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25 Reprodução do Livro do Estudante em tamanho reduzido. Leitura Habilidades da BNCC: EF69LP44, EF69LP47, EF69LP49, EF67LP28, EF06LP03 O nome Trancoso, parte do título do texto que os estu- dantes lerão, remete ao autor português Gonçalo Fernan- des Trancoso, que em 1575 publicou a obra Contos e his- tórias de proveito e exemplo. O livro tornou-se uma referência e, por isso, a expressão “Histórias de Trancoso” passou a designar o conjunto dos con- tos de imaginação e exagero e de caráter exemplar transmi- tidos pela tradição oral. Joel Rufino dos Santos apropriou-se do nome Trancoso para denominar um “herói popular que se vinga dos ricos e poderosos através da astúcia”. Pesquisas indicam que o conto é oriental e faz parte do secular livro árabe Nushetol Udeba. No conto do livro ára- be, os personagens são um cristão, um maometano e um judeu. Há outras variantes desse mesmo conto, em que os personagens podem ser um caboclo, um padre e um es- tudante; dois burgueses e um camponês; um filósofo, um astrólogo e um soldado, entre outras possibilidades. É im- portante notar que esses personagens encarnam tipos que “competem” em dado contexto cultural quanto à esperte- za, por exemplo. Ou seja, embora o cenário varie, permane- ce a tentativa de hierarquizar socialmente “tipos sociais”. Para mais informações, consultar o site da Fundação Nacional do Livro Infantil, disponível em: www.fnlij.org. b r/s i te/pnbe-1999/ i tem/224- hist%C3%B3ria-de-trancoso.html (acesso em: 11 mar. 2022). No decorrer da leitura, atentar para os seguintes pontos do conto: ⓿ Parágrafo 17: se considerar opor- tuno, explicar aos estudantes que a expressão “de quando em vez” equivale a “de vez em quando”. Es- sa inversão dos termos caracteriza um recurso estilístico que pode ser usado em textos literários, em que o narrador busca marcar a narra- ção como um causo ou uma histó- ria contada por um falante de ida- de mais antiga, por exemplo. A ex- pressão “de quando em quando”, algumas linhas abaixo, também é equivalente. ⓿ Parágrafos 23 e 25: caso os estu- dantes perguntem o significado de nhonhô e vosmicê, sugerimos ape- nas antecipar que se trata de formas de tratamento, pois esses termos se- rão abordados mais adiante, nas ati- vidades de linguagem que compõem a seção Interpretação do texto. ⓿ Parágrafo 27: se for necessário, ex- plicar aos estudantes que a palavra pensamentando significa o mesmo que pensando. Trata-se de um neo- logismo, ou seja, uma palavra inven- tada. Sugerimos questionar os estu- dantes por que o autor preferiu um neologismo a empregar a palavra mais usual nessa situação. ⓿ Parágrafo 29: perguntar aos estu- dantes se conhecem o jabá (carne bovina submetida ao processo de salga, exposta em lugares secos sob o sol, para desidratação e melhor conservação) ou produtos culinários regionais que, pelas suas caracterís- ticas, poderiam assemelhar-se a es- se tipo de carne. Essa intervenção contribui para o desenvolvimento da habilidade EF06LP03, de anali- sar diferenças de sentido entre pa- lavras de uma série sinonímica. Ex- plicar que em determinadas regiões, em vez de jabá, as pessoas usam as palavras charque ou carne-se- ca, mas chamar a atenção para o fato de que, embora muitas vezes se considerem sinônimos em dicio- nários da língua portuguesa, essas palavras podem designar produtos culinários diversos, caracterizados por diferentes tradições culinárias locais. As variedades linguísticas re- gionais serão abordadas na seção Língua: usos e reflexão. Reprodução do Livro do Estudante em tamanho reduzido Andaram que andaram. Quando já ia escurecendo, ouviram a mata bulir. O padre se benzeu, o fazendeiro preparou a espingarda. — Se for encantado vai virar peneira – avisou. — Calma – gritou uma voz de taquara rachada. – É gente que aqui vai. 10 — Se é cristão se aproxime – gritou o padre, medrosão. Era um roceiro montado num burro velho. — Posso entrar nesse cortejo? – perguntou com respeito. O roceiro tinha um só dente na frente e cara de bobo. O fazendeiro e o padre torceram o nariz. Mas lá seguiram viagem. 15 Anda que anda, só os dois proseando. O roceiro tinha lá papo para aquela conversa de doutor? De quando em vez destampava uma moringa e bebia um gole d’água. O padre e o fazendeiro morrendo de sede. O padre não aguentou mais: 20 — Sou servido um gole desta água. Pra matar minha sede. O roceiro emprestou a moringa ao padre. O fazendeiro, porém, aguentou firme. O roceiro de quando em quando ofertava: — Um golinho d’água, nhonhô? Tá fresca, fresca... Até que o fazendeiro se entregou: 25 — Já que vosmicê tanto insiste, me dê cá a saborosa. O fazendeiro não tinha era coragem de botar a boca onde o roceiro botava a sua. Procurou um lugarzinho lascado, pensamentando: “Nesse lascado ele não deve usar”. — Gozado, nhonhô – disse o roceiro. — É mesmo aí, nesse quebra- dinho, que acostumo de beber. Os três viajantes pararam numa venda. Comeram jabá, com feijão e mandioca, depois um copo de jurubeba. 30 Antes de dormir, não é que o dono da venda pegou um queijo de cabra e deu de presente pra eles? Tão pequetitinho que nem dava para dividir. O padre, que era muito sabido, deu uma ideia: — Vamos dormir. Quem tiver o sonho mais bonito fica com o queijo. Dormiram que Deus deu. No canto do primeiro galo pularam da cama, selaram os cavalos enquanto o roceiro ajeitava seu burro velho. Engoliram um café com vento... E pé na estrada. bulir: mexer-se, mover-se. encantado: nesse contexto, equivale a um ser sobrenatural. taquara: bambu. jabá: carne bovina salgada e seca ao sol. jurubeba: planta usada para fazer chá. 25 022-051_Telaris6_LP_LE_MPU_U01_PNLD24.indd 25022-051_Telaris6_LP_LE_MPU_U01_PNLD24.indd 25 07/08/2022 17:0107/08/2022 17:01 http://www.fnlij.org. br/site/pnbe-1999/item/224-hist%C3%B3ria-de-trancoso.html http://www.fnlij.org. br/site/pnbe-1999/item/224-hist%C3%B3ria-de-trancoso.html http://www.fnlij.org. br/site/pnbe-1999/item/224-hist%C3%B3ria-de-trancoso.html 26 Reprodução do Livro do Estudante em tamanho reduzido. ⓿ Parágrafo 45: é importante que os estudantes entendam que a fala do narrador “Jacaré achou? Nem ele.” é um recurso autoral para dar graça à narrativa, não deve ser interpretada literalmente. A leitura em voz alta com expressivi- dade pode ser realizada depois de os estudantes terem feito suas leituras si- lenciosas e individuais do texto, antes de responderem às questões que se- guem na Interpretação do texto. Como há extenso diálogo no conto, diferentes estudantes podem participar simulta- neamente da leitura, interpretando de forma dramatizada as vozes presentes na história. Essa primeira leitura em voz alta po- de ser uma preparação inicial para o que é sugerido no tópico “Dramatiza- ção” da seção Conversa em jogo des- ta unidade, e uma forma de exercitar a habilidade EF69LP46, de participar de práticas de compartilhamento de leitura. Realizar esse trabalho de análise mi- nuciosa do conto com os estudantes é uma forma de estimular o desenvolvi- mento da habilidade EF69LP44, ao in- ferir-se a presença de valores sociais, culturais e humanos desse gênero lite- rário, estabelecendo múltiplos olhares sobre a identidade, a sociedade e a cul- tura e considerando a autoria e o con- texto social e histórico de sua produ- ção; da habilidade EF69LP47, ao ana- lisarem-se as formas de composição, os recursos coesivos que constroem a passagem do tempo e articulam su- as partes, a escolha lexical típica do gênero para a caracterização do cená- rio e dos personagens e os efeitos de sentido decorrentes; e da habilidade EF69LP49, ao envolver os estudantes pela leitura de livros de literatura que rompam com seu universo de expecta- tivas, apoiando-se nas marcas linguísti- cas, em seu conhecimento sobre o gê- nero e a temática do conto popular. Aproveitar a referência a Joel Rufino dos Santos comoautor de livros de lite- ratura infantil e juvenil para propor al- gumas das seguintes possibilidades de pesquisa de campo: 1. visita guiada à biblioteca/hemero- teca escolar e/ou pública (munici- pal/ estadual) ou mesmo de asso- ciações e clubes para a localização e leitura de outros contos populares. 2. visita guiada a algum museu e/ou casa de cultura em que seja possí- vel encontrar registros populares em diferentes linguagens: arte pictórica, esculturas, peças de artesanato, ou mesmo depoimentos de diferentes pessoas do nosso país. b) Site da Câmara dos Deputados para crianças. Ple- narinho: o jeito criança de ser cidadão, que dis- ponibiliza uma lista com ilustrações dos principais personagens do folclore brasileiro seguidas de in- formações sobre sua origem e principais caracterís- tica. Disponível em: https://plenarinho.leg.br/index. php/2018/08/personagens-folclore-brasileiro/ (acesso em: 15 abr. 2022). 3. visita guiada a salas de informática acessíveis aos es- tudantes, orientando o uso da tecnologia para visitas vir- tuais a museus. Sugestões: a) Site do Museu Monteiro Lobato, em que é possível co- nhecer e rever as personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, bem como participar de uma exposição gami- ficada que, certamente, despertará o interesse dos es- tudantes dessa faixa etária. Disponível em: https://mu seumonteirolobato.art.br/ (acesso em: 15 abr. 2022). Reprodução do Livro do Estudante em tamanho reduzido C ar lo s A ra új o/ A rq ui vo d a ed ito ra 35 A fome apertou, o padre foi contando o seu sonho: — Sonhei com uma grande escada de ouro, cravejada de marfim. Começava juntinho do meu travesseiro... Furava as nuvens lá em riba... Ia subindo, subindo... E sabem onde terminava? — Não – respondeu o fazendeiro. — No céu. Ninguém pode sonhar coisa mais bonita. Conforme combinado, o queijo é meu. — Pois eu – disse o fazendeiro, picando o rolo de fumo — sonhei com um lugar iluminadão. Só que não tinha lâmpadas. 40 — Como não tinha lâmpadas? – perguntou o padre. — A luz nascia das coisas – explicou o fazendeiro. — Vocês já viram um cacho de banana servindo de lustre? Pois nesse lugar tinha. Já viram areia de prata de puro diamante? Pois era assim nesse lugar que sonhei. — E pode-se saber que lugar era este? – perguntou o padre, sem jeitão. — O céu. Você sonhou com a escada pro céu. Eu sonhei que já estava lá. Conforme combi- nado, o queijo é meu. 45 O fazendeiro foi abrindo o surrão para pegar o queijo. Jacaré achou? Nem ele. — Ué! Onde se meteu o danado? — Agora que vocês contaram o sonho – falou o roceiro —, tenho uma coisa pra contar. O padre e o fazendeiro olharam o roceiro de banda. — Cês não ouviram um barulho de noite? Pois era eu que me le- vantei pra comer o queijo. 50 Como vocês estavam no céu, achei que não pre- cisavam mais do queijo. Sabem quem era esse roceiro? Trancoso. SANTOS, Joel Rufino dos. O saci e o curupira e outras histórias do folclore. São Paulo: Ática, 2017. p. 45-52. surrão: sacola ou bolsa utilizada para guardar alimentos durante uma viagem. Joel Rufino dos Santos nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 1941. Quando criança, gostava de ouvir histórias que sua avó lhe contava e lia tudo o que caía em suas mãos. Formou-se em História, foi professor de Literatura e um importante autor brasileiro de livros de literatura infantil e juvenil. Faleceu em 2015. R ep ro du çã o/ ht tp :// w w w . jo el ru fin od os sa nt os .c om .b r R ep ro du çã o/ E d. Á tic a Capa de O saci e o curupira, de Joel Rufino dos Santos. 26 022-051_Telaris6_LP_LE_MPU_U01_PNLD24.indd 26022-051_Telaris6_LP_LE_MPU_U01_PNLD24.indd 26 07/08/2022 17:0107/08/2022 17:01 https://plenarinho.leg.br/index.php/2018/08/personagens-folclore-brasileiro/ https://plenarinho.leg.br/index.php/2018/08/personagens-folclore-brasileiro/ https://museumonteirolobato.art.br/ https://museumonteirolobato.art.br/ https://plenarinho.leg.br/index.php/2018/08/personagens-folclore-brasileiro/ https://museumonteirolobato.art.br/ http://www.joelrufinodossantos.com.br/paginas/index.asp