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Ortopedia e Traumatologia – Bloco 2 Vitória Martins Castro Feitosa Osteomielite Classificação A infecção óssea pode ser: • Osteomielite hematogênica aguda (+ comum). • Osteomielite crônica (iatrogenia no trata- mento da hematogênica aguda). • Abcesso ósseo. • Osteomielite pós-traumática. • Osteomielite pós-cirúrgica. Osteomielite hematogênica aguda fisiopatologia É mais comum na região metafisária de ossos longos, pois é uma área de muita vascularização. Existe uma circulação capilar termino-terminal e um foco de infecção à distância, que não foi detectado e pode ter uma bacteremia silenciosa. Essas bactérias chegam à região metafisária dos ossos longos pela circulação terminal e ficam ali, começando a criar um abcesso pela sua proliferação. Esse abcesso começa a criar uma reação inflamatória do organismo, os leucócitos começam a migrar para tentar defender o corpo, o que leva a um aumento de pressão na região, edema, exsudato → provoca isque- mia. Quando ocorre essa isquemia é que se diz que está com osteomielite hematogênica aguda. Enquanto não houve necrose (ainda existe cir- culação onde as bactérias estão), consegue tratar com antibiótico. Isso é muito variável, mas geralmente é um prazo máximo de 48h para tratar e é muito difícil diagnosticar dentro desse período de tempo. Depois de 48h, o aumento de pressão intraós- sea, o abcesso e o edema fazem que aquela região perca a vascularização → necrose (o ATB não chega, tem que fazer a drenagem cirúrgica). Depois que o ab- cesso se forma na região metafisária, ele se desloca para o canal medular e para o periósteo (o pus busca uma saída do corpo). Quando chega no periósteo, causa o desloca- mento dele e inicia mais um processo de necrose na região abaixo do periósteo. Como reação, o organismo começa a formar um novo osso e dá um fenômeno no RX chamado pandiafisite (osso todo infeccionado). Então, quando há o descolamento do periósteo e a necrose da região metafisária, forma uma área ex- tensa de necrose óssea, o famoso sequestro ósseo (osso avascularizado e contaminado por bactérias), que vai ser responsável pelo desencadeamento da os- teomielite crônica. Por isso, o tempo de diagnóstico tem que ser muito rápido → se suspeitou, interna o paciente e agiliza o mais rápido possível os procedi- mentos diagnósticos para começar a tratar em no má- ximo 48h. Se diagnosticar depois das 48h, mesmo fa- zendo ATB e drenagem, o paciente geralmente evolui para osteomielite crônica, além de outras sequelas mais raras, como a septicemia, pneumonia e até mesmo óbito. etiologia Qualquer bactéria pode causar osteomielite, mas 90% das infecções são por Staphylococcus aureus. Também estão envolvidos os estreptococos do grupo B, pneumococos, gonococos, salmonela (principal- mente em portadores de anemia falciforme), entero- cocos e pseudomonas. Diagnóstico clínico • Dor progressiva (aumenta com o passar do tempo) – não alivia com analgésicos e, muitas vezes, nem com opioides – deixa o paciente in- quieto e ansioso. • Impotência funcional muito grande → não con- segue utilizar o membro afetado. • Edema local importante. • Hipertermia. • Hiperemia. • Astenia, anorexia. • Queda do estado geral, se demorar a ser tra- tado. Exames complementares • Hemograma com leucocitose com desvio à es- querda (aumento de bastonetes). • VSH alto. • PCR alto. • Hemocultura: principalmente quando não de- tecta o foco à distância. • Cultura de secreção purulenta e antibiograma – padrão ouro. • Radiologia ajuda muito pouco – demora mais tempo para aparecer (5-7 dias). • USG não é muito importante, pois os sinais que mostra podem ser vistos clinicamente. • Cintilografia óssea – existem marcadores espe- cíficos para infecção – importante para o diag- nóstico diferencial, mas nem todo serviço dis- põe. • TC e RM – pouco usadas. OBS.: normalmente a avaliação clínica e os exames la- boratoriais já conseguem fechar o diagnóstico. Diagnóstico diferencial Qualquer artrite que cause dor progressiva, como artrite reumatoide. Outra infecção muito comum, especialmente em crianças, é a sinovite transitória do quadril (dor e claudicação) – a grande diferença é que ela é transitó- ria, como o próprio nome diz, a dor não é tão severa como na osteomielite, não tem febre alta (afebril), não tem leucocitose (pode ter uma linfocitose) e o quadro é benigno (se arrasta entre 3-7 dias) → trata com anal- gésicos e, no máximo, anti-inflamatórios. Além disso, pode-se pensar em tumor de Ewing, também muito comum em crianças (3º mais co- mum), é um sarcoma de localização na diáfise da tíbia geralmente. Pode evoluir com febre, dor (principal- mente noturna) e tem imagem de casca de cebola (vá- rias camadas do periósteo sobrepostas), que parece com a pandiafisite. A gota também, apesar de ser rara em crianças e adolescentes. Tem aumento de volume, dor muito importante, hiperemia no local, mas não tem febre, nem leucocitose. Ademais, tem a artrite séptica. A fise promove a proteção entre a diáfise e a cavidade articular. Em ossos longos, a fise impede que as bactérias se difun- dam e, consequentemente, a osteomielite não evolui para artrite séptica. No entanto, nas articulações gle- noumeral, quadril e tibiotarsica, por exemplo, a fise é intra-articular, não impedindo a evolução da osteomi- elite para artrite séptica, ou vice-versa. Vale ressaltar ainda que elas podem acontecer de forma concomi- tante. Tratamento Clínico Tem até 48h para fazer. Por isso, na suspeita de osteomielite aguda, interna o paciente e faz os exames o mais rápido possível. Atenção! Não inicia ATB antes de colher a cultura. Se for drenar o paciente, faz a coleta do pus. No entanto, se for tratamento conservador, faz uma punção intra- óssea com agulha calibrosa. Não espera a cultura ficar pronta, começa o tratamento com base na epidemiologia. • S. aureus (maioria), Salmonela: OXACILINA + CEFALOSPORINA DE 3ª GERAÇÃO. • Recém-nascido: OXACILINA + AMINOGLICOSÍ- DEO. • Pseudomonas: cefalosporina de 3ª geração que tenha atuação em pseudomonas (anaeró- bicos) OBS.: uma opção para a oxacilina é a VANCOMICINA e a CLINDAMICINA. Quando chegar o resultado da cultura e do an- tibiograma, se o ATB for aquele mesmo, continua, se não for, troca. Normalmente, faz até 10 dias de ATB EV e de- pois complementa com 30 dias de ATB oral. Pode dar alta se o paciente estiver estável, afe- bril há 72h e sem dor. Cirúrgico Quando perdeu as 48h iniciais, não tem outra forma de tratar a não ser cirurgicamente. Abre pele, tecido subcutâneo, se já drenar o pus, ótimo. Se não drenar, abre a fáscia e vai até o osso. Se mesmo assim, não drenar espontaneamente, pega um fio de Kirschner e faz furos pequenos na cortical lateral (não faz dos dois lados para não disseminar a infecção). Coleta o pus e manda pra fazer cultura e anti- biograma. Complicações • Osteomielite crônica. • Pneumonia bacteriana. • Sepse. • Óbito. Osteomielite crônica É um erro de tratamento da osteomielite aguda. Faz o internamento desses pacientes, drena a infecção e faz ATB, mas a sequela já está instalada. Existe o sequestro ósseo (aquele osso necro- sado, infeccionado e avascularizado), que alimenta reinfecções. Normalmente tem que fazer curativo dia- riamente, é uma infecção purulenta (mau cheiro), além da impotência funcional e o paciente acaba por perder a vontade de socializar, pois não quer se expor. O tratamento é cirúrgico e tem que tentar tirar todo o sequestro ósseo → faz uma curetagem no osso que tá bom para estimular a neovascularização e entra com ATB. Mas, para ser considerado como curado, al- guns autores afirmam que precisa passar 20 anos sem sinais de infecção novo. Em alguns casos, tem que atentar para a amputação. Abcesso ósseo - brodie Às vezes, o organismo consegue bloquear a in- fecção (não deixa formar sequestro ósseo, desloca- mento de periósteo e fistulizaçãopara o exterior), mas não consegue debelar a infecção. Isso causa a formação de um abcesso intra-ósseo, em que dentro tem infecção, mas fora não tem (o osso perma- nece saudável por fora, já que a infecção não dissemina). Ele é doloroso. O tratamento é com drenagem cirúrgica e cu- retagem das bordas → cura o paciente. Osteomielite pós-traumática OBS.: nesse caso, tem uma fratura exposta, que se classificaria como tipo IIIB, pois requer reconstrução cutânea e de partes moles, mas não dá pra saber ainda se houve lesão vascular. Ocorre comumente e pode ser causada por vi- olência do trauma, lesão extensa de partes moles → desvascularização. Pode ocorrer ainda após a cirurgia, em que o cirurgião pode errar e desvitalizar ainda mais essas partes moles, escolher um ATB errado, usar um curativo sem assepsia correta... O mais comum é pela infecção no local do trauma, principalmente em zona rural, que deve pen- sar logo em anaeróbico (pseudomonas) → faz CEFA- LOSPORINA DE 3ª GERAÇÃO, AMINOGLICOSIDEO (GENTAMICINA) + METRONIDAZOL. Osteomielite pós-cirúrgica Pode ser pelos pinos de fixação externa (tem que lavar e limpar todos os dias), que são porta de en- trada para agentes infecciosos. Existe uma infecção muito comum, que é quando opta por tratar fratura de tíbia com placa. Na face anteromedial da perna, praticamente não tem músculo, é só pele e osso, en- tão, a placa fica subcutânea, aumentando risco de in- fecção. Já em uma fratura de fêmur, como tem muito músculo, o risco é menor. Artrite séptica É muito parecida com a osteomielite, os sintomas são quase os mesmos: dor que não alivia com analgésicos, hi- peremia, hiperter- mia, febre alta, leucocitose, dificilmente consegue usar o membro (se for MMII – quadril/joelho/torno- zelo, não deambula). Por isso, é difícil fazer diagnóstico diferencial. Normalmente, existe uma posição antálgica (evitar a dor). No caso dos joelhos, ele tende a semifle- tir; no quadril, tende também a fletir e abduzir. Fisiopatologia A via mais comum é a hematogênica aguda, que tem um foco à distância. Pode ter também iatrogenia por contiguidade → por exemplo, uma punção com agulha sem assepsia correta (muito comum em joelhos). Além disso, os ferimentos intra-articulares → lesão da cápsula articular, que se não tiver uma lim- peza exaustiva pode evoluir para artrite séptica (co- mum em acidentes). Diagnóstico O quadro clínico é muito semelhante ao da os- teomielite aguda, como também o hemograma, o VSH, a radiologia (também não é muito importante). Já a USG, é mais importante, principalmente em articulações de difícil acesso, como quadril, sacroi- líaca. OBS.: no joelho, a USG não serve pra nada, pois as suas únicas utilidades poder ser detectadas clinicamente (derrame articular e cisto de baker). Nos serviços que tem cintilografia, é impor- tante, pois tem os marcadores de infecção. O mais importante é cultura e antibiograma. Além disso, a punção da articulação vai auxiliar muito, pois identifica secreção purulenta saindo pelo embolo da seringa. Lembrando que as articulações tem pressão negativa (puxa o embolo e ele volta) e, muitas vezes, na artrite séptica o volume infeccioso é tão grande que vence essa pressão negativa (sai es- pontaneamente). Tratamento Quase sempre cirúrgico, pois é muito raro fazer diagnóstico antes de 48h. Se conseguir, pode tentar tratamento conservador. Faz a drenagem da articulação, tira toda a se- creção purulenta, assim como os pedaços de articula- ção que estão soltos (articulação sinovial é muito agre- dida pela infecção). Instala um cateter para a lavagem contínua e outro para ficar drenando constantemente também. Deixa-os mais ou menos por 48-72h e, quando aquele soro começar a sair limpo, pode retirar com sucção. OBS.: o esquema de ATB é igual ao da osteomielite. Os critérios de alta são 72h sem febre, sem queda de estado geral, sem astenia, com apetite nor- mal. Depois de 10 dias, complementa com ATB oral por 30 dias ambulatorialmente. A grande sequela é a artrose infecciosa, quando demora a ser tratada corretamente. Tuberculose osteoarticular Causada pela mesma Micobactéria da TB pul- monar e da mesentérica, o bacilo de Koch, que pro- voca também infecção óssea ou artrite tuberculosa. A mais conhecida é a tuberculose óssea que atinge as ul- timas vertebras torácicas (Mal de Pott) e destrói bastante a parte anterior dos corpos vertebrais, fa- zendo que o paciente evolua para uma cifose progres- siva. Esse pus pode invadir o canal medular e causar sintomas de parestesia, paresia e até mesmo paralisia, mas é raro. Diferente da osteomielite aguda e da artrite séptica aguda, é uma infecção de baixa virulência e de- mora para aparecer e ser diagnosticada. Tem uma evo- lução muito lenta. OBS.: se o paciente tem histórico de tuberculose em outro local ou historia familiar, fica mais fácil de des- confiar. Diagnóstico Normalmente é clínico (histórico pessoal ou fa- miliar). As alterações radiológicas já são bem avança- das (destruição de corpos vertebrais). O diagnóstico la- boratorial é semelhante ao da artrite séptica e oste- omielite → aumento de PCR, VSH e leucócitos. Tratamento Segue o mesmo esquema da TB pulmonar: ri- fampicina + isoniazida + pirazinamida + etambutol. Po- rém, ao invés de durar 6 meses, pode prolongar até 1 ano, a depender da resposta do paciente. Geralmente responde bem ao tratamento clí- nico, mas quando isso não acontece, faz a drenagem cirúrgica do abcesso tuberculoso. Algumas vezes tem que fazer uma sinovecto- mia, particularmente no joelho, que pode ter grave si- novite por TB óssea. Nesses casos, tira a sinóvia para evitar sinovites de repetição. Quando faz tratamento cirúrgico, tem que fa- zer curetagem. Além disso, no caso do mal de Pott, como o pa- ciente pode desenvolver uma grande cifose, muitas vezes tem que fazer artrodese (fixar a coluna para que o paciente volte à posição ortostática).