Efeitos da posse
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Efeitos da posse


DisciplinaDireito das Coisas e Ações Possessórias44 materiais474 seguidores
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Rio, 19 de março de 2012
Direito das Coisas 
Efeitos da posse (conforme vistos na última aula):
Proteção Interdital
Usucapião
Indenização por benfeitorias
Desforço possessório
Direito a pedir perdas e danos pelas moléstias à posse
Savigny acreditava que existiam dois requisitos para que se possa identificar a posse: o corpus e o animus. Corpus eram o elemento objetivo da posse \u2013 era não apenas o contato físico com a coisa, mas sim o contato físico que dava poder de disposição. Além desse elemento, existia o elemento subjetivo \u2013 o animus \u2013 que representa a vontade de ser dono. Ele usava o termo animus domini para reconhecer a existência desse elemento. Segundo ele, é somente pelo animus domini que se poderá diferenciar o possuidor do detentor. Ele reconhecia o ladrão como possuidor \u2013 já que ele manifestava animus domini. A teoria de Savigny ficou conhecida como teoria subjetiva da posse.
Existiam casos, porém, em que havia posse, porém não havia animus domini \u2013 como o locatário, o depositário, o comodatário e o credor pignoratício. Savigny explicava essa questão da seguinte forma: tratam-se de pessoas que detém a posse por força de um contrato pessoal (como o contrato de locação, comodato, penhor e depósito). Nesse contrato, o efetivo dono da coisa estaria transferindo o animus domini. Assim, no momento em que o locador celebra o contrato com o locatário, ele transfere não apenas a posse física da coisa como também o direito de requerer o direito de proteção interdital (devido à transferência do animus domini). 
A teoria de Savigny vigora em alguns países, como, por exemplo, no Chile. O Código Civil espanhol também sofreu influências dessa teoria. 
Já para Jhering, que combateu algum tempo depois a teoria de Savigny, bastava o elemento objetivo. A teoria de Savigny, para ele, era apenas uma ficção \u2013 não ocorreria transferência de ius possessiones à partir do animus domini. Assim, trata-se da teoria objetiva da posse. Para Jhering, não existiria aspecto subjetivo \u2013 existiria apenas um afectio terendi \u2013 desejo de atuar como proprietário, inerente à todos os casos de posse e que não representa um requisito para a existência da posse. Ao caseiro faltaria, por exemplo, essa vontade de atuar como se dono fosse. Além disso, existe uma causa jurídica que o impede de se tornar possuidor \u2013 trata-se de uma causa lógica, já que ninguém pode possuir, ao mesmo tempo, em nome próprio e em nome alheio. O dono da casa exerceria a posse por intermédio da figura do caseiro \u2013 que não detém o corpus em nome próprio. 
O artigo 1.096 nos indicará que teoria o Código Civil adotou \u2013 ele adotou a teoria de Jhering. O artigo não faz nenhuma menção à intenção de ser dono. Pelo contrário, ele deixa muito claro que o que é preponderante é o exercício, pleno ou não, de um dos poderes inerentes à propriedade.
Na história do direito romano temos períodos distintos. No período pré-clássico, tinha-se uma situação em que a posse era muito vinculada à uma exploração das coisas por meio de concessão dada pelo Estado. Na qualidade de concessionário, ele poderia buscar a proteção interdital. Depois, surgiu a figura do proprietário imperfeito, conforme vimos na aula passada. Com o tempo, o fenômeno da posse foi se tornando cada vez mais complexo. A ideia possessória sofreu uma evolução de modo que hoje se pode obter posse de direitos pessoais (um diretor toma posse de seu cargo em uma S.A. e um presidente toma posse no cargo, por exemplo). Assim, temos posse como exercício de direito.
O artigo 1.199 trás a definição de composse. Trata-se do fenômeno que ocorre quando duas ou mais pessoas exercem posse sobre a mesma coisa \u2013 como pode acontecer com um casal, por exemplo. Cada uma pode exercer seu direito sobre a posse desde que não prejudique o direito do outro. Por exemplo, se um imóvel de dois proprietários e compossuidores é esbulhado, não é necessária autorização ou o litisconsórcio do outro para que apenas um dele ingresse com uma ação possessória. Porém, se um dos compossuidores impede que o outro se utilize do imóvel, o que o lesado pode fazer? Nesse caso, o lesado pode entrar com uma ação de reintegração na posse, já que ele está sendo impedido de exercer atos possessórios. Esse tipo é muito comum no caso de separação de casais. 
Qualidade da posse
A qualidade da posse se mede pela existência de vícios subjetivos e objetivos. O artigo 1.200 trás os vícios objetivos da posse \u2013 violência, clandestinidade e precariedade. Já o artigo 1.201 trás os vícios subjetivos da posse (saber se o possuidor está ou não de boa fé, por exemplo).
Vícios objetivos da posse
Geralmente, a violência é chamada de posse vi, a clandestinidade de posse clan e a precariedade de posse precario. 
A posse violenta é um estado de fato inaugurado por um ato de violência física ou moral. O artigo 1.208, que fala de aquisição da posse, deixa claro que, em termo de violência, só se considera adquirida a posse quando cessar a violência \u2013 porque apenas nesse momento o possuidor originário pode pleitear ter de volta a posse perdida. Normalmente a posse violenta é pontual, mas se ele perdurar no tempo devemos aplicar o artigo 1.208. Nessas condições, devemos verificar como se inaugurou o estado de fato sobre a coisa pelo qual a pessoa pratica atos inerentes ao proprietário (essa é, aliás, a definição de posse). 
A posse clandestina é a posse que existe de forma escondida \u2013 de forma não pública. Ela é adquirida por um processo de ocultamento praticado pelo possuidor. Alguém que furta um bem de outrem (furto \u2013 não roubo), enquanto esse furto não é percebido pela vítima não se configura um ato de aquisição de posse (conforme artigo 1.208). O contrário da clandestinidade é a publicidade. 
Já a posse com o vício da precariedade é a posse de quem tem a coisa consigo e tem a obrigação de restituí-la, mas não cumpre essa obrigação. Se o locatário, encerrado o ato do contrato de locação, não devolve a coisa, a partir do momento que ele se recusa a devolver a coisa surge uma situação de fato distinta. Nesse caso, deve ocorrer uma ação de despejo \u2013 e não uma ação de reintegração de posse \u2013 porque a lei de locações assim indica. Já se a coisa tiver sido dada originalmente em comodato, a ação cabível será a ação de reintegração na posse. O artigo 1.208 não fala da precariedade \u2013 isso porque ele fala de fatos que não induzem em posse. Isso não ocorre no caso da posse precário \u2013 ela originalmente induzia em posse, somente parou de induzir posteriormente. O estado de fato foi inaugurado de forma legítima. 
Os vícios objetivos da posse só podem ser arguidos pelas vítimas em questão. Outros, terceiros, mesmo cientes de que uma coisa foi havida por ato de violência, por exemplo, não podem questionar a posse ou buscar obter a posse. Sendo assim, os vícios objetivos não interessam a terceiros. 
Vício subjetivo da posse
O vício subjetivo da posse busca verificar se existe má fé ou boa fé na posse. Conforme o artigo 1.201, é por meio da ignorância que se identifica a boa fé. Nesse caso a boa fé é necessariamente subjetiva. A jurisprudência já se manifestou indicando que cessa a boa fé quando o possuidor é citado por decisão judicial. 
Se o possuidor, já de má fé, aluga o imóvel, ele terá que restituir àquele que de fato tem direito à posse o valor que foi pago pelos alugueis. 
Notificação extrajudicial não cessa a boa fé? A notificação já serviria para afastar o estado de ignorância, e, sendo assim, cessaria a boa fé. Por outro lado, se uma pessoa receber uma notificação e se considerar legítimo possuidor, ele deverá entrar com uma ação para fazer cessar a ameaça ou turbação, requerendo a proteção possessória.
Pode-se provar que a pessoa não estava na ignorância por todos os meios legais \u2013 inclusive, por exemplo, uma prova testemunhal. 
Existe uma corrente jurisprudencial que indica que a ameaça de ingressar com uma ação judicial não gera direito a entrar com uma ação judicial para cessar a ameaça. Entrar com uma ação judicial é um direito constitucional e não constitui, por si só, uma ameaça.