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O relatório Flexner: para o bem e para o mal Tendo em vista a elaboração do Relatório Flexner - sob a ótica positivista - pelo pesquisador social e educador norte-americano de origem judia, Abraham Flexner, sabe-se que, este documento apresentou influência direta tanto na construção do ensino médico, como também nas outras profissões de saúde, haja vista que, teve como base o método científico. Nesse viés, as principais propostas do relatório foram fundamentadas na divisão do ensino em ciclos: básico e clínico, evidenciando a hierarquização da aprendizagem; estímulo à docência em tempo integral; ênfase na pesquisa biológica; estímulo à especialização médica; introdução ao ensino laboratorial e ampliação para a duração de quatro anos do curso. Nesse ínterim, a partir das medidas supracitadas, o paradigma Flexneriano ainda se faz presente e, consequentemente, são utilizadas na esfera da saúde na conjuntura hodierna. Posto isto, verifica-se a execução dos dois ciclos: o básico, configura-se por intermédio das disciplinas teóricas e biológicas; e o clínico, por sua vez, proporciona ao discente colocar em prática este aprendizado. Seguindo essa linha de raciocínio, é válido destacar a suma relevância do ensino laboratorial e a ênfase na pesquisa biológica na esfera da saúde, pois permitem entender/analisar as dinâmicas que impactam o funcionamento pleno dos organismos e, assim, contribuindo diretamente para a prevenção e os possíveis tratamentos das diversas patologias. É inegável as contribuições deste relatório para a educação médica. Outrossim, a ênfase no modelo biomédico, centrado na doença e no hospital, direcionou em programas educacionais a uma visão reducionista. Diante disso, em detrimento da Reforma Universitária de 1968, em pleno regime militar, este modelo Flexneriano foi implantado, sendo incompatível com o cenário democrático brasileiro e com as necessidades de atenção à saúde dos habitantes e, tão logo, refletindo em lacunas estruturais do sistema de formação em saúde, além de trazer consigo um ensino médico antidemocrático e elitizado. Nesse sentido, ao aderir o modelo de saúde- doença unicausal e biologista, Flexner não considerou os determinantes sociais na inclusão do vasto espectro da saúde, no qual acarreta a construção dentro da perspectiva holística do sujeito, produzindo efeitos negativos como a desigualdade em saúde e a baixa qualidade do atendimento público. Desse modo, ao invés dos profissionais de saúde terem uma visão de mundo ampliada, tendem a ter um olhar condicionado e fragmentado. Destarte, o Relatório Flexneriano representou um grande avanço nas práticas de saúde. No entanto, ao colocar como vertente primordial no seu modelo a medicina curativa e individual, impossibilitou que o estudo integral ultrapassasse o processo saúde-doença. Dessa forma, repercutiu diretamente no ensino médico, transformando-o em uma prática desprovida de humanização e favorecendo para a maioria dos profissionais de saúde uma postura individualista. REFERÊNCIAS: ALMEIDA FILHO, Naomar de. Reconhecer Flexner: inquérito sobre produção de mitos na educação médica no Brasil contemporâneo. Cadernos de Saúde Pública, v. 26, n. 12, p. 2234- 2249, 2010. CAMPOS, Francisco Eduardo de; AGUIAR, Raphael Augusto Teixeira de; BELISÁRIO, Soraya Almeida. A formação superior dos profissionais de saúde. In: Políticas e sistema de saúde no Brasil. 2012. p. 885-910. PAGLIOSA, Fernando Luiz; DA ROS, Marco Aurélio. O relatório Flexner: para o bem e para o mal. Revista brasileira de educação médica, v. 32, n. 4, p. 492-499, 2008.