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A noção de estrutura em psicanálise

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campo é o do discurso concreto; suas
operações são as da história” (Lacan,
1953/1998a, p. 258). Contrariamen-
te a Saussure, Lacan não estrutura a
palavra com uma relação simétrica
entre um e outro. E é a partir daqui,
da estrutura da palavra, que o Outro
se impõe.
No Grafo do desejo o conjunto
dos significantes (a estrutura da lin-
guagem) deve ser situado no lugar do
Outro, na estrutura da palavra; “a
dissimetria não só implica que este
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Outro decide o sentido do que digo mas, porque é o destinatário da
mensagem, deve ser também o lugar do código que permite decifrá-
lo” (Lacan, 1960/1998d, p. 830). Isso implica também que o grafo
concerne ao sujeito. O sujeito está situado na estrutura da palavra.
O que produz esse sujeito que não encontra sua identidade a não
ser pela via da palavra dirigida ao Outro? No começo, não é nada.
Posto que não se funda na palavra senão pela via do Outro, não é
mais do que um significante do Outro, nesse sentido, é um proces-
so de identificação. Ao final leva um significante do Outro: esposa,
marido, discípulo. A escritura mais simples que se pode dar a esse
sujeito no começo desse circuito de palavras é $, esse é um termo
estrutural fundamental. Isso obriga a algo que excede a perspectica
estruturalista, a qual requer que o conjunto dos significantes seja
completo, que represente a todos e de certo modo, que possa no-
mear tudo. Na perspectiva estruturalista, não existe, em uma língua
a palavra que falta para designar algo. Ora, a introdução da mescla
da estrutura da palavra na estrutura da linguagem, feita por Lacan,
obriga a descompletar este conjunto de significantes.
Que resposta para a pergunta colocada anteriormente: “Uma
vez reconhecida a estrutura da linguagem no inconsciente, que tipo
de sujeito podemos conceber-lhe?” Não podemos conceber-lhe um
sujeito mais do que respondendo a essa inscrição na falta. Na cadeia
significante, pode-se reconhecê-lo, por exemplo, no intervalo entre
os significantes, pode-se identificá-lo à descontinuidade da cadeia
significante.
Nossa definição de significante é: um significante é aquilo que representa o sujei-
to para outro significante. Esse significante, portanto, será aquele para o qual
todos os outros significantes representam o sujeito: ou seja, na falta desse signifi-
cante, todos os demais não representariam nada. Já que representado senão para
algo. Ora, estando a bateria dos significantes, tal como é, por isso mesmo com-
pleta, esse significante só pode ser um traço que se traça por seu círculo, sem
poder ser incluído nele. Simbolizável pela inerência de um (-1) no conjunto dos
significantes. (Lacan, 1960/1998d, p. 833)
Evidentemente que temos aqui um sujeito que não tem muito
em comum com a consciência. É o sujeito no sentido de o que é
suposto pela cadeia mesma, desde que esta cadeia é capturada na
palavra; um sujeito que, como o intervalo significante, é transporta-
do de significante em significante e do que se pode admitir que seja
identificado pelos significantes.
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Nesse sentido, contrariamente ao
que deixa supor Lévi-Strauss, esse
sujeito não tem nada em comum com
a consciência ou com o que seria ali
completado, a tal ponto que Lacan,
constrói o desejo como esse sujeito
mesmo que transporta a cadeia signi-
ficante. Esse sujeito não é causa, é
efeito dessa cadeia, efeito da emergên-
cia do significante, é por isso que
Lacan, em seu grafo do desejo, lhe dá
o mesmo lugar que ao significado.
Então o que diferencia decidida-
mente a estrutura de Lacan da estru-
tura dos estruturalistas, é que para
Lacan, ela não é uma construção – a
estrutura da linguagem preexiste a
cada sujeito, a cada nascimento da-
queles que vão falar; ela preexiste, e
enquanto tal, é causa, quer dizer, tem
efeitos.
Um primeiro ponto de divergên-
cia radical entre o estruturalismo e a
psicanálise é a exclusão do sujeito e,
um segundo ponto, não menos radi-
cal, é o real como impossível, que não
faz parte do conceito linguístico de
estrutura. Para os estruturalistas o
conceito de estrutura está ligado à
ideia de totalidade. Para a psicanálise,
o real tem como estatuto o impossí-
vel e se inscreve na estrutura sob a
forma de um buraco, que comparece
como furo real no imaginário (ausên-
cia de um saber, ou seja, de instinto)
e como falta de Um significante no
simbólico (campo do Outro).
A estrutura dos estruturalistas é
coerente e completa, ao passo que a
estrutura lacaniana é antinômica e in-
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completa, inclui em seu campo uma
impossibilidade, nem tudo será expli-
cável. Diferentemente da estrutura
saussuriana, que se define pela com-
plementação entre significante e signi-
ficado, o sujeito do inconsciente da
estrutura lacaniana, se mantém fun-
damentalmente inacessível e se apre-
senta sempre em outro lugar. Uma
estrutura clínica se define, portanto,
na relação entre o $ – efeito de lin-
guagem – e o Outro.
THE NOTION OF STRUCTURE IN
PSYCHOANALYSIS
ABSTRACT
Since Freud we give importance to the distinguishing
diagnosis because we know that it serves as a direction
for the conduction of the analysis. With Lacan this
importance, made explicit by Freud, is ratified. From
Lacan everybody speaks in “structural distinguishing
diagnosis”. This text intends to interrogate: what the
term “structural” would be adding to the teachings
of Freud on the diagnosis and to a certain extent the
notion of structure in Lacan would be correlated to
the structuralist movement?
Index terms: structure; structuralism; subject.
LA NOCIÓN DE ESTRUCTURA EN
PSICOANÁLISIS
RESUMEN
Desde Freud damos importancia a la diagnosis dife-
rencial porque sabemos que sirve como una orientación
para la conducción del análisis. Con Lacan se ratifi-
ca esta importancia, explicitada por Freud. Desde
Lacan se dice muy en “diagnosis diferencial
estructural”. Este texto viene interrogar: ¿qué el tér-
mino “estructural” estaría agregando a las enseñanzas
de Freud acerca del diagnosis y hasta punto la noción
de la estructura en Lacan sería correlacionada al
movimiento estruturalista?
Palabras clave: estructura; estruturalismo; sujeto.
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DossiêDossiêDossiêDossiêDossiêDossiê
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sonia.altoe@terra.com.br
mhmartinho@yahoo.com.br
Recebido em fevereiro/2011.
Aceito em março/2011.