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Autor: Prof. Adilson Rodrigues Camacho Colaboradores: Prof. Rogério Carlos Traballi Profa. Claudia Ferreira dos Santos Ruiz Figueiredo Agricultura Sustentável Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Professor conteudista: Adilson Rodrigues Camacho Possui graduação em Geografia pela Universidade de São Paulo – USP (1990) e mestrado em Geografia pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp (1994). É doutor em Ciências pelo Programa de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (2008). Atualmente é professor titular da Fundação Armando Álvares Penteado – Faap e da Universidade Paulista – UNIP. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) C172a Camacho, Adilson Rodrigues. Agricultura sustentável. / Adilson Rodrigues Camacho. – São Paulo: Editora Sol, 2015. 112 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXI, n. 2-085/15, ISSN 1517-9230. 1. Agricultura. 2. Sustentabilidade. 3. Agroindústria. I. Título. CDU 631 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Carla Moro Lucas RIcardi Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Sumário Agricultura Sustentável APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 AGRICULTURAS SUSTENTÁVEIS ORIGINAIS OU SABERES E PERSONAGENS VERNÁCULOS: DOMESTICAÇÃO, CULTIVO E CRIAÇÃO DE PLANTAS E ANIMAIS EM EXPERIÊNCIAS E PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS ...................................................................................... 13 2 PRODUÇÃO DA ESCASSEZ ARTIFICIAL: DA ECOLOGIA AO MARKETING ................................... 39 3 TERRITORIALIZAÇÃO DOS SISTEMAS E CADEIAS PRODUTIVAS CONVENCIONAIS DE ECONOMIA E TECNOLOGIAS DURAS: UNIFORMIZADORAS E CONCENTRADORAS ........... 54 4 CONSOLIDAÇÃO DAS TECNOLOGIAS AGROINDUSTRIAIS NO CAMPO: SUCESSOS E DECLÍNIO DAS ATIVIDADES AGRÁRIAS CONVENCIONAIS E A COMPLEXIDADE DO NOVO RURAL OU “RURBANO” ............................................................................................................... 62 4.1 Modelos de produção agrários ....................................................................................................... 62 4.2 Formas de exploração da terra ....................................................................................................... 63 4.3 Tipos de lavouras .................................................................................................................................. 63 4.4 Relações de trabalho ........................................................................................................................... 64 4.5 Principais produtos agrícolas .......................................................................................................... 64 4.6 Atividade pecuária ............................................................................................................................... 70 Unidade II 5 OS PROBLEMAS DO MODELO CONVENCIONAL .................................................................................. 76 6 SOLUÇÕES: UMA INTRODUÇÃO ÀS OPÇÕES E ÀS POSSIBILIDADES DE MELHORIA DE QUALIDADE DO AMBIENTE E DA VIDA ................................................................................................ 78 7 SOLUÇÕES: DESENVOLVIMENTO DAS SOLUÇÕES COM PREDOMÍNIO DA CULTURA E DO AMBIENTE PARA O MANEJO ECOLÓGICO E ECONÔMICO, DE FATO ECOEFICIENTE ...... 82 8 SOLUÇÕES: APONTAMENTOS E PERSPECTIVAS................................................................................... 94 7 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 APRESENTAÇÃO Este é o livro-texto da disciplina Agricultura Sustentável, mais um instrumento de apoio didático do curso de Agronegócio, que tem por objetivos gerais apresentar um quadro geral da produção e seus sentidos culturais e econômicos, podendo assim planejar, orientar, avaliar e monitorar as atividades agropecuárias sustentáveis em seu uso do ambiente. Isso significa que a utilização produtiva dos recursos ambientais deve ser guiada, em todo o processo de planejamento e gestão, pelo ideal de sustentabilidade dos modos de cultivo e de criação; sustentabilidade cuja essência é o compromisso com os seres humanos na manutenção da Terra para o futuro, permitindo tanto a qualificação das atividades acadêmicas quanto daquelas diretamente produtivas dos agronegócios. Com esse intuito ocupamo-nos, então, em fazer um percurso que vai da história das formas variadas de usos da terra ao longo do tempo, começando pelas agriculturas sustentáveis originais ou saberes e personagens vernáculos como experiências e práticas agroecológicas sustentáveis a serem seletivamente resgatadas de acordo com sua vitalidade. Passamos para a consideração da mudança da produção necessária à produção da escassez artificial, tratando dos limites efetivos da produção que não estão ligados aos limites produtivos da terra, uma vez que esta pode render muito mais em condições ambientalmente sustentáveis. Com isso, esperamos levar ao aluno os sentidos complexos que as atividades agrárias tinham para as sociedades tradicionais, como referências para as práticas atuais. Enfocamos a formação ou territorialização dos sistemas e cadeias produtivas convencionais, uniformizadoras e concentradoras, de economia e tecnologias duras. Concluímos a primeira unidade tomando a consolidação das tecnologias no campo e da agroindústria, os sucessos e declínio das atividades agrárias convencionais e a insustentabilidade da produção “sem a natureza”, “sem o humano” e gestão ambiental “sem ambiente”. O novo rural ou o “rurbano” impõem-se. Desse modo, o estudante tem condições de estabelecer comparações entre o que foi e o que é realizado em termos de produção agropecuária, procurando o conteúdo das mudanças nas quais seu trabalho profissional estará inserido. Encaminhamos o texto dos problemas desse modelo convencional às alternativas. Iniciamos a unidade seguinte pelos problemas advindos do modelo de desenvolvimento convencional, de suas formas de gestão e instrumentos, bem como do empregode toda ordem de venenos, agrotóxicos, pesticidas, equilíbrio artificial dos ecossistemas e degenerescência da produção. Passamos para um esboço teórico das soluções, uma introdução às opções e à transição para situações de melhoria de qualidade ambiental ou de vida, com as alternativas sustentáveis. Em seguida vamos pelo desenvolvimento das soluções com predomínio da cultura e do ambiente para o manejo ecológico e econômico, de fato ecoeficiente. São apresentados as perdas e as correções, as experiências e os casos de sucesso da agricultura sustentável. O encadeamento do texto leva, portanto, em consideração a construção das melhorias possíveis a partir de exemplos concretos de produtividade sustentável, passando pelas transformações sociais que explicam as mudanças na concepção de produto e na essência das tecnologias empregadas. 8 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 No que diz respeito aos objetivos específicos, busca-se capacitar o aluno para entender a produção do agronegócio relacionando os conceitos da sustentabilidade e desenvolvimento limpo, isto é, encaminhando-o à aplicação das boas práticas e dos conceitos discutidos no início do texto. E, assim, o aluno tomará contato com conceitos de organização produtiva sustentável em um ambiente qualificado, saudável. Deve aprender a superar as práticas danosas ao ambiente e a dialogar com os profissionais que ainda a ela estiverem afeitos, expondo os prognósticos e tendências negativas das práticas nocivas em pesquisa e aplicação, além de difundir possibilidades de melhoria e limpeza dos processos produtivos, casando tecnologia e saúde. Ao perguntar sobre as origens e o histórico da agricultura sustentável, o caminho trilhado aqui visa questionar o que há de comum nas mais variadas relações de produção agropecuárias e de sua sustentabilidade, com base em definições e conceitos correntes da Antropologia, Ecologia e Geografia (com auxílio de instrumentos da Economia e da Administração). Os principais conceitos são os de desenvolvimento limpo, sistemas e programas de gestão ambiental de recursos em diversas escalas da produção, como a água, as possibilidades de mitigação e aplicação dos resíduos resultantes das cadeias produtivas, além de noções de legislação de conservação e preservação. Desse modo, fechamos o texto com alguns apontamentos e perspectivas acerca do material pesquisado aqui exposto e dos argumentos tecidos; em síntese, que o caminho de transição depende de (re)educação ambiental de todos os agentes e é essencialmente político, além de técnico e econômico. INTRODUÇÃO O livro-texto da disciplina Agricultura Sustentável que você tem em mãos é mais uma forma de comunicação empregada pelo curso. Nele, esperamos que encontre algumas respostas e muitas questões de reflexão e pesquisa. Haverá sempre uma resposta sumária e aberturas para ir além do livro, das aulas, dos fóruns, das simulações e das demais formas de interações que permeiam sua passagem pela graduação em Agronegócios. Vamos discutir o que é ambiente, o que é o “agro” do ambiente e dos negócios ambientais e, portanto, seu manejo nas diversas atividades agrárias. Baseado na relação existente entre ambiente, território e paisagem, que são os componentes da questão ambiental, propõe-se o percurso que vai da natureza ao território, amparando-nos na Filosofia, na Ecologia e na Geografia. Aproveitando o aporte da Ecologia e da Geografia, vamos da imagem da natureza para as materialidades ou espacialidades dos ambientes e paisagens. Com o auxílio da teoria dos sistemas e da Ecologia reduzimos esse todo ao ambiente como conjunto de biomas e ecossistemas (compostos pelos processos que relacionam animais, solos, rochas, minerais, fungos e bactérias, entre inúmeros seres, que envolvem as reações biogeoquímicas e ciclos orgânicos, climáticos, rochosos, no solo, além das progressivamente mais intensas determinantes sociais), tornando-se, assim, passível de apreensão, medida e planejamento. 9 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 O sistema, como conjunto articulado de elementos com funções próprias e coerentes, permite atribuir funções, equacionar “variáveis”, quantificar, mensurar e operacionalizar, enfim, manipular a realidade reduzida, expandindo-a indefinidamente. Primeiramente se organiza o mundo visível, apreendido, para, depois, verticalizar o conhecimento. Os diferentes ecossistemas são tomados pela Geografia como unidades, com certa identidade, de conteúdo diversificado, complexo e dinâmico. Essas unidades aparecem como paisagens, ou melhor, como a diversidade paisagística do planeta: florestas tropicais, de tundra, taiga, savanas ou cerrados, desertos frios ou quentes etc. O nível das relações ambientais, objeto da ecologia, não é, normalmente, o terreno do administrador ou do engenheiro de macroestruturas, sendo aí que o escopo da Geografia traz a categoria de território para a análise e manejo da realidade ambiental do modo como nos interessa, pois é próprio ao conceito de território permitir o zoneamento, a regionalização, a departamentalização e a federalização das atividades humanas, seja nos ambientes ditos “naturais” ou naqueles mais urbanizados. O que se está querendo dizer é que a gestão do ambiente dar-se-á por intermédio do território em razão da escala (processos sociais macroestruturais) e possibilidades conceituais, dada a síntese que o território representa. A teoria geral da informação (EPSTEIN, 1988) nos mostra que a informação plena não existe, pois, para tomar sentido, ela requer redundância, repetição e redução. Todos os pixels da tela do monitor de TV, em seu máximo de luminescência, por exemplo, não cumprem sua função de mostrar movimento em imagens, o que fariam se acendessem gradativamente, ao passo que apenas uma luz de freio do painel do automóvel, quando acesa, informa claramente o que deve ser feito: averiguar o sistema de freios. Com esse espírito também é que, ao pedido de que cada aluno numa sala de aula faça uma lista de “tudo” o que esteja vendo, o resultado que se percebe é que o teor da lista será a um só tempo uma fração do “tudo” intuído e direcionada, determinada mesmo pela experiência e intenções. Nessa linha de raciocínio é que se percebe o porquê dos maiores fracassos das atividades de consultoria a uma empresa: diante de toda a complexidade de relações (informalidade, afetos, sentimentos, estratégias de despiste de coordenação etc.) que envolvem as organizações, difícil é confeccionar um instrumental eficiente de análise ou diagnóstico dos processos. Isso acontece devido à estreiteza de objetivos, normalmente limitados à dimensão do lucro concentrado, não alcançando outras esferas e dimensões humanas presentes nas organizações que, entretanto, manifestam-se a todo instante, sem a previdência dos planejadores e gestores, desatentos para a tal diversidade humana colocada em suspenso, senão ignorada. Trata-se, aqui, de uma redução assumida como possibilidade de conhecimento, que então passa a servir como ponto de partida para que desse modo empreenda-se um aprofundamento e expansão dos estudos com a ajuda da razão. Expansão que é o objetivo do pesquisador. Reiterando, aqui está a ciência e, logo, o plano da administração como se verá a seguir. Para gerir e planejar é preciso quantificar, sendo esse o reino do sistema e da função (equação), ao menos como ponto de partida, conforme ensina Motta (2003). 10 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Numa afirmação simples, ambiente e paisagem são, conforme já declarado, respectivamente conteúdo (objetos do sistema relacionados entre si) e forma do território.Se a natureza é “esse tudo” citado há pouco, ela é o ponto de partida da Filosofia, da arte, do pensamento religioso e, portanto, não será estudada por nós. O ambiente, reitera-se, é uma redução ou sistematização necessária, conforme os exemplos que mostraremos. O ambiente como lugar das relações energéticas entre os seres e com o meio é objeto da Ecologia. A paisagem é a forma que essas relações assumem, ou seja, a aparência das marcas das atividades humanas. O território é a categoria que reúne todas as outras e, assim como a paisagem, é objeto de estudo da Geografia, sendo fundamental à gestão ambiental. O território pode servir como síntese e expressão dos modelos “clássico” e alternativo de desenvolvimento (apresentados adiante), em suas dimensões política, cultural e econômica. A dimensão territorial da sociedade é aquela que expressa boa parte das relações sociais, é nela que estão os problemas e as soluções que as sociedades se dispuseram a “especializar”, pois nem todas as soluções vêm à luz para todos. Estradas e melhorias urbanas, como transportes, equipamentos coletivos e saneamento básico, estão desigualmente distribuídos pelo espaço, territorializados conforme decisão política manifesta. Para um aprofundamento da noção de território, pode-se consultar Santos (1996; 2001), além de Raffestin (1993). Território é o plano da realidade em que são definidos politicamente a ocupação do espaço e o uso dos recursos pelas atividades humanas. Veremos por que as atividades agrárias devem superar, enriquecer pela educação, pelas políticas públicas e legislação o negócio da venda de paisagens (pacotes turísticos voltados para as formas ambientais isoladas, como rios, cachoeiras, vertentes, lagos etc.), integrando-as como elementos ambientais, no território. Dizemos que as atividades humanas se territorializam como soluções aos seus problemas. Neste livro-texto são consideradas, principalmente, as soluções técnicas de fundo econômico, mais ligadas às necessidades satisfeitas por meio de uso dos recursos do território, tais como a construção de estradas, áreas de cultivo e indústria, portos etc. O território oferece uma boa porta de entrada para a análise e planejamento (diagnóstico e prognóstico) das relações e processos sociais, diretamente ligados à produção ou não. É nele que podem ser encontradas as razões de sua organização, ou seja, se a sociedade é uma organização de organizações, cada uma delas deverá, tanto como a articulação em diversos planos e escalas, apresentar-se em sua lógica espacial (redes, que são sempre geográficas). Algo como a junção entre os aspectos físicos e os humanos, na aludida geografia socioambiental (MENDONÇA, 2001). Trataremos do território como unidade entre natureza e sociedade, como expressão das atividades econômicas, culturais, administrativas e geográficas; todas elas transformadoras da natureza e conversoras do ambiente em recursos para a satisfação direta do ser humano e à produção de modo geral. As áreas mencionadas atuam sobre as relações ambientais por meio da organização territorial, tanto dos ciclos ecológicos (cadeias de energia e trabalho) quanto aspectos culturais e econômicos dos 11 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 recursos (valores e significados históricos). Trata-se de tomar o ambiente como unidade de interações entre o ser humano com sua cultura e as coisas e objetos que não constituiu. Apresentaremos, primeiramente, as agriculturas sustentáveis originais (grupos de estrutura social horizontal arcaica). Em seguida, a valorização econômica da escassez, numa introdução ao tema do mercado de produtos agropecuários e a formação das cadeias produtivas convencionais. O livro-texto apontará a consolidação e o declínio das atividades tradicionais, explorados com a categoria “problemas”, mais especificamente ligados ao que se pode chamar de abusos ou mesmo simples inadequação das aplicações da indústria química e biotecnológica (pesticidas, agrotóxicos e fertilizantes). Passaremos, então, aos princípios e dimensões da produção agropecuária e agroindustrial ligadas à sustentabilidade, abordando conceitos e histórico de agricultura sustentável, desenvolvimento limpo, sistemas e programas de gestão, caracterização e utilização da água, escalas de produção e quantificação de resíduos, tecnologias de tratamento, aproveitamento e destinos de resíduos sólidos e líquidos e noções de legislação e licenciamento ambiental. Por fim, aplicaremos tais princípios em alguns casos de estudo que permitem embasar e questionar perspectivas futuras e oportunidades de negócios cada vez mais saudáveis, os ecoempreendimentos. 13 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Unidade I 1 AGRICULTURAS SUSTENTÁVEIS ORIGINAIS OU SABERES E PERSONAGENS VERNÁCULOS: DOMESTICAÇÃO, CULTIVO E CRIAÇÃO DE PLANTAS E ANIMAIS EM EXPERIÊNCIAS E PRÁTICAS SUSTENTÁVEIS Para efeito deste trabalho, conhecimento tradicional é definido como o conjunto de saberes e saber-fazer a respeito do mundo natural, sobrenatural, transmitido oralmente de geração em geração. Para muitas dessas sociedades, sobretudo para as indígenas, existe uma interligação orgânica entre o mundo natural, o sobrenatural e a organização social. Nesse sentido, para estas, não existe uma classificação dualista, uma linha divisória rígida entre o “natural” e o “social”, mas sim um continuum entre ambos (DIEGUES, 2000b, p. 30). Estamos estudando aqui as transformações do ambiente, que é a natureza conhecida. Então, a primeira complicação: como chegar a esse ambiente que posso calcular, planejar? Como fazemos isso num curso de Agronegócio? Para isso, é preciso ir dos mitos, da religião, da arte, da Filosofia antiga à Ecologia, Agronomia e Ciência Geográfica e, por fim, à administração territorial dos recursos ambientais. O manejo dos ambientes dá-se em dois níveis principais: aquele da intervenção direta na estrutura biológica (da célula, dos tecidos, da genética etc.) e aquele que mais compete à organização territorial do ambiente (do geógrafo, administrador); mas ambos os níveis, micro e macro, complementam-se e alguns profissionais podem eventualmente atuar mais diretamente em um ou em outro, como o agrônomo, o biólogo, o engenheiro, o profissional de saúde pública e mesmo o médico. Se a “natureza inteira” é impensável e requer simplificação para o manejo, surge o ambiente como sistema de inspiração matemática, com o qual podemos operar, calcular, equacionar. Então, natureza somos nós juntamente com todos os outros e de todas as formas e possibilidades, conhecidas e desconhecidas. Aqui, não trataremos das formas desconhecidas, mas sim daquilo que conhecemos: o ambiente. Eis, assim, a solução que nos leva até a Ecologia (biomas, ambientes ou ecossistemas), Geografia (localizações, escalas e territórios dos usos) e Administração (organização e técnicas de controle dos usos). A natureza não é algo objetivo que está à nossa espera para manipulá-la e nos satisfazer; é, sim, a mistura de coisas com as quais estamos envolvidos, sejam plantas, fungos, rochas, minerais, gases, animais, insetos, dentre todos os demais seres. A razão da redução é a manipulação do conhecido: não há outro jeito de planejar e fazer projetos. Num sistema sabemos o que está ligado e para onde o conjunto se dirige. A humanização do sapiens-sapiens resulta diretamente de sua progressiva competência técnica, que requereu experimentação e conhecimento dos elementos de seu entorno com os quais passou a se relacionar conscientemente, primeiro de modo operacional e mítico e, só recentemente, científico. 14 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão: J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Vejamos algo importante nesses 15 mil anos, fundamental para nossa conversa: a domesticação dos outros seres na relação com a natureza. Ambiente, para nós, é uma primeira resposta racional e experimental ao problema do desconhecido: ambiente é uma redução da natureza ao conhecido; é a natureza conhecida. É uma redução sistêmica, isto é, redução a um todo funcional de elementos e situações conhecidos e projetados. A vida humana em desenvolvimento implica criação e manutenção de condições de existência, tanto materiais quanto espirituais, cujas principais dimensões sociais são política, econômica, cultural e territorial. O ambiente como um lugar das trocas de energia (cadeias alimentares, por exemplo), que liga tudo que identificamos e delimitamos, supõe problemas: quanto à ignorância dos desdobramentos da interferência nos processos biogeoquímicos nos níveis de seu funcionamento e quanto à sua apropriação social desigual, isto é, problemas no acesso diferenciado aos recursos e às riquezas produzidas a partir deles. A decisão e o controle do ambiente não são democráticos, aliás, nem mesmo se manifestam, são questões secretas e naturalizadas. O que está fora da questão ambiental? Nada. Nada está fora desse pacote, pois todos os seres estão em associação direta e indireta: plantas e rochas, estas e o clima ou as condições atmosféricas, ou ainda a topografia, as águas e as modalidades de usos sociais. Os conjuntos ou ambientes variam na combinação e no grau de ocorrência ou relevância dos elementos, cujas formas resultantes podemos observar nas diferentes paisagens, os desertos quentes e secos e as áreas pantanosas e florestais, por exemplo. O que significam os termos “lugar”, “território” e “paisagem”? Qual sua relação com o ambiente? São categorias geográficas de análise espacial e nos servirão de instrumentos de precisão no tratamento dos usos dos recursos. Primeiramente, todas as atividades requerem recursos como matéria-prima, energia e administração, localizados e combinados em territórios sempre disputados. As atividades de que estamos tratando são aquelas já chamadas primárias, isto é, agrárias, que englobam agricultura e pecuária, mais especificamente, na qualidade de sustentável. Quanto à sustentabilidade da produção, Gliessman (2000) afirma que agroecologia é a consideração dos processos ecológicos para uma agricultura sustentável e complementa: “Eu sempre começo dizendo que a agroecologia é a aplicação dos conceitos e princípios ecológicos no desenho e manejo de agroecossistemas sustentáveis” (GLIESSMAN, 2000, p. 4). Já agricultura sustentável “é uma agricultura que protege a base de recursos naturais e permite uma economia viável e também propõe um aspecto social justo e aberto a todos que fazem parte da sociedade” (GLIESSMAN, 2000, p. 4). 15 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Em se tratando de produção e negócios, é preciso caracterizar os papéis públicos e privados, isto é, aqueles do aparelho de Estado como um todo, nos níveis municipal, estadual e federal (autarquias, secretarias e ministérios) e aqueles dos setores privados (empresas de vários portes e investidores individuais). O que há de “novo” na sociedade e nos agronegócios é a via da sustentabilidade ambiental, da preservação do ambiente como valor ético, de uma ética prática: se não preservarmos as fontes há sérias dúvidas quanto à disponibilidade de estoques no futuro. A via sustentável é original em meio ao fazer corrente (restrita à sustentabilidade econômica dos negócios), que esgota recursos como solos, florestas, rios, mares, animais e suas áreas de ocorrência. Porém, é preciso distinguir o discurso das práticas efetivas dos agentes sociais. Saiba mais Na análise crítica dessas ações que se manifestam em campanhas publicitárias, mais do que nas intenções reais, recomendamos o trabalho de qualidade de Pierre-Pomier Layrargues: LAYRARGUES, P. P. A cortina de fumaça: o discurso empresarial verde e a ideologia da racionalidade econômica. São Paulo: Annablume, 1998. As políticas governamentais, as práticas levadas adiante por empresas privadas e os trabalhos de inúmeras organizações sociais são responsáveis pela direção e a qualidade do desenvolvimento do país (ABRAMOVAY, 2010, p. 97). Este autor reflete sobre a relação desintegrada entre diversas instâncias com suas atribuições, não formando um todo coerente, o que lhes retira justamente o alcance estratégico. Para ele: Desenvolvimento sustentável é o processo de ampliação permanente das liberdades substantivas dos indivíduos em condições que estimulem a manutenção e a regeneração dos serviços prestados pelos ecossistemas às sociedades humanas. Ele é formado por uma infinidade de fatores determinantes, mas cujo andamento depende, justamente, da presença de um horizonte estratégico entre seus protagonistas decisivos (ABRAMOVAY, 2010, p. 97). Para Abramovay (2010, p. 97), a sustentabilidade é de qualidade ética, estando em jogo “o conteúdo da própria cooperação humana e a maneira como, no âmbito dessa cooperação, as sociedades optam por usar os ecossistemas de que dependem”. Ainda segundo esse autor, embora tenham ocorrido melhorias sociais no Brasil, persistem graves problemas no acesso à educação, moradia, justiça e segurança. Ele vê graves problemas nos padrões dominantes de produção e consumo que se apoiam na degradação ambiental muito mais vigorosa do que o poder da legislação voltado a sua contenção. Haveria que promover inovação tecnológica “cada vez mais orientada a colocar a ciência a serviço de sistemas produtivos altamente poupadores de 16 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I materiais, de energia, e capazes de contribuir para a regeneração da biodiversidade” (ABRAMOVAY, 2010, p. 98). Indo direto ao ponto em sua análise da estrutura produtiva brasileira, o autor acrescenta que: [...] os significativos progressos dos últimos anos são ameaçados pela ausência do horizonte estratégico voltado ao desenvolvimento sustentável, tanto por parte do governo como das direções empresariais: de um lado a redução no desmatamento da Amazônia não é acompanhada por mudança no padrão dominante de uso dos recursos. Assim, apesar da contenção da devastação florestal, prevalece entre os agentes econômicos a ideia central de que a produção de commodities (fundamentalmente carne, soja e madeira de baixa qualidade), minérios e energia é a vocação decisiva da região. Além disso, ao mesmo tempo em que se reduz o desmatamento na Amazônia, amplia-se de maneira alarmante a devastação do cerrado e da caatinga. De outro lado, o segundo exemplo aqui apresentado mostra que o trunfo representado pela matriz energética brasileira não tem sido aproveitado para a construção de avanços industriais norteados pela preocupação explícita em reduzir o uso de materiais e de energia nos processos produtivos. A consequência e o risco é que o crescimento industrial brasileiro — ainda que marcado por emissões relativamente baixas de gases de efeito estufa — se distancie do padrão dominante da inovação contemporânea, cada vez mais orientada pela descarbonização da economia (ABRAMOVAY, 2010, p. 98). Antes de mostrarmos processos agropecuários industriais com crescentes valores econômicos agregados à produção muito impactantes nos grupos humanos, em seus estilos de vida e sistemas ambientais, e as alternativas mais sustentáveis, vamos apresentar brevemente formas de vida e produção que têm melhores relações com os ambientes, usando-os, mas mantendo-os, como agriculturas sustentáveis originais, com métodos vernaculares e que podemnos ensinar muito ainda hoje. São formas de vida muito antigas com aproximadamente 10.000 anos (HAVILAND et al., 2011, p. 120) que, como veremos adiante, praticavam atividades de coleta (extrativismo) e cultivo (agricultura, pecuária) similares àquelas que hoje chamamos agroecologia, esta que é um conjunto de conhecimentos e procedimentos inspirados nos baixos impactos negativos dos velhos saberes e usos. A agroecologia soube aprender. O território, que é nossa porta de entrada para essas questões, é moldado pelos usos dos grupos sociais, suas ligações com a natureza, mais especificamente com aquilo que chamamos ecossistemas ou conjunto ambientais, e mais organismos, identificando-os, classificando, inventariando, aplicando conhecimento, e também pelo modo como esses grupos representam tais usos na cultura que desenvolvem. Por usos nos referimos a todo trabalho desenvolvido pelo ser humano sobre as coisas, mudando-as e a ele próprio. Usar as coisas ao nosso redor é o que enraíza a história humana, portanto sigamos com uma palavrinha sobre como nos relacionamos com o ambiente circundante baseados na necessidade irrefletida de sobrevivência e no impulso de criar meios diferentes dos naturais que nos antecedem. 17 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Disciplinas como História, Antropologia, Arqueologia, entre outras, vêm em nosso auxílio no esforço de retorno no tempo de situações diferentes das atuais, embora com necessidades semelhantes. Standage (2010) nos leva por um caminho muito interessante quando mostra a dependência dos seres humanos em relação as suas novas criações e vice-versa. A agricultura, com solução para a obtenção de alimentos, passou a fornecer os meios de sustento mais confiáveis e abundantes, tornando-se a base de novas formas de vida e de sociedades mais complexas. Os alimentos mais importantes foram os cereais, como trigo e cevada no Oriente Próximo, arroz e milhete na Ásia e milho nas Américas. Figura 1 – Os centros de origem do milho, do trigo e do arroz domesticados As civilizações que surgiram posteriormente fundadas nessas bases alimentares, inclusive a nossa, devem sua existência a esses antigos produtos de engenharia genética (STANDAGE, 2010). Acompanhemos a história da espiga de milho contada por Tom Standage, que nos leva a pensar sobre domesticação e controle dos demais organismos (insetos, plantas e animais) de que necessitamos para viver. O autor identifica alimentos e tecnologias, atribuindo generosidade à natureza expressa numa espiga de milho, pois “com uma torção do punho ela é facilmente arrancada do caule, sem desperdício ou trabalho excessivo. É repleta de grãos saborosos e nutritivos, maiores e mais numerosos que os de outros cereais” (STANDAGE, 2010, C.1). Além disso, acrescenta que é protegida de pragas e da umidade por uma palha. Assim, o milho chega até nós como um presente da natureza; já vem até embrulhado. Mas não devemos nos enganar. O milho ou outro produto agrícola qualquer, numa área de cultivo, são tão manufaturados ou fabricados pelo homem quanto uma placa de computador, um livro ou um avião. 18 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I O autor reitera: Por mais que gostemos de pensar na agricultura como uma atividade natural, há 10 mil anos ela era uma estranha inovação. Para caçadores-coletores da Idade da Pedra, campos cuidadosamente cultivados que se estendiam até o horizonte seriam uma visão inusitada. O cultivo de terras é um projeto tão tecnológico quanto biológico. E no grande plano da existência humana, as tecnologias em questão – as plantações agrícolas – são invenções muito recentes (STANDAGE, 2010, C.1). Nossos ancestrais hominídeos distanciaram-se dos “macacos” cerca de meio milhão de anos atrás, tendo surgido os seres humanos “anatomicamente modernos” há mais ou menos 150 mil anos. Os humanos primitivos eram caçadores-coletores que se alimentavam de plantas e animais obtidos por coleta e caça diretamente da natureza. Começamos há aproximadamente onze mil anos a cultivar alimentos e a agricultura foi desenvolvida em momentos e lugares diferentes, de modo independente: “já estava estabelecida no Oriente Próximo por volta de 8500 a.C., na China por volta de 7500 a.C. e nas Américas Central e do Sul por volta de 3500 a.C.” (STANDAGE, 2010, p. 12). Como representado no mapa que acabamos de apresentar, irradiam-se dessas três regiões principais a tecnologia da agricultura para o mundo todo, tornando-se o meio de produção de alimentos da humanidade, por excelência. Trata-se de mudança de grandeza extraordinária para seres que tinham vida nômade, baseada na coleta e na caça, ao longo de toda a sua existência anterior. Se os 150 mil anos de existência dos seres humanos modernos fossem transformados em uma hora, somente nos últimos quatro minutos e meio eles teriam começado a adotar a agricultura, e ela só teria se tornado o meio dominante de subsistência no último minuto e meio (STANDAGE, 2010, p. 12). A mudança foi da procura de alimentos para a lavoura, “de um meio natural para um meio tecnológico de produção de alimentos” (STANDAGE, 2010, p. 14). Muitos animais coletam e armazenam sementes e outros alimentos, porém os seres humanos são os únicos a controlar as condições dos cultivares, a selecionar e projetar determinadas características desejadas. O autor acrescenta: “como um tecelão, um carpinteiro ou um ferreiro, um agricultor cria coisas úteis que não estão na natureza” (STANDAGE, 2010, p. 14). A domesticação é um grande milagre para a evolução humana. São instrumentos cuidadosamente elaborados para produzir comida de forma nova e em quantidades ampliadas, diferente das condições naturais. O autor fala das três plantas domesticadas que, em particular, provaram-se extremamente importantes: trigo, arroz e milho, pois enraizaram a civilização e ainda nos sustentam. O milho fornece a melhor demonstração de que colheitas domesticadas são inquestionavelmente criações humanas. A distinção entre plantas silvestres e domesticadas não é rígida. De fato, as plantas se distribuem num continuum: de inteiramente silvestres, passando por plantas que tiveram algumas 19 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL características modificadas para convir aos seres humanos, até aquelas inteiramente domesticadas, que só podem se reproduzir com ajuda humana. O milho encaixa-se na última categoria. Ele é o resultado da propagação, pelos seres humanos, de uma série de mutações genéticas aleatórias que o transformaram de uma simples erva num estranho e gigantesco mutante que não pode mais sobreviver na natureza. O milho é descendente do teosinto, um capim silvestre nativo do que hoje é o México. As duas plantas parecem muito diferentes. De fato, porém, apenas algumas mutações genéticas foram suficientes para transformar uma na outra. O autor fala um pouco do milho, para ilustrar seu raciocínio: Uma diferença óbvia entre o teosinto e o milho é que as espigas do primeiro consistem de duas fileiras de grãos contidas em invólucros duros, ou glumas, que protegem a parte comestível no interior. Um único gene, chamado pelos geneticistas modernos de tga1, controla o tamanho dessas glumas; uma mutação nesse gene resulta nos grãos expostos. Isso significa que os grãos têm menor probabilidade de sobreviver à viagem através do trato digestivo de um animal, pondo as plantas mutantes em desvantagem reprodutiva em relação às não mutantes, pelo menos na ordem normal das coisas. Mas os grãos expostos teriam também tornado o teosinto muito mais atraentepara seres humanos coletores, uma vez que não seria necessário remover as glumas antes do consumo. Ao coletar apenas as plantas mutantes, com grãos expostos, e depois usar esses grãos como sementes, protoagricultores puderam aumentar a proporção de plantas com grãos expostos. A mutação do tga1, em suma, tornou menos provável a sobrevivência do teosinto na natureza, mas tornou-o também mais atraente para os seres humanos, que propagaram a mutação (no milho, as glumas são tão reduzidas que só as notamos quando ficam presas entre nossos dentes. Elas são o filme sedoso e transparente que envolve cada grão) (STANDAGE, 2010, p. 14). Figura 2 – A evolução do teosinto ao protomilho e à espiga moderna 20 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Continuamos a descrição da evolução da agricultura do paleolítico, neolítico, culminando na sedentarização, para entendermos seu significado na relação com os recursos. Seguimos falando um pouco mais sobre as atividades originais que chamamos de tradicionais e como elas mantêm ligações profundas com o mundo em que foram criadas há milênios (MAZOYER; ROUDART, 2010). Há traços muito profundos das várias populações em seus diversos estágios de desenvolvimento e conhecimento de manejo e organização de seus espaços, bem como heranças das formas e procedimentos, junto com suas condições criativas originais que marcaram a terra e configuraram as paisagens. Mesmo com todas as mudanças nos instrumentos e tecnologias de transformação da matéria nas diversas partes da Terra, ainda persistem vestígios com intensidades variadas. Antes das marcas mais profundas, nossos ancestrais, no período paleolítico, eram nômades e praticavam extração de frutos, raízes, fibras, rochas e minérios (HAVILAND et al., 2011). As atividades de domesticação e cultivo desde o neolítico estão na base da fixação humana nos ambientes ecúmenos, isto é, favoráveis à reprodução da vida humana (HAVILAND et al., 2011). Há uma humanização de pedaços de espaço (paisagens) dominados pelas projeções humanas, tornados menos inóspitos pelos símbolos e rituais, responsáveis pelas cadeias de confiança desses homens e mulheres em seu sustento, como afirma Cassirer (1968, p. 83-84): Não pode surgir nenhuma energia criativa de uma atitude inteiramente passiva. A este respeito, até a magia deve ser considerada um passo importante no desenvolvimento da consciência humana. A crença na magia é uma das primeiras e mais fortes expressões do despertar da confiança do homem em si mesmo. Não se sentindo mais à mercê das forças naturais ou sobrenaturais; começa a desempenhar o seu papel e se torna um ator no espetáculo da natureza. Toda prática mágica é baseada na convicção de que os efeitos naturais dependem fortemente fatos humanos. A vida da natureza depende da distribuição justa e cooperação das forças humanas e sobre-humanas. Um ritual rigoroso e complicado regula esta cooperação. Cada campo particular tem suas próprias regras mágicas. Alguns são especiais para a agricultura, para a caça, a pesca; nas sociedades totêmicas os vários clãs têm ritos mágicos diferentes que constituem seu privilégio e seu segredo são tanto mais necessários quanto mais difíceis e perigosos são para ser executados. A magia não é usada para fins práticos, para ajudar o homem sobre as necessidades do dia a dia; têm objetivos mais elevados, empresas arriscadas e perigosas. Observação Deve-se destacar o papel da domesticação como fundamental para entendermos as feições do mundo moderno, como os animais denominados 21 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL de estimação (cães pequenos, com raças criadas por cruzamentos etc.), até frutas com polpas saborosas em tamanhos generosos (abacaxi, kiwi, morangos). Raras eram as espécies animais e vegetais prontas para comer, encontradas diretamente na natureza do modo como as conhecemos, pois elas vêm sendo adaptadas para facilitar os hábitos alimentares dos seres humanos e animais alimentados por nós. Sauer (1956) também nos ajuda sobre a importância e a diversidade da vida e da produção do homem na Terra. Ao falar das formas de vida camponesa e pastoril, Sauer (1992) trata das sucessivas intervenções revolucionárias do ser humano sobre a natureza, apontando como a principal delas a que veio quando ele selecionou certas plantas e animais tomando-os sob seus cuidados para serem reproduzidos, criados e domesticados cada vez mais de modo dependente dele para sobrevivência. A adaptação dessas formas para servir às necessidades humanas é contrária, como regra, ao processo de seleção natural. Com isso foram introduzidas novas linhas e processos da evolução orgânica, ampliando o fosso entre as formas selvagens e domésticas. A biota, a superfície e o solo natural foram deformados, gerando paisagens culturais instáveis. Convencionalmente, as origens da agricultura são localizadas no início da era neolítica, embora seja óbvio que o registro arqueológico recente do neolítico apresenta um quadro de domesticação alcançado em plantas e animais, da agricultura e da vida pastoral que se assemelha às condições que ainda podem ser encontradas em algumas partes do Oriente próximo. Carl Sauer (1992) apresenta três premissas sobre a origem da agricultura: 1. Esse novo estilo de vida foi sedentário, que surgiu a partir de uma sociedade sedentária anterior. Na maior parte das condições, especialmente entre agricultores primitivos, a terra plantada precisava ser vigiada continuamente contra predadores dos cultivares. 2. A atividade de plantio e domesticação não foi desenvolvida a partir de fome, mas de fartura e de tempo livre. As pessoas vítimas de fome não têm oportunidade e incentivos para a seleção lenta e contínua de formas domésticas. Comunidades aldeãs são as que oferecem circunstâncias favoráveis a tais progressos. 3. A agricultura primitiva está localizada em terrenos arborizados. Mesmo o fazendeiro americano pioneiro apenas invadiu pastos até meados do século passado. Seus campos foram clareiras estabelecidas pela morte das árvores, geralmente através de corte. Quanto maior era a árvore, mais fácil a tarefa; já o matagal requeria que se arrancasse e cortasse; as pradarias detiveram seu avanço, enquanto não se dispusesse de arados capazes de cortar os tapetes de raízes. Os restos no chão da floresta foram limpos com queima ocasional; troncos mortos quase não interferiram no seu plantio. O pioneiro americano aprendia e aplicava práticas indígenas. Curiosamente, os acadêmicos, por carregarem em seus pensamentos as imagens nítidas de campos arados criados pelo agricultor europeu com o corte de árvores com um machado, pensaram tantas vezes que as florestas repelem a agricultura e que as terras abertas a convidam. 22 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I A mais antiga forma de agricultura envolve fazer furos, muitas vezes chamada − e, geralmente, de maneira imprópria − “cultivo de enxada”. Esta era a única maneira conhecida no Novo Mundo, na África Negra e nas ilhas do Pacífico. Em um nível avançado, levou aos jardins e horticultura de monções na Ásia e, talvez, no Mediterrâneo. Suas ferramentas modernas são a pá, o forcado e a enxada, todos derivados de formas antigas. Na América tropical, esse tipo de cultura é conhecido como “conuco”; no México, como “milharal”, sendo esta última um plantio de sementes de milho, abóbora, feijão e talvez outras espécies anuais. O “conuco” é composto principalmente por raízes e videiras, em um terreno de jardim perene. Recentemente, foi proposto o renascimento da antiga palavra norueguesaswithe ou “roça” (SAUER, 1992). O horto começa detendo o crescimento das árvores, seguindo com a queima no final do período seco, de modo que as cinzas servem como um fertilizante imediato. No espaço “clareado” planta-se um conjunto diversificado de plantas úteis, cultivadas em linhas, se a fertilidade e a umidade são adequadas. No complexo de milho – feijão – abóbora, os caules e folhas desta última estendem-se pelo terreno; talos de milho crescem em altura e são enrodilhados por feijões. Assim, o solo está bem protegido por um dossel, com uma boa intercepção de chuva. Cada conuco pode conter uma variedade de plantas, a partir de gramíneas de arbustos como o algodão e mandioca, e as árvores cultivadas cobertas de vinhas. A aparente desordem, na verdade, corresponde a um uso completo de luz e umidade, um substituto ecológico admirável manipulado pelo homem, talvez equivalente à cobertura natural na proteção oferecida à superfície do solo. No conuco tropical, um pedaço de solo adequado é escavado em locais convenientes e a qualquer momento para extrair ou colher plantas diferentes, sem a necessidade de se escavar toda a área plantada. A extração e o plantio de raízes podem ocorrer simultaneamente. Nossas ideias sobre a época de colheita em que toda a produção é extraída do campo são inaplicáveis. Em conucos, você pode colher algo quase qualquer dia do ano. A mesma planta pode entregar verduras para a panela e salada, flores ricas em pólen, verdes e frutos maduros; a mesma lógica cabe à horticultura e ao cultivo de campos (culturas arbustivas). Cada planta pode ter, assim, vários usos domésticos. Essa ocupação múltipla do espaço cultivado permite maiores rendimentos por unidade de área, adicionando-se a observação de que neste sistema desenvolveram-se plantas de alta produtividade, como bananas, inhame e mandioca, cuja produção de alimentos não é de modo algum o único uso de tais plantas (SAUER, 1992). Em suma, os conucos são tipos de cultivo mais vantajosos. Os sistemas agrícolas realmente não merecem os nomes “invejosos” que lhes forem atribuídos, tais como “corte e queima” ou “a agricultura itinerante”. O abandono dos cultivos depois de um tempo antes dos novos rebentos de plantas selvagens lenhosas é uma forma de rotação através do qual o solo é restaurado para nutrientes extraídos por árvores e arbustos de raízes profundas, a serem espalhados sobre a superfície como resíduos. Tal uso da terra é livre das limitações do terreno ao campo arado. Que possa oferecer bons retornos em declives íngremes e ravinas não é um bom argumento contra o método, que oferece uma melhor proteção contra a erosão do solo do que qualquer forma de recuperação. É também nesta cultura que são estabelecidos sistemas de terraceamento em encostas (SAUER, 1992). Alguns dos problemas atribuídos ao sistema resultam do impacto tardio de nossos próprios métodos de cultura, tais como o acesso a machadadas e facões, através da qual é possível eliminar focos de ervas daninhas, em vez de deixar a terra descansar sob o novo crescimento das plantas; a substituição de culturas de subsistência para as culturas de rendimento; o rápido crescimento da população mundial e demanda por bens industriais, associada a melhores padrões de vida. Não argumentam que sob este 23 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL primitivo sistema de cultura, o homem poderia melhor satisfazer as suas necessidades, sem esgotar o solo. Em vez disso, em seus procedimentos básicos e suas plantações, este sistema nos permite manter um alto grau de fertilidade do solo, com altos níveis de performance. Sendo protetor e intensivo, podemos considerar totalmente adequado às condições físicas e culturais das áreas onde ela existe. O nosso conhecimento ocidental é orientado para o uso da terra para uma curta série de anos e não equivalente à sabedoria do camponês primitivo enraizada em suas terras ancestrais (SAUER, 1992). Nossas atitudes em relação ao cultivo vêm de outro tronco antigo, do qual brotam agricultores, colheitadeiros e os ceifeiros; homens do arado, que dependem de criadores de gado leiteiro e pastores de rebanhos. Este é o complexo que já está bem representado nos primeiros sítios neolíticos no Oriente Próximo. O interesse desta cultura é especificamente voltado para a produção de mudas anuais, especialmente gramas de cereal. A semente é cuidadosamente preparada com antecedência para minimizar o crescimento de plantas daninhas e fornecer uma luz na bem trabalhada superfície do solo em que as pequenas sementes germinam. A superfície lisa e bem trabalhada contrasta com pilhas dispersas de terra – “colinas” na fala do camponês americano – característica do conuco e do milharal. Em vez de uma variedade de plantas, o solo é preparado para receber sementes de um único tipo. O Oeste da Índia é uma exceção significativa. As plantas não recebem cultivo adicional, desenvolvendo-se até a maturidade, quando são colhidas uma vez. Após a colheita, o campo pode ficar em pousio até a temporada seguinte. Os instrumentos do cultivo é o arado; em segundo lugar, as grelhas, ambos usados para preparar o solo para o plantio. Este é tradicionalmente feito lançando-a aos punhados, e da colheita, utilizando lâminas afiadas (SAUER, 1992). Rebanhos de animais, gado de corte, ovinos, caprinos, cavalos, jumentos e camelos são raros ou têm uma presença recente neste sistema. Cuidar de animais pastando ou ruminando é básico. Eles são ordenhados, ou eram no passado. Na opinião de Sauer (1992), a ordenha é uma atividade original e um elemento qualitativo de domesticação, e em muitos casos se manteve sua principal utilidade econômica, enquanto a carne e couro foram apenas os produtos de origem animal. Este complexo espalhou-se de seu berço no Oriente Médio, especialmente em três direções, mudando seu caráter diante das mudanças ambientais e devido ao crescimento populacional: • difusão para as estepes da Eurásia, a cultura perdeu preparo e tornou-se plenamente pastoral, com o nomadismo real; • dispersão dos celtas, germânicos e eslavos para o oeste parece ter tomado seus assentamentos históricos principalmente como criadores de gado e cavalos; • a dispersão das culturas de plantio e pastagem para o oeste ao longo de ambos os lados do clima mediterrânico, não sendo necessário um ajuste significativo. O trigo e a cevada continuaram os cereais de colheita; ovinos e caprinos tiveram maior importância do que gado e cavalos. A descrição das transformações nas concepções e nas técnicas leva Sauer (1992) à identificação de problemas, como erosões, desertificação, alterações climáticas, rupturas da biodiversidade, gerados por nossas atividades agrárias em larga escala para o crescente mercado. Fala da importância de um saudoso 24 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I manejo que promovia integração entre plantas e animais, o que era comum nesses modelos antigos. Defende um aprofundamento dos estudos arqueológicos para entender os papéis dos ambientes e das culturas no desenvolvimento das práticas agrícolas menos impactantes e mais inteligentes do ponto de vista da Ecologia. A retomada histórica de nossos primórdios produtivos deve-se à importância das origens da questão ambiental, isto é, da problemática tão antiga quanto nosso manuseio da terra para plantar. Sempre há impactos, de grande ou pequena extensão, diretos ou indiretos. Nossa jornada do neolítico para cá pode ser identificada por grandes transformações, que implicam perdas e ganhos na qualidade de vida. Essas transformações aparecem de muitas maneiras como uma crescente desumanização da natureza do ser humano, conferindo uma ideia da base subjetiva quecompõe o assunto. O caminho segue pelo tratamento da natureza, mesmo sem considerá-la em toda a variedade cultural de concepções que dela existe. Já apontamos tal dificuldade há pouco. A natureza é tudo, apresenta o presente e o passado, é interna e externa ao ser humano, sendo condição da cultura e por esta também transformada. É o ponto de partida da Filosofia, dela continuamente escapando em virtude de sua complexidade. Reiteramos que por razões de método científico, não nos deteremos nesse nível de complexidade. Prova de que esse plano está além de nossa percepção, entendimento e cálculo, são as doenças, as cadeias energéticas e mesmo todas as ligações promovidas pelos impactos e poluições que indicam nosso desconhecimento dos demais seres (estruturas orgânicas e inorgânicas), com os quais nos relacionamos em profunda ignorância. Esta parece ser a causa maior dos desequilíbrios. Registramos que é atribuição do método unir sujeito e objeto do conhecimento, no ambiente que é a natureza conhecida, atribuindo sentido à prática e aproximando-nos da realidade possível por meio de roteiro e de instrumentos mais modestos. É por isso que a questão ambiental tornada acessível pela sua dimensão territorial já está no nível do conhecido (plano que nos permite a reprodução e a produção de artefatos), a partir da sistematização da realidade visível e intervenção. Assumem-se, portanto, os limites da razão para poder em seguida expandir o conhecimento que se pode ter. Reduz-se para, em seguida, expandir. Saiba mais Permanecendo apenas no rol dos cientistas que corroboram a visão dos limites da percepção, é importante conhecer: EL-HANI, C. N.; PEREIRA, A. M. Notas sobre a percepção e interpretação em ciência. Revista USP, n. 49, p. 148-159, 2001. SANTOS, L. G. Politizar as novas tecnologias: o impacto sociotécnico da informação digital e genética. São Paulo: Editora 34, 2003. 25 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Falemos um pouco sobre os saberes vernaculares (da população) como primeiros ou genuínos saberes de qualquer ser humano, sua importância e sobre o imenso preconceito acadêmico que desencadeia. A base de todo o conhecimento contemporâneo deve se estabelecer sobre um diálogo entre o novo científico e tecnológico e suas premissas com aquelas formas de ver e fazer que nos apareçam como diferentes. Os saberes vernaculares, segundo Collignon (2010), são populares, tradicionais, nativos, endógenos, locais, cotidianos e ordinários. Todas essas expressões, apesar da sua diversidade, cobrem o mesmo campo: o do conhecimento não científico. A autora comenta sobre a dificuldade em nomeá-los e qualificá-los com segurança. Diz ela que o termo “conhecimento vernacular” apareceu no início de 1990 e vem ganhando terreno na Geografia. “O principal desafio é o reconhecimento do valor do conhecimento não-científico para a produção de conhecimento científico de qualidade. [...] “Há muito tempo, o termo ‘conhecer’ foi reservado para o que ocorreu nos escritórios e laboratórios dos ‘cientistas’ e ‘pesquisadores’” (COLLIGNON, 2010, tradução nossa). Béatrice Collignon (2010, tradução nossa) afirma: Para construir o conhecimento [...] deve basear-se em informações coletadas de pessoas consideradas bons conhecedores de seu território por causa de sua prática diária do mesmo. Mas isso tem que parar o interesse que pode lhes dar. A circulação do conhecimento entre as diferentes esferas (cientista, ordinário, perito etc.) também foi atualizado. O desenvolvimento de etnogeografia também mudou a visão sobre o conhecimento dos outros, mas, mantendo-os sob certo exotismo. O conhecimento caracterizado por essa expressão é baseado em pesquisa sobre como as próprias pessoas pensam e compreendem os seus lugares, paisagens e territórios, e deveria ser obrigatório na construção de qualquer estudioso sobre a nossa “terra”. Tais saberes são de difícil sistematização, pois são pouco formalizados e não tendem à teorização, dificilmente transmissíveis de um indivíduo para outro ou para um membro externo ao grupo. Uma das dificuldades é que tal saber é erigido em larga medida sobre a experiência individual, embora contextualizada culturalmente (COLLIGNON, 2010). Por fim, para o cientista que pretende construir um saber pertinente sobre o mundo, a autora acrescenta: Ora, este mundo não existe sem os seus povos, atores de sua contínua transformação. As ações são baseadas em suas representações do mundo, representações que refletem seu conhecimento deste mundo. Portanto, é imperativo tê-lo em conta. Além disso, o estudo da particularidade de cada conhecimento vernacular abre um questionamento promissor sobre as razões culturais do conhecimento científico. Se ele difere significativamente do conhecimento vernacular, há, contudo, certa continuidade com as suas raízes na cultura ocidental. Finalmente, contextualidade e finalidade prática dos saberes vernaculares colocam-nos mais perto do real que não cessa de se 26 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I transformar, sendo forçado a reformular-se constantemente para se adaptar a essas mudanças. A velocidade com que podem fazê-lo é relacionada à sua estrutura rica e reativa ao invés de analítica, deixando-os sempre à frente de formulações acadêmicas. Capturam em um movimento global, de forma parcial e em parte intuitiva, o conhecimento, que o saber científico pode, então, formalizar e teorizar. Este último tem, pois, tudo a ganhar com um diálogo com os primeiros (COLLIGNON, 2010, tradução nossa). Saiba mais Nosso esquecimento das razões ou trama de causas desencadeadoras das inovações é um dos maiores males que atinge o conhecimento moderno. Então, segue a título de exemplo desse esquecimento uma questão, aparentemente prosaica, entretanto, fundamental: a do mundo sem geladeira! WEBER, C. Y. How spices and smoking food developed in hot and cold regions. [s.d.]. Disponível em: <http://geography.about.com/od/ culturalgeography/a/Fire-And-Ice-The-Geography-Of-Food-Preservation. htm>. Acesso em: 1 fev. 2014. A classificação de um grupo como “população tradicional” é bastante polêmica e suas implicações ultrapassam a teorização, envolvendo uma série de questionamentos relacionados às políticas territoriais, ambientais e tecnológicas: [...] uma vez que os diversos organismos multilaterais que trabalham em torno deste assunto apresentam dificuldades e discordâncias na tentativa de indicar uma definição aceita universalmente”, posição que facilitaria “a proteção dos conhecimentos tradicionais difundidos pela tradição oral destas populações (PEREIRA; DIEGUES, 2010, p. 39). No Brasil, o Decreto nº 6.040, de 7 de fevereiro de 2007, refere-se ao termo ”populações tradicionais” como povos ou comunidades tradicionais, os quais são definidos pelo artigo 3 como: I – Povos e Comunidades Tradicionais: grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição (BRASIL, 2007). 27 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Observação É preciso esclarecer que o tradicional tem coerência ambiental e territorial, isto é, própria ao acontecer local, enquanto convencional traduz pactos entre grupos sociais hegemônicos sobre formas de produzir. Apesar da existência da definição legal para “populações tradicionais”,é preciso considerar que o termo é permeado por aspectos semânticos e está sujeito a modificações. Partindo desse pressuposto, procurar-se-á assinalar algumas de suas características, a fim de possibilitar uma melhor compreensão das questões inseridas no cenário que envolve as populações tradicionais e respectivos conhecimentos, entre as quais são evidenciadas a transmissão oral, a existência de uma ampla ligação com o território habitado, os sistemas de produção voltados para a subsistência e o caráter econômico pré-capitalista (PEREIRA; DIEGUES, 2010, p. 39). As comunidades tradicionais utilizam recursos naturais in loco, pois estabelecem relação direta com os recursos ambientais criando territórios, “assim como a fiação nos mesmos esteve diretamente acoplada aos ecossistemas locais, devido ao desenvolvimento das atividades culturais e de subsistência dessas populações” (PEREIRA; DIEGUES, 2010, p. 39). Diegues (2008, p. 63) afirma que: Na concepção mítica das sociedades primitivas e tradicionais existe uma simbiose entre o homem e a natureza, tanto no campo das atividades do fazer, das técnicas e da produção, quanto no campo simbólico. Essa unidade é muito mais evidente nas sociedades indígenas brasileiras, por exemplo, onde o tempo para pescar, caçar e plantar é marcado por mitos ancestrais, pelo aparecimento de constelações estelares no céu, por proibições e interdições. Mas ela também aparece em culturas como a caiçara do litoral sul e ribeirinhos amazonenses, de forma menos clara talvez, mas nem por isso menos importante. Nessa linha de reflexão, como já trouxemos ao texto ao nos referirmos à natureza impensável, “o manejo dos recursos está diretamente ligado com mitos, regras, valores e conhecimentos, que definem a maneira e período como tais recursos serão utilizados”, podendo ser considerados “elementos culturais regulatórios” ao determinarem as atitudes das pessoas diante do ambiente (PEREIRA; DIEGUES, 2010, p. 39). 28 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Saiba mais Para uma brilhante apresentação do ser humano e suas relações com a natureza constituindo o mundo, recomendamos o trabalho clássico de Eric Dardel: DARDEL, E. O homem e a Terra: a natureza da realidade geográfica. São Paulo: Perspectiva, 2011. Depois da apresentação de um pouco da evolução da agricultura e de algumas colocações sobre saberes vernaculares, passemos agora para uma lista dos personagens reais desses saberes, produto de pesquisa de Diegues (2000b). Em seu livro, Diegues (2000b) apresenta um quadro detalhado sobre as populações tradicionais, tanto de indígenas quanto de não indígenas no Brasil, numa perspectiva histórica: O Brasil, além de apresentar uma das maiores taxas de diversidade biológica do planeta, é um dos países de maior diversidade cultural. Existem no país mais de 500 áreas indígenas reconhecidas pelo Estado, habitadas por cerca de 200 sociedades indígenas culturalmente diferenciadas, as quais desenvolveram, ao longo dos séculos de sua existência, formas de adaptação a toda variedade dos ecossistemas presentes no território nacional (DIEGUES, 2000b, p. 26). A participação das populações indígenas foi fundamental e as áreas que ocupam são as de cobertura florestal mais preservada, assumindo papel de obstáculo à devastação ambiental que vai se expandido. Diegues (2000b, p. 26) afirma que “isso se aplica também às situações de envolvimento de povos indígenas em processos de extração ambientalmente predatórios (madeira, minérios etc.)”, pois suas organizações sociais são calcadas em restrições ao uso desmedido de recursos naturais, assim como ao acúmulo privado, além desses povos terem desenvolvido aprofundado conhecimento e manejo territorial dos recursos nos ambientes que habitam. Segundo Diegues (2000b, p. 26), a conquista dos territórios indígenas no Brasil Colônia capitaneada pelos portugueses a partir do século XVI moldou na população rural não indígena um padrão sociocultural de adaptação ao meio que, apesar de suas diferenças regionais e temporais, “apresenta características comuns que marcam ainda hoje as comunidades humanas em regiões isoladas do país”. Tal padrão de ocupação do espaço e de utilização dos recursos naturais é tributário do contato com as formas indígenas, pois já haviam domesticado muitas espécies dos ambientes totalmente desconhecidos do conquistador não europeu. Portugueses e brasileiros, ao longo do empreendimento colonial, adotaram as técnicas adaptativas indígenas, aprendendo a manejar milho, mandioca, abóbora, feijões, amendoim, batata-doce, cará etc. Foram bastante influenciados pelo conhecimento indígena, tanto no que concerne ao cultivo quanto às 29 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL formas de trabalho e de sociabilidade. A organização econômica dá-se com base nas unidades familiares, como unidades de produção e consumo que se integram em relações mais amplas, como nos mutirões e empreitadas comuns, congregados pelo calendário religioso e articulando-se em estruturas flexíveis em função das necessidades mais prementes de adaptação, sobrevivência e expansão, constituindo os ”bairros rurais”, embriões dos atuais distritos municipais mais importantes, que em sua maior parte são os mais intensamente urbanizados. Essa configuração em espaço agrário caracteriza-se por certa dispersão geográfica, mas não isolamento, pois “esses ‘sitiantes tradicionais’ sempre mantiveram certa relação de dependência com os pequenos núcleos urbanos, com os grandes proprietários rurais e as autoridades locais, expressa nas categorias de meeiros, parceiros, posseiros, pequenos proprietários e colonos” (DIEGUES, 2000b, p. 27), o que caracteriza sua posição na estrutura fundiária e social. Adotaram os produtos de coleta compondo sua dieta com a extração do palmito e de inúmeras frutas nativas como o maracujá, pitanga, goiaba, bananas, caju, mamão e tantas outras. E, como complemento essencial, apoiaram-se na caça e pesca. Isso implicou a adoção de técnicas de plantio indígenas (roça consorciada, itinerante, com base na queimada, tipo “slash-and-burn”), de artefatos como as peneiras, os pilões, o ralo, o tipiti e outros implementos que fazem parte da cultura rústica brasileira. Implicou também a incorporação da extraordinária capacidade de ajustamento ao meio demonstrada pelos índios: conhecimento minucioso dos hábitos dos animais, técnicas precisas de captura e morte, incluindo inúmeros tipos de armadilhas. A base alimentar indígena foi ampliada e mesclada com espécies vegetais trazidas de fora, como o trigo, o arroz branco, legumes, bananas exóticas e outros, naturalizadas e incorporadas à dieta da população. A lista de elementos apropriados das culturas indígenas é enorme e não caberia aqui detalhá-la, mas apenas mencionar mais alguns itens como as técnicas de fabrico e uso de canoas, da jangada, de tapagem, redes e armadilhas de pesca, de cobertura de casas rurais com material vegetal, o uso da rede para dormir etc. (DIEGUES, 2000b, p. 27-28). Observação Os interesses externos sempre prevaleceram na confirmação do nosso território colonial e imperial, desde a escolha dos sítios de exploração até mesmo seu abandono e refluxo de povoamento. Diegues (2000b, p. 27-28) desenvolve esse raciocínio das imposições de modelos externos sobre as antigas colônias, tão fundamental à compreensão das localizações dos “grupos étnicos” e culturais: Em linhas bastante gerais, a colonização portuguesa dedicou-se à exploração intensiva de certos produtos valiosos no mercado internacional, promovendo o adensamento populacional apenas nas regiões em que essa exploração era mais bem-sucedida.Dessa forma o centro nervoso da economia brasileira 30 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I migrou de região para região ao sabor da substituição de um produto por outro. Cada uma dessas regiões — o litoral no ciclo do pau-brasil, o Nordeste no ciclo da cana-de-açúcar, nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás no ciclo do ouro e pedras preciosas, os estados de Amazonas e Pará no ciclo da borracha etc.— concentrou em períodos diversos da história do Brasil núcleos populacionais e produção econômica de certa envergadura, baseados no trabalho escravo, e na monocultura ou extrativismo de um único produto. A perda da importância econômica ou o esgotamento do recurso em exploração deslocava o eixo do povoamento deixando a região ao abandono, restando no mais das vezes núcleos populacionais relativamente isolados e dispersos subsistindo numa economia voltada para a autossuficiência, marcados por uma fisionomia e características predominantemente indígenas (DIEGUES, 2000b, p. 28). Para Darcy Ribeiro (1977), esse modelo desdobra-se em grupos de cultura rústica ou criola, coexistindo tanto com as fazendas monocultoras quanto com as fazendas de criação de gado, constituindo a base da produção do abastecimento para essas empresas e os povoados e expandindo-se por todo o Brasil à medida que encontrava terras devolutas para reproduzir seu modo de vida. O autor aponta os traços dos grupos que identifica e os regionaliza: [...] classifica as variantes desse modelo de povoamento rural de cultura criola — desenvolvida na faixa de massapé do Nordeste, sob a égide do engenho açucareiro; cultura caipira — constituída pelo cruzamento do português com o indígena e que produziu o mameluco paulista, caçador de índios e depois “sitiante tradicional” das áreas de mineração e de expansão do café e que se apresenta no litoral sob o nome de cultura caiçara; cultura sertaneja — difundida pelo sertão nordestino até o cerrado do Brasil central pela criação de gado; cultura cabocla — das populações amazônicas, afetas à indústria extrativa; e cultura gaúcha — de pastoreio nas campinas do sul (RIBEIRO, 1977). Esses grupos vêm sendo marginalizados, no Brasil, geográfica (habitando periferias) e historicamente (por desdobramentos regionais do mesmo processo de valorização periódica desigual), adotando o que Darcy Ribeiro (1977) chama de “cultura criola” e Diegues (2000b), “modelo da cultura rústica”. A tônica recente na questão ambiental motiva certo “olhar pedagógico” sobre os métodos de produção “tradicionais”, por nós denominados originais. Diegues (2000b, p. 29) faz importante observação: “ao deslocar o eixo de análise do critério da produtividade para o do manejo sustentado dos recursos naturais, evidenciou a positividade relativa dos modelos indígenas de exploração dos recursos naturais e desse modelo da cultura rústica [...]”. O que há de mais importante nos saberes das populações “tradicionais”, como seringueiros, castanheiros, ribeirinhos, quilombolas e sociedades indígenas, é a elaboração de “extenso e detalhado conhecimento dos processos naturais e, até hoje, as únicas práticas de manejo adaptadas às florestas” 31 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL (DIEGUES, 2000b, p. 29), contribuindo para a boa utilização da biodiversidade pelos migrantes estrangeiros, sobretudo, no domínio da agricultura e da silvicultura. As populações tradicionais não indígenas são trazidas aqui a partir de conciliação do conceito de “áreas culturais”, com base na qual alguns autores buscaram ordenar essas populações com um enfoque mais operacional, utilizando também as denominações que constam dos trabalhos analisados. Destacamos, conforme trabalho de Diegues (2000b), as seguintes populações tradicionais não indígenas: caiçaras, caipiras, babaçueiros, jangadeiros, pantaneiros, pastoreio, praieiros, quilombolas, caboclos/ribeirinhos amazônicos, ribeirinhos não amazônicos, varjeiros, sitiantes, pescadores, açorianos e sertanejos/vaqueiros. A fim de esclarecer o contexto cultural e o modo de vida em que se produz o conhecimento tradicional dessas populações, apresentamos uma descrição sucinta de cada uma delas. Caiçara Diegues (2000b, p. 41) faz uma revisão bibliográfica sobre o universo das populações caiçaras e define a categoria de vida e trabalho da seguinte maneira: Entende-se por caiçaras aquelas comunidades formadas pela mescla da contribuição étnico-cultural dos indígenas, dos colonizadores portugueses e, em menor grau, dos escravos africanos. Os caiçaras apresentam uma forma de vida baseada em atividades de agricultura itinerante, da pequena pesca, do extrativismo vegetal e do artesanato. Essa cultura se desenvolveu principalmente nas áreas costeiras dos atuais estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e norte de Santa Catarina. Alguns autores consideram que as comunidades caiçaras se formaram nos interstícios dos grandes ciclos econômicos do período colonial, fortalecendo–se quando essas atividades voltadas para a exportação entraram em declínio. A decadência destas, principalmente as agrícolas, incentivou as atividades de pesca e coleta em ambientes aquáticos, sobretudo os de água salobra como estuários e lagunas. No interior desse espaço caiçara, surgiram cidades como Parati, Santos, São Vicente, Iguape, Ubatuba, Ilhabela, São Sebastião, Antonina, Paranaguá que, em vários momentos da história colonial, funcionaram como importantes centros exportadores. As comunidades caiçaras sempre mantiveram com essas cidades, em maior ou menor intensidade, contatos e intercâmbio econômicos e sociais, também dependendo delas para o aprovisionamento de bens não produzidos nos sítios e nas praias. Esse contato se manteve por via terrestre (caminhos), fluvial e marítima, tendo-se destacado, do século passado até as primeiras décadas do século XX, as chamadas “canoas de voga”, onde se transportavam produtos agrícolas, peixe seco, aguardente etc. 32 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Jangadeiros As atividades de pesca dos jangadeiros são baseadas na “jangada” como instrumento de trabalho, uma embarcação que utiliza vela e leme para a pesca em alto mar e que, embora tenha sido usada também por indígenas, foi fruto de várias adaptações introduzidas pelos europeus e pelos africanos. Os jangadeiros são essencialmente pescadores marítimos que habitam a faixa costeira situada entre o Ceará e o sul da Bahia; pescando com jangadas. Para efeito deste relatório, apesar dessa área geográfico-cultural, chamada por Maynard de “janganda” em oposição à área litorânea sulina, chamada por ele de “ubá” (canoa de um tronco só), muitos dos trabalhos coletados e analisados referem-se à pesca com canoas, nos estuários dessa região, ou com botes, que muitas vezes sucederam as jangadas, sobretudo a partir dos anos 50, no Nordeste. No entanto, esses trabalhos foram incorporados à área de jangadeiros (DIEGUES, 2000b, p. 46-47). Caboclos/ribeirinhos amazônicos As populações tradicionais não indígenas da Amazônia caracterizam-se sobretudo pelas suas atividades extrativistas, de origem aquática ou florestal terrestre. Os caboclos/ribeirinhos, seringueiros e castanheiros são populações tradicionais extrativistas; ribeirinhos vivem nas várzeas e beiras dos rios em que pescam e, enquanto muitos dos seringueiros e castanheiros vivem à beira de rios, igapós e igarapés, outros vivem em terra firme, dependendo menos das atividades pesqueiras. Os caboclos/ribeirinhos vivem, principalmente, à beira de igarapés, igapós, lagos e várzeas. Quando as chuvasenchem os rios e riachos, estes inundam lagos e pântanos, marcando o período das cheias, que por sua vez regula a vida dos caboclos. Esse ciclo sazonal rege as atividades de extrativismo vegetal, agricultura e pesca dos habitantes da região. Quando começa a cheia, torna-se impossível fazer roça e mesmo a pesca e a caça tornam-se mais difíceis. Esses caboclos são extrativistas e agricultores, que produzem em regime familiar, vendendo o excedente e, frequentemente, em períodos de maior demanda de força de trabalho lançam mão da troca de dias entre vizinhos. Como os sítios ocupam as beiras dos rios, os ribeirinhos podem tirar proveito das várzeas, colhendo produtos alimentícios, principalmente a mandioca, mas também frutas e ervas medicinais. Nas florestas, extraem o látex para a venda e também a castanha do Pará, além de criar pequenos animais domésticos e alguns deles têm também algumas cabeças de gado. Moram em casas de madeira, construídas em palafita, mais adaptadas ao sistema das cheias (DIEGUES, 2000b, p. 50). Os caboclos/ribeirinhos desenvolvem conhecimento minucioso das várzeas dos rios e das matas, “coletando alimentos, fibras, tinturas, resinas, ervas medicinais, bem como materiais de construção. E eles utilizam produtos vegetais que podem ser agrupados em manejados e não-manejados” (DIEGUES, 2000b, p. 50). 33 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Sertanejos/vaqueiros São ocupantes da “orla descontínua ainda úmida do agreste e prosseguem com as enormes extensões semiáridas das caatingas” (DIEGUES, 2000b, p. 50). Também adentraram o Brasil Central, nas elevações do planalto de campos cerrados que se estendem por milhares de quilômetros quadrados, com vegetação rala. Ocupam o agreste, as caatingas e os cerrados, com atividades pastoris junto à produção açucareira, fornecedores de carne, couro e bois de serviço. As atividades pastoris, nas condições climáticas dos sertões cobertos de pastos pobres e com extensas áreas sujeitas a secas periódicas, conformaram não só a vida, mas também a própria figura do homem e do gado. Assim associados, multiplicando-se juntos, o gado e os homens foram penetrando terra adentro, até ocupar, ao fim de três séculos, quase todo o sertão interior. No curso desse movimento de expansão, todo o sertão foi sendo ocupado e cortado por estradas abertas pela batida das boiadas. Estas marchavam de pouso em pouso, pousos esses que se transformariam mais tarde em vilas e cidades, célebres como feiras de gado, vindo de imensas regiões circundantes. Mais tarde, as terras mais pobres dos carrascais, onde o gado não podia se desenvolver, foram dedicadas à criação de bodes, cujo couro encontrou amplo mercado. Crescendo junto com o gado esses bodes transformam-se mais tarde na única carne ao alcance do vaqueiro. Assim é que os currais se fizeram criatórios de gado, de bode e de gente: os bois para vender, os bodes para consumir, os homens para emigrar (DIEGUES, 2000b, p. 50-51). Integram uma cultura complexa, com experiências que vão desde associações com grupos dominantes pela violência do cangaço, até mesmo por alimentarem rotas migratórias pelo país em diversas direções. No Centro-Oeste, o vaqueiro se torna assalariado (fazendas cercadas por arame – regime pluvial regular – a exploração pastoril se torna um negócio racionalizado). O vaqueiro passa então a comprar a carne (DIEGUES, 2000). Caipiras Os caipiras são hoje, em grande parte, sitiantes, meeiros e parceiros que sobrevivem precariamente em nichos entre as monoculturas do Sudeste e Centro-Oeste, em pequenas propriedades em que desenvolvem atividades agrícolas e de pequena pecuária, cuja produção se dirige para a subsistência familiar e para o mercado. [...] A pequena propriedade caipira acabou, em grande parte foi incorporada pela grande propriedade e somente conseguiu subsistir em nichos onde a mecanização agrícola não pode avançar, como nas áreas montanhosas da Mata Atlântica e da Serra do Mar (DIEGUES, 2000b, p. 52-53). 34 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Segundo o autor as monoculturas de café e cana, as fazendas de gado, grilagem e conflitos pela posse de terras e a urbanização crescente desarticularam o mundo caipira no Centro-Sul. Açorianos Cconhecidos como pescadores andorinhas por migrarem sazonalmente entre o Rio Grande do Sul e São Paulo, de origem açoriana e excelentes profissionais da pesca. Resumidamente: Os açorianos são descendentes dos imigrantes açorianos e também dos madeirenses e portugueses continentais que se estabeleceram no litoral catarinense e rio-grandense a partir de meados do século XVIII, guardando traços culturais próprios (Lisboa 1997), fruto da miscigenação com negros e índios. Esses colonos eram agricultores e pescadores em seus lugares de origem e, quando se fixaram no litoral sul do Brasil passaram a combinar a agricultura com a pesca. [...] Como grande parte deles viviam isolados, de início garantiram sua subsistência tomando emprestado técnicas e espécies cultivadas dos indígenas, como, por exemplo, a mandioca. O óleo para iluminação era retirada de peixes e baleias. As igrejas eram o ponto de encontro para onde iam, aos domingos, usando carroças e carros de boi (DIEGUES, 2000b, p. 52-53). Varjeiros (ribeirinhos não amazônicos) Varjeiros ou varzeiros são consideradas aquelas populações tradicionais que vivem às margens dos rios e várzeas, sobretudo às margens do rio São Francisco. Essa denominação é também aplicada a ribeirinhos e caboclos de outros rios, como o Paraná. Pantaneiros O homem do Pantanal, residente no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Constitui-se numa população que vive numa das maiores áreas inundáveis do planeta, subsistindo à base de atividades agro -pastoris nas fazendas da região ou e m pequenas propriedades à beira dos rios. O Pantanal não é uma entidade homogênea, é formada por vários pantanais (de Cáceres, Piaiaguás, Poconé, Barão de Melgaço, Nhecolândia, Aquidauna, Paraguai, Miranda, Nabileque e Abobral. Cada tipo de Pantanal está relacionado principalmente com as sub-bacias de drenagem e apresentam diferenças na extensão e duração das cheias, na organização e distribuição espacial das paisagens, ecossistemas, comunidades biológicas e humanas (DIEGUES, 2000b, p. 56). Os pantaneiros são formados por fazendeiros, peões, vaqueiros, capatazes, barqueiros, pescadores e garimpeiros, fruto da miscigenação com as tribos indígenas originais, colonizadores vindos do Sudeste e dos escravos negros. 35 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Há uma sazonalidade nas atividades dos pantaneiros, marcada pelo contraste entre os períodos de estiagem e das grandes enchentes. Quilombolas Quilombos estão associados à refúgio, resistência, criando áreas de isolamento para proteção de perseguições de caçadores de escravos. Os quilombolas são descendentes dos escravos negros que sobrevivem em enclaves comunitários, muitas vezes antigas fazendas deixadas pelos antigos grandes proprietários. Apesar de existirem sobretudo após a escravatura, no fim do século passado, sua visibilidade social é recente, fruto da luta pela terra, da qual, em geral, não possuem escritura. A Constituição de 1988 garantiu seu direito sobre a terra da qual vivem, em geral de atividades vinculadas à pequena agricultura, artesanato, extrativismo e pesca, segundo as várias regiões em que se situam. Assim os quilombos da Amazônia, muitas vezes situados ao longo dos rios e igarapés, garantem sua subsistência com a pequena pesca, o extrativismo e a pequenaagricultura. Em outras regiões, as atividades são quase exclusivamente agrícolas (DIEGUES, 2000b, p. 52). Pastoreio (campeiro) Pastores, os gaúchos vivem nos pampas e coxilhas no sul do país, no interior do Rio Grande do Sul. Os pampas gaúchos são marcados por montanhas baixas, intercaladas por vales, com vegetação campestre entremeada com pequenos capões florestais. Além disso, [...] os gaúchos constituem-se num grupo pastoral, de cavaleiros e trabalhadores rurais vinculados à pecuária extensiva da região do pampa, vivendo no local onde trabalham, nas grandes estâncias voltadas para a produção de gado de corte e de lã. As famílias vivem em pequenos vilarejos, identificados como “las casas”, nos limites das grandes propriedades rurais (DIEGUES, 2000b, p. 58). O gaúcho resulta da miscigenação do povo guarani com espanhóis e portugueses; “especializaram-se na exploração do gado alçado e selvagem que se multiplicava muito nas pradarias naturais das duas margens do rio da Prata” (DIEGUES, 2000b, p. 52). Pescadores Categoria populacional espalhada pelo litoral, pelos rios e pelos lagos. Seu modo de vida é baseado principalmente na pesca, mesmo exercendo outras atividades econômicas complementares, como o extrativismo vegetal, o artesanato e a pequena agricultura. 36 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Embora, sob alguns aspectos, possa ser considerada uma categoria ocupacional, os pescadores, particularmente os chamados artesanais, apresentam um modo de vida peculiar, sobretudo aqueles que vivem das atividades pesqueiras marítimas. Frequentemente, mesmo alguns grupos como os jangadeiros e praieiros identificam-se primordialmente como pescadores. Alguns deles, mesmo vivendo em espaços e lugares definidos neste trabalho como os de jangadeiros e praieiros, são classificados como pescadores. Por exemplo, mesmo na região costeira onde historicamente se concentraram os jangadeiros, existem pescadores que não pescam com jangada e sim com canoas em estuários, lagunas e rios. Nesse caso, foram classificados com o termo mais genérico de jangadeiros. O mesmo se aplica aos que utilizam os botes, embarcações que frequentemente substituíram as jangadas, no Nordeste (DIEGUES, 2000b, p. 58). Babaçueiros Populações extrativistas que vivem principalmente da coleta do babaçu e da utilização dessa palmeira, sobretudo no Meio-Norte, na zona do cerrado e floresta. Sitiantes À semelhança da categoria dos pescadores, a dos sitiantes é bastante ampla, cobrindo aquelas populações que, apesar de basear seu modo de vida na agricultura, desempenham outras atividades complementares, como a pesca, o artesanato, o trabalho assalariado. Podem ser considerados pequenos produtores rurais, morando em pequenas propriedades rurais – os sítios–, nos interstícios da grande propriedade ou em bairros rurais, no caso paulista (DIEGUES, 2000b, p. 60-61). Em algumas regiões eles se confundem com os “caipiras” ou “caboclos” Em alguns estudos, essas populações aparecem como caboclos-sitiantes ou sitiantes-caipiras, ou ainda pescadores-sitiantes. Ainda que muitos deles dediquem parte de sua produção, sobretudo a agrícola e a da pequena pecuária, ao consumo familiar, eles estão também intimamente vinculados ao mercado, para o qual dirigem uma parte importante de sua produção. São também dependentes de fragmentos de mata − quando esta existe em sua propriedade − para a retirada do mel, de ervas medicinais, de cipós e de fibras para o artesanato, barro para a cerâmica etc. Praieiros Os praieiros são moradores da faixa litorânea da região amazônica compreendida entre o Piauí e o Amapá. São genericamente chamados de pescadores, pescadores artesanais, mas apresentam características socioculturais que os diferenciam das outras comunidades litorâneas, como os caiçaras e jangadeiros. Os praieiros são muito influenciados por 37 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL uma grande diversidade de ecossistemas e hábitats que se caracterizam por grandes extensões de mangue, litoral muito recortado e marcado por uma grande amplitude de maré, ilhas e também praias arenosas e dunas, como ocorrem nos Lençóis Maranhenses. No litoral do Maranhão, por exemplo, existe uma das maiores variedades de embarcações a vela e, mais recentemente, motorizadas, usadas tanto na pesca quanto no transporte entre as vilas. A atividade principal dos praieiros é a pesca, ainda que em muitos lugares eles complementem sua renda com atividades agrícolas em pequena escala, o extrativismo e, mais recentemente, o turismo. O manguezal, o mais diversificado e rico do Brasil é um dos hábitats mais importantes da região, constituindo-se numa fonte essencial para vários produtos locais como o pescado, os crustáceos e moluscos, a madeira para construção de casas e barcos, remédios e tinturas (DIEGUES, 2000b, p. 61). Essa população tem sido estudada de forma mais sistemática somente nas últimas décadas. As populações indígenas Segundo Diegues (2000b, p. 61), há apenas estimativas sobre a quantidade de indígenas no continente americano antes da conquista europeia; estimativas que ficam ao redor de 100 milhões de habitantes, um quarto da população mundial da época, com cerca de 400 milhões de habitantes. Em 1998, a Fundação Nacional do Índio (Funai) contava 318.233 índios no Brasil. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) estimava a população indígena em 325.652 índios, baseado em informação da própria Funai de 1997, e a Confederação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) estimava-os em 334.000. Por sua vez, o levantamento do Instituto Socioambiental (de 1995, com revisões parciais até 1998), o único que apresenta as fontes e datas dos levantamentos parciais nos quais se baseia, estima a população indígena brasileira em cerca de 280.000 índios. Esses números não incluem os índios desaldeados que vivem em cidades, nem tampouco os cerca de 53 grupos indígenas ainda isolados, dos quais se tem indícios na Amazônia e ainda vários grupos de contato mais recente, dos quais se desconhece a população total. No tocante à população indígena no território que veio a constituir o Brasil, na mesma época, as estimativas demográficas oscilam entre dois e oito milhões de habitantes, correspondentes a cerca de mil etnias diferenciadas. Hoje a imprecisão sobre o total da população indígena brasileira ainda permanece […]. É esta a qualidade dos dados – fragmentados, irregulares e, muitas vezes, desatualizados – que tem servido para as estimativas sobre a população indígena atual no Brasil (DIEGUES, 2000b, p. 61-62). 38 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Caiçara Jangadeiros Pastoreio Caipira Sertanejo vaqueiro Açorianos Pescador Populações tradicionais indígenas Populações tradicionais Legenda Ribeirinho e amazônico Área de concentração indígena Quilombola Figura 3 – Mapa das populações tradicionais Lembrete As atividades vernaculares ou tradicionais oferecem uma pista da origem das relações de trabalho humano sobre a natureza. São como uma ponte para a agricultura sustentável de conteúdo e técnicas atuais e devem ser bem estudadas para que possamos aprender com elas. O professor Claval (2010, p. 9-10) leva a frente a empreitada de popularizar ou vulgarizar o conhecimento formal (pensamento científico), afirmando que: • a geografia, a história, etnografia e a economia, por exemplo, são saberes comuns, assim a geografia é um saber banal, ao alcance de todo mundo, de um acesso demasiadamente fácil e não ensina nada que não se possa descobrirpor si mesmo com um pouco de bom senso, exprime-se na língua de todos os dias, mostra-se em imagens diretamente compreensíveis, não é um saber elaborado, baseado em abordagens sofisticadas; 39 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL • a mesma observação poderia ser feita às outras ciências sociais: a história não tem o monopólio da evocação do passado; ela o faz com um rigor que a diferencia do universo do mito no qual estavam imersas as culturas tradicionais, mas a diferença é por vezes tênue. As histórias nacionais, tal como começaram a ser escritas no século XIX, ancoram os povos num passado de grandeza e de glória, mas ignoram a torpeza dos poderosos e a exploração frequentemente selvagem das classes populares. Apesar das pretensões científicas daqueles que contam sua gênese, a nação é uma construção mítica; • a etnografia durante muito tempo se voltou para grupos distantes no espaço e no tempo; eles nos eram desconhecidos. O que ela apresentava parecia exótico, mas se limitava a descrever o cotidiano das populações em questão: tal quadro podia passar por original para o público ocidental, mas era banal e sem mistério para os membros dos grupos estudados; • a economia investiga a riqueza e os meios de criá-la. Mas todo mundo não tenta fazer o mesmo por seu próprio governo? Com essas ideias, o autor aproxima o saber acadêmico científico da vida comum e continua refletindo sobre as ciências sociais e saberes vernaculares, mais especificamente sobre os saberes geográficos das sociedades tradicionais: A geografia fala do que nos cerca: ela nos faz descobrir os climas, as formações vegetais, as paisagens desconhecidas, ela nos leva a percorrer os meios ambientes extremos. Mas os quadros que ela pinta e que nos fascinam são aqueles que os moradores dessas terras longínquas têm sob os olhos, quiçá aqueles cuja belicosidade desafia há muito tempo suas iniciativas. Uma das maiores novidades introduzida pela geografia no início do século XX, sob o impulso de Vidal de la Blache (em 1911), é a análise dos gêneros de vida. Ali no Valais suíço, no vale de Anniviers que Jean Brunhes analisa, os homens no fim do inverno abandonam as aldeias (Brunhes, em 1906): os pastores seguem com os rebanhos o crescimento das plantas forrageiras e ganham os prados de altitude na primavera, depois os prados de alta montanha no verão. Enquanto isso, outros adultos colhem as gramíneas da terra para alimentar os animais quando o inverno chegar, ou descem até o vale do Ródano para cuidar dos vinhedos (CLAVAL, 2010, p. 9-10). 2 PRODUÇÃO DA ESCASSEZ ARTIFICIAL: DA ECOLOGIA AO MARKETING Aos olhos do saber ambiental, a economia fundou-se numa lei (mecânica) fora da lei (simbólica) da proibição, do limite (LEFF, 2001, p. 191). Vimos como a humanidade encontrou os meios para sair do estado de fome constante. Na modernidade fomos da produção em abundância à produção da escassez artificial, isto é, da ilusão de escassez de natureza para valorizá-la nos mercados. 40 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Assim, tratamos dos limites sociais, biológicos e físicos dos modelos vigentes de uso e exploração da natureza para um desenvolvimento ambientalmente insustentável. Aqui, a técnica continua protagonista, só que agora estará se desviando de suas origens inteligentes ao criar geografia e cultura com base no entendimento, com as tecnologias vernáculas. A filosofia das técnicas de Milton Santos (1985, p. 13) nos dá o tom para enfrentar o assunto da diversidade das soluções técnicas e de suas transformações. Os estilos de vida envolvem a produção em todos os seus momentos e são funções da descoberta dos elementos da natureza e do ordenamento territorial desse meio integrado (pessoas-recursos) nascente da relação com o entorno. Ou seja, as características de cada povo são manifestações culturais oriundas dessa relação dos seres humanos em grupos com seus lugares e os recursos (objetos de interesse vital) ali localizados. O caminho que nos traz da natureza ao ambiente é um caminho de conhecimento das propriedades dos materiais e é o mesmo que nos leva da arte e da religião ao abastecimento, isto é, das possiblidades artísticas que de um lado fazem da árvore escultura, monumento ou totem, e de outro lhe conferem um caráter utilitário em objeto de uso, como um móvel, uma casa. Portanto, a evolução dos pequenos cultivos às grandes plantações, do jardim aos hortos e hortas profissionais, implica transformações de ordem qualitativa (perda do domínio intelectual e operatório do processo) e quantitativa (ganho relativo de volumes com a escala). E como abundância não faz altos preços, ela somente atende ao atributo da concentração em geral. A concentração é a marca política e econômica dos circuitos produtivos expressos territorialmente. O que as dimensões política e econômica conseguem esconder o território vai mostrar: os interesses aparecem numa estrada, obra de infraestrutura, equipamento rural ou urbano, linha de ônibus ou de metrô etc. Saiba mais Milton Santos (1979) expõe de modo brilhante a “teoria dos dois circuitos”, superior e inferior, demonstrando como as cadeias de produção (e as demais relações sociais representantes do “alto” e do “pequeno” capital) se “especializam” de modo diferencial e desigual. SANTOS, M. O espaço dividido. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979. Há uma questão de método na base da concepção que deve integrar tanto a dimensão abstrata (normatização e diretrizes à ação gerencial dos recursos) quanto a prática (o fazer, o manejar no plano concreto). Para tanto, devemos partir da pergunta: importa a questão ambiental ao administrador? Por quê? Questão que ganha força quando o público a que se dirige é de estudantes de Gestão de Negócios. Administrar significa, do ponto de vista lógico, organizar as atividades sociais para o desenvolvimento. Daí a validade da argumentação que ora é encaminhada. 41 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Diante de si, tem o administrador uma imensa gama de impactos ambientais relacionada aos modelos de desenvolvimento, além dos correspondentes instrumentos de gestão dos recursos ambientais. O emprego dos conceitos já interfere na realidade que se está tentando apresentar e, por isso, a questão teórica é também importante para o administrador, tem por objeto os sistemas de gestão e a gestão de sistemas; então, a sistematização da natureza permite a ele, como de resto a todos os outros técnicos e cientistas, operar com a realidade conhecida. A administração, ao incumbir-se de gerenciar processos, estará relacionada aos instrumentos de gestão, havendo uma dimensão originária, num nível mais abstrato, que é o modelo de desenvolvimento escolhido por uma sociedade ou conjunto delas, em que são definidas as premissas e as prioridades, incluindo os tais instrumentos. Portanto, os elementos-chave dos eixos de gestão estudados são dois grandes modelos de desenvolvimento e seus correspondentes modos e instrumentos de gestão, que adquirem tanto mais visibilidade quanto mais sejam tomados como realidade territorial (RAFFESTIN, 1993). Eis uma grande interface entre geografia e administração. Esquematicamente, os eixos A e B teriam a seguinte configuração, com conteúdos sociais e ambientais distintos e até mesmo divergentes, embora complementares em alguns aspectos: • modelos de desenvolvimento (convencional e/ou alternativo) – modelos e instrumentos de gestão correspondentes; território transformado pelos processos. É preciso fazer uma advertência sobre a intensa banalizaçãode propostas, teorias, concepções e instrumentos, muitas vezes esvaziados de seus significados originais, como muitas vezes a própria questão da sustentabilidade. Exemplos bastante em voga são: • o desenvolvimento sustentável, agroecologia, coleta seletiva e reciclagem de materiais; • “retrologística” ou logística reversa aplicada aos processos (produção e circulação). Há uma tendência à “transferência” da responsabilidade institucional (das agências federais de governança, por exemplo) aos indivíduos, devido à falência dos sistemas de armazenamento e distribuição de água potável e de energia elétrica domiciliar, que passam a ser regulados pelo mercado. A ética deve nortear as atividades econômicas consideradas como parte da questão ambiental, tais como produção estrita, comércio e serviços, permitindo uma discussão das formas de “humanização do lucro”, por meio da responsabilidade social de todas as organizações de um modo geral. Torna-se necessário apresentar todos os sujeitos sociais envolvidos nos processos produtivos e as características da exploração do ambiente, os principais conflitos e as possibilidades de conciliação. Isso é básico em qualquer diagnóstico ambiental. O território dá visibilidade estrutural ao desenvolvimento. Definido o território de que se está tratando, é preciso enfocar a organização empresarial da produção e divisão territorial do trabalho na modernidade. O desenvolvimento das forças produtivas no capitalismo estruturou seu espaço geográfico e pode, também, ser analisado pelo arranjo espacial das diversas etapas e unidades dos sistemas produtivos e no 42 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I funcionamento da gerência desses objetos e redes, como manifestação de poder corporativo. No caso das organizações de capital privado é desejável que se argumente em favor de um planejamento com planos flexíveis, participativos (democráticos) e acompanhamento dos empreendimentos implantados, sem perder de vista as finalidades públicas da produção de riqueza social. Trata-se de perseguir uma “nova administração”, com princípios de gestão ambiental verdadeiramente sustentável (objetivos, responsabilidades e instrumentos efetivos). A empresa do trade turístico, como qualquer outra, deve propor formas de desenvolvimento social a partir da compreensão ecológica dos lugares, retomando a problemática da sustentabilidade, e adequar-se ou discutir, nos fóruns competentes, as políticas públicas. Os impactos ambientais nocivos são aqueles proporcionados pelas estratégias produtivas correspondentes ao “modelo convencional” de desenvolvimento, seus postulados científicos e tecnológicos alinhados aos preceitos positivistas do “como?”, muito mais do que “por quê?”. Os sistemas de gestão, seja o convencional ou o crítico e alternativo, têm ambos seus instrumentos de gestão. O modelo de gestão convencional possui tarifas (já rotineiras, habituais), como aquelas de energia elétrica, telefone e água, entre outras, além da extração e do emprego de recursos e materiais de uso já consagrado – petróleo, por exemplo. As propostas alternativas, como a de reciclagem, taxação de poluidor-pagador, coleta seletiva e “cultivo-de-mata-em-pé” são, por princípio, excelentes ideias ao nascer (concepção do projeto de lei, por exemplo), mas já nos primeiros passos são cooptadas pelo sistema produtivo ou modo de produção (além de suas modificações no trâmite legislativo). Um instrumento ou conjunto de instrumentos, de início revolucionários (na elaboração), transformam-se em instrumentos mutilados que, no máximo, demonstram algumas de suas “boas intenções” como expressão de possibilidades. Ehlers (1998, p. 86) fala dessa realidade alternativa como projeto. Há manuais técnicos sobre o assunto de conteúdo atualizado e de uso prático, classificando didaticamente os instrumentos, como os de Barbieri (2010) e Seiffert (2007). Tanto as políticas quanto os programas públicos e privados de melhoria das condições ambientais envolvem, como já afirmamos há pouco, avaliações e propostas dirigidas às atividades econômicas e ao ambiente. Os instrumentos de gestão, em geral mais utilizados, são o Estudo de Impacto Ambiental – EIA, Relatório de Impacto Ambiental – Rima, Avaliação de Impacto Ambiental – AIA, Sistemas de Gestão Ambiental – SGA e as certificações diversas, como a ISO 14001, os “selos verdes” (sobre dumping social e barreiras não tarifárias por meio dos selos), tarifas públicas, como de lixo, de água, pelo uso e pelo serviço, de luz, entre outras. Propostas de reaproveitamento de resíduos produzidos pelas atividades agrárias, pelos processos e operações turísticos ou pelas atividades agregadas nos clusters, podem minimizar os problemas ambientais. Embora esteja no rol das ações conservadoras, como a reciclagem, o reaproveitamento não resolve o problema, mas pode minimizá-lo. Há muitas falhas de gestão, agregadas a graves problemas éticos no que diz respeito ao cumprimento das leis por parte das pessoas “físicas” e “jurídicas”, bem como problemas tão ou mais pronunciados 43 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL nas áreas de fiscalização das atividades sociais, além dos problemas com o baixo investimento em pesquisa científica. E o que é mais radicalmente ruim: leis muito brandas em comparação as suas congêneres estrangeiras. Aos problemas já comuns – por exemplo, jogar lixo em ecossistemas muito frágeis, como os bosques tropicais e mangues e provocar a poluição do ar por emissão de gases dos automóveis e dos rios pelo despejo de esgotos – somam-se novos, como a detectada contaminação da água dos rios pelo excesso de substâncias tóxicas, como os princípios ativos de medicamentos. Agrotóxicos e pesticidas são problemas já incorporados e absolvidos por grande parte das agronomias e engenharias. O território como encontro de necessidades e recursos permite visualizar, destacar, pesquisar, indagar e questionar os sujeitos dos problemas. Assim, pode o desenvolvimento ir “além da economia”? Como coordenar políticas e programas ambientais às atividades econômicas e ambiente concreto? Sen (1993) oferece-nos avaliações e propostas, como pistas, introduzindo questões como satisfação, miséria, justiça e liberdade ao pensamento econômico. Os problemas agudos e os mais sutis que nossas sociedades vêm enfrentando, no que concerne aos desequilíbrios ambientais, demandaram respostas conceituais e técnicas, como os conhecidos sistemas de gestão ambiental, além de novos instrumentos de gestão menos impactantes e a revisão de alguns dos já existentes. Principalmente no caso da agropecuária moderna, que é altamente impactante e arriscada para a vida. Cada um dos instrumentos, convencionais ou alternativos, propiciaria estudos e textos próprios, dada a amplitude técnica e teórica da questão. Prosseguindo no esclarecimento do campo ambiental da gestão e o papel do território nessa leitura e consequente planejamento, há o interesse de colocar em cena uma face do debate entre teses ambientais, desde aquelas da maior radicalidade e mesmo revolucionárias de um lado, até às mais pragmáticas de outro. Radicalidade, em princípio, é algo necessário e logicamente justificado para qualquer empreendimento de mudança real. Os modelos de desenvolvimento, sumariamente apresentados, sugerem modos próprios de encarar as transformações que cada um deles preconiza. Analisando o modelo conservador capitalista, chamado aqui de convencional, o presente texto prioriza as linhas críticas de pensamento e ação, como as que seguem. No modelo convencional, usa quem paga; não obstante muitos não possam pagar, a exemplo das notícias que reportam a má distribuição deenergia. Desigualdade que também aparece nos maus tratos dos citadinos para com seus mananciais. Ainda, “em 45 anos, segundo a ONU, três bilhões de pessoas poderão estar vivendo em favelas” (WEISSHEIMER, 2005), além da agropecuária com nível tóxico acima dos admissíveis pelos padrões internacionais de saúde. Contudo, o problema é grave tanto nas cidades quanto nos ecossistemas agrários, pois ocorre fartamente a ocupação e manejo inadequados de lugares cuja capacidade de suporte de atividade social moderna é baixa, proporcionando riscos e impactos ambientais intensos, como é o caso da Mata Atlântica devastada por séculos de ocupação e do Pantanal Sul-Mato-Grossense. 44 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Os impactos crescentes trazidos pela modernização tecnológica aumentam, sem medida, os riscos específicos, tornando-se até mesmo uma área de estudo. Destacamos, resumidamente, as grandes linhas de abordagens das questões ambientais: • aquela mais próxima da geografia, representada por Moraes (2002), que, ao considerar a dimensão espacial, torna-se mais aplicável ao planejamento da produção, pois valorizando a categoria de território como via principal da gestão, propõe uma gestão territorial do ambiente. Essa é uma concepção mais delimitada do ponto de vista das “possibilidades efetivas”, o que implica uma redução da problemática ambiental ao âmbito socioespacial por intermédio, principalmente, da categoria de território. E duas outras abordagens, mais radicais (no sentido de mais aprofundadas e filosóficas): • aquela que esboça uma espécie de gestão democrática dos recursos, ao modo como o faz E. Leff (2000) aproximando-se da economia e propondo mudanças profundas nas práticas sociais, coletivas, baseadas em auto-gestão participativa dos recursos, com a constituição de uma racionalidade ambiental. Seu projeto funda-se numa problematização da produção capitalista recorrendo a Karl Marx, Michel Foucault e Max Weber, com vistas a superar, assim, a racionalidade econômica vigente. Sua racionalidade ambiental é uma reação aos problemas fundiários e alimentares eternizados pelo modelo dominante de relações produtivas, ao mesmo tempo que se preocupa em oferecer uma resposta factível e organizada econômica e administrativamente; • e, finalmente, aquela de N. M. Unger (2001) com suas considerações filosóficas sobre as práticas resultantes da relação do ser humano com sua natureza, o imaginário e as emoções que se confundem com processos socioespaciais como o de desertificação, envenenamento orgânico e ambiental com pesticidas, cisão nas identidades de grupo e como indivíduo, expressão de desenraizamento dos sujeitos afastados de suas práticas culturais. O ponto forte de seu trabalho é a proposta de uma reconciliação entre “saberes e fazeres”, empregando as noções de híbris e theoria. Reduziu-se a dois tipos ideais ou modelos a extensão daquilo que se entende e pratica como desenvolvimento, conforme esquema já posto sobre o que interessa de ambiente ao administrador, com base na linha de pensamento defendida por Leff (2000) e Layrargues (1998). Um modelo é o convencional, dominante, e o outro, alternativo, presente como virtualidade, oriundo de uma visão democrática de sustentabilidade, mantendo-se alerta quanto à validade da simplificação no que respeita o raciocínio. No modelo convencional, a gestão e seus instrumentos são os que já acontecem desde a sociedade instaurada pelas revoluções burguesas no campo político, cultural e econômico. Nas propostas aglutinadas sob a bandeira crítica de alternativa, os projetos não vingam por inteiro, pois são “cooptados“ pelo modelo anterior. Eles existem numa situação de transição, mesmo quando implantadas, numa clara vantagem dos atributos políticos dos discursos das organizações que legitimam e selecionam práticas “utilitárias e funcionais em relação ao meio ambiente” (CARRIERE, 2003), promovendo uma espécie de marketing verde (LAYRARGUES, 1998). 45 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Qualquer ação produtiva deve atentar para os estragos feitos ao ambiente. Algumas questões fundamentais sobre a desertificação nos vários níveis já referidos, escassez de recursos básicos à existência humana e conciliação dos interesses dos mais diversos agentes sociais devem ser priorizadas. As duas vias de gestão alternativa citadas, como proposta de superação da gestão convencional, apontam para políticas e tecnologia, além de reformulação das normas, baseando-se na realidade ambiental conhecida; trata-se de valorizar uma gestão ambiental com ambiente. A água é uma fonte de energia, um dado científico para a química, um recurso econômico quando se trata de bebida fundamental ou hidroeletricidade. Entretanto, é um elemento da natureza, um componente do sistema ambiental planetário de ocorrência local variada e, como tal, deve ser pensada. Ainda dentro da problemática da água (as falas da escassez), o manejo de áreas para barragens articula grandes e impactantes obras que podem ocasionar um processo de desertificação, como preço para aumentar o fornecimento etc. A referência às fontes de energia “limpas” para a alimentação ou para a produção industrial, como soja, silvicultura, parcerias comunitárias, açaí/pupunha, dendê e demais biocombustíveis e proácool estão no rol das opções ao petróleo. As referidas dimensões sociais (econômica, cultural, política, territorial e sanitária) e psíquicas (desertificação interior) com mais condições, portanto, de integrar as preocupações ambientais, envolvem subjetiva e objetivamente aquilo que designamos processos socioambientais para juntar a dinâmica das relações ambientais (ecológicas) às sociais. Os antigos “preconceitos”, ou posições políticas contra os números populacionais, motivam contundentes debates na geografia da população e na demografia, opondo geralmente K. Marx e T. Malthus. A questão demográfica há tempos gera muita discordância e posturas díspares em todos os níveis e grupos sociais. O que se pode adiantar é que a escassez já não pode ser um argumento plausível contra a natalidade (TERRA..., 2005). No quesito demografia, a predominância de uma população idosa ou jovem requer um ambiente, um território mais bem preparado para demanda de alguns detalhes. Ratificando: não é a quantidade de pessoas a fonte de nossos maiores problemas ambientais. Quando Leff (2000) apresenta a autogestão participativa dos recursos como projeto socioeconômico, considera o mercado global em moldes um pouco diferentes, com mais negociação e mudanças na matriz produtiva, pois preconiza uma reapropriação da natureza (na prática, uma reaproximação). Assim como na visão preservacionista de Diegues (2000b), é a etnoconservação que viabilizaria a conservação dos ambientes, já que aprenderíamos com os povos nativos das várias localidades a produzir adequadamente, difundindo e adaptando esses conhecimentos às escalas maiores de produção e comércio. São propostas concretas e existe uma infinidade delas. Exemplo interessante de autogestão vem através da reportagem “Vilas são experiência de autogestão chinesa” (TREVISAN, 2004). O debate acerca da relação entre as ONGs e a sociedade em geral, o poder público, o capital, entre outros, apresenta nuances, conforme Gonçalves (1996), Carvalho (1995) e Fonseca e Pinto (2001). Compõem o debate a advertência quanto aos eventuais problemas de representatividade política e 46 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I “promiscuidade ideológica e/ou financeira” na gestão de recursos; a defesa de incentivo financeiro àqueles quedependem dos recursos ancestrais, nações indígenas ou grupos extrativistas que veem a degradação de sua renda (YOUNG, 2014); e aqueles que pensam que pela via institucional (políticas, ações de aparelhos de Estado) chegar-se-á a uma solução satisfatória. A questão merece ser estudada com profundidade, sendo proveitosa para todos. As atividades socioambientais, mais especificamente as atividades agrárias como atividades fundamentais à reprodução social, levam-nos, baseados na preocupação com a sustentabilidade, à questão: é possível juntar negócio e aprendizado (um certo tipo de pedagogia)? Ao considerarmos o desenvolvimento e atividades agrárias, o espaço geográfico é aqui tomado como base do planejamento e de gestão, segundo já afirmamos para o conjunto da economia. Assim, é preciso imaginar soluções de educação ambiental, econômica e política que permitam à população envolver-se nesse debate, decidindo o que vai comer e, portanto, o que vai ser plantado, cultivado e que animais serão criados! Nas atividades agrárias como unidade incidem as perspectivas ecológicas, geográficas, econômicas, políticas, entre outras, permeando toda a cadeia produtiva com seus diversos segmentos de mercado. A territorialização da estrutura legal de proteção ao ambiente natural no Brasil começa com as principais leis federais: Constituição Federal, Política Nacional do Meio Ambiente, Código Florestal e Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Tudo isso vira território disputado e paisagem a ser explorada para venda e manejo. Tratar da boa qualidade do conjunto das atividades agrárias requer uma superação das “aparências” para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), para o Ministério do Meio Ambiente, bem como para as diversas secretarias e autarquias encarregadas de monitorar e fiscalizar o cumprimento das leis, em busca da qualificação da relação lugar-habitante-capital-produtor-mercado-consumidor. Desse modo, é típico o problema de desqualificação dos lugares. O propósito deve ser o de apontar alguns problemas existentes no conjunto das atividades turísticas, concernentes a um uso pobre e superficial que se faz dos lugares, dos ecossistemas, mais ligado ao consumo do que ao envolvimento com os recursos e habitantes locais. O lugar é a escala espacial afetiva da vida, do que acontece cotidianamente, dos hábitos: “o lugar de que eu sou!”; “de que lugar você é?”; “a que lugar você pertence?”. O lugar começa a ser percebido num outro patamar de demanda do consumo de produtos. Quando nos informamos de onde vêm os objetos, mais especificamente os produtos alimentícios, podemos chegar as suas origens produtivas e as suas intenções. Que estragos são esses e o que podemos fazer para melhorar? Onde está a questão ambiental nas atividades agrárias? E a contribuição do setor ao montante da economia? Neste ponto é preciso reiterar a necessária referência do planejamento ao ambiente, dos problemas de ocupação inadequada do espaço, da consciência dos problemas agrários em suas várias frentes, considerando os habitantes da região. Aqui, 47 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL administração e geografia ajudam a compreender melhor a questão no que concerne à identidade, à falta de memória, inclusive ambiental, como os significados cultural e econômico do arranjo ecológico (qualidade do solo, relevo, clima para a fixação, sucesso ou fracasso de grupos humanos) ligados aos costumes. O ponto importante é esclarecer o que seria a tal crítica à separação e à maquiagem do todo ambiental nas atividades agrárias de aparências. Algo como desprender atividades agrárias das paisagens, vendendo e comprando num mercado de formas vazias: cursos d’água, solos, morros, mangues, bosques, vales, entre as demais formas de relevo possíveis. Trata-se de, necessariamente, expandir a noção de qualidade na administração e nas outras dimensões sociais para além da econômica. O que deve ser considerado é que nem sempre a tecnologia mais atual é revolucionária, assim como uma estrada pode não melhorar a vida e a economia locais; isso, no caso das ditas atividades agrárias sustentáveis em espaço rural ou urbano, é mais fácil de entender. Saiba mais Sobre essa questão da tecnologia, muito interessantes são as declarações de Carlo Petrini. Leia o artigo na íntegra em: PETRINI, C. O direito ao alimento. Tradução de Moisés Sbardelotto. In: Revista IHU-Online. Rio Grande do Sul, 12 dez. 2013. Disponível em: <http://www.ihu. unisinos.br/noticias/526576-o-direito-ao-alimento-artigo-de-carlo-petrini>. Acesso em: 19 maio 2015. A qualificação do ambiente e da vida são a mesma coisa; bem como das relações sociais e da individualidade, mais abrangente do que a referência à qualidade de sistemas e processos produtivos. Não se pode falar de melhoria econômica local sem a melhoria de vida dos habitantes, dissociando negócio e organização da vida social. A condição para essa mudança em direção à sustentabilidade, que não é só das atividades agrárias, é uma educação (ambiental) que privilegie as culturas locais e que reintegre a natureza à vida humana. Portanto, qualificar as relações requer que se valorize a sociabilidade entre os habitantes de um lugar, que se valorize suas atividades como produtores e consumidores de produtos de boa qualidade de outras regiões, além de promover o fortalecimento dos laços com o território como condição de proteção ambiental ou sustentabilidade. Podemos entender a lógica de uma sociedade, entendendo seu território e observando a disposição dos objetos e das ações que dão existência ao espaço, como fábricas, áreas de extração e cultivo, estradas, templos etc. É possível unificar diversas modalidades de fazer agrárias, principalmente “aquela de superfície” e mecanicista e aquela com preocupações ambientais e sociais mais autênticas, vernáculas (educação), até mesmo pela via do “mercado”. 48 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Lembrete Convenção nos modelos quer dizer que as formas de produção não são fortuitas, mas resultado de decisões coletivas, isto é, de convenções. Os sistemas e cadeias produtivas convencionais e alternativas dependem do entendimento do modo como os espaços rural e urbano integram-se e do papel da economia agrária no contexto macroeconômico global. A agricultura sustentável e suas modalidades entrelaçam-se com conjuntos de leis, políticas, acordos e ações individuais e coletivas mais ou menos organizadas, alinhadas aos modelos de desenvolvimento (o de racionalidade dominante e a alternativa) e suas formas de gestão correspondentes, presentes no conjunto das ações públicas e privadas. O objetivo desse encadeamento é tratar das características mais importantes das atividades agrárias convencionais ou industriais e as alternativas, alinhadas às duas grandes visões de desenvolvimento: aquela promovida pelo Estado e aquela cujo papel preponderante caberia ao setor privado, infelizmente, separadas ao invés de complementarem-se. É preciso colocar em diálogo os preceitos de administração, próprios à agronomia, aos agronegócios, por exemplo, com a dinâmica ambiental. Então, é preciso que se registre nossa preocupação fundamental com a formação de um profissional mais apto a assumir responsabilidades na administração dos projetos, sistemas, processos produtivos e de oferta de serviços, com diferentes níveis de impactos ambientais. Questão ambiental é um termo integrador das diversas faces da problemática ambiental, com seus vários componentes objetivos, junto com as ciências físicas e sociais envolvidas em seu estudo. A ideia de impacto (e de risco) remete à de desenvolvimento. É preciso distingui-lode crescimento econômico (incremento prioritariamente econômico) e modernização tecnológica (principalmente considerados os avanços no campo da tecnologia), apesar de a todo instante a imprensa e a fala comum os igualar. O principal critério adotado para caracterizá-lo é o da abrangência populacional dos benefícios, isto é, a qualidade democrática do projeto em questão. Dos termos, desenvolvimento é o que agrega as dimensões sociais (econômica, cultural, política, territorial e sanitária, entre outras), psíquicas (bem ou mal-estar, como a desertificação que pode se dar no interior do ser humano) e ambientais. Apontamos o debate acerca dos modos de desenvolvimento e de suas consequências na vida das pessoas e das empresas. Para tanto, queremos: • estabelecer uma relação entre a perspectiva geográfica e a ecológica nos estudos e estratégias do planejamento ambiental das atividades econômicas modernas, a partir da categoria do território, em contraponto aos usos sem intermediários vistos anteriormente; 49 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL • refletir sobre o modelo de desenvolvimento hegemônico, de valorização “artificial” da produção e consumismo e respectivas implicações ambientais, principalmente traduzidas em impactos nocivos da indústria alimentícia expressos territorialmente; • questionar o papel do técnico e do político na construção de ambientes mais saudáveis para a humanidade, definindo uma gestão de negócios com parâmetros do planejamento e manejo de ecossistemas, a partir dos enfoques ecológicos e geográficos, encaminhando a discussão para o terceiro capítulo da estruturação social e fundiária brasileira do modelo de produção agrário apresentado como dominante. Então, o que está fora da questão ambiental? Na perspectiva deste livro-texto, nada. Nada porque tanto a lida com os recursos ambientais quanto a produção de bens em geral são um complexo de processos socioambientais, desde o nível microscópico (uma trama ainda pouco conhecida de elementos e relações no plano já mencionado dos micro-organismos), passando pelo nível de análise geográfico ligado ao território, alcançando aquele mais abstrato no qual têm lugar as decisões sobre os projetos das grandes transformações da natureza. A referência à questão ambiental traz o ambiente como fonte e finalidade da própria vida e também como um rol de problemas que o envolvem (poluição e envenenamento das águas e solo, por exemplo, com perda da qualidade sanitária). Trata-se de referência obrigatória à natureza que trazemos tanto em nossa biologia como em nossa vida simbólica, cultural. Natureza e cultura são tomadas aqui como indissociáveis. Essa ideia merece ser mais bem explorada. Tem sido banalizado, e até mesmo aviltado, o debate sobre preservação e sustentabilidade ambiental, pois é sabido que quanto mais um tema, conceitos ou teorias estiverem sem os cuidados necessários nos meios de comunicação de massa, nas emissoras de televisão e até mesmo nas escolas, mais reinará a confusão sobre os corretos significados e acepções. Tal fato é explicado em função da intensificação da informação concomitante ao empobrecimento dos processos comunicacionais. Segundo Santos (1996), vivemos numa sociedade dos tradutores, definida pela crescente agregação de informação aos objetos técnicos que passam a frequentar cada vez mais a intimidade das pessoas ao mesmo tempo que são nossos grandes desconhecidos, associada à também crescente dependência daqueles especialistas em sua tradução, por meio de manuais e bulas para seu manuseio e operação. Para evitar mais esvaziamento de sentidos, deve-se relacionar, tanto quanto possível, todas as dimensões da vida social que expressam as ligações diretas que temos com a natureza. Estamos falando de: • saúde – o equilíbrio entre sistemas ambientais. Segundo Margulis e Sagan (2002), o ambiente é um sistema orgânico e nós também; • agropecuária à gastronomia (a ocorrência de matéria-prima é, originalmente, regional e sazonal); • arte (os motivos da arte estão vinculados às ambiências vividas ou imaginadas a partir das experiências); 50 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I • linguagens (tendo como exemplo máximo os ideogramas que demonstram, num nível bem elevado, a síntese entre o ambiente e a cultura); • mitos, lendas e religião (as narrativas e os símbolos não são nem atemporais nem extraterritoriais). Os temas citados interessam bem de perto aos produtores rurais e demais profissionais ligados às atividades agrárias, pois constituem muitas de suas práticas e preocupações. Seguem dois exemplos para tornar mais claro o raciocínio. Em Costa (1997) encontramos um bom exemplo da estreita relação entre saúde e ambiente, na menção que o autor faz sobre o modo como os médicos ligados ao movimento higienista podem ser considerados os primeiros ambientalistas ao associarem as condições físicas do espaço urbano às do corpo humano. De certo modo, era uma “medicina ambiental” que reputava a saúde como equilíbrio na relação entre topografia, clima, amplidão de horizontes e espaços arejados, a existência de verde e lugares de fruição da cidade, como parques, praças e passeios públicos. Nesse sentido parece ter havido um retrocesso da abordagem atual. O mesmo raciocínio vale para a opção pela produção e consumo dos alimentos com o desenraizamento dos hábitos alimentares; poucos são aqueles que sabem o que é e de onde vem o que comem. É o primeiro passo do aumento de escala produtiva: concentrar os sentidos, tornando o gosto mais homogêneo quanto for possível. No caso da gastronomia parece bastante interessante fazer uma referência aos historiadores da alimentação Flandrin e Montanari (1998), que reiteram pela via documental os vínculos entre tradições regionais e as características ambientais, uma menção ao território como fator de memória. Sempre que possível, é bom lembrar que os cardápios estão enterrados no solo e mergulhados nos rios, lagos, lagoas e mares. As ligações entre natureza e ser humano são extremamente complexas e até mesmo desconhecidas em muitos aspectos, o que é bastante explorado pela Filosofia (metafísica) e por algumas formas de arte. É assim que passa a fazer sentido neste momento da argumentação a questão da desertificação física (ambiental, exterior), complementada mais adiante com suas formas social (convívio público) e psíquica (simbólica, interior), ligada ao afastamento da natureza do humano, sugerindo um debate: degradação, cisão ou apenas transformação? O que de fato acomete a humanidade nos tempos de hoje? Continuemos a exposição. Souza (2004) define e comenta os debates acerca da desertificação na dimensão física do ambiente, na perspectiva das ciências naturais aplicadas: “Longe de ser puramente acadêmica, esta polêmica (entre as diferentes correntes de opinião) teve, e ainda tem, importância prática significativa, pois pode influenciar tanto na formação de políticas como na destinação de investimentos para combater este processo”. Unger (2001) trata de outro processo de desertificação, aquele que acontece em nosso interior, concernente à perda dos vínculos com nossa natureza. Cisão relativa àquilo que aponta como uma espécie de dessacralização da relação com a natureza. 51 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Além do tema da desertificação, também desafiam os cientistas outros problemas e questões de magnitude planetária, como o El Niño e La Niña; reversão magnética; aquecimento global; ou ainda a mudança climática brusca e colonialismo genético. Graves, também, são os descontrolesambientais urbanos. A humanidade, assim, vem trilhando o caminho da abundância à “escassez de natureza”, que levou ao surgimento das ideias de preservação e conservação. Estamos chamando de “escassez de natureza” a falta de consciência nas relações entre os seres humanos e o entorno em toda sua complexidade; ignorância que nos torna meros usuários sem condições de atribuir sentido aos processos e às posições e papeis que ocupamos nas estruturas sociais e, mais particularmente, nas cadeias produtivas. Tudo isso acentuado pelos problemas globais já listados. Ferreira (2001) trata da história da agricultura brasileira e, com base no trabalho de Orlando Valverde, vai aos primórdios dessa linha de relato e afirma que Antonil, em publicação de 1711, já descreve e levanta questões não bem vistas pela Coroa Portuguesa. Antonil é um dos cronistas que reúnem informações detalhadas sobre as culturas de cana-de-açúcar e tabaco, além de criação de gado e mineração em seu livro Cultura e Opulência do Brasil, que, de tão minucioso no tratamento das atividades citadas, foi ocultado durante longo tempo pela administração portuguesa. A autora acrescenta que até a década de 1930, a literatura de interesse na organização geográfica das atividades primárias ou agropecuárias pode ser distribuída em quatro momentos: 1º – Vai até a metade do século XVIII, sendo representada por trabalhos não científicos de cronistas, aventureiros e comerciantes que, em crônicas e relatórios, se preocupavam com a descrição dos homens e da terra. 2º – Compreende a primeira metade do século XIX e foi marcada pela vinda de viajantes estrangeiros que tinham por objetivo conhecer diferentes áreas do país, observando e coletando informações para estudos. 3º – Abrange o período Imperial e a Primeira República, com trabalhos de campo e levantamento de diferentes e raros cientistas que visitaram ou viveram no Brasil. Eram especialistas de determinadas áreas e temas, não contribuindo para a convergência dos estudos em uma reflexão científica em mais larga escala. 4º – O período que vai do final do século XIX e início do XX constitui-se por trabalhos de cunho literário que demonstraram a preocupação em estudar o processo de conquista e ocupação do território brasileiro, de autores como Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha e Joaquim Nabuco, preocupados com a compreensão da organização da geografia da produção agrária. Complementando essa última fase, Ferreira (2001, p. 42) afirma que “após a Revolução de 30, ocorre a proliferação de estudos sobre a realidade brasileira, e autores como Gilberto Freire, Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda procuram caracterizar a realidade nacional”, pois há necessidade de estudar e controlar todos os recantos do território brasileiro, uma necessidade interna do Estado brasileiro e objetivo externo dos países interessados em nossos recursos abundantes, como solo, água e clima. 52 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Os termos da produção envolvem a lida com o espaço geográfico quanto às transformações que vão da matéria na natureza à apropriação social dos recursos no território. Sauer (1992) trata das distorções do nomos na ocupação e na transformação da terra e na evolução das paisagens pelos usos da agricultura e da pecuária comerciais, ajudando-nos a explicitar a gênese do processo de concentração de capital de sobrevalorização do alimento num mundo faminto e mal alimentado. O autor vai ao âmago da sustentabilidade, já na década de 1950, questionando as bases do desenvolvimento e o teor da insustentabilidade ambiental: Será que precisamos perguntar se ainda há o problema da escassez de recursos, um equilíbrio ecológico que alteremos ou desdenhamos, colocando em risco o futuro? Foi astuto o Wordsworth da primeira era industrial dizendo que “ao obter e gastar recursos esgotamos nossos poderes”? São nossos poderes recém-descobertos de transformação do mundo, tão bem-sucedidos no curto prazo, adequados e sábio além da responsabilidade das pessoas que vivem hoje em dia? Com que propósitos estamos comprometendo o mundo com um ritmo crescente de mudanças? SAUER (1992, p. 21). O autor lança seu olhar arguto sobre nosso modelo de desenvolvimento, sublinhando que o forte aumento na produção nos últimos anos é devido, somente em parte, a uma melhor recuperação ambiental, com uso mais eficiente de energia e substituição de fontes escassas pelas abundantes. Em essência, temos esgotado mais rapidamente os recursos acessíveis que conhecemos. Então, não deveríamos admitir que muito do que chamamos de produção é apenas extração? Mesmo aqueles chamados “recursos renováveis” não estão sendo renovados. Apesar de uma melhor utilização e substituição, o cultivo de madeira, por exemplo, segue ainda atrasado em relação à exploração e às perdas; as florestas e os extratos mais baixos estão sendo explorados e a deterioração de áreas florestais é difundida. Grande parte do mundo está em um período de demanda de madeira, sem meios conhecidos de substituição (SAUER, 1992). Há alternativas sustentáveis de materiais desenvolvidos nas últimas décadas, mas sem efetivamente entrar no mercado por outra razão que não a lucratividade, como é o caso emblemático de nossas embalagens de tetrapack, PET e plásticos em geral. A agricultura comercial requer um grande capital de giro e depende de um alto grau de mecanização e adubação. Uma estimativa recente aponta que um quarto do lucro líquido de nossas fazendas vai para a compra de equipamentos duráveis, necessários ou não. Quanto mais se converte a produção agropecuária em indústria e negócio, menos resta da antiga atividade com a qual o homem vivia em harmonia com a sua terra. Falamos com satisfação de liberar a população rural da fazenda para a “vida livre” nas cidades (esse é o imaginário e a voz generalizada dos cientistas do fenômeno urbano, nem sempre confirmados na vida efetiva do migrante), e contabilizamos uma economia de horas, de pessoas em unidades de produção nas fazendas e em áreas plantadas. Em algumas áreas, o agricultor fazendeiro está se tornando um morador da cidade, que contrata uma equipe por curtos períodos para plantio, cultivo e colheita. O aparato produtivo, tudo aquilo que caracteriza historicamente uma fazenda como unidade produtiva, do jardim ao estábulo, celeiro, currais e muitos lotes de cultivo da 53 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL fazenda estão desaparecendo em muitas regiões, junto com um modo de vida, enquanto as famílias de agricultores tornam-se tão dependentes do merceeiro, do açougueiro, do padeiro, do leiteiro e do vendedor de combustível como os seus conterrâneos da cidade. Trata-se de profundas alterações nas paisagens e nas modalidades de trabalho, isto é, na própria divisão territorial do trabalho, distribuindo as atividades conforme novas atribuições externas (das grandes sedes do capital) de papéis das categorias profissionais (o camponês, antes fundamental, cede lugar a funcionários, a equipes contratadas por empreitada e mesmo terceirizadas); mudança de peso das próprias áreas produtivas nas economias local, regional e nacional, cada vez mais globalizadas. Ao se tornar de fato capital, a fazenda, na forma de terras e benfeitorias, exige a manutenção de registos nos livros de contabilidade sobre os ativos e riscos. O agricultor passa a ser o operador de uma fábrica especializada em produtos, seja ao ar livre ou não, preocupados com a maximização dos lucros. O aumento da demanda por capital de giro exige retornos crescentes em dinheiro; talvez isso seja o que queiramos dizer com as designações “intensiva” e “científica” da agricultura de extraçãoem um grau crescente (SAUER, 1992). Os atuais excedentes agrícolas não são prova de que a produção de alimentos não é mais um problema ou que deixará de ser o maior problema no mundo. Nossa produção tem sido assegurada aos custos e riscos imprudentes com finalidade de ganho imediato, o que substituiu as velhas atitudes de viver com a terra. A mudança ganhou força especialmente quando motores substituíram animais de tração. A terra antes usada para produzir aveia e outros alimentos para animais estava disponível para cultivar mais milho, soja, algodão e outras culturas em grande parte para a venda e remessa. A rotação tradicional de cereais – aveia – trevo, que protege a cobertura do solo e mantém o balanço de nitrogênio, começou a se desintegrar. A soja, plantada moderadamente em 1920, principalmente como alimento, se tornou uma importante cultura de rendimento. O esgotamento de culturas e exposição do solo teve impulso na mudança para a agricultura mecanizada; uma pequena parte das melhores terras é utilizada para pastagem e feno; menos estrume animal e resíduos vegetais são retornados aos campos. Sauer (1992) segue expondo razões, não contra a mecanização, mas contra a mudança de filosofia da produção, esta que atrela modelos de produção, gestão e instrumentos, como fertilizantes industriais, muitas vezes proibidos em outros países. A própria ideia de atividades agropecuárias sustentáveis ambientalmente rejeita os aditivos químicos nocivos à saúde, tendo a vida humana como gabarito da reflexão (ética, antes mesmo da jurídica) e da ação (gerenciar, lavrar a terra, criar animais). Os chamados cultivos em fileiras são os de maior expressão comercial, demandando cuidados durante a maior parte de seu período de crescimento. Portanto, oferecem pouca proteção à superfície à medida que crescem, e praticamente nenhuma depois da colheita. Situação ideal seria aquela alcançada com os estratos protegendo-se mutuamente. “Nossa agricultura comercial [ou convencional] em geral é mantida em expansão através do aumento da exploração da fertilidade dos solos” (SAUER, 1992, p. 22). O modelo agrário que temos expande suas fronteiras graças às possibilidades de compra de fontes de nitrogênio, fósforo, potássio e enxofre, reiterando os padrões agroquímicos; esse modo de viver e produzir não aprende com o ambiente, mas sobre ele externamente. 54 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I 3 TERRITORIALIZAÇÃO DOS SISTEMAS E CADEIAS PRODUTIVAS CONVENCIONAIS DE ECONOMIA E TECNOLOGIAS DURAS: UNIFORMIZADORAS E CONCENTRADORAS A questão agrária começa a se definir quando o Estado brasileiro, no século XIX, pressionado por alguns setores das elites e, sobretudo, pelas grandes potências da época, que queriam expandir mercados (coisa impossível com a escravidão, pois escravo não compra), decide acabar com a escravidão. Acabar com a escravidão significava, naquela época, em que o governo estava nas mãos dos grandes fazendeiros, criar um sério problema para a grande propriedade, para os próprios fazendeiros. A pergunta que os fazendeiros faziam, e com razão, era: “quem vai trabalhar nas fazendas quando a escravidão acabar?” (MARTINS, 1997, p. 13). Martins, nesse e em muitos de seus textos, inclusive em O Cativeiro da Terra, mostra como funcionou a lógica do regime de propriedade, com base na concessão de sesmarias, suspenso em 1822, poucos meses antes da Independência. Apesar de suspenso, o modelo não foi substituído imediatamente por um novo direito de propriedade, continuando a funcionar na prática. O grande perigo que se afigurava na mente dos proprietários era que “se o regime de sesmarias fosse plenamente restabelecido e continuasse em vigor após o fim da escravidão [...] os trabalhadores pobres e livres e os libertos ocupariam livremente as terras disponíveis e não iriam trabalhar para os fazendeiros” (MARTINS, 1997, p. 14). Fazia-se necessário, para a manutenção da estrutura fundiária, “criar um direito de propriedade que fosse ao mesmo tempo um obstáculo ao livre acesso à terra por parte da massa da população pobre, livre e que viesse a ser libertada da escravidão“ (MARTINS, 1997, p. 14-15). E acrescenta: A fórmula encontrada foi a de aprovar uma nova lei de terras. Essa lei (Lei n° 601, de 1850) formou-se o oposto da Lei de Colonização, aprovada nos Estados Unidos mais ou menos na mesma época. As terras da fronteira, as terras do Oeste, foram abertas à livre ocupação dos colonos, mediante supervisão e controle do governo. Essa foi a reforma agrária americana, que assegurou a transformação do Oeste num dos grandes celeiros mundiais de alimentos, inicialmente com a agricultura familiar. No Brasil fez-se o contrário. Tratou-se de aprovar um regime de propriedade que impedisse o acesso à propriedade da terra a quem não tivesse dinheiro para comprá-Ia, mesmo que fosse terra pública ou terra devoluta. Para obter a legitimação do direito à terra era necessário que a pessoa pagasse por ela. Os efeitos sociais da lei aparecem claramente na fala de um grande fazendeiro de café, que foi uma grande figura de nossa história no fim do Império e no começo da República: Antônio da Silva Prado, de São Paulo. Ele era de uma família muito rica e culta, inclusive. Eles foram industriais, grandes acionistas e diretores de ferrovia, banqueiros. Prado dizia que o acesso à terra, por parte dos pobres, dos trabalhadores, se faria mediante a poupança e a vida sóbria, aquela coisa de não gastar, de economizar e guardar. No fundo, a lei pressupunha uma espécie de ética protestante dos trabalhadores rurais que 55 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL assim poderiam economizar, desenvolver uma disciplina interior baseada na poupança e comprar terras que os grandes fazendeiros tivessem em disponibilidade (MARTINS, 1997, p. 13-14). A concentração espacial, a centralização decisória e a perda das necessidades imediatas do corpo humano, descritas há pouco tempo, têm como consequência a formação ou territorialização dos sistemas e cadeias produtivas convencionais e uniformizadores. É uma economia dura com sua correspondente tecnologia. As políticas e a legislação fundiária do Brasil colonial, imperial e republicano restringiram o acesso à terra dos agentes sociais vetando a efetivação de uma transformação agrária, que seria o caminho de mudanças essenciais ou reais. Para Veiga (1981, p. 7-9), nem mesmo uma reforma foi empreendida (mudanças não estruturais), como a promovida pelos países com intensa pressão social pelo acesso à terra, como é o caso clássico do México de Zapata, em 1910. A estrutura fundiária de país leva-nos a sua configuração territorial: se a propriedade é concentrada ou pulverizada e como se dá sua capilaridade econômica ou ligação pelos múltiplos modos de transporte, entre outras características. Observando a evolução do Índice de Gini, segundo a tabela seguinte, depreende-se que a estrutura agrária reflete, em grande medida, o modelo de “ocupação diferenciada do Território Nacional”. O cálculo do Índice de Gini para o conjunto das Unidades da Federação para os anos intercensitários de 1985 e 2006 permite distinguir espaços de acordo com o grau de concentração da terra, revelando diferenças significativas em termos regionais. Tabela 1− Evolução do Índice de Gini, segundo as Unidades da Federação − 1985/2006 Unidades da Federação Evolução do Índice de Gini 1985 1995 2006 Brasil 0,857 0,856 0,854 Rondônia 0,655 0,765 0,717 Acre 0,619 0,717 0,716 Amazonas 0,819 0,808 0,837 Roraima 0,751 0,813 0,664 Pará 0,827 0,814 0,822 Amapá 0,864 0,835 0,852 Tocantins 0,714 0,726 0,792 Maranhão 0,923 0,903 0,864 Piauí0,896 0,873 0,855 Ceará 0,815 0,845 0,861 Rio Grande do Norte 0,853 0,852 0,824 Paraíba 0,842 0,834 0,822 Pernambuco 0,829 0,821 0,825 56 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Alagoas 0,858 0,863 0,871 Sergipe 0,858 0,846 0,821 Bahia 0,84 0,834 0,840 Minas Gerais 0,77 0,772 0,795 Espírito Santo 0,671 0,689 0,734 Rio de Janeiro 0,815 0,79 0,798 São Paulo 0,77 0,758 0,804 Paraná 0,749 0,741 0,770 Santa Catarina 0,682 0,671 0,682 Rio Grande do Sul 0,763 0,762 0,773 Mato Grosso do Sul 0,86 0,822 0,856 Mato Grosso 0,909 0,87 0,865 Goiás 0,766 0,74 0,776 Distrito Federal 0,776 0,801 0,818 Fonte: IBGE (2006, p. 109). As menores variações do índice, na região Sul, mostram certa igualdade na distribuição das terras, nas palavras do Censo (p. 110), enquanto as maiores, na região Nordeste, como segue: Um contraponto ao padrão fundiário de menor desigualdade do Brasil meridional, é encontrado tanto na Região Nordeste, como, mais recentemente, na Região Centro-Oeste, onde a desigualdade vem acompanhando o processo de modernização produtiva e inserção ao competitivo mercado mundial de commodities agrícolas (IBGE, 2006, p. 110). Sua análise permite-nos entender muito da própria distribuição do poder e suas razões ao incentivar o acesso à terra na “conquista do oeste” nos Estados Unidos, desafogando o Leste e criando condições para o desenvolvimento genuinamente liberal, por exemplo. Ou, ao restringi-lo, no caso do Brasil, como muito bem mostram Jahnel (1987), Martins (2010) e Osório (2003). Observação Há uma pergunta elementar sobre a sustentabilidade: por quem e para quem os projetos são elaborados? É assim que se vê no espaço geográfico a essência da estrutura social, pois o território não mente. Essa estrutura genérica concentrada e concentradora de propriedade e das diversas formas de capital é muito bem representada pela instância de governança internacional, o Fórum Econômico Mundial (FEM). Temos, assim, o uso da ecologia subordinada aos interesses dos investidores, não do humano de modo geral. É o negócio com o ambiente sem preocupação ambiental que anima os modelos trazidos no capítulo anterior, bem como as metodologias de diagnóstico ambiental e seus instrumentos 57 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL (Avaliações de Impacto Ambiental, a reciclagem como negócio, a ideia de pegadas ecológicas). Derivam dessa concepção os sistemas e cadeias produtivas uniformizadoras e concentradoras, convencionais, com sua economia e tecnologia “duras”. Estruturas fundiária e social entrecruzam-se nas paisagens (onde há trabalho, de que tipo, quanto e como promove acesso ao seu produto), aí sendo lidas as intenções e os pactos sociais responsáveis pelos resultados, que, no caso do Brasil, são profundamente desoladores, apesar das melhorias (insustentáveis sem educação política básica). Saiba mais A questão agrária brasileira articula-se às questões fundiária e da pobreza, tornando-se fundamental estudá-las. As políticas territoriais estão na base da geografia da produção e da distribuição de produtos, sendo as mais importantes à compreensão do modelo de propriedade brasileira a lei portuguesa de concessão de sesmarias, de 1375, A Lei de Terras, de 1850, e o Estatuto da Terra, de 1964. Seguem referências de três abordagens sobre o tema: JAHNEL, T. C. As leis de terras no Brasil. Boletim Paulista de Geografia, AGB. São Paulo, n. 65, 2º semestre de 1987, p. 105-116. OSÓRIO, S. L. Na terra, as raízes do atraso. História Viva, ano 1, n. 1, nov. 2003, p. 72-77. MARTINS, J. S. A questão agrária brasileira e o papel do MST. In: STEDILE, J. P. (Org.). A reforma agraria e a luta do MST. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. Segundo Silva (1997), é cada vez mais difícil a delimitação geográfica do que é rural e do que é urbano, mas isso não é o mais importante. Na prática, o rural hoje só pode ser entendido como um continuum do urbano do ponto de vista espacial, e do ponto de vista da economia, as cidades não podem mais ser identificadas apenas com a atividade industrial, do mesmo modo que os campos não podem sê-lo com a agricultura e a pecuária. E, como segue: Em poucas palavras, pode-se dizer que o meio rural brasileiro se urbanizou nas duas últimas décadas, como resultado do processo de industrialização da agricultura, de um lado, e, de outro, do transbordamento do mundo urbano naquele espaço que tradicionalmente era definido como rural. Como resultado desse duplo processo de transformação, a agricultura – que antes podia ser caracterizada como um setor produtivo relativamente autárquico, com seu próprio mercado de trabalho e equilíbrio interno – se integrou no restante da economia a ponto de não mais poder ser separada dos setores que lhe 58 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I fornecem insumos e/ou compram seus produtos. Já tivemos oportunidade de mostrar que essa integração terminou por se consolidar nos chamados “complexos agroindustriais” que passaram a responder pela própria dinâmica das atividades agropecuárias aí vinculadas (SILVA, 1997, p. 1). Os conflitos de terras no Brasil estão associados às formações metropolitanas, às megacidades e aos circuitos produtivos globalizados. Produz-se muita riqueza, pobreza e miséria na demanda por recursos: dos humanos para o trabalho, às fontes de energia e de capital, com produção territorial desigual de resíduos e impactos ambientais. Uma produção desigual e seletiva, que expõe as racionalidades convencionais a que estamos sujeitos, e a céu aberto, as intenções em jogo no território; afinal não se pode esconder o porquê se construiu uma ponte ou uma estrada. É o que vemos em áreas de maiores e menores impactos, cujos maiores riscos, como regra, é que recaem sobre a população mais pobre e com menos recursos. Alguns caminhos para abordar a questão da desigualdade na base dos problemas a serem enfrentados por qualquer projeto que se ponha como sustentável são: • quanto à legitimidade da gestão empresarial do ambiente que utiliza como recurso, isto é, qual é o papel do Estado regulador nessa questão; • própria “ciência” da gestão pretender-se “gestão ambiental”; • quanto às perdas de qualidade alimentar (com inserção química não regulada ou mal gerenciada), das condições de trabalho (com maquinário que não diminui universalmente o risco), entre outras dimensões, quando confrontadas com modelos de integridade ou sustentabilidade; • quanto às possibilidades “reais” de alternativas ao modo da racionalidade ambiental de Leff (2001), por exemplo, rumo a um saber ambiental que aprenda com as formas ecologicamente mais inteligentes. Saiba mais Sobre uma análise profunda dessas questões do ponto de vista de geografia econômica, ver: SANTOS, M. Economia espacial: críticas e alternativas. São Paulo: Hucitec, 1978. O extenso projeto Rurbano, do professor Graziano da Silva (1997; 2000) sobre o campo contemporâneo, coloca muitas luzes diferentes ao longo dos anos; sua grande e variada equipe trazia dados e informações novas sobre as transformações na estrutura agrária brasileira. Acaba por mostrar que as visões sobre esse espaço agrário são carregadas de preconceitos, chamados de mitos, que 59 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL encobrem os significados reais das estruturas fundiária, familiar, produtiva, ocupacional (do trabalho), comercial e logística dessas regiões. Os mitos são os seguintes (SILVA, 1997):• o campo é atrasado/é próprio do campo o atraso. Sim e não, indica a pesquisa, pois tanto há relações de trabalho escravo, além de péssimas condições sanitárias difusas, o que é inegável, como há amplas áreas com riqueza e excelentes condições de vida para a população local; • a condição predominantemente agrícola do rural. Há expansão de ocupações em atividades não agrícolas, o que é curioso por subverter a imagem cristalizada do espaço rural. A mecanização é responsável pela diminuição do emprego em atividades clássicas das regiões rurais; • o êxodo rural como inerente ao trabalho no campo, mas a população volta a crescer e as atividades do espaço agrário não são somente agrícolas, mas também parte da cadeia produtiva que enreda essas áreas, aumentando as chances de absorção de mão de obra e promoção de melhoria de vida. Há o fenômeno muito interessante que é a migração de retorno, isto é, as pessoas que um dia saíram do campo estão voltando para suas regiões; este é um processo de imensa importância quando se considera o planejamento global do país. Por planejamento global entende-se o conjunto dos setores econômicos. Quanto ao planejamento, o autor observa que não são dispositivos de mercado que estão fazendo as correções nos rumos; • considerar que o desenvolvimento agrícola leva ao desenvolvimento rural; não é só responsabilidade da esfera econômica o desenvolvimento social, aliás essa é inclusive a diferença entre crescimento econômico e desenvolvimento; • achar que as pequenas e médias propriedades são de gestão familiar. Há mudanças culturais na estrutura social como um todo e em particular na associação dos membros das famílias, com alguns presentes e outros encaminhando-se para outras atividades, agrárias ou não. Para o autor, “o centro das atividades da família deixou de ser a agricultura porque a família deixou de ser agrícola e se tornou pluriativa ou não agrícola, embora permaneça residindo no campo” (SILVA, 1997, p. 43). Os novos mitos: • Orna pode ser o motor do desenvolvimento nas regiões atrasadas: as novas atividades não rurais vêm se expandindo, enquanto aquelas especificamente agrárias têm decrescido sua participação no total de empregos. Para Silva (1997, p. 43), as Ornas têm maiores condições de avançarem “justamente naquelas áreas rurais que têm uma agricultura desenvolvida e/ou estão mais próximas de grandes concentrações urbanas” e “nas regiões mais atrasadas, não há emprego agrícola e muito menos ocupações não-agrícolas”. E conclui que “a falta de desenvolvimento rural na maioria das regiões ‘atrasadas’ do país se deve fundamentalmente à falta de desenvolvimento das atividades não agrícolas”. • a reforma agrária não é mais viável: é preciso entender que uma reforma agrária deve contemplar quaisquer atividades passíveis de inserir os contingentes de desempregados no mercado de 60 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I trabalho. “Assim, é possível, e cada vez mais necessária, uma reforma agrária que crie novas formas de inserção produtiva para as famílias rurais, seja nas ‘novas atividades agrícolas’, seja nas Ornas” (SILVA, 1997, p. 45). • o novo rural não precisa de regulação pública: algo como uma institucionalização ou governança, pois a diversidade de atividades é imensa e pode “envelhecer prematuramente”, se não houver normatização (SILVA, 1997, p. 45-46). • o desenvolvimento local leva automaticamente ao desenvolvimento: o novo enfoque do desenvolvimento local sustentável tem o inegável mérito de permitir a superação das já arcaicas dicotomias urbano/rural e agrícola/não agrícola. Como sabemos hoje, o rural, longe de ser apenas um espaço diferenciado pela relação com a terra – e mais amplamente com a natureza e o meio ambiente – está profundamente relacionado ao urbano que lhe é contíguo. A globalização requer organização para extrair mais recursos e, para isso, necessita que tanto a configuração territorial quanto a estrutura social estejam aptas a remunerar e a receber os investimentos dos agentes econômicos. Nesse sentido podemos dizer que o desenvolvimento local sustentável precisa ser também entendido como desenvolvimento político no sentido de permitir uma melhor representação dos diversos atores, especialmente daqueles segmentos majoritários e que quase sempre são excluídos do processo pelas elites locais. No caso brasileiro, por exemplo, as ações voltadas exclusivamente para o desenvolvimento agrícola, se bem tivessem logrado invejável modernização da base tecnoprodutiva em algumas regiões do Centro-Sul do país, não se fizeram acompanhar pelo tão esperado desenvolvimento rural. Uma das principais razões para tanto foi a de privilegiar as dimensões tecnológicas e econômicas do processo de desenvolvimento rural, relegando ao segundo plano as mudanças sociais e políticas, como a organização sindical dos trabalhadores rurais sem terra e dos pequenos produtores. Com a globalização, as disparidades hoje existentes em nosso país, seja em termos regionais, seja em relação à agricultura familiar vis-à-vis o agrobusiness, tendem a se acentuar ainda mais. Eram preocupações e objetivos do projeto Rurbano, liderado por José Graziano da Silva (2001, p. 47-48): • identificar os principais condicionantes de distribuição da renda das pessoas e das famílias rurais e/ou agrícolas, tais como o grau e a intensidade da pluriatividade na agropecuária brasileira, a distribuição da terra segundo a posição da ocupação dos membros dos domicílios, o efeito das diferentes formas de acesso à terra (proprietário, parceiro, arrendatário e conta-própria) sobre os rendimentos das famílias, as diferentes formas de ocupação dos membros das famílias segundo sexo, grau de escolaridade, as características dos domicílios e sua disponibilidade de bens e serviços essenciais etc.; • pesquisar a importância do trabalho doméstico como alternativa de ocupação e renda das famílias rurais, isolando essa categoria de trabalhadores como uma nova posição na ocupação e outro tipo específico de atividade; 61 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL • pesquisar a importância da agroindústria e da indústria rural como geradoras de emprego e renda no meio rural, em particular no estado de São Paulo e em Minas Gerais, que têm um dos maiores parques agroindustriais do país; • caracterizar as famílias rurais e/ou agrícolas com aposentados e/ou desocupados, com o objetivo de propor uma política previdenciária ativa para as regiões desfavorecidas do meio rural brasileiro; • caracterizar as famílias sem-terra em relação à renda e ocupação de seus membros em nível de grandes regiões e principais unidades da Federação, visando delimitar o que se poderia chamar o “núcleo duro” (core) da pobreza rural com o objetivo de subsidiar a política nacional de assentamentos rurais. Além de tais temas, que decorrem das conclusões e resultados preliminares já obtidos, na Fase III do Projeto Rurbano (2001, p. 47-48) pretende-se realizar alguns estudos de caso com vistas a: • identificar as possíveis causas da subestimação das rendas variáveis nas PNADs, em particular das rendas agrícolas; • aprofundar as dinâmicas de geração de ocupações não agrícolas identificadas no País para algumas regiões específicas que se destacaram nas análises anteriores (turismo no Nordeste; chácaras de recreio no Sudeste etc.); • investigar a questão da identidade das famílias rurais pluriativas e/ou não agrícolas frente aos novos sujeitos sociais do novo mundo rural, entre eles caseiros, moradores de condomínios fechados, aposentados etc.; • aprofundar o tema das relações entre o desenvolvimento local e poder local destacando a competêncianos diferentes níveis de ação do poder público (municipal, estadual e federal), bem como quais seriam as principais formas de intervenção pública e privada sobre as áreas; • avaliar o impacto ambiental e socioeconômico das “novas” atividades desenvolvidas no meio rural, introduzindo a questão da legislação ambiental, trabalhista e a necessidade de um código do uso do solo, da água e de outros recursos naturais para a gestão do território rurbano; • aprofundar o tema das políticas públicas para o novo rural brasileiro, com ênfase na política de turismo rural como alternativa de geração de novas oportunidades de negócios e ocupações no meio rural. Para cumprir os objetivos descritos foram delineados 20 subprojetos de pesquisa, oito teses de doutoramento, sete dissertações de mestrado, além de vários projetos de iniciação científica. O projeto envolve atualmente 45 pessoas entre professores universitários, profissionais liberais de várias origens e estudantes de graduação e pós-graduação, distribuídos por 20 instituições de pesquisa em 11 estados do país, 25 delas com título de doutor ou superior. 62 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Saiba mais Leia mais sobre a linha de pesquisa multidisciplinar e com múltiplas equipes, chamada Rurbano, em: SILVA, J. G. da. Quem precisa de uma estratégia de desenvolvimento?. In: Núcleo de Estudos Agrários e de Desenvolvimento. José Graziano, Jean Marc e Bianchini debatem: o Brasil rural precisa de uma estratégia de desenvolvimento. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Agrário, Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável, Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural, 2001. p. 5-52. (Textos para Discussão, 2). SILVA, J. G. da. O novo rural brasileiro. Campinas: Instituto de Economia, EdUnicamp, 1999. (Pesquisas, 1). Veremos agora a agroindústria puxando a locomotiva da economia, com seus modelos de produção e de trabalho característicos de modo controvertido. 4 CONSOLIDAÇÃO DAS TECNOLOGIAS AGROINDUSTRIAIS NO CAMPO: SUCESSOS E DECLÍNIO DAS ATIVIDADES AGRÁRIAS CONVENCIONAIS E A COMPLEXIDADE DO NOVO RURAL OU “RURBANO” A estrutura de mercado de vários sistemas agroindustriais tem se tornado mais concentrada. Um número reduzido de grandes empresas agroindustriais não apenas absorve um volume significativo da produção primária, como tem significativa participação no mercado de produtos processados. As redes varejistas têm também aumentado o seu poder em mercados agroindustriais. Conflitos nas relações entre empresas processadoras e redes varejistas têm sido associados às estruturas de mercado concentradas. A posição de oligopsônio tem levado ao exercício de poder de mercado com o objetivo de promover redistribuição de ganhos entre os agentes das cadeias produtivas. Em geral, essa redistribuição penaliza fornecedores, sejam produtores rurais, sejam processadores (GUANZIROLI; BUAINAIN; SOUSA FILHO, 2008). 4.1 Modelos de produção agrários Os modelos de produção agrários funcionam como sistemas agrícolas e pecuários que combinam técnicas e tradições locais como expressão das relações entre ser humano e meio rural (agropecuária) e urbano (hortas urbanas e experiências de cultivos residenciais). Há o sistema extensivo, método mais utilizado e ainda empregado, antigo como os roçados e as plantations. Há também o intensivo, presente em algumas áreas do Sul e do Sudeste do País. 63 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Segue uma lista dos métodos mais comuns empregados nas atividades agrícolas. Intensivo: agricultura voltada para o comércio, com uso permanente do solo, rotação de culturas (por exemplo, soja, milho, trigo e pasto), uso de tecnologia, fertilizantes e defensivos agrícolas, seleção de espécies e sementes, mecanização, mão de obra pouco numerosa, mas abundante (mais do que o necessário para um sistema mecanizado), além do predomínio de pequenas e médias propriedades. Extensivo: agricultura voltada para subsistência (alimentação básica voltada para o mercado interno – milho, feijão, arroz, mandioca, pequenas criações, horticultura etc.). Predomínio das grandes propriedades com pequenos espaços cedidos a terceiros mediante o uso da meiação (também meação), arrendamento ou posse; uso de técnicas arcaicas de plantio – coivara (queimada), rotação de solos (roças itinerantes), equipamentos rústicos (enxada, foice, arado), carência de insumos (falta de adubo, fertilizante e sementes selecionadas) e mão de obra escassa (insuficiente – mesmo sendo mais numerosa do que no sistema intensivo). Plantations: monocultura tropical (cana, café, algodão, cacau, laranja, seringueira) com produção voltada para a agroindústria e/ou exportação; grandes propriedades; mão de obra assalariada, numerosa e barata; uso de tecnologia, insumos e rendimento elevado. Recentemente, se expande no Brasil a silvicultura – plantio de árvores com produção voltada para indústria de papel, celulose, móveis, lenha e madeira de construção. 4.2 Formas de exploração da terra Existem três tipos de exploração da terra. Vejamos cada um deles. Exploração direta: normalmente feita pelo próprio dono e sua família. Como a maioria das propriedades é de tamanho reduzido, a exploração é feita diretamente pelo proprietário. Exploração indireta: 1 – exploração feita por parceria (meiação ou terça), o proprietário entra com a terra e o capital, enquanto o produtor entra com o trabalho e a técnica de produção; 2 – exploração por arrendamento (aluguel da terra); 3 – exploração por ocupação, posse – ocupante que busca o benefício de usucapião ou grilagem de terra – ocupação mediante o uso de documentação fraudulenta. Agronegócio: grandes empreendimentos agropecuários, com o uso de novas tecnologias, pesquisas agronômicas, acessoramento de órgãos públicos, como a Embrapa, além de apoio de tecnopolos aliando universidades e produção, como a Escola Superior Luís de Queiróz (Usp – Piracicaba), Unicamp, USP – Ribeirão e Institutos da Unesp, entre outros no País. 4.3 Tipos de lavouras Vejamos agora os tipos de lavoura. Permanente: cultivo geralmente arbóreo do qual se obtém muitas safras ao longo de muitos anos. Por exemplo: café, laranja, cacau, manga, uva, algodão arbóreo etc. 64 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Temporária: cultivo geralmente herbáceo do qual se obtém uma única safra por plantio. Por exemplo: trigo, soja, milho, sorgo, feijão, arroz, cana, algodão herbáceo etc. A maior quantidade de terras ocupadas destina-se às pastagens, seguida pelas matas e florestas e, em menor proporção, as lavouras. Tais indicadores permitem falar em subaproveitamento do espaço agrário, embora tenha sido observado no período um aumento nas áreas dedicadas às lavouras. Em 2007, o produto de maior destaque na produção brasileira foi a cana-de-açúcar, com mais de 470 milhões de toneladas, enquanto o 2º lugar foi da soja, com mais de 50 milhões de toneladas, e o 3º lugar, do milho, com 40 milhões de toneladas. Na safra de 2007/2008, a produção da cana-de-açúcar atingiu o recorde de 550 milhões de toneladas, com um crescimento aproximado de 15%. A área total do Brasil aproveitável seria de 269 milhões de hectares, dos quais 68,7 milhões em estabelecimentos familiares (25,5%) e 200,3 milhões não familiares (74,5%). Nas últimas décadas, destaca-se uma melhoria na utilização do espaço agrário brasileiro a partir do avanço de cultivos de pastagens, grãos e outros produtos da lavoura temporária e do reflorestamento associado à silvicultura. 4.4 Relações de trabalho A problemática quanto à qualidadede vida no campo está vinculada às relações de trabalho e ao tipo de empreendimento rural: pequeno proprietário; grandes empresas; assalariados temporários; parceiros (trabalham em terra alheia); arrendatários. Assim, algumas formas de relação são capitalistas (assalariadas e contratos de trabalho) e outras não capitalistas, mas que se subordinam ao sistema. Entretanto, como no meio rural brasileiro poucos são proprietários das terras em que trabalham, esta situação acaba gerando os conflitos pela posse da terra envolvendo posseiros, indígenas, proprietários e, no caso da Amazônia, os seringueiros. A falta de solução para o problema da terra tem contribuído para multiplicar os conflitos. Os camponeses, sem terra para cultivar, migram em busca de novas áreas ou constituem grupos invasores que são objeto de violência e repressão policial, o que agrava a situação no meio rural. 4.5 Principais produtos agrícolas Principais lavouras As mais tradicionais são as de produtos de subsistência: mandioca, milho, feijão e arroz, que são hoje disseminados em todo o País. No entanto, os cinco produtos tradicionais voltados para a exportação e para a agroindústria são a cana, o tabaco, o café, o cacau e o algodão. 65 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Um produto ingressado no País apenas no século XX foi a soja, que, em conjunto com a cana, é o que mais se expande no território. Veja o quadro a seguir, feita a partir de dados do IBGE. Quadro 1 Produto 2004/05 Produção – Milhão (t) Área colhida – Milhão (ha) Maiores produtores safra 2004/2005 IBGE 2006 Cana 422,9 5,80 SP (60%), PR, MG, AL Soja 51,18 22,94 MT (35%), PR, GO, MS Milho 35,11 11,5 PR (24%), MG, MT, SP Mandioca 25,87 1,90 PA (18%), BA, PR, MA Laranja 17,85 0,80 SP (81%), BA, SE, MG Arroz 13,2 3,91 RS (46%), MT, SC, MA Banana 6,70 0,49 PR (18%), BA, RS, PA Trigo 4,65 2,36 PR (59%), RS, MS, SP Algodão* 3,66 1,25 MT (46%), BA, GO, SP Tomate 3,43 0,62 GO (23%), SP, MG, RJ Feijão 3,02 3,75 PR (19%), MG, BA, SP Café 2,74 2,32 MG (47%), ES, SP, BA Coco 2,07 0,29 BA (36%), PA, CE, PE Sorgo 1,5 0,79 GO (33%), MG, SP, MT Abacaxi 1,52 0,61 PB (22%), PA, MG, SP Uva 1,23 0,73 RS (40%), SP, PE, PR Maçã 0,85 0,35 SC (60%), RS, PR, SP Cacau 0,21 0,66 BA (66%), PA, RO, ES * Algodão herbáceo Culturas temporárias Aquelas de curta e média duração (via de regra, menor que um ano) que necessitam, geralmente, de novo plantio após a colheita. Exemplo: algodão herbáceo, amendoim, arroz, cebola, feijão, fumo, melancia, melão, milho, soja, trigo etc. São também consideradas culturas temporárias o abacaxi, a cana-de-açúcar e a mamona, ainda que produzam por vários anos sem necessidade de novo plantio. Culturas permanentes São aquelas de longa duração, que podem proporcionar colheitas por vários anos sucessivos, sem necessidade de novos plantios. Exemplo: café, cacau, laranja, uva, algodão arbóreo, maçã. Mato Grosso (Sinop, Sorriso) e Goiás (Rio Verde) destacam-se pela produção de soja e milho, com uso de tecnologia de ponta e rotação de culturas, o que permite que se utilize a terra o ano inteiro. Sai a soja, entra o milho; sai o milho, entram o capim e o boi, depois a soja retorna. 66 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Cana-de-açúcar Cultivada inicialmente a partir do século XVI no litoral paulista, sem obter sucesso, foi implantada na Zona da Mata do Nordeste. A zona canavieira nordestina se estende do Rio Grande do Norte ao Recôncavo Baiano, onde o clima tropical úmido, o fértil solo de massapé, a maior proximidade do mercado europeu e o uso da mão de obra escrava formada por africanos foram fatores que favoreceram a cultura canavieira, principalmente em Pernambuco, Alagoas e Bahia. Com a expulsão dos holandeses nos meados do século XVII, a produção da cana entrou em decadência. Após 1930, cresce a produção da cana na Depressão Periférica Paulista e na região de Campos – RJ, onde grande parte da produção destinava-se ao consumo interno, enquanto o açúcar da Zona da Mata voltava-se para a exportação. No Brasil, são áreas de maior produção: São Paulo, na Depressão Periférica; Norte do Paraná; Zona da Mata nordestina (PE e AL), além do Triângulo Mineiro e Zona da Mata Mineira (MG) e região de Campos no norte do estado do Rio de Janeiro. Figura 4 A cana está presente em todas as regiões, mas São Paulo lidera a produção, com cerca de 60% do total, seguido por Paraná, Minas Gerais e Alagoas. A cultura teve sua extensão atrelada ao aumento da demanda do açúcar e álcool. O Brasil se destaca como maior produtor mundial de açúcar (19%) e o segundo em etanol, após os EUA, com 36%. 67 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Em 1975, foi criado o Proálcool, visando à expansão do cultivo da cana para a produção do álcool combustível para reduzir a importação do petróleo, que sofria a sua primeira grande crise em 1974. Na atualidade, a expansão do cultivo está associada à necessidade de melhoria nas condições atmosféricas, com a substituição gradativa dos combustíveis fósseis pelo biocombustível. A safra de 2007/2008 alcançou novo recorde na produção da cana, com cerca de 550 milhões de toneladas/anuais, mantendo o Brasil como o maior produtor mundial. A exportação se dá, sobretudo, para os Estados Unidos, CEI e restante da Europa. Café O café foi introduzido no País já no século XVIII, da Guiana Francesa para o Pará. Porém só começou a ter importância comercial a partir do cultivo ao longo do Vale do Paraíba do Sul entre RJ e SP, ainda na primeira metade do século XIX. Após 1850, alcança a região de Campinas – SP e se expande em direção às manchas de terra roxa ao longo das Ferrovias Mogiana, Paulista e Sorocabana, até chegar ao norte do Paraná. A cafeicultura do século XIX ao XX segue uma rota pelo Vale do Paraíba, norte, noroeste e oeste paulista, e a fase mais recente em direção ao sul de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Já no início do século XX, o Brasil sofre as primeiras crises de superprodução e os problemas da retração do mercado durante a 1ª Guerra Mundial e durante o crash na Bolsa de Valores de Nova York, em 1929 (IBGE, 2006). Principais crises na economia cafeeira: • 1ª crise: 1905/1909 – superprodução; • 2ª crise: 1917 – causada por perturbações trazidas pela Primeira Guerra Mundial; • 3ª crise: 1921 – problemas de preço no comércio internacional; • 4ª crise: 1930 – a mais séria, decorrente da queda da Bolsa de Valores de Nova York. Consequência: queima de todo o café estocado. Em 1937 é criado, durante o governo de Getúlio Vargas, o Instituto Brasileiro do Café (IBC), para controlar a produção e promover o bom desempenho do produto dentro da economia. O Brasil é o maior produtor mundial de café, importante gerador de riquezas desde o início da sua produção. Podemos classificá-lo em termos de espécies cultivadas em café arábica, que apresenta bom desenvolvimento em terrenos acima de 900 metros de altitude e produz uma bebida de melhor qualidade. O estado de Minas Gerais é o maior produtor de café arábica. O café canephora (robusta ou conilon) mais precoce, resistente e produtivo é cultivado em terrenos baixos, principalmente na região de São Gabriel da Palha – ES, com plantas de maior envergadura. Segundo dados do Censo Agropecuário 68 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I 2006, a produção de café em grão teve um crescimento de 26%, com redução na área,o que foi compensado pelo maior rendimento médio. Após 1970, com o aumento das taxas de juros e as constantes quebras de safra decorrentes das geadas em períodos de floração em áreas do sul de SP e norte do PR, o café migra para outras terras. As terras altas do sul de Minas Gerais, Triângulo Mineiro e Zona da Mata Mineira se especializaram na produção do café arábica e outros cafés finos (gourmet), mais aceitos no mercado mundial. Por isso, Minas Gerais alcançou o 1º lugar na produção, seguido do Espírito Santo, cujas terras baixas e clima mais quente favorecem o cultivo do café conilon, ou robusta, assim chamado devido ao forte aroma e à sua tintura. Figura 5 Atualmente, a tendência de expansão se faz para fora da área de ação de geada, ou seja, para Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Bahia e Espírito Santo. A expansão do café acarretou sensíveis transformações na vida econômica das regiões meridionais do Brasil. No campo demográfico, o café imprimiu as seguintes características: povoamento do Brasil Centro-Meridional, com a formação de frentes pioneiras; estímulo aos fluxos migratórios para o Brasil, principalmente de italianos (SP); estímulo às migrações internas de outras regiões para o Sudeste e criação e desenvolvimento de ampla rede de cidades. No setor de transportes, os efeitos da cafeicultura foram o desenvolvimento de uma rede ferroviária, sobretudo no estado de São Paulo (Cia. Mogiana de Estradas de Ferro, Cia. Paulista, Cia. Araraquarense, Cia. Santos–Jundiaí e Cia. Sorocabana, hoje privatizadas) e o aparelhamento do porto de Santos. Os principais portos exportadores de café são: Santos – SP; Paranaguá – PR e Rio de Janeiro – RJ. 69 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL O Brasil permanece como o maior produtor mundial, com 2,74 milhões de toneladas em 2007, destacando-se Minas Gerais, com 47% da produção nacional, Espírito Santo, São Paulo e Bahia como os maiores produtores nacionais. Cacau Originário da Floresta Amazônica, o cacaueiro é um arbusto adaptado à sombra das grandes árvores, em áreas de clima quente e úmido. Encontrou melhores condições de cultivo nos solos argilosos do litoral sul da Bahia, onde há o clima quente e úmido o ano todo e o sombreamento propiciado pela manutenção das árvores mais copadas da Mata Atlântica. A safra baiana tem importante participação na produção brasileira, enfrentando crises de produção devido aos fungos da vassoura-de-bruxa que atacam os cacaueiros, perdendo-se a produtividade. O solo arenoso da Amazônia desfavorece o cultivo do cacau devido ao processo de lixiviação. A Bahia sempre foi o maior produtor nacional, com mais de 66% da produção. Os portos de Malhado (Ilhéus) e Salvador se destacam na exportação do produto, enquanto Itabuna é o maior centro comercial de cacau na região. Os estados do Espírito Santo, Rondônia e Pará também apresentam destaque na FAO, organismo da ONU, que, em 2011, apresentou os maiores produtores mundiais: Costa do Marfim, Indonésia, Gana, Camarões, Brasil, Nigéria e Malásia. A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) é uma autarquia que vem desenvolvendo estudos para a lavoura do cacau, introduzindo técnicas de enxertia e clonagem para resistir ao fungo da vassoura-de-bruxa, além do manejo adequado dos produtores. O Brasil está entre os maiores produtores mundiais de cacau, embora tenha reduzido a participação e não seja autossuficiente. A cultura foi revitalizada na Amazônia, principalmente nas áreas de frentes pioneiras de colonização, ampliando a produção na Bahia, Pará e Espírito Santo. Os principais compradores do cacau brasileiro são, entre outros mercados, Europa, Estados Unidos, Japão e Argentina, sendo o Pará exportador do cacau orgânico para países da Europa. Há outros cultivos importantes que devem ser estudados e mapeados, como: • soja: com um total de 51,18 milhões de toneladas, ocupando 22,9 milhões de hectares, a soja destaca-se como o principal produto em grão desenvolvido no Brasil, ocupando a maior área plantada. Apenas a cana-de-açúcar, com 550 milhões de toneladas, supera a produção da soja em volume, mas ocupa uma área mais reduzida (5,8 milhões ha). O Brasil alcançou a 2ª posição mundial na produção da soja, após os EUA. A China, que era a 2ª produtora, foi superada pelo Brasil e pela Argentina. Em 2006, o Brasil exportava principalmente soja e ferro para o mercado chinês; • algodão: o Paraná liderou a produção do algodão herbáceo por toda a década de 1980 e a maior parte da década de 1990, mas foi superado pela produção do Mato Grosso. Em 2007, a produção nacional do 70 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I algodão herbáceo atingiu o patamar de 1,25 milhão de toneladas, das quais o Mato Grosso concentra 46%, seguido da Bahia, Goiás e São Paulo. A atual produção do Paraná é muito reduzida; • trigo: em 2007, a produção do trigo alcançou os 4,60 milhões de toneladas, destacando o Paraná como o maior produtor, seguido do Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Os estados do Sul (Paraná e Rio Grande do Sul) produzem cerca de 80% da produção nacional; • milho: em 2007, o total da produção foi de 35,1 milhões de toneladas, superado apenas pela soja, tanto em volume da produção quanto em área plantada (11,5 ha). Os estados do Centro-Sul – PR, MG, MT e SP – se destacam na produção brasileira; • arroz: a safra do arroz em 2006 chegou a 13,2 milhões de toneladas, em uma área plantada de 3,9 milhões de hectares. Em São Paulo é tradicional a produção nos Vales dos Rios Ribeira de Iguape e Paraíba do Sul; • banana: no Brasil, a bananicultura é uma atividade bem distribuída nos diversos estados. A safra de 2006 chegou a 6,7 milhões de toneladas, destacando o Paraná como o maior produtor, com 18% do total nacional, seguido da Bahia, Rio Grande do Sul e Paraná; • laranja: desde a 2ª metade da década de 1980 e por toda a década de 1990, o Brasil liderou a produção mundial de laranja, por exportar o suco concentrado para diferentes mercados do hemisfério Norte. Em 2006, a safra da laranja alcançou 17,8 milhões de toneladas, destacando-se São Paulo, com cerca de 80% da produção nacional, seguido da Bahia, Sergipe e Minas Gerais; • fruticultura irrigada no Vale do São Francisco: a fruticultura na região destaca-se, principalmente, com a produção de mamão (1.800 ha), manga (1.620 ha), citros (1.078 ha), goiaba (360 ha) e coco (990 ha) entre outras, o que representa uma receita anual superior a 100 milhões de reais. A produção abastece o mercado nacional, principalmente Sul e Sudeste, e exporta limão, manga e mamão para França, Inglaterra, Canadá e Holanda. O cultivo da manga e da uva no Vale do São Francisco, com produção voltada para exportação, destacando-se Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) como grandes produtores. 4.6 Atividade pecuária Características gerais O início da atividade pecuarista, tanto no Sul como no Norte do País, esteve prioritariamente vinculado ao propósito da colonização territorial. Apenas subsidiariamente prestava-se ao objetivo de alimentar a pequena mão de obra utilizada na atividade criatória e os contingentes civis e militares engajados nas missões colonizadoras e de ampliação de fronteiras. Durante o século XVIII, a Campanha Gaúcha passou a ser área de criação de mulas e bovinos, com produção voltada para o abastecimento de carne de charque (salgada) e mulas para o transporte do ouro na região da mineração em Minas Gerais. O transporte da carne se dava em lombos de mulas, por meio de caminhos de tropeiros que ligavam a Campanha Gaúcha à região da mineração. 71 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão :J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Lembrete É fundamental que se reconheça, como vimos insistindo, a importância da identidade entre estrutura fundiária e social, pois não é possível separá-las nas interpretações. A configuração de uma é uma face da outra. O rebanho de bovinos brasileiro, segundo o IBGE (2006, p. 155), em 31 de dezembro de 2006, era de 171,6 milhões de cabeças; um crescimento de 12,1% em relação ao Censo Agropecuário de 1996. Tabela 2 − Estabelecimentos e efetivo bovino, total e diferença entre os Censos Agropecuários de 1996 e 2006, segundo as Grandes Regiões e Unidades da Federação − 1996/2006 Fonte: IBGE (2006, p. 155). 72 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I Algumas informações importantes sobre a pecuária leiteira estão contidas na tabela a seguir: Tabela 3 − Ranking dos estados da Federação na produção de leite e taxa de crescimento da atividade no período de 1999 a 2008 Ranking Posição Produção (litros) Taxa de crescimento -1999 a 2008- Estado 1999 2008 1999 2008 % Minas Gerais 1º 1º 5.801.063 7.657.305 32% Goiás 2º 3º 2.066.405 2.873.541 39% Rio Grande do Sul 3º 2° 1.974.663 3.314.573 68% São Paulo 4º 6º 1.913.499 1.579.742 -17% Paraná 5º 4º 1.724.918 2.827.931 64% Santa Catarina 6º 5º 906.540 2.125.856 134,50% Bahia 7° 7º 672.394 952.414 42% Rio de Janeiro 8º 13º 457.736 475.592 4% Mato Grosso 9º 10º 411.391 656.558 59,50% Mato Grosso do Sul 10º 12º 409.045 496.045 21% Rondônia 11º 9º 408.750 723.108 77% Pernambuco 15º 8º 266.172 725.786 173% Fonte: Boletim... (2010, p. 8). Prestando atenção à produção nacional por estado, nota-se a superioridade de Minas Gerais em relação aos demais estados federados. “Com um crescimento de 32% no período de 1999 a 2008, esse estado é responsável por 25% da produção brasileira ou mais de 7 bilhões de litros de leite produzidos” (BOLETIM..., 2010, p. 8). Comparando com o segundo maior produtor, o Rio Grande do Sul, com 3,3 bilhões de litros, fica ainda mais evidente a superioridade. Saiba mais Sobre as razões e as rotas da pecuária no Brasil vale recorrer ao livro do professor Manuel Correia de Andrade. ANDRADE, M. C. A questão do território no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2004. Resumo Esta unidade fez um percurso através da história das formas variadas de usos da terra ao longo do tempo, começando pelas agriculturas sustentáveis originais ou saberes e personagens vernáculos, como experiências e práticas 73 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL agroecológicas sustentáveis a serem seletivamente resgatadas de acordo com sua vitalidade. Passamos para a consideração da mudança da produção necessária à produção da escassez artificial, tratando dos limites efetivos da produção que não estão ligados aos limites produtivos da terra, para que ela possa render muito mais em condições ambientalmente sustentáveis. Em seguida, enfocamos a formação ou territorialização dos sistemas e cadeias produtivas convencionais, uniformizadoras e concentradoras, de economia e tecnologias duras. Concluímos a unidade tomando a consolidação das tecnologias no campo e da agroindústria, os sucessos e declínio das atividades agrárias convencionais, a insustentabilidade da produção “sem a natureza”, “sem o humano”, e gestão ambiental “sem ambiente”. O novo rural, ou o “rurbano”, impõe-se. Exercícios Questão 1. (Fuvest 2011) É assim extremamente simples a estrutura social da colônia no primeiro século e meio de colonização. Reduz-se em suma a duas classes: de um lado os proprietários rurais, a classe abastada dos senhores de engenho e fazenda; doutro, a massa da população espúria dos trabalhadores do campo, escravos e semilivres. Da simplicidade da infraestrutura econômica – a terra, única força produtiva, absorvida pela grande exploração agrícola – deriva a da estrutura social: a reduzida classe de proprietários e a grande massa, explorada e oprimida. Há naturalmente no seio desta massa gradações, que assinalamos. Mas, elas não são, contudo, bastante profundas para se caracterizarem em situações radicalmente distintas. Fonte: PRADO JUNIOR, C. Evolução política do Brasil. 20. ed. São Paulo: Brasiliense, p.28-29, 1993 [1942]. Nesse trecho, o autor observa que, na sociedade colonial: A) só havia dois grupos (ou classes sociais) conhecidos, nada sendo sabido sobre indivíduos que porventura fizessem parte de outras. B) havia muitos grupos (ou classes) diferentes, mas somente dois estavam diretamente ligados a critérios econômicos ou produtivos. C) todos os membros das classes existentes queriam se transformar em proprietários rurais, exceto os pequenos trabalhadores livres, semilivres ou escravos. 74 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 Unidade I D) diversas classes radicalmente distintas umas das outras compunham um cenário complexo, marcado por conflitos sociais com intensas e generalizadas disputas políticas entre elas, sem relação com a estrutura fundiária. E) a população se organizava em duas classes, do ponto de vista da propriedade, cujas gradações internas não alteravam a simplicidade da estrutura social. Resposta correta: Alternativa E. Análise das alternativas A) Alternativa incorreta. Justificativa: a alternativa contradiz-se, pois o autor não declara dúvida ao identificar os grupos sociais, mas os classifica com veemência e sem considerações de eventuais agentes sociais não incluídos. B) Alternativa incorreta. Justificativa: havia apenas duas classes quando se consideram os papeis provindos da propriedade e funções econômicas. C) Alternativa incorreta. Justificativa: a alternativa afirma que todos almejam ser proprietários ao mesmo tempo em que não almejam, contradizendo-se. Também não há suficiente informação na questão para fazer afirmações desse tipo sobre os indivíduos, sem pesquisa. D) Alternativa incorreta. Justificativa: o autor não fala em diversas classes quanto a seus papéis produtivos, trata apenas de duas. Também não houve intensas e generalizadas disputas políticas em nossa sociedade, embora sempre tenha havido muito descontentamento com a pobreza e a miséria, extremamente vinculadas à estrutura fundiária. E) Alternativa correta. Justificativa: a afirmativa está correta, pois Caio Prado Júnior adota o conceito de “classe social” na análise da estrutura colonial do Brasil, entendendo-a dividida entre senhores e escravos, apesar da existência de setores intermediários; daí a ideia de simplicidade. Além disso, enfatiza que duas são as classes ligadas à propriedade, e não à gama de significados das atividades vernaculares ou originais desenvolvidas: a estrutura produtiva e social expressa as desigualdades. 75 Re vi sã o: C ar la - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 1 9/ 05 15 AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Questão 2. (Enade 2005) As seguintes afirmativas constituem tratamento transversal dado ao tema meio ambiente, exceto: A) Não existe apenas uma crise ambiental, mas uma crise civilizatória, sendo necessária uma profunda mudança na concepção de mundo, de natureza, de poder. B) A problemática ambiental implica, no âmbito social, mudanças no comportamento, na construção de formas de pensar e agir na relação com a natureza. C) A questão ambiental diz respeito sobretudo à preservação dos ambientes naturais intocados e ao controle da poluição. D) É preciso criar e aplicar formas cada vez mais sustentáveis de interação sociedade/natureza na perspectiva de buscar soluçõespara os problemas ambientais. E) O crescimento econômico deve estar subordinado a uma exploração racional e responsável dos recursos naturais para garantir a vida das gerações futuras. Resolução desta questão na plataforma.