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O que é Construtivismo para Adler?

Construtivismo nas Ris


2 resposta(s)

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Felipe Lemos

Há mais de um mês

A abordagem construtivista no estudo das relações internacionais é submetida a um exame, com ênfase nas questões epistemológicas que ela suscita e na importância da dimensão sócio-cognitiva na sua formulação e aplicação.

A abordagem construtivista no estudo das relações internacionais é submetida a um exame, com ênfase nas questões epistemológicas que ela suscita e na importância da dimensão sócio-cognitiva na sua formulação e aplicação.

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LR

Há mais de um mês

Emanuel Adler é um importante cientista político especialmente preocupado com o campo das Relações Internacionais. Segundo o autor, o “Construtivismo é a perspectiva segundo a qual o modo pelo qual o mundo material forma a, e é formado pela, ação e interação humana depende de interpretações normativas [interpretações de normas, regras, padrões] e epistêmicas dinâmicas [dinâmicas reais, verdadeiras] do mundo material” (ADLER, 1999: 205). A defesa de Adler a respeito do Construtivismo é a seguinte:

“O construtivismo mostra que mesmo nossas instituições mais duradouras são baseadas em entendimentos coletivos; que elas são estruturas reificadas [coisificada, quando o que é abstrato passa a ser real, torna-se coisa, algo concreto] que foram um dia consideradas ex nihilo [em latim, refere-se a continuidade passada de algo, uma coisa, uma ideia, uma realidade não surge do nada, é fruto de algo que já existia] pela consciência humana; e que esses entendimentos foram subsequentemente difundidos e consolidados até que fossem tidos como inevitáveis. Além disso, os construtivistas acreditam que a capacidade humana de reflexão ou aprendizado tem seu maior impacto no modo pelo qual os indivíduos e atores sociais dão sentido ao mundo material e enquadram cognitivamente o mundo que eles conhecem, vivenciam e compreendem. Assim, os entendimentos coletivos dão às pessoas razões pelas quais as coisas são como são e indicações de como elas devem usar suas habilidades materiais e seu poder.” (ADLER, 1999: 206). [grifo nosso – As instituição são coisas, o casamento é uma estrutura abstrata tão concreta na vida das pessoas que passa a ser uma coisa, mas não uma coisa qualquer, uma coisa que faz sentido pois não nasceu no nada, o casamento é uma instituição que continuamente se atualiza, por exemplo, hoje é possível dissolver essa instituição mediante um processo de divorcio, o casamento homoafetivo só é possível porque há o casamente heteronormativo, ou melhor, porque há a instituição casamento. O casamento homoafetivo se tornará concreto na medida em que a sua ideia for difundida a tal ponto que se torne ‘normal’, o processo de coisificação também é um processo de normalização do que é estranho, do que um dia foi crime (as relações homoafetivas e o divórcio configuravam, no passado, crimes). O processo de mudança, as inovações sociais, só são possíveis a partir do que já é conhecido, do que as pessoas já compreendem, as pessoas já conhecem o divorcio, já compreendem o divórcio e por isso, a partir deste entendimento coletivo que nasce de um processo de aprendizagem também coletivo (social), é possível inovar as normas do casamento tornando o divórcio legal. São também os entendimentos coletivos que mostram como é possível viver imersos na estrutura social, quais são as potencialidades e os limites.]

“A importância e o valor do construtivismo para o estudo das relações internacionais repousa basicamente em sua ênfase na realidade ontológica [da realidade que é cuja natureza é comum a todos, reconhecida como normal, habitual, ‘a vida é o que a vida é, e todos sabemos o que a vida é porque todos a vivemos nas mesmas condições’] do conhecimento intersubjetivo [do conhecimento estabelecido socialmente, entre os diversos sujeitos presentes na sociedade, acessível a qualquer indivíduo que vive (que se relacione com o outro) em um dado espaço social] e nas implicações metodológicas [de método] e epistemológicas [de conhecimento científico] dessa realidade. Os construtivistas acreditam que as relações internacionais consistem primariamente em fatos sociais, os quais são fatos apenas por acordo humano. Ao mesmo tempo, os construtivistas são ‘realistas ontológicos’; acreditam não apenas na existência do mundo material como que ‘esse mundo material oferece resistência quando agimos sobre ele’ (Knorr Cetina, 1993: 184). Assim, o construtivismo é uma tentativa, mesmo que tímida, de construção de uma ponte entre as intensamente separadas filosofias da ciência social positivista/materialista e idealista/interpretativista.” (ADLER, 1999: 206). [grifo nosso – O Construtivismo é importante para as Relações Internacionais em função dos valores que escolher defender e dos métodos científicos que optou para fazer pesquisa. O Construtivismo escolhe compreender aquela realidade que surge como comum a todos, não a realidade do psicológica do individuo e sim a realidade sociológica, a realidade do todo social, do conjunto de indivíduos, e do conhecimento que este conjunto de indivíduos estabelecem ao se relacionarem em pleno exercício de construção (aprendizado) coletivo, a partir do que a sociedade já tem como dado (lembrar do exemplo do casamento). Partindo dessa escolha de valores, o construtivismo sabe que há implicações quanto aos métodos disponíveis para se produzir o conhecimento científico.].

“O construtivismo, em oposição ao realismo ou ao liberalismo, não é uma teoria da política per se [por si só]. Ele é, na realidade, uma teoria social na qual as teorias construtivistas de política internacional - como por exemplo, sobre a guerra, a cooperação e a comunidade internacional - se baseiam. O construtivismo pode iluminar características importantes da política internacional que eram antes enigmáticas e tem implicações práticas cruciais para a teoria internacional e as pesquisas empíricas.” (ADLER, 1999: 206).

“O construtivismo desafia apenas os fundamentos ontológicos e epistemológicos do realismo e do liberalismo. Não é anti-liberal ou anti-realista por convicção; não é pessimista ou otimista por vocação. Consequentemente, o construtivismo representa a primeira oportunidade real de criação de uma teoria sintética das relações internacionais desde que E. H. Carr (cuja ‘obra emerge do importante meio termo entre absolutismo e relativismo’ [Howe, 1994: 287]) estabeleceu seus fundamentos, logo antes da Segunda Guerra Mundial (Carr, 1964). Se for possível que se persuada que os entendimentos normativos e coletivos causais são reais, na medida em que eles têm consequências para os mundos físico e social, será muito mais fácil argumentar que tanto a compreensão da política mundial quanto o progresso da disciplina podem depender da construção de uma síntese sócio-cognitiva que se forma nas dimensões material, subjetiva e intersubjetiva do mundo.” (ADLER, 1999: 206-207).

Referência bibliográfica:

ADLER, Emanuel. O construtivismo no estudo das relações internacionais. In Lua Nova, n° 47, São Paulo, 1999.

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