Efeitos da posse
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Efeitos da posse


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Já uma notificação que indica que a pessoa deve se retirar do imóvel em 3 dias gera direito a uma ação possessória para fazer cessar a ameaça. 
O parágrafo único do artigo 1.201 fala do conceito de justo título. Esse conceito só tem relevância para a usucapião. Existem certos tipos de usucapião que demandam um prazo menor para poder usucapir quando a parte está munida de um justo título. Quem possui o justo título tem a presunção de boa fé. Mas o que seria justo título? Nesse caso, o adjetivo pode trair a análise do instituto \u2013 justo, nesse caso, nada tem a ver com justiça. Trata-se do título hábil, em tese, para transferir um direito, mas inábil na hipótese para operar aquela transferência. 
Exemplo: uma escritura de compra e venda é um título hábil para transferir um direito, porém, no caso concreto, se alguma assinatura for falsificada, como a do vendedor, aquela escritura deixa de ser hábil para transferir um direito. A falsificação da assinatura constitui um vicio que impede a transferência do direito \u2013 porém, quem comprou está na ignorância disso e está no imóvel de boa fé. Se, um dia, ele é citado em um processo judicial que discute a posse, ele poderá usar a escritura fraudulenta como um justo título, porque foi com base nela que ele assumiu a posse e ela conferia a ele a presunção de boa fé.
Exemplo 2: uma carta de arrematação (documento que comprova que a posse arrematou o bem ou o imóvel) de um leilão é um documento hábil, em tese, para transferir um direito. Porém, se o proprietário originário recebe um oficio de justiça o citando para um processo devido ao preço vil pelo qual foi vendido o imóvel. Do mesmo modo, porém, aquele que detém uma carta de arrematação será considerado possuidor de boa fé por deter um justo título. 
Repare que a expressão \u201cjusto\u201d deprecia o título \u2013 ele não é um instrumento hábil como, em tese, seria. Trata-se de algo que só interfere na usucapião por modificar o prazo para usucapir. 
Alguém que tenha justo título pode ser possuidor de má fá \u2013 o artigo 1.201 fala da presunção de boa fé. Porém, o vício objetivo não se confunde com o vício subjetivo. O artigo 1.203 fala que se considera a posse da forma como ela foi adquirida \u2013 uma posse violenta sempre será violenta (mesmo se a posse for transferida para outra pessoa, continuará sendo violenta). Mas se a pessoa que compra um bem que foi adquirido de forma violenta tiver ciência do esbulho, ele estará, desde o início, de má fé (por saber que aquela posse não era legítima desde o início). Uma posse obtida por doação quando a coisa foi objeto de comodato é uma posse de boa fé e sem justo título (a doação foi feita verbalmente e a coisa era objeto de comodato). Já se a coisa é dada por contrato de doação mas o donatário sabe que a coisa foi originalmente roubada, tem-se uma situação em que há justo título porém não há boa fé \u2013 a boa fé é afastada. Ler sobre justo título na parte de usucapião. 
Efeitos da posse (continuação)
Já falamos da proteção interdital \u2013 interdito proibitório, manutenção de posse e reintegração de posse. Já vimos o artigo 1.212 do Código Civil, que fala sobre a ciência sobre a coisa ser fruto de esbulho. Como vimos, diante da falta de ciência daquele que adquire o objeto de esbulho, o proprietário originário ainda pode fazer uso da ação reivindicatória. Uma ação possessória só será cabível caso aquele que adquire o objeto tenha ciência do esbulho. 
Obs: O artigo 1.200, que define a posse pela negativa (o que é muito ruim), indica que a posse que é fruto de violência é uma posse injusta. Porém, essa qualificação do artigo 1.200 nada tem a ver com o \u201cinjustamente\u201d citado no artigo 1.228. 
O conceito trazido pelo artigo 1.210 parágrafo 2º é muito importante. Ele cita a ideia oposta ao que a doutrina chama de exceptio dominii ou exceptio proprietatis. Toda vez que ouvirmos a expressão \u201cexceção\u201d, no direito, a ideia atribuída é de defesa (como no caso da exceção de incompetência, exceção de suspeição, exceção de contrato não cumprido, entre outros). O que esse parágrafo indica é que uma pessoa não pode, em uma disputa possessória, tentar se defender alegando a propriedade (isso é a ideia contrária à ideia da exceptio proprietatis \u2013 que indica que você pode alegar o fato de ser proprietário em sua defesa). Existe, porém, apenas uma situação em que você pode discutir propriedade em uma ação possessória \u2013 trata-se da hipótese trazida pela súmula 487 do STF. Essa súmula indica que, em caso de uma briga possessória na qual autor e réu indicam deter a posse por se julgarem proprietários, nesse caso poderá ser discutida a propriedade. Isso ocorre quando a causa de pedir mediata é a indicação de que a parte é proprietária (assim, a causa de pedir imediata vai ser a posse e a causa de pedir mediata vai ser a propriedade). Devemos lembrar, também, que apenas o dispositivo faz coisa julgada \u2013 a fundamentação não faz. Assim, se é indicada a reintegração na posse com base na propriedade (caso da súmula do STF), apenas a reintegração na posse fará coisa julgada \u2013 não o fato da parte ser proprietária. (Ler sobre exceptio proprietatis \u2013 ver se é isso mesmo). 
O artigo 1.210 parágrafo 1º fala sobre o desforço possessório. Ele indica que no caso de uma situação fática que gere turbação ou esbulho, a vítima dessa turbação ou esbulho pode agir contra o turbador ou esbulhador sem precisar acionar o poder judiciário. Porém, existem limites para o direito de se utilizar da própria força. Inicialmente, a reação deve se dar \u201clogo\u201d \u2013 o que é um limite temporal propositalmente subjetivo. Enquanto durar a violência, por vezes não há como realizar uma reação \u2013 apenas quando a violência cessar. Nesse caso, portanto, quando a violência cessar será considerada \u201clogo\u201d. Além disso, existe um limite de intensidade para a reação que pode ocorrer por parte da vítima de esbulho ou da turbação.
O segundo efeito da posse é a usucapião. Mais adiante, falaremos das espécies da usucapião. Como já vimos, os direitos reais podem ser adquiridos com o tempo \u2013 tanto no caso de coisas móveis quanto no caso de coisas imóveis. 
No direito romano, existiam algumas formas de aquisição da propriedade \u2013 uma delas era a propriedade quiritária. Essa propriedade era adquirida com base em várias formalidades, inclusive o pronunciamento de palavras específicas na frente de dez testemunhas. Quem ganhava terras nessas condições eram tidos como proprietários. Por vezes, porém, algumas formalidades não eram cumpridas \u2013 o que impedia a aquisição da propriedade quiritária. Quem não respeita tais formalidades não detinha a propriedade por emancipação (emancipatio). Era uma situação da propriedade imperfeita \u2013 porém, quando ela perdura, ela gera uma situação jurídica. As terras não respaldadas pela emancipatio, com o tempo, podiam se tornar objeto de propriedade \u2013 assim, a situação de fato passou a ter um respaldo jurídico. Assim, a origem da usucapião não está em uma sanção, mas sim na consolidação de uma aparência \u2013 a aparência de ser proprietário.
Usucapião é definida pela posse mais o tempo. Serão 3 ou 5 anos para móveis e 10 ou 15 anos para imóveis (depois veremos as condições para que seja determinado tempo). Embora a usucapião seja um efeito da posse, nem sempre a posse gera usucapião. Um locatário, por exemplo, nunca poderá usucapir, embora detenha a posse \u2013 isso porque o locador permanece possuindo uma posse indireta (embora a locatária tenha a posse direta). Além disso, pelo artigo 1.197 indica que uma posse advinda de um direito pessoal (como o contrato de locação) não seja usucapião. Sendo assim, a posse do locatário não é ad usucapionem (não dá ensejo à usucapião). 
O contrato de penhor também pode gerar a usucapião por ser uma posse advinda de direito pessoal. Uma posse advinda de comodato também não pode gerar usucapião. O caseiro também não pode usucapir \u2013 isso porque ele não possui posse, ele é apenas um detentor. Assim, temos que, conforme já vimos, nem toda posse gera usucapião \u2013 por isso a distinção entre posse ad usucapionem e posse ad interdicta