uma boa projeção do som, que costuma ser muito brilhante e claro. O pinho evolui com o tempo e, cabe ao violonista, amadurecer o violão para deixar o som mais cheio. O cedro entrou na construção do instrumento nos anos 60 do século XX e oferece um som quente menos cristalino e com uma projeção menos percussiva que o pinho. Ao contrario do pinho, o cedro não evoluiu muito ao longo do tempo. 107 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA O violão e as suas possibilidades na orquestra: Um exemplo em obras de Clarice Assad Como foi dito na introdução deste estudo, a escrita para violão solista e orquestra é um desafi o para os compositores, especialmente no que diz ao equilíbrio dos timbres e volumes. Sobre a mistura do violão com a orquestra, cito a seguir um depoimento que compositora Clarice Assad me concedeu sobre sua experiência de compor para violão e orquestra. A compositora tratou, especifi camente, das obras “Album de retratos” para dois violões e orquestra e “Saci Pererê” para violão e orquestra: Eu levei muito tempo para fazer a orquestração, não queria fazer correndo, porque quando eu fi z o primeiro concerto [Álbum de retratos para dois violões e orquestra, nda], eu me ferrei... [...] eu achei que a minha escrita era bem balanceada na época, mas não era... A orquestra engoliu o violão! A primeira formação era bem maior, full strings, double quase tudo [se referindo aos instrumentos de sopro, nda], era bem grande. A orquestra do Saci é bem menor. Na época, mesmo as passagens com violão e quarteto não deram certo... acho que por conta dos registros... não deu certo! Pizzicato era o único que funcionava. Quando passava para arco, soava mal, engolia tudo... E fi quei muito triste na época, então fi z uma análise da minha própria peça e fi quei muito crítica comigo mesmo, e acho que acabei entendendo bastante coisa ali, até de forma inconsciente... tentei identifi car os erros, mas não foi totalmente consciente. Eu diminuí os metais. Na percussão eu coloquei efeitos que não cobrem, porque só a percussão às vezes engole até a orquestra. [...] Não adianta por os instrumentos para brigar! Se tiver a orquestra toda tocando, então o violão tem que tocar em strumming (acordes rasgueados, nda), aí tudo bem. [...] em todo caso, quando a orquestração fi ca muito cheia, ou a orquestra está sozinha, ou o violão fi ca fazendo strumming ou a orquestra fi ca dando acentos pontuais, ela só está colorindo o que o violãoestá fazendo, sem engolir o violão, isso é uma outra estratégia (ASSAD, 2017, entrevista concedida a esta autora). Fica claro no depoimento de Assad (2017) que compor para violão solista e orquestra constitui um desafi o. Ao afi rmar: “a orquestra engoliu o violão!”, a compositora revela a difi culdade que há em equilibrar o solista com o resto da orquestra. Assad (2017) oferece algumas pistas práticas e fáceis de serem aplicadas: a) a orquestra usada na segunda tentativa, que obteve sucesso, foi “bem menor” do que na primeira tentativa, b) diminuição do naipe dos metais, c) efeitos de percussão que não cobrem, d) enquanto a orquestra inteira toca, o violão deve usar um efeito que oferece volume sonoro elevado, como, por exemplo, o strumming – acordes rasgueados –, ou a orquestra deve tocar sozinha ou, então, realizar acentos pontuais para não cobrir o violão. 108 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA Concerto para violão e pequena orquestra de Villa-Lobos Esta obra do Heitor Villa-Lobos, encomendada por Andrés Segovia em 1944-46, é um marco na historia do concerto para violão e orquestra. Desde a gênese da escrita do concerto, surgiram várias questões, e uma delas era justamente o equilíbrio entre o violão e a orquestra. Sobre esta questão, Marco Pereira escreve Villa-Lobos nunca se sentiu muito embalado para utilizar o violão como instrumento solista no meio de uma orquestra, apesar da importância que este havia ocupado em sua formação musical. De um lado porque ele não via exatamente que combinações tímbricas poderiam ser utilizadas. De outro, porque achava um tanto quanto aberrante a oposição de um violão solo a toda uma orquestra, dado, sobretudo, ao seu baixo potencial. (PEREIRA apud ALMEIDA, 2006, p.129) Inclusive, é importante lembrar que o próprio Villa-Lobos era favorável ao uso da amplifi cação para deixar a orquestra mais livre, como esclarece a seguir o depoimento do Turibio Santos: O compositor relutava, falta de tempo, e quem sabe, falta de entusiasmo com a combinação violão e orquestra. (....) No concerto de estréia da peça, foi a própria Arminda que ajudou a duplicar as indicações de piano nas partes. Um p virou dois p, dois viraram três e três viraram quatro. A ponto de Villa-Lobos fi car inquieto, se a obra era para violão e orquestra ou para violão simplesmente. É interessante notar aqui, que nós recolhemos o testemunho de Villa-Lobos sobre o uso do microfone, no caso do violão e orquestra. Ele não somente não se opunha, como era a favor do uso do microfone, a fi m de que a orquestra pudesse tocar com maior liberdade. (SANTOS, 1975, p.29) Fica claro nestes depoimentos que a questão do equilíbrio entre o violão e a orquestra era uma real preocupação para Villa-Lobos. O próprio compositor escreve sobre o concerto: “Obra escrita em 1951, para violão e uma orquestra equilibrada com recursos de timbre que não se sobrepõe à sonoridade do solista. É constituída de três movimentos: Allegro Preciso, Andantino e Andante, Allegro non Troppo” 2 Houveram alguns desentendimentos depois da entrega do manuscrito ao Segovia; um deles foi que o concerto não possuía cadencia na primeira versão, então intitulada Fantasia Concertante par violão e pequena orquestra. Segovia teve que ser extremamente insistente para 2 IDEM, Ibidem, loc. cit. 109 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA que Villa-Lobos conceda uma nova versão onde constaria uma cadencia, que se situa entre o segundo e terceiro movimento. (SANTOS, p.29) Por fi m, Segovia teria feito algumas mudanças, como esclarece Almeida Quando, no ano de 2003, Ângelo Gilardino trabalhava na catalogação dos arquivos deixados por Segovia, o famigerado “Arquivo de Linares”, encontrou cópia do manuscrito da redução para piano e violão da então Fantasia Concertante e, no meio dessa cópia, encontrou também três folhas em que Segovia havia escrito algumas mudanças na partitura, segundo Gilardino, à revelia do compositor, com o intuito de obter uma escrita mais violonística e sonora para o instrumento. (ALMEIDA, 2006, p.131) Concerto de Aranjuez: Uma breve analise da orquestração O Concerto de Aranjuez foi composto, em 1939, pelo compositor espanhol Joaquim Rodrigo (1901-1999). Encomendado em 1938 pelo Marquis de Bolarque, a estreia aconteceu em Barcelona no dia 9 de novembro de 1940 com Regino Sainz de la Maza no violão junto à Orquestra Sinfônica de Barcelona sob a regência de Cesar Mendoza Lasalle. (ALMEIDA, 2006). O Concerto de Aranjuez é formado por três movimentos; Allegro con spirito, Adágio e Allegro gentile e conta com os seguintes instrumentos: fl auta I, fl auta II e Piccolo, oboé I, corne inglês (2º movimento), clarinete em si bemol, fagote, trompas em fá, trombone em dó, violão com a 6ª corda em ré (solista), violinos I, violinos II, violas, violoncelo, contrabaixo. A seguir analiso alguns trechos do Concerto de Aranjuez – primeiro e segundo movimento – e demonstro de que maneira o compositor conseguiu valorizar o violão, a orquestra, e a mistura de ambos. Essa análise se atrela essencialmente à instrumentação e orquestração dos trechos escolhidos por mim, assim como a notação das dinâmicas. O objetivo principal dessa análise é evidenciar as estratégias de escrita usadas pelo compositor para valorizar o timbre do violão junto à orquestra. No exemplo ilustrado na Fig. 2, é possível observar que o violão está sendo dobrado por quatro instrumentos: oboé na região media-aguda, fagote na região aguda, violino II e viola em pizzicato. O oboé nessa região tem um timbre agradável, não tão nasal, e não tão cortante. O fagote na região aguda não é muito potente. As indicações de staccato nos sopros ainda tendem a deixar as intervenções mais leves. As cordas em pizzicato também têm um volume limitado, além de intervenções muito 110 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA pontuais. As tessituras escolhidas, as articulações e os efeitos não são anódinos. Essas tessituras, articulações e efeitos escolhidos contribuem com a aparição da voz do violão, que se encontra numa região favorável. Posteriormente, quando fl autas, piccolo, trompas, trombones, cordas e violão tocam juntos, é possível notar que as dinâmicas usadas vão desde o pianíssimo (pp) até o pianississimo (ppp). Figura 2 – Concerto de Aranjuez-Primeiro movimento p. 9 Fonte: Ernst Eulenburg Ltd ([s.d.]). A indicação forte (f) é rara quando a orquestra toca junto ao violão. É possível observar (Fig. 3) que o violão toca acordes arpegiados de seis notas. Essa técnica é bastante sonora, sobretudo quando realizada como rasgueado com os dedos indicador-médio-anelar (i-m-a). A indicação de dinâmica do acorde arpegiado é fortíssimo (ff). Provavelmente, essa seja a maneira mais sonora de escrever para violão. Rodrigo arrisca todos os naipes das cordas tocando forte junto ao violão, mas garante o volume do violão graças a uma escrita na qual o 111 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA instrumento tem bastante volume sonoro. Figura 3 – concerto de Aranjuez-Primeiro movimento p.10 Fonte: Ernst Eulenburg Ltd ([s.d.]). No trecho destacado a seguir (Fig. 4) é possível observar que a orquestra toca fortíssimo com o violão em acordes fortíssissimo também; porém, assim que o violão toca escalas rápidas, a orquestra começa a tocar notas acentuadas e pontuais. O violão, quando executa frases rápidas, tem difi culdade em manter um som cheio e um volume muito alto. É de suma importância aliviar, nesse ponto, a escrita da orquestra para que as linhas do violão apareçam. 112 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA O violão, nesse trecho, encontra-se numa situação bastante virtuosística, tanto pela velocidade das escalas quanto pela tessitura muito aguda que difi culta a execucção da passagem. Mais uma vez, nesse tipo de situação, o violão tem difi culdade em manter umvolume muito elevado e o timbre, depois do Mi5 da casa XII, tende a ser mais magro e com menos projeção. A articulação das fl autas é staccato, enquanto os clarinetes tocam notas longas com algumas intervenções pontuais. Observamos que as fl autas e os clarinetes estão numa região em que o timbre não é tão brilhante, enquanto as cordas estão todas numa dinâmica pianíssimo e só executando notas longas. Dessa maneira, o violão se sobressai graças aos cuidados da orquestração do Rodrigo. Figura 4 – Concerto de Aranjuez-Primeiro movimento p.18 Fonte: Ernst Eulenburg Ltd ([s.d.]). A maioria dos métodos de orquestração recomenda não usar os metais junto ao violão. No trecho a seguir (Fig. 5), Rodrigo junta as trompas ao violão e às cordas. Porém, nota- se que Rodrigo usa um registro não tão brilhante das trompas, numa dinâmica de pianíssimo, 113 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA enquanto o violão está tocando um mesmo acorde repetido de seis cordas, em rasgueado que cobre toda a tessitura do instrumento, dando um resultado muito sonoro; as cordas tocam forte. Provavelmente, essa escrita é a que dá mais volume ao violão. Temos aqui uma orquestração arriscada em termos de equilibrio sonoro, compensada por uma escrita para o violão, que garante volume sufi ciente para esse instrumento aparecer, mesmo com uma orquestra bastante sonora. Figura 5 – Concerto de Aranjuez-Primeiro movimento p. 20 Fonte: Ernst Eulenburg Ltd ([s.d.]). No segundo movimento do concerto, (Fig. 6 e 7) o violão tem papel de solista quase o tempo inteiro. A particularidade da escrita do violão nesse movimento é de ser uma linha melódica única, com poucos acordes ou elementos armônicos tocados juntos. É um tema suave e cantabile. Neste caso, o desafi o de destacar o violão é ainda maior porque mesmo a linha melódica estando numa tessitura favoravel, ela soa menos do que quando o violão produz acordes cheios. Por outro lado, quando se tem uma única linha melódica, é mais fácil timbrá-la e, assim, produzir um som cheio e projetado. 114 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA É relevante ressaltar que quando o violão está em situação de solar a melodia principal, o resto da orquestra toca com a dinâmica pianissimo (pp) ou pianississimo (ppp). Outra situação interessante de se notar é nos instantes em que o violão tem a linha principal e é acompanhado pelo naipe de cordas ou parte deste. No segundo movimento do Concerto de Aranjuez, aparecem duas confi gurações orquestrais em que outros instrumentos intervêm com contracantos: uma vez com a trompa que faz um comentário em notas longas e, outra vez, com o fagote, igualmente em notas longas. Nessas duas confi gurações, a trompa e o fagote tocam pianíssimo (pp). Figura 6 – Concerto de Aranjuez-Segundo movimento p. 39 Fonte: Ernst Eulenburg Ltd ([s.d.]). 115 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA Figura 7 – Concerto de Aranjuez-Segundo movimento p. 47 Fonte: Ernst Eulenburg Ltd ([s.d.]). Nos exemplos citados nesse item, podemos ver claramente que Rodrigo adota uma escrita meticulosa e delicada no que se trata do equilíbrio entre o violão e a orquestra. As dinâmicas escolhidas para a orquestra se situam sempre num registro piano, e a orquestra inteira só toca com dinâmicas mais intensas quando o violão sai de cena. Considerações fi nais Por meio das observações e análises que fi z de trechos do primeiro e segundo movimentos do Concierto de Aranjuez, pude deduzir que a escrita do Rodrigo é muito delicada e procura sempre valorizar o timbre do violão; que o compositor conseguiu um equilíbrio entre o solista e a orquestra graças ao seu profundo conhecimento do violão e da instrumentação orquestral, requisito obrigatório para quem pretende escrever para violão solista e orquestra. No primeiro e segundo movimentos do Concerto de Aranjuez, quando o violão está presente, a orquestra toca com uma dinâmica menos intensa e linhas que não brigam com o timbre do violão, pois os demais instrumentos têm articulações e tessituras diferentes das do violão, entre outras características. Quando o violão tem a linha principal, as intervenções da orquestra são pontuais, com articulações leves – staccato, por exemplo –, ou com linhas horizontais quando o violão tem notas rápidas. 116 BOUNY, E. O DESAFIO DE COMPOR PARA VIOLÃO SOLISTA E ORQUESTRA Por outro lado, quando o violão não está presente, Rodrigo aproveita o instrumentarium da orquestra, no seu pleno potencial, escrevendo dinâmicas fortes, em tessituras privilegiadas, criando mais uma vez um contraste potente entre os trechos em que o violão aparece e os trechos em que a orquestra se expressa liberada da obrigação de não cobrir o solista. Dessa forma, a noção de contraste na escrita para violão solista e orquestra aparece como uma estratégia efi caz. A meu ver, a criação de texturas orquestrais leves e contrastantes, que valorizam cada timbre da orquestra, é mais propícia na confi guração de escrita para violão solista e orquestra. Em vez de procurar a mistura dos timbres, criando assim uma massa sonora mais cheia, parece-me mais adequada a procura de texturas orquestrais mais transparentes e mais contrastantes nas quais o timbre do violão se sobressai mais facilmente. REFERÊNCIAS ALMEIDA, Renato da Silva. Do intimismo a Grandiloquência. Trajetória e estética do concerto para violão e orquestra: das raízes até a metade do século XX em torno de Segovia e Heitor Villa-Lobos. 2006. 167f. Dissertação (Mestrado em Artes). Universidade de São Paulo (USP). São Paulo, 2006. ASSAD, Clarice. Entrevista de Elodie Bouny em 12 de maio de 2017. Rio de Janeiro. Skype. RODRIGO, JOAQUIN. Concierto de Aranjuez for Guitar and Orchestra. [s.d.]. Disponível em: <http://lib.mosconsv.ru/conslib/media/book/00005084.pdf >. Acesso em: 3 maio 2017. MANOURY, Philippe. Les limites de la notion de “timbre”. In: BARRIÈRE, Jean-Baptiste (org.). Le timbre, métaphore pour la composition. Paris: Christian Bourgois/IRCAM, 1991. p. 293-335. NUPEN, Christopher. Andrés Segovia at Los Olivos. Documentário. 1967. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=1QV_56-9fl A>. Acesso em: 3 maio 2017. TRAUBE, Caroline. Na interdisciplinar study of the timbre of the classical guitar. 2004. 218f. Tese (Doutorado em Filosofi a). Music Technology Department of Theory Faculty of Music McGill University Montreal, Canada. 2004. 117 de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões MESA REDONDA IV: OS CHOROS 118 “Alma Brasileira”: impressões e refl exões sobre o “Choros nº5” Maristela Rocha de Almeida Magalhães1 Universidade Federal de Juiz de Fora maristelarocha.rocha@gmail.com Thalyson Rodrigues2 Universidade Federal do Rio de Janeiro tharodriguesaraujo@gmail.com Resumo: A série dos 14 “Choros”, escrita no período entre 1920 e 1928, é uma das mais conhecidas obras do compositor carioca Heitor Villa-Lobos (1887/1959), um dos mais representativos com- positores da América. Pretendemos, através de uma análise estrutural, elucidar como o compositor transcreveu a estética do choro para a linguagem pianística no “Choros nº 5”, intitulado “Alma Brasileira”. Analisaremos, pois, alguns dos recursos musicais utilizados pelo compositor na obra, bem como o seu contexto histórico, te ndo como tempo-espaço o Rio de Janeiro em 1925, data de composição da obra. Aspectos relacionados à capital da República e ao mecenato serão também abordados no trabalho. Palavras-chave: Villa-Lobos. Choro. Choros nº 5. Alma Brasileira. Abstract: The series of 14 “Choros”, written in the period between 1920 and 1928, is one of the best-known works by the Rio de Janeiro composer Heitor Villa-Lobos (1887/1960), considered the largest in the Americas. We intend, through a structural analysis, to elucidate how the composer transcribed theaesthetics of choro into the pianistic language in “Choros nº 5», entitled «Brazilian Soul». We will analyze, therefore, some of the musical resources used by the composer in the work, as well as its historical context, having as space-time Rio de Janeiro in 1925, work›s composition date. Aspects related to the Republic capital and to patronage will also be approached in the work. Keywords: Villa-Lobos. Choro. Choros nº 5. Alma Brasileira. A música, eu a considero, em princípio, como um indispen- sável alimento da alma humana. *Villa-Lobos [...] tudo é triste. Há uma tonalidade triste, uma maneira triste de ser [...] todos têm um ar de chorões e eis o título Choros dado no Brasil para todo esse gênero de canções em lamento. ** Villa-Lobos apud ASSIS 1 Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (com tese em Sociologia da Música), mestre em Comunicação e Cultura pela UFJF (dissertação em Comunicação e Música), especialista em Música Brasileira e Educação Musical pela Universidade Vale do Rio Verde, bacharel em Comunicação Social, Jornalismo, pela UFJF. Experiência como professora e coordenadora de cursos no ensino superior em instituições privadas. Pesquisadora de música brasileira com ênfase no século XIX e primeiras décadas do século XX – com várias publicações, palestras proferidas e participações em congressos. Professora de Educação Musical com ex- periência em instituições públicas e privadas. ROCHA, Maristela. Chiquinha Gonzaga e o Forrobodó: O choro da cidade nova eternizou-se na história. 18º Congresso Brasileiro de Sociologia, 2017, Brasília. ______. O maxixe excomungado e o Choros nº 1: da periferia aos grandes mestres. II Simpósio Nacional Villa -Lobos. 54º Festival Villa-Lobos. Ano Egberto Gismonti, 2016, Rio de Janeiro. 2 Mestrando Profi ssional PROMUS-UFRJ, sob orientação da Profa. Dra. Miriam Grosman. Professor substituto – Piano - do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (Bacharelado e Licen- ciatura em Piano). Bacharel em piano pela Escola de Música da UFRJ. Foi premiado em concursos nacionais de piano, nos quais se destacam o Concurso Cora Pavan Caparelli (MG-2014) e o Prêmio Estímulo Mozart (RJ-2007). Trabalhou também como pianista nos musicais “Os Miseráveis” (Montagem acadêmica, UFRJ-2012) e em “Be careful, It’s my heart”, com canções de Irving Berlin , com Laura Lobo e Darwin del Fabro. de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 119 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” Parece-nos inexequível, segundo parâmetros científi cos, analisar qualquer obra de arte se desvinculada, descontextualizada do tempo-espaço na qual foi produzida. Dessa forma, torna-se impossível dissociar Heitor Villa-Lobos do Rio de Janeiro do seu tempo. Ademais, é desafi ador apresentar um trabalho um dos mais representativos compositores da América, após tantas publicações acadêmicas, biografi as, reportagens, dentre outros. Não obstante, cabe a nós, imersos na academia musical, redescobrirmos, rememorarmos personalidades que legaram um vasto repertório que raramente chega ao grande público através da mídia massiva. Falar ou es- crever sobre o compositor, bem como interpretá-lo, é sempre muito instigante, sobretudo pelas múltiplas infl uências perceptíveis em suas obras. Antes de adentrarmos, especifi camente, na análise de “Alma Brasileira”, nos reme- teremos, ainda que brevemente, ao Rio de Janeiro da década de 1920, incluindo, especialmente, o choro como gênero popular, o mecenato dos Guinle e as contradições de um Brasil que pre- tendia ser industrial e moderno, mas que continuava arraigado ao modus vivendi europeu. Além do mais, o artista brasileiro ascendia em capital simbólico (BOURDIEU, 1989; 2007) quando aprimorava seus estudos e apresentava suas obras no exterior. Nas primeiras décadas do século XX, a França era o destino pretendido, como foi o caso de Villa-Lobos. Com o ciclo dos “Choros”, Villa-Lobos apostou no choro como gênero eminente- mente popular e no emprego de materiais folclóricos e regionais. A série apresenta diferentes formações, ou seja, não segue o formato original do choro. É possível, pois, encontrar peças para piano e violão solos, bem como obras para grupos camerísticos e orquestra, algumas com uma densa orquestração. Outra peculiaridade é a numeração do ciclo, que não obedece a uma ordem cronológica. Além disso, cada peça foi dedicada a uma personalidade. O “Choros nº 1”, por exemplo, foi composto para violão em 1920, e consagrado ao compositor carioca Ernesto Nazareth (1863-1934). O “Choros nº 3”, “Picapau”, composto para coro masculino e septeto de sopros, foi inspirado em uma canção dos índios Parecis, “Nozani-ná”, recolhida pelo escritor e antro- pólogo carioca Roquette-Pinto (1884-1954), e dedicado à artista plástica Tarsila do Amaral (1886-1973) e ao escritor Oswald de Andrade (1890-1954), amigos paulistas do compositor. Já o “Choros nº 103”, “Rasga o Coração”, composição de 1926, é dedicado ao poeta e compositor maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946). Para este trabalho, escolhemos o “Choros” nº 5, de 1925, dedicado ao banqueiro, mecenas e dirigente esportivo do Fluminense Football Club entre 1916 e 1931, Arnaldo Guinle 3 O texto consiste em sílabas e vocalizes, sem sentido literário, como efeitos onomatopaicos. Com o cres- cendo das vozes, aparece uma melodia lírica à maneira da modinha “suburbana”, extraída de uma canção popular, com letra do poeta seresteiro Catulo da Paixão Cearense, denominada “Rasga Coração” (MEC/DAC/MUSEU VILLA-LOBOS, 1972). 120 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” (1884-1963). Obra conhecida do repertório pianístico, “Alma Brasileira” permite uma leitura muito particular do discurso musical utilizado pelo compositor, o que pode resultar em uma interpretação sui generis, seja apaixonada, melancólica ou nostálgica. Ressaltamos que não é nosso intuito enaltecer a fi gura de Heitor Villa-Lobos, isso a história já o faz, nem mesmo criticar sua personalidade, ou induzir o receptor às nossas próprias impressões acerca de “Alma Brasileira”. Antes de tudo, convidamos o leitor a fazer uma imer- são nessa obra, a partir da nossa proposta de estabelecer um diálogo sobre os elementos com- posicionais utilizados por Villa-Lobos no “Choros nº 5”, nos remetendo, também, à linguagem do choro tradicional. Rio de Villa, futebol, choro e mecenato Rio de Janeiro, capital da República, 1925. O mineiro Arthur Bernardes presidia o Brasil, desde 1922, em meio à oposição da opinião pública carioca, bem como a confl itos oriundos de sucessões presidenciais e fraudes eleitorais. Vigorava ainda a política do “café com leite”, por meio do qual São Paulo e Minas Gerais se revezavam na presidência da República. Aumentava, gradativamente, o trânsito de automóveis importados em uma cidade ainda arbo- rizada. O jornalista Irineu Marinho fundava o jornal “O Globo”, faziam sucesso as revistas de humor “O Malho”, “Fon Fon”, “Careta” e “D. Quixote”; e cresciam os movimentos operário e tenentista. A radiodifusão ainda era novidade no país e desenvolvia-se, lentamente, a indústria fonográfi ca. O teatro de revista brasileiro ainda era sucesso no Rio de Janeiro, e Heitor Villa-Lo- bos fi gurava entre os artistas que ganharam mais visibilidade a partir da Semana de Arte Moder- na de 1922. A high society desfrutava o glamour do hotel Copacabana Palace, a “vanguarda da civilité” (ELIAS, 2011). Para o cronista e teatrólogo carioca João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921), o João do Rio, a cidade caminhara, desde o fi nal do século XIX, na direção da “Frivola City, a cidade do espetáculo” No trottoir roulant da Grande Avenida passa, na auréola da tarde de inverno, o Rio inteiro, o Rio anônimoe o Rio conhecido – o Rio dos miseráveis ou o Rio cuja vida se prolonga de legendas odiosas e invejas contínuas. Mas ninguém vê a miséria. Podem parar nas terrasses dos bares, podem entrar pelas casas de chá os mendigos, resse- quidos esqueletos da seca do norte, estrangeiros de falar confuso, exploradores da caridade, (...) a luz de inverno lustra os aspectos, faz ressaltar os primas belos, apaga a fealdade. Não há gente desagradável como não há automóveis velhos. Ninguém os vê. Os olhos estão nas mulheres bonitas, nos homens bem vestidos, nos automóveis de luxo. É um desfi lar de ópera (RIO, 1917, p. 9). Villa-Lobos, que desde a infância já demonstrava o talento e interesse pela música, construiu uma carreira repleta de excentricidades, com atitudes que, muitas vezes, o colocavam 121 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” em uma posição outsider (ELIAS, 1995; 2000) perante o establishment da sociedade, e que o tornaram conhecido pela vida conturbada, além do seu extenso legado artístico, bem como o sistema de educação musical desenvolvido e sua obra pedagógica – fatos amplamente expostos e detalhados em várias obras e biografi as. “Até o governo Vargas, sobreviver foi uma difi culda- de constante na vida do compositor. Chega a ser irônico saber que hoje, Villa-Lobos é o artista brasileiro que mais recebe direitos autorais do exterior” (GUÉRIOS, 2003, p. 202). Segundo recorte temporal deste trabalho, vamos apontar o compositor em sua pri- meira viagem a Paris, em 1923, quando ele começou a, efetivamente, utilizar materiais mais especifi camente nacionais em suas obras. O nacionalismo constitui uma das mais poderosas crenças sociais do século XIX até a atualidade. “Mesmo em uma análise sociológica prelimi- nar, o nacionalismo revela-se como um específi co fenômeno social característico das grandes sociedades-Estados industriais no nível de desenvolvimento atingido nos séculos XIX e XX” (ELIAS, 1997, p. 142). Villa-Lobos pretendia, então, participar do ethos nacionalista que já era tendência também no Brasil. “Desde então, comporia músicas brasileiras e faria preleções emocionadas sobre sua nação e seu pertencimento ao imaginário nacional” (GUÉRIOS, 2003, p. 141). É preciso, pois, ressaltar que a linguagem musical utilizada estava alinhada à música ocidental e europeia, ou seja, o material coletado recebia sempre um tratamento pertinente à música de con- certo, o que resultou no reconhecimento de seus pares, ao habitus da classe artística em voga (...) tal reconhecimento obtido por Villa Lobos adveio não somente da transposição de alteridades socioculturais ao plano da sonoridade, em prol da constituição de um ‘na- cionalismo musical brasileiro’, mas pela promoção concomitante de uma bricolagem4 bem efetuada por ele entre elementos culturais brasileiros e franceses ou, mais espe- cifi camente, entre distintas matrizes teórico-culturais e estético-musicais brasileiras e francesas (BUSCACIO E BUARQUE, 2016, p. 21). “Fica claro que o Brasil que Villa-Lobos representa em sua música é o Brasil selva- gem e exótico” (GUÉRIOS, 2003 p. 142), o que é perceptível nas peças que compõem os “Cho- ros”. Segundo o próprio compositor, o choro apresenta uma forma de composição inovadora, que sintetiza várias modalidades dessa música espontânea, tendo como principais elementos o ritmo e qualquer melodia popularizada, “que aparece de quando em quando, acidentalmente. Os processos harmônicos são também quase que uma estilização completa do próprio original” (VILLA-LOBOS apud GUÉRIOS, 2003, p. 142). Além da infl uência europeia, certamente, Villa-Lobos foi também infl uído, ins- pirado por compositores chorões, como Chiquinha Gonzaga (1847-1935), Ernesto Nazareth 4 Para os autores, bricolagem é uma “prática criativa que rompe parcialmente com dicotomizações e hie- rarquias; não as elimina, mas, por sua própria operacionalidade, torna-as mais moventes e tensionais”. Os autores partem da hipótese de que Heitor Villa-Lobos tenha recriado musicalmente a noção de identidade nacional ao reconfi gurá-la sob um primitivismo romântico e moderno, simultaneamente. 122 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” (1863-1934), Anacleto de Medeiros (1866-1907), João Pernambuco (1883-1947) e Pixinguinha (1897-1973) - “que conferiu maior visibilidade ao gênero e produziu a mais importante obra chorística de todos os tempos” (DINIZ, 2003, p. 27). Por sinal, o compositor, maestro e arranja- dor Alfredo da Rocha Vianna Filho, Pixinguinha, era apreciador da linguagem musical de Villa -Lobos e o considerava um gênio, conforme relata Antônio Barroso Fernandes: “Villa-Lobos para mim é um Stravinski, um Wagner, essa gente toda”. Ainda segundo Pixinguinha Ele era garoto. Ia sempre na minha casa na rua Itaipu, número 97. Tocava violão muito bem, como sempre tocou. Às vezes, acompanhava meu pai. Mais tarde é que toquei uns chorinhos para ele. Sempre gostou de música [...] ele ia na minha casa porque admirava os ‘chorões’. Às vezes até fazia um acompanhamento no violão (...). Mas o negócio era meio antigo e ele tinha uma formação moderna. Por isso talvez não acompanhasse bem, para nós. Mas ele gostava (PIXINGUINHA apud FERNANDES In: MARTINS, 2014, p. 160). Os 14 “Choros” aparecem com destaque na obra villalobiana. “São a obra-prima do Villa. Ali ele não procura ser classicista, e se inspira na música das ruas do Rio de Janeiro (...). A forma, para Villa-Lobos, às vezes podia ser uma camisa-de-força. Ele precisava de liber- dade e encontrou essa liberdade nos Choros”, explica o maestro John Neschling, que recebeu em Paris, em 2009, o Diapason d’Or pela integral do ciclo, junto a Osesp (NESCHLING In: PERPETUO, 2009, p. 23). “Inovador e imaginativo, Villa-Lobos foi capaz de criar uma nova linguagem, uma linguagem sua, uma linguagem que tem a sua marca: melodias cativantes, ritmos interessantes e planos sonoros diversos”, explica a pianista Sonia Rubinsky, que registrou em oito discos a integral pianística de Villa-Lobos. “Para isso, ele desenvolveu uma técnica pianística que exige um grande controle de ritmo, de dinâmica e de pedal. As grandes novidades pianísticas apresentam-se mais claramente em obras como Rudepoema, Prole do Bebê nº 2 e Choros nº5” (RUBINSKY In: PERPETUO, 2009, p. 23). Se choro e futebol não dão samba, ambos inspiraram uma das músicas mais co- nhecidas do gênero. Trata-se do “Um a zero”, de Pixinguinha e Benedito Lacerda, uma home- nagem ao lendário jogo realizado no estádio do Fluminense Football Club, uma das primeiras agremiações de elite5 a adotar o futebol no Rio de Janeiro. Na disputa, o Brasil ganhou seu primeiro título internacional de futebol, derrotando o Uruguai por 1x0, no terceiro Campeonato Sul-Americano, em 1919. E a partir do fi nal da década de 1920, o futebol, inicialmente conside- rado um esporte elitizado e praticado em clubes elegantes, começou a ser popularizado. Coube ao tricolor carioca Arnaldo Guinle6, em especial, o incentivo fi nanceiro para que Villa-Lobos 5 As escolas grã-fi nas passaram, a partir da primeira década do século XX, a adotar o futebol como forma de recreação para os discentes. Em 1903, os aristocratas do café, da Associação Athlética Ponte Preta, formaram o primeiro time de futebol organizado no Brasil e, na década de 1910, são criados o The Bangu Athletic Club, o Ca- rioca, o Andaraí, o Mangueira, o Fluminense, o Vila Isabel e o Sport Club Corinthians Paulista (CALDAS, 2011) 6 O mecenato Guinle incluía também um projeto de pesquisa, e músicos como Pixinguinha, Donga e João 123 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” pudesse mostrar suas obras em Paris. Certamente, o compositor não teria saído do país sem os recursos da família Guinle Graças a um grupo de amigos, pôde Villa-Lobos fazer frente às primeiras despesas e abrir caminhono meio musical. Foram eles: Arnaldo e Carlos Guinle, Paulo Prado, o conselheiro Antônio Prado, Geraldo Rocha, Laurinda Santos Lobo, Graça Aranha e Olívia Guedes Penteado. Falando a esse respeito, disse-me, certa vez, o maestro: ‘Eram tantos que, de gota em gota, me enchiam o papo’. O apoio decisivo, na segunda viagem a Paris, foi de Carlos e Arnaldo Guinle, generosos mecenas que foram motiva- dos a auxiliá-los por interferência direta de Arthur Rubinstein (MARIZ, 2005, p.94). Villa-Lobos não conseguiu imediatamente repercussão com o seu trabalho em Pa- ris, o que só aconteceu no ano seguinte com um concerto na Salle de la Société des agriculteurs de France. Todos os compromissos fi nanceiros fi caram por conta de Arnaldo Guinle, o que pos- sibilitou a contratação de uma orquestra e a produção de partituras na Casa Max Eschig7, e, por conseguinte, desencadeou uma série de apresentações. Entretanto, o maestro não conseguiu se manter economicamente com o apoio recebido e teve que retornar ao Brasil. “Cinco meses mais tarde, o músico estava de volta ao Rio de Janeiro. Apesar da decepção, Arnaldo ainda lhe deu de presente um piano de cauda e pagou seu transporte da França para o Brasil” (BULCÃO, 2015). Carlos Guinle, irmão de Arnaldo, propiciou o retorno de Villa-Lobos a Paris, em 1927, graças à intervenção do pianista polonês, naturalizado estadunidense, Arthur Rubinstein (1887-1982) Diga-me Carlos, você gostaria de ser célebre após a sua morte? O arquiduque Ru- dolph, o príncipe Lichnowsky e o conde Waldstein teriam sido esquecidos se não tivessem tido a sorte de entender e amar a música de Beethoven e de se tornarem seus benfeitores (...). Carlos, no Brasil, aqui mesmo, vive um autêntico gênio, sem dúvida o único da sua espécie em todo o continente americano (...). Como todos os grandes criadores, ele não dispõe de meios para tornar a sua obra conhecida em todo o mundo, a não ser que seja auxiliado por um grande mecenas. Eu pensei em você, em primeiro lugar... (RUBINSTEIN apud ASSUMPÇÃO, 2014). O contato de Villa-Lobos com outros compositores que também se estabeleceram em Paris no início do século XX é notado de várias maneiras em sua produção musical, como a infl uência do compositor, pianista e maestro russo Igor Stravinski (1882-1971) e a “Sagração da Primavera”8. Dessa forma, “as músicas que compôs na década de 1920 – incluindo a série Pernambuco tinham como missão transcrever para partituras cantigas de compositores populares, coletadas em suas pesquisas, o que deveria resultar, posteriormente, na organização de uma antologia. Essas pesquisas propicia- ram o encontro dos Guinle com Villa-Lobos, pois coube a ele organizar o material colhido, hoje conhecido como Fundos Villa-Lobos (BULCÃO, 2015). 7 A Max Eschig colaborou com parte dos custos, e Villa-Lobos teve, ainda, que recorrer ao apoio fi nanceiro dos amigos, entre eles Tarsila do Amaral (1886/1973) e Oswald de Andrade (1890/1954). 8 A estética apresentada por Stravinski explorava timbres (com ênfase na percussão), ritmos, estruturas orquestral e harmônica de forma inovadora. Somado a isso, também causou estranheza por parte do público a performance criada pelo bailarino russo Vaslav Nijinsky (1889/1950). Com cenário do artista plástico Nicholas Roerich, a estreia aconteceu no Théâtre des Champs-Élysées, em 29 de maio de 1913. Há que se ressaltar que o escândalo causado pela “Sagração da Primavera” não foi apenas motivado pelo fator artístico, mas envolveu também o embate gerado por culturas diferentes (no caso, a francesa e a russa), já que, naquele momento, a França ainda detinha o poder como centro cultural europeu. 124 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” dos Choros e o Amazonas – foram diretamente tributárias do impacto que a música “primitiva” e “selvagem” do compositor russo teve sobre ele” (GUÉRIOS, 2003, p. 167). Alma brasileira em forma de choro O choro tradicional apresenta 3 partes: A, B, C, com repetições (forma rondó), temas independentes e ligação entre as modulações (normalmente tonalidades vizinhas). Fre- quentemente, há uma simplicidade harmônica que acompanha a rapidez de andamento das melodias. Nas melodias, é possível encontrar arpejos relacionados às progressões harmônicas, escalas e sequencias cromáticas (VALENTE, 2014, p. 45). No que se refere à estrutura melódi- ca do choro, a maioria vincula-se ao instrumento para o qual foi composta (o instrumento solis- ta). Entretanto, com a inserção de novos instrumentos aos tradicionais fl auta (solo), cavaquinho (centro) e violão (baixaria), nota-se a variação funcional de cada um, ou seja, o cavaquinho, por exemplo, pode assumir a função solista. Além disso, a capacidade de improvisação é condição básica para uma música que integre uma roda de choro, e as modulações imprevistas acabam por desafi ar a capacidade de performance e senso polifônico dos chorões. Segundo Rafael dos Santos, “Os elementos musicais característicos do choro são, no seu aspecto estrutural, de natureza melódica, harmônica e rítmica, sendo que, num conjunto típico de choros, eles estão distribuídos entre os seus diferentes instrumentos”, entretanto Tais elementos estruturais, entretanto, não são originais nem exclusivos do choro, e sua simples ocorrência não é sufi ciente para defi ni-lo como tal. Existe ainda um outro aspecto importante, que é a maneira como ele deve ser executado, e que está relacionada com práticas interpretativas específi cas da música popular, tais como uma sonoridade leve que permita manter a textura transparente, realização do ritmo de forma relaxada em relação ao pulso, uma articulação que enfatize a síncopa, e forma de frasear, geralmente sem exageros de dinâmica (SANTOS, 2002, p. 8). O “Choros nº 5” se apresenta em 3 seções: A, B e C (A A’ B C A’’), e a delimitação das seções abrangem os compassos: A: (exposição) c. 1 – 11 em Mi menor A’: (variação de A) c. 12 – 24 em Mi menor B: (seção contrastante no tom homônimo) c. 25 – 35 em Mi Maior C: (desenvolvimento como expansão de B) c. 36 – 64 em Dó# menor A’’: (reexposição) c. 65 – 79 em Mi menor Com variada riqueza de planos e matizes sonoros, a peça demanda uma investi- gação quanto ao uso de toques diferenciados, à pedalização, ao “uso do peso do corpo”, aos ataques para projeção sonora, bem como aos elementos que buscam caracterizar e atenuar os 125 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” diferentes planos sonoros durante a execução. Distinto do choro tradicional, que geralmente é composto em compasso binário, o “Choros nº 5” foi criado em compasso quaternário, pro- porcionando uma fusão da complexa escrita polifônica de Villa-Lobos à rítmica tradicional do choro, o que torna a peça um desafi o para o intérprete. Villa-Lobos utiliza o recurso de ostinato durante toda a peça, visando a criação de um “clima atmosférico” ideal para o desenvolvimento melódico. Esse ostinato é estabelecido a cada nova seção, e, como podemos ver na seção A, essa “atmosfera” é estabelecida desde os dois primeiros compassos da peça, que também podem ser considerados como uma pequena introdução da mesma. Em conformidade com Carlos Alberto Assis A inspirada e perspicaz brasilidade de Villa-Lobos manifesta-se através de fi gurações rítmicas baseadas em danças populares e em ostinatos que ajudam a criar um ambien- te sonoro denso e dinâmico que permeia toda a obra e sustenta o discurso musical, unifi cando as seções (ASSIS, 2009, p. 66). Nota-se, pois, o ostinato caracterizado pela sequência de acordes realizada inicial- mente pela mão direita e, em seguida, pela esquerda. Sobre a variedade rítmica apresentada na peça, podemos citar trechos de complexi- dade para o executante como, por exemplo, o desdobramento do tema A, devido à sobreposição dos planos sonoros adjacentes (planos: melódico, harmônico, fi guração pianística em semicol- cheias na mãodireita e baixos), com ritmos diversos, o que caracteriza mais um exemplo da complexidade mecânica no “Choros nº 5”. 126 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” Na seção B, em Mi Maior, podemos observar uma proposta contrastante realizada pelo compositor, uma vez que o mesmo utiliza alguns elementos: a utilização do tom homônimo do tom principal (Mi menor) em dinâmicas fracas, a indicação de andamento “um pouco mais mo- vido”, a melodia em oitavas na mão direita, a mudança no acompanhamento da mão esquerda, gerando um novo ostinato rítmico e harmônico, além da manutenção do plano intermediário de semicolcheias na mão direita (iniciado em A). Já a seção C (desenvolvimento como expansão de B em Dó# Menor) denota a parte de maior interesse rítmico da peça, desenvolvendo o clímax central próximo ao compasso 50. A fusão do ritmo do choro com o movimento de marcha, característico da seção, aponta o requinte da escrita composicional de Villa-Lobos, que perpassa o choro tradicional, através de uma escrita tipicamente idiomática e própria de suas composições. Considerações fi nais Heitor Villa-Lobos compôs cerca de 1.000 obras, e foi o compositor brasileiro que alcançou maior reconhecimento internacional na primeira metade do século XX. Destinou à música “exótica”, folclórica e popular, um tratamento erudito para “civilizados”, conquistando respeito de seus pares, apoio de mecenas, amigos e, posteriormente, do governo Vargas. Con- seguiu notoriedade em Paris, então centro cultural europeu. Apesar das posturas pessoais extra- vagantes e personalidade forte, que causavam transtornos em sua vida pessoal e profi ssional e o 127 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” colocavam em uma posição outsider, conquistou, por seu talento, persistência e um tempo-es- paço favoráveis, um lugar profícuo no establishment da sociedade da sua época. Inspirado pela nascente música popular urbana e pelo choro enquanto gênero, criou a série dos 14 “Choros” com especifi cidades pertinentes à sua genialidade: a começar pela li- berdade da forma estrutural e pela formação instrumental: solo, de câmara ou sinfônica. Se em sua origem o choro era executado pela formação de fl auta, violão e cavaquinho, posteriormente, ganhou novos instrumentos como o piano, o clarinete, trombone, ofi cleide, dentre outros. Com Heitor Villa-Lobos, novas possibilidades de formação instrumental foram ainda mais explora- das. A fase áurea dos conjuntos de música de choro, oriundos do século XIX, se estendeu até o período em que a atração do teatro de revistas, do disco e do rádio vieram oferecer novas opções de entretenimento, numa linguagem mais atraente para o público ávido por inovações. Em “Alma brasileira”, o piano é explorado a ponto de exigir do intérprete uma en- trega de sentimentos que deverá ser traduzida através da pesquisa sonora que propiciará toques diferenciados. Além da análise estrutural realizada neste trabalho, pudemos dar pistas ao leitor do contexto no qual a obra foi criada, através do convite à breve viagem ao Rio de Janeiro de 1925. Ademais, o caráter nostálgico, sentimental, introspectivo do “Choros nº 5” é capaz de sintetizar muito do espírito musical de Heitor Villa-Lobos e de apontar uma outra faceta bem diferente da mais divulgada, do homem enérgico, tempestuoso e imprevisível: a sensibilidade afl orada da “alma brasileira”. No que se refere à nossa hipótese de trabalho, podemos afi rmar que o compositor proporcionou a essa peça um tratamento inusitado, que extrapola as caracte- rísticas originais do choro: da forma à instrumentação. REFERÊNCIAS *VILLA-LOBOS, Heitor in: RIBEIRO, João Carlos (org). O Pensamento Vivo de Heitor Villa-Lobos. São Paulo: Martin Claret Editores, 1987. pág. 69. ** ASSIS, Carlos Alberto. Fatores de coerência nos Choros nº 5 (“Alma brasileira”), de H. Villa-Lobos. Per Musi, Belo Horizonte, n.20, 2009, p.64-73. ASSUMPÇÃO, Maurício Torres. A história do Brasil nas ruas de Paris. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014. 128 MAGALHÃES, M. R. A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” BORDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2007. ______. O Poder Simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Lisboa: Difel, 1989. BULCÃO, Clovis. Os Guinle: a história de uma dinastia. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. CALDAS, Waldenyr. Temas da Cultura de Massa. Música, Futebol, Consumo. São Paulo: Arte & Ciência, 2001. DINIZ, André. Almanaque do Choro. A história do Chorinho, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. ELIAS, Norbert. Mozart, sociologia de um gênio. Trad. Sergio Goes de Paula. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. ______. 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A.; RODRIGUES, T. “ALMA BRASILEIRA”: IMPRESSÕES E REFLEXÕES SOBRE O “CHOROS Nº5” RIO, João do. Pall-Mall Rio: o inverno carioca de 1916. Rio de Janeiro: Villas, 1917. Referências digitais BARROS, José D’Assunção. Villa-Lobos: os Choros como retrato musical do Brasil (1920- 1929). Disponível em fi le:///C:/Users/silvi/Downloads/11300-38463-1-PB%20(1).pdf Acesso em 13.10.2016. BUSCACIO, Cesar Maia e BUARQUE, Virginia. Bricolagens Musicais de Villa-Lobos: um nacionalismo brasileiro de inspiração francesa. II Simpósio Nacional Villa-Lobos: práticas, re- presentações e intertextualidades. Rio de Janeiro, 2016. Disponível em http://festivalvillalobos. com.br/site/upload/anais/02-Conferencista%20C%C3%A9sar%20Buscacio_Bricolagens%20 Musicais.pdf Acesso em 12.01.2016. SANTOS, Rafael dos. Análise e considerações sobre a execução dos choros para piano solo Canhôto e Manhosamente de Radamés Gnattali. 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Villa-lobos and choros no. 4 (1926): rupture or tradition? Abstract: The purpose of this article is to bring to light two important aspects concerning Villa-Lobos Choros No. 4 (1926), the use of a brass quartet formed by 03 horns and 01 trom- bone, described in some publications as an exceptionalityor innovation of our composer. The second, concerns the “fi nding” a manuscript, deposited at the Villa-Lobos Museum. Keywords: Villa-Lobos, Choros, Horn, Trombone, Tradition. Chamber Music. 1. O CHOROS N. º 4 (1926), DE HEITOR VILLA-LOBOS Este pequeno CHOROS é sem dúvida uma obra importante, uma verdadeira síntese do espírito dos CHOROS, embora não tenha o brilho de outras obras da série. O pró- prio Villa-Lobos disse que este “é talvez o mais signifi cativo dos CHOROS na sua forma e signifi cação elevadas.” (NEVES, 1977, p. 46) (Grifo do autor) O Choros nº 4 foi composto em 1926, sendo dedicado ao mecenas Carlos Guinle (1889-1959), que patrocinara sua segunda viagem e estada na França em 1926. Com aproxi- madamente 04 minutos de duração, a obra foi escrita para três trompas e um trombone, tendo sua estreia mundial na Salle Gaveau2, em Paris, no dia 24 de outubro de 1927. Neste mesmo concerto foram também apresentados os Choros nº 2, nº 7 e nº 8, além de algumas Serestas e o Rudepoema (1921-26). (GUÉRIOS, 2009, p. 177,178). 1 Reginaldo Thimóteo é mestrando em Práticas Interpretativas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob a orientação do Prof. Dr. Antonio J. Augusto. Atua como primeiro trombone na Orquestra Municipal de Santos e como chefe de naipe na Banda Sinfônica de Cubatão. É Professor de trombone, metais graves e prática de banda no Programa Guri Santa Marcelina desde 2008. Durante o ano de 2015 e primeiro trimestre de 2016 atuou como primeiro trombone (alto) junto à Camerata Paulistana & Coral Paulistano Mário de Andrade - THMSP, realizando o ciclo de missas e oratórios de Mozart, Handel e Haydn. Foi professor de trombone e regente da Banda Sinfônica Acadêmica nas XVI, XVII e XVIII edições do Festival Eleazar de Carvalho – Fortaleza – CE. Especia- lizou-se nos principais Festivais de Música do País dentre eles: Festival de Inverno de Campos do Jordão – SP; Femusc – SC; Ofi cina de Música de Curitiba – PR; Encontros da Associação Brasileira de Trombonistas; Projeto Bone – SP; e internacionais: Trombonanza - ARG e Latzch Trombone Festival – ALE. Graduou-se na Faculdade Mozarteum de São Paulo (FAMOSP) em 2007 com o Professor Gilberto Gianelli. 2 Através de dois e-mails, tentamos contato com a direção da Salle Gaveau na França, afi m de colhermos qualquer documento referente a este concerto de estreia, no entanto, infelizmente não obtivemos nenhum retorno por parte da direção da ilustre sala de espetáculos. de 02 a 05 de novembro de 2017 Rio de Janeiro - RJ - Brasil III SIMPÓSIO NACIONAL VILLA-LOBOS: análise musical, história e conexões 131 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? Na estreia da peça, o trombonista relacionado no programa3 foi Jules Dervaux (?-?), um dos três laureados com o primeiro lugar no concurso realizado anualmente pelo Conservató- rio de Paris, no ano de 1911 (CARLSON, 2015, p. 85), além dos trompistas Edmond Entraigue (?-?), Jean-Lazare Pénable (?-?), e Mr. Marquette (?-?). A primeira gravação brasileira do Choros n. º 4 foi realizada em 1978, no Rio de Janeiro, em formato de LP. O álbum intitulado de Choros da Câmera contemplou todos as obras da série para instrumentos solistas e grupos cameristicos de pequeno porte, sendo eles os Choros nº 1, 2, 3, 4, 5, 7 e o Bis. Os metais responsáveis por esta gravação foram os trompistas Sdenek Svab, Thomas Tritle, Carlos Gomes e o trombonista Jessé Sadoc. Destacamos também o álbum, A Obra de Câmera para Sopros de Heitor Villa-Lo- bos4, lançado em 2005, pelo Quinteto Villa-Lobos e convidados, um importantíssimo registro contendo a obra cameristica do compositor em sua totalidade, que contou com a participação do trombonista tenor João Luiz Areias. Somando a estes registros, ainda mencionamos a gravação ao vivo de um DVD em 2006, pela Sociedade Musical Bachiana Brasileira5, intitulado de Quadros de Uma Alma Brasileira, contendo os Choros n. º 1,2,3,4,5,7, Bis, o Sexteto Místico e o Nonetto, na qual destacamos com Marco della Fávera, ao trombone tenor; o CD Heitor Villa-Lobos, Choros n. º 6,1,8,4,9 lançado pela OSESP6 em 2008, gravado por seu trombonista baixo titular Darrin Milling. Além disso fazemos referência a um recém-lançamento em março de 2017, pelo quarteto Trombonismo7, que afora dedicar inúmeras obras brasileiras exclusivas para esta for- mação, contem uma faixa dedicada ao Choros nº 4, transcrita para essa formação . O período que antecede e compreende a produção da série Choros e outras obras do compositor foi também marcada pela estreia de importantes obras cameristicas e orquestrais de importantes compositores e com diferentes tipos de orquestrações, mas que contemplavam pelo menos um trombone em sua formação. Dentre elas citamos História do Soldado (1918), Pucinella (1920), Sinfonia para Sopros (1921) e Octet (1924) de Stravinsk, Octandre (1923) de 3 A relação dos músicos encontra-se descrita no catalogo geral de obras do compositor: Villa-Lobos e sua Obra -Versão 1.0.1 - (2010, p.13), organizado pelo MVL; e no link do portal Imslp.org: http://imslp.org/wiki/ Ch%C3%B4ros_No.4%2C_W218_(Villa-Lobos%2C_Heitor), acesso em 11/10/2017 4 http://www.discosdobrasil.com.br/discosdobrasil/consulta/detalhe.php?Id_Disco=DI04961, acesso em 16/10/2017 5 https://bachiana.weebly.com/, acesso em 16/10/2017 6 http://www.osesp.art.br/paginadinamica.aspx?pagina=CDheitorvillalobos1468e9, acesso em 16/10/2017 7 Trombonismo: Quarteto de trombones paulista formado em meados de 1980. Informações sobre a disco- grafi a: http://www.concerto.com.br/contraponto.asp?id=3682, acesso em 16/10/2017 132 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? Varese, La Création du monde (1923), de Milhaud. Estes compositores eram conhecidos e admirados por Villa-Lobos, como é o caso de sua citação sobre Stravinsk, ‘[...]. Mas acima de todos, acima de escolas e agremiações, pla- na o gênio...’. (Sérgio Milliet,1926) Apud (GUÉRIOS, 2009, p. 165) A série Choros produzida por Villa-Lobos traz em resumo, elementos e aspectos ab- sorvidos do ambiente cultural musical urbano, sobretudo infl uenciados pelo choro e pela seresta por volta do início do século XIX, além é claro de todo o aporte folclórico brasileiro, como por exemplo a possível alusão contextual feita à canção popular nordestina infantil Rema que rema (fi gura 1), coletada por Mário de Andrade em 1920 e publicada em seu livro Ensaio Sobre a Música Brasileira (1928), presente no solo da segunda trompa um compasso antes do número 15 de ensaio (Animé) (fi gura 2). (ALBUQUERQUE, 2014, p. 199) Figura 1 – Rema que rema, melodia nordestina recolhida por Mário de Andrade (1920) Fonte: (ANDRADE, 1928, p. 99) Figura 2 – Excerto do solo presente na segunda trompa no Choros N. 4 (1926), Villa-Lobos Fonte: Imslp.org8 A partir desses elementos é possível perceber tamanha a importância com que o compositor empregou e tratou tanto os fatores rítmicos que são – “...de certo modo, o fi o con- dutor de cada obra, o ponto unifi cador e, ao mesmo tempo, a razão primeira dos contrastes obti- dos. “; e harmônicos – “...revela sempre uma liberdade tonal, [...], à bitonalidade e à politonali- dade, atingindo mesmo em certas obras total atonalidade”; quanto os fatores da textura em suas orquestrações – “...[...], as obras de câmara ou os trechos de caráter câmeristico [...] revelam o cuidado extremo na combinação de diferentes elementos em misturas timbrícas originais e de real transparência” (NEVES, 1977, p. 11). Embora nossa pesquisa não se confi gure sob o plano da análise musical e harmôni- 8 Disponível em: http://petruccilibrary.ca/fi les/imglnks/caimg/6/64/IMSLP40964-PMLP89574-Villa-Lo- bos_-_Ch%C3%B4ros_No._4_(score).pdf, acesso em 25/12/2017. 133 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? ca, é importante registrar alguns aspectos que correspondem a estas perspectivas. Assim como muitas obras de Villa-Lobos,incluir o Choros nº 4 em uma forma musical, é uma tarefa das mais árduas, pois cada uma delas trazem ao longo de seu processo composicional parâmetros que por vezes fogem àqueles sistemas mais tradicionais de enquadramento quanto à forma, gênero ou estilo. Neste ponto Neves (1977, p. 26), é tácito em afi rmar que: “...não existe uma forma defi nida comum a toda a série Choros”, do mesmo modo que Paulo de Tarso (2003) discorren- do sobre a produção musical brasileira pós-modernista, também dialoga com este pensamento e cita que a obra de Villa-Lobos “...é marcada pela falta de rigor estilístico.” (SALLES, 2003, p. 186). Verifi ca-se, no entanto, ainda que de maneira isolada, uma lembrança à proposta da forma AB dentro do âmbito estrutural da obra: Numa nota aposta à partitura dos Choros Villa-Lobos os propõe como uma “nova forma” musical, pretensão desconsiderada pela maioria dos estudiosos. É claro que os Choros, tomados isoladamente, não se parecem formalmente entre si. Entretanto, os Choros nº 4 e 10 formam um par notável, em que a forma AB se manifesta de modo semelhante, apresentando ambos uma sessão B com caráter de música popular (res- pectivamente dobrado e marcha). (SALLES, 2009, p. 233) (Grifo nosso) Ainda que não possamos atribuir aos Choros uma confi guração única e específi ca, se faz necessário o apontamento de Marcos Lacerda (2011) feita sobre parte do Choros nº 4 enquadrando-o sob o plano do gênero harmônico9, identifi cando sessões que correspondem ao diatonismo, pentatonismo, octatonismo, escalas de tons inteiros e modos. N ão obstante, ressaltamos a recorrência de um elemento vital, que exerce um papel de grande relevância, não apenas neste nosso objeto de estudo, mas que está presente quase que na totalidade de suas obras, o ostinato10, citado como “...o alicerce dos Choros.” (BERNSTEIN, 9 A discussão sobre gêneros passa a ser abordada com foco especial por Allen Forte em artigo de 1988. Richard Parks, em seguida, reelabora a teoria em âmbito bastante amplo e abstrato. Ele distingue entre gêneros complexos e simples. Ao gênero simples, que nos interessa aqui, ele dá a seguinte defi nição: “A simple genus is a collection of scs [set-class set] related to a single cynosural sc [set-class] by inclusion, as either subsets or supersets of that sc” (Parks, 1998, p. 207). O conceito de gênero refere-se, portanto, a uma coleção de notas dita cynosural, isto é, focal, assim como qualquer outra coleção relacionada a ela. Importa-nos também o fato de que o termo cynosural redefi ne o que Allen Forte designava por progenitor-set, isto é, um conjunto referencial marcante, do qual se originam ou ao qual se relacionam outros conjuntos. Ambos procuram então estabelecer elementos que deixem reconhecer um conjunto dado como focal. Segundo as regras de preferência apontadas por Parks, um gênero simples não precisa ser necessariamente reconhecido em estado bruto, isto é, livre de interferências, e pode apresentar similaridades com “familiar pitch constructs” (LACERDA, 2011, p. 278) 10 Termo que se refere à repetição de um padrão musical por muitas vezes sucessivas. Um ostinato meló- dico pode ocorrer no baixo (ver BASSO OSTINATO e GROUND), como melodia numa voz superior (p.ex., o “Dargason” da Suite de St. Paul, de Holst), ou simplesmente como uma sucessão de alturas repetidas (p. ex., o “Carrilon” da Suite L’Arlésienne nº 1 de Bizet). A progressão de um acorde constantemente repetido produz um ostinato harmônico como na Berceuse de Chopin, enquanto que um ostinato rítmico ocorre no Bolero de Ravel. 134 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? 2014, p. 58). Essa mistura de estruturas, muitas vezes encobertas por texturas maiores e mais densas, revelam que o compositor não se via engessado e invólucro em meio aos modos ope- randi da música tradicional, mas se mostrou disposto a sacrifi ca-los afi m de expandir os rumos de sua música. Encerrando os pormenores e os diferentes pontos de vista sobre a ‘irregularidade’ com que Villa-Lobos ergueu toda a série Choros, incluímos a citação do musicólogo alemão Giselher Schubert (1944), que ao fazer um comparativo entre os aspectos composicionais do Choros a estética musical do início do século XX, sintetiza de maneira singular os processos criativos de Villa-Lobos dizendo que: Os Choros de Villa-Lobos, por outro lado, quebra o contexto tradicional da ordem musical sem constituir sua própria ordem (como no caso dos compositores acima mencionados ([Eisler, Hindemith e Shoenberg]); os temas destas obras, a indiferen- ça da orquestração, a concepção sem forma da forma, uma incoerência tendenciosa em todos os eventos musicais como uma espécie de negação do contexto musical tradicional (que, é certo, é aqui experimentado como uma nova qualidade estética) se refl ete nesses trabalhos como um gesto evidente, como uma maneira indiferente e concreta de fazer música, que engloba toda a heterogeneidade.’11 (TARASTI, 1995, p. 85) apud (Lidov 1980, 55-59) (Grifo nosso) Outro dado de grande relevância no Choros n. º 4 no âmbito da orquestração e um dos cernes de nossa refl exão, é a utilização das três trompas e um trombone, que num primeiro instante pode soar como uma revolucionária e inusitada ideia formulada pelo próprio Villa-Lo- bos: “...pelo ineditismo ou raridade da composição do conjunto. ” (NÓBREGA, 1973, p. 45) (Grifo nosso), ou vista de maneira equivoca como uma obra composta ‘...para um incomum quarteto de metais.” (BARROS, 2014, p. 109) (Grifo nosso). No entanto, esta mesma formação, foi utilizada pelo austríaco Sigismund Neukomm (1778-1858), em seu Quatuor pour 3 cors et trombone pour être exécuté à la Grotte tuonante près le Scoglio di Virgilio dans le Golfe de Naples, em 1826, quando passou por Nápoles, sul da Itália. Neukomm fora provavelmente infl uenciado pelo trompista francês Antoine Clapisson (1808-1866), que também compôs uma peça com esta mesma formação, variações sobre Au Clair de la Lune (? -?). Embora tenha sido citada em um periódico de Leipzig12, em 1828, não (SADIE, 2008, p. 687) 11 ‘Villa-Lobos’s Choros, on the other hand, break the traditional context of musical order without constitu- ing their own order (as in the case of the aforementioned composers [Eisler, Hindemith, Schoenberg]); the themes os these works, the indifference of the orchestration, the formless conception of form, the tendentious incoherence in all musical events as a sort of negation of the traditional musical context (which, to be sure, is experienced here as a new esthetic quality) is refl ected in these works as a self-evident gesture , as an indifferent and concrete way of making music, which engulfs all heterogeneity.’ (TARASTI, 1995, p. 85) Apud (Lidov 1980, 55-59). (Grifo nosso) 12 Disponível em: http://imslp.org/wiki/Handbuch_der_musikalischen_Literatur_(Whistling,_Carl_Frie- drich), no livro Instrumental Woks p. 321. Acesso em 11/07/2017 135 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? encontramos a data de sua composição. Nã o podemos afi rmar que Villa-Lobos teria tido conhecimento ou acesso a estas composições, mas em todo o caso, a proposição desta instrumentação não foi uma simples invenção ou mera constituição do acaso, mas sim uma tradição de escrita formalizada na mú- sica europeia no início do século XIX. A seguir inserimos pequenos extratos do quarteto de Neukomm (fi guras 3 e 4), gentilmente cedidos po r Ch ristopher Larkin13 (1947), trompista e um dos diretores do London Gabrileli Brass Ensemble14: Fi gura 3 – Contracapa e partitura do primeiro movimento do Quatour (1826) de Neukomm, S. Fonte: Arquivo cedido por Christopher Larkin15 13 Biografi a completa de Christopher Larkin (1947): http://www.hyperion-records.co.uk/a.asp?a=A260, acesso em 11/07/2017 14 London Gabrileli Brass Ensemble (1963-2013), grupo de metais Londrino de reconhecida expressão internacional, responsávelpor divulgar o repertório para metais dentro das mais diversas formações e períodos da história da música. Infor- mações mais detalhadas no site http://www.lgbe.co.uk/history.html, acesso em 10/07/2017. 15 Ibidem 87. 136 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? Fig ura 4 –Excerto do quarto e último movimento do Quatour (1826), datado e assinado pelo próprio Neukomm, S. Fonte: Arquivo cedido por Christopher Larkin16 O fa to de Villa-Lobos usar esta mesma formação, leva-nos a pensar que o compo- sitor assim como os outros citados acima, teria tido em mente usar a sonoridade do trombone como uma voz mais densa, mediante as outras três vozes mais agudas destinadas às trompas, além, é claro, fazê-lo atuar como solista em algumas sessões. A diferença entre esta utilização do trombone por Villa-Lobos e por Clapisson e Neukomm se ampliava na possibilidade de fornecer um baixo que transitava facilmente e de maneira homogênea em qualquer tonalidade, condição inversa das trompas utilizadas neste período, que ainda eram naturais, ou seja, ainda não possuíam as válvulas rotativas presentes nos instrumentos de hoje. 2 – Manuscrito Versus Partitura Editada Dent re os materiais disponíveis para análise do Choros nº 4 (1926), tivemos acesso a duas fontes17: uma cópia manuscrita da partitura (A) cedida pelo Museu Villa-Lobos, e uma partitura (B) com as respectivas partes cavadas, editadas e publicadas em 1928 pela editora 16 Ibidem 87. 17 A fonte é o suporte físico, manuscrito, impresso ou digital que contém uma ou mais obras, ou parte das obras. (FIGUEIREDO, 2014, p. 30) 137 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? Max Eschig. Assim sendo, consideramos a cópia manuscrita como uma fonte primária que, de acordo com Carlos Alberto Figueiredo é: ...qualquer documento originado do autor: anotações várias ou correspondências, nas quais planos sobre a obra podem ser mencionados, sketchs, rascunhos, manuscritos acabados, páginas datilografadas, provas de impressão ou o conteúdo de um disquete de computador. (2014, p. 69) (Grifo do autor) Embora esse material primário não contenha nenhuma assinatura, ao que tudo in- dica é oriundo do próprio compositor, segundo a descrição do catálogo publicado pelo Museu Villa-Lobos (Villa-Lobos e Sua Obra, 2010, p. 13).Na tentativa de encontrarmos mais alguma fonte manuscrita da obra, entramos em contato, via e-mail, com a Academia Brasileira de Músi- ca, questionando a possibilidade de ela ainda possuir algum outro material à parte daqueles que possuímos ou foram publicados. Este questionamento se deu em função de que o próprio Villa -Lobos algumas vezes fi nalizava uma “prova fi nal” de suas obras antes de envia-las as editoras. A ABM nos respondeu não possuir nenhum outro material do Choros n. º 4, a não ser o impresso pela Max Eschig. Como podemos perceber abaixo (fi gura 5), este manuscrito foi inicialmente organi- zado por Villa-Lobos numa pauta musical que, sugere até certo ponto um caminho estruturado a partir de um pensamento pianistico, já com ênfases nas articulações, ligaduras e acentos; in- dicações de dinâmica, andamento e fermatas; apoggiaturas, glissandos, algumas rasuras, além é claro da indicação da orquestração logo no topo da página destinada a (3 Corns em fá e um 1 Trombone de vara). Figu ra 5 – Ex certo da primeira página do Manuscrito do Choros nº4 (1926), Villa-Lobos Fonte: Museu Villa-Lobos 138 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? No que tange a partitura e suas cavas impressas pela Max Eschig, atualmente se en- contram disponíveis gratuitamente para download no portal eletrônico Imslp.org., e em ótimas condições de visualização. Este material à qual tomamos como fonte secundaria, a qual tem sido usada para performance, cumpre a função de uma edição prática, ou seja, aquela que, “... é destinada exclusivamente a executantes, sendo baseada em fonte única, na verdade qualquer fonte, com utilização de critérios ecléticos para atingir seu texto. ” (FIGUEIREDO, 2014, p. 66). Numa breve comparação entre as fontes, queremos estabelecer alguns pontos diver- gentes relacionado entre ambas: PARTITURA EDITADA (B) MANUSCRITO (A) No início da peça, a anacruse do segundo para terceiro compasso, temos um Dó 3 para o trombone; Este mesmo trecho está descrito uma oitava abaixo, um Dó 2: No primeiro compasso de 2 temos uma col- cheia; Uma semínima ligada a mínima pontuada do compasso anterior; O terceiro tempo do segundo compasso de 5 possui um colcheia pontuada e semicolcheia na terceira trompa; O mesmo local possui duas colcheias no ter- ceiro tempo; No 6, encontramos a indicação de surdina para a primeira trompa; Não há a indicação para a inserção da surdi- na; Em 7, é solicitada a retirada da surdina, ‘Via surdina’; Não há solicitação para a retirada da surdina; Os quatros compassos depois de 7, estão notados com fi guras de semicolcheias acres- cidas de pontos (staccato (.); além disso a última nota deste quarto compasso foi notada como um Fá sustenido; A proposta original traz colcheias acrescidas de pontos (staccato (.); a última nota foi des- crita como Mi natural; Nos quatro compassos de 8, o compositor alterna o grupo de tercinas como a terceira a segunda trompa, concedendo um soli de dois compassos ao trombone; Aqui, a parte que representaria o trombone ou de certa forma a ‘mão esquerda do piano’, conduz toda a sessão de tercinas, sugerindo que o soli permaneça na segunda trompa; Antes do início de 10, temos uma fermata e a indicação ‘Via surdina’ (Sem surdina); Não temos nenhuma das duas indicações; No último tempo de um compasso antes de 11, verifi camos a ocorrência de uma fermata. Não há o registro desta fermata; 139 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? Nos dois primeiros tempos do quarto com- passo de 13 há uma correção de uma nota Sol para a nota Lá, o mesmo acontece no oi- tavo compasso e nos dois últimos tempos do nono compasso, todas na primeira trompa; No manuscrito temos o registro de um Dó real, soando uma quinta acima, um Sol, como descrito na parte editada; Nas sessões de 15 a 19, a terceira trompa cumpre um papel apenas de reforço rítmico; No manuscrito, Villa-Lobos parece ter omiti- do esse apoio rítmico, mantendo seu dialogo musical em apenas três vozes; nos dois pri- meiros compassos de 15, encontramos um pequeno rascunho, uma guia composta por 6 notas (exemplo musical); Em 18, temos uma repetição formada por três compassos iguais ao 17, sendo que no último ele usa o segundo compasso de 17, para conectar a preparação da coda fi nal; Nesta sessão do manuscrito, Villa-Lobos já inicia 19; além disso encontra-se uma rasu- ra de quatro compassos, que correspondem à cifra 20 da parte editada, sendo reescrita logo em seguida para a fi nalização da obra; Há uma correção no terceiro compasso antes do fi m, foi acrescentado o bemol na nota Si no terceiro tempo da primeira trompa; Esta correção confere com o Mi bemol real, descrito pelo compositor; Além do processo de transposição feita às trompas, diante desta confrontação pude- mos perceber e encontrar inúmeros itens faltantes, que aparecem devidamente complementadas na partitura editada. Os que mais nos chamaram atenção nesta contraposição foram: as mudan- ças na forma de escrita das colcheias para semicolcheias constantes em 7; a inserção posterior do reforço rítmico da terceira trompa nas sessões de 15 a19; além dos quatro compassos rasu- rados encontrados em 19. Estas alterações trazem consigo pelo menos duas possibilidades, a primeira seria aquela que citamos anteriormente e da qual acreditamos ser a mais lógica, de que o próprio Villa-Lobos de fato tenha editado uma “partitura fi nal” a partir deste manuscrito primário; a segunda, seria de os editores terem fi nalizado apenas os poucos detalhes inexistentes referentes a notação musical,acentuação, expressões, acentos, etc., de acordo com o contexto musical e aparato técnico que possuíam naquela década, a partir de um ‘segundo manuscrito’ com as ideias musicais devidamente fi nalizadas pelo compositor. Analisando o contexto geral cada uma das fontes, podemos ter uma visão abran- gente em que o processo composicional de Villa-Lobos, de certa forma se manteve inalterado desde o início, já diretivo e intencionado com relação as questões de fraseado, articulação, dinâmica, andamento e até mesmo com relação a disposição de cada uma das vozes, ou seja, a 140 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? partitura mesmo após sua edição, em sua essência ainda refl ete a primazia do objeto sonoro do compositor. Este pensamento difere do ideal proposto por Carlos Alberto Figueiredo (2014, p. 66), quando sugere que um dos tipos18 de edição prática, tem como intensão trazer as intenções sonoras “do editor” e não aquelas previstas pelo compositor. As rasuras encontradas no manuscrito, também externam parte do caminho com- posicional de Villa-Lobos e se justifi cam como ‘... sendo o processo de criação um “ato per- manente de tomada de decisão”, signifi ca a rasura a consequência das prováveis discussões que o autor teve consigo mesmo, no ato de compor sua obra’. (SALLES, 1992, p. 31) Apud (FIGUEIREDO, 2014, p. 73) 3. – Conclusão A importância deste Choros verifi cada pelo próprio Villa-Lobos no âmbito de sua signifi cação enquanto expoente máximo da cultura brasileira, também dimensiona o quanto nosso compositor contribuiu de maneira substancial para a música de câmara brasileira, bem como todo o conjunto de obras cameristicas de sua coleção. Ainda temos um imenso campo de pesquisa a ser investigado em nossa recente história musical, entretanto, é possível arrazoarmos que tanto o Choros n.º 3 (1925) (01 clarinete, 01saxofone alto, 03 trompas, 01 trombone) quan- to o Choros n.º 4 (1926) (03 trompas, 01 trombone), fi gurem como as primeiras composições brasileiras originalmente escritas neste segmento dentro século XIX, que tenham recebido a inclusão do trombone. A contribuição de Villa-Lobos para os sopros, também refl ete um aspecto relevante da estética musical francesa no século XIX, a produção de obras confeccionadas especialmen- te para as madeiras e metais, como citou Tarasti: “Mais do que o som descoberto dos sopros, particularmente os metais, então estavam na moda...”19 (1995, p. 103 – tradução nossa), não obstante, essa perspectiva chega a ser quase um contrassenso, se levarmos em consideração os numerosos trabalhos destinados aos quartetos de cordas, ponto alto da tradição camerística europeia durante o Classicismo e Romantismo, percebida também em Villa-Lobos com a pro- dução de seus dezessete quartetos. O resultado fi nal expresso pela partitura editada, ajuíza e cumpre quase que em sua 18 Tipos de edição prática: ‘O primeiro tipo de edição prática enfatiza a realização sonora, trazendo sinais de vários tipos (de dinâmica, de articulação, de fraseado), que tem a intensão de conduzir o executante que a utiliza. Não se trata, porém, de trazer a intenção sonora do compositor, mas a do editor...’ ‘O segundo tipo de edição prática é aquela que provoca modifi cações na textura da composição original, normalmente com o objetivo de ampliação do número de executantes, além de arranjos, transcrições, reduções para piano, etc. ...’ (FIGUEIREDO, 2014, p. 66,67) 19 No original: “(...) moreover, the bare sound of winds, particularly that of the brass, was then in fashion...” (Tarasti, 1995, p. 103) 141 THIMÓTEO, R. VILLA-LOBOS E O CHOROS N.° 4 (1926): RUPTURA OU TRADIÇÃO? totalidade as informações constantes e descritas pelo compositor na fonte primária, sobretudo a instrumentação à qual se destinou, a de um típico e não fora do comum quarteto de metais. Coincidentemente este Choros, de Villa-Lobos, foi composto a exatos 100 anos (1826-1926) após o quarteto de Neukomm, e apesar de possuírem tantas diferenças na estrutura do trato orquestral em decorrência dos distintos períodos técnicos e estéticos que os separam, não podemos deixar de especular uma possível homenagem, ainda que velada, de Villa-Lobos para com o austríaco, que teve uma importante passagem e atuação em nosso país em meados de 1816. Embora essa teoria possa soar como um fato isolado, devemos considera-la se tomar- mos como base o registro da obra O Canto do Cisne Negro (1917), para violoncelo e piano de Villa-Lobos, extraído do poema sinfônico O Naufrágio de Kleônicos (1916), um retrato mani- festo de O Cisne (1886), de Camile Saint-Saëns (1835-1921) (SALLES, 2009, p. 20) , execu- tado pelo próprio Villa-Lobos em 1909 no Rio de Janeiro, acompanhado ao piano por Ernesto Nazaré (1863-1934). (PILGER, 2013, p. 59) Esperamos que esta refl exão possa contribuir de forma a elucidar e compreender os possíveis caminhos percorridos por nosso compositor, bem como enriquecer de maneira signi- fi cativa a história da música brasileira de câmara no âmbito da academia. REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, J. M. B. Simetria Intervalar e Rede de Coleções: Análise Estrutural dos Choros N. 4 e Choros N. 7 de Heitor Villa-Lobos.2014. São Paulo. PPGM-ECA-USP. Disser- tação de Mestrado. 2014. ANDRADE, M. Ensaio Sobre a Música Brasileira.1928. 3º Ed. São Paulo. Livraria Mar- tins.1972 BARROS, J. D. A. Villa-Lobos: os Choros como retrato musical do Brasil (1920-1929). Ictus - Periódico do PPGMUS/UFBA, Salvador, v. 13, n. 02 2014. 88 -133. BERNSTEIN, G. Villa-Lobos, Pimitivismo e Estrutura dos Choros Orquestrais. 1º. ed. Cuitiba: Prismas, 2014. CARLSON, A. P. The French Connection: A Pedagogical Analysis of the Trombone Solo Lit- erature of the Paris Conservatory. 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