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1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA COMUNIDADE A comunidade indígena de Umariaçu II, de acordo com o morador mais antigo, foi fundada em 1943, mas tem outros relatos que já existia desde 1914. Contam ainda que os moradores viviam isolados na região do igarapé de Umariaçú, Tacana, Urumutum. Nessa época, o povo Ticuna, sob a influência da cultura não indígena dos regatões, comerciantes, seringalistas, religiosos e pesquisadores, já vinha se envolvendo na sociedade não indígena em todo o Alto Solimões. Por outro lado, a prática de costumes tradicionais como a festa da moça nova, a pintura corporal, os rituais de pajelanças, o ajuri, entres outras cultuais. Para os Ticuna, a culturas e tradições jamais são esquecidas, pois cada dia que passa fica mais presentes. O primeiro cacique de Umariaçu foi o senhor Agostino (falecido) “morador antigo de Umariaçu II, mesmo” que agregou a sua família na fazenda do José Mendes para separar o agregado da Comarca o qual foi titulado, inicialmente, pelos militares e mais tarde reafirmado pelo Serviço de Proteção ao Índio - SPI, em 1942, e que foi oficialmente chamado de “testa dourado”, segundo informações de que teria sido presenteado pelo General Marechal Cândido da Silva Rondon, a serviço do governo brasileiro. As primeiras casas da aldeia eram localizadas às margens esquerda do Rio Solimões, nas várzeas, onde alagava todos os anos na época das enchentes. Estas casas eram feitas de paxiúbas e cobertura de palha. A primeira escola construída pelos órgãos militares era também na beira do rio, feita de madeira de lei. Com o fenômeno das terras caídas, as barrancas, as casas, inclusive a escola foram se mudando de local mais distante das barrancas. A segunda escola construída já foi de alvenaria. Em 15 de agosto de 1975, os caciques e lideranças da época resolveram transferir a comunidade para a terra firme, em virtude das enchentes e das barrancas. Mais tarde a terceira escola também foi construída em terra firme em parceria com a Funai e prefeitura municipal de Tabatinga. Imagem das casas da antiga comunidade de Umariaçu na beira do rio 1.1 Como está nossa comunidade/aldeia nos dias de hoje A Terra Indígena Ticuna de Umariaçú II, localiza-se na fronteira do Brasil, Colômbia e Peru. A mesma situa-se na microrregião do Alto Solimões, pertencente ao município de Tabatinga/AM, com uma área de 4.854 de hectares de extensão. Também fica nas proximidades das cidades vizinhas de Letícia (Colômbia) e Santa Rosa, Peru. É onde também se encontra a etnia Ticuna do Peru e da Colômbia, falando a mesma língua, com pequeno sotaque diferente dos brasileiros, praticando a mesma cultura e tradição, acreditando na mesma mitologia do surgimento do homem que é povo Magüta. Ela está localizada na Terra Indígena Eware I, à margem esquerda do Rio Solimões. Na atualidade, muitos dos parentes Ticuna peruanos e colombianos, estão migrando para a nossa comunidade para ganhar beneficio como a aposentadoria e bolsa família que o governo brasileiro oferece e também devido a Terra Indígena de Umariaçu I e II, estarem demarcadas a partir da Constituição Federal de 1988. O povo Ticuna tem a sua própria tradição de preparar a bebida fermentada como: pajuarú, caiçuma e chicha. Os Ticuna já viviam em rivalidade entre clãs, entre as comunidades I e II, bem como por outros motivos. Esses acontecimentos violentos acontecem principalmente, com os jovens e adolescentes devido à influencia de bebidas alcoólicas e drogas. A maioria da população é da etnia Ticuna, existem alguns não-indígena que casaram na comunidade com as indígenas. No seu aspecto cultural e social, a comunidade está em desenvolvimento. Existem 02 escolas municipais e 2 escolas estaduais. Além disso, no campo da saúde a Secretaria Especial de Saúde Indígena - SESAI, vem desenvolvendo um excelente trabalho. Mortalidade infantil está sendo monitorada pela Equipe de Saúde dentro da comunidade de Umariaçu II. Os alimentos produzidos na comunidade indígena de Umariaçu II pelas famílias são: a farinha, banana, abacaxi, a pesca, a caça; a criação de animais como: galinha caipira, porco; e o plantio de vários tipos de hortaliças como: pimentão, chicória tomate e outros. Os alimentos coletados na comunidade que são encontrados na várzea com açaí, buriti e bacaba; e na terra firme, podem ser coletadas ingá, umari, abiu, pupunha, castanha e outros. Todos esses alimentos produzidos na comunidade são para o consumo e outros para ser comercializado na comunidade ou cidade. Os alimentos industrializados que são consumidos na comunidade são comprados na cidade e também comercializados pelos comerciantes locais como: arroz, café, açúcar, óleo de cozinha, frango congelado e alguns enlatados. O principal alimento que é consumido pelas famílias da comunidade é o peixe que é retirado do rio, lagos e igarapés e a farinha de mandioca, banana e macaxeira retirado das roças. Os alimentos que mais faltam na comunidade, quando chega o inverno, é o peixe, pois o rio começa a encher e durante essa época fica difícil a pesca de peixe nas proximidades da comunidade. A caça, antigamente era muito farto, mas atualmente para um caçador fazer a caça nas proximidades da comunidade, já é muito difícil, pois o mesmo vai muito longe, o que pode levar até dois dias de caminhada para tentar localizar onde pode ficar um bando de macaco ou queixada. Antigamente, era muito mais fácil retirar a palha, a madeira, o cipó e a paxiúba para construção das casas na comunidade de Umariaçu II. Atualmente, encontrar esses materiais tirados da natureza é muito difícil devido a população que vem crescendo a cada ano. Por outro lado, a terra indígena de Umariaçu é uma área reduzida para o tamanho da população que retira da natureza o sustento da família. A derrubada das arvores para fazer as roças, para retirar a madeira para construir suas casas e para fazer a lenha e o carvão. Isto ocasionou a extinção dos recursos da natureza do local. Além disso, não houve uma preocupação e conscientização do meio ambiente ou uma política de reflorestamento por parte da comunidade e das autoridades competentes. Com isso, agora a maioria das casas é feita de alvenaria ou casa mista com material comprado na cidade. Casa de alvenaria casa mista – madeira cobertura metálica O meio de transporte mais utilizado, antigamente na comunidade era a canoa e o remo. Atualmente, ainda é frequente o uso da canoa com o motor rabeta, mas o remo ainda está presente. Existem vários senhores mais antigos e, também, mais novos que dominam o conhecimento da construção de canoa e remo, que adquiriram o conhecimento com os mais antigos em cada família. No seu espaço geográfico os moradores da comunidade costumam se deslocar de canoa e remo para a roça e a pesca. Na maioria das vezes as pessoas que mora na comunidade se deslocam diariamente para fazer a roça ou pescar para sua sobrevivência familiar. Alguns moradores que são religiosos vão para outra comunidade para os festejos das diversas igrejas de diferentes seitas religiosas e o seu meio de transporte mais utilizado é a canoa. Transporte Fluvial da comunidade indígena Umariaçu II – canoas com motor rabeta. Outro transporte muito utilizado diariamente na comunidade de Umariaçu II é o transporte público são os coletivos, moto-taxi e tuki-tuki e as carrocinhas que fazem o transporte de passageiros e cargas diariamente via terrestre para o município de Tabatinga. A abertura de estrada de concreto armado deu acesso direto ao centro comercial do município, isso facilitou muito a vida das pessoas que transitam diariamente para escoar seus produtos, que vão receber seus benefícios ou salários, ir trabalhar ou buscar outras necessidades na cidade. Transporte terrestre da comunidade indígena Umariaçu II A abertura da estrada Umariaçu/Tabatinga, também contribuiu para a comunidade sair do isolamento. Com isso, as pessoas puderam vender seus produtos dentro da comunidade mesma, e os visitantes de Tabatinga e Leticia-Colômbia chegam diariamentepara comprar peixes e produtos da agricultura familiar diretamente com os agricultores numa feira organizada pelos moradores da comunidade. Portanto, a cada ano que passa, a comunidade está se desenvolvendo e os governantes precisam investir mais na educação e na saúde para que as pessoas não venham sofrer por causa do descaso. Nos últimos 10 anos, devido as instituições governamentais serem localizadas no município de Tabatinga, e estarem perto da comunidade, como o exército brasileiro, os bancos, as universidades e a cidade de Leticia da Colombia, Umariaçu tornou-se atrativa para a morada de outras comunidades indígenas do Alto Rio Solimões e comunidades dos países vizinhos. Muitos indígenas Ticuna vindo de outros municípios e Ticuna do Perú e Colômbia, saíram de suas aldeias para morar aqui. Com isso, a comunidade cresceu desordenadamente, e os problemas sociais começaram a aparecer também. Atualmente, os principais problemas e desafios enfrentados pela comunidade Indígena de Umariaçu II, é que os jovens estão consumindo álcool e usando outras drogas ilícitas que provocam violência e suicídio. E, também, é muito fácil a imigração de estrangeiros que estão invadindo a Terra Indígena por falta de terras férteis e isso afeta a população com o aumento do uso de álcool e outras drogas entorpecentes, principalmente entre os adolescentes. Diante disso, as escolas da comunidade junto com as lideranças indígenas e instituições governamentais, decidiram tomar as devidas providências para amenizar os problemas na comunidade de Umariaçu II, criando sua própria polícia indígena conhecida como Segurança Indígena de Umariaçu II. Desde dos anos 2000 até, o problema com o álcool e as drogas ilícitas começaram a aparecer. A violência tem se intensificado entre os jovens das comunidades de Umariaçu I e II. A entrada e o comercio livre de bebidas alcoólicas, o uso abusivo destas bebidas e das drogas ilícitas tem provocado reação nas lideranças locais. Com a criação da segurança indígena, este problema minimizou um pouco, as pessoas tiveram mais tranquilidade. Porém, ainda continua, mas não como era antes. A segurança indígena faz um trabalho voluntario, lutam pelo reconhecimento do estado para serem remunerados, mas infelizmente nunca foram atendidos. O descaso das autoridades também é um problema muito grande nesta comunidade. Imagem da guarda indígena da comunidade Umariaçu II A Escola Estadual Indígena Estadual Indígena Almirante Tamandaré está exercendo um papel importante e diferenciado para buscar redefinir as práticas educativas escolares e contribuir com o fortalecimento dos povos indígenas diante do processo da globalização. Com o crescimento das cidades, as comunidades indígenas vivenciam a exploração de recursos naturais nas terras indígenas habitadas por elas e a busca por educação e saúde nos centros urbanos. Com a presença da cultura ocidental, muitas famílias não estão mais praticando a cultura. Estão substituindo a sua própria cultura pela cultura dominante. A maioria dos jovens da atualidade, não sabem mais fazer uma flecha, um remo, uma canoa ou fazer um artesanato indígena. Não sabem mais pescar ou caçar porque o costume não está sendo mais praticado no seio familiar. Então, isso é muito preocupante, porque a única característica que identifica os indígenas desta comunidade é a língua materna. Imagem da das ruas da comunidade Imagem da comunidade visto de cima 2 APRESENTAÇÃO DA ESCOLA A Escola Estadual Indígena Almirante Tamandaré, localizada na Rua Santa Cruz, s/nº, na Comunidade de Umariaçu II, está situada na margem esquerda do Rio Solimões, com uma distância, via terrestre, de aproximadamente três quilômetros, do município de Tabatinga/AM. Vale ressaltar, que a primeira escola foi fundada no ano de 1965 e era construída em madeira, que tinha somente quatro salas de aula e estava situada próximo à entrada do igarapé, o qual divide os dois Umariaçu (I e II) e deságua no Rio Solimões. O nome dado à escola Almirante Tamandaré, foi dado pelos militares da marinha, em virtude de que o prédio foi construído pela Marinha do Brasil na época da ditadura militar. Porém, devido às grandes enchentes e ao fenômeno das terras caídas, se fez necessário, a transferência e a construção de outro prédio, em alvenaria, onde atualmente está funcionando sob o Decreto nº. 6998 de 07 de fevereiro de 1983. É relevante salientar que, até o final do ano de 2006, escola, apesar de estar dentro de uma área indígena, não estava denominada como uma Escola Indígena. Porém, a partir de janeiro de 2007, o nome do referido estabelecimento de ensino, através do Censo do Ministério da Educação - MEC, foi possível acrescentar ao nome da escola a palavra “Indígena”, ficando, então, denominada como Escola Estadual Indígena Almirante Tamandaré. Pelo fato de ter acrescentado somente uma palavra ao nome anterior, a mesma permaneceu funcionando sob o mesmo Decreto. O seu espaço físico é em alvenaria, com piso em cerâmica e forro em PVC. Todas as salas são climatizadas e iluminadas; possui uma cozinha, dois banheiros, refeitório, sala de professores, diretoria, uma secretaria, biblioteca e sala de informática com dez computadores; 10 salas de aula com capacidade para quarenta alunos. A escola possui uma quadra coberta onde os alunos fazem aulas de educação física e frequentada pela comunidade nos finais de semana. No ano de 2021, a escola possui trinta professores, três merendeiras, oito serventes, uma bibliotecária e dois auxiliares administrativos. No período matutino funciona com as turmas de alunos do Ensino Fundamental de 6º ano ao 9º ano, no turno vespertino atende as turmas do 1º e 2º ciclo do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental; e no período noturno, com as turmas do 8º e 9º ano do Ensino Fundamental, educação de Jovens e Adultos (EJA) e as turmas do ensino de 1º ao 3º ano. Todos os professores das séries iniciais são indígenas, pois a comunidade exige que seja assim. Quanto às condições sanitárias são satisfatórias em ambos os prédios. Ademais, as Instituições de Ensino e suas repartições são iluminadas com energia elétrica, distribuída pela CEAM. E, o abastecimento de água é feitos via poço artesiano, respectivamente. Quanto aos meios de comunicação, não possui telefone fixo ou fax, somente Internet via satélite. E, para a comunicação interna, é usada a sirene para anunciar a mudança de horários pelos professores, assim como, é um meio de avisar o intervalo para os discentes e docentes. 2.1 Matriz curricular: disciplinas por séries A matriz curricular é composta de todas as disciplinas obrigatórias no ensino fundamental e médio, com a inclusão da língua materna nas escolas indígenas, no caso, a língua Ticuna para esta escola. 2.2 Organização administrativa da escola A equipe administrativa da escola está composta por um gestor, um assistente administrativo, ambos funcionários efetivos da rede estadual. Os auxiliares de serviços gerais e as merendeiras são voluntários que ajudam a escola, os quais são gratificados com cesta básica de alimentação nos finais dos meses. Os apoios pedagógicos de cada turno dão suporte ao gestor na ausência. O gestor, o assistente, os apoios pedagógicos, os professores e a lideranças indígenas locais, tomam decisões em conjunto para decidir alguma situação. 2.3 Papel dos pais na escola É muito importante a presença dos pais na escola, pois é uma forma de acompanhar os seus filhos na escola, no que diz respeito ao seu desenvolvimento intelectual e social e cultural. Na escola estadual indígena Almirante Tamandaré, os pais têm participação efetiva nas reuniões realizadas pela escola para assuntos que lhe dizem respeito aos seus filhos. Os professores e os gestores têm enfatizado sempre qual o papel da família na educação escolar. A contribuição da família para a formação do aluno tem sido uma questão muito debatido na comunidade, porque sempre existem alguns casos de alunos desassistido pela família, o que sempre vem à tona na comunidade escolar.Estas famílias que não dão atenção para seus filhos, acabam sendo orientadas pela escola ou pelas lideranças comunitárias. 2.4 Merenda escolar A merenda escolar da escola estadual Almirante Tamandaré é o mesmo das escolas não-indígenas do estado do Amazonas. O governo do estado recebe um recurso do governo federal FNDE, através do programa nacional de alimentação escolar PNAE, referente à matricula de alunos do ano anterior. Este recurso é investido na compra da alimentação escolar e distribuído por etapa as escolas. O cardápio é elaborado em Manaus sem levar em considerações as especificidades das comunidades indígenas. Os gêneros alimentícios que as escolas estaduais recebem são: arroz, feijão, macarrão, leite em pó, açúcar, óleo de cozinha, bolacha, sucos concentrados, carne moída, frango congelado, charque e enlatados. Somente quatro anos atrás, o governo começou a fornecer a merenda regionalizadas comprando diretamente da agricultura familiar. 2.5 Associação de pais e mestres (APMC) A Associação de Pais e Mestres desta escola está há mais de dez anos desativada por inadimplência, com isso, a escola não recebe os recursos disponíveis dos programas que o governo federal oferece. Até no presente momento, não houve nenhum tipo de manifestação a respeito. Imagem da atual escola estadual indígena Almirante Tamandaré Planta da escola estadual indígena Almirante Tamandaré 3 APRESENTAÇÃO DO TEMA DA PESQUISA 3.1 Tema: A Educação Ticuna na Escola Estadual Indígena Almirante Tamandaré da comunidade de Umariaçu II. 3.2 Problema: a perda da identidade cultural dos jovens da comunidade indígena de Umariaçu II. 3.3 Hipótese: a Presença da cultura ocidental causou um impacto cultural na vida dos jovens da comunidade. 3.4 Objetivos · Geral · Analisar as mudanças ocorridas no processo educacional da escola estadual indígena na comunidade indígena Umariaçu II ao longo de sua história. · Objetivos específicos · Conhecer a história da educação escolar indígena Ticuna na Escola Estadual Indígena Almirante Tamandaré da comunidade de Umariaçu II. · Mostrar os fatores de mudanças que contribuíram positivamente ou negativamente para o desenvolvimento social, intelectual e cultural da comunidade. Com a definição do tema, buscamos conhecer as mudanças ocorridas no processo educacional da escola estadual indígena na comunidade indígena Umariaçu II ao longo de sua história, e se essas mudanças contribuíram de forma positiva ou negativa para a comunidade escolar. Para que a educação ticuna seja melhor entendida precisamos saber como e quando começou a educação escolar ticuna e o que ela trouxe de melhor para a comunidade. Definimos o problema tendo em vista que os alunos não sabem sobre a história da educação. A hipótese desta pesquisa é a perda da identidade cultural dos jovens da comunidade indígena de Umariaçu II. A educação imposta na escola estadual indígena Almirante Tamandaré não acompanhou a evolução do mundo e não deu subsídios de manutenção da cultura local, e por isso, houve um grande choque cultural que atingiu seriamente a pratica da cultura entre os jovens da atualidade. Os alunos deveriam manter a sua cultura tradicional para que eles se tornem cidadãos intelectuais e conscientes de sua realidade sem deixar de que são. 4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Podemos afirmar que a história da educação escolar indígena no Brasil tem inicio desde os primeiros tempos da colonização. Não só pela ação educativa dos jesuítas, com seus internatos e sua catequese, mas principalmente porque a necessidade da escolarização surge a partir da realidade de contato das sociedades indígenas com os colonizadores, ou com o que hoje representa a sociedade nacional. Mas embora estando inserida nesta problemática mais ampla, a problemática do contato, e apesar dessa trajetória histórica de experiência escolares esparsas e mal contada, a educação escolar indígena no Brasil só começou a ter atenção especial, no contexto do movimento indígena pelos direitos indígenas, há cerca de três décadas, e hoje vive momentos importantes de sua construção histórica. Dando referência ao povo Ticuna que se localiza nas aldeias indígenas dos municípios da região do Alto Rio Solimões, que totalizam cerca de 50 mil indígenas, a educação escolar indígena começou três décadas após a promulgação da Constituição Federal de 1988. As lideranças indígenas através dos movimentos indígenas ornizaram-se através de ONG’s para lutar pelos seus direitos na educação, saúde e território, que foram temas de primeiras lutas destes movimentos. O dispositivo supracitado menciona na constituinte de 1988, que diz respeito aos diretos linguísticos de povos e comunidades tradicionais no artigo 210. Além disso, assegura aos povos indígenas a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem, no parágrafo 2º. Por fim, reconhece aos povos indígenas sua organização social, usos, costumes, línguas e tradições, conforme destaca o artigo 231. As Diretrizes para a Política Nacional de Educação Escolar, elaborada pelo Comitê de Educação Escolar Indígena em 1993, marcam uma etapa importante da criação de dispositivos legais para os povos indígenas no Brasil. A Lei de Diretrizes e Bases de Educação-LDB, Lei 9.394/96 em seus artigos 78 e 79, dispõe sobre a educação escolar indígena e determina o seguinte: Art.78. O Sistema de Ensino da União, com a colaboração das agencias federais de fomento à cultura e de assistência aos índios, desenvolverá programas integrados de ensino e pesquisa, para oferta de educação escolar bilíngue e intercultural aos povos indígenas, com os seguintes objetivos: I – Proporcionar aos índios, suas comunidades e povos, a recuperação de suas memórias históricas; a reafirmação de suas identidades étnicas; a valorização de suas línguas e ciências; II – Garantir aos índios, suas comunidades e povos, o acesso às informações, conhecimentos técnicos e científicos da sociedade nacional e demais sociedades indígenas e não índias. Art. 79. A União apoiará técnica e financeiramente os sistemas de ensino no provimento da educação intercultural às comunidades indígenas, desenvolvendo programas integrados de ensino e pesquisa. § 1º Os programas serão planejados com audiência das comunidades indígenas. § 2º Os programas a que se refere este artigo, incluindo nos Planos nacionais de Educação, terão os seguintes objetivos: I fortalecer as práticas sócio-culturais e a língua materna de cada comunidade indígena; II Manter programas de formação de pessoal especializado, destinado à educação escolar nas comunidades indígenas; III Desenvolver currículos e programas específicos, neles incluindo os conteúdos culturais correspondentes às respectivas comunidades; IV elaborar e publicar sistematicamente material didático específico e diferenciado. O Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas (RCNEI) de 1998 é um documento orientador, que subsidia as novas práticas das escolas indígenas, e contou com a participação de especialistas, técnicos e professores índios em sua formulação. Tendo em vista esta legislação, as lideranças indígenas lutaram para implantar a educação escolar indígena nas suas aldeias. A partir do ano de 2004, na escola estadual Almirante Tamandaré, na comunidade indígena de Umariaçu II, foi inserida no currículo do Ensino Fundamental e Médio, a educação bilíngue, especifica e diferenciada. Com isso, a escola passa a ter uma mudança significativa o antigo currículo que havia ali antes de 2004. Foram substituídos os professores não-indígenas por professores indígenas da própria comunidade. Foi incluso no currículo o ensino da língua materna e os conhecimentos da cultura Ticuna. O governo somente implantou a educação indígena, mas deu subsídios necessários para o funcionamento das escolas indígenas. Com a evolução do mundo globalizado, o contato direto com a cultura dominante da comunidade, o descaso das pulicas públicas e a falta de atenção da escola e da família, os jovens ficaramexpostos e vulneráveis a cultura ocidental, as tecnologias, trouxe mais conhecimentos para os jovens, mas não deu suporte necessário para manter a sua cultura viva. Desta forma, as principais problemáticas começaram a surgir, como o uso de drogas e a violência vieram sendo uma constante na vida dos alunos, apresentando-se com uma maior velocidade para a destruição da vida das pessoas. Nos tempos modernos, a violência invadiu todas as áreas da relação do indivíduo: relação com o mundo das coisas, com o mundo das coisas, com o seu corpo e sua mente. É como se o progresso tecnológico, o desenvolvimento da civilização, ao invés de propiciar o bem-estar dos indivíduos, concorressem para a deterioração da vida social. (BOCK; TEIXEIRA, 2002, P. 332) O governo do estado não oferece uma educação de qualidade, moderna e tecnológica que é considerada como um dos principais pilares para a transformação de uma sociedade, os seus acessos estão limitados aos alunos desta comunidade. O desenvolvimento psicológico e intelectual, a formação da ética e da crítica social do indivíduo não estão ao alcance desta classe social e isso se torna uma das maiores dificuldades para as famílias nesta comunidade. Presentemente, em todo mundo, o nosso modo de vida e a rotina são tão assassinos da criatividade e da espontaneidade humana, que nos obriga a correr desesperadamente atrás de sobrevivência e passar por cima dos outros. O mundo moderno não garantiu a manutenção da cultura, da ética da cidadania. A modernização cultural, por exemplo, tem gerado o esvaziamento da preocupação ética nas relações e falhado na preservação de valores culturais e históricos e específicos de cada grupo social. (COTINI E KOLLER, 2002, p. 85) emm rmina o seguinte: ............................................Os jovens Ticuna gostam de estar informados sobre os acontecimentos do mundo por meio da internet. Telefones celulares com acesso rápido a whatsapp, facebook e web estão disseminados no espaço. O uso de novas tecnologias faz com que os jovens fiquem sujeitos a mudanças de comportamentos e padrões psicológicos, positiva ou negativamente. São complexidades que engendram os universos das pessoas. A influência de culturas não tradicionais traz questionamentos sobre aceitação, impulsionando processos de mudança de comportamento e formação psicológica. Mas a internet representa também uma fenomenal ferramenta de pesquisa na educação, sendo ainda plataforma que permite dialogar com diferentes culturas e disseminar novos paradigmas existentes na concepção de uma educação vinculada ao dia a dia da comunidade (GRINSPUN, 1999). As avaliações externas realizadas na escola apontaram o baixo rendimento escolar desde a implantação da educação indígena. Por outro lado, a formação inicial e continuada dos professores indígena não foi realizada por parte das instituições responsáveis. É notório o quanto a educação indígena precisa ser repensada pelo sistema educacional do país e possibilitar meios para que haja capacitação profissional desses professores e gestores Ticuna. Entretanto, é importante salientar que métodos pedagógicos precisam ser analisados de forma sucinta, no contexto da elaboração de recursos e materiais didáticos, fortalecendo a vida social, cultural e intelectual dos alunos Ticuna. “Na complexidade do campo de formação surge uma grande variedade de propostas teóricas referentes à educação de adultos. Apontam a possibilidade da instituição escolar, enquanto uma organização, ser um local onde os sujeitos se desenvolvem e aprendem. Afirmam também que “a aprendizagem na organização supõe processamento social de informação, socialização da cultura e desenvolvimento de novas metas, estruturas, estratégias e ambientes” (MARCELO GARCÍA e VAILLANT, 2001, p. 29). Portanto, as mudanças que aconteceram na educação escolar indígena nesta escola trouxeram poucas expectativas para o desenvolvimento social, intelectual e humano dos discentes. Diversos fatores negativos puderam ser constatadas e confrontadas na revisão bibliográfica como, o enfraquecimento da cultura local, a ausência das politicas publicas, o despreparo das famílias para lidar com este novo fenômeno, a falta do projeto político pedagógico da escola e a falta da formação inicial e continuada dos professores indígenas. Estes fatores somente poderão ser combatidos quando a escola, a comunidade, a família e o poder público estiverem em comum objetivo em prol da educação local. Ao contrario disto, sempre estaremos na mesmice. É preciso reação e ação para continuarmos com a cultura viva e os nossos alunos se desenvolvendo sem se esquecer de suas origens. 5 DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA · Onde foi realizada a pesquisa? A pesquisa foi realizada na escola estadual indígena Almirante Tamandaré, localizada na comunidade indígena Umariaçu II, no município de Tabatinga-AM. · Quem participou da pesquisa? Participaram da pesquisa os seguintes atores: professores indígenas da escola, gestores que atuaram nesta escola, pais de alunos, alunos, lideranças indígenas da comunidade e anciãos. · Em que período (tempo) a pesquisa foi realizada? A pesquisa foi realizada de março a maio de 2021. · Recursos metodológicos tecnológicos utilizados? Gravador, caderno de campo, reuniões, entrevistas, observações, anotações. Para a realização da pesquisa de campo, utilizamos a pesquisa qualitativa, com as técnicas de entrevista e análise documental. Utilizamos os equipamentos tecnológicos um celular para gravar os áudios dos entrevistados e imagens dos locais dos estudos e documentos analisados. Utilizamos também um caderno de anotações dos fatos ocorridos durante a pesquisa. · Aspectos positivos e negativos da pesquisa O aspecto positivo da pesquisa deu-se na obtenção das respostas das perguntas nas entrevistas com as pessoas selecionadas. Todas elas contribuíram com a nossa pesquisa de forma positiva. Tivemos algumas dificuldades quando buscamos informações nos documentos oficiais da escola, pois a escola possuía alguns documentos que era necessário estudar. Isto nós classificamos como ponto negativo. 6 RESULTADOS E DISCUSSÃO Na realização da pesquisa de campo, na técnica da entrevista, apresentamos as seguintes perguntas. 1. Na sua opinião, porque os jovens da atualidade não estão praticando a sua cultura? 2. Na sua opinião, quando a educação local se desenvolveu mais, antes ou depois da implantação da educação escolar indígena? 3. Você conhece quando e como iniciou a educação na comunidade Umariaçu II? 4. Na sua opinião, o que falta para melhorar a nossa educação local? 5. A escola possui projeto político pedagógico (PPP)? 6. A escola reuni a comunidade para discutir situações negativas ou positivas? 7. O perfil dos professores indígenas contribui para o desenvolvimento intelectual dos alunos? 8. Para você, é importante a atuação de professores não-indígena na escola? 9. Qual a importância do professor indígena na escola indígena? 10. Quais os fatores negativos que você vê na escola que contribui para o fracasso da escola? Estas são as perguntas que fizemos para os professores, pais, lideranças, alunos e anciãos. Participaram 30 pessoas nesta entrevista, onde obtivemos as seguintes resposta, que nos trouxeram descobertas importantes para melhorar a educação escolar indígena nesta escola e na comunidade. Perguntas Respostas % 01 25 pessoas responderam por causa da presença da cultura dominante e pouca atuação da escola na formação humana do aluno. 83 05 pessoas responderam por causa de desinteresse próprio e da família. 17 02 20 pessoas disseram que depois melhorou depois da implantação da escola indígena, porém, a parte cultural não se desenvolveu; 66 10 pessoas disseram que antes era melhor, porque os professores não-indígenas tinham mais compromissos com a educação local; 34 03 20 pessoas disseram que não conhecem 66 10 pessoas conhecem que conhecem 34 04 20 pessoas disseram que para melhorar a educação local é preciso a qualificaçãodos professores indígena, a família ter mais compromisso com a educação de seus filhos e a escola ter mais compromisso com a educação indígena. 66 10 pessoas disseram que é a escola atender as dificuldades dos alunos e adotar filosofia mais relevante para desenvolvimento intelectual dos alunos e da comunidade. 34 05 Toadas as pessoas disseram que não sabem, porque a escola nunca discutiu este assunto com a comunidade 100 06 Às vezes. 100 07 10 pessoas disseram que sim. 66 20 pessoas disseram que não, os professores precisam melhorar. 34 08 Sim, é muito importante a atuação do professor indígena na escola indígena, mas é preciso atuar de forma eficaz. 100 09 20 pessoas disseram que é importante, porque ele domina a língua e a cultura indígena. 64 10 pessoas disseram que tem pouca importância porque não possui experiências necessárias para a formação intelectual dos alunos. 34 10 25 pessoas disseram que o fracasso vem do próprio aluno e família 83 05 pessoas disseram que o fracasso vem dos professores indígenas e da escola. 17 Na pesquisa documental, analisamos documentos escolares como atas de reunião da escola, o histórico da escola, atas finais dos últimos três anos e o matriz curricular. A escola não possui o projeto político pedagógico PPP. Analisando a resposta da questão 1, a maioria da opinião das pessoas aponta claramente que a presença da cultura dominante afetou a cultura e a forma de vida dos jovens que estudam na escola, comprometendo seriamente o rendimento escolar e a formação humana dos mesmos. A escola precisa atuar mais dar mais atenção à esta temática e atender as necessidades dos alunos afetados. Analisando a questão 2, também aponta que a educação se desenvolveu mais depois da implantação da educação escolar indígena na escola, porém, a cultura local não acompanhou o desenvolvimento que a escola passou. As respostas da questão 3, mostram que poucas pessoas conhecem sobre a história da educação da comunidade, e que a própria escola não trabalhou este assunto especifico. Na questão 5, definiu que a escola não possui O PROJETO POLITICO PEDAGÓGICO (PPP), que é um marco com características próprias que todas as escolas devem seguir, elaborado em conjunto com a comunidade e escola. Nas respostas obtidas da questão 6, foi claro que a escola pouco se reúne para discutir situações que acontecem dentro e fora da escola. A escola é uma instituição mediadora entre a família e o aluno para a sua formação humana e intelectual. Se a escola não discute com a comunidade, não oferece suporte à família nas suas necessidades, é claro que a escola não tem interesse na formação humana, social e acadêmica dos alunos. Na questão 7, as respostas foram contundentes para informar que os professores precisam melhorar na sua atuação e formação na escola indígena. Precisam se interessar mais pelo seu trabalho e pela vida dos seus discentes. Ter mais participação na comunidade, opinar, apoiar, as lideranças locais para o desenvolvimento da comunidade. Somente assim, a comunidade e os alunos irão se desenvolver sem se esquecer de sua cultural. Na questão 8, completa a ideia da 7, onde o perfil do professor indígena precisa melhorar e atuar mais na educação escolar indígena para que os alunos não se deviam de sua cultura. Questão 9, mostrou que o professor indígena e muito importante a sua atuação na escola indígena, porque ele domina a língua indígena, conhece a tradição e a cultura indígena Ticuna, porém, ele precisar praticar mais a parte especifica, trabalhar mais o contexto local, a pedagogia indígena. E a questão 10, com o apoio das questões anteriores nos mostra que existem fatores negativos que promovem o fracasso, em consequência disto, a formação social, moral, intelectual dos alunos desta escola, que, iremos pontuar alguns deles: a formação acadêmica especifica dos docentes, a atuação mais comprometida com a escola, com a comunidade e com a vida dos alunos, a falta de parceria escola e família para a formação do aluno, a falta do Projeto Político Pedagógico e a presença da cultura dominante dentro e fora do contexto escolar dos alunos. Conseguimos realizar descobertas importantes nestes estudos que poderão ajudar a melhorar as nossas práticas pedagógicas e didático como docente dentro da sala de aula, como por exemplo, que devemos estar sempre nos atualizando na nossa formação acadêmica para acompanhar a evolução da ciência e da educação no presente momento. Atuar mais no que diz respeito às características das escolas, para serem atendidos os seus objetivos propostos nas leis. A escola precisa elaborar o projeto político pedagógico e se aproximar mais à comunidade para discutir, avaliar a situação dos alunos e docente. Esta experiência foi muito boa para a minha formação acadêmica e profissional, porque adquiri conhecimentos que irão proporcionar o meu crescimento intelectual como docente, como aluno e como chefe de família. Aprendi lições importantes com as pessoas que participaram deste estudo como os professores e anciãos mais antigos da comunidade. 6 CONSIDERAÇOES FINAIS Para se obter uma educação de qualidade compatível e assegurada às populações indígenas garantindo a revitalização e preservação de sua cultura, atuando seus deveres e direitos na cidadania, será preciso que os responsáveis pela educação indígena na comunidade, pais, professores, lideranças e autoridades competentes se conscientizem que somente através da educação responsável e comprometida que podemos combater os fatores que contribuem para o enfraquecimento da cultura local. A responsabilidade de cada professor, cada instituição educacional deve estar voltada com cada realidade onde encontra inserida, oferecendo condições de educação e suprindo as necessidades que o mundo moderno nos apesenta. Recomendamos às autoridades competentes pela educação que dêem condições às escolas, aos docentes, à comunidade escolar; aos docentes recomendamos que tenham compromissos com a educação, com o futuro da comunidade, superar as deficiências e as dificuldades, valorizando a cultural local, e acima de tudo, sempre se preparando. À comunidade recomendamos que seja crítica e reflexiva, não aceitar ideologias, sempre estar informada e integrada com a escola, reivindicar seus direitos, deveres e valores. Estar sempre em busca de soluções para as dificuldades. Somente assim, conseguiremos realizar uma educação de qualidade e transformadora. 41