Prévia do material em texto
E-BOOK TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA O conhecimento histórico científico APRESENTAÇÃO A História pode ser mais bem compreendida como disciplina científica a partir de seu desenvolvimento ao longo do tempo. Há registros históricos desde os primeiros povos que inventaram a escrita. Porém, a forma como eles os escreviam era praticamente a de um gênero literário voltado para a constituição da memória, nada tendo de científico. Assim, somente a partir do século XIX é que se pode falar da constituição da História como um conhecimento científico de fato. Nesta Unidade de Aprendizagem, você verá como se deu o processo de consolidação da História como ciência e também como surgiu a primeira grande escola histórica, analisando suas principais características. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever o conhecimento histórico como ciência no século XIX.• Caracterizar a Escola Metódica e o método histórico do século XX.• Identificar a História Científica a partir dos "homens do tempo".• DESAFIO Para relembrar a importância de Ranke para a historiografia, o professor José D'Assunção de Barros (2013, p. 979) indica que algumas de suas principais contribuições foram a "análise integrada das diversas instâncias do documento – entre as quais a autenticidade, a veracidade, os modos de análise da própria informação que seriam sofisticados gradualmente [...]". Ou seja, o documento é a matéria-prima do trabalho do historiador, e sua análise deve ser feita com esmero, seriedade e, acima de tudo, honestidade. Porém, a vida de um historiador muitas vezes é levada a situações insólitas, como a que será descrita a seguir. Veja: Diante do exposto, e considerando as discussões sobre a Escola Metódica, você classificaria o lote em questão como de interesse público ou como assunto pessoal? Explique. INFOGRÁFICO A criação da Escola Metódica (fundamental para a constituição da História como saber científico) não se deu de forma repentina e abrupta; ela foi resultado de uma série de processos que aconteciam na época. Assim como qualquer outro modelo científico, ela também passou por um momento de crise, no qual recebeu diversas críticas, até ser superada por um novo modelo científico. No Infográfico a seguir, você verá um resumo da trajetória da Escola Metódica, desde sua fundação até as críticas sofridas e a superação de seu modelo de análise. Confira. CONTEÚDO DO LIVRO A consolidação da História como conhecimento científico pode ser mais bem compreendida a partir do desenvolvimento da Escola Metódica. Nos tempos antigos, vários povos produziram relatos sobre o passado, mas uma ciência que refletisse sobre esse passado só se deu a partir do século XX. Assim, é fundamental falar sobre esse século para que se compreenda como a História se tornou uma ciência de fato. Leia o capítulo O conhecimento histórico científico, da obra Teoria da História e historiografia, e entenda como o conhecimento histórico se tornou um conhecimento científico, a partir da análise do contexto da época e de uma das primeiras escolas de pensamento dentro desse ramo: a Escola Metódica Francesa. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Nilton Silva Jardim Junior O conhecimento histórico científico Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever o conhecimento histórico como ciência no século XIX. Caracterizar a escola metódica e o método histórico do século XX. Identificar a história científica a partir dos “homens do tempo”. Introdução Apesar de hoje definida como a ciência do homem no seu tempo, a história nem sempre foi assim. Durante muitos séculos, a história foi uma disciplina muito mais ligada à literatura e à formação da memória. Várias civilizações produziram relatos sobre o seu passado, orais ou escritos, mas sem preocupação com critérios de cientificidade. Porém, como veremos, no século XIX isso mudou. Neste capítulo, você vai compreender como o movimento de formação das ciências sociais do século XIX, o Romantismo e suas relações com as unificações tardias do mesmo período contribuíram para a consolidação da história enquanto ciência. Para isso, será necessário falarmos não apenas da conjuntura do meio histórico e político, mas também do estágio de desenvolvimento da história na época e como se constitui a escola que a elevou à categoria de ciência. Também veremos as principais influências e ca- racterísticas dessa escola, além das críticas posteriormente recebidas por ela. Um século de paixões e o nascimento da ciência histórica Se o século XVIII foi o “Século das Luzes”, o século XIX com certeza foi o “Século das Paixões”. Palco de grandes movimentos — como as unifi cações tardias (Alemanha e Itália), o movimento neocolonialista/imperialista, as guerras napoleônicas, as independências das colônias americanas (inclusive o Brasil) — o século XIX foi sem dúvida um período defi nidor da história da humanidade. Se a Revolução Francesa e a queda da Bastilha marcaram a virada do mundo moderno para o contemporâneo, o “século das paixões” foi o responsável pelo desenvolvimento dessa nova era. Não sem motivo, o Ro- mantismo foi a grande mola propulsora dessa época, infl uenciando a literatura, as artes plásticas e, de certa forma, a política. Num mundo onde vários países buscavam um sentimento de unidade e identidade, o nacionalismo romântico funcionou perfeitamente (HOBSBAWM, 1988). Surgido no final do século XVIII, o Romantismo foi um movimento artístico, político e filosófico que teve seu auge no século XIX. Entre suas principais características estão o subjetivismo, o individualismo, o nacionalismo e o sentimentalismo (Figura 1). A partir desta última característica, podemos dizer que se contrapunha ao racionalismo do Iluminismo (HOBSBAWM, 1988). Figura 1. A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix (1830), exposta no Museu do Louvre. Fonte: File... (2019a, documento on-line). O conhecimento histórico científico2 Para além das fronteiras nacionais e sistemas de governo, é também nesse século que outro importante elemento do nosso tempo começa a se definir: a ciência. A revolução científica, iniciada com o Iluminismo no século anterior, passa a ganhar outros contornos a partir dessa época. Ciências sociais como a sociologia e a antropologia começavam a ser reconhecidas como tal (HO- BSBAWM, 1988). Simultaneamente, a história gradativamente deixava de se tornar um ramo da literatura ligado ao que hoje compreendemos (DOSSE, 2001). Para isso, foi fundamental o conceito de ciência positiva de Auguste Comte. Para Comte, a ciência deveria ser acima de tudo a investigação do real, feita a partir da observação, experimentação, comparação e classificação como métodos. Em sua visão positivista, os fenômenos sociais, assim como os fenômenos naturais, também respeitavam leis, o que serviu de base para que criasse a ciência que ele chamou de “física social”, e que posteriormente se tornou a sociologia. (FONTANA, 2004) Os trabalhos de Comte tiveram grande eco entre estudiosos da época e serviram como referencial básico para a sistematização das ciências humanas. No campo da história, essas ideias ganharam força com Leopold von Ranke e, posteriormente, com a Escola Metódica na França, que serão analisados mais adiante. É nesse cenário que a história começa a se moldar como ciência, nessa conjun- tura que mesclava a consolidação das ciências humanas com a consolidação de dois importantes Estados nacionais. Com isso, a história acabará se caracterizando como uma ciência que vai buscar no passado elementos que ajudem na construção da unidade nacional. E se mantendo fiel ao discurso positivista de Comte, esse elementos serão suportados com documentos históricos produzidos na época pesquisada, as chamadas fontes primárias. Para Barros (2013, documento on-line):A atenção central à “fonte de época”, e a uma metodologia que a permitisse abordar com maior precisão, constituiu o vértice de partida do ideário histori- cista, cumprindo notar que os historicistas sempre insistiram acertadamente em fazer notar que esta atenção às fontes deve ser acompanhada pela consciência de que qualquer documento ou texto foi um dia produzido por seres humanos sujeitos a contextos históricos e interesses específicos. Sendo assim, como vemos nessa citação do professor José D'Assunção de Barros (2013), graças aos metódicos a imagem do historiador vai se firmar como a do profissional que vasculha arquivos e busca em antigos documentos embasamento para suas pesquisas. O tratamento das fontes primárias vai adquirir suma importância no fazer historiográfico, com a história deixando 3O conhecimento histórico científico de ser um gênero literário para se tornar a ciência do homem no seu tempo. Com isso, a fidelidade ao documento histórico se torna a raison d'être do historiador, sendo necessária a elaboração de toda uma metodologia para a extração das informações contidas nos documentos. A escola metódica e seu método: uma história “patriota” Formada na França, a Escola Metódica tinha como principais nomes Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos. Essa escola do século XIX tinha fortes características patriotas. No contexto da França pós-revolucionária, a ideia era organizar um novo modelo de história com base científi ca, capaz de se reconciliasse com um passado mais distante e fornecer um novo elemento de unidade nacional para a o contexto pós-Restauração a partir de 1815. Esse próprio sentimento de unidade nacional também embalava os historiadores franceses que buscavam fazer uma história voltada para a identidade nacional. Essa mesma motivação era percebida quando da unifi cação da Alemanha e Itália, que tinham como de suma importância a construção de uma narrativa que estabelecesse um elemento de unidade para nações que após séculos separadas estavam se unifi cando. Realizadas em 1870 e 1871, as unificações da Itália e da Alemanha são comumente chamadas de unificações tardias, por terem ocorrido cerca de 500 anos depois de demais movimentos similares no continente europeu. Como forma de criar um senti- mento de unidade nacional entre os povos das terras que estavam sendo anexadas, o resgate de mitos fundadores dos povos germânicos e italianos foi amplamente usado. Para entender melhor o caso alemão, você pode acessar o artigo “‘Hail Arminius: o pai dos alemães!’: a construção mítica da unificação alemã entre 1808 e 1875” (SILVA; ALBUQUERQUE, 2017) no link a seguir. https://qrgo.page.link/QDtJx Para isso, foi também fundamental a revista Revue Historique, publicada por Gabriel Monod e Gustave Charles Faganiez, a partir de 1876. Eles privi- legiaram as fontes primárias como matéria-prima do trabalho do historiador, O conhecimento histórico científico4 buscando fazer uma história com uma narrativa objetiva e neutra, privilegiando o documento e os métodos de análise como forma de comprovação. Gabriel Monod vinha propunha uma revista que fosse “[...] uma coletânea de ciência positiva e de livre discussão” (DOSSE, 2001, p. 17). Outra importante influência para a Escola Metódica foi a do historia- dor Ernest Lavisse, de quem Seignobos fora aluno e protegido (BURKE, 1992). Nas palavras de François Dosse (2001, p. 18), Lavisse foi “[...] o grande mestre que vai reinar do final do século XIX e início do século XX”. Herdeiros de Jules Michelet, Lavisse, Monod e seus colaboradores da Revue Historique vão somar às ambições de uma história nacionalista uma proposta de história científica. Nesse contexto, foi de fundamental importância a figura do historiador alemão Leopold von Ranke (Figura 2). Seu trabalho influenciou não somente seus compatriotas como também os historiadores franceses, como os próprios fundadores da Revue Historique entre outros, que tiveram acesso a suas ideias quer por meio de publicações e congressos quer indo estudar na própria Alemanha, como Seignobos o fez. Figura 2. Leopold von Ranke. Fonte: File... (2019b, documento on-line). 5O conhecimento histórico científico Grande parte desse interesse foi motivado pela derrota da França na guerra franco-prussiana, quando tais pensadores viram nesse intercâmbio uma opor- tunidade de compreender as razões de tal revés, bem como uma forma de fazer sua pátria progredir científica e militarmente (PAYEN, 2011). A guerra franco-prussiana ou franco-germânica foi um confronto entre o Império Francês e o Império Prussiano (atual Alemanha), entre 19 de julho de 1870 e 10 de maio de 1871. Parte importante do processo de unificação da Alemanha, a guerra começou com uma querela envolvendo a sucessão do trono espanhol e terminou com a vitória incontestável dos prussianos. Você pode encontrar mais detalhes no artigo “Do Império à Comuna: a guerra franco-prussiana e as revoltas de Paris” (VALLE, 2014). Leopold von Ranke Fundador da escola histórica alemã e Historiógrafo Real da Corte da Prússia, Ranke é frequentemente citado como o fundador da “história científi ca” (até então a história era considerada um ramo da literatura, muito mais próximo do que hoje chamamos de memória). Como critério de cientifi cidade, Ranke se utilizava da: [...] análise integrada das diversas instâncias do documento — entre as quais a autenticidade, a veracidade, os modos de análise da própria informação que seriam sofisticados gradualmente — a própria coleta de documentação e constituição de novos tipos de fontes (na época de Ranke, essencialmente arquivísticas e ligadas à política, à diplomática e às instâncias institucionais) [...] um elemento que trouxe efetivamente um novo tônus àquela historiografia que agora se postulava como científica (BARROS, 2013, documento on-line). Ranke tinha como prioridade o emprego de fontes primárias, o uso da história narrativa e foco em mostrar o passado como ele ocorreu. O assunto prioritário de suas obras era a política internacional e seus escritos tinham como método principal a citação das fontes primárias buscando o que chamava de “[...] tendências dominantes em cada século”; porém, ele não se limitava exclusivamente à política, escrevendo também sobre a Reforma e a Contrar- reforma, história da sociedade, da arte e da literatura (BURKE, 1992, p. 18). Essa sua abordagem vai influenciar toda a Escola Metódica em sua busca de produzir uma história científica. O conhecimento histórico científico6 Sendo assim, esse novo paradigma historiográfico vai estabelecer que a subjetividade deve ser controlada e o documento precisa sofrer dupla crítica: uma interna, operando por meio de raciocínio e analogia, e outra externa, propiciada pela erudição. Esses valores de objetividade científica atuarão também com anseios nacionalistas, como a reconquista de fronteiras exteriores e a pacificação do interior do país (DOSSE, 2001). Uma ciência de homens no seu tempo Ao amalgamar a busca por uma identidade nacional e o dever de construir uma ciência positiva do passado, a história feita pela Escola Metódica vai se fi rmar como uma ciência dos homens no seu tempo. Baseados no historicismo alemão, os pensadores franceses criaram uma ciência fortemente focada na abordagem (e respeito) de fontes primárias e nos grandes nomes da política, como vemos nesta passagem de Gabriel Monod (um dos fundadores da Revue Historique): [...] A história do passado acaba por adquirir uma influência sobre a própria política, pois preside a esse movimento das nacionalidades que domina a política contem- porânea. É pela história que os povos tomam consciência de sua personalidade. O movimento nacional alemão, o movimento nacional italiano, o movimento nacional tcheco, o movimento nacional húngaro, o movimento nacional eslavo, embora não tenham sido criados pela erudição histórica, nela encontraram, ao menos, um poderoso auxiliar, um núcleo de excitação,um ativo instrumento de propaganda. (MONOD, 1889 apud PAYEN, 2011, documento on-line). Influenciados pelas ideias de Ranke e Comte, os historiadores faziam uma crítica ao modelo que chamado “História Mestra da Vida”. Segundo esse modelo, a “[...] história era, antes de mais nada, percebida como provedora de modelos de comportamentos. Ela deveria servir à instrução do leitor [...] considerada como uma reserva de exempla destinada à instrução e à edificação dos leitores” (PAYEN, 2011, documento on-line). Sendo assim, a história não tinha uma finalidade meramente explicativa, mas também moralizante, já que deveria fornecer exemplos de conduta para os cidadãos do país. Esta história de cunho mais analítico era vista pelos românticos como uma história “fatalista”, pois se concentrava em explicar os acontecimentos como produto de “determinantes sociais” (FONTANA, 2004). O rompimento com esse modelo já começara a ser ensaiado na França após a revolução, e teve nos trabalhos de Adolphe Thiers e François Mignet importantes precursores. No entanto, somente após 1876 é que se dará o rompimento 7O conhecimento histórico científico definitivo. Mesmo em importantes trabalhos como A História da França (1847), de Jules Michelet, ainda há a presença da abordagem literária, tão cara aos românticos, porém com um cunho mais identificado aos ideais do liberalismo burguês da França pós-revolucionária. Foram os metódicos que romperam com essa ideia e se propuseram a fazer uma história calcada no rigoroso escrutínio das fontes e na crítica constante ao trabalho do historiador. Esses historiadores eram profundamente críticos do que denominavam “História Romântica”, pois identificavam nela uma “escrita histórica puramente factual desprovida de sentido” (DOSSE, 2001, p. 12). Essa preocupação com a história como um elemento formador da unidade nacional, privilegiando a política e a biografia de grandes homens, já aparecia no trabalho de Ranke e do historicismo alemão. Bons exemplos são obras como História das Nações Latinas e Teutônicas de 1494 a 1514 (1824), Hardenberg e a História do Estado Prussiano de 1793 a 1813 (1877) e Memórias da Casa de Brandemburgo e História da Prússia (1847–1848). No caso dos analíticos, esse interesse fica evidente em obras como Introdução aos Estudos Históricos (Langlois, 1898), História do Povo Romano (Seignobos, 1902) e Estudos críticos sobre as fontes da história carolíngia (Monod, 1898). O próprio Ga- briel Monod também já havia escrito livros de caráter mais biográfico, como Gregório de Tours (1872) e outro sobre um importante cronista do século VII, Fredegário (1895). Essa preferência pela história política e por uma história de grandes homens se tornou o principal foco das críticas feitas por Febvre e seu companheiros dos Annales, conforme veremos a seguir. Para entender melhor sobre as aproximações da história romântica com a literatura tão criticadas pela Escola Metódica, uma boa recomendação de leitura é o artigo “Jules Michelet: um historiador às voltas com a crítica literária”, de autoria de Maria Juliana Gambogi Teixeira, que pode ser acessado pelo link a seguir. https://qrgo.page.link/XnR4W Crítica aos metódicos Posteriormente, a Escola Metódica sofreu críticas, iniciadas por François Simiand em sua obra Método Histórico e Crítica Social. Discípulo do soci- O conhecimento histórico científico8 ólogo Émile Durkheim (um dos “pais da sociologia”, junto com Max Weber e Karl Marx), Simiand atacava o que chamava de os três “ídolos da tribo dos historiadores”: o “ídolo político” (como ele chamava a eterna preocupação de se fazer uma história política, de fatos políticos, guerras, etc.), o “ídolo individual” (como ele chamava a ênfase exagerada em grandes homens) e o “ídolo cronológico” (como ele chamava o hábito do historiador se perder nas origens) (BURKE, 1992). Essas críticas vinham do caráter político, individual e cronológico caro aos historiadores dessa escola (em especial Charles Seignobos, que foi transformado em símbolo daquilo a que esses novos historiadores se opunham) e não tinham o mesmo apreço no âmbito das ciências sociais da época. Além de Simiand, os fundadores da Escola dos Annales, Marc Bloch e Lucien Febvre, fizeram novas críticas. Sobre os ombros desses historiadores também pesava o trauma da Primeira Guerra Mundial, na qual eles viam o modelo ana- lítico como parcialmente responsável pelo que viveram. Para Bloch e Febvre, o modelo nacionalista e político defendido por Ranke e também pelo metódicos foi corresponsável por toda aquela tragédia. O tom dessa crítica ficou meio dividido entre esses dois grandes nomes, sendo Febvre mais enfático. Porém, todos eles tiveram em comum as críticas ao historicismo alemão, em especial ao que eles consideravam uma história política (BRAUDEL, 2007) e uma história narrativa (REVEL, 1989). De acordo com Fontana (2004), ficava evidente que esse modelo de objetividade científica defendido pelo historicismo alemão e pela Escola Metódica era uma máscara para seu verdadeiro propósito de servir à educação das classes dominantes e de produzir uma visão de história nacional que pudesse ser ensinada e divulgada nas escolas. De qualquer forma, a Escola Metódica foi fundamental para elevar a história ao patamar de ciência, o que era inegável até mesmo para seus críticos da Escola dos Annales, como Bloch e Febvre. Um bom exemplo das críticas que Bloch faz ao modelo analítico pode ser encontrado no artigo “A Força da Tradição: a persistência do Antigo Regime historiográfico na obra de Marc Bloch", de Tiago De Melo Gomes. Nele, porém, o autor fala não apenas das críticas que Bloch tinha aos analíticos, como também da presença dos próprios na obra dele. Você pode acessar o artigo pelo link a seguir. https://qrgo.page.link/zgJ5H 9O conhecimento histórico científico Se, por um lado, a Escola Metódica produziu uma história que pode tanto ser acusada de “ingênua” pela sua fé exagerada nos documentos e pela busca da neutralidade e imparcialidade quanto de “elitista” por sua predileção pelos grandes homens, pela política e pelos grandes fatos nacionais, por outro não podemos negar sua importância na maturação do estudo da história, afastando-a da literatura e buscando a profissionalização dos historiadores. Seu empenho em afastar-se do amadorismo dos historiadores românticos também foi de suma importância para o desenvolvimento de toda uma metodologia e uma ética de trabalho que, mesmo com certas atualizações e críticas, ainda hoje são empregadas. É bem verdade que, desde então, o universo documental acabou se ampliando, mas o trabalho do historiador ainda é feito a partir de documentos que servem de vestígios da época investigada e que devem ser criticados à exaustão. O escopo dos atores sociais também se expandiu, mas a história ainda é feita a partir de pessoas que tiveram relevância no período estudado (embora a disciplina tenha pedido muito do seu caráter personalista e por vezes biográfico). É com o final da Primeira Guerra que todo esse pensamento vai ser posto em cheque e um novo modelo será elaborado. Nos anos seguintes, a história dos metódicos, voltada à política, à narrativa e aos grandes homens, deu lugar a uma “nova história” que buscou ser uma história-problema, voltada a entender todos os aspectos da sociedade: uma História Total. BARROS, J. A. Ranke: considerações sobre seu modelo historiográfico. Diálogos, v. 17, n. 3, p. 977–1.004, 2013. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Dialogos/ article/download/35976/18595. Acesso em: 14 ago. 2019. BRAUDEL, F. Escritos sobre a história. São Paulo: Editora Perspectiva, 2007. BURKE, P. A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales 1929–1989. São Paulo: Editora UNESP, 1992. DOSSE, F. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. São Paulo: Editora UNESP, 2001. FILE: Eugène Delacroix — La liberte guidant le peuple. WikimediaCommons, the free media repository, 2019a. Altura: 599 pixels. Largura: 757 pixels. Formato: JPG. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo#/media/Ficheiro:Eug%C3%A8ne_De- lacroix_-_La_libert%C3%A9_guidant_le_peuple.jpg. Acesso em: 14 ago. 2019. O conhecimento histórico científico10 FILE: Jebens, Adolf — Leopold von Ranke (detail) — 1875. Wikimedia Commons, the free media repository, 2019b. Altura: 600 pixels. Largura: 433 pixels. Formato: JPG. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jebens,_Adolf_-_Leopold_von_Ranke_ (detail)_-_1875.jpg. Acesso em: 14 ago. 2019. FONTANA, J. A História dos homens. Bauru: EDUSC, 2004. HOBSBAWM, E. J. A era dos impérios 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. PAYEN, P. A constituição da história como ciência no século XIX e seus modelos anti- gos: fim de uma ilusão ou futuro de uma herança? História da Historiografia, v. 4, n. 6, p. 103–122, 2011. Disponível em: https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/ article/download/250/180. Acesso em: 14 ago. 2019. REVEL, J. A invenção da sociedade. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertand, 1989. Leituras recomendadas GOMES, T. M. A força da tradição: a persistência do antigo regime historiográfico na obra de Marc Bloch. Varia Historia, v. 22, n. 36, p. 443–459, 2006. Disponível em: http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-87752006000200011&lng=e n&nrm=iso. Acesso em: 14 ago. 2019. SILVA, D. G. G.; ALBUQUERQUE, M. C. “Hail Arminius! O Pai dos Alemães!”: a construção mítica da Unificação Alemã entre 1808 e 1875. Topoi (Rio de Janeiro), v. 18, n. 35, p. 330-355, 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237- -101X2017000200330&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 14 ago. 2019. VALLE, C. O. Do Império à Comuna: a guerra Franco-Prussiana e as revoltas de Paris. In: ENCONTRO REGIONAL DA ANPUH-RIO: Saberes e Práticas Científicas, 16., 2014, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: http://www.encontro2014. rj.anpuh.org/resources/anais/28/1400267970_ARQUIVO_artigocompletoanpuhCami- laValle.pdf. Acesso em: 14 ago. 2019. 11O conhecimento histórico científico DICA DO PROFESSOR Como todo ramo da Ciência, a História obedece a etapas e procedimentos de trabalho, os quais têm por finalidade estabelecer critérios de cientificidade para garantir a qualidade e a idoneidade da produção de conteúdo. Para ajudar a compreender como a História se consitituiu em conhecimento científico, nesta Dica do Professor, você verá algumas etapas da construção do conhecimento histórico. Acompanhe a seguir. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) O século XIX foi definidor para a formação do mundo contemporâneo e das ciências sociais. Diversos acontecimentos mudaram a face do planeta e moldaram o mundo para uma nova realidade até então impensada. Diante disso, pode-se afirmar que os elementos redefinidores característicos dessa época foram: A) a consolidação da Sociologia e da Antropologia como ciências sociais e a Queda da Bastilha. B) a publicação da revista Revue Historique e a Guerra de Independência dos Estados Unidos. C) a Guerra Franco-Prussiana e a publicação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. D) a unificação da Alemanha e da Itália e a Guerra Franco-Prussiana. E) a unificação da Alemanha e da Itália e o assasinato do arquiduque Francisco Ferdinando. 2) A noção de ciência positiva, de Auguste Comte, foi crucial para a consolidação da História como conhecimento científico. Também chamada de Positivismo, essa vertente foi extremamente importante para a sistematização das ciências sociais, como a Sociologia e a Antropologia. Nesse sentido, tal vertente afirmava que: A) a ciência deveria ser, acima de tudo, a investigação do real, feita a partir de observação, experimentação, comparação e classificação como métodos, buscando estudar as leis. B) a ciência deveria ser, acima de tudo, a investigação do real, feita a partir de observação, experimentação, comparação e classificação como métodos, buscando estudar as causas. C) a ciência deveria ser apenas mais uma entre várias outras narrativas e saberes que buscavam explicar a realidade e aceitar que o discurso desses saberes é tão válido quanto o dela. D) a ciência deveria, acima de tudo, buscar encontrar soluções para os diversos problemas da sociedade, mais do que pura e simplesmente tentar explicá-la. E) não importava quais fossem todos os fenômenos, sejam eles sociais, naturais ou de qualquer outra origem, estes provêm somente de um único princípio, o qual é sua explicação. Além do Positivismo de Comte, a Escola Metódica Francesa teve muita influência do historicismo alemão. Essa corrente científica teve Leopold Von Ranke como seu principal expoente, e o periódico Historische Zeitschrift como principal veículo, valorizando princípios como veracidade, autenticidade e formas de análise da informação. Nesse cenário, pode-se afirmar que os principais motivos da influência alemã na 3) historiografia francesa foram: A) o avanço dos problemas decorrentes da industrialização e o reconhecimento de novas metodologias aprendidas na Universidade de Berlim. B) o reconhecimento de um modelo de história total que se preocupasse com todos os aspectos da sociedade e o avanço dos problemas decorrentes da industrialização. C) o avanço dos problemas decorrentes da industrialização e o desejo de buscar uma história que desse conta da trajetória dos povos vencidos. D) a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana e o desejo de buscar um modelo historiográfico que desse conta de trabalhar com fontes materiais. E) a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana e o desejo de aperfeiçoar as ciências e demais saberes no país, por meio do aprendizado com os alemães. 4) A principal busca da Escola Metódica era fazer uma história científica, em oposição à história romântica – modelo até então vigente na época –, que estava mais ligada à literatura do que à ciência. É correto afirmar que essa busca por modelos científicos de análise histórica resultou em um modelo historiográfico que: A) privilegiava as fontes primárias de diversas origens (materiais, orais, escritas) como matéria-prima do trabalho do historiador, buscando fazer uma história que tentasse entender o ponto de vista de grupos marginalizados na sociedade. B) privilegiava as fontes primárias como matéria-prima do trabalho do historiador, buscando fazer uma história com uma narrativa objetiva e neutra, privilegiando o documento e os métodos de análise como forma de comprovação. C) privilegiava as fontes primárias como matéria-prima do trabalho do historiador, buscando fazer uma história total e politicamente engajada e cobrir todos os aspectos do período tratado. D) privilegiava as fontes primárias como matéria-prima do trabalho do historiador, buscando fazer uma história com uma narrativa marxista e dar um novo tratamento para a cultura, tentando entender a luta da classe trabalhadora nos diversos períodos de tempo. E) privilegiava as fontes primárias orais como matéria-prima do trabalho do historiador, buscando fazer história com a reprodução escrita de relatos de testemunhas oculares. 5) Tanto no final do século XIX quanto após a Primeira Guerra Mundial, começaram a surgir críticas à Escola Metódica, que eram provenientes de diferentes áreas do conhecimento, como cientistas sociais, que viam falhas no modelo científico da história metódica desde o início do século XX, e novos historiadores, que vinham com um novo modelo, a partir da década de 1920. Tais críticas acusavam o modelo analítico, afirmando que: A) seu caráter político e o modelo nacionalista foram corresponsáveis por toda a tragédia da Primeira Guerra Mundial. B) seu caráter factual o tornava prisioneiro do acontecimento e incapaz de determinar aspectos estruturantes, o que prejudicava suacientificidade. C) seu caráter excessivamente relativista acabava por negar a cientificidade da História e poderia dar magens a revisionismos perigosos. D) seu caráter político e economicista deixava pouco espaço para abordagens de ótica cultural e dava pouca margem de ação para o livre-arbítrio humano. seu caráter idealista, voltado para uma finalidade da História como "Mestra da Vida", era E) algo pouco científico e ultrapassado. NA PRÁTICA Parte do trabalho do historiador concentra-se na organização e no tratamento de instituições diversas, como governos, Forças Armadas e até mesmo empresas e ordens religiosas. O ser humano está a todo tempo produzindo documentação sobre seu passado, mas nem sempre ela é devidamente organizada e catalogada; daí a importância do trabalho do historiador e de outros profissionais em organizar todo esse material. Neste Na Prática, você verá como decorreu o trabalho do Centro de Memória, Pesquisa e Documentação de Cantagalo (CMPD), no Rio de Janeiro, em catalogar a documentação dos registros de batismo e matrimônio do Santuário Diocesano do Santíssimo Sacramento de Cantagalo. Perceba como a metodologia da Escola Metódica pôde ser aplicada nesse caso. SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: O Positivismo Histórico O Positivismo Histórico foi uma corrente historiográfica que surgiu no século XIX, influenciada pelo clima de cientificismo e nacionalismo que marcou o continente europeu naquele período. No vídeo a seguir, veja as principais características dessa corrente, também conhecida como História Tradicional. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Seignobos x Simiand: a querela do método histórico com a ciência social no início do século XX Neste artigo, você verá sobre as divergências de Simiand com a Escola Metódica, compreendendo quais foram os principais pontos falhos dessa matriz historiográfica. Confira. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! A historiografia francesa do século XIX nas páginas da Revue Historique (1876-1914) Neste artigo, você vai compreender a influência que a Revue Historique e os periódicos científicos, de forma geral, tiveram na divulgação de novas formas do pensamento científico. Boa leitura. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! O ofício do historiador APRESENTAÇÃO Ofício relativamente recente (sua origem remonta ao século XIX), o historiador teve várias vezes seu papel questionado e ampliado ao longo do século passado, ao sabor das diferentes correntes históricas que surgiram. Porém, ele se consolidou como o profissional que pesquisa e escreve a História. Assim, apesar da metodologia ter mudado ao longo do século, o ofício se fixou no decorrer dele. Nesta Unidade de Aprendizagem, você verá qual é o ofício do historiador e como as diferentes abordagens influenciaram nesse processo de consolidação. Também será discutido como a História enquanto disciplina científica foi mudando ao longo do século XX. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Diferenciar a história narrativa da história problema.• Definir as causas modificadoras do processo histórico nas décadas de 1960-1970.• Analisar a participação das ciências humanas e sociais na revisão das teorias na pesquisa histórica a partir de 1970. • DESAFIO Desde Bloch e Braudel que a proposta de se fazer uma História Total era deixar de olhar somente para os fatos e os grandes nomes da História, para se entender como problemas que incomodam o historiador no presente eram lidados no passado. Não é à toa que essa modalidade também foi conhecida como História problema. Um ponto em comum tanto entre a terceira geração da escola dos Annales quanto a Nova Esquerda Britânica é de se dar voz às classes subalternas. Essa preocupação (que de certa forma já estava presente também n'Os reis taumaturgos, de Bloch) tem por objetivo colocar o povo como protagonista e diversificar as fontes de análise histórica, para se ter um quadro mais fiel. Levando em conta esse contexto, imagine que você é professor de história de uma turma do sexto ano do ensino fundamental e, de acordo com o conteúdo planejado para este semestre, você deve construir um modelo para uma atividade que busque fazer o aluno reconhecer-se, e também a sua comunidade, como protagonista da história. INFOGRÁFICO A constituição da Escola dos Annales se deu como uma resposta ao historicismo alemão e à escola metódica. Ela veio como uma alternativa a uma proposta cronológica e personalista dessas duas escolas, buscando fazer uma História Total que abarcasse os diversos aspectos de um período e não somente falasse de política. Neste Infográfico, você verá uma cronologia da Escola Metódica, da sua fundação à terceira geração, mostrando como a revista foi se atualizando e se moldando aos acontecimentos e às críticas ao longo do século XX. CONTEÚDO DO LIVRO Como em todo ramo profissional, o ofício do historiador sofreu várias mudanças ao longo de seu processo de consolidação. Mesmo sendo legalizado na França desde o final do século XX, o ofício do historiador passou por mudanças em resposta aos diversos acontecimentos que marcaram a sociedade ao longo do século XX. Sendo a História a ciência do homem no seu tempo e o historiador o profissional que a investiga e escreve, o campo e o profissional foram reagindo a esses acontecimentos e se adaptando à realidade. No capítulo O ofício do historiador, da obra Teoria da História e Historiografia, você verá como a História continuou evoluindo como ciência ao longo do século XX e como o ofício do historiador se adaptou a tudo isso. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Nilton Silva Jardim Junior O ofício do historiador Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Diferenciar a história narrativa da história problema. Definir as causas modificadoras do processo histórico nas décadas de 1960 e 1970. Analisar a participação das ciências humanas e sociais na revisão das teorias na pesquisa histórica a partir de 1970. Introdução Nenhuma ciência conta com um modelo definitivo. Todo modelo científico passa por períodos de crise, superação e substituição por um novo. Com a história não é diferente. Apesar de sua importância e de seu pioneirismo inegáveis para a estruturação da disciplina como conheci- mento científico, a Escola Metódica (e até mesmo o historicismo alemão) começou a receber pesadas críticas no início do século XX, até que no final dos anos 1920 dois historiadores franceses vieram com uma nova proposta de modelo historiográfico. Neste capítulo, você vai ver como as críticas de Marc Bloch e Lucien Febvre à Escola Metódica contribuíram para dar origem a uma nova forma de se fazer história e a um dos periódicos mais importantes da historiografia. Além disso, você vai compreender a relação dessas críticas com o trauma gerado pela Primeira Guerra Mundial e o como que eles identificavam a proposta dos metódicos como responsável. Por fim, vai entender também as mudanças pelas quais o pensamento historiográfico passou ao longo do século XX e sua relação com o que acontecia no mundo. A distinção entre história narrativa e história problema Peter Burke certa vez afi rmou que gostava de pensar nos historiadores como guardiões dos esqueletos do armário da memória social (BURKE, 2000). Esse ponto de vista diz muito sobre as mudanças e críticas propostas por Lucien Febvre e Marc Bloch no fi nal dos anos 1920 (Figura 1). Até então, o modelo de “história dos grandes homens”, defendido pelos metódicos, era infl uenciado pelo historicismo alemão e pela derrota da França na guerra franco-prussiana. Esse grupo liderado por Gabriel Monod, Charles Seignobos e Gustave Charles Faganiez tinhacomo proposta uma história científi ca com caráter político, voltada para a construção da identidade nacional. Para isso, o historiador deveria se dedicar a "escavar" os arquivos e se debruçar sobre os documentos, escrutinando-os à exaustão. O signo máximo da cientifi cidade se tornou a fi delidade aos documentos. Sendo assim, o historiador deveria ter extremo cuidado ao analisá-los. Figura 1. Marc Bloch e Lucien Febvre. Fonte: Annales1 ([20--?], documento on-line). Nesse princípio de século XX, tal escola historiográfica era acusada de, sob uma justificativa de cientificidade, ter como verdadeiro propósito servir à educação das classes dominantes e produzir uma visão de história nacional que pudesse ser lecionada e divulgada nas escolas (FONTANA, O ofício do historiador2 2004). Por sua extrema preocupação com essa questão de construir uma narrativa contando a história do país ou de uma determinada figura, esse modelo historiográfico ficou conhecido como “história narrativa” pelos seus críticos da geração dos Annales. Assim, o modelo da história narrativa seria “[...] o da organização do caos de eventos em uma Trama da qual, antes mesmo da pesquisa, o historiador já conhece o seu fim. Esta narrativa linear [...] tem como modelo a biografia unilinear e falsamente coerente, com início e fim” (BARROS, 2010, documento on-line). A bem da verdade, os annalíticos (como chamaremos daqui por diante os ligados à escola dos Annales) não foram os primeiros a criticar o modelo da Revue Historique, conforme veremos adiante. Comte, por exemplo, referia-se à história narrativa feita pelos metódicos como “[...] insignificantes detalhes estudados infantilmente pela curiosidade irracional de compiladores cegos de anedotas inúteis”, e defendia que fosse feita uma “História sem nomes” (BURKE, 1991, p. 20). Pesavam também críticas de Émile Durkheim e François Simiand de que os metódicos tinham uma abordagem de caráter excessivamente político, individual e cronoló- gico (BURKE, 1991). Em geral, o que fica patente em todas as críticas é o desinteresse por uma abordagem cronológica, personalista e nacionalista, que era a tônica dessa história narrativa feita pelo grupo da Revue Histori- que. Fazendo justiça aos metódicos, sua preocupação com os documentos e os arquivos foi de suma importância para estabelecer as primeiras bases do trabalho do historiador como cientista social e para fincar as primeiras metodologias científicas da historiografia. Porém, é inegável também que as críticas recém-mencionadas são válidas. Sob o argumento de se manter uma imparcialidade científica, os metódicos e historicistas construíam, em sua maioria, narrativas de origem que deixavam de lado grandes questões, privilegiando acima de tudo o fato e o personagem histórico em detrimento ao povo e outros segmentos. Contra isso, dois jovens historiadores franceses vieram com a proposta de realizar uma história que se assemelhasse a uma “psicologia social”, abarcando diversos aspectos da vida das pessoas. Além disso, seria uma abordagem inter- disciplinar, que estabelecesse diálogos com outros saberes, como a geografia e a psicologia, por exemplo. Com isso, teríamos uma História Total ou História Problema, numa clara tentativa de se desvincular do modelo vigente. Como o professor José D'Assunção Barros (2010, documento on-line) aponta: “[...] constituem a identidade dos Annales como um movimento: a interdisciplina- ridade, a problematização da história, e as novas proposições nas formas de conceber o Tempo”. No próprio número de estreia de sua revista (a Annales 3O ofício do historiador d’histoire économique et sociale, de 15 de janeiro de 1929), já era enfatizada a necessidade de intercâmbio entre historiadores e cientistas sociais (BURKE, 1991). Tal proposta ficou conhecida como histoire totale. Como aponta Barros (2010, documento on-line): Trata-se de reconstruir o vivido através de problemas e motivações da épo- ca do próprio historiador. Para além disto, trabalhar com um “problema” pressupõe o gesto de reconhecer e explicitar para os leitores os conceitos e fundamentos que estão por trás do problema e das escolhas historiográ- ficas, e não esconder estes conceitos dos olhos do leitor, para forjar o mito da neutralidade. Segundo essa nova perspectiva, o fato histórico deixa de ser visto como um dado já constituído, para ser encarado como uma construção do histo- riador, já que o trabalho do historiador passa a ser focado em um problema suscitado por ele próprio, a partir das motivações de sua época. Essa será a tônica dos Annales: o desenvolvimento de uma história obedecendo a tais moldes de problematização. O historiador passa a adotar uma perspectiva de Janus (deus grego de duas faces, uma olhando para o passado e outra olhando para o futuro), em que mira o passado para entender questões que o incomodam no presente. Assim, o historiador não mais se preocupa em construir narrativas de origem com viés patriótico, e passa a se debruçar em questões que despertam seu interesse no presente para ver como essas questões se desenvolveram no passado. Não há como descolar essa nova perspectiva da frase de Bloch: “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado” (BLOCH, 2001, p. 65). Daí a preocupação dele e de Braudel em olhar para o passado a partir dos problemas do presente, o que se tornou a tônica da revista Annales d’histoire économique et sociale em todas as gerações até hoje. Muda-se a metodologia, o foco, mas o norte da revista continua sendo o de olhar para o passado a partir de problemas do tempo presente. Tal revista foi (e ainda é) de suma importância para a sistematização da proposta de História Problema de Febvre e Bloch, que aconteceria basicamente quando “[...] os historiadores atribuem um sentido ao objeto e lhe direcionam questionamentos que oportunizam a inversão do que se pensa sobre ele, ex- pressando um produto inédito” (SANTOS; ANDRADE, 2015, documento on-line). Tal objeto deixou de ser as biografias de grandes figuras históricas e os fatos políticos de um país, para se voltar para sistemas de crenças, como visto, por exemplo, na obra Os reis taumaturgos, de Marc Bloch, ou em Martinho Lutero, um destino, de Lucien Febvre. O ofício do historiador4 A revista sofreu um duro baque quando, em 1944, Marc Bloch foi preso, torturado e assassinado pelo governo nazista. Era época da Segunda Guerra Mundial e a França se encontrava ocupada pelos nazistas desde 1940. Isso obrigou uma série de mudanças na revista, como a alteração de seu título para Mélanges d'histoire sociale a partir de 1942 (o que se manteve até 1944) e o afastamento de Bloch (que era judeu e fora vetado pelo governo nazista) do corpo editorial (FONTANA 2004). Mesmo após a morte de Bloch, Febvre continuou publicando a revista, que segue até hoje sendo publicada e se reinventando constantemente, sob título Annales. Histoire, Sciences sociales (Annales HSS). Para saber mais sobre as interações da abordagem de Febvre e Bloch com a psicologia, leia o artigo “A história psicológica de Lucien Febvre e Marc Bloch”, de Lucineide Demori Santos e Solange Ramos de Andrade, disponível no link a seguir. https://qrgo.page.link/eup3i 1960–1970: identificando as mudanças na história A década de 1960 é conhecida por importantes transformações. A guerra do Vietnã, a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, os protestos universitários na Sorbonne (França), o golpe militar no Brasil e o surgimento de diversas outras ditaduras militares com apoio americano na América Latina foram alguns acontecimentos que mudaram a face do planeta, alterando situações que se achavam imutáveis. No meio acadêmico, essas alterações tampouco passaram despercebidas e causaram grande alvoroço, inspirando diversas novas leituras acerca da realidade, mudando a forma de se fazer pesquisa histórica. Sobre os protestos de 1968, vale a pena dedicarmos um parágrafo à parte para compreendersua importância. Na França, esse movimento se originou a partir de protestos que ocorreram na Universidade de Paris Nanterre contra a divisão de dormitórios masculinos e femininos, além da articulação de vários movimentos de esquerda dentro do meio universitário. Em paralelo aos protestos franceses, ocorreram diversos outros movimentos ao redor do mundo: a mobilização da juventude tanto nos Estados Unidos quanto na 5O ofício do historiador Europa contra guerra americana no Vietnã, a revolta dos negros nos Estados Unidos, a luta armada na América Latina e na África, a Revolução Cultural na China (1966–1969), entre outros (THIOLLENT, 1998). Além disso, ocorreu a maior greve geral até então na Europa e diversas manifestações em Berkeley, Turim, Londres, Praga, México, entre outros lugares, as quais, nas palavras de Varella e Della Santa (2018, documento on-line) “[...] colocaram os ‘de baixo’ no epicentro do processo histórico”. Vale lembrar, como as outores destacam: O baby boom do pós-guerra e o impulso científico e tecnológico, [...] pari passu com as conquistas sociais do Estado Social, tinham aberto as universidades às classes trabalhadoras, [e] o número de estudantes no ensino superior tinha passado de 175 mil para mais de meio milhão em dez anos (entre 1958 e 1968) (VARELLA; DELLA SANTA, 2018, documento on-line). Essa combinação de aumento do número de estudantes universitários com o aumento do número de filhos da classe trabalhadora na universidade foi fundamental para dar origem a um protesto sem precedentes na história. Tais protestos representaram uma ruptura de grande relevância na história contemporânea dada a sua forma repentina e radical, mas de difícil mensu- ração no meio acadêmico. Esses movimentos representaram o que Fontana (2001, p. 381) chamou de “reviravolta cultural”, pois uma de suas principais características foi “[...] a negação da cultura estabelecida”. Em geral, esses movimentos serviram para abalar o estruturalismo presente no meio acadêmico e expandir as fronteiras da ciência histórica. Para o grupo dos annalíticos, a década de 1960 foi um momento de transição. Marcou o fim da era sob direção de Fernand Braudel e sua abordagem geo- -história de longa duração para uma nova geração. Com nomes importantes, como Pierre Nora e Jacques Le Goff, essa nova geração marca um período de internacionalização dos Annales e de flertes com a antropologia e a sociologia, além da ascensão daquilo que ficou conhecido como História das Mentalidades e uma abordagem que buscava olhar para pequenos casos a fim de entender como funcionavam grandes estruturas em realidades menores, conhecida com “micro-história”. Um bom exemplo é o livro Montaillou, povoado occitânico, 1294–1324, de Emmanuel Le Roy Ladurie (1997). Nessa obra, a partir da his- tória de um vilarejo na região da Occitânia (França), Ladurie (1997) combinou a análise histórica do detalhe com os estudos antropológicos, fazendo o que Burke (1991, p. 97) denominou como estudar “[...] o mundo através de um grão de areia”. Nas palavras do próprio Burke (1991, p. 96) sobre essa obra: O ofício do historiador6 A novidade de sua abordagem está em sua tentativa de escrever um estudo histórico de comunidade no sentido antropológico — não a história de uma aldeia particular, mas o retrato da aldeia escrita nas palavras dos próprios ha- bitantes, e o retrato de uma sociedade mais ampla, que os aldeãos representam. Não por acaso, é após esse movimento que surge a geração mais popular dos Annales, ganhando espaço até na grande mídia (BURKE, 1991; DOSSE, 2001). Uma nova esquerda nasce No outro lado do Canal da Mancha, um importante movimento nasce para renovar o pensamento dentro da historiografi a. Descontentes com a invasão de Praga e com a ortodoxia marxista no Partido Comunista, seus membros se desligam para fundar a New Left Review. Essa revista reuniu brilhantes historiadores e cientistas sociais, como Eric Hobsbawm, Stuart Hall, Edward Palmer Thompson e Christopher Hill. O grupo buscava entender a história da organização das classes populares, suas lutas e ideologias por meio da chamada “história social”. Para isso, tais estudiosos propuseram uma nova abordagem que revia alguns pilares da teoria marxista, repensando-a através de uma nova ótica sobre a cultura e dando protagonismo às classes operárias. Um bom exemplo disso é obra A formação da classe operária inglesa, de Edward Palmer Thompson (2012), publicada originalmente em 1963, que quebra com a ortodoxia marxista de que uma classe social existe por si só, propondo que ela existe somente quando se reconhece como tal e identifica seus adver- sários. Logo, ela passa por um processo de construção. Além disso, outros autores também saem em busca de uma nova ótica para analisar os fatos contemporâneos, como foi o caso de Eric Hobsbawm, em sua obra A era dos extremos. Para Hobsbawm (1995), o grande acontecimento definidor do século XX foi a Guerra Fria; por isso, seu início deve ser delimitado pela ascensão da Revolução Russa e seu fim pela queda da URSS. Stuart Hall (2005) também buscou entender a globalização sob novas óticas, principalmente como ela afeta a questão da identidade nas ex-colônias europeias, como podemos ver em obras como A identidade cultural na pós- -modernidade, em que ele resgata a questão identitária desde o Iluminismo para entender como funciona nessa era globalizante. Enfim, os trabalhos dessa escola até hoje são de grande relevância e são reconhecidos como obras que equilibram rigor científico e engajamento político com equanimidade poucas vezes apresentada. 7O ofício do historiador Conhecido por obras como O Mediterrâneo na época de Filipe II e Escritos sobre história, Fernand Braudel sucedeu Lucien Febvre no comando da revista Annales d’histoire économique et sociale em 1946, se mantendo até 1968. Tendo que lidar com críticas como a do antropólogo Claude Lévi-Strauss, que argumentava que a história era uma eterna prisioneira dos acontecimentos, o que a impossibilitava de compreender os princípios gerais da sociedade, Braudel (2016) propôs uma nova abordagem baseada na longa duração, o que ele chamava de tempo quase imóvel. Para conhecer melhor sobre a abordagem de Braudel, leia O Mediterrâneo na época de Filipe II, em que ele conta a história do Mar Mediterrâneo, ao invés da história do rei espanhol mencionado no título. Embora o tema central continue sendo o século XVI, o autor fez incursões em outros períodos históricos, desde a Antiguidade até o século XX. 1970: uma época de revisões e influências Com todas essas mudanças ocorrendo ao longo do tempo, a história vai adqui- rindo cada vez mais um caráter interdisciplinar. Vale ressaltar que desde fi ns dos anos, 1920 a história já fazia intercâmbios com outras ciências. Febvre, por exemplo, tinha grande infl uência da geografi a e Bloch tinha interesse por psicologia para tentar entender como as estruturas de crença funcionavam. O fi m dos anos 1960, com todas as mudanças que já abordamos, propiciou intercâmbios da história com áreas como sociologia, antropologia e economia. É importante destacar que a relação da história com a sociologia não era necessariamente amistosa. Comte e Durkheim já faziam críticas à história desde fins do século XIX. Tais críticas foram sistematizadas por Simiand e, de certa forma, acatadas por Febvre e Bloch, ao construírem sua proposta de História Total. Nos anos 1940 e 1950, a crítica viria com toda força da antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss, sendo rebatida pela proposta da longa duração de Braudel. As diversas alterações testemunhadas nos anos 1960 obrigaram aos histo- riadores a repensar o papel da cultura na sociedade. Num primeiro momento, a História das Mentalidades, desenvolvida por Nora, Le Goff e outros nomes da terceira geração dos Annales, tentou dar conta de como valores perpassavam diversos segmentos da sociedade em uma mesma época. Esse movimento tambémganhou o apelido de “viragem antropológica” (BURKE, 1991), dado o papel que esta ciência exerceu sobre as novas pesquisas então realizadas. O ofício do historiador8 Com o advento da História Cultural de Roger Chartier (que por vezes é considerada uma quarta geração dos Annales), acabou crescendo o intercâmbio não apenas com a antropologia, mas também com a literatura. Um dos grandes méritos desse novo modelo difundido por Chartier foi ter recuperado a veia narrativa/literária da história, mas sem abandonar o seu caráter científico. Vale lembrar que a Nova Esquerda do outro lado do Canal da Mancha também estava tentando pensar a cultura das classes subordinadas e como isso influen- ciava em sua mobilização, como e quais valores dessas classes se opunham aos dos estratos dominantes e como o colonialismo afetava a identidade dos povos diaspóricos. Nesse aspecto, Hall e Thompson foram magistrais. Para isso, foram buscar suporte para suas análises tanto na antropologia cultural quanto na sociologia da Escola de Chicago (grupo de pensadores surgido na Universidade de Chicago na década de 1920, cuja preocupação ia além da busca por explicações, interessando-se em encontrar soluções para os problemas da sociedade, como criminalidade, exclusão social, etc.). Todas as edições publicadas dos Annales d’histoire économique et sociale desde o número um, em francês, podem ser encontradas no link a seguir. https://qrgo.page.link/1M5sz Sendo assim, se pudéssemos resumir essa história pós-anos 1960, pode- ríamos dizer que se trata de uma disciplina calcada mais ainda no diálogo com outras ciências sociais (em especial a antropologia, no caso francês, e a sociologia, no caso inglês). Além disso, é uma história que reflete constan- temente sobre seu papel e sua relação com o seu objeto de pesquisa: o ser humano no seu tempo. Nessa reflexão acerca da relação com o seu objeto, uma preocupação constante nessas abordagens que surgiram em ambos os lados do Canal da Mancha foi um olhar para os segmentos populares. Lembremos que a história romântica, o historicismo alemão e a história metódica francesa eram basicamente histórias produzidas por vencedores. Bloch e Febvre começaram a identificar isso em trabalhos como, por exemplo, Os reis taumaturgos, em que Bloch analisa como a crença do poder de cura dos reis na França contri- 9O ofício do historiador buía para a manutenção de seu poder na Idade Média. As obras dessa época, porém, ainda tinham as classes dominantes como foco principal. A partir dessa virada pós-1968, tanto historiadores como antropólogos e sociólogos vão buscar colocar o povo, ou melhor, os segmentos subalternos da sociedade, como protagonistas históricos, numa perspectiva que ficou conhecida como “a história dos vencidos” ou “a história vista de baixo”. Um bom exemplo de como funcionou essa “viragem antropológica” é o livro A invenção do cotidiano, de Michel de Certeau (Figura 2a). Essa obra, que teve muita influência no pensamento da terceira geração, examina as maneiras como as pessoas individualizam a cultura de massa, alterando coisas desde objetos utilitários até planejamentos urbanos, rituais, leis e linguagem, de forma a apropriá-los. Outro livro importante para entender essas novas formas de abordagem é Costumes em comum, de Edward Palmer Thompson (Figura 2b). Sobre esta obra, vale a pena um comentário sobre o capítulo “A economia moral”. Nele, o autor analisa uma série de protestos contra o aumento no preço do trigo na Inglaterra e como esses atos eram guiados por uma moral que diferia totalmente daquela das classes dominantes (para se ter uma ideia, muitas vezes os carregamentos de trigo eram cercados, o preço negociado e, mesmo se não se chegasse a um acordo, a mercadoria era levada e os manifestantes pagavam o preço que consideravam justo). Figura 2. Capas de edições brasileiras de Michel de Certeau e E. P. Thompson. Fonte: Certeau (2014); Thompson (1998). O ofício do historiador10 ANNALES1. [20--?]. 1 imagem. Altura: 380 pixels. Largura: 336 pixels. Formato: JPG. Disponível em: http://1.bp.blogspot.com/-jyx9hgO2qX8/TdUfC4JHLfI/ AAAAAAAAAKo/6NBG6wcsPxU/s1600/annales1-1.jpg. Acesso em: 23 set. 2019. BARROS, D’A. A escola dos Annales e a crítica ao historicismo e ao positivismo. Revista Territórios e Fronteiras, v. 3, n. 1, p. 75-102, 2010. Disponível em: http://www.ppghis.com/ territorios&fronteiras/index.php/v03n02/article/view/56/55. Acesso em: 23 set. 2019. BLOCH, M. Apologia a história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BRAUDEL, F. Escritos sobre a história. São Paulo: Perspectiva, 2009. BRAUDEL, F. O mediterrâneo na época de Filipe II. São Paulo: Edusp, 2016. BURKE, P. A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales (1929-1989). São Paulo: Editora UNESP, 1991. BURKE, P. Variedades de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2014. DOSSE, F. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. São Paulo: Editora UNESP, 2001. FONTANA, J. A história dos homens. Bauru: EDUSC, 2004. HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX: 1914–1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. LADURIE, E. L. R. Montaillou, povoado occitânico, 1294-1324. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. SANTOS, L. D.; ANDRADE, S. R. A história psicológica de Lucien Febvre e Marc Bloch. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA, 7., 2015, Maringá. Anais [...]. Paraná: UEM, 2015. Disponível em: http://www.cih.uem.br/anais/2015/trabalhos/1120.pdf. Acesso em: 23 set. 2019. THIOLLENT, M. Maio de 1968 em Paris: testemunho de um estudante. Tempo Social, v. 10, n. 2, p. 63–100, 1998. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ts/v10n2/v10n2a06. Acesso em: 23 set. 2019. THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. São Paulo: Paz & Terra, 2012. THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. VARELLA, R.; DELLA SANTA, R. O maio de 68 na Europa: estado e revolução. Revista de Direito e Práxis, v. 9, n. 2, p. 969–991, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?pid=S2179-89662018000200969&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 23 set. 2019. 11O ofício do historiador DICA DO PROFESSOR Além da Escola dos Annales, outra importante escola histórica do século XX foi a New Left Review, responsável por dar um novo ânimo à teoria marxista. Esta escola histórica foi extremamente importante por revelar toda uma geração de historiadores ingleses que traziam um novo olhar sobre os grupos subalternos. Nesta Dica do Professor, você entenderá um pouco mais da New Left Review, a sua importância, as origens dos membros fundadores e algumas disputas internas. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) Em 1906, François Simiand sistematizou em seu livro Método histórico e ciência social várias críticas à História que já vinham desde fins do século XIX. Basicamente, eram uma crítica ao personalismo (preocupação com grandes nomes) e à busca pelas origens dentro dos trabalhos produzidos pelos historiadores da época. Como a proposta de História Total de Febvre e Bloch servia como resposta a essas críticas? A) Estabelecendo uma História vista de baixo, analisando o perfil e a ideias das classes subalternas, travando fortes diálogos com a antropologia, a sociologia e outras ciências sociais, e também adaptando as metodologias dessas ciências à abordagem da História. B) Preocupando-se, por exemplo, com grandes estruturas de crença e fazendo uma História que privilegiava mais o funcionamento da sociedade do que se preocupava com biografias ou grandes fatos, tentando fazer uma espécie de Psicologia Social. Buscando uma abordagem que privilegiasse análises de grande duração e um diálogocom a geografia, a economia e a estatística, em uma concepção de tempo quase imóvel, tentando adaptar uma análise estrutural à pesquisa histórica como forma de identificar C) estruturas atemporais. D) Uma abordagem tentando analisar pequenos casos e as suas relações com contextos maiores, em uma abordagem que privilegiasse o diálogo com a literatura e a antropologia, tentando, assim, estabelecer uma relação entre contextos macro e micro. E) Uma abordagem que resgatasse o caráter de narrativa/literatura da História, mas sem perder o rigor científico, estabelecendo diálogos com a semiótica e a antropologia, porém admitindo os limites da História em construir uma narrativa científica de acordo com a documentação da época disponível. 2) Ao assumir o comando dos Annales, em 1946, Fernand Braudel veio com uma nova proposta de se analisar a História a partir de grandes intervalos de tempo e estabelecendo diálogos com a geografia, a estatística e a economia. Um bom exemplo é a sua obra O Mediterrâneo e o mundo na época de Filipe II, na qual ele quebra com paradigmas construindo uma história sobre o mar Mediterrâneo focada no século XVI, mas fazendo conexões até com o século XX. Essa nova abordagem foi uma resposta às críticas de Lévi-Strauss que diziam: A) que a História era prisioneira de três ídolos: a origem, a biografia e a nação, e por isso as suas análises eram limitadas e pouco científicas. B) que a sua análise não dava conta de compreender as classes subalternas da sociedade. C) que ela não dava conta de grandes estruturas de crença e valores, que serviam como elemento de organização da sociedade. D) que suas análises só serviam para educar as classes dominantes e propagandear sentimentos nacionalistas. E) que a História era "prisioneira do acontecimento", sendo, por isso, impossível de se conhecer grandes leis que explicassem o funcionamento da sociedade. 3) As manifestações de maio de 1968 representaram um grande impacto na História e nas ciências sociais. A união entre universitários e trabalhadores na França e as diversas manifestações no planeta sinalizaram uma virada de paradigma para a História. Esses acontecimentos demonstraram uma necessidade de: A) uma história narrativa acrítica, de caráter mais literário e que seja voltada para exaltar os grandes mitos da nação e os grandes fatos históricos, pensando na mobilização dos cidadãos do país. B) os historiadores se apropriarem da antropologia e outras ciências sociais para compreender como funcionava a perspectiva e os valores das classes subalternas. C) uma História voltada para a análise de grandes períodos de tempo, focada na estatística e geografia, tentando estabelecer grandes leis que expliquem o funcionamento da sociedade. D) uma História que desse conta de criar um sentimento de nacionalidade em países divididos, mas que tivesse uma abordagem científica valorizando o documento e prezando pelo rigor metodológico, vasculhando os arquivos. E) uma História politicamente engajada que buscasse dar conta das diversas estratégias de luta das classes subalternas ao longo do tempo e dar protagonismo a esses grupos. 4) A década de 1960 também foi famosa em revelar para o mundo os pensadores da New Left Review. Formada por importantes intelectuais de esquerda da Inglaterra e com uma proposta de também ter um olhar diferenciado para as classes populares, a New Left Review nasceu de um acontecimento traumático quando esses intelectuais se desligaram do Partido Comunista inglês e se uniram para criar a revista. Qual foi esse acontecimento? A) O bombardeio nazista na cidade de Londres. B) A ocupação da França durante a Segunda Guerra e o governo colaboracionista de Vichy. C) A invasão de Praga pela URSS. D) Os protestos de maio de 1968. E) A eleição da liberal Margaret Thatcher para o cargo de primeira ministra. 5) Apesar de o tocante à questão do engajamento político e da influência da teoria marxista serem diametralmente diferentes, a historiografia da Nova Esquerda Inglesa e da Nova História da Terceira Geração dos Annales tinha uma importância. Além de cronologicamente contemporâneas, as duas correntes eram: A) a busca da compreensão das classes subalternas, ainda que por meio e razões diferentes. B) a busca por uma História nacionalista e científica que buscasse valorizar os documentos escritos, grandes fatos históricos e grandes nomes da História. C) a busca por uma história de longa duração tentando dar conta de descobrir grandes estruturas que funcionam por eras. D) a busca por uma História que resgata o papel de narrativa/literatura da História, mas sem perder o rigor científico. E) a busca por uma História que relacione realidades "micro" (pequenas aldeias, vilarejos) com estruturas "macro" (Estado, Igreja, festas, etc.), tentando entender como funciona toda uma teia de valores e crenças. NA PRÁTICA Uma das abordagens que ganhou muita fama neste contexto pós-1968 foi a dos grupos tradicionalmente marginalizados na sociedade, ao invés de fazer uma História de Grandes Homens, como era o caso da Escola Metódica. Um dos grandes problemas de se fazer esse tipo de História é encontrar documentação produzida pelos próprios vencidos. Na Prática, você conhecerá mais a respeito da escritora Carolina Maria de Jesus, uma mulher negra e favelada do início do século XX, cuja a obra constitui um raro exemplo de corpus documental produzido por segmentos subalternos da sociedade. SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Braudel e o tempo Para entender melhor como era a concepção de tempo para Fernand Braudel e as críticas feitas por Lévi-Strauss, veja este vídeo do canal Leitura Obrigahistória. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Compreendendo os Annales Assista ao vídeo do canal Leitura Obrigahistória para compreender melhor sobre a relevância da Escola dos Annales. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Apresentação – “A História é uma recolha de experiências” Para ter uma ideia do painel geral da historiografia, acesse este artigo de Maria Auxiliadora Schmidt e Marlene Cainelli e veja como há várias maneiras de se fazer história. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Stuart Hall e a fundação da New Left Review Para saber direto de um de seus fundadores como se deu a fundação da New Left Review, veja este artigo, de Stuart Hall, traduzido na revista da USP. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! O conceito de história APRESENTAÇÃO A história pode ser melhor compreendida enquanto disciplina científica a partir do seu desenvolvimento ao longo do tempo. As primeiras tentativas no sentido de uma virada científica ocorreram no início do século XIX. No entanto, esses primeiros passos, embora tivessem avançado nas questões metodológicas, ao exigir maior rigor no trato das fontes, eram insuficientes em termos de filosofias ou teorias da história. E não é possível para o historiador exercer a sua tarefa sem refletir sobre a natureza dela e elaborar hipóteses sobre os seus objetos de estudo. Contudo, após esses primeiros momentos, deu-se início uma evolução contínua nos estudos historiográficos que, ao longo dos séculos XIX e XX, com as escolas positivista e marxista, ganhou densidade tanto em termos metodológicos quanto teóricos e sobre os novos problemas de pesquisa que se apresentaram. A partir da década de 1960 ocorre uma nova guinada no campo histórico com a ascensão da terceira geração da Escola dos Annales, que investiu em novos objetos de estudo. Uma das grandes conquistas da história, enquanto ciência, foi determinar a importância do contexto histórico, de maneira que o historiador não incorra em anacronismos. Junto com o estudo dos fatos e da cultura dos povos, deve-se considerar as condições materiais e a organização dosgrupos por épocas históricas. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai conhecer o contexto em que a história passa a se tornar uma ciência e, os seus fundamentos, as principais características de três grandes escolas históricas: a positivista, a marxista e a chamada Nova História. Por fim, você poderá reconhecer a importância do contexto histórico para a compreensão dos fatos estudados. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Apontar os fundamentos da história como ciência.• Descrever as correntes historiográficas do Positivismo, Marxismo e Nova História.• Reconhecer a importância do contexto histórico para a análise dos fatos. • DESAFIO Atualmente, no âmbito da história, são muito vivos os debates acerca dos fundamentos científicos dessa. De um lado, historiadores vinculados às correntes pós-modernas defendem que a história não pode ser considerada uma ciência. Em outra via, historiadores que são partidários da história científica argumentam que esta tem teorias próprias e metodologias científicas. Outros historiadores tentam ajustar um meio termo, afirmando que a história é sim uma ciência, porém uma ciência de tipo peculiar. Você, como historiador, está participando de um congresso. Baseado nesta situação, responda: a) Quais argumentos você utilizaria para comprovar o seu ponto de vista, caso você precisasse defender a história ciência? b) Quais argumentos você utilizaria para comprovar o seu ponto de vista, caso você precisasse defender a não cientificidade da história? INFOGRÁFICO O desenvolvimento da história como ciência foi um longo processo iniciado no início do século XIX. De lá para cá, grandes escolas históricas surgiram, influenciando gerações de historiadores e permitindo a construção de trabalhos históricos dos mais diversificados. Dessas escolas, três se destacam, principalmente: a positivista, a marxista e a chamada de Nova História. O positivismo, como doutrina influente no século XIX, teve papel importante na formação da história enquanto ciência. Praticamente contemporâneos a ela, os trabalhos de Karl Marx foram os responsáveis pela formação de uma escola histórica própria, muito influente no século XX. Por fim, a Nova História diferenciando-se das duas anteriores em seus métodos e temas, também exerce influência até hoje nos meios acadêmicos da história. Veja, no Infográfico, informações sobre essas três grandes escolas históricas. CONTEÚDO DO LIVRO A discussão sobre se a história é uma ciência, ou não, é algo que precisa ser confrontado pelos historiadores como parte de seu trabalho. Desde o início do século XIX, quando pela primeira vez esse debate surgiu – e mais que um debate, uma imposição dos tempos sobre o fazer histórico – o tema continua sendo pautado nas discussões a respeito do ofício do historiador. A importância desse diálogo reside no fato de que é fundamental para o profissional da história refletir sobre a sua prática. Indo além: determinar os fundamentos científicos da história é essencial para que a produção do conhecimento histórico seja racionalizada. Em meio a diversas tendências historiográficas, o historiador deve buscar incessantemente conhecê-las, compreender os seus métodos, dominar as suas teorias e filosofias, enfim, apreender a história como ciência. Afinal, montando esse instrumental metodológico e esse arcabouço teórico, o historiador terá muito mais capacidade em compreender os diversos contextos históricos a fim de evitar o “pecado” do anacronismo. No capítulo, O conceito de história, da obraTeoria da História e Historiografia, você encontrará uma discussão sobre os fundamentos da história e a sua cientificidade, bem como as características de três grandes escolas históricas: positivista, marxista e a Nova História. Você também irá aprender a importância do contexto histórico e dos conceitos para o trabalho do historiador. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Eduardo Pacheco Freitas O conceito de história Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Apontar os fundamentos da história como ciência. Descrever as correntes historiográficas do positivismo, marxismo e nova história. Reconhecer a importância do contexto histórico para a análise dos fatos. Introdução Definir se a história é ou não é uma ciência faz parte de um debate aparentemente eterno dentro do campo da história. Nenhum historiador poderá ficar indiferente a esta discussão, devendo confrontar o pro- blema mais cedo ou mais tarde. A importância de realizar essa reflexão é que, a partir dela, o trabalho do historiador pode ganhar contornos mais precisos, auxiliando sua tarefa como produtor de conhecimento histórico. Em um ramo do conhecimento que possui tantas tendências relevantes e diversos paradigmas, conhecê-los e estar apto a fazer sua crítica é outra característica essencial para um bom historiador. Ademais, o domínio dos conceitos e a sua correta aplicação para evitar o erro do anacronismo são fundamentais para o correto desenvolvimento de um trabalho histórico. Neste capítulo, você vai conhecer a discussão sobre a cientificidade da história e quais os principais fundamentos da história como ciência. Além disso, vai aprender sobre as principais correntes historiográficas surgidas a partir do século XIX. Por fim, você vai refletir sobre a impor- tância do contexto histórico e do uso dos conceitos para a análise dos fatos históricos. Afinal, a história é uma ciência? Em seus estudos, você descobrirá que até hoje existem historiadores que debatem se seu ramo do conhecimento humano se trata de uma ciência ou não. Essa discussão envolve sobretudo o questionamento das possibilidades de se conhecer objetivamente o passado. Isso signifi ca que, de uma certa perspectiva, o uso de teorias e métodos permite que a história seja uma ciência; sob outra ótica, pode-se dizer que a escrita da história é apenas um discurso autorreferente. Nesta primeira seção, você conhecerá as características de ambas as correntes, bem como historiadores que representam cada uma delas. Além disso, você conhecerá os fundamentos da história enquanto ciência. Os primórdios da história científica A história, como ramo independente do conhecimento humano, existe desde a Antiguidade. Os gregos foram os primeiros a produzir trabalhos envol- vendo a sua própria história e a de outros povos. Nesse sentido, Heródoto de Halicarnasso (séc. V a.C.) frequentemente é tido como o “pai” da história. Sua obra mais conhecida, Histórias, traz relatos de suas viagens e conversas com habitantes de lugares distantes, possibilitando ao autor discorrer sobre costumes tanto de gregos quanto de outros povos. Contudo, esse tipo de fazer historiográfi co carecia de métodos precisos e de um instrumental teórico. Portanto, não se tratava ainda de uma história científi ca. A história científica irá surgir somente na virada do século XVIII para o século XIX, momento em que a ciência como um todo passa a avançar con- sideravelmente em pouco tempo. Na história científica, que aparece após a Revolução Francesa, exige-se rigor no trato das fontes, cuja autenticidade deve ser verificada, e a teoria passa a ocupar papel fundamental para a interpretação dos acontecimentos do passado narrado pelo historiador, agora profissiona- lizado. Portanto, foi somente nos últimos 200 anos que os pesquisadores da história buscaram traçar fronteiras mais nítidas entre o discurso narrativo histórico e a narrativa literária ou poética. De acordo com Moscateli (2005, documento on-line): “[...] o século XIX assistiu ao esforço dos historiadores para institucionalizar sua área de estudos por meio de uma ruptura da história em relação à arte e à filosofia”. O nome mais importante na institucionalização da história como ciência foi o do alemão Leopold von Ranke (1797–1886). Assim comoHeródoto foi o “pai” da história, Ranke é considerado o “pai” da história científica, e isso se deve ao fato dele ter posto em marcha uma verdadeira revolução no modo de produzir O conceito de história2 conhecimento histórico. Em primeiro lugar, Ranke determinou a importância do uso das fontes primárias para o trabalho do historiador. Até então, não havia essa preocupação, o que acabava afetando a credibilidade dos trabalhos históricos. No entanto, deve-se ressaltar que, apesar deste ter sido um importante passo na criação da história científica, Ranke dava atenção especial somente aos documentos produzidos pelo Estado, de forma que pudesse escrever sua história. Por outro lado, Ranke acreditava na total separação entre o historiador (sujeito) e o passado (objeto), defendendo que o seu trabalho deveria ser exe- cutado de forma neutra, com o historiador deixando de lado suas vivências, preferências e características pessoais, formando assim um processo de com- pleta objetividade. Os fundamentos para essa perspectiva estavam no seu método. De acordo com os princípios metodológicos de Ranke, não caberia ao historiador julgar o passado, devendo se ater, em vez disso, ao relato do que de fato havia acontecido, sem juízos de valor. Isso só seria possível se o historiador escapasse de todos os condicionamentos sociais capazes de interferir no objeto sobre o qual se ocupa em seu ofício. Para produzir sua narrativa científica, o historiador deveria efetuar a crítica rigorosa das fontes (documentos escritos), organizados cronologicamente e sem especulações filosóficas sobre seus conteúdos. Ao obedecer a essas regras, surgiria a história como ciência (BOURDÉ; MARTIN, 1983) Contudo, apesar de suas pretensões, isso ainda não garante uma história plenamente científica, justamente por descartar a utilização de teorias e, desse modo, a formulação de hipóteses. No entanto, Ranke deu os primeiros passos na formulação de uma história-ciência, que seriam seguidos pela chamada Escola Metódica, influenciada pelo positivismo e fundada por Gabriel Mo- nod (1844–1912), Charles Seignobos (1854–1942) e Charles-Victor Langlois (1863–1929), no final do século XIX. Tal tradição científica prosseguiu com o marxismo e a Escola dos Annales no século XX. Os fundamentos da história como ciência Ao refl etir sobre as relações entre o historiador e seu objeto de pesquisa (o passado), face à lógica específi ca de que os fatos históricos devem ser tratados a partir de uma perspectiva científi ca, Reis (2010, p. 26) afi rma: O historiador não está condenado a registrar fatos, a constatá-los. Ele raciocina sobre eles, busca a sua inteligibilidade, atribuindo-lhes sentido, pensando as possibilidades objetivas e os seus desdobramentos. Afinal, pensar não é registrar, mas considerar caminhos possíveis, alternativas. 3O conceito de história Portanto, é fundamental que na pesquisa histórica, muito mais do que elencar nomes, datas e fatos, o historiador desenvolva hipóteses a respeito dos processos históricos. Dessa forma, é possível estabelecermos que o conheci- mento histórico é eminentemente racional, pois, ao produzi-lo, o historiador busca determinar sentidos, criando uma razão histórica, que tem por base teorias da história. Assim, são construídas análises racionais sobre os objetos de estudo. O historiador e filósofo alemão Jörn Rüsen (1938–) é um dos autores de maior destaque dentro do pensamento contemporâneo a respeito da cientifi- cidade da história. Para Rüsen, só é possível pensar a história como ciência se levarmos em consideração os métodos que devem ser aplicados às fontes. Segundo essa perspectiva, que torna relevante a reflexão do historiador so- bre o trato que dá ao conjunto de suas fontes, é a partir deste momento que a construção do conhecimento científico passar a acontecer no âmbito da história. Em síntese, a definição de um método preciso é um pressuposto para a ciência histórica. É isso que irá, primeiramente, diferenciar a narrativa histórica de qualquer outra forma de narrativa. De acordo com Rüsen (2001, p. 97), a “[...] história como ciência é a forma peculiar de garantir a validade que as histórias, em geral, pretendem ter. Histórias narradas com especificidade científica são histórias cuja validade está garantida mediante uma fundamentação particularmente bem feita”. Esta “garantia” que Rüsen menciona, que torna científico o conhe- cimento produzido pelo historiador, reside especificamente na utilização de teorias para elaborar a experiência do passado em forma de história. Por isso, tanto quanto o método, a teoria é indispensável na produção historiográfica. Outro nome importante na fundamentação da história como ciência foi Marc Bloch, um dos fundadores da Escola dos Annales. Em seu livro Apologia da História ou o ofício do historiador, ele apresenta suas concepções sobre a história científica. É nesta obra que Bloch cunha a sua célebre definição de que a história é “[...] uma ciência dos homens no tempo” (BLOCH, 2001, p. 67). Decorre desse entendimento o fato de que o conhecimento histórico deve ser compreendido como produção científica, com suas próprias especificidades teórico-metodológicas. Uma das grandes ressalvas feitas pelos autores que não consideram possível a cientificidade da história é a de que o historiador não tem acesso direto ao seu objeto (REIS, 2010). No entanto, para Bloch (2001), as ciências não são definidas única e exclusivamente por seus objetos de estudo. O mais importante, segundo o autor, é a posição do historiador no processo de investigação, já que é ele quem determinará seus limites, ou seja, criando os recortes necessários O conceito de história4 para o estudo sistemático do objeto. É nesse sentido que assume particular relevância a definição dos métodos adequados para sua pesquisa e posterior escrita e comunicação dos resultados. Cabe ressaltar que a aproximação que o historiador faz dos diversos objetos cria a necessidade de diferentes formas de abordagem metodológica. Uma metodologia que serve para pesquisar acervos escritos do século XX possivelmente não servirá para um historiador que estude a história da pintura renascentista. Dessa forma, estão caracterizados os procedimentos formais para a construção do conhecimento histórico. A contestação da história enquanto ciência Embora grande parte dos autores considere que o conhecimento histórico é fruto da pesquisa científi ca rigorosamente metódica, existem historiadores que apresentam uma perspectiva diversa. Paul Veyne (1930–), em Como se escreve a história: Foucault revoluciona a história, uma obra do início dos anos 1980, foi categórico em sentenciar que a história, em hipótese alguma, pode ser considerada uma ciência. Para o autor (VEYNE, 1982), os historiadores apresentam pretensões científicas, mas não teriam condições de revelar qual seu método quando questionados a respeito. Dessa forma, a história não explicaria nada. Portanto, ao não possuir método e não apresentar modelos explicativos convincentes, a ciência histórica dos últimos dois séculos seria uma farsa, existindo somente na cabeça dos historiadores. Nesse sentido, Veyne (1982, p. 8) coloca a questão “o que é a história?”, para em seguida responder: “[...] os historiadores narram fatos reais que têm o homem como ator; a história é um romance real”. Portanto, a história na visão de Veyne nada mais é do que uma mera narrativa, devido à sua incapacidade de conhecer objetivamente o passado. O ataque de Veyne (1982) aos historiadores, deslocando-os do campo cien- tífico e colocando-os no campo narrativo, não foi isolado. Logo após ser aberto este novo caminho, outro historiador o seguiu: Hayden White (1928-2018). White (2008), seguindo na mesma linha de Veyne, contesta o caráter científico da história e a coloca no campo da literatura. Para o autor de Meta- -história, o historiador é incapaz de reconstruir os fatos da mesma forma que ocorreram, devendo,portanto, se afastar dos pendores científicos, de forma a se aproximar do campo literário, com uma escrita mais livre. De acordo com White (2008), a linguagem é um fator determinante nos sentidos do texto. Assim, a racionalidade buscada pelo historiador, com o objetivo de produzir um conhecimento lógico e estruturado, dá lugar ao estilo literário que estará na base do discurso histórico. Portanto, na impossibilidade, segundo White 5O conceito de história (2008), de se atingir objetivamente o passado, a narrativa histórica se aproxima dos outros gêneros de narrativas, sendo autorreferente. Como visto, o debate dos fundamentos científicos da história permanece em aberto, com disputas entre duas correntes. No entanto, é crucial que os historiadores compreendam que essa problemática sobre a natureza do conhe- cimento históricos deve ser confrontada permanentemente. Positivismo, marxismo e nova história Desde as primeiras tentativas de criação de uma história científi ca, nos primór- dios do século XIX, o fazer histórico passou por profundas transformações. A partir deste longo século — que testemunhou o fi m do Antigo Regime, a ascensão da burguesia como classe dominante, a consolidação dos Estados nacionais, a expansão imperialista, o rápido desenvolvimento das ciências, tanto as naturais quanto as humanas, e o surgimento de poderosas ideologias — um novo mundo foi criado. A partir de então, novas formas de encarar a sociedade e a história surgiram, determinando os rumos das ciências humanas até hoje. Assim, novas e importantes teorias apareceram, infl uenciando sobremaneira a ciência histórica, sendo as mais importantes delas o positivismo, o marxismo (século XIX) e a nova história (século XX). Positivismo O francês Auguste Comte (1798–1857) é geralmente referido como o “pai” da sociologia. Esse campo do conhecimento não existia até a primeira metade do século XIX, tendo algumas de suas bases lançadas por Comte. Além disso, Comte foi o responsável pela criação de uma nova doutrina, chamada por ele de positivismo. Dentre suas principais características, podemos nos referir à concepção de que o pesquisador (sujeito) nas ciências humanas pode posicionar-se de maneira absolutamente neutra perante seu objeto de estudo, tal qual nas ciências naturais. Como nos lembram Bourdé e Martin (1983), a ciência positivista era calcada na ideia da “lei dos três estados”, que seriam as etapas pelas quais o conheci- mento humano havia passado pela história. A primeira “lei” diz respeito ao “estado teológico”, no qual o ser humano atribuía os eventos históricos a seres sobrenaturais; no estado seguinte, o metafísico, os seres sobrenaturais seriam substituídos pelas abstrações de modo a explicar a história; finalmente, no “es- tado positivo”, o ser humano busca explicar a realidade pelo método científico. O conceito de história6 É importante lembrarmos que os avanços científicos da Revolução Industrial tiverem forte impacto sobre o imaginário social e sobre a produção intelectual, como fica evidente na fé depositada por Comte na ciência. A questão é que essa nova forma de conceber a sociedade teve influência sobre a produção das ciências humanas, que nesse período passavam a se institucionalizar. É dessa maneira que surge uma história positivista. Portanto, como nos informa Fonseca (2009, documento on-line): Esta história positivista será uma história que, exatamente por acreditar que os fatos podem ser isolados do sujeito que os confronta (o historiador) e podem ser percebidos em seus contornos precisos, terá a capacidade de descrever a verdade sobre os fatos históricos (que a este ponto constituem, para o positi- vismo, a própria História), pois a análise do objeto pode ser assimilada pela ciência (aquela ciência que é metodologicamente bem informada — isto é, a ciência positivista) sem que haja qualquer perda ou redução: o saber histórico tem a capacidade de reproduzir fielmente os fatos históricos. Como fica evidente nessa passagem, a história positivista tem pretensões de objetividade total do historiador frente ao seu objeto, como se ele, o historiador, pudesse desaparecer por detrás de suas fontes e de sua escrita, sem imprimir qualquer traço subjetivo de sua personalidade. É precisamente esta busca pela total neutralidade do historiador que conduzirá os trabalhos de Leopold von Ranke, um dos primeiros e mais importantes historiadores positivistas. Ranke foi o criador dessa nova corrente historiográfica conhecida como científica e/ou positivista. Seus pressupostos advêm do positivismo, buscando utilizar os métodos das ciências naturais nas ciências humanas, particularmente na história. No entanto, o autor reduzia muito o seu campo de pesquisa, ao aceitar somente documentos escritos e oficiais como fontes dignas de créditos. Dessa forma, a pesquisa histórica de Ranke, embora com pretensões cientí- ficas, acaba elaborando apenas uma história do Estado. Contudo, esse foco nos documentos oficiais fundamentou a crítica rigorosa de tal material. Esse modo de fazer história atravessou as fronteiras da Alemanha e influenciou uma das mais importantes escolas históricas francesas: a Escola Metódica. Fundada em torno da Revista Histórica, a Escola Metódica teve como seus maiores expoentes Charles Seignobos e Charles-Victor Langlois. Ambos pu- blicaram um trabalho que tinha como objetivo estabelecer os métodos a serem utilizados na ciência histórica. Essa obra, intitulada Introdução aos Estudos Históricos, exerceu larga influência sobre as gerações seguintes de historiadores. Contudo, completamente imbuídos pelo espírito positivista, não conseguiram superar suas amarras metodológicas e teóricas, já que prosseguiram com o 7O conceito de história credo na total separação entre sujeito e objeto. Da mesma forma, permaneceram impassíveis em relação ao uso exclusivo de fontes oficiais, fixando-se assim como objeto de suas pesquisas os fatos e os grandes vultos históricos. Marxismo Na primeira metade do século XIX, com a publicação do Manifesto Comunista (1848), Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895) inauguraram uma nova e radical concepção da história, conhecida posteriormente por materialismo histórico-dialético. No Manifesto, redigido sob encomenda em 1847 para a Liga dos Justos, como programa da organização, Marx e Engels afi rmaram que “[...] a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes” (MARX; ENGELS, 2010, p. 40). A partir dessa simples, mas poderosa frase, todo um novo horizonte teórico se abriria, que mais tarde seria chamado de marxismo. Segundo a concepção dos autores, ao longo dos séculos todas as sociedades apresentaram um confl ito principal entre duas grandes classes principais. Na Antiguidade, a oposição se dava entre senhores e escravos; no período medieval, a contradição social ocorria entre nobres e plebeus; já na modernidade, com a ascensão da burguesia, que no seu seio criava o proletariado, o confl ito se tornava ainda mais simples, com uma pequena parcela de burgueses contra a vasta população de proletários. Para o marxismo, as lutas de classes são o motor da história, pois é a partir delas que as novas sociedades surgem, suplantando as sociedades anteriores. Isto ocorre pelos modos como uma sociedade se organiza em relação ao tra- balho e à produção. Quando um determinado modo de produção se exaure, a classe que o comandava é destruída por uma nova classe, que estabelece uma nova forma de produção e circulação de mercadorias. Assim, cada vez que o modo de produção de uma sociedade é revolucionado, toda a sociedade é transformada radicalmente. Para o marxismo, portanto, são as condições concretas da vida, o modo como os homens reproduzem a sua existência (estrutura), que determinam em última análise a consciência social e suas instituições política, jurídicas, religiosas etc. (superestrutura). Segundo essa óptica, toda forma de Estado é umaditadura de classe, pois esse Estado é um reflexo da exploração e da opressão que a classe dominante exerce sobre a classe dominada. O marxismo, portanto, é uma corrente intelectual materialista, em oposição ao idealismo alemão originado em Hegel. O conceito de história8 No contexto em que Marx (2017) produziu seus escritos, com destaque para O Capital, uma obra monumental de crítica à economia política, na qual o funcionamento do capitalismo é dissecado minuciosamente, a burguesia — que outrora fora uma classe revolucionária, responsável por derrubar o Antigo Regime — agora encontrava-se plenamente assentada sobre o poder, tornando-se assim uma classe conservadora e contrarrevolucionária. Portanto, o objetivo da burguesia seria o de manter seu controle sobre o proletariado, de forma que esse não se organizasse e viesse, eventualmente, a tomar o seu lugar como classe dominante, no que o marxismo conceitua como “ditadura do proletariado”. Para superar sua condição de classe explorada e oprimida, os proletários deveriam se organizar politicamente, tendo em vista a conquista do poder. Chegando lá, de acordo com o marxismo, haveria uma etapa de transição, que é o socialismo, no qual os meios de produção são expropriados, caracterizando assim a referida ditadura do proletariado. Ou seja, o Estado ainda existe, e pelo simples fato de sua existência, trata-se de uma ditadura de classe. Porém, o objetivo final é atingir o comunismo, uma sociedade em que as classes sociais deixam de existir e, devido a isso, ocorre o definhamento do Estado, que acabar por sumir. Dessa forma, o marxismo é frequentemente descrito como uma historiografia “teleológica”, isto é, que visa um fim em um futuro ainda incerto: a destruição do capitalismo, abrindo o caminho para a sociedade comunista. Devido a isso, a produção intelectual marxista é praticamente indissociável da luta política. Os trabalhos marxistas, em geral, são divididos em humanistas e estrutura- listas. No marxismo humanista, aquele que se aproxima mais do pensamento de Marx, o ser humano está no centro de tudo, pois a libertação da humanidade defendida por Marx visa à realização integral do ser humano. Porém, de acordo com Marx (1969, p. 17), existem condições pré-determinadas nas quais os homens se situam na história: Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Marx reconhece que os seres humanos agem dentro de estruturas herdadas do passado, e que isso limita a atuação livre de cada um ou de uma sociedade. No entanto, ao contrário dos estruturalistas, que basicamente fazem uma 9O conceito de história história sem o ser humano, levando em consideração apenas as estruturas sociais, Marx afirma que são os homens que, no fim das contas, fazem a sua própria história. Para Althusser (2017, p. 17), célebre pensador marxista do ramo estrutu- ralista, Marx em O Capital, sua magnum opus, fez a descoberta de um novo “continente” científico: Esta obra gigantesca que é O Capital contém simplesmente uma das três grandes descobertas científicas de toda a história humana: a descoberta do sistema de conceitos (portanto, da teoria científica) que abre ao conhecimento científico aquilo que podemos chamar de “Continente-História”. Antes de Marx, dois “continentes” de importância comparável já haviam sido “abertos” ao conhecimento científico: o Continente-Matemática, pelos gregos do século V a.C., e o Continente-Física, por Galileu. Dessa forma, é possível percebermos a grande contribuição do marxismo às mais diversificadas áreas do conhecimento humano, como economia, psica- nálise, sociologia, filosofia, geografia e artes. Na história, talvez a influência marxista tenha sido ainda maior, com alguns dos maiores historiadores do século XX tendo se inscrito nas fileiras do marxismo, como Gordon Childe, Eric Hobsbawm, Perry Anderson, E. P. Thompson dentre outros. No Brasil, Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré e Ciro Flamarion Cardoso são alguns dos mais importantes historiadores marxistas. Desde que Karl Marx publicou seus primeiros trabalhos, no século XIX, o marxismo esteve no centro dos debates acadêmicos e políticos. Por conta disso, ainda hoje existe muita confusão sobre o significado dessa corrente intelectual e política conhecida como marxismo. No podcast a seguir, você irá encontrar um debate entre professores doutores com visões distintas a respeito do termo, explicando o que é e o que não é marxismo. https://qrgo.page.link/z2qmd Nova história A chamada “nova história” é uma corrente historiográfi ca que surge em fi ns da década de 1960, vinculada à terceira geração da Escola dos Annales. Esta O conceito de história10 geração apresentou grandes mudanças em relação às que a precederam. Até então, por exemplo, mulheres nunca haviam integrado o grupo dos Annales, mas a partir da terceira geração, diversas historiadoras passaram a compô-lo, como Christiane Klapisch (especializada em história da família na Idade Média e Renascimento), Mona Ozouf (que estudou os festivais ocorridos durante a Revolução Francesa) e Arlette Farge (pesquisadora do mundo social de Paris no século XVIII) (BURKE, 1997). Outra diferença importante é que a terceira geração se mostrou mais re- ceptiva às ideias vindas de outros lugares, com vários de seus membros tendo estudado nos Estados Unidos, sendo, portanto, capazes de produzir em inglês, algo que não acontecia com as gerações anteriores. Porém, é no campo dos novos objetos de estudo histórico que a terceira geração dos Annales fará uma revolução dentro da já tradicional, àquela altura, escola histórica. Isto é, novos problemas foram colocados diante dos historiadores. As inovações se deram sobretudo no campo da história das mentalidades e no emprego de metodologia quantitativa na história cultural. Dessa forma, a orientação intelectual de diversos historiadores, de acordo com Burke (1997, p. 81) “[...] transferiu-se da base econômica para a ‘superestrutura’ cultural, ‘do porão ao sótão’”. Isto significa uma ruptura com o marxismo, que, ao contrário, vê a estrutura material da sociedade como a base da qual se irradiam os outros elementos que a constituem. Portanto, ocorre uma transição importante da história econômica para a história cultural, sendo essa passagem umas das prin- cipais contribuições historiográficas da terceira geração da Escola dos Annales. Essa mudança de foco, de acordo com Burke (1997), ocorreu como uma reação a Braudel, mais especificamente contra o determinismo histórico. Assim, historiadores como Philippe Ariès (1914–1984) voltaram-se para as relações entre a natureza e a cultura, produzindo estudos de grande quali- dade que perscrutavam as conexões entre fenômenos sociais e fenômenos naturais, tais como a infância, por exemplo. Ariès chegou a conclusões bas- tante interessantes, ao afirmar, por exemplo, que na Idade Média não havia a noção de infância tal como a percebemos hoje, com as crianças sendo vistas como adultos em miniatura, que participavam de todas as situações sociais. É uma contribuição valiosa para a compreensão da importância do contexto no trabalho do historiador, que deve evitar incorrer no erro do anacronismo. É evidente que, sempre que investigamos o passado, nossos valores e nosso tempo, de maneira mais ou menos intensa, exercerão alguma influência em nossas conclusões. Contudo, devemos ter em mente que ideias como indivi- dualidade, privacidade, infância e trabalho não são as mesmas em todos os lugares e no decorrer do tempo histórico. 11O conceito de história Phillipe Ariès foi um dos grandes nomes da terceira geração da Escola dos Annales. Ariès dedicou seus estudos às questões envolvendo família e infância. Confira no vídeo a seguir uma pequenabiografia deste historiador. https://qrgo.page.link/9q25M Outro historiador importante da terceira geração é Jean Delumeau (1923–). Antes um historiador socioeconômico, acabou se interessando pela psicologia histórica. Baseando-se nos estudos de psicanalistas marxistas como Wilhelm Reich (1897–1957) e Erich Fromm (1900–1980), e escreveu a monumental obra História do medo no ocidente: 1300–1800: uma cidade sitiada, em que traça um grande panorama dos fatores que amedrontaram as pessoas no período escolhido (DELUMEAU, 2009). Fantasmas, judeus, mulheres, bruxas foram alguns dos principais medos da população europeia entre os séculos XIV e XIX, com alguns deles se tornando mais fortes em determinados períodos e praticamente desaparecendo em outros, revelando importante dinâmica histórica e cultural. Por fim, assumindo que a história é filha de seu tempo, não podemos desconsiderar a influência do contexto da década de 1960 sobre o apare- cimento da terceira geração da Escola dos Annales e sobre seu modo de fazer histórico. No contexto em questão, isto é, da sociedade industrial de consumo, a percepção de aceleração do tempo se tornou cada vez mais evi- dente. Certamente, os historiadores também se sentiram afetados por essas transformações. Isso levou: [...] os intelectuais ocidentais do pós-guerra a se confrontar com a necessidade de revisitar sua identidade coletiva em seus aspectos cruciais, definidores. E isso exigiu-lhes a reafirmação de seu poder sobre o passado, para alcançar uma história e uma legitimidade que só podiam advir da tradição e da longevidade. E não temos qualquer dúvida de que devemos situar como parte desse vasto reexame “da identidade coletiva ocidental” por parte de seus intelectuais os esforços de desbravamento e inovação historiográficos levados a cabo pela Nouvelle Histoire (RUST, 2008, documento on-line). O conceito de história12 Dessa forma, a aceleração do tempo ocorrida no instante em que a nova geração dos Annales surgiu fez com que seus historiadores buscassem amparo na antropologia, na sociologia e na psicologia, privilegiando temas humanos por excelência, como os medos, a morte, a infância, as superstições, em suma, as abstrações coletivas. A importância do contexto histórico O problema do anacronismo Observar o contexto histórico é tarefa essencial para o historiador. Um dos pio- res erros de abordagem que o historiador pode cometer é utilizar conceitos que fazem sentido na época em que produz seu texto, mas que são completamente estranhos à época sobre a qual se debruça. A isso chamamos de anacronismo, ou seja, atribuir a um determinado período histórico ideias, sentimentos, instituições e outras características gerais que já haviam desaparecido ou que surgiriam muito tempo depois. Um exemplo claro: um historiador, ao escrever sobre a forma como os antigos egípcios se organizavam em relação ao trabalho, jamais poderá utilizar categorias como burguesia ou proletariado, classes sociais que surgiriam muitos séculos depois. Para Febvre (1968, p. 15 apud RIAUDEL, 2015, documento on-line), o historiador deve evitar a todo custo o anacronismo, sendo este “[...] o pecado dos pecados, o pecado entre todos irremissível”. Para você conhecer uma importante discussão a respeito do anacronismo na história, leia o livro O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais, de Lucien Febvre (1878–1956). Na obra, o autor procura rebater as ideias do historiador Abel Lefranc (1863–1952), para o qual o padre, médico e escritor François Rabelais (1494–1553) seria partidário de uma espécie de fé racional (ou seja, ateu). Febvre considera isso uma impossibilidade no século XVI, ou seja, um anacronismo por parte de Lefranc. Para Febvre, o conceito de ateísmo não existia no século XVI, ao menos como o entendemos atualmente, tornando impossível a incredulidade naquele período. 13O conceito de história No entanto, a questão do anacronismo na história não é tão simples. Mui- tas palavras que o historiador precisa usar para classificar elementos no seu objeto de estudo não existiam na época investigada. Entretanto, é necessária muitas vezes a utilização de vocabulário estranho ao passado, com origens mais recentes, mas indispensável para a correta compreensão dos fatos, fenô- menos ou características que o historiador deseja destacar, sem incorrer em anacronismo. Na época do Papa Gregório (540–604 d.C.), a palavra “papa” não era utilizada exclusivamente para nomear os líderes da Igreja Católica. Contudo, é perfeitamente aceitável que, nos dias de hoje, ao nos referirmos à Gregório, ele seja chamado de papa. Na época em que ele viveu, a palavra não possuía o sentido que tem hoje, mas ao utilizá-la, o historiador age com correção, esclarecendo perfeitamente quem foi personagem histórico Papa Gregório (BARROS, 2017). De acordo com Barros (2017, documento on-line) “[...] não há uma receita” que o historiador possa seguir para determinar quais palavras soam como anacronismo e quais não. No exemplo acima, isso parece funcionar muito bem, o que já não ocorreria com a palavra “guerrilheiro” ou “guerrilha” para caracterizar pequenos grupos beligerantes de um passado longínquo. Seria uma questão de feeling do historiador. Isso se dá dessa forma pois no campo das palavras de uso cotidiano a questão é mais simples do que no campo conceitual, que veremos a seguir. Contexto histórico e o uso preciso dos conceitos Tendo em vista os cuidados redobrados que o historiador precisa ter para não cair no erro do anacronismo, uma boa compreensão do contexto histórico sobre o qual ele dedica seus esforços de pesquisa facilitará enormemente seu trabalho. Para isso, é fundamental o domínio dos conceitos, de forma a não atribuir a uma determinada época signifi cados impossíveis. Embora na prática seja difícil suprimir o descompasso cronológico existente entre duas épocas, é absolutamente necessário que o historiador procure entender como os homens e mulheres do passado pensavam e entendiam a vida, para que consiga recriar da forma mais aproximada possível o “espírito” da época em seu texto. A dificuldade existente quando um historiador trata de um contexto histó- rico totalmente diverso do seu implica, de acordo com Barros (2017, documento on-line), em duas formas principais de anacronismo: O conceito de história14 Em um caso, pode ocorrer o anacronismo “de ontem para hoje”. É o que ocorre quando lemos um texto de outra época e, de modo inaceitável, atribuímos a certa palavra um sentido que ela não tem hoje, comprometendo toda a inter- pretação do texto. Em outro caso, pode ocorrer o anacronismo “de hoje para ontem”. É o que se verifica quando, ao tentar analisar um texto ou processo histórico do passado, ou ao tentar descrever cenas e acontecimentos históricos, utilizo uma palavra de hoje (que não existia naquela época) e o resultado é ca- tastrófico, produzindo incontornáveis estranhamentos e drásticas deformações. Como visto, exige-se do historiador, no trato de suas fontes, uma precisão absoluta, tanto em termos de palavras quanto no de conceitos. Em termos conceituais, o trabalho do historiador apresenta suas próprias especificidades. Na produção historiográfica, o historiador irá se deparar com dois níveis de conceitos. O primeiro deles consiste naqueles conceitos com origens dentro do próprio campo da história, ou das ciências humanas. No segundo nível, vamos encontrar os conceitos que surgem nas próprias fontes. Dessa forma, o historiador encontra-se numa posição intermediária, entre duas temporalidades conceituais. É importante frisar que mesmo conceitos criados pelas ciências humanas há séculos ainda podem ser utilizados nas pesquisas atuais, ou ao menos em determinadas perspectivas historiográficas, como os conceitos de modo de produção e ideologia, por exemplo, amplamente utilizados entre os historiadores marxistas. A questão se torna mais complexa quando se trata dos conceitos expressospelas fontes. A interpretação pouco precisa ou anacrônica desses conceitos pode comprometer totalmente a qualidade científica de um trabalho de história. A natureza do ofício do historiador é que está por traz dessa dupla dificuldade conceitual, pois a história é a ciência que tem por objeto o passado. Portanto, o texto do historiador, além dos conceitos que ele utiliza para entender e explicar o seu objeto, sempre trará os conceitos de outras épocas, expressos pelas fontes e pela reprodução que o historiador faz delas (BARROS, 2017). Portanto, ao trabalhar com o tempo e com conceitos, o historiador deve atentar sobretudo ao contexto histórico. Um exemplo fácil de entender: o con- ceito de Idade das Trevas, frequentemente utilizado não só pelos historiadores como pelo senso comum. É evidente que os homens e mulheres que viviam no período medieval não viam sua própria existência como dentro de uma “Idade das Trevas”. Portanto, quando usamos esse conceito devemos ter em mente que ele tem sua historicidade e surge em um determinado ponto muito 15O conceito de história específico do tempo, durante o Renascimento. Como houve um importante movimento intelectual e artístico nesse período que se voltava para a Antigui- dade Clássica, passou-se a se considerar o período histórico imediatamente anterior como um período no qual o obscurantismo dominara a sociedade, mergulhando-a nas trevas. Como visto, a natureza duplamente conceitual do historiador torna seu trabalho mais complexo, sobretudo quando consciente de que é fundamental compreender bem os diferentes contextos históricos. Além da consciência da historicidade do objeto de estudo em si, é fundamental que o historiador se conscientize sobre a historicidade dos conceitos também. Os conceitos servem para que a produção do conhecimento se torne possível; portanto, seu manejo deve ser hábil, de maneira que o anacronismo seja evitado e assim não seja comprometida a veracidade do trabalho histórico. ALTHUSSER, L. Advertência aos leitores do Livro I d'O Capital. In: MARX, K. O capital: crítica da economia política: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2017. Livro 1. BARROS, J. A. Os conceitos na história: considerações sobre o anacronismo. Ler História, n. 71, p. 155-180, 2017. Disponível em: https://journals.openedition.org/lerhistoria/2930. Acesso em: 13 ago. 2019. BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BOURDÉ, G.; MARTIN, H. As escolas históricas. Lisboa: Publicações Europa-América, 1983. BURKE, P. A escola dos annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997. DELUMEAU, J. História do medo no ocidente 1300-1800: uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. FONSECA, R. M. O positivismo, "historiografia positivista" e história do direito. Argumenta, n. 10, p. 143–166, 2009. Disponível em: http://seer.uenp.edu.br/index.php/argumenta/ article/view/131. Acesso em: 13 ago. 2019. MARX, K. O 18 Brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969. MARX, K. O capital: crítica da economia política: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo Editorial, 2017. Livro 1. O conceito de história16 MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo Editorial, 2010. MOSCATELI, R. A narrativa histórica em debate: algumas perspectivas. Revista Urutágua, n. 6, 2005. Disponível em: http://www.urutagua.uem.br/006/06moscateli.htm. Acesso em: 13 ago. 2019. REIS, J. C. O desafio historiográfico. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010. RIAUDEL, M. Literatura vs história: uma questão anacrônica? Literatura e sociedade, v. 20, n. 20, p. 157–166, 2015. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ls/article/view/107426. Acesso em: 13 ago. 2019. RÜSEN, J. Razão histórica: teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001. RUST, L. D. A "terceira geração dos annales" e o exorcismo do tempo. BIBLOS, v. 22, n. 1, p. 47–60, 2008. Disponível em: http://www.brapci.inf.br/index.php/res/v/22893. Acesso em: 13 ago. 2019. VEYNE, P. M. Como se escreve a história: Foucault revoluciona a história. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982. WHITE, H. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EDUSP, 2008. 17O conceito de história DICA DO PROFESSOR Karl Marx é um dos grandes pensadores do século XIX, sobretudo pela análise crítica pioneira que elaborou sobre o modo de produção capitalista. Sua obra derivou em uma tradição intelectual denominada marxismo, e se tornou influente politicamente desde o fim do século XIX até os dias de hoje, inspirando as revoluções do século XX. No entanto, muito além de sua mera influência sobre as lutas políticas, o marxismo se tornou uma corrente historiográfica, que encarava a história como fruto das lutas de classes, relacionando o seu desenrolar com as condições materiais das sociedades, no que se convencionou chamar de visão materialista-dialética da história. Nesta Dica do Professor, você conhecerá informações biográficas sobre Karl Marx e tópicos de sua obra que influenciaram o ofício do historiador. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) A discussão sobre se a história é uma ciência, ou não, remonta há séculos. E ela não se encerrará tão cedo, devido à natureza peculiar do trabalho do historiador e de seu objeto de estudo que é o passado. Portanto, os historiadores sempre devem estar prontos para confrontar essa problemática, de forma a se obter avanços sobre o tema. Muitos historiadores utilizam um argumento específico para comprovar a cientificidade da pesquisa histórica, que era justamente algo que faltava na perspectiva historiográfica de Leopold von Ranke. Qual seria esse elemento principal que torna a história uma ciência? A) Definir se utilizará um método ou uma teoria. B) As teorias da história, pois é a partir delas que o historiador pode produzir o conhecimento histórico. C) A rigorosa manipulação das fontes, sobretudo as oficiais. D) A criação de uma teoria específica para o objeto em estudo. E) A busca de fontes que se expliquem por si só. 2) Em seu ofício, o historiador deve estar atento para não se tornar apenas um compilador de fatos, os quais ele busca constatar a veracidade ou não. Nesse sentido, é necessário que, ao entrar em contato com o seu objeto de estudo, ou seja, as suas fontes, o historiador esteja disponível para pensar sobre elas. Essa reflexão, que é feita a partir de seu método e da teoria escolhida para o entendimento do objeto, será fundamental para que o historiador possa escrever seu texto e proceder com a comunicação dos resultados. De que forma isso deve ser feito de maneira que o processo inteiro adquira sentido? A) Buscar os sentidos ocultos fora das fontes de maneira a não contaminar a sua ótica sobre o processo como um todo. B) Estabelecer parâmetros narrativos anteriormente às suas hipóteses. C) Desenvolver novos processos dando ênfase ao grau de ineditismo do objeto. D) Compilar uma base de fontes que apresentem um sentido imanente. E) Elaborar hipóteses sobre os seus objetos, de forma a criar um processo racional e com sentido. O século XIX foi um século de grandes transformações. A Revolução Industrial fez com que um novo mundo surgisse, com aumento da população urbana, novas classes sociais, conquista de novos territórios por parte dos europeus em busca de matérias- primas e novos mercados. Dessa forma, toda a sociedade europeia foi afetada em 3) maior ou menor grau. Os avanços científicos do período também tiveram forte impacto no imaginário social e na produção intelectual. O Positivismo foi uma doutrina fortemente influenciada pelas novidades desse contexto histórico. Por sua vez, o Positivismo também influenciou a produção historiográfica do século XIX. Quais são as principaisinfluências do Positivismo sobre os historiadores do século XIX? A) A fé na chamada religião da humanidade, criada por Auguste Comte. B) A visão de que o historiador deve levar a subjetividade em conta na sua produção. C) O paradigma de que o historiador deve se apresentar absolutamente objetivo perante as suas fontes, bem como a defesa de uma total separação entre sujeito e objeto. D) A concepção de que a história não é uma ciência de fato, portanto, não devendo utilizar em suas pesquisas metodologias das ciências naturais. E) O uso de fontes de vários tipos de forma a diversificar a produção historiográfica. 4) A chamada “terceira geração” da Escola de Annales, surgida na década de 1960, diversificou enormemente os temas de pesquisa dos historiadores. Ao passarem do “porão ao sótão”, isto é, da historiografia materialista para uma história cultural, historiadores como Philippe Ariès descobriram como é importante levarmos em consideração o contexto histórico para descobrirmos as sensibilidades de uma determinada época e como elas são diferentes de outros tempos. Da mesma forma, Jean Delumeau, em trabalho monumental, estudou os medos das pessoas através de vários séculos, demonstrando uma grande variação entre eles. Ariès descobriu que na Idade Média não havia a ideia de infância, com as crianças sendo vistas como adultos em miniatura. Que tipo de conexão Ariès fez para sustentar a sua descoberta? A) Conexões entre a produção material e a social. B) Conexões entre crenças religiosas e doutrinas econômicas. C) Para os homens medievais, as crianças não tinham importância, pois não podiam guerrear. D) As crianças eram vistas como um estorvo. E) O autor estabeleceu conexões entre fatos naturais ( a infância ) e sociais ( o modo que a sociedade lidava com essa fase da vida ). 5) Lucien Febvre afirmou certa vez que o anacronismo, para o historiador, é o "pecado dos pecados", isto é, o erro mais grave que se pode cometer no estudo e na escrita da história. No âmbito da história, o anacronismo pode ser entendido como o uso de conceitos que fazem sentido na época do historiador, mas que se apresentam completamente estranhos à época sobre a qual o pesquisador dedica a sua investigação. Também poder ser compreendido como o uso de termos que na atualidade têm um determinado sentido e na época estudada não existiam ou tinham sentido diverso. Tendo em vista o exposto, como o historiador pode evitar o anacronismo? A) Estudando linguística e observando as origens dos idiomas. B) Observando as formas dominantes de escrita em determinada região. C) Tendo domínio conceitual e redação precisa. D) Evitando discussões que possam utilizar termos dúbios. E) Tendo domínio do contexto histórico estudado e dos conceitos utilizados. NA PRÁTICA O professor de história sempre deve estar preparado para elaborar atividades que tornem o aprendizado mais significativo e proporcione a adesão dos seus alunos. Um dos temas mais importantes a serem tratados nas aulas de história diz respeito à noção de contexto histórico, bem como a de anacronismo. Compreender esses dois elementos é fundamental para se aprender história. Sem a compreensão deles, o estudo histórico perde o sentido, pois não será reflexivo, tornando-se apenas memorização de fatos e datas sem as suas devidas contextualizações e reflexões. Conheça, Na Prática, a professora Marlene, que desenvolveu uma atividade para a educação básica com o objetivo de ensinar a importância dos contextos históricos no estudo da história, de maneira a evitar que os estudantes incorram em anacronismo. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Robert Darnton – o historiador e o anacronismo Neste vídeo, o historiador Robert Darnton fala sobre os riscos do anacronismo no trabalho do historiador. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Qual a importância de uma época? Anacronismo e história Neste artigo, você acompanha uma importante discussão a respeito da relação que o ser humano tem com o tempo, a partir da análise de autores como Kant, Hegel e Marx. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Marxismo e positivismo: uma análise comparada Neste artigo, você encontra os fundamentos do positivismo e do marxismo por meio de uma análise comparativa entre ambos. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Historiadores descrevem como foi o início da história como ciência Neste link, você lê uma matéria do jornal Folha de São Paulo, com a introdução do livro A História Pensada, que traz uma seleção de textos sobre a virada científica da história. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! História e ideologia: a produção brasileira sobre a Guerra do Paraguai Neste link, você acessa um artigo no qual o autor aborda, dentre outras questões, a influência do positivismo na historiografia brasileira sobre a Guerra do Paraguai. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Não incorrer em anacronismo foi êxito do historiador Caio Prado Jr. Neste link você acessa uma discussão sobre como o historiador Caio Prado Jr. não incoreu em anacronismo para explicar a história brasileira. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! A função social do conhecimento histórico APRESENTAÇÃO A história é uma ciência que apresenta as suas próprias especificidades. Seu objeto de estudo é o passado e o acesso ao seu objeto se dá por meio das fontes. Estas, por sua vez, são vestígios de atividades humanas que chegaram até o historiador e são trabalhadas de modo a revelar aspectos das sociedades do passado. Como essas fontes podem ser de caráter material ou imaterial, a memória é uma das formas utilizadas pelos historiadores para conhecer o passado, podendo ser considerada como base da constituição das identidades individuais ou coletivas de uma sociedade. Promover o pensamento crítico em relação ao passado em conexão com futuro é uma das tarefas do aprendizado histórico. Dessa maneira é formada a consciência histórica, que tem importância singular na vida humana, e possibilita ao ser o humano o conhecimento de quem ele é e onde está inserido. Da mesma forma, ela serve para a correta compreensão do passado em suas relações com o presente, visando às orientações para o futuro. Nesta Unidade de Aprendizagem, você compreenderá como acontece a edificação do processo de consciência histórica e reconhecerá as identidades coletivas e individuais que decorrem desse processo. Além disso, você vai conhecer as elaborações teóricas do tempo e das memórias nos tempos históricos. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar a edificação do processo da consciência histórica.• Reconhecer as identidades individual e coletiva.• Descrever as elaborações teóricas do tempo e da memória nos tempos históricos.• DESAFIO O uso da memória como fonte histórica auxilia o historiador na compreensão das questões relativas à identidade e às representações individuais e coletivas no passado recente, objeto de seu estudo. Os relatos memorialísticos e os depoimentos têm sido usados com sucesso na elaboração de narrativas históricas sobre classes oprimidas, testemunhos de grandes eventos históricos (o holocausto é um grande exemplo) e até mesmo pela história institucional, com entrevistas de ex-funcionários de empresas que existem há muito tempo. Nesse sentido, cumpre ressaltar que a história não tem mais por objetivo recuperar os fatos exatamente como eles ocorreram, em sua totalidade, pois isso seria uma tarefa impossível. Dessa forma, o que se busca com os depoimentos oriundos da memória é problematizar os fatos históricos, de forma a se construir um panorama com diferentes perspectivas de um mesmo acontecimento.Tudo isso é posteriormente interpretado pelo historiador, que, então, escreve o seu trabalho. Você coordena um grupo de pesquisadores responsável por pesquisar a história de um grande grupo empresarial. Além da análise dos documentos produzidos ao longo de sua história, o grupo recorre também a entrevistas com ex-funcionários da empresa. No entanto, você percebeu que os pesquisadores concluíram que as pessoas entrevistadas tinham a mesma visão sobre fatos da empresa, não havendo nenhum tipo de divergência. Diante dessa constatação, descreva e justifique: a) Qual é o problema metodológico que provocou esse resultado? b) Como você interviria para solucioná-lo? INFOGRÁFICO Lugar de memória é um conceito exposto pelo historiador Pierre Nora no início da década de 1980. Desde então, as discussões a respeito da memória têm sido cada vez mais importantes dentro da historiografia, fazendo com que o conceito seja utilizado para a compreensão das relações entre história, memória e identidade. Neste Infográfico, você verá os tipos de lugares de memória e as suas principais classificações. CONTEÚDO DO LIVRO A história tem como uma de suas funções a formação de identidades individuais e coletivas, situadas em contextos determinados, ajudando na constituição da consciência histórica e social. A memória também cumpre um papel importante nesse processo, pois o ato de (re)memorar é indissociável da narrativa, tendo, dessa forma, uma função social que corresponde à comunicação entre sujeitos sobre um determinado objeto ausente. As relações entre a função social do conhecimento histórico, as identidades coletivas e individuais e a memória histórica são muito profundas. A primeira é inerente à história enquanto ramo do conhecimento, pois é este que dará as orientações para a vida humana. A memória cumpre um papel importante nesse aspecto, pois é ela que atua na formação da identidade. Sem o conhecimento do passado, seja em forma de história ou em forma de memória, a vida humana seria muito diferente da que conhecemos, senão impossível. No capítulo A função social do conhecimento histórico, da obra Teoria da História e Historiografia, você aprenderá como ocorre a edificação do processo da consciência histórica, bem como reconhecerá as identidades coletivas e individuais inerentes e ele. Você também conhecerá as elaborações teóricas do tempo e da memória nos tempos históricos. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Eduardo Pacheco Freitas A função social do conhecimento histórico Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar a edificação do processo da consciência histórica. Reconhecer as identidades individual e coletiva. Descrever as elaborações teóricas do tempo e da memória nos tempos históricos. Introdução A história é um ramo do conhecimento humano que apresenta diversas particularidades. Em primeiro lugar, seu objeto de estudo — o passado — é problemático, por não ser diretamente acessível ao historiador. Portanto, o historiador trabalha a partir de fontes, que são vestígios de outros tempos que chegaram aos dias atuais e podem ser analisados, descritos, interpretados e comunicados pelo pesquisador por meio de uma narrativa. No entanto, a história não é uma forma de conhecimento que simples- mente revela a erudição do historiador, sem conexão alguma com o con- texto no qual se situa. Na verdade, é possível afirmar que o conhecimento histórico possui uma função social. Seu ensino serve para a formação da identidade e para a constituição de cidadãos críticos, por meio do aprendi- zado da história e da memória. É via conhecimento histórico que o ser hu- mano pode se situar no espaço e no tempo, sendo capaz de compreender o mundo onde vive. Em suma, o conhecimento histórico cria a consciência histórica, isto é, o conhecimento do passado, que orienta o presente e projeta o futuro, na formação das identidades individuais e coletivas. Neste capítulo, você vai aprender como ocorre a edificação do pro- cesso da consciência histórica, bem como reconhecer as identidades coletivas e individuais inerentes a ele. Além disso, também conhecerá as elaborações teóricas do tempo e da memória nos tempos históricos. O processo de formação da consciência histórica Certamente você já deve ter ouvido alguém falar que a história não “serve para nada”. No senso comum, frequentemente existe a ideia de que apenas disciplinas como português e matemática são importantes, pois seriam as únicas úteis para o trabalho. Porém, nada está mais distante da realidade do que essa ideia de a história não ter valor. Muito pelo contrário, a história é uma das ciências mais importantes, justamente por estudar o que o ser humano já fez e, assim, mostrar quem ele é. Dessa forma, a história como disciplina tem uma função social, que, a partir da formação da consciência histórica, promove o desenvolvimento de cidadãos críticos. Conhecimento histórico e formação de cidadãos críticos Afi nal, por que estudamos história? Essa é uma questão que perpassa gerações e é respondida de diversas maneiras com o passar do tempo ou de acordo com a sociedade que faz a indagação. No entanto, existe atualmente um possível consenso sobre qual a necessidade e a importância de se estudar e produzir conhecimento histórico. A resposta sem dúvida alguma passa pela formação dos cidadãos, mas necessariamente levando em conta seu desenvolvimento crítico como ser humano, de forma que cada um possa se apropriar das experiências do passado para pensar o presente e projetar o futuro. Estudar história é indagar ao mesmo tempo os sentidos da vida individual e da coletividade no decorrer do tempo. Não é à toa que Marc Bloch (2001, p. 67) já pontuava que a história é a “[...] ciência dos homens no tempo”. Portanto, é dessa forma que a história contribuirá para a localização do ser humano nesse mundo. É ela que pode fornecer as coordenadas necessárias para a orientação de cada um de nós na própria vida, enquanto seres sociais e históricos que somos, afinal. É importante saber ler a história criticamente. Vejamos o caso das chamadas histórias nacionais, por exemplo, que narram o processo de construção das nações. Não raro esse tipo de história é apologética, com o intuito de gerar uma identidade nacional. Portanto, há a glorificação de um passado mítico, supostamente comum a todos os habitantes da nação, fato que desconsidera que qualquer coletividade humana é heterogênea, com diferentes grupos, uns privilegiados, outros opri- midos. Nesse sentido, é possível dizer que uma nação possui muitos passados. Um exemplo que deixa isso muito claro diz respeito à conquista da América pelos europeus — no caso do território que viria a se tornar o Brasil, pelos portugueses. Esse processo de forma alguma foi pacífico ou sem violência, A função social do conhecimento histórico2 causando, inclusive, genocídio. As populações indígenas foram quase que totalmente exterminadas. Da mesma forma, não é possível narrar a história do país sem incluir a escravidão africana, que ao longo de quase quatro séculos trouxe da África milhões de homens, mulheres e crianças, que encontraram aqui uma vida de abuso e sofrimento. Pois estes são elementos que estão na base da construção da nação brasileira e que nos ajudam entender a desigualdade e a violência existentes no país. Outro exemplo importante é que, até algumas décadas atrás, a história era escrita sem personagens femininas, como se as mulheres jamais tivessem realizado qualquer atividade importante na experiência histórica da humanidade. Somente nos últimos anos, quando os direitos das mulheres se tornaram um assunto a ser discutido com mais seriedade, é que a historiografia passou a inclui-las, surgindo até mesmo um ramo específico conhecido como “história das mulheres”. É assim que os historiadores, em conexão com a disciplina ensinada em salade aula, devem ter em mente a construção de uma história que demonstre a pluralidade do ser humano e de sua experiência ao longo do tempo. Os grupos historicamente oprimidos devem seu passado contado e incluso na busca de uma história que faça sentido e que exerça sua função social de promover o pensamento crítico. A produção do conhecimento histórico deve atender a esses critérios para que as novas gerações conheçam o passado, de modo a refletirem sobre o presente e projetarem o futuro. Marc Baldó, professor espanhol de história contemporânea, defende que os historia- dores saiam dos ambientes acadêmicos e divulguem o conhecimento histórico que produzem de maneira mais intensiva na sociedade. Afinal, a história tem sua função social e deve chegar ao grande público. Na entrevista disponível no link a seguir, você conhecerá o pensamento e as propostas do professor. https://qrgo.page.link/PfCAM Formação de sentido e consciência histórica Rüsen (2014) propõe uma disciplina que estabeleça a conexão entre a história como disciplina acadêmica e a história ensinada em sala de aula: a “didática da história”. Esta, por sua vez, teria como objeto a formação de consciência 3A função social do conhecimento histórico histórica, que é “[...] a forma de consciência temporal humana, na qual a expe- riência do passado enquanto história é interpretada para o presente” (RÜSEN, 2014, p. 97). Ou seja, na história, enquanto formadora de consciência histórica, são interpretados e debatidos os acontecimentos históricos — consideradas as cargas de sentidos e interpretações acumuladas pela historiografi a — à luz do presente e das questões atuais. Para o autor, as narrativas históricas “[...] podem gerar regras de ação abstratas a partir de acontecimentos concretos do passado e aplicá-las ao acontecimento atual e às expectativas de futuro (historia magistra vitae — história mestra da vida)” (RÜSEN, 2014, p. 99). Portanto, a história, ao ser ensinada, tem em vista produzir conhecimento histórico que responda questões cotidianas em busca de orientações para a vida, para ações visando o futuro. Ainda segundo Rüsen (2014, p. 103), a orientação tem a ver com a memoração histórica, isto é, com o processo de formação de sentido, através do ato de narrar histórias e interpretar a experiência temporal, que “[...] torna o passado tão presente que ele se torna proveitoso à vida”. Se compreendermos a “[...] história como grandeza orientadora da práxis vital” (RÜSEN, 2014, p. 100), teremos melhores condições de entender o que é de fato a consciência histórica. Para isso, é importante termos em mente que a consciência histórica humana atua em três modos: funcional, reflexivo e pragmático. O primeiro deles diz respeito às instituições culturais onde os seres humanos são “construídos”; já o modo reflexivo tem a ver com a elabo- ração interpretativa e representativa do passado, ou seja, um posicionamento consciente perante a experiência do tempo. A escola é uma dessas instituições culturais que fornecem a consciência histórica. É a partir do modo reflexivo que a história deixa de ser premissa e passa a ser o término da formação histórica de sentido, encaminhando assim ao último modo, o pragmático, que serve como diretriz ao que queremos extrair da experiência histórica com vistas ao presente e ao futuro (RÜSEN, 2014). Para finalizar, chegamos ao ponto principal, o aprendizado histórico, que se dá na “formação de sentido” que “[...] pode ser explicitada concei- tualmente como a interconexão complexa de quatro atividades mentais: experimentar, interpretar, orientar e motivar” (RÜSEN, 2014, p. 267). Como resultado, a experiência do passado é interpretada e atualizada como história, derivando daí a formação histórica de sentido. A consciência his- tórica tem a ver com o desenvolvimento da capacidade de interpretação do tempo. Assim, o aprendizado histórico, além de proporcionar a aquisição de competências experienciais, orientadoras e motivadoras, promove a A função social do conhecimento histórico4 aquisição daquele elemento que é central neste processo: a competência interpretativa. Dessa forma, a narrativa histórica atuaria como um “[...] processo de constituição de sentido da experiência do tempo” (RÜSEN, 2011, p. 95). Para ampliar seus conhecimentos sobre a teoria da consciência histórica, como pensada pelo alemão Jörn Rüsen, assista à conferência “Historiografia e pesquisa a partir da teoria da consciência histórica na Alemanha”, realizada pelo professor Dr. Marcelo Fronza. https://qrgo.page.link/EPrrQ Consciência histórica e as identidades individual e coletiva Você já deve ter se deparado em algum momento com as velhas perguntas “quem somos, de onde viemos e para onde vamos”. Muitas vezes, elas podem nos parecer engraçadas, como uma brincadeira a respeito das especulações fi losófi cas sobre a vida. No entanto, se você analisar a questão mais de perto, irá perceber que, em boa medida, essas perguntas retratam muito bem o que é que a consciência histórica, a qual, em última análise, tem a ver com o problema da identidade, seja coletiva ou individual. Identidades emergentes nas memórias históricas Imagine por um momento se a cada dia você acordasse a não lembrasse de nada que havia ocorrido no dia anterior, nem em todos os outros. A vida se tornaria impossível, não é mesmo? Isso comprova que o ser humano é o que é em grande parte pela sua experiência acumulada, pelos conhecimentos que adquiriu, por tudo que fez e viveu. Isso certamente ocorre no nível indivi- dual. Porém, se você considerar a questão mais de perto, perceberá que esse cenário acontece também no âmbito da coletividade. Uma sociedade ou um grupo social qualquer não pode existir enquanto agrupamento que possui suas próprias regras, suas tradições e seus conhecimentos sem que o passado, ou 5A função social do conhecimento histórico sua memória, exerça um papel preponderante nas atividades do presente e nas concepções do porvir. Em resumo, todos esses elementos giram em torno de uma relação principal: a do passado com a formação da identidade. De acordo com Pais (1999, p. 1): Sem consciência histórica sobre o nosso passado (e antepassados...) não perceberíamos quem somos. Esta dimensão identitária — quem somos? — emerge no terreno de memórias históricas partilhadas. Por isso, o sen- timento de identidade — entendida no sentido de imagem de si, para si e para os outros — aparece associado à consciência histórica, forma de nos sentirmos em outros que nos são próximos, outros que antecipam a nossa existência que, por sua vez, antecipará a de outros. Ao assegurar um senti- mento de continuidade no tempo e na memória (e na memória do tempo) a consciência histórica contribui, deste modo, para a afirmação da identidade — individual e coletiva. Assim, o autor nos esclarece o que é identidade: é a visão que temos de nós mesmos, para nós e para os outros. Esse fenômeno ocorre não somente no âmbito individual, mas também na coletividade. Ou seja, não apenas o indivíduo expressa sua própria individualidade, mas igualmente esta é expressa pela sociedade na qual vive, ambas inter-relacionadas. Mas como essas identidades surgem? É precisamente por meio da consciência histórica, do conhecimento do passado em comum e da projeção do futuro que sabemos quem somos no presente, tanto individual quanto coletivamente. A questão da identidade pode ser delimitada como uma construção social, tratando-se, portanto, de um processo a longo prazo, que vai de- monstrar com o passar do tempo que a identidade tem a ver com um permanente diálogo com o outro. Pois essa é uma das maneiras iniciais de se pensar a identidade, tanto em nível individual quanto social: é o espelho do outro que pode ajudar a mostrar quem o sujeito é ou deixa de ser. É a partir das definições do outro que a identidade pode ser definida. Portanto, a identidade permanece em constante elaboração, moldando-se nessas relaçõesde alteridade. Inicialmente, no âmbito do Iluminismo, a identidade foi pensada como algo apenas individual, inerente ao indivíduo. Posteriormente, ela passou a ser concebida sociologicamente, pressupondo-se a interação entre a identidade interna que se relaciona o tempo todo com a externa, isto é, a identidade so- cial. Na pós-modernidade, a identidade passa a ser vista como algo mutável, cambiável, que não é estático, estando em constante movimento, além de ser fragmentária e pode existir como diversas identidades que coexistem. Con- A função social do conhecimento histórico6 tudo, uma questão central diz respeito à relação entre identidade e memória. Esta última é o referencial para a primeira. A identidade é construída sobre a memória, sobre o que é lembrado, sobre o que é esquecido e silenciado (SOUZA, 2014). No link a seguir, você poderá assistir a um vídeo da mesa redonda com os professores Giovani José da Silva e Jean Carlo Moreno no X Seminário Nacional de Didática da História, ocorrido em 2018, em que são discutidas, dentre outros temas, a nova Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a didática da história. https://qrgo.page.link/5Q4AG Segundo Rüsen (2001), a relação entre o “ser” — entendido como a iden- tidade — e o “dever” — a ação — é feita precisamente pela consciência histórica. Isso significa que a narrativa histórica, em sua operação de apanhar os eventos passados, acaba por criar a identidade dos indivíduos a partir das suas próprias experiências e da coletividade. Nesse processo, o presente é tornado inteligível, sendo-lhe conferida uma expectativa em relação ao futuro. Dessa maneira, a consciência histórica apresenta uma atribuição prática, que promove a identidade dos sujeitos e estabelece uma dimensão temporal na realidade vivida por eles. Assim, surge uma orientação que tem a capacidade de guiar a ação, mediadora da memoração da história. Nesse sentido, fica evidente o papel central que uma formação sólida dos professores de história e o ensino desta disciplina adquirem na sociedade. Há uma relação direta entre o ensino de história, aprendizado de história e a construção de habilidades para orientação na vida de modo a promover uma identidade histórica coerente e estável. De acordo com Rüsen (2006, documento on-line): O aprendizado histórico é uma das dimensões e manifestações da consciên- cia histórica. É o processo fundamental de socialização e individualização humana e forma o núcleo de todas estas operações. A questão básica é como o passado é experienciado e interpretado de modo a compreender o presente e antecipar o futuro. Aprendizado é a estrutura em que diferentes campos de interesse didático estão unidos em uma estrutura coerente. Ele determina a significância do assunto da história da didática bem como suas abordagens teóricas e metodológicas específicas. 7A função social do conhecimento histórico Assim, no ensino de história, deve-se procurar retomar as vivências pessoais e coletivas dos alunos e professores, vendo-os como seres históricos que vivem em uma realidade analisável, que pode e deve ser retrabalhada objetivando sua conversão em conhecimento histórico — e, mais do que isso, em autoconhecimento. É dessa forma que os sujeitos encontrarão um sentimento de pertencimento “[...] numa ordem de vivências múltiplas e contrapostas na unidade e diversidade do real” (SCHMIDT; GARCIA, 2005, documento on-line). Muitas vezes, os alunos podem não gostar de história; nesse caso, o que precisa ficar claro é que sem ela não é possível compreender o mundo em que vivemos. A história tem seu papel essencialmente social, pois a partir dos seus conteúdos, pode-se chegar-se à cidadania. Em primeiro lugar, a consciência histórica terá importância na formação da identidade, seja ela individual, co- letiva, nacional etc. Como um segundo passo, o aprendizado histórico ajudará na consolidação dos valores democráticos, permitindo que os jovens estudantes tenham contato com sua própria herança histórico-cultural, bem como com a de outras pessoas, outros povos e outros contextos muito diferentes. Isso fará com que o estudante de história não seja contaminado por preconceitos, intolerância ou irracionalidade. A consciência histórica é uma das premissas básicas da civilização. Como acentua Rüsen (2006, documento on-line), a história é uma matéria de “[...] experiência e interpretação”, e a sua didática demonstra a conexão existente entre “[...] história, vida prática e aprendizado”, o que garantiria um novo sentido à expressão historia magistra vitae. Elaborações teóricas do tempo e da memória na história Memória, lugares de memória e memórias históricas Para o historiador Jacques Le Goff (2003), o conceito de memória é “crucial” no seio das ciências humanas e da história. Seu signifi cado pode estar relacionado tanto a um fenômeno psicológico e individual quanto à vida em sociedade. A noção de memória varia de acordo com a presença ou não da escrita, e quando se torna objeto do Estado ou de outras instituições visando a preservação dos acontecimentos passados, produz documentos e monumentos. Portanto, a memória, enquanto fenômeno social, também é controlada em algum nível pelas forças dominantes. A memória está relacionada à ausência e, portanto, na mesma medida, às representações. O ato de memorar é indissociável da A função social do conhecimento histórico8 narrativa, possuindo dessa forma uma função social que corresponde à co- municação entre sujeitos sobre um determinado objeto ausente. Nos estudos historiográficos sobre as memórias históricas, é indispensável que se leve em consideração as diferenças relevantes que a memória, ou a memoração, apresenta em diferentes contextos históricos no tempo e no espaço. Segundo Le Goff (2003), existiram e existem sociedades com memória essen- cialmente oral, enquanto outras possuíram ou possuem a memória estruturada sobre a escrita. A partir daí, o autor divide as memórias históricas em cinco os tipos, considerando também os momentos de transição entre a memória oral para a memória escrita. A primeira delas seria a memória étnica, das sociedades ágrafas. Nessa modalidade, a memória coletiva se apresenta, sobretudo, como a narrativa dos mitos de origem. Já no tipo de memória que surge na passagem da Pré-história para a Antiguidade, ocorre a transição da oralidade à escrita. Nessa forma de memória, há grande destaque para a construção de monumentos, que, além da frequente motivação religiosa, tem por objetivo registrar os feitos da sociedade que os erige. No período medieval, com o predomínio do cristianismo, que se apresenta como uma religião da recordação (já que firmada teologicamente na história), a lembrança do sacrifício de Cristo e das vidas dos santos configura a forma da memória social desse época. O surgimento da imprensa, no século XV, opera uma transformação radical na memória ocidental. De modo similar, novas formas de comemoração acabam surgindo, como medalhas, festas cívicas no calendário, selos postais etc. Durante os processos revolucionários de 1789, foram criados arquivos nacionais e públicos, abrindo uma nova fase dos documentos da memória nacional (LE GOFF, 2003). Nos dias de hoje, com o desenvolvimento das tecnologias da informação, a memória é preservada de maneiras inimagináveis até bem pouco tempo atrás, sem esquecermos dos outros avanços do último século, como a fotografia, o cinema, as gravações de áudio etc. Um conceito importante dentro do âmbito das relações entre história e memória é o de “lugares de memória”, definido da seguinte forma pelo his- toriados francês Pierre Nora (1993, documento on-line): São lugares com efeito nos três sentidos da palavra, material, simbólico e funcional, simultaneamente, somente em graus diferentes. Mesmo um lugar de aparência puramente material, como um depósito de arquivo, só é lugar de memória se a imaginação o investe de uma aura simbólica. Mesmo um lugar puramentefuncional, como um manual de aula, um testamento, uma associação de antigos combatentes, só entra na categoria se for objeto de um ritual. Mesmo um minuto de silêncio que parece um exemplo extremo de 9A função social do conhecimento histórico uma significação simbólica, é ao mesmo tempo o recorte material de uma unidade temporal e serve, periodicamente, para uma chamada concentrada da lembrança. Os três aspectos coexistem sempre. Portanto, nem somente locais físicos como monumentos, museus ou memo- riais podem ser considerados lugares que resguardam ou evocam memórias. As próprias criações não tangíveis da cultura, como os saberes, as práticas e os ritos, servem como locais privilegiados para a memoração social. A razão essencial para a existência dos lugares de memória é materializar o passado, permitir que o tempo pare, que o esquecimento seja bloqueado, que o imaterial seja materializado (NORA, 1993). Com isso em mente, cumpre lembrar que é na memória que ocorre o encontro do momento com a duração; é a memória que refaz a experiência vivida do real. Dessa forma, o próprio ato de memorar em si carrega uma função social, que é a de fornecer ou propiciar as orientações para o agir: Lembramos menos para conhecer do que para agir, sublinharam os autores modernos [Paul Ricoeur e Pierre Nora]. Nessa perspectiva, a memória é menos um entender o passado do que um agir; impossibilidade, portanto, de se cogitar uma memória desinteressada, voltada para o conhecimento puro e descompromissado do passado (SEIXAS, 2005, p. 53). Barros (2009), baseado nos trabalhos de Maurice Halbwachs, afirma que é preciso estabelecer as diferenças entre memória e memória histórica. Esta última tem a ver com a memória que é partilhada entre todos os indi- víduos de uma determinada sociedade. Ela se apresenta independente da historiografia elaborada pelos historiadores. Assim, a memória histórica é muito mais ampla, por exemplo, do que a memória autobiográfica, que se resume ao tempo de vida do indivíduo rememorado. Por sua vez, a memória histórica abrange um período muito maior de tempo, abarcando a vida desse indivíduo e talvez toda a existência da sociedade na qual ele se encontra inserido. A memória como fonte histórica Como vimos, a memória não é um processo exclusivamente restrito ao indi- víduo, possuindo relações importantes com os modos como uma sociedade se constitui e refl ete sobre si mesma. No entanto, as características pecu- liares da memória oferecem ao historiador novos desafi os e a necessidade A função social do conhecimento histórico10 de enfrentar questões diversas quando em comparação aos outros tipos de fontes. A memória é imprecisa e, além do que é lembrado, o trabalho com a memória deve atentar para seus silêncios e para as suas lacunas. Nos dias de hoje, os historiadores já não tem mais as pretensões da “história científi ca” do século XIX, de reproduzir literalmente os fatos sobre os quais se debruçam. Como impossibilidade metodológica, esse elemento acaba se impondo sobre a pesquisa histórica, fazendo com que os historiadores aceitem que seu objeto de estudo é, por sua natureza, calcado sobre vestígios e, portanto, lacunar e impreciso em grande parte das vezes. Tudo isso, quando tratamos da memória enquanto fonte histórica, cresce exponencialmente, impondo novos problemas frente aos historiadores. Barros (2009, documento on-line), suscita questionamentos acerca das possibilidades do uso da memória como fonte para o trabalho do historiador: Com relação ao aspecto da utilização da memória como “fonte histórica”, persiste ainda nos dias de hoje uma série de polêmicas com relação a como tratar a memória como fornecedora de materiais para a história, essa vista como ciência ou campo de saber que organiza o conhecimento sobre o passado ou sobre o homem no tempo. Como considerar a memória para a construção de uma interpretação histórica? Como utilizar fontes tidas como registros memorialistas, como as fontes orais, pelos historiadores? Percebe-se, na citação acima, que Barros trata da história oral, método de pesquisa histórica que se utiliza de entrevistas com o objetivo de explorar memórias as mais diversas, desde pessoas que tenham vivido como atores em eventos históricos de grande vulto até meros observadores de acontecimentos que tenham passados despercebidos pela história. O uso da memória como fonte histórica passou por diversas fases ao longo dos séculos. No século XVI, era bem aceita, com o frade franciscano Bernardino de Saha- gún (1499–1590) entrevistando os povos nativos da América recém-conquistada pelos espanhóis, com o objetivo de conhecê-los melhor. No século XVIII, com o Iluminismo, os registros orais perderam credibilidade, devido às pretensões cientí- ficas do período. Contudo, no século XIX, o historiador Jules Michelet (1798–1874) realizou um trabalho inédito e muito interessante, no qual entrevistou muitos franceses, com o objetivo de registrar suas impressões a respeito da Revolução Francesa (BARROS, 2009). 11A função social do conhecimento histórico Há muitos séculos, as fontes orais, que são, em sua essência, memoria- lísticas, vêm sendo utilizadas para a promoção de reflexões históricas. No século XVI, historiadores se valiam deste recurso para escrever e inter- pretar a história. No entanto, com o surgimento da história positivista no século XIX, que considerava como fonte histórica somente os documentos escritos e de origem oficial, a história feita com base em depoimentos orais perdeu sua credibilidade. Somente a partir do século XX, sobretudo com o advento de tecnologias que permitem a gravação de voz, é que a oralidade voltou a fazer parte do arsenal de fontes do historiador. Segundo Barros (2009, documento on-line), “[...] como não se pretende recuperar os fatos, mas problematizar os fatos”, a utilização de fontes orais, ou seja, de fontes eminentemente estruturadas sobre a memória individual e social, tornou-se comum na historiografia, sobretudo a partir da década de 1980. Assim, fica clara a relação entre a função social do conhecimento histórico, as identidades coletivas e individuais e a memória histórica. A primeira é inerente à história enquanto ramo do conhecimento, pois é este que dará as orientações para a vida humana. A memória cumpre um papel importante nesse aspecto, pois é ela que atua na formação da identidade. Sem o conhecimento do passado, seja em forma de história ou em forma de memória, a vida humana seria muito diferente da que conhecemos, senão impossível. No Brasil, diversas instituições são voltadas à produção de conhecimento histórico com base na utilização da memória como fonte histórica. Em seus acervos, existem milhares de entrevistas sobre os mais diversos temas, abarcando desde personalidades do cinema e do campo das artes em geral até moradores das favelas do Rio de Janeiro. É um material riquíssimo, que registra as memórias de pessoas de todas as idades, gêneros, profissões e condições socioeconômicas. Os acervos são abertos para consulta pública e constituem uma vasta fonte para a pesquisa historiográfica. As instituições mais importantes onde você pode encontrar os registros memorialistas são: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Rio de Janeiro), Museu da Imagem e do Som (São Paulo), Museu da Maré (Rio de Janeiro) e Museu da Pessoa (São Paulo). A função social do conhecimento histórico12 BARROS, J. A. História e memória — uma relação na confluência entre tempo e espaço. Mouseion, v. 3, n. 5, p. 35–67, 2009. Disponível em: https://biblioteca.unilasalle.edu.br/ docs_online/artigos/mouseion/2009_v3_n5/jdbarros.pdf. Acesso em: 29 ago. 2019. BLOCH, M. Apologia a história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. LE GOFF, J. História e memória. Campinas: Editora UNICAMP, 2003. NORA, P. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, v. 10, p. 7–28, 1993. Disponívelem: https://revistas.pucsp.br/revph/article/view/12101/8763. Acesso em: 29 ago. 2019. PAIS, J. M. Consciência histórica e identidade: os jovens portugueses num contexto europeu. Oeiras: Celta Editora, 1999. RÜSEN, J. Cultura faz sentido: orientações entre o ontem e o amanhã. Petrópolis: Editora Vozes, 2014. RÜSEN, J. Didática da história: passado, presente e perspectivas a partir do caso alemão. Práxis Educativa, v. 1, n. 2, p. 7–16, 2006 Disponível em: https://core.ac.uk/download/ pdf/26007678.pdf. Acesso em: 29 ago. 2019. RÜSEN, J. Narrativa histórica: fundamentos, tipos, razão. In: SCHMIDT, M. A.; BARCA, I.; REZENDE, E. Jörn Rüsen e o ensino de história. Curitiba: Editora UFPR, 2011. RÜSEN, J. Razão histórica: teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 2001. SCHMIDT, M. A. M. S.; GARCIA, T. M. F. B. A formação da consciência histórica de alunos e professores e o cotidiano em aulas de história. Cadernos Cedes, v. 25, n. 67, p. 297–308, 2005. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v25n67/a03v2567.pdf. Acesso em: 29 ago. 2019. SEIXAS, J. A. Percursos de memórias em terras de história: problemáticas atuais. In: BRESCIANI, S.; NAXARA, M. Memória e ressentimento: indagações sobre uma questão sensível. Campinas: Editora UNICAMP, 2005. SOUZA, M. J. A memória como matéria prima para uma identidade: apontamentos teóricos acerca das noções de memória e identidade. Revista Graphos, v. 16, n. 1, p. 91–117, 2014. Disponível em: http://www.periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/graphos/ article/view/20337. Acesso em: 29 ago. 2019. 13A função social do conhecimento histórico DICA DO PROFESSOR O ensino de história deve considerar o conceito de consciência histórica, pois esta é uma ferramenta imprescindível, sobretudo para os professores que pensam as conexões entre o conhecimento histórico produzido nas universidades e a história ensinada em sala de aula. A consciência história está na base das identidades, bem como nas relações entre memória e história e na orientação temporal necessária para os seres humanos enquanto seres sócio- históricos. Veja, na Dica do Professor, as relações entre consciência histórica e ensino de história. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) A história, como ciência particular, apresenta importantes desafios tanto para aqueles que produzem conhecimento histórico quanto para os professores que ensinam a disciplina na educação básica. Na verdade, de acordo com a Didática da História, essa distinção não deveria ocorrer com a história enquanto ciência, devendo se aproximar da história como disciplina escolar. Tendo em vista o exposto, qual é a principal razão para a aproximação da história acadêmica da história escolar? A) Tanto a história acadêmica quanto a história ensinada já têm um alto grau de complementaridade. B) O processo de formação de sentido que, contudo, não torna o passado presente e proveitoso à vida. C) A necessidade de professores compreenderem que o seu objeto de análise é o passado. D) A busca da superação da história do tipo "historia magistra vitae". E) A história, ao ser ensinada, tem em vista produzir conhecimento histórico que responda questões cotidianas em busca de orientações para a vida e para ações visando ao futuro. 2) De acordo com Rüsen (2014), a experiência do passado, ao ser interpretada e atualizada como história, faz com que venha a existir no ser humano a formação histórica de sentido. Portanto, ao adquirir essa competência interpretativa do passado, o ser humano se torna historicamente consciente, tornando-se capaz de, a partir da experiência do passado, orientar-se e motivar-se em relação ao presente e ao futuro, resultantes do aprendizado histórico. Sabendo que a consciência histórica humana pode ser construída no seio das instituições culturais, para em seguida interpretar e elaborar o passado e, finalmente, emergir no aprendizado atualizado como história, quais são os três modos de atuação da consciência histórica humana? A) Escolar, acadêmico e reflexivo. B) Funcional, acadêmico e pragmático. C) Funcional, reflexivo e pragmático. D) Acadêmico, escolar e funcional. E) História, memória e funcional. 3) A consciência histórica é um fenômeno que apresenta relação direta com a identidade, pois sem ela não poderíamos perceber quem somos de fato no tempo e no espaço. Portanto, essa dimensão identitária vai emergir justamente no âmbito das memórias partilhadas historicamente. Assim, surge o sentimento de identidade, que tem a ver também com as relações de alteridade, isto é, na confrontação com o outro, a identidade se torna mais visível, mais bem definida. Desta maneira, não somente o indivíduo expressa a sua própria identidade, mas expressa, igualmente, uma identidade social, sendo ambas fruto de longos processos históricos e sociais. A partir disso, qual é a relação entre identidade e função social da história? A) É na junção de aprendizado histórico e identidade que se pode chegar à cidadania. B) É a partir da conexão de ambas que a sociedade pode evoluir tecnologicamente. C) Não existe uma relação entre ambas que demonstre isso, mas sim entre identidade e tolerância. D) A partir do aprendizado histórico da sua própria sociedade, sem contaminações externas. E) Dentro do âmbito de história em memória com a utilização de fontes orais. 4) A memória pode se apresentar em duas formas principais. A primeira delas diz respeito a um fenômeno psicológico e individual, significando o ato de reter informações ou, então, da rememoração de fatos ocorridos há pouco ou há muito tempo. A memória também pode ser social, significando, com isto, as memórias partilhadas por uma determinada formação social no espaço e no tempo. Na história, a memória tem um papel importante, que é o de ajudar na criação de identidade e consciência histórica. Nesse sentido, Pierre Nora (1993) salienta o conceito de "lugares de memória", que é fundamental para entendermos essas relações. Quais são os aspectos coexistentes de lugares de memória aos quais o autor se refere? A) Símbolos, monumentos e materiais. B) Simbólico, funcional e imaterial. C) Material, imaterial e simbólico. D) Material, simbólico e funcional. E) Imaterial, concreto e funcional. 5) O aprendizado histórico surge como uma das expressões da consciência histórica, sendo um dos processos essenciais da sociabilidade e individualidade humana. Ao ser experienciado e interpretado, o passado determina de que forma o presente será compreendido e a partir daí as formas às quais a antecipação do futuro poderá assumir. Eis aí a grande importância que ganha o ensino de história, havendo a necessidade de formação sólida dos professores, de modo que eles possam estabelecer pontes entre os seus alunos e as suas identidades. Como ocorre esse processo? A) A consciência histórica é desenvolvida individualmente e apresenta, assim, a capacidade de explicar o presente. B) A partir da experiência do passado, este é interpretado, tornando o presente inteligível e conferindo-lhe expectativas para o futuro. C) Ao se deparar com a experiência do passado atualizada com a informação no presente, o indivíduo se torna autossuficiente. D) As memórias só podem existir em sociedades que têm escrita, de forma que existam escolas para a promoção da consciência histórica. E) Dentre as novas tecnologias da informação, a capacidade de memória é um dos maiores destaques na preservação da história. NA PRÁTICA Para termos uma correta abordagem sobre a dimensão identitária, isto é, saber quem somos e em quais contextos estamos inseridos, é necessária a construção da consciência histórica. É ela quem vai nos orientar, no tempo e no espaço, sobre as nossas ancestralidades e também sobre quais rumos estamos tomando. A identidade é a imagem que temos de nós mesmos e que transmitimos aos outros. Em um país com um passadode escravidão africana, a questão da identidade negra é muito problemática, devendo ser enfrentada pelos historiadores e professores de história. O passado dos negros tende a ser apagado, afinal, ao serem trazidos da África para serem escravos no Brasil, esses homens e mulheres tiveram rompidos os vínculos com os seus antepassados e culturas. Além disso, houve toda uma elaboração intelectual ao longo do século XX no sentido de amenizar o racismo, fazendo crer em uma "democracia racial", na qual os conflitos étnicos- raciais foram suprimidos. Portanto, é tarefa dos professores de história recuperar essa ancestralidade em sala de aula, de forma que a identidade negra se torne mais evidente, tornando, assim, o país mais justo e igualitário. Confira, Na Prática, o trabalho de uma professora que busca, a partir das memórias históricas partilhadas de seus alunos, contribuir para a consciência histórica e a formação de identidade negra em seus alunos. SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Da memória à história Neste vídeo, o historiador italiano Carlo Ginzburg faz uma breve e interessante reflexão sobre as relações entre história e memória. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Jovens brasileiros, consciência histórica e vida prática Neste artigo, a profª drª Maria Auxiliadora Schmidt elabora uma relevante discussão acerca das relações entre a formação da consciência histórica e a vida prática de jovens. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Memória individual e coletiva Neste texto, do professor Lucas Mascarenhas de Miranda, você encontrará uma discussão sobre a formação das memórias individuais e coletivas, verificando como ambas se relacionam e influenciam a história. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Verdade e objetividade na história APRESENTAÇÃO A organização da História como disciplina remete à segunda metade do século XIX, um período marcado por disputas quanto à identidade nacional e quanto à construção da própria narrativa historiográfica. Dentro desse contexto, alguns dos parâmetros que regeram as principais escolas históricas - a Escola Positivista Francesa e o Hitoricismo Alemão - constituem-se enquanto reflexões válidas até hoje. A discussão sobre a objetividade da pesquisa em História e da subjetividade à qual o historiador está submetido compõe quesitos importantes para a pesquisa historiográfica. Nesta Unidade de Aprendizagem, você irá estudar sobre as concepções de objetividade e de subjetividade na História, bem como os limites de ambos para o historiador. Aprenderá também sobre as correntes Positivista e Historicista, suas origens, influências e principais características. Por último, serão analisadas também as principais diferenças e semelhanças entre ambas, a fim de melhor observar suas contribuições para os debates na História. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar a objetividade e a subjetividade do conhecimento histórico.• Comparar o paradigma positivista com o historicista.• Analisar os paradigmas antagônicos e suas características em uma mediação comparativa.• DESAFIO Um bom desempenho como professor não requer apenas conhecimento sobre os acontecimentos situados no tempo e no espaço. É importante que o docente também tenha domínio sobre Teoria da História, para poder ajudar o aluno na compreensão da importância de estudar a disciplina e como ela estrutura o seu conhecimento. Suponha que você é um professor de História de uma turma de 1o ano do Ensino Médio, e está dando uma aula de Introdução à História. Durante a sua fala, você comenta como o pesquisador da área de História interpreta as fontes e que a disciplina não é dotada de uma verdade absoluta. Em meio a esse contexto, um de seus alunos faz as seguintes perguntas: a) Como pode a História ser uma ciência se não há como comprovar a veracidade por meio de uma fórmula (como na Matemática ou na Física) ou a partir de uma experiência (como na Química)? b) Pode o historiador determinar o que aconteceu e estabelecer isso como uma verdade? Após a consideração do seu aluno, como você responderia a esse Desafio? INFOGRÁFICO As correntes historiográficas estão diretamente relacionadas com o contexto histórico ao qual estão inseridas. O entendimento das teorias positivista e historicista não pode vir desvinculado do contexto histórico e social de seus teóricos. Neste Infográfico, você vai observar o contexto no qual França e Alemanha estavam inseridas na Europa do século XIX e quais foram os fatores que influenciaram a organização da corrente positivista e do Historicismo alemão. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! CONTEÚDO DO LIVRO Sem um estudo mais aprofundado sobre as concepções de objetividade e subjetividade na História, os historiadores teriam dificuldades em compreender como deveriam se inserir enquanto pesquisadores quanto ao seu objeto de estudo. A disciplina, como parte do campo das Ciências Humanas, teve de lidar, frequentemente, com o debate neutralidade versus ação do sujeito. Tendo isso em mente, é necessário abordar os limites para adoção da objetividade e da verdade impostos pelo historiador enquanto sujeito, ao mesmo tempo em que deve existir o seu comprometimento ético. No capítulo Verdade e objetividade na história, da obra Teoria da História e Historiografia, você vai ver sobre as concepções de objetividade e subjetividade no conhecimento histórico e de que forma tais noções são importantes para a disciplina. A partir de duas principais correntes historiográficas do século XIX: o Positivismo e o Historicismo, você poderá estabelecer comparações entre as características de ambos os paradigmas, para melhor compreender quais são os pontos de contato e de divergência e a importância de suas contribuições para a história. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Isabela de Albuquerque Rosado do Nascimento Verdade e objetividade na história Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar a objetividade e a subjetividade do conhecimento histórico. Comparar o paradigma positivista com o historicista. Analisar os paradigmas antagônicos e suas características em uma mediação comparativa. Introdução As relações entre verdade, objetividade e subjetividade na história trazem à luz não só questões referentes à organização da disciplina em si, mas também as contraposições éticas referentes ao próprio fazer historiográ- fico. Afinal, ao campo da teoria da história pertencem indagações sobre como se produz o conhecimento histórico e, consequentemente, como demarcar o terreno do que é correto e legítimo no fazer historiográfico. Neste capítulo, você vai estudar os conceitos de objetividade e sub- jetividade na história e de que forma eles coexistem na ciência histórica. Aprenderá também sobre as correntes do positivismo e do historicismo, de forma a identificar as principais características de cada uma delas. Além disso, aprenderá sobre os conceitos de verdade na história e como eles são constantemente confrontados dentro das atividades de pesquisa do historiador. Objetividade e subjetividade no conhecimento histórico Em diferentes períodos da história, pessoas buscaram responder questões relativas à sua existência. Indagações como “quem somos?” e “onde estão nossas origens?” foram importantes para a compreensão do passado e para dar coesão ao próprio tempo em que viviam. A consciência que o ser humano tem de si mesmo como sujeito, seja como indivíduo ou como parte de um grupo, demanda uma busca constante pelo sentido de sua trajetória. A partir da compreensão do papel do ser humano enquanto agente de seu próprio tempo, filósofos e historiadores vinhamquestionando desde os ilumi- nistas do século XVIII a forma como o conhecimento histórico era produzido e como a disciplina organizava seus pressupostos epistemológicos. Ao longo do século XIX, o papel da história oscilou entre as premissas da filosofia e a busca pela objetividade das ciências naturais — que buscavam “leis gerais” para compreender fenômenos específicos ocorridos em qualquer região do planeta — e o entendimento de que o homem não consegue se desvencilhar do tempo em que vive, confirmando que sua subjetividade compunha parte de sua análise sobre o processo histórico (BARROS, 2010). Será possível afirmar que a história é verdadeira e objetiva? Essa inda- gação vem sendo feita por filósofos, historiadores, literatos e sociólogos. O pensamento iluminista — tanto nas suas vertentes francesa quanto alemã — propunha que a razão e a objetividade devem ser as responsáveis pelo controle, pela produção e pela disseminação do conhecimento. De acordo com o paradigma iluminista, a noção de progresso é o elemento norteador da história, e deve ser verificado ao longo de sucessivas épocas, pois, do ponto de vista filosófico, a história era universal e, portanto, sujeita às mesmas regras que tenderiam a se repetir em diferentes regiões (BARROS, 2010). Tal formulação de uma história universal, marcada pela noção de progresso, entretanto, já não compõe mais o entendimento de historiadores contempo- râneos a respeito da epistemologia da história. Cada caminho adotado por um grupo social representa uma trajetória bastante particular. Mesmo que o historiador identifique elementos que o aproximem de outro contexto histó- rico, a visão de que a história das sociedades humanas desenrola-se a partir de uma trajetória idêntica, baseada nos mesmo elementos está, nos dias de hoje, ultrapassada. Todavia, como deve o historiador investigar o passado? Sobre quais elementos estão assentados as balizas para realizar sua pesquisa? Em sua obra História e verdade, Adam Schaff (1995) reconhece os pro- blemas da objetividade na disciplina e define que o conceito representa um conhecimento que provém do objeto, universal e isento de carga emocional. Entretanto, o historiador alemão relativiza a questão da objetividade na pes- quisa, observando que: “O sujeito desempenha um papel ativo no conhecimento histórico, e a objetividade desse conhecimento contém sempre uma dose de subjetividade. Senão, esse conhecimento seria a-humano ou sobre-humano” (SCHAFF, 1995, p. 280). Verdade e objetividade na história2 A dicotomia sujeito–objeto não passa por uma relação ativo–passivo, pois o objeto de pesquisa não pode ser dissociado do caráter humano, sociocultural e também histórico. Contudo, não seria um exagero afirmar que o fato histórico existiu e é, portanto, dotado de uma materialidade. Para Certeau (2000), a objetividade é uma virtude epistemológica que deve ser almejada com o fato histórico em si, que é também dotado de uma objetividade, pois ele existe independente da vontade do historiador. A história está circunscrita ao campo das ciências humanas. Diferente dos métodos e dos pressupostos teóricos das ciências da natureza, subjetividades fazem parte deste campo do saber, pois não apenas o historiador é sujeito, mas também os materiais com os quais trabalha (fontes históricas) foram igual- mente produzidos por agentes históricos que viveram num contexto específico (KOSELLECK, 2006). Em vista disso, a subjetividade está presente tanto no historiador quanto na documentação com a qual ele lida. Em seu livro Futuro passado, Koselleck (2006) aborda as relações objetivas e subjetivas dentro da história, discutindo a concepção de verdade na disci- plina para proposição de uma teoria que seja “possível”, como o próprio autor considera. Na visão do finado historiador alemão, a história como disciplina avançou muito nos últimos 200 anos, pois conseguiu mesmo com limitações — ou até ausência de fontes — produzir interpretações sobre o passado. Ao usar interpretação, Koselleck faz alusão à hermenêutica de Dilthey, à crítica às fontes submetida a critérios “[...] acessíveis, comprováveis e racionais” (KOSELLECK, 2006, p. 161–162). Como a maior parte do trabalho do historiador consiste em interpretação, Koselleck (2006) afirma que ele deve se ater a produzir enunciados verdadeiros acerca do passado, mas não produzir verdades. Ao admitir isso, ele pode lidar melhor com sua consciência de que suas premissas sempre serão relativas. Reconhecer que existem limitações quanto à produção do conhecimento historiográfico não significa desacreditar a história; funciona mais como uma ferramenta que vem auxiliar o entendimento dos entraves que o pesquisador da área de história enfrenta. Repare que a subjetividade não significa aqui tomar partido ou levantar uma bandeira acerca de um determinado tema. De acordo com Rüsen (2001), o partidarismo é aquilo que se refere aos posicio- namentos mais práticos na vida social, e que, portanto, corresponde à parcela mais visível da subjetividade. Logo, a subjetividade não deve ser encarada como algo que desqualifica a história enquanto disciplina científica, pois ela também está marcada pelos mesmos pressupostos das demais, tais como método, teoria, hipó- teses. O historiador deve compreender que está suscetível a limitações, 3Verdade e objetividade na história como o tempo histórico no qual está inserido, o seu local de enunciado na sociedade, a classe social a qual pertence, a experiência de vida que carrega (CERTEAU, 1995). Todos esses fatores contribuem para sua interpretação acerca dos fatos. A partir do momento em que ele assume as deficiências objetivas decorrentes deste quadro do qual não pode se desvencilhar, está apto a uma melhor qualidade do seu trabalho historiográfico. Em sua concepção, René Descartes (1596–1650) tinha por objetivo atingir um co- nhecimento verdadeiro, ao qual só se poderia chegar a partir da utilização da razão humana na construção do conhecimento científico. No entanto, para o filósofo francês, o conhecimento verdadeiro só seria oriundo da matemática, pois esta não estava vinculada a concepções, tradições e preconceitos sociais. Por conta dessas questões, Descartes punha em xeque o papel e a relevância da história, a qual, em sua concepção, não era considerada ciência. Ao se debruçar sobre a análise do que havia sido produzido acerca do passado na forma de narrativas, Descartes mostrou que tal registro não era a reprodução do passado em si, mas fruto de uma narrativa elaborada pelos historiadores. A objetividade, portanto, não era inerente à história; apenas a matemática proporcionaria a objetividade e o acesso a um conhecimento verdadeiro (EMILIO, [2019]). Os paradigmas positivista e historicista Positivismo e historicismo foram as duas grandes correntes historiográfi cas do século XIX, e seus legados podem ser identifi cados até hoje nas discussões sobre a disciplina. Muitas vezes consideradas como tradições historiográfi cas equivalentes, existem diferenças estruturantes em ambas. De acordo com Barros (2010, documento on-line): A oposição fundamental entre positivismo e historicismo dá-se em torno de três aspectos fundamentais: a dicotomia objetividade/subjetividade no que se refere à possibilidade ou não de a História chegar a leis gerais válidas para todas as sociedades humanas; o padrão metodológico mais adequado à história (de acordo com o modelo das Ciências Naturais, ou um padrão específico para as ciências humanas); e a posição do historiador face ao conhecimento que produz (neutro, imerso na própria subjetividade, engajado na transformação social). Verdade e objetividade na história4 A partir dessas três vertentes (objetividade e subjetividade, padrão metodo- lógico das ciências naturais e das ciências humanas e o historiador neutro ou não frente ao processo histórico), observe como as duas correntes distinguem-se entre si. Mesmo situadas ao longo do século XIXe num mesmo contexto de afirmação da história enquanto disciplina científica integrante dos quadros nas universidades, esse tripé compõe reflexões centrais acerca de sua epistemologia. Positivismo Vinculado ao contexto de uma sociedade burguesa industrializada que via com bons olhos os avanços científi cos que o século XIX produziu, o positivismo francês é um herdeiro direto do Iluminismo. Apoiados nas discussões já realizadas pelos iluministas (a possibilidade de um conhecimento humano totalmente objetivo, a construção de uma história universal, a imparcialidade do sujeito que produz o conhecimento), esses pressupostos seriam sistematizados agora nas ciências sociais. Na vertente francesa, o maior nome é Augusto Comte (1798–1857) (Figura 1). Sua obra magna, Curso de filosofia positiva, foi publicada entre 1830–1852 e continha 60 lições que tratavam da forma das ciências e da evolução das sociedades (BOURDÉ; MARTIN, 1990). Partindo de uma abordagem mais conservadora, acrescentou ao ideal de progresso o conceito de ordem. Ao tentar equiparar os métodos das ciências naturais às ciências sociais, Comte afirmou que existiam “[...] leis gerais e invariáveis que regeriam as sociedades humanas” (BARROS, 2010, documento on-line) e que o cientista social é capaz de assumir uma postura rigorosamente neutra frente ao seu objeto de estudo. Figura 1. Pensadores de destaque da escola positivista: (a) Augusto Comte (1798–1857); (b) Émile Durkheim (1858–1917). Fonte: Reis (2016, documento on-line); Emile... ([2017], documento on-line). 5Verdade e objetividade na história De influência mais tardia na historiografia, Émile Durkheim (1858–1917), herdeiro do positivismo comtista, o sociólogo francês viria a influencia as ciências sociais. Seguro de que as leis da natureza não eram tão diferentes daquelas que regiam as sociedades, Durkheim (2007) afirma que o método que serve para descobri-las não é outro senão o método das outras ciências. Na segunda metade do século XIX, o positivismo começou a influenciar a nascente “Escola Metódica” francesa. Os metódicos seguem a linha positivista no que tange à concepção da história enquanto ciência. A busca por leis gerais, a adoção de uma objetividade metodológica tão próxima às ciências naturais, a neutralidade do historiador — que deveria se destacar de seu objeto de estudo e observá-lo à distância — e uso de uma linguagem erudita avessa a formas narrativas compõem os pressupostos da escola francesa. Sua influência na França é grande, pois seus proponentes: [...] participaram na reforma do ensino superior e ocupam cátedras em novas universidades; dirigem grandes colecções [..]; formulam os programas e elaboram as obras de história destinadas aos alunos dos colégios secundários e das escolas primárias. Ora, os manuais escolares, muito explicitamente, ve- neram o regime republicano, alimentam a propaganda nacionalista e aprovam a conquista colonial. [...] A escola metódica continua a dominar o ensino e a investigação em história nas universidades até aos anos 1940 (BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 97). O papel desempenhado pelos historiadores vinculados ao positivismo francês ecoou até quase a segunda metade do século XX, dominando o cenário acadêmico, intelectual e estudantil. A obra que inaugura a influência positivista na historiografia francesa foi A história e os historiadores, um ensaio crítico sobre a história considerada como ciência positiva, de L. Bourdeau, de 1888. De acordo com o autor, a história é a "[...] ciência dos desenvolvimentos da razão", fixando o objetivo de "[...] investigar leis que presidem ao desenvolvimento da espécie humana" (BOURDEAU, 1888 apud BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 112–113). As leis citadas podem ser divididas em três grupos: 1. Leis de ordem: mostram a semelhança das coisas. 2. Leis de relação: fazem com que as mesmas originem os mesmos efeitos. 3. Lei suprema: regula o curso da história. Na obra de Bourdeau, de expressivo caráter determinista, percebe-se o uso do vocábulo lei, uma herança da sociologia. A corrente positivista entendia o Verdade e objetividade na história6 desenvolvimento das sociedades humanas a partir de padrões que se repetiam, haja vista que as sociedades caminhavam rumo ao progresso e ao desenvol- vimento. Tal premissa é coroada pela ideia de uma lei suprema, a qual seria responsável por regulamentar a organização da história como um todo, o que só é possível a partir do seu entendimento como universal. Historicismo A corrente historicista, tanto a alemã quanto seus desdobramentos em outros países europeus e americanos, também está circunscrita ao contexto de afi rmação dos Estados Nacionais no século XIX. A história como dis- ciplina (Geschichte, em oposição a Historie, em alemão) organizou-se no período em que se formava o Império Alemão, conhecido como II Reich, a partir de 1871. Na Alemanha, os principais expoentes da Historik — como ficou conhe- cido o historicismo na época — foram Johan Gustav Droysen (1808–1884), Leopold von Ranke (1795–1886) e Theodor Mommsen (1817–1903). Ao colocar em pauta a discussão da posição que a história ocupava no campo científico, normalmente alocada entre a especulação filosófica e as ciências naturais, os historicistas avançaram no campo da teoria da história, versando sobre preo- cupações quanto ao trato das fontes primárias, auxiliados pela hermenêutica. Uma das bases influenciadoras do historicismo alemão foi o Romantismo. Para os historiadores românticos, o conhecimento sobre a história jamais é abstrato e depende diretamente da experiência, ou seja, do contexto histórico no qual o historiador se insere e, consequentemente, das leituras de mundo que ele carrega consigo. Ranke defendia a concepção de uma história narrativa que, a partir da consulta a fontes históricas, levava à compreensão do todo. As fontes repre- sentavam o próprio passado, mas careciam do historiador para auxiliar na sua compreensão. À ciência voltada para a interpretação dos textos históricos dá-se o nome de hermenêutica, e seu uso foi particularmente ressaltado entre os historicistas. Apesar de Ranke ser o nome mais conhecido do historicismo alemão, as reflexões de Droysen (2009) na primeira fase desse embate contribuíram muito para a constituição da história como disciplina. De acordo com Assis (2010, p. 9), a importância de Droysen se dá: “[...] por ter realizado uma síntese de três perspectivas teóricas que, até então, nunca haviam sido interconectadas de forma sistemática: a teoria da historicidade do mundo humano [...], a teoria do conhecimento histórico e a teoria do método histórico”. 7Verdade e objetividade na história O século XIX corresponde ao momento em que a história será organizada nas universidades europeias enquanto disciplina. Com Droysen, o pensamento histórico deixou de ser um apêndice da filosofia, e seu método histórico desprendeu-se do filosófico. A história ganhou status de ciência autônoma e, como tal, cabia aos historiadores as reflexões acerca de sua episteme. O historiador americano Patrick J. Geary, em sua obra O mito das nações: a invenção do nacionalismo (GEARY, 2005), aborda o tema da organização dos povos germânicos na Antiguidade Tardia (século IV–VIII). Ao analisar sua etnogênese (os mitos de forma- ção enquanto grupo étnico), Geary chegou à conclusão de que a interpretação dos germânicos enquanto grupos coesos e organizados que ocupavam o poder político não corresponde ao quadro dos primeiros tempos medievais, mas à uma leitura dos acadêmicos (historiadores, arqueólogos, filólogos) do século XIX. Logo, a compreensão que os historicistas alemães fizeram sobre o passado germânico na Europa serviu para a construção e legitimação dos Estados Nacionais em formação, como o Estado Alemão a partir de 1871. A preocupação dos historiadores da Historik era, portanto, narrar os eventos que marcaram a primeira forma de organização política do povo alemão. Paradigmas antagônicos sob viéscomparativo A história vivenciou modelos de alternância quanto ao papel do historiador e sua infl uência sobre seu objeto de estudo. A partir das heranças do Iluminismo e do Romantismo, duas grandes correntes históricas emergiram na forma do positivismo e do historicismo. O positivismo primava pela objetividade e a mantinha enquanto uma meta a ser alcançada. O objeto de estudo era o homem universal. Já o historicismo não escondia as relações — afetivas, inclusive — entre o pesquisador e seu objeto de estudo, pois entendia que o indivíduo concreto estava sujeito a uma historicidade específica, da qual não podia se desvencilhar. Dos debates entre positivistas e historicistas, emergiram as discussões do papel do historiador frente ao seu objeto de estudo e sua neutralidade. O historicismo já se afirmava como relativista, enquanto o positivismo almejava a objetividade. Com relação à teoria do conhecimento, a corrente positivista afirmava que a função da história é explicar os fenômenos históricos e sociais, ao passo que Verdade e objetividade na história8 os historicistas — com sua perspectiva objetiva — buscavam compreendê-los. A dicotomia explicação–compreensão denota o posicionamento antagônico que as correntes historiográficas apresentavam frente ao objeto estudado e ao papel do historiador nesse processo. Enquanto os positivistas acreditavam que, com “leis gerais”, cabia ao historiador identificá-las e explicá-las, os historicistas vislumbravam a importância de entender que tanto o historiador quanto os agentes que produziram as fontes eram sujeitos e que, como tais, sua função era compreender o passado e narrá-lo. O Quadro 1 resume as concepções básicas de cada escola. Positivismo Historicismo O que é história? Compreendia que a história era um processo pelo qual to- dos os homens deveriam pas- sar para atingir o progresso. A história é como uma organização de fatos que se desenrolam num determi- nado tempo. Para que serve a história? A história serve para explicar o presente e comprovar seu desenrolar no tempo. Para entender os fenômenos históricos em sua especifici- dade e descobrir o que acon- teceu em sua forma mais completa e exata. Considera todos os aspectos relativos à historicidade dos fenômenos, suas influências políticas, ide- ológicas, culturais, sociais, etc. Como se escreve a história? A partir dos documentos, considerados como veicu- ladores de uma verdade e como fontes confiáveis; o historiador (neutro) não toma partido para evitar ser tendencioso. A escrita da história é de caráter narrativo, de con- teúdo político. Considera a importância das ideias e das instituições nas raízes do processo histórico. Quadro 1. Comparação entre positivismo e historicismo A inserção do caráter objetivo na história, apesar dos historiadores terem ciência de que ele não existe em 100%, é importante como uma forma de minimizar as subjetividades, tanto do pesquisador quanto dos materiais 9Verdade e objetividade na história com os quais ele lida. Como o historiador não consegue ter acesso a todo o passado, mas apenas a uma parte dele — a partir dos vestígios deixados — cabe a ele reconstituir a totalidade de um evento/episódio/período, baseado em fatos particulares. Bloch (2001), em seu célebre livro Apologia da História, tece uma metá- fora profícua a respeito das diferenças entre o cientista e o juiz. Afirma que ambos estão comprometidos em atingir a verdade sobre os fatos, sendo que o cientista realiza o experimento e o registra. Já o juiz, mesmo que baseado em aspectos legais e acreditando ser verdadeiramente imparcial, chega à sua decisão final de condenar ou absolver sempre pautado por seus valores, algo que não está vinculado a qualquer forma de ciência (BLOCH, 2001). O autor deixa clara, portanto, a diferença entre investigar o passado e julgá- -lo. O primeiro verbo estaria vinculado à objetividade da ciência histórica, enquanto o segundo — parte integrante do historiador como sujeito — não deve interferir na sua pesquisa. Le Goff (1990, p. 32), em seu livro História e memória, ao citar Weber, afirma que “toda a tentativa de compreender a realidade (histórica) sem hipó- teses subjetivas só conseguiria chegar a um caos de ‘juízos existenciais’ sobre inúmeros acontecimentos isolados". Não é função dos historiadores julgar fatos históricos, envoltos por uma justificativa de que estão comprometidos com a verdade e a objetividade. Além de Bloch e Le Goff, outros historiadores consagrados como Reinhart Koselleck (2006) e Michel de Certeau (2000) já afirmaram que inexiste verdade na história, por se tratar a disciplina de uma narrativa historiográfica. No entanto, essa ausência de objetividade absoluta não pode servir para invalidar a disciplina. A subjetividade é inerente ao conhecimento científico, pois todos nós estamos subordinados a vínculos socioculturais. No entanto, as supostas limitações na neutralidade e na objetividade não devem ser um entrave para o entendimento da história enquanto ciência; o enquadramento do ofício do historiador não pode ser representado apenas por uma titulação como bacharel ou licenciado em história. Requer, antes de tudo, um compromisso ético, com consciência de suas escolhas teóricas e metodológicas ao longo de uma pesquisa. É justamente a partir da ciência de suas imperfeições que ele pode melhor entender e extrapolar as fronteiras do fazer historiográfico. Verdade e objetividade na história10 ASSIS, A. A teoria da história de Jörn Rüsen: uma introdução. Goiânia: Editora da UFG, 2010. BARROS, J. D. Objetividade e subjetividade no conhecimento histórico: a oposição entre os paradigmas positivista e historicista. Revista Tempo, Espaço e Linguagem (TEL), v. 1, n. 2, p. 73–102, 2010. Disponível em: https://www.revistas2.uepg.br/index.php/tel/ article/viewFile/2628/1970. Acesso em: 6 ago. 2019. BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BOURDÉ, G.; MARTIN, H. As escolas históricas. Lisboa: Europa-América,1990. CERTEAU, M. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000. CERTEAU, M. A operação histórica. In: LE GOFF, J.; NORA, P. (org.). História: novos pro- blemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. DROYSEN, J. G. Manual de teoria da história. Petrópolis: Editora Vozes, 2009. DURKHEIM, É. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007. EMILE Durkheim. Sociologia, [2017]. Disponível em: http://sociologiacienciaevida.com. br/como-e-produzido-o-conhecimento/emile-durkheim/. Acesso em: 6 ago. 2019. EMILIO, D. R. Descartes, René du Perron (1596–1650). Biblioteca Unicamp, [2019]. Disponível em: http://www.fem.unicamp.br/~em313/paginas/person/descarte.htm. Acesso em: 6 ago. 2019. GEARY, P. J. O mito das nações: a invenção do nacionalismo. São Paulo: Conrad, 2005. KOSELLECK, R. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006. LE GOFF, J. História e memória. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990. REIS, L. Augusto Comte. Mundo Ciência, 2016. Disponível em: https://www.mundociencia. com.br/sociologia/augusto-comte/. Acesso em: 6 ago. 2019. RÜSEN, J. Razão histórica, teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora da UnB, 2001. SCHAFF, A. História e verdade. São Paulo: Martins Fontes, 1995. Leituras recomendadas BARROS, J. D. “Teorias da história” e “filosofias da história”: considerações sobre o contraste entre dois espaços de reflexão sobre o fazer histórico. Anos 90, v. 19, n. 36, p. 367–400, 2012. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/anos90/article/ view/15756. Acesso em: 6 ago. 2019. BARROS, J. D. Considerações sobre o paradigma positivista em história. Revista Historiar, v. 4, n. 4, p. 1–20, 2011x. Disponível em: http://www.uvanet.br/historiar/index.php/1/ article/view/49/35. Acesso em: 6 ago. 2019. 11Verdade e objetividade na história BARROS, J. D. Escola histórica, paradigma,matriz disciplinar: três conceitos para a teoria da história. Oficina do Historiador, v. 3, n. 2, p. 1–18, 2011x. Disponível em: revistasele- tronicas.pucrs.br/ojs/index.php/oficinadohistoriador/article/view/8141/6447. Acesso em: 6 ago. 2019. BARROS, J. D. Teoria da história. 4. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2014. GILBERT, F. History: politics or culture? Reflections on Ranke and Burckhardt. Princeton: Princeton University Press, 1990. Verdade e objetividade na história12 DICA DO PROFESSOR É comum citarmos a contribuição de diversos historiadores quanto à sua compreensão acerca do fazer historiográfico, principalmente a partir do movimento conhecido como Escola dos Annales. No entanto, as correntes positivista e historicista estiveram marcadas por profissionais que deram os primeiros passos da História como disciplina a vir alcançar uma posição nas universidades europeias. Pesquisadores com uma sólida formação em diversas áreas dedicaram- se ao trabalho de organizar o que hoje classificamos como grandes obras de referência, nas quais traduziram diversas fontes documentais dos períodos Antigo e Medieval para idiomas modernos. Confira, na Dica do Professor, alguns dos principais historiadores positivistas e historicistas, a inserção da sua produção em cada uma dessas áreas e as suas contribuições mais importantes no campo historiográfico. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) As questões relativas à objetividade e à subjetividade na História talvez sejam um dos pontos mais sensíveis da disciplina. Adam Sachff, em sua obra História e Verdade, discutiu sobre essas relações, dialogando com seus limites na historiografia. A respeito das discussões entre objetividade e subjetividade na historiografia moderna, assinale a alternativa correta: A) A objetividade não deve ser almejada pelo pesquisador, pois a história é uma Ciência Humana. B) O fato histórico em si é dotado de uma objetividade, pois existe independente da vontade do historiador. O objeto de estudo do pesquisador representa um conhecimento objetivo, porém não isento C) de carga emocional. D) A ideia do pesquisador neutro ainda faz parte das concepções historiográficas. E) O historiador está suscetível às limitações de seu tempo, tais como seus laços socioculturais, mas estes nada influenciam no seu papel como pesquisador. 2) A Escola Metódica organizou-se a partir do Positivismo e representa a corrente historiográfica francesa, a partir da qual a História afirmou-se enquanto ciência. Como se trata da afirmação da História como ciência, os pressupostos historiográficos estão conciliados com os do Positivismo de Augusto Comte. Sobre tais pressupostos, marque a alternativa correta: A) Compreendia a História enquanto suscetível às Leis Gerais, tal como as Ciências Naturais. B) A posição do historiador é relativa e ele não é neutro frente ao conhecimento produzido. C) Foi influenciado pelas ideias de progresso de Ranke e de Droysen. D) Representam os mesmos do Historik. E) Culminaram na organização da Escola Metódica Francesa, que primava pela erudição e pelas narrativas historiográficas. “A partir da segunda metade do século XIX, a posição intermediária ocupada pela ciência histórica – entre a especulação filosófica e a explicação causal das ciências naturais – levou historiadores, filósofos, filólogos e sociólogos a investigarem e ressaltarem a especificidade metodológica das ciências humanas. (...) Para Droysen, a história lida costumeiramente com fenômenos que não se deixam entender de maneira determinista. A tarefa do historiador seria, portanto, reconstruir eventos e decifrar significados do passado que se tornaram pouco ou nada evidentes ao olhar 3) contemporâneo.” ASSIS, Arthur. A teoria da história de Jörn Rüsen: uma introdução. Goiânia: Editora UFG, 2010. p. 8. As noções sobre a subjetividade do historiador talvez tenham sido um dos principais fatores que influenciaram historiadores contemporâneos e estiveram presentes desde a organização da História como disciplina. Sobre o Historicismo alemão, pode-se afirmar que: A) Johan Gustav Droysen (1808-1884), Leopold von Ranke (1795-1886) e Émile Durkheim são seus principais representantes. B) A subjetividade é vista como um problema que acometia a disciplina. C) O Historicismo preocupou-se com a explicação da história a partir de modelos explicativos gerais. D) Utilizou-se da hermenêutica no trato com as fontes textuais. E) Seus ideais serviram aos interesses da burguesia industrial e à noção de progresso. 4) "À primeira vista, a 'lei dos três estados' apresenta-se como uma teoria do conhecimento; considerando-a de mais perto, revela-se também como uma filosofia da história. Com efeito, ao passo que Hegel encara a marcha do Espírito segundo os três tempos da dialética, Comte imagina a progressão do espírito humano por etapa, segundo o ritmo igualmente ternário, mas diferente na sua essência dos três estados." BOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. As Escolas Históricas. Lisboa: Europa- América,1990. p. 53. A "lei dos três estados" refere-se à maneira que o Positivismo explicava as etapas pelas quais as sociedades humanas passavam no tempo. Tal concepção foi influenciada por qual outra corrente filosófica ou histórica? A) Historicismo. B) Iluminismo. C) Romantismo. D) Historik. E) Ciências exatas. 5) As chamadas "Escolas Históricas" do século XIX, que marcaram a sua organização enquanto disciplina nas universidades europeias, foram influenciadas por movimentos filosóficos, estéticos e intelectuais. Assinale a alternativa correta quanto às influências sofridas pela historiografia do século XIX quanto à organização dos seus pressupostos teóricos: A) O Positivismo consiste na corrente filosófica que privilegia a concepção da história como processo. B) O Historicismo compreende a passagem do tempo como rumo ao progresso. C) O Romantismo influenciou o movimento historicista no que tange à subjetividade do pesquisador. D) O Iluminismo influenciou a corrente positivista francesa quanto ao entendimento das particularidades nas sociedades. E) A Escola Metódica Francesa diferencia-se da corrente Positivista Francesa quanto aos seus pressupostos epistemológicos. NA PRÁTICA O Positivismo e o Historicismo apresentavam características muito antagônicas quanto às leituras que as Academias francesa e alemã faziam sobre a História e no tocante à organização da disciplina. Porém, ambas contribuíram – e muito – para as reflexões historiográficas dos historiadores contemporâneos, dentre elas, as relações entre objetividade e subjetividade. Confira, Na Prática, como um historiador realiza sua pesquisa tendo que lidar com questões relativas à sua subjetividade. SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Hermenêutica e historiografia: tradição hermenêutica e demarcação da ciência histórica Artigo da Aedos, Revista do Corpo Discente do PPG-História da UFRGS, que aborda de maneira breve a história da hermenêutica, desde sua origem na modernidade (e sua apropriação dos clássicos) até o final do século XX, em suas contribuições para delimitação epistemológica da historiografia como uma ciência. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Historiografia na rede Blog da historiadora Anita Lucchesi (doutoranda em História Digital e História Pública, pela Universidade de Luxemburgo, e mestre em História Comparada, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro), no qual mantém vários artigos, postagens, sugestões bibliográficas sobre história digital, historiografia e teoria da história. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Metodologia científica e o problema da objetividade Leia o Capítulo 2, da obra História - Introdução ao Ensino e à Prática, disponível na biblioteca do Grupo A, para saber mais sobre a trajetóriada história enquanto ciência, partindo da discussão dos autores historicistas. O historiador enquanto pesquisador e desdobramento paradoxal Realize a leitura do Capítulo 9, da obra Conteúdo e metodologia do ensino de história, para compreender melhor o papel do professor e do pesquisador da área de História e em como exerce influência sobre um aluno ao ensinar a disciplina. A construção do tempo histórico APRESENTAÇÃO Marc Bloch, em sua célebre obra Apologia da História, definiu a disciplina como “o estudo do homem no tempo”. Neste contexto, a categoria tem um lugar central no entendimento do processo histórico e na compreensão de como se organiza a passagem do tempo. A sensação da passagem do tempo como algo externo às sociedades deve-se à necessidade que se tem de dar sentido à existência e às atividades cotidianas. Afinal, nos dia de hoje é possível pensar em um mundo sem calendário, relógio e horários que regulamentam o tempo de estudo e trabalho? Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar o tempo histórico e suas descrições, ao mesmo tempo em que vai conhecer as diferentes concepções de tempo cronológico. Ainda, você vai analisar como é feita a contagem dos séculos no tempo, e de que forma isso influencia o estudo da disciplina. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever o tempo histórico.• Explicar o tempo cronológico.• Analisar o tempo na contagem dos séculos.• DESAFIO A concepção de tempo braudeliana não apenas posicionou a História no debate de outras Ciências Sociais, como também abriu novas formas de encarar as relações entre passado, presente e futuro, uma vez que, num mesmo objeto de estudo do pesquisador, é possível atestar a existência de múltiplas temporalidades. A Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis (GO) foi registrada e reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro em 15 de abril de 2010. Com duração de doze dias e ápice no Domingo do Divino, cinquenta dias após a Ressureição, a celebração mescla festejos religiosos e profanos e constitui- se de novenas, folias, procissões, missas, roqueiras, mascarados, cavalhadas, pastorinhas, congadas e apresentações de grupos folclóricos. Neste contexto, imagine que você vai passar algum tempo na cidade de Pirenópolis e se depara com a cena abaixo, com expressivas evidências ao passado medieval, sobretudo de origem portuguesa. Dessa forma, seu Desafio é: 1) Identificar, a partir das reminiscências medievais encontradas, as diferentes dimensões de tempo de Fernand Braudel. 2) Compreender as relações entre o presente e o passado e em como esses dois elementos são intrínsecos. INFOGRÁFICO O tempo permeia as relações entre as atividades laborais, de lazer e de descanso desde a organização das primeiras sociedades humanas. Seja por meio da passagem do tempo com base nas transformações da natureza, por calendários ou por relógios, as dinâmicas entre tempo e trabalho não se restringem à Revolução Industrial e à adoção do sistema capitalista, embora elas tenham alterado profundamente a maneira como os sujeitos históricos passaram a trabalhar e em para o que seu tempo livre era destinado. A seguir, no Infográfico, observe as diferenças com relação à organização do tempo entre as sociedades capitalistas e pré-capitalistas. CONTEÚDO DO LIVRO A compreensão do tempo é um problema que engloba tanto o campo das ciências quanto o da Filosofia. Na Física, o tempo é uma grandeza fundamental vista de maneira plural: seria, dessa forma, o tempo um ente físico ou abstrato? Marcado por um aspecto linear ou cíclico? Estaria ele presente apenas na mente humana ou como parte do mundo físico? Seria ele contínuo ou descontínuo? Tais indagações ainda estão presentes em diversas obras científicas e filosóficas, sejam as que identificam o tempo como objeto de estudo ou as que apenas o tangenciam. No capítulo A construção do tempo histórico, da obra Teoria da História e Historiografia, leia sobre a construção do tempo histórico, sobre a definição do tempo cronológico e, também, sobre a análise da passagem do tempo a partir da contagem dos séculos. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Isabela de Albuquerque Rosado do Nascimento A construção do tempo histórico Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever o tempo histórico. Explicar o tempo cronológico. Analisar o tempo na contagem dos séculos. Introdução Abordar o tempo é algo complicado, porque ele assume diversas di- mensões. É possível falar de tempo biológico, geológico, psicológico, histórico, dentre outros. Embora os historiadores sejam impelidos a lidar constantemente com a variável “tempo” em suas pesquisas, ela nem sempre é alvo de estudos metodológicos. O tempo costuma ser tratado mais como um objeto de estudo — a partir da delimitação de um recorte acerca de um determinado grupo social — do que como uma categoria de análise. A carência de reflexões na área faz com que os historiadores pouco discutam sobre como lidar com o indicador temporal na pesquisa histórica. Mas, afinal, como po- demos definir o tempo? Neste capítulo, você vai estudar as explicações em torno do tempo da história, a partir do confronto com outras áreas do conhecimento científico, e entenderá a diferença entre os conceitos de tempo histórico e tempo cronológico. Por fim, analisará também a passagem do tempo a partir da contagem dos séculos, parte importante na organização dos currículos escolares na área de história. Descrição do tempo histórico Dissociar a atividade da história do componente “tempo” é, de certa forma, inutilizá-la. Sem essa variável, o historiador perde sua razão de ser e seu ofício passa a ser associado a outros, como dos geógrafos, sociólogos, antropólogos e críticos literários, por exemplo. Muito embora esses profi ssionais também utilizem a categoria de tempo em suas pesquisas, em nenhuma delas o tempo é tão importante quanto para o pesquisador da área de história. Nossa cons- ciência sobre o tempo já está tão interiorizada que é difícil pensar em nosso cotidiano sem horários ou calendários. Elias (1998), em seu livro Sobre o tempo, analisa como esse conceito foi construído socialmente, por meio de um processo caracterizado pelo autor como civilizador. É ao estabelecermos seus parâmetros organizacionais, a partir da adoção de um calendário, por exemplo, que somos inseridos num contexto social mais amplo, do qual passamos a também fazer parte. Nesse contexto, os calendários devem ser identificados não apenas no seu sentido cronológico e linear. De acordo com Elias (1998), é pela adoção de calendários que as sociedades humanas também expressam, como parte integrante de suas culturas, as práticas ritualísticas identificadas, garantindo sua repetição e destacando sua recorrência. Sendo assim, o tempo histórico só pode ser estudado à luz de referências específicas, pois ele nada mais é do que uma construção histórica e social. Por outra perspectiva, o tema por ser identificado como objeto de estudo, enquadrando-se numa história cultural do tempo, cujo objetivo é seria estudar a rede de elaboração de seus significados nas experiências dos sujeitos sociais. As leituras sobre a concepção do tempo histórico sofreram variações em cada uma das correntes historiográficas. A concepção de tempo presente em Isaac Newton (1643–1727) — marcada por seu caráter puro e absoluto, inde- pendente dos objetos materiais e dos acontecimentos — dominou o cenário dos debates filosóficos por mais de dois séculos e influenciou a maneira como os historiadores enxergavam o desenrolar dos fatos. Até meados do século XX, as heranças positivista e historicista viam o tempo a partir dos paradigmas newtonianos e kantianos, respectivamente. Deacordo com Immanuel Kant (1724–1804), o tempo é uma experiência intuitiva. É por meio dele que o ser humano pode identificar as transformações na natureza, bem como a mudança de estado dos objetos (SOUZA, 2008). A concepção idealista e subjetiva sobre o tempo do filósofo alemão coaduna com a ideia de que o tempo não pode ser interpretado fora de organizações A construção do tempo histórico2 culturalmente definidas. A Figura 1 apresenta um esboço de diferentes ca- lendários adotados por tradições distintas. Figura 1. Os calendários das principais religiões monoteístas. À concepção de tempo histórico, a primeira geração da escola dos Annales, composta por Marc Bloch (1886–1944) e Lucien Febvre (1878–1956), avançou com importantes contribuições. Ao definir a história como “[...] uma ciência dos homens no tempo” (BLOCH, 2001, p. 67), Bloch (2001) assinala o tempo como o plasma que envolve e explica os fenômenos. Fora do tempo, portanto, não é possível explicar os fenômenos presentes nas sociedades, pois ele é o seu local de inteligibilidade. Os tempos históricos estão divididos em presente, passado e futuro, inter- ligados por uma relação simbiótica, na qual presente e passado influenciam-se mutuamente (BLOCH, 2001). No entanto, como pode o presente influenciar o passado? Deve-se levar em conta que a história, por ser uma ciência inter- pretativa, descreve no presente como estão estruturadas suas visões acerca do 3A construção do tempo histórico passado, de um determinado tempo histórico. Em certa medida, toda história é contemporânea, já que o tempo histórico em que o historiador se insere ajuda a moldar o seu olhar sobre o passado. Se a primeira geração dos Annales auxiliou no entendimento do tempo histórico, foi com a segunda geração que as concepções sobre o tempo foram aprimoradas. Braudel (2007) apresenta uma nova concepção sobre a dimensão temporal na história a partir de sua tripartição: curta, média e longa duração. A curta duração refere-se ao “[...] tempo breve, ao indivíduo, ao evento” (BRAUDEL, 2007, p. 44), marcados por acontecimentos delimitados cronolo- gicamente dentro de uma sociedade. Pode ser de dias, meses ou alguns anos, e estão, portanto, datados historicamente. A média duração é o tempo conjuntural, das décadas. Para Braudel, a média duração funcionava como uma espécie de contraponto à curta duração — que pertencia ao campo da história factual. Insere-se neste campo a Nova História Econômica e Social, para a descrição das oscilações dos preços, variações de taxas de juros, progressões demográficas, entre outras. Já a longa duração é de caráter estrutural e corresponde ao tempo dos séculos. O tempo da longa duração está presente nas mentalidades e na arqui- tetura, por exemplo, e representa a expressão mais lenta da mudança — ou permanências — do tempo histórico. Membro da terceira geração dos Annales, Philippe Ariès (1989) é provavel- mente o maior expoente a discutir a noção do tempo histórico. De acordo com o historiador, a melhor percepção que se pode ter do tempo está na dicotomia entra presente e passado, “[...] ou, ainda, na distinção entre as várias estruturas entre si, consideradas sob a perspectiva de estruturas totais e fechadas que se sucedem” (BARROS, 2018, documento on-line). Fora do movimento dos Annales, há outras importantes discussões sobre o tempo. Um autor pouco abordado no Brasil é Robert Berkhofer Junior (1931–2012). O historia- dor americano sugere que o uso da temporalidade pelos historiadores implica duas dimensões básicas: o tempo físico (externo e natural) e o tempo subjetivo (dimensão interna e sujeita às questões da cultura). A construção do tempo histórico4 Explicação de tempo cronológico Segundo o dicionário Michaelis Online ([2019], documento on-line), a defi nição geral de tempo corresponde a “Período de momentos, de horas, de dias, de semanas, de meses, de anos etc. no qual os eventos se sucedem, dando-se a noção de presente, passado e futuro”. Em linhas gerais, o tempo cronológico é aquele que pode ser contabili- zado e agrupado em unidades que já conhecemos, pois são utilizadas em nossa sociedade – dias, semanas, meses, anos, séculos e milênios. Pode ser entendido, portanto, como o tempo do relógio e do calendário. Muito embora, como você já deve ter observado, a escolha de um parâmetro temporal esteja relacionada à cultura e ao processo histórico, o tempo cronológico é dotado de uma materialidade e possui regularidade, previsibilidade e estabilidade, utilizando medidas exatas para aferir o tempo com rigor e precisão. Elias (1998, p. 4) delimitou os relógios como “[...] processos físicos que a sociedade padronizou, decompondo-os em sequências-modelo de recorrência regular, como as horas ou os minutos”. Você já leu no subtópico anterior que a divisão e a organização do tempo fazem parte de um processo civilizador, no Na visão de Berkhofer, a grande falha do historiador está em utilizar poucas variedades analíticas possíveis na leitura do tempo físico ou mensurável, que estaria normalmente vinculado ao seu caráter meramente contextual e explicativo, numa espécie de cenário no qual o objeto maior está localizado (CARDOSO, 1988. p. 35–36). O Quadro 1 resume essa concepção. Fonte: Adaptado de Cardoso (1988). Tempo Físico Tempo Subjetivo Da natureza Da cultura Externo Interno Linear, irreversível, matemático Heterogêneo, descontínuo Quadro 1. Proposta das dimensões básicas do uso da temporalidade pelos histo- riadores segundo Robert Berkhofer Jr. 5A construção do tempo histórico qual medidas foram arbitrária e culturalmente demarcadas, com o propósito identificá-lo. No entanto, é possível estudar o tempo de forma objetiva. Em nossa percepção humana, o tempo pode ser localizado em três etapas principais: o instante, a anterioridade e a posterioridade. O instante corres- ponde ao momento de enunciação e fala do sujeito e, por ser dinâmico, passa tão rapidamente que se torna impossível manter-se nele. É a partir do instante que estão definidos os parâmetros de anterioridade — aquilo que aconteceu antes do instante — e de posterioridade — situado após o instante enquanto referencial. Aristóteles (384 a.C.–322 a.C.), logo no início do Capítulo 10 do Livro IV de Física, começa por perguntar se o tempo existe e, se sim, qual a sua natureza (ROARK, 2011). Ao abordar a temática, o filósofo considera como certo que ele é composto de um passado que já não é e por um futuro que ainda não é. O presente seria a divisão entre passado e futuro, e, apesar de não fazer parte do tempo, corresponderia ao que chamamos de realidade. Dando sequência à opinião de Platão, que o ligava ao movimento dos astros, ao menos uma coisa parece certa: ele está vinculado ao movimento (REIS, 1996). Para um estudante de história de uma instituição de ensino superior, pode parecer despropositado dialogar com a física, mas os campos científicos estão mais interligados do que se imagina. O conhecimento — apesar de divididos em áreas de saber específicas — não pode ser compartimentalizado de forma estanque, pois a realidade em que vivemos não é tão bem delimitada quanto imaginamos. Sendo assim, ao tratar do tema do tempo cronológico, o diálogo com outras ciências vem a acrescentar ao entendimento do historiador, apri- morando, assim, seu ofício. Desde Aristóteles, passando por Isaac Newton (1643–1727) e chegando à visão da relatividade postulada por Albert Einstein (1879–1955), a forma como o tempo cronológico era entendido foi alvo de estudos. Na tradição ocidental, filósofos e cientistas esforçaram-se por produzir reflexões, fórmulas e postu- lados sobre sua natureza e materialidade. Apesar de tradições diversas — e muitas vezes divergentes — no campo de estudos da física, essa discussão tem avançado bastante e abalado as concepções humanas do como encarar tempo, chegando à Teoria da Relatividade de Einstein e às novas propostas estabelecidas pelo britânico Stephen Hawking(2015). A construção do tempo histórico6 O físico inglês Stephen Hawking (1942–2018), autor de Uma breve história do tempo e O universo numa casca de noz, dialoga com a ideia do físico alemão erradicado nos Estados Unidos Albert Einstein (1879–1955). Em 1905, Einstein descobriu que o tempo não corre da mesma maneira em todos os lugares e, se um relógio está parado, seus ponteiros avançam mais rápido em comparação a um relógio em movimento. A partir de instrumentos que possibilitam observar elementos muito pequenos (na casa de 10–33 milímetros), é exequível identificar importantes fenômenos para a compreensão de objetos ainda inexplicáveis, tais quais os buracos negros. Hawking ainda observa que a nossa noção temporal de uma seta que aponta do passado para o futuro encontra correspondência na noção física de passagem do tempo pelo critério da entropia. A segunda lei da termodinâmica afirma que a desordem do universo, sua entropia, sempre aumenta do passado para o futuro, e nunca o inverso. Assim, o físico sustenta que há não apenas uma seta do tempo termodinâmica como também uma seta do tempo psicológica, pela qual podemos lembrar do passado, mas nunca do futuro (HAWKING, 2015). A filósofa húngara Agnes Heller (1981, p. 53) dedicou um subtópico de sua obra Uma teoria da história apenas para discutir as relações entre passado, presente e futuro: Toda recordação do que passou é uma interpretação: reconstruímos nosso passado. As experiências que tivemos, nossos interesses, sinceridade e in- sinceridade, tudo isto modifica aquilo que reconstruímos, o modo pelo qual o fazemos e o tipo de significação que atribuímos ao passado reconstruído. Em síntese, mudamos nosso passado através da interpretação seletiva. A partir da valorização da experiência, a qual Heller (1981) considera importante e estruturante com relação à construção do passado, a historiadora alemã defende que o presente é fundamental neste processo, pois é nele que atribuímos sentido ao que vivemos anteriormente. Isso posto, o passado passa no presente por um processo de ressignificação, onde ele pode ser, inclusive, alterado e modificado. 7A construção do tempo histórico Com relação à história, a disciplina mais adequada ao diálogo quanto a postulados teóricos a respeito da noção de tempo é a filosofia. Em função das dificuldades no tocante à definição do conceito na sua totalidade e de forma absoluta, filósofos reconhecem que a maneira mais fácil de se apro- ximar do conceito é de forma enviesada, a partir de noções correlatas como temporalidade e duração, processo e evento e continuidade e ruptura. (BARROS, 2014). Na Figura 2, você pode conferir cada um desses conceitos e sua dimensão. Figura 2. Conceitos relacionados ao tempo, segundo Barros. Fonte: Adaptada de Barros (2014). No esquema proposto por Barros (2014), é possível verificar conceitos regularmente utilizados em obras historiográficas. Mediante a identificação e definição de cada um deles, é possível tomar maior consciência de como o tempo é dimensionado nas pesquisas da área de história. A noção de temporalidade refere-se à dimensão humana do tempo, através da qual o tempo adquire sentido. O conceito pode ser identificado quando os historiadores começaram a utilizá-lo na acepção de seus recortes (Anti- guidade, Medievalidade, Modernidade e Contemporaneidade). O processo A construção do tempo histórico8 de identificação de uma temporalidade corresponde, portanto, a percebê-la simbolicamente, a fim de operacionalizá-la (BARROS, 2014). Já a noção de duração refere-se ao ritmo, ao modo e à velocidade como ocorre uma transformação no tempo, bem como aos elementos que se manti- veram até serem suplantados por algo novo. A percepção da duração é distinta, pois há um “tempo interno” (sentido e percebido subjetivamente). Em alguns casos, a mudança ocorre num ritmo mais curto, enquanto noutras pode ser percebida variando mais lentamente (BARROS, 2014). Os conceitos de processo e evento também são caros à ciência histórica. Evento e processo são aparentemente complementares; enquanto o primeiro remete-se ao acontecimento, o outro alude a uma sucessão de fatos com uma lógica interna que fazem parte de um todo, em função do seu desenrolar (BARROS, 2014). Por último, temos os conceitos de ruptura e continuidade. Se por um lado uma das principais marcas da disciplina é a mudança, por outro a permanência de elementos também se faz presente. No debate sobre a duração, é possível observar que a duração braudeliana, por exemplo, é marcada por sinais de ruptura (curta duração), mas também pela conti- nuidade (longa duração). A passagem do tempo a partir da contagem dos séculos O tempo cronológico também é objeto de estudo do historiador. O entendimento de como as sociedades humanas compreendiam a passagem do tempo e de que forma organizavam meios e métodos para mensurá-lo coopera para um constante exercício de alteridade de como a nossa sociedade enxerga — e lida com — seu próprio tempo histórico. Como a história tem como alvo não apenas as sociedades longínquas no tempo, mas também aquelas que dialogam com o próprio tempo histórico do historiador, a modalidade denominada de História do Tempo Presente tem estado cada vez mais em evidência, sobretudo desde finais dos anos 1980. Das relações e discussões entre o tempo cronológico e o tempo histórico, a disciplina organizou os seus próprios parâmetros com o objetivo de medir e estudar as diferentes temporalidades. Para fins didáticos e organizacionais, portanto, os currículos da disciplina precisam ser estruturados em extensos períodos — que servem como espécie de norteadores — vinculados, porém, a temporalidades específicas. Portanto, o entendimento quanto ao estudo e, 9A construção do tempo histórico consequentemente, à organização da passagem do tempo não está pautado em elementos universais, mas a partir da eleição de marcos de temporais. Apesar de não ser alvo de estudos e reflexões quanto à periodização da disciplina, a passagem dos séculos seria uma maneira dos historiadores me- lhor aferirem o desenrolar mais ou menos total dos fatos, além de uma visão de conjunto dificilmente possível para quem se encontra inserido na área de acontecimentos (FONSECA, 1967). Nos debates acadêmicos atuais, os filó- sofos e pesquisadores estão mais interessados em desconstruir e relativizar a maneira como a periodização da história é concebida do que em explicar como isso foi feito. Entretanto, tal divisão é a maneira principal como os currículos da disciplina estão orientados e, mesmo reconhecendo que essas formas de organização não são absolutas, é importante entender como isso é estabelecido. A partir da organização do tempo mediante a contagem dos séculos, surgem algumas indagações: como dividir a história? De que maneira organizar o tempo e quais critérios utilizar para estruturação da história? É importante salientar que a prática de estabelecer recortes remonta a tempos remotos e que cada sociedade desenvolve seu próprio modo peculiar de divisão histórica e temporal. Tomemos como base, por exemplo, o caso do nosso país, para o qual há quatro grandes eixos principais: período pré-cabralino (anterior a 1500), período colonial (1500–1822), período imperial (1822–1889) e período republicano (1889–). Repare que neste caso específico estamos referenciando um único país e que para cada eixo histórico foram estabelecidos marcos específicos, referentes a rupturas políticas. No entanto, como funcionaria essa organização do ponto de vista global/universal? Seria essa missão possível? Cabe adiantar que não existem marcos que possam ser identificados como naturais ou a priori e que todos eles foram organizados posteriormente. Dessas disputas quanto à divisão da história em períodos, épocas ou idades, nasce a periodização da história. Nesse contexto, “realistas” e “convencio- nalistas” foram os protagonistas no tocante à divisão da disciplina.Sobre as duas correntes, Cardoso (1988, p. 32) afirma que: A primeira afirma que a periodização provém necessariamente da própria natureza do objeto de pesquisa: os períodos, quando estabelecidos de maneira adequada, seriam, portanto, um reflexo fiel da realidade história. A segunda acredita, pelo contrário, que a história é um devir ou movimento constante, ininterrupto, e que qualquer periodização é arbitrária — podendo justificar-se unicamente por razões didáticas e pragmáticas. Pela perspectiva dos realistas, há uma periodização correta para cada delimitação de um objeto de pesquisa, cabendo aos pesquisadores encaixá-la A construção do tempo histórico10 adequadamente. Já os convencionalistas, partindo da ideia de que toda forma de periodização é imperfeita e de pouca base científica, sustentam que a sociedade é marcada por estruturas em diferentes níveis e que essa forma de organização serve puramente para auxiliar em aspectos didáticos e formais. Desse modo, os períodos históricos surgem como formas de evidenciarmos “[...] transformações de técnicas, produção, estilos de vida, mentalidade e ideias de comunidade nacionais ou mesmo universal” (FONSECA, 1967, documento on-line). É importante ressaltar que toda e qualquer forma de divisão é baseada em escolhas, em critérios específicos e histórico-culturais. As diferenças com relação à organização da disciplina entre as escolas de tradição germânica, francesa e anglo-saxônica são expressivas e estabelecidas a partir de seus próprios marcos historiográficos quanto ao estudo das sociedades humanas. Malgrado os debates em torno dessa divisão e das divergências com relação à sua adoção, os principais eixos temporais vinculados aos estudos de história no Ocidente estão vinculados ainda a quatro grandes períodos: Antigo (c. 4.000 a.C.– 476 d.C.), Medieval (476–1453), Moderno (1453–1789) e Contemporâneo (1789–). Cada um desses marcos estabelecidos corresponde a eventos ou episódios específicos que, na concepção dos historiadores franceses do século XIX, teriam sido responsáveis por identificar o fim de um período e o advento de novos tempos. A Antiguidade corresponderia do surgimento da escrita até a queda do Império Romano do Ocidente; o Medievo se estenderia daí até o episódio da conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos; a Modernidade encerrar-se-ia com a Revolução Francesa e seus impactos sobre os rumos na Europa e nas Américas, dando início assim à chamada Idade Contemporânea. Mesmo com da nossa tradição americana no estudo das sociedades pré- -cabralinas e pré-colombianas e com a inserção da disciplina de História da África como obrigatória nos currículos escolares desde 2008, esse é o modelo adotado ainda nas principais universidades brasileiras, fruto da influência eu- rocêntrica — principalmente francófona — em nossa tradição historiográfica. Dentro dessa lógica, como ficam as sociedades pré-colombianas e as civili- zações do Extremo Oriente como China e Índia? A tentativa de livros didáticos de aproximar os povos da América Pré-Colombiana com as sociedades do Antigo Oriente Próximo, estabelecendo comparáveis no tocante à invenção da escrita representam, por exemplo, uma forma de encaixá-las na lógica segundo a qual a História Europeia Ocidental foi organizada (VAINFAS et al., 2016). Nesse trâmite, o conceito de temporalidade é o principal norteador dessa divisão, pois é ele quem atesta, a partir da passagem do tempo e tomando como base a tradição europeia, como esses recortes serão estabelecidos. 11A construção do tempo histórico No caso específico da Educação Básica, seja ela no Ensino Fundamental ou Médio, a história é abordada como a disciplina que estuda as mudanças no tempo. Com relação ao uso da temporalidade, a proposta da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apresenta que a “[...] relação passado/presente não se processa de forma automática, pois exige o conhecimento de referências teóricas capazes de trazer inteligibilidade aos objetos históricos selecionados” (BRASIL, 2018, documento on-line). Partindo dessa premissa, fica claro que a proposta da disciplina como componente curricular é suscitar discussões sobre o passado, seja ele longínquo ou mais próximo da temporalidade atual, a partir das suas interpolações com o presente. O agrupamento dos conteúdos por períodos (Antigo, Medieval, Moderno e Contemporâneo) ainda é a principal ferramenta para a compreensão da passagem do tempo nas sociedades humanas, identificadas por determinadas características que as compunham. Mesmo com a proposta da BNCC em aproximar diferentes sociedades no tempo — afinal, qual é a semelhança entre a sociedade brasileira do século XXI e as sociedades da Mesopotâmia em 3.000 a.C., por exemplo — a dimensão temporal não pode ser ignorada na disciplina, pois, caso contrário, ela perderia seu principal norteador. Mesmo adotando a divisão histórica em temporalidades específicas, é sempre bom lembrar que os grupos humanos foram constantemente suscetí- veis a trocas culturais, sendo praticamente impossível pensar em sociedades 100% fechadas e avessas a qualquer forma de contato. Mesmo com a divisão em períodos extensos marcados por séculos, a história compreende que essa divisão não é pura e absoluta, mas passível de considerações e críticas diversas. O professor Paulo Duarte Silva, do Instituto de História da UFRJ, pesquisou em sua tese de doutorado, defendida pelo PPGHC–UFRJ, o processo de formação do calendário cristão nos séculos V e VI, em compasso com o fortalecimento da autoridade cívica episcopal no Ocidente. O autor destaca especialmente em sua pesquisa as festas cristãs relativas aos ciclos temporais do Natal e da Páscoa, comparando a pregação de Leão de Roma (440–461) e de Cesário de Arles (502–542). Seu trabalho é um exemplo do estudo do tempo como o próprio objeto de análise. Caso queira acessar sua tese completa, ela está disponível no link a seguir. https://qrgo.page.link/2qMVa A construção do tempo histórico12 ARIÈS, P. O tempo da história. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989. BARROS, J. D. A historiografia e os conceitos relacionados ao tempo. Dimensões, v. 32, p. 240–266, 2014. Disponível em: http://www.periodicos.ufes.br/dimensoes/article/ view/8336. Acesso em: 8 ago. 2019. BARROS, J. D. Os historiadores e o tempo: a contribuição dos Annales. Cadernos de História, v. 19, n. 30, p. 182–210, 2018. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/ index.php/cadernoshistoria/article/view/16344. Acesso em: 8 ago. 2019. BLOCH, M. Apologia a história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria Executiva. Secretaria da Educação Básica. Conselho Nacional de Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasil: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec. gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 8 ago. 2019. BRAUDEL, F. Escritos sobre a história. São Paulo: Editora Perspectiva, 2007. CARDOSO, C. F. O tempo das ciências naturais e o tempo da História. In: CARDOSO, C. F. Ensaios racionalistas: filosofia, ciências naturais e história. Rio de Janeiro: Campus, 1988. ELIAS, N. Sobre o tempo. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. FONSECA, C. F. A. Continuidade, mudança e tempo: o problema da periodização da história e outros problemas no estudo da História. Revista de História da USP, v. 35, n. 72, p. 565–570, 1967. Disponível em: www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/126805. Acesso em: 8 ago. 2019. HAWKING, S. Uma breve história do tempo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. HELLER, A. Uma teoria da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981. MICHAELIS ONLINE. Definição de tempo. São Paulo: Editora Melhoramentos, [2019]. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/busca?id=NymPQ. Acesso em: 8 ago. 2019. REIS, J. Estudo sobre o tempo. Revista Filosófica de Coimbra, n. 9, p. 143–203, 1996. Disponível em: https://www.uc.pt/fluc/dfci/public_/publicacoes/sobre_o_tempo.Acesso em: 8 ago. 2019. ROARK, T. Aristotle on Time: A Study of the Physics. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. SOUZA, L. E. R. Aspectos formais da teoria do espaço e do tempo de Kant contidos na estética transcendental da crítica da razão pura. In: CONGRESSO KANT INTERNACIO- NAL, 10., 2008, São Paulo. Anais [...]. São Paulo: USP, 2008. Disponível em: https://sigaa. ufpa.br/sigaa/verProducao?idProducao=35274&key=bdc180aaa25437b1d96f01048c cf5cb5. Acesso em: 8 ago. 2019. VAINFAS, R. et al. História: ensino médio. Pinheiros: Editora Saraiva, 2016. v. 1. 13A construção do tempo histórico Leitura recomendada CARVALHO, E. R. A concepção holística e processual do tempo. Lua Nova, n. 103, p. 203–231, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ln/n103/1807-0175-ln-103-203. pdf. Acesso em: 8 ago. 2019. A construção do tempo histórico14 DICA DO PROFESSOR Desde os gregos, pensadores buscaram compreender a essência do tempo, bem como sua organização, sua passagem e os elementos que compunham sua relação com o ser humano. Apesar de a profissão de historiador não existir na Antiguidade e no Medievo, intelectuais da época dedicaram-se a compreender a constituição do tempo. Trabalhando com influências diversas - desde o estudo do movimento dos astros até referências bíblicas - o entendimento que o ser humano tem sobre sentido do tempo como um ente diz muito sobre o período histórico em que ele se insere. A seguir, na Dica do Professor, conheça alguns pensadores de origem grega e do período medieval que proporcionaram contribuições importantes sobre a discussão do tempo. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) As discussões sobre o tempo histórico propostas por Fernand Braudel, membro da segunda geração da Escola dos Annales, promoveram transformações na forma como os historiadores entendiam a dimensão de diferentes tempos e sua relação com o ritmo vivenciado em diferentes temporalidades. A influência dessa concepção pode ser entendida na seguinte afirmativa: A) As dimensões do ritmo podem ser identificadas na curta e na longa duração, as quais ditam os principais aspectos das mudanças e das permanências. B) A existência de três percepções sobre a passagem do tempo numa mesma temporalidade a partir da curta, média e longa duração. C) A identificação de três tempos: curta, média e longa duração, porém em temporalidades distintas. D) As durações remetem aos ritmos identificados, sendo que estes não são influenciados por questões socioculturais e históricas. E) A existência de diferentes tempos é apenas a partir da perspectiva do historiador, pois o sujeito histórico jamais consegue identificar ritmos distintos. 2) O tempo não é apenas um dado físico e natural. As distintas leituras sobre a concepção de tempo e em como elas sofreram variações atestam a diversidade na maneira como o tempo foi visto ao longo da história. Desde autores gregos até a contemporaneidade, o tempo foi objeto de estudo de filósofos, historiadores e físicos. Sobre a dimensão do tempo cronológico, marque a alternativa correta: A) Ocorre da mesma forma em todos os lugares. B) Pode ser dividido dois blocos principais: passado e presente. C) É dotado de materialidade e não está vinculado a formas culturais. D) Os conceitos de temporalidade, duração e processo, apesar do uso no vocábulo historiográfico, não se aplicam a dimensão do tempo cronológico. E) A dificuldade em compreender o tempo de forma objetiva impeliu o uso de acepções que tangenciaram seu vocábulo. 3) O historiador francês Marc Bloch, integrante do movimento da Escola dos Annales, foi responsável por importantes contribuições no campo da Teoria da História e na forma como os historiadores compreendem o tempo. Dentre os escritos de Bloch sobre o tempo histórico, podemos destacar: A) Os tempos passado, presente e futuro estão interligados e influenciam-se mutuamente. B) A história é dotada de tempos múltiplos numa mesma temporalidade. C) Diferença entre o tempo físico (natural) e o subjetivo (dimensão cultural). D) Pode ser dividido em curta, média e longa duração. E) Está dividido em quatro grandes temporalidades: Antiguidade, Medievo, Modernidade e Contemporaneidade. 4) "Diz-se algumas vezes: "A história é a ciência do passado". É [no meu modo de ver] falar errado. [Pois, em primeiro lugar,] a própria idéia de que o passado, enquanto tal, possa ser objeto de ciência é absurda. Como, sem uma decantação prévia, poderíamos fazer, de fenômenos que não têm outra característica comum a não ser não terem sido contemporâneos, matéria de conhecimento racional? Será possível imaginar, em contrapartida, uma ciência total do Universo, em seu estado presente?"(BLOCH, 2001) Em sua obra Apologia da História ou Ofício do Historiador, Marc Bloch faz uma série de reflexões a respeito do fazer historiográfico, dentre elas a discussão do objeto de estudo da disciplina e sua relação com o tempo. Sobre a Ciência Histórica e o tempo, pode-se afirmar que: A) A História destina-se apenas a estudar o passado e, assim, o presente não faz parte do seu escopo de análise. B) O historiador pode estudar o tempo apenas como categoria analítica. C) A disciplina organiza seus currículos a partir das relações entre tempo histórico e tempo cronológico. D) A corrente realista na história identifica a periodização como arbitrária. E) A corrente convencionalista defende a periodização e provém de um reflexo fiel da realidade histórica. 5) "Outro exemplo: o papa Gregório XIII resolveu proceder a uma revisão do calendário juliano, porque, no correr dos séculos, o equinócio da primavera, do qual, no ano de 325, o concílio de Niceia fizera depender a festa de Páscoa, havia-se deslocado paulatinamente de 21 para 11 de março. Uma bula papal suprimiu dez dias do ano de 1552, decidindo que o dia seguinte a 4 de outubro seria 15 de outubro, e não 5. Essa reforma gregoriana da reforma do antigo calendário romano feita por Julio César constituiu, até hoje, a última tentativa de estabelecer um sistema de calendário em que o ano social não se desviasse demais, no correr dos séculos, do “ano natural”, isto é, do tempo que o Sol — considerado em sua relação com homens espectadores e centros de referência — leva para retornar a um ponto do céu escolhido por eles como ponto de partida." (ELIAS,1998) Sobre as relações entre tempo histórico e tempo cronológico, é possível afirmar que: A) É inerente à atividade do historiador, mas é possível pesquisar em História sem utilizar tal categoria. B) Os calendários e os relógios, organizados de forma objetiva, não tem relação com a cultura. C) As concepções de Kant sobre o tempo influenciaram autores positivistas. D) Fora do tempo, não é possível explicar os fenômenos sociais. E) A compreensão do tempo histórico passa pela relação entre presente e futuro. NA PRÁTICA Agora, vejamos como o historiador lida com o seu próprio tempo histórico na produção do conhecimento. Afinal, a História deve se dedicar apenas ao passado ou ela também pode estudar o presente? Como você já deve ter observado, ao investigar as sociedades humanas, a variável "tempo" precisa ser destacada, ou seja, deve ser considerado o recorte estabelecido pelo historiador na circunscrição do seu objeto de estudo, como faz o historiador que trabalha com eventos muito próximos ou, até mesmo, ainda em curso. A seguir, no Na Prática, veja mais sobre essa modalidade denominada pela historiografia como História do Tempo Presente. SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: O museu como local de aprendizagem e o tempo histórico Leia o artigo de Ricardo de Aguiar Pacheco, "O Museu como lugar de aprendizagem: o tempo histórico", apresentado no XXVIII Simpósio Nacional de História em Florianópolis (SC). Nele, o autor apresenta como os museusnos dias de hoje representam mais do que a ilustração de eventos e sua cronologia, proporcionando ao visitante a experiência com o tempo histórico. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Tempos na história, tempos da história Veja a entrevista com o historiador João Paulo Pimenta, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, na qual ele comenta sobre o tempo histórico e conceitos históricos, destacando a importância de se dialogar teoria e empiria na pesquisa em História. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! O conceito de modernidade APRESENTAÇÃO O conceito de modernidade pode ser analisado apartir da pretensão de rejeitar a tradição, submetendo tudo ao exame crítico da razão e à experimentação criativa.Por isso, há uma tendência para um dinamismo e uma mudança incessantes, para o questionamento das próprias conquistas, para abusca contínua de inovações. Nesse sentido, ao estudar o conceito de Modernidade, outros conceitos fundamentais em nossos estudos sofrem transformações significativas no contexto da modernidade, como, por exemplo, a nova representação de temporalidade, a história universal, a crítica da razão e do sujeito na ideia do progresso. Nesta Unidade de Aprendizagem, você irá conhecer a ideia de modernidade e a busca pela racionalização, relacionará o sentido histórico à nova representação da temporalidade. Além disso, comparará o conceito de história universal à crítica da razão e do sujeito. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Desenvolver a ideia da modernidade e sua busca pela racionalização.• Relacionar o sentido histórico à nova representação da temporalidade.• Comparar o conceito de história universal à crítica da razão e do sujeito.• DESAFIO A modernidade é um período de tempo que se caracteriza pela realidade social, cultural e econômica vigente no mundo. Ao tratar da era moderna, pré-moderna ou ainda pós-moderna, faz-se referência à ordem política, à organização de nações, à forma econômica que essas adotaram e inúmeras outras características. O termo modernidade já é tão naturalizado linguisticamente que passou a ter o mesmo contexto de contemporâneo, o que coexiste em um mesmo período de tempo. Mas será que esse pensamento corresponde à definição de modernidade? Você é professor do Ensino Médio da disciplina de História. Em uma de suas aulas sobre as características da modernidade e da pós-modernidade, a turma inicia alguns questionamentos, e você percebe que eles ainda têm muitas dúvidas em relação ao tema. É necessário, por isso, esclarecer-lhes as características de cada qual. Diante dos questionamentos realizados em aula, ajude seus alunos questionando-se: a) Como eles podem identificar se a modernidade se estende até os dias atuais? b) Como eles podem encontrar características da modernidade nos tempos atuais? INFOGRÁFICO Modernidade refere-se a estilo, costume de vida e/ou organização social que emergiram na Europa e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência. A época moderna surge com a descoberta do Novo Mundo, o Renascimento e a Reforma (século XV e XVI), desenvolve-se com as Ciências Naturais no século XVII, atinge seu clímax político nas revoluções do século XVIII, desenrola suas implicações gerais após a Revolução Industrial do século XIX e termina no limiar do século XX. O Infográfico apresentará o conceito de modernidade sob o enfoque de duas perspectivas. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! CONTEÚDO DO LIVRO O conceito de modernização refere-se a um conjunto de processos cumulativos e de reforço mútuo: formação de capital e mobilização de recursos; desenvolvimento das forças produtivas e aumento da produtividade do trabalho; estabelecimento do poder político centralizado e formação de identidades nacionais; expansão dos direitos de participação política, das formas urbanas de vida e da formação escolar formal; secularização de valores e normas. Sem dúvida, a modernidade trouxe muitas transformações atinentes à humanidade, que impactam até hoje na nossa realidade, no nosso modo de viver, relacionar-se e atuar sobre o mundo, sobretudo no aspecto relacionado à temporalidade, transformada sob a perspectiva da Revolução Industrial, por exemplo. Dessa maneira, a história universal passou a ser analisada sob a ótica da crítica da razão, contextualizada por grandes teóricos como Kant e Hegel e suas complexidades, bem como sob a generalização da história e a transformação das ideias de providências para a ideia da razão pura, a qual conduziu ao processo e à ideia de progresso da humanidade. No capítuloO conceito de modernidade, da obra Teoria da História e Historiografia, você compreenderá o contexto, a ideia de modernidade e a busca pela racionalização, relacionada ao sentido histórico à nova representação da temporalidade, comparada ao conceito de história universal à crítica da razão e do sujeito (ideia de progresso), sendo essas grandes teorias que constituíram os tempos modernos. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Simone de Oliveira O conceito de modernidade Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Desenvolver a ideia da modernidade e sua busca pela racionalização. Relacionar o sentido histórico à nova representação da temporalidade. Comparar o conceito de história universal à crítica da razão e do sujeito. Introdução É interessante para a sociedade atual compreender o surgimento das ideias de modernidade, assim como seus fundamentos, entre eles a racionalização. A modernidade acabou por trazer grandes conquistas para a humanidade, marcando a própria evolução do ser humano de um contexto e sistema teocrático para uma organização de mundo racional. Ela acabou por favorecer a construção e o fortalecimento de um mundo mais democrático, em que os direitos humanos devem ser respeitados. Além disso, o grande avanço técnico-científico garantiu maior bem-estar à sociedade e uma reorganização com base na racionalização dos processos sociais, políticos, econômicos, entre outros. Neste capítulo, você estudará o contexto da ideia de modernidade e sua busca pela racionalização, relacionada ao sentido histórico de nova representação da temporalidade, comparada ao conceito de história universal à crítica da razão e do sujeito (ideia de progresso), sendo essas grandes teorias que constituíram os tempos modernos. A ideia de modernidade e sua busca pela racionalização Para iniciarmos nossas refl exões sobre ideia de modernidade e sua busca pela racionalização, precisamos compreender o conceito em si. Nesse sentido, é relevante lembrar que a conceitualização de modernidade pode ser analisada a partir de diferentes perspectivas, resultando em noções distintas se, por exemplo, partirmos dos conhecimentos da sociologia ou da história em nossa análise. Assim, quando falamos em modernidade sob o prisma da história, algumas pessoas podem lembrar da divisão clássica e tradicional dos períodos históricos: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Já na perspectiva sociológica, a modernidade não se defi ne como um período, mas se estende até os dias atuais, porque a sua conceitualização revela-se na complexidade do desmanche dos laços da tradição e da religião. Para Max Webber (1982), sociólogo alemão, a modernidade tem seu início marcado em 1517 pela Reforma Protestante, que rompe com as tradições religiosas exclusivas da Igreja Católica Apostólica Romana, constituídas na Idade Média com base no poder religioso, político, social e econômico. Giddens (1991) corrobora Webber quanto ao conceito e ao nascimento da modernidade, apresentando como estilo um costume de vida ou organização social que emergiu na Europa e que ulteriormente setornou mais ou menos mundial em sua influência. Assim, a época moderna surge com a descoberta do Novo Mundo, o Renascimento e a Reforma (séculos XV e XVI), desenvolve-se com as ciências naturais no século XVII, atinge seu clímax político nas revo- luções do século XVIII, desenrola suas implicações gerais após a Revolução Industrial do século XIX e termina no limiar do século XX. Ainda podemos analisar a conceitualização dada por Habermas (2002), que analisa o conceito de modernização como um conjunto de processos cumu- lativos e de reforço mútuo: a formação de capital e mobilização de recursos; o desenvolvimento das forças produtivas e o aumento da produtividade do trabalho; o estabelecimento do poder político centralizado e a formação de identidades nacionais; a expansão dos direitos de participação política, das formas urbanas de vida e da formação escolar formal; e a secularização de valores e normas. Numa primeira e rápida leitura, o conceito de Habermas pode nos parecer um pouco distante das demais definições apresentadas. Contudo, o que autor fala sobre a formação de capital e mobilização de recursos e sobre o desen- volvimento das forças produtivas e aumento da produtividade do trabalho refere-se claramente ao rompimento com o antigo sistema medieval, pautado O conceito de modernidade2 na religião e suas doutrinas, e ao advento da Reforma Protestante, que valoriza as profissões, pois a salvação divina era sinalizada pela ofício de cada um, sendo que o dinheiro adquirido deveria ser investido para gerar mais dinheiro, conforme a teoria calvinista. A Reforma Protestante foi um movimento reformista cristão culminado no início do século XVI por Martinho Lutero (1483–1546), na Alemanha. A Reforma Protestante se espalhou pela região e teve rápida aceitação em vários países. Enquanto na Alemanha a reforma era liderada por Lutero, na França e na Suíça a Reforma teve como líderes João Calvino (1509–1564) e Ulrico Zuínglio (1484–1531). Na França e nos Países Baixos, os adeptos foram chamados de huguenotes, na Inglaterra, de puritanos, e na Escócia, de presbiterianos. A Figura 1 exibe o Mur des Réformateurs, em Genebra, que traz a imagem de Guillaume Farel, João Calvino, Théodore Bèze e John Knox, todos figuras importantes da Reforma Protestante. Figura 1. Mur des Réformateurs, ou Muro dos Reformadores, em Genebra, Suíça. Fonte: Elenarts/Shutterstock.com. Podemos observar a partir das conceitualizações apresentadas que a modernidade se constituiu principalmente em função da pretensão de rejeitar a tradição e submeter tudo ao exame crítico da razão e da expe- rimentação. É claro que a tradição persistiu em outros âmbitos da vida, numa dinâmica constante, com questionamentos sobre suas conquistas e 3O conceito de modernidade na busca contínua pela inovação. Seja como for, o conceito de modernidade foi fortalecido por alguns fatos que marcaram a humanidade, tais como a Reforma da Igreja, a descoberta da América, inaugurando uma nova visão de mundo, e a invenção do telescópio, que possibilitou a construção das novas concepções científicas. Conforme Weber (1982), uma das principais características que alicerça- ram a modernidade ocidental foi a racionalização. Mas o que realmente seria a “racionalização” e, sobretudo, o “processo de racionalização”? De certa forma, podemos dizer que entender a racionalização é entender o mundo moderno. Para Weber (1982), existe uma relação profunda e complexa entre ambos os aspectos, devido a alguns fatores advindos da modernidade, como o capitalismo e o estado, que são exemplos de racionalização. Enfim, podemos observar que a marca da modernidade é a racionalização. Nesse contexto, para conceitualizarmos a racionalização: Temos de lembrar-nos, antes de qualquer coisa, que “racionalismo” pode significar coisas bem diferentes. Significa uma coisa se pensarmos no tipo de racionalização que o pensador sistemático realiza sobre a imagem do mundo: um domínio cada vez mais teórico da realidade por meio de conceitos cada vez mais precisos e abstratos. O racionalismo significa outra coisa se pensarmos na realização metódica de fim, precisamente dado e prático, por meio de um cálculo cada vez mais preciso dos meios adequados. Esses tipos de racionalismo são muitos diferentes, apesar do fato de que em última análise estão inseparavelmente juntos (WEBER, 1982, p. 337). Nesse sentido, o termo “racional” pode ser entendido como uma “dis- posição sistemática”. A racionalização pode ser compreendida como uma ação sistemática e metódica, ou seja, para atingir um objetivo, se age metodicamente com intuito de alcançá-lo. No entanto, no mundo raciona- lizado, são as figuras do capitalista e do político que demonstram como se dá esse processo na modernidade, sem que se precise recorrer a qualquer base religiosa para suas ações, ou seja, há uma “[...] ausência de metafísica religiosa e de quase todos os resíduos de ligação religiosa” (WEBER, 1982, p. 337). Com isso, a realidade moderna cada vez mais se racionaliza. É importante lembrar que Weber não propunha o conceito de racionalização como uma característica pertencente a um progresso universal, como se a razão proporcionasse uma verdadeira justiça ou virtude, sendo melhor ou pior que o contexto da Idade Medieval. Podemos analisar que a racionalização só se torna uma característica conhecida da ação num mundo moderno na medida em que se incorpora às O conceito de modernidade4 instituições e interpretações culturais e às estruturas da personalidade. Esta última pode ser percebida na passagem do protestante ao capitalista. En- quanto um agia sob o manto das ordens divinas, com seu trabalho organizado racionalmente, o outro age sem qualquer base religiosa, restando somente a racionalização do trabalho, e assim passa a surgir um ser humano político. Portanto, o termo racionalização é utilizado para designar o processo mediante o qual acontece essa incorporação. Em síntese, podemos dizer que não resta dúvida de que a modernidade trouxe grandes conquistas. Isso é inegável. Ela acabou por favorecer a cons- trução e o fortalecimento de um mundo mais democrático, em que os direitos humanos devem ser respeitados. Além disso, o grande avanço técnico-científico permitiu um melhor bem-estar à sociedade e uma reorganização com base na racionalização dos processos sistematizados. No link a seguir, você encontrará o vídeo de uma entrevista com Antônio Flávio Pierucci, professor de sociologia da USP, que discute alguns conceitos de Weber presentes em sua obra seminal A ética protestante e o espírito do capitalismo. https://qrgo.page.link/X4yRb O sentido histórico da nova representação da temporalidade Quando pensamos em temporalidade, muitos conceitos e defi nições podem vir à nossa mente, inclusive se existem diferenças, semelhanças ou contrariedades entre tempo e temporalidade. O tempo pode ser defi nido como algo cronológico, como medida do transcorrer de dias, meses, anos etc. No entanto, a tempora- lidade utiliza os fatos do tempo, cruzando e relacionando os acontecimentos e os fatores desencadeadores, as consequências e o contexto social envolvido. Assim, ao analisamos a temporalidade na perspectiva histórica, po- demos perceber nesse conceito um dos elementos mais importantes para registrar e preservar os fatos e acontecimentos, pois sua importância pode ser percebida na narração e organização dos fatos históricos. No entanto, por si só ele é incapaz de dar sentido ao chamado tempo histórico. Essa 5O conceito de modernidade difícil tarefa, porém de extrema relevância para o trabalho do historiador, envolve realizar de maneira competente e abrangente os ensaios reunindo o futuro e o passado. É interessante observar as formas como os povos se relacionam com o passado, o que pode variar conforme a organização social e a construção dos seus processos históricos. Para Thompson (1998), as organizações sociais têm diferentes tipos de percepçõesdo passado. Sob essa ótica, as sociedades tradicionais (ou sociedades camponesas) percebem o passado, e também o tempo, de maneira cíclica. Segundo essa perspectiva, podemos dizer que o passado se reconfigura, e poderá até se repetir de diferentes formas, em ciclos. Na contemporaneidade, podemos perceber que os indivíduos têm relaciona- mentos diferentes com o tempo ou com a temporalidade. Isso ainda é possível observar nas sociedades modernas (ou sociedades urbano-industriais), que adquiriram uma compreensão linear do tempo. Nesse sentido, nas sociedades modernas, o passado é percebido como algo imutável, perdido no tempo, e nesse contexto entendemos a transformação da temporalidade e suas novas representações desde a metade do século XX. Para Alvin e Miranda (2008), a forma como o passado é visto se relaciona diretamente na temporalidade histórica e constrói formas específicas de justificar o presente. Com isso, o passado pode ser entendido como criação humana, relacionada a formas particulares de organizações sociais. Assim, em se tratando das sociedades modernas, o passado é socialmente criado com base na perspectiva do tempo linear, com marcos fixo e anteriores ao presente. Um ponto interessante que merece nossa atenção é perceber o quanto o profissional historiador utiliza o tempo e a temporalidade como sua matéria- -prima, sendo o historiador o profissional que busca fazer da história a ciência “[...] dos homens no tempo” (BLOCH, 2001, p. 55). O professor de história usa o tempo como recurso didático para a construção de representações sobre as sociedades do passado. O professor trabalha com os problemas da temporalidade para a compreensão das representações sociais compar- tilhadas pelas sociedades do passado e algumas delas, eventualmente, que permanecem no presente. O conceito de modernidade6 Diante disso, podemos perceber que o professor de história deve compre- ender as questões das temporalidades também como objeto de ensino e não apenas como ferramenta. O professor deve pensar o tempo e refletir sobre ele, para além da linearidade, sobre suas rupturas, permanências, simultaneidades, continuidades e descontinuidades, com intuito de analisar a complexidade das novas representações da temporalidade. Para Koselleck (2006, p. 13), o tempo histórico, embora esteja ligado ao tempo natural, não coincide com ele: “[...] quem busca encontrar o cotidiano do tempo histórico deve contemplar as rugas no rosto de um homem, ou então as cicatrizes nas quais se delineiam as marcas de um destino já vivido”. Além da compreensão do tempo histórico, precisamos também entender qual o sentido da nova representação da temporalidade e como ela foi sendo reconfigurada e ressignificada no decorrer do tempo nas diferentes sociedades, diferentes organizações políticas, culturais, econômicas e diferentes contextos de espaços geográficos. Koselleck (2006) apresenta em sua análise o nascimento de uma nova concepção temporal, em que algumas das suas principais transformações podem ser estudadas no contexto da modernidade. Nesse sentido, o processo de temporalização da história ocorrido durante os tempos modernos, ou seja, a transformação que se fez notar principalmente durante os séculos que separaram a Reforma Protestante da Revolução Francesa, foi um grande diferencial de compreensão sobre o conceito de temporalidade. Podemos encontrar no período da modernidade um exemplo prático das transformações e ressignificações da temporalidade: até o século XVI, a história da cristandade foi uma contínua espera pelo fim dos tempos, pela crença extraordinária no Juízo Final (Figura 2). Tal crença muniu os homens de uma mesma expectativa, funcionando não só como um fator de integração da Igreja, mas também como um fator de integração histórica — presente e passado pareciam se unir na perspectiva de um mesmo horizonte. Desta forma, experiência e expectativa eram inseparáveis em um espaço histórico que, por ser estruturalmente semelhante, era incapaz de fornecer exemplos que promoveriam o aperfeiçoamento intelectual ou moral dos povos e seus governantes (KOSELLECK, 2006). 7O conceito de modernidade Figura 2. O tempo e a cristandade — detalhe de Último Julgamento, de Jan van Eyck. Fonte: Everett - Art/Shutterstock.com. O conceito de modernidade8 Ainda utilizando o exemplo das rupturas de representação temporal do período da modernidade, podemos analisar como um dos principais fatos históricos para a construção de uma nova representação da temporalidade foi o advento das disputas religiosas da Reforma. Foi quando os pressupostos de unificação e harmonia em direção ao fim do mundo deixaram de dominar a consciência histórica ocidental, e as especulações sobre o Juízo Final perde- ram importância. Sem a presença constante das previsões apocalípticas, as expectativas deixaram de se estender para o além, e a relação com o porvir transformou-se gradativamente em prognósticos racionais. O futuro tornou- -se o campo das probabilidades e o presente, espaço de cálculo e de ações políticas, transformando a temporalidade. A modernidade inaugura um novo conceito de temporalidade, acabando por desvincular a ideia do passado e do futuro mediante a noção de “progresso da humanidade”. O novo conceito de progresso é criado no final do século XVIII, e um novo horizonte pode ser descortinado. Como uma espécie de mistura entre prognósticos racionais e previsões messiânicas, o conceito de progresso desvinculou radicalmente passado e futuro; em outras palavras, foi aberto um verdadeiro “[...] fosso entre a experiência anterior e a expectativa do que há de vir” (KOSELLECK, 2006, p. 294). Esse caráter de novidade foi fortemente acompanhado por uma visão otimista: o futuro não seria apenas novo — seria melhor. A nova percepção temporal que passa então a ser percebida é a de um tempo emancipado da cronologia, um tempo não mais vinculado apenas aos ciclos da natureza, mas que passa a caracterizar-se como uma força própria da história. Para Koselleck (2006), essa nova forma de experimentar o tempo e a temporalidade também pressupõe o surgimento de um novo conceito e uma nova concepção de história. Assim, ele considera que não houve apenas uma historicização da temporalidade, mas também uma temporalização da história. A nova percepção é de que “[...] cada época tem suas próprias condições e está em uma situação individual; as decisões devem e podem ser tomadas apenas na própria época, de acordo com ela” (HEGEL, 1995, p. 50). O ineditismo do movimento revolucionário francês permitiu que a tem- poralização da história se consolidasse, pois nada antes podia se comparar aos acontecimentos extraordinários que se seguiram a 1789; o coeficiente de mudança foi incluído nas expectativas dos agentes, os quais passaram a acreditar no papel decisivo da sua ação para o curso da história. 9O conceito de modernidade Caso você deseje se aprofundar nesse tema, pode acessar, via o link a seguir, uma rese- nha do professor Mauro Dillmann para a obra História & teoria: historicismo, modernidade, temporalidade e verdade, de 2006, de autoria de José Carlos Reis. https://qrgo.page.link/YAu8D A história universal e a crítica da razão e do sujeito Podemos iniciar nossos estudos sobre o conceito proposto nesta seção a partir das teorias apresentadas e construídas por Kant (Figura 3), um teórico importante que percebeu a história como uma ciência, apesar da subjetividade que a constitui. Ele foi um importante fi lósofo prussiano do século XVIII, e é considerado um dos mais importantes e expressivos pensadores da Era Moderna. Figura 3. Immanuel Kant. Fonte: Nicku/Shutterstock.com. O conceito de modernidade10 As teorias de Kant sobre uma história universal recebem naturalmente diferentes interpretações. No entanto, todas elas concordam em um fundamento, uma dimensão e um uso teórico da filosofia: Kant tentou transformar a história em ciência e, para fazer isso, ahistória: [...] precisa ser posta sob as leis universais da natureza, para o que ao invés da cau- salidade é posto em validade o cálculo da probabilidade. O pensamento teórico- -probabilístico coloca a escrita da história empírica na posição de descobrir uma determinada regularidade na coletividade (KLEIN, 2014, documento on-line). O conceito apresentado de uma história universal encontra a sua justificação na ideia kantiana de “dialética transcendental”, especialmente quanto ao uso regulativo das ideias da razão pura. A utilidade do conceito de história universal funcionaria como um sistema interconectado que organizaria os dados históricos e que deveria guiar os historiadores na sua investigação científica (KLEIN, 2014). Rauscher (2001 apud KLEIN, 2014), por sua vez, pretende mostrar que a distinção entre os dois tipos diferentes de história, isto é, a historiografia (Historie) e a história universal (Weltgeschichte), é finalmente problemática e que ambas poderiam ser vistas como sendo a mesma coisa. Segundo ele, todas as proposições seriam compatíveis com uma investigação histórica empírica, podendo-se concluir empiricamente que o progresso na história é real. Isso poderia ser inferido em passagens nas quais Kant afirma que a experiência poderia revelar algo a respeito do curso do mundo, a partir do que se poderia inferir o restante, tal como acontece com a revolução dos astros. Dessa forma, ao invés de Kant ter sugerido, como ele fez, que seu trabalho não visa tomar o lugar daquela história cuja composição é completamente empírica, ele deveria ter oferecido suas reflexões como uma hipótese dentro da história empírica. Portanto, uma forma legítima de descrever a posição de Kant é afirmar que ele procede a partir de considerações de razão teórica, projetando a “ideia” (ou conceito racional a priori) de um programa puramente teórico para atribuir um sentido compreensível aos fatos acidentais da história humana. Ao fim e ao cabo, existiria uma espécie de convergência com as nossas preocupações práticas, de forma a unir nosso entendimento teórico da história a nossas esperanças moral- -religiosas como seres históricos. Com isso, você pode estar se perguntando: mas, afinal, qual é o conceito de história universal? Diante do exposto, podemos considerar que a história universal é a história sendo compreendida como ciência, e que é possível contribuir de alguma forma para a expansão do conhecimento teórico a respeito dos fenômenos do mundo, o que não poderia ocorrer de outra maneira a não 11O conceito de modernidade ser seguindo em linhas gerais que a história universal deveria guiar o processo de investigação e sistematização da história empírica, de modo que a última poderia ser conduzida ao caminho seguro de uma ciência. Para Klein (2014), dentre as teorias de Kant quanto à história universal na crítica da razão e do sujeito, ele desenvolveu o que chamou de ens rationis. As linhas gerais do argumento ens rationis são as seguintes: A história universal concentra-se essencialmente no futuro; contudo, não faz parte do procedimento teórico-regulativo das ideias da razão (isto é, de uma reflexão com o propósito de auxiliar o uso sistemático e interconectado do entendimento). Assume-se que uma capacidade específica (de agir moralmente e criar instituições jurídicas justas) deva ser em algum momento distante no futuro realizada perfeitamente na espécie humana. A perspectiva de uma totalidade histórica que se concentra no futuro para alcançar um significado sistemático para as experiências passadas e presentes é, da perspectiva teórica das ideias da razão, um ens rationis. Podemos perceber que a disciplina da história enquanto história universal que inclui em sua totalidade o presente, o passado e especialmente o futuro não é um objeto de interesse teórico da razão pura. A respeito do conhecimento interconectado dos fenômenos, apenas as ideias que se referem à totalidade ascendente são consideradas necessárias para a derivação de um condicionado dado, mas não o contrário, ou seja, a série descendente (KLEIN, 2014). Nas palavras de Kant (1980 apud KLEIN, 2014, documento on-line): Se, porém, existe alguma condição dada inteiramente (e incondicionalmente), então não se precisa mais de um conceito da razão para prosseguir a série, pois o entendimento faz por si todo passo para baixo, da condição ao condicionado. Deste modo as ideias transcendentais servem somente para ascender, na série de condições, até o incondicionado, isto é, até os princípios. Todavia, com respeito ao descer ao condicionado, há um uso lógico bastante extenso que nossa razão faz das leis do entendimento, mas nenhum uso transcendental; e, se [...] formamos uma ideia da absoluta totalidade de uma tal síntese (do progressus), por exemplo, da série total de todas as mudanças futuras do mundo, trata-se então de um ente de pensamento (ens rationis), que é pensado só arbitrariamente e não pressuposto necessariamente pela razão. Com efeito, para a possibilidade do condicionado é, na verdade, pressuposta a totalidade de suas condições, mas não de suas sucessões. Nessa citação, “ens rationis” é definido por Kant como uma mera ficção não contraditória. Sendo assim, não faz parte do interesse teórico da razão O conceito de modernidade12 entender o fenômeno histórico como algo que se projeta para um futuro inde- finido. Para a história universal, isso significa que os seres humanos precisam ser considerados também como agentes livres, algo que não pode ser reduzido ou restringido ao conhecimento teórico. Podemos fazer um comparativo com o que diz Hegel (1995, p. 20) sobre a história universal à crítica da razão: “Na história universal, lidamos com indivíduos, que formam povos, e com totalidade, que são os Estados. Por- tanto, não podemos nos ater a miudezas da crença na Providência, e menos ainda à crença abstrata e indeterminada, que apenas quer generalizar, ou seja, supor que existe uma Providência, mas não para os fatos determinantes da mesma”. É interessante observar que o universal, segundo Hegel (199), se encontra presente no particular, e sua razão constitui a busca por esclarecer sua própria existência. Hegel (1995) trilha o caminho do progresso orientado pela razão superior que impulsiona a humanidade a esclarecer e superar as estruturas sociopolíticas, econômicas e igualmente filosóficas que não mais refletem em seu âmago as ânsias do “espírito” de uma determinada época. Do conflito dialético (seja entre civilizações ou ideias), a síntese culminante acabaria por refletir em seu conteúdo a lógica do esclarecimento libertador de um estado não mais satisfatório para algo mais rico e mais concreto. Em síntese, podemos analisar que a história universal à crítica da razão e do sujeito (ideia de progresso) é analisada por teóricos relevantes e complexos para explicar que, apesar da universalidade da história, a generalização não revela os fatos históricos influenciadores. Ao mesmo tempo, essa característica permite o desenvolvimento da razão e delimitação da subjetividade empírica, que necessita da ciência para que seja uma história e, mesmo que fundamentada em objetos empíricos, uma história universal. E essa ideia de universalidade é um dos elementos que constituem a ideia do progresso. Acessando o link a seguir, você poderá assistir a um vídeo de Daniel Omar Perez, professor de filosofia da Unicamp e psicanalista, em que ressalta a crítica da razão pura e a razão prática segundo da visão de Kant. Nele, o professor tenta responder se, por si só, a filosofia crítica consegue formular e resolver um problema. https://qrgo.page.link/Ve3Jo 13O conceito de modernidade ALVIM, Y. C.; MIRANDA, S. R. Sobre a cultura do tempo e o livro didático de História. História & Ensino, v. 14, p. 115–132, 2008. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/ index.php/histensino/article/view/11526. Acesso em: 30 ago. 2019. BLOCH, M. A história,os homens e o tempo. In: BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. GIDDENS, A. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991. HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade. Lisboa: Dom Quixote, 2002. HEGEL, G. W. F. Filosofia da história. Brasília: Editora UnB, 1995. KLEIN, T. Kant e a ideia de uma história universal no contexto da crítica da razão. Analytica, v. 18, n. 1, p. 47–81, 2014. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/ analytica/article/download/2504/2124. Acesso em: 30 ago. 2019. KOSELLECK, R. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, 2006. THOMPSON, E. P. Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial. In: THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. WEBER, M. A ciência como vocação: In: WEBER, M. Ensaios de sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. Leituras recomendadas ABREU, M.; SOIHET, R. (org.). Ensino de história: conceitos, temáticas e metodologia. Rio de Janeiro: Casa da Palavra: FAPERJ, 2003. BARROS, J. D’. A. A historiografia e os conceitos relacionados ao tempo. Dimensões, v. 32, p. 240–266, 2014. Disponível em: http://www.periodicos.ufes.br/dimensoes/article/ view/8336. Acesso em: 30 ago. 2019. MIRANDA, S. R. Aprender e ensinar o tempo histórico em tempos de incertezas: refle- xões e desafios para o professor de história. In: GONÇALVES, M. A. et al. (org.). Qual o valor da história hoje? Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012. O conceito de modernidade14 DICA DO PROFESSOR No conceito de modernidade, foram exploradas concepções muito relevantes como o tempo e a temporalidade histórica.Sendo assim, a narrativa da história estabeleceu, há séculos, escolhas que denotam posicionamentos interpretativos de análise do homem como ser histórico, circunscrito a um tempo, a uma forma contextualizada de encarar a passagem do tempo,reflexo da própria essência do debate em torno da observação das mudanças e permanências, centro do conceito de História. Veja, nesta Dica do Professor, uma reflexão sobre as diferenças entre tempo e temporalidades. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) Quando falamos em modernidade para a História, o consenso mais comum é a divisão clássica e tradicional dos períodos históricos, tais como: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Nesse sentido, qual o conceito de modernidade na perspectiva sociológica? A) No campo da perspectiva sociológica, busca-se responder a razão que orienta a manifestação do ser no mundo fenomênico, o que seria, por princípio, o trabalho magno do filósofo. B) Define-se a um período que se estende até os dias atuais, porque a sua conceitualização revela-se na complexidade do desmanche dos laços da tradição e da religião. C) São fragmentos dispersos que refletem em sua manifestação a essência do todo universal, possibilitando, assim, o desvelar da essência ímpar de todo o conjunto que constitui a vida. D) Devido à aproximação específica com a antropologia, os historiadores conseguem explicar a importância dos valores para a produção, acumulação e consumo da população. E) Pode ser definido como o início da era moderna, associado ao surgimento do Iluminismo Europeu, aproximadamente nos meados do século dezoito. 2) Como afirma Habermas (2002), o conceito de modernização refere-se a um conjunto de processos cumulativos e de reforço mútuo: formação de capital e mobilização de recursos; desenvolvimento das forças produtivas e aumento da produtividade do trabalho; estabelecimento do poder político centralizado e formação de identidades nacionais; expansão dos direitos de participação política, das formas urbanas de vida e da formação escolar formal; e secularização de valores e normas. Diante disso, escolha a alternativa que se relaciona a essa citação: A) Não há uma tendência para um dinamismo e uma mudança incessantes, questionando as suas próprias conquistas e buscando continuamente inovações. B) No limiar da era moderna, grandes eventos lhe determinam o seu caráter: a descoberta da América, com uma nova visão de mundo, e a Escola de Annales. C) Modernidade é sinônimo de sociedade moderna ou civilização industrial e está associada a um conjunto de atitudes perante o mundo, como a ideia de que o mundo é passível de repetições dos fatos sem a intervenção política. D) A modernidade constitui-se a partir da pretensão de rejeitar a tradição, submetendo tudo ao exame crítico da razão e à experimentação, embora essa mesma tradição tenha persistido em muitas esferas da vida. E) A modernidade trouxe a ideia de desilusão ou desencanto do mundo e extinção das formas tradicionais de autoridade e saber. A modernidade enquanto momento histórico caracteriza-se pela antitradição, pela 3) derrubada das convenções, dos costumes e das crenças, pela saída dos particularismos e entrada no universalismo, ou ainda pela entrada da idade da razão. Muitas combinações do moderno e do tradicional podem ainda ser encontradas nos cenários sociais concretos. Diante do exposto, escolha a alternativa que apresenta a ideia da antitradição e pela derrubada das convenções. A) Civilização industrial foi associada a um conjunto de atitudes perante o mundo, como a ideia de que o mundo é passível de transformações constantes no viés político. B) Inaugura-se um tempo de primazia centralizada no indivíduo e não, no grupo como sujeito de direitos e de decisões. C) A ideia de antitradição e pela derrubada das convenções se deu principalmente no âmbito religioso, em que o próprio papel da Igreja alterou-se diante dos novos contextos de mundo que se inauguravam. D) Essas noções de antitradição são os processos que envolvem a difusão cultural, os sistemas que dão suporte a esses processos e sujeitos, e, por fim, as normas a que se conformam as sociedades. E) A antitradição refere-se a um complexo de instituições econômicas, em especial a produção industrial e a economia de mercado. Leia o texto e, a seguir, assinale a alternativa correta: ''No século XIX não é mais o poder despótico dos reis que tem que ser derrubado, é essa nova instância onipotente, a força da necessidade histórica, que se levanta para determinar o curso dos acontecimentos. Contrariando a ideia humanista da Iluminação que postulava o poder glorioso da razão humana, o que anuncia a filosofia de Hegel é um novo Absoluto: do Bon Plaisir do rei ao Ukase inelutável da lei histórica – um processo imanente e irrevogável que os novos profetas procuraram interpretar e predizer como autênticos sacerdotes do mistério divino''. (PENNA, 2016). Levando-se em consideração os principais acontecimentos que caracterizam o século 4) XIX, é possível dizer que Meira Penna em “derrubar a força da necessidade histórica” faz referência: A) à concepção de tempo dos reis absolutistas, que pregavam a demolição dos privilégios aristocráticos e clericais. B) à concepção de tempo clássica, que vigorava nas antigas civilizações grega e romana e que teve seu retorno no século XIX. C) à concepção de tempo revolucionário, nascida com a Revolução Francesa e que se disseminou no século XIX. D) à concepção de tempo na Idade Média, na qual os sacerdotes esperavam pelo Juízo Final, pelo fim dos tempos e pela reintegração do Homem com a Eternidade. E) à concepção de tempo cíclico, herdada da cultura indiana pelos intelectuais europeus do século XIX. 5) Conforme Kant, se o projeto de uma história universal é mais do que simplesmente uma questão de opinião para o uso teórico da razão, ou seja, se pretende ser considerado um conhecimento, o qual, por sua vez, precisa articular e organizar o conhecimento histórico-empírico, então, nesse caso, a história universal precisa respeitar as condições do sistema crítico-transcendental, pois, a história universal quetem, em certo sentido, é um fio condutor a priori. Em sua Crítica da Razão Pura, Kant define o conhecimento a priori como aquele que: A) Pode ser obtido exclusivamente mediante a experiência empírica. B) Pode ser obtido unicamente por meio da análise lógica dos conceitos. C) Diz respeito às coisas nelas mesmas. D) Pode ser obtido independentemente de qualquer acontecimento empírico. E) Diz respeito ao conceito dos contrários: progresso e evolução. NA PRÁTICA O conceito de modernidade propõe algumas reflexões sobre temáticas relevantes que influenciam no nosso contexto atual.Nesse sentido, existem alguns desafios sobre como trabalhar com esses conceitos na sala de aula. Confira, Na Prática, algumas estratégias pedagógicas que poderão ser aplicadas em sala de aula para trabalhar com o conceito de tempo histórico. SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Racionalização e modernidade em Max Weber O texto fala sobre a realidade moderna e argumenta que a racionalização existente nas sociedades modernas recebeu grande influência da Ética Protestante. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! História e Teoria. Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade O artigo discorre, com erudição, sobre a importância da filosofia e de suas construções teóricas. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! A Razão Pura Daniel Omar Perez, professor de filosofia na Unicamp e psicanalista, ressalta a crítica da razão pura e a razão prática conforme a visão de Kant. A filosofia crítica consegue formular e resolver um problema? Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! O tempo para Fernand Braudel O vídeo aborda, de forma sucinta, a questão do tempo para Fernand Braudel, especialmente relacionando-o às discussões com Claude Levi-Strauss na década de 1950. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! O conceito de pós-modernidade APRESENTAÇÃO A pós-modernidade apresenta-se como um conceito que ultrapassa um período histórico demarcado pelo tempo cronológico e revela-se no desafio de novas ideias, que se sobrepõem às concepções iluministas, com base na razão pura e, ainda, permeada de grandes histórias e heróis mundiais. Atualmente, a pós-modernidade desafia constantemente o cotidiano da nova história cultural, na busca de pesquisa e investigação que considere a micro história, dos sujeitos que constroem a cada dia, todas as histórias, na multiplicidades dos fatos e fenômenos que constituem a humanidade atual. Isso fica claro nas transformações constantes no mundo do trabalho, no avanço tecnológico e nas relações pessoais, sociais ou econômicas. Nesta Unidade de Aprendizagem, você verá a história global do período pós 1945, o estruturalismo e a revolução cultural pós-moderna, a pós-modernidade e a era digital. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar a história global do período pós 1945.• Identificar o estruturalismo e a revolução cultural pós-moderna.• Analisar a pós-modernidade e a era digital.• INFOGRÁFICO A pós-modernidade, ainda em movimento, caracteriza-se fortemente pelo rompimento com as concepções iluministas da modernidade, fundamentadas na racionalidade universal, nas grandes histórias da humanidade e em heróis nacionais escolhidos para constituir as identidades de uma nação. Em oposição, a pós-modernidade promove a história de cada sujeito, a história das mulheres, a história dos trabalhadores, entre tantas outras histórias que constituem a humanidade e a riqueza da diversidade étnica, cultural ou social. Veja, no Infográfico, características dessa realidade contemporânea, a pós-modernidade. CONTEÚDO DO LIVRO É interessante para a sociedade atual compreender que o pós-modernismo é um conceito que representa toda a estrutura sociocultural e histórica, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, até os dias atuais. Em suma, o pós-modernismo é um conceito da sociologia histórica que designa a condição sociocultural e estética. É diferente da pós-modernidade que consiste no ambiente em que a sociedade pós-moderna está inserida, caracterizado pela globalização e domínio do sistema capitalista. Nessa perspectiva, faz parte do processo natural de análise compreender os fatos e os acontecimentos que marcaram o pós-modernismo e a pós-modernidade; difundida depois da Segunda Guerra Mundial e marcada pela Guerra Fria, pelo fortalecimento do capitalismo e, por fim, pela queda do muro de Berlim, inaugurando novas transformações mundiais como a Globalização e as evoluções tecnológicas digitais que invadiram os novos tempos. No capítulo, O conceito de pós-modernidade, do livro Teoria da História e Historiografia, você verá o conceito de pós-modernidade expresso na história global no período pós 1945, analisado na perspectiva do estruturalismo e da revolução cultural pós-moderna; e poderá explorar algumas características da pós-modernidade e da era digital. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Simone de Oliveira O conceito de pós-modernidade Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar a história global no período pós 1945. Identificar o estruturalismo e a revolução cultural pós-moderna. Analisar a pós-modernidade e a era digital. Introdução O período pós 1945 apresenta um mundo transfigurado por crises, saltos tecnológicos, instabilidade crônica, conflitos e dramas sociais de com- plexa solução, além de uma busca constante pelos direitos humanos, políticos e sociais, inaugurando novas concepções e formas de analisar o mundo. Nesse cenário, a pós-modernidade reflete a estrutura capitalista da sociedade atual com base na globalização. É nesse contexto que o capitalismo globalizado ingressa em nova fase de produção industrial e educação, cercada por transformações tecnológicas digitais e inéditas formas de conectividade e acesso a informações. Neste capítulo, você estudará o conceito de pós-modernidade ex- presso na história global no período pós 1945, o qual será analisado na perspectiva do estruturalismo e da revolução cultural pós-moderna, explorando também algumas características da pós-modernidade vin- culadas à era digital. A história global no período pós 1945 Para iniciarmos nossas refl exões sobre a história global pós 1945, pre- cisamos compreender que esse período faz parte do que chamamos de pós-modernismo. O pós-modernismo é um conceito que representa toda a estrutura sociocultural e histórica desde o fi m da Segunda Guerra Mundial até os dias atuais. Em suma, é um termo da sociologia histórica que designa uma condição sociocultural e estética. O pós-modernismo é vista por vários estudiosos, como Lyotard e Boaven- tura de Sousa Santos, como um movimento de superação da modernidade, que por sua vez, também expressa a rejeição a um modelo cultural anterior. Nesse sentido, o Iluminismo (movimento intelectual que rompe com o con- trole da Igreja Católica), apesar de sugerido como um propenso “gerador” da crise do conhecimento no século XX, pode ser considerado como “[...] a proposta mais generosa de emancipação jamais oferecida ao gênero humano”. (ROUANET, 1987, p. 27). No entanto, sua postura teleológica (preocupação enfática com a finalidade do conhecimento) desencadeia principalmente um movimento de rejeição aos padrões estabelecidos. Este movimento é batizado então de pós-moderno. Vários autores, como Rouanet (1987), dividem o pós-modernismo em dois períodos principais: 1. A primeira fase, que teria começado com o fim da Segunda Guerra Mundial e se desenvolvido até o declínio da União Soviética (fim da Guerra Fria). 2. A segunda e derradeira fase, que teria início no fim da década de 1980, com a quebra da bipolaridade vivida no mundo durante a Guerra Fria. De modo geral, o pós-modernismorepresenta a “quebra” com antigos modelos de pensamento linear defendidos na era moderna pelos ilumi- nistas, que se baseavam na defesa da razão e da ciência como parte de um plano em prol do desenvolvimento da humanidade. Porém, com os horrores presenciados na Segunda Guerra Mundial, começou a crescer um forte sentimento de insatisfação e decepção na sociedade, visto que todo o “plano” moldado com base nos ideais iluministas supostamente já não respondia às demandas da sociedade que se inaugura após 1945. Muitos fatos e acontecimentos chocaram o mundo durante a Segunda Guerra Mundial e após o seu término, como, por exemplo, o lançamento da bomba atômica (Figura 1). O conceito de pós-modernidade2 Figura 1. Bomba atômica detonada sobre a cidade de Nagasaki, no Japão, em 9 de agosto de 1945. Fonte: Everett Historical/Shutterstock.com. Conforme Gaspar (2015), uma sequência de eventos acabaram por reorgani- zando as novas relações mundiais entre os países: as experiências traumáticas da primeira metade do século XX e as constantes ameaças de colapso sistêmico e possíveis fracassos associados, acima de tudo, à latente incapacidade da concepção liberal em lidar com as novas realidades econômicas, levaram, já perto do final da Segunda Guerra Mundial, uma delegação de 44 nações a se reunirem na cidade americana de Bretton Woods, em julho de 1944. Naquela ocasião, foram definidas as bases de gerenciamento econômico internacional do pós-guerra e fixadas as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados do mundo. Com isso, podemos perceber que a Segunda Guerra Mundial transfor- mou completamente a configuração do mundo e as relações entre as nações. O período conhecido como pós-guerra impôs grandes desafios às populações e governantes de todo o mundo, principalmente na Europa e na Ásia, devastadas e destruídas pelos conflitos. No entanto, as duas grandes potências vencedoras, Estados Unidos e União Soviética, que haviam se aliado para lutar contra o nazifascismo, tornaram-se rivais logo após o fim do conflito, opondo o capitalismo ocidental ao chamado comunismo soviético, na configuração do que ficou convencionado chamar de mundo bipolar, inaugurando o que conhecemos como Guerra Fria. Nesse contexto, ainda antes do fim da Segunda Guerra Mundial, foi criada a Organização das Nações Unidas (ONU). A ONU é uma organização 3O conceito de pós-modernidade universal, mas que não pretende substituir os Estados nem transformar-se num governo mundial. A entidade não se propõe a ser uma organização supranacional, mas sim uma organização intergovernamental (os Estados são os membros dos órgãos ou instituições compreendidas), constituída com a finalidade geral de “[...] concertação a nível político, sem prejuízo de prosseguirem uma multiplicidade de fins específicos, normalmente definidos em termos muito amplos” (RIBEIRO, 1998, p. 95 apud XAVIER et al., 2007, documento on-line). Concomitante a isso, logo após 1945 a estrutura do mundo colonial europeu desmoronou rapidamente, levando ao surgimento de vários novos países na África e na Ásia. A Europa viu-se dividida entre as esferas de influência dos Estados Unidos e da União Soviética. A Europa Ocidental aproximou-se dos americanos, que retiraram suas tropas do continente. Já porção oriental da Europa ficou sob influência da União Soviética e das tropas de seu Exército Vermelho, que se manteve nos territórios ocupados após lutar contra os nazistas. Nesse cenário, o então primeiro-ministro inglês Winston Churchill criou uma metáfora, com intuito de expressar essa divisão do continente europeu em 1946, afirmando que existia uma “Cortina de Ferro” que se estendia do mar Báltico até o mar Adriático, separando o chamado “mundo livre” (do capitalismo ocidental) do “mundo comunista” (sob influência do comunismo soviético). Esse era o clima que se inaugurava após 1945: o mundo dividido, vivendo a tensão de um novo confronto global que poderia ser ainda pior que o recém-testemunhado, devido às evoluções tecnológicas na esfera armamentista. Para Hobsbawm (1995), a Guerra Fria (Figura 2) dominou a política internacional até o fim da década de 1980, ao contrapor distintas visões de mundo e estratégias de poder, materializadas na adesão aparentemente irredutível dos Estados a um dos dois lados da disputa, Estados Unidos ou União Soviética, que passaram a ser o centro das atenções e responsáveis pela nova divisão mundial. O conceito de pós-modernidade4 Figura 2. Guerra Fria. Fonte: adriano.cz/Shutterstock.com. Para Gaspar (2015), a Guerra Fria marcou a política e a economia globais na segunda metade do século XX. Na perspectiva estritamente político-militar, constituíram-se blocos opostos. De um lado, o Pacto de Varsóvia, uma aliança militar formada pela União Soviética e pelos países socialistas do Leste Europeu, com exceção da Iugoslávia (a Albânia viria a deixar a aliança anos mais tarde). De outro, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que uniu as nações capitalistas da Europa Ocidental e os Estados Unidos para prevenir e defender países membros de eventuais ataques vindos do leste comunista. A ameaça de conflito nuclear pairou sobre a humanidade ao longo de todo o período de vigência da Guerra Fria. É bem verdade que, durante a Guerra Fria, não houve conflitos diretos entre Estados Unidos e União Soviética, mas ambos participaram de vários conflitos indiretos. A Guerra da Coreia (1950–1953) e a Guerra do Vietnã (1965–1973) foram exemplos relevantes da participação indireta dos dois países em conflitos armados durante a Guerra Fria. A eclosão da Revolução Chinesa, em 1949, contribuiu para acirrar essa divisão do mundo, já que o novo regime instalado em Pequim também se declarava comunista. O principal símbolo dessa divisão mundial foi a cidade de Berlim, na Alemanha. A criação do Muro de Berlim, que dividiu a cidade por quase 30 anos, expressou a tensão existente entre os dois blocos. 5O conceito de pós-modernidade No Ocidente, dentre tantas transformações advindas do pós 1945, podemos observar a urbanização em larga escala, o que impunha novas pautas ao sistema produtivo e ao comportamento social. Uma mudança institucional começava a se tornar imperativa, sem que seus contornos se delineassem com precisão. O novo padrão produtivo, com base na produção e no consumo de massa, elevada capacidade de geração de emprego e uso intensivo de energia, encontrava assim as condições propícias para se generalizar, enquanto consolidavam-se os princípios tayloristas e fordistas de organização do trabalho (GASPAR, 2015). Nesse cenário, a cultura se massificava, avançavam as conquistas cientí- ficas e sua conversão em tecnologia. A bem da verdade, desde seu despon- tar, o século XX já anunciava uma nova era, cujo nascimento fora doloroso. A partir da belle époque no final do século XIX, esperava-se um progresso para a sociedade como um todo, mas junto com ele, prefigurou-se uma crise de grandes proporções. De todo modo, a utopia constituía projetos de vida em permanente elaboração, defendidos com paixão, que mobilizavam milhões de pessoas em todo o mundo (SANTOS, 2001). Em síntese, o período pós 1945 apresenta um mundo transfigurado por crises, radicais mudanças tecnológicas, crônica instabilidade, conflitos e dramas sociais carentes de solução, além de uma busca constante pelos direitos humanos, políticos e sociais, o que inaugurava uma série de novas concepções e formas de analisar o mundo. O estruturalismo e a revolução cultural pós-moderna Muitos textos introdutórios ao estruturalismo localizam sua origem na fi losofi a de Aristóteles; embora essa interpretação seja incontestável de um ponto de vista histórico, podemos analisar a particularidade metodológica do estrutu- ralismo como método próprio das ciências sociais, sem, com isso, deixar de reconhecer a infl uência de formas de pensamento anteriores. Nessa acepção,o estruturalismo surgiu entre os anos 1950 e 1960, a partir de teóricos e pesquisadores franceses, como possibilidade de aplicação do processo científico nas ciências humanas, contrapondo-se à fenomenologia, o que suscitou a dedicação de pensadores como Jacques Lacan, Roland Barthes e Claude Lévi-Strauss. O conceito de “estrutura” começou a ser usado no âmbito das ciências humanas no século XIX, por teóricos como Spencer, Morgan e Marx. Com maior expressão, sua representação foi configurada na obra de Durkhein O conceito de pós-modernidade6 intitulada As regras do método sociológico, de 1895. Nesse contexto, podemos analisar que Spencer utiliza o conceito de “estrutura” no sentido de modelo biológico e insumos para forjar a expressão “estruturas sociais”. Lévi-Strauss, considerado um dos fundadores do conceito de estruturalismo, o emprega ao considerar o estudo dos sistemas de parentesco. Já para Marx, o conceito está relacionado às suas importantes definições das relações entre a base, a estrutura e as superestruturas da sociedade. Diante disso, no início do século XX surgiu o neologismo “estruturalismo”, vindo da área da psicologia do pensamento da escola de Würzburg; desse contexto, nasce a expressão “o pensamento é o espelho da alma”. No entanto, o conceito de estruturalismo não se limitou na área da psicologia, passando a também ser aplicado em outras áreas das ciências sociais. Para Sales (2003), foi com Ricoeur que a conceitualização de estruturalismo ganhou um caráter de reconhecimento ao tempo histórico. Para formular esse questionamento, ele aloca seu alvo sobre aquela que foi a primeira e a mais discutida tentativa de transpor os modelos linguístico e matemático para as ciências humanas. Assim, Ricoeur defende que o estruturalismo pode funcionar como uma fase importante na compreensão dos fatos culturais. Se o estruturalismo só pode existir na suposição da existência de uma função simbólica, o teórico afirma que ele é justamente a fase abstrata (preocupada com a sintaxe) da compreensão dessa função. Com isso, o estruturalismo não pode ser entendido exatamente como uma teoria sobre a sociedade nem como uma metodologia em si; ele é, sobretudo, um ponto de vista sobre as formas possíveis de conhecer as atividades humanas. Nas ciências sociais, ele ganha maior relevância a partir da década de 1960, sendo as universidades francesas seu principal palco de desenvolvimento. Há no estruturalismo uma eminente intenção de reelaborar as ciências humanas — e reafirmar seu status científico — a partir da noção central de estrutura social. Essa noção tem por objetivo revisar os dualismos suscitados pelo positivismo sociológico, retomando a unidade entre os campos do subjetivo e do objetivo, do indivíduo e da sociedade, do sujeito e do objeto de estudo. A ideia de estrutura social, segundo Giddens (2003), segue a noção de que os contextos sociais onde praticamos nossas ações individuais não são um conjunto aleatório de eventos ou ações. Esses contextos sociais seguem padrões — ou estruturas —, isto é, apresentam repetições observáveis na forma como nos relacionamos uns com os outros. Isso significa que nossos comportamentos não podem ser compreendidos sem que se leve em consideração a estrutura onde estão localizados. Com isso, não se quer dizer que nosso comportamento é completamente determinado por essa estrutura. A estrutura é também al- 7O conceito de pós-modernidade terada por nós mesmo, que somos suas unidades fundamentais. Ou seja, ao mesmo tempo em que agimos sobre as estruturas, elas agem sobre nós. Nossas atividades estruturam a sociedade, ao passo que a sociedade estrutura a forma como agimos no mundo. O individual está ligado ao todo coletivo e há uma estrutura que sustenta essas relações. Sendo assim, nada — nem mesmo os conceitos e os fatos sociais — pode ser entendido por si mesmo, sem levar em consideração esse sistema de relações chamado estrutura social. Para alguns autores, ao enfatizar a estrutura, esse tipo de abordagem acaba deixando em segundo plano a análise histórica dos fenômenos sociais. Por outro lado, há também uma série de filósofos recentes que procuraram radicalizar o pensamento estruturalista, fundando aquilo que se conveniou chamar de escola pós-estruturalista, muito próxima ao pensamento pós-moderno como um todo. No contexto do pensamento estruturalista das décadas de 1950 e 1960, podemos observar o movimento de revolução cultural se constituindo. Para Hobsbawm (1995), um dos elementos abalados pelas revoluções culturais que emergiram do pós 1945 foi a estrutura familiar, quer pela difusão do divórcio como possibilidade viável, quer pelo sexo sendo visto como outra forma de relacionamento na sociedade. Uma das principais revoluções culturais se deu pela cultura jovem, que se tornou matriz no sentido mais amplo de uma revolução nos modos e costumes, nos meios de desfrutar do lazer e nas artes comerciais, que formavam cada vez mais a atmosfera respirada por homens e mulheres urbanos. Duas de suas características são mais relevantes: a nova cultura era ao mesmo tempo informal e antinômica, sobretudo em questões de conduta pessoal. Todo mundo tinha de “estar na sua”, com o mínimo de restrição externa, embora na prática a pressão dos pares e a moda impusessem tanta uniformidade quanto antes, pelo menos dentro dos grupos de pares e subculturas (HOBSBAWM, 1995). Para Hobsbawm (1995, p. 318): [...] a nova “autonomia” da juventude como uma camada social separada foi simbolizada por um fenômeno que, nessa escala, provavelmente não teve paralelo desde a era romântica do início do século XIX: o herói cuja vida e juventude acabavam juntas. Essa figura, antecipada na década de 1950 pelo astro do cinema James Dean, foi comum, talvez mesmo um ideal típico, no que se tornou a expressão cultural característica da juventude — o rock. Buddy Holly, Janis Joplin, Brian Jones, membro dos Rolling Stones, Bob Marley, Jimi Hendrix e várias outras divindades populares caíram vítimas de um estilo de vida fadado à morte precoce. O que tornava simbólicas essas mortes era que a juventude por eles representada era transitória por definição. O conceito de pós-modernidade8 Em síntese, as concepções e a formas de analisar o mundo por meio do estruturalismo nos permitem perceber que, ao pensar o processo histórico como elemento que está em constante transformação, e que ao mesmo tempo é transformado pelos indivíduos, fica claro o quanto das revoluções culturais ocorridas no mundo pós 1945 influenciaram e foram influenciadas no processo constante. Ademais, nos tempos atuais, ainda podemos perceber o reflexo dessas transformações. A pós-modernidade e a era digital Conforme explicado na primeira seção deste capítulo, o pós-modernismo é um conceito organizado na estrutura sociocultural e histórica pós 1945 até os dias atuais, o que consiste no ambiente em que a sociedade pós-moderna está inserida, caracterizada pela globalização e domínio do sistema capitalista. No entanto, de acordo com Jameson (1979), é importante percebermos a diferença entre pós-modernismo e pós-modernidade. Segundo essa análise, o pós-modernismo refere-se às revoluções culturais, enquanto a pós-modernidade trata da estrutura capitalista da sociedade atual com base na globalização. Nesse sentido, o capitalismo globalizado, que também pode ser chamado de globali- zação ou terceiro estágio do capitalismo, está associado à pós-modernidade. Mas independente de terminologias, levaremos um bom tempo para sair desse estágio, já que o contexto atual desse capitalismo globalizado já ingressa na sua quarta geração econômica, da produção industrial e da educação, cercada por transformações tecnológicas digitais, inteligência artificial, toda a espécie de conectividade e acesso a informações, resultando numa base de dados nunca produzida anteriormente na história da humanidade. Não podemos analisar a pós-modernidade sem falarmosde Bauman, um dos grandes pensadores desse período. Em seu livro O mal-estar da pós- -modernidade, Bauman (1998) mostra precisamente o quanto a liberdade individual é contida por fenômenos como a desestruturação do mercado de trabalho, a criminalização da pobreza e a mercantilização de importantes espaços culturais e emocionais como a arte e o amor. Nesse sentido, sua história é de uma ordem que não pode ser construída, na medida em que a maior parte dos atos da vida e suas motivações foi desregulamentada, depois de ter sido concentrada, centralizada, globalizada e liberalizada pelo capitalismo global. No contexto desse capitalismo globalizado, além de todas essas questões sociais e políticas, ainda encontramos as transformações que resultaram das demandas atuais, caraterizadas pela era digital nas relações e nosso modo de 9O conceito de pós-modernidade vida. Com isso em vista, Hartog (2014) chama essa concepção de “presentismo”, isto é, a suposta e ampla dominância, a partir das últimas décadas da história da humanidade, do presente sobre qualquer noção de passado ou futuro. Segundo essa perspectiva, a sociedade atual testemunha grandes revoluções tecnológicas, as quais acabam por interferir e influenciar nas relações sociais, políticas e econômicas, das tarefas mais complexas até as mais simples, como retirar dinheiro no caixa eletrônico, consultar saldo de uma conta bancária na Internet ou enviar um simples e-mail. Essas situações do cotidiano exigem o mínimo de domínio das tecnologias digitais, que hoje se apresentam como mecanismos que fazem parte da realidade presente. Nesse cenário, é preciso ter cuidado para não fortalecê-las como potencial de determinismo, mas como possibilidade de transformação, para colocá-las a serviço de melhorias das necessidades humanas. É interessante observar o avanço da era digital em diversas áreas e setores, tal como no processo educacional. No mundo da pós-modernidade, estão sendo introduzidas cada vez mais tecnologias sofisticadas para melhorar e qualificar os processos. Assim, na área do ensino e da aprendizagem, podemos observar uma evolução dos recursos, ilustrações textuais, tecnologias audiovisuais, slides, computador, Internet, Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVAs), software educacional, inteligência artificial, realidade virtual amentada, robó- tica, pensamento computacional, simulações em 3D e produção de Objetos de Aprendizagem (OA), todos eles elementos que na atualidade estão estruturando novas formas de ensinar e aprender no contexto da Educação 4.0, em que o sujeito constrói seu processo de aprendizagem com base no desenvolvimento da autonomia (Figura 3). Figura 3. Avanços tecnológicos educacionais. Fonte: Gorodenkoff/Shutterstock.com. O conceito de pós-modernidade10 Quando pensamos em era digital na pós-modernidade, as mais diversas evoluções tecnológicas vêm à mente, numa gama de possibilidades que se abrem para reflexão, já que se trata de um termo polissêmico, que apresenta diversas vertentes e contextos para ser analisado. Contudo, quando falamos em tecnologia, a maioria das pessoas se remete diretamente ao uso do computador ou de aparatos eletrônicos. No entanto, essa palavra possui etimologia grega, que significa a “ciência da técnica”, a qual provém da junção entre téchne, que significa “arte” ou “destreza”, e logos, que quer dizer “estudo” ou “ciência”. Nessa perspectiva, pode-se pensar que tecnologia envolve a aplicação dos conhecimentos cientí- ficos na solução de problemas, ou seja, é o estudo das técnicas que auxiliam a humanidade a viver com melhor qualidade (RAIÇA, 2008). As tecnologias digitais aplicadas ao processo de ensino e aprendizagem poderão impulsionar e motivar o desenvolvimento cognitivo ao contribuírem para a nossa comunicação e interação. Morin, Ciurana e Motta (2003, p. 22) afirmam que a “[...] evolução do conhecimento científico não se dá unicamente do crescimento e da extensão do saber, mas também de transformações, rupturas, de passagem de uma teoria para outra”. Ainda segundo os autores: [...] o avanço tecnológico alarga consideravelmente o campo do cognoscível, isso é, o campo do que pode ser visto, observado, percebido e concebido. [...] esse alargamento do cognoscível faz surgir novos dados que certamente existiam, mas eram desconhecidos, e o aparecimento desses novos dados como anomalias em relação à teoria existente produz um questionamento da teoria (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p. 64). As transformações alcançadas pelas tecnologias digitais possibilitam novas formas de produção do conhecimento, em que sua utilização acaba por conduzir a novas propostas e metodologias para ofertar a construção efetiva do saber. De acordo com Maraschin (2000), o aparato tecnológico representa uma reali- dade inegável no cotidiano. Assim, o barateamento dos computadores pessoais, a imensa difusão do acesso à Internet e a constante inovação tecnológica trouxeram a tecnologia para dentro de todos os processos da sociedade atual. Podemos perceber que, desde o desenvolvimento da oralidade e da escrita até os tempos atuais, um mundo digital está se inaugurando; porém, até chegar ao patamar que se encontra, a sociedade vivenciou inúmeras transformações que foram produzidas por esses avanços tecnológicos e, ao mesmo tempo, pela própria sociedade. A geração atual está vivenciando uma revolução tecnológica digital, que acaba por gerar uma nova cultura, com novos tipos de trocas, novos espaços e tempos, novas posturas diante dessas transformações, resultando no que é chamado de “cibercultura”. Para Levy (1999), a cibercultura é definida 11O conceito de pós-modernidade como o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), práticas, atitudes, modos de pensamento e valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço, definido pelo autor como um espaço de interação digital. Essas noções são corroboradas por Marques (2006, p. 104), quando afirma que “[...] a tecnologia não é simplesmente ciência aplicada, mas ciência reedifi- cada e impulsionada por instrumentos técnicos conceituais propositadamente instituídos”. Nesse sentido, o autor afirma que: O dinamismo, caracterizado também pela crescente evolução da informação e da tecnologia, provoca profundas mudanças no mundo do trabalho e no âmbito da educação. São perplexidades e desafios que exigem a produção de novos conhecimentos e, além disso, uma busca de proposições educacionais que atendem às necessidades dos novos tempos e cenários. Esse processo revela que, ao mesmo tempo em que há um alargamento tecnológico, ele não exige tecnicista; ao contrário, reivindica uma formação abrangente que permita ampliar as diferentes maneiras de interagir com a pluralidade dos diferen- tes mundos que hoje se entrecruzam, ou lê-la, reconhecê-la e interpretá-la. Dessa forma, o que está em jogo é a criação de novas maneiras de (re)educar as pessoas, para lidar não exatamente com o aparato tecnológico, mas com as informações advindas desse novo tipo de saber ou propiciadas por ele (MARQUES, 2006, p. 33). Para analisar se o desenvolvimento tecnológico da pós-modernidade está provocando a construção de sujeitos mais autônomos e inteligentes, precisamos compreender que, por si só, tais ferramentas não alteram ou modificam as pessoas, tornando-as indivíduos evoluídos. O que realmente causa a transfor- mação significativa é a nossa ação, a nossa estratégia sobre essas tecnologias, ou seja, seu modo de uso. Ademais, outros elementos importantes devem ser levados em consideração, como o tipo de tecnologia selecionada, a concepção intrínseca à construção dessa tecnologia e a mediação que será aplicada sobre a ferramenta. Em síntese, podemos refletir que a pós-modernidade, representada hoje pelo capitalismo globalizado, é manifestada no presentismo por grandes transformações em todas as áreas, principalmente as de cunho tecnológico, constituindo uma era marcada pelas fortes caraterísticasdigitais. O conceito de pós-modernidade12 Via o link a seguir, você terá acesso a uma entrevista produzida pela TV Senado com o cientista Isaac Roitmann, professor emérito do Instituto de Ciências Biológicas e Coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro da UnB, em que ele fala sobre as expectativas quanto ao avanço da tecnologia e o progresso da ciência. Durante a entrevista, ele também avalia as mudanças no mundo do trabalho e os desafios didáticos para as crianças e jovens de hoje. https://qrgo.page.link/DFkGF BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. GASPAR, R. C. A trajetória da economia mundial: da recuperação do pós-guerra aos de- safios contemporâneos. Cadernos Metrópole, v. 17, n. 33, p. 265–296, 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-99962015000100265&ln g=pt&tlng=pt. Acesso em: 4 set. 2019. GIDDENS, A. A constituição da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2003. HARTOG, F. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Ho- rizonte: Autêntica, 2014. HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX: 1914–1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. JAMESON, F, Reification and utopia in mass culture. Social Text, n. 1, p. 130–148, 1979. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/466409?seq=1#metadata_info_tab_con- tents. Acesso em: 4 set. 2019. LEVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. MARASCHIN, C.. A sociedade do conhecimento e a educação a distancia. In: CAPISANI, D. (org.). Educação e arte no mundo digital. Campo Grande: Editora da Universidade — UFMS, 2000. MARQUES, M. O. A escola no computador: linguagem rearticulada, educação outra. Ijuí: Editora Unijuí, 2006. MORIN, E.; CIURANA, E.; MOTTA, R. D. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem no erro e na incerteza humana. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2003. 13O conceito de pós-modernidade RAIÇA, D. (org.). Tecnologia para educação inclusiva. São Paulo: Avercamp, 2008. ROUANET, S. P. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras,1987. SALES, L. S. Estruturalismo — história, definições, problemas. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis, n. 33, p. 159–188, 2003. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index. php/revistacfh/article/view/25371. Acesso em: 4 set. 2019. SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2001. XAVIER, A. I. et al. A organização das Nações Unidas. Coimbra: Publicações Humanas, 2007. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/abc/onu/onu_humana_global_onu. pdf. Acesso em: 4 set. 2019. Leituras recomendadas ARRIGHI, G. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens do nosso tempo. Rio de Janeiro: Contraponto; São Paulo: Editora UNESP, 1996. BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. EAGLETON, T. Capitalismo, modernismo e pós-modernismo. Crítica Marxista, v. 1, n. 2, p. 53–68, 1995. Disponível em: https://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arqui- vos_biblioteca/artigo265Artigo4.pdf. Acesso em: 4 set. 2019. HARVEY, D. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Edições Loyola, 1996. O conceito de pós-modernidade14 DICA DO PROFESSOR A passagem da modernidade para a pós-modernidade vem sendo intensamente estudada em várias perspectivas. No entanto, é interessante observar as principais características que diferenciam a modernidade da pós-modernidade. As profundas transformações sociais pelas quais o mundo vem passando nas últimas décadas têm permitido que se identifique com mais clareza as diferenças entre o período moderno e pós- moderno, tanto na trama econômica, quanto na dinâmica da nova organização social. Assim, oportuniza a apreensão cada vez mais acurada da realidade característica da pós- modernidade. Veja, na Dica do Professor, as características da modernidade e da pós-modernidade. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) A ideia de pós-modernismo surgiu pela primeira vez no mundo hispânico, na década de 1930, uma geração antes de seu aparecimento na Inglaterra ou nos EUA. Porém, coube ao filósofo francês Jean-François Lyotard, com a publicação de A Condição Pós-Moderna (1979), a expansão do uso do conceito. Em sua origem, pós-modernismo significava a perda da historicidade e o fim da grande narrativa - o que no campo estético significou o fim de uma tradição de mudança e ruptura, o apagamento da fronteira entre alta cultura e cultura de massa e a prática da apropriação e da citação de obras do passado (LIMA, 2004). É uma característica importante do pós- modernismo: A) A exploração dos movimentos culturais da contemporaneidade associados as suas manifestações e ideologias políticas. B) A dissolução de limites rígidos entre os fenômenos culturais, produzindo uma nova visão e orientação social. C) A manutenção de linhas conservadoras de valor estético, em conformidade com as tendências modernistas. D) A consolidação de seus estudos na observação do mundo hispânico e na contraposição com os valores do velho mundo. E) A consolidação dos laços da tradição e da religião na busca por responder a razão que orienta a manifestação do ser no mundo. 2) A religião continua como uma utilidade para muitos, crescendo dentro das igrejas, como apoio diante das dificuldades da vida e, em grande medida, a religião funciona como um dos tipos de autoajuda, longe de uma preocupação maior com os mistérios da existência e da morte. Bauman, no seu livro O mal-estar da pós-modernidade, aponta que na pós-modernidade a definição de religião importa em um exercício de: A) Supremacia da racionalidade sobre o transcendente. B) Substituição de um inefável por outro. C) Supremacia do transcendental sobre as tendências históricas. D) Autossuficiência. E) Articulação de tudo que se sabe. 3) Pós-modernidade, alta-modernidade, modernização reflexiva, modernidade líquida, são algumas categorias utilizadas, no âmbito das ciências sociais, como referência ao processo intenso de mudanças sociais, políticas, culturais e estéticas, que começou a espalhar-se mundialmente a partir da segunda metade do século XX. O que significou esse conjunto de mudanças? A) Esse conjunto de mudanças alterou o modo de produção industrial, que foi associado a um conjunto de atitudes, como a ideia de que o mundo é passível de transformações constantes no viés do mercado. B) A consolidação e a supremacia do Estado-Nação como organização capaz de conduzir ou estancar o fluxo de mudanças econômicas. C) A reafirmação dos princípios iluministas de que a ciência, por meio da razão instrumental, seria capaz de construir as bases de um novo modelo social. D) A continuidade de um modelo trabalhista industrial pautado na rotina, na obediência à hierarquia e na alta produtividade industrial. E) O surgimento de novas agendas sociais e políticas, caracterizadas por preocupações ecológicas e pelo fortalecimento dos movimentos sociais. 4) O estruturalismo nasce na linguística, sobretudo a partir dos estudos de Ferdinand de Saussure, que concebeu a língua como um sistema ou conjunto autônomo e unitário de signos. Ao longo do século XX, a análise estrutural foi ampliada, sendo aplicada a outros campos do saber; incluindo a antropologia e a sociologia. Em termos gerais, com o termo estrutura, os estruturalistas definem: A) A ordem diacrônica dos fatos, responsável pela contradição interna de um sistema. B) Uma cadeia de razões, em relação de causalidade entre si. C) A lógica do desenvolvimento histórico da sociedade, incluindo sua trajetória até o presente. D) Uma totalidade ordenada e organizada, a partir da combinatória de elementos. E) Os fenômenos sociais caracterizados pelas ações contingentes dos indivíduos. 5) A geração atual está vivenciando uma revolução tecnológica digital, que acaba por geraruma nova cultura, com novos tipos de trocas, novos espaços e tempos e novas posturas diante dessas transformações, resultando no que é chamado de Cibercultura (Lévy, 1999). A integração das redes de informação e do espaço virtual ao espaço geográfico corrobora para o conceito de: A) Unidade tecnológica. B) Ciberespaço. C) Espacialidade digital. D) Sociointeratividade. E) Tecnosfera. NA PRÁTICA O conceito de pós-modernidade desafia todos a pensar estratégias e metodologias inovadoras para o processo de ensinar e aprender, os quais possam responder as demandas da atualidade, com as características próprias do seu tempo. Nesse sentido, é preciso pensar uma nova proposta de escola, que apoie a construção de sujeitos capazes de agir e interferir na sociedade atual. Conheça, Na Prática, a escola Âncora, um novo jeito de ensinar e aprender na perspectiva da pós-modernidade. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: O que é pós-modernidade? Neste vídeo, você assiste a Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, explicando o que caracteriza a pós-modernidade e apontando o momento em que ela teria começado. Segundo Bauman, a revolução pós-moderna acontece quando há a confissão pública de assuntos, até então, privados. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Pós-modernismo ou pós-modernidade? Neste vídeo, você assiste a Fredric Jameson, crítico literário e teorista político norte-americano, diferenciando pós-modernidade, uma estrutura, e pós-modernismo, um estilo cultural. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Modernidade, Pós-Modernidade e Emancipação na Perspectiva da Ética da Alteridade Este artigo fala sobre o enfraquecimento das utopias moderna e, a relativização de certos valores da modernidade. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Pós-modernidade ou antimodernidade? Neste artigo, você encontra uma reflexão histórica em torno do debate moderno/pós-moderno. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Conhecimento e educação na pós-modernidade Este artigo tem como principal objetivo demonstrar a influência da ideia de pós-modernidade para o conhecimento e, por conseguinte, para a educação. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! O positivismo e a história APRESENTAÇÃO O positivismo foi uma corrente filosófica criada na primeira metade do século XIX pelo francês Auguste Comte. Durante aquele período – e ainda no início do século XX –, as ideias positivistas alcançaram larga influência sobre as ciências humanas, particularmente sobre a História. Dessa forma, surge a escola histórica "positivista", uma corrente historiográfica que se apropriou de diversas premissas do positivismo e acabou por se tornar hegemônica na historiografia europeia do século XIX. Daquele contexto, também emergiram diversas correntes conservadoras, que reagiam ao novo mundo rapidamente surgido dos escombros da época medieval. Mais de dois séculos após seu surgimento como ideologia, o conservadorismo se tornou um fenômeno complexo que continua sendo estudado pelas ciências humanas. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estabelecer comparações entre as correntes conservadoras e positivista, além de identificar o conservadorismo como objeto de análise da sociologia. A partir disso, você será capaz de relacionar o positivismo com a história científica do século XIX. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Comparar as correntes conservadoras com a positivista.• Identificar o conservadorismo como objeto de análise da sociologia. • Relacionar o positivismo com a história científica do século XIX.• DESAFIO Além de sua grande influência na Europa entre os séculos XIX e XX, os ideais positivistas atravessaram o Atlântico e chegaram ao Brasil, onde fizeram grande sucesso nos diversos círculos intelectuais pró-republicanos e, sobretudo, nas Forças Armadas. Não é à toa que, logo após a Proclamação da República por parte dos militares em 1889, a inspiração para a nova bandeira nacional veio do lema positivista "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim". Neste Desafio, no papel de professor, imagine que você precisa preparar uma aula sobre a Proclamação da República para uma turma de 9º ano, em que abordará a influência do positivismo nos símbolos nacionais. Para tanto, você vai utilizar a imagem da bandeira do Brasil, além da música “Positivismo”, de Noel Rosa e Orestes Barbosa. Acompanhe a letra dessa canção: Mediante o exposto, explique como você abordaria o tema de modo a destacar os diferentes enfoques dados ao positivismo pelos autores da bandeira brasileira e pelos compositores Noel Rosa e Orestes Barbosa. INFOGRÁFICO Você já deve ter ouvido por aí os termos conservador ou conservadorismo. Porém, muitas vezes as pessoas os utilizam de maneira indiscriminada, sem saber muito bem quais são seus reais significados, que podem ser vários. O conservadorismo surgiu logo após a Revolução Francesa, como uma forma de reação aos ideais revolucionários. De lá para cá, já se vão mais de 200 anos, e o conservadorismo tem sido objeto de análise da sociologia. Afinal, ele pode se apresentar de diferentes formas. No Infográfico a seguir, você conhecerá as mais importantes perspectivas a respeito do conservadorismo nos dias atuais. CONTEÚDO DO LIVRO Durante o século XIX, a Europa passou por grandes e profundas transformações que tiveram impacto em todo o mundo. Desde meados do século anterior, a Inglaterra dava os primeiros passos no evento que ficou conhecido como Revolução Industrial, que atinge seu ápice nas primeiras décadas do século XIX. Na França, em 1789, revolucionários derrubam a monarquia absolutista, abrindo caminho para que a burguesia – que já tinha o predomínio econômico – alcançasse o poder político. Naquele contexto, de rápidas transformações estruturais da sociedade, novas e influentes correntes filosóficas começaram a surgir, algumas inspiradas pelos novos avanços, outras reagindo contra eles. Da mesma forma que as ciências naturais experimentaram grande progresso ao longo do século XIX, as ciências humanas também se desenvolveram largamente no mesmo período. É precisamente na interseção entre ambas que desponta o positivismo, criado pelo francês Auguste Comte. Nessa doutrina, surge a concepção de que as ciências humanas devem utilizar os mesmos métodos das ciências naturais, buscando a total objetividade em suas pesquisas. É assim que se nota a influência positivista sobre as correntes historiográficas do século XIX. Por outro lado, é igualmente no século XIX que o conservadorismo surge como ideologia, em reação à Revolução Francesa. No capítulo O positivismo e a história, da obra Teoria da História e Historiografia, você vai encontrar uma discussão sobre o positivismo e as correntes conservadoras do século, e também verificará como o conservadorismo é visto sob a ótica da sociologia, conhecendo, ainda, as relações entre o positivismo e a história científica do século XIX. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Eduardo Pacheco Freitas O positivismo e a história Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Comparar as correntes conservadoras com a positivista. Identificar o conservadorismo como objeto de análise da sociologia. Relacionar o positivismo com a história científica do século XIX. Introdução O século XIX foi um período fértil para o surgimento de novas correntes de pensamento. Durante aquele período, as rápidas transformações eco- nômicas, sociais e políticas, advindas sobretudo da Revolução Industrial inglesa e da Revolução Francesa, estimularam o ambiente intelectual da Europa Ocidental,que ora se manifestava favorável às novas conquistas técnicas e sociais (progressismo), ora reagia contra a dissolução do Antigo Regime (conservadorismo, reacionarismo). Foi justamente nesse contexto atribulado que o francês Auguste Comte criou a sociologia e uma nova doutrina chamada de positivismo. O positivismo se tornou uma das correntes filosóficas mais influentes daquele século e, além de seu impacto político, trouxe grandes mudanças para as ciências humanas — sobretudo para a história —, que passaram a utilizar métodos das ciências naturais em suas pesquisas. Neste capítulo, você vai aprender as principais características do po- sitivismo e das correntes conservadoras do século XIX. Você também vai conhecer as diferentes perspectivas a respeito do conservadorismo enquanto objeto de análise da sociologia e, por fim, aprender quais são as relações entre o positivismo e a história científica do século XIX. O positivismo e as correntes conservadoras Auguste Comte e o positivismo É bastante provável que você já tenha ouvido falar no termo “positivismo”, da mesma forma que já deve ter lido em algum lugar que Auguste Comte (1798–1857) foi o “pai” da sociologia. Mas você já se perguntou por que veio a ter esse co- nhecimento mesmo sem ainda ser um profi ssional da área das ciências humanas? Em primeiro lugar, é importante termos em mente que o século XIX foi pródigo na criação de novas doutrinas, filosofias e correntes de pensamento. Desde a filosofia idealista até o marxismo — sua antítese completa —, durante aquele século o pensamento humano sofreu grandes e profundas reviravol- tas, que o continuam influenciando ainda no século XXI. É por isso, muito provavelmente, que você já teve algum contato com o positivismo, pois tal doutrina foi justamente uma das novas — e mais influentes — formas de se pensar a realidade surgidas no século XIX. Seu criador, Auguste Comte, francês nascido na cidade de Montpellier, pode ser considerado o “inventor” da sociologia, ciência que não existia até então. Mas como Comte definia esta nova ciência? De acordo com ele, a sociologia é “[...] o estudo positivo do conjunto das leis fundamentais próprias dos fenômenos sociais” (BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 52). Portanto, em termos mais simples, a sociologia se trataria da ciência que estuda a sociedade ao buscar compreender as leis que regem seu funcionamento. Assim, seria literalmente uma “ciência da sociedade”, uma espécie de “física social”, semelhante às outras ciências da natureza. Durante aproximadamente 25 anos, Comte editou o seu Curso de Filosofia Positivista, composto por 60 lições. Foi mais precisamente na 47ª lição que Comte chamou de sociologia este novo ramo do saber humano. A nova ciência dividia-se em dois domínios: a “estática social”, que se referia à existência propriamente dita da sociedade, e, portanto relacionada a uma teoria da ordem; e a “dinâmica social”, relativa ao movimento da so- ciedade e ao progresso. Aqui saltam aos olhos os traços fundamentais do positivismo, que, pos- teriormente, influenciarão as escolas históricas do século XIX. A primeira característica a se destacar é o entendimento que Comte possuía sobre como a sociedade deveria funcionar. De acordo com suas conclusões, uma sociedade só pode existir se houver uma rígida ordem social; portanto, Comte, defendia a existência de um governo forte, autoritário, capaz de manter a sociedade coesa e em funcionamento, embora este governo não devesse cercear a liberdade de O positivismo e a história2 expressão (LACERDA, 2004). Desta forma, seria possível atingir o progresso, que Comte chama de “dinâmica social”. Em resumo, toda e qualquer sociedade (sem perdermos de vista que Comte pensava sempre em termos de sociedades europeias, as quais considerava o auge da civilização), tendo como objetivo último o progresso, deve estar baseada na ordem. Há uma verdadeira fé no progresso moral e social humano, devendo ser o Estado o ente que concentra a racionalidade e uma república ditatorial sua forma de governo. Outro fator central do pensamento comtista diz respeito à “lei dos três estados”, que, em primeiro lugar, apresenta-se como uma teoria do conhecimento, mas acaba por se revelar também uma filosofia da história. Comte julgava ter descoberto uma lei que regia o desenvolvimento da inteligência humana ao longo do tempo. De acordo com seus estudos, todo o ramo do conhecimento passava obrigatoriamente por três etapas históricas: a teológica (ou fictícia), a metafísica e a positiva. No estado teológico, o ser humano buscaria a explicação de todos os fenômenos através da atuação de agentes sobrenaturais (divindades, por exemplo), que incidiriam sobre a realidade. No estado metafísico, que Comte considerava apenas uma simples modificação do estado teológico, os con- ceitos substituiriam os deuses, isto é, em vez de apelar para explicações sobrenaturais, os homens, embora ainda desconhecendo a explicação cien- tífica de determinados fatos, desenvolveriam categorias filosóficas sobre estes (BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 52–5). Finalmente, temos o terceiro estágio, chamado por Comte de “estado positivo”. Nessa etapa, o ser humano busca o conhecimento através da observação e do raciocínio, atendo-se a explicar os fatos de maneira científica, em seus termos reais. Comte aplica a lei dos três estados especialmente à evolução das sociedades ocidentais, correspondendo o estado teológico à Idade Média, o metafísico ao Renascimento e ao século das Luzes e, por fim, o estado positivo diretamente ao século XIX, fruto da Revolução Industrial e dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos (BOURDÉ; MARTIN, 1990). Não se confunda. Para Comte, o termo “positivo” não significa o contrário de “nega- tivo”. De acordo com a sociologia desenvolvida por este pensador, “positivo” seria todo aquele conhecimento adquirido única e exclusivamente por meio de métodos científicos (COMTE, 1978). 3O positivismo e a história Assim, delineadas as principais características do positivismo, você terá condições de compreender melhor sua influência sobre as escolas históri- cas do século XIX, sobretudo a chamada Escola Metódica. Esta corrente historiográfica, tendo como seus proponentes mais célebres Gabriel Monod (fundador da Revue Historique, em 1876), Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos, tinha pretensões cientificizantes para o ofício do historiador, o qual deveria apresentar total neutralidade e objetividade perante suas fontes, como se desaparecesse atrás delas. Assim, retirava-se da história qualquer traço de subjetividade, restringindo-se a investigação historiográfica aos fatos (curta duração) e às vidas das grandes personalidades, através do uso estrito de documentos escritos e oficiais. Auguste Comte, próximo ao final de sua vida, chegou à conclusão de que uma política positiva somente poderia ser implementada a partir de uma religião positiva. Assim, foi criada a “Religião da Humanidade”, cujo principal dogma assentava-se sobre uma trindade: o Grande Meio (o Espaço), o Grande Ídolo (a Terra) e o Grande Ser (a Hu- manidade). Para tanto, era necessária a constituição de uma igreja com sacerdotes, templos e uma imagem feminina a ser adorada (inspirada em Clotilde de Vaux, paixão não correspondida de Comte) (BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 52). Alguns templos foram construídos, inclusive no Brasil. Em Porto Alegre, o Templo Positivista encontra-se em funcionamento até os dias de hoje Acessando o link a seguir, você poderá assistir a um minidocumentário que mostra como funcionam os cultos da “Religião da Humanidade”, criada por Auguste Comte. https://qrgo.page.link/qMx6D O idealismo alemão Um dos grandes debates existentes até os dias de hoje no âmbito das ciências humanas diz respeito às relações entre sujeito e objeto. Nas ciências naturais, evidentemente, é muito mais simples atingir a plena objetividade. Na descrição de um átomo (objeto), por exemplo, as experiências pessoaisou as preferências religiosas e partidárias do cientista (sujeito) não terão infl uência alguma. Já nas ciências humanas, sujeito e objeto podem se confundir, o que nos leva à outra discussão, agora de caráter epistemológico e fi losófi co: a realidade é O positivismo e a história4 um dado, sobre o qual a existência do sujeito não interfere absolutamente, ou então a existência do objeto é condicionada pelo sujeito (FONSECA, 2009)? É nesse ponto que temos a divisão entre duas correntes importantes de pensamento. De acordo com o “realismo”, é a primeira afirmação que está correta, isto é, existe uma realidade objetiva independente da subjetividade. É importante destacarmos que aqui há um ponto de aproximação com o po- sitivismo, pois este acredita na possibilidade de total distinção entre sujeito e objeto, podendo, dessa forma, ser enquadrado nas correntes realistas. Já o “idealismo”, de maneira inversa, percebe a existência de uma razão subjetiva, dando, portanto, grande destaque ao subjetivismo. De acordo com Fonseca (2009, documento on-line), “[...] a primeira corrente (realismo) (...) coloca nessa relação cognitiva um forte acento no objeto; já a segunda corrente (idealismo) acentua, na operação do saber, a figura do sujeito”. Em resumo, são epistemologias distintas, duas formas opostas de compreender como se dá o processo de apreensão da realidade. O idealismo alemão foi uma corrente filosófica surgida em fins do século XVIII e que se desenvolveu principalmente nas primeiras três décadas do século XIX, fortemente imbuída pelo espírito romântico da época. O contexto de sua aparição é uma época em que os países mais adiantados da Europa (Inglaterra, França e Holanda) já haviam conseguido impor as novas relações de produção capitalista, derrotando o feudalismo e conduzindo a derrota do absolutismo. Portanto, o idealismo é uma forma de filosofia clássica da as- censão da burguesia como classe dominante. No entanto, a Alemanha — que naquele momento sequer havia conseguido unificar seu território — ainda era o país mais atrasado social e economicamente da Europa Ocidental, fato que contrastava com a sofisticada filosofia produzida pelos alemães. As origens dessa corrente de pensamento podem ser traçadas até Immanuel Kant (1724–1804), que influenciou os trabalhos dos grandes nomes do idealismo alemão no século XIX: Fichte, Schelling e o mais importante deles, Hegel. Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu em Stuttgart em 1770, morrendo em Berlim em 1831. Sua obra frequentemente é tida como obscura e de difícil compreensão, servindo de base filosófica tanto para movimentos reacionários quanto para progressistas, como no caso de seus discípulos que se dividi- ram entre a “direita hegeliana” e a “esquerda hegeliana”. Esta divisão se dá basicamente devido a dois aspectos profundos e contraditórios da filosofia de Hegel. O primeiro deles, que inspirou Weisse e Fichte (direita hegeliana), diz respeito à “teoria do real como racional”, que acabava por concluir que o Estado prussiano era a forma política mais elevada produzida pela humanidade, ensejando, portanto, uma obediência completa. Já Feuerbach, Bauer e Marx 5O positivismo e a história (esquerda hegeliana) voltaram-se à dialética de Hegel (tese, antítese e síntese) e à sua filosofia da história, defendendo que o socialismo seria historicamente inevitável (DURAND, 1996). Para se ter uma boa ideia da importância intelectual da polêmica entre os discípulos de Hegel, basta levarmos em consideração que foi a partir dela que uma nova e radical concepção da história surgiu. No livro A Ideologia Alemã, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels entre 1845 e 1846 (mas publicado somente em 1932), os autores fazem uma crítica contundente aos autores alemães que expressavam a maneira idealista de pensar, lançando assim as bases para o materialismo histórico-dialético. Romantismo O romantismo foi um movimento fi losófi co e cultural que teve seu ápice no século XIX, na Alemanha. Para compreendê-lo, é necessário analisarmos o contexto histórico europeu daquele período. O século XIX é o “século bur- guês”, assim chamado pois é o momento em que, após a Revolução Industrial (que transformou radicalmente a economia e o modo de produção) e a Revolu- ção Francesa (que marca uma ruptura política defi nitiva em relação ao Antigo Regime), a burguesia, agora constituída como classe, consegue consolidar seu poder econômico e político. Este mundo novo, que rapidamente emerge na Europa entre os séculos XVIII e XIX, não tardou a provocar reações no mundo intelectual, que muitas vezes traduziu, via novas correntes de pensamento ou estéticas, a insatisfação de determinados grupos da sociedade — dentre eles a nobreza — com as profundas transformações ocorridas em tão curto espaço de tempo. É neste contexto que surge o romantismo, saudoso de uma Europa que deixava de existir, soterrada sob os escombros da Idade Média. O subjetivismo é uma das marcas principais do movimento romântico, con- trastando enormemente com a busca da objetividade inerente ao positivismo. Como afirma Ribeiro (2010, p. 7), “[...] o espírito romântico passa a designar toda uma visão do mundo centrada no historicismo e no individualismo. Se o século XVIII fora marcado pela objetividade, pelo Iluminismo e pela razão, o início do século XIX seria marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela O positivismo e a história6 emoção e pelo eu”. Portanto, a partir desse entendimento podemos afirmar que o romantismo se tratou de um movimento de caráter conservador, até mesmo reacionário, pois renegava os avanços do século das Luzes e da ciência que haviam desembocado nas duas grandes revoluções do período (Industrial e Francesa). Em relação à historiografia, sobretudo a francesa, é possível observarmos grande influência do romantismo. Enquanto no século XVIII os historiadores iluministas procuravam apagar qualquer lembrança do período medieval (chamado a partir dessa época de “Idade das Trevas”), a abordagem historio- gráfica sobre o medievo foi transformada no século XIX. Todavia, a questão não é tão simples. A Idade Média não passou a ser vista com mais simpatia pelos historiadores franceses do século XIX apenas por um capricho intelectual ou mera nostalgia. O cerne da questão está no entendimento de que o pro- cesso revolucionário havia desagregado a França. Assim, historiadores como François Guizot (1787–1874), Jules Michelet (1798–1874) e Augustin Thierry (1795–1856) — pioneiros na utilização de fontes originais —, voltaram-se à Idade Média no intento de buscar as origens da nação francesa e escrever uma história comum a todos os franceses. De acordo com Oliveira (1999, documento on-line), essa romantização do passado medieval francês — con- trarrevolucionária, vale frisar — teve como origens o fato de que havia uma “[...] necessidade de consolidar as instituições sociais, de estabelecer a paz e a ordem entre as classes, de obter a unidade da nação”. Historicismo O historicismo é uma corrente de pensamento que, assim como o idealismo, o romantismo e o positivismo, adquire força durante o século XIX, possuindo relações com estas. Por historicismo, podemos entender uma forma de conceber a história na qual se dá importância em demasia ao passado, que passa a ser glorifi cado. Nesse sentido, o historicismo tende a buscar a preservação de costumes, instituições e valores de um determinado povo, apresentando-se, assim, como uma corrente conservadora, que se aproxima muito do romantismo e do tradicionalismo. Outra característica fundamental do historicismo reside no entendimento de que a pesquisa histórica se resume à coleta e compilação de dados históricos, aproximando-se, dessa forma, da visão positivista da história, que pode ser defi nida como objetivismo histórico (SCHOLTZ, 2001). No entanto, a relação entre historicismo e a questão metodológica nas ciências se torna mais complexa a partir do pensamento do filósofoalemão Wilhelm Dilthey (1833–1911). Dilthey, um dos herdeiros do historicismo do 7O positivismo e a história final do século XIX, procurou estabelecer claramente a distinção metodológica entre as ciências humanas e as naturais. A partir de seu trabalho, houve uma importante caracterização das ciências humanas como ciências interpretativas, que não poderiam ser adaptadas à lógica das ciências naturais, evidenciando, portanto uma concepção oposta à de Comte. Contudo, embora fosse um crítico da visão positivista — por acreditar, ao contrário desta, que não era possível no campo das “ciências do espírito” se falar em leis gerais que regessem a história ou a sociedade —, para alguns autores Dilthey não estava tão distante assim do positivismo, já que evitou tirar conclusões que colidissem com a ideia de uma ciência livre de valores (SCOCUGLIA, 2002). O conservadorismo como objeto da sociologia Você já deve ter se deparado muitas vezes com o termo “conservador”. É frequente em debates políticos que uma ou outra parte busque desqualifi car seu adversário caracterizando-o como representante do conservadorismo ou então como defensor de práticas políticas e sociais conservadoras. Já na linguagem cotidiana, conservador seria aquele indivíduo que não é muito afeito a mudanças, geralmente nos costumes. Mas você sabe realmente qual o signifi cado do conceito conservadorismo? Trata-se de uma ideologia, com uma história já bastante longa, diga-se de passagem, e que tem sido objeto de estudos muito sérios por parte das ciências sociais. O surgimento da ideologia conservadora O conservadorismo surge enquanto ideologia como uma forma de reação às intensas transformações políticas, sociais e econômicas que passam a ocorrer no Ocidente entre fi ns do século XVIII e início do século XIX. Em síntese: o conservadorismo é uma ideologia reativa “[...] que tende a emergir quando confrontada a propostas radicais de mudança social” (GAHYVA, 2017, documento on-line). Afi nal, foram muitas revoluções em pouquíssimo tempo: Revolução Industrial, Revolução Americana, Revolução Francesa... Tudo o que era sólido estava se desmanchando no ar e as novas relações sociais advindas do desmoronamento do Antigo Regime (feudalismo e absolutismo) causavam forte impacto no imaginário dos intelectuais, pro- vocando uma verdadeira batalha de ideias. O positivismo e a história8 O irlandês Edmund Burke (1729–1797) foi o principal nome da ideologia conservadora. Temeroso de que os ventos da revolução na França soprassem sobre a Irlanda e a Inglaterra, produziu em 1790 (apenas um ano depois de iniciado o processo revolucionário francês) o livro Reflexões sobre a Revo- lução em França, em que expõe os princípios básicos do conservadorismo, que ainda hoje, passados mais de 200 anos, servem como guia para os que se afiliam à corrente conservadora. No livro, Burke volta-se sobretudo contra a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada pelos revolucionários franceses, que, em última análise, marcava a refundação da sociedade agora assentada so- bre os direitos naturais. Assim, Burke demarcará a posição do conserva- dorismo frente ao avanço dos ideais da Revolução. Como explica Gahyva (2017, documento on-line): Se os revolucionários reivindicam a refundação da sociedade a partir da noção de direito natural, Burke opera uma reversão sistemática da ideia de natureza que fará escola no pensamento conservador. Para ele, natural não é o que vale para todos os homens, ou aquilo que pertence essencialmente à natureza humana — isto é, o que se refere ao homem considerado anteriormente a todos os vínculos sociais. Natural, ao contrário, corresponde ao resultado de longo desenvolvimento histórico. Para Burke, a natureza equivale à história. Como fica claro no trecho citado, Burke descarta a ideia de direitos naturais como entendida pelos iluministas e que acabaria por influen- ciar sobremaneira os ideais revolucionários (direito à vida, à liberdade, à igualdade, à propriedade etc.). Para o ideólogo do conservadorismo, mais importante do que tudo isso são os costumes e as tradições. Se, por exem- plo, a aristocracia feudal tem prevalência na sociedade sobre os outros grupos sociais, com privilégios e direitos diferenciados, é porque isto re- sultou de um longo processo histórico, que, portanto, não deve ser alterado. Como afirma Souza (2016, documento on-line), na visão burkeana “[...] a divisão da sociedade em classes e a desigualdade social, portanto, compõem um quadro de hierarquia e ordenamento correspondentes à natureza”. Trata- -se de um pensamento absolutamente conservador e contrarrevolucionário, que vê em qualquer transformação estrutural da sociedade e na busca pela igualdade inimigos a serem combatidos. 9O positivismo e a história Um bom exemplo para compreendermos a ideologia conservadora está nas diferentes concepções de Edmund Burke sobre as revoluções americana (1776) e francesa (1789), já que o autor concordava com a primeira e combatia ferozmente a segunda. Para Burke (1997b), a Revolução Francesa se tratava de um movimento conduzido por “homens de letras”, que tinham como único objetivo a subversão total da ordem, já que, segundo sua visão, não possuíam apreço por “[...] quase nada [...] que foi feito antes de sua época” e viviam “[...] apenas em função de novas descobertas” (BURKE, 1997a, p. 108). Por outro lado, o autor via a Revolução Americana como a luta dos “[...] colonos americanos [...] pela preservação de seus hábitos e costumes em face de uma potência estrangeira” (GAHYVA, 2017, documento on-line). Outro importante nome do conservadorismo foi o francês Alexis de Toc- queville (1805–1859). Este autor produziu importantes análises sobre as causas da Revolução Francesa, bem como sobre as origens do ideal revolucionário de igualdade, duramente combatido pelos ideólogos do conservadorismo, por ser considerado incompatível com o exercício da liberdade. Para Tocqueville, o próprio regime absolutista, por seu processo de centralização administrativa, havia pavimentado o caminho não só para a revolução como para o socialismo. Portanto, de acordo com Tocqueville, a Idade Média havia sido o momento histórico que privilegiou a liberdade e a heterogeneidade, substituídos em seguida pela igualdade e homogeneidade oriundas da centralização do poder absoluto. Para você conhecer melhor o pensamento de Alexis de Tocqueville, leia o texto A feno- menologia do poder: Marx, Engels, Tocqueville, de autoria do filósofo italiano Domenico Losurdo, disponível no link a seguir. http://ref.scielo.org/3jx5hk O positivismo e a história10 Perspectivas sociológicas do conservadorismo Do ponto de vista sociológico, além de uma ideologia, o conservadorismo pode apresentar, no mínimo, outras três interpretações. Na primeira delas, o conservadorismo é visto como uma forma de pragmatismo político, isto é, uma doutrina política que não apresenta conteúdo próprio, na qual tudo que possa ser útil acaba por ser incorporado ao seu programa. Já a segunda interpretação, a situacional — que não deve ser confundida com a pragmática — ocorreria quando uma força política institucionalizada, ao perceber qualquer movimento que possa tirá-la do poder — não necessaria- mente por vias revolucionárias, mas até mesmo por meras medidas reformistas —, acaba por demonstrar uma postura defensiva frente a novas ideias. Por fim, a terceira perspectiva, que pode ser chamada de habitual, refere- -se ao entendimento de que ser conservador é algo “natural”, ou seja, de que o conservadorismo faz parte da essência humana. Dessa forma, o conceito é transformado em algo “a-histórico”, isto é, passa a ser encarado como um fato da natureza e não uma ideologia que apresenta origens históricas bem definidas como examinamos anteriormente. Esta última perspectiva é utilizada, em geral, pelos próprios conservadores (VARES, 2015). No entanto, as classificações possíveis do conservadorismonão param por aqui. De acordo com Vares (2015, documento on-line): Mesmo no interior do pensamento conservador as divergências são enormes. A este respeito, podemos identificar duas posições antagônicas. A primeira delas defende que há apenas uma doutrina genuína do conservadorismo, o que invalida a tese acerca dos diversos conservadorismos [que vimos acima]. A segunda, mais difundida, aponta a existência de diferentes correntes con- servadoras das quais é possível destacar pelos menos três grandes ideologias, a saber, a tradicionalista, a romântica e a liberal. Para o conservadorismo tradicionalista, as convenções sociais, as tradições e os costumes assumem importância central na sociedade. Por isso, dentro desta visão, dá-se muito mais valor às coisas práticas do que às teóricas. Outro aspecto importante nesse tipo de conservadorismo é a visão de que as mudanças na sociedade devem ocorrer lentamente, de maneira natural. Isso tem um impacto direto na concepção acerca da desigualdade, pois de acordo 11O positivismo e a história com a visão tradicionalista ela é natural, não tendo origem social. Dentro do conservadorismo romântico, percebe-se a idealização de um passado mítico, em que a vida seria mais simples e por isso mesmo melhor. Há uma tendência a se contrapor a cidade ao campo, a indústria à agricultura, os tempos de hoje aos “tempos de antigamente”, sempre valorizando-se os últimos em relação aos primeiros. Finalmente, temos o conservadorismo liberal. Nesse tipo de vertente conservadora costumam-se aceitar os principais valores do liberalismo clássico: o individualismo, a propriedade privada e o Estado mínimo (VARES, 2015). O positivismo e a histórica científica do século XIX “Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais” é um antigo provérbio árabe retomado pela antropóloga Lilia Schwartz na apresentação à edição brasileira do clássico da historiografi a Apologia da História ou o Ofício do Historiador, de Marc Bloch (2001, p. 7). No mesmo texto, a autora recupera outra afi rmação complementar a esta, desta vez de Lucien Febvre, fundador, juntamente com Bloch, da Escola dos Annales: “a história é fi lha de seu tempo”. Para compreendermos corretamente a relação entre a doutrina de Auguste Comte e a forma que a pesquisa histórica assumiu entre meados do século XIX e as primeiras décadas do século XX, é importante considerarmos que toda produção humana é sempre determinada pelas condições gerais de sua época, sejam elas materiais ou intelectuais. Assim, torna-se evidente que o positivismo, enquanto uma das correntes de pensamento mais importantes do século XIX, exerceu forte influência sobre a produção intelectual e histo- riográfica daquele século. Ranke e a história positivista O século XIX é conhecido como o “século burguês” por ser o momento his- tórico em que a burguesia, agora constituída como classe, promove grandes revoluções econômicas e políticas, consolidando seu poder. Na esteira dessa transformação social, os avanços tecnológicos daquele século (motores, trens, química, telégrafo etc.) terão um grande impacto sobre o imaginário social, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, fazendo surgir o conceito de progresso. A humanidade (do ponto de vista do Ocidente, vale O positivismo e a história12 sempre lembrar) parecia encontrar-se em um caminho de desenvolvimento social e técnico infi nito, em que a ciência e a sua objetividade tornaram-se os novos parâmetros a conduzir as atividades dos homens. É nesse sentido que podemos compreender as razões para que até mesmo as ciências humanas deixassem de lado a subjetividade e buscassem se tornar cada vez mais semelhantes às ciências naturais. Há um verdadeiro ideal de neutralidade por parte dos novos historiadores, infl uenciados pelo positivismo e imbuí- dos da missão de realizar uma “revolução copernicana” (BURKE, 1997b) na historiografi a, que tem como seu maior expoente o historiador alemão Leopold von Ranke (1795–1886). Contudo, é importante verificarmos antes uma breve afirmação de Peter Burke (1997b, p. 17) sobre a história da historiografia, a fim de esclarecermos melhor a “revolução” posta em marcha por Ranke: Desde os tempos de Heródoto e Tucídides, a história tem sido escrita sob uma variada forma de gêneros: crônica monástica, memória política, tratados de antiquários, e assim por diante. A forma dominante, porém, tem sido a nar- rativa dos acontecimentos políticos e militares, apresentada como a história dos grandes feitos de grandes homens — chefes militares e reis. Foi durante o Iluminismo que ocorreu, pela primeira vez, uma contestação a esse tipo de narrativa histórica. Muitos historiadores e intelectuais do século XVIII (Voltaire é um exemplo) passaram a se preocupar em escrever uma história que não se restringisse aos temas recém-citados, mas que procurasse abordar outros aspectos do desenvol- vimento histórico das sociedades, como a economia, a moral, os hábitos etc. Portanto, é somente a partir do Iluminismo que acontece uma transformação real na forma como os historiadores encaravam a história, explicitada nos novos recortes, nos novos objetos de estudo. Assim, quando Ranke valoriza excessivamente a história política e demonstra total desprezo por qualquer outro campo historiográfico que não seja esse, podemos tirar duas conclusões principais: (1) Ranke foi profundamente influenciado pelo positivismo e (2) a propalada “revolução” que ele supostamente teria provocado no método histórico se trata na verdade de uma “contrarrevolução”, já que vai contra a tendência de abertura de novos campos investigativos na história que ocorria desde o século XVIII. Ranke é tido como o criador dessa nova escola histórica, chamada científica, que é baseada nos preceitos positivistas de separação total entre sujeito e objeto, de utilização da metodologia das ciências naturais nas ciências humanas, do 13O positivismo e a história uso exclusivo de documentos escritos e oficiais como fontes e, principalmente, de que o passado pode ser apreendido totalmente enquanto objeto de estudo da ciência, desde que aplicados estes pressupostos. Apesar destas pretensões, que desconsideram a subjetividade do pesqui- sador, como se este pudesse “desaparecer” por detrás de suas fontes e de seus textos, a história científica de Leopold von Ranke, sem dúvida alguma, promoveu grandes avanços no ofício do historiador. Talvez a maior conquista a partir da abordagem rankeana seja a prioridade no uso de fontes primárias e a necessidade de uma crítica rigorosa dos documentos estudados. Além disso, o modelo criado por Ranke atravessou as fronteiras da Alemanha, influenciando decisivamente a chamada “escola metódica”, surgida na França. A influência da história positivista na França Em 1876, foi fundada em Paris a Revue Historique (Revista Histórica) por Gabriel Monod (1844–1912) e Gustave Charles Faganiez (1842–1927), na qual os pilares da escola metódica começam a ser estabelecidos, seguindo os passos da história positivista de Ranke. Em seu círculo de colaboradores, a revista acabou servindo como espaço de projeção para aqueles que se tornariam os mais conhecidos historiadores desta corrente historiográfi ca: Charles-Victor Langlois (1863–1929) e Charles Seignobos (1854–1942). Com a publicação do texto “Introdução aos Estudos Históricos”, extremamente infl uente nas gerações posteriores de historiadores, Langlois e Seignobos procuraram estabelecer o método a ser seguido pelo historiador. Contudo, revelando a infl uência de Ranke e do positivismo em geral, permaneceram afeitos a uma história do tipo événementielle, isto é, fi xada apenas nos eventos, nos fatos históricos. Essa perspectiva histórica seria superada somente muitas décadas depois, com o surgimento da revista Annales, fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre, em 1929. Dessa forma, é possível perceber que o positivismo, embora surgido no século XIX, teve grandeinfluência sobre a historiografia, chegando até o século XX. No entanto, neste último, muitas outras correntes historiográficas surgiram, criando diversas subespecialidades dentro do campo histórico e tornando ainda mais complexo o trabalho do historiador. O positivismo e a história14 BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BOURDÉ, G.; MARTIN, H. As escolas históricas. Lisboa: Publicação Europa–América, 1990. BURKE, E. Reflexões sobre a Revolução em França. Brasília: Editora da UnB, 1997a. BURKE, P. A escola dos Annales (1929–1989): a revolução francesa da historiografia. São Paulo: Unesp, 1997b. COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva. São Paulo: Abril Cultural, 1978. DURAND, E. A história da filosofia. Rio de Janeiro: Nova Cultural, 1996. FONSECA, R. M. O positivismo, “historiografia positivista” e história do direito. Argumenta Journal Law, n. 10, p. 143–166, 2009. Disponível em: http://seer.uenp.edu.br/index.php/ argumenta/article/view/131. Acesso em: 15 jul. 2019. GAHYVA, H. Notas sobre o conservadorismo: elementos para a definição de um conceito. Política e Sociedade, v. 16, n. 35, p. 299–320, 2017. Disponível em: https://periodicos.ufsc. br/index.php/politica/article/view/2175-7984.2017v16n35p299. Acesso em: 15 jul. 2019. LACERDA, G. B. Elementos estáticos da teoria política de Augusto Comte: as pátrias e o poder temporal. Revista de Sociologia Política, n. 23, p. 63–78, 2004. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n23/24622.pdf. Acesso em: 15 jul. 2019. OLIVEIRA, T. A historiografia francesa dos séculos XVIII e XIX: as visões iluminista e romântica da Idade Média. Acta Scientiarum, v. 21, n. 1, p. 175–185, 1999. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciHumanSocSci/article/view/4205. Acesso em: 15 jul. 2019. RIBEIRO, R. A. O. Romantismo: contextualização histórica e das artes. 2010. Dissertação (Mestrado em Música) — Instituto Politécnico de Castelo Branco, Escola Superior de Artes Aplicada, 2010. SCHOLTZ, F. O problema do historicismo e as ciências do espírito no século XX. História da Historiografia, n. 6, p. 42–63, 2001. Disponível em: https://www.historiadahistoriografia. com.br/revista/article/viewFile/239/167. Acesso em: 15 jul. 2019. SCOCUGLIA, J. B. C. A hermenêutica de Wilhelm Dilthey e a reflexão epistemoló- gica nas ciências humanas contemporâneas. Sociedade e Estado, v. 17, n. 2, p. 249– 281, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi d=S0102-69922002000200003. Acesso em: 15 jul. 2019. SOUZA, J. M. A. Edmund Burke e a gênese do conservadorismo comparação ideias liberais e conservadoras. Serviço Social & Sociedade, n. 126, p. 360–377, 2016. Disponível em: http:// www.scielo.br/pdf/sssoc/n126/0101-6628-sssoc-126-0360.pdf. Acesso em: 15 jul. 2019. VARES, S. F. A sociologia durkheimiana e a tradição conservadora: elementos para uma revisão crítica. RBSE — Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 14, n. 40, p. 135–156, 2015. Disponível em: http://www.cchla.ufpb.br/rbse/VaresRes.pdf. Acesso em: 15 jul. 2019. 15O positivismo e a história Leituras recomendadas LOSURDO, D. A fenomenologia do poder: Marx, Engels, Tocqueville. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, n. 38, p. 31–53, 1996. Disponível em: http://ref.scielo.org/3jx5hk. Acesso em: 15 jul. 2019. MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Expressão Popular, 2009. O positivismo e a história16 DICA DO PROFESSOR A Escola Metódica foi uma das mais importantes correntes historiográficas inspiradas pelo positivismo. Surgida na França, a partir da publicação da Revista Histórica, em 1876, exerceu influente papel na formação de gerações de historiadores, que encontraram em seu método uma forma de "cientificizar" a produção do conhecimento histórico. Por outro lado, essa escola apresentou sérias limitações ao trabalho do historiador, sobretudo no que diz respeito ao uso das fontes. Diante disso, nesta Dica do Professor, aproveite para conhecer o contexto histórico e as principais características da Escola Metódica. Veja a seguir. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) Durante o desenvolvimento da filosofia positivista, houve uma verdadeira transformação do pensamento científico no interior das ciências humanas. O positivismo tornou-se muito influente sobre estas, principalmente sobre a história, trazendo a fé inabalável no progresso científico e o rigor metódico para o trabalho do historiador. Qual das características apresentadas a seguir comprova isso? A) Separação total entre sujeito e objeto. B) Lei dos três estados. C) Subjetivismo. D) Idealismo. E) Idealização de um passado mítico. 2) Leopold von Ranke foi um dos historiadores mais influenciados pelo positivismo. Frequentemente é visto como um "revolucionário" da historiografia, porém, alguns autores consideram que Ranke fez uma "contrarrevolução" no método histórico, já que posicionou-se contra os campos de estudo abertos pelos historiadores iluministas. Dessa forma, é possível compreender os recortes realizados pelo autor e sua predisposição em valorizar determinadas áreas do conhecimento histórico em detrimento de outras. A partir disso, qual campo da história foi privilegiado por Ranke? A) História social. B) História cultural. C) História econômica. D) História política. E) História geral. 3) Edmund Burke é tido como o criador da ideologia conservadora, em fins do século XVIII. Seus escritos foram uma reação às grandes transformações pelas quais a Europa passava naquele momento, sobretudo em decorrência do processo revolucionário na França. Burke posicionou-se contra os direitos naturais, defendidos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, por considerá-los incorretos. Nessa questão dos direitos naturais, que equívoco metodólogico Burke comete? A) Naturaliza algo que é histórico. B) Não aponta soluções para o problema. C) Considera a França um país inferior. D) Não deixa claro seu ponto de vista. E) Não expõe sua visão sobre os privilégios. 4) A ideologia conservadora de Burke fica muito clara nos posicionamentos que o autor assume perante as Revoluções Americana (1776) e Francesa (1789). Em relação a esta última, Burke considerava um movimento de "homens de letras", que não tinham apreço pela tradição e que valorizavam somente aquilo que era novidade. O que evidência a divergência com o autor, já que este defendia a tradição. Em relação à Revolução Americana, qual foi o motivo para que Burke a apoiasse? A) Burke acreditava que a Revolução Americana seria um exemplo para a Inglaterra. B) Burke via a Revolução Americana como um desenvolvimento natural da história. C) Burke considerava a Revolução Americana uma revolta de colonos que lutavam pela preservação de sua cultura. D) Burke simpatizava com o caráter republicano da Revolução Americana. E) Burke confiava plenamente nos colonos. Wilhelm Dilthey foi um dos nomes mais importantes da corrente de pensamento chamada historicismo. Essa corrente, por um lado, aproxima-se do positivismo, 5) devido a seu entendimento de que a pesquisa histórica deve se resumir à coleta e à compilação de fatos históricos, caracterizando um objetivismo histórico, por outro lado, afasta-se do positivismo. Qual característica comprova essa última afirmação? A) Dilthey considerava as ciências humanas como interpretativas. B) O método de Dilthey era o das ciências naturais. C) Dilthey acreditava em uma ciência livre de valores. D) Dilthey defendia somente o método das ciências humanas. E) Dilthey acreditava em leis gerais. NA PRÁTICA Uma das características fundamentais do bom professor de História é saber associar eventos históricos às ideias correntes no período em que ocorreram. Portanto, ao professor não basta simplesmente explicar acontecimentos com base em datas e nomes, sem a devida contextualização teórica.Daí a importância do estudo das ideias influentes em cada etapa histórica e suas relações com a sociedade. Assim, as razões para que eventos tenham ocorrido ou deixado de ocorrer se tornarão mais claras para os alunos. Por exemplo, para ensinar sobre a Idade Antiga, é importante conhecimentos gerais sobre a mitologia grega; para conteúdos de Idade Média, é indispensável que o professor tenha noções sobre as doutrinas cristãs daquele período; para as Idades Moderna e Contemporânea, o professor deve conhecer as características do liberalismo, do socialismo e do conservadorismo. Neste Na Prática, você entenderá melhor a importância que a história das ideias tem nas aulas do ensino fundamental. Note como ela pode ser articulada aos fatos históricos, pela utilização de conhecimentos sobre a ideologia conservadora, criada por Edmund Burke, para o conteúdo de Revolução Francesa. SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: A última religião Excelente documentário que refaz a trajetória do positivismo no Brasil, desde sua chegada, em meados do século XIX, passando pelo seu auge na Proclamação de República e chegando até os dias de hoje. Aproveite. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! O pensamento conservador O seguinte artigo, do professor Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas, traz uma discussão muito interessante sobre as relações entre o pensamento conservador e o pensamento científico. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Historicismo e história APRESENTAÇÃO No século XIX, diversas correntes de pensamento surgiram, provocando uma verdadeira revolução no pensamento humano. Dentre elas, destaca-se o historicismo alemão, que geralmente é classificado em romântico (do início daquele século) e epistemológico (situado na passagem para o século XX). Essa corrente filosófica causou grande impacto sobre as ciências humanas, sobretudo por suas discussões a respeito dos melhores métodos a serem empregados nas pesquisas sobre o ser humano e a sociedade. Assim, novos paradigmas foram criados, tornando a ciência histórica e as ciências sociais cada vez mais complexas. Nesta Unidade de Aprendizagem, você aprenderá a diferenciar o historicismo romântico do epistemológico, bem como conhecerá as principais características do pensamento de Wilhelm Dilthey. Você também estudará a história e o desenvolvimento dos principais paradigmas das ciências sociais. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Diferenciar o historicismo romântico do epistemológico.• Identificar a experiência vivida e a veracidade no processo histórico em Dilthey.• Analisar a história e os paradigmas atuais das ciências sociais.• DESAFIO Um dos principais desafios do historiador é a capacidade de domínio conceitual. É impossível produzir conhecimento histórico sem a compreensão detalhada dos conceitos que o historiador utiliza para entender e explicar o seu objeto e os processos históricos, ocorrendo em dois níveis principais. Em um deles, o historiador deve conhecer – e dominar – o instrumental teórico e conceitual que diz respeito diretamente ao objeto que analisa. Por exemplo, para produzir conhecimento sobre a Idade Média, é fundamental que o pesquisador compreenda conceitos como feudalismo e cristandade. Sem eles, torna-se inviável um trabalho histórico sobre o período. Em outro nível, o historiador precisa dominar os conceitos que dizem respeito ao seu próprio ofício, bem como à história da historiografia. Somente dessa maneira o historiador, além de produzir pesquisas com sentido, poderá compreender o sentido da sua própria atuação em relação ao que já se fez no passado e ao que se espera do presente e do futuro. O historicismo e as suas diferentes correntes são um exemplo importante sobre a diferença que faz na trajetória de um historiador ter o conhecimento sobre as formas de se pensar a história que surgiram há muito tempo, mas que continuam a influenciar o ofício historiográfico no presente. Portanto, é sempre importante que o historiador faça reflexões acerca dos problemas que o historicismo coloca, de forma a comunicar os resultados que encontra aos seus pares encetando discussões a respeito dos modos de escrita da história. Você escreveu um artigo no qual discute as principais diferenças entre o historicismo romântico e o historicismo epistemológico. Ele foi aprovado para apresentação em um congresso sobre historicismo e história, e os organizadores informaram que você terá apenas cinco minutos para a sua comunicação e que ela deverá ser exposta em três tópicos. Dessa forma, você precisará demonstrar grande capacidade de síntese, expondo o conteúdo de maneira esquemática, porém sem perder a profundidade. Diante desse cenário, você deve: 1) Escrever um roteiro que servirá como base para a sua fala no evento. 2) Elaborar uma apresentação de slides contendo os três tópicos e as informações que você considera indispensáveis para abordar o tema. INFOGRÁFICO Nas ciências sociais, existem quatro pressupostos básicos que servem como orientação para as pesquisas realizadas, não somente na área, mas nas ciências humanas em geral e na história especificamente. O primeiro deles é o ontológico, que busca a essência por trás da aparência dos fenômenos sociais; o segundo é o pressuposto epistemológico, responsável pela verificação dos modos que o conhecimento se apresenta; há o pressuposto da natureza humana, que investiga as relações entre indivíduos e ambiente; e, por fim, o pressuposto metodológico, que serve para conduzir os métodos de investigação. Esses pressupostos são a base para todos os paradigmas que já foram utilizados pelas ciências sociais. Da mesma forma, na questão da interdisciplinaridade, extremamente relevante na produção do conhecimento nos dias atuais, os paradigmas citados também são utilizados pela antropologia, etnologia, história, etc. No Infográfico, você irá conhecer todos esses paradigmas: funcionalista, interpretativo, humanista radical, estruturalista radical e o da globalização. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! CONTEÚDO DO LIVRO Na área da história, bem como das ciências humanas em geral, é fundamental o domínio de suas respectivas teorias. O historicismo foi uma das correntes de pensamento mais influentes sobre a produção historiográfica do século XIX, tornando-se uma importante filosofia da história que até os dias de hoje ainda tem relevância dentro dos estudos históricos. Um de seus nomes mais conhecidos foi o alemão Wilhelm Dilthey, que produziu reflexões sobre diversas áreas das humanidades, fundamentando teórica e metodologicamente muitas dessas ciências. No capítulo Historicismo e história, da obra Teoria da História e Historiografia, você conhecerá as características do historicismo e aprenderá a diferenciar o historicismo romântico do epistemológico. Você também conhecerá o pensamento de Wilhelm Dilthey e o seu conceito de "experiência vivida", bem como a história e os paradigmas das ciências sociais. Boa leitura. TEORIA DA HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA Eduardo Pacheco Freitas Historicismo e história Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Diferenciar o historicismo romântico do epistemológico. Identificar a experiência vivida e a veracidade no processo histórico em Dilthey. Analisar a história e os paradigmas atuais das ciências sociais. Introdução No século XIX, algumas correntes filosóficas se tornaram extremamente importantes para a consolidação da ciência histórica. Dentre elas, a mais relevante foi o historicismo, que se dividiu em duas perspectivas prin- cipais, o historicismo romântico, do início do século, e o historicismo epistemológico, da passagem do séculoXIX para o XX. Dentro desse último, outras subdivisões surgiram, situando-se uma delas em torno do pensamento de Wilhelm Dilthey e a outra nos trabalhos de Heinrich Rickert e Wilhelm Windelband. Além da história, essas novas abordagens do mundo histórico-social tiveram grande impacto sobre o desenvolvimento das ciências sociais, sobretudo no que tange a suas metodologias e paradigmas. Naquele momento, as discussões se tornaram bastante intensas em torno da problemática do uso de metodologias das ciências naturais nas ciências humanas. Neste capítulo, você vai aprender a diferenciar o historicismo român- tico do epistemológico, bem como conhecer as principais características e definições em geral do historicismo. Você também vai identificar o significado da experiência vivida (vivência) para Dilthey e como ela se articula na veracidade do processo histórico. Por fim, você poderá analisar a história e os novos paradigmas das ciências sociais. Historicismo romântico e epistemológico Características e definições gerais do historicismo O termo historicismo tem origem na palavra alemã Historismus, e até hoje não existe um verdadeiro consenso sobre qual a melhor tradução para o por- tuguês, se historicismo ou historismo. Contudo, o primeiro termo teve seu uso consagrado, enquanto o segundo possui um signifi cado próprio como veremos adiante. O historicismo se trata de uma expressão característica da cultura germânica, associada à revolta romântica contra o Iluminismo. Seu auge correspondeu à notoriedade da escola histórica alemã, com Leopold von Ranke e Johann Gustav Droysen. Assim, o historicismo esteve diretamente ligado à transformação da história em uma disciplina profi ssional, havendo, desta forma, a superação da habitual história erudita e exemplar em benefício de uma ciência racional e específi ca: a ciência histórica (FALCON, 2010). Além disso, o historicismo ocupou papel importante na fi losofi a e na teoria social em fi ns do século XX. Podemos entender por historicismo também a época histórica na qual a história se constituiu como ciência. Da mesma maneira, o historicismo é uma forma de reação à crise de orientação pela qual passavam as sociedades europeias após a Revolução Francesa, surgindo a necessidade da elaboração de uma nova consciência histórica que fosse crítica à exaltação da razão pelo Iluminismo. Já na segunda metade do XIX a nova consciência acerca da história havia se institucionalizado com seu próprio discurso científico e acadêmico, permanecendo influente até hoje na ciência histórica. Em outras palavras, o historicismo é um tipo de produção historiográfica característico do século XIX. O contexto alemão do início do século XIX é fundamental para compre- endermos algumas características importantes do historicismo. A Alemanha ainda não havia se unificado, sendo um território composto por diversos pequenos Estados, dos quais a Prússia era o mais importante. Assim, uma parcela expressiva dos intelectuais do período nutria o desejo que a Alemanha se tornasse uma mesma nação unificada, sob o comando da Prússia. Ao mesmo tempo, havia uma luta pela manutenção das tradições, que via na história uma forma de educar a nação e estabelecer um espírito em comum aos seus membros. É exatamente nesse âmbito que o historicismo se encaixa, pois tinha Historicismo e história2 como um dos seus objetivos posicionar-se contra a Revolução Francesa, contra o socialismo, contra a democracia e favoravelmente à monarquia prussiana. Assim: [...] os historicistas combateram a revolução, a dissolução do passado, proposta pelos iluministas. Seu projeto era o de fortalecer o passado construindo uma ‘história científica’, que o reconstruísse com a maior fidelidade; que o crista- lizasse e o endurecesse. A história científica veio opor-se à história filosófica [e se essa] pudesse vencer toda especulação, todo subjetivismo teleológico, e restaurasse o passado em sua verdade, ela serviria à sua conservação (REIS, 2002, documento on-line). Esse era o espírito dos historiadores alemães do período. Lutavam contra a revolução a partir de justificativas que buscavam no passado, como forma de legitimar a ordem existente. Ao mesmo tempo, faziam a crítica do racionalismo iluminista, considerado, por suas relações com os processos revolucionários, uma ameaça à sociedade. Em síntese, o historicismo foi um movimento con- servador e de reação ao Iluminismo e seus valores universalizantes. A unificação da Alemanha, um sonho acalentado pelos historicistas, só viria a ocorrer de fato em 1871, com o término da guerra franco-prussiana e o surgimento do Impé- rio Alemão. Após a derrota dos franceses, o chanceler prussiano Otto von Bismarck (1815–1898) obteve enorme prestígio, conseguindo assim concretizar a unificação alemã sob o comando da Prússia. O conceito de historicismo é bastante problemático, devido ao seu caráter muitas vezes confuso e polissêmico. Assim sendo, é sempre uma tarefa com- plexa e arriscada a tentativa de uma definição precisa de seu significado. No entanto, como estamos nos referindo aqui ao historicismo alemão clássico, as possibilidades para sua descrição se tornam mais simples. Em síntese, o historicismo é uma forma eminentemente germânica de se pensar a história. Em geral, são destacadas — de maneira esquemática — as seguintes carac- terísticas do historicismo (REIS, 2002): 3Historicismo e história trata-se de uma “invenção da história”, ou seja, a descoberta desta como ramo do conhecimento, em que se exige uma “atitude de historiador” (metodologia própria); foi uma revolução cultural que afetou também o direito, a literatura, a política etc.; distingue os fenômenos naturais e dos históricos, e, por isso, defende diferentes métodos de investigação; a história — e somente ela — explica todos os fenômenos humanos. Além disso, é importante destacarmos o “contextualismo” como um prin- cípio central do historicismo, isto é, a visão de que cada cultura deve ser compreendida em seus próprios termos. Outro pressuposto importante diz respeito ao entendimento de que a história existe como realidade estruturada e como totalidade, como uma linha que se desenvolve segundo uma direção ou sentido que podem ser racionalmente apreendidos. A história do historicismo pode ser dividida em três fases. Na primeira delas, temos o historicismo romântico, que é irracionalista, opondo-se frontalmente ao racionalismo iluminista, colocando em seu lugar a história; na segunda fase, surgem os trabalhos de Johann Gustav Droysen e Leopold von Ranke, com a ascensão da escola histórica alemã; por fim, temos a terceira e última fase, que corresponde ao historicismo epistemológico, característico da passagem do século XIX para o XX, quando ocorre uma crise da consciência histórica. Nessa fase, o historicismo é quase um retorno ao positivismo. Historicismo romântico Entre o término do século XVIII e início do XIX, surge o movimento chamado de romantismo, tendo como seu ponto de partida os trabalhos do literato Frie- drich Schlegel (1772—1829). O movimento se posicionou claramente desde seus primórdios como uma reação contra o racionalismo, o cosmopolitismo e o universalismo iluministas. Dessa forma, temos duas formas de compre- ensão dos fenômenos do mundo colocadas em campos opostos: a racional e científi ca do iluminismo versus a busca do absoluto pela escola romântica. Para muitos autores, o historicismo romântico deve ser chamado simplesmente de “historismo” (MARTINS, 2002). Historicismo e história4 O romantismo, com seu foco na subjetividade e no “eu”, teve forte influ- ência sobre o ofício dos historiadores no início do século XIX, conduzindo a uma nova forma de conhecimento histórico que agora atribuía aos indivíduos (muitas vezes vistos sob a perspectiva da genialidade ou do heroísmo) papel preponderante no desenrolar da história. Contudo, o historicismo romântico não se restringia somente a esse tipode individualidade. Para os historia- dores que subscreveram essa nova forma de pensar a história e produzir a historiografia, havia também o indivíduo coletivo, isto é, as comunidades, que poderiam ser categorizadas como épocas, povos ou nações. Esse é um entendimento central na filosofia da história de Herder, que veremos adiante. Um dos aspectos típicos do historicismo romântico é a nostalgia pelo passado. Devido à visão contestatória do presente da qual surgiu, o movi- mento romântico em geral valorizava o passado, como um tempo melhor e que, infelizmente, havia desaparecido. Daí seu o foco na Idade Média e nas origens da humanidade, bem como nas chamadas regiões exóticas do planeta. Assim, foram realizados muitos estudos linguísticos e a publicação de muitos documentos do período medieval. Um dos nomes mais importantes para a primeira fase do historicismo foi Johann Gottfried Herder (1744—1803). Autor de obras importantes de filosofia da história como Mais uma filosofia da história para educação da humanidade (1774) e Ideias sobre uma filosofia da história da humanidade (1791), Herder exerceu profunda influência sobre o chamado historicismo romântico, ocupando papel de destaque na consolidação do historicismo como uma nova forma de abordagem — assim como novo entendimento — da história. Como fator principal para isso, podemos citar suas ideias acerca da individualidade e da evolução humana. Herder interpretava a história de maneira a valorizar aquilo que era in- dividual e original em cada povo. Dessa forma, exaltava a diferença e a di- versidade entre os diferentes povos ao longo da história. Para demonstrar seu ponto de vista, valia-se de metáforas sobre a infância e a maturidade da humanidade. Para Herder, as sociedades amadureciam como crianças, tendo suas peculiaridades aprimoradas no devir histórico, como, em tese, seria a evolução individual de um ser humano. Além disso, acreditava na existência de um centro de felicidade de cada povo e época, dando ênfase a um aspecto central do historicismo: toda cultura tem seus valores específicos, de forma que felicidade e sucesso não podem ser vistos como valores universais. 5Historicismo e história A partir destas premissas, Herder estruturou sua visão da história e, de acordo com Gaio (2007, documento on-line): “[...] analisou as diversas civili- zações da história universal em analogia com o desenvolvimento do homem: o despotismo oriental representaria a infância da humanidade, assim como os gregos seriam os adolescentes e Roma a chegada à fase adulta”. Herder tinha viés providencialista, isto é, acreditava na interferência divina nos destinos dos povos, cabendo somente a Deus o conhecimento do futuro de cada um deles. Por outro lado, não via a história como uma sucessão de povos que superavam uns aos outros, em uma evolução constante, mas a entendia como o decurso dos erros e das virtudes destas sociedades, parecendo-lhe uma eterna revolução. A ideia principal de Herder caracteriza perfeitamente o historicismo ro- mântico: cada época deve ser avaliada sob seus valores. Portanto, há nesse caso uma colisão com os ideais iluministas, que defendiam o direito natural e a imutabilidade da natureza humana. Por isso mesmo, Herder atacava a filosofia francesa da história, por considerá-la equivocada ao julgar outras épocas a partir de seus próprios parâmetros. Historicismo epistemológico Como visto, o historicismo se opôs radicalmente à concepção de história iluminista. Se para o Iluminismo a história é a parteira do futuro, para os historicistas ela deve ser objeto de culto e reconstituída fi elmente pelo histo- riador. O que temos então é um embate entre revolucionários e conservadores. Portanto, a história científi ca do século XIX se inscreve em uma tradição inte- lectual conservadora. Na perspectiva iluminista, a história era uma ideologia cúmplice do passado, que, por justifi car as trevas, precisaria ser destruída junto com ele tendo em vista o futuro. Os historicistas rebatiam, afi rmando a impossibilidade do futuro ser objeto do conhecimento, enquanto o passado poderia ser rigorosamente reconstituído. O historicismo epistemológico, que teve seu auge no final do século XIX e início do século XX, surge como uma forma de contestação à filosofia da história do historicismo romântico. Para esta, o espírito (o ser humano) era ontologicamente oposto à natureza (duas essências completamente distintas). Já para o historicismo epistemológico, tanto a história poderia ter uma abordagem naturalista quanto a natureza poderia ter uma abordagem histórica. Deste Historicismo e história6 entendimento decorre a visão peculiar do historicismo epistemológico sobre a autonomia das ciências sociais, que deveria se distanciar metodologicamente das ciências da natureza. Muitas vezes, nas ciências sociais, os conceitos são obscuros, de difícil compreensão. Por isso, é necessário esclarecermos que, ao falarmos de “historicismo epistemológico”, estamos nos referindo à importância que esse ramo do historicismo dá à busca da compreensão de como conhecemos e entendemos a história. A palavra “epistemologia” vem da junção das palavras gregas episteme, que significa “conhecimento verdadeiro”, e logos, que, de maneira sintética, é sinônimo de ciência. Portanto, epistemologia é a ciência que estuda o conhecimento humano. Em outras palavras, epistemologia é uma teoria do conhecimento que busca amparar-se sobre a metodologia científica, a única capaz, segundo seu entendimento, de produzir saberes verdadeiros. De acordo com Quine (1989, p. 91), “[...] a epistemologia se interessa pelos fundamentos da ciência”. Nas fileiras do historicismo epistemológico, havia uma cisão entre duas correntes filosóficas principais que tinham por objetivo, através de métodos diversos, realizar uma crítica da razão histórica. Para a primeira delas, orga- nizada em torno de Wilhelm Dilthey (1833–1911), a tentativa de apreender o humano e o histórico por meio de categorias da lógica conduzia inevitavelmente ao formalismo vazio, distanciado da vida real (MATA, 2016). Dilthey, assim como Georg Simmel (1858–1918), é considerado um neokan- tiano crítico, ou até mesmo um antikantiano, pois suas reflexões acerca da história uniam a epistemologia à filosofia. Ou seja, embora sendo um histori- cista que, em tese, deveria repelir as especulações filosóficas, Dilthey acabava por abraçá-las, efetuando assim um desvio dentro do historicismo. Na outra vertente, encontravam-se Heinrich Rickert (1863–1936) e Wilhelm Windelband (1848–1915), tidos somente como neokantianos e criadores da chamada escola de Baden. Estes pensadores recusavam-se a ver os estudos históricos enquanto filosofia, pois acreditavam que a história se tratava única e exclusivamente de uma forma concreta de abordagem e compreensão da realidade. 7Historicismo e história Immanuel Kant (1724–1804), filósofo nascido na então Prússia Oriental, tornou-se a grande referência para os pensadores do historicismo epistemológico. Isso porque Kant foi o pioneiro, na filosofia moderna, nas reflexões sobre os limites do conhecimento, sempre buscando suas interconexões com a razão e a prática. Dessa forma, acabou estabelecendo as bases para o idealismo alemão. No link a seguir, você pode conferir uma matéria com informações interessantes sobre a vida e obra de Kant: https://qrgo.page.link/8N6JQ No trecho a seguir, Reis (2002, documento on-line) esboça um excelente resumo sobre as características da escola de Baden: [...] esse historicismo estritamente epistemológico, sem ‘contaminações fi- losóficas’, foi considerado por muitos como uma recaída no positivismo. Era uma reivindicação de cientificidade particular que propunha uma postura contemplativa, distanciada dos problemas e opções políticas. E, por isso, era conservador. Por um lado, evitava o naturalismo; por outro, buscava um padrão científico de tipo físico. Assim, é possível perceber com mais clareza