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República de Platão ?

Filosofia

PUC-RIO


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A metáfora do Anel de Giges diz o seguinte: “O diálogo, que transcorre entre Sócrates, dois irmãos de Platão (Glauco e Adimanto) e um comerciante, Polemarco, é interrompido pelo aparecimento de vários atenienses, que passam pela casa de Polemarco, e pela intervenção violenta do sofista Trasímaco. No início do diálogo, Plemarco diz que a justiça é dar a cada um o que lhe é devido (pensamento típico do comerciante, que logo pensa em dívidas que devem ser pagas e mercadorias que devem ser entregues). Polemarco exprime o senso comum. Trasímaco, porém, afirma que a justiça é o poder do mais forte, seja porque este tem meios para dominar os mais fracos, seja porque os mais fracos encontram formas astuciosas para se fazerem mais fortes e dominarem os mais fortes. Glauco afirma que a justiça é praticada somente porque os homens temem os castigos se forem injustos e, a propósito, narra o Mito do Anel de Giges. Durante uma tempestade, o pastor Giges descobre, na caverna em que se refugiaram um anel de ouro perdido e o apanha. Na companhia de outros pastores, dirige-se à corte, onde devem prestas contas ao rei. No caminho, por acaso, Giges gira o anel no dedo, tornando-se invisível. Ao perceber o efeito do anel, ao chegar no palácio, Giges seduz a mulher do rei, usa a invisibilidade para mata-lo, toma o poder e passa a governar sem que ninguém saiba que chegou ao poder de maneira fraudulenta e ilegítima. Seu governo é aceito sem ser questionado, todos o tomando por um governante legítimo. Assim, conclui Glauco, não é preciso ser justo, basta parecer justo.” (CHAUI, 2002: 305). Mas afinal, o que é a justiça? “Chegamos a este ponto, em que prevalece a indeterminação, isto é, a multiplicidade dispersa de imagens e opiniões, os vários interlocutores, como de hábito, procuram defender suas posições com um novo campo de indeterminação: enumeram pessoas justas ou injustas, ações justas ou injustas, oficícios justos ou injustos, multiplicando sem fim as imagens e as opiniões sobre o justo e o injusto. Sócrates intervém, praticando a ironia, criando dificuldades e contradições para cada imagem e opinião apresentada, até que, perplexos, aceitam a sugestão socrática: começar não com casos de justiça e injustiça, mas procurando algo que se possa dizer que é justo e porque é justo. Delimitando o campo da investigação, afastando ‘parentes’ e ‘rivais’ da justiça, a teoria da justiça exposta na República desenvolve e prepara aquela que acabamos de ver na psicologia e na ética: a justiça ou virtude, no homem, é o governo dos apetites e da cólera pela razão.” (CHAUI, 2002: 305-306).

Em A Republica Platão pretende compreender o que é justiça, e para tal trata de diversos aspecto interconectado (ética, política, metafisica, etc.), e por fim determina um ideal de Cidade. Segundo Platão, “a justiça ou virtude, no homem, é o governo dos apetites e da cólera pela razão; essa mesma teoria, antes de ser aplicada ao indivíduo, é aplicada à Cidade, concebida como um conjunto hierarquizado de funções, cada qual com sua dýnamis e sua araté’ (CHAUI, 2002: 305-306). Para o filósofo, as classes sociais [“a economica (agricultores, comerciantes e artesões), a militar ou dos guerreiros e a legislativa ou dos demais magistrados” (CHAUI, 2002: 306)] da cidade eram pouco definidas, confundiam-se, e com isso quedavam “injustas ou mal governadas” (CHAUI, 2002: 306). A solução proposta por Platão, em sua cidade ideal era a organização das classes de acordo com suas potencialidades, dessa forma estabelece para:

1) A classe dos magistrados: “Se a justiça – dike – e a virtude – areté – existem somente quando a razão governa a concupiscência e a cólera, então a Cidade deve ser governada somente pelos magistrados. Mas, por isso, várias condições devem ser preenchidas e a primeira delas é que a Cidade se encarregue da educação de todas as crianças, mesmo quando algumas permanecerem com suas famílias. Essa educação deve ter como objetivo deter determinar as capacidades e os limites de cada uma das classes sociais.” (CHAUI, 2002: 307). “a classe dos magistrados deve ser a classe dos governantes propriamente ditos. Sua função é promover e manter a justiça, tanto pela qualidade das leis como pelo controle que exercem sobre as outras duas classes. Por esse motivo, a seleção dos magistrados e sua educação é a mais importante e a mais rigorosa, se compara à das duas outras classes, pois ela inclui, até certa etapa, a dos agricultores-comerciantes-artesões, prossegue com a dos guardiães e segue sozinha para a formação do político propriamente dito.” (CHAUI, 2002: 308).

2) A classe econômica: “Assim, a classe econômica dos agricultores-comerciantes-artesões deve ser educada para ter como função exclusiva a sobrevivência da Cidade e viver de acordo com limites estabelecidos pelo magistrado, impedindo que a busca das riquezas luxos e prazeres perverta a Cidade. Para isso, deverá ser educada para a frugalidade e a temperança, que se tornam, portanto, virtudes cívicas. Como essa classe é muito apegada aos bens materiais, convém que ela os tenha, pois do contrário lutará para consegui-los e trará desordem à Cidade. O magistrado deve fixar por lei que a classe econômica tenha o direito à propriedade privada (com limites) e a constituir família. Em lugar de tentar inutilmente extirpar o egoísmo e os apetites dessa classe, o governo deve apenas moderá-los por meio das leis e usá-los para o bem da Cidade.” (CHAUI, 2002: 307).

3) A classe dos guerreiros: “Por seu turno, a classe militar ou dos guerreiros terá como função exclusiva a proteção da Cidade contra perigos internos e externos. Essa classe será formada a partir de um exame de seleção, feito após um período em que a mesma educação foi dada a todas as crianças da Cidade. Nessa seleção, os menos dotados irão ser membros da classe econômica, enquanto os mais dotados receberão a educação dos guardiães. Numa grande inovação, Platão afirma que a educação inicial será dada igualmente aos meninos e às meninas, e que as crianças dos dois sexos passarão pela seleção, de sorte que poderá haver mulheres na classe militar. O argumento platônico é claro: um Estado que não usa as aptidões das mulheres é um Estado pela metade, incompleto. Aos guardiães é dada a educação tradicional dos guerreiros gregos: ginastica para o corpo, música (poema, harmonia) para o espírito, dança e artes marciais. Os guardiães devem considerar que sua casa é a Cidade, por isso não terão casa própria, nenhuma propriedade privada, nem família: homens e mulheres viverão em comunidade, seus bens serão comuns, o sexo será livre (não havendo casamento) e as crianças deverão ser consideradas filhas da comunidade inteira, de modo que qualquer adulto deve tratar toda criança como seu filho, e cada criança tratar quaisquer adultos como seus pais. Em outras palavras, Platão elimina a causa que dá origem à aristocracia de sangue e hereditária, impedindo que os guardiães constituam linhagens e que estas rivalizem. A educação dos guardiães é propriamente uma educação cívica, pois eles só existem como pessoas públicas para o bem público. Desta maneira, a razão (o magistrado) impõe aos guerreiros as virtudes que lhes são próprias: coragem e honradez. Os guerreiros devem ser semelhantes a um cão de guarda: carinhosos para os seus, terríveis para o inimigo.” (CHAUI, 2002: 307-308).

Referência bibliográfica:

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, volume 1. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

A metáfora do Anel de Giges diz o seguinte: “O diálogo, que transcorre entre Sócrates, dois irmãos de Platão (Glauco e Adimanto) e um comerciante, Polemarco, é interrompido pelo aparecimento de vários atenienses, que passam pela casa de Polemarco, e pela intervenção violenta do sofista Trasímaco. No início do diálogo, Plemarco diz que a justiça é dar a cada um o que lhe é devido (pensamento típico do comerciante, que logo pensa em dívidas que devem ser pagas e mercadorias que devem ser entregues). Polemarco exprime o senso comum. Trasímaco, porém, afirma que a justiça é o poder do mais forte, seja porque este tem meios para dominar os mais fracos, seja porque os mais fracos encontram formas astuciosas para se fazerem mais fortes e dominarem os mais fortes. Glauco afirma que a justiça é praticada somente porque os homens temem os castigos se forem injustos e, a propósito, narra o Mito do Anel de Giges. Durante uma tempestade, o pastor Giges descobre, na caverna em que se refugiaram um anel de ouro perdido e o apanha. Na companhia de outros pastores, dirige-se à corte, onde devem prestas contas ao rei. No caminho, por acaso, Giges gira o anel no dedo, tornando-se invisível. Ao perceber o efeito do anel, ao chegar no palácio, Giges seduz a mulher do rei, usa a invisibilidade para mata-lo, toma o poder e passa a governar sem que ninguém saiba que chegou ao poder de maneira fraudulenta e ilegítima. Seu governo é aceito sem ser questionado, todos o tomando por um governante legítimo. Assim, conclui Glauco, não é preciso ser justo, basta parecer justo.” (CHAUI, 2002: 305). Mas afinal, o que é a justiça? “Chegamos a este ponto, em que prevalece a indeterminação, isto é, a multiplicidade dispersa de imagens e opiniões, os vários interlocutores, como de hábito, procuram defender suas posições com um novo campo de indeterminação: enumeram pessoas justas ou injustas, ações justas ou injustas, oficícios justos ou injustos, multiplicando sem fim as imagens e as opiniões sobre o justo e o injusto. Sócrates intervém, praticando a ironia, criando dificuldades e contradições para cada imagem e opinião apresentada, até que, perplexos, aceitam a sugestão socrática: começar não com casos de justiça e injustiça, mas procurando algo que se possa dizer que é justo e porque é justo. Delimitando o campo da investigação, afastando ‘parentes’ e ‘rivais’ da justiça, a teoria da justiça exposta na República desenvolve e prepara aquela que acabamos de ver na psicologia e na ética: a justiça ou virtude, no homem, é o governo dos apetites e da cólera pela razão.” (CHAUI, 2002: 305-306).

Em A Republica Platão pretende compreender o que é justiça, e para tal trata de diversos aspecto interconectado (ética, política, metafisica, etc.), e por fim determina um ideal de Cidade. Segundo Platão, “a justiça ou virtude, no homem, é o governo dos apetites e da cólera pela razão; essa mesma teoria, antes de ser aplicada ao indivíduo, é aplicada à Cidade, concebida como um conjunto hierarquizado de funções, cada qual com sua dýnamis e sua araté’ (CHAUI, 2002: 305-306). Para o filósofo, as classes sociais [“a economica (agricultores, comerciantes e artesões), a militar ou dos guerreiros e a legislativa ou dos demais magistrados” (CHAUI, 2002: 306)] da cidade eram pouco definidas, confundiam-se, e com isso quedavam “injustas ou mal governadas” (CHAUI, 2002: 306). A solução proposta por Platão, em sua cidade ideal era a organização das classes de acordo com suas potencialidades, dessa forma estabelece para:

1) A classe dos magistrados: “Se a justiça – dike – e a virtude – areté – existem somente quando a razão governa a concupiscência e a cólera, então a Cidade deve ser governada somente pelos magistrados. Mas, por isso, várias condições devem ser preenchidas e a primeira delas é que a Cidade se encarregue da educação de todas as crianças, mesmo quando algumas permanecerem com suas famílias. Essa educação deve ter como objetivo deter determinar as capacidades e os limites de cada uma das classes sociais.” (CHAUI, 2002: 307). “a classe dos magistrados deve ser a classe dos governantes propriamente ditos. Sua função é promover e manter a justiça, tanto pela qualidade das leis como pelo controle que exercem sobre as outras duas classes. Por esse motivo, a seleção dos magistrados e sua educação é a mais importante e a mais rigorosa, se compara à das duas outras classes, pois ela inclui, até certa etapa, a dos agricultores-comerciantes-artesões, prossegue com a dos guardiães e segue sozinha para a formação do político propriamente dito.” (CHAUI, 2002: 308).

2) A classe econômica: “Assim, a classe econômica dos agricultores-comerciantes-artesões deve ser educada para ter como função exclusiva a sobrevivência da Cidade e viver de acordo com limites estabelecidos pelo magistrado, impedindo que a busca das riquezas luxos e prazeres perverta a Cidade. Para isso, deverá ser educada para a frugalidade e a temperança, que se tornam, portanto, virtudes cívicas. Como essa classe é muito apegada aos bens materiais, convém que ela os tenha, pois do contrário lutará para consegui-los e trará desordem à Cidade. O magistrado deve fixar por lei que a classe econômica tenha o direito à propriedade privada (com limites) e a constituir família. Em lugar de tentar inutilmente extirpar o egoísmo e os apetites dessa classe, o governo deve apenas moderá-los por meio das leis e usá-los para o bem da Cidade.” (CHAUI, 2002: 307).

3) A classe dos guerreiros: “Por seu turno, a classe militar ou dos guerreiros terá como função exclusiva a proteção da Cidade contra perigos internos e externos. Essa classe será formada a partir de um exame de seleção, feito após um período em que a mesma educação foi dada a todas as crianças da Cidade. Nessa seleção, os menos dotados irão ser membros da classe econômica, enquanto os mais dotados receberão a educação dos guardiães. Numa grande inovação, Platão afirma que a educação inicial será dada igualmente aos meninos e às meninas, e que as crianças dos dois sexos passarão pela seleção, de sorte que poderá haver mulheres na classe militar. O argumento platônico é claro: um Estado que não usa as aptidões das mulheres é um Estado pela metade, incompleto. Aos guardiães é dada a educação tradicional dos guerreiros gregos: ginastica para o corpo, música (poema, harmonia) para o espírito, dança e artes marciais. Os guardiães devem considerar que sua casa é a Cidade, por isso não terão casa própria, nenhuma propriedade privada, nem família: homens e mulheres viverão em comunidade, seus bens serão comuns, o sexo será livre (não havendo casamento) e as crianças deverão ser consideradas filhas da comunidade inteira, de modo que qualquer adulto deve tratar toda criança como seu filho, e cada criança tratar quaisquer adultos como seus pais. Em outras palavras, Platão elimina a causa que dá origem à aristocracia de sangue e hereditária, impedindo que os guardiães constituam linhagens e que estas rivalizem. A educação dos guardiães é propriamente uma educação cívica, pois eles só existem como pessoas públicas para o bem público. Desta maneira, a razão (o magistrado) impõe aos guerreiros as virtudes que lhes são próprias: coragem e honradez. Os guerreiros devem ser semelhantes a um cão de guarda: carinhosos para os seus, terríveis para o inimigo.” (CHAUI, 2002: 307-308).

Referência bibliográfica:

CHAUI, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles, volume 1. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

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