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Apostila Teoria e Pratica da Redacao Juridica 2012 (2)

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diz respeito à liberdade de informação garantida pela Constituição, na qual se escuda a apelante para justificar a sua conduta. Em seu entender, teria agido em absoluta conformidade com a Carta Magna; informando seus leitores a respeito de fato de interesse público, pelo que não teria praticado ato ilícito.
 Ninguém questiona que a Constituição garante o direito de livre expressão à atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença (arts. 5, inc. IX e 220, §§ 1° e 2°). Essa mesma Constituição, todavia, logo no inciso seguinte (inc. X), dispõe que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. 
 Como se vê, na temática atinente aos direitos e garantias fundamentais, esses dois princípios constitucionais se confrontam e devem ser conciliados. É tarefa do intérprete encontrar o ponto de equilíbrio entre os princípios constitucionais em aparente conflito, porquanto, em fase do princípio da unidade constitucional, a Constituição não pode estar em conflito consigo mesma, não obstante a diversidade de normas e princípios que contém; a fim de evitar contradições, antagonismos e antinomias.
 Em outras palavras, não é possível analisar-se uma disposição constitucional isoladamente, fora do conjunto harmônico em que deve se situada, princípios aparentemente contraditórios podem harmonizar-se desde que se abdique da pretensão de interpreta-los de forma isolada e absoluta.
 Celso Ribeiro Bastos, citando Willoughby, diz que “a Constituição corresponde a um todo lógico, onde cada provisão é parte integrante do conjunto, sendo assim logicamente adequado, senão imperativo, interpretar uma parte à luz das previsões de todas as demais partes”. (Curso de Direito Constitucional, Saraiva, 15a. Edição, p.204).
 À luz desses princípios é forçoso concluir que sempre que direitos constitucionais são colocados em confronto, um condiciona o outro, atuando como limites estabelecidos pela própria Lei Maior para impedir excessos e arbítrios. Assim, se ao direito à livre expressão da atividade intelectual e de comunicação contrapõe-se o direito à inviolabilidade da intimidade da vida privada, de honra e da imagem, segue-se como conseqüência lógica que este último condiciona o exercício do primeiro.
 Pondera o insigne Carlos Alberto Bittar que na divulgação da imagem é vedada qualquer ação que importe em lesão à honra, à reputação, ao decoro (ou a chamada imagem moral ou conceitual), à intimidade e a outros valores da pessoa (uso torpe) ... Não são permitidas, pois, quaisquer operações que redundem em sacrifício desses valores, que receberão sancionamento em conformidade com bem exteriorizado, e quando provocado previamente para coibir a ameaça de violação de direitos, nunca para censurar. 
 Assentados os limites do direito de expressão e informação em face da inviolabilidade da vida privada, cumpre agora perquirir se a apelante, ao veicular a notícia que deu causa a esta ação, invadiu a esfera íntima da autora, causando-lhe dano moral.
 Na falta de critérios objetivos para a configuração do dano moral, a questão vem se tornando tormentosa na doutrina e na jurisprudência, levando o julgador a situação de perplexidade. Ultrapassadas as fases de irreparabilidade do dano moral e da sua inacumulabilidade com o dano material, corremos agora o risco de ingressarmos na fase da sua industrialização, onde o aborrecimento banal ou mera sensibilidade são apresentados como dano moral, em busca de indenizações milionárias.
 Tendo entendido que, na solução dessa questão, cumpre ao juiz seguir a trilha da lógica do razoável, em busca da sensibilidade ético-social, normal. Deve tomar por paradigma o cidadão que se coloca a igual distância do homem frio, insensível, e o homem de extremada sensibilidade.
 Nessa linha de princípio, só deve ser reputado como dano moral à dor, vexame, sofrimento ou humilhação que, fugindo à normalidade, interfira intensamente no comportamento psicológico do indivíduo, causando-lhe aflições, angústia e desequilíbrio em seu bem estar. Mero dissabor, aborrecimento, mágoa, irritação ou sensibilidade exacerbada estão fora da órbita do dano moral, porquanto, além de fazerem parte da normalidade do nosso dia a dia, no trabalho, no trânsito, entre os amigos e até no ambiente familiar, tais situações não são intensas e duradouras, a ponto de romper o equilíbrio psicológico do indivíduo. Se assim não se entender, acabaremos por banalizar o dano moral, ensejando ações judiciais em busca de indenizações pelos mais triviais aborrecimentos.
 Tomando-se como paradigma o homem normal, parece-me que ninguém pode negar que fere a sensibilidade do profissional sério, competente, responsável, e configura humilhação dolorosa, ser tachado de relapso, faltoso e alcoólatra em notícia publicada em revista de grande circulação. E a autora não é detentora desses defeitos pois caso contrário não teria chegado aonde chegou.
 A notícia, pelo que se infere das reportagens de fls. 168/177, não era verdadeira, eis que a apelada, durante a gravação da novela “De corpo e alma”, não faltou aos seus compromissos profissionais nem quando fraturou uma perna (fls. 169), pelo que foi considerada um exemplo de profissionalismo
 Mesmo que assim não fosse não havia justificativa para a divulgação de um fato da vida privada da autora, que se verdadeiro fosse seria do exclusivo interesse do seu empregador. O direito à privacidade, segundo a doutrina da Suprema Corte dos Estados Unidos universalmente aceita, é o direito que toda pessoa tem de estar só, de ser deixada em paz e de tomar sozinha as decisões na esfera de sua privacidade. O ponto nodal desse direito, na precisa lição do já citado Carlos Alberto Bittar, encontra-se na exigência de isolamento mental existente no psiquismo humano, que leva a pessoa a não desejar que certos aspectos de sua personalidade e de sua vida cheguem ao conhecimento de terceiros. Limita-se, com esse direito, o quanto possível, a inserção de estranho na esfera privada ou íntima da pessoa. São elementos: a vida privada, o lar, a família, etc... No campo do direito à intimidade são protegidos, dentre outros, os seguintes bens: confidências, informes de ordem pessoal, recordações pessoais, memórias, relações familiares, vida amorosa ou conjugal, saúde física ou mental, afeições, atividades domésticas, etc. Esse direito, conclui-se, reveste-se das conotações fundamentais dos direitos da personalidade, devendo-se enfatizar a sua condição de direito negativo, ou seja, expresso exatamente pela não exposição a conhecimento de terceiro de elementos particulares da esfera reservada do titular. Nesse sentido, pode-se acentuar que consiste no direito de impedir o acesso a terceiros nos domínios da confidenciabilidade (obra citada p 103/104).
 Costuma-se ressalvar, no tocante à inviolabilidade da intimidade a pessoa dotada de notoriedade, principalmente quando exerce vida pública. Fala-se então nos chamados “direito à informação e direito à história” a título de justificar a revelação de fatos de interesse público, independentemente da anuência da pessoa envolvida. Entende-se que, nesse caso, existe redução espontânea dos limites da privacidade (como ocorre com os políticos, atletas, artistas e outros que se mantêm em contato com o público). Mas o limite da confidenciabilidade