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RCC-02 Carolina Ferreira -LUXAÇÃO GLENOUMERAL Um homem de 24 anos de idade comparece ao pronto-socorro depois de ter caído sobre o ombro quando jogava futebol. Fora isso, ele é um homem saudável que não teve problemas prévios no ombro. O paciente não consegue abduzir ou flexionar o braço ativamente por causa da dor. Ele está mantendo o braço em uma posição com pequena rotação externa e abdução. Há uma protuberância inferior palpável na apófise coracoide. A sensibilidade na distribuição do nervo axilar está intacta e o exame físico neurovascular é normal. PONTOS IMPORTANTES -Homem, 24 anos, comparece ao PS depois de ter caído sobre o ombro quando jogava futebol→ Luxação traumática -O paciente não consegue abduzir ou flexionar o braço ativamente por causa da dor, ele está mantendo o braço em uma posição com pequena rotação externa e abdução→ luxação anterior -Há uma protuberância inferior palpável na apófise coracoide→ sinal da dragona LISTA DE PROBLEMAS 1. Queda sobre o ombro quando jogava futebol 2. Ñ consegue abduzir, flexionar o braço 3. Mantém o braço em posição c/ pequena rotação externa e abdução 4. Protuberância inferior palpável na apófise coracoide HIPÓTESES DIAGNÓSTICAS 1. Luxação glenoumeral -O ombro é a articulação + comumente luxada do corpo, 90% na direção anteroinferior, é uma articulação universal, pois possui a > mobilidade de todas as articulações do sistema musculoesquelético. O mecanismo ocorre por trauma direto ou indireto, sendo o 2º o + comum, c/ o ombro em abdução, extensão e rotação externa -Em + de 95% das luxações do ombro, o osso do braço é empurrado p/ frente, ficando p/ fora da articulação (luxação anterior). Mas ocasionalmente, ele é empurrado p/ trás ou p/ baixo. Geralmente, uma luxação p/ trás (luxação posterior) ocorre quando uma pessoa tem uma convulsão ou recebe um choque elétrico (por exemplo, numa lesão por raio). As luxações inferiores são raras e geralmente óbvias. A maioria das pessoas c/ uma luxação inferior seguram o braço por cima da cabeça, tipicamente c/ o antebraço apoiado na cabeça. -O osso pode ser empurrado totalmente p/ fora da articulação, que é chamado luxação completa ou parcialmente chamado luxação parcial (subluxação). -O ombro pode ser deslocado quando uma força potente (como um golpe súbito) puxar, empurrar ou torcer o ombro p/ fora, p/ cima ou p/ trás. Geralmente, o ombro é puxado e girado p/ fora -As causas comuns são lesões provocadas por esportes (como bloquear um lance ao jogar basquete), um acidente de carro e quedas. -A luxação do ombro pode ser: RCC-02 Carolina Ferreira • Traumática: são geralmente unilaterais, tratadas c/ cirurgia após o 2º episódio de luxação, sendo o resultado cirúrgico considerado bom; apresentam história de trauma na 1ª luxação; ñ estão envolvidas c/ hipermobilidade articular e acometem + o sexo masculino. • Atraumática: ñ têm história de trauma na 1ª luxação; são geralmente bilaterais; acometem + o sexo feminino, sendo o tratamento de escolha conservador (fisioterapia e fortalecimento muscular). Estão relacionadas a pacientes que apresentam hipermobilidade articular. Quando indicado, o tratamento cirúrgico tem maus resultados. -Nesse estudo iremos abordar + sobre a luxação traumática SINAIS E SINTOMAS -O ombro luxado pode ficar visivelmente fora do lugar ou parecer distorcido -A área ao redor da articulação pode ficar inchada ou c/ hematomas, a dor costuma ser intensa -As pessoas ñ conseguem ou ñ querem afastar o braço do corpo -As luxações do ombro também podem causar dormência do músculo que cobre o ombro (o deltoide) -O traumatismo da luxação pode provocar espasmos nos músculos do ombro, geralmente piorando a dor. -Luxação anterior: geralmente o ombro está doloroso ao exame físico c/ espasmo muscular e limitação funcional. Pode-se palpar a cabeça umeral anteriormente. O braço geralmente repousa em ligeira abdução e rodado externamente apresentando na face póstero-lateral uma depressão abaixo do acrômio onde deveria estar a cabeça umeral descrita como “sinal da dragona”. Podem ocorrer parestesias e hipoestesia na região lateral do deltoide, bem como fraqueza deste músculo, presença de hematomas e cianose periférica, sendo de suma importância a avaliação neurovascular pela possibilidade de lesão da artéria e nervo axilar. -Luxação posterior: pode ser difícil reconhecê-la pela falta de uma deformidade marcante no ombro. Os achados incluem limitação da rotação externa e da elevação do braço, proeminência e arredondamento do braço afetado em comparação c/ o lado contralateral, achatamento do aspecto anterior do ombro c/ o processo coracóide proeminente. Ocorre limitação da movimentação devido à fixação da cabeça umeral na borda glenoidal posterior por força da contração muscular ou empalamento da cabeça umeral na borda glenoidal. Anormalidades da simetria podem ser + bem visualizadas por cima do ombro colocando-se em pé atrás do paciente. EXAME FÍSICO RCC-02 Carolina Ferreira -Ao exame físico, o paciente apresenta formato quadrado do ombro, devido à proeminência do acrômio (sinal “da dragona de soldado”), c/ massa palpável anteriormente que corresponde à cabeça e à limitação funcional do membro -O exame neurovascular deve ser realizado, uma vez que há risco de lesão do nervo axilar. Testes (A) de abdução do ombro e (B) de sensibilidade do nervo axilar DIAGNÓSTICO -Diagnóstico: exame físico + Rx EXAMES DE IMAGEM -A avaliação radiológica deve ser feita por radiografias AP, perfil de escápula e axilar p/ confirmação do diagnóstico. É importante observar se há fratura associada à luxação. C/ a recorrência da luxação (recidivante), pode formar-se um defeito na região posterolateral da cabeça umeral (afundamento da cabeça), conhecida como lesão de Hill-Sachs, que resulta do impacto da cabeça na borda anterior da glenoide -A avulsão na borda anterior da glenoide é chamada de lesão de Bankart e também pode aparecer no 1º episódio de luxação. Entre idosos, pode haver associação à lesão dos músculos estabilizadores do ombro, conhecidos como manguito rotador. Os músculos do manguito rotador são supraespinal, infraespinal, subescapular e redondo menor. A cabeça longa do bíceps braquial também contribui p/ a estabilização do ombro e é considerada, por alguns autores, parte do manguito. RCC-02 Carolina Ferreira (A a E) Luxação do ombro e (F) radiografia demonstrando a lesão de Hill- Sachs (seta) TRATAMENTO -Tratamento: manobras p/ colocar a articulação no lugar+ tipoia/ bandagem p/ imobilizar a articulação -A luxação traumática recidivante é + comum em jovens e deve ser tratada c/ cirurgia (optamos por cirurgia após o 2º episódio de luxação, c/ história de trauma no 1º). -O tratamento consiste na redução incruenta, são conhecidas várias manobras, e as +utilizadas são de tração-contratração, Stimson, Milch e Kocher -A manobra de Hipócrates tem somente valor histórico e ñ é + utilizada, já a tração- contratração é a + utilizada -Antes desta manobra, as pessoas muitas vezes recebem um sedativo, analgésicos fortes e/ou injeção de anestésico na articulação, mas elas permanecem conscientes -Muitas técnicas, como as técnicas Davos ou Hennepin, podem ser empregadas sem o uso de sedativos, mas elas exigem tempo (vários minutos) até que os músculos afetados relaxem o suficiente p/ que o ombro possa ser reduzido. -Há várias maneiras de recolocar o ombro no lugar,que incluem: → Tração e contratração: a pessoa é mantida imóvel enquanto o profissional puxa o braço afetado para baixo e para fora. → Rotação externa: um exemplo é a técnica de Hennepin. O profissional flexiona o braço no cotovelo e, em seguida, lentamente roda o braço distanciando-se do corpo → Manipulação da escápula (escapular): esta manobra pode ser feita c/ a pessoa sentada ou deitada. O profissional move a extremidade inferior da escápula em direção à coluna. Um assistente puxa, rotaciona e pode aplicar uma pressão suave ao braço. → Técnica (de massagem) de Cunningham: o profissional se senta em frente à pessoa e coloca a mão da pessoa no ombro do profissional. Em seguida, ele massageia os músculos da parte superior do braço e do ombro e pede à pessoa p/ relaxar e encolher os ombros de volta, tentando fazer c/ que as escápulas encostem uma na outra. A massagem ajuda os músculos a relaxarem, p/ que a pessoa possa ter o ombro encaixado de volta no lugar. → Técnica de Davos (autorredução): a pessoa senta em uma cama, dobra o joelho no lado do ombro afetado e coloca o pé sobre a cama. A pessoa fecha as mãos na frente do joelho, c/ os cotovelos próximos à coxa, e o profissional envolve as mãos da pessoa c/ uma tira elástica, amarrando as mãos uma à outra e ao joelho, p/ manter as mãos na posição. O profissional RCC-02 Carolina Ferreira então senta-se sobre o pé da pessoa e a instrui a inclinar a cabeça p/ trás. Ao inclinar a cabeça p/ trás, a pessoa exerce pressão sobre o ombro luxado, o que ajuda a colocá-lo de volta ao lugar. → Técnica de Stimson (pesos pendurados): a pessoa se deita de bruços sobre uma cama, c/ o braço do ombro luxado pendurado na lateral da cama. O profissional prende pesos ao pulso da pessoa. Depois de cerca de 30 min, os músculos do ombro geralmente relaxam o suficiente p/ que o ombro seja recolocado no lugar. → Técnica de FARES (rápida e confiável): a pessoa se deita de barriga p/ cima c/ o cotovelo estendido e o braço junto ao corpo. O profissional segura o braço da pessoa na altura da mão ou do pulso e afasta lentamente o braço do corpo da pessoa. Ao mesmo tempo, o profissional move o braço da pessoa p/ cima e p/ baixo em movimentos curtos, lentos e oscilantes de cima p/ baixo. Estes movimentos ajudam os músculos a relaxar. -Depois da redução, a articulação é imediatamente imobilizada c/ uma tipoia e bandagem. Em pessoas c/ mais de 40 anos de idade, a tipoia e a bandagem são usadas durante menos tempo do que em pessoas + jovens p/ estimular o movimento e ajudar a prevenir complicações (por exemplo, ombro congelado). (A) Método de Hipócrates e (B) tração-contratração -Luxação Anterior Traumática Aguda: realiza-se redução fechada c/ anestesia + manobras + radiografias de controle em AP, perfil escapular e axilar p/ confirmar o realocamento articular adequado ou surpreender fraturas ainda ñ diagnosticadas ou provocadas durante o procedimento. Novamente realiza-se a avaliação neurovascular -Luxação Posterior Traumática Aguda: realiza-se redução fechada c/ uso de relaxantes musculares e analgésicos, inicialmente promovendo desimpactação da cabeça umeral da borda glenoidal através de suave rotação interna e tração lateral. Como alternativa pode-se realizar tração e pressão medial aplicadas na extremidade superior aduzindo o úmero proximal p/ desbloqueá-lo a partir da borda posterior da glenóide. Após efetua-se a rotação externa reduzindo a luxação do ombro. Realiza-se novas radiografias p/ controle pós-redução. O tratamento pós-redução é focado em otimizar a estabilização do ombro, sendo importante a proteção e reabilitação muscular. A imobilização em rotação externa é a preconizada pois possibilita cicatrização o + próximo do ideal do ligamento roto e do complexo capsulo-labral avulsionado. RCC-02 Carolina Ferreira -Tratamento Cirúrgico: está indicado nas seguintes situações: → Casos de luxações irredutíveis pelos meios fechados → Fraturas deslocadas da tuberosidade > do úmero → Fraturas de Bankart que criam instabilidade glenoumeral c/ acometimento maior que 25% do diâmetro antero-posterior da glenóide → Pacientes jovens devido à alta probabilidade de recorrência -As diversas técnicas cirúrgicas podem ser por via aberta ou, preferencialmente artroscópicas