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NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS ISABEL PIZARRO MAIRREIRA TERESA SA\TOS LETTE Unirersidade aberta f.sabel Pizarro Madureira Feresa Santos Leite ECESSIDADES EDUCATWAS .ESPECIAIS tjuiver:idade Aberta Capa: Fmnuisco Copyright UNIVERSIDADE ABERTA —2003 Pakício Ccia • Rua da Escola RAik'cuica, 147 1269-001 Lisboa — Portugal Www.univH.1b.pt e-rn;d1: cycndas@univ-alipt UE: 1')! ›, o" ,o') \ie iv s E peciais Introdução 1. Evolução das Perspectivas sobre a Educação da Criança Dife- rente 17 Da perspeetiva assistencial 7i perspectiva educativa A evolução da Educação Especial da segregação a integração 27 O conceito de Necessidades Educativas Especiais A perspectiva inclusiva 43 Actividades 2. ,kvaliação e Identificaçáo de alunos com Necessidades V.doca- ti .s, as F,speciais Perspectivas na avídiaçao de alunos com necessidades educativas especíais 63 fdentificação e Avaliação — claríficação de conceitos t,t) identificação de alunos com necessidades educativas especiais — processos e instrumentos Actividades 3. (7urrícuto e Necessidades Educativas Especiais ()0 flexibilidade curricular Processos de dit'erct)CiaÇao pedagót>ica I 01 Adaptacões curriculares individualizadas 117 Currículos k'speciais I I Actividades . fsores e a incin-ão 127 iboracao n 1111 íl,hT ',15„K(fOL/t 1 iii ii 4Iwç S14/1 n 4,'.; 111 occe educ.Ai.hls 2 ctiv idades Bibliogratia 1n trodução A inclusão de alunos com necessidades educativas especiais no sistema regular de ensino constitui uma inovação educativa actualmente defendida, a qual surge na sequência de princípios que se têm vindo a preconizar desde a publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo, em 1986. Desde então se aponta para a necessidade de garantir a igualdade de acesso e sucesso educativos a todos os alunos e, nesse sentido, já nas últimas décadas do século passado, se desenvolveram processos que visavam a integração escolar dos alunos com necessidades educativas especiais. Tendo também como preocupação fundamental a educação de todos os alunos, a perspectiva que preconiza uma escola inclusiva abrange, no entanto, não apenas aqueles que apresentam necessidades educativas especiais, mas também todos os que provêm de contextos étnico-culturais diferentes. Esta perspectiva fundamenta-se em pressupostos inovadores já que as diferenças dos alunos na aprendizagem são equacionadas como positivas, uma vez que permitem desencadear processos de mudança na forma como as escolas e os professores organizam o currículo. Preconizar uma escola inclusiva não significa, no entanto, que todos os alunos devam participar no currículo comum e atingir os níveis académicos nele previstos. De facto, existem crianças e jovens com problemáticas mais profundas que necessitam de processos educativos específicos, os quais devem ser equacionados no contexto escolar, embora não necessariamente na sala de aula. Com efeito, uma vez que o acto educativo tem como finalidades últimas a integração/adaptação na sociedade e o desenvolvimento da autonomia, à escola compete a educação de todos os cidadãos. Nesse sentido, não pode restringir- -se à escolarização de alguns, devendo garantir de forma efectiva a educação de todos. No entanto, a implementação prática destes princípios constituiu e constitui ainda um processo difícile lento, uma vez que as escolas e os professores não estão suficientemente preparados para as exigências que uma escola inclusiva supõe. De facto, esta exige que se desenvolva, na escola, uma cultura e uma dinânica organizacionais baseadas na colaboração entre profissionais e entre estes e outros agentes educativos, desiLmadamente os pais. Exige ainda mudanças significativas em termos de atitudes, capacidades e conhecimentos dos docentes, no sentido de desenvolverem práticas pedagógicas que respeitem, reconheçam e valorizem as diferenças individuais. Docentes de diferentes niveis de ensino manitestam frequentemente preocu- paçoes, dificnkktdes, e carências em termos de fonnação para desempenhar eficazmente as competências que tetualmente lhes estão atribuídas neste dominio. Com eteito, a maior parte das reservas expressas pelos professores em relaçâo i nelusâo de alunos euni necessidades educativas especiais decorrem de preocupações com a falta de condicões estruturais nas escolas e com a ausência de preparação profissional. Neste contexto, a inclusão é percebida e vivida, por vezes, como fonte de insatisfação pessoal e profissional, devido a sentimentos de frustração e insegurança, evidentes nos receios que manifestam sobre a relação pedagógica com estes alunos e sobre os processos de ensino mais adequados. Por outro lado, os docentes revelam, muitas vezes, representações negativas sobre as possibilídades educativas destes alunos que, necessariamente, influenciarão a relação pedagógica e o próprio desempenho dos alunos. A inclusão pode conduzir ainda a um aumento de trabalho e de dificuldades na prática pedagógica, nomeadamente na organização do processo de ensino/ aprendizagem, no que respeita à planificação para grupos heterogéneos, à selecção de actividades e recurSos diferenciados, à gestão clo tempo, à motivação dos alunos... No entanto, em muitos casos, estaS dificuldades decorrem na natural heterogeneidade dos grupos, a qual continua a ser ignorada na prática docente. Nesse sentido, a inclusão de alunos com necessidades educativas especiais poderá constituir um analisador profissional, pondo em evidência preocupações e dificuldades pré-existentes na prática docente. Perante este cenário, toma-se imprescindível assegurar, na formação inicial e contínua de professores, o desenvolvimento de competências e atitudes que permitam um maior conhecimento sobre estes alunos e sobre os processos de gestão e organização da escola e do grupo/turma, que tenham em conta a diversidade da população escolar. Porque pensamos que muitas das dificuldades e receios dos docentes estão associadas a um desconhecimento sobre a educação dos alunos com necessidades educativas especiais, elaborou-se este manual que pretende contribuir para a formação neste domínio. O manual encontra-se organizado em quatro capítu los. No primeiro, caracteriza-se a evolução das perspectivas e formas de atendimento desen- volvidas face à criança diferente e definem-se os principais conceitos subjacentes às abordagens actualmente preconizadas. O segundo capítulo começa por deserever e analisar de forma comparada diferentes perspeetivas equacionadas no âmbito da avaliação de alunos com necessidades educativas especiais, para, em seguida, distinguir os conceitos de identificação e avaliação e apresentar os processos e instrumentos correspondentes. No terceiro capítulo, enquadra-se e analisa-se a problemadea da flexibilidade currieular e da diferenciação pedagógica, para depois deserever os processos vi dwdizados de adaptação currieular e de elaboração de eurrícu los especiais. Por último, no quarto capítulo, perspectivam-se formas de organização da escola que facilitam a educação dos alunos com necessidades educativas especiais, dando relevo ao trabalho em equipa e à articulação com as famílias destes alunos. No final de cada capítulo elaborou-se um conjunto de actividades que entendemos poder facilitar a sistematização e reflexão, por parte dos formandos. 1. Evolução das Perspectivas sobre a Educação da Criança Diferente Objectivos gerais do capítulo: • Caracterizar a evolução das perspectivas e formas de atendimento à população com diferenças significativas em relação à maioria; • Dar aconhecer os principais conceitos subjacentes às abordagens actuais nesta área; • Permitir a análise crítica dos conceitos abordados e das práticas em vigor neste domínio: Conhecímentos, capacidades e atitudes a desenvolver No final deste capítulo, o formando deverá ser capazde: • Identificar as etapas mais significativas da evolução do atendimento a crianças e jovens diferentes; • Identificar as linhas de força desse percurso evolutivo e relacioná-lo com as modificações sociais e científicas; • Caracterizar as tendências político-educativas actuais; • Definir os conceitos de educação especial, necessidades educativas especiais, escola inclusiva; • Analisar as suas próprias concepções face à diferença, em termos pessoais e profissionais e situar-se em relação à problemática. Temas a desenvolver • Da perspectiva assistencial à perspectiva educativa; 2. A evolução cia Educação especial — da segregação à integração; 3. O conceito de necessidades educativas especiais 4. A perspectiva inclusiva 1$ 1. 1 Da perspectiva assistencial à perspectiva educativa "Não há, não, duas folhas iguais em toda a criação. ou nervura a menos, ou célula a mais, não há, de certeza, duas folhas iguais." António Gedeão A história do atendimento a indivíduos que apresentam diferenças físicas, motoras, sensoriais, mentais e emocionais significativas em relação à restante população, mais do que constituir o estudo da situação particular destes indivíduos, reflecte e restitui a imagem da evolução da própria sociedade, ao longo das épocas: do modo como se foi perspectivando a si própria como comunidade; dos valores que a nortearam nas diferentes épocas; das capacidades e atitudes que foi valorizando ou desvalorizando em diferentes períodos históricos. O estudo das perspectivas sobre a população com problemas graves e das consequentes formas de atendimento não apresenta uma linha linear e progressiva; pelo contrário, mostra que, num mesmo período histórico, comu- nidades com diferentes características tratam de modo diferente os indivíduos que apresentam defíciências (ou sobre-eficiências)' ; e que, mesmo na sociedade ocidental, o processo se fez com desvios, retrocessos, saltos bruscos, fenómenos de moda, etc., na maior parte dos países. Estas características devem-se, em grande parte, ao facto de o atendimento a ndivíduos que apresentam diferenças significativas em relação à maioria da população sofrer as influências da evolução de diferentes áreas do conhecimento e de diferentes áreas de actividade social. A predominância de uma área sobre a outra, na forma de considerar esta população (quer ao nível das perspectivas sociais e científicas que sobre ela se tinham, quer ao nível dos processos práticos de acompanhamento) veio a marcar indefectivelmente os vários períodos da história da educação especial. A maior parte dos autores que se debruçaram sobre esta temática distingue quatro grandes fases na forma de atendimento a esta população. Considerada por esses autores como a Pré-História da Educação Especial, a primeira fase não tem marcos precisos quanto ao seu início. Da antiguidade cl ássica, c hega-nos notícia, como é sabido, do infanticídio perpetrado contra os bebés deficientes, em cidades como Esparta; na klade Média, sabemos que ' Consideramos aqui não apenas a classificação tradi- cional das deficiências (motora, auditiva, visual, mental e multideficiência) e das perturbações (dificulda- des de aprendizagem e pro- blemas emocionais), mas também a sobredotação (Cf. Suran e Rizzo, 1979; Kirk e Gallagher,I987; Sprinthall e Sprinthal1,1993, entre ou- tros). I 7 os deficientes eram considerados possuídos pelo demónio e submetidos a exorcismos e,.por vezes, abandonados sozinhos em matas e florestas. Nos séculos XVJIe XVIII, os deficientes eram internados em asilos, hospícios ou prisões, muitas vezes tratados como criminosos por se considerar que a deficiência era o reflexo de uma falha moral grave do indivíduo ou dos pais. Nessas instituições, os deficientes jovens cresciam junto com idosos, marginais e indigentes, não lhes sendo prestado qualquer atendimento especial. Durante este período, porém, é de salientar o carácter inovador de estudos e experiências levados a efeito por alguns médicos, religiosos ou estudiosos de várias áreas do saber, ainda que numa base individual e sem repercursões imediatas no atendimento geral a esta população. Um dos exemplos mais antigos de que temos conhecimento é o do trabalho de Ponce de Léon que, em 1520, criou, num mosteiro beneditino espanhol, uma classe de 12 jovens adultos surdos a quem ensinou 1 inguagem escrita (associando-a a objectos), a partir da qual se treinava posteriormente a articula- ção oral das palavras e frases e conseguindo resultados que, à epoca, foram considerados significativos. Outra experiência realizada com jovens surdos foi desenvolvída por J. Pablo Bonet, também espanhol, em 1629. Bonet desenvolveu um processo de ensino baseado no alfabeto manuar em associação com a linguagem escrita, à qual posteriormente se associava o treino da fala. Em 1755, em França, o abade L'Épée criou a primeira escola pública para alunos surdos, mais tarde denominada Instituto Nacional de Surdos Mudos de Paris. O abade L'Épée baseou-se na noção de que a linguagem gestual 3 é a língua natural dos surdos e desenvolveu um sistema codificado de gestos a partir daqueles que naturalmente os alunos surdos já usavam. Este sistema codificado de gestos veio depois a dar origem à Lingua Gestual Francesa 4 e o seu processo de ensino e associação com a linguagem escrita vieram a ser largamente divulgados. Ern 1784, Valentin Ffiiy criou, também em Paris, um Instituto para Cegos. Louis Braille, que viria mais tarde a desenvolver o sistema Braille 5 de leitura para cegos, foi aluno dessa instituição. Estes exemplos (entre muitos outros que seria possível retèrir) servirão para mostrar que as primeiras experiéneias de compreensão, estudo e eduegão nesta area se orientaram para os indivíduos com deficiências sensoriaís, cuja pr oblemática á mais delimitada e, nesse sentido, mais facihnente abordável termos elínicos, técnicos e educacionais. Também em Portugal, durante este período foram sendo eriados os primeiros stitutos e asi los para cegos e para surdos, partindo de iniciativas religiosas e uom finalidades de benemerência. = Soletração de palavras com as mãos, formando eom os dedos diferentes símbolos que representam as letras do alfabeto. Sistema de eomunicação formado por gestos padro- nizados, com vocabulário, regras e processos de uso próprios. ' Cada país tem uma língua gestual nacional, que não co rresponde à língua falada nesse país e que, tal eomo as línguas orais, se foi forman- do a partir de earacterístieas eulturais, g eográficas, bis- tóricas, ete. ' Rep resent:tção das e tias do ; n Ifabeto ;itravés de padrdes fo rniado% por conjuntos dc pontos t:ictilniente identi- riczívcis_ Os estudos antes referídos e as instituições assistenciais a que deram origem podem ser considerados como percursores de uma segunda fase do atendimento a individuos com diferenças significativas, marcada pelo aparecimento de estruturas de atendimento especializadas para os vários tipos de deficiência. Nesta segunda fase, cujo início podemos situar no século XIX, generaliza-se a noção de que a sociedade é responsável pela protecção e apoio à população deficiente e surgem instituições especializadas para deficientes. A criação destas não obedeceu, na maior parte dos países, a um plano pré-definido, sendo criadas de forma mais ou menos aleatória por particulares, pela Igreja, por instituições de beneficência social ou pelo estado e apresentando entre si muitas diferenças quanto a finalidades, qualidade de atendimento ou mesmo qualidade de acolhimento. Assim, enquanto algumas dessas instituições prosseguiam fins puramente assistenciais, outras tinham já finalidades marcadamente educativas, e esta distinção delimitava, por sua vez, diferentes formas de funcionamento e intervenção. Neste período, foram desenvolvidos vários trabalhos de índole científica, nos quais se procurava diferenciar não só tipos de deficiência, comotambém graus e formas de uma mesma deficiência, sendo portanto necessário definir métodos e técnicas de avaliação de capacidades visuais, auditivas, motoras, intelectuais. Entre os estudiosos que se debruçaram sobre estas problemáticas, referiremoS Pinel (1745-1826), que escreveu os primeiros tratados sobre o atraso mental; Esquirol (1722- 1840) que estabeleceu a diferença entre idiotismo e demência; Itard (1775-1838) que estudou a deficiência audítiva e a deficiência mental e que, durante alguns anos, acompanhou de perto o caso do "menino selvagem" de Aveyron; e Séguin (1812-1880) que se debruçou sobre a deficiência mental e desenvolveu propostas de educação para esta população baseadas no treino sensório-motor. Por sua vez, Galton (1822-1880) e Binet (1857-1911), como é sabido, no início do século XX desenvolveram técnicas de avaliação da inteligência que foram depois muito usadas na classificação dos níveis de deficiência intelectual e na possibilidade da educação ou treino destes alunos. Também no início do século XX, Montessori e Décroly deram um impulso decisivo aos processos de intervenção em educação especial. Através do desenvolvimento da "pedagogia eientifica" estes autores, que começaram por se debruçar sobre os alunos com deficiência, vieram a contribuir para as profundas reformas escolares que tiveram lugar na Europa da época, nomea- damente através do movimento que veio a ser denominado "educação nova" . Contribuíram ainda para a compreensão das problemáticas das crianças e jovens diferentes e para a criação de métodos e técnicas de desenvolvimento das suas capacidades, influenciando directa OU indirectamente os estudos, processos de intervenção e até mesmo as políticas educativas que foram implementadas durante o século XX. Em síntese, durante esta segunda fase, assistimos a uma progressiva mudança da perspectiva assistencial que referenciámos no seu início, para uma perspectiva clínica que se foi gradualmente estabelecendo a partir dos trabalhos citados, notando-se ainda uma cada vez maior preocupação com as questões terapeuticas e educativas. " Usava-se muito nesta altu- ra o termo reeducação ou mesmo reabilitação. Estes termos só deveriam ser usa- dos no caso dos adultos que, por qualquer doença ou aci- dente, ficam deficientes. De facto, a maior parte das de- ficiências das crianças e jo- vens surgem no período pré- natal, neo-natal ou pós-na- tal, exigindo portanto pro- cessos de educação e/ou ha- bilitação. Nas décadas 30/40 do século XX, inicia-se aquela a que poderemos chamar uma terceira fase, esta de carácter marcadamente educativo6 e dominada pela procura das soluções pedagógicas mais adequadas. De facto, é a partir desta altura que, nas sociedades ocidentais se inicia e/ou expande a escola básica pública e se estabelece a sua obrigatoriedade (ainda que com grandes diferenças cronológicas, formais e processuais nos diversos países). Embora a população deficiente fosse excluída da obrigatoriedade de frequência escolar, estas medidas tiveram consequências positívas a nível da sua educação, uma vez que, por um lado, contribuiram para um rastreio e identificação das suas problemáticas e, por outro, levaram à reorganização das instituições de atendimento a esta população e à criação de escolas ou de classes especiais, funcionando estas últimas anexas às escolas regulares. Em Portugal, na década de 40, organiza-se o primeiro centro de observação e diagnóstico médico-pedagógico para "crianças anormais", o Instituto António Aurélio da Costa Ferreira, e abrem-se as primeiras classes especiais, anexas às escolas públicas do 1. 0 Ciclo. Assiste-se, neste período, à classificação sistemática dos tipos e graus de deficiência, baseada em perspectivas médicas e psicológicas e ao encaminha- mento dos alunos considerados diferentes para situações educativas especi- ficamente organizadas para dar apoio a determinado tipo ou grau de perturbação. Se a fase anterior pode ser considerada a da criação da Educação Especial enquanto preocupação social, é porém nesta terceira fase que se pode falar da criação de urn sub-sistema educativo — o Ensino Especial Público. As perspectivas sociológicas e antropológicas da época vão contribuir para a concepção de que é direito destes alunos serem educados em escolas adequadas e que é dever da sociedade apoiar a criação dessas escolas e a formação de professores para a população deficiente; as movimentações sociais e políticas da altura vão incentivar a ideia de que é ao estado que eabe o dever de dar resposta a esta população, nomeadamente através dos organismos centrais de tutela da educação e não apenas através dos organismos sociais; por outro lado, as perspectivas médieas e os avanços tecnológicos fundamentam o 20 aparecimento de metodologias de ensino especiais, visando potencializar capacidades e superar algumas das incapacidades. Em síntese, até meados do século XX, a história do atendimento a crianças e jovens com deficiências ou perturbações acentuadas tem dois grandes eixos de evolução: - da necessidade de assistência e proteção ao direito à educação especializada; - da responsabilidade social difusa à responsabilização pública organizada. A partir dos anos 60 do século XX, as modificações sociais, políticas, económicas e culturais da sociedade ocidental vão influenciar decisivamente a Educação Especíal e desenvolver novas abordagens pedagógicas, que constituirão a quarta fase do processo aqui sintetizado. De facto, a educação destas crianças e jovens, até aqui com um cunho marcadamente segregacionista, quer a nível social, quer a nível escolar, vai passar a inserir-se progressivamente nas estruturas regulares de ensino, como veremos no ponto seguinte. 2.2 A evolução da Educação Especial — da Segregação à Integração Nas últimas décadas do sée. XX, a forma de conceber a Educação Especial evoluiu significativamente, sendo evidentes as mudanças ocorridas quer nos pressupostos e princípios que Ihe estão subjacentes, quer nos modelos . de atendimento que se privilegiaram. De facto, como vimos, este campo da educação centrava-se no estudo das deficiências específicas, das carências pessoais e do seu atendimento, sendo a Educação Especial considerada como "um conjunto de programas educativos dirigidos às crianças e jovens deficientes" (0CDE-CERI, 1984), pressupondo a organização de estruturas educativas em função de determinadas categorias. Tendo subjacentes critérios essencialmente médicos, a implementação desta perspectiva teve como consequência o privilegiar de respostas educativas cuja tónica fundamental foi a segregação da criança/jovem do sistema educativo regular. Não deixando de ter em atenção os critérios médicos e/ou psicológicos que podiam ajudar a compreender melhor as características das diversas proble- máticas, a partir dos anos 60/70 começa-se a tentar identificar as implicações e 21 exigências específicas que essas características colocam à educação da criança, no sentido de promover a sua integração na escola regular. A integração de alunos com deficiências nas estruturas regulares de ensino tem subjacente o princípio da normalização, com o qual se pretende acentuar a relatividade do conceito de normalidade, a partir da constatação das diferentes conotoções que este termo teve, ao longo dos séculos. De facto, não se pretende fazer corresponder todos os indivíduos a uma normalidade-padrão, mas aceitar eada pessoa com as suas diferenças particulares, reconhecendo-lhes o direito de ter uma vida tão normal quanto possível. As primeiras definições de normalização referem-se especificamente aos resultados que se podem obter integrando deficientes mentais em situações de vida quotidiana natural, mas rapidamente a tónica deixa de ser colocada no aluno e nos seus resultados, para se acentuar a necessidade de criar condições e meios para que essa normalização ocorra. Pretendia-se que o uso de meiossócio-educativos normalizantes viesse a estabelecer e/ou a manter comportamentos e características também elas normalizantes, constituindo a integração o principal meio de atingir a normalização. Birch (1974) define integração escolar como um processo que pretende reunir a educação regular e a educação especial, visando o apoio adequado às necessidades de aprendizagem de todas as crianças. Por sua vez, a National Association of Retarded Citizens (NARC), nos EU.A. considera que: a integração é uma filosofia ou um princípio de oferta de serviços educativos que se põe em pratica mediante a provisão de uma variedade de alternativas de ensino, de aulas adequadas ao plano educativo de cada aluno, permitindo a ntaxima integração educacional, temporal e social entre alunos deficientes e não deficientes (cit. in: Bautista, 1997:29). A integração mais adequada não tem que ser, forçosamente, a integração escolar, como geralmente se pensa. Existem pelo menos quatro formas de integração: a integração tísica, que se realiza em centros de educação especial situados perto de escolas regulares, com as quais compartilham alguns espaços, mas mantendo uma organização pedagógica diferente; a integração funcional, que implica a utilização dos mesmos recursos e espaços por parte dos alunos deficientes e não deficientes, em tempos succssivos ou simultâneos, com ou sem objectivos comuns, conforme os casos; a integração escolar, que se caracteriza pela inserção de alunos diferentes em grupos/turmas regulares; a integração na comunidade, que pressupõe a continuação da integração na vida extra-escolar, durante a infância, a juventude e a idade adulta. A integração pode também ser perspectivada através de níveis que vão ambiente escolar normal a contextos mais restritivos, dando origem aos chamados "modelos em cascata". Estes modelos correspondem a sistemas em pirâmide, em que os ambientes mais restritivos são considerados adequados apenas para um número mínimo de casos e os ambientes mais normalizantes são aconselhados para um maior número de casos. Um dos primeiros modelos deste tipo, apresentado por Reynolds (1962), previa oito níveis educativos de atendimento (escola residencial; escola especial; classe especial; maior parte do tempo na classe especial; classe regular com classe de apoio; classe regular com especialistas itinerantes; classe regular com apoio consultivo; classe regular) e três níveis de serviços não educativos (centros de diagnóstico e tratamento, hospitais e apoio domiciliário). Em relação aos níveis educativos, Reynolds aconselhava que se começasse sempre por analisar a hipótese das situações mais normalizantes (classe regular, sem ou com apoios) sendo os outros níveis de atendimento considerados apenas quando tal se mostrasse manifestamente impossível. Uma década mais tarde, o modelo apresentado por Deno (1973) define sete níveis de atendimento educativo a partir das necessidades das crianças/jovens, pressupondo que o maior número de alunos possível deverá ser colocado nos primeiros níveis (inserção em elasses normais a tempo inteiro, com professor de apoio) e apenas uma minoria se situará nos últimos (escolarização nos hospitais ou em casa, serviços médicos e supervisão de assistência social). É neste sentido que, em 1975, nos Estados Unidos, a Public-Law 94-142, "The Educationfor Ail Handicapped Children" vem exigir que, em todos os estados da federação, se respeitem os seguintes princípios e procedimentos: - identificação de todos os deficientes dos 4 aos 21 anos; - planificação e progamação adequadas às necessidades de cada um; - participação dos pais nas decisões educativas; - educação com recurso à alternativa inenos restritiva possível; - não discriminação • A maior inovação desta lei é exactamente a noção de "ambiente o nienos restritivo possível", que significa que os alunos com deficiência devem ser educados em situações tão normais quanto as suas necessidades especiais o permitirem. Significa ainda que as escolas regulares devem aceitar todas as crianças e encontrar para cada uma o modelo - de integração mais adequado. Em 1986, o relatório C.O.RE.X. de Quebeq (cit. in. Bautista, 1993) propõe oito níveis de integração que se apresentam tío quadro 1. Quadro 1 — Modelo em eascata (Quebeq, 1986) Níveis de integração Situação do aluno 1 Turma regular Turma regular com apoio indirecto (ao professor da turma) 3 Turma regular com apoio indirecto (ao professor) e directo (ao aluno) 4 Turma regular + apoio ao aluno em sala de apoio ou centro de recursos 5 Turma regular a 1/2 tempo + turma especial a 1/2 tempo 6 Escola de Educação Especial 7 Internato de Educação Especial 8 Apoio em serviço hospitalar ou apoio domiciliário Por sua vez, na Europa, com a publicação do Warnock Report (Londres, 1978) detine-se integração como "o princípio que enuncia a educação não segregada de deficientes e não deficientes"; sublinha-se que a integração é um fim a atingir, obedecendo a diferentes fases de determinantes múltiplas, devendo a sua implementação ser progressiva como e quando isso for humanamente possível . Segundo Hardman, Drew e Egan (1984, cit. in: Arends, 1995), 88% das erianças com deficiências ou perturbações podem estar em turmas regulares sem ou com apoio de um professor especializado; 6% poderá frequentar a escola regular e a escola especial durante o dia ( a meio tempo cada uma delas); e apenas 5% terá que frequentar uma escola especial a tempo inteiro ou ser educado em lares e/ou nospitais. No nosso país, o movimento para a integração de crianças e jovens deficientes (fomecou por experiências pontuais em alguns liceus do país e desenvolveu-se durante a ek.'.eada de 70, promovido pela Direcção do Ensino Especial, Inas ainda sem qualquer suporte legal, o que sucedeu apenas em 1986, com a Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei 46/86 de 14 de Outubro), na qual se afirma que é da especial responsabilidade do estado promover a democratização do ensino, garantindo o direito a uma justa e efectiva igualdade de oportunidades no acesso e sucesso escolares (n° 2 do art. 2°); que o sistema educativo se organiza de forma a assegurar o direito à diferença, mercê do respeito pela personalidade e pelos projectos individuais da existência, bem como da consideração e valorização dos dtferentes saberes e culturas (art. 3°); e que, entre os objectivos do ensíno básico se contam o de assegurar às crianças com necessidades educativas específicas, devidas designadamente a deficiências físicas e mentais, condições adequadas ao seu desenvolvimento e pleno aproveitamento das suas capacidades; e o de "criar condições para o sucesso escolar e educativo a todos os alunos" (art. 7°). A regulamentação destes aspectos, porém, só veío a oéorrer j á na década de 90, com a extensão da escolaridade obrigatória a todas as crianças e jovens, incluindo as deficientes (Lei n° 35/90) e com a publicação do Decreto-Lei n° 319/91, que responsabíliza directamente a escola regular pela educação desta população, "nutna perspectiva de escola para todos". Este Decreto-Lei obriga à elaboração de Planos Educativos Individualizados e de Programas Educativos que definam as necessidades específicas destas crianças/jovens e as respostas educativas mais adequadas. Também em 1991, o despacho n.° 173/ME regulamenta as condições e procedimentos necessários à regulamentação do decreto-lei anterior e confirma a opção pelas "medidas mais integradoras e menos restritivas, de .forma a que as condições de frequência se aproximem das existentes no regime educativo comum" . Nesta área, Portugal segue de perto as alterações introduzidas na maior parte dos países europeus nas últimas décadas do século XX. De facto, em 1990, a União Europeia aprovara a resolução 90/C162/02, estabelecendo que em todos os estados membros se deve promover a integração das crianças e jovens deficientes no ensino regular,salvaguardando os apoios especializados que algumas delas necessitem, complementarmente. Na verdade, na década de 90 coexistiam, na Europa, várias matrizes de atendimento à população com prohlemáticas específicas: a integração plena destes alunos, com as necessarias alterações das escolas para lhes dar uma resposta educativa adequada; a orientação segregada tradicional com algumas modificações; a compatibilização das escolas especiais com a integração em escolas regulares, criando sistemas mistos a partir da análise das condições concretas das escolas/zonas escolares e dos casos específicos dos alunos. Os argumentos a favor de uma educação integrada baseiam-se na constatação da falência ou ineficácia das orientações e práticas tradicionais de educação especial e na discriminatoridade dos seus fundamentos. Por outro lado, a integração destes alunos no ensino regular leva também à reorganização da escola de modo a responder às necessidades de todos os seus alunos — não apenas aqueles que têm deficiências, l'nas também aqueles que não têm o ritmo de aprendizagem ou grau de sucesso do designado "aluno-padrão". Neste sentido, a integração dos alunos com deficiências ou problemáticas graves contribuiu para o desenvolvimento de respostas educativas adequadas às diferenças individuais cada vez mais acentuadas numa sociedade multicultural e com um sistema de escolaridade básica obrigatória. No entanto, várias questões podem ser levantadas em relação ao movimento para a integração escolar desta população, nomeadamente: a falta de condições das escolas regulares para assumir a responsa- bilidade da educação e escolarização destes alunos ; a falta de formação dos professores do ensino regular para trabalhar com estes alunos de forma diferenciada; um aumento exagerado das funções do educador/professor do ensino regular, já de si complexas e multifacetadas na estrutura actual ; a segurança que o sistema de educação especial tradicional fornecia às famílias. O debate sobre a integração de alunos com problemáticas graves nas estruturas regulares de ensino tem tido por base uma série de estudos levados a efeito em diversos países, a partir da década de 70, os quais incidem sobre: o efeito cia integração escolar quer nos alunos integrados, quer nos outros alunos; as adaptações que as escolas e os professores devem realizar para que a integração possa ter sucesso; os processos de articulação entre o sistema regular e o sistema de apoio especializado ou suplementar. ?.6 Segundo Vieira (1995), os factores facilitadores da integração situam-se essencialmente a três níveis: aspectos organizativos da escola — processos de colaboração entre os diversos agentes educativos, capacidade da organização escolar na resolução de problemas, tipo de apoio das equipas multidisciplinares de apoio, processo de liderança da escola; atitudes dos professores do ensino regular face à integração, nomeadamente a capacidade de lidar com a diferença; processos de organização e gestão da prática pedagógica — ambiente de aprendizagem, programação individualizada, organização e gestão da classe, diferenciação pedagógica. Em síntese, podemos considerar que as três últimas décadas do século XX foram férteis em mudanças no campo da educação especial, orientando-se no sentido de uma cada vez maior inserção das crianças e jovens diferentes em ambientes mais naturais. Este movimento para a integração está intimamente associado ao conceito de necessidades educativas especiais, que analisaremos em seguida. 1.3 O conceito de necessidades educativas especiais O conceito de necessidades educativas especiais começa a ser utilizado no final dos anos 70 e representa um marco decisivo na forma de equacionar a criança diferente e os problemas na aprendizagem. Com efeito, aquele conceito, ao pretender substituir a tradicional classificação tipológica das diversas deficiências baseada em critérios fundamentalmente médicos, procura sublinhar os problemas na aprendizagem que qualquer criança poderá evidenciar ao longo do seu percurso escolar, não decorrendo estes necessariamente de défices individuais. A utilização deste conceito representou, não apenas urna alteração termino- lógica e semântica mas, sobretudo, uma intenção efectiva de mudança na forma de perspectivar a Educação Especial e consequentemente a Educação dita "regular". Com e feito, o uso progressivo do termo necessidades educativas especiais no campo da Educação, além de ter possibilitado uma visão socialmente menos estigmatizante dos problemas dos alunos 7 teve também implicações no âmbito de intervenção da Educação Especial. Esta passa assim a atender não apenas 1 O conceito de necessida- des educativas especiais ra- pidamente passou a ser uti- lizado para referenciar qual- quer tipo de problema e/ou dificuldade dos alunos. 27 ' Warnock Report (.1978). Special Educational Needs. H.M.S.O. Londres. Paragra- fos 3.17-18. Ibidem, parrigrafo De not;ir que, estas neces- idades nao se exuille1/1 Inu- tu dmente, podendo mna dada crianç:i .1prescmar um ou mais problemas asocia- dos. as crianças/jovens com deficiências, mas também todas aquelas que, ao longo do seu percurso escolar, apresentam problemas na aprendizagem. Torna-se assim evidente qué a defesa de uma escola para todos e de uma educação não segregada teve consequências na escola, sendo-lhe atribuída desde então a responsabilidade de equacionar e disponibilizar respostas educativas adequadas às diversas necessidades dos alunos. Com efeito, em 1978 este conceito surge pela primeira vez especificado no Relatório Warnock 8 . Aqui se constata que uma percentagem signiticativa de alunos apresenta durante o seu percurso escolar problemas na aprendizagem, precisando, por isso, da intervenção da Educação Especial. Entende-se que estes problemas podem assumir um carácter permanente ou temporário no percurso escolar do aluno, uma vez que não decorrem necessariamente de deficiências no sentido tradicional do termo, mas de um conjunto diversificado de factores. O apoio da Educação Especial é perspectivado como imprescindível, na medida em que pode evitar a agudização dos problemas das crianças, devida a situações de fracasso demasiado prolongadas. Nessa medida, considera-se fundamental assegurar ajudas adequadas a todas as crianças que eventualmente necessitem de qualquer tipo cle apoio durante a sua vida escolar. Este apoio da Educação Especial assumirá um carácter permanente ou temporário consoante o tipo de problemas manifestados. As necessidades educativas especiais são assim definidas em termos das exigências que colocam às escolas, entendendo-se estas como responsáveis primeiras pe1a educação de todos os cidadãos. Defende-se uma "escola para todos" , um sistema educativo integrador, devendo a escola garantir condições efectivas de acesso ao currículo e de sucesso escolar. Assim, na definição proposta no Relatório Warnock 9 as necessidades educativas especiais incluem situações que implicam, por parte da escola: (i) a disponibilização de meios especiais de acesso ao curriculum; (ii) a elaboração de currículos especiais ou adaptados, e (iii) a amilise crítica sobre a estrutura social e o clima emocional nos quais se processa a educação.'" A disponibtlização de meios especiais de acesso ao eurrículo revela-se fundamental perante erianças portadoras de deficiências de ordem sensorial Oti motora, as quais exigem a aprendizagem de k,'enicas de ensino especial (si,,tcma de leitura e escrita Braille, téenicas de mobilidade, linguagem gestual, sistemas alternativos de comunicação...), a implernentação de modificaçóes ) no meio físico da escola (adaptação de instalações) e a aquisição de recursos/ equipamentos específicos. Por sua vez, a elaboração de currículos especiais torna-se imprescindível face a crianças com dificuldades significativas na aprendizagem devidas a situações de imaturidadeintelectual, social e emocional. Já a adaptação curricular será pertinente perante dificuldades na aprendizagem de mültiplas origens; estas dificuldades surgem normalmente associadas a alunos que, embora sem qualquer défice intelectual, experimentam, devido a uma multiplicidade de factores, situações graves de atraso escolar em determinadas áreas currículares (por exemplo, na leitura, na escrita, no cálculo...). Por último, a escola enquanto instituição veiculadora de atitudes e valores deverá desenvolver processos de reflexão sobre o currículo oculton existente, uma vez que algumas das dificuldades na aprendizagem podem estar associadas a relações sociais frustantes e a um clima de escola que não respeita a individualidade e singularidade do aluno. Nos anos oitenta, outras definições do conceito de necessidades educativas especiais surgiram com o intuito de procurar a sua operacionalização e nas quais é evidente a preocupação em abranger, não só os alunos tradicionalmente portadores de deficiências físicas, sensoriais, motoras e mentais, mas também todos os que apresentem dificuldades na aprendizagem, decorrentes de causas várias, durante o seu percurso escolar. Assim, in Education Act (Londres, 1981) considera-se que "uma criança tem necessidades educativas especiais se tiver dificuldades na aprendizagem que requerem a intervenção da educação especial". Entende-se que uma criança tem dificuldades na aprendizagem: se tiver dificuldades significativament e maiores para aprender do que a maioria das crianças da sua idade, ou se tiver uma incapacidade que a impede ou que Ihe coloca dificuldades no uso dos meios educativos geralmente oferecidos nas escolas A análise comparativa das definições do conceito apresentadas revela que, enquanto o Warnock Report se centra nas exigências que estas populações colocam às escolas, na definição proposta na Education Act acentuam-se novamente as dificuldades da criança em aceder ao currículo escolar. Por outro lado, Brennan (1988:36) considera que existe uma necessidade educativa especial quando, e citamos: uma deficiência Vísica, sensorial, intelectual, emocional, social ou (/ualquer combinação destas) atecta a aprendLa gem até tal ponto que são necesscurios aluns 011 todos os acessos especiais ao currículo " O currículo oculto decor- re das formas de organiza- ção e funcionamento da es- cola e da classe enquanto grupo social onde se esta- belecem interacções, nas quais se revelam atitudes, valores e sentimentos. Em- bora habitualmente estes aspectos não esteiam expli- citados nos planos curri- culares e nos programas de ensino constituem parte in- tegrante e efectiva das aprendizagens realizadas pelos alunos na escola. Cit in: Brennan (1990:34). O especial OU modificado, ou a umas condições de aprendizagem especiahnente adaptadas para que o aluno seja educado adequada e cficazmente. A necessidade pode apresentar-se em qualquer ponto de tun continuum que vai desde a ligeira à grave: pode ser permanente ou ser unta fase temporária no desenvolvimento do aluno. Por sua vez, Casanova (1990) entende que as necessidades educativas especiais são, aquelas que têm certos alunos com dificuldades maiores que o habitual (mais amplas e mais prolUndas) e que precisam, por isso, de ajudas complementaws especfficas. (...) Determinar que um aluno apresenta necessidades especiais supõe que para atingir os objectivos educativos necessita de apoios didácticos ou serviços particulares e definidos, em júnção das suas características pessoais (...). No nosso país o conceito de necessidades educativas especiais, rapidamente começou a ser utilizado nas instituições escolares, verificando-se, no entanto, alguma confusão terminológica nas designações atribuídas a alunos com problemas na aprendizagem: por exemplo, necessidades educativas específicas, necessidades especiais, necessidades educativas especiais... Aliás, de certa forma, essa confusão terminológica é evidente nas disposições oficiais que, após a publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo, vieram consubs- tanciar princípios então preconizados e fundamentais no domínio da Educação Especial. Os princípios gerais e organizativos da lei atrás referida, bem assim como os objectivos que se definem para o Ensino Básico fundamentam-se claramente numa filosofia da educação que preconiza a democracia, a liberdade, a igualdade, a autonomia e a solidariedade. Estes princípios, por si só, são reveladores de uma particular atenção face ao aluno com necessidades educativas especiais, em virtude de terem subjacentes o respeito e a valorização do indivíduo enquanto ser diferente. No entanto, só no início dos anos 90 se verifica a publicação de disposições oficiais que vieram regulamentar efectivamente os princípios antes referidos ( nomeadamente os já referidos Decretos-Lei n° 35/90 13 , u" 319/91" e o Despacho n° 73/ME/91 15 ) e nos quais é evidente a utilização legal, ora do conceito de necessidades educativas e specíficas, ora do conceito de necessidades educativas especiais. Julgamos pois irnportante distinguir o que se entende por necessidades especiais e ne cessidades educativas especiais, em virtude clestes conceitos constituírem fon te de imprecisão e confusão entre teóricos e práticos. Assim, diríamos que o conceito de necessidades especiais se refere a: " No preambulo deste de- ereto refere-se: Facto preocupante é, também, o baixo indice de es1 . 01ar1- ;:ação das crunicas com ne- cessidades educativiLs espe- cificas, devidas a deficiên- cias fisicas e mentais, a quem garantir as condi- ( . (ies educativas adequadas às suus caracterisncas e o seu pleno acesso à educa- pào, em todo a período escolaridade obrigatória". Determina-se assim no art° 2", n° 2 que: "os alunos com necessidades educativas es- pecificas, resultantes de de- ficiências fisicas e mentais, estão sujeitos 00 cumpri- mento da escolaridade obri- gatória, não podendo ser isentos da sua jreqüência". " Neste Decreto-lei, onde surge pela primeira vez a de- signaçào - necessidades educativas especiais - con- sagram-se um conjunto de medidas relativas à inte- gração nas escolas regula- res, apontando-se 110 respec- tivo preâmbulo para um conjunto de aspectos rele- vantes, dos quais salienta- mos: - "A •ubstituição da dassi- ficaçõo em diferentes ca- legorias, baseada em de- cisões foro médico, pelo conceito de -alunas com necessidades educa- tivas especui.s", baseado em Critérios pedagógi- - "A erescente responsabi- lizacão da escola regular pelos problemas dos alu- nos com deficiência ou com d ri cul d ade s de ;lprendizagem-; eVt',11q ciun nec,' Ii idodes o ducativas espe ciais, 11111110 pervoectiva rola para todos- despacho regula- owniam-se Condiçoes os procdimentos necessii- rios do Decreto- lei 11" 3 1W9 as quais 30 salienta que: "Compete ao professor do l" ciclo do en- sino básic() identificar os alunos com necessidades educativas especiais e dar cindlecimento ao coordena- dor de núcleo - populações que devido a factores de cariz sócio-cultural e/ou a dife- renças linguísticas estão ou podem estar em risco de insucesso escolar; este tipo de situações pode ser reduzido drasticamente, melhorando a qualidade do ensino (aqui se incluem as situações de sobredotação, de desvantagem cultural e linguística, de aprendizagem de uma segunda língua...); - situações que embora graves em termos de deficiência podem não ter qualquer consequência no processo e progresso educativo do aluno, exigindo apenas um amplo serviço de apoio no sentido de facilitar o acesso ao curriculum escolar'' ; necessidades educativas especiais, definindo-se estas como situações onde são evidentes dificuldades na aprendizagem, ou seja em aceder ao curriculum oferecido pela escola, exigindo um atendimento especializado, de acordo com as características específicas do aluno. À escola compete dar resposta às necessidadesespeciais nas quais, como vimos, se incluem as necessidades educativas especiais, o que significa, em última análise que deve ter em atenção as diferenças individuais dos alunos que a frequentam. O conceito em análise acentua, pois, as dificuldades na aprendizagem que qualquer aluno pode apresentar durante o seu percurso escolar. A sua utilização prática implicou a atribuição à escola e aos professores de competências no processo de identificação dos alunos no sentido de definir formas de acesso ao currículo adequadas às necessidades de cada um. Esta situação veio eviden- ciar a natureza relativa do conceito de necessidades educativas especiais. De facto, a análise do processo de identificação de necessidades educativas especiais realizado pelos professore& nas escolas revela que, embora estas surjam quer de dificuldades na aprendizagem, quer de limitações efectivas no acesso ao currículo comum, resultam ainda de uma combinação múltipla de circunstâncias ( de referir, a título de exemplo, o currículo, os materiais de ensino, os métodos pedagógicos privilegiados e o clima social e emocional existente na escola). Nessa medida, a identificação de necessidades educativas especiais inclui não somente as deficiências e dificuldades individuais, mas também e de forma relevante as condições gerais do processo de ensino/ aprendizagem desenvolvidas por cada escola. Torna-se assim claro o papel determinante desta, enquanto organização, e dos professores enquanto indi- víduos na identificação das necessidades educativas especiais. Assim sendo, parece legítima e fundamentada a variabilidade constatada nas diferentes escolas. no que diz respeito ao número de alunos identificados com necessidades educativas especiais. Esta variabilidade é determinada, entre outros aspectos: ic Brennan (1990) apresen- ta tona distinção entre ne- cessidades especiais e neces- sidades educativas especiais quando analisa os efeitos de diferentes deficiências na aprendizagem e quando as- sinala a inexistência de uma relação simples e directa entre a gravidade da defici- ência e os seus efeitos na aprendizagem. Tendo como exemplo duas crianças com problemas físicos/motores com diferentes níveis de gravidade, demonstra que: uma situação grave em ter- mos motores pode não ter qualquer consequência no processo e progresso edu- cativo do aluno (necessida- des especiais) e uma situa- ção mais ligeira em termos motores pode dificultar (le forma acentuada o acesso ao currículo escolar normal, ou seja, à aprendizagem pro- movida para os alunos do mesmo grupo de referência (necessidades educativas especiais). - pela forma como são definidos os objectivos de ensino; pelos processos de avaliação dos progressos dos alunos desenvolvidos; - pelas áreas de aprendizagem mais valorizadas pelo professor; - pelas atitudes que este desenvolve face a alunos com níveis menores de sucesso escolar, e , em suma, - pela forma como encara as diferenças individuais dos alunos. É ainda nesta linha de ideias que as escolas podem agravar, ou mesmo criar problemas considerados situações de necessidades educativas especiais; a análise do papel dos professores neste processo, permite perceber a forma variada como interpretam o comportamento dos alunos. De facto, o compor- tamento do aluno pode ser visto pelo professor como um problema decorrente do processo de ensino ou como um problema existente na aprendizagem do aluno. Estas duas situações contrastantes têm ímplicações diferentes nas atitudes do professor, pois se o problema reside "no" aluno, a sua respon- sabilidade é necessariamente reduzida, ao passo que se reside no processo de ensino, competir-lhe-á equacionar e desenvolver estratégias que facilitem a aprendizagem do aluno. Estudos anglo-saxónicos sobre o processo de identifícação de alunos com necessidades educatívas especiais realizado pelos professores revelam a existência de algumas características comuns, entre as quais são de assinalar as seguintes - Tendência para enfatizar as condições sócio-familiares e físicas dos alunos em vez das suas aquisições/resultados e do seu desenvolvimento no seio do currículo escolar; - Tendência para realizar julgamentos globais, não existindo informação factual e registada relativamente às experiências e aprendizagens escolares realizadas pelos alunos; - Facílidade na identificação de problemas sensoriais, motores e de saúde mais óbvios, mas dificuldades na detecção de problemas deste tipo que, sendo menos óbvios, podem ter também implicações educacionais; - Facilidade na identificação de dificuldades comportamentais cujas causas conhecem; no entanto, dificuldades emocionais de outro tipo, quando menos óbvias, não são identificadas; Tendência a não diferenciar necessidades especiais e necessidades educat i vas especiais. No entanto, sobretudo a partir dos anos 90, a preocupação em distinguir os conceitos antes referidos (necessidades especiais e necessidades educativas especiais) tem vindo a ser posta em causa por diversos autores que criticam de forma acentuada as políticas e práticas decorrentes cla integração, preconizando e defendendo uma escola inclusiva. Com efeito, embora a introdução do termo necessidades educativas especiais tivesse tido como intenção inicial um claro afastamento do modelo médico, caracterizado pelo diagnóstico e pela categorização, tal não significou que as práticas desenvolvidas posteriormente continuassem a fundamentar-se em formas de pensar clínicas, segundo as quais as necessidades decorrem de défices, equacionando e centrando as respostas educativas nos indivíduos e nos seus problemas. Por sua vez, o carácter vago, vasto e relativo do conceito de necessidades educativas especiais antes analisado, permitiu que em diferentes contextos assumisse diferentes significados, o que conduziu, ora a encobrir categorias e desvantagens sem as especificar e sem lhes dar a resposta educativa adequada, ora a ser usado abusiva e extensivamente perante crianças que não apresentavam qualquer deficiência. De facto, o conceito baseia-se habitualmente em juízos de valor de carácter profissional, possibilitando assim a infiuência dos contextos educativos em que é usado, nos quais o desenvolvimento profissional do educador, a sua experiência enquanto docente e a fase da carreira em que se situa assumem particular significado. Os problemas práticos que a introdução deste termo gerou, criaram um número de contradições e complexidades no domínio educativo. Com efeito, paradoxalmente, o conceito de necessidades educativas especiais tornou-se uma categoria, referente a um grupo homogéneo, grupo esse que continua a ser percepcionado pela escola como deficitário em algum aspecto do desenvolvimento ou da aprendizagem. Por outro lado, alguns autores sublinham as inconsistências da sua utilização em termos das medidas políticas desenvolvidas desde então. De facto, apesar de ter subjacente a defesa de princípios educativos que preconizam a integração e a de fesa de uma escola para todos, em termos burocráticos, legislativos' 7 e administrativos permitiu práticas educativas exclusivas onde as diferenças entre os alunos continuam a ser factores que legitimam a ineficácia cla escola, dos professores e o insucesso dos alunos. Com e feito, as dificuldades educativas são perspectivadas como o resultado da interacção entre as características de determinado aluno, as formas de organização escolar e/ou as adaptações curriculares efectuadas perante tais características. Note-se que no nosso país mesmo quando linalmente se proclama o final da isen- ção da escolaridade obriga- tória para alunos com ne- cessidades educativas espe- cíficas (Decreto-lei n" 35/ 90) admite-se que a sua fre- quência escolar pode pro- cessar-se em escolas re!,11- lares ou em instituições es- pecíficas de educaçao espe- ciad conforme O tipo e grau de deticiencia clii causa. vi Nesse sentido,justificam-se algumas respostas educativas actualmente desenvolvidas em inúmeras escolas, que abrangem adaptações curriculares, materiais altemativos, apoios extra na sala de aula, processos de diferenciação pedagógica. Importa, no entanto, notar que nesta perspectiva, as dificuldades educativas são mais uma vez consideradas de forma individual, centrando-se a atenção em determinado aluno e no processo como este interage face aos diferentes contextos de aprendizagem que a escola Ihe proporciona. 1.4 A perspectiva inclusiva O aparecimento, nos anos noventa, da perspectiva inclusiva decorre fundamentalmente das críticas que foram sendo desenvolvidas por diversos autores à integração e às práticas educativas que legitimou, continuando a permitir que alguns alunos não frequentassem a escola quando esta não dispunha de meios humanos e materiais capazes de responder com eficácia às suas necessidades. Na perspectiva inclusiva, as dificuldades são agora entendidas como decorrendo de limitações existentes no currículo (planificado ou não) oferecido a todos os alunos e, nessa medida, implicam que a escola desenvolva processos de inovação e mudança curricular que respondam com eficácia a todos os alunos que a frequentam. Preconiza-se, portanto, uma abordagem mais ampla das dificuldades educativas dos alunos, centrada na organização, desenvolvimento e implementação de currículos que melhorem as condições de aprendizagem de todos e na qual, as dificuldades de alguns alunos constituem referentes/indicadores a ter em conta nos processos de mudança necessários a uma boa aprendizagem. Assim, as dificuldades que alguns alunos experimentam no seu processo educativo podem constituir fontes i mportantes no que diz respeito à compreensão das limitações existentes no currículo escolar, sendo, portanto, perspectivadas de forma positiva, uma vez que desencadeiam processos de mudança curricular que poderão melhorar a aprendizagem de todos os alunos. Os autores que preconizatn esta perspectiva entendern que é fundamental o dcse nvolvimento de um trabalho de cooperação entre os diferentes inter- venientes no processo cducativo (docentes, ót-Lãos de gestão, professores e te,nieos especializados), urna vez que a análise conjunta das limitações do eurrículo existente permitirá a identificação das dificuldades que alguns alunos experimentam no seu processo educativo e a definição das mudanças neces- sárias a introduzir no currículo. Convém notar que, esta perspectiva que preconiza uma escola inclusiva, capaz de reconhecer e satisfazer as necessidades dos seus alunos implica, necessariamente, o afastamento de uma viSão tecnicista das dificuldades dos alunos (a habitual procura do método de ensino certo, das estratégias os dos materiais que serão mais eficazes para determinado aluno) e a adopção de uma nova abordagem que valoriza os factores contextuais, culturais e estruturais inerentes ao processo de ensino aprendizagem. Nessa medida, trata-se fundamentalmente de reequacionar as percepções que cada educador tem sobre a aprendizagem, sobre os alunos e sobre determinados alunos que apresentam qualquer situação de desvantagem educativa, de forma a tomar consciência da eventual infiuência que a perspectiva do défice continua a ter na prática pedagógica dos professores e na atitude das escolas. Assim, os professores que pretendem promover a aprendizagem de todos os a1unos deverão necessariamente estar disponíveis para realizar processos críticos de reflexão sobre as práticas pedagógicas que desenvolvem, de forma a poderem identificar eventuais aspectos que urge mudar ou aperfeiçoar. É portanto à escola, enquanto instituição responsável pela educação de todos os alunos, e aos professores em particular, que este desafio da educação inclusiva se coloca com particular ênfase: respeitar os alunos que apresentam dificuldades na aprendizagem, perspectivando-os como potencialmente activos, capazes de aprender e facilitadores de processos de mudança em termos pessoais e profissionais. É na Declaração de Salamanca18 (1994) sobre os princípios, políticas e práticas na área das necessidades educativas especiais que se preconiza uma educação inclusiva, acentuando-se o papel determinante das escolas ditas regulares, no combate às atitudes discriminatórias, na criação de sociedades inclusivas e na defesa de princípios já anteriormente preconizados'9. Nesta declaração, o conceito de necessidades educativas especiais abrange "todas as crianças e jovens cujas necessidades se relacionam com deficiências ou dificuldades escolares" (1994:17) que surgem em determinado momento da escolaridade. À escola compete, através de uma pedagogia centrada na criança, educar com sucesso estas crianças e jovens, incluindo aquelas que apresentam incapacidades graves. A pedagogia centrada na criança é entendida corno benéfica para todos os -Llunos e consequenternente para a sociedade em geral, urna vez que pode permitir a redução substancial do insucesso e abandono escolares. Nela preconiza e assume a naturalidade das diferenças existentes entre os seres " A Declaração de Sala- manca foi elaborada pelo Congresso Mundial sobre NEE realizado pelo gover- no espanhol em colabora- ção com a Unesco, com a participação de 92 países e 25 organizações internaci- onais. " Aqui se incluem os prin- cípios educativos enuncia- dos na Declaração Univer- sal dos Direitos Humanos, na Declaração de Educação para Todos e nas Normas sobre Igualdade de Oportu- nidades para Pessoas Defieiencia. humanos, diferenças essas que são evidentes na forma corno cada indivíduo aprende; nessa medida, o processo de ensino -aprendizagem deve ser equacionado tendo em linha de conta as normais diferenças-existentes entre os alunos, deixando estes de ter de se adaptar a modelos únicos e rígidos de ensino que, muitas vezes, os conduzem ao insucesso, ao abandono e à exclusão escolar e social. Trata-se pois de garantir uma "genuína igualdade de oportunidades" em termos de e ducação, o que, perante crianças e jovens com necessidades educativas especiais será conseguido nas escolas que educam as crianças da comunidade em que se inserem, facilitando assim os seus processos de autonomia e integração social. Assim sendo, nas escolas inclusivas, todos os alunos deverão aprender juntos e, para tal, será fundamental: - d esenvolver processos de adaptação perante os vários estilos e ritmos de aprendizagem; - criar e implementar currículos adequados à população escolar; - organizar a escola de forma a responder às necessidades de todos os alunos; - equacionar estratégias pedagógicas diversificadas e que impliquem actividades funcionais e significativas para os alunos, desenvolver processos de cooperação/colaboração com a comunidade em que a escola se insere, e - utilizar e rentabilizar recursos humanos e materiais existentes. Pr econiza-se, em suma, uma escola, na qual, todos os alunos de uma mesma comunidade, sempre que possível, aprendam juntos, independentemente das diferenças e dificuldades individuais. No que diz respeito ao atendimento dos alunos com necessidades educativas especiais, entende-se que estes deverão receber os apoios suplernentares que precisam de forma a terem uma educação eficaz. Admite-se, como medida excepcional, a esc olarização de crianças em escolas especíais ou em aulas especiais dentro da escola regular. Mas, esta situação apenas serd aconselhavel perante easos em que se torne evidente uma total i ncapacidade da educação regular em dar resposta às necessidades do aluno. Na Deelaração de S alamanca (1994) que temos vindo a analisar, refere-se um co njunto de mudanças em termos educativos imprescindíveis à integração de crianças com necessidades educativas especiais nas escolas inclusivas, das quais destacamos as mudanças relativas ao currículo e à gestão escolar. Relativamente às mudanças em termos de gestão escolar, a Declaração de Salamancasublinha o papel determinante dos serviços educativos locais e dos directores das escolas na resposta eficaz às necessidades educativas especiais. Considera-se que uma boa gestão escolar envolve de forma activa, criativa e cooperativa , professores, auxiliares de educação, pais e comunidade. Entende- se atribuir aos directores das escolas a responsabilidade de promoverem atitudes positivas por parte de toda a comunidade escolar e de colaborarem de forma eficaz com os professores e com o pessoal de apoio, sendo para tal fundamental equacionar processos de decisão baseados na consulta e na negociação entre os diferentes parceiros educativos. É nesta linha de ideias que alguns autores 2° assinalam a influência da cultura escolar na atitude que a escola e o conjunto de professores manifestam perante alunos com necessidades educativas especiais. Nessa medida, entendem ser fundamental considerar a escola como uma "organização de aprendizagem" que continuamente procura melhorar as respostas educativas para os alunos de toda a comunidade escolar. Os factores de mudança da escola referidos são: liderança eficaz — neste tipo de liderança observa-se uma distribuição do poder e a assumpção conjunta de responsabilidades por parte de toda a equipa educativa; a direcção da escola deverá procurar desenvolver um clima escolar no qual se respeita e valoriza a individualidade e, simultaneamente, se estimulam as actividades de grupo facilitadoras da resolução de problemas; envolvimento da equipa de protissionais, almos e comunidade nas orientações e decisões da escola — aqui se enfatiza também o papel activo e participativo a desempenhar pelos alunos nos processos de aprendizagem desenvolvidos na sala de aula; compromisso relativo a uma planificação realizada colaborati- vamente — o que implica a capacidade de equacionar processos de planificação cooperativa, na qual a definição de objectivos comuns e a resolução de eventuais situações problema por parte dos professores, constituem também uma base de acção para cada um deles; estratégias de coordenação — todo o trabalho a desenvolver deverá basear-se numa efectiva coordenação e cooperação entre docentes, que lbes permita encontrar respostas adequadas para os alunos, quer em grupo, quer em situação individual na sala de aula. Ver Mel Ainscow (1995); Gordon Porter (1995); Margaret Wang (1994). focalização da atenção nos benefícios potenciais da investigação e tia reflexão — implementar processos que estimulem os professores a investigarem e a reflectirem sobre a prática pedagógica que desen- volvem na sala de aula, uma vez que, a observação mútua da prática pedagógica entre professores e a respectiva troca de opiniões constituem factores que facilitam a mudança curricular; política de valorização profissional de toda a equipa educativa — a formação contínua deverá ser assegurada tendo em conta a equipa enquanto todo , não esquecendo, no entanto, as necessidades de cada um dos seus membros. As mudanças relativas ao currículo implicam flexibilidade por parte da escola e dos professores, no sentido de: - desenvolver currículos que se adaptem a alunos com interesses e capacidades diferentes; - proporcionar às crianças com necessidades educativas especiais apoios pedagógicos suplementares tendo como referência o currículo comum e não um currículo diferente; - equacionar processos de ensino motivadores da aprendizagem, relacionados com a experiência dos alunos e com situações práticas; - integrar no processo educativo a avaliação formativa, para assim ser possível, a alunos e professores, ter informação quer sobre as aprendi- zagens realizadas, quer sobre as dificuldades ainda existentes, de forma a poder resolvê-las; - garantir diferentes formas de apoio aos alunos com necessidades educativas especiais — por exemplo, apoio na sala de aula, programas de compensação educativa, apoio especializado realizado ou por um professor ou por outros técnicos; - usar os recursos/ajudas técnicas neeessários ao sucesso educativo e ao acesso ao currículo escolar, facilitando assim a mobilidade, a comuni- cação e a aprendizagem de alguns alunos. Mas a construção efectiva de uma escola inclusiva depende fundamentalmente de mudanças a desenvolver nas práticas pedagógicas de docentes que persistem em utilizar formas de gestão e organização das situações pedagógicas eentradas na figura do professor e nas quais a integração de um aluno diferente neee ssariamente será perspectivada como peurbadora do "normal" funciona- n.rmto do grupo/turma. Tendo como fundamento a crença de que as mudanças metodológicas e organizativas que têm por fim responder aos alunos que apresentam dificuldades írão beneficiar todas as crianças, alguns autores entendem que é possível e imprescindível desenvolver processos de mudança da sala de aula. Estes processos têm como finalidade última assegurar uma educação para todos, ou seja, a aprendizagem de todos os alunos. A nível da sala de aula considera-se que um dos factores mais relevante se prende com a forma como o professor conceptualiza as tarefas de aprendizagem que propõe aos alunos. Nessa medida, a criação de salas de aula inclusivas implica por parte do docente, capacidade de: planificar para a classe no seu conjunto, abrangendo assim todas as crianças; utilizar os recursos humanos existentes na sala de aula — os alunos — que naturalmente podem contribuir para a aprendizagem (através de trabalhos de grupo cooperativo e de trabalhos a pares), uma vez que esta é em grande parte, um processo social; improvisar, ou seja, a capacidade de alterar a planificação em função das situações singulares que surgem no dia-a-dia escolar, em função dos comportamentos manifestados pelos alunos. Em síntese, nos últimos anos assiste-se a todo um movimento que preconiza a educação inclusiva, a qual, como vimos, implica fundamentalmente a reestruturação da escola enquanto instituição, uma vez que é sua função responder de forma eficaz às necessidades de todos os alunos. Este movimento implica necessariamente um reequacionar do papel da escola regular e do papel da educação especial. De facto, alguns autores que preconizam a escola inclusiva chegam a sugerir a completa desmantelação das estruturas de educação especial, defendendo que toda a educação se deve realizar em salas de aula comuns, dadas as vantagens em termos de resultados sociais e académicos. Este posicionamento significa em última instância que se considera não exístirem mais alunos da educação especial e portanto serem dispensáveis os serviços que esta proporciona. Outros autores têm uma visão mais crítica e cautelosa relativamente à inclusão, entendendo que a questão central da perspectiva inclusiva se relaciona com o encaminhamento/colocação considerado mais adequado. Assim, defendem a existência de um conjunto de diferentes respostas educativas, uma vez que só assim é possível garantir a cada aluno a educação que necessita (Jim Kauffman, Lynti Fuchs e Doug Fuchs, 1)9•1, cit. in: Bailey, 1098). No nosso país, muíto embora em termos de política educativa se tenha veri- ficado uma adesão aos princípios enunciados na Declaração de Salamanca, (nomeadamente através da publicação do Despacho-conjunto n.° 105/97, que preconiza a Escola Inclusiva e regulamenta os Apoios Educativos), continuam a existir instituições de educação especial vocacionadas para o atendimento de problemáticas mais acentuadas. O Despacho antes referido envolve mudanças de ordem conceptual, com implicações no atendimento das populações com necessidades educativas especiais. Efectivamente, este define vários intervenientes no apoio educativo: orgãos de gestão e coordenação da escola, docentes da turma, alunos, docente de apoio educativo, auxiliar de acção educativa, família, equipas de coordenação dos apoios educativos e outras estruturas e serviços da comunidade. Neste sentido, e dentro da perspectívainclusiva que abordámos anteriormente, a responsabilidade pelo percurso educativo dos alunos com necessídades educativas especiais deixa de ser imputada apenas ao professor da turma e ao professor de educação especial; pelo contrário, prevê-se a articulação entre vários agentes educativos e, sobretudo, a responsabilização da escola pelo processo a desenvolver. Cria-se a figura do docente de apoio educativo, cujas funções não se limitam às do tradicional professor de educação especial (apoio directo ao aluno com necessidades educativas especiais), enfatizando-se agora o seu papel como recurso da escola, na optimização do processo de aprendizagem e socialização de todos os alunos (privilegiando-se, sobretudo, a colaboração com os professores das turmas e a participação na organização escolar). Consequentemente, o docente de apoio educativo é entendido como um dos recursos humanos da escola, fazendo parte integrante da sua equipa pedagó- gica. A vinculação do docente de apoio educativo a determinada escola constitui, com efeito, uma inovação em termos de atendimento, uma vez que, anterior- mente, este implicava a deslocação do professor de educação especial a diferentes escolas, de fonna a prestar apoio a alunos com problemáticas relacio- nadas com a sua área de especialização. Tal forma de atendimento garantia que os alunos fossem apoiados por docentes com conhecimentos específicos relativos às suas necessidades, mas, por outro lado, a intervenção centrava-se no aluno, sendo escassa a sua implicação no contexto pedagógico e escolar. A v inculação do docente de Apoio Educativo a determinada escola teve como intencão última equipar a instituição escolar de recursos humanos capazes de responde • eficazmente a todos os alunos, numa perspectiva inclusiva, na qual, como vimos, as dificuldades dos alunos são entendidas como decorrentes de limitações existentes no currículo. No entanto, a implementação prática das medidas preconízadas no Despacho- conjunto n." 105/97 gerou perplexidades, excessos e contradições com conse- quências no atendimento aos alunos com necessidades educativas espec iais e na organização escolar. Efectivamente, os professores especializados em determinada área de educação especial não tinham, à partida, formação que Ihes permitisse um trabalho consistente de cooperação com as escolas e com os professores, uma vez que as suas competências incidiam, sobretudo, no trabalho directo com a criançai jovem. O leque diversificado de funções que agora lhe são atribuídas, ao deslocar o centro da intervenção do aluno para a escola e os professores, gerou nos docentes de educação especial uma "crise de identidade" com repercussões nas práticas desenvolvidas nas escolas. Por outro lado, a intenção de garantir uma escola inclusiva implicou um substancial aumento do número de docentes de apoio educativo; o recrutamento destes docentes processou-se de forma muito rápida, sem que tenha havido critérios que fundamentassem a colocação de determinado docente nas funções de apoio. Com efeito, em inúmeras situações, foram exercer funções de apoio educativo não os docentes experientes e, consequentemente, com possibilidades de desenvolver processos de supervisão e colaboração mas, professores recém- -licenciados ou outros, a quem, por razões pessoais e circunstânciais não tinham sido atribuídas funções lectivas. O atendimento a alunos com necessidades educativas especiais na escola passou, assim, a ser assegurado quer por professores especializados em educação especial, quer por professores inexperientes ou sem qualquer formação específica. Nessa medida, em algumas circunstâncias, a resposta educativa às necessidades de determinados alunos não foi garantida, o que, paradoxalmente, contraria os pressupostos e princípios educativos subjacentes à perspectiva inclusíva. Por sua vez, esta situação acentuou as dificuldades dos professores e das escolas no que diz respeito à identificação de alunos com necessidades educativas especiais. Em termos práticos, verificou-se um aumento significativo do número de alunos identificado para apoio educativo, o qual, em muitos casos, não se fundamentava em dificuldades significativas nas aprendizagens, mas antes em factores de ordem pedagógica e de natureza sócio-cultural. Nos factores de ordem pedagógica e de natureza sócio-cultural incluem-se as situações que, embora sendo identificadas como dificuldades na aprendizagem, não decorrem de causas intrínsecas ao próprio aluno, sendo antes devidas à forma como é gerido e organizado o processo de ensino-aprendizagem e à relação pedagógica estabelecida entre professor e alunos. Com efeito, alguns estudos ernpíricos sugerem que práticas pedagógicas centradas no aluno e nas 41 suas capacidades de realização lhes permitem o acesso ao currículo e o sucesso escolar; já as práticas centradas no professor se revelam ineficazes na resposta à diversidade dos alunos que actualmente frequentam a escola. Neste tipo de práticas, as diferenças entre os alunos constituem fonte de preocupação e de dificuldades profissionais, as quais têm servido para legitimar os inúmeros pedidos de apoio educativo. Neste sentido, torna-se imprescindível a aquisição de competências no domínio da avaliação e identificação das necessidades educativas dos alunos, aspecto que abordaremos no capítulo seguinte. Actividades E. "A educação especial organiza-se preferencialmente segundo modelos diversilicados de integração em estabelecimentos regulares de ensino, tendo em conta as necessidades de atendimento específico e CO171 apoios (te educação especializados" (Lei de Bases do Sistema Educativo Português — Lei 46/86, art.18°, n.° 1) a) Situe os princípios subjacentes a esta afirmação numa das fases de evolução do atendimento aos alunos com necessidades educativas especiais e justifíque a sua opção. b) Enuncie os argumentos que considera mais siginificativos a favor da educação integrada de alunos com necessidades educativas especiais c) Refira os principais obstáculos que foram levantados ao movimento para a integração escolar dos alunos com necessidades educativas especiais. 2. Consídere a seguinte situação: Comparando os valores referentes a 1989 com os de 1992, em determinada região, verificou-se um aumento de 60% no número de alunos identificados como tendo necessídades educativas especiais. Explique algumas das razões que podem estar na origem desta situação, tendo em conta a relatividade do conceito de necessidades educativas especiais. 3. "O enquadramento normativo dos apoios educativos deve materializar- -se 1711111 conjunto de medidas que constituem tuna resposta articulada e integrada aos problemas e necessidades sentidos nas e pelas escolas, de acordo com um conjunto de princípios orientadores, nomeadamente: centrar nas escolas as intervenções diversificadas necessárias para o sucesso educativo de todas as crianças e jovens; assegurar, de modo articulado e flexível, os apoios indispeasciveis ao desenvolvimento de uma escola de qualidade para todos; perspectivar uma solução simultaneamente adequada as condições e necessidades actuais, mas orientada também para mna evolução gradual para mais amplas e novas respostas" (Despacho Conjunto 105/97, Preâmbulo). Compare este excerto com aquele que se apresenta no exercício 1 (extraído da Lei 46/86) e refira: a) a mudança no enfoque da análise das ciais dos alunos; necessidades educativas espe- b) as mudanças na organização e gestão pectiva inclusiva; c) as mudanças relativas à organização e gestão do currículo. escolares decorrentes da pers- 44 2. Avaliação e Identificação de Alunos com Necessidades Educativas Especiais Objectivos gerais do capítulo • Caracterizar perspectivas desenvolvidas no âmbito da avaliação de alunos com necessidades educativas especiais; • Dar a conhecer os principais conceitos subjacentes às diferentes perspectivas de avaliação;• Permitir a análise comparativa de diferentes perspectivas; • Facilitar a análise crítíca das práticas de avaliação desenvolvidas. • Dar aconhecer instrumentos de avaliação facilitadores da identificação. Conhecimentos, capacidades e atitudes a desenvolver • Identificar e caracterizar diferentes perspectivas de avaliação de alunos com necessidades educativas especiais; • Analisar de forma comparada essas perspectivas. Distinguir os conceitos de identifícação e avaliação de alunos com necessidades educativas especiais; • Compreender o papel do professor/educador no processo de identifi- cação de alunos com necessidades educativas especiais; • Identificar processos facilitadores da identificação; • Distinguir instrumentos de avaliação facilitadores da identificação. Temas e conteúdos a desenvolver 1. Perspectivas na avaliação de alunos com necessidades educativas especiais 2. Identificação e Avaliação — clarifícação de conceitos 3. Identificação de alunos com necessidades educativas especiais — processos e instrumentos 47 2.1 Perspectivas na avaliação de alunos com necessidades educa- tivas especiais "Tive a sorte de sofrer da dificuldade de adaptação à aprendizagem da leitura e da escrita, a que se chama `dislexia' antes de o quadro ter sido descrito como entidade nosológica. Mereci, é facto, os epítetos de `mandrião' e de `distraído', mas escapei à colagem à minha pessoa dum diagnóstico impregnado da poderosa magia das palavras cient(ficas". João dos Santos, 1982 A análise das diferentes perspectivas que se têm vindo a desenvolver no âmbito da avaliação da criança diferente mostra, de forma evidente, a influência de várias áreas do saber, entre as quaís são de destacar, a medicina, a psicologia e a sociologia. . Com efeito, a evolução e afirmação progressiva destas ciências em termos científicos pennite compreender a grande influência que exerceram na avaliação da criança diferente, verificando-se apenas nas últimas décadas do século passado uma maior afirmação da educação enquanto ciência neste domínio, situação que é compreensível se tívermos em linha de conta o ainda polémico estatuto epistemológico desta área do saber. A problemátíca da avaliação em educação permite à partida constatar o carácter polissémico do conceito, facto que é facilmente verificável se questionarmos um grupo de pessoas sobre o que significa avaliar. Assim, poderão surgir-nos um conjunto de expressões verbais diferentes, mas que pretendem todas elas definir o acto avaliativo: comparar, classificar, medir, verificar, analisar, obser- var, julgar, etc (1-ladji, 1994). As diferentes definições que o conceito de avaliação pode assumir no campo educativo são também reveladoras dos paradigmas que as fundamentam e que têm obviamente consequências nas finalidades e funções da avaliação, nos instrumentos e técnicas que utiliza, nos intervenientes que privilegia e na forma como os resultados são entendidos e utilizados em termos educativos. Estas dimensões são particularmente relevantes quando equacionadas no ambito da avaliação da criança com necessidades educativas especiais. 49 No seu sentido etimoló- gieo, diagnósaieo significa proeurar através da análise de sinais e sintomas e da uti- lização de reeursos téenieos, localizar as eausas, a fim de preserever tratamentos para os respeetivos quadros iden- tificados. Efectivamente, a analise das díversas perspectivas de avaliação desenvolvidas durante o século passado na educação especial mos tra mudanças significatívas em termos das finalidades, dos instrumentos e dos actores privilegiados e das respostas educativas que, consequentemente, se preconizaram. A avaliação e compreensão da criança diferente começou por ser objecto de estudo da medicina, uma vez que se entendia que as diferenças eram sintomas de doença física, justificando-se assim uma abordagem médica. Com efeito, durante vários anos, a avaliação da criança diferente centrou-se no diagnóstico' médico, tendo como preocupação fundamental a classificação do tipo de deficiência (mental, física, sensorial, motora) para assim ser possível decidir sobre qual o tratamento adequado. Importava, portanto, realizar um diagnóstico detalhado da deficiência da criança, pois este constituía simultaneamente condição necessária e suficiente para iniciar o tratamento. Nesse sentido, resulta evidente a relação direeta entre diagnóstico e tratamento, embora estas duas actividades fossem entendidas como diferentes (Piji e Van Den Bos, 1998). O diagnóstico e a classificação com base em procedimentos médicos constituíram assim condição primeira e fundamental para a tomada de decisão sobre o tipo de educação conveniente para determinada criança, tendo em conta as suas caracterísiticas específicas. As instituições de educação especial que existem com vista à educação de crianças com diferentes tipos de deficiência resultam desta abordagem médica, na qual a classificação da criança em determinada categoria está directamente relacionada com a sua colocação numa escola especializada no respectivo atendimento. Entende-se que a resposta às necessidades educativas decorrentes de uma dada deficiência só poderá ser facultada em escolas especializadas nesse domínio, o que pressupõe, por um lado, conceber como iguais e comparáveis as necessidades educativas especiais decorrentes de urna mesma deficiêncía e, por outro, considerar fundamental uma intervenção compartimentada de especialistas em diversas áreas. Esta abordagem médica das necessidades especiais foi no século passado, e continua a ser actualmente, alvo de acesas críticas, nomeadamente as que s ubfinham as c onsequências negativas em termos sociais e educativos do uso da c lassificação em diferentes tipologias. COI n efeito, rotular uma criança com dificuldades com base num diagnóstico pode constituir uma forma de estigmatiza4 discriminar, insultar e limitar criança. Como sabiamente assinalava João dos Santos (cit in: Carvalbo e Branco, 2000: 199) O diagnóstico pode sobrepor-se ao doente, como a doença pode sobrepor-se à pessoa. Devemos evitar diagnosticar alguém, como pode acontecer quando se diz depreciativamente: 'é um psicopata, um neurótico, 11171 débil'. O diagnóstico de alguém pode tornar-se o diagnóstico contra alguém. Por sua vez, quando se pretendem desenvolver processos de intervenção junto da criança no sentido de minimizar ou ultrapassar os problemas, a utilização de categorias revela-se de escassa utilidade, podendo apenas servir para fornecer uma indicação global do encaminhamento/colocação mais adequado às suas características. De facto, este tipo de rótulos em nada ajudam no processo educativo das crianças, constituindo antes, em algumas situações, factores determinantes nos processos de desculpabilização e desresponsabilização desenvolvidos pelo educador quando confrontado com a necessidade de as educar e ensinar. Acresce que os rótulos, porque sublinham apenas os défices da criança, podem desencadear umconjunto de expectativas 2 negativas no educador relativamente à aprendizagem, o que, como é sabido, vai influenciar a relação pedagógica desenvolvida, a comunicação estabelecida durante o processo de ensino e os níveis de exigência do professor/educador relativamente à aprendizagem, aspectos que irão ter consequências no nível de desempenho escolar cla criança. Para além destas críticas, considera-se que a utilização de classificações pode constituir também um processo de despersonalização das crianças (Bailey, 1998); esta despersonalização é evidente quando nas escolas há referências a determinadas crianças com expressões do tipo: "o mongolóide que está no 3° ano...", ou "no ano passado tivemos um autista integrado", etc. Em sintese, as críticas que vêm sendo desenvolvidas relativamente à abordagem médica prendem-se fundamentalmente com as consequências que teve na criação de estruturas educativas segregadas,nos processos de estigmatização social e escolar decorrentes da categorização e na escassa utilidade desta quando se pretende educar a criança com problemas. Importa, no entanto, assinalar que a evolução havida no âmbito da investigação médica, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, nomeadamente no que diz respeito à caracterização das diversas problemáticas, à definição e clarificação sobre a respectiva etiologia e à definição de formas de prevenção, constituiu e constitui ainda um contributo fundamental e imprescindível para o conheeimento científico e aprofundado das diferenças individuais e para a definição de formas de atendimento que garantam uma efectiva igualdade de oportunidades educacionais. = Para um maior aprofun- damento sobre a importân- cia das expectativas do pro- fessor nos resultados dos alunos ver Sprinthall e Sprinthall (1993) Psicologia Educacional, capítulo 14. 5 1 3 Simeonsson (1994, eit Bairrão, 1998:29) conside- ra que neste grupo se inelu- em, entre outras, as situa- ções de deficiência visual, de deficiência auditiva, o autismo e a defieiência mental grave, as quais de- signa por "problemas de baLva incidência e alta in- tensidade" . Com efeito, no que diz respeito à avaliação de crianças com necessidades educativas especiais decorrentes de problemas com "altas probabilidades de terem uma etiologia biológica, inata ou congénita"3 (Bairrão, 1994: 29) é fu ndamental a intervenção médica no sentido de diagnosticar e detectar os problemas e de definir formas de atendimento precoce e de acompanhamento posterior. Por sua vez, a análise do modelo médico pode constituir urna referência importante relativamente ao processo de avaliação dos alunos com necessidades educativas especiais que actualmente se preconiza na educação especial (Ver quadro 2). Quadro 2 — Elementos do modelo médico, adaptado de Oates (1996) In: Bailey (1998) Elementos constituintes do modelo médico 1. Estudar o problema c uidadosamente para encontrar os factores etiológicos, o que inclui uma boa recolha de dados para entender a epidemiologia do problema; 2. E xperimentação para ajudar a determinar a forma mais eficaz de tratamento; 3. Intervenção, que normalmente implica algum tipo de tratamento ou mudança no estilo de vida; 4. Avaliação rigorosa dos resultados da experimentação e tratamento; 5. Seguimento a longo prazo dos doentes, observando os seus progressos para determinar a eficácia do tratamento e verificar se alguns efeitos colaterais nefastos se desenvolveram. De facto, em termos de educação dos alunos com necessidades educativas especiais é fundamental que os professores sejam capazes de desenvolver processos de avaliação que incluam a definição das competências e das di ficuldades, a pesquisa sobre os factores de ordem pedagógica que podem justificar os problemas, a tomada de decisões sobre a melhor forma de intervir, e a recolha sistemática e regular de informação sobre a eficácia e pertinência da intervenção entretanto reali zada. Por sua vez, tal como na medicina, a abordagem psicológica teve também como preocupação inicial a categorização e c lassificação das crianças que, por razÕes ent -to ainda desconhecidas, não conseguiam ter sucesso na escola. 5 2 De notar que, a introdução da escolaridade obrigatória iniciada no séc. XIX e a consequente massificação do ensino implicaram mudanças sociais e educativas significativas, as quais facilitaram a afirmação progressiva da psicologia enquanto ciência no início do século passado, uma vez que o seu contributo se revelava fundamental na avaliação dos conhecimentos dos alunos, dos níveis de eficácia de processos de ensino, dos níveis de coerência de sistemas educativos, ou seja, do rendimento conseguido após a implementação de determinada política educativa, etc. Sob a influência das perspectivas desenvolvidas nas ciências experimentais, a abordagem psicológica reflecte os pressupostos daquelas ciências, valorizando- -se enquanto objecto de avaliação fundamentalmente dimensões que permitem a quantificação, o tratamento matemático e estatístico, uma vez que apenas este tipo resultados garante um conhecimento objectivo e válido em termos científicos. No que diz respeito aos instrumentos e técnicas de avaliação, são desenvolvidas e utilizadas várias provas objectivas, estandartizadas e normalizadas4 — exames escritos e testes — e escalas de medida de desempenho escolar para avaliar progressos em diferentes áreas disciplinares. A concepção, desenvolvimento e generalização deste tipo de instrumentos de avaliação está necessariamente associada à massificação do ensino já anteriormente referida, a qual exige processos de avaliação mais abrangentes, dado o aumento da população escolar. Em suma, neste contexto, avaliar significa fundamentalmente medir. É este cenário que justifica o interesse verificado no início do séc. XX pelo governo francês em compreender as razões que poderiam justificar o facto de alguns alunos que frequentavam a escolaridade obrigatória não terem sucesso escolar. Assim sendo, a pedido do governo francês, Alfred Binet e Theodore Simon (1905) desenvolveram a primeira Escala Métrica de Medida da Inteligência, que constitui, sem dúvida, um marco histórico, quer na avaliação das crianças ditas diferentes ã , quer nas respostas educativas que consequen- temente se equacionaram. A elaboração desta escala de inteligência mostra a preocupação existente na época em medir com o máximo rigor processos mentais complexos, através de um conjunto de tarefas com um grau de dificuldade crescente. Binet entendia que "ajuizar bem, compreender bem e raciocinar bem são os aspectos essenciais da intéligência. Uma pessoa pode ser atrasada ou se lhe fidtar a capacidade de julgal; mas com bons julgamentos não pode ser nenhuma das duas"(1905, cit in: Sprinthall e Sprinthal1,1993). ' Estes testes são aplicados em períodos previamente estabelecidos, implicam que se considerem rigorosamen- te as normas de aplicação e cotação definidas e permi- tem a quantificação dos re- sultados obtidos (ex: Quo- cientes de desenvolvimen- to, percentis, etc). Os testes de referência a normas têm como objectivo a caracteri- zação da criança não em termos absolutos, mas sim por comparação com os seus pares. 5 Com efeito, a escala de Binet e Simon constituiu a base de posteriores testes de inteligência desenvolvidos nos Estados Unidos da América no âmbito da psicometria por Lewis Terman (1916) da Univer- sidade de Stanford. Após várias edições, urn dos ins- trumentos ainda usado é a Escala de Inteligência de Stanford-Binet. Na cotação do teste, Terman (1916) uson o conceito de Quoci- ente Intelectual — Q.I t(n- dice psicolnétrico introdu- zido pelo psicólogo alemão William Stern em 1913). Actualmente, um dos testes de inteligência mais dos é o Wechsler lntelli- gence Scale for Children, WISC, construído por David Wechsler, que permi- te avaliar erianças com ida- des compreendidas entre os seis e os dezasseis anos. 5 3 Muito embora o conhecimento sobre a natureza dos processos cognitivos e sobre as diversas dimensões que podem constítuir objecto de avaliação da inteligência fosse ainda escasso, importa assinalar a preocupação em caracterizar o desempenho de um indivíduo comparando-o com o de outros, e a posterior seriação e ordenação numa escala onde se definia a Idade Mental do sujeito. O conceito de Idade Mental foi usado por Binet para cotar o teste, determinando, por exemplo, quantas tarefas conseguia realizar correctamente uma criança média de seis anos. A atribuição de uma idade mental interior à idade cronológica acontecia perante crianças que apenas obtinham sucesso num número de tarefas inferior à média das crianças da mesma idade6. A constatação, através da utilízação de escalas de inteligência, de uma idade mental inferior à idade cronológica justificou e fundamentou respostas educa- ti vas segregadas (até meadosdo século passado), uma vez que se entendia que crianças nestas circunstâncias não tinham condições de acompanhar com suces- so o currículo escolar, devendo ser criadas escolas separadas para as educar. De facto, estudos posteriormente desenvolvidos permitiram a avalíação e classificação da deficiêncía mentaF em diferentes tipologias 8 e a definição de prognósticos em termos educativos 9 e comportamentaís em função do grau de deficiência, ou seja, do valor do quociente intelectual lo (QI) revelado pela criança, após a aplicação de testes de inteligência e de escalas de medida do comportamento adaptativo u . Esta avaliação fundamentava as decisões sobre o tipo de ensino considerado adequado face a cada tipologia de deficiênciau No entanto, nos anos 60, a avaliação na educação especial deixou de se centrar na classificação, preocupando-se fundamentalmente com os problemas e ducacionais decorrentes de determinada deficiência ou perturbação do dese nvolvimento, o que, como vimos no primeiro capítulo, decorre da progressiva integração destas crianças no sistema regular de ensino. Procurar identificar em que aspectos determinada deficiência podia afectar a educação da críança constituiu a grande finalidade da avaliação psicológica então desenvolvida. "Os resultados da aplicaçao desta Escala de Medida da bueligencia não eram abso- lutos. tuna vez que se fun- damentavam na comparação do desempenbo de uma de- terminada criança com a inédia das crianças da mes- ma idade, respondendo ao mesmo teste. 1 A deficiência mental refe- re-se ao funeionamento in- telectual geral significativa- mente sub-normal, coexis- tindo paralelamente com défices no comportamento adaptativo e rnamfestando- -se no período de desenvol- vimento (Grossman,1977). ' Níveis de atraso mental ten- do como critério o (Grossman, 1977): deficien- cia mental ligeira (QI entre 50 até 70); deficiência men- tal moderada (QI entre 35 até 55): deficiência mental severa (Q1 entre 20 a te 40) deficiência mental profun- da (f.2I menor ou igual a 25). Grossman associou os ní- veis de atmso mentaI basea- dos em critérios psicome- tricos a níveis que tinham su bjacentes critérios educa- cionais, definindo assim: atraso ligeiro — educáveis do ponto de vista eseolar; atra- so moderado — treináveis; atraso severo — depen- dendes; atraso profundo — situação de vida não autó- noma, precisando de apoio e cuidados constames. o é determinado idmdo a idade mental (1M) pcla idade c ronolágica 1.1(2) mu ltiplieando o resultado por 11)0, ou seja / 1C X 100, sendo que para udda silI p o ctario a inédta do Q1 lem de ser 100. Asstm sendo, ulna criança Coni allOs le idade cronoloa0ca e unia tdade Inental ile etneo, teta uni 1)1 de 5/6 100 su lsaudo-se porianto aba,xo da inddia ,:perada. Esta avaliação valorizava também a medida das diferenças individuaís e implicou a coneepção e aplicação durante várias decadas de inúmeros instrumentos que pretendiam medir outras dimensões do desenvolvimento, nomeadatnente capacidades consideradas fun damentais ao sucesso na aprendizagem (como sejam a identificação auditiva de fonemas, memória auditiva de palavras e frases, coordenação oculo-manual, percepção (le relações espaciais, noção do corpo, l ateralidade, equilíbrio, atenção, estabilidade e mocional, ete). `ma vez que se entende que os problemas na aprendizagem decorrem de urn insuliciente dcsenvol V imento de determinadas capacidades que lhe são ibjacentes, a avaliação tem então como objectivo primordial identilicar defices nessas capacidades e consequentemente procurar a sua remediação' 3 . A avaliação das capacidades da criança em diversas áreas do desenvolvimento pretendia estabelecer hipóteses explicativas das diferenças e dos problemas na aprendizagem, para assim ser possível equacionar programas de treino das capacidades e estratégias de ensino adaptadas às suas características' . Trata- -se de programas simultaneamente de rernediação e de compensação, já que, para além de pretenderem treinar as "áreas fracas" da criança, procuravam igualmente manter e desenvolver as suas "áreas fortes". A relação entre os resultados da avaliação dos processos psicológicos e a consequente definição de estratégias de ensino para crianças com dificuldades na aprendizagem é evidente nos exemplos que seguidamente se apresentam: - perante uma criança com um bom nível de desenvolvimento nas diversas capacidades visuais (memória, sequencialização...) prescreve- -se determinado método de leitura que privilegia a visualização de palavras ou letras; - face a uma criança com dificuldades na escrita e défices a nível do desenvolvimento perceptivo-auditivo (discriminação, identificação, sequencialização e memória), mas com um adequado desenvolvimento perceptivo-visual, entende-se necessário treinar os défices auditivos utilizando as suas capacidades visuais; - a constatação de défices ao nível da linguagem expressiva da criança, nomeadamente ao nível fonológico permite, por um lado, associar estes défices às suas dificuldades na escrita e, por outro, prescrever a intervenção da terapia da fala para resolver défices articulatórios. Assim sendo, a par da avaliação dos processos psicológicos, assistiu-se à proliferação de programas de ensino que pretendiam desenvolver e treinar, entre outras, capacidades relacionadas com as áreas perceptivo-visuais, perceptivo-auditivas, psico-linguísticas, etc. A planificação e intervenção educacional baseava-se, portanto, em constructos psicológicos hipoteticamente subjacentes e facilitadores da aprendizagem, entendendo-se que o treino desses constructos constituía garantia cla superação das dificuldades de aprendizagem da criança. Em síntese, a procura das causas que podem justificar as dificuldades centra- -se, tal como na aborda gem médica, em factores intrínsecos ao indivíduo, presumindo-se que o treino de determinadas capacidades constitui o cerne da sua resolução. " O cotnportamento adap- tativo define-se em termos da cficacia ou grau. segun- do os quais um indivíduo realiza os padrões de inde- pendência pessoal e de res- tionsabilidade social espera- dos para o seu grupo etário e cultural. As áreas de avali- itção consideradas podem ser, por exemplo, a comu- Meação, os cuidados pesso- ais, as aptidões interpessoais em relação à vida familiar e social, o auto-controlo, as aptidões escolares, o ócio. o trabalho, ete. Ajuriaguerra (1970), ten- do como referência cada ní- vel de defieiência mental, classifica o respectivo com- portamento adaptativo, des- crevendo os comportamen- tos passíveis de serem servados em termos de maturação e desenvolvi- mento (0 -5 anos), de apren- dizagem e educação (6 —21 anos) e de adaptação social e profissional (a partir dos 21 anos). São também de referir os estudos de Kirk (1972) nos quais o autor descreve a natureza do com- poltamento face a cada tipo de deficiência mental, defi- nindo fundamentalmente as possibilidades em termos de aprendizagem escolar e de antonomia pessoal e social. A título de exemplo são de referir o "Teste de De- senvolvimento da Percep- ção Visual" de M. Frostig (1903). o ''Illinois Test of Psicholinguistic Abilities de S. Kirk, L. MeCarthy e W. lKiik 11')6) e o "Diagnós- tico das AquisiçOes Perceptivo - Amlitivas", Jdaptado por Vitor ila Fon- (197M. Estes programas educa- nvos inode- H, e tecias ohre dificul- dades de .1prenduagem que descrevem cApaçidades es- peolicas. res cild1) coa- oqueatensentd mdtodw, cdth.dcionais oi remedia- Quer as explicações médicas da deticiência, quer as explicações sobre processos psicológicos hipoteticamente subjacentes à aprendizagem foram alvo de várias críticas, relativas, por um lado, ao uso excessivo de testes, à falta de relação destes com a aprendizagem realizada na sala de aula t5 , ao seu escasso valor preditivo e, por outro lado, ao facto de terem como objectivo final, novamente, a categorizaçãodos alunos, a qual pode ser injustat6. É este contexto que fundamenta o aparecimento nos anos sessenta da abordagem comportamentalista na avaliação e educação da criança diferente. Com efeito, "mais do que qualquer outra perspectiva na educação especial, a influência behaviorista foi grandetnente responsável pela rejeição dos modelos médicos e psicológicos" (B ailey 1998:44). De facto, baseando-se nas teorias de Skinner sobre os aspectos determinantes do comportamento humano, os comportamentalistas entendem que a avaliação da criança deve apenas incidir no que pode ser observável, mensurável e repetível, uma vez que apenas os comportamentos observados são relevantes para a educação e testáveis em termos científicos. A avaliação deve ser objectiva e, consequentemente, centrar-se na observação e medição de comportamentos previamente definidos e clos contextos em que estes ocorrem, não sendo relevante pesquisar as causas dos problemas da criança em hipotéticos processos psicológicos. avaliação tem assim como objectivo fundamental observar e identificar os pré — requisitos subjacentes a determinado comportamento e que poderão não estar clevidamente adquiridos pela criança. Esta identificação fundamenta a tomada de decisão sobre o que importa ensinar, entendendo-se que o treino sistemático dos pré-requisitos é suficiente para uma realização adequada de toda a tarefa. É neste cenário que a análise de tarefas assume particular relevo, uma vez que permite, por um lado, avaliar com precisão qual a sub-tarefa (pré-requisito) que a criança é capaz de realizar e, simul taneamente, indicar qual o compor-tamento que seguidamente se deve ensinar. tivos para tratar os défiees deteetados naquelas capaci- dades. Os modelos de trei- no de capacidades (Ability Training Models) ou mode- los de capacidades específi- cas constituem exemplos desta perspectiva (Reid, 1988). A este respeito são de re- ferir as críticas que subli- nharn a falta de evidências empfricas sobre os efeitos do treino de deterrninadas capacidades na superação efeetiva das difieuldades na aprendizagem (Poplin, 1988). 16 A utilização de testes estandartizados pode ser in- justa face a grupos mino- riMrios uma vez que as re- gras de aplicação e cotação não são representativas da população que está a ser tes- tada. Nessa medida, para avaliar o desempenho da criança em determinada área comportamental é necessário realizar previamente a hierarquização ordenada dos diversos pré-requisitos que lhe estão subjacentes e, seguidamente, observar e registar de forma sistemática os comportamentos manifestados. Tomemos como exemplo a intenção de avaliar a autonomia pessoal de uma criança rel ativamente à tarefa de lavar as mãos. A análise prévia desta tarefa, com vista à avaliação dos comportamentos da criança, pode ser realizada da 1.1inte forma: AUTONOMIA PESSOAL Nome: Data: / / Comportamento a observar: Após indicação verbal a criança é capaz de lavar as mãos. Observador: Instruções: Assinale na respectiva coluna os comportamentos observados. COMPORTAMENTOS , SIM NÃO 1. Dirige-se ao lavabo 2. Abre a torneira 3. Molha as mãos 4. Pega no sabonete 5. Ensaboa as mãos 6. Coloca o sabonete no respectivo lugar 7. Esfrega as mãos 8. Passa as mãos por água 9. Fecha a torneira 10. Seca as mãos na toalha A observação e constatação sistemáticados pré-requisitos aindanão adquiridos pela criança permite ao educador identificar com precisão qual a sub-tarefa que importa ensinar e treinar, com vista à realização bem sucedida e completa do comportamento esperado. Esta abordagem comportamentalista influenciou e continua a influenciar em grande medida as práticas de avaliação e intervenção desenvolvidas naeducação especial. De facto, nas escolas para alunos portadores de deficiências severas e nos grupos com problemas de comportamento implementam-se currículos, constroem-se materiais e desenvolvern-se técnicas de ensino cuja finalidade principal se prende com a modificação de comportarnentos, tendo como base os prineípios do condicionamento operante''. O condieionamento ope- rante prmende aumentar ou diminuir a frequência de determinados comporta- mentos através da manipu- lação das consequencias desses comportamentos (re- forços). Esta aborda gem desenvol- veu-se s obretudo no âmbi- to das difieuldades de ap rendizagem na leitura, na e:;crila e 110 cáleulo, eviden- le ein alunes que revelam utna di,: crepancia significa- tiva entre o nível de (lesen- sol Si men to e ognitivo e o nível de realitaç:io eseolar Relativamente às tecnicas de avaliação, esta abordagem pemlitiu a valorização da construção de instrumentos informais (listas de verificação de comporta- mentos, escalas de graduação e testes referenciados a critérios). Este facto facilitou uma progressiva participação do educador no processo de observação e avaliação da criança, não se limitando a pôr em prática indicações por vezes pouco relacionadas com a sua experiência diária na sala de aula. Por outro lado, o grande impacto que a abordagem comportamentalista teve na intervenção realizada junto de alunos com problemas de comportamento e com deficiências severas na aprendizagem, decorre da possibilidade do educador acompanhar de forma sistemática a evolução da criança, podendo ser, por isso, gratificante em termos profissionais. No entanto, também esta abordagem foi e é alvo de críticas, nomeadarnente as que apontam as limitações educativas dos currículos desenvolvidos, já que apenas incidem em comportamentos observáveis. Dessa forma, algumas dimensões do desenvolvimento da criança são sub-valorizadas OU mesmo esquecidas, uma vez que não são passíveis de ser previarnente operacionalizadas em termos comportamentais (a título de exemplo, são de referir as áreas relativas ao desenvolvimento sócio-emocional, ao desenvolvimento expressivo, à imaginação e à criatividade). Por sua vez, a ênfase dada nesta abordagem ao treino sistemático de comportamentos, descurando, por vezes, a importância da aprendizagem contextualizada, constitui também uma das suas limitações, já que a utilização de comportamentos supostamente aprendidos pelas crianças/ jovens nas situações nas quais são necessários nem sempre acontece, o que significa que aqueles não foram generalizados, ou seja, que não se verifica a manutenção dos comportamentos ao longo do tempo. Como consequência das críticas desenvolvidas surge nos anos 80 uma nova abordagem cognitivo-comportamentalista na avaliação da criança com necessidades educativas especiais". Esta integra os princípios das duas perspectivas antes caracterizadas (a que sublinha a importância de avaliar os processos psicológicos e a que enfatiza a avaliação de comportamentos observávers) e fundamenta-se na investigação desenvolvida sobre o proces- satnento cognitivo da informação, sobre as teorias meta-cognitivas e sobre os princípios do auto-reforço e da auto-regulação do comportanlento. A avaliação centra-se na forma como se realiza o processamento de informação e nos processos meta-cognitivos considerados determninantes para o sucesso académico, uma vez que a preocupação fu ndamental é a integração escolar. Tendo como base as estratégtas de aprendizagem usadas por alunos com sucesso, pretende-se avaliar os comportamentos dos alunos e as estratégias de a o rendizagem que desenvolvem. Nesta abordagem considera-se fundamental avaliar as condições do contexto ensino—aprendizagem, as estratégias cognitivas desenvolvidas pelo aluno, bem como as características que este revela em termos sociais, emocionais e motivacionais, já que se perspectiva a aprendizagem como um processo activo, construtivo, e contextualizado. Re ati vamente às tecnicas e instrumentos usados na avaliação do desetnpenho do aluno face às actividades escolares, privilegiam-se os testes 19 , a análise de tarefas, a observação, os questionários e as entrevistas. Os autores quepreconizam esta abordagem entendem que os processos ou fontes do conhecimento são interactivos, não perspectivando o funcionamento mental como um conjunto de capacidades específicas e independentes. Assim sendo, os problemas na aprendizagem não decorrem de défices físicos ou estruturais, mas sim de falhas ou insuficiências no processamento da informação necessária ao desenvolvimento adequado de estratégias de aprendizagem e, nessa medida, considera-se fundamental a activação e utilização desses processos. Com base nesta abordagem cognitivo-comportamentalista desenvolveram-se práticas de avaliação com preocupações diversas, dadas as diferentes correntes psicológicas que as fundamentam. Com efeito, os autores que preconizam a abordagem comportamentalista preocupam-se em avaliar as estratégias de aprendizagem e as técnicas de estudo usadas pelo aluno; já os que integram a abordagem cognitivista procuram avaliar as estratégias cognitivas (entre as quais são de referir, os estilos de aprendizagem, a motivação, o locus de controlo 20 e a atribuição causaP (los alunos, as suas crenças e atitudes). Em termos de avaliação, a abordagem cognitivo-comportamentalista, para além de procurar combinar a utilização de instrumentos formais (testes normalizados) com instrumentos informais (listas de verificação de comportamentos, escalas de graduação, testes centrados em critérios, entrevistas e questionários), sublinha a importância da participação do educador no processo de avaliação, elaborando e aplicando estes instrumentos face às características individuais de cada criança. Por sua vez, o facto de se valorizarem as crenças e atitudes do aluno perante as diversas situações de ensino/aprendizagem, bem como os aspectos moti- vacionais que lhe subjazem, permite conceber o aluno como sujeíto que participa de forma activa e partícipatíva no pfOCCSSO de avaliação do seu desempenho. Com efeito, as entrevistas e os questionarios sobre as crenças e atitudes que o aluno desenvolve face a determinado conteúdo curricular constituem exemplos Estes testes pretendem ntedir o funcionamento cognitivo do aluno e. em- bora sejam mais sofisticados que os usados anteriormen- te, continuam a ter como intenção medir constructos psicológicos hipotécticos. O locus de controlo refe- re-se à expectativa que o aluno desenvolve sobre a relação entre o seu compor- tamento e os resultados que obtém. Se o aluno acredita que os resultados dependem do seu comportamento, diz- -se que tem um locus de controlo interno; se acredi- ta que dependem de facto- res externos (sorte, dificul- dade da tarefa, critérios ar- bitrários do professor) diz- -se que tem um locus de controlo externo. A atribuição eausal ou cs- tilo atribucional do aluno diz respeito às razões que este turibut ao sucesso/msucesso expertmentado após a rea- Iiiaçao das tarefas, as quais podem ser iluerthc, (falta de capacidade, de estorço pos- soal, de atençao) ou extcr- nas tthliculdatles :1/ar). da sua participação activa no processo de avaliação, facilitando posteriormente a detinição conjunta de contratos pedagógicos sobre as áreas a trabalhar, tendo em vista um melhor desempenho escolar. Em termos educacionais, preconiza-se um currículo comum a todos os alunos e, face àqueles que revelam dificuldades na aprendizagem, pretende-se valorizar e desenvolver de forma progressiva as suas áreas fortes, adaptando os contextos, as estratégias e os materiais de ensino às características individuais. Após a análise das diferentes abordagens que descrevemos sobre a avaliação da criança com necessidades educati vas especiais pensamos que: é evidente a grande influência cla medicina e da psicologia neste domínio, bem como a relação entre as abordagens desenvolvidas e as respostas educativas consideradas adequadas ; a classificação e categorização das diferentes problemáticas constituiu uma das preocupações fundamentais daquelas ciências, o que, nas últimas décadas, tem vindo a ser amplamente criticado em termos educativos; as causas atribuídas aos problemas educativos centraram-se predo- minantemente em factores intrínsecos à criança, com excepção das perspectivas comportamentalistas, nas quais as condições do meio ambiente constituem também factores de relevo; - predominou a utilização de instrumentos formais — testes — cuja aplicação acontece em períodos p ré-estabelecidos, fora dos contextos de vida da criança; os aspectos cognitivos da criança sobrevalorizaram-se em detrimento dos determinantes pedagógicos subjacentes à aprendizagem; a avaliação da criança com problemas tem vindo a servir para legitimar uma determinada ordem social e para sustentar um sistema de ensino inquestionável, o qual, muito embora se pretenda inclusivo, para- doxalmente, continua a afastar da escola aqueles que mais dela precisam; apesar dos actores privilegiados terem sido principalmente os médicos e os psicólogos, a integração na escola e o desenvolvimento de técnicas e instrumentos de avaliação informal no âmbito da educação, faci- litaram a progressiva valorização da participação dos educadores no processo avaliativo; as práticas de avaliação foram i nfluenciadas inevitavelmente pela pred ominância em determinadas épocas de eertas ahordagens, ou seja, 60 por "fenómenos de moda", o que constitui sempre factor limitativo de urna avaliação que se quer compreensiva e abrangente, dadas as problemáticas complexas dos alunos em causa. o conhecimento e a experiência resultantes das diversas abordagens desenvolvidas neste domínio constítui, sem dúvida, um contributo imprescindível para uma compreensão abrangente dos problemas que alguns alunos revelam na aprendizagem,uma vez que se pretende garantir melhores oportunidades educacionais e melhores resultados para esses alunos. Actualmente, a avaliação na educação especial tem como preocupação analisar as consequências em termos educativos das necessidades especiais dos alunos, tendo assim como finalidade a tomada de decisões sobre qual o tipo de educação adequado às suas necessidades. Perspectivada como um processo pelo qual se delimitam, se obtém e se fornecem informações úteis que permitem julgar decisões possíveis (Stuffiebeam,1985), a avaliação implica que se observe e analise a situação presente da criançal jovem tendo como referente a situação ideal, para assim poder definir as acções susceptíveis de a melhorar (Hadji,1994). Em termos de avaliação da criança com necessidades educativas especiais preconiza-se uma abordagem educacional, a qual, para além de integrar o contributo de outros técnicos (médicos, psicólogos, terapeutas...) perspectiva corno fundamental a participação do educador, uma vez que, dada a especificidade das suas funções, constitui sem dúvida o elemento capaz de efectuar uma avaliação contextualizada e diversificada do desempenho da criança nas diversas áreas do desenvolvimento e da aprendizagem. A avaliação é entendida como umn juízo de valor que se efectua relativamente à situação da criança, do qual necessariamente devem resultar indicações para a intervenção pedagógica a desenvolver.Assim sendo, permite a elaboração de um relatório detalhado das competências e dificuldades da criançaljovem, das áreas que importa desenvolver e das estratégias que se consideram mais adequadas. Este relatório deve descrever as necessidades do aluno e permite a elaboração do respectivo programa educacional, o qual constitui a base de uma intervenção conjunta a desenvolver pelos diversos actores envolvidos (educadores, professores, pais, psicólogos, médicos, etc.) Assim, em termos de avaliação educacional resulta evidente a estreita articulação entre intervenção e avaliação, não sendo adequado equacionar estes dois processos como inseparáveis, mas sim como complementares e contínuos. De facto, o educador só poderá avaliar a criança/jovem através de uma intervenção 6 1 pedagógica que tem como intenção últimaconhecer e compreender a problemática da criança, devendo para tal, observar e registar de forma sistemática os seus desempenhos, progressos e atitudes face à aprendizagem. É este processo contínuo de avaliação e intervenção que permite ao educador compreender o aluno com necessidades educativas especiais. Nesse sentido, só trabalhando com a criança com necessidades educativas especiais se poderá compreender verdadeiramente a natureza dos seus problemas. Os objectivos principais da avaliação educacional que actualmente se preconiza são: descrever as características do aluno nas seguintes áreas: curriculares/ educativas, sociaís, emocionais e cognitivas; definir as competências e dificuldades no sentido de identificar e sistematizar as consequentes necessidades educativas; tomar decísões relativamente à intervenção julgada adequada, o que implica a elaboração de um programa educativo; definir tempos e actores privilegiados na avaliação processual e final do programa e elaborar os respectivos instrumentos de registo que permitam ajuizar sobre a sua adequabilidade, pertinêncía e eficácia. Neste contexto, vários autores vêem preconizando uma perspectiva ecológica na avaliação, sublinhando a importância do conjunto de influências do contexto no comportamento e- desempenho da criança (por exemplo, a intluência familiar, social e escolar). Sublinha-se que, para compreender as necessidades educativas de um aluno, é imprescindível ter em consideração a complexidade dos múltiplos contextos que intluenciam o seu comportamento (Pimentel, 1997; Bairrão, 1998; Bailey,1998). Assim sendo, a avaliação procura caracterizar os vários contextos nos quais a criança vive e aprende (familia, escola e outros significativos...), identificar as e xpectativas de pais e professores sobre seu futuro, de forma a analisar a influência destas dimensões na relação que a criança estabelece com os outros (pais, irmãos, professores, e colegas) e no nível de desenvolvimento e de desempenho escolar verificado. Esta perspectiva ecológica supõe a participação conjunta e concertada de equipas pluridisciplinares (médicos, psicólogos, educadores, professores, terapeutas, assistentes sociais, etc,) que desenvolvem todo um processo de recolha de informação sobre os contextos familiar e escolar da criança, sobre a sia situação actual (em termos desenvolvimentais, comportamentais e e scolares) e, se necessário, sobre a sua história pessoal, familiar e escolar. 6? A análise cuidada e compreensiva dos resultados deste processo permite a tomada de decisões relativamente às respostas educativas julgadas pertinentes, sendo importante que todos os profissionais envolvidos tenham consciência das implicações das suas decisões na vida e no futuro da criança. A análise dos resultados da avaliação fundamenta-se em processos de inferência e, nessa medida, importa também sublinhar o carácter relativo das inferências realizadas, uma vez que decorrem do que se considerou objecto de avaliação, do tempo e dos contextos em que esta ocorreu e dos intervenientes e instrumentos privilegiados (Pimente1,1997). Note-se que, relativamente à compreensão das causas ou da natureza dos problemas que a criança/jovem apresenta, a ideia antes veiculada de que apenas após esta formulação era possível e legítima a intervenção, é actualmente, em termos educativos, posta em causa. Aquela ideia tem subjacente o pressuposto de que é possível estabelecer relações causais entre as dificuldades da criança e determinada perspectiva teórica sobre a aprendízagem que fundamenta a tomada de decisão. No entanto, a falta de perspectivas teóricas explicativas de problemáticas complexas, implica, por vezes, que as decisões têm de ser tomadas com alguma incerteza, a qual deve ser perspectivada e entendida de forma responsável pelos profissionais envolvidos na avaliação (Pij1 e Van Den Bos,1998). De facto, as decisões que tomamos após a avaliação da criança/jovem são relativas e a verificação da sua pertinência e adequabílidade só poderá verificar-se após uma intervenção e avaliação contínua. Efectuar a avaliação educacional da criança exige ainda uma estreita articulação e colaboração entre o professor do ensino regular e o professor especializado. Só assim será possível definir em conjunto o que importa mudar, os objectivos a atingir e as estratégias a implementar facilitadoras do processo de ensino/ aprendizagem do aluno. 2.2 Identificação e avaliação — clarificação de conceitos Como vimos no pri meiro capítulo, a identíficação de alunos com necessidades educativas especiais pode constituir um processo difícil para o educador/ professor. Esta situação acontece fundamentalmente perante problemáticas que, por razões diversas, não foram atempadamente identificadas pela família e/ou pelos serviços de saúde pública. =3 No Warnoek Report, ape- sar da introdução do con- ceito de necessidades educativas especiais com a intenção clara de não estig- matizar as crianças mantém- se as categorias • de deficiên- cia uma vez que estas po- dem facilitar quer a recolha de dados, quer a definição dos recursos humanos e materiais que aquelas exi- gem. Esta opinião é parti- lhada por Bairrão (1998) quando refere que a cate-gorização das diversas defi- ciências continua a ser per- tinente em termos científi- cos e epide rniológicos, não d eixando, no entanto, de assinalar a sua inutilidade quando se procura dar res- posta às neeessidades edueativas especiais, ou seja, quando se pretende elabo- rar e implementar progra- Inas educativos. 6 4 " Simeonsson (1994,cit in: Bairrão:29) considera útil a distinção entre problemas de baixa freqüência e alta intensidade versus proble- mas de alta frequência e baixa intensidade. Enquan- to os primeiros têm urna prevalência baixa, e exi- gem, em seu entender, uma articulação e colaboração estreita entre os serviços de saúde, de segurança social e de educação especial, os segundos constituem um grupo de risco em termos escolares com uma dimen- são crescente, o qual extge sobretudo de uma educação diversificada e de qualida- de. De facto, a identificação e avaliação de crianças com problemas de baixa frequência e alta intensidade n deverá ser realizada à partida pelos serviços de saúde e de segurança social. A estes serviços compete efectivamente idenfificar e avaliar as necessidades especiais que poderão decorrer de défices biológicos, inatos ou congénitos e, consequentemente, equacionar processos de intervenção precoce que facilitem a posterior integração escolar (aqui se incluem as situações de deficiência visual, de deficiência auditiva, de deficiência motora, de deficiência mental, de autismo, entre outras)23. Nestes casos, a criança/jovern chega à escola já devidamente identificada e, muito embora seja fundamental uma efectiva articulação entre aquela e os serviços de saúde, de segurança social e de educação especial, a resposta às suas necessidades educativas pode ser conseguida, sempre que existam os recursos humanos e materiais adicionais que se revelem indispensáveis (Bairrão,1998). Já perante crianças com problemas de alta frequência e baixa intensidade a identificação é realizada num primeiro momento pelo educador/professor, uma vez que é, sobretudo, na escola que os problemas se irão manifestar. Com efeito, um número significativo de crianças apenas quando integradas no grupo (pré-escolar ou escolar) manifesta problemas de saúde, de socialização, de comportamento e de aprendizagem, sendo portanto ao educador/professor que compete identificar as necessidades educativas especiais no sentido da escola desencadear processos de avaliação pluridisciplinares que permitam comprovar a legitimidade da identificação realizada e, consequentemente, elaborar planos e programas de intervenção adequados. Emporta, pois, definir o que se entende por identificação e por avaliação de crianças com necessidades educativas especiais,uma vez que estes dois conceitos, porque relacionados, apelam para competências específicas que actualmente são exigidas ao educador/professor. A identificação das necessidades educativas especiais de urna criança constitui a primeira indicação de que poderão existir problemas significativos no desenvolvimento e/ou na aprendizagem, face aos quais o educador não encontra estratégias pedagógicas eficazes. Esta primeira identificação é da responsabilidade do educador/professor do ensino regular. A sua l egitimidade e fundamentação dependem, por um lado, do processo de avaliação desenvolvido e, por outro, do conhecimento que o educador tem sobre o desenvolvimento "normal" e sobre as competências no currículo escolar nas diferentes idades. Com etèito, de forma consciente OU inconseiente, os educadores/professores i dentificam as necessidades edueativas das crianeas eom base em processos de avaliação que têm como referente ou o nível de desenvolvimento esperado em determinada faixa etária ou o nível de realização escolar previsto para dado ano de escolaridade. O excerto de um diário de um professor que a seguir se transcreve, ilustra de forma sobremaneira evidente esta situação, bem como as preocupações e dificuldades que alguns docentes experimentam na identi ficação das necessi- dades educativas dos alunos: "O João continua a preocupar-me porque não consigo que ele avance nas aprendizagens. Ele tem oito anos, dois de escolaridade e ainda não conta até 20, só até 12 e concretizando! Lê e escreve palavras de duas stlabas, mas se alguém lhas silabar Será que é uma criança que precisa de ensino especial?" O educador tem assim um papel determinante na identificação das necessidades educativas especiais dos alunos. A identificação adequada e fundamentada depende não só de competências profissionais relacionadas com a capacidade de desenvolver processos sistemáticos de avaliação dos alunos, mas também de capac idades de análise crítica e reflexiva sobre a prática pedagógica. De facto, a identificação das necessidades educativas especiais, para além de exigir ao educador competências pedagógicas relacionadas com a avaliação das crianças/alunos, exige ainda competências críticas sobre a intervenção pedagógica desenvolvida. É com base nesta primeira identificação realizada pelo educador/professor que a escola poderá desenvolver os mecanismos necessários que garantam a avaliação da criança pelos Serviços de Educação Especial, dependendo esta decisão do consentimento dos respectivos pais. E, uma vez que esta avaliação tem uma grande infiuência na vida da criança deverá ser obrigatoriamente abrangente, compreensiva e fundamentada (Bailey, 1988). A avaliação realizada pela Educação Especial implica, como já referimos anteriormente, a existência de equipas pluridisciplinares capazes de caracterizar de forma ampla e compreensiva, não só o nível de desenvolvimento e de realização da criança, mas também a qualidade dos diversos contextos educativos nos quais aquela se insere, de forma a elaborar planos e programas educativos que respondam às suas necessidades educativas. As equipas pluridisciplinares devem integrar técnicos ligados à saúde, à segurança social e à educação, uma vez que o contributo de todos será fundamental para equacionar as respostas educativas imprescindíveis a uma efectiva integração social e escolar da criança. Assim sendo, a avaliação tem como objectivo fundamental tomar decisões sobre o tipo de educação adequada para o aluno tendo em conta as suas necessidades. A descrição e análise destas necessidades permitem a formulação de juízos de valor e a consequente elaboração de programas educativos. As necessidades educativas da criança constituem assim a base da intervenção conjunta deeducadores, de professores, de pais e de outros técnicos envolvidos na sua educação. 2.3 Identificação de alunos com necessidades educativas especiais — processos e instrumentos Para a identificação de alunos com necessidades educativas especiais julgamos que será fundamental desenvolver, à partida, uma avaliação formativa, uma vez que esta se centra no processo de ensino-aprendizagem durante o seu decurso (Rosales,1992; Valadares e Graça,1998). Com efeito, nesta moda- lidade de avaliação é o processo de ensino/aprendizagem enquanto tal que deve ser considerado, sendo assim clara a necessidade do professor analisar de forma crítica e reflexiva a sua prática pedagógica. E, muito embora essa análise possa ' ser percebida pelo professor como ameaçadora ( Perrenoud,1993), uma vez que lhe exige processos de reflexão e de questionamento sobre a prática pedagógica, entendemos ser imprescindível, no sentido de perceber em que medida as eventuais necessidades educativas especiais decorrem de factores contextuais e pedagógicos ou de factores intrínsecos ao aluno. Assim, numa primeira fase, a identificação das necessidades educativas especiais deve centrar-se na análise que o educador faz sobre a sua prática enquanto profissional. Efectivamente, apenas após esta primeira fase será pertinente equacionar processos de avaliação tendo em atenção os problemas/ dificuldades que a criança revela e que importa identificar. Deste modo, o educador deverá desenvolver processos de auto-avaliação cla intervenção pedagógica que desenvolve junto clo grupo/turma (sobre a planificação, sobre a avaliação contínua dos alunos, sobre as formas de gestão e organização do processo de ensino — aprendizagem, sobre a forma como intetpreta os comportamentos dos alunos...), podendo, para tal; utilizar escalas de graduação e registar eventuais incidentes críticos que surjam na situação pedagógica. A escala de graduação que seguidamente se apresenta poderá constituir um instrumento facilitador do processo de auto-avaliação referido. O educador/professor poderá solicitar aTcolaboração de colegas, a fim de des envolverem processos conjuntos de observação da situação pedwgógica, usando a eseala de graduação apresentada. O confronto dos resultados ESCALA DE GRADUAÇÃO AUTO-AVALIAÇÃO DO PROFESSOR Nome: Data: / / Indicações: Faça um círculo na palavra da escala que melhor descreve o seu comportamento na sala de aula. 1. Avalio o conhecimento prévio dos alunos antes de iniciar uma nova aprendizagem NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 2. Organizo o processo de ensino tendo em conta o conhecimento prévio e os interesses dos alunos NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 3. Selecciono e disponibilizo materiais e recursos adequa- dos para diferentes níveis de aprendizagem e caracte- rísticas dos alunos NUNCA Às VEZES com FREQUÊNCIA 4. Utilizo estratégias de ensino diversificadas(trabalho individual, a pares, .de grupo, debates, apresentações orais, etc.) NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 5. Observo e registo comportamentos dos alunos durante a realização das tarefas NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 6. Avalio oralmente o desempenho dos alunos em actividades individuas e de grupo NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 7. Valorizo não só o desempenho final mas também o esforço e progresso individuais NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 8. Tenho em consideração as propostas dos alunos na planificação das actividades NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 9. Na gestão do tempo e das actividades procuro integrar um espaço que permita a auto e hetero-avaliação dos alunos NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 10. Negoceio e defino com os alunos regras de comportamento na sala de aula NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA I I . Antecipo conjuntamente com os alunos as aprendizagens que irão ser realizadas (diárias e/ou semanais) NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 12. Organizo a sala de aula de modo a facilitar o acesso fácil a diferentes materiais NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÊNCIA 13. Op*anizo o processo de ensino de forma a promover a autonomia dos alunos NUNCA ÀS VEZES COM FREQUÉSCIA 14. Procurocompreender o comportamento dos alunos tendo em conta o contexto em que ocorre (lipo e nível de exigência da tarefa) NUISCA Às V EZES com FREQUÊ,NCIA 67 obtidos através das respectivas observações, facilitará uma caracterização mais objectiva da realidade pedagógica. A análise periódica e sistemática desta auto-avaliação permite ao educador tomar consciência das competências subjacentes à sua prática docente e equacionar formas de melhorar ou modificar aquelas que considera indevidamente desenvolvidas. Por sua vez, o registo de incidentes críticos que ocasionalmente acontecem na situação pedagógica constitui também uma técnica que possibilita a identi- ficação das inferências que o educador realiza perante comportamentos de determinados alunos, perceber em que contextos estes ocorrem e qual é a sua frequência. FICHA DE REGISTO DE INCIDENTES CRÍTICOS* ALUNO ANO TURMA DISCIPLINA SITUAÇÃO COMPORTAMENTO INFERÊNCIAS Este tipo de comportamento é: Frequente O Pouco frequente O Raro O In: Estrcla, 1994. Uma vez que o registo de incidentes críticos permite reduzir a margem de subjectividade que caracteriza a observação ocasional (Estrela,1994), a sua utilização sistemática revela-se fundamental no processo de identificação de alunos com necessidades educativas especiais. De facto, como se pode observar na ficha de registo de incidentes críticos apresentada na página anterior, este instrumento contempla a definição da situação em que o comportamento do aluno ocorreu, a descrição desse comportamento, a forma como este é interpretado e em que medida é percebida a sua frequência, por parte do educador. Esta primeira fase de análise e reflexão sobre a prática pedagógica poderá facilitar a alteração de metodologias de ensino/aprendizagem, a experimentação de processos diferentes de gestão do tempo e das actividades, a utilização de materiais pedagógicos diversificados, o estabelecimento de novas formas de comunicação e de relação pedagógica com o grupo/turma. Estes novos processos terão consequências na dinâmica do grupo/turma, ou seja, na motivação e atitude dos alunos face à aprendizagem, no comportamento que revelam, na forma como interagem com os colegas e com o educador e também nos resultados que obtém em termos de aprendizagem. Neste cenário, a avaliação assume funções que visam a tomada de decisões relativamente à regulação cio processo de ensino aprendizagem, à orientação sobre determinado caminho a seguir e não apenas à certificação das aquisições escolares no final de um ciclo de estudos (Perrenoud, 2001). Constituindo-se então como elemento integrante do processo educativo (Ribeiro,1989; Rosales,1992; Valadares e Graça,1998; Perrenoud,2001) com o qual interage, a avaliação tem como objectivo tomar decisões no sentido de melhorar o processo de ensino-aprendizagem. Nessa medida implica a recolha e interpretação sistemática de informação e a consequente formulação de juízos de valor por parte do educador. Uma vez que a avaliação consiste na análise descritiva e objectiva das aprendizagens realizadas durante o processo de ensino, tem como funções informar quer o professor quer os alunos sobre as competências adquiridas e sobre as dificuldades sentidas. Nessa medida permite ao professor re-orientar o processo de ensino, definindo novas estratégias e experiências que facilitem a aprendizagem, faculta ao aluno informações precisas sobre as competências adquiridas motivando-o para outras que importa desenvolver e, por último, constitui uma base indispensável para a classificação e seriação dos alunos numa dada escala. Esta classificação embora constitua uma forma fácil de comunicação dos resultados obtidos pelos alunos e permita a sua selecção durante a escolaridade, não fornece, no entanto, a informação necessária à adequação e melhoria do processo de ensino/aprendizagem. 69 De facto, já que a avaliação consiste numa "operação descritiva e informativa nos meios que emprega, formativana intenção que lhe preside e independente fàce à classificação" (Ribeiro,1989:74), resulta evidente a distinção entre avaliar e classificar. Por sua vez, enquanto processo sistemático de acompanhamento da evolução do aluno, a avaliação deve ser realizada pelo professor no decurso da própria aula, tendo neste contexto uma função fundamentalmente pedagógica (Valadares e Graça,1998). Neste sentido, numa segunda fase, a identificação das necessidades educativas especiais implica que o educador/professor realize uma avaliação diagnóstica ou prévia. Segundo a1guns autores a avaliação diagnóstica ou prévia faz parte da avaliação formativa, o que vem ao encontro de recentes disposições oficiais sobre avaliação, nomeadamente, o Depacho Normativo n.° 30/2001, no qual se preconiza que " (...) a avaliação formativa inclui uma vertente de diagnóstico tendo em vista a elaboração e adequação do projecto curricular de turma e conduzindo à adopção de estratégias de diferenciação pedagógica." De facto, embora as duas modalidades de avaliação possam ser consideradas de forma distinta, tendo em conta a fase temporal do processo de ensino/ aprendizagern em que ocorrem (Ribeiro, 1989; Rosales, 1992), importa sublinhar que a avaliação diagnóstica se pode realizar quer no início do ano lectivo, quer em qualquer outro momento do processo de ensino-aprendizagem, constituindo-se assim como um elemento da avaliação formativa. Independentemente do tempo em que possa ocorrer, a avaliação diagnóstica ou prévia tem como funções: - verificar se o aluno tem adquiridos os pré-requisitos necessários às novas aprendizagens (Ribeiro,1989); " Sobre a delinição, cons- tftyão e ufflização de dife- rentes tipos de itens, eon- sultar Valadares, J. e Graça, l. (1988). Ahdiando para me/horar a Lisboa: Plitano Edições 'Uenieas. - determinar as características da situação inicial de um determinado processo educativo, aprofundar o conhecimento das causas de deter- minados problemas no sentido de serem tomadas medidas para a sua melhoria, identificar problemas que o aluno apresenta em dado momento do processo (Rosales,1992); - descobrir onde residem as dificuldades dos alunos no decorrer do processo de aprendizagem (Valadares e Graça,1998). lit vez que esta avaliação diagnóstica ou prévia permite ao educador/professor recolher e obter inforrnações sobre uma dada situação inicial de forma a 70 organizar e adequar o processo de ensino-aprendizagem às características do grupo/turma, bem como conhecer as dificuldades ou problemas dos alunos, constítui urna modalidade fundamental quando se pretende identificar as eventuais necessidades educativas especiais. Como antes se assinalou, a avaliação diagnóstica ou prévia que o educador/ professor realiza tem necessariamente um referente, ou seja, um termo de comparação face ao qual se compara o desempenho dos alunos. A este propósito, importa distinguir, dois tipos avaliação que usam referentes diversos: a avaliação normativa e a avaliação criterial. A avaliação normativa parte do princípio de que os alunos naturalmente se distribuem em alunos bons, médios ou maus, de acordo com a Curva Normal ou de Gauss e, nessa medida, os resultados obtidos num mesmo teste por um determinado aluno ou grupo de alunos são comparados face ao grupo-padrão a que pertencem (Ribeiro, 1989; Lemos,1993; Valadares e Graça,1998). Já a avaliação criterial incide no desempenho de um aluno relativamente a determinada aprendizagem ou competência, tendo como referentes os nívéis de consecução previamente definidos, ou seja os critérios de desempenho aceitáveis (Ribeiro, 1989; Valadares e Graça, 1998). A definição de critérios deve realizar-se tendo em linha de conta os objectivos previstos no programa e que foram desenvolvidos durante o processo de ensino- aprendízagem. Assim sendo, resulta evidente a necessidade do professor seleccionar os seus próprios critérios, tendo emlinha de conta o que pretende avaliar, bem como o contexto de ensino—aprendizagem dos seus alunos. Quando equacionada com o propósito de identificar as eventuais necessidades educativas, a avaliação diagnóstica deve permitir caracterizar as diferenças entre os alunos, mas englobando-as numa perspectiva de diversidade, o que significa que deve, sobretudo, fornecer informações sobre estratégias pedagógicas que facilitem a superação dos problemas dos alunos, não se centrando nas suas limitações, nem na sua classificação (Ainscow,1990, cit in: Jesus e Martins,2000). Na identificação de alunos com necessidades educativas especiais será fundamental realizar uma avaliação baseada no currículo, a qual implica que os educadores/professores utilizem os materiais pedagógicos e didácticos da sala de aula para avaliar as competências e os ní‘íeis de desempenho do aluno nas diversas áreas e contextos educativos. Este tipo de avaliação permite, por um lado, avaliar os alunos em contextos onde habitualmente estão inseridos e, por outro, compreender os resultados da avaliação, facilitando assim o eventual processo de adequação/adaptação do currículo às necessidades dos alunos. 71 Esta avaliação deverá ser coerente, ou seja, deve existir uma estreita articulação entre o as estratégias e experiências de aprendizagem desenvolvidas na sala de aula, osconteúdos que se avaliam e os instrumentos que se utilizam para tal. A observação e o registo dos comportamentos revelados pelo grupo/turma e pelo aluno que à partida preocupa o educador permitir-lhe-á decidir se deve desenvolver processos de avaliação sistemáticos, no sentido de compreender de forma mais aprofundada as dificuldades que aquele revela em termos de comportamento e/ou de aprendizagem. A propósito do desenvolvimento de processos de avaliação sistemáticos centrados no aluno importa ter consciência de factores circunstanciais, profis- sionais e psicológicos que o podem influenciar. Nos factores circunstanciais incluem-se as áreas/conteúdos que o educador avalia, os referentes face aos quais compara o desempenho da criança, o tempo e o espaço que privilegia para a avaliar, as fontes de informação que elege, as técnicas e instrumentos que usa e a forma como regista e analisa os resultados. De facto, todos estes factores são determinantes para uma avaliação válida e fiável. Relativamente aos factores protissionais que podem influenciar os resultados da avaliação, são de referir: as atitudes que o educador tem face às diferenças individuais, os valores educativos que fundamentam a sua prática proflssional, a concepção que tem sobre o que "é um bom aluno" e as crenças que desenvolve face à aprendizagem de todos e cada um dos alunos. No que diz respeito aos factores psicológicos que podem influenciar a observação e a avaliação da criança, são de referir: a) Efeito de Halo — manifesta-se na tendência para ser influenciado pela impressão geral acerca de um indivíduo, situação ou actividade. Este efeito é particularmente relevante face determinadas problemáticas de alunos com necessidades especiais, podendo conduzir a processos avaliativos à partida pouco válidos; b) Efeito de Rosenthal ou Pigmaleão — efeito evidente quando perante informações prévias que são fornecidas ao professor, este desenvolve expectativas sobre a criança, podendo estas influenciar a forma como a avalia, ou seja, as áreas de avaliação que privilegia, os referentes que define como aceitáveis, levando a . uma avaliação restrita e não abrangente do desempenho da\criança; c) Efeito de Hawthorne — o facto das crianças se sentirem objecto de avaliação/observação pode influenciar os resultados positivos ou negativos obtidos, o que vem acentuar a importância da avaliação ser 72 perspectivada como um processo contínuo de intervenção, anterior- mente assinalada. Para o desenvolvimento de processos de avaliação centrados no aluno é necessário que, à partida, o educador decida e defina: o que pretende avaliar, que instrumentos vai usar no sentido de obter a informação pretendida e quais vão ser os referentes (termos de comparação) que vai usar para fundamentar os juízos de valor que formulará sobre o nível de desenvolvimento e de aprendizagem, ou seja, para legitimar os resultados obtidos. Nessa medida, o educador deverá planificar o processo de avaliação, definindo quais as áreas curriculares que pretende avaliar, identificando nestas os itens' que serão objecto de observação. Em função desta primeira decisão, resulta necessário construir e seleccionar os instrumentos de avaliação tendo em conta o currículo desenvolvido na sala de aula, bem como as características dos alunos. Isto significa que o educador deverá conceber e usar instrumentos que lhe permitam a observação dos alunos, o registo dos seus comportamentos, a avaliação das suas competências. A avaliação com vista à identificação das necessidades educativas deve recorrer a vários tipos de instrumentos, de forma a ser possível uma ampla recolha de informação sobre os desempenhos, comportamentos e competências do aluno nos diversos contextos de ensino aprendizagem em que está inserido. A escolha dos instrumentos de avaliação está directamente relacionada com o tipo de avaliação formal ou informal que se pretende realizar. Assim, a avaliação informal permite avaliar interacções, hábitos e comportamentos e baseia-se fundamentalmente na observação do aluno, não tendo este a noção de que está a ser avaliado. Por sua vez, a avaliação formal permite ao professor avaliar o processo e o produto final, sabendo o aluno que está a ser avaliado, uma vez que os momentos e os instrumentos de avaliação são previamente estabelecidos. Entendemos pertinente o desenvolvimento de processos que combinem os dois tipos de avaliação antes referidos, sendo, para tanto, necessária a concepção por parte do professor de instrumentos facilitadores da observação e verificação dos desempenhos, dos comportamentos e das aprendizagens dos alunos. A utilização destes instrumentos na avaliação revela-se pertinente em termos educativos, urna vez que, são construídos em função de um determinado grupo e/ou aluno, fornecem informação sobre o processo de ensino/aprendizagem, os resultados que se obtém são expressos em termos educacionais e, assirn sendo, facilitam a adequação do currículo às características dos alunos. Relativamente aos vários tipos de instrumentos que o professor pode conceber de forma a desenvolver o processo de identificação de alunos com necessidades Sobre a d finição, cons- trução e util zação de dife- rentes tipos de itens, con- sultar Vala ares e Graça (1988). diando para melhorar a prendizagem. Lisboa: PL tano Edições Técnicas. 73 educativas especiais, são de referir, entre outros: as listas de verificação, as escalas de graduação, os questionários, as entrevistas, os testes de referência a critérios, os testes de referência à norma e as grelhas de análise dos produtos do aluno. Quando o educador decide observar o aluno com vista à recolha de informação facilitadora da avaliação, deve definir com rigor o que pretende observar, quando e onde vai realizar tal observação e que processos de registo vai usar, ou seja, que instrumentos são imprescindíveis nessa avaliação. Com efeito, a observação constitui uma estratégia facilitadora da avaliação do desenvolvimento ou do desempenho do aluno face às diversas actividades escolares. A observação directa dos comportamentos do aluno deve ser realizada em diferentes situações de ensino/aprendizagem e em períodos de tempo diversificados. Para tal, as listas de verificação de comportamentos constituem instrumentos facilitadores da recolha sistemática ou ocasional de informação sobre o aluno, relativamente à presença ou ausência de comportamentos específicos ou de resultados da aprendizagem. As vantagens decorrentes da utilização de listas de verificação na avaliação prendem-se como facto de permifirem ao educador avaliar quer o processo de aprendizagem (uso ocasional) quer o produto (uso sistemático), objectivar a observação, acompanhar regularmente a aprendizagem, possibilitando ainda ao próprio aluno a verificação dos seus progressos (Valadares e Graça,1998). Para a construção destas listas de verificação é necessário listar comportamentos ou características importantes relacionados com a área a avaliar (avaliação do produto), incluindo aqueles que são mais habituais (avaliação do processo), embora possam ser considerados incorrectos. A listagem de comportamentos não deve ser demasiado extensa e cada um dos itens deve focar apenas um comportamento ou característica (Valadares e Graça, 1998). Seguidarnente apresentam-se três exemplos de listas de verificação elaboradas a fim de avaliar: o comportamento global da criança, alguns comportamentos emergentes de leitura e competências na área da matemática. COMPORTAMENTO GLOBAL* (Educação Pré-Escolar) Nome: Data: / / Observador: Instruções: Assinale na respectiva coluna os comportamentos da criança. COMPORTAMENTOS SIM NÃO Sorri durante a leitura de uma história Faz comentários positivos acerca da leitura.Como por exemplo: Eu gosto de ler ou Gostei da história. Quando tem que fazer uma tarefa realiza-a em tempo razoável Mostra a outro colega a maneira como se faz qualquer coisa Completa uma tarefa sem pedir ajuda ao educador ou a outros colegas Os colegas escolhem-na como líder numa actividade Cumpre uma tarefa da sua responsabilidade sem ser preciso lembrar-lhe Fala com satisfação sobre as actividades realizadas no recrelo 'Adaptado de Cartwright e Cartwright, 1984. LISTA DE VERIFICAÇÃO — COMPORTAMENTOS EMERGENTES DE LEITURA (Educação Pré-Escolar) Nome: Data: / / Observador: Instruções: Assinale na respectiva coluna os comportamentos do aluno. COMPORTAMENTOS SIM NÃO Ouve histórias curtas sem interromper Pega correctamente no livro Sabe virar as folhas Observa as figuras de um livro do princípio ao fim Olha para as palavras escritas da esquerda para a direita Pede ao educador/professor que lhe leia um livro Completa uma história inacabada Diz a ideia principal de uma história que ouviu Repete rimas ou lenga-lengas que ouviu muitas vezes Dita ao educador/prolessor 3 ou 4 frases de uma história que inventou Ilustra adequadamente as suas histórias 'Adaptado de Cartwright c Cartwright, 1984. 75 LISTA DE VERIFICAÇÃO DE MATEMÁTICA (I" ciclo) Nome: Data: / / Observador: Instruções: Assinale na respectiva coluna os comportamentos do aluno. COMPORTAMENTOS SIM 1 NÃO Compara objectos e mostra o maior e o menor Ordena objectos por ordem crescente Conta até 10 sem errar Aponta um conjunto vazio Faz agrupamentos de objectos de 1 a 5 Faz correspondência de objectos 1 a 1 Identifica formas geométricas: círculo, quadrado, rectângulo e triângulo Reconhece euros e cêntimos Conta de 2 em 2 até 50 Conta para trás a partir do I O * Adaptado de Cartwright e Cartwright, 1984. " Sobre a construção de di- ferentes tipos de esealas, consultar Valadares,J. e Gra- ça, M. (1988). Avoliondo para melhorar Lisboa: Plátano Edi- Oes Táenicas, Para além da verificação da presença ou ausência de comportamentos, em muitas situações de ensino-aprendizagem é necessário avaliar a frequência em que se manifestam determinadas características ou comportamentos do aluno, usando-se, para tal, escalas de graduação. Estas permitem ao educador avaliar características importantes que os alunos devem manifestar durante a realização das tarefas escolares (em situação individual ou de grupo) e nos seus produtos. Para construir uma escala de graduação, é necessário listar características ou co mportamentos considerados importantes na área a avaliar, incluindo aqueles que são considerados mais vulgares, embora inadequados, e definir uma escala de graduação para avaliar cada aspecto ( Valadares e Graça, 1998). Há diferentes tipos de escalas de graduação: numéricas, deseritivas ou nominais e nurnérie o-deseritivas. Compete ao educador decidir qual o tipo de escala mai.s adequada às earacterísticas que pretende avaliar, sendo sempre conve- niente definir os pontos extremos e o ponto médio da escala". 76 As vantagens da utilização de escalas de graduação prendem-se com o facto de permitirem avaliar competências menos objectivas (como por exemplo objectívos da área afectiva), facilitarem a formulação mais objectiva de juízos de valor e, por último, proporcionarem a observação contínua dos progressos dos alunos. A seguinte escala de graduação descritiva permite ao educador avaliar o comportamento do aluno durante a realização de um trabalho de grupo. ESCALA DE GRADUAÇÃO TRABALHO DE GRUPO Nome: Data: / / Observador: Descrição da actividade: 1. O aluno gosta de trabalhar em grupo. NUNCA C/FREQUÊNCIA SEMPRE N/O 2. Mostra interesse nas actividades a realizar NUNCA C/FREQUÊNCIA SEMPRE N/O 3. Participa na planificação e distri- buição de tarefas NUNCA C/FREQUÊNCIA SEMPRE N/O 4. Incentiva os colegas a participarem no trabalho de grupo NUNCA C/FREQUÊNCIA SEMPRE N/O 5. Tem comportamentos que perturbam o bom funcionamento do grupo NUNCA C/FREQUÊNCIA SEMPRE N/O 6. Contribui com ideias durante o trabalho de grupo NUNCA C/FREQUÊNCIA SEMPRE N/O 7. Pesquisa e fornece materiais para o trabalho de grupo NUNCA C/FREQUÊNCIA SEMPRE N/0 5. Auto-avalia o seu desempenho NUNCA C/FREQUÊNCIA SEMPRE NIO 9. Aceita as avaliações dos colegas (críticas ou sugestões) NUNCA C/FREQUÊNCIA SEMPRE N/O 'Adaptado de Cartwright e Cartwright, 1984. Por sua vez, quando se pretende avaliar as preferências dos alunos face às diversas actividades realizadas na sala de aula, poder-se-á aplicar de forma sistemática uma escala de avaliação descritiva semelhante à da página seguinte. 77 • Não gostei Gostei pouco Gostei muito ESCALA DE AUTO-AVALIAÇÃO Nome: Data: / / Indicações: Regista cada tarefa feita e assinala com uma cruz se gostaste muito, pouco, ou se não gostaste de a fazer. Com esta escala é possível implicar o aluno no processo de avaliação, facilitando a posterior reflexão sobre as razões que podem justificar as suas preferências, e d esenvolver estratégias que motivem o aluno para actividades consideradas importantes no seu percurso educatívo. Por sua vez, as entrevistas e os questionários, constituindo formas de obser-vação indirecta utilizam-se quando o educador pretende avaliar atitudes, percepções, sentimentos, expectativas e crenças dos alunos. Este tipo de i nstrumentos permite obter informação personalizada sobre as opiniões dos alunos relativamente a aspectos que o educador entende pertinente conhecer, para uma melhor compreensão das suas caracterísiticas e compor-tamentos. A realização de entrevistas implica que o educador previamente defina com clareza qual a i nformação que pretende obter e que escolha a forma de abordad questionar o aluno, uma vez que o tipo de linguagem usado, a sequência das questões e o seu co mportatnento não verbal são factores cruciais para a obtenção de i nformação fiável. Hab itualmente as entrevistas são realizadas a um número restrito de alunos, em situação individual ou de pequeno grupo, podendo ser directivas ou semi- directivas, consoante o tipo de informação que se pretende obter. Embora as 78 entrevistas possam ser efectuadas na sala de aula, permitindo assim uma avaliação contextualizada das opiniões dos alunos, a sua utilização por parte dos professores é ainda escassa dadas as exigências inerentes à sua utilização (em termos de concepção das questões e, posteriormente, relativamente ao tratamento da informação recolhida, o qual exige processos de análise de conteúdo e de síntese). Já a utilização de questionários permite a recolha de informações de todos os alunosda turma ao mesmo tempo, proporcionando respostas escritas a questões que o professor entende necessário conhecer melhor (opiniões sobre áreas curriculares onde experimentam mais diticuldades, razões a que atribuem essas dificuldades, estratégias usadas para a sua superação, etc). Com efeito, este tipo de instrumento é particularmente útil na avaliação diagnós- tica já que permite a recolha rápida de informações quer sobre dados pessoais, quer sobre opiniões, atitudes, motivações e expectativas dos alunos face à aprendizagem. Para a sua elaboração é necessário ter em conta as seguintes etapas: definir os objectivos (o que se pretende conhecer); definir os temas das diferentes questões; - identificar a população e seleccionar a amostra; - elaborar e posteriormente testar as questões; - elaborar as instruções de aplicação; - redigir a versão definitiva e seguidamente aplicar o questionário. No entanto, estes instrumentos são escassamente utilizados pelos professores, uma vez que a sua concepção é morosa, sobretudo no que diz respeito à elabo- ração e testagem dos itens. Uma das limitações decorrente da utilização de questionários prende-se, como é sabido, com a dificuldade de controlar a autenticidade das respostas, podendo estas corresponder não a opiniões autenticas dos alunos, mas àquelas que julgam ser as expectativas do professor. Por sua vez, quando os questionários implicam apenas respostas fechadas a informação que se obtém pode ser superficial, não permitindo assim uma compreensão aprofundada das opiniões dos alunos. Estas limitações podem, no entanto, contornar-se integrando no questionário algumas questões abertas ou, então, utilizando posteriormente outros instrumen- tos (por exemplo, entrevistas) que permitam a compreensão das respostas obtidas. 71) Os questionários que seguidamente se apresentam pretendem avaliar as opiniões que o aluno tem sobre a importância da aprendizagem da leitura e da escrita e as razões que entende contribuírem para a realização com sucesso ou insucesso das tarefas escolares que realiza. QUESTIONÁRIO Data: Indicações: Assinala com uma cruz (X) se concordas ou discordas com as seguintes afirmações Concordo 1 Discordo 1. O que gosto mais de fazer é jogar à bola e ver televisão. 2. É importante saber ler e escrever para saber as notícias das revistas e dos jornais. 3. Gosto de todos os meus colegas da escola. 4. No recreio gosto de jogar à bola com os meus amigos. 5. Ler não me serve para nada, só me aborrece. 6. Gosto mais de escrever no computador porque sei quando a palavra está mal escrita. 7. Gosto de ir ao cínerna com os meus amigos. 8. Quando não consigo ler fico irritado e desisto. 9. Os livros da escola não são giros. 10. Escrever um texto é muito diffcil. Nome: o QUESTIONÁRIO DE AUTO-AVALIAÇÃO Nome: Data: Tarefa realizada: Indicações: Acabaste de realizar uma tarefa! Agora vais assinalar com uma cruz (X) as afirmações que achas que são verdadeiras (V) ou falsas (F). O trabalho que fiz está bem porque... V F I. Estive com muita atenção à explicação do professor. 2. O trabalho era fácil. 3. Estou em dia de sorte e saí-me bem. 4. Tentei várias vezes até conseguir fazer o meu melhor. O trabalho que fiz está mal porque... V F I. Era muito difícil. 2. Nunca sou capaz de fazer estes trabalhos. 3. Não me esforcei o suficiente para fazer bem. 4. Hoje estou com azar e tudo o que faço corre mal. A aplicação deste tipo de instrumentos em diferentes momentos permite ao professor avaliar as opiniões do aluno e assim identificar algumas das razões que podem estar associadas aos seus comportamentos e desempenhos escolares. Esta compreensão facilitará a adequação de estratégias e de materiais de ensino às características do aluno. Por sua vez, para a avaliação do aluno é necessário que o professor construa e utilize testes de referência a critérios e testes de referência à norma. Estes dois tipos de testes permitem avaliar em que medida os objectivos de determinada área curricular foram atingidos, no entanto a sua utilização permite ao professor interpretar os resultados obtidos pelos alunos de forma diferente. Com efeito, quando utiliza testes de referência a critérios, o professor define previamente os critérios de desempenho aceitávéis, ou critérios mínimos de exigência face aos quais compara a performance de cada aluno. 81 A título de exemplo, um professor pretende avaliar se os alunos são capazes de identificar o grupo nominal e o grupo verbal em diferentes frases. Para tal, constrót um conjunto de vinte frases e solicita aos alunos que sublinhem os respectivos grupos com diferentes cores. Define como critério de desempenho aceitável o facto dos alunos acertarem 18 das 20 frases apresentadas. Quando analisa os resultados e perante os alunos que não atingiram esse nível de realização, o professor deverá procurar compreender as razões que justificam tal situação e implementar estratégias e actividades no sentido desses alunos adquirirem a competência pretendida. Assim sendo, resulta claro que os testes de referência a crítérios permitem verificar a consecução de cada aluno perante objectivos de determinada área curricular, o que significa que o professor formula juízos de valor sobre a forma como cada aluno aprendeu determinado conteúdo e em que grau adquiriu dada competência. Já os testes de referência à norma permitem ao professor discriminar e comparar os alunos entre si relativamente ao nível de realização global do grupo (a norma é, neste caso, constituída pelo conjunto de notas obtidas pelos alunos de dada turma). julgamos que na identificação das eventuais necessidades educativas será funda- mental a utilização dos dois tipos de teste (de referência a critérios e de referência à norma), uma vez que permítem por um lado, descrever a performance de dado aluno perante determinados objectivos e, por outro, compará-lo com os seus pares. Note-se, no entanto que, a utilização exclusiva de testes de referência à norma pode conduzir a uma interpretação equívoca dos resultados. Por exemplo, um aluno médio, numa turma de excelentes alunos, pode ser avaliado, por compa- ração com os seus pares, de forma mais negativa, o que não aconteceria se estivesse incluído numa turma constituída por alunos médios ou com um nível de desempenho inferior ao seu. Por último, entendemos que a utilização de grelhas de registo de produtos do aluno constitui uma estratégia facilitadora cla avaliação de determinadas áreas c urriculares, nas quais surgem frequentemente dificuldades. Este i nstrumento permite não só verificar as respostas correctas e incorrectas do aluno perante determinado conteúdo curricular, mas também identificar o tipo de erros e analisar a sua frequência e persistência. Nessa medida, o educador deverá recolher um conjunto de trabalhos realizados (no mínimo referentes a cinco tarefas semelhantes) e analisá-los, no sentido de i dentificar de forma precisa as eventuais dificuldades do aluno. Seguidarnente ap resenta-se uma grelha que poderá faci litar o registo do tipo de erros na eserita e a posterior análise da sua frequência (nas situações de cópia, ditado e composição). GRELHA DE REGISTO-TIPO E FREQUÊNCIA DE ERROS NA ESCRITA Nome: Data: / / ,Ano de escolaridade: Idade: 'ripo de erro Cópia Ditado Composição Frequência Trocas entre grafemas de forma simétrica (b/d; q/p; u/n). Trocas entre grafemas de traçado semelhante (m/n). Trocas entre fonemas surdos e sonoros (f/v; tid; p/b). Inversões de grafemas em sílabas simples (al/la). Inversões de grafemas em sfiabas complexas (par/pra; pal/pla). Inversões de sílabas (patoll/palito) Adições de grafemas (andare/andar) Não segmentação das palavras na frase (euvouarua/ eu vou à rua) Desconhecimento das regras de trans- crição da língua (s, ss, ç, z...) A análise de produtos do alunopode permitir a identificação do tipo de erros mais comuns e a respectiva frequência face às diferentes situações de escrita. Entendemos que a compreensão por parte do professor do tipo de erros e da sua frequência poderá fornecer-lhe indicações úteis sobre as dificuldades do aluno, no sentido de equacionar estratégias de ensino facilitadoras da sua superação. Note-se que este instrumento, tal como os que anteriormente se apresentaram, constitui apenas um exemplo, havendo necessariamente situações que exigirão a definição de outros itens (tipos de erro) aqui não contemplados. Todas as técnicas e instrumentos de avaliação que antes apresentamos devem ser utilizadas de forma complementar e tendo em conta o nível etário e escolar do aluno, uma vez que só dessa forma será possível garantir uma análise fiável dos resultados da avaliação. Após o processo de avaliação do aluno e perante situações nas quais o educador não se sente capaz de intervir de forma a resolver adequadamente as suas dificuldades, será necessário realizar um relatório que fundamente a sua identificação, o qual, como antes referimos, após consentimento dos pais, justificará uma avaliação pluridisciplinar a efectuar pelos Serviços de Educação Especial. Este relatório de avaliação deve começar por referir as áreas curriculares avaliadas, os instrumentos usados para tal, o tempo em que o processo de avaliação se desenrolou e os referentes que fundamentaram a análise dos resultados; seguidamente, deverá descrever o desempenho do aluno nas áreas curriculares avaliadas, os comportamentos manifestados durante o processo avaliativo e sintetizar os desempenhos e comportamentos que são percebidos pelo professor como preocupantes, exigindo, por isso, a intervenção e avaliação da Educ ação Especial. Actividades 1. Indique se as afirmações seguintes são verdadeiras ou falsas e justifique a sua resposta, dando exemplos. V - F a) As causas atribuídas aos problemas educativos centraram-se predominantemente em factores intrínsecos à criança. b) Os comportamentalistas entendem que a avaliação deve incidir nos comportamentos observáveis. c) A abordagem cognitivo-comportamentalista procura combinar a utilização de instrumentos formais e informais de avaliação. d) Apenas após a análise das causas ou da natureza dos problemas é legítima e possível a intervenção educativa. 2. Refira o tipo de problemas da criança/jovem que: a) normalmente, foi já identificado e avaliado pelos serviços da saúde quando esta entra na escola; b) pode justificar a necessidade do educador ou professor do ensino regular desenvolver processos de identificação e avaliação. 3. Suponba que tem no grupo uma criança que parece revelar problemas a nível da escrita. a) Refira os processos que deve desenvolver no sentido da identificação dos problemas. b) Construa uma lista de verificação que lhe permita avaliar os compor- tamentos nessa área. 3. Currículo e Necessidades Educativas Especiais Objectivos gerais do capítulo • Enquadrar as perspectivas actuais sobre flexibilidade curricular e diferenciação pedagógica; • Dar a conhecer processos de organização e desenvolvimento curricular adequados às necessidades educativas especiais; • Promover a reflexão sobre processos e práticas de organização e gestão do ensino em grupos inclusivos. Conhecimentos, capacidades e atitudes a desenvolver No final deste capítulo, o formando deverá ser capaz de: • Distinguir currículo fechado e currículo aberto; • Relacionar flexibilidade curricular e diferenciação pedagógica; • Caracterizar o trabalho cooperativo como estratégia de ensino; • Identificar processos de organização diferenciada na sala de aula; • Distinguir diferentes níveis de adaptações curriculares individualizadas; • Identificar os princípios para a elaboração dos currículos especiais; • Analisar a sua prática na resposta às diferenças entre os alunos na sala de aula. Temas a desenvolver I. Flexibilidade curricular 2. Processos de diferenciação pedagógica 3. Adaptações curriculares individualizadas 4. Currículos especiais 8() 3. 1 Flexibilidade curricular "O mesmo aluno, perante duas respostas escolares diferentes, apresentará um grau de especificidade diferente nas suas necessidades educativas, uma vez que, quanto mais segregadora, fechada e Milexível for a resposta considerada, maior necessidade teremos de recorrer à atribuição de meios suplemen- tares e a planos curriculares divergentes do normal." Manjón, Gil e Garrido, 1997 Para ser devidamente compreendida, a noção de flexibilidade curricular, recentemente introduzida no sistema educativo português, deve ser enquadrada num quadro de referências mais amplo, no qual se salienta, em primeiro lugar, a própria noção de currículo. Currículo pode ser entendido, numa acepção restrita, como um plano estruturado de ensino/aprendizagem, englobando a proposta de objectivos, conteúdos e processos para alcançar esses objectivos. Nesta acepção, currículo é facilmente confundido com programa e foi esta a definição vigente durante muito tempo e aquela que ainda hoje caracteriza a perspectiva de muitos professores. Pelo contrário, numa acepção ampla, currículo é o conjunto de acções levadas a efeito pela escola para desenvolver a aprendizagem dos alunos, englobando, assim, o conjunto de experiências programadas pela escola (dentro ou fora dela) e o conjunto de experiências efectivamente vivenciadas pelos alunos, sob orientação da mesma. Nesta acepção prevalecem duas dimensões: aquilo que se pretende que o aluno atinja (intenções, objectivos) e que se irá exprimir em resultados efectivos e aquilo que o aluno experiência no percurso que faz para chegar aos resultados pretendidos (interacções, processos, actividades). Durante muito tempo, o modelo curricular tradicional que prevaleceu em Portugal pressupunha a acepção restrita, confundindo-se com programa. Para tal contribuiu também a tradicional centralização do sistema educativo português(característica de quase todos os países de influência latina até há bem poucas décadas), a qual implicava a existência de um programa oficial nacional, organizalo em ciclos e anos de escolaridade e obrigatório para todos os alunos que a frequentassem. Concebido a nível central, de forma detalhada e rígida, por técnicos da educação, o programa era depois aplicado pelos professores, independentemente dos contextos reais em que as suas praticas se desenvolvessem. Este tipo de concepção e organização correspondia a um currículo fechado, urna vez que a margem de autonomia do professor era mínima e dizia respeito apenas à forma de concretização das actividades de aprendizagem; estas, por sua vez, pautavam-se, em grande parte dos casos, pelos manuais, pelo que nem essa margem de autonomia era realmente assumida pelos professores, nas salas de aula. Pensado para um público relativamente homogéneo, este tipo de currículo foi progressivamente mostrando a sua ineficácia a nível dos resultados e a nível dos processos. De facto, a heterogeneidade da sociedade actual começou a fazer-se sentir cada vez mais dentro dos estabelecimentos escolares, nomeadamente quando se deu o alargamento da escolaridade obrigatória, quer a nível vertical (do 4° para o 6° ano e posteriormente para o 9°), quer a nível horizontal (obrigatoriedade de frequência efectiva de todos os alunos em idade escolar, sem excepção, como vimos no primeiro capítulo). Esta população veio pôr em causa a coerência interna de um currículo do tipo fechado e de um modelo curricular centrado nos resultados, mostrando um desajuste acentuado entre os objectivos que se pretendia alcançar e os objectivos efectivamente alcançados e, em consequência, um elevado número de alunos com insucesso escolar. Com efeito, a população que, entretanto, começou a encher as escolas básicas evidenciava características muito diferentes doaluno-padrão que, até aí, a escola estava habituada a atender. Crianças com experiências familiares, sociais, culturais muito diferentes entravam para a escola com conhecimentos, valores e atitudes tarnbém diversos (e, por vezes, divergentes), obrigando as instituições a rever os processos de socialização e ensino que, até aí, tinham desenvolvido. Percebeu-se, nessa altura, que não seria possível resolver o problema do insucesso escolar pelo recurso à substituição de um processo de ensino por outro: pelo contrário, se os alunos apresentavam diferenças marcantes, era necessário encontrar processos de ensino também eles diferenciados, que se adequassem às necessidades individuais de cada aluno. De forma paradoxal, a massificação do ensino originada pela escolaridade obrigatória veio evidenciar a individualidade dos percursos educativos e obrigar a escola a diferenciar os processos de ensino. Se foram os professores e as escolas a mostrar que era impossível con tinuar a ensinar todos os alunos clo mesmo modo, a literatura especializada, por um lado, e as experiências desenvolvidas noutros países, por outro, vieram confirmar a necessidade de um tipo de currículo diferente e, progressivamente, foram sendo tomadas medidas correspondentes a uma abertura do currículo o ficial. Por currículo aberto entende-se, então, a aplicação flexível de um programa nacional, de modo a que este possa ser adequado aos vários contextos a que se 91 aplica: regionais, institucionais, grupais, individuais. Ao contrário de uma certa imagem difundida na opinião pública, um currículo aberto não implica a indefinição dos níveis de competências a atingir no final de cada ciclo de escolaridade ou a mudança de ciclo sem a aquisição dessas competências. De facto, pressupõe uma definição e delimitação clara das aprendizagens pretendidas para cada ciclo e a flexibilização currícular só é possível num quadro de referências preciso, definido em função das aprendizagens conside- radas socialmente necessárias. Um currículo aberto permite organizar de forma flexível a estrutura e sequen- cialização das aprendizagens, bem como os processos de ensino a desenvolver para atingir essas aprendizagens. Em termos teóricos, trata-se de abandonar o modelo curricular centrado nos resultados e adoptar modelos curriculares centrados no processo e na situação, isto é, com características acentuada- mente contextuais. Assim, a elaboração do currículo configura um conjunto de decisões tomadas quer a nível central, quer a nível das escolas, as quais constroem a sua proposta curricular tendo por base o documento orientador nacional, por umlado, e as características específicas da população que atendem e do contexto em que se inserem, por outro (Pacheco, 1966). Para tal, é necessário que as escolas tenham, pelo menos, algum grau de autonomia. A importância das escolas, enquanto organizações mediadoras entre a administração central e a sala de aula, só recentemente foi reconhecida, quer pelas próprias Ciências da Educação, que passaram a considerá-las como objecto de estudo em si mesmo, quer pelo sistema educativo, através de textos legislativos e de algumas medidas nesse sentido. Em grande parte, o reforço da autonomia das escolas, correspondendo a uma tendência para a descentração dos sistemas educativos tradicionalmente centralizadores, constituiu uma resposta à constatação da falência das grandes reformas, elaboradas a nível da administração central para serem depois aplicadas a nível local, nos estabele- cimentos de ensino. De facto, a complexidade das situações que a população escolar actualmente apresenta veio demonstrar a necessidade de respostas i novadoras e singulares, pensadas específicamente para determinada comu- nidade e não generalizáveis a outros contextos. O estabelecimento de ensino, encarado agora como organização social com características próprias e originais, adquiriu, assim, um novo papel: - na definição de uma política educativa própria (elaborando e imple- mentando os seus próprios projectos educativos); - na decisão e gestão curriculares (desenvolvendo propostas eurriculares de acordo com as necessidades e problemas específicos (le eada r ealidade escolar, tendo como referência a proposta curricular nacional). 99 Assim, enquanto o currículo nacional define as opções e prioridades curriculares, as competências que é necessário que todos os alunos atinjam à saída do sistema de escolaridade e o corpo de aprendizagens referente a essas competências, o projecto curricular de escola define os aspectos curriculares em que esta deve investir, de acordo com as características da população que atende, organizando as competências e conhecimentos a adquirir por todos os alunos desse estabelecimento, o que pressupõe a identificação de áreas disciplinares e de espaços de interacção entre elas. Será a escola, ainda, a identificar as metodologias de ensino que privilegia e a organização das actividades que propõe, tendo em conta os princípios organizadores que constam no currículo nacional. Também ao nível da avaliação, é a escola que deve definir o tipo de instrumentos a usar para a avaliação contínua dos alunos, bem como os processos e instrumentos de avaliação interna da própria escola. O projecto curricular de escola, por sua vez, terá que ser pensado de forma ainda mais específica no que respeita a cada turma. Assim, cabe ao professor (ou grupo de professores consoante o ciclo de ensinc) elaborar um projecto curricular de turma, definindo as prioridades da sua abordagem aos conteúdos de ensino, a organização da sequência de actividades e os materiais de apoio a produzir e operacionalizando os processos de trabalho a utilizar com cada turma, nomeadamente os critérios de diferenciação a adoptar face aos alunos. A organização e gestão do currículo a nível local exige, portanto, um conhe- cimento em profundidade das competências a desenvolver no ciclo que se lecciona, sem o qual não é possível a reorganização e adequação dos vários elementos do currículo. Assim, a nível dos objectivos para cada ciclo, é possível proceder a alterações na estrutura e sequencialidade dos mesmos sem, no entanto, eliminar nenhuma das competências básicas a desenvolver nos alunos. Essa reorganização dos objectivos levará, necessáriamente, a uma selecção e/ou priorização dos conteúdos mais adequados para os atingir. Em relação às estratégias e sequências de actividades, estas inserem-se, em última instância numa metodologia de base definida pelo próprio estabele- cimento de ensino como o conjunto de opções pedagógicas tomadas pelo colectivo, tendo, obviamente, que ser congruente com os objectivos e conteúdos a desenvolver. Mas para além das opções da escola, é ao professor, na sala de aula, que cabe definir os processos pedagógicos e os recursos educativos mais adequados quer aos objectivos e conteúdos a desenvolver, quer às necessidades dos alunos, aspectos que abordaremos mais detalhadamente nos pontos seguintes. Quanto à avaliação, é importante incorporá-la em todo o trabalho lectivo desdc o seu início, como elemento regulador do processo, de modo a que não tenha apenas funções de veriticação de resultados finais, mas também de reorientação 93 dos processos pedagógicos. É a informação fornecida pela avaliação que permite graduar o ensino, ajustando-o a ritmos e estilos de aprendizagem diferentes e a necessidades individuaís. Se as mesmas competências básicas têm que ser adquiridas por todos os alunos, no final de cada ciclo, tal não implica, forçosamente, que os percursos para aí chegar sejam os mesmos e, portanto, que a avaliação contínua se processe da mesma forma e com os mesmos parâmetros. Como afirma Casanova (1999), a atenção à diversidade implica deixa.r de pensar a avaliação como elemento uniformizador dos alunos, pondo em prática modelos de avaliação descritivos que forneçam a todos os implicados no processo educativo — os alunos, os pais,os próprios professores — informações relevantes não apenas em relação às aprendizagens realizadas, mas também às formas de prosseguir para alcançar os objectivos pretendidos. Podemos dizer, assim, que, para além de um novo protagonismo do estabele- cimento de ensino, o currículo aberto e flexível pressupõe ainda um novo papel para o professor, a quem não cabe apenas aplicar as orientações do currículo nacional, mas adequá-las aos alunos, de modo a garantir que as aprendizagens sejam realizadas por todos, ainda que por processos e de modos diferentes. Neste sentido, o professor é, também ele, um agente curricular, e não apenas o executor das decisões centralmente definidas e, na medida em que organiza o processo de ensino/aprendizagem em função da realidade prática, torna-se um mediador entre o currículo nacional e os alunos. Ao professor é assim exigido um maior envolvimento e responsabilização em todo o processo de organização e gestão curriculares. Um dos requisitos essenciais para a elaboração (ou co-elaboração) dos projectos de turma e respectiva implementação é que o professor tenha uma visão longitudinal das competências a adquirir pelos alunos nos vários ciclos de escolaridade, ao invés do conhecimento restrito da matéria a ensinar em determinado ano ou períodolectívo. Por exemplo, um professor que leccione o 1. 0 ano de escolaridade e não tenha uma perspectiva longitudinal sobre as competências a adquirir e desenvolver na escolaridade básica, corre o risco de encarar a aprendizagem do mecanismo de d escodificação do material impresso como um fim em si mesmo e não como um meio para extrair informação do texto escrito. Ora ler é, essencial- mente, um processo de extracção de significado e a fase de aprendizagem da leitura deve ser equacionada em relação à utilização desta como forma de adqu irir novas aprendizagens: aprende-se primeiro a ler para depois poder ler para aprender. Se esta finalidade não for tida em conta, a aprendizagem da leitura torna-se um fim em si mesmo, sem significado para o aluno e de difícil utilização posterior, dando origem a muitos dos casos de iliteracia que ac tualmente existem. Por outras palavras, seja qual for o nível de ensino que um professor lecciona, há que ter em conta a finalidade última das aprendizagens que orienta, sob o risco destas perderem o sentido. Esta visão a longo prazo cio ensino, a que Zabalza (1994:11) chama "uma mentalidade curricular" é essencial para a adequação da proposta curricular nacional ao contexto de uma escola ou turma. Para tal, o professor tem que conhecer, no mínimo, os objectivos de cada ciclo e o perfil de saída da escolaridade básica, de modo a inserir a sua actividade num continuum curricular. Em síntese, a flexibilidade curricular surge como a principal característica de um currículo aberto, permitindo a reorganização cia estrutura e sequencialização das aprendizagens e a definição dos processos de ensino/ aprendizagem e de avaliação contínua de acordo com as características e necessidades das situações concretas, sem deixar de ter em conta um referencial nacional, centralmente definido. Não é demais, no entanto, salientar que a flexibilidade do currículo não implica uma limitação do nível das aprendizagens a realizar e que, pelo contrário, tem como finalidade última garantir que as competências de saída de cada ciclo de escolaridade sejam alcançadas por todos os alunos, ainda que os percursos sejam diferentes. Como afirma Wang (1997:54), "(...) ao tentar-se conseguir a igualdade de oportunidades educativas para assegurar um igual acesso ao currículo normal, a desigualdade é perpetuada de uma forma bem mais subtil. As escolas não conseguem responder à equidade simplesmente através de programas especiais para os alunos. A pratica de compensar as diferenças na aprendizagem através de uma facilitação do sucesso escolar para grupos seleccionados de alunos, introduzindo-se padrões diferenciados, não pode ser aceite como um indicador de equidade educativa." De facto, qualquer que seja o grau dos ajustamentos curriculares a realizar dentro de uma escola ou uma turma, estes serão sempre um meio para atingir os objectivos educativos comuns para determinado ciclo de ensino e nunca um fim em si mesmo. Tomar a flexibilidade curricular como uma finalidade do sistema significaria, na realidade, excluir do sistema educativo — e, nesse sentido, do prosseguimento de estudos e/ou da formação pro fissional — todo um conjunto de alunos a quem não seria exigida a aquisição das competências básicas. Esta ressalva é particularmente relevante no contexto português, em que o conceito nem sempre tem sido bem explicado ou bem aplicado, quer ao nível da opinião pública em geral quer, o que é mais grave, ao nível das próprias práticas pedagógicas. Neste sentido, a flexibilidade curricular não implica, necessariamente, um nivelamento por baixo da qualidade do ensino, o qual não asseguraria o direito 95 efectivo de todos à escolaridade, acentuando, pelo contrário, as diferenças pré-existentes e conduzindo, em última instância, a processos futuros de exclusão social. Há, evidentemente, algumas crianças e jovens que, devido a problemáticas de vária ordem, não podem seguir o currículo comum. Neste caso, porém, não se aplica o conceito de fiexibilidade curricular, mas de curriculo especial, que definiremos mais adiante. Gostaríamos de salientar, no entanto, que o currículo especial é uma excepção, mesmo para os alunos que apresentam necessidades educativas especiais. 3.2 Processos de diferenciação pedagógica A noção de flexibilidade curricular, atrás desenvolvida, está estreitamente ligada ao conceito de diferenciação pedagógica. De facto, a fiexibilização do currículo permite, como vimos, que as escolas definam as suas próprias prioridades e opções face à população que atendem e que os professores organizem as aprendizagens de acordo com as necessidades dos alunos de cada turma — isto é, que as escolas se diferenciem umas das outras e que, para cada turma, se tracem caminhos próprios. A diferenciação implica, portanto, a procura de percursos curriculares diversos para situações que, à partida, são diferentes, de modo a garantir que o nível de saída seja o mesmo. A diferenciação não se aplica apenas às escolas e às turmas, mas também a cada um dos alunos. Para tal, é necessário que se reconheça e aceite a diversidade existente entre os alunos a nível sócio-cultural, a nível de estilos de aprendizagem, a nível de tipo de inteligência e, portanto, a nível de processos de resolução de problemas e de realização das tarefas. O conceito de diversidade envolve uma vasta gama de situações em relação às quais é necessário definir tipos e graus de diferenciação. Assim, podemos distinguir: 96 - a diversidade decorrente da heterogeneidade de qualquer grupo e que corresponde, afinal, a diferentes interesses, capacidades, pré- -disposições; - a diversidade que a própria frequência escolar vai criando, pela acumulação de diferenças nos ritmos de aprendizagem e nos resultados dos alunos; - a diversidade decorrente de problemáticas específicas dos alunos e que dão origem a necessidades educativas especiais. O reconhecimento da diversidade tem como consequência óbvia a constatação de que não é razoável exigir que todos os alunos aprendam da mesma maneira e, portanto, não é aconselhável utilizar um processo único de ensino ou recorrer sempre ao mesmo tipo de actividades. No entanto, o nível e modo de diferencíação para dar resposta às situações atrás apresentadas não poderá, evidentemente, ser o mesmo. Com efeito, entre o primeiro caso apresentado e o último, percorremos o caminho que vaí da diversificação das estratégias de ensino e criação de várias situações de aprendizagem ao desenvolvimento de currículos individuais, com recurso a sistemas específicos de apoio e de dispositivos de ensino próprios. A própria consciencialização dadiversidade dentro de uma turma pode levar ao desenvolvimento de atitudes e práticas que, em lugar de favorecerem a procura das respostas educativas mais adequadas, acentuem as diferenças pré- existentes, nomeadamente reforçando a tendência para a criação de inúmeras sub-categorias formadas a partir de características dos alunos ou dos contextos de que provêm (minorias étnicas, desvantagens sócio-culturais, etc). Levada ao extremo, a multiplicação de categorias e classificações das diferenças produzirira uma proliferação das respostas diferenciadas que tornaria impossível o trabalho de qualquer professor. Como afirma Zabalza (1999:108), " (...) no final, acabaríamos perdendo o sentido comum do termo e convertido a normalidade em diversidade, em vez de fazer o contrário: converter a diversidade em normalidade." Assim, antes de entrarmos nas respostas específicas que correspondem a necessidades educativas especíais, será importante definirmos o que pode ser uma situação de aprendizagem em que, como afirma Zabalza, a diversidade seja normal. Para tal, será necessário garantir algumas condições externas à sala de aula, como o envolvimento de toda a escola num projecto assente na diversidade dos elementos que a frequentam ou o conhecímento dos sistemas de apoio com que cada escola pode contar, em termos humanos, materiais e físicos (os quais não têm forçosamente que ser internos, uma vez que é possível, hoje, criar parcerias com diversas entidades, rentabilizando recursos da comunidade). Estes aspectos serão focados no último capítulo. No que respeita à sala de aula, propriamente dita, a primeira condição para a criação de situações de aprendizagem diferenciadas é que o professor deixe de preparar e orientar aulas para o aluno-padrão imaginário e que organize as estratégias de ensino e as actividades para os alunos que efectivamente é sua responsabilidade ensinar. Em segundo lugar, é necessário ter consciência que diferenciar não significa elaborar 25 projectos curriculares diferentes, nem fornecer aulas individuais a cada um dos 25 alunos de uma turma. De facto, entre os programas de ensino 97 padrão, aplicáveis a todos os alunos, e a individualização total do processo de ensino, existe um vasto leque de alternativas intermédias mais eficazes, que passampela organização do trabalho lectivo, utífização dos recursos disponíveis, gestão dos tempos e espaços de aprendizagem. Diferenciar significa, então, desenvolver estratégias de ensino diversificadas e modelos de organização do trabalho variados, de modo a que cada um dos alunos possa encontrar pontos de referência significativos e vias de acesso próprias para a sua aprendizagern. Em tennos dos modelos da estruturação dos conteúdos e processos de ensino, a diferenciação pedagógica integra-se num modelo centrado no aluno (ou modelo humanista), configurando práticas que se organizam na confluência dos conhecimentos e competências a adquirir com os interesses e motivações dos alunos e as suas interacções com o meio. Tomemos como exemplo a abordagem do "império português no oriente, no séc. XVI", em História. Em vez de abordar directamente o tema através do manual ou da exposição oral, é possível começar por explorar o conhecimento do aluno proveniente de Macau, aprofundar a pesquisa sobre essa região e só depois enquadrar esses conhe- cimentos no esquema geral da ocupação e comércio. As práticas que se inserem neste modelo requerem, da parte do professor, um conhecimento profundo dos objectivos para esse ano/ciclo de escolaridade, de modo a articular e abranger todos os conteúdos, garantindo os resultados a atingir. Este tipo de estrutura favorece ainda o desenvolvimento da autonomia e auto- gestão dos grupos, tendo por base o princípio da actividade como processo prefe- rencial de aprendizagem. Com efeito, a diferenciação pedagógica implica a • eriação de dispositivos de aprendizagem múltiplos, de modo a que o ensino não fique centralizado e totalmente dependente da intervenção directa do professor. "O plano de trabalho semanal, a atribuição de tarefas autocorrectivas e o emprego de softwares interactivos são recursos preciosos. Organizar o espaço em oficinas ou cantos — entre os quais os alunos circulam livremente — é uma outra maneira de encarar as diferenças. Nenluuna delas é, sozinha, uma solução mágica. A diterenciação exige métodos complementares e, portanto, uma forma de inventividade didáctica e organizacional baseada num pensamento arquitectónico e sistémico." (Perrenoud, 2000:58) Para a criação desses dispositivos é necessário todo um trabalho prévio à intervenção propriamente díta, mas essa preparação irá permitir que os alunos possam trabalhar de modo mais autónomo e independente em relação ao professor, por um lado, e mais interactívo e cooperante em relação aos seus pares, por outro. O trabalho cooperativo é urna estratégia de ensino que favorece a participação e interacção dos alunos, através da organização de actividades de aprendizagem em que os alunos trabalham em pequenos grupos com vista à aquisição de objectivos curriculares partilhados. Os alunos são co-responsáveis pela sua propria progressão escolar, bem como pelo desempenho do grupo em que estão inseridos, ao nível da resolução de problemas, aprendizagem de novos conceitos, criação e realização de projectos e produção de documentos; em simultâneo, desenvolvem toda uma prática de papeis e funções sociais que favorece a socialização, a autonomia e a responsabilização. O trabalho cooperativo na sala de aula existe, sob diversos formatos e com objectivos vários, há muito tempo: quando o número de alunos/turmaera muito elevado, por exemplo; ou, pelo contrário, quando o número de alunos/ano era tão baixo que se tornava necessário juntar num mesmo espaço e tempo alunos em diversos níveis de escolaridade. Nessas situações, o ensino directo tornava- se impossível, formando-se então sub-grupos que trabalhavam de forma autónoma, com a orientação e supervisão do professor. Os estudos realizados sobre o uso desta estratégia têm mostrado que ela tem efeitos positiyos quer na aprendizagem dos conteúdos escolares, quer no desenvolvimento da socialização, nomeadamente pela aceitação das diferenças pessoais, culturais e étnicas. Vários estudos indicam que este tipo de trabalho favorece, ainda, uma efectiva mudança de atitude face aos alunos com necessidades educativas especiais. O desenvolvimento da cooperação entre os alunos passa pelo conhecimento de regras necessárias ao bom funcionamento dos grupos e pelo desenvol- vimento de uma cultura de solidariedade, tolerância e reciprocidade. Obriga, por outro lado, a uma estruração das actividades de forma a que estas originem conflitos cognitivos (a partir dos quais a aprendizagem se processa) e que favoreçam a evolução dos conhecimentos. No trabalho cooperativo, os grupos são, geralmente, heterogéneos, uma vez que as diferenças entre os alunos são também factores de aprendizagem. No entanto, embora a diversidade dos alunos que actualmente frequentam a escola tenha obri gado a pôr em causa as formas de trabalho pedagógico baseadas no aluno-padrão, a tendência dos professores para o estabelecimento da homogeneidade continua a evidenciar-se na formação preferencial de grupos deste tipo dentro da turma. A tentativa de classificação das diferenças presente nesta forma de divisão não se integra nos princípios do ensino cooperativo, que pressupõe, pelo contrário, a criação de grupos preferencialmente heterogéneos, nos quais os alunos tenham tarefas diferentes para desempenhar perante um problema a resolver ou urna proposta de trabalho a realizar. 99 Tomemos como exemplo uma turma do 2° ano de escolaridade. Os alunos foram organizados em grupos heterogéneos de quatro elementos para a realização do "bilhete de identidade" dos animais (área de Estudo.do Meio). Este trabalho incluía a selecção dos pontos essenciais a incluh nobilhete (alimentação, revestimento do corpo, modo de deslocação, modo de reprodução, etc) e o seu preenchimento, sendo os animais seleccionados pelo professor e distribuídos pelos grupos, por sorteio. À disposição dos alunos foram colocadas enciclopédias da fauna (infantis), e outros documentos de natureza vária, alguns deles recolhidos pelos alunos, em casa ou na Internet existente na escola. Depois do trabalho realizado, cada grupo apresentou o "bilhete de identidade" dos respectivos animais à turma. O professor foi registanto os dados fornecidos numa tabela de duas entradas, onde ficou resumida a informação obtida e a partir da qual foram extraídas conclusões. Com os bilhetes construídos pelos grupos organizou-se um ficheiro de animais que ficou para consulta, na turma. Este exemplo refere-se a uma única actividade, de curta duração, com objectivos comuns para todos os alunos e um leque restrito de tarefas. No entanto, este tipo de trabalho pode ser planeado a longo prazo, com objectivos, conteúdos e actividades diferentes para cada grupo. Por exemplo, um grupo de alunos do 3. 0 ano foi ver uma peça de teatro. No regresso, depois do debate sobre o que tinham visto, alguns sugeriram a realização, por eles próprios, de uma peça. Com o professor, seleccionaram uma história e as áreas de trabalho necessárias à produção e execução do projecto: texto, representação, música, cenários, figurinos e adereços. Distribuíram-se pelos vários grupos a partir dos seus próprios interesses, tendo o professor sugerido alterações pontuais para uma mais equilibrada distribuição numérica pelos vários grupos, de acordo com as exigências das tarefas. O trabalho foi realizado durante um mês, uma hora por dia, e culminou num espectáculo, antes do qual um elemento de cada grupo contou o que e como fizeram. Por outro lado, é necessário também orientar a distribuição de tarefas dentro do grupo, de modo a que a mesma criança não fique sempre com o mesmo tipo de tarefas, sobretudo no caso de alunos com necessidades educativas especiais. Efectivamente, verifica-se por vezes que, dentro do pequeno grupo, a estas crianças e jovens são distribuídas tarefas que eles conseguem fazer bem e com facilidade. Este procedimento tem a vantagem de dar auto-confiança ao aluno com necessidades educativas especiais e de facilitar a sua aceitação pelos colegas, valorizando o seu desempenho perante ele mesmo e perante os outros. No entanto, é um procedimento a tempo limitado, urna vez que, a m anter-se, tem como consequência a não progressão do aluno nas aprendizagens e a i mpossibilidade de outros alunos realizarem também aquelas funções. O potencial cio trabalho em pequeno grupo é exactamente o da interajuda entre pares, em situações críticas — encontrando as crianças e jovens 100 entre eles, por vezes, processos de favorecimento da aprendizagem bem mais eficazes do que aqueles que os adultos são capazes de planear. Na orientação de um trabalho do tipo cooperativo, há que: estabelecer objectivos de forma clara e acessível à idade e desenvol- vimento dos alunos; fornecer a informação necessária ou os meios para a obter; monitorizar os tempos de duração das actividades; apoiar os trabalhos durante a sua realização; - fornecer pistas que favoreçam a evolução do trabalho e a aquisição de novos conhecimentos; promover a divulgação dos produtos finais ao grupo/turma; - ajudar os alunos a reflectir sobre o seu próprio processo de trabalho e as formas de o melhorar. Nas escolas portuguesas, este tipo de trabalho ainda é visto com desconfiança pelos professores e, quando previsto, refere-se geralmente a procedimentos a usar pelos alunos na realização de trabalhos em tempos não lectivos. Por exemplo, os resultados do Projecto Português 2002, da responsabilidade da Associação de Professores de Português, mostram que apenas 30% dos professores utilizam formas de agrupamento dos alunos em actividades de ensino (neste caso, de leitura). O grupo/turma tende a ser encarado como um todo e os processos de individualização apenas ocorrem quando há alunos que demonstraram, anteriormente, não ter qualquer possibilidade de se integrar nas actividades a desenvolver com o resto da turma — actividades que são iguais para todos e que cada um deve realizar individualmente. Não se pretende, com isto, advogar que o trabalho em grupos vai resolver todos os problemas — de facto, quando mal planeado e gerido, torna-se até totalmente ineficaz. Por outro lado, nem todos os conteúdos são passíveis de ser trabalhados desta forma e, dentro dos grupos, há tarefas que devem ser realizadas individualmente. O trabalho em grupos é uma das estratégias de ensino e, como dissemos, estas devem ser diversificadas. Focamos aqui as suas potencialidades, nomeadamente a possibilidade de uma maior actividade e interactividade por parte dos alunos e o favorecimento da individualização dos percursos de aprendizagem. Aqui chegados, parece-nos importante distinguir individualização do ensino e formas de trabalho individuais. Quando o professor propõe actividades para 01 todo o grupo, cada um realiza esse trabalho de forma individual mas sem qualquer processo de individualização, na medida em que não há uma aferição às necessidades educativas de cada aluno. A individualização ocorre quando a cada aluno são pedidas actividades ou tarefas próprias — ou a partir da distribuição de tarefas dentro dos pequenos grupos (com base nas etapas necessárias para atingir os objectivos e realizar o produto final); ou pela motivação do aluno para a realização de determinado trabalho; ou ainda pela orientação do professor a partir de dados de observação e avaliação anteriores. Individualizar o ensino é, assim, menos discriminativo e mais eficaz numa estrutura de trabalho em pequenos grupos (em que todos têm tarefas diferentes) do que no modelo de ensino orientado para a classe como um todo, onde um ou dois alunos com mais dificuldades têm um trabalho diferente dos restantes. Esta última situação cria problemas adicionais aos alunos que já têm dificuldades de aprendizagem (problemas de relação interpares, de auto- confiança, etc.), para além de criar problemas ao professor que se encontra permanentemente no dilema de ter que decidir a quem dar atenção: se ao grupo/turma, se aos alunos com um trabalho diferente. A título de exemplo, tenha-se em atenção o relato de uma professora, a quem foi pedido que referisse incidentes ocorridos na sua sala de aula. Conta ela que, em certo momento, trabalhava directamente com um aluno com dificul- dades numa matéria já abordada, enquanto o resto da turma realizava uma ficha de trabalho. Dois ou três alunos começaram a chamá-la, porque tinham dificuldades em realizar a ficha. A professora mandou-os esperar, uma vez que estava a dar atenção àquele aluno e eles, sem nada para fazer, começaram a conversar entre si, entusiasmando-se depois com a conversa e elevando cada vez mais o tom de voz, até perturbarem o trabalho do resto da turma. Então a professora pediu a outro aluno (que já acabara) que ajudasse os colegas, frisando que não devia realizar o exercício por eles. Este aluno foi para junto dos colegas e começou a explicar-lhes como haviam de procurar a resposta à pergunta no próprio texto da ficha e o clima de trabalho restabeleceu-se. Um trabalho diferenciado na sala de aula comporta, ev identemente, riscos e, nesse sentido, requer do professor capacidades de organização e gestão que não se compadecem com improvisos de última hora. A diferenciação peda- gógica na sala de aula requer, no mínimo: - organização dos espaços da sala de aula e/ou da escola, em oficinas, clubes ou "cantos", de modo a que os alunos possam realizar tarefas diferentes num mesmo espaço e tempo; - organização dos objectivos específicos e conteúdos a abordar, realizada em conjunto com os alunos e planeada em linguagem que lhes seja acessível, de modo a que estes possam anteciparas matérias a abordar e verificar aquelas que já foram trabalhadas; 10) organização das actividades a realizar em grande grupo, em pequenos grupos e individualmente, não descurando qualquer destas dimensões e não fazendo prevalecer umas sobre as outras; selecção ou elaboração de recursos didácticos adequados às aprendi- zagens pretendidas e passíveis de serem usados de forma autónoma pelos alunos, os quais vão desde os mais simples materiais para cons- trução de algo pelos alunos, até ao "software" educativo relativo a determinado tema; criação de instrumentos de auto-regulação e auto-verificação das actividades realizadas e das aprendizagens alcançadas, sem os quais o aluno continua dependente do professor para saber o que vai fazer a seguir, em que ponto do processo se encontra e o que lhe falta fazer. Mas, para além do processo prévio de organização, acessível à maior parte dos professores desde que a isso se disponham, a maior dificuldade reside na gestão do processo, mantendo, em simultâneo: a perspectiva geral dos objectivos a alcançar a longo prazo e a perspectiva específica das tarefas a realizar quotidianamente uma visão global do percurso realizado pela turma, uma visão parcelar do funcionamento dos grupos e a ainda a correcta compreensão do ponto em que cada um dos alunos se encontra. Com efeito, os estudos realizados nesta área mostram que os professores experientes e capazes de pensar sobre a sua própria prática a partir do "feed- back" dos alunos sabem encontrar caminhos para a diferenciação quer a nível das opções curriculares de base, quer a nível das decisões pedagógicas em situação. Como afirma Porter (1997:45), "as boas práticas pedagógicas são apropriadas a todos os alunos, uma vez que todos os alunos têm áreas fortes e estilos de aprendizagem individuais. Isto aplica-se a alunos com necessidades educativas especiais e aos outros. Cada vez há uma maior evidência de que estes não necessitam de zmmii námero sigmficativo de estratégias pedagógicas distintas. Podem precisar de mais tempo, mais prática ou de uma abordagem com variações individualizadas, mas não há uma estratégia explicitamente clVerente da que é utilizada com os outros alunos." 101 3.3 Adaptações currieulares individualizadas Como vimos a elaboração de um projecto curricular de escola e de turma permite a adequação do currículo geral às características de uma dada população, num contexto específico. A diferenciação dentro da sala de aula, se correctamente desenvolvida, garante a possibilidade de cada um dos alunos progredir nas aprendizagens de forma individualizada, mas em interacção com os seus pares e inserido num grupo/turma para o qual existe uma proposta curricular comum. O Decreto-Lei 319/91 pre- vê que se realizem através de Plano Educativo Indivi- dual e do Programa Edu- cativo, O Plano Educativo Individual é um documen- to elaborado pelo Serviço de Psicologia e Orientação (ou equipa substituta dos serviços de Saúde Escolar), no qual se identifica e ca- racteriza o aluno, se define a orientação do seu proces- so educativo e os inter- venientes nesse processo, bem como as medidas educativas a aplicar. O Pro- grama Educativo é elabo- rado pelo professor de Edu- cação Especial ou professor de Apoio com a colabora- ção dos professores de En- sino Regular e outros técni-- cos, quando for caso disso, no qual se definem os ob- jectivos a atingir com a in- t ervenção educativa, as es- tratégias a desenvolver e os momentos e formas de ava- liação a utilizar (DGEBS, 1992). Nesta perspectiva, o projecto curricular de escola e o projecto curricular de turma constituem já adaptações curriculares, na medida em que contiguram ajustamentos a realizar face às situações e aos alunos concretos. No entanto, alguns alunos necessitam ainda de níveis de adequação mais específicos, isto é, de propostas curriculares individuais, também chamadas adaptações curriculares'. As adaptações currieulares individualizadas correspondem a ajustamentos do projecto curricular de turma a necessidades específicas de determinados alunos, mas sem pôr em causa os objectivos gerais para cada ciclo de escolaridade. Estas adaptações devem, no entanto, ser realizadas face a cada um dos alunos com necessidades educativas especiais e não em relação a uma categoria de necessidades educativas espciais. De facto, se existem certos funcionamentos comuns que permitem afirmar que uma criança tem, por exemplo, dificuldades de aprendizagem, tal não significa que todas as crianças com esta problemática apresentem as mesmas necessidades a nível educativo. O mesmo se passa com os alunos que apresentem problemas visuais, auditivos, motores, emocionais ou outros. É importante ter em conta que a recusa da classificação dos alunos por deficiências ou problemáticas não decorre apenas de questões éticas ou de politica educativa, mas se deve sobretudo ao impasse a que tinham chegado os sucessivos processos da sua classificação, à medida que a capacidade de diagnóstico diferencial foi aumentando. Com efeito, a multi- plicação de sub-categorias para diferenciar a imensa gama de situações possíveis, entretanto detectadas e estudadas, veio pôr em causa a utilidade e funcionalidade prática dessas categorizações. Assim, a classificação a partir da problemática central do aluno tem apenas um valor indicativo (e, em alguns casos, muito relativo), no que respeita às adaptações curriculares a realizar. Neste sentido, a elaboração de adaptações curriculares individualizadas não corresponde ao recurso a um programa especialmente construído para aplicar quando, na sala de aula, surge um aluno com determinado tipo de necessidades cducativas especiais, mas a um processo dinâmico e funcional de organização de respostas para determinado aluno, tendo em conta as suas competências e a proposta educativa comum. Este processo é realizado pelo corpo docente de cada escola (antes de mais, pelos professores que trabalham directamente com esse aluno), com o apoio de professores especializados e técnicos de educação especial (se e quando for caso disso) e ainda com a colaboração dos pais. Por outro lado, como vimos anteriormente, o conceito de necessidades educativas especiais tem um carácter relativo, já que o grau de necessidades educativas especiais que um aluno apresenta depende tanto do aluno, como do currículo. Efectivamente, num currículo do tipo fechado e de cariz rígido, as necessidades educativas especiais de determinado aluno avolumam-se e, portanto, nessa situação o aluno precisa de mais apoios e mais recursos adiccionais; num currículo do tipo aberto e de cariz flexível, pelo contrário, as necessidades educativas especiais tendem a diminuir, uma vez que existe um planeamento curricular mais adequado aos alunos concretos e à sua especifidade, bem como processos de resposta diferenciados, dentro da sala de aula. As adaptações a fazer ao projecto curricular de turma para dar resposta às necessidades educativas espec iais de alguns alunos variam, por isso, conforme as problemáticas dos alunos, mas também conforme o modo como a escola e os professores perspectivam o currículo. Em qualquer caso, o currículo comum é sempre o marco regulador para todas as modificações a realizar, as quais não têm que gerar currículos individuais, antes constituindo processos de ajustamento das respostas educativas para o acesso de determinado aluno ao projecto curricular comum. A relação entre a figura das adaptações curriculares individualizadas com os aspectos que temos vindo a focar neste capítulo pode ser sintetizada do seguinte modo: Quadro 3 — Da flexibilidade às adaptações curriculares individualizadas Princípio organizador: Flexibilídade curricular Princípio orientador: Diferenciação pedagógica Marco de referência: Proposta curricular nacional Ajustamentos curriculares: Projecto curricular de escola 1J Projecto curricular de turma li, Adaptações curricularesindividualizadas 105 Nesta perspectiva, as adaptações devem ter em conta, em primeiro lugar, tudo aquilo que o aluno pode realizar com e da mesma forma que os seus pares e, apenas depois disso, aquilo que deve ser realizado de forma diferente ou individualizada. Numa escola orientada para a inclusão, não é razoável começar por olhar para as diferenças, mas para as características comuns, partindo de duas permissas básicas: = Alguns autores, sobretudo espanhois, definem como adaptações significativas aquelas que implicam mo- dificações a nível dos ob- jectivos (obrigando a mo- ditleações em todos os com- ponentes curriculares) e como adaptações-não sig- nificativas aquelas que se realizam numa ou mais das restantes componentes currieulares. - o aluno deve seguir o currículo comum sempre que tal seja possível; - as adaptações curriculares surgem apenas quando as necessidades educativas individuais as tornam imprescindíveis. Os aspectos sobre os quais há que fazer adaptações, em relação a cada um dos alunos, podem relacionar-se apenas com um dos elementos curriculares ou com vários. A decisão sobre quais os elementos curriculares que vamos adaptar não é despiciencla, uma vez que uma adaptação ao nível das estratégias de ensino não altera forçosamente a proposta curricular comum para a turma, enquanto uma adaptação ao nível dos objectivos constitui uma alteração bem mais profunda, com implicações em todas as outras componentes curriculares2. O quadro 4 apresenta uma hierarquização de possíveis adaptações nos vários elementos curriculares, de acordo com o nível de afastamento do currículo geral que pressupõem. Tal como nos "modelos em cascata" apresentados no capítulo I, a opção pelas adaptações nos últimos níveis apenas ocorrerá quando as adaptações nos primeiros forem consideradas insuficientes, pelo que, em termos de número de alunos, o quadro poderia ser apresentado como um triângulo cuja base fosse o nível 1. As adaptações curriculares mais simples e que podem ser decididas e realizadas pelo professor da classe ou da disciplina, sem apoios externos, são, como o quadro mostra, as que dizem respeito a modificações na organização e disposição do espaço. A organização do espaço da sala de aula decorre, obviamente, das estratégias e tipo de actividades a desenvolver. No entanto, há cuidados básicos a ter, a este nível, com alguns alunos, nomeadamente os alunos cegos e aqueles que apresentem problemas motores ou físicos que impliquem o uso de cadeiras de rodas ou outro tipo de aparelho para deslocação ou controle da postura. No caso dos alunos cegos, é necessário ter em conta que qualquer alteração na organização do espaço (por exemplo, na disposição (las mesas dentro da sala) deve ser comunicada previamente e explorada com o aluno, de forma a evitar dificuldades na sua mobilidade; no caso dos alunos que se deslocam em cadeiras de rodas, há que prever o espaço suficiente, dentro da sala, para as suas deslocações, bem como a facilitação dos acessos às várias instalações da escola, o que implica a existência de ratnpas ou de elevadores, isto é a eliminação das barreiras arquitectónicas. Quadro 4 — Níveis de adaptação curricular Nível Elementos curriculares Relação com o currículo comum Organização e disposição do espaço Menor afastamento do currículo comum Estratégias e actividades Recursos educativos 4 Momentos, formas e critérios de avaliação 11f1 5 Estruturação do tempo 6 Conteúdos Maior afastamento do currículo 7 Objectivos Comum As modificações curriculares a nível das estratégias e organização das actividades configuram adaptações que não se afastam muito do currículo comum e, na maior parte dos casos, estão implícitas no próprio conceito de diferenciação pedagógica, que analisámos no ponto anterior. Com efeito, para . além dos vários factores referidos no capítulo I, um outro aspecto que contribuiu para a defesa da integração dos alunos com necessidades educativas especiais nas escolas regulares e, posteriormente, para o desenvolvimento das concepões e práticas da escola inclusiva, relacionou-se com a constatação, progressivamente mais consensual entre teóricos e técnicos, de que não existiam métodos específicos para esta população ou para os vários sub-grupos de problemáticas envolvidas. Como afirmava o Warnock Report, estes alunos podem precisar de mais tempo, mais apoio, recursos específicos ou atenção especial, mas as metodologias de ensino propriamente ditas não são diferentes daquelas que se usam com os restantes alunos. Evidentemente, qualquer turma actual exige o uso de estratégias diversificadas, na medida em que todos os alunos apresentam características diferentes e são vários e individuais os processos para aceder à informação. Na falta dessa diversificação, há alunos que ajustam os seus estilos de aprendizagem à estratégia de ensino do professor e outros que não o conseguem fazer, entre os quais a maior parte dos alunos com necessidades educativas especiais. A diversificação de estratégias (e, consequentemente, de actividades) não é, no entanto, difícil e qualquer professor experiente a usa, de forma mais ou menos consciente. Itnagine-se, por exemplo, um professor do 1. 0 Ciclo que 107 pretende trabalhar o uso dos sinais de pontuação. Em vez de definir uma estratégia única (geralmente composta por exposição oral e exercícios de aplicação prática), o professor poderá planificar um conjunto de actividades a realizar individualmente ou em pequenos grupos, que permitam o uso de diferentes processos de apreensão da informação por parte dos alunos. Assim, poderá: a) gravar previamente um conjunto de frases e fornecer às crianças as mesmas frases, por escrito, para colocarem a pontuação correcta, facilitando a aprendizagem dos alunos que apreendem sobretudo informação oral; b) agrupar diversas frases no quadro, consoante os sinais de pontuação usados, facilitando a aprendizagem dos alunos que apreendem sobretudo informação visual; c) dinamiza • uma dramatização a partir da mesma frase, dita com entoações diferentes, à qual se fará corresponder o respectivo sinal de pontuação, facilitando a aprendizagem dos alunos que ainda necessitam de movimento corporal como forma de integrar a informação; çl) solicitar a elaboração de desenhos ou bandas desenhadas com balões de fala em que o discurso oral esteja devidamente pontuado, facilitando a aprendizagem dos alunos que necessitam ainda de material figurativo para apreender a informação; e) fornecer aos alunos cartões com frases-tipo contendo os diferentes sinais de pontuação, os quais funcionarão como "chaves" para aqueles que apresentam diticuldades de memorização (Wood, 1984). Como neste exemplo, em muitos casos não é necessário planear estratégias específicas para determinados alunos, mas apenas diversificar as estratégias de ensino e as actividades de aprendizagem. No entanto, o conhecimento dos alunos através de processos de observação e análise de desempenhos e produtos, pode ajudar à orientação dessas estratégias para determinados alunos, quando se torna evidente que as modalidades de trabalho antes usadas não tiveram êxito. Para ta1 é necessário, contudo, que o professor esteja consciente daquilo que está a pedir que cada aluno realmente faça quando Ihe propõe determinada actividade, isto é, que tipo de competências essa actividade requer. Em muitas situações, o que falta ao professor do ensino regular não é mais i nformação sobre necessidades educativas especiais,.mas a análise cuidadosa do tipo de competências que a realização de cada actividade obriga a mobilizar e a consciência de que diferentes competências permitem aceder ao mesmo objectivo c/ou conteúdo temático. I OS Por outro lado, o modo como se organizam e sequencializam as actividades pode tornar-se um factor facilitador da aprendizagem ou criar dificuldades acrescidas. Os alunos com problemas emocionais e de comportamento,por exemplo, exigem uma especial atenção ao tipo de estratégias a desenvolver e à organização das actividades, bem como ao ambiente de aprendizagem a criar na sala de aula. Antes de mais, é necessário salientar que grande parte dos chamados problemas de comportamento não decorrem de questões intrinsecas aos alunos mas de erros e inadequações na concepção, organização e gestão das actividades de ensino/aprendizagem pelo professor — aulas mal planificadas ou mal geridas aumentam exponencialmente a hipótese de ocorrerem problemas de compor- tamento. Por outro lado, muitos desses problemas podem ser prevenidos se existirem regras claras de funcionamento na sala de aula e se houver cuidado na manutenção sistemática dessas regras. Esta constatação torna-se evidente se observarmos os comportamentos dos mesmos alunos ou turmas, no 2.° e 3.° Ciclos, ao longo de um dia lectivo — o seu comportamento muda conforme os processos de organização e gestão do ensino de cada um dos vários professores. Por alunos com problemas emocionais e de comportamento entendemos, portanto, a pequena e muito heterogénea percentagem de crianças e jovens que apresentam comportamentos inadequados ou desajustados que causam dificuldades ou rupturas continuadas e frequentes no relacionamento com a família, a escola (professores e colegas) e, num âmbito alargado, a própria comunidade. Estes alunos necessitam, como o Warnock Report já assinalava, "de uma particular atenção à estrutura social e ao clima emocional em que decorre a educação" . Para tal, as regras e procedimentos, bem como as rotinas diárias, devem ser mantidas em todas as situações e o ambiente da turma deve ser controlado de forma a que a principal fonte de estímulo seja o próprio material de aprendizagem. As tarefas a realizar pelos alunos devem ter objectivos claros e uma sequência bem definida, com uma extensão adequada ao tipo de funcionamento da criança. A maior parte dos estudos recentes sobre crianças com este tipo de problemas mostra que é essencial desenvolver nelas processos de controlo que começam pela apreensão de um modelo de funcionamento que dá origem à verbalização oral dos procedimentos a desenvolver (funcionando como guião) e, posterior- mente, à utilização de instrumentos de auto-controlo de comportamentos ou procedimentos, até que os alunos consigam regular interiormente a sua actividade. Os instrumentos de auto-controle podem corresponder a auto- programação, auto-observação e auto-correcção (Barckley, 1981, Kaplan, 1991 3 Estas dificuldades, de ca- rácter intrínseco, não devem ser confundidas com aque- las que e xperimentam os "maus leitores" — alunos que não desenvolveram rapidez, fluência e eficácia na leitu- ra e apresentam, por isso, dificuldades na extracção de significado a partir do ma- terial escrito e na sua pro- dução (Sim-Sim, 1996). Essas dificuldades decor- rem, na maior parte dos ca- sos, de factores extrfnsecos, como a falta de acesso a material escrito e de hábitos de leitura na comunidade ou a rigidez de formas de ensi- no orientadas apenas para a descodificação e não para a ex t ração de iii formação através da escrita. A maior parte dos problemas de lei- mra e escrita existentes no ensino básico snua-se a este nível. entre outros). Por exemplo, pode ser fornecida ou realizada com a criança um ficha para auto-registo das vezes que se levanta do lugar sem objectivo relativo à actividade, e, no final da semana, passar esses dados para um gráfico, no qual a frequência do comportamento durante determinado período pode ser visualizada facilmente pelo aluno; ou pode ser construída uma listagem de comportamentos que o aluno deveria ter, assinalando este todas as vezes em que esses comportamentos ocorreram, procedendo-se à sua quantificação e análise, como vimos no capítulo II. Alguns destes alunos necessitam, para além disto, de outro tipo de apoios, nomeadamente de acompanhamento psicológico. Os processos de diferenciação pedagógica na sala de aula, potencializados ainda com o planeamento de estratégias e actividades orientadas para as características de apreensão da informação de determinadas crianças, beneficiam ainda largamente os alunos com dificuldades de aprendizagem. O termo dificuldades de aprendizagem refere-se a uma desordem num ou mais dos processos psicológicos envolvidos na compreensão ou uso da linguagem falada ou escrita e manifesta-se em dificuldades essencialmente ao nível cla leitura, escrita e matemática. A identificação destes alunos continua, hoje, a ser difícil, em parte devido às diferentes perspectivas teóricas sobre as causas das dificuldades apresentadas. A prevalência desta problemática é, por isso, também difícil de calcular, uma vez que depende do tipo de classificação usada. No entanto, a prevalência comummente aceite é de 5% da população escolar (Barckley, 1981) 3 . A maior parte dos estudos nesta área incide sobre os problemas de leitura, definindo pelo menos dois tipos de perturbações: nas competências linguísticas e nas competências visuo-espaciais. A maioria das crianças com dificuldades na aprendizagem da leitura insere-se no primeiro grupo, apresentando, numa fase inicial, um atraso de linguagem e problemas na associação entre os sons das palavras e sua representação escrita e, mais tarde, uma leitura muíto lenta e morosa que torna difícil a extracção do significado e o uso da leitura para aquisição de nova informação ou para recreação. Muitos destes alunos não têm, à partida, problemas emocionais e de compor- tamento mas desenvolvem-nos face ao insucesso repetido, dando origem a situações de falta de motivação generalizada, as quais interferem com as aprendizagens escolares. Gera-se assim um círculo vicioso em que, quanto mais insucesso os alunos apresentam nas aprendizagens escolares, mais problemas de comportamento apresentam, os quais não Ihes permitem desenvolver aprenclizagens, o que provoca insucesso, etc. Neste sentido, qualquer intervenção a nível das dificuldades de aprendizagem não pode restringir-se apenas ao aspecto académico, devendo alargar-se aos processos de motivação e às crenças 4ue a criança entretanto desenvolveu sobre as suas próprias (in)capacidades face à aprendizagem. Estes alunos (e os respectivos professores da classe) devem ser apoiados por professores de educação especial ou professores de apoio com formação nesta área, urna vez que, para além dos processos de diferenciação pedagógica antes referidos, será necessário: - o trabalho específico nas áreas em que estes alunos apresentam maiores dificuldades (por exemplo, um trabalho sistemático de segmentação fonémica de palavras para alunos que apresentem problemas a este nível; a modelação de estratégias de estudo para alunos que tenham dificuldade em extrair a informação principal de um texto escrito); - a utilização frequente de "feed-back" e reforço, de modo a não deixar que se instale uma atitude de aceitação do insucesso nas tarefas escolares; - e a implementação de processos e instrumentos de auto-instrução e auto-controlo das aprendizagens, tornando os alunos conscientes não apenas das dificuldades, mas também dos meios para as ultrapassar e para avaliar os seus próprios progressos. Já as modificações a nível dos recursos educativos podem ser de carácter meramente pedagógico e, neste sentido, estar ao alcance de qualquer professor, ou podem ter um carácter muito especializado, requerendo a intervenção de especialistas4. As primeiras devem ser decididas pelo professor em relação à disciplina ou área disciplinar que lecciona, sem necessidade de recorrer a especialistas externos, urna vez que dizem respeito ao processo de ensino/aprendizagem propriamente dito. Por exemplo, alunos com problemas auditivos ou de linguagem oral poderão necessitar de mais material visual pictórico que os restantes elementos da turma em disciplinas corno História ou Geografia; alunos cegos necessitarão,sobretudo no jardim de infância e primeiro ciclo, de tactear e manipular o material apresentado para formar novos conceitos ou, simples- mente, saber a que é o educador ou professor ou os colegas se estão a referir exactamente; alunos com dificuldades de aprendizagem poderão ter que utilizar durante mais tempo material concreto para a aprendizagem dos conceitos matemáticos básicos ou que recorrer a letras móveis para a produção de palavras e frases, numa altura em que os outros alunos já escrevem. As segundas correspondem a recursos especiais usados com certos alunos, de acordo com as características que apresentam. Por exemplo, alunos com visão 4 Em Portugal, o Decreto- -Lei 319/91, art. 3", prevê, como equipamento especi- al de compensação os mate- riais didácticos especiais (11- vros em Braille ou amplia- (los, material audio-visual, equipamento específico para leitura, escrita ou cál- culo) e dispositivos de com- pensação individual (auxi- liares ópticos e acústicos, equipamento informático adaptado, máquinas de es- crever Braille, cadeiras de rodas e próteses). Por comunicação aumenta- tiva entende-se o conjunto de técnicas que constituem um suplemento à lingua- gem oral (Musselwhite, 1988). Podem funcionar como facilitadores da coinu- Mcação ou como comple- mentos da linguagem ao ní- vel da inte ligibilidade da fala; ou ainda corno siste- mas a lternativos de comu- nicação, permitindo a trans- missão de informação atra- vés de meios não vocais. De entre os que usam materiais exteriores ao sujeito, os mais conhecidos são os sistemas Bliss, Makaton e P1C, usa- dos es sencialmente por individuos com defieiência motora decorrente de para- lisia cerebral. Em Portugal, o Deereto- -Lei 319/91, art. 8°, refere como condições especiais de avaliação as alterações a re- alizar a nível do tipo de pro- va ou instrumento de avali- ação, a forma e meio de expressão do aluno e ainda a periodicidade, duração e local de realização da avali- ação. reduzida poderão necessitar de ampliações de todo o material escrito a fornecer na aula ou para estudo e, eventualmente, de luz mais forte e incidindo especifi- camente no lugar em que se encontra na sala de aula; alguns alunos com problemas motores graves podem ter que usar um sistema de comunicação aumentativas ; outros alunos com deficiência motora poderão ter que utilizar aparelhos especiais para posicionamento e controle da postura. Este tipo de recursos terá que ser decidido pela equipa multidisciplinar que acompanha o aluno (provavelmente desde muito cedo) e trabalhado com cada um dos professores, ao longo do percurso lectivo daquele. Por adaptações ao nível dos recursos pode ainda entender-se o acréscimo de recursos humanos que os alunos com necessidades educativas especiais requerem. Estes podem ser professores de apoio e/ou de educação especial com formação especializada e/ou técnicos específicos: técnicos de mobilidade, para alunos invisuais; fisioterapeutas, para alunos com deficiências motoras; monitores de língua gestual para alunos surdos; terapeutas da fala para alunos com perturbações de linguagem, e ainda psicólogos e assistentes sociais, conforme as pr oblemáticas envolvidas. A falta destes técnicos na rede escolar pública poderá ser colmatada através de acordos com instituições existentes na c omunidade local, uma vez que não é razoável esperar pela colocação de um técnico em determinada escola onde existem, provávelmente, um ou dois casos que requerem a sua intervenção. As modificações ao nível da avaliação podem ser definidas quanto ao instrumento, modalidade ou tempo6. As modificações nos instrumentos de avaliação relacionam-se, regra geral, com limi tações sensoriais, motoras ou físicas dos alunos. Por exemplo, alunos cegos ne cessitarão de testes escritos em Braille, enquanto alunos com problemas inotores graves poderão ter que realizar testes em computador. Nestes casos, a forma e conteúdo dos testes não são modificados. As adaptações referentes à modalidade de avaliação ocorrem, geralmente, no caso dos alunos com prob lemáticas relativas à comunicação oral — alunos com perdas auditivas moderadas ou com perturbações na linguagem oral, decorrentes ou não de d eficiências motoras. Neste caso, processos de avaliação contínua que são desenvolvidos oralmente com os restantes alunos, terão que ser passados a escrito para estes alunos. As adaptações re lacionadas com o tempo de duração da avaliação podem ser necessarias, por exemplo, para alunos com determinado tipo de probleMas motores que, não exigindo eq u ipamentos especiais, resultam, no entanto, em processos mais lentos e morosos de escrita. Numa situação de teste, estes alunos poderão necessitar de mais tempo que os restantes alunos. Já os alunos com dificuldades específicas na linguagem escrita podem requerer adaptações a nível dos instrumentos, modalidades e tempos (duração e, eventualmente, momentos) de avaliação. De facto, a avaliação sumativa das aprendizagens realizadas em qualquer disciplina ou área disciplinar processa- -se geralmente através da forma escrita da língua, o que implica dificuldades acrescidas para estes alunos, os quais podem, por exemplo, dominar os conteúdos de determinada disciplina e não o demonstrar através de um teste escríto. Neste caso, será importante que a avaliação sob a forma escrita seja complementada por uma avaliação oral ou, em certos casos, que o enunciado do teste escrito contenha mais elementos pictóricos (mapas, gráficos, etc.) ou mais questões fechadas (perguntas de resposta múltipla, de resposta verdadeiro- falso, etc), sob pena de estarmos apenas a avaliar a leitura e escrita e não os conhecimentos específicos em determinada área 7 . Por outro lado, no 2.° e 3° ciclos, alguns destes alunos necessitam de mais tempo para realizar provas sumativas ou, em alternativa, que se dê mais relevo à avaliação contínua. Quanto às modificações a nível temporal, estas podem dizer respeito a um período de tempo amplo (o tempo julgado necessário para determinado aluno alcançar os objectivos de cada ciclo de escolaridade) ou maís restrito (a previsão do tempo necessário para que o aluno atinja os objectivos e conteúdos considerados prioritários em certa disciplina ou unidade didáctica). Em alguns casos, haverá que prolongar estes tempos em relação àqueles que foram previstos para o grupo de referência. Por exemplo, alguns alunos com dificuldades específicas na aprendizagem da leitura e escrita poderão necessitar de mais tempo para desenvolver as compe- tências relativas não apenas a essas matérias específicas, mas também a outras disciplinas ou áreas disciplinares, uma vez que, como vimos antes, o domínio da forma escrita da língua é requerido para todas as aprendizagens escolares. já os alunos com Síndrome de Down 8 (que, segundo a maior parte dos especialistas actuais, podem seguir o currículo comum com adaptações adequadas a cada caso) necessitam de mais tempo para a maior parte das aprendizagens escolares, urna vez que apresentam dificuldades a nível dos mecanismos perceptivos necessários à apreensão, memorização e generalização da informação. Requerem, por isso, mais tempo para alcançar os objectivos cIo eiclo de escolaridade em que se encontram. Os problemas de tempo também se põem, embora por razões diferentes, no caso dos alunos com problemas crónicos de saúde, devido às frequentes hospitalizações ou estadias em casa. Se não for possível a deslocação do professor de apoio, haverá que garantir ao aluno o tempo necessário (bem como os materiais e apoio) para realizar as aprendizagens desenvolvidas na escola durante o período em que esteve ausente. ' Tal não significa, eviden- temente, que os alunos com dificuldades específicas nes- te campo possam fazer todo o percurso escolar com um nível de leitura e escrita in- suficiente. Referimo-nos aqui à necessidade de ade- quar a avaliação aos objec- tivos específicos da discipli-na ou unidade didactica. Crianças com Síndrome de Down são portadoras de urna anomalia cromos- sómica devida à presença de um éromossoma suplemen- tar no par 21. Por esta ra- zão, este síndrome é tam- bém designado por Trisso- mia 21. Estas crianças apre- sentam défices essencial- mente a nível cognitivo e lin goístico. As modificações ao nível dos conteúdos e objectivos podem ser constituídas por alterações na priorização ou sequencialização dos mesmos, pela introdução de conteúdos e objectivos intermédios, pela substituição de alguns conteúdos e/ou objectivos por outros ou pela eliminação de alguns conteúdos e/ou objectivos. Se as modificações a realizar afectarem todos os conteúdos e objectivos do currículo comum, já não estamos em presença de urna adaptação curricular, mas de um currículo especial, que analisaremos no ponto seguinte. As alterações na priorização ou sequencialização dos conteúdos e/ou objectivos não são específicas das adaptações individualizadas, uma vez que podem ocorrer logo nos projectos curriculares de escola e de turma. No entanto, podem ter de ser realizadas também em relação ao projecto curricular de turma, ajustando-o específicamente para determinado aluno. A introdução de conteúdos e objectivos intermédios, com vista a alcançar os objectivos definidos na proposta curricular comum é necessária ern certas situações, uma vez que há etapas que a maioria dos alunos percorre de modo rápido e espontâneo e que têm que ser induzidas e orientadas de forma sistemática em alguns alunos. Por exemplo, algumas crianças com problemas motores e a maior parte das crianças cegas, no jardim de infância, necessitarão que se estabeleçam objectivos intermédios em termos do desenvolvimento da autonomia (vestir-se, alimentar-se, arrumar os seus objectos, etc.). A substituição de alguns conteúdos e/ou objectivos por outros, alternativos, ocorre quando se constata que os objectivos do currículo comum são manifestaniente impossíveis de alcançar, devido a limitações sensoriais, físicas ou motoras. Referimo-nos aqui à sur- dez profunda e não a for- mas moderadas de deficièn- cia auditiva. No caso portugues, estas Unidades de Apoio à Edu- cação de Alunos Surdos são reg ulamentadas no despa- cho n." 7520/98. " De notar que qualquer uma das línguas gestuais apresenta diferencas estru- turais relevames em relação à língua oral (e, portanto, também à escrita) utilizada no mcsmo país. É o caso, por exemplo, dos alunos surdos 9. Estas crianças são, na maior parte, filhas de pais ouvintes, pelo que, para adquirirem a língua gestual necessitam de estar inseridas num meio em que esta língua seja fluentemente usada por adultos e crianças. Por isso, as crianças surdas, sobretudo ao nível da creche, jardim de infância e primeiro cicio, frequentam Unidades de Apoio'° próprias para o seu atendimento, geralmente funcionando nas instalações de uma escola regular. As principais alterações curriculares a realizar para responder às necessidades educativas dos alunos surdos dizem respeito, por um lado, à substituição dos objectivos a adquirir na vertente oral da língua portuguesa por objectivos definidos em função da língua gestual; e, por outro lado, pela reformulação dos objectivos relativos à vertente escrita da língua portuguesa, urna vez que o português escrito surge como uma segunda língua a adquirir" . Estes alunos seguem o currículo comum em todas as outras áreas curriculares, utilizando, para tal, a língua gestual. Se a escolarização destes alunos não se realiza em conjunto com a dos alunos ouvintes, há, todavia, actividades curriculares não disciplinares que podem ser partilhadas com os alunos das escolas em que as Unidades de Apoio se inserem e dessa interacção resultam benefícios para ambos os grupos, desde que, evidentemente, se providencie um tradutor. De resto, em muitas das Unidades de Apoio, o número de jovens do 2.° e 3.° Ciclos não justifica a criação de turmas de alunos surdos, pelo que estes frequentam as aulas do ensino regular com um tradutor. Assim, para estes alunos, é necessário proceder a uma substituição dos objectivos ao nível da Língua Portuguesa, enquanto nas outras disciplinas, a diferença reside na língua em que se comunica. No entanto, nesta como noutras problemáticas, existem múltiplas diferenças entre os alunos com surdez, e as adaptações a realizar devem ter em conta as suas necessidades individuais e não apenas a classificação relativa à audição. Quanto à eliminação de alguns conteúdos e/ou objectivos que constem no currículo comum, esta é uma medida que só deverá ser considerada em situações excepcionais, exigindo uma decisão devidamente fundamentada e tomada por uma equipa multidisciplinar, uma vez que este tipo de opção pode vir a condicionar o futuro escolar da criança ou jovem. Situação preferível será sempre a da substituição desses conteúdos e/ou objectivos por outros, como focámos anteriormente. Apresentámos, até agora, uma tipologia de adaptações curriculares elaborada a partir dos próprios elementos curriculares (estratégias e actividades, recursos, formas de avaliação, tempos, conteúdos e objectivos) e hierarquizada por grau de afastamento do currículo comum (das modificações metodológicas, ao alcance de qualquer professor, às alterações nos objectivos, que exigem uma decisão conjunta corn os especialistas que acompanhem o processo do aluno). No entanto, esta forma de apresentar as adaptações curriculares possíveis serve apenas para sistematização e estudo da questão. Na realidade, um mesmo aluno pode requerer adaptações de diferentes tipos, conforme: as competências requeridas para alcançar os objectivos e dominar os conteúdos de determinada disciplina ou área disciplinar; as suas competências específicas e o tipo de funcionamento que apresenta. Por exemplo, para um aluno cego' 2 que frequente o 2.° Ciclo, será necessário repensar, logo de início, o currículo da disciplina de Educação Visual e Técnológica (o que não significa que o aluno poderá ser dispensado desta); j á na disciplina de Língua Portuguesa, esse aluno pode, em princípio, inserir-se na proposta curricular elaborada para a turma, uma vez que as alterações a real izar dizem respeito essencialmente aos recursos necessários (o uso de urna Referimo-nos aqui, como o nome indica, a alunos e não a alunos com sio )arcia 115 Disciplina Objectivos Conteúdos Estra tégias actividades E.Vis. e Técn. c/ adaptações c/ adaptações c/ adaptações Educ. Física ei adaptações c/ adaptações adaptações Líng. Potug. comuns comuns comuns Matemática comuns comuns comuns Formas Recursos de avaliação c/ adaptações c/ adaptações c/ adaptações c/ adaptações c/ adaptações comuns c/ adaptações comuns máquina Braille e o recurso a um professor ou técnico que possa operar as descodificações; ou o recurso aos novos equipamentos informáticos que realizam essa reconversão). Assim, no caso da disciplina de E.V.T. proceder-se-à a uma adaptação que afecta alguns dos principais objectivos da disciplina e, em consequência, todos os outros elementos curriculares (conteúdos, estratégias, actividades, recursos, formas de avaliação). Situação idêntica ocorrerá, provavelmente, no caso da Educação Física. No caso de disciplinas como a Língua Portuguesa ou Matemática, a adaptação a realizar respeita apenas a um dos elementos curriculares. O exemplo anterior poderá, então, ser esquematizado do seguinte modo: Quadro 5 — Exemplo de adaptação curricular Se analisarmos os exemplos que foram sendo fornecidos em relação às adaptações a realizar nos vários elementos curriculares, verificamos que os casos que requerem adaptações com um grau de afastamento menor em relação ao projecto curricular comum correspondem a casos de alta frequência e baixa intensidade (Simeonsson, 1994, cit. in: Bairrão Ruivo, 1998), enquanto as situações de baixa frequência e alta intensidade (ou, na terminologiado Warnock Report, necessidades educativas especiais de carácter permanente) configuram adaptações com maior grau de afastamento em relação ao projecto curricular comum. Iir,lmenor grau de afastamento do projecto curricular comum não significa, porém, menor nível de complexidade no seu planeamento e gestão. Em primeiro lugar, porque os alunos com necessidades educativas especiais de baixa frequência e alta intensidade são geralmente acompanhados por professores especializados e/ou técnicos de educação especial e, consequente- mente, os educadores e professores do ensino regular sentem-se minimamente apoiados no trabalho que desenvolvem na sala de aula. O mesmo não acontece com os casos de alta frequência e baixa intensidade, nomeadamente as dificuldades de aprendizagem e os problemas comportamentais — situações em que não existe um diagnóstico claro e para as quais nem sempre existem professores de apoio disponíveis. Em segundo lugar, porque as problemáticas que configuram os casos de baixa frequência e alta intensidade, apesar de exigirem uma maior grau de adaptação curricular (substituição de objectivos e conteúdos, recursos educativos especializados), podem não ter consequências directas nos resultados de aprendizagem. Por exemplo, a maior parte dos alunos cegos' 3 , se forem feitas as adaptações específicas para o seu caso, não apresentam problemas na aprendizagem e, por isso, a nível da orientação dos processos de ensino propriamente ditos levantam bem menos dificuldades do que os alunos com dificuldades de aprendizagem ou com problemas de comportamento. 3.4 Currículos especiais Existem ainda alunos com necessidades educativas especiais mais graves, decorrentes de deficiências acentuadas, as quais não lhes permitem o acesso ao currículo geral, obrigando à definição de um currículo especial. Por currículo especial entende-se aquele que cujos objectivos gerais são diferentes da proposta currícular nacional para o mesmo ciclo de escolaridade e/ou idade do aluno, implicando diferenças em todos os elementos curriculares. De entre este tipo de currículos, destacam-se, pela sua pertinência, os chamados currículos funcionais. Os currículos funcionais pretendem garantir o direito a uma vida de qualidade às pessoas com deficiências acentuadas, promovendo a autonomia e a integração familiar, social e laboral, na medida das suas possibilidades. Podem ser de finidos como "um conjunto de conteúdos de aprendizagem que visam a a preparação de alunos com deficiência, nas áreas do desenvolvimento pessoal e social, das actividades de vida diária e da adaptação ocupacional" (Clark, 1994; eit. in: Bénard da Costa et al., 1996: 34). '3 Sem qualquer outro pro- blema associado ao défice visual. I 17 Este tipo de currículo tem por base as necessidades educativas específicas da deficiência mental, nomeadamente a necessidade de seleccionar e restringir aquilo que se ensina, já que estes alunos levam mais tempo a adquirir qualquer tipo de competências; a necessidade de praticar mais frequentemente e durante toda a vida o que aprenderam, uma vez que esquecem facilmente o que aprenderam antes; e a necessidade de aplicação prática dos conhecimentos, devido às dificuldades em abstrair, generalizar e transferir esses conhecimentos. Trata-se de currículos individualizados, adequados ao contexto, potencialidades e dificuldades específicas de cada aluno e têm como principal característica a funcionalidade dos conhecimentos a adquirir, isto é, a sua utilidade para o aluno e para a comunidade em que se insere. Esta característica foi um marco fu ndamental na mudança de perspectiva sobre o ensino desta população, a qual chegava a passar toda a sua vida escolar (até aos 18 anos ou mais) realizando actividades a nível de jardim de infância— actividades completamente desajustadas da sua idade cronológica e preparatórias de uma escolaridade básica que, na maior parte dos casos, estes alunos não iriam realizar. Para elaborar um currículo funcional é necessário, antes de mais, definir áreas curriculares. Neste tipo de currículos, as áreas não correspondem a domínios do saber, mas às situações em que decorre ou decorrerá a vida dos alunos: easa, co munidade, escola, espaços de recreação e locais de trabalho (Brown, 1979). A elaboração de cada currículo pressupõe o conhecimento das ca racterísticas de cada uma destas áreas em relação a cada aluno (por exemplo, se vive numa aldeia ou na cidade; com a família ou num internato) e ainda a inv entariação dos ambientes em que o aluno pode vir a inserir-se (serviços da comunidade a que pode ter que recorrer; ambiente de trabalho em que pode vir a integrar-se). Posteriormente, há que seleccionar cuidadosamente as actividades que o aluno pode realizar. Segundo Brown (1986, cit. in: Bénard da Costa et al., 1996:57), as actividades devem ser seleccionadas por: - c ontribuírem para alargar os ambientes em que o aluno vive e para a socialização; poderem ser aprendidas em tempo razoável; serem funcionais e úteis na vida adulta, podendo ser praticadas com frequência; corresponderem às expectativas dos pais; estarem adaptadas à idade cronológica do aluno e corresponderem aos seus interesses; contribuírem para o bem estar físico do aluno. Na fase seguinte, é necessário definir as competências requerídas para a aprendizagem de cada actividade e as condições em que essas competências se vão desenvolver para, finalmente, organizar a intervenção pedagógica correspondente a essas aprendizagens. As aprendizagens académicas não são, na maioria das situações, o objectivo principal dos currículos funcionais. Nos casos em que estas podem ocorrer, deverão surgír inseridas em situações da vida quotidiana do aluno. A leitura, por exemplo, será trabalhada sobre o material escrito que rodeia o aluno e com o qual ele tem que lidar todos os dias. A selecção das competências a desenvolver pelos alunos deverá, por isso, ter em conta o uso que estes poderão fazer dessas competências fora do ambiente escolar, ao longo da vida. Este tipo de currículos destina-se essencialmente a alunos com deficiências mentais severas e profundas e a alunos com multideficiência' 4. Segundo a maior parte dos estudos, estes alunos constituem aproximadamente 2% da população da mesma faixa etária. No entanto, apesar de a escolaridade não poder ser realizada em comum com outros alunos da mesma faixa etária, há actividades que podem ser partilhadas, ainda que comportem objectivos diferentes. Por isso, a maior parte dos técnicos que trabalham com alunos portadores de deficiências acentuadas advogam que estes devem ser atendidos em salas de apoio inseridas no espaço físico das escolas regulares ou, no mínimo, em instituições que colaborem (a nível de troca de recursos humanos e materiais) com as escolas do ensino regular mais próximas. Por exemplo, um aluno com multideficiência tem, normalmente, dificuldades significativas de acesso ao mundo que o rodeia (pessoas, objectos, ambiente). A sua inserção em algumas das actividades do jardim de infância ou escola regular é, no entanto, importante para que ele possa ter experiências em quantidade e qualidade suficiente para lhe permitir realizar novas aprendizagens. Os objectivos a alcançar com essas experiências e actividades não são, provavelmente, aqueles que foram definidos para as outras crianças participantes e a informação que esta criança adquire com essa experiência depende, na maior parte dos casos, da existência de mediadores' 5 . A sua participação nessas actividades é, apesar disso, um contributo importante para o desenvolvimento da sua autonomia e socialização, permitindo-lhe a interacção com pares, como o caso de Jo, uma criança de 8 anos com multideficiência, relatado pela mãe e referido por Whittacker e Kenworth (1999:137): "Agora, (...) Jô senta-se com a cabeça direita. As crianças são encora- jadas a falar com ela e fazem-no constantemente.Uem-the histórias, contam-lhe anedotas e cantam para ela. Enquanto fazem isto, tocam- " Indivíduo com atraso mental severo ou profundo, com uma ou mais deficiên- cias sensoriais ou motoras e/ou necessidade de cuida- dos especiais (Orelove e Sobsey, 1991). Por mediador entende-se o elemento que o ajuda a apreender o meio que o ro- deia. Neste sentido, tanto é mediador a estrutura (pré- definida) do mcio-arnbien- te como a interacção com o educador. lhe, limpam-lhe a baba da boca, afastam-lhé o cabelo da testa, certificando-se que o cinto de segurança não está demasiado apertado. Põem-lhe creme na cara, lavam-lhe as mãos antes do almoço. Se estão a eserever, colocam-lhe o lápis nos dedos. Riem-se quando ela se ri e preocupam-se quando ela chora. No intervalo, brincam com ela no recreio, empurrando-a a várias velocidades (...)." 120 Actividades 1. Indique se as afirmações seguintes são verdadeiras ou falsas: V F a) Em sentido amplo, currículo é o conjunto de acções levadas a efeito pela escola para desenvolver a aprendizagem dos alunos. b) Currículo aberto pressupõe a aplicação flexível da proposta curricular nacional, adequando-se ao con- texto específico em que o processo de ensino/ aprendizagem decorre. c) A organização e gestão do currículo a nível local refere-se à escolha das estratégias e actividades a desenvolver na sala de aula. d) A flexibilidade curricular implica uma redução das aprendizagens a realizar. 2. Considere a seguinte situação: Numa turma do 3° ano, os alunos elaboravam um texto colectivo sobre a ida à lua dos primeiros astronautas. As frases eram ditas oralmente, discutidas, reformuladas e depois escritas no quadro por um dos alunos. Enquanto isso, o António, aluno com necessidades educativas especiais, realizava operações numéricas no caderno, como a professora lhe pedira. Durante esse trabalho, levantou-se várias vezes para ir perguntar à professora se estava a realizar bem as operações. A professora via-lhe o trabalho, corrigia-o e ele voltava para o lugar e continuava a trabalhar. A certa altura, a professora pediu-lhe que esperasse, porque estava a corrigir uma das frases do texto colectivo. O António foi-se sentar, de cabeça baixa, e começou a dar pontapés debaixo do tampo da mesa. Os restantes alunos deixaram de dar atenção ao que estavam a fazer e ficaram a olhar para ele e a rir. 121 a) Como definiria o problema central desta situação? b) Como poderia a professora resolver a situação? 3. (...) A elaboração de uma adaptação curricular individualizada não é uma resposta automática perante a detecção de determinadas necessidades educativas especiais, senão o possível resultado final de um processo adaptador em que convém seguir certa ordem hierárquica. (Manjón, Gil e Garrido, 1997: 68) Comente a afirmação anterior, focando essencialmente: - porque não é uma resposta automática; em que medida se trata de um processo; a que ordem hierárquica se referem os autores. 1 )2 4. A Escola e a Inclusão Ohjectivos gerais • Enquadrar o trabalho em equipa no modelo colaborativo; • Equacionar vantagens e dificuldades do trabalho em equipa no contexto escolar; • Perspectivar novas formas de articulação com as famílias. Conhecimentos, capacidades e atitudes a desenvolver No final deste capítulo, o formando deve ser capaz de: • Definir as características de uma cultura de colaboração entre o corpo docente; • Identificar formas de dinamização e regulação do trabalho em equipa; • Identificar processos de articulação com os docentes de apoio educativo; • Reflectir sobre os processos de inserção numa equipa multidisciplinar; • Reconhecer o papel das famílias no processo escolar; • Conhecer os principais problemas das famílias com crianças e jovens com necessidades educativas especiais; • Identificar alguns processos de articulação com as famílias. Temas a desenvolver 1. Colaboração e trabalho de equipa na escola (entre professores; em equipas pluridisciplinares) 2. Articulação escola-família dos alunos com necessidades educativas especiais Colaboração e trabalho em equipa na escola "Cada escola deve ser uma comunidade, conjun- tamente responsável pelo sucesso de cada aluno. É a equipa pedagógica, mais do que o professor individual, que se deve encarregar da educação das crianças com necessidades educativas especiais." Art.° 37•0 da Declaração de Salamanca, 1994 A diversidade da população escolar actual e a inclusão de alunos com necessidades educativas especiais obrigaram a reestruturações ao nível da organização da própria escola e, sobretudo modificações nas formas tradi- cionais de trabalho dos docentes a nível institucional. EStas reestruturações foram sendo assumidas gradualmente pelas escolas da rede pública, em tempos e a níveis diferentes conforme as suas próprias características organizacionais e as características do meio em que se inserem. Como vimos no capítulo anterior, a autonomia dos estabelecimentos escolares' é uma condição prévia para o ajustamento destes às situações concretas, na diversidade que apresentam, e incide sobre aspectos organizativos e administrativos, mas também sobre aspectos curriculares. Nos sistemas educa- tivas tradicionalmente centralizados, como o português ou o espanhol, a transição para um modelo mais descentrado (ou, pelo menos, desconcentrado) não tem sido fácil, já que, por um lado, o poder central tende a preservar as suas competências ao nível das iniciativas educativas, quanto mais não seja através da excessiva burocratização processual que exige às escolas para a tomada de decisões; e, por outro lado, as escolas, enquanto organizações, e os professores, enquanto profissinais, não têm hábitos de decisão e responsa- bilização e tendem a ficar à espera de directrizes centrais para resolver os problemas que lhes surgem. De facto, um processo de autonomização, nas organizações como nas pessoas, não se cria apenas por força de lei: exige tempo, tem avanços e recuos, momentos de grande iniciativa e momentos de aparente inércia. Na verdade, a tendência para a estabilidade, numa instituição, é sempre maior que a tendência para a mudança, e este aspecto torna-se particularmente relevante quando essa instituição é pública e os seus trabalhadores se vêm como funcionários (Zabalza, 1999). Existem, assim, escolas mais dinâmicas (por imperativos da população que as frequenta e cla comunidade que servem, por características do corpo docente ou devido a outros factores) e escolas mais estáticas, sendo possível, hoje, identificar diferentes níveis de capacidade de iniciativa das escolas, os quais correspondem aos seus próprios percursos corno instituições. ' Entre outros textos legais, o Decreto-Lei 43/89 estabe- lece o regime jurídico das escolas do 2° e 3° ciclos do ensino básico e do ensino secundário e o Decreto-Lei 172/91 o regime de direc- ção, administração e gestão dos estabelecimentos de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário. 127 Uma das consequências da autonomia das escolas é a necessidade de avaliação das próprias instituições. Com efeito, o estado tem um compromisso perante a sociedade ,J10 que respeita à educação dos seus jovens e há que verificar e controlar de que forma e com que resultados esse serviço está a ser prestado pelas instituições que dele dependem ou que legitimou para esse efeito. Cada escola tem que encontrar, então, caminhos para o seu próprio desenvolvimento institucional, por referência às condições concretas da comunidade que serve, sem perder de vista os objectivos da educação a nível nacional, submetendo-se a mecanismos de avaliação e controle da qualidade a nível interno e externo. Para que as escolas públicas assumam plenamente a singularidade da sua situação e a tomada das decisões institucionais, é necessário que se passe, como constata Barroso (1999) da "autonomia individual à autonomia colectiva". Defacto, dentro da sala de aula, os professores sempre mantiveram um razoável grau de autonomia, apesar da rigidez dos programas oficiais. No entanto, fora da sala sala de aula, no espaço da organização escolar, não temos tradições de funcionamento colectivo que, em boa verdade, era desnecessário face à regulamentação exaustiva emanada do poder central. Actualmente, exige-se que, em cada escola, os professores criem orientações internas, tomem decisões, proponham iniciativas e resolvam problemas que não se referem apenas à sua sala de aula, mas a toda organização escolar. Estes processos terão que ser levados a efeito colectivamente e, para tal, será necessário desenvolver, no corpo docente e com todos os parceiros educativos, uma cultura de aceitação de pontos de vista diferentes, de negociação e de procura de acordos. Por outro lado, perante a complexidade das problemáticas que actualmente existem na população escolar e a diversidade de papéis que são conferidos ao professor, a colaboração entre os profissionais, dentro da escola, é uma condição para a eficácia desta. O termo equipa surge, aqui, na sua acepção mais simples: um grupo de pes- soas e ncarregadas de uiri tra- halho ein CO11111111. Neste sentido, o trabalho ern equipa2 dentro da escola é, mais do que um princípio orientador, uma necessidade actual. No interior dos estabelecimentos escolares, o trabalho em equipa pode ser perspectivado em sentido restrito ou em sentido mais amplo. Perrenoud (2000) estabelece quatro níveis de trabalho em equipa. Num primeiro nível, a que chama "pseudo-equipa", trata-se simplesmente de coordenar o uso dos recursos existentes no espaço da escola. O segundo nível pressupõe já a troca de conhecimentos e de ideias, que pode contribuir para um certo ajustamento de inguagens e de referentes. No terceiro nível, existe a partilha das práticas e, eventualmente, a sua coordenação para o desenvolvimento de processos interdisciplinares. E o quarto nível configura um verdadeiro trabalho em equipa, caracterizando-se por uma co-responsabilização por parte de todos os professores. Este último nível pressupõe que a colaboração faça parte das competências profissionais dos professores. A colaboração pode ser entendida como um princípio aglutinador e integrador da planificação e da acção num estabelecimento escolar, favorecendo o desenvolvimento de umacultura própria e permitindo, designadamente: - partilhar problemas e apoiar a tomada de decisões; eliminar a duplicação e redundância de tarefas e actividades; melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem dos alunos; partilhar o trabalho e as pressões decorrentes da complexificação do papel do professor; reduzir as incertezas anível pedagógico, numa fase de mudanças; - partilhar perspectivas e aumentar a confiança em situações de inovação; - desenvolver processos de "feed-back" e comparação de práticas entre pares; articular competências diferentes, permitindo respostas adequadas e rápidas (Hargreaves, 1998). Mas o trabalho em equipa é um processo lento e gradual, que requer esforço e envolvimento. Implica o questionamento de crenças, valores, conhecimentos e capacidades pessoais e profissionais, a consciência da inevitabilidade de dificuldades e de problemas nas relações inter-individuais e ainda o reconhecimento da incerteza do próprio saber, adequando os juízos a essa incerteza. Por isso, muitas vezes a colaboração surge como um princípio de base que se defende, mas que, na prática, não se procura desenvolver. Com efeito, uma verdadeira cultura de colaboração numa escola tem que ser voluntáriarnente decidida por todos os intervenientes, isto é, não pode ser centralmente definida e regulamentada para aplicação nas escolas e, nestas, não pode implicar o domínio de um grupo sobre os restantes, para evitar problemas, confrontos ou prolongamentos de tempo de reuniões. Hargreaves (1999) mostra alguns dos riscos em aceitar a colaboração como urna "moda", desenvolvendo aquilo a que chama uma "colegialidade artificial": um processo confortável e complacente, de cariz marcadamente conformista perante qualquer tipo de inanipulação e aquiescente face a tomadas de decisão minoritárias, por desistência de confrontos. I 29 Pelo contrário, a cultura colaboratíva numa instituição requer a participação igualitária dos vários profissionais, a decisão consensual na resolução de problemas comuns, a partilha de responsabilidades e alguma flexibilidade de papéis. Efectivamente, a equipa tem não só um trabalho conjunto de intervenção sobre a situação educativa, mas também um trabalho de intervenção sobre si própria, enquanto grupo. Em última instância, o funcionamento de uma equipa pedagógica dependerá sempre da maturidade dos professores que a constituem. No entanto, não é razoável partir do princípio que todos os professores de uma escola, com idades e anos de docêncía tão diferentes entre si, possuem maturidade pessoal e profissional suficientes para lidar do melhor modo com as situações de grupo, nas quais se jogam diferentes interesses, perspectivas e expectativas. Assim, é necessário desenvolver, no próprio processo de trabalho em equipa, as competências necessárias para a evolução pessoal e colectiva dos seus elementos. Para a eficácia de um trabalho colaborativo entre professores, há que ter em conta alguns factores básicos, a saber: o trabalho sobre problemas concretos da prática profissional; - o desenvolvimento de capacidades de comunicação e negociação; - a coordenação do trabalho e das reuniões; - a reflexão conjunta sobre a intervenção; a formação contínua centrada na escola. A discussão de e sobre problemas concretos é essencial, porque é ela que permite a centração em objectivos (comuns) e não em posições (diferentes). Efectivamente, se a discussão recai sobre as posições individuais, é muito difícil superar as diferenças de perspectivas forçosamente existentes; pelo contrário, se a discussão se centrar no problema ou situação comum a resolver, sempre possível encontrar pontos de acordo. A focalização em situações concretas permite ainda separar as pessoas das posições que assumem ou das representações que sobre elas se formaram, uma vez que o outro surge como um aliado na procura de uma solução eficaz. Neste processo, os professores desenvolvem formas de comunicação e de negociação que são hoje competências profissionais imprescindíveis. Evidentemente, os professores tem um vasto reportório a este nível que faz parte da própria essência da profissão. No entanto, essas competências foram sempre exercidas na relação pedagógica que é, por definição, uma relação as simétrica, enquanto o desenvolvimento de urna cultura colaborativa na escola I 10 implica o seu exercício com pares, o que constitui uma situação nova para muitos professores. Para regular os debates, numa reunião, será sempre necessário um coordenador e esta é também uma função nova, até mesmo pâra aqueles que j á exerceram cargos de gestão. De facto, as funções dos directores e/ou presidentes dos conselhos directivos ou executivos, nas escolas, foram, durante muito tempo, essencialmente administrativas, senão mesmo burocráticas. Ora o coordenador de um determinado projecto, trabalho ou reunião (exerça ou não funções de chefia dentro da instituição) tem que conseguir observar e interpretar as várias situações que se desenvolvem em grupo, o que pressupõe alguma capacidade de distanciação para poder fazer pontos da situação em momentos de impasse ou de ruptura. Tem ainda que intervir, quer sobre os processos de organização da equipa, quer sobre os processos de comunicação que atrasam ou influem na procura de uma solução para o problema em análise (sem que a sua intervenção constitua, ela própria, um outro problema). Ao coordenador cabe, ainda, a gestão de conflitos, porque os conflitos são parte integrante do próprio trabalho em equipa e, muitas vezes, um factordecisivo para a clarificação de questões, constituindo marcas de evolução qualitativa, quando bem resolvidos. Por outro lado, transformar qualquer pequena divergência em conflito também não é rentável em termos do trabalho em equipa e é nesta regulação interna das situações em busca de um equilíbrio que se joga o papel do coordenador e a eficácia do trabalho em equipa. Uma boa gestão do trabalho em equipa exige, para além do coordenador, a co-responsabilidade de todos os participantes, nomeadamente através de competências colectivas de auto-regulação em situações de debate. Em alguns países, como o Canadá, criaram-se, nas escolas, "equipas de resolução de problemas", formadas pelos docentes da escola e que têm como objectivo o desenvolvimento da interajuda para a resolução de problemas surgidos nas salas de aula (nomeadamente os relativos aos alunos com necessidades educativas especiais), através de uma abordagem estruturada e eficaz em termos de resultados e de tempo. Assim, o professor apresenta o problema, para o qual a equipa sugere soluções possíveis, de entre as quais o professor escolhe aquela que lhe parece mais adequada ao caso. Um dos docentes pode ficar responsável pelo apoio mais continuado a esse colega e a equipa volta a reunir- -se para avaliar os progressos verificados (Porter, 1997). A capac idade, indivklual e colectiva de reflexão sobre a intervenção decorre dessa responsabilidade assumida e partilhada. Impl ica que, perante as situações, por muito urgente que seja a sua resolução, não se comece imediatamente a agir, sem analisar a realidade e procurar as estratégias adequadas; implica também que, no decurso da acção, se avalie o que se fez e se reformule o plano original, quando necessário. A complexidade das situações actuais exige 131 que sejam tidos em conta factores diversos e que as decisões sejam ponderadas. Há um equilíbrio que as equipas têm que encontrar entre a actividade (que as mantêm coesas e eficazes) e a análise dessa actividade (sem a qual a acção se reduz a um conjunto de tarefas mais ou menos planeadas). Finalmente, a formação centrada na escola é um processo decorrente da prática profissional que articula a organização da formação com a organização da intervenção, facilitando o desenvolvimento de inovações. Consiste, essencialmente, na resposta a dificuldades concretas em contextos específicos e, nesse sentido, o seu ponto de partida é a identificação dos problemas que surgem, inevitávelmente, nas escolas, planeando-se a formação de modo a que esta constitua um suporte para a resolução desses problemas. O desenvolvimento profissional do professor deixa, assim, de ser um processo individual de formação contínua (através, por exemplo, da frequência de acções de formação, seleccionadas face à oferta de uma determinada instituição) e transforma-se num processo de desenvolvimento colectivo da equipa pedagógica de determinada escola. Este tipo de formação pressupõe, então, um contrato entre a escola e a instituição de formação, com base num pedido concreto por parte da primeira. O trabalho em equipa numa perspectiva colaborativa é essencial no atendi- mento a alunos com necessidades educativas especiais. De facto, os resultados dos estudos que se debruçaram sobre as necessidades dos professores para dar resposta aos alunos com necessidades educativas especiais (Vieira, 1994; Madureira, 1997; Leite, 1997, entre outros), mostram que a colaboração entre os vários agentes educativos (pais, professores do ensino regular, professores de apoio educativo, técnicos especializados) é um dos factores essenciais quer para o desenvolvimento de uma atitude positiva face aos alunos com necessidades educativas especiais nas escolas e nas turmas, quer para os resultados obtidos por esses alunos na escolaridade. Neste âmbito, há que destacar a necessidade de colaboração entre os professores do ensino regular e os docentes de apoio educativo. Em alguns países, os docentes de apoio educativo são designados como "professores de métodos e recursos" e actuam como consultores de apoio à escola e aos professores das classes (Porter, 1997). Estes professores não são, forçosarnente, especialistas, mas professores experientes do ensino regular, considerados competentes pelos colegas para os ajudar a definir soluções adequadas aos problemas que surgem nas salas. Em Portugal, como vimos no primeiro capítulo, os doeentes de apoio educativo que, nos primeiros tempos da integração dos alunos com necessidades educativas especiais, eram elementos de alguma forma marginais às escolas, onde surgiam apenas duas ou três vezes por semana para dar apoio a I 312 determinado aluno, passaram, nos últimos anos, a fazer parte do corpo docente de cada estabelecimento. Segundo o Despacho 1051 97. As actuais funções do professor de apoio3 são as seguintes: 1) em relação à escola: - colaborar na sensibilização e dinamização da comunidade educativa para os direitos dos alunos com necessidades educativas especiais no ensino regular; - participar na elaboração do Projecto Educativo de Escola e do Plano de Actividades desta, nomeadamente no que respeita à identificação e acompanhamento dos alunos com necessidades educativas especiais; - colaborar na organização de processos e actividades de apoio às aprendizagens, promovidos pela escola para todos os alunos (centros de recursos, bibliotecas, clubes de leitura, etc); identificar, em colaboração com os restantes orgãos da escola, as soluções mais adequadas à criação de um ambiente de aprendizagem que promova a igualdade de oportunidades. 2) em relação a equipas pluridisciplinares: colaborar na articulação de todos os serviços e entidades que intervêm no apoio aos alunos com necessidades educativas especiais. 3) em relação aos docentes: colaborar na identificação de necessidades de formação dos professores da escola, com vista ao desenvolvimento efectivo da diferenciação pedagógica; - apoiar os docentes na concepção e implementação de estratégias que facilitem a gestão de grupos heterogéneos e, especificamente, na planificação do trabalho a realizar com a turma, tendo em conta os alunos com necessidades educativas especiais; - colaborar com os docentes da turma na construção e avaliação de programas individualizados. 4) em relação aos auxiliares de educação: enquadrar os auxiliares de acção educativa, ajudando a compreender as necessidades pedagógicas, técnicas e sociais destes alunos; 133 3) em relação aos alunos com necessidades educativas especiais: colaborar na organização do processo de apoio aos alunos com necessidades educativas especiais (identificação de necessidades e modalidades de apoio a implementar para cada caso); prestar apoio directo ao aluno com necessidades educativas especiais, sempre que as características deste o justifiquem (nomeadamente nos casos em que são necessárias técnicas ou linguagens alternativas ou equipamento específico). Como se pode verificar, o papel do professor de apoio na escola abrange vários níveis organizativos e funcionais que permitirão uma melhor inserção do aluno com necessidades educativas especiais na escola e no currículo, fornecendo apoio directo ao aluno apenas quando este for absolutamente necessário. O professor de apoio constitui, então, o interlocutor privilegiado do professor do ensino regular e a colaboração entre os dois, num trabalho em equipa estruturado, é fundamental para o sucesso escolar e/ou social dos alunos com necessidades educativas especiais e de outros alunos em situações de risco. Este trabalho inclui a partilha de informação (análise conjunta dos resultados da avaliação inicial, avaliação contínua do processo desenvolvido e dos resultados obtidos); a partilha de decisões (elaboração de adaptações curriculares, estratégias de diferenciação na sala de aula, modalidade de apoio ao aluno) e ainda a partilha de responsabilidade. A colaboração entreo professor dç apoio e o educador ou o(s) professor(es) da turma comporta, assim: o apoio à actividade docente (planeamento, avaliação, reformulação); - o eventual apoio directo ao aluno, dentro da sala de aula e em simultâ- neo com as actividades lectivas da turma; - o eventual apoio directo ao aluno, fora da sala de aula e em comple- mento ao trabalho nesta desenvolvido. O trabalho do professor de apoio, por sua vez, enquadra-se nas orientações da equipa de coordenação dos apoios educativos (ECAE) da zona em que a escola se insere. Estas equipas têm como funções: a articulação entre as escolas da sua zona e a intervenção ao nível das comunidades e das instituições e serviços nela existentes, nomeada- mente através da sensibilização e informação da comunidade local, mobilização de recursos locais (saúde, segurança social, autarquias, qualificação profissional, instituições particulares e cooperativas) e 134 apoio aos processos de transição dos alunos para diferentes escolas, diferentes níveis de ensino e para a vida activa; a colaboração e apoio aos orgãos de gestão e de coordenação pedagógica das escolas e agrupamentos de escolas, com o fim de garantir o planeamento e a organização dos apoios educativos, a comunicação entre os docentes de apoio e os orgãos de gestão das escolas ou agrupamento de escolas e fazer o levantamento das necessidades de equipamento e materiais; a gestão pedagógica de serviços especializados de apoio educativo afectos às escolas da zona abrangida pela ECAE, promovendo reuniões periódicas para discussão do trabalho desenvolvido e sessões de formação que fundamentem os projectos em curso, orientando os docentes de apoio a nível técnico e científico, gerindo e rentabilizando os recursos especializados e recolhendo os dados relativos às necessi- dades das escolas, no que respeita a docentes de apoio. A acção destas equipas é desenvolvida não apenas a nível dos apoios educativos à escolaridade, mas também em relação à intervenção precoce e à transição para a vida adulta. Nesta perspectiva, as equipas de coordenação dos apoiós educativos estabelecem parcerias com autarquias, serviços de educação (oficial, particular, cooperativa e de solidariedade social), serviços de saúde, trabalho e assistência social e ainda com equipas locais de educação de adultos. A mobilização dos recursos locais para apoio às escolas e aos alunos com necessidades educativas especiais pode exigir que os professores e educadores façam parte de equipas que integram técnicos de saúde, psicologia e assistência social, para além dos professores de apoio. Constituem-se, assim, equipas pluddiseiplinares, formadas por vários técnicos com formações e funções diferentes. Ainda não muito frequente nas escolas da rede pública, este tipo de equipas funciona actualmente sobretudo nas instituições de educação especial4 e nas salas de apoio para alunos com deficiências acentuadas, algumas situadas no espaço das escolas públicas. Formadas por terapeutas, psicólogos, assistentes sociais, médicos, educadores e professores, estas equipas confrontam-se com problemas específicos que decorrem de diferenças de formação e linguagem e se refiectem, por sua vez, em divergências quanto a prioridades de intervenção e a orientação de casos. Cada técnico tem tendência a escudar-se nos seus próprios conhecimentos e estatuto profissional e a equipa ressente-se da impessoalidade das interacções e de uma escassa produção de trabalho em grupo. De facto, encontramos, em muitas equipas pluridisciplinares, uma mera justaposição das intervenções dos diferentes técnicos, que não se articulam entre si quer para o apoio aos alunos, quer para o apoio às famílias. Este tipo de procedimento reduz muito a eficácia da intervenção e torna-se extremamente confuso para as famílias, sobretudo nos casos de deficiência grave ou multideficiência. Como as Cooperativas de Ensino e Reabilitação de Crianças Inadaptadas (C.E.R.C.I), as Associações de Pais e Amigos do Cida- dão com Deficiência Men- tal (A.P.A.C.D.M.) e os Centros de Paralisia Cere- bral, entre outros. 135 Planos de intervenção Próprios Próprios, mas parti- Em conjunto e ouvida a lhados família Responsabilidade pela intervenção Apenas na sua área Apenas na sua área Conjunta Formação contínua Apenas na sua área Apenas na sua área Componente das reuniões da equipa De facto, as equipas pluridisciplinares deveriam caminhar no sentido de uma progressiva dinâmica de confronto de conhecimentos, experiências, técnicas e opiniões que pode levar ao desenvolvimento de processos inovadores ao nível da avaliação inicial dos casos e do planeamento e análise da intervenção. Para tal, será necessária a centração sobre as necessidades concretas do aluno e das famílias, a partilha das decisões e das responsabilidades e, mais uma vez, processos de liderança eficazes. Também para as equipas plutidisciplinares podemos definir níveis de apro- fundamento do trabalho em colaboração. Orelove e Sobsey (1991) estabelecem uma classificação do tipo de equipas quanto ao processo de trabalho, que pode ser sintetizada da forma seguinte: Quadro 6 — Tipo de equipas quanto ao processo de trabalho Áreas Multidisciplinar Interdisciplinar Transdisciplinar Processo de avaliação inicial Cada técnico vidualmente Cada técnico indi- vidualmente Planeada em conjunto e com a participação da família Comunicação entre Informal técnicos Reuniões periódi- cas: troca de infor- mação Reuniões regulares: troca de informações, conheci- mentos e técnicas Separadamente Comunicação com as famflias Toda a equipa ou um seu represen- tante Um elemento da equipa é responsável pela imple- mentação do plano junto da família Adaptado de Woodruff e McGonigel, 1988. in: Orelove e Sobsey, 1991. Assim, uma equipa do tipo multisciplinar é constituída por um conjunto de profissionais com formações diferentes e funções específicas, os quaís desenvolvem processos de intervenção proprios com cada caso, comunicando entre si de modo informal. Enquanto grupo, a sua intervenção constitui um conjunto de acções justapostas e sem relação entre si. 136 Numa equipa que funcione em termos interdisciplinares existe j á a articulação de funções entre os profissionais, o que implica a formalização de tempos e espaços específicos para troca de informação (relativa à avaliação inicial e à intervenção) e, eventualmente, a escolha de um profissional que represente o grupo junto da família. Finalmente, numa equipa com um modo de funcionamento transdisciplinar existe não apenas a partilha de informação, mas também de decisões sobre a intervenção (e dos fundamentos que estão na origem dessas decisões), sendo a equipa, no seu conjunto, co-responsável pelo pelo atendimento ao aluno e à sua família. Este nível de partilha exige uma dinâmica de confronto de conhecimentos entre os profissionais envolvidos, através de uma reflexão sistemática sobre o trabalho desenvolvido. Implica, portanto, uma comunicação aberta e estratégias de negociação colaborativas. Uma equipa que funcione de modo transdisciplinar poderá ainda contribuir para o enriquecimento das funções de cada técnico, através da compreensão da terminologia e práticas básicas das outras áreas, de modo a poder: reconhecer que certo aluno necessita de uma intervenção específica em determinada área (por exemplo, encaminhar um aluno para a terapia da fala, se forem detectados indicadores dessa necessidade); aplicar alguns procedimentos básicos de outras áreas, necessárias ao trabalho quotidiano e sob a supervisão do técnico respectivo (por exemplo, técnicas de postura para alunos com deficiências motoras graves); apoiar os outros elementos da equipa e ser por eles apoiado. Este trabalho exige, como focámos antes, uma reflexão sistemática não apenas sobre a intervenção, mas também sobre o funcionamento da própria equipa, desenvolvendo estratégias de negociaçãonas discussões dos casos e de colaboração na resolução de problemas. A grande vantagem dum processo deste tipo é a compreensão global do aluno com necessidades educativas especiais, permitindo a análise da situação como um todo e não como a soma de várias partes, cada uma atendida por um especialista diferente, por vezes com orientações contraditórias entre si. Em síntese, a complexidade da população escolar actual exige o desenvol- vimento de formas de articulação entre os professores da mesma escola e entre estes e os diferentes profissionais que agem na área educativa (técnicos de educação, saúde e assistência soc ial). A colaboração entre profissionais é, assim, uma necessidades das escolas com vista ao desenvolvimento de respostas elicazes e criativas às situações que se lhes deparam. Enquanto cultura organizacional, a colaboração configura o desenvolvimento de atitudes 137 profissionais e de competências específicas para um efectivo trabalho em equipa e cria, ainda, as bases para a articulação com outros parceiros educativos, como veremos no ponto seguinte. 4.2 Articulação escola-família dos alunos com necessidades educativas especiais Uma breve análise da evolução da articulação escola-família mostra que, durante muito tempo, estas duas entidades se mantiveram separadas, correspondendo a uma perspectiva social e educativa que encarava a evolução da criança e jovem como um processo sequencial de integração em contextos progressivamente mais abrangentes. Assim, a primeira integração da criança processava-se no contexto familiar restrito e, mais tarde, no contexto escolar, o qual se ia alargando conforme o aluno transitasse para níveis superiores de escolaridade, até se integrar, finalmente, no contexto comunitário, com a iniciação profissional e a passagem para a vida activa. Durante este processo, a relação entre a família e a escola era constituída por uma troca mínima de informações, que ocorria essencialmente quando se detectavam problemas. A inserção das crianças desde muito novas em creches e jardins de infância, a criação de ateliers de tempos livres e outras actividades extra-escolares para acompanhamento das crianças e ainda a influência dos media, entre outros factores, vieram modificar este quadro, obrigando a reequacionar a articulação entre os diferentes contextos educativos. Na década de setenta, o modelo ecológico (ou modelo embutido) veio modi- ficar esta visão, mostrando que os vários ambientes em que a criança se desenvolve não funcionam isolada ou sequencialmente, mas antes inte- gradamente. Segundo Bronfenbrenner (1979), o indíviduo é um sujeito activo que participa no seu próprio desenvolvimento, reorganizando-se e reestruturando-se constantemente, em interacção com o meio, num processo de influência mútua. O meio que se considera relevante para o processo de desenvolvimento do indivíduo, por sua vez, não se limita ao ao contexto imediato, mas engloba as interacções entre contextos próximos e outros, mais distantes do indivíduo, mas que vêm a ter influências sobre o primeiro. Este modelo perspectiva os diferentes contextos ou ambientes como um conjunto de estruturas concêntricas em que cada um se encaixa dentro de outro mais amplo, todas eles interagindo uns com os outros e com a criança, a qual, por sua vez, interage também com esses ambientes, num processo dinâmico de inter-influências e modificações mútuas. Assim, o ambiente rele- vante para a criança, por muito pequena que ela seja, não é apenas o mais imediato (a casa ou a escola), engloba também as inter-relações desses contextos com outros, mais abrangentes (o emprego dos pais, os serviços de saúde, os média). Bronfenbrenner (1979) define quatro níveis estruturais que compõem o ambiente ecológico: o microssistema, que pode ser definido como o ambiente imediato da criança (casa, escola, jardim, rua, igreja); o mesossistema, que inclui as relações entre os contextos em que a criança participa (interacções entre os elementos da família, entre a famfiia e a escola, entre a família e os arnigos); o exossistema, que engloba contextos em que a criança não participa activamente, mas no qual ocorrem situações que influenciam ou são influenciadas pelo contexto imediato em que a criança se encontra (o emprego dos pais, o conselho directivo da escola, o sistema dos meios de transporte) e o macrossistema, que se refere à cultura em que os restantes contextos se inserem, enquadrando valores, atitudes, procedimentos. Segundo este autor, o indivíduo, durante a vida, vai fazendo transições ecológicas entre diferentes contextos e essas transições, que podem ocorrer em qualquer das estruturas referidas, são a base do processo de desenvolvimento. Na década de oitenta, Epstein (1990, cit. in: Silva, 1997) desenvolveu uma tipologia de colaboração escola-família que decorre dà definição das áreas e funções de cada um dos contextos em que a criança se insere, prevendo no entanto, sub-áreas de sobreposição entre eles. Neste sentido, família e escola têmcampos específicos de actuação e obrigações básicas que lhes são próprias, mas também áreas de sobreposição da inter- venção. Assim, a farmlia participa nas acções promovidas pela escola (acções de apoio às famílias e acções respeitantes a currículos e progressão dos alunos); em trabalho voluntário na escola (participação em festas ou mesmo em actividades na sala de aula); na orientação e ajuda para a realização de trabalhos escolares em casa; e nos orgãos de administração da escola, nos termos da lei. Toda a investigação realizada sobre esta temática tem demonstrado que a colaboração entre a família e a escola tem repercussões positivas no aproveitamento escolar e comportamento dos a1unos, qualquer que seja o grau de ensino e o grupo social em que a família se insere. As experiências directas de implicação e envolvimento dos pais na vida escolar dos filhos, levadas a efeito quer através da solicitação de uma maior participação dos pais nas actividades da turma ou da escola (por exemplo, falando da sua actividade profissional), quer através de programas específicos de acompanhamento em casa (por exemplo, lendo duas vezes por semana para os filhos), mostram um aumento significativo dos resultados escolares destes alunos, em relação àqueles que não estiveram sujeitos a este tipo de trabalho (Marques, 1977). 1 19 Nos casos em que a articu- lação escola-família se tem mostrado particularmente difícil devido a questões étnico-culturais, instituiu-se a figura do mediador, indi- víduo pertencente à comu- nidade de origem de deter- minados alunos e com for- mação suficiente para de- senvolver a troca de infor- mações de forma eficaz. Entende-se por parceria "uma aliança Inrmal e um acordo tymtratual no senti- do de se trabalhar para ob- jectivos eomuns e de parti- lhar benefícios de um inves- timento matuo" (Epstein, 1992). Para além destas vantagens óbvias, o envolvimento dos pais na escola é hoje uma necessidade que decorre também da diversidade dos públicos que frequenta a escolaridade obrigatória. Quando as sociedades eram mais homogéneas, a continuidade entre os valores e as tradições culturais da escola e da família era assegurada de forma natural. Actualmente, para muitos grupos sociais, existe uma descontinuidade entre a escola, transmissora de uma cultura padrão, e as famílias com origens e hábitos diferentes, o que provoca dificuldades de adaptação e de integração em alguns alunos, levando-os a rejeitar ou ignorar quer o tipo de informações, quer o tipo de comportamentos, que a cultura escolar exige e valoriza5. Neste sentido, nas últimas décadas, as concepções e as práticas têm evoluído com vista a uma maior articulação entre estas duas entidades, procurando-se, por uma lado, um efectivo envolvimento das famílias na situação escolar dos filhos e, por outro, um maior conhecimento, compreensão e acompanhamento da escola em relação às situações sociais e familiaresdos alunos. Em Portugal, como noutros países, assistiu-se a um reforço da colaboração dos pais na escola, decorrente, por uma lado, da constatação das vantagens pedagógicas que daí advêm e, por outro, das reivindicações dos próprios pais em relação ao seu direito de participação na organização escolar, como contribuintes e utilizadores de um serviço público. Assim, os pais participam hoje, através das associações próprias, na definição da política educativa, na gestão e funcionamento da escola e são parceiros activos nas decisões relativas à escolaridade dos seus filhos. A noção de parceria6 escola-fanulia desenvolvida nas últimas décadas, implica a noção de educação participada por todos os agentes educativos. Junto da escola, os pais desenvolvem: uma acção individual, que se exerce directamente junto do educador, professor ou director de turma e se relaciona directamente com o acompanhamento do percurso escolar do seu filho (reuniões, apoio em casa), implicando também o envolvimento em actividades realizadas em colaboração (festividades, visitas de estudo, etc.); uma acção social e cívica, que se exerce nos orgãos de gestão da escola (através dos representantes dos pais) e se relaciona com a co- responsabilização pelas orientações da escola, com vista à articulação das práticas educativas (Barroso, 1995). Em relação ao primeiro tipo de acção, uma das formas de participação mais usada é a reunião entre o professor (ou educador ou director de turma) e os pais. No entanto, estas reuniões nem sempre têm os resultados previstos, o I tO que se deve, em grande parte, a falhas no planeamento e orientação destas. Efectivamente, muitos docentes apresentam dificuldades em seleccionar, por exemplo, os tópicos que devem ser abordados em reuniões gerais e aqueles que só podem ser referenciados em reuniões individuais, o que dá origem a situações de mal-estar e a problemas de comunicação dificeis de ultrapassar (por exemplo, abordando, em público, as dificuldades escolares ou o comportamento de determinado aluno). Nesta perspectiva, apresentamos no quadro seguinte as várias etapas a considerar no planeamento, orientação e avaliação das reuniões com os pais, individuais e/ou colectivas. Quadro 7 Etapas na realização de uma reunião de pais A) Preparação da reunião 1. Notificação das famílias ( inclui assegurar uma resposta) 2. Planeamento da reunião - de reunião geral • preparar uma OT simultâneamente estruturada, completa e flexível • consultar (ou preparar com) os outros profissionais impli- cados • planear cuidadosamente a abordagem dos tópicos mais sensíveis ou perturbadores de reunião individual • seleccionar o que pode ser abordado em reunião geral e o que é de carácter individual • rever os registos efectuados sobre a criança assegurar que foram avaliadas as áreas mais problemáticas recolher exemplos de trabalhos da criança 3. Preparação do ambiente físico (escolher o local mais apropriado — providenciar um mínimo de conforto e de privacidade) (cont.) 141 B) Actividades da reunião 1. Desenvolvimento de um ambiente propício assegurar algum tempo de contacto informal antes do início da reunião apresentar os participantes uns aos outros agradecer a participação dos pais 2. Troca de informações em reunião geral Relembrar o objectivo da reunião e as questões a debater, fornecendo alguma informação Moderar o debate de forma a que: • todos se possam expressar • os tópicos se mantenham de interesse geral • não se entre em diálogo Intervir no debate em relação a: • questões pelas quais o prof. é directamente responsável • questões pelas quais o prof. é indirectamente responsável - em reunião individual Fornecimento de informações pelos pais • fazer perguntas abertas em número suficiente • usar expressões faciais e posturais incentivadoras da comunicação • pedir para clarificar questões pouco explícitas Fornecimento de informações aos pais • falar de forma tão positiva quanto possível sobre a criança • usar uma linguagem clara e acessível • recorrer a exemplos para clarificar (con t.) 1 42 3. Síntese da reunião rever os pontos mais importantes assegurar quem é o responsável por cada uma das medidas pensadas finalizar a reunião com uma nota positiva C) Avaliação e consequências da reunião 1. Fazer uma acta ou memorando da reunião 2. Fazer uma síntese da reunião para o(s) aluno(s) 3. Partilhar os resultados com outros profissionais 4. Dar seguimento às decisões tomadas Adaptado de Turnbull, A. P. e Turnbull, H. R. (1990) Quanto à segunda forma de acção atrás mencionada (acção social e cívica), esta implica o envolvimento dos pais na orientação e gestão da escola, através da sua representação formal nos orgãos competentes para o efeito. A noção de parceria escola-famíl ia leva ao desenvolvimento de formas de gestão participativa, com níveis de concretização diversificado s e ajustados às particularidades de cada contexto escolar. No entanto, este processo de implicação directa dos pais na escola não tem sido fácil, sobretudo nos países que não tinham tradições a este nível. Para tal tem contribuído a falta de condições dadas aos pais para que a sua participação seja efectiva (horários de reuniões, por exemplo), a ausência de participação destes nas associações (o que reduz a representatividade dos elementos eleitos), o desconhecimento de muitos sobre o modo como podem intervir na escola e ainda os conflitos de competências entre pais e professores que, por vezes, se estabelecem. Em Portugal, a Lei de Bases dos Sistema Educativo e a posterior legislação relativa à autonomia das escolas 7 , a que já fizemos referência neste capítulo, Norneadamente o Decre- to-Lei n.° 172191, entre ou- tros. 143 prevêm a participação dos pais nos orgãos de gestão, através dos seus representantes, e garantem o direito dos pais a conhecer e acompanhar o percurso escolar dos filhos. Estes direitos, consagrados em relação a todas as famílias, são particularmente importantes no caso dos alunos com necessidades educativas especiais e sugerem uma mudança efectiva nas práticas desenvolvidas com estes alunos e com as suas famílias. De facto, a gravidade de algumas problemáticas, sobretudo quando existiam deficiências, levava a que os pais delegassem nos especialistas (médicos, psicólogos, terapeutas, professores de educação especial) as decisões sobre o encaminhamento pré-escolar, escolar e profissional dos filhos. Por outro lado, havia uma forte tendência para a culpabilização dos pais, sobretudo no caso de certas deficiências (como o autismo ou os problemas emocionais graves), o que aumentava ainda mais a ruptura entre as famílias e as instituições educativas. A prática era a da elaboração de programas para o atendimento a alunos com necessidades educativas especiais pelos profissionais, os quais se reuniam com os pais apenas para fornecer orientações sobre o que deveriam fazer com as crianças, em casa, não partilhando com estes as opções tomadas. Tratava-se, assim, de uma abordagem do tipo tutelar, em que os especialistas prescreviam programas educativos para as crianças e as suas famílias, sem consultarem estes últimos. Esta ausência de comunicação levava a que muitas das orientações fornecidas consistissem em normas gerais relativas às características de determinado tipo de deficiência, não tendo em conta a situação e as condições concretas de cada família. Como resultado, muitas das orientações dadas aos pais não tinham qualquer viabilidade prática no quadro de vida destes. No art.° 18° do Decreto- Lei 319/91 afirma-se: "1 - A avaliação do aluno ten- dente à aplicação de qual- quer medida do regime edueativo especial carece da anuência expressa do encar- regado de educação. 2 - Os e ncarregados de educação devem ser convovados para participar na elaboração e na revisão do plano educativo individual e do programaeducativo." Por sua vez, o Despacho Con- junto 195/97 considera a família como interveniente nos Apoios Educativos, desi g nadamente através da sua implicação no projecto educativo em que o seu fi- lho se encontra inserido. Actualmente, os diplomas relativos ao atendimento a alunos com necessidades educativas especiais consagram o direito dos pais a participar em todas as decisões que digam respeito aos seus filhos, sendo os pais considerados como um recurso fundamental no trabalho com estes alunos8. Assistiu-se também a um alargamento dos interlocutores significativos, passando a considerar-se a família (o agregado familiar com quem o aluno tem relações próximas) e não apenas os pais (sendo que, na maior parte dos casos, a mãe era a única interlocutora da escola). Este aspecto é particularmente relevante no caso dos alunos com deficiências que lhes limitam a autonomia pessoal (como é o caso de algumas formas de deficiência motora e da mu ltideficiência), alunos que requerem atenção e cuidados de todos os elementos do agregado familiar, nomeadamente os irmãos e os avós. Por outro lado, a família deixou de ser considerada como urna entidade abstracta para a qual se prescreviam formas de intervenção padrão, iguais para todas as 114 famílias com filhos portadores de determinada deficiência, e passou a ser tida em conta a situação e condições específicas de cada uma, procurando-se as melhores formas de cada família se organizar para apoiar a criança ou jovem com necessidades educativas especiais. Como consequência, a família deixou de ser analisada por confronto com um modelo idealizado e considerado desejável, face ao qual todas as famílias apresentam, inevitávelmente, discrepâncias e carências, durante muito tempo percepcionadas pelos especialistas como patologias ou disfuncionamentos. Actualmente, pelo contrário, procura-se encarar cada agregado familiar na sua singularidade, tendo em conta que a existência de crianças ou jovens com necessidades especiais provoca nestas famílias, mais do que nas outras, factores de "stress", devido aos problemas que quotidianamente se impõe resolver. Neste sentido, o papel dos especialistas (entre os quais os professores e educadores) não se pode limitar ao fornecimento de orientações gerais e à exigência de determinado tipo de cuidados que a família deve prestar à criança ou jovem com necessidades especiais. De facto, a própria família deve ser acompanhada através de um processo devidamente fundamentado e planeado, para a definição do qual é necessário conhecer e compreender alguns aspectos fundamentais, designadamente: as características da criança ou jovem com necessidades especiais (o tipo e grau de problema ou deficiência e as implicações destes na autonomia pessoal), as características de cada familia (estrutura, tipo de interacções, condições sócio económicas e culturais), a idade do elemento com necessidades especiais (a qual dá origem a diferentes preocupações familiares, consoante o ciclo de vida), - a aceitação e apoio informal com que a família conta no meio em que se insere. Assim, o primeiro factor a considerar será a problemática da criança e as consequências desta na organização familiar. Com efeito, um fílho com problemas graves e, sobretudo, com uma deficiência, gera inevitavelmente desiquilíbrios quer no grupo familiar, quer em cada um dos seus elementos, individualmente considerados. As reacções dos pais e restantes elementos da família ao nascimento de um filho deficiente ou ao conhecimento de uma problemática específica encontram-se amplamente descritas na literatura especializada, designadamente o choque inicial do conhecimento da deficiência OU perturbação e a ambivalência de sentimentos que se seguem: culpa, vergonha, rejeição, negação, superprotecção, auto-abdicação. Durante muito tempo, estas 145 reacções inciais foram encaradas pelos especialistas como desajustamentos e incapacidades das famílias para lidar com a realidade da deficiência e, nesse sentido, corno etapas que tinham que ser rapidamente ultrapassadas. Actualmente, reconhece-se que a aceitação da deficiência de um bebé longamente idealizado é um processo difícil e que, para além dos problemas psicológicos que pode criar nos pais, implica efectivamente situações de complexa resolução no quotidiano das famílias. De facto, as necessidades das crianças com deficiências acentuadas podem ser um factor de "stress" agravado, uma vez que: podem criar dificuldades no quotidiano familiar, devido à falta de autonomia da criança, decorrente do tipo de deficiência; podem implicar uma diminuição do nível de vida, devido aos custos de saúde, terapia e educação que a criança requer; podem causar problemas de isolamento da família, devido às dificuldades de mobilidade das crianças pelas características da deficiência; - podem criar problemas emocionais em um ou vários dos elementos da família. Neste sentido, os profissionais tentam sobretudo ajudar as famílias a resolver as situações práticas, de modo a que a criança deficiente se possa enquadrar nas rotinas e condições de vida de cada família sem se tornar um peso excessivo que, por sua vez, irá agravar os sentimentos iniciais de ambivalência. Para tal, é necessário conhecer as características próprias de cada família, que decorrem, antes de mais, de factores estruturais: número de elementos, contexto económico e cultural, características dos elementos que a constituem, meio geográfico em que habitam. A adaptação da família à deficiência de um dos seus elementos depende também destes factores, uma vez que acapacidade de resposta às necessidades da criança não é igual numa família monoparental, numa família só com esse filho ou numa família numerosa; no meio rural ou em meio suburbano; num agregado com boas condições económicas ou sem elas. Para além da estrutura de cada família, é necessário ainda ter em conta as interacções nela existentes, isto é, a forma como se relacionam entre si os diversos elementos e o modo como a existência de urna criança deficiente altera a dinâmica dessas interacções. Com efeito, em cada família existem subsistemas: a relação entre o casal, a relação entre pais e filhos, a relação entre os irmãos e a relação com a família alargada e os amigos. Ao contrário das perspectivas anteriores sobre trabalho com os pais, que tendiam a exigir que estes organizassem as suas vidas a partir das necessidades do filho deficiente, procura-se, hoje, que essas necessidades sejam atendidas com o auxílio de todos os elementos da família, mas sem que estes deixem de ter a sua vida própria e interacções privilegiadas entre si. Por outro lado, há ainda a considerar as funções assumidas por cada um dentro da estrutura familiar. Os técnicos e especialistas tendem a intervir a este nível ainda com base no conceito de família tradicional, em que cada elemento tinha papéis e funções pré-definidos socialmente. No entanto, cada vez mais existem estruturas familiares diferentes e, mesmo nas famílias com estruturas tradicionais, os papéis e as funções de cada um não correspondem, for- çosamente, ao esteriótipo corrente. No trabalho com as famílias, é necessário aceitar essas diferenças de funcionamento e perceber quem é que, no seio de cada família, poderá desempenhar cada uma das funções que são necessárias ao acompanhamento da criança deficiente, sem sobrecarregar apenas um dos elementos. Por sua vez, as necessidades da criança ou jovem variam, também, consoante a sua idade, dando origem a tipos diversos de preocupações familiares. Turnbull e Turnbull (1990) apontaram os vários ptoblemas que se colocam aos pais e irmãos dos indivíduos com deficiência, conforme os diferentes ciclos de vida em que estes últimos se encontravam. Com efeito, embora os primeiros anos possam ser emocionalmente mais dolorosos para as famílias, à medida que a criança cresce vão-se colocando problemas mais complexos de resolver,sobretudo quando, como em Portugal, não existe um sistema de apoio estruturado para adultos com deficiências graves. Nos primeiros anos de vida da criança, as principais preocupações dos pais são, geralmente, a obtenção de um diagnóstico correcto, a procura de serviços de orientação e encaminhamento e a reestruturação da vida quotidiana com um bebé deficiente. Por outro lado, para os irmãos, será necessário aceitar uma eventual menor atenção dos pais e lidar com os medos e concepções erróneas sobre a deficiência e as suas causas. Na idade escolar, os pais terão que adaptar-se às implicações educativas da deficiência e estabelecer rotinas nas funções familiares, tendo em conta as necessidades da criança, não só em casa, mas também nas deslocações para os vários tipos de atendimento que este requer. Já os irmãos terão que aprender a assumir algumas responsabilidades face à criança com deficiência ou problemas específicos, a aceitar uma eventual limitação do orçamento familiar devido às exigências do atendimento que este requer e, provavelmente, a lidar com a integração do irmão na escola ou nos espaços de lazer. Durante a adolescência, os pais terão que encarar todos os problemas normais desta fase, mas agravados pela deficiência do filho, que muitas vezes provoca 47 isolamento e afastamento dos pares e, em consequência, problemas emocionais agravados. Nesta fase, os pais adaptam-se à ideia que a deficiência é permanente e terão que começar a procurar o encaminhamento vocacional e/ou profissional mais adequado para os filhos. Por seu lado, é uma fase difícil para os irmãos com idades semelhantes, que têm que lidar com a sua própria adolescência e as implicações da deficiência do irmão na sua vida socia1, o que pode provocar fenómenos de marginalização, rotulação, rejeição. Com a entrada na vida adulta do seu filho, os pais preocupam-se sobretudo com o futuro deste, a nível profissional, pessoal e social e, nos casos de dependência acentuada, com o planeamento da situação de atendimento quando já não puderem ser eles a apoiar o filho. Esta preocupação face ao futuro manifesta-se também nos irmãos do jovem com deficiência, que têm que equacionar as suas próprias escolhas tendo em conta as necessidades de apoio daquele. Um outro factor a ter em conta no trabalho com as famílias é o tipo de apoio informal (não especializado) com que esse agregado pode contar, designadamente a família alargada, os amigos, os vizinhos, os apoios na comunidade. De facto, verifica-se uma tendência para o isolamento cm muitas das famílias cujos filhos apresentam deficiências acentuadas, em parte pela dificuldade em partilhar com os outros um problema que estes não sentem, em parte pela incapacidade ou ignorância dos outros para lidar com uma situação complexa, perante a qual se sentem impotentes. No entanto, vários estudos mostram que as famílias que melhor se organizam face à problemática do filho são aquelas que contam com o apoio efectivo de uma rede informal de amigos e familiares, a qual, para além de ajuda efectiva a nível prático, contribui para a percepção de ser aceite socialmente. Em síntese, as famílias dos alunos com necessidades educativas especíais (sobretudo daqueles que têm deficiências acentuadas) têm dificuldades acrescidas em relação às outras fanulias e os profissionais de educação podem ajudar a minimizar alguns desses problemas, se tiverem em conta as características e necessidades específicas de cada agregado. Segundo Turnbull e Turnbull (1990), as necessidades de apoio das famílias (avaliadas, como vimos, a partir das suas características estruturais e relacionais, dos cuidados que o filho requer em determinada fase da sua evolução e dos apoios informais disponíveis) podem ocorrer em seis grandes áreas: na educação do filho, área privilegiada de intervenção dos professores e educadores, devendo estes partilhar com os pais as decisões de encaminhamento e orientação escolar do aluno com necessidades educativas especiais, através de um processo de efectiva colaboração, 148 - no relacionamento com o filho, uma vez que a aceitação do problema e a capacidade de manter expectativas positivas (mas realistas) são fundamentais para que a criança ou jovem se desenvolva de forma emocionalmente equilíbrada e aprenda a lidar com a situação; na resolução de situações quotidianas, sobretudo no caso de filhos com deficiências que implicam limitações no funcionamento autónomo e necessitam de cuidados constantes, podendo os profissionais ajudar a encontrar soluções que não tornem excessivo o peso dos cuidados diários que a criança ou jovem requer; na socialização do filho, devendo os profissionais desenvolver na criança ou jovem competências a este nível e proporcionar-lhe oportunidades para a interacção com pares, necessária ao equilíbrio pessoal e familiar; na socialização da família, já que a presença de um filho com uma deficiência acentuada pode reduzir de forma drástica a mobilidade dos pais e, portanto, o seu espaço próprio de socialização e lazer, podendo os profissionais incentivar as famílias a procurar soluções alternativas viáveis na comunidade; em termos económicos, uma vez que alguns tipos de deficiência exigem despesas adicionais elevadas, podendo os profissionais prestar indicações úteis à família sobre o tipo de apoio social existente. Turnbull e Turnbull (1990) defendem que qualquer intervenção a nível familiar deve basear-se numa abordagem sistémica da família (tendo em conta os factores antes enunciados) e dos apoios sociais com que esta pode contar. A principal preocupação desta abordagem é de tornar a família independente do apoio especializado dos técnicos, desenvolvendo em cada sistema familiar a aquisição de competências para a resolução de problemas, para a resposta às necessidades e para a realização de projectos de forma autónoma. Neste processo, há que contar com a rede informal de recursos humanos da comunidade: família alargada, amigos, vizinhos e ainda grupos de pais de crianças ou jovens com os mesmos problemas. Os primeiros contribuem para evitar o isolamento e a solidão característicos de muitas famílias com deficientes graves e fornecem diferentes modelos de funcionamento familiar; o último visa colocar estas famílias em contacto com outras que também tenham passado ou estejam a passar pelos mesmos problemas, e tem-se revelado fundamental para a reestruturação interna de cada agregado famíliar, contribuindo para a superação de problemas quotidianos de forma mais eficaz que os conselhos ou orientações dos técnicos. I 19 Assim sendo, os objectivos da intervenção junto de famílias com crianças/ jovens deficientes ou com problemáticas que requerem cuidados especiais podem ser definidos do seguinte modo: - fornecer informação adequada à situação da criança e da família; prestar apoio em termos estruturantes e com vista à autonomização das famílias em relação aos serviços; - assegurar a ajuda de outros pais, nomeadamente promovendo reuniões entre famílias que tenham que lidar com o mesmo tipo de problemas. Professores e educadores terão, portanto, que desenvolver capacidades comunicacionais e relacionais que lhes permitam desenvolver uma interacção positiva com qualquer tipo de família de alunos com necessidades educativas especiais, contribuindo para criar nesta a autonomia e competência necessárias para apoiar e acompanhar o seu filho. Na verdade, apesar de muitos profissionais se queixarem amiúde da falta de participação dos pais na escola ou instituição de educação especial, muitas vezes são eles próprios que, com o tipo de interacção que desenvolvem, afastam a família dos alunos com necessidades educativas especiais: por um lado, devido a uma centração exagerada na sua qualidade de especialistas, não permitindo o estabelecimento de uma verdadeira parceria; por outro, devido a uma excessiva normatividade, que não tem em conta as condições concretasde cada agregado e tende a exigir demasiado dos pais. Para envolver os pais nas várias fases do processo educativo do filho, os profissionais terão ainda que desenvolver competências de colaboração e negociação que lhes permitam partilhar decisões relativas aos alunos. Este não é um processo simples, uma vez que nem sempre as famílias e os profissionais têm as mesmas perspectivas e expectativas em relação às crianças. Por outro lado, a maior parte dos professores e educadores (de apoio ou de educação regular) sente-se mais preparada para trabalhar com os alunos do que com as suas famílias, o que decorre, em parte, do tipo de formação que teve e, em parte, da ausência de hábitos de colaboração a este nível. Assim sendo, é importante tomar consciência do percurso que ainda é necessário percorrer com vista ao estabelecimento de uma efectiva parceria escola-família. Num estudo realizado em Portugal, Pereira (1996) concluiu que a maior preocupação das famílias dos alunos com necessidades educativas especiais se relacionava com o futuro dos seus filhos, designadamente no que respeita a apoios sociais e educativos, considerando que não têm informação suficiente sobre esse tipo de serviços. O mesmo estudo mostra que esta preocupação dos pais não é percebida como tal pelos professores e educadores de apoio, os 150 quais se centram essencialmente na resolução dos problemas do presente, não procurando, por isso, fornecer a informação que os pais requerem. Para além da necessidade de informação, os pais referem ainda necessidades de apoio efectivo na resolução das situações diárias, aspecto que surge de forma mais acentuada nas famílias monoparentais. São também estas famílias que mais valorizam os serviços de apoio existentes na comunidade e as que mais recorrem a eles. Por sua vez, são os agregados numerosos (10 ou mais elementos) que apresentam maiores dificuldades de cariz económico. Face aos resultados deste estudo (que se aproximam dos resultados de estudos realizados noutros países), parece evidente que os professores e educadores, tenham ou não o apoio de uma equipa pluridisciplinar, não se devem responsabilizar apenas pelo programa educativo do aluno, mas constituir também um recurso privilegiado para a sua família, nomeadamente fornecendo informação sobre os serviços de apoio (necessários no presente e possíveis no futuro), a que a famtlia pode recorrer na comunidade e ajudando a melhor conhecer e lidar com a situação do seu filho. Em síntese, a participação dos pais na escola é, não apenas um direito social, como também uma necessidade da própria escola com vista à promoção do sucesso escolar de cada aluno. Neste contexto, toma especial relevância o envolvimento escolar dos pais cujos filhos têm necessidades educativas especiais, já que estes requerem uma maior continuidade entre o contexto escolar e o contexto familiar. Por outro lado, as famílias destes a1unos enfrentam situações complexas, que necessitam quer de informação adequada à situação, quer de acompanhamento e apoio efectivos. 151 Actividades 1. "No início do ano, sentamo-nos e fazemos um plano global para as três turmas do 40 ano e decidimos as actividades que vamos desenvolver em conjunto. Depois, cada uma faz as modificações que considera necessárias para a sua turma. Ao longo de cada período escolar vamos trocando impressões sobre o que fazemos e sobre as dificuldades que vamos tendo." (Extracto da entrevista a uma professora do 1° Ciclo) Face ao extracto da entrevista que se apresenta, refira: a) as vantagens da colaboração entre professores; b) os factores que influenciam a eficácia do trabalho colaborativo. Imagine que, na sua sala de aula, aparecia, no início do ano lectivo, um aluno com problemas motores. Que tipo de trabalho poderia desenvolver com o professor de apoio educativo? • "60.° —Os pais são parceiros privilegiados no que diz respeito às necessidades educativas especiais dos seus filhos e, na medida do possível, deve-lhes ser dada a escolha sobre o tipo de resposta educativa que pretendem para eles. 61. 0 — Deve ser desenvolvida uma parceria cooperativa e de ajuda entre adrninistradores escolares, professores e pais. Os pais devem ser encorajados a participar nas actividades educativas em casa e na escola (onde podem observar técnicas eficazes e aprender como organizar actividades extra-escolares), assim como a orietztar e apoiar o progresso escolar do seu filho". (Artigos 60.° e 61.0 da Declaração de Salamanca, 1994) Comente as implicações destes dois artigos na prática profissional dos docentes, focando: a) os benefícios, para o aluno, da colaboração entre as escolas e as fanílias; b) a noção de parceria escola-família; c) o tipo de necessidades mais frequentes das famílias cujos alunos apresentam necessidades educativas especiais. 1 5") Bibliografia BARCKLEY, R. 1981 Learning Disabilities. In: Mash, J. e Terdal, L. (Edt.). Behavioral Assessment of Childhood Disorders. New York: The Guilford Press. AINSCOW, M. (ed.) 1991 Effective schools for all. London: David Fulton Publishers. AINSCOW, M., PORTER, G. e WANG, M. 1997 Caminhos para as escolas Inclusivas. Lisboa: Instituto de Inova- ção Educacional. ARENDS, R. I. 1995 Aprender a Ensinar. Lisboa: Editora Mcgraw-Hill. BAILEY, J. 1998 Medical and Psychological Models in Special Needs Education. In: Clark, C.; Dyson, A.; Milward, A. (Eds.). Theorising Special Education. Londres: Routledge. 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