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Proteção Interdital e Propriedade  posse e detenção

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que determinado proprietário detém na escritura. A turbação não é a comada da posse, como ocorre no esbulho - é o incomodo da posse. A ação de manutenção na posse evita a turbação, evitando que alguém incomoda o direito da posse de alguém. A posse pode sofrer, sendo assim, três moléstias: a ameaça, a turbação (o incomodo da posse) e o esbulho (a perda da posse efetiva).
No artigo 1.225, lido na última aula, temos os direitos reais previstos no ordenamento jurídico brasileiro – porém, a posse não está elencada. Ela está em um título separado dos direitos reais. Sendo assim, embora seja merecedora de proteção, a posse não é um direito real. Ela tem praticamente todos os atributos de um direito real – até mesmo a oponibilidade erga omnes. Porém, a doutrina indica que não se trata de um direito real. Existe uma discussão quanto a se a posse é um direito ou um fato. Segundo Ferro, é um fato do qual se extraem importantes consequências jurídicas. Como definição, posse é um estado de fato sobre a coisa.
Existe outra situação de fato sobre a coisa. Um caseiro que cuida de uma casa exterioriza um comportamento inerente ao proprietário. Porém, ele não é possuidor, por existir um contrato de trabalho que indica que o contato físico do caseiro com o imóvel decorre de uma ordem do empregador. Assim, o caseiro não exerce um estado de fato sobre a coisa em nome próprio, mas sim pela ordem de outro. Nesse caso, portanto, podemos dizer que o caseiro é detentor, o que é diferente de possuidor. Toda a teoria possessória foi criada para distinguir detenção de posse. O artigo 1.198 trás a definição de detentor – porém, essa definição não foi muito feliz, porque a situação de detenção não se esgota apenas nesse exemplo, como veremos futuramente. Temos que apenas o contato físico não denota posse, já que por vezes a pessoa está em contato com o objeto devido à ordem ou instrução do proprietário ou efetivo possuidor da coisa. 
Assim, se invadem a casa cuidada pelo caseiro, ele não entrará com uma ação de reintegração de posse – porque ele não tem legitimação ativa para requisitar um direito que, por essência, não é dele. Se o caseiro comete um ato de esbulho possessório contra o vizinho por ordem do proprietário, o réu da ação de reintegração será o proprietário e não o caseiro. Porém, caso o caseiro seja colocado como réu da ação, ele deverá nomear à autoria o efetivo proprietário do imóvel. O artigo 62 do Código Civil diz respeito a isso. 
Logo, propriedade, posse e detenção são institutos jurídicos distintos. 
Obs - Comprar: “Eles, os juízes, vistos por nós, os advogados” – Piero Calamandrei.
Obs 2 – Na prova dele, sempre lembrar das perdas e danos devidas!
Detenção (continuação)
As noções de posse e de detenção faz com que tenhamos que fazer uma análise crítica da situação fática, já que visualmente o detentor pode ser confundido com aquele que detém a posse. Devemos verificar se o detentor da coisa está desempenhando seu papel a mando de alguém. O juiz deve exercer seu poder instrutório para verificar essa situação de fato.
O artigo 1.198 trás uma qualificação de detentor – ele estabelece que a relação do detentor é de vínculo de dependência para com outro. Na maior parte dos casos, serão casos de relação de vínculo empregatício. Existem casos em que a outra pessoa está apenas fazendo um favor (como, por exemplo, está levando a coisa de um lugar a outro como favor ao proprietário da coisa) – nesse caso, há dependência, mas não há vinculo de emprego. O mesmo ocorre no caso do mandatário – ele não tem vínculo de emprego, mas há relação de dependência. 
O artigo 1.208 indica que não induz em posse um mero ato de permissão ou tolerância. Irá induzir, somente, em detenção. Por exemplo, se um proprietário de um terreno deixa que outro passe por sua propriedade, isso não irá gerar a consequência jurídica de posse (e, consequentemente, não poderá gerar, com o decurso do tempo, a usucapião), mas sim de detenção. Porém, se a outra parte prova que não havia tolerância mas sim um ato possessório de sua parte, poderá sim ocorrer a consequência jurídica de posse – sendo assim, a situação deve ser averiguada em detalhes. Se for um caso de ação de usucapião, deve-se comprovar não apenas a posse, mas também o decurso do tempo. Para evitar ações como essas, o ideal é que seja feito um documento comprovando a tolerância, o que pode ser um mero bilhete. 
A diferença entre permissão e tolerância é que a permissão é um ato ativo, enquanto a tolerância é uma inação (falta de ação). Assim, o mais complicado é comprovar se a tolerância é de fato tolerância ou mera negligência que possibilitou a posse. 
A segunda parte do artigo 1.208 tem grande relevância para o conceito de detenção. Teremos essa discussão mais a fundo nas próximas aulas. Se, mediante um ato de violência, invade-se a casa de alguém, e esse ato de violência perdura no imóvel durante o decurso do tempo, o proprietário originário poderá perder a posse? Em quanto tempo? O proprietário poderá tentar reaver a posse por seus próprios meios (artigo 1.210 – trata-se do desforço possessório) e também poderá buscar reaver a posse judicialmente. O período entre a violência e o conhecimento por parte do proprietário do ato de violência constituirá detenção. Apenas após a ciência do proprietário trata-se de posse. Logo, o prazo para a usucapião começa a ser contado com o conhecimento por parte do proprietário (antes disso, existe detenção e não posse). A usucapião pode ser adquirida em prazos diferentes, dependendo do caso. 
A detenção citada no artigo 1.208 gera dependência? Não, e é justamente por isso que a definição presente no artigo 1.198 é tida como insuficiente. A definição do artigo 1.198 se prende a uma situação fática específica, e não abarca, por exemplo, o caso do artigo 1.208. A definição do Código Português, sendo assim, é muito mais feliz: trata-se de detenção os casos em que alguém detém a posse em nome de outrem. Atenção: se perguntarem, por exemplo, se um empregado pode vir a, um dia, usucapir, a resposta nunca pode ser um não definitivo. Deve-se buscar a realidade da situação concreta. Veremos alguns casos interessantes sobre isso em alguns acórdãos que serão lidos mais à frente.
Para finalizar o conceito de detenção, Arruda Alvim indica que a detenção é desinteressada e dependente. Trata-se de detenção dependente porque o detentor segue as ordens do proprietário ou possuidor. E é uma detenção desinteressada porque não há interesse por parte do detentor de adquirir direitos sobre a coisa. No artigo 1.208, segunda parte, como exceção, ocorre uma detenção que surge com uma situação ilícita e, apenas nesse caso, a detenção é interessada (visa obter a propriedade da coisa) e independente (aquele que pratica o ato ilícito agirá consoante o seu arbítrio).
Assim, em conclusão, a detenção pode ocorrer em caso de vínculo de emprego, mandato, simples favor, tolerância ou ato ilícito. 
Ler: Arruda Alvim – Notas da distinção de posse e detenção.
Efeitos jurídicos da posse
São efeitos jurídicos da posse: 
A Proteção Interdital – trata-se do direito que a parte tem de solicitar ao juiz a proteção contra um interdito possessório – são interditos possessórios todas as ações que visam proteger a posse. São exemplos de interditos possessórios a ação de interdito proibitório (para o caso de ameaça da posse), a manutenção da posse (para o caso de turbação) e a reintegração de posse (para o caso de esbulho);
A usucapião – possibilidade da posse se torna propriedade com o decurso do tempo;
A indenização por frutos e benfeitorias;
O desforço possessório – possibilidade que tem o possuidor de proteger sua posse com atos próprios; e
O direito de ser indenizado pelos prejuízos sofridos - esse efeito não é reconhecido, por muitos doutrinadores, como um efeito concreto. Ou seja, além dos meios de proteção interdital, teria-se também o direito de serem pagas perdas e danos devido ao advento de interditos possessórios.
Proteção Interdital
Na prática, existem dois tipos de situação: a situação