Prévia do material em texto
Autor: Prof. Rubens Lopes Júnior Colaboradores: Prof. Enzo Fiorelli Vasques Prof. Tânia Sandroni Antropologia e Cultura Brasileira Professor conteudista: Rubens Lopes Júnior Nascido em São Caetano do Sul – SP em 1985, é graduado em Relações Internacionais pela Faculdade Santa Marcelina de São Paulo (2007), mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2011) e doutor em Comunicação Social também pela Universidade Metodista (2018). Realizou o curso Business Programme no Newcastle College, Inglaterra, em 2016, sendo o professor responsável pelos alunos intercambistas brasileiros daquela turma. É docente no ensino superior e em pós-graduação lato sensu há 6 anos, transitando por diversos cursos e temáticas. Possui diversas orientações de projetos de pesquisa nos cursos superiores, bem como orientações de Trabalhos de Conclusão de Curso e artigos de pós-graduação. Já participou de diferentes bancas e comissões julgadoras e leciona disciplinas em inglês. É também coordenador auxiliar do curso de Relações Internacionais no campus Santos na Universidade Paulista (UNIP). © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) L864a Lopes Júnior, Rubens. Antropologia e Cultura Brasileira / Rubens Lopes Júnior. – São Paulo: Editora Sol, 2019. 176 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXV, n. 2-219/19, ISSN 1517-9230. 1. Antropologia. 2. Cultura. 3. Religião. I. Título. CDU 572 U503.43 – 19 Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Unidades Universitárias Prof. Dr. Yugo Okida Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez Vice-Reitora de Graduação Unip Interativa – EaD Profa. Elisabete Brihy Prof. Marcelo Souza Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Prof. Ivan Daliberto Frugoli Material Didático – EaD Comissão editorial: Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP) Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos Projeto gráfico: Prof. Alexandre Ponzetto Revisão: Lucas Ricardi Fabrícia Carpinelli Sumário Antropologia e Cultura Brasileira APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 A IMPORTÂNCIA DA ANTROPOLOGIA E DA CULTURA PARA AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ................................................................................................................... 11 1.1 A antropologia na dimensão da ciência ..................................................................................... 13 1.2 O evolucionismo e a antropologia biológica ............................................................................ 15 1.3 O funcionalismo e a antropologia cultural ................................................................................ 20 1.4 O estruturalismo e a linguística ..................................................................................................... 25 2 AS DIMENSÕES DA CULTURA ..................................................................................................................... 28 2.1 Sentido e alcance da cultura ........................................................................................................... 38 2.2 Cultura e sociedade ............................................................................................................................. 43 3 ANTROPOLOGIA, RELIGIÃO, RITOS E MITOS .......................................................................................... 46 3.1 A religião na perspectiva da antropologia cultural ................................................................ 47 3.2 A religião na perspectiva histórico-político-social no ocidente ....................................... 51 4 RITOS E MITOS E SUA INFLUÊNCIA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS ..................................... 57 Unidade II 5 IDEOLOGIA E SUAS CONCEPÇÕES ............................................................................................................ 72 5.1 Identidade e nacionalismo ............................................................................................................... 79 6 ANTROPOLOGIA NA PRÁXIS DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: O CONCEITO DE PODER E SUA RELAÇÃO COM A CULTURA .............................................................. 90 6.1 A dimensão da cultura nas negociações internacionais ....................................................103 6.2 A antropologia e as dinâmicas do poder como influenciador cultural ........................112 Unidade III 7 A CONSTRUÇÃO DE UMA IDENTIDADE BRASILEIRA: UM DIÁLOGO COM FREYRE, BUARQUE E RIBEIRO ...........................................................................................................125 7.1 O papel dos portugueses na colonização brasileira .............................................................129 7.2 A importância do indígena na formação brasileira ..............................................................138 8 O PAPEL DOS ESCRAVOS AFRICANOS NA FORMAÇÃO BRASILEIRA.........................................147 8.1 É possível falar em identidade brasileira? ................................................................................153 7 APRESENTAÇÃO Você deve estar se perguntando: para que estudar antropologia? O que tem a ver isso com aquilo? Pois bem... Tudo! E a justificativa para essa resposta é simples: em um mundo cada vez mais interconectado, no qual o aparelho celular é, muitas vezes, a extensão do corpo humano, colocando em xeque as fronteiras físicas dos países em questão de segundos, o internacionalista deve estar apto a compreender todas as dimensões dessas relações. Existem pessoas oriundas de diferentes culturas em todas as partes do mundo. Sendo assim, compreender essas dinâmicas em sua dimensão antropológica e cultural é fundamental para que você possa lançar um olhar construtivo para a sua prática profissional (atual ou futura). Assim, para um profissional ser bem-sucedido, é importante que saiba lidar com o outro. Para isso, é fundamental que possamos estudar e compreender a aplicabilidade de conceitos como etnocentrismo, relativismo, rito, mito, alteridade, troca simbólica e cultura. O estudo da antropologia enquanto instrumento de compreensão da realidade é fundamental. Outro aspecto de suma importância para o seu sucesso profissional em nossa área é compreender o papel e as dinâmicas próprias de nosso país. Para tal, o estudo da evolução histórica da cultura brasileira, sua cadeia de significação, nossa multiculturalidade e o que entendemos por identidade e etnia também poderão nos ajudar. Compreender o porquê de fazermos o que fazemos é primordial para o sucesso profissional do internacionalista. É necessário saber que cada cultura é fruto de um determinado contexto, assim como admitir as diferenças e não deixar que elas atrapalhem os negócios. Imagine você negociando com uma empresa alemã, por exemplo, que marca a reunião para começar às 14h15min, e nós, brasileiros, de uma forma assustadoramente natural, frequentemente marcamos nossos horários assim: “umas 14h, 15h está bom...”. O estudo antropológiconos dá subsídios para que possamos compreender questões contemporâneas que invadem os portais eletrônicos e os telejornais diários, como migrações internacionais e soberanias territoriais. A antropologia também é responsável por estudos sobre diversidade cultural, hegemonias e muitas outras coisas. Assim, ao final desta disciplina, você estará apto para: • Reconhecer os conceitos centrais da antropologia e identificar aspectos essenciais da cultura brasileira frente ao campo das relações internacionais. • Distinguir e oportunizar aspectos relevantes das interligações entre os diversos fatores da vida social e cultural, sistemas de crença, dinâmicas globais, comportamentos individuais e meio ambiente físico e o respeito da e pela alteridade. • Compreender a complexidade da cultura brasileira e as dinâmicas cotidianas. 8 Observação Lembre-se: por trás das relações internacionais existem pessoas e sociedades que possuem suas próprias dinâmicas, sendo elas responsáveis por comportamentos e práticas que aparecem nas relações entre os players internacionais. INTRODUÇÃO Para facilitar a compreensão da nossa disciplina, dividimos o conteúdo em três pilares: a antropologia, a cultura brasileira e a relação entre esses aspectos frente às relações internacionais. Inicialmente, discutiremos o que são a antropologia, as dimensões da cultura e a conexão desses estudos com as relações internacionais. No campo antropológico, vamos estudar a dimensão científica da antropologia, abordando três correntes de pensamento (evolucionismo, funcionalismo e estruturalismo) através do estudo de suas ideias centrais. Entretanto, ao mesmo tempo, dialogaremos com o âmbito biológico e cultural da antropologia. Outro aspecto relevante para o internacionalista é a linguística, ciência que também é classificada como parte da antropologia, mesmo porque no meio internacional nos deparamos inevitavelmente com culturas e línguas distintas. Salientamos que esse panorama é somente uma parte do todo, uma breve apresentação de algumas teorias e correntes, não de todas. A escolha dessas teorias se deu pelo fato de serem mais interessantes para o campo das relações internacionais. De modo algum o assunto se encerra aqui. Sinta-se à vontade para buscar novas bibliografias, pois a ideia é mostrar, acima de tudo, a importância desse estudo para nossa área. Vale ressaltar também que antropologia é tanto uma ciência quanto um pensar filosófico e pode ser uma excelente ferramenta para o internacionalista se capacitar e exercer sua profissão. Já no campo da cultura, trataremos do próprio conceito de cultura, seu desenvolvimento histórico e sua influência na antropologia e nas relações internacionais. Para tal, estudaremos as definições de cultura e seus múltiplos sentidos, bem como as características que existem em cada uma delas. Também veremos o sentido e o alcance da cultura, pois é necessário compreendermos como ela opera e até onde vai sua influência. Completando esse passeio pelo conceito de cultura, analisaremos a relação da cultura com a sociedade. Vamos ainda estudar o aspecto da religião na antropologia. Embora falar de religião seja um tanto quanto complexo, afinal, em nosso imaginário, “política, futebol e religião não se discute”, ela é fator determinante para as relações internacionais contemporâneas. Mesmo depois da Paz de Vestfália, em 1648, quando a religião foi relegada ao campo do privado, ela não desaparece por completo. Muito pelo contrário, ela se transforma de tal maneira que sua influência fica evidente em outras formas do fazer religioso. Por isso, iremos estudar a religião na perspectiva antropológica e em sua dimensão política, pois 9 ela foi elemento fundador de diversas sociedades. Vamos estudar também o papel do rito na sociedade contemporânea, pois ele transcende o caráter religioso nos dias de hoje. O mito também é importante porque ele atua como narrativa nas sociedades e pode, inclusive, influenciar comportamentos humanos. Na sequência, você compreenderá a importância da antropologia para as relações internacionais, lembrando que o profissional desse campo irá atuar no âmbito empresarial, em organizações voltadas para os negócios internacionais, e também na diplomacia, seja ela de Estados ou corporativa, ou trabalhar com assessoria especializada em assuntos de alcance global, por exemplo. Enfim, há um leque de possibilidades que se desenrola no mundo atualmente, e é de suma importância termos exemplos de como essas dinâmicas funcionam. Por isso, vamos ver conceitos como ideologia e poder, entendendo tais termos nas concepções mais conhecidas de Marx e Foucault, respectivamente. Ideologia é algo muito falado, mas pouco compreendido de fato. Também vamos trabalhar os conceitos de pós-modernidade e nacionalismo, pois em tempos nos quais existem muitas referências sociais, há uma crise do indivíduo na contemporaneidade justamente por essa multiplicidade de referências. Inclusive tivemos, no século XX, várias nações que elevaram seu nacionalismo ao grau mais perigoso possível, culminando em regimes fascistas e guerras globais. É importante compreendermos a dimensão dos símbolos e como eles são usados para dar coesão social. Por isso, vamos ver na prática como o samba foi utilizado no governo Vargas para dar coesão social, no intuito de se criar um símbolo que desse unidade ao país recém-saído da monarquia, sendo utilizado até como elemento na política externa. O samba? Sim! Ou você acha mesmo que todo brasileiro nasce sambando? E já que vamos falar de um gênero musical, a própria música ocidental é fruto de uma política da Igreja Católica para a manutenção e a ampliação do seu poder na Europa. Dessa forma, o poder pode ser visto em diferentes situações que, se não estudarmos de fato, sequer percebemos a sua influência. É o caso dos filmes de Hollywood, que também foram utilizados para fins ideológicos e para o exercício de poder. Por fim, conversaremos em verde e amarelo. Veremos um panorama sócio-histórico da formação do Brasil e as relações entre as três etnias principais que formaram o povo brasileiro. Nossos interlocutores são consagrados autores brasileiros, como Gilberto Freyre (2004). Utilizaremos sua obra-prima, Casa-grande & Senzala. Nosso outro interlocutor será Sérgio Buarque de Holanda (2016) e seu livro Raízes do Brasil. E completando nossos autores, dialogaremos com Darcy Ribeiro (2015), conhecido autor das causas indígenas. Estudaremos as três etnias responsáveis pelo surgimento do povo brasileiro. Primeiro, falaremos sobre os portugueses. Longe daquela perspectiva do senso comum em que os europeus são um povo “frio”, os portugueses que chegam na então Ilha de Vera Cruz já têm larga experiência em colonização, bem como na utilização da miscigenação para povoar sua colônia. Ou seja, nossa primeira geração não nasceu como fruto do amor que leva à constituição de família, mas sim para haver população suficiente para consolidar a colônia. 10 Na sequência, ao estudar os indígenas, entenderemos quais aspectos das culturas ameríndias ainda se fazem presente em nosso DNA. Ainda veremos que a figura da mulher e do menino indígena foram cruciais para os interesses da Coroa Portuguesa e que também são fruto da organização social nativa as relações de parentesco no exercício do poder. Por fim, ao estudarmos a influência dos escravos negros africanos, poderemos perceber como as dinâmicas sociais de exploração se enraizaram em nossa sociedade, consolidando aspectos que nos custam admitir. Eles foram responsáveis por espalhar a língua portuguesa, por exemplo. Isso molda nossa forma de enxergar o mundo. Compreender o fenômeno global em sua dimensão antropológica irá capacitá-lo a enxergar novos horizontes nos negócios globais. Portanto, estudaremos alguns conceitos como nacionalismo, migrações e ideologia, o papel da cultura nos negócios, entre muitas outras questões que se fazem relevantes e influenciam diretae indiretamente os mercados globais. 11 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Unidade I 1 A IMPORTÂNCIA DA ANTROPOLOGIA E DA CULTURA PARA AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS A antropologia é tanto uma ciência como um pensar filosófico. Ela lida com uma variedade de temas que são fundamentais para as relações internacionais, caminha desde a linguística até a arqueologia e também estuda conceitos como cultura, subcultura, tradição e folclore. Aliás, Geertz (2013) afirma que a cultura é a semente que fez surgir a antropologia. Ela percorre temas como tabus sociais e economia, e discute questões de poder e Estado dentro da chamada antropologia política. É uma ciência que possibilita uma infinidade de abordagens socioculturais, as quais dão um arcabouço de conhecimento de dinâmicas que são fundamentais para o profissional de relações internacionais. A palavra antropologia é composta por dois substantivos gregos: anthropos, que significa “homem”, e logia, que significa “estudo”. Porém, Gomes (2008) afirma que antes de ser estudo, o sufixo logia deriva de logos, que, também em grego, significa “razão”. Sendo assim, podemos perceber como a antropologia está diretamente relacionada à razão – base da filosofia e ciência – e às relações entre os homens. Observação A palavra homem, utilizada pelos autores clássicos, designa ser humano, e o não uso da palavra mulher está relacionado ao desenvolvimento dessas sociedades. Olhe só, uma observação antropológica! Embora a palavra antropologia seja de origem grega, não foram eles que inventaram tal estudo pelo fato de que eram uma sociedade fechada em si. Se eram assim, como poderiam estudar o outro? É só no reconhecimento de que existem culturas – no plural – que podemos pensar em antropologia ou no estudo do homem. Desse modo, os estudos antropológicos sistematizados como disciplina só surgiram diante de um contexto social europeu no qual as sociedades que estavam ali instaladas passaram a reconhecer a existência de outras sociedades completamente diferentes da sua. Esse momento remete exatamente à transição sociocultural do período renascentista ao momento do surgimento da sociedade capitalista moderna e à expansão além-mar desses povos; momento importantíssimo para o surgimento de elementos que posteriormente vêm a ser fundamentais nas relações internacionais. 12 Unidade I Laplantine (2003) afirma que o nascimento da antropologia contemporânea se dá na descoberta do que os europeus chamam de Novo Mundo, pois, ao se depararem com realidade tão distinta da sua, eles sentiram a necessidade de explicar aquilo que haviam descoberto. O mais interessante é que, embora a antropologia seja um campo relativamente recente, o interesse do ser humano em buscar respostas para questões fundamentais data desde as primeiras tribos e civilizações de que se tem registros. Acontece que com as descobertas de civilizações diferentes daquelas europeias, um objeto de estudo se mostra à frente de pesquisadores e estudiosos de questões sobre a humanidade. A antropologia, então, compreende o homem na sua dimensão individual e em sua dimensão coletiva, o ser em sociedade inserido dentro de uma (às vezes mais) cultura. Esse momento da história ocidental remete ao iluminismo, consolidando o fato de a antropologia ser uma ciência que está em diálogo com o campo da filosofia. Observação Conforme o Dicionário Priberam, iluminismo é: 1. Doutrina de certos movimentos religiosos marginais, baseada na crença de uma iluminação interior ou em revelações inspiradas diretamente por Deus. 2. Movimento de renovação científica na Itália, no século XVIII. Para que esse tipo de estudo seja possível, deve existir uma característica fundamental para essa ciência: a capacidade de se distanciar de sua própria cultura. Pois, somente assim, é possível que se estude outra cultura sem se utilizar a sua por base. Para se obter esse pensar é preciso ter-se ou criar-se a capacidade de sair ou tomar distância de sua própria cultura, dos valores por ela cultivados, para daí penetrar e entender outras culturas pelos valores dessas outras culturas, não de sua própria. Tal método de pensar é condição sine qua non para existir o pensamento antropológico (GOMES, 2008, p. 12). Consequentemente, a distância em relação a nossa sociedade nos dá a possibilidade de perceber que aquilo que para nós era tido como natural é uma construção social. Esse aspecto da antropologia é o choque cultural que leva o pesquisador a repensar a abordagem comum a partir da perspectiva de sua própria cultura. É o início da reflexão que leva ao surgimento do conceito de alteridade. Ademais, o contato com outras culturas nos causa um estranhamento, uma certa perplexidade que, acima de tudo, fez com que os pesquisadores refletissem sobre o que não enxergavam a respeito da própria cultura. Afinal, o “conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única” (LAPLANTINE, 2003, p. 13). 13 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA É diante dessa condição que a antropologia começa a se desenvolver tanto como pensar filosófico quanto como ciência. Figura 1 – Comida chinesa 1.1 A antropologia na dimensão da ciência Se partirmos do pressuposto de a antropologia ser ciência, só pelo fato de ser ciência, ela já nos diz algo: o ser humano pode ser estudado. Não só estudado, mas “pode ser objetivado, esquadrinhado, medido, calculado, dimensionado no tempo e no espaço, tal qual outros objetos científicos” (GOMES, 2008, p. 13). Compreendendo a antropologia por essa perspectiva, ela está lado a lado com outras ciências que compõem um bloco denominado ciências humanas ou ciências sociais. Ela seria, hipoteticamente, irmã da sociologia, que se preocupa com o ser humano inserido na coletividade (sociedade). Também poderia ser prima da economia, que enxerga o aspecto material da sociedade, desde bens e trocas. Embora facilmente possamos entender a economia como uma ciência exata – afinal, economia remete aos números –, essa ciência também trata de temas como desigualdade social, por exemplo. A antropologia também pode ser considerada prima da ciência política, pois esta busca compreender as relações de poder dentro de uma sociedade, bem como mecanismos de convivência e até mesmo controle. Até a psicologia pode ser compreendida como parente da antropologia, pois ela estuda a psique do ser humano. É verdade que ela transita por entre o indivíduo em seu aspecto fisiológico filosófico, mas não deixa de ser uma ciência humana. Sendo assim, podemos compreender que a “antropologia é a ciência humana que presume abordar um pouco de tudo que cada outra ciência humana aprecia” (GOMES, 2008, p. 15). Porém, ao mesmo tempo, “só pode ser considerada como antropológica uma abordagem integrativa que objetive levar em consideração múltiplas dimensões do ser humano em sociedade” (LAPLANTINE, 2003, p. 9). Nessa ótica, a antropologia é uma ferramenta de compreensão da realidade. E quando pensamos na antropologia enquanto ciência, admitimos que uma variedade de mecanismos de compreensão 14 Unidade I podem fazer parte de um leque maior. Assim, ciências como a arqueologia, a linguística, a antropologia biológica e muitas outras ciências fazem parte da antropologia. Além do mais, precisamos definir incialmente que a antropologia é uma ciência ambiciosa, pois ela não é apenas o estudo dos elementos que compõem as sociedades, mas sim um estudo que abrange todas as sociedades humanas, inclusive aquela em que nós estamos inseridos. Ela estuda as diversidades geográficas, históricas e culturais, daí a preocupação em situar o outro. Figura 2 – Museu de Antropologia do México Para melhor compreendermos essa tal antropologia, dividimos seu campo em duas dimensões de atuação: a antropologia biológica e a cultural. A antropologia biológica se preocupacom a busca pelo entendimento do ser humano e sua natureza biológica, física. Ela estuda o ser humano enquanto um espécime e questiona qual é o nosso lugar no mundo e na cadeia evolutiva, assim como todo tipo de assuntos que trazem questionamentos dessa natureza. Já a busca pelo entendimento do ser humano enquanto produtor de cultura fica a cargo da antropologia cultural. Afinal, o ser humano é o único dos animais que é capaz de criar cultura e ser influenciado por ela. Compreender quais são as relações, os símbolos, signos e significações; as dinâmicas sociais, seus ritos e mitos; estudar os elementos que passam de geração em geração, não como herança genética, mas através da linguagem e tradições, fica a cargo dessa dimensão antropológica. Não é segredo que a segunda concepção antropológica descrita nos é mais atraente, não é mesmo? Em nossa sociedade cada vez mais interconectada, hoje mais do que em outros tempos, as diferenças culturais ficam evidentes e vão influenciar todas as negociações entre diferentes culturas e sociedades. Embora a parte que nos remete à cultura seja a mais interessante para nosso curso, é importante compreendermos cada degrau e subdivisão que a antropologia possui. 15 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Em seu desenvolvimento enquanto campo de estudo, a antropologia acabou por ser dividida em diferentes subgrupos e sofreu influência de diferentes correntes de pensamento. Uma corrente de pensamento é uma espécie de teoria que normalmente influencia todos os aspectos de uma sociedade em um determinado momento no tempo. Consequentemente, as ciências da época são influenciadas também. Para melhor compreendermos como essa dinâmica se dá, nos próximos tópicos iremos estudar algumas dessas correntes e, ao mesmo tempo, exemplificar a influência dessa corrente de pensamento em alguma subdivisão da antropologia para que possamos entender quais as relações entre esses dois aspectos. Como ressaltamos anteriormente, essa nossa reflexão não contempla todos os campos antropológicos nem todas as correntes de pensamentos, mas sim aquelas que são mais interessantes para as relações internacionais. 1.2 O evolucionismo e a antropologia biológica A antropologia biológica ou antropologia física é um campo de estudo que se preocupa com temas como a transição do nomadismo para o sedentarismo e em compreender como o ser humano se deslocou e se adaptou aos quatro cantos do planeta (embora ele seja esférico!). A antropologia biológica se preocupa em compreender a evolução do ser humano, ou seja, como passamos de neandertais para Homo sapiens. Enfim, todos os temas que seguem essa linha de questionamento se encontram na esfera da antropologia biológica. Compreender a antropologia biológica é saber que ela é muito mais do que documentários televisivos sobre a “busca do elo perdido” ou “qual a semelhança do ser humano com o chimpanzé”. É saber que ela foi influenciada pela teoria evolucionista de Charles Darwin, de 1859, por exemplo. É compreender essa teoria que afirma que a continuidade da vida depende de “uma série de processos químicos” e “da capacidade de disputa de cada espécie dentro do ambiente em que está inserida” (GOMES, 2008, p. 16). A antropologia biológica é uma espécie de elo entre as pesquisas das ciências biológicas e os estudos das ciências humanas. O evolucionismo é uma linha de pensamento que ganha popularidade no século XIX. Ele é responsável pela influência da Teoria Geral da Evolução também nos fenômenos de cunho cultural. Uma corrente de pensamento normalmente se transforma em teoria. Ela é fruto do trabalho de muitos pesquisadores de diversas áreas. Através dessa ótica proposta por uma corrente de pensamento, há uma infinidade de possibilidades a frente do pesquisador, sendo que ele tem total liberdade de escolher como irá estudar tal sociedade, desde que siga alguns padrões estabelecidos nesse consenso do pensar. Por meio da influência do evolucionismo, a antropologia passa “a ser pensada como uma ciência que iria contribuir para enquadrar o homem e suas culturas num plano contínuo, ou ao menos paralelo ao plano biológico” (GOMES, 2008, p. 12). 16 Unidade I Segundo Marconi (2013), mesmo com Darwin sendo o pai da teoria, na área da cultura outros já estavam – ao mesmo tempo e até mesmo antes que ele – desenvolvendo teorias nas quais os objetos de estudo eram classificados em estágios de evolução. Para se estudar uma cultura sob a ótica evolucionista, existem três princípios básicos: sucessão linear, métodos comparativo e sobrevivência. Linear porque ela é cronológica, um estudo das suas mudanças ao longo do tempo. É a mesma lógica utilizada no algoritmo das redes sociais, nossa timeline. Ela demonstra um desenvolvimento, sempre está em constante evolução e segue o tempo, que sempre vai para frente. Portanto, justificava a lógica presente na cultura europeia de existirem sociedades superiores (eles) e inferiores (seus colonizados). É necessário o método comparativo, porque nele se parte do pressuposto de que existe hierarquia por causa da evolução das sociedades não seguir o mesmo curso, sendo assim, é necessário comparar uma cultura com a outra para avaliar e validar tal teoria. Mas qual o critério comparativo? Sobrevivência. Entretanto, temos duas perspectivas para a ideia de sobrevivência. Primeiro, na perspectiva de continuidade da espécie, sendo literalmente uma luta de vida ou morte pela continuidade da vida. Porém, no campo da cultura, o conceito de “sobrevivência” significa a capacidade de “perpetuação de um fenômeno originário em épocas anteriores, em condições diversas” (MARCONI, 2013, p. 247). Figura 3 – Charge da Teoria da Evolução E qual a relação dessa ciência com as relações internacionais? Vamos fazer um rápido exercício reflexivo: imaginemos um país que seja uma teocracia. Agora, imagine você em um eventual trabalho de negociação internacional entre uma empresa de um país laico de base científica-tecnológica, negociando com uma empresa ou até mesmo um governo teocrático e tradicional. 17 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Observação Conforme o Dicionário Priberam, teocracia é: 1. Sociedade em que a autoridade, considerada como emanação de Deus, é exercida pelos seus ministros. 2. Governo em que o poder está na mão do clero. É uma situação na qual há um interlocutor oriundo de uma lógica cultural oposta ao outro. Consequentemente, os diferentes hábitos e formas de se enxergar o mundo estarão presentes em todos os aspectos dessa negociação, dificultando ainda mais esse processo. Ou o profissional de relações internacionais está preparado para tais circunstâncias nas quais há um choque cultural, ou não haverá negociação. Vamos além: uma das frases clássicas que resume a teoria de Darwin é “a sobrevivência do mais apto”. Essa frase “sintetiza a teoria da evolução, mesmo que se compreenda modernamente que a disputa entre as espécies dá vez, com frequência, a processos cooperativos” (GOMES, 2008, p. 16). Disputa, processos cooperativos... Como é parecido com o meio internacional, não? Gomes (2008) afirma que o ser humano surgiu há cerca de 200 mil anos, sendo que em torno de 80 mil anos evoluiu fisicamente para nossa condição atual, sem nenhuma grande mudança posterior. Além do mais, o autor afirma que a evolução humana ocorreu através de processos idênticos aos outros animais. Nitidamente, percebemos a influência da teoria evolucionista darwiniana nesse estudo. Porém, o ser humano desenvolveu habilidades muito além de outros animais, incluindo a fabricação e utilização de ferramentas, o domínio do fogo e a criação de sistemas linguísticos, aumentando sua capacidade de comunicação. Toda essa evolução se dá, então, por conta da criação de uma dimensão cultural de convivência. Talvez um dos pontos fundamentais para a consolidação da sociedade moderna seja a “adoção generalizada de um costume social excepcional, a proibição do incesto, isto é, de relaçõessexuais entre pais e filhos e irmãos e irmãs, como regra fundamental da sociedade humana” (GOMES, 2008, p. 17). Assim, o incesto torna-se tabu. O evolucionismo influencia a antropologia principalmente no século XIX, pois essa ciência, ao se ancorar nessa perspectiva de evolução das espécies, identifica que existe uma espécie humana, igual a sua, mas que seu desenvolvimento, no que tange aos aspectos socioculturais, econômicos e políticos, se desenrola em um tempo e lógica completamente diferentes da europeia. Vale também nossa atenção ao fato de que essa perspectiva evolucionista também serve de subsídio para o colonialismo. 18 Unidade I A antropologia evolucionista, cujas ambições nos parecem hoje desmedidas, não hesita em esboçar em grandes traços afrescos imponentes, através dos quais afirma com arrogância julgamentos de valores sem contestação possível. A convicção da marcha triunfante do progresso é tal que, juntando e interpretando fatos provenientes do mundo inteiro (à luz justamente dessa hipótese central), julga-se que será possível extrair as leis universais do desenvolvimento da humanidade (LAPLANTINE, 2003, p. 52). Embora a teoria evolucionista se encaixe facilmente no campo da antropologia física, ela dialoga entre os aspectos biológicos e culturais. E, mesmo que seja fácil de constatar o fato de a biologia influenciar a cultura, podemos também pensar na direção contrária. Um exemplo disso é a utilização do fogo para se cozinhar os alimentos. Por conta dessa prática, “os grandes molares, encontrados nos fósseis de alguns ancestrais humanos e próprios para triturar sementes, ficaram dispensados dessa função, já que sementes cozidas são mais facilmente mastigáveis” (GOMES, 2008, p. 17). Existem duas questões básicas que orientam as pesquisas de antropologia biológica: a primeira delas é compreender a posição do Homo sapiens na escala evolutiva. A segunda é tentar entender o quanto de “animal” ainda há no ser humano; é compreender o quanto de nossas ações ainda é fruto dos instintos de ser humano – aqui no sentido do verbo “ser” – e o quanto de ser humano é oriundo de transformações culturais, como religião ou política, por exemplo. Novamente, podemos traçar um paralelo com o campo das relações internacionais. Essa busca da antropologia biológica pode nos ajudar a entender e refletir sobre as nações viverem em paz ou se o ser humano é incapaz de tal feito, dado o seu instinto de sobrevivência, assim como os animais, nessa perspectiva evolucionista. Uma das ferramentas que dá subsídio para a antropologia biológica é a anatomia. Por que a anatomia? Porque grande parte da pesquisa desse campo está em esqueletos e ossos fossilizados. Outra ferramenta da antropologia biológica é a genética. Embora as pesquisas sobre genética sejam recentes, datando principalmente da segunda metade do século XX, ela nos dá subsídios para compreender as diferenças e semelhanças entre as espécies. Além do mais, na pesquisa forense, a genética pode ser utilizada para a resolução de crimes. Nos anos 1980, os estudos sobre genética e a própria aplicação dessa ferramenta científica foi fundamental para o reconhecimento biológico dos netos das avós da Praça de Maio, na Argentina, pois com a morte dos pais no período da ditadura argentina, muitos desses netos e netas sequer sabiam que não eram filhos legítimos das famílias em que foram criados. 19 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Saiba mais Sobre o tema, assista ao filme: 500: os bebês roubados pela ditadura argentina. Dir. Alexandre Valenti, Argentina: Intuition Films & Docs, 2013. 105 minutos. Se pensarmos na relação da dimensão cultural com a dimensão biológica do estudo das sociedades através de antropologia, podemos chegar na arqueologia. Quando se pensa na palavra arqueologia, é inevitável que imaginemos uma escavação em alguma tumba muito antiga, em um lugar longínquo, quem sabe de um grande faraó, ou em pedras preciosas, brilhantes, esperando o primeiro explorador de chapéu marrom para serem capturadas. No entanto, essa descrição está baseada em cenas que, de alguma forma, fazem parte do nosso imaginário. Cada um de nós imagina a cena de um jeito, mas, coletivamente, algumas ideias são praticamente as mesmas. É o conceito de imaginário ligado ao conceito de cultura. Imaginário foi um termo que ganhou notoriedade em meados do século XX, mas que já vinha sendo estudado desde um século antes. Para Maffessoli (2001), imaginário remete a uma espécie de estado de espírito de um povo. Não é algo simplesmente racional, pois traz consigo o imponderável, um certo mistério. “É uma força social de ordem espiritual, uma construção mental, que se mantém ambígua, perceptível, mas não quantificável” (MAFFESSOLI, 2001, p. 75). Exatamente por isso que, quando pensamos em arqueologia, algumas imagens já vêm na nossa cabeça. Embora tenhamos algumas sinapses cerebrais, elas são constituídas por conta das relações sociais. Quer ver o poder do imaginário? Pense em aniversário. O que vem na sua mente? Festa, comemoração, bolo, parabéns.... Não há mágica nisso, mas uma correlação da realidade com o pensamento coletivo. Contudo, independentemente de nosso imaginário, compreender a dimensão da arqueologia para a antropologia é importante para o estudo das relações internacionais. Afinal, ela é uma excelente forma de se compreender – através de uma espécie de reconstituição a partir dos “achados” – como era a dinâmica de uma sociedade antiga. A ideia é reconstituir o passado por meio das evidências concretas que podem ser, literalmente, desenterradas: lascas de pedras que um dia foram facas, furadores e raspadores; ossos, esqueletos e corpos mumificados, que podem dar dados sobre idade, doenças, hábitos alimentares, status social [...] (GOMES, 2008, p. 17). Agora, imagine o que é preciso para chegarmos a esse ponto. Ser arqueólogo é estar durante muito tempo à disposição da escavação, suando na poeira que vem da limpeza de esqueletos ou dos cacos de 20 Unidade I objetos raros. E se pensarmos sob o aspecto cultural da antropologia, reconstituir a dinâmica de uma sociedade antiga é criar a possibilidade de se compreender diversos processos de mudanças culturais, estudando sua relação com a cultura nos dias de hoje. Figura 4 – Antropólogos trabalhando É por isso que a arqueologia é considerada uma técnica de descoberta, que atende tanto a antropologia biológica como a cultural. O interessante é que, ao mesmo tempo, muitas técnicas da própria arqueologia vêm da química, da geologia e até mesmo da própria anatomia. Uma das tarefas mais árduas da arqueologia é conseguir datar determinado sítio arqueológico a partir do estudo de materiais retirados naquele local. E outro desafio de peso é dialogar com conceitos da antropologia cultural, pois, se é possível reconstruir uma sociedade antiga a partir dos achados, é possível estudar a sua evolução. 1.3 O funcionalismo e a antropologia cultural Sabemos que a antropologia cultural, embora em uma dimensão diferente, dialoga com a antropologia física. Porém, vale ressaltar que o campo da antropologia cultural é fundamental para o internacionalista. Ela também é conhecida como filosofia da cultura, e suas reflexões giram em torno da lógica, de modo muito parecido como ocorria na filosofia antiga. Um dos mais importantes instrumentos de pesquisa que traz grande contribuição para a antropologia é a etnografia, que é um estudo descritivo das sociedades designadas como objetos de estudos. Tal campo de estudos é, então, um emaranhado de estruturas “amarradas umas às outras, que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem de, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar” (GEERTS, 2013, p. 7). Para que o etnógrafo tenha sucesso na sua pesquisa, é necessário “estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante” (GEERTZ,2013, p. 4). 21 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Vimos há pouco que a antropologia cultural possui uma característica histórica fundamental para sua existência: ela é fruto do iluminismo. Conseguinte, os caminhos traçados pelas sociedades que foram influenciadas por essa corrente de pensamento tiveram contato com relatos, livros e diários trazidos por exploradores e comerciantes de outros lugares, descrevendo culturas distintas da europeia, o que chamou muita atenção de curiosos e pesquisadores. Porém, segundo Laplantine (2003), não basta viajar e ver o diferente para se tornar etnólogo. Para ele, a etnografia só surge quando o pesquisador admite que ele próprio deve estar no campo de estudos, pois somente através da observação direta é possível realizar a etnografia. Ademais, é somente nesse período que o conceito de homem se constitui não somente como sujeito, mas também como um objeto passível de estudo. A antropologia social também contribui para a modificação da própria maneira de se fazer ciência. No Renascimento, a capacidade de observação se populariza, acrescentando uma nova forma de compreender o mundo diferente daquela visão de mundo dos gregos antigos. O Renascimento foi um período histórico que remete ao século XI, quando a Europa começa a enxergar o mundo de uma nova maneira. É o momento de reinvenção da vida econômica, há um aumento populacional e o nascimento das modernas cidades. Ao mesmo tempo, é o período da expansão de várias nações europeias. Por exemplo, da “conquista da Inglaterra pelos Normandos, alguns passos importantes no sentido da reconquista da Espanha aos muçulmanos, a primeira cruzada” (PALISCA; GROUT, 2014, p. 96). Porém, também é importante destacar que essas mudanças na concepção de mundo também se dão no campo cultural. É nesse período que temos as primeiras traduções dos escritos árabes e gregos, também é o momento do surgimento das primeiras universidades, entre diversos outros fatores que funcionaram como um despertar das capacidades humanas. Isso porque, há muitos séculos, a cultura europeia esteve sob o domínio da igreja cristã institucionalizada. Dessa maneira, esse momento de ruptura com o antigo sistema de vida foi como um renascimento para aquelas sociedades. No fundo, é a constituição de uma nova forma de se enxergar o ser humano, que, assim, passa a ser compreendido em sua “existência concreta, envolvida nas determinações de seu organismo, de suas relações de produção, de sua linguagem, de suas instituições, de seus comportamentos” (LAPLANTINE, 2003, p. 40). Um grande etnógrafo da antropologia que merece nossa atenção é Franz Boas (1858–1942). Ele é considerado um pesquisador de campo e conhecido por ser um detalhista na sua descrição etnográfica, pois ele descrevia, por exemplo, desde o tipo de material com que as casas eram construídas até a nota que era cantada na melodia das canções locais. Ele também é um dos defensores de que o costume de uma sociedade só tem significação dentro dela mesma. Também foi pioneiro em defender que somente o pesquisador qualificado – e não mais o viajante que escrevia um diário – tem capacidade para analisar o costume naquele contexto. Assim, a partir de Boas, a etnografia começa a se preocupar com o que estudar, e não sair pegando qualquer material aleatoriamente. 22 Unidade I Boas também coloca todos os objetos de estudos em um mesmo patamar, afirmando que não existe um melhor e um pior. Para ele, uma história contada por qualquer pessoa tem tanto valor, etnograficamente falando, do que a mitologia da sociedade. E o pesquisador também deu muita importância para a linguística, pois, para ele, estudar a língua é necessário porque as tradições locais não poderiam ser traduzidas. Outro grande nome da etnografia que merece destaque é Bronislaw Malinowski (1884–1942). Ele é conhecido, assim como Boas, por ser um dos antropólogos que mais viveu em campo. Sua pesquisa visava compreender até o que as pessoas daquelas sociedades sentiam. Ele também era um pesquisador que defendia que se apenas um objeto de uma sociedade fosse estudado, esse objeto já traria pistas do perfil da sociedade toda. Esse aspecto é um contraste com o detalhismo de Franz Boas. Além do mais, Malinowski defendia que uma sociedade, para ser compreendida antropologicamente, deveria ser estudada na sua totalidade. Ele, de certa forma, rompe com as abordagens históricas que até então eram populares na antropologia. Com Malinowski, a antropologia se torna uma “ciência” da alteridade que vira as costas ao empreendimento evolucionista de reconstituição das origens da civilização e se dedica ao estudo das lógicas particulares características de cada cultura (LAPLANTINE, 2003, p. 61). Figura 5 – Museo “Alto Bierzo” de Bembibre de El Bierzo, província de León, Espanha – Etnografía Talvez o maior legado de Malinowski tenha sido contribuir com a utilização da corrente de pensamento chamada de funcionalismo no campo da antropologia. O funcionalismo é uma teoria que admite que o “o indivíduo sente um certo número de necessidades, e cada cultura tem precisamente como função a de satisfazer à sua maneira essas necessidades fundamentais” (LAPLANTINE, 2003, p. 62). Cada sociedade, então, elabora subdivisões, através da criação de instituições políticas ou econômicas, por exemplo, para que possam responder a anseios coletivos. Essas soluções são sempre originais porque elas fornecem a resposta para determinada sociedade. Ademais, na visão funcionalista, as sociedades são estáveis e não possuem conflitos, buscando o equilíbrio justamente na criação dessas instituições. 23 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA O funcionalismo é uma corrente de pensamento que, no estudo antropológico, contribuiu para a ruptura com as antecessoras. É a mudança de foco do olhar histórico e evolucionista para a lógica da cultura como um todo, um sistema, “relacionando a sociedade a um organismo, a uma unidade complexa, a um todo organizado” (MARCONI, 2013, p. 255). É uma corrente que também tem devida importância nas mudanças de paradigmas da sociologia. Se o funcionalismo se preocupa com o todo, com a maior parte dos componentes e das relações que eles estabelecem entre si, todos os detalhes da sociedade importam. Assim, o funcionalismo pode ser considerado como o pai da etnografia, pois ela nada mais é do que uma forma funcionalista de se descrever uma sociedade. “Cada costume é socialmente significativo, já que integra uma estrutura, participando de um sistema organizado de atividades. Uma cultura não é simplesmente um organismo, mas um sistema” (MARCONI, 2013, p. 256). Outro aspecto interessante do pensamento de Malinowski é o fato de o autor romper com o estigma evolucionista que herdara de outra época, direcionando sua forma de enxergar o mundo para a alteridade. Ou seja, ele se identificava com a sociedade estudada, não com a sociedade dita civilizada da qual nascera. Assim, o funcionalismo nos deixa de herança o fato de que a cultura é um sistema, com lógica própria, oriunda de um determinado contexto. São partes independentes que se relacionam entre si. Divide a existência em cultural e natural, e é uma corrente de pensamento que delimita e estuda o conceito de necessidades. O funcionalismo introduz uma característica que vem a ser fundamental na antropologia: o relativismo cultural, possibilitando o estudo de outras culturas sem ser projetada a visão cultural do pesquisador. Embora inicialmente os costumes ou rituais que ficaram conhecidos na Europa pudessem ser interpretados como bizarros, algumas pessoas passaram a questionar qual era o sentido para aquele povo que praticava tal ritual. Laplantine (2003) afirma que essa mudança faz parte do próprio amadurecimento do campo antropológico, que passa a enxergar o mau selvagem como bom selvagem. Vale atentarmo-nos para o fato de que essa transição não exime nem condena o fato de que a admiração possa ser apenas estética ou romantizada.Vale ressaltar que esse ímpeto expansionista europeu do século XVI é responsável por iniciar o processo de colonização das Américas. A religião dominante na Europa nesse período também tem papel fundamental, pois havia uma “destinação cristã de construtores do reino de Deus no Novo Mundo, de soldados apostólicos da cristandade universal” (RIBEIRO, 2015, p. 45). A religião era uma justificativa para uma expansão territorial e norteava um processo civilizatório. É importante atentarmo-nos também ao fato de que esse é o contexto de surgimento do conceito de civilização. Para Laplantine (2003), essa questão de designar um rótulo para outras culturas diferentes da europeia já vem desde os gregos. Para eles, tudo que não era parte da cultura helenística era visto como bárbaro. No período renascentista – séculos XVII e XVIII, principalmente – se chamavam de selvagens. O termo primitivos ganha força somente no século XIX. A influência desse modo de enxergar o mundo aparece na literatura da Ciência Política, no conceito de estado de natureza utilizado por Thomas Hobbes, por exemplo. 24 Unidade I Saiba mais Para Thomas Hobbes, o estado de natureza é a “guerra de todos contra todos”, contrastando com a sociedade civil que seria criada a partir do pacto de surgimento do Estado. Sobre o assunto, leia: WEFFORT, F. C. Os clássicos da política. São Paulo: Ática, 2006. (v. 1). HOBBES, T. O Leviatã. São Paulo: Nova Cultural, 1988. Se pensarmos nas próprias relações internacionais contemporâneas, enxergamos o mesmo discurso de civilização X bárbaros na justificativa de intervenções ocidentais no Oriente Médio, em sua maioria sob uma sombra maior chamada de terrorismo. Essa visão de mundo que hierarquiza as sociedades justifica ações além das fronteiras de seus países, ocasionando efeitos instantâneos e irremediáveis em sociedades tidas como inferiores. Analisar através da ótica antropológica, segundo Laplantine (2003), é uma forma de se expulsar o outro da cultura para a natureza, pois eles estão em uma parte da cultura na qual a sociedade europeia – e, no caso de nosso exemplo, a sociedade ocidental – não participa. É como se a sociedade que interfere na outra – que é vista como inferior – já tivesse superado essa fase em outros tempos. Como exemplo dessa afirmação, a própria forma como os europeus descrevem os ameríndios, por exemplo, nos mostra tal faceta. Para eles, além do critério religioso, a aparência física, a nudez, os hábitos de alimentação, a linguagem, absolutamente todos os elementos em que consistiam as sociedades eram distintos. Ora, eles não acreditavam no deus cristão (porque sequer conheciam o que o europeu entende por religião) e, por conta disso, foram considerados “sem alma”; eles não tinham a linguagem europeia, por isso foram taxados como um povo sem língua; eles tinham aparências diferentes (eram considerados feios) e se alimentavam como “animais”. Assim, não houve outra perspectiva a não ser taxá-los exatamente como animais. O século XIX é emblemático para as relações humanas aos olhos da antropologia; já para as relações internacionais, é importante por questões geopolíticas. É o período de consolidação de conquistas coloniais, principalmente na África, pois nas Américas o expansionismo se dá desde o século XVI. Um momento importante para a determinação de cursos históricos é a assinatura do Tratado de Berlim no ano de 1885, determinando a partilha da África entre seus colonizadores. Para nosso campo de estudos é importante o fato de que esse tratado põe fim à soberania de nações africanas. Ao mesmo tempo, consolida-se a antropologia moderna. É também no século XIX que a noção de selvagem vem a transformar-se em primitivo. 25 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA É no movimento dessa conquista que se constitui a antropologia moderna, o antropólogo acompanhando de perto, como veremos, os passos do colono. Nessa época, a África, a Índia, a Austrália, a Nova Zelândia passam a ser povoadas de um número considerável de emigrantes europeus; não se trata mais de alguns missionários apenas, e sim de administradores. Uma rede de informações se instala (LAPLANTINE, 2003, p. 48). Toda essa exemplificação pode ser considerada fruto de mutações de aspectos culturais, sendo que nos dias de hoje acrescenta-se o fato do rápido desenvolvimento tecnológico, inédito para a humanidade. Assim, as sociedades atuais não seriam mais sociedades tradicionais, mas ainda não temos como classificá-las e nem os estudos dão conta de suas mudanças justamente por conta da velocidade delas. Diante dessa perspectiva, a antropologia pode ser considerada um instrumento de investigação para o melhor entendimento de aspectos cruciais para o profissional de relações internacionais, como crises de identidade nacionais. A antropologia cultural pode nos ajudar a compreender também o pluralismo cultural, ou seja, choque de línguas, formas de pensar e técnicas de convívio e sobrevivência. Talvez o aspecto mais relevante para nós pode ser uma forma de se evitar conflitos ocasionados por choques religiosos, econômicos e socioculturais. 1.4 O estruturalismo e a linguística A linguística é uma ciência muito importante para o profissional de relações internacionais. Ela estuda as “línguas humanas, suas estruturas internas, suas conexões mútuas, suas histórias, sua capacidade de mudança e, especialmente, o significado que elas dão ao homem e à cultura” (GOMES, 2008, p. 24). Se partirmos dessa perspectiva, estudar a língua de um país é, acima de tudo, também estudar um pouco de sua cultura e sua própria história, conhecimento que pode ser fundamental para o sucesso em nossa profissão. Vale ressaltar que os antropólogos da área da linguística estudam muito mais línguas não europeias, pois eles acreditam que através da língua seja possível aprender tanto o mundo da natureza como o da cultura. “A língua seria o veículo da cultura, que, por sua vez, é a intermediação entre o homem e a natureza” (GOMES, 2008, p. 24). Como um exemplo de contribuição da linguística para as relações internacionais, podemos elucidar o fato de que o estudo da evolução de uma determinada língua pode demonstrar o seu deslocamento físico e, consequentemente, servir de ferramenta para se estudar fluxos migratórios. Também podemos, através do estudo histórico da língua, compreender o poder de persuasão dela através do estudo da retórica e do discurso, ferramentas fundamentais nas negociações internacionais. Orlandi (2003) afirma que o discurso é a capacidade e a linguagem necessária do ser humano para dar sentido entre a realidade natural e social em que está inserido. Já Bourdieu (1996), a partir de 26 Unidade I uma ótica cultural, afirma que para se compreender um discurso, é necessário entender as condições da formação dele. Se pensarmos na sociedade brasileira, a análise de Beltrão (1980) pode nos ser útil para reflexão. Ele afirma que a história brasileira é escrita através da capacidade de absorção, por parte das culturas nativas, das características de seus conquistadores. Mas, ao mesmo tempo, possui a capacidade de conservação dos traços culturais da sua cultura original. Estamos falando de outro conceito muito importante para nossos estudos: miscigenação, que vamos estudar logo mais. Para chegar a essa conclusão, Beltrão (1980) estuda a língua falada no Brasil, pois, para o autor, ela era – e continua sendo – o instrumento principal de comunicação das pessoas. Embora a nossa língua tenha o tronco latino, ela foi enriquecida depois da interação das culturas indígena e africana. Podemos pensar também que o estudo da linguística pode servir como ferramenta de compreensão do desenvolvimento cultural de uma sociedade, pois cada língua nasce dentro de cada cultura específica. O português é falado no Brasil por conta de nossa história, fruto das nossas próprias interações sociais. Entretanto, historicamente, desde nossa colonização, a língua falada no Brasil erade origem ameríndia e, por conta das interações entre os colonos e jesuítas, a mais difundida era o tupi. O português só se tornou língua oficial no século XIX, com a chegada da Coroa Portuguesa. Assim, a população foi obrigada a adotar a língua portuguesa “sem estudá-la, aprendendo-a de ouvido, envolvendo-a nas roupagens verdes das florestas ou sanguínea-e-negras da distante, ensolarada e saudosa África” (BELTRÃO, 1980, p. 10). As línguas “têm as palavras de que suas culturas precisam para representar suas características e propriedades” (GOMES, 2008, p. 25). Assim, justifica-se o fato de as línguas terem a capacidade de serem todas diferentes entre si. A língua é capaz de explicar desde pensamentos abstratos até descrições precisas. As palavras se misturam e se transformam, como em um grande caldeirão sob o fogo, fazendo com que novas palavras sejam criadas. Elas podem até ser misturadas com outras línguas, mas sua significação é fruto do contexto em que ela está inserida. Se pensarmos de uma forma prática, os estudiosos da linguística foram capazes de estudar e compreender que uma língua tem sua própria sistematização. Os sons emitidos só fazem sentido ali naquele sistema que estão inseridos e não fazem sentido algum em outro sistema. É por isso que o internacionalista tem que estudar outras línguas, como o inglês e o espanhol, pois faz parte das relações que se desdobram no sistema internacional. Ademais, as palavras representam coisas reais, mas só possuem sentido se inseridas em um determinado sistema, que pode ser o português, o inglês, o espanhol, o russo, o francês... Cada idioma representa um sistema próprio de significação e – não é mera coincidência – tais palavras também podem designar nacionalidades. 27 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Figura 6 – Globo representando as línguas Vale ressaltar que embora a antropologia se debruce em grande parte nos estudos de povos de origens não europeias, a linguística nos dias de hoje é, segundo Laplantine (2003), responsável também por estudos na área de comunicação, frutos de modernas técnicas como a mass media e a cultura audiovisual. Observação Conforme o Dicionário Priberam, mass media é uma locução inglesa, do inglês mass, massa + latim media, meios. Trata-se do conjunto dos meios de comunicação social. Os estudos da linguística ficaram populares sob a influência do pensamento estruturalista. Segundo os pesquisadores adeptos dessa corrente, o estruturalismo é um refinamento da teoria funcionalista. Um dos principais antropólogos do estruturalismo é Claude Lévi-Strauss (1908–2009), um belga que chegou, inclusive, a dar aulas como convidado no Brasil. Segundo Marconi (2013), a concepção de estrutura é oriunda do campo da linguística, pois, como vimos, esse campo de estudo sistematiza a língua em uma forma estrutural, como a estrutura que sustenta um prédio, por exemplo. Dessa maneira, a estrutura funciona como um modelo de compreensão, pois o objeto de estudo são as relações sociais. Refere-se à estrutura como um sistema que reflete a realidade social ou cultural, seu funcionamento, as alterações regulares a que está sujeita, o rumo das transformações provocadas por fatores externos à cultura, e as previsões de reação quando alguma de suas partes é afetada (MARCONI, 2013, p. 263). Para ser estrutura, esse modelo de estudo deve possuir quatro aspectos. O primeiro deles é ter um caráter de sistema, o que significa que, por conta dessas relações, qualquer alteração afeta todo o sistema, o que é muito parecido com o pensamento da corrente funcionalista. O segundo é a possibilidade de se agrupar os elementos a serem estudados em modelos, em uma espécie de família. O terceiro é seu caráter de previsibilidade, pois, a partir das duas primeiras premissas, é possível até prever como será a 28 Unidade I reação em caso de mudança em qualquer um de seus elementos. E, finalmente, o quarto é a totalidade, pois ela deve explicar todos os fatos que estão sendo observados e estudados. Em suma, o estruturalismo pode ser considerado simultaneamente um conjunto de teorias e um método de análise da realidade. Sua herança consiste em uma visão sistêmica da cultura voltada à totalidade do fenômeno. Cria noções como estrutura social e a adota modelos de estudo. É uma forma de pensamento que é importante para a história das ciências. Vale ressaltar que os conceitos, aspectos e contextos históricos descritos contemplam apenas um breve panorama para situar a importância da antropologia para as relações internacionais. Vamos, agora, compreender a dimensão da cultura e sua influência em nossa área do saber. 2 AS DIMENSÕES DA CULTURA Cultura é uma palavra que a todo momento é falada por nós. Entretanto, o que não percebemos é que ela não é somente uma palavra, mas sim um conceito. Como não percebemos isso, também não notamos que esse conceito tem diversos sentidos. É muito comum ouvirmos coisas como “essa pessoa é muito culta” ou até mesmo “falta cultura para esse povo”. Mas o que é essa tal cultura? Será que é possível “adquirir” cultura, como algo que você compra e possui? Ou será algo intrínseco ao ser humano? E nem é preciso dizer que cultura é fundamental nas relações internacionais, não é mesmo? É importante refletirmos sobre esse conceito, sua dimensão e sua relação com a antropologia e, principalmente, com as relações internacionais. Antes de começarmos nossa reflexão, vamos admitir três pressupostos sobre cultura: • Ela não é inata. Você não nasce com ela. Não há como você nascer no Brasil com a cultura da Rússia já pronta em você. • Não é certa, nem errada. Não entramos aqui em méritos de especificidades de cada cultura. Sabemos que é difícil falar que não é errada a morte por apedrejamento como condenação em alguns países, por exemplo. Mas para que possamos estudar a cultura, é necessário estar antenado ao princípio básico da antropologia: o outro. • Ela não se refere ao comportamento individual, mas sim coletivo – embora possamos dizer que uma pessoa é culta. Pois então, percebeu a complexidade do termo? Segundo Gomes (2008), a conceituação de cultura é tão complexa que na década de 1950 um antropólogo americano compilou mais de 250 variações de sentido desse conceito! Pior: hoje talvez tenhamos mais, pois cultura não é algo que se restringe ao estudioso, mas sim algo que está presente no povo. Entretanto, para facilitar nossa compreensão, os estudiosos agruparam tais definições em grupos menores. 29 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Talvez a relação mais evidente no que tange ao termo cultura seja a velha máxima de cultura popular e cultura erudita. Aliás, o termo cultura é mais conhecido como sinônimo de erudição, pois é percebido como uma espécie de refinamento social. Ela fica evidente nos comportamentos socais, como a etiqueta demonstrando atributo de classe, no conhecimento filosófico, literário, musical – clássico – e muitas outras formas de interação social. Além disso, ela aparece muito nas redes e colunas sociais. Essa conceituação de cultura é a “acepção original da palavra ‘cultura’ tal como concebida pelos romanos (‘cultura’ é palavra latina que vem do verbo ‘colere’, ‘cultivar’)” (GOMES, 2008, p. 33). Um desdobramento interessante dessa forma de conceber cultura vem da Alemanha do século XVIII, entendendo a cultura como uma espécie de formação, no sentido de desenvolvimento tanto individual (daí nossa confusão com o termo) quanto coletivo. A cultura nessa concepção estaria relacionada e seria responsável pela formação intelectual do indivíduo, assim como a formação comportamental. Os padrões a serem seguidos eram os tidos como refinados, os superiores. Como consequência, haveria pessoas com mais ou menos cultura e sociedades com culturas mais consolidadas do que outras. É essa concepção de cultura que fez nascer no brasileiro o que alguns estudiosos como Darcy Ribeiro e Paulo Freyre entendem como “síndrome do colonizado” ou “complexode vira-lata”: aquela forma de pensar no qual tudo que “vem de fora” é melhor do que a cultura daqui, pois somos inferiores. É comum também compreendermos cultura no campo das manifestações artísticas, sendo as produções de um povo. Essas produções transitam entre cultura popular e erudita, passando desde o teatro até as manifestações folclóricas. Nos próximos tópicos iremos analisar a fundo as dimensões do popular e do erudito, pois tais perspectivas são fundamentais nas relações internacionais, principalmente no que tange aos protocolos de negociação. Outra categoria que se encaixa no conceito de cultura diz respeito aos hábitos de um povo, sua forma de ser. Normalmente, são costumes próprios de uma determinada sociedade que acabam por ser indicadores justamente do seu modo de vida. Os comportamentos – e aqui incluindo o intelectual e emocional – de uma coletividade também fazem parte da conceituação de cultura. No Brasil, as diferenças regionais são um belo exemplo dessa perspectiva. Assim, diz-se que no Nordeste, comer rapadura com farinha, e em Minas Gerais, comer broa de milho – faz parte da cultura dessas regiões. Dormir em rede no Nordeste, ir à praia aos domingos no Rio de Janeiro, passar as tardes de sábado nos shopping centers em São Paulo e noutras cidades modernizadas – é parte da cultura. O jeito maneiroso do baiano, a desconfiança do mineiro, a elástica de gozação do carioca, ou rígida lógica do português – são manifestações de suas respectivas culturas (GOMES, 2008, p. 34). Temos também o entendimento de cultura como a identidade de um povo. Ela se forma em torno de símbolos carregados de significados que fazem com que valores estejam acima de diferenças sociais, como região, religião ou até mesmo classe social. O simbólico é responsável por diferenciar um povo de outro, 30 Unidade I pois cada coletividade tem seu respectivo simbolismo. Falando novamente de Brasil, grandes exemplos de como a cultura é interpretada dessa maneira são o futebol, o Carnaval e até mesmo o “jeitinho brasileiro”. Existem também algumas concepções de cultura que são mais difíceis de enxergar. Um exemplo é a compreensão da cultura ser “aquilo que está por trás dos costumes e das atitudes de um povo. Aqui o conceito de cultura se intelectualiza, torna-se abstrato” (GOMES, 2008, p. 35). Essa visão entende a cultura como uma espécie de estrutura – ou sistema – inconsciente, sendo responsável pelo comportamento e pensamento de um povo. Lembrete Estrutura, sistema, modelo, padrão... Estamos diante de um exemplo da influência do estruturalismo nos estudos de cultura, assim como vimos há pouco na antropologia. A cultura também pode ser considerada como algo simplesmente que dá sentido a todos os aspectos da vida social de um determinado povo. Ela seria, ao mesmo tempo, valores, comportamentos, pensamentos, atos políticos ou econômicos, religião, artes... enfim, o pano de fundo para todas as ações de uma coletividade. Por fim, podemos também compreender a cultura de uma forma mais genérica: “tudo aquilo que o homem vivencia, realiza, adquire e transmite por meio da linguagem” (GOMES, 2008, p. 35). Essa definição é uma das primeiras que os estudiosos da cultura cunharam no século XIX. Quantas concepções! E quantos exemplos brasileiros! Ao mesmo tempo, chamamos atenção para uma coisa: todos são construções sociais. Além disso, nenhum deles abarca 100% dos hábitos sociais e não explica precisamente como as coisas são. É justamente por isso que os profissionais das relações internacionais têm que estar aptos a compreenderem a importância da cultura na maioria das concepções possíveis. Figura 7 – Meninas africanas 31 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Como vimos, existem muitos sentidos do termo cultura. Entretanto, para que possamos compreender sua importância para as relações internacionais, devemos estudar as conceituações de cultura e, obviamente, seus impactos nas dinâmicas de nossa profissão. Segundo Laraia (2009), o fascínio pelo outro já aparece no filósofo grego Herótodo – embora os gregos fossem uma sociedade fechada, como vimos anteriormente. Aparece também nos relatos de Marco Polo e até do padre José de Anchieta. Todos eles ficaram instigados pelos hábitos diferentes dos seus após o contato com o outro. Embora seja importante compreender um panorama histórico do conceito de cultura, nas relações sociais contemporâneas – aqui incluídas também as relações entre nações – esse conceito é evidente. Um exemplo é o trânsito na Inglaterra, onde as vias seguem uma lógica oposta à nossa. Podemos falar de hábitos alimentares, como o não consumo de carne de vaca na Índia ou a proibição do consumo de carne de porco entre judeus e muçulmanos, dentre tantas incontáveis possibilidades. Entretanto, vale nossa reflexão para um fato determinante sobre a importância da cultura para os estudos sociais: ela rompe com o determinismo biológico, isto é, “os antropólogos estão totalmente convencidos de que as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais” (LARAIA, 2009, p. 11). É exatamente por isso que elucidamos anteriormente que cultura não é inata. A pessoa não nasce com ela, não é um fator biológico. Em outras palavras, se transportarmos para o Brasil, logo após o seu nascimento, uma criança sueca e a colocarmos sob os cuidados de uma família sertaneja, ela crescerá como tal e não se diferenciará mentalmente em nada de seu irmãos de criação. Ou ainda, se retirarmos uma criança xinguana de seu meio e a educarmos como filha de uma família de alta classe média de Ipanema, o mesmo acontecerá: ela terá as mesmas oportunidades de desenvolvimento que os seus novos irmãos (LARAIA, 2009, p. 14). Observação Vale ressaltar que, embora haja uma ruptura com a biologia, os estudos sobre cultura não negam a importância dessa ciência, pois somos a mesma espécie. Assim, o papel da cultura ganha mais importância ainda para os estudos antropológicos e para as relações internacionais. Um bom exemplo disso está no fato de que até pouco tempo atrás “a carreira diplomática, o quadro de funcionários do Banco do Brasil, entre outros exemplos, eram atividades exclusivamente masculinas” (LARAIA, 2009, p. 14). Na complexidade atual das relações sociais, compreender a dimensão da cultura é fator determinante no sucesso profissional. 32 Unidade I Entre o final do século XIX e o início do XX surgiram algumas teorias sobre a cultura embasadas no princípio do determinismo geográfico. Essa corrente de pensamento que norteou alguns pesquisadores apega-se ao fato de que as diferenças físicas do ambiente em que uma sociedade está inserida afetam a diversidade cultural. Porém, a partir da década de 1920, outros antropólogos refutaram essa ideia afirmando que o ambiente influencia até determinado ponto, pois existe uma limitação da influência da geografia sobre aspectos culturais. E eles justificam sua posição no fato de que é possível existirem várias culturas em um mesmo ambiente físico. Ademais, as tecnologias que o ser humano vem desenvolvendo ao longo de sua história também contribuem para que superemos dificuldades geográficas. As diferenças existentes entre os homens, portanto, não podem ser explicadas em termos das limitações que lhes são impostas pelo seu aparato biológico ou pelo seu meio ambiente. A grande qualidade da espécie humana foi a de romper com suas próprias limitações: um animal frágil, provido de insignificante força física, dominou toda a natureza e se transformou no mais temível dos predadores. Sem asas, dominou os ares; sem guelras ou membranas próprias, conquistou os mares. Tudo isto porque difere dos outros animais por ser o único que possui cultura (LARAIA, 2009, p. 16). Mas o que é essa tal cultura? E como surge sua conceituação? Para respondermos essas questões, é necessário entender os antecedentes do termo, pois foi a partir deles que o conceito foi cunhado. Segundo Laraia (2009), o termo culturafoi cunhado pela primeira vez, em inglês (culture), por Tylor, em meados do século XVIII. Ele abarcou nesse termo a significação da palavra alemã kultur, que designava os aspectos espirituais de uma sociedade, com o termo francês civilization, que se referia às realizações de um povo, mas no âmbito material. Assim, Tylor acoplava em uma única palavra os termos que designavam as possibilidades da realização humana – material e espiritual –, contrapondo a ideia de inatismo. Entretanto, vale ressaltar que Tylor não foi o inventor do termo, mas sim o sistematizador. O termo já estava presente, embora sem uma definição, desde os pensamentos de Locke, na transição dos séculos XVII para o XVIII, como também já poderia ser percebido em Turgot e Rousseau no século XVIII. No decorrer da história, principalmente no século XX, o termo foi ganhando outras definições. Com tantas variações, a confusão sobre os estudos da cultura aumentou. É por isso que Geertz (2013) chega a afirmar que era necessária uma definição mais específica para que os estudos possam evoluir. Assim, a definição de cultura que defende o autor é semiótica. O autor adota uma postura weberiana, acreditando que o ser humano é um “animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo cultura como sendo essas teias e a sua análise” (GEERTZ, 2013, p. 4). 33 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Observação Semiótica é a ciência dos modos de produção, de funcionamento e de recepção dos diferentes sistemas de sinais de comunicação entre indivíduos ou coletividades. Nessa perspectiva, a cultura é uma ciência interpretativa que tem por meta procurar os significados das relações humanas, diferenciando de outros campos do saber que entendem a cultura como um objeto passível de ser analisado em leis. Ademais, na perspectiva da semiótica, analisar a cultura é uma forma de acessar o mundo conceitual, onde vivem os sujeitos culturais. Assim, seria uma forma de superar a dificuldade em acessar um universo de ação simbólica não familiar ao pesquisador, suavizando o dilema da vontade de aprender e a necessidade de analisar. Contudo, mesmo entre a definição de Taylor e as inquietações de Geertz (2013), temos algo em comum: a cultura é específica do ser humano. O que diferencia nós de outras espécies é a “capacidade de fabricação de instrumentos, capazes de tornar mais eficiente o seu aparato biológico” (LARAIA, 2009, p. 23). E essa capacidade fez com que nos tornássemos os únicos animais a possuir cultura. A primeira definição cunhada por Taylor no século XVIII trazia consigo uma relação de causa e efeito. Para ele, a cultura era um objeto que precisava ser estudado de forma sistemática, pois era um fenômeno natural que possuía causas – e, consequentemente, efeitos – e regularidade. Somente dessa forma seria possível um estudo objetivo capaz de formular leis sobre o processo de evolução e aculturação. Trata-se de um viés evolucionista. Note o uso dos termos fenômeno natural e evolução. É por isso que Taylor vai amplamente buscar subsídio também nas ciências naturais. Para esse autor, a desigualdade seria oriunda de estágios diferentes na evolução das sociedades, pois os seres humanos compõem uma mesma espécie. Já Kroeber, na transição do século XIX para o XX, faz uma interpretação interessante. Ele dimensiona o que seria uma espécie de equilíbrio entre o lado biológico e o lado cultural. Não é possível negar o fato de que o ser humano é da ordem dos primatas e que para sobreviver é necessário coisas vitais como se alimentar, respirar e dormir. Porém, a sacada do autor está no fato de perceber que, embora questões vitais sejam comuns nos seres humanos em todas as sociedades, cada uma faz de uma maneira, de acordo com a sua cultura. Assim, a grande variedade de formas em se fazer as coisas vitais é quantitativamente maior do que as próprias necessidades. É esta grande variedade na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural. Os seus comportamentos não são biologicamente determinados. 34 Unidade I A sua herança genética nada tem a ver com as suas ações e pensamentos, pois todos os seus atos dependem inteiramente de um processo de aprendizado (LARAIA, 2009, p. 28). Podemos perceber uma relação intrínseca entre cultura e questões biológicas. Assim como na antropologia, o conceito de cultura também está no centro de dilemas acadêmicos e também pode fazer parte de dilemas do cotidiano. Quer ver só? É muito comum, em nosso cotidiano, associarmos a destreza de uma pessoa a um talento inato. Imaginemos um grande violinista. Logo após a beleza da peça executada por ele é fácil dizermos “ele é muito talentoso”, por exemplo. Quando afirmamos isso, afirmamos quase que magicamente a ideia de que ele nasceu com algo que as outras pessoas não nasceram. Claro que nem todos tocam violino, mas será mesmo que essa pessoa nasceu com essa aptidão? O que temos de fazer é tomar cuidado com o outro lado que esse pensamento pode trazer. Ele pode se tornar, acima de tudo, uma explicação que remete à discriminação, tanto social como racial, no intuito de se justificar diferenças sociais. Pergunta: se esse gênio do violino tivesse nascido em uma cultura na qual o campo da música contasse somente com instrumentos rítmicos, ele seria o gênio do violino sem o contato com o instrumento? Pode parecer um exemplo até banal, mas esse pensamento que atribui os feitos sociais a uma “determinação genética” já justificou coisas como a escravidão e até mesmo a nomeação de pessoas de dinastias antigas ou de grandes empresas e companhias para cargos especiais. O homem é o resultado do meio cultural em que foi socializado. Ele é um herdeiro de um longo processo acumulativo, que reflete o conhecimento e a experiência adquiridas pelas numerosas gerações que o antecederam. A manipulação adequada e criativa desse patrimônio cultural permite as inovações e as invenções. Estas não são, pois, o produto da ação isolada de um gênio, mas o resultado do esforço de toda uma comunidade (LARAIA, 2009, p. 34). É por isso que, para Laraia (2009), não é suficiente que a natureza crie seres humanos muito inteligentes, mesmo porque ela já faz isso. Porém, é necessário que esses indivíduos tenham ao seu alcance material e possibilidade para que possam exercer sua criatividade. Além do mais, não precisamos nem dizer sobre o exemplo que, acima de tudo, é necessário muito estudo. Portanto, podemos pensar a cultura em diferentes aspectos. O primeiro deles se deve ao fato de que a cultura é determinante no comportamento do ser humano e justifica nossas ações, muito mais do que a genética. Assim, o ser humano age de acordo com determinados padrões culturais. 35 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA A cultura também é responsável pela adaptabilidade do ser humano em diferentes ambientes. Vemos isso no fato de que somos capazes de nos adaptar a um ambiente sem que mudemos nosso aparato biológico. É por isso que os estudiosos da cultura afirmam que o ser humano foi o único animal capaz de superar as diferenças ambientais, sendo uma espécie presente em praticamente todos os ambientes do planeta. Isso contraria o determinismo geográfico. Enquanto o urso polar não pode mudar de seu ambiente, pois não suportaria um grande aumento de temperatura, um esquimó pode transferir-se de sua região gelada para um país tropical e em pouco tempo estaria adaptado ao mesmo, bastando apenas trocar o seu equipamento cultural pelo desenvolvido no novo hábitat. Ao invés de um iglu capaz de conservar as menores parcelas de calor, preferiria, então, ocupar um apartamento refrigerado, ao mesmo tempo em que trocaria suas pesadas vestimentas por roupas muito leves ou quase inexistentes (LARAIA, 2009, p. 33). Contudo, essa concepção da cultura admite que o ser humano depende, assim, muito mais do aprendizado que adquire do que de atitudes instintivas, sem negar asnecessidades vitais. De tal modo, é justamente esse processo de aprendizagem que vai determinar o comportamento – e a capacidade artística, como no exemplo do violino – do ser humano. Ademais, nessa perspectiva, a cultura é um processo de acúmulo que tem origem na experiência de gerações anteriores, sendo um fator estimulante – ou limitador – da ação do indivíduo. Bauman (2012) também tem importantes considerações sobre o tema. Ele vai na direção oposta de Geertz (2013) e afirma que a cultura é um objeto tão amplo que, se fosse possível cunhar uma definição singular de cultura, não expressaria sua dimensão e complexidade. Ele ancora sua reflexão nos estudos antropológicos e afirma que a cultura só passou a ser objeto de interesse por conta dos estudos de campo sobre povos até então desconhecidos do europeu. Assim, a antropologia buscava desvendar os padrões dos comportamentos dos povos, sendo, na verdade, um ponto no qual buscava-se compreender o que diferia uma cultura da outra. Contudo, tais estudos acabaram por semear o surgimento do conceito de cultura. Dessa maneira, o autor admite que opta por compreender a cultura a partir da elucidação do “significado de elementos linguísticos semanticamente carregados pelo estudo dos locais em que aparecem tanto na dimensão paradigmática quanto na sintagmática” (BAUMAN, 2012, p. 88). Ou seja, ele tenta compreender a cultura através de seu uso. Para tal, o autor divide o termo em três grandes significações: a cultura como conceito hierárquico, a cultura como conceito diferencial e um conceito genérico de cultura. A definição de cultura como conceito hierárquico tem origem em como as pessoas compreendem a cultura em sua experiência pessoal cotidiana. Por exemplo, uma pessoa que não consegue corresponder aos padrões de um grupo não é aceita por esse grupo. Muitas vezes de forma implícita, o pensamento coletivo leva à expressão “falta de cultura”. 36 Unidade I Sucintamente, compreendemos que a transmissão da cultura é função das instituições educacionais. Atentemo-nos para o fato de que não falamos somente da escola, que é instituição de ensino, mas de todas as instituições responsáveis pela educação, como a família, a igreja etc. Consequentemente, nessa perspectiva, é comum também classificarmos as pessoas de acordo com o seu nível cultural. Sem perceber, quando taxamos alguém como uma pessoa culta, estamos simplesmente associando ao conceito de cultura a educação, a cordialidade, a instrução, em uma espécie de classificação nobre. Porém, automaticamente, colocamos no lado oposto dessa perspectiva aqueles que não possuem tal instrução, pois uma pessoa culta é o oposto da inculta. Nessa visão hierárquica da cultura, ela é, então, uma parte separável do ser humano. Ao mesmo tempo, ela está no limiar da essência do ser humano, como também é uma característica existencial. Sendo assim, ainda nesta perspectiva, a cultura faz com que o ser humano possa ser moldado, faz com que ele seja adaptável, mas pode, em contrapartida, ser uma parte abandonada por nós, justamente por ser algo à parte do ser humano. Vale também atenção ao fato de que essa noção que compreende a hierarquia na cultura é carregada de valor. Exatamente por isso, dizer que você está ouvindo a peça de Beethoven Für Elise em Am (Lá menor) tem um determinado valor e uma consequente significação, mas dizer “é a música do gás” tem outra completamente distinta. Mesma música, valores diferentes. Observação Em meados dos anos 1990, os caminhões de gás da região metropolitana de São Paulo deixaram de passar buzinando pelos bairros para tocarem essa música em alto-falantes durante vendas e entregas de botijões. Já a interpretação de Bauman (2012) de cultura como um conceito diferencial compreende que esse termo serve como explicação para as diferenças visíveis das sociedades, sejam elas temporárias, ecológicas ou até mesmo sociais. Entretanto, essa visão por si só é incompleta. Ela necessita de subsídios para que tenha sentido. Portanto, ela é alcançada somente através da observação, ou seja, é a visão de cultura que permeia os etnógrafos. Vale também a reflexão sobre o papel dos gregos nessa perspectiva de cultura. Embora nunca fossem teóricos sobre cultura (como já vimos anteriormente), a visão de mundo deles era dividida em duas: o mundo helênico, aquele que era de fato cultura grega, e todo o resto, que eles chamavam de bárbaro. Como eles eram apegados aos seus padrões, nunca se preocuparam em estudar aquilo que não eram, com raras exceções. Porém, mesmo não dando atenção a outras sociedades, o povo grego nos deu subsídios para o entendimento de cultura como um conceito diferencial; afinal, o bárbaro era observável, existia um outro mesmo que não reconhecido como ser humano na visão helenística. 37 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA O que sustenta esse conceito diferencial da cultura é o fato de que os seres humanos não são completamente definidos por questões biológicas, aqui na perspectiva da genética. Dessa forma, o ser humano não nasce preparado para a vida e precisa da cultura para situar-se no mundo. Ao mesmo tempo, a variedade de sociedades culturalmente distintas e exclusivas correspondem, ainda, a um conjunto biológico igual: espécie humana. Outro pressuposto dessa concepção de cultura reside no fato de que ele é incompatível com a ideia de culturas universais, pois, dessa forma, não poderia se ver o diferente. Por fim, a visão do conceito genérico de cultura. Bauman (2012) defende que essa interpretação de cultura é, ao mesmo tempo, oposição e complemento da visão diferencial da cultura. Complementar porque, quanto mais se interpreta como diferencial, mais surge a necessidade de explicar o que tem de essencial em nossa espécie. Ou seja, o próprio conceito diferencial abre a lacuna para o conceito genérico, justamente sua oposição. Essa conceituação está no limiar do homem e do ser humano. Se a noção hierárquica de cultura coloca em evidência a oposição entre formas de cultura “requintadas” e “grosseiras”, assim como a ponte educacional entre elas; se a noção diferencial de cultura é ao mesmo tempo um produto e um sustentáculo da preocupação com as oposições incontáveis e infinitamente multiplicáveis entre os modos de vida dos vários grupos humanos – a noção genérica é construída em torno da dicotomia mundo humano-mundo natural; ou melhor, da antiga e respeitável questão da filosofia social europeia – a distinção entre “actus hominis” (o que acontece ao homem) e “actus humani” (o que o homem faz). O conceito genérico tem a ver com os atributos que unem a espécie humana ao distingui-la de tudo o mais. Em outras palavras, o conceito genérico de cultura tem a ver com as fronteiras do homem e do humano (BAUMAN, 2012, p. 130). Figura 8 – Dança ritualística no Camboja 38 Unidade I 2.1 Sentido e alcance da cultura Como vimos, conceituar cultura é demasiado complexo. Temos diferentes abordagens históricas, diferentes enfoques, diferentes formas de compreensão de um fenômeno exclusivo do Homo sapiens. Partindo da reflexão de Geertz (2013), que admite a necessidade de se trabalhar para chegarmos em um conceito, vamos fazer caminho parecido: como conceituar cultura de modo que seja suficiente para nossa reflexão sobre as relações internacionais? É possível isso? Acreditamos que, embora a causa de Geertz (2013) seja nobre, dificilmente chegaremos a um denominador comum. Estaria, assim, mais para a definição genérica de cultura proposta por Bauman (2012). Entretanto, assumir uma postura é fundamental para nosso campo do saber. Sendo assim, Gomes (2008) traz uma definição muito interessante que abarca dimensões que são fundamentais para nosso desenvolvimento enquanto internacionalistas. Para ele: Cultura é o modo próprio de ser do homem em coletividade, que se realiza em parte consciente, em parte inconscientemente, constituindo um sistema mais ou menos coerente de pensar, agir, fazer, relacionar-se,posicionar-se perante o Absoluto, e, enfim, reproduzir-se (GOMES, 2008, p. 36). Ainda assim, essa definição é um tanto quanto ampla. Ao afirmar “modo próprio de ser”, o autor considera essa a parte biológica do ser humano. É o diálogo com a antropologia biológica, o “homem” como um ser do reino animal dotado de instinto de sobrevivência. Entretanto, por conta da cultura, temos características que vão além do próprio instinto animal. Se o ser humano é capaz de, racionalmente, se diferenciar das outras espécies pela sua capacidade de pensar, para a antropologia, “pensar é articular uma compreensão do mundo (worldview em inglês, weltanschauung, em alemão) através da linguagem” (GOMES, 2008, p. 37). Todos nós sabemos que pensar é um ato da consciência, de caráter individual, que dá sentido a diferentes aspectos do existir. Ele pode ser demonstrado através de palavras, conceitos e, não é exagero, da própria língua, pois ela é um exemplo do que e como o pensamento pode dar sentido a algo. Porém, existe algo que nos interessa: o pensamento pode ser coletivo. Exatamente por isso que afirmamos que cultura é sempre coletiva. O pensar culturalmente é “um ato coletivo, na medida em que os termos desse pensar, as categorias de pensamento, são dados pela cultura da qual o indivíduo faz parte” (GOMES, 2008, p. 37). 39 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Lembrete Esse pensar coletivo é o meio que origina o conceito de imaginário, pois ele funciona desta maneira: a manifestação é individual, mas a concepção vem dos relacionamentos com a coletividade. Sendo assim, o pensamento da cultura fica explícito através da língua, um veículo de comunicar, mas também de pensar. Além do mais, tanto a língua quanto o pensar formam estruturas que estão presentes em praticamente todas as definições de cultura. Em relações internacionais, quer maior exemplo disso que a necessidade de se aprender alguma língua estrangeira? Conhecer o poder da língua é fundamental para a nossa profissão, pois a língua é, também, um “sistema de símbolos convencionados como significados que são compartilhados inconscientemente por uma comunidade” (GOMES, 2008, p. 37). Ademais, todas as palavras possuem significados próprios que são, de certa forma, compartilhados entre os membros de uma determinada sociedade, de forma que se fazem compreensíveis por todos. Entretanto, esses significados não são fixos, pois eles podem ser modificados pela própria sociedade no decorrer de seu desenvolvimento. Sendo assim, podemos perceber por que o pensar é tanto coletivo quanto individual. Coletivo porque são compartilhados pela sociedade, visíveis através da língua sobre a realidade que está inserida. Individual porque, ainda assim, é possível que se crie e modifique em cima dessa realidade coletiva. Portanto, essa condição é crucial para que haja o desenvolvimento de outra característica fundamental para o desenvolvimento das sociedades: a criatividade. A criatividade é muito discutida nos dias de hoje, principalmente no campo da inovação, e a inovação nada mais é do que a mudança na realidade coletiva. Ela pode ser entendida como a capacidade de se buscar e encontrar respostas inusitadas e incomuns a questões sociais. Normalmente, chega-se a essas respostas através de amplas associações. Pode ainda ser compreendida como um ato, uma ideia ou um produto que modifica algo existente, mas que também cria algo novo. O papel dela é de alterar a realidade. A única coisa que devemos ter atenção em relação à criatividade é que ela não vem do nada, mas sim de muito tempo de relacionamento e contato entre o corriqueiro e a nova ideia. “Criatividade não é uma lâmpada na cabeça, como muitos desenhos animados a representam. É uma conquista nascida de intenso estudo, longa reflexão, persistência e interesse” (PEARSON EDUCATION DO BRASIL, 2011, p. 6). 40 Unidade I Figura 9 – Grafite, arte de rua É inegável que a criatividade fica evidenciada nos dias de hoje na ciência e, principalmente, na tecnologia. Afinal, temos o mundo em nossas mãos, não é? Essas novas dinâmicas afetam as relações internacionais. Podemos, enfim, conceber a cultura como um sistema de ordenamento do pensar e do agir, sendo um código carregado de valor. Desse modo, os atos podem ser considerados como ações individuais aceitáveis pela coletividade. Por isso, palavras e atos que destoam do coletivo podem ser rejeitados. Ao mesmo tempo, quando algo que destoa é aceito, pode vir a modificar o próprio sistema do qual destoou. A cultura seria, nessa perspectiva, uma espécie de sistematicidade aberta. Podemos, então, compreender o alcance da cultura através dessa via de mão dupla. A priori, o coletivo e o individual são esferas distintas, sendo possível percebê-las separadamente, cada qual com sua respectiva lógica. O indivíduo age pela consciência – e pelo inconsciente –, mas o coletivo do qual esse indivíduo faz parte é algo muito difícil de se situar e descrever, embora seja possível perceber, pois é uma soma de vários indivíduos. Nessa perspectiva, o coletivo aqui expresso pela cultura age de maneira semelhante ao inconsciente do indivíduo. Ele pode aparecer em ações menos padronizadas, em comportamentos previsíveis, e a parte que poderia ser concebida como consciente aparece naquilo que é passado de geração em geração pelo ensino-aprendizagem. Para Gomes (2008), a cultura também possui um limite de compreensão. Para ele, o não compreensível da cultura se apresenta como “o Deus, os deuses, os entes espirituais da floresta, o indecifrável, enfim, o misterioso” (GOMES, 2008, p. 39). Essa perspectiva da cultura que engloba o indecifrável é compreendida como o sagrado e é canalizada através de todos os sentimentos, falas e ações que se opõem a tudo que é comum, corriqueiro. Outro aspecto interessante que podemos conceber como o alcance da cultura é sua capacidade de reprodução, algo próprio dos seres vivos. Contudo, reprodução significa que ela pode mudar ou ser 41 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA conservada, pois sua essência pode ser conservada e reproduzida, como pode ser alterada e reproduzida. Uma coisa não é antagônica à outra. Essa reprodução se dá por diferentes formas. Uma delas é a reprodução por meios físicos, ou seja, a transmissão dos símbolos e signos de geração em geração ou no espaço da mesma geração – enfim, aquilo que é passado no cotidiano. Assim, fica evidente o papel da linguagem e do comportamento ensinado. A transmissão é a própria manutenção da cultura. Embora todos os aspectos da cultura devessem funcionar para garantir sua conservação, frequentemente existem choques culturais dentro de uma mesma coletividade. E quando isso ocorre, a cultura busca encontrar um novo arranjo para que a situação não conflituosa cesse. Veremos mais adiante que, na contemporaneidade, essa questão de definição cultural em um contexto de mudança rápida coloca em xeque formas tradicionais de organizações sociais. Porém, também devemos compreender que cada cultura possui seu ritmo próprio de reprodução. Qualquer alteração nessa normalidade afeta a própria continuidade da cultura. Essa situação pode ser exemplificada com a própria colonização brasileira. A cultura indígena sofreu diversas mudanças após o contato com o colono português, de forma acelerada, que pouco se tem do que realmente era original das tribos ameríndias, enquanto, do outro lado, somos uma sociedade moldada na lógica europeia. Dessa forma, a reprodução da cultura perpetuou muito mais características lusitanas visíveis do que indígenas, embora, como vamos ver adiante, ainda temos muita herança indígena não visível em nossa cultura. Essa reflexão sobre o alcance da cultura nos leva a outro ponto: as culturas se relacionam, assim como os indivíduos se relacionam entre si. Podemos pensar aqui tanto na colonização como em nosso panorama atual globalizado. Trocam-se bens, produtos e também valores, modos comportamentais que são, ao longo do tempo,incorporados ao coletivo, ganhando a sua própria dinâmica. Temos diversos exemplos sobre esses aspectos, desde os hábitos indígenas – que acabamos de citar – até o uso da calça jeans em larga escala na sociedade brasileira, item cultural norte-americano que é completamente natural em nosso dia a dia. “O contato entre povos produz um contato entre culturas que se relacionam, emprestando e incorporando novos hábitos, novas instituições, novos modos de ser” (GOMES, 2008, p. 46). Diz-se “jeans combina com tudo”. Pois bem, é cultural! Na antropologia existe um termo para designar essas trocas e empréstimos: a aculturação. Sua significação vai desde a representação de mudanças culturais, como aconteceu com os ameríndios, e também explica o processo pelo qual um imigrante passa. Às vezes, o termo conota uma espécie de integração a algo maior, por exemplo, uma nação. Ao mesmo tempo, esse processo pode suscitar o caminho contrário: um povo se fechar na sua própria cultura. 42 Unidade I Figura 10 – Choque cultural Vale também nossa atenção ao fato de que esse processo pode se dar por meios políticos e militares. Nessas condições – mais no meio militar do que no político –, esse processo frequentemente se dá de maneira forçada, eliminando a resistência na aceitação por meio violento. Essa condição pode ser exemplificada nos casos das ditaduras. Se as dinâmicas de cada cultura são afetadas pelo contato e relacionamento entre os povos e se esse contato se dá frequentemente com a roupagem de nações e Estados, temos, então, a pura essência das relações internacionais na cultura. Ademais, nos dias de hoje, as formas mais evidentes desse intercâmbio se manifestam nos aspectos políticos e econômicos. A desigualdade entre as nações é um exemplo disso, pois um ato de uma nação pode afetar em maior ou menor grau outra sociedade. Além do mais, quanto mais poderosa for uma nação, mais fica claro o modo como uma cultura sobrepõe outra, muitas vezes na forma de submissão. Voltemos aos aspectos da cultura estadunidense e os filmes de Hollywood. Eles são, para além de entretenimento, ensaios da própria cultura dos norte-americanos. O empréstimo cultural, nesse exemplo, não se dá por uma necessidade das culturas, mas sim por virem de outra cultura que, ideologicamente, tem força para se espalhar para além de suas fronteiras. Diante desse exemplo, vale ressaltar que, embora seja possível medir as culturas pelo critério da força, não existe cultura inferior ou superior, como na perspectiva evolucionista. É por isso também que assumimos, no início deste tópico, que não existe certa nem errada. “Toda e cada cultura têm o seu próprio e singular valor; toda cultura proporciona aos seus membros o sentido de ser e estar no mundo” (GOMES, 2008, p. 43). Muitas vezes, pelo próprio entendimento do conceito de força, é comum que se confunda a superioridade político-militar e econômica de uma nação com superioridade cultural. Se esse tipo de visão se expande, é possível que haja consequências políticas. Ao mesmo tempo, pode haver o caminho contrário, no qual a cultura de uma nação menos poderosa possa predominar sobre outras muito mais poderosas, como foi o caso da cultura grega clássica sobre a romana, antes de sua conquista. 43 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Mesmo em momentos de contradições, a cultura justifica o povo em seu modo de ser. Claro que existem algumas ferramentas para isso – como a ideologia que iremos estudar adiante –, mas em determinado contexto ela acaba por dar significação para atitudes e pensamentos como o nazismo e o fascismo, por exemplo. Atualmente, a convivência entre as culturas presentes nas diversas nações se dá por alguns princípios humanistas e pensamento científico. É importante salientar que os empréstimos culturais se dão cada vez mais por questões econômicas. Dessa forma, vemos muitas culturas com aspectos comuns, fruto da influência dos Estados Unidos a partir do seu enorme desenvolvimento cultural, econômico, político e militar. Essa percepção de o mundo estar se tornando um só ficou popularmente conhecido como globalização. 2.2 Cultura e sociedade Cultura e sociedade são duas palavras que muitas vezes são utilizadas com a mesma definição. Elas compartilham alguns aspectos semelhantes; entretanto, “sociedade compreende o conjunto dos indivíduos, não como soma populacional indiferenciada, senão agrupados em situações comuns de existência” (GOMES, 2008, p. 44). Não é segredo que esse termo ficou como objeto de estudos para os sociólogos. Eles compreendem, então, esse conjunto de indivíduos em categorias sociais e instituições, como família, vizinhança, igreja, educação, trabalho, entre muitas outras. Nessa perspectiva, os indivíduos se comportariam de acordo com sua participação justamente nessas instituições. Dessa forma, se falamos em indivíduos que se reconheceriam em determinada situação, fazendo com que essa pertença fique evidente em atitudes e na sua forma de enxergar o mundo, estamos falando de cultura. Assim, a “sociedade, em suas parcialidades ou sem sua totalidade, se rege pela cultura, por um modo de ser coletivo que é partilhado por seus membros” (GOMES, 2008, p. 44). Quando o ser humano pertence a uma determinada categoria, ele está, automaticamente, formando o tecido cultural, pois da soma das categorias da sociedade e dos seus modos de enxergar o mundo se forma a cultura. A antropologia cultural tem algumas definições interessantes sobre os aspectos que as sociedades podem demonstrar. Elas podem ser igualitárias, aquelas nas quais todas as famílias teriam a mesma participação econômica; ascendentes, em que existe uma relação entre velhos e jovens; e também dominantes, em que fica evidente a relação entre servos e senhores. Porém, essas definições às vezes nos parecem longe da realidade porque a maioria das sociedades atuais são desigualitárias. Essa definição é um conceito diferente de desigualdade: uma sociedade desigual é o resultado de uma sociedade desigualitária, pois esse termo indica algo que leva à desigualdade. Assim, a desigualdade social seria o resultado de uma sociedade desigualitária em seus diversos aspectos, sejam eles econômicos, sociais etc. Esse conceito traz consigo a ideia de que o nível de participação nos bens e valores culturais se dá de forma desigual nessas sociedades. 44 Unidade I Portanto, sociedade é um todo de indivíduos agrupados em categorias sociais. Tais categorias se constituem por diferenciação, mesmo que não resulte em desigualdade. Já a cultura seria o modo de ser dessa sociedade. Aqui cultura teria uma função muito importante: dar coesão, integridade, ao que é necessariamente dividido (GOMES, 2008, p. 46). Logo, se existem classes dentro de uma mesma sociedade, sendo que dentro dessas classes existem diferenças culturais, pode-se afirmar que existem subculturas, pois cada classe concebe o seu próprio modo de ser. Existem também, principalmente em nações de largo território, diferenças entre coletividades que estão em distintos pontos desse lugar. Portanto, é natural que haja diferenças culturais. Esse é o caso do Brasil. Vimos há pouco que, muitas vezes, as diferenças culturais regionais são elas próprias indicadores da distinção cultural dentro de um mesmo território. É exatamente por isso que utilizamos o termo “sub”. Novamente não é difícil perceber que tais diferenças ficam mais evidentes diante de aspectos socioeconômicos. Afinal, estamos falando de desigualdade dentro de uma mesma sociedade. Entretanto, temos de tomar cuidado, pois se concebemos algo como subcultura, ela só faz sentido dentro de um panorama maior chamado de cultura. Ou seja, elas são “parcialidades de uma cultura englobante que também lhes dá sentido e comunicação mútua” (GOMES, 2008, p. 47). Outro termo bastante usado e que se identifica com cultura é tradição. Essa palavra remete à própria cultura, só que em uma dimensão temporal passada. “Tradição seria tudo aquilocultural que uma coletividade reconhece como sendo essencial para sua identidade, e que vincula sua existência atual com seu passado” (GOMES, 2008, p. 48). Desta forma, é inevitável que, se a tradição (passado) sustenta a cultura hoje (presente), haja uma preocupação com a lealdade a esse passado. Sendo assim, a tradição necessariamente está atrelada ao conceito de ética, pois exige uma atitude de acordo com o que o grupo concebe como ético àquela tradição. Figura 11 – Gueixas com maquiagem e vestimentas tradicionais japonesas 45 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA É importante salientar que, muitas vezes, tradição se confunde com folclore. Entretanto, folclore é algo que se relaciona a crenças, mitos, festividades e ritos, o que, nos dias de hoje, se restringe a comunidades menores e afastadas de metrópoles cosmopolitas. Porém, ao mesmo tempo, remete a um saudosismo que, talvez, muitas pessoas sequer vivenciaram, mas sentem saudades. Observação Conforme o Dicionário Priberam, cosmopolita (do grego kosmopolítes, “cidadão do mundo”) é: 1. Pessoa que considera o mundo como pátria. 2. Pessoa que viaja muito e que se sente bem em qualquer país. 3. Que é relativo a cosmópole (ex.: centro cosmopolita). 4. Que é de todos os países. 5. Que é relativo a ou próprio dos grandes centros urbanos (ex.: hábitos cosmopolitas). 6. [Botânica, Zoologia] Que se encontra na maior parte do mundo (ex.: espécie com distribuição cosmopolita). Percebe o poder da cultura? Mas temos que ser sensatos: você tem alguma dúvida que é mais fácil encontrar nas metrópoles uma festa de Halloween ou uma promoção no St. Patrick’s Day do que o Saci Pererê? Entretanto, esse fenômeno globalizante das culturas não extingue o fato de que estudar o folclore seja importante. Exatamente por isso iremos estudá-lo mais à frente. Saiba mais O que nos torna humanos? Essa pergunta é o ponto de partida para o filme Human, de Yann Arthus-Bertrand. Ele viajou o mundo durante 3 anos buscando entender a essência humana e encontrou histórias de vida de 2 mil mulheres e homens de 60 países, originando o documentário que foi disponibilizado na íntegra no YouTube. Esse documentário é uma fantástica fábrica de inquietações no que diz respeito à cultura em nosso contexto globalizado. Ademais, a reflexão social que provoca no telespectador é digna de se vivenciar. HUMAN. Dir. Yann Arthus-Bertrand. França: Humankind Production, 2015. 190 minutos. 46 Unidade I 3 ANTROPOLOGIA, RELIGIÃO, RITOS E MITOS Até agora vimos o que é essa tal antropologia e um pouco da complexidade de falarmos de cultura. A todo momento, é possível perceber sua importância para as relações internacionais. Existem alguns aspectos que são elementos-chave para que possamos, de fato, traçar um paralelo com nosso campo de estudo, principalmente no que tange às negociações entre pessoas oriundas de nações diferentes. Portanto, para compreender as dimensões antropológicas desses elementos, dividiremos a reflexão sobre o papel da religião, dos rituais e dos mitos. Contudo, aprofundaremos também as questões de folclore, dando devida atenção às questões relacionadas à cultura popular versus cultura erudita. Entretanto, tais conceitos não podem ser simplesmente expostos sem mensurarmos sua importância para as relações internacionais. Exatamente por isso que se faz necessário compreendermos uma dimensão da cultura que será o pano de fundo para que possamos determinar o grau de importância desses estudos antropológicos para nossa área do saber: a cultura política. Segundo Silva e Gonçalves (2010), cultura política diz respeito ao estudo de diversos fatores que compõem uma sociedade. Esses fatores são todos relativos ao fenômeno político, nos campos da psicologia, da sociologia e da antropologia. O pressuposto desse estudo reside no fato de que alguns elementos estudados podem refletir características determinantes tanto para o comportamento individual quanto para o coletivo. Ideias, normas, símbolos, costumes, tradições e religião, além de valores morais e sociais, são alguns dos principais aspectos não objetivos ou materiais tidos como significativos para a compreensão do comportamento, da estrutura, da ordem e dos processos de mudança na esfera política (SILVA; GONÇALVES, 2010, p. 38). Essa vertente de estudo não é recente. Podemos identificar elementos da influência cultural na política desde Platão e Aristóteles, até Montesquieu e Rousseau, por exemplo. Entretanto, o estudo de forma sistemática dessa influência se deu somente após as Guerras Mundiais, devido ao fato de que houve um avanço significativo nas teorias antropológicas psicossociais e na forma de coleta de dados relativos a fenômenos comportamentais. No campo das relações internacionais, a preocupação com esse estudo se dá a partir da década de 1960, pois passou-se a perceber que “culturas políticas refletem as tendências psicológicas dos indivíduos pertencentes a determinada sociedade em relação aos fenômenos políticos” (SILVA; GONÇALVES, 2010, p. 38). Dessa forma, foca-se o esforço na identificação das tendências dos sistemas políticos, sua estrutura e a relação dos indivíduos com o sistema do qual fazem parte. Um exemplo muito interessante dessa perspectiva é o processo eleitoral presidencial estadunidense. Especialistas ficam tentando compreender a lógica interna e, principalmente, as tendências da política 47 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA externa dos Estados Unidos de acordo com os candidatos. Se o candidato é republicano, a tendência é uma; se for democrata, é outra. Outro aspecto importante do estudo da cultura política é o fato de os objetos serem observáveis e identificáveis. Essa perspectiva permite, por exemplo, identificar se, a partir desses objetos, é estabelecida uma relação de submissão ou de participação dos envolvidos. Por ser uma ciência que nasce e ganha força em plena Guerra Fria, o comunismo foi um grande objeto de estudo. Posteriormente, outros objetos de estudos foram os diferentes padrões de desenvolvimento das sociedades. Já nos anos 1990, cresceu o interesse por temas de direitos humanos e, com a noção de globalização ganhando força, tornou-se objeto de interesse a ideia de sociedade internacional. Diante desta contextualização, vamos aos elementos antropológicos e sua relação com a religião. 3.1 A religião na perspectiva da antropologia cultural Temos visto, principalmente a partir do século XX, o ressurgir da religião no cenário internacional, especialmente com a Revolução Iraniana, em 1979, com o papel da Igreja Católica e do Papa João Paulo II na queda do comunismo no Leste Europeu e, talvez, o aspecto mais atual, o pós-11 de setembro, que têm deixado em pauta a questão do choque entre o oriente islâmico e o ocidente cristão. Hoje, esse embate é responsável pelo aumento de fluxos migratórios e, principalmente, pelo aumento de atitudes extremistas, carregadas de violência, personificadas à sombra do grupo Estado Islâmico. Embora exemplos não faltem, o nosso foco é compreender a religião como um sistema cultural passível de análise antropológica que é determinante em questões de âmbito global. Portanto, mesmo que em alguns momentos seja necessário exemplificar e, consequentemente, contextualizar um determinado panorama religioso, não iremos estudar de fato as religiões. Encarando então a religião como um sistema cultural, novamente Geertz (2013) pode nos ajudar. Para ele, a antropologia que se preocupa com o estudo da religião não teve progresso teórico após a Segunda Guerra Mundial, pois o máximo que foi feito nesse campo de estudo foi a extração de conceitos de nomes extremamente conhecidos no assunto, como Durkheim e Weber. Para se ir além desses fatos, não se deve abandonar tais teorias, mas sim usá-las como ponto de partida para novos desenvolvimentos, colocando-as num contexto mais amplo e atual. Se falarmos em dimensão cultural na análise religiosa, temos o problema da multiplicidadedo termo cultura, como vimos anteriormente, mas, ao mesmo tempo, podemos restringir nossa análise em significados de cultura transmitidos historicamente em formas simbólicas. Vale ressaltar que o intuito de se estudar religião sob a ótica da antropologia não é afirmar a existência de deus. A antropologia não engloba todas as religiões, porque o objeto de estudo são as relações, as representações e a forma como a religião é um fator cultural. 48 Unidade I Entretanto, para falar em religião é necessário adotar o termo “sagrado”, pois sabemos que os símbolos sagrados mostram o tom, caráter e a visão de mundo de um povo. O sagrado é o que não se pode explicar, colocado a parte da vida cotidiana. Ele é o oposto do profano, aquilo que é corriqueiro. “O sagrado é aquilo que a cultura, como coletividade, reconhece como merecedor de respeito e reverência porque toca a todos” (GOMES, 2008, p. 136). Entretanto, a ideia de sacralizar sempre é uma abstração. Normalmente, atrela-se a concepção de sagrado a algum objeto, pessoas, locais e símbolos. Figura 12 – Jerusalém, cidade sagrada Dessa forma, o sagrado coloca um fenômeno social em outro patamar para aquela sociedade. Essa visão sacralizada de mundo mostra um estado verdadeiro das coisas para esse povo, ou seja, os símbolos correspondem entre uma vida particular do indivíduo e uma vida metafísica específica. Assim, a religião ajusta as ações humanas a uma ordem cósmica e projeta imagens dessa ordem no plano dos humanos. Nessa perspectiva, a religião é: Um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que as disposições e motivações parecem singularmente realistas (GEERTZ, 2013, p. 67). Diante de tal definição, o autor compreende o termo “símbolo” como “qualquer objeto, ato, acontecimento, qualidade ou relação que serve como vínculo a uma concepção” (GEERTZ, 2013, p. 67). Assim, pode-se afirmar que atos culturais utilizados de formas simbólicas tornam-se públicos e observáveis. Porém, não são a mesma coisa, afinal, construir uma casa é bem diferente de uma planta da construção, mesmo que a construção siga essa planta. Um traço genérico dos símbolos é que a formação deles se dá externamente ao indivíduo, não é um traço genético. Ele é significativo porque a formação de um indivíduo se dá não só por dentro dele, mas sim por influências externas. Padrões culturais agem como um conjunto de símbolos que modelam as relações de um para outro. Existe uma diferença entre o termo “de” e o termo “para”: o primeiro age como uma espécie de expressão 49 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA da estrutura em questão, e o segundo designa um modelo para a realidade em si. Modelos de e modelos para são interligados nesse campo. Seguindo o exemplo, o de é a planta e o para é a casa. Quando Geertz (2013, p. 67) afirma que esse sistema de símbolos “estabelece poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens”, ele afirma que o ser humano, ao buscar sua revelação em relação ao sagrado, algo que não é compreendido, estabelece uma direção para onde ir, conduzindo o crente a tendências, capacidades, propensões etc. Isso não significa que o ser humano é devoto o tempo inteiro, mas que ele pode praticar atos de devoção em si. Isso traz o interior do indivíduo para o exterior, tornando algo que pode ser observado e analisado. De fato, ao analisarmos a religião nessa perspectiva, não estamos analisando a religião em si, mas sua influência no âmbito da sociedade. Eis aqui a diferença entre teologia e ciências da religião. E como nos estudos da antropologia nas relações internacionais nosso objeto é a cultura, a segunda perspectiva é ideal. Seguindo ainda a definição de Geertz (2013, p. 67), o que o autor defende ao afirmar “formulação de conceitos de uma ordem de existência” é o fato de, se os símbolos sagrados não levassem o homem às suas disposições e ao mesmo tempo não despertassem ideias de ordem, não haveria diferença entre atividade empírica e experiência religiosa. A religião precisa afirmar algo, senão tornar-se-ia simplesmente uma prática que poderíamos chamar de moralismo. Porém, a religião é muito mais do que isso, pois o homem seria incompleto se não tivesse padrões culturais. O homem é completamente dependente de símbolos; seu maior medo é encontrar algo que não seja passível de interpretação. Portanto, sabendo do limite da cultura em explicar tudo, esse algo que não é passível de interpretação, que Gomes (2008) afirma ser o absoluto, é encaixado na perspectiva do sobrenatural. Desta forma, o caos e eventos que não se interpretam racionalmente testam os limites do ser humano e desafiam sua capacidade de análise, seu domínio sobre a natureza e sua introspecção moral. Grande parte dos humanos é incapaz de deixar sem explicação problemas não esclarecidos, ou seja, não tentar desenvolver noções para algo não explicado. Porém, há uma dificuldade em tornar certos fenômenos em conceitos culturalmente formuláveis. Para Geertz (2013), a religião ajuda as pessoas a suportar situações de pressão emocional, abrindo fugas a tais situações que nenhum outro caminho empírico abriria. O problema do sofrimento, para a religião, não é a busca de um meio de evitá-lo, mas sim tornar o sofrimento algo suportável. A religião não oferece ao homem somente uma garantia para sua capacidade de compreender os fatos, mas sim uma definição de um sentimento para este tornar-se suportável. O sofrimento muitas vezes é visto como o mal, o sofredor o vê como imerecido. O mal é a mesma espécie de problema do sofrimento, e o esforço da religião é para negar que existam acontecimentos inexplicáveis, que a vida é insuportável e que a justiça não passa de uma miragem. 50 Unidade I Existe nessa definição um questionamento implícito: como o ser humano religioso muda o inexplicável para o explicável? Os antropólogos jogam essa questão para os psicólogos, reduzindo o problema. Entretanto, o homem religioso aceita uma autoridade divina, pois aquele que quer saber precisa primeiro aceitar. Geertz (2013), por sua vez, coloca a palavra “fatualidade” em sua definição para tal, ou seja, o fato em si já é suficiente. Observação Fatualidade tem sua origem em fatual ou factual. Conforme o Dicionário Priberam, fatual é: 1. Que está relacionado ao fatos ou que se baseia nos mesmos; objetivo, imparcial. 2. Que possui a existência verdadeira; em que há verdade comprovada; comprovado, verdadeiro, real. 3. Que pauta somente nos fatos, mas não procura compreendê-los e/ou interpretá-los. Figura 13 – Menino muçulmano rezando A perspectiva religiosa pode ser comparada com outras perspectivas que os homens usam para construir sua visão de mundo: o senso comum, a perspectiva científica e a perspectiva estética. O senso comum seria um simples modo de enxergar o mundo e sua aceitação do jeito que se apresenta. A perspectiva científica, por sua vez, é a visão de mundo em que a pesquisa geraria uma explicação através de termos formais. Já a estética, como o próprio nome diz, explicaria o mundo pelas aparências. A perspectiva religiosa vai além da vida cotidiana, e a palavra que melhor ilustra tal perspectiva é aceitação. Perspectiva religiosa é compromisso em vez de análise. 51 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Essa perspectiva nos leva ao ritual. É no ritual que surge a ideia de que as concepções religiosas são verdadeiras; as induções dos símbolos religiosos dos homens se reforçam umas às outras – o mundo vivido e o mundo imaginado fundem-se num só. Iremos estudar o ritual a seguir. Finalmente, quando Geertz (2013, p. 67) afirma que “as disposições e motivações parecem singularmente realistas”, ele quer dizer que o mundo dos objetos de senso comum e atos práticos constituem a realidade humana. Até mesmo um grupodos mais insensíveis homens possui um senso comum. Portanto, o impacto do ritual não é propriamente no ritual em si, mas no que reflete na vida humana. A religião modela e altera radicalmente o panorama apresentado ao senso comum. Esse impacto é passível de uma avaliação geral do valor da religião em termos morais e funcionais. Nessa perspectiva antropológica e cultural, a religião serve tanto para o indivíduo quanto para um grupo. É a interpretação dos processos sociais e psicológicos através do cosmo. O estudo antropológico da religião nada mais é do que uma análise dos significados dos símbolos e o relacionamento desse sistema simbólico a processos socioestruturais e psicológicos. A partir da visão cultura e antropológica da religião podemos compreender melhor porque ela é importante nos estudos da sociedade. Porém, para melhor situarmos seu papel nas relações internacionais, devemos também compreender o seu papel como modeladora de processos sociais, principalmente no que tange às sociedades ocidentais. 3.2 A religião na perspectiva histórico-político-social no ocidente A religião, assim como a cultura, se desenvolve de formas diferentes em cada lugar do mundo. Porém, para melhor entendermos a dinâmica e influência dela em nossa sociedade, trataremos aqui da história e constituição da religião cristã, que se institucionaliza em forma de igreja durante o Império Romano, especificamente na segunda metade do século IV, chamada posteriormente de catolicismo. Reiteramos que a ideia não é um estudo de todas as religiões, mas é fundamental a história da constituição de algumas delas, pois elas moldaram as sociedades ocidentais. Primeiramente, devemos compreender que o cristianismo institucionalizado foi hegemônico na Europa durante muitos séculos, moldando costumes, práticas e regras. E se essa religião teve todo esse poder e influência, é natural que ela tenha delegado para si a noção de única visão de mundo possível. Automaticamente, diante dessa perspectiva, o valor de outras culturas e civilizações foi completamente deslegitimado. Porém, embora estejamos falando de religião, não podemos em nenhum momento separar seu caráter político. Mais do que o monopólio da salvação da alma, essa instituição precisava se colocar politicamente na sociedade. Dessa forma, iniciou-se em Roma um movimento que tinha por finalidade unificar a prática cristã católica. Para isso, era necessário que a prática fosse igual em todas as partes da Europa onde houvesse uma igreja cristã. Esse fato histórico é muito interessante para nós, internacionalistas, porque, embora ele tivesse como finalidade a unificação das práticas de uma instituição – ou seja, cunho político –, ele passava por questões do sagrado: a unificação litúrgica. 52 Unidade I Porém, antes de se pensar em unificar a prática, foi necessário que se consolidasse o cristianismo. Um fato muito interessante nesse processo é como o imperador Constantino, no ano 313, lidou com o crescimento dessa religião. Até o século IV, o cristianismo era somente uma religião como tantas outras que havia na Europa. Entretanto, ela crescia exponencialmente de forma clandestina. Segundo Stark (2006), o cristianismo não cresceu porque foi reconhecido pelo império, mas foi reconhecido pelo império porque estava em plena ascensão. O autor afirma que o cristianismo crescia a uma taxa de 40% por década, sendo que no ano 40 d.C. havia mil cristãos no Império Romano. Diante de tal equação, é fácil perceber o quanto essa religião cresceu, principalmente após meados do século III. Quando o então imperador percebeu esse crescimento, ele intuiu que isso poderia se tornar um problema político em breve. Dessa forma, “Constantino concedeu aos cristãos os mesmos direitos e a mesma proteção que aos praticantes das outras religiões do império” (PALISCA; GROUT, 2014, p. 41). Mas o que era esse tal cristianismo? Uma religião clandestina que crescia de forma tão rápida para colocar em risco a soberania política de todo um império? O que havia nela que não havia nas outras? Segundo O’Donnell (2007), o cristianismo é uma crença de cunho religioso que tem sua base no Cristo, que acredita-se ser Jesus de Nazaré, um judeu que viveu nessa região em meados do século I. Esse movimento religioso teve seu início no Oriente Médio, como um movimento judeu. Seus valores residem na humildade, no perdão e na graça divina. Ao mesmo tempo, ele é um paradoxo: “alega-se não somente que Deus poderia se tornar homem, mas também que um homem crucificado podia ser saudado como Salvador e Senhor” (O’DONNELL, 2007, p. 117). Porém, como afirmamos ser um movimento tanto religioso como político, é necessário compreender o seu processo de institucionalização para, então, compreendermos suas dinâmicas sociais. E a religião se institucionaliza quando se transforma em igreja. Essa palavra é a tradução da palavra grega ekklesia. Ela significa “reunião”, designando a todos que seguiam o messias e se reuniam em veneração. Contudo, por ser uma instituição, a igreja cristã é dotada de todos os aspectos de qualquer outra instituição, como hierarquia e burocracia. Ao se firmar enquanto instituição, ela estabelece um divisor de águas entre cristianismo primitivo e cristianismo moderno. O cristianismo primitivo seria uma instituição eclesial não institucionalizada e o cristianismo moderno era caracterizado justamente pela existência de uma instituição eclesial, que seria referência e autoridade do saber teológico, estabelecendo códigos e condutas. Diante desse panorama, qual o papel da cultura e da antropologia? Segundo Chaui (2004), o processo de transição da clandestinidade para ser a religião oficial institucionalizada, com caráter político, só foi possível pelo estilo de pessoalidade intrínseco ao próprio cristianismo. Com uma lógica distinta de outras religiões conhecidas, as quais tinham seus pilares em questões regionais, o cristianismo nasceu como uma religião ligada aos indivíduos e sua fé em um único deus, e não ao pertencimento a uma nação ou a um Estado. Essa perspectiva nos mostra uma nova função da religião, que molda aspectos socioculturais como nunca houvera antes. 53 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA É possível verificar seu efeito nas relações políticas. Por isso que “à medida que declinava o prestígio do imperador romano, o do bispo de Roma ia aumentando, e começou gradualmente a ser reconhecida a autoridade preeminente de Roma em questões de fé e disciplina” (PALISCA; GROUT, 2014, p. 41). Em pouco tempo, essa instituição religiosa consolidou aspectos sociais como a própria língua, pois no próprio século IV o latim substituiu o grego na prática litúrgica. Vimos a importância da língua tanto nos estudos da linguística quanto para a própria antropologia e os estudos sobre cultura. Se uma instituição tem o poder de alterar a língua, influenciando toda uma região de grande importância como a Europa, podemos, assim, perceber sua importância para nossa disciplina. A igreja se infiltrou na política, sendo que alguns bispos assumiam cargos nas diretivas e assembleias nacionais. Segundo Dawson (2014), exerciam funções legislativas e judiciárias na Espanha. Na Gália, os reis retribuíam o clero com doações generosas de terras e isenções legais. Não há dúvidas sobre a riqueza agrária que a Igreja acumulou nesse período e sobre as mudanças nas condições econômicas e sociais, nas quais foi fator preponderante. Com tanta terra, a Igreja voltou a se instalar na zona rural, onde os bispos governavam como verdadeiros príncipes, impondo não só dízimos, mas também tributos e pedágios. Tal aspecto fica evidente, então, em questões culturais. Ao se expandir, inevitavelmente havia o choque entre a cultura agora sagrada e a cultura do outro, o bárbaro, a profana. O mesmo dilema que aparecia na cultura grega aparece na romana, agora cristã institucionalizada. Em consequência deste fato, a contradição entre cultura dominante e popular, que, por ocasiãodos primeiros enfrentamentos dos bárbaros com a civilização romana, havia sido encoberta pela oposição entre cultura urbana e rural, viria agora a tomar a forma que se tornaria característica para a Idade Média, ou seja, a forma de oposição entre cultura eclesiástica e profana. [...] Ocorria, entretanto, que a Igreja, que de fato promovia a cultura dominante, julgando-se a única detentora da verdadeira cultura e considerando o povo como sendo inculto e ignorante, negava a própria existência da cultura popular (SCHURMANN, 1989, p. 56). Durante todo o primeiro milênio da era moderna, a então igreja cristã institucionalizou-se ne figura da Igreja Católica Apostólica Romana. Porém, com o próprio desenvolvimento das sociedades, a sua explicação de mundo e salvação da alma passou a não servir mais para explicar o absoluto e os próprios fenômenos naturais como fazia outrora. Ao adentrarmos nos primeiros séculos do segundo milênio, o poder dessa instituição foi diminuindo gradativamente. Enquanto o século XIII foi uma era de estabilidade e unidade, o século XIV foi de mudança e diversidade. A autoridade da Igreja, que tinha o centro de poder no papado em Roma e era respeitada e reconhecida como suprema e universal, chegando a exercer sua autoridade em questões intelectuais e políticas, é colocada em xeque com o surgimento e crescimento da filosofia no século XIV, que concebia a “razão humana e a revelação divina como domínios separados, limitando-se a autoridade de cada uma à esfera que lhe competia” (PALISCA; GROUT, 2014, p. 130). 54 Unidade I Essa perda de poder por parte da Igreja passa por dois conceitos fundamentais nos estudos da cultura: modernidade e secularização. Para Hervieu-Legér (1999), a modernidade de uma sociedade é necessariamente avaliada pelo papel da autonomia do sujeito, pela capacidade de determinar, em consciência, as orientações que esse indivíduo almeja dar a sua própria vida em todos os aspectos da atividade humana. Dessa forma, essa sociedade é necessariamente diferenciada e pluralista, em que nenhuma instituição impõe ao coletivo dos indivíduos e do corpo social um código de sentido global. O resultado pode ser facilmente notado no fato de que a religião não mais regula a conduta do indivíduo. Acreditamos que, nas sociedades antigas, a mística e a magia se expressavam num formato religioso, impregnando todas as atividades daqueles indivíduos, seja no âmbito social ou sobrenatural. Ao longo do tempo, as técnicas mágico-religiosas, que moldaram por grandes períodos o modo de vida dessa sociedade, são substituídas por outras de caráter racional, de base científica em geral. Assim, a referência das grandes igrejas não afirma mais a identidade coletiva. Inegavelmente, a ciência, que até então era serva da própria teologia, passa a exercer grande influência nesse processo, pois ela é a responsável pelo desencantamento do inexplicável que a religião guardava. Consequentemente, outro fenômeno emerge no contexto da modernidade: a secularização. Esse fenômeno pode ser entendido como o declínio da influência das igrejas históricas. Outro aspecto importante a ser relembrado é a forma como a secularização afeta o funcionamento e o lugar do Estado, até porque, desde o seu surgimento, o Estado passou a dividir o cenário com a religião. Ambos muitas vezes se identificavam de tal forma que acabavam por significar a mesma personagem, ficando centradas em uma mesma figura. Porém, o processo de secularização contribui exponencialmente para a separação de Igreja e Estado. Por conseguinte, ocorre uma ruptura entre sociedade civil e sociedade religiosa, pois a instituição religiosa, que antes era soberana no cotidiano da sociedade, chega ao ponto de não determinar mais a conduta do sujeito, abrindo assim uma lacuna para que esse sujeito possa, a partir de então, adquirir autonomia – embora não plena – e determinar sua própria conduta e destino. A igreja era uma instituição hegemônica; porém, no decorrer desse processo de secularização vinculado à modernidade, ela tornou- se uma instituição como as outras existentes. Marcel Gauchet (2005), em um trabalho antropológico sobre religião, traz uma interessante contribuição na compreensão das consequências políticas do processo de desencantamento do mundo. Ele defende a ideia de que o cristianismo foi a religião para a saída da religião e que no processo de construção do mundo moderno a religião cristã, a qual era a principal influência nas sociedades, foi perdendo sua capacidade de influência social. Para ele, o conceito de secularização alude principalmente ao papel do cristianismo no mundo ocidental. Todo o desenvolvimento que acontece na religião cristã é somente aparente, pois leva a um distanciamento do caráter religioso original; para ele, somente a religião ancestral era verdadeiramente estruturadora do mundo. Assim, todo desenvolvimento no campo da religião significa perda de suas raízes e não aprofundamento. 55 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Gomes (2008) afirma que religião significa re-ligare, do latim, que significa “retorno”. Metaforicamente, esse retorno pode ser para diversos lugares. Pode ser o paraíso que se perdeu ou até mesmo o retorno a sua própria essência. Alguns estudiosos afirmam que a religião é um fenômeno recente. Não que não houvesse práticas místicas, mas a ideia de que a religião seja algo separado da prática cotidiana remete ao período de transição feudal e, inevitavelmente, à separação entre Igreja e Estado. Ora, se a religião, mesmo que imposta, era o modo de vida, a conduta cotidiana era a própria religião. Dessa forma, não havia necessidade de se religar com nada. A partir do momento em que há essa separação, a religião é algo necessário para que fosse possível ligar o cotidiano com o sagrado, visto que o cotidiano não era mais sagrado. Gauchet (2005) afirma que a religião é a forma que o homem encontrou para alienar de si mesmo a responsabilidade de transformar o mundo, em um claro alinhamento de pensamento – ou influência – com Nietzsche. A essa condição do ser humano ele chamou de heteronomia. Para o autor, as religiões mais próximas das originais – aquelas denominadas primitivas – possuem um alto grau de heteronomia. Já nas religiões monoteístas, essa condição de heteronomia ocupa um estágio inferior. Não existe nenhuma ruptura que separe o mundo divino e o mundo humano nas religiões ancestrais, enquanto essa condição de hibridismo entre o humano e o divino não se apresenta nos monoteísmos, principalmente no cristianismo. Embora o cristianismo tivesse surgido como uma nova religião que auxiliasse o ser humano no seu contato com o divino, com o advento da modernidade, o ser humano passa a ter a possibilidade de fazer sua escolha, de fazer parte dessa comunidade religiosa ou então de se colocar de fora dela, assim como é possível escolher não acreditar no sagrado nesse contexto. Dessa forma, o sujeito passa a ser quem escolhe seus próprios caminhos, e ocorre a passagem do mundo da heteronomia para o da autonomia. Nesse novo mundo, as regras da vida social não são mais ditadas pelo que é externo, mas pela própria consciência. É por isso que o autor afirma que o cristianismo é a religião para a saída da religião. Ao mesmo tempo em que se opera essa mudança no panorama religioso oriundo dos efeitos da secularização, ocorre outro processo interligado com o processo de modernidade chamado de desencantamento do mundo: a eliminação da magia como técnica de salvação. Esse conceito muda completamente a maneira de se compreender a relação entre o céu e a terra. A salvação não está mais no divino, não mais no céu; encontra-se, a partir de então, ao alcance das mãos humanas na própria Terra. Sendo assim, “estavam lançadas as bases para a separação da religião e da ciência, da Igreja e do Estado, doutrinas que começaram a impor-se a partir do final da Idade Média” (PALISCA; GROUT, 2014, p. 130). 56 Unidade I Entretanto,mesmo com o declínio de poder da Igreja Católica a partir da secularização, a religião não sumiu do mapa. Primeiro porque um dos grandes golpes no catolicismo não foi de origem científica, mas sim religiosa: a Reforma Protestante, em 1517. Um outro cristianismo surge, e seus ideais se alinham com ideias capitalistas recém-concebidas por conta das mudanças de paradigmas sociais. Ao mesmo tempo, não podemos esconder o capital cultural e político que a Igreja Católica constituiu ao longo desses anos. Talvez um dos mais evidentes para nós, internacionalistas, seja a constituição do Vaticano. O Vaticano é uma Cidade-Estado criada em 1929, por meio do Tratado de Latrão, um pacto feito entre o reino da Itália e a Santa Sé, tendo em vista a criação de um Estado soberano que dotasse a Igreja Católica Apostólica Romana de uma ampla presença política mundial. Assim, a Cidade do Vaticano é um estado eclesiástico, governado pelo Bispo de Roma, o Papa. A maior parte de seus funcionários públicos é formada de clérigos católicos. Segundo Thomas Reese (1997), Vaticano é o antigo nome romano para uma colina e um terreno localizado a sua volta, onde se construiu a Basílica de São Pedro, o Palácio Apostólico e os Museus do Vaticano. Assim, o Estado da Cidade do Vaticano – sua denominação oficial – tomou para si o nome dessa colina e suas redondezas. Figura 14 – Vaticano, Roma, Itália O Vaticano desperta ainda algumas questões em nosso campo do saber. Ele é um país? Existe população por lá? E cidadãos? Eles possuem diplomatas que representam um país ou uma instituição religiosa? Diante de alguns questionamentos como esses, fica evidente a complexidade de se falar em cultura, religião e relações internacionais. Nesse campo do saber, os aspectos e fenômenos se inter-relacionam de tal maneira, que somente através do estudo desse campo é possível compreender tais dinâmicas e, ainda assim, trazendo resultados diferentes a partir de óticas diferentes. 57 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA 4 RITOS E MITOS E SUA INFLUÊNCIA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS Diante de tantas formas de se conceber o ser humano em sociedade, explicando suas dinâmicas e justificando o inexplicável, é importante que compreendamos como essas relações acontecem. Quando falamos em rito ou ritual, automaticamente associamos com celebrações religiosas. Entretanto, muito mais do que uma palavra que traz em si essa conotação, o rito pode ser compreendido no meio corporativo e político. Nas relações internacionais, principalmente na área diplomática, o ritual é amplamente utilizado. Sempre que há o encontro entre presidentes ou até mesmo membros do alto escalão de governos e organizações internacionais, tudo segue um protocolo, desde a utilização de roupas corretas, que não necessariamente tenha uma norma, mas se relacione com o socialmente aceito, como o terno e a gravata, a famosa roupa social, como também no momento do encontro, local, hora e até mesmo a foto do aperto de mão. É importante compreendermos o que há por detrás dessas práticas que são fundamentais nas dinâmicas do meio internacional. Primeiramente, vamos compreender a origem do rito. Como vimos anteriormente o papel da religião e sua importância para a sociedade, não é segredo que o rito advém da prática religiosa. Para Gomes (2008), como o sagrado é algo acima do corriqueiro, é necessário que haja uma forma específica de se relacionar com algo tão acima da realidade observável. O rito é a maneira como as sociedades se relacionam com o sagrado. Entretanto, é necessário que saibamos a diferença entre rito e ritual. O rito refere-se às regras e procedimentos para esse contato com o sagrado. Já o ritual refere-se às práticas propriamente ditas. Algumas culturas possuem o hábito do rito de passagem da adolescência para a idade adulta. Então, quando falamos dessa prática, é o ritual. Um grande estudioso dos ritos é o antropólogo francês Claude Rivière. Ele afirma que os ritos sempre compõem uma gama de condutas que podem ser tanto individuais como coletivas. Essas condutas são de certa forma codificadas e possuem relação com o corpo, pois apresentam manifestações verbais ou gestuais e, principalmente, posturais. Afinal, a relação com o sagrado deve ser feita em outra postura em relação ao cotidiano (RIVIÈRE, 1996). Outro aspecto fundamental é o fato de o rito ser repetitivo, ou seja, ele acontece em diversos momentos. Possui, também, forte carga simbólica tanto para os praticantes como para os observadores. Existe uma relação mental com o momento que pode ou não ser conscientizada. Porém, o rito sempre está associado a escolhas importantes dentro da sociedade, e sua eficácia é medida não somente por conceitos empíricos, mas sim na sua significação social. Porém, esse rito se consolida através de uma prática, o ritual. Assim, no rito de passagem, existe uma forma ritualística de se mostrar para a sociedade como o adolescente passa para a idade adulta. O ritual é composto de padrões, com início, meio e fim, sendo que esse comportamento é completamente diferente do cotidiano. Mesmo que os comportamentos corriqueiros também possam ser padronizados, eles são diferentes do ritualístico porque não se conectam com o sagrado, diferentemente do ritual. 58 Unidade I Vale nossa atenção ao fato de que, se ritual é a forma de se relacionar com o sagrado, todo evento de cunho religioso é ritualístico. Porém, nem todo ritual é religioso, como os protocolos nas negociações internacionais e encontros diplomáticos. Podemos ir além: aqui para nós, brasileiros, o Carnaval pode ser considerado um ritual nessa perspectiva, pois o comportamento do período carnavalesco se diferencia do comportamento cotidiano. Afinal, não é todo dia que você encontra pessoas fantasiadas de maneira criativa andando na rua. Até mesmo o futebol pode entrar nessa lógica, pois é comum também em dia de jogo do time do coração o torcedor seguir um ritual: desde fazer as mesmas coisas que faz em dia de jogo até sempre usar a mesma roupa. É, também, um comportamento que se diferencia dos outros dias em que não há o jogo do seu time. Assim, podemos compreender que existem rituais sagrados e profanos, embora a origem do ritual seja religiosa. Grandes antropólogos dedicaram vidas inteiras ao estudo do rito. Um grande nome desse campo de estudo foi Durkheim. Ele estudou a sociedade aborígene na Austrália, e grande parte do seu pensamento tanto antropológico como sociológico vem desses estudos. Outro grande nome foi um pupilo seu chamado Arnold van Gennep. Ao estudar diversas sociedades durante o século XX, van Gennep percebeu que no rito as estruturas se repetiam. Em sua percepção, todo rito tem começo, meio e fim, sendo que, em cada etapa, há características próprias. Se o rito é a vivência que se diferencia o corriqueiro/cotidiano do momento sagrado, é necessário que haja uma ruptura com o período anterior. Dessa forma, os participantes do ritual sabem que, a partir desse momento, é necessário novos comportamentos e atitudes. Van Gennep chama esse momento de afastamento, um corte com o que estava acontecendo anteriormente. Às vezes pode ser um sinal ou até mesmo um ritual, como o sino de uma igreja que avisa que o sacerdote está adentrando ao recinto e todos têm que levantar, afinal, o sacerdote é a pessoa que irá ocupar lugar central no rito, como também pode ser o momento de entrada do juiz em um julgamento e todos têm de ficar de pé, pois aquele é o momento de afastamento com o que acontecia anteriormente e, a partir de então, as relações estão em outra instância. Já a fase intermediária é o momento em que fica evidente que o acontecimento é diferente dos eventos cotidianos. Muitas vezes pode até parecer contrário do que é corriqueiro e é o momento no qual fica clara a natureza do ritual. Entretanto, mesmo sendo diferente, é o momento em que a diferença fica explícita, mas ainda não se sabe o final. “Tudo parece estar indefinido, suspenso das regrassociais normais” (GOMES, 2008, p. 148). É nessa fase do ritual que ocorrem muitas ações que não são condizentes com o padrão da sociedade. Dependendo do ritual, podem ocorrer ações que colocam em risco a integridade das pessoas e só são aceitas porque essas ações estão exatamente em um momento ritualístico. O próprio van Gennep associa esse perigo ritualístico com a indefinição da relação com o sagrado. 59 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA A fase final, como não poderia deixar de ser, é o momento de conclusão do rito. Ela fica evidente como o fechamento da fase anterior. A fase final é o momento em que os participantes adquirem um novo status social, como em um ritual de passagem, por exemplo, ou essa fase pode ser simplesmente o retorno ao cotidiano/corriqueiro. Essa etapa também pode ser chamada de reincorporação. Essa classificação em três etapas pode ser utilizada em qualquer ritual, independentemente de sua origem. Sucintamente, essas fases representam o momento de ruptura com o anterior, o momento de conexão com o sagrado ou de diferenciação do cotidiano, sendo o momento de retorno ao comum. Voltemos ao exemplo do Carnaval do ponto de vista antropológico. Primeiro porque é cíclico: acontece todo ano na mesma época. A fase inicial ou afastamento é a sexta-feira de Carnaval, pois é a ruptura do cotidiano. Ela pode ser vista na troca de roupa para a fantasia e na ida ao local sagrado do ritual (o baile ou o sambódromo) e até mesmo a mudança de comportamento pode ser um indicador da ruptura com o momento anterior. A fase intermediária contempla uma série de acontecimentos completamente distintos do cotidiano. O próprio uso da fantasia pode ser compreendido como exemplo dessa vivência, pois nessa brincadeira a pessoa deixa de existir como ela mesma e se transforma no personagem da fantasia, chegando até a alterar o seu comportamento. Cuidado com a escolha da fantasia! Nesse momento intermediário alguns comportamentos podem sugerir perigo, como o consumo de álcool, aumento da libido e até mesmo comportamentos sem pudor em relação ao corriqueiro. É o momento em que é aceito fazer coisas que no cotidiano não são aceitáveis. Entretanto, tais acontecimentos que seriam considerados fora do padrão só são aceitos nesse período justamente por conta do seu caráter ritualístico. Aí vem a famigerada Quarta-feira de Cinzas, o dia que muitos não querem que chegue. Ela representa a conclusão do rito, embora em muitos lugares do país ela não finalize o Carnaval de fato. Mas isso não altera seu caráter de conclusão do Carnaval, pois ela é socialmente aceita exatamente como seu fim. O momento final pode ser desde a missa da Quarta-feira de Cinzas, encerrando o período momesco e indicando um retorno ao cotidiano, até o ritual dos trios elétricos, fechando o Carnaval e trocando o repertório musical para outros estilos, indicando justamente o final da folia. Figura 15 – Pessoas fantasiadas no Carnaval 60 Unidade I Nossa sociedade é impregnada de ritos de passagem de origem sagrada. Dada nossa colonização católica com caráter extremamente popularesco, como veremos adiante, ritos religiosos, como o batismo e a crisma no catolicismo, a iniciação no candomblé e na umbanda, festas de santos, festa junina – embora mescle o sagrado com o profano –, o culto de origem protestante e pentecostal e até mesmo o bar mitzvah, de origem judaica, são rituais comuns no Brasil. Independentemente da origem e da crença, o rito faz com que os praticantes entrem em uma condição e passem por uma fase intermediária que concede a eles um novo status sociorreligioso, o qual é concretizado após a fase final. Não podemos esquecer que existem os ritos de passagem de origem laica, pois existe uma série de acontecimentos que justamente indicam a transição de uma condição social para outra. Talvez o mais comum seja o aniversário. Em nossa cultura é comum fazer algum tipo de evento diferenciado para comemorar o dia do nascimento. Por mais simples que seja (“esse ano vou fazer somente um bolinho...”), temos o afastamento, a fase intermediária e a conclusão, indicando a reincorporação ao cotidiano. O casamento é outro exemplo de ritual de passagem que vale nossa atenção. Primeiramente porque ele pode ser tanto de cunho religioso quanto laico, tanto que as pessoas se casam no civil e/ou no religioso. Segundo porque ele é um ritual que pode ser extremamente longo, iniciando com o namoro, o afastamento da condição de solteiro, indicando o início do ritual. Há a fase intermediária, que é o momento entre o namoro e o casamento, alguns passando pelo noivado, por exemplo. É o momento limiar: não se é solteiro, mas não se é casado. E culmina com o encerramento no próprio casamento, que é a conclusão do ritual. É o início de outra condição sociocultural. Observação O casamento no civil é uma prática instituída após a Proclamação da República no final do século XIX justamente para firmar o Estado como uma entidade separada da religião. Temos outros exemplos, como o trote da faculdade, indicando a passagem do ensino médio para a faculdade, o futebol, como falamos anteriormente, e até podemos indicar como ritualístico em nossa sociedade o ato de assistir novela, como o capítulo final, por exemplo, pois há toda uma preparação, o afastamento do cotidiano, o intermediário, que é o ato de assistir ao encerramento da trama, e o final, indicando a volta para o corriqueiro. Rivière (1996) afirma que nem sempre conseguimos identificar o limite entre o sagrado e o profano e, por conta dessa dificuldade, identificar se o rito é sagrado ou profano. Claro que a diferença entre o Carnaval e a missa é gritante, mas não podemos nos esquecer de que o próprio Carnaval é de origem religiosa. Ademais, essa questão entre sagrado e profano transcende o próprio rito e tem relação com o desenvolvimento das sociedades. 61 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Assim como vimos nos subtópicos anteriores, a questão da modernidade é fundamental para a ressignificação do rito. Em nossa sociedade moldada nos preceitos da secularização, a religião ganha outro status e é deslocada. Entretanto, a religiosidade não desaparece, mas sim ganha outros contornos. Exatamente por isso, a quantidade de ritos tidos como profanos aumentaram significativamente. Seria uma espécie de deslocamento do sagrado. Em uma modernidade na qual as atividades são cada vez menos orientadas pela religião, alguns setores da vida social desenvolvem formas de fascínio em relação a determinados objetos, ideais, personagens ou fenômenos, considerados mais ou menos misteriosos porque se situam além dos desempenhos habituais, assim como das reações de temor, eventualmente traduzido ou esconjurado por ritos (RIVIÈRE, 1996, p. 37). O autor nos afirma alguns aspectos bem interessantes dos ritos em sua significação não sagrada. Eles representam uma questão cultural da sociedade, fugindo no seu significado inicial de cunho religioso, pois eles têm sua significação nos simbolismos da própria sociedade. Pensando especificamente em relações internacionais, podemos enxergar o rito nos aspectos das negociações e na prática diplomática sob a perspectiva também cultural e ritualística. Dessa maneira, o protocolo diplomático pode ser entendido como um rito contendo início, meio e fim. Dentro do Ministério das Relações Exteriores do Brasil encontra-se um setor denominado Cerimonial. Esse setor é responsável por fazer a organização de eventos referentes ao relacionamento do Brasil com outros países, efetuar a entrega de credenciais e até realizar a própria organização do evento que contará com a participação do alto escalão dos governos e chefes de Estado. Também é esse setor que faz a troca de correspondência entre o presidente da República e outros presidentes do mundo todo. Lá também é o local no qual são organizados os cerimoniais como a posse dos presidentes e vices e também as visitas de autoridades estrangeiras. Vale ressaltar que recepções,solenidades e condecorações, ou seja, tudo que envolva cerimônia e protocolo, em forma de ritual, é responsabilidade desse setor. Figura 16 – Guardas em frente ao Itamaraty 62 Unidade I Saiba mais Para saber mais sobre o assunto, acesse: BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Manual de visitas de autoridades estrangeiras ao Brasil. [s.d.]. Disponível em: <http://www. itamaraty.gov.br/images/ed_cerimonial/Manual_de_Visitas_-_Formatado_ v5.pdf>. Acesso em: 23 maio 2019. Assim, podemos perceber o quanto estudar o rito é importante para nossa profissão, pois ele impregna, nos dias de hoje, praticamente todos os setores de nossa sociedade, inclusive transcendendo a própria religião na qual a noção de rito foi fundada. Outro aspecto que também é de suma importância para compreendermos a dimensão da antropologia para as relações internacionais é o mito. Sempre que pensamos em mito, o associamos a alguma mitologia. É fácil lembrar da mitologia grega, com Zeus e Hércules, ou da mitologia nórdica, com Thor, principalmente depois de alguns filmes de super-heróis que abocanham milhões em bilheteria mundo afora. Às vezes podemos pensar no mito como uma história que não tem qualquer ligação com a realidade, pois essas histórias recheadas de seres míticos e feitos homéricos parecem completamente impossíveis de se realizar. Entretanto, o mito é muito mais do que isso. É através do mito que muitas sociedades explicam a origem de sua própria existência. Gomes (2008) afirma que ao perguntar a um índio Guajá como surgiu o mundo, ele provavelmente contará algo que ouviu de seus pais, que ouviram de seus avós, que provavelmente ouviram de alguém mais velho ou talvez de um sábio da aldeia. O fato é que, independentemente da história em si, o mito “responde sobre alguns aspectos da existência da humanidade e da natureza que são importantes para a sua cultura” (GOMES, 2008, p. 150). Para Chaui (2004) o mito é uma forma de narrar a origem de algo. Pode ser a origem do mundo, dos seres humanos, dos animais, das raças... enfim, o mito sempre narra o começo de alguma coisa. A palavra mito, como de costume, é de origem grega. Ela descende do verbo mytheyo, que significa “narrar”, “contar”, sempre designando uma narrativa para outras pessoas. Já o outro verbo que origina a palavra é o verbo mytheo. Ele significa “contar”, “anunciar”, mas também “conversar”. Na cultura grega, o mito aparecia na forma de discurso, portanto, retórico. Os seus ouvintes recebiam a mensagem como uma narrativa verdadeira por conta da confiança que possuíam no narrador. Essa narrativa era feita em público e contava, para sua “veracidade”, com a autoridade e legitimidade que o narrador tinha. Essa autoridade viria, então, do fato de que ele havia testemunhado o acontecido ou que tivesse recebido a narrativa por alguém que testemunhou o que era contado. 63 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA O mito era importante naquela sociedade porque o narrador seria um escolhido das divindades. Sendo assim, sua palavra era sagrada, tida como uma revelação divina, e tornar-se-ia incontestável. Segundo Gomes (2008), os acontecimentos míticos podem ser algo fantástico, normalmente animais misturados com seres humanos ou até mesmo seres fantásticos. O mito perpetuou na sociedade grega antes do surgimento da filosofia. Na antropologia, o caminho é parecido: através das narrativas dos anciões das sociedades em estudo, os antropólogos coletam informações para que tenham indícios de questões que influenciam diretamente aquela sociedade. Já nas sociedades que consideramos modernas, muitas vezes os mitos são confundidos com lendas. A diferença entre lendas e mitos está no fato de que a lenda é uma narrativa mais simples e possui, muitas vezes, a intenção de ser uma forma de ensinar ou se doutrinar moralmente uma sociedade. O mito, não. Ele possui um caráter de sagrado. É contado, assim como na Grécia Antiga, por pessoas que possuem reconhecimento social e autoridade para tal. O conteúdo do mito é mais difícil de se compreender do que o conteúdo da lenda, geralmente exigindo do ouvinte um certo esforço de interpretação. Até os antropólogos precisam estudar os mitos. Mas se o mito narra a origem de algo de forma fantástica, como ele serve para entendermos de fato o que se passou em uma sociedade? Aí que está a chave: se o mito sempre narra a origem de algo, por trás das narrativas muitas vezes mais elaboradas do que o cinema hollywoodiano está algo que realmente tem ligação com a realidade. É como se fosse um sonho: às vezes não há lógica no sonho, relação de causa e efeito, mas depois dos estudos de Freud, descobriu-se que aquela narrativa que se apresenta como sonho pode representar a estrutura de algo. Assim como a própria antropologia, o estudo do mito também passou pela influência de diferentes correntes de pensamento. Por exemplo, no viés evolucionista, o mito seria uma forma de contar a própria história antes de chegar na fase racional. Dessa forma, o mito forneceria dados reais e representaria a moral da sociedade. Já no viés estruturalista, o mito é compreendido como uma linguagem que poderia ser universal e que foi utilizada, de certa maneira, por todos os povos. Nessa perspectiva, ele não teria sentido moral ou pedagógico, mas é visto como uma forma de codificar o pensamento das pessoas daquela sociedade. O fato é que o mito ainda é misterioso para a antropologia. Exatamente por essa dificuldade em se compreender o que de fato significa, a palavra ganhou outros sentidos, sendo largamente usada para designar “histórias fantásticas, enredos labirínticos, até ideologias, que condicionam visões e comportamentos humanos” (GOMES, 2008, p. 153). Então, por que estudar o mito nas relações internacionais? Bem, a resposta está no parágrafo anterior: “condicionam visões e comportamentos humanos”. 64 Unidade I É exatamente por isso que a ideia de mito é explorada, muitas vezes de forma forçada, no campo do esporte ou da política. Colocar alguma pessoa ao patamar de mito equivaleria a sacralizar essa pessoa. Consequentemente, sua influência perante os demais seria potencializada. É comum também mitificar alguém postumamente. Nesse caso, provavelmente a imagem do falecido ainda é sinônimo de renda. Lembrete O mito condiciona visão e molda comportamento. Ele é parte integrante da cultura e, acima de tudo, uma forma de significação social, pois a cultura abrange diversos aspectos sociais. Façamos um breve exercício reflexivo. Chaui (2004) afirma que existem três formas de se explicar, miticamente, a origem do mundo. A primeira delas seria fruto da relação entre seres divinos, mãe e pai. A segunda seria através de confrontos e alianças entre os deuses, e tudo surgiria como fruto desse embate. Já a terceira seria através de castigos e recompensas dos deuses para os humanos. O que podemos pensar sobre essas perspectivas? • Há uma dualidade nas três perspectivas, seja ela homem/mulher, bom/mau, deuses/humanos. • Existe conflito de interesses nessas visões de mundo, passando por alianças e confrontos e castigos e recompensas. • Há nitidamente a existência de seres inferiores e superiores Esse é só um pequeno esboço de algumas interpretações possíveis. Entretanto, o que vale nessa reflexão é que podemos nos questionar: será que essa não seria uma forma de explicar o próprio ser humano? Alianças, conflitos de interesses, confrontos, dualidades, uns mais fortes e outros mais fracos.... Tudo a ver com relações internacionais, não? Figura 17 – Poseidon, deus do mar na mitologia grega 65 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Resumo Estudamos o que é essa tal de antropologia. Ela pode ser dividida em dois campos: a antropologia cultural e a antropologia biológica. Na área cultura, ela se preocupa em estudar o ser humano como produtor de cultura e como receptor e também a relação das sociedades com os elementos simbólicos. Já na área biológica, a preocupação é basicamente entendero lugar do ser humano como espécie, o que de fato é instinto e o que é cultural. Exatamente por isso podemos considerar a antropologia tanto uma ciência como uma filosofia. Diante dessa preocupação, algo é fundamental para os estudos antropológicos: o outro. Se não há o reconhecimento da alteridade, não há como fazer antropologia. A antropologia se divide em campos de estudo e é influenciada por correntes de pensamento de acordo com a sua época. Além do mais, ela surge no período de expansão dos povos europeus que entram em contato com outras culturas. A antropologia biológica está diretamente ligada ao evolucionismo. Essa corrente de pensamento é conhecida por Darwin e sua Teoria da Evolução das Espécies, que compreende o mundo de uma perspectiva linear em que os animais buscam simplesmente sua sobrevivência. O evolucionismo influencia a antropologia principalmente no século XIX, pois essa ciência, ao se ancorar nessa perspectiva de evolução das espécies, identifica que existe uma espécie humana igual a sua, mas que seu desenvolvimento, no que tange os aspectos socioculturais, econômicos e políticos, se desenrola em um tempo e lógica completamente diferentes da europeia. A antropologia biológica se utiliza da genética, da arqueologia e da anatomia. O funcionalismo é outra corrente de pensamento que influencia a antropologia e, principalmente, a etnografia, o estudo descrito das coisas. Essa corrente de pensamento procura relacionar a sociedade a um organismo, a uma unidade complexa, a um todo organizado. Ela também fala em necessidades, sendo que a cultura tem justamente a função de suprir tais necessidades. Tal corrente nos deixa de herança o fato de que a cultura é um sistema com lógica própria, oriunda de um determinado contexto que só faz sentido ali mesmo. 66 Unidade I Vimos também o estruturalismo e a linguística. A linguística é importante porque os estudiosos afirmam que, ao se estudar a língua de um povo, automaticamente estamos estudando a sua cultura, pois a língua é uma forma que aquela sociedade desenvolveu para se expressar nela mesma. A concepção de estrutura é oriunda do campo da linguística, pois, como vimos, esse campo de estudo sistematiza a língua em uma forma estrutural, ou seja, um modelo de compreensão, já que o objeto de estudo são as relações sociais. Depois desse breve panorama sobre antropologia, estudamos a cultura e vimos que a definição do termo é bastante complexa. Entretanto, adotamos três pressupostos: ela não é inata, não é certa nem errada e não se refere ao comportamento individual, ou seja, o indivíduo não nasce com ela, pois cada sociedade tem suas próprias dinâmicas completamente distintas umas das outras, e a cultura sempre se relaciona ao coletivo, embora não deixe de influenciar o indivíduo. Vimos também que há diversas óticas para se compreender a cultura. Às vezes vemos como sinônimo de erudição, às vezes enxergamos a cultura no campo das artes, e também a compreendemos como os hábitos de um povo, identidade e até mesmo cultura como uma abstração. Já o alcance da cultura é determinante para as relações sociais. Ela rompe com teorias como o determinismo geográfico, uma corrente que afirmava que o ambiente físico era o fator determinante para as relações sociais. Porém, pelo fato de o humano consistir em um ser cultural, essa teoria perde adeptos na década de 1920. Entre os pioneiros dos estudos sobre cultura, chegou-se à conclusão que ela é um fenômeno especifico do ser humano. Ela é fator determinante no comportamento, nos padrões culturais e na nossa adaptabilidade. Bauman (2012) enxerga a cultura de três maneiras: como experiência do cotidiano, como os aspectos observáveis de uma sociedade e como um conceito genérico. Exatamente por isso, quando falamos em cultura, seu alcance é enorme. Ela é responsável por coisas como a criatividade, que tem relação com as ações individuais no coletivo, e também pode ser um código que representa um sistema ordenado de pensar e agir. Embora a cultura esteja presente e explique grande parte da vida social, aquilo que não se pode explicar chamamos de sagrado. As trocas culturais 67 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA entre povos chamamos de aculturação. E não podemos esquecer que se existem classes dentro de uma mesma sociedade, consequentemente temos subculturas. Outro termo bastante usado e que se identifica com cultura é tradição. Essa palavra remete à própria cultura, só que em uma dimensão temporal passada. Vimos também o papel da religião. Primeiramente, em uma perspectiva antropológica, sendo que nessa ótica a religião ajusta as ações humanas a uma ordem cósmica e projeta imagens dessa ordem no plano dos humanos. Nessa perspectiva antropológica e cultural, a religião serve tanto para o indivíduo quanto para um grupo. É a interpretação dos processos sociais e psicológicos através do cosmo. Já na perspectiva política, vimos como a religião foi fundamental na consolidação da Europa, através do cristianismo, que se institucionaliza para aumentar seu poder político. Essa religião foi hegemônica durante mais de mil anos e começa a perder seu poder no período renascentista. A queda de poder da Igreja é atrelada ao processo de secularização, que é o declínio da influência das grandes religiões históricas unido ao processo de modernidade, no qual o sujeito ganha mais autonomia. Com isso, a explicação místico-religiosa que a Igreja oferecia não serve mais como a única forma de significação da sociedade. O ser humano, então, se liga com a religião através dos ritos. Embora de origem sagrada, o rito acaba por tornar-se algo que aparece no campo do profano. Para que o rito aconteça, existem três etapas: a primeira etapa é o afastamento, o momento de ruptura com o comum. O limiar, considerado a fase intermediária, onde de fato o rito acontece, é a segunda etapa. Já o final ocorre propriamente quando é concluído, sendo o momento de finalização da conexão com o sagrado. O rito pode ser visto em outros aspectos da sociedade, como o Carnaval, no caso da sociedade brasileira. Por fim, vimos também o mito, uma narrativa que conta a origem das coisas. O mito nasce na Grécia antiga e é um fenômeno que acontece em todas as sociedades. O interessante do mito é que, mesmo com toda a dificuldade das ciências em conceber sua finalidade, ele condiciona visões e molda comportamento, sendo fundamental para nós compreendermos sua dimensão. 68 Unidade I Exercícios Questão 1. Considere a charge sobre a Conferência de Berlim (1884) e analise as afirmativas: Figura 18 I – A assinatura do Tratado de Berlim, como mostra a charge, determinou a partilha da África entre países colonizadores, colocando fim à soberania de nações africanas. II – A noção etnocêntrica, que supõe que há culturas superiores e inferiores, alicerçou o domínio europeu sobre os povos africanos, considerados culturalmente mais atrasados. III – A charge, metaforicamente, mostra a África como um bolo fatiado, pois se refere ao fato de que, com o Tratado, “a massa cresceu”, ou seja, a economia africana foi estimulada e desenvolvida. É correto o que se afirma em: A) I, II e III. B) II e III, apenas. C) I e III, apenas. D) I e II, apenas. E) I, apenas. Resposta correta: alternativa D. 69 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: o Tratado efetivou a partilha da África, o que representou o fim da soberania dos povos daquele continente. II – Afirmativa correta. Justificativa: a suposta superioridade cultural das sociedades opressoras serviu de justificativa para a dominação sobre os povos africanos. III – Afirmativa incorreta. Justificativa: a charge vale-se da metáfora do bolo fatiado para representar a divisão da África. A dominação dos colonizadores não promoveu o desenvolvimento econômico e social das nações dominadas, mas, sim, sua exploração. Questão 2. Leia o texto 1, do livroOs Nascimentos, de Eduardo Galeano, que narra pensamentos e mitos dos povos pré-colombianos, e o texto 2, da filósofa Marliena Chaui. Texto 1 O fogo As noites eram de gelo e os deuses tinham levado o fogo embora. O frio cortava a carne e as palavras dos homens. Eles suplicavam, tiritando, com a voz quebrada; e os deuses se faziam de surdos. Uma vez lhes devolveram o fogo. Os homens dançaram de alegria e alçaram cânticos de gratidão. Mas, de repente, os deuses enviaram chuva e granizo e apagaram as fogueiras. Os deuses falaram e exigiram: para merecer o fogo, os homens deveriam abrir peitos com um punhal de pedra e entregar corações. Os índios quichés ofereceram o sangue de seus prisioneiros e se salvaram do frio. Os cakchiqueles não aceitaram o preço. Os cakchiqueles, primos dos quichés e também herdeiros dos maias, deslizaram com pés de pluma através da fumaça, roubaram o fogo e o esconderam nas covas de suas montanhas. Fonte: Galeano (2010). 70 Unidade I Texto 2 O antropólogo Claude Lévi-Strauss estudou o “pensamento selvagem” para mostrar que os chamados selvagens não são atrasados nem primitivos, mas operam com o pensamento mítico. O mito e o rito, escreve Lévi-Strauss, não são lendas nem fabulações, mas uma organização da realidade a partir da experiência sensível enquanto tal. Para explicar a composição de um mito, Lévi-Strauss refere-se a uma atividade que existe em nossa sociedade e que, em francês, se chama bricolage. O que faz um bricoleur, ou seja, quem pratica bricolage? Produz um objeto novo a partir de pedaços e fragmentos de outros objetos. Vai reunindo, sem um plano muito rígido, tudo o que encontra e que serve para o objeto que está compondo. O pensamento mítico faz exatamente a mesma coisa, isto é, vai reunindo as experiências, as narrativas, os relatos, até compor um mito geral. Com esses materiais heterogêneos, produz a explicação sobre a origem e a forma das coisas, suas funções e suas finalidades, os poderes divinos sobre a Natureza e sobre os humanos. O mito possui, assim, três características principais, citadas a seguir. 1. Função explicativa: o presente é explicado por alguma ação passada cujos efeitos permaneceram no tempo. Por exemplo, uma constelação existe porque, no passado, crianças fugitivas e famintas morreram na floresta e foram levadas ao céu por uma deusa que as transformou em estrelas; as chuvas existem porque, nos tempos passados, uma deusa apaixonou-se por um humano e, não podendo unir-se a ele diretamente, uniu-se pela tristeza, fazendo suas lágrimas caírem sobre o mundo etc. 2. Função organizativa: o mito organiza as relações sociais (de parentesco, de alianças, de trocas, de sexo, de idade, de poder etc.) de modo a legitimar e garantir a permanência de um sistema complexo de proibições e permissões. Por exemplo, um mito como o de Édipo existe (com narrativas diferentes) em quase todas as sociedades selvagens e tem a função de garantir a proibição do incesto, sem a qual o sistema sociopolítico, baseado nas leis de parentesco e de alianças, não pode ser mantido. 3. Função compensatória: o mito narra uma situação passada, que é a negação do presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo a oferecer uma visão estabilizada e regularizada da Natureza e da vida comunitária. Por exemplo, entre os mitos gregos, encontra-se o da origem do fogo, que Prometeu roubou do Olimpo para entregar aos mortais e permitir-lhes o desenvolvimento das técnicas. Numa das versões desse mito, narra-se que Prometeu disse aos homens que se protegessem da cólera de Zeus realizando o sacrifício de um boi, mas que se mostrassem mais astutos do que esse deus, comendo as carnes e enviando-lhe as tripas e gorduras. Zeus descobriu a artimanha e os homens seriam punidos com a perda do fogo se Prometeu não lhes ensinasse uma nova artimanha: colocar perfumes e incenso nas partes dedicadas ao deus. Adaptado de: Chauí (2004). Com base na leitura, analise as afirmativas: I – O mito dos povos pré-colombianos em relação ao surgimento do fogo não coincide com o mito grego de Prometeu, o que comprova a invalidade do mito na sua função explicativa dos fenômenos naturais. 71 ANTROPOLOGIA E CULTURA BRASILEIRA II – De acordo com o antropólogo Lévi-Strauss, os mitos correspondem a uma explicação e a uma forma de organização do universo, e não se pode considerar que os povos indígenas sejam atrasados. III – O mito narrado no texto 1 cumpre a função explicativa do domínio do fogo pelos humanos e também revela diferentes comportamentos dos povos em relação ao mesmo dilema. É correto o que se afirma somente em: A) I. B) II. C) III. D) II e III. E) I e II. Resolução desta questão na plataforma.