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E-BOOK
TEORIA DA HISTÓRIA 
E HISTORIOGRAFIA
O conhecimento histórico científico
APRESENTAÇÃO
A História pode ser mais bem compreendida como disciplina científica a partir de seu 
desenvolvimento ao longo do tempo. Há registros históricos desde os primeiros povos que 
inventaram a escrita. Porém, a forma como eles os escreviam era praticamente a de um gênero 
literário voltado para a constituição da memória, nada tendo de científico. Assim, somente a 
partir do século XIX é que se pode falar da constituição da História como um conhecimento 
científico de fato.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você verá como se deu o processo de consolidação da História 
como ciência e também como surgiu a primeira grande escola histórica, analisando suas 
principais características.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Descrever o conhecimento histórico como ciência no século XIX.•
Caracterizar a Escola Metódica e o método histórico do século XX.•
Identificar a História Científica a partir dos "homens do tempo".•
DESAFIO
Para relembrar a importância de Ranke para a historiografia, o professor José D'Assunção de 
Barros (2013, p. 979) indica que algumas de suas principais contribuições foram a "análise 
integrada das diversas instâncias do documento – entre as quais a autenticidade, a veracidade, os 
modos de análise da própria informação que seriam sofisticados gradualmente [...]". Ou seja, o 
documento é a matéria-prima do trabalho do historiador, e sua análise deve ser feita com 
esmero, seriedade e, acima de tudo, honestidade. Porém, a vida de um historiador muitas vezes é 
levada a situações insólitas, como a que será descrita a seguir.
Veja:
Diante do exposto, e considerando as discussões sobre a Escola Metódica, você classificaria 
o lote em questão como de interesse público ou como assunto pessoal? Explique.
INFOGRÁFICO
A criação da Escola Metódica (fundamental para a constituição da História como saber 
científico) não se deu de forma repentina e abrupta; ela foi resultado de uma série de processos 
que aconteciam na época. Assim como qualquer outro modelo científico, ela também passou por 
um momento de crise, no qual recebeu diversas críticas, até ser superada por um novo modelo 
científico.
No Infográfico a seguir, você verá um resumo da trajetória da Escola Metódica, desde sua 
fundação até as críticas sofridas e a superação de seu modelo de análise.
Confira.
CONTEÚDO DO LIVRO
A consolidação da História como conhecimento científico pode ser mais bem compreendida a 
partir do desenvolvimento da Escola Metódica. Nos tempos antigos, vários povos produziram 
relatos sobre o passado, mas uma ciência que refletisse sobre esse passado só se deu a partir do 
século XX. Assim, é fundamental falar sobre esse século para que se compreenda como a 
História se tornou uma ciência de fato.
Leia o capítulo O conhecimento histórico científico, da obra Teoria da História e 
historiografia, e entenda como o conhecimento histórico se tornou um conhecimento científico, 
a partir da análise do contexto da época e de uma das primeiras escolas de pensamento dentro 
desse ramo: a Escola Metódica Francesa.
Boa leitura.
TEORIA DA 
HISTÓRIA E 
HISTORIOGRAFIA
Nilton Silva Jardim Junior
O conhecimento 
histórico científico
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Descrever o conhecimento histórico como ciência no século XIX.
  Caracterizar a escola metódica e o método histórico do século XX.
  Identificar a história científica a partir dos “homens do tempo”.
Introdução
Apesar de hoje definida como a ciência do homem no seu tempo, a 
história nem sempre foi assim. Durante muitos séculos, a história foi uma 
disciplina muito mais ligada à literatura e à formação da memória. Várias 
civilizações produziram relatos sobre o seu passado, orais ou escritos, mas 
sem preocupação com critérios de cientificidade. Porém, como veremos, 
no século XIX isso mudou.
Neste capítulo, você vai compreender como o movimento de formação 
das ciências sociais do século XIX, o Romantismo e suas relações com as 
unificações tardias do mesmo período contribuíram para a consolidação 
da história enquanto ciência. Para isso, será necessário falarmos não apenas 
da conjuntura do meio histórico e político, mas também do estágio de 
desenvolvimento da história na época e como se constitui a escola que a 
elevou à categoria de ciência. Também veremos as principais influências e ca-
racterísticas dessa escola, além das críticas posteriormente recebidas por ela.
Um século de paixões e o nascimento 
da ciência histórica
Se o século XVIII foi o “Século das Luzes”, o século XIX com certeza foi o 
“Século das Paixões”. Palco de grandes movimentos — como as unifi cações 
tardias (Alemanha e Itália), o movimento neocolonialista/imperialista, as 
guerras napoleônicas, as independências das colônias americanas (inclusive 
o Brasil) — o século XIX foi sem dúvida um período defi nidor da história 
da humanidade. Se a Revolução Francesa e a queda da Bastilha marcaram a 
virada do mundo moderno para o contemporâneo, o “século das paixões” foi 
o responsável pelo desenvolvimento dessa nova era. Não sem motivo, o Ro-
mantismo foi a grande mola propulsora dessa época, infl uenciando a literatura, 
as artes plásticas e, de certa forma, a política. Num mundo onde vários países 
buscavam um sentimento de unidade e identidade, o nacionalismo romântico 
funcionou perfeitamente (HOBSBAWM, 1988).
Surgido no final do século XVIII, o Romantismo foi um movimento artístico, político e 
filosófico que teve seu auge no século XIX. Entre suas principais características estão o 
subjetivismo, o individualismo, o nacionalismo e o sentimentalismo (Figura 1). A partir 
desta última característica, podemos dizer que se contrapunha ao racionalismo do 
Iluminismo (HOBSBAWM, 1988).
Figura 1. A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix (1830), exposta no Museu 
do Louvre.
Fonte: File... (2019a, documento on-line).
O conhecimento histórico científico2
Para além das fronteiras nacionais e sistemas de governo, é também nesse 
século que outro importante elemento do nosso tempo começa a se definir: a 
ciência. A revolução científica, iniciada com o Iluminismo no século anterior, 
passa a ganhar outros contornos a partir dessa época. Ciências sociais como 
a sociologia e a antropologia começavam a ser reconhecidas como tal (HO-
BSBAWM, 1988). Simultaneamente, a história gradativamente deixava de se 
tornar um ramo da literatura ligado ao que hoje compreendemos (DOSSE, 
2001). Para isso, foi fundamental o conceito de ciência positiva de Auguste 
Comte. Para Comte, a ciência deveria ser acima de tudo a investigação do 
real, feita a partir da observação, experimentação, comparação e classificação 
como métodos. Em sua visão positivista, os fenômenos sociais, assim como 
os fenômenos naturais, também respeitavam leis, o que serviu de base para 
que criasse a ciência que ele chamou de “física social”, e que posteriormente 
se tornou a sociologia. (FONTANA, 2004)
Os trabalhos de Comte tiveram grande eco entre estudiosos da época e serviram 
como referencial básico para a sistematização das ciências humanas. No campo da 
história, essas ideias ganharam força com Leopold von Ranke e, posteriormente, 
com a Escola Metódica na França, que serão analisados mais adiante.
É nesse cenário que a história começa a se moldar como ciência, nessa conjun-
tura que mesclava a consolidação das ciências humanas com a consolidação de 
dois importantes Estados nacionais. Com isso, a história acabará se caracterizando 
como uma ciência que vai buscar no passado elementos que ajudem na construção 
da unidade nacional. E se mantendo fiel ao discurso positivista de Comte, esse 
elementos serão suportados com documentos históricos produzidos na época 
pesquisada, as chamadas fontes primárias. Para Barros (2013, documento on-line):A atenção central à “fonte de época”, e a uma metodologia que a permitisse 
abordar com maior precisão, constituiu o vértice de partida do ideário histori-
cista, cumprindo notar que os historicistas sempre insistiram acertadamente em 
fazer notar que esta atenção às fontes deve ser acompanhada pela consciência 
de que qualquer documento ou texto foi um dia produzido por seres humanos 
sujeitos a contextos históricos e interesses específicos.
Sendo assim, como vemos nessa citação do professor José D'Assunção de 
Barros (2013), graças aos metódicos a imagem do historiador vai se firmar 
como a do profissional que vasculha arquivos e busca em antigos documentos 
embasamento para suas pesquisas. O tratamento das fontes primárias vai 
adquirir suma importância no fazer historiográfico, com a história deixando 
3O conhecimento histórico científico
de ser um gênero literário para se tornar a ciência do homem no seu tempo. 
Com isso, a fidelidade ao documento histórico se torna a raison d'être do 
historiador, sendo necessária a elaboração de toda uma metodologia para a 
extração das informações contidas nos documentos.
A escola metódica e seu método: 
uma história “patriota”
Formada na França, a Escola Metódica tinha como principais nomes Charles-Victor 
Langlois e Charles Seignobos. Essa escola do século XIX tinha fortes características 
patriotas. No contexto da França pós-revolucionária, a ideia era organizar um 
novo modelo de história com base científi ca, capaz de se reconciliasse com um 
passado mais distante e fornecer um novo elemento de unidade nacional para a 
o contexto pós-Restauração a partir de 1815. Esse próprio sentimento de unidade 
nacional também embalava os historiadores franceses que buscavam fazer uma 
história voltada para a identidade nacional. Essa mesma motivação era percebida 
quando da unifi cação da Alemanha e Itália, que tinham como de suma importância 
a construção de uma narrativa que estabelecesse um elemento de unidade para 
nações que após séculos separadas estavam se unifi cando.
Realizadas em 1870 e 1871, as unificações da Itália e da Alemanha são comumente 
chamadas de unificações tardias, por terem ocorrido cerca de 500 anos depois de 
demais movimentos similares no continente europeu. Como forma de criar um senti-
mento de unidade nacional entre os povos das terras que estavam sendo anexadas, o 
resgate de mitos fundadores dos povos germânicos e italianos foi amplamente usado. 
Para entender melhor o caso alemão, você pode acessar o artigo “‘Hail Arminius: o 
pai dos alemães!’: a construção mítica da unificação alemã entre 1808 e 1875” (SILVA; 
ALBUQUERQUE, 2017) no link a seguir.
https://qrgo.page.link/QDtJx
Para isso, foi também fundamental a revista Revue Historique, publicada 
por Gabriel Monod e Gustave Charles Faganiez, a partir de 1876. Eles privi-
legiaram as fontes primárias como matéria-prima do trabalho do historiador, 
O conhecimento histórico científico4
buscando fazer uma história com uma narrativa objetiva e neutra, privilegiando 
o documento e os métodos de análise como forma de comprovação. Gabriel 
Monod vinha propunha uma revista que fosse “[...] uma coletânea de ciência 
positiva e de livre discussão” (DOSSE, 2001, p. 17).
Outra importante influência para a Escola Metódica foi a do historia-
dor Ernest Lavisse, de quem Seignobos fora aluno e protegido (BURKE, 
1992). Nas palavras de François Dosse (2001, p. 18), Lavisse foi “[...] o 
grande mestre que vai reinar do final do século XIX e início do século XX”. 
Herdeiros de Jules Michelet, Lavisse, Monod e seus colaboradores da Revue 
Historique vão somar às ambições de uma história nacionalista uma proposta 
de história científica.
 Nesse contexto, foi de fundamental importância a figura do historiador 
alemão Leopold von Ranke (Figura 2). Seu trabalho influenciou não somente 
seus compatriotas como também os historiadores franceses, como os próprios 
fundadores da Revue Historique entre outros, que tiveram acesso a suas 
ideias quer por meio de publicações e congressos quer indo estudar na própria 
Alemanha, como Seignobos o fez.
Figura 2. Leopold von Ranke.
Fonte: File... (2019b, documento on-line).
5O conhecimento histórico científico
Grande parte desse interesse foi motivado pela derrota da França na guerra 
franco-prussiana, quando tais pensadores viram nesse intercâmbio uma opor-
tunidade de compreender as razões de tal revés, bem como uma forma de fazer 
sua pátria progredir científica e militarmente (PAYEN, 2011).
A guerra franco-prussiana ou franco-germânica foi um confronto entre o Império 
Francês e o Império Prussiano (atual Alemanha), entre 19 de julho de 1870 e 10 de maio 
de 1871. Parte importante do processo de unificação da Alemanha, a guerra começou 
com uma querela envolvendo a sucessão do trono espanhol e terminou com a vitória 
incontestável dos prussianos. Você pode encontrar mais detalhes no artigo “Do Império 
à Comuna: a guerra franco-prussiana e as revoltas de Paris” (VALLE, 2014).
Leopold von Ranke
Fundador da escola histórica alemã e Historiógrafo Real da Corte da Prússia, 
Ranke é frequentemente citado como o fundador da “história científi ca” (até então 
a história era considerada um ramo da literatura, muito mais próximo do que hoje 
chamamos de memória). Como critério de cientifi cidade, Ranke se utilizava da:
[...] análise integrada das diversas instâncias do documento — entre as quais 
a autenticidade, a veracidade, os modos de análise da própria informação 
que seriam sofisticados gradualmente — a própria coleta de documentação 
e constituição de novos tipos de fontes (na época de Ranke, essencialmente 
arquivísticas e ligadas à política, à diplomática e às instâncias institucionais) 
[...] um elemento que trouxe efetivamente um novo tônus àquela historiografia 
que agora se postulava como científica (BARROS, 2013, documento on-line).
Ranke tinha como prioridade o emprego de fontes primárias, o uso da 
história narrativa e foco em mostrar o passado como ele ocorreu. O assunto 
prioritário de suas obras era a política internacional e seus escritos tinham 
como método principal a citação das fontes primárias buscando o que chamava 
de “[...] tendências dominantes em cada século”; porém, ele não se limitava 
exclusivamente à política, escrevendo também sobre a Reforma e a Contrar-
reforma, história da sociedade, da arte e da literatura (BURKE, 1992, p. 18). 
Essa sua abordagem vai influenciar toda a Escola Metódica em sua busca de 
produzir uma história científica.
O conhecimento histórico científico6
Sendo assim, esse novo paradigma historiográfico vai estabelecer que a 
subjetividade deve ser controlada e o documento precisa sofrer dupla crítica: 
uma interna, operando por meio de raciocínio e analogia, e outra externa, 
propiciada pela erudição. Esses valores de objetividade científica atuarão 
também com anseios nacionalistas, como a reconquista de fronteiras exteriores 
e a pacificação do interior do país (DOSSE, 2001).
Uma ciência de homens no seu tempo
Ao amalgamar a busca por uma identidade nacional e o dever de construir uma 
ciência positiva do passado, a história feita pela Escola Metódica vai se fi rmar 
como uma ciência dos homens no seu tempo. Baseados no historicismo alemão, 
os pensadores franceses criaram uma ciência fortemente focada na abordagem 
(e respeito) de fontes primárias e nos grandes nomes da política, como vemos 
nesta passagem de Gabriel Monod (um dos fundadores da Revue Historique):
[...] A história do passado acaba por adquirir uma influência sobre a própria política, 
pois preside a esse movimento das nacionalidades que domina a política contem-
porânea. É pela história que os povos tomam consciência de sua personalidade. 
O movimento nacional alemão, o movimento nacional italiano, o movimento 
nacional tcheco, o movimento nacional húngaro, o movimento nacional eslavo, 
embora não tenham sido criados pela erudição histórica, nela encontraram, ao 
menos, um poderoso auxiliar, um núcleo de excitação,um ativo instrumento de 
propaganda. (MONOD, 1889 apud PAYEN, 2011, documento on-line).
Influenciados pelas ideias de Ranke e Comte, os historiadores faziam 
uma crítica ao modelo que chamado “História Mestra da Vida”. Segundo esse 
modelo, a “[...] história era, antes de mais nada, percebida como provedora 
de modelos de comportamentos. Ela deveria servir à instrução do leitor 
[...] considerada como uma reserva de exempla destinada à instrução e à 
edificação dos leitores” (PAYEN, 2011, documento on-line). Sendo assim, 
a história não tinha uma finalidade meramente explicativa, mas também 
moralizante, já que deveria fornecer exemplos de conduta para os cidadãos 
do país. Esta história de cunho mais analítico era vista pelos românticos como 
uma história “fatalista”, pois se concentrava em explicar os acontecimentos 
como produto de “determinantes sociais” (FONTANA, 2004). O rompimento 
com esse modelo já começara a ser ensaiado na França após a revolução, 
e teve nos trabalhos de Adolphe Thiers e François Mignet importantes 
precursores. No entanto, somente após 1876 é que se dará o rompimento 
7O conhecimento histórico científico
definitivo. Mesmo em importantes trabalhos como A História da França 
(1847), de Jules Michelet, ainda há a presença da abordagem literária, tão 
cara aos românticos, porém com um cunho mais identificado aos ideais do 
liberalismo burguês da França pós-revolucionária.
Foram os metódicos que romperam com essa ideia e se propuseram a fazer 
uma história calcada no rigoroso escrutínio das fontes e na crítica constante ao 
trabalho do historiador. Esses historiadores eram profundamente críticos do 
que denominavam “História Romântica”, pois identificavam nela uma “escrita 
histórica puramente factual desprovida de sentido” (DOSSE, 2001, p. 12).
Essa preocupação com a história como um elemento formador da unidade 
nacional, privilegiando a política e a biografia de grandes homens, já aparecia 
no trabalho de Ranke e do historicismo alemão. Bons exemplos são obras como 
História das Nações Latinas e Teutônicas de 1494 a 1514 (1824), Hardenberg 
e a História do Estado Prussiano de 1793 a 1813 (1877) e Memórias da Casa 
de Brandemburgo e História da Prússia (1847–1848). No caso dos analíticos, 
esse interesse fica evidente em obras como Introdução aos Estudos Históricos 
(Langlois, 1898), História do Povo Romano (Seignobos, 1902) e Estudos 
críticos sobre as fontes da história carolíngia (Monod, 1898). O próprio Ga-
briel Monod também já havia escrito livros de caráter mais biográfico, como 
Gregório de Tours (1872) e outro sobre um importante cronista do século VII, 
Fredegário (1895). Essa preferência pela história política e por uma história 
de grandes homens se tornou o principal foco das críticas feitas por Febvre e 
seu companheiros dos Annales, conforme veremos a seguir.
Para entender melhor sobre as aproximações da história romântica com a literatura tão 
criticadas pela Escola Metódica, uma boa recomendação de leitura é o artigo “Jules 
Michelet: um historiador às voltas com a crítica literária”, de autoria de Maria Juliana 
Gambogi Teixeira, que pode ser acessado pelo link a seguir.
https://qrgo.page.link/XnR4W
Crítica aos metódicos
Posteriormente, a Escola Metódica sofreu críticas, iniciadas por François 
Simiand em sua obra Método Histórico e Crítica Social. Discípulo do soci-
O conhecimento histórico científico8
ólogo Émile Durkheim (um dos “pais da sociologia”, junto com Max Weber 
e Karl Marx), Simiand atacava o que chamava de os três “ídolos da tribo dos 
historiadores”: o “ídolo político” (como ele chamava a eterna preocupação 
de se fazer uma história política, de fatos políticos, guerras, etc.), o “ídolo 
individual” (como ele chamava a ênfase exagerada em grandes homens) e 
o “ídolo cronológico” (como ele chamava o hábito do historiador se perder 
nas origens) (BURKE, 1992). Essas críticas vinham do caráter político, 
individual e cronológico caro aos historiadores dessa escola (em especial 
Charles Seignobos, que foi transformado em símbolo daquilo a que esses 
novos historiadores se opunham) e não tinham o mesmo apreço no âmbito 
das ciências sociais da época.
Além de Simiand, os fundadores da Escola dos Annales, Marc Bloch e Lucien 
Febvre, fizeram novas críticas. Sobre os ombros desses historiadores também 
pesava o trauma da Primeira Guerra Mundial, na qual eles viam o modelo ana-
lítico como parcialmente responsável pelo que viveram. Para Bloch e Febvre, o 
modelo nacionalista e político defendido por Ranke e também pelo metódicos foi 
corresponsável por toda aquela tragédia. O tom dessa crítica ficou meio dividido 
entre esses dois grandes nomes, sendo Febvre mais enfático. Porém, todos eles 
tiveram em comum as críticas ao historicismo alemão, em especial ao que eles 
consideravam uma história política (BRAUDEL, 2007) e uma história narrativa 
(REVEL, 1989). De acordo com Fontana (2004), ficava evidente que esse modelo de 
objetividade científica defendido pelo historicismo alemão e pela Escola Metódica 
era uma máscara para seu verdadeiro propósito de servir à educação das classes 
dominantes e de produzir uma visão de história nacional que pudesse ser ensinada 
e divulgada nas escolas. De qualquer forma, a Escola Metódica foi fundamental 
para elevar a história ao patamar de ciência, o que era inegável até mesmo para 
seus críticos da Escola dos Annales, como Bloch e Febvre.
Um bom exemplo das críticas que Bloch faz ao modelo analítico pode ser encontrado 
no artigo “A Força da Tradição: a persistência do Antigo Regime historiográfico na obra 
de Marc Bloch", de Tiago De Melo Gomes. Nele, porém, o autor fala não apenas das 
críticas que Bloch tinha aos analíticos, como também da presença dos próprios na 
obra dele. Você pode acessar o artigo pelo link a seguir.
https://qrgo.page.link/zgJ5H
9O conhecimento histórico científico
Se, por um lado, a Escola Metódica produziu uma história que pode tanto 
ser acusada de “ingênua” pela sua fé exagerada nos documentos e pela busca 
da neutralidade e imparcialidade quanto de “elitista” por sua predileção pelos 
grandes homens, pela política e pelos grandes fatos nacionais, por outro não 
podemos negar sua importância na maturação do estudo da história, afastando-a 
da literatura e buscando a profissionalização dos historiadores. Seu empenho 
em afastar-se do amadorismo dos historiadores românticos também foi de 
suma importância para o desenvolvimento de toda uma metodologia e uma 
ética de trabalho que, mesmo com certas atualizações e críticas, ainda hoje 
são empregadas. É bem verdade que, desde então, o universo documental 
acabou se ampliando, mas o trabalho do historiador ainda é feito a partir de 
documentos que servem de vestígios da época investigada e que devem ser 
criticados à exaustão. O escopo dos atores sociais também se expandiu, mas 
a história ainda é feita a partir de pessoas que tiveram relevância no período 
estudado (embora a disciplina tenha pedido muito do seu caráter personalista 
e por vezes biográfico). 
É com o final da Primeira Guerra que todo esse pensamento vai ser posto 
em cheque e um novo modelo será elaborado. Nos anos seguintes, a história 
dos metódicos, voltada à política, à narrativa e aos grandes homens, deu 
lugar a uma “nova história” que buscou ser uma história-problema, voltada a 
entender todos os aspectos da sociedade: uma História Total.
BARROS, J. A. Ranke: considerações sobre seu modelo historiográfico. Diálogos, v. 17, n. 
3, p. 977–1.004, 2013. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Dialogos/
article/download/35976/18595. Acesso em: 14 ago. 2019.
BRAUDEL, F. Escritos sobre a história. São Paulo: Editora Perspectiva, 2007.
BURKE, P. A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales 1929–1989. São 
Paulo: Editora UNESP, 1992.
DOSSE, F. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. 
São Paulo: Editora UNESP, 2001.
FILE: Eugène Delacroix — La liberte guidant le peuple. WikimediaCommons, the free 
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em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo#/media/Ficheiro:Eug%C3%A8ne_De-
lacroix_-_La_libert%C3%A9_guidant_le_peuple.jpg. Acesso em: 14 ago. 2019.
O conhecimento histórico científico10
FILE: Jebens, Adolf — Leopold von Ranke (detail) — 1875. Wikimedia Commons, the free 
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FONTANA, J. A História dos homens. Bauru: EDUSC, 2004.
HOBSBAWM, E. J. A era dos impérios 1875-1914. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
PAYEN, P. A constituição da história como ciência no século XIX e seus modelos anti-
gos: fim de uma ilusão ou futuro de uma herança? História da Historiografia, v. 4, n. 6, 
p. 103–122, 2011. Disponível em: https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/
article/download/250/180. Acesso em: 14 ago. 2019.
REVEL, J. A invenção da sociedade. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Bertand, 1989.
Leituras recomendadas
GOMES, T. M. A força da tradição: a persistência do antigo regime historiográfico na 
obra de Marc Bloch. Varia Historia, v. 22, n. 36, p. 443–459, 2006. Disponível em: http://
www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-87752006000200011&lng=e
n&nrm=iso. Acesso em: 14 ago. 2019.
SILVA, D. G. G.; ALBUQUERQUE, M. C. “Hail Arminius! O Pai dos Alemães!”: a construção 
mítica da Unificação Alemã entre 1808 e 1875. Topoi (Rio de Janeiro), v. 18, n. 35, p. 330-355, 
2017. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-
-101X2017000200330&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 14 ago. 2019.
VALLE, C. O. Do Império à Comuna: a guerra Franco-Prussiana e as revoltas de Paris. 
In: ENCONTRO REGIONAL DA ANPUH-RIO: Saberes e Práticas Científicas, 16., 2014, Rio 
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rj.anpuh.org/resources/anais/28/1400267970_ARQUIVO_artigocompletoanpuhCami-
laValle.pdf. Acesso em: 14 ago. 2019.
11O conhecimento histórico científico
DICA DO PROFESSOR
Como todo ramo da Ciência, a História obedece a etapas e procedimentos de trabalho, os quais 
têm por finalidade estabelecer critérios de cientificidade para garantir a qualidade e a idoneidade 
da produção de conteúdo.
Para ajudar a compreender como a História se consitituiu em conhecimento científico, nesta 
Dica do Professor, você verá algumas etapas da construção do conhecimento histórico. 
Acompanhe a seguir.
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
EXERCÍCIOS
1) O século XIX foi definidor para a formação do mundo contemporâneo e das ciências 
sociais. Diversos acontecimentos mudaram a face do planeta e moldaram o mundo 
para uma nova realidade até então impensada.
Diante disso, pode-se afirmar que os elementos redefinidores característicos dessa 
época foram:
A) a consolidação da Sociologia e da Antropologia como ciências sociais e a Queda da 
Bastilha.
B) a publicação da revista Revue Historique e a Guerra de Independência dos Estados Unidos.
C) a Guerra Franco-Prussiana e a publicação da Declaração dos Direitos do Homem e do 
Cidadão.
D) a unificação da Alemanha e da Itália e a Guerra Franco-Prussiana.
E) a unificação da Alemanha e da Itália e o assasinato do arquiduque Francisco Ferdinando.
2) A noção de ciência positiva, de Auguste Comte, foi crucial para a consolidação da 
História como conhecimento científico. Também chamada de Positivismo, essa 
vertente foi extremamente importante para a sistematização das ciências sociais, 
como a Sociologia e a Antropologia.
Nesse sentido, tal vertente afirmava que:
A) a ciência deveria ser, acima de tudo, a investigação do real, feita a partir de observação, 
experimentação, comparação e classificação como métodos, buscando estudar as leis.
B) a ciência deveria ser, acima de tudo, a investigação do real, feita a partir de observação, 
experimentação, comparação e classificação como métodos, buscando estudar as causas.
C) a ciência deveria ser apenas mais uma entre várias outras narrativas e saberes que 
buscavam explicar a realidade e aceitar que o discurso desses saberes é tão válido quanto o 
dela.
D) a ciência deveria, acima de tudo, buscar encontrar soluções para os diversos problemas da 
sociedade, mais do que pura e simplesmente tentar explicá-la.
E) não importava quais fossem todos os fenômenos, sejam eles sociais, naturais ou de 
qualquer outra origem, estes provêm somente de um único princípio, o qual é sua 
explicação.
Além do Positivismo de Comte, a Escola Metódica Francesa teve muita influência do 
historicismo alemão. Essa corrente científica teve Leopold Von Ranke como seu 
principal expoente, e o periódico Historische Zeitschrift como principal veículo, 
valorizando princípios como veracidade, autenticidade e formas de análise da 
informação.
Nesse cenário, pode-se afirmar que os principais motivos da influência alemã na 
3) 
historiografia francesa foram:
A) o avanço dos problemas decorrentes da industrialização e o reconhecimento de novas 
metodologias aprendidas na Universidade de Berlim.
B) o reconhecimento de um modelo de história total que se preocupasse com todos os 
aspectos da sociedade e o avanço dos problemas decorrentes da industrialização.
C) o avanço dos problemas decorrentes da industrialização e o desejo de buscar uma história 
que desse conta da trajetória dos povos vencidos.
D) a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana e o desejo de buscar um modelo 
historiográfico que desse conta de trabalhar com fontes materiais.
E) a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana e o desejo de aperfeiçoar as ciências e 
demais saberes no país, por meio do aprendizado com os alemães.
4) A principal busca da Escola Metódica era fazer uma história científica, em oposição à 
história romântica – modelo até então vigente na época –, que estava mais ligada à 
literatura do que à ciência.
É correto afirmar que essa busca por modelos científicos de análise histórica resultou 
em um modelo historiográfico que:
A) privilegiava as fontes primárias de diversas origens (materiais, orais, escritas) como 
matéria-prima do trabalho do historiador, buscando fazer uma história que tentasse 
entender o ponto de vista de grupos marginalizados na sociedade.
B) privilegiava as fontes primárias como matéria-prima do trabalho do historiador, buscando 
fazer uma história com uma narrativa objetiva e neutra, privilegiando o documento e os 
métodos de análise como forma de comprovação.
C) privilegiava as fontes primárias como matéria-prima do trabalho do historiador, buscando 
fazer uma história total e politicamente engajada e cobrir todos os aspectos do período 
tratado.
D) privilegiava as fontes primárias como matéria-prima do trabalho do historiador, buscando 
fazer uma história com uma narrativa marxista e dar um novo tratamento para a cultura, 
tentando entender a luta da classe trabalhadora nos diversos períodos de tempo.
E) privilegiava as fontes primárias orais como matéria-prima do trabalho do historiador, 
buscando fazer história com a reprodução escrita de relatos de testemunhas oculares.
5) Tanto no final do século XIX quanto após a Primeira Guerra Mundial, começaram a 
surgir críticas à Escola Metódica, que eram provenientes de diferentes áreas do 
conhecimento, como cientistas sociais, que viam falhas no modelo científico da 
história metódica desde o início do século XX, e novos historiadores, que vinham com 
um novo modelo, a partir da década de 1920.
Tais críticas acusavam o modelo analítico, afirmando que:
A) seu caráter político e o modelo nacionalista foram corresponsáveis por toda a tragédia da 
Primeira Guerra Mundial.
B) seu caráter factual o tornava prisioneiro do acontecimento e incapaz de determinar 
aspectos estruturantes, o que prejudicava suacientificidade.
C) seu caráter excessivamente relativista acabava por negar a cientificidade da História e 
poderia dar magens a revisionismos perigosos.
D) seu caráter político e economicista deixava pouco espaço para abordagens de ótica cultural 
e dava pouca margem de ação para o livre-arbítrio humano.
seu caráter idealista, voltado para uma finalidade da História como "Mestra da Vida", era E) 
algo pouco científico e ultrapassado.
NA PRÁTICA
Parte do trabalho do historiador concentra-se na organização e no tratamento de instituições 
diversas, como governos, Forças Armadas e até mesmo empresas e ordens religiosas. O ser 
humano está a todo tempo produzindo documentação sobre seu passado, mas nem sempre ela é 
devidamente organizada e catalogada; daí a importância do trabalho do historiador e de outros 
profissionais em organizar todo esse material.
Neste Na Prática, você verá como decorreu o trabalho do Centro de Memória, Pesquisa e 
Documentação de Cantagalo (CMPD), no Rio de Janeiro, em catalogar a documentação dos 
registros de batismo e matrimônio do Santuário Diocesano do Santíssimo Sacramento de 
Cantagalo. Perceba como a metodologia da Escola Metódica pôde ser aplicada nesse caso.
SAIBA MAIS
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do 
professor:
O Positivismo Histórico
O Positivismo Histórico foi uma corrente historiográfica que surgiu no século XIX, influenciada 
pelo clima de cientificismo e nacionalismo que marcou o continente europeu naquele período. 
No vídeo a seguir, veja as principais características dessa corrente, também conhecida como 
História Tradicional.
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
Seignobos x Simiand: a querela do método histórico com a ciência social no início do 
século XX
Neste artigo, você verá sobre as divergências de Simiand com a Escola Metódica, 
compreendendo quais foram os principais pontos falhos dessa matriz historiográfica. Confira.
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A historiografia francesa do século XIX nas páginas da Revue Historique (1876-1914)
Neste artigo, você vai compreender a influência que a Revue Historique e os periódicos 
científicos, de forma geral, tiveram na divulgação de novas formas do pensamento científico. 
Boa leitura.
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O ofício do historiador
APRESENTAÇÃO
Ofício relativamente recente (sua origem remonta ao século XIX), o historiador teve várias 
vezes seu papel questionado e ampliado ao longo do século passado, ao sabor das diferentes 
correntes históricas que surgiram. Porém, ele se consolidou como o profissional que pesquisa e 
escreve a História. Assim, apesar da metodologia ter mudado ao longo do século, o ofício se 
fixou no decorrer dele.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você verá qual é o ofício do historiador e como as diferentes 
abordagens influenciaram nesse processo de consolidação. Também será discutido como a 
História enquanto disciplina científica foi mudando ao longo do século XX.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Diferenciar a história narrativa da história problema.•
Definir as causas modificadoras do processo histórico nas décadas de 1960-1970.•
Analisar a participação das ciências humanas e sociais na revisão das teorias na pesquisa 
histórica a partir de 1970.
•
DESAFIO
Desde Bloch e Braudel que a proposta de se fazer uma História Total era deixar de olhar 
somente para os fatos e os grandes nomes da História, para se entender como problemas que 
incomodam o historiador no presente eram lidados no passado. Não é à toa que essa modalidade 
também foi conhecida como História problema. Um ponto em comum tanto entre a terceira 
geração da escola dos Annales quanto a Nova Esquerda Britânica é de se dar voz às classes 
subalternas. Essa preocupação (que de certa forma já estava presente também n'Os reis 
taumaturgos, de Bloch) tem por objetivo colocar o povo como protagonista e diversificar as 
fontes de análise histórica, para se ter um quadro mais fiel.
Levando em conta esse contexto, imagine que você é professor de história de uma turma do 
sexto ano do ensino fundamental e, de acordo com o conteúdo planejado para este semestre, 
você deve construir um modelo para uma atividade que busque fazer o aluno reconhecer-se, e 
também a sua comunidade, como protagonista da história.
INFOGRÁFICO
A constituição da Escola dos Annales se deu como uma resposta ao historicismo alemão e à 
escola metódica. Ela veio como uma alternativa a uma proposta cronológica e personalista 
dessas duas escolas, buscando fazer uma História Total que abarcasse os diversos aspectos de 
um período e não somente falasse de política. 
Neste Infográfico, você verá uma cronologia da Escola Metódica, da sua fundação à terceira 
geração, mostrando como a revista foi se atualizando e se moldando aos acontecimentos e às 
críticas ao longo do século XX.
CONTEÚDO DO LIVRO
Como em todo ramo profissional, o ofício do historiador sofreu várias mudanças ao longo de 
seu processo de consolidação. Mesmo sendo legalizado na França desde o final do século XX, o 
ofício do historiador passou por mudanças em resposta aos diversos acontecimentos que 
marcaram a sociedade ao longo do século XX. Sendo a História a ciência do homem no seu 
tempo e o historiador o profissional que a investiga e escreve, o campo e o profissional foram 
reagindo a esses acontecimentos e se adaptando à realidade.
No capítulo O ofício do historiador, da obra Teoria da História e Historiografia, você verá 
como a História continuou evoluindo como ciência ao longo do século XX e como o ofício do 
historiador se adaptou a tudo isso. 
Boa leitura.
TEORIA DA 
HISTÓRIA E 
HISTORIOGRAFIA
Nilton Silva Jardim Junior
O ofício do historiador
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Diferenciar a história narrativa da história problema.
  Definir as causas modificadoras do processo histórico nas décadas 
de 1960 e 1970.
  Analisar a participação das ciências humanas e sociais na revisão das 
teorias na pesquisa histórica a partir de 1970.
Introdução
Nenhuma ciência conta com um modelo definitivo. Todo modelo 
científico passa por períodos de crise, superação e substituição por um 
novo. Com a história não é diferente. Apesar de sua importância e de seu 
pioneirismo inegáveis para a estruturação da disciplina como conheci-
mento científico, a Escola Metódica (e até mesmo o historicismo alemão) 
começou a receber pesadas críticas no início do século XX, até que no 
final dos anos 1920 dois historiadores franceses vieram com uma nova 
proposta de modelo historiográfico.
Neste capítulo, você vai ver como as críticas de Marc Bloch e Lucien 
Febvre à Escola Metódica contribuíram para dar origem a uma nova 
forma de se fazer história e a um dos periódicos mais importantes 
da historiografia. Além disso, você vai compreender a relação dessas 
críticas com o trauma gerado pela Primeira Guerra Mundial e o como 
que eles identificavam a proposta dos metódicos como responsável. 
Por fim, vai entender também as mudanças pelas quais o pensamento 
historiográfico passou ao longo do século XX e sua relação com o que 
acontecia no mundo.
A distinção entre história narrativa 
e história problema
Peter Burke certa vez afi rmou que gostava de pensar nos historiadores como 
guardiões dos esqueletos do armário da memória social (BURKE, 2000). 
Esse ponto de vista diz muito sobre as mudanças e críticas propostas por 
Lucien Febvre e Marc Bloch no fi nal dos anos 1920 (Figura 1). Até então, o 
modelo de “história dos grandes homens”, defendido pelos metódicos, era 
infl uenciado pelo historicismo alemão e pela derrota da França na guerra 
franco-prussiana. Esse grupo liderado por Gabriel Monod, Charles Seignobos 
e Gustave Charles Faganiez tinhacomo proposta uma história científi ca com 
caráter político, voltada para a construção da identidade nacional. Para isso, 
o historiador deveria se dedicar a "escavar" os arquivos e se debruçar sobre os 
documentos, escrutinando-os à exaustão. O signo máximo da cientifi cidade 
se tornou a fi delidade aos documentos. Sendo assim, o historiador deveria ter 
extremo cuidado ao analisá-los.
Figura 1. Marc Bloch e Lucien Febvre.
Fonte: Annales1 ([20--?], documento on-line).
Nesse princípio de século XX, tal escola historiográfica era acusada 
de, sob uma justificativa de cientificidade, ter como verdadeiro propósito 
servir à educação das classes dominantes e produzir uma visão de história 
nacional que pudesse ser lecionada e divulgada nas escolas (FONTANA, 
O ofício do historiador2
2004). Por sua extrema preocupação com essa questão de construir uma 
narrativa contando a história do país ou de uma determinada figura, esse 
modelo historiográfico ficou conhecido como “história narrativa” pelos 
seus críticos da geração dos Annales. Assim, o modelo da história narrativa 
seria “[...] o da organização do caos de eventos em uma Trama da qual, 
antes mesmo da pesquisa, o historiador já conhece o seu fim. Esta narrativa 
linear [...] tem como modelo a biografia unilinear e falsamente coerente, 
com início e fim” (BARROS, 2010, documento on-line). A bem da verdade, 
os annalíticos (como chamaremos daqui por diante os ligados à escola dos 
Annales) não foram os primeiros a criticar o modelo da Revue Historique, 
conforme veremos adiante. 
Comte, por exemplo, referia-se à história narrativa feita pelos metódicos 
como “[...] insignificantes detalhes estudados infantilmente pela curiosidade 
irracional de compiladores cegos de anedotas inúteis”, e defendia que fosse 
feita uma “História sem nomes” (BURKE, 1991, p. 20). Pesavam também 
críticas de Émile Durkheim e François Simiand de que os metódicos tinham 
uma abordagem de caráter excessivamente político, individual e cronoló-
gico (BURKE, 1991). Em geral, o que fica patente em todas as críticas é o 
desinteresse por uma abordagem cronológica, personalista e nacionalista, 
que era a tônica dessa história narrativa feita pelo grupo da Revue Histori-
que. Fazendo justiça aos metódicos, sua preocupação com os documentos 
e os arquivos foi de suma importância para estabelecer as primeiras bases 
do trabalho do historiador como cientista social e para fincar as primeiras 
metodologias científicas da historiografia. Porém, é inegável também que 
as críticas recém-mencionadas são válidas. Sob o argumento de se manter 
uma imparcialidade científica, os metódicos e historicistas construíam, em 
sua maioria, narrativas de origem que deixavam de lado grandes questões, 
privilegiando acima de tudo o fato e o personagem histórico em detrimento 
ao povo e outros segmentos.
Contra isso, dois jovens historiadores franceses vieram com a proposta de 
realizar uma história que se assemelhasse a uma “psicologia social”, abarcando 
diversos aspectos da vida das pessoas. Além disso, seria uma abordagem inter-
disciplinar, que estabelecesse diálogos com outros saberes, como a geografia e 
a psicologia, por exemplo. Com isso, teríamos uma História Total ou História 
Problema, numa clara tentativa de se desvincular do modelo vigente. Como 
o professor José D'Assunção Barros (2010, documento on-line) aponta: “[...] 
constituem a identidade dos Annales como um movimento: a interdisciplina-
ridade, a problematização da história, e as novas proposições nas formas de 
conceber o Tempo”. No próprio número de estreia de sua revista (a Annales 
3O ofício do historiador
d’histoire économique et sociale, de 15 de janeiro de 1929), já era enfatizada a 
necessidade de intercâmbio entre historiadores e cientistas sociais (BURKE, 
1991). Tal proposta ficou conhecida como histoire totale. Como aponta Barros 
(2010, documento on-line): 
Trata-se de reconstruir o vivido através de problemas e motivações da épo-
ca do próprio historiador. Para além disto, trabalhar com um “problema” 
pressupõe o gesto de reconhecer e explicitar para os leitores os conceitos 
e fundamentos que estão por trás do problema e das escolhas historiográ-
ficas, e não esconder estes conceitos dos olhos do leitor, para forjar o mito 
da neutralidade.
Segundo essa nova perspectiva, o fato histórico deixa de ser visto como 
um dado já constituído, para ser encarado como uma construção do histo-
riador, já que o trabalho do historiador passa a ser focado em um problema 
suscitado por ele próprio, a partir das motivações de sua época. Essa será a 
tônica dos Annales: o desenvolvimento de uma história obedecendo a tais 
moldes de problematização. O historiador passa a adotar uma perspectiva 
de Janus (deus grego de duas faces, uma olhando para o passado e outra 
olhando para o futuro), em que mira o passado para entender questões que 
o incomodam no presente. Assim, o historiador não mais se preocupa em 
construir narrativas de origem com viés patriótico, e passa a se debruçar 
em questões que despertam seu interesse no presente para ver como essas 
questões se desenvolveram no passado. Não há como descolar essa nova 
perspectiva da frase de Bloch: “A incompreensão do presente nasce fatalmente 
da ignorância do passado” (BLOCH, 2001, p. 65). Daí a preocupação dele 
e de Braudel em olhar para o passado a partir dos problemas do presente, o 
que se tornou a tônica da revista Annales d’histoire économique et sociale 
em todas as gerações até hoje. Muda-se a metodologia, o foco, mas o norte 
da revista continua sendo o de olhar para o passado a partir de problemas 
do tempo presente.
Tal revista foi (e ainda é) de suma importância para a sistematização da 
proposta de História Problema de Febvre e Bloch, que aconteceria basicamente 
quando “[...] os historiadores atribuem um sentido ao objeto e lhe direcionam 
questionamentos que oportunizam a inversão do que se pensa sobre ele, ex-
pressando um produto inédito” (SANTOS; ANDRADE, 2015, documento 
on-line). Tal objeto deixou de ser as biografias de grandes figuras históricas e os 
fatos políticos de um país, para se voltar para sistemas de crenças, como visto, 
por exemplo, na obra Os reis taumaturgos, de Marc Bloch, ou em Martinho 
Lutero, um destino, de Lucien Febvre.
O ofício do historiador4
A revista sofreu um duro baque quando, em 1944, Marc Bloch foi preso, 
torturado e assassinado pelo governo nazista. Era época da Segunda Guerra 
Mundial e a França se encontrava ocupada pelos nazistas desde 1940. Isso 
obrigou uma série de mudanças na revista, como a alteração de seu título 
para Mélanges d'histoire sociale a partir de 1942 (o que se manteve até 
1944) e o afastamento de Bloch (que era judeu e fora vetado pelo governo 
nazista) do corpo editorial (FONTANA 2004). Mesmo após a morte de Bloch, 
Febvre continuou publicando a revista, que segue até hoje sendo publicada 
e se reinventando constantemente, sob título Annales. Histoire, Sciences 
sociales (Annales HSS).
Para saber mais sobre as interações da abordagem de Febvre e Bloch com a psicologia, 
leia o artigo “A história psicológica de Lucien Febvre e Marc Bloch”, de Lucineide Demori 
Santos e Solange Ramos de Andrade, disponível no link a seguir.
https://qrgo.page.link/eup3i
1960–1970: identificando as mudanças na história
A década de 1960 é conhecida por importantes transformações. A guerra do 
Vietnã, a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, os protestos universitários 
na Sorbonne (França), o golpe militar no Brasil e o surgimento de diversas 
outras ditaduras militares com apoio americano na América Latina foram 
alguns acontecimentos que mudaram a face do planeta, alterando situações 
que se achavam imutáveis. No meio acadêmico, essas alterações tampouco 
passaram despercebidas e causaram grande alvoroço, inspirando diversas novas 
leituras acerca da realidade, mudando a forma de se fazer pesquisa histórica.
Sobre os protestos de 1968, vale a pena dedicarmos um parágrafo à parte 
para compreendersua importância. Na França, esse movimento se originou 
a partir de protestos que ocorreram na Universidade de Paris Nanterre contra 
a divisão de dormitórios masculinos e femininos, além da articulação de 
vários movimentos de esquerda dentro do meio universitário. Em paralelo 
aos protestos franceses, ocorreram diversos outros movimentos ao redor 
do mundo: a mobilização da juventude tanto nos Estados Unidos quanto na 
5O ofício do historiador
Europa contra guerra americana no Vietnã, a revolta dos negros nos Estados 
Unidos, a luta armada na América Latina e na África, a Revolução Cultural na 
China (1966–1969), entre outros (THIOLLENT, 1998). Além disso, ocorreu a 
maior greve geral até então na Europa e diversas manifestações em Berkeley, 
Turim, Londres, Praga, México, entre outros lugares, as quais, nas palavras de 
Varella e Della Santa (2018, documento on-line) “[...] colocaram os ‘de baixo’ 
no epicentro do processo histórico”. Vale lembrar, como as outores destacam:
O baby boom do pós-guerra e o impulso científico e tecnológico, [...] pari passu 
com as conquistas sociais do Estado Social, tinham aberto as universidades 
às classes trabalhadoras, [e] o número de estudantes no ensino superior tinha 
passado de 175 mil para mais de meio milhão em dez anos (entre 1958 e 1968) 
(VARELLA; DELLA SANTA, 2018, documento on-line).
Essa combinação de aumento do número de estudantes universitários 
com o aumento do número de filhos da classe trabalhadora na universidade 
foi fundamental para dar origem a um protesto sem precedentes na história. 
Tais protestos representaram uma ruptura de grande relevância na história 
contemporânea dada a sua forma repentina e radical, mas de difícil mensu-
ração no meio acadêmico. Esses movimentos representaram o que Fontana 
(2001, p. 381) chamou de “reviravolta cultural”, pois uma de suas principais 
características foi “[...] a negação da cultura estabelecida”. Em geral, esses 
movimentos serviram para abalar o estruturalismo presente no meio acadêmico 
e expandir as fronteiras da ciência histórica.
Para o grupo dos annalíticos, a década de 1960 foi um momento de transição. 
Marcou o fim da era sob direção de Fernand Braudel e sua abordagem geo-
-história de longa duração para uma nova geração. Com nomes importantes, 
como Pierre Nora e Jacques Le Goff, essa nova geração marca um período de 
internacionalização dos Annales e de flertes com a antropologia e a sociologia, 
além da ascensão daquilo que ficou conhecido como História das Mentalidades 
e uma abordagem que buscava olhar para pequenos casos a fim de entender 
como funcionavam grandes estruturas em realidades menores, conhecida com 
“micro-história”. Um bom exemplo é o livro Montaillou, povoado occitânico, 
1294–1324, de Emmanuel Le Roy Ladurie (1997). Nessa obra, a partir da his-
tória de um vilarejo na região da Occitânia (França), Ladurie (1997) combinou 
a análise histórica do detalhe com os estudos antropológicos, fazendo o que 
Burke (1991, p. 97) denominou como estudar “[...] o mundo através de um 
grão de areia”. Nas palavras do próprio Burke (1991, p. 96) sobre essa obra:
O ofício do historiador6
A novidade de sua abordagem está em sua tentativa de escrever um estudo 
histórico de comunidade no sentido antropológico — não a história de uma 
aldeia particular, mas o retrato da aldeia escrita nas palavras dos próprios ha-
bitantes, e o retrato de uma sociedade mais ampla, que os aldeãos representam.
Não por acaso, é após esse movimento que surge a geração mais popular dos 
Annales, ganhando espaço até na grande mídia (BURKE, 1991; DOSSE, 2001).
Uma nova esquerda nasce
No outro lado do Canal da Mancha, um importante movimento nasce para 
renovar o pensamento dentro da historiografi a. Descontentes com a invasão 
de Praga e com a ortodoxia marxista no Partido Comunista, seus membros 
se desligam para fundar a New Left Review. Essa revista reuniu brilhantes 
historiadores e cientistas sociais, como Eric Hobsbawm, Stuart Hall, Edward 
Palmer Thompson e Christopher Hill. O grupo buscava entender a história 
da organização das classes populares, suas lutas e ideologias por meio da 
chamada “história social”.
Para isso, tais estudiosos propuseram uma nova abordagem que revia 
alguns pilares da teoria marxista, repensando-a através de uma nova ótica 
sobre a cultura e dando protagonismo às classes operárias. Um bom exemplo 
disso é obra A formação da classe operária inglesa, de Edward Palmer 
Thompson (2012), publicada originalmente em 1963, que quebra com a 
ortodoxia marxista de que uma classe social existe por si só, propondo que 
ela existe somente quando se reconhece como tal e identifica seus adver-
sários. Logo, ela passa por um processo de construção. Além disso, outros 
autores também saem em busca de uma nova ótica para analisar os fatos 
contemporâneos, como foi o caso de Eric Hobsbawm, em sua obra A era 
dos extremos. Para Hobsbawm (1995), o grande acontecimento definidor 
do século XX foi a Guerra Fria; por isso, seu início deve ser delimitado 
pela ascensão da Revolução Russa e seu fim pela queda da URSS. Stuart 
Hall (2005) também buscou entender a globalização sob novas óticas, 
principalmente como ela afeta a questão da identidade nas ex-colônias 
europeias, como podemos ver em obras como A identidade cultural na pós-
-modernidade, em que ele resgata a questão identitária desde o Iluminismo 
para entender como funciona nessa era globalizante. Enfim, os trabalhos 
dessa escola até hoje são de grande relevância e são reconhecidos como obras 
que equilibram rigor científico e engajamento político com equanimidade 
poucas vezes apresentada.
7O ofício do historiador
Conhecido por obras como O Mediterrâneo na época de Filipe II e Escritos sobre 
história, Fernand Braudel sucedeu Lucien Febvre no comando da revista Annales 
d’histoire économique et sociale em 1946, se mantendo até 1968. Tendo que lidar 
com críticas como a do antropólogo Claude Lévi-Strauss, que argumentava que 
a história era uma eterna prisioneira dos acontecimentos, o que a impossibilitava 
de compreender os princípios gerais da sociedade, Braudel (2016) propôs uma 
nova abordagem baseada na longa duração, o que ele chamava de tempo quase 
imóvel. Para conhecer melhor sobre a abordagem de Braudel, leia O Mediterrâneo 
na época de Filipe II, em que ele conta a história do Mar Mediterrâneo, ao invés da 
história do rei espanhol mencionado no título. Embora o tema central continue 
sendo o século XVI, o autor fez incursões em outros períodos históricos, desde a 
Antiguidade até o século XX.
1970: uma época de revisões e influências
Com todas essas mudanças ocorrendo ao longo do tempo, a história vai adqui-
rindo cada vez mais um caráter interdisciplinar. Vale ressaltar que desde fi ns 
dos anos, 1920 a história já fazia intercâmbios com outras ciências. Febvre, 
por exemplo, tinha grande infl uência da geografi a e Bloch tinha interesse por 
psicologia para tentar entender como as estruturas de crença funcionavam. 
O fi m dos anos 1960, com todas as mudanças que já abordamos, propiciou 
intercâmbios da história com áreas como sociologia, antropologia e economia.
É importante destacar que a relação da história com a sociologia não era 
necessariamente amistosa. Comte e Durkheim já faziam críticas à história 
desde fins do século XIX. Tais críticas foram sistematizadas por Simiand e, 
de certa forma, acatadas por Febvre e Bloch, ao construírem sua proposta 
de História Total. Nos anos 1940 e 1950, a crítica viria com toda força da 
antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss, sendo rebatida pela proposta 
da longa duração de Braudel.
As diversas alterações testemunhadas nos anos 1960 obrigaram aos histo-
riadores a repensar o papel da cultura na sociedade. Num primeiro momento, a 
História das Mentalidades, desenvolvida por Nora, Le Goff e outros nomes da 
terceira geração dos Annales, tentou dar conta de como valores perpassavam 
diversos segmentos da sociedade em uma mesma época. Esse movimento 
tambémganhou o apelido de “viragem antropológica” (BURKE, 1991), dado 
o papel que esta ciência exerceu sobre as novas pesquisas então realizadas.
O ofício do historiador8
Com o advento da História Cultural de Roger Chartier (que por vezes é 
considerada uma quarta geração dos Annales), acabou crescendo o intercâmbio 
não apenas com a antropologia, mas também com a literatura. Um dos grandes 
méritos desse novo modelo difundido por Chartier foi ter recuperado a veia 
narrativa/literária da história, mas sem abandonar o seu caráter científico. 
Vale lembrar que a Nova Esquerda do outro lado do Canal da Mancha também 
estava tentando pensar a cultura das classes subordinadas e como isso influen-
ciava em sua mobilização, como e quais valores dessas classes se opunham 
aos dos estratos dominantes e como o colonialismo afetava a identidade dos 
povos diaspóricos. Nesse aspecto, Hall e Thompson foram magistrais. Para 
isso, foram buscar suporte para suas análises tanto na antropologia cultural 
quanto na sociologia da Escola de Chicago (grupo de pensadores surgido na 
Universidade de Chicago na década de 1920, cuja preocupação ia além da busca 
por explicações, interessando-se em encontrar soluções para os problemas da 
sociedade, como criminalidade, exclusão social, etc.).
Todas as edições publicadas dos Annales d’histoire économique et sociale desde o número 
um, em francês, podem ser encontradas no link a seguir.
https://qrgo.page.link/1M5sz 
Sendo assim, se pudéssemos resumir essa história pós-anos 1960, pode-
ríamos dizer que se trata de uma disciplina calcada mais ainda no diálogo 
com outras ciências sociais (em especial a antropologia, no caso francês, e a 
sociologia, no caso inglês). Além disso, é uma história que reflete constan-
temente sobre seu papel e sua relação com o seu objeto de pesquisa: o ser 
humano no seu tempo. Nessa reflexão acerca da relação com o seu objeto, uma 
preocupação constante nessas abordagens que surgiram em ambos os lados do 
Canal da Mancha foi um olhar para os segmentos populares. Lembremos que a 
história romântica, o historicismo alemão e a história metódica francesa eram 
basicamente histórias produzidas por vencedores. Bloch e Febvre começaram 
a identificar isso em trabalhos como, por exemplo, Os reis taumaturgos, em 
que Bloch analisa como a crença do poder de cura dos reis na França contri-
9O ofício do historiador
buía para a manutenção de seu poder na Idade Média. As obras dessa época, 
porém, ainda tinham as classes dominantes como foco principal. A partir 
dessa virada pós-1968, tanto historiadores como antropólogos e sociólogos 
vão buscar colocar o povo, ou melhor, os segmentos subalternos da sociedade, 
como protagonistas históricos, numa perspectiva que ficou conhecida como 
“a história dos vencidos” ou “a história vista de baixo”.
Um bom exemplo de como funcionou essa “viragem antropológica” é o livro A invenção 
do cotidiano, de Michel de Certeau (Figura 2a). Essa obra, que teve muita influência no 
pensamento da terceira geração, examina as maneiras como as pessoas individualizam a 
cultura de massa, alterando coisas desde objetos utilitários até planejamentos urbanos, 
rituais, leis e linguagem, de forma a apropriá-los.
Outro livro importante para entender essas novas formas de abordagem é Costumes 
em comum, de Edward Palmer Thompson (Figura 2b). Sobre esta obra, vale a pena um 
comentário sobre o capítulo “A economia moral”. Nele, o autor analisa uma série de 
protestos contra o aumento no preço do trigo na Inglaterra e como esses atos eram 
guiados por uma moral que diferia totalmente daquela das classes dominantes (para 
se ter uma ideia, muitas vezes os carregamentos de trigo eram cercados, o preço 
negociado e, mesmo se não se chegasse a um acordo, a mercadoria era levada e os 
manifestantes pagavam o preço que consideravam justo).
Figura 2. Capas de edições brasileiras de Michel de Certeau e E. P. Thompson.
Fonte: Certeau (2014); Thompson (1998). 
O ofício do historiador10
ANNALES1. [20--?]. 1 imagem. Altura: 380 pixels. Largura: 336 pixels. Formato: 
JPG. Disponível em: http://1.bp.blogspot.com/-jyx9hgO2qX8/TdUfC4JHLfI/
AAAAAAAAAKo/6NBG6wcsPxU/s1600/annales1-1.jpg. Acesso em: 23 set. 2019.
BARROS, D’A. A escola dos Annales e a crítica ao historicismo e ao positivismo. Revista 
Territórios e Fronteiras, v. 3, n. 1, p. 75-102, 2010. Disponível em: http://www.ppghis.com/
territorios&fronteiras/index.php/v03n02/article/view/56/55. Acesso em: 23 set. 2019.
BLOCH, M. Apologia a história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BRAUDEL, F. Escritos sobre a história. São Paulo: Perspectiva, 2009.
BRAUDEL, F. O mediterrâneo na época de Filipe II. São Paulo: Edusp, 2016.
BURKE, P. A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales (1929-1989). São 
Paulo: Editora UNESP, 1991.
BURKE, P. Variedades de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2014.
DOSSE, F. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. 
São Paulo: Editora UNESP, 2001.
FONTANA, J. A história dos homens. Bauru: EDUSC, 2004.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX: 1914–1991. São Paulo: Companhia 
das Letras, 1995.
LADURIE, E. L. R. Montaillou, povoado occitânico, 1294-1324. São Paulo: Companhia das 
Letras, 1997.
SANTOS, L. D.; ANDRADE, S. R. A história psicológica de Lucien Febvre e Marc Bloch. In: 
CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA, 7., 2015, Maringá. Anais [...]. Paraná: UEM, 
2015. Disponível em: http://www.cih.uem.br/anais/2015/trabalhos/1120.pdf. Acesso 
em: 23 set. 2019.
THIOLLENT, M. Maio de 1968 em Paris: testemunho de um estudante. Tempo Social, v. 
10, n. 2, p. 63–100, 1998. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ts/v10n2/v10n2a06. 
Acesso em: 23 set. 2019.
THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. São Paulo: Paz & Terra, 2012.
THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. 
São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
VARELLA, R.; DELLA SANTA, R. O maio de 68 na Europa: estado e revolução. Revista de 
Direito e Práxis, v. 9, n. 2, p. 969–991, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.
php?pid=S2179-89662018000200969&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 23 set. 2019.
11O ofício do historiador
DICA DO PROFESSOR
Além da Escola dos Annales, outra importante escola histórica do século XX foi a New Left 
Review, responsável por dar um novo ânimo à teoria marxista. Esta escola histórica foi 
extremamente importante por revelar toda uma geração de historiadores ingleses que traziam um 
novo olhar sobre os grupos subalternos.
Nesta Dica do Professor, você entenderá um pouco mais da New Left Review, a sua importância, 
as origens dos membros fundadores e algumas disputas internas.
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EXERCÍCIOS
1) Em 1906, François Simiand sistematizou em seu livro Método histórico e ciência social 
várias críticas à História que já vinham desde fins do século XIX. Basicamente, eram 
uma crítica ao personalismo (preocupação com grandes nomes) e à busca pelas 
origens dentro dos trabalhos produzidos pelos historiadores da época. Como a 
proposta de História Total de Febvre e Bloch servia como resposta a essas críticas?
A) Estabelecendo uma História vista de baixo, analisando o perfil e a ideias das classes 
subalternas, travando fortes diálogos com a antropologia, a sociologia e outras ciências 
sociais, e também adaptando as metodologias dessas ciências à abordagem da História.
B) Preocupando-se, por exemplo, com grandes estruturas de crença e fazendo uma História 
que privilegiava mais o funcionamento da sociedade do que se preocupava com biografias 
ou grandes fatos, tentando fazer uma espécie de Psicologia Social.
Buscando uma abordagem que privilegiasse análises de grande duração e um diálogocom 
a geografia, a economia e a estatística, em uma concepção de tempo quase imóvel, 
tentando adaptar uma análise estrutural à pesquisa histórica como forma de identificar 
C) 
estruturas atemporais.
D) Uma abordagem tentando analisar pequenos casos e as suas relações com contextos 
maiores, em uma abordagem que privilegiasse o diálogo com a literatura e a antropologia, 
tentando, assim, estabelecer uma relação entre contextos macro e micro.
E) Uma abordagem que resgatasse o caráter de narrativa/literatura da História, mas sem 
perder o rigor científico, estabelecendo diálogos com a semiótica e a antropologia, porém 
admitindo os limites da História em construir uma narrativa científica de acordo com a 
documentação da época disponível.
2) Ao assumir o comando dos Annales, em 1946, Fernand Braudel veio com uma nova 
proposta de se analisar a História a partir de grandes intervalos de tempo e 
estabelecendo diálogos com a geografia, a estatística e a economia. Um bom exemplo 
é a sua obra O Mediterrâneo e o mundo na época de Filipe II, na qual ele quebra com 
paradigmas construindo uma história sobre o mar Mediterrâneo focada no século 
XVI, mas fazendo conexões até com o século XX. Essa nova abordagem foi uma 
resposta às críticas de Lévi-Strauss que diziam:
A) que a História era prisioneira de três ídolos: a origem, a biografia e a nação, e por isso as 
suas análises eram limitadas e pouco científicas.
B) que a sua análise não dava conta de compreender as classes subalternas da sociedade.
C) que ela não dava conta de grandes estruturas de crença e valores, que serviam como 
elemento de organização da sociedade.
D) que suas análises só serviam para educar as classes dominantes e propagandear 
sentimentos nacionalistas.
E) que a História era "prisioneira do acontecimento", sendo, por isso, impossível de se 
conhecer grandes leis que explicassem o funcionamento da sociedade.
3) As manifestações de maio de 1968 representaram um grande impacto na História e 
nas ciências sociais. A união entre universitários e trabalhadores na França e as 
diversas manifestações no planeta sinalizaram uma virada de paradigma para a 
História. Esses acontecimentos demonstraram uma necessidade de:
A) uma história narrativa acrítica, de caráter mais literário e que seja voltada para exaltar os 
grandes mitos da nação e os grandes fatos históricos, pensando na mobilização dos 
cidadãos do país.
B) os historiadores se apropriarem da antropologia e outras ciências sociais para compreender 
como funcionava a perspectiva e os valores das classes subalternas.
C) uma História voltada para a análise de grandes períodos de tempo, focada na estatística e 
geografia, tentando estabelecer grandes leis que expliquem o funcionamento da sociedade.
D) uma História que desse conta de criar um sentimento de nacionalidade em países 
divididos, mas que tivesse uma abordagem científica valorizando o documento e prezando 
pelo rigor metodológico, vasculhando os arquivos.
E) uma História politicamente engajada que buscasse dar conta das diversas estratégias de 
luta das classes subalternas ao longo do tempo e dar protagonismo a esses grupos.
4) A década de 1960 também foi famosa em revelar para o mundo os pensadores da 
New Left Review. Formada por importantes intelectuais de esquerda da Inglaterra e 
com uma proposta de também ter um olhar diferenciado para as classes populares, a 
New Left Review nasceu de um acontecimento traumático quando esses intelectuais se 
desligaram do Partido Comunista inglês e se uniram para criar a revista. Qual foi 
esse acontecimento?
A) O bombardeio nazista na cidade de Londres.
B) A ocupação da França durante a Segunda Guerra e o governo colaboracionista de Vichy.
C) A invasão de Praga pela URSS.
D) Os protestos de maio de 1968.
E) A eleição da liberal Margaret Thatcher para o cargo de primeira ministra.
5) Apesar de o tocante à questão do engajamento político e da influência da teoria 
marxista serem diametralmente diferentes, a historiografia da Nova Esquerda 
Inglesa e da Nova História da Terceira Geração dos Annales tinha uma importância. 
Além de cronologicamente contemporâneas, as duas correntes eram:
A) a busca da compreensão das classes subalternas, ainda que por meio e razões diferentes.
B) a busca por uma História nacionalista e científica que buscasse valorizar os documentos 
escritos, grandes fatos históricos e grandes nomes da História.
C) a busca por uma história de longa duração tentando dar conta de descobrir grandes 
estruturas que funcionam por eras.
D) a busca por uma História que resgata o papel de narrativa/literatura da História, mas sem 
perder o rigor científico.
E) a busca por uma História que relacione realidades "micro" (pequenas aldeias, vilarejos) 
com estruturas "macro" (Estado, Igreja, festas, etc.), tentando entender como funciona toda 
uma teia de valores e crenças.
NA PRÁTICA
Uma das abordagens que ganhou muita fama neste contexto pós-1968 foi a dos grupos 
tradicionalmente marginalizados na sociedade, ao invés de fazer uma História de Grandes 
Homens, como era o caso da Escola Metódica. Um dos grandes problemas de se fazer esse tipo 
de História é encontrar documentação produzida pelos próprios vencidos.
Na Prática, você conhecerá mais a respeito da escritora Carolina Maria de Jesus, uma mulher 
negra e favelada do início do século XX, cuja a obra constitui um raro exemplo 
de corpus documental produzido por segmentos subalternos da sociedade.
SAIBA MAIS
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do 
professor:
Braudel e o tempo
Para entender melhor como era a concepção de tempo para Fernand Braudel e as críticas feitas 
por Lévi-Strauss, veja este vídeo do canal Leitura Obrigahistória.
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Compreendendo os Annales
Assista ao vídeo do canal Leitura Obrigahistória para compreender melhor sobre a relevância da 
Escola dos Annales.
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Apresentação – “A História é uma recolha de experiências”
Para ter uma ideia do painel geral da historiografia, acesse este artigo de Maria Auxiliadora 
Schmidt e Marlene Cainelli e veja como há várias maneiras de se fazer história.
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
Stuart Hall e a fundação da New Left Review
Para saber direto de um de seus fundadores como se deu a fundação da New Left Review, veja 
este artigo, de Stuart Hall, traduzido na revista da USP.
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O conceito de história
APRESENTAÇÃO
A história pode ser melhor compreendida enquanto disciplina científica a partir do seu 
desenvolvimento ao longo do tempo. As primeiras tentativas no sentido de uma virada científica 
ocorreram no início do século XIX. No entanto, esses primeiros passos, embora tivessem 
avançado nas questões metodológicas, ao exigir maior rigor no trato das fontes, eram 
insuficientes em termos de filosofias ou teorias da história. E não é possível para o historiador 
exercer a sua tarefa sem refletir sobre a natureza dela e elaborar hipóteses sobre os seus objetos 
de estudo.
Contudo, após esses primeiros momentos, deu-se início uma evolução contínua nos estudos 
historiográficos que, ao longo dos séculos XIX e XX, com as escolas positivista e marxista, 
ganhou densidade tanto em termos metodológicos quanto teóricos e sobre os novos problemas 
de pesquisa que se apresentaram. A partir da década de 1960 ocorre uma nova guinada no 
campo histórico com a ascensão da terceira geração da Escola dos Annales, que investiu em 
novos objetos de estudo.
Uma das grandes conquistas da história, enquanto ciência, foi determinar a importância do 
contexto histórico, de maneira que o historiador não incorra em anacronismos. Junto com o 
estudo dos fatos e da cultura dos povos, deve-se considerar as condições materiais e a 
organização dosgrupos por épocas históricas.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai conhecer o contexto em que a história passa a se 
tornar uma ciência e, os seus fundamentos, as principais características de três grandes escolas 
históricas: a positivista, a marxista e a chamada Nova História. Por fim, você poderá reconhecer 
a importância do contexto histórico para a compreensão dos fatos estudados.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Apontar os fundamentos da história como ciência.•
Descrever as correntes historiográficas do Positivismo, Marxismo e Nova História.•
Reconhecer a importância do contexto histórico para a análise dos fatos. •
DESAFIO
Atualmente, no âmbito da história, são muito vivos os debates acerca dos fundamentos 
científicos dessa. De um lado, historiadores vinculados às correntes pós-modernas defendem 
que a história não pode ser considerada uma ciência. Em outra via, historiadores que são 
partidários da história científica argumentam que esta tem teorias próprias e metodologias 
científicas. Outros historiadores tentam ajustar um meio termo, afirmando que a história é sim 
uma ciência, porém uma ciência de tipo peculiar.
Você, como historiador, está participando de um congresso. 
Baseado nesta situação, responda:
a) Quais argumentos você utilizaria para comprovar o seu ponto de vista, caso você precisasse 
defender a história ciência?
b) Quais argumentos você utilizaria para comprovar o seu ponto de vista, caso você precisasse 
defender a não cientificidade da história?
INFOGRÁFICO
O desenvolvimento da história como ciência foi um longo processo iniciado no início do século 
XIX. De lá para cá, grandes escolas históricas surgiram, influenciando gerações de historiadores 
e permitindo a construção de trabalhos históricos dos mais diversificados.
Dessas escolas, três se destacam, principalmente: a positivista, a marxista e a chamada de Nova 
História. O positivismo, como doutrina influente no século XIX, teve papel importante na 
formação da história enquanto ciência. Praticamente contemporâneos a ela, os trabalhos de Karl 
Marx foram os responsáveis pela formação de uma escola histórica própria, muito influente no 
século XX. Por fim, a Nova História diferenciando-se das duas anteriores em seus métodos e 
temas, também exerce influência até hoje nos meios acadêmicos da história. 
Veja, no Infográfico, informações sobre essas três grandes escolas históricas. 
CONTEÚDO DO LIVRO
A discussão sobre se a história é uma ciência, ou não, é algo que precisa ser confrontado pelos 
historiadores como parte de seu trabalho. Desde o início do século XIX, quando pela primeira 
vez esse debate surgiu – e mais que um debate, uma imposição dos tempos sobre o fazer 
histórico – o tema continua sendo pautado nas discussões a respeito do ofício do historiador.
A importância desse diálogo reside no fato de que é fundamental para o profissional da história 
refletir sobre a sua prática. Indo além: determinar os fundamentos científicos da história é 
essencial para que a produção do conhecimento histórico seja racionalizada.
Em meio a diversas tendências historiográficas, o historiador deve buscar incessantemente 
conhecê-las, compreender os seus métodos, dominar as suas teorias e filosofias, enfim, 
apreender a história como ciência. Afinal, montando esse instrumental metodológico e esse 
arcabouço teórico, o historiador terá muito mais capacidade em compreender os diversos 
contextos históricos a fim de evitar o “pecado” do anacronismo.
No capítulo, O conceito de história, da obraTeoria da História e Historiografia, você encontrará 
uma discussão sobre os fundamentos da história e a sua cientificidade, bem como as 
características de três grandes escolas históricas: positivista, marxista e a Nova História. Você 
também irá aprender a importância do contexto histórico e dos conceitos para o trabalho do 
historiador.
Boa leitura.
TEORIA DA HISTÓRIA 
E HISTORIOGRAFIA 
Eduardo Pacheco Freitas
O conceito de história
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Apontar os fundamentos da história como ciência.
  Descrever as correntes historiográficas do positivismo, marxismo
e nova história.
  Reconhecer a importância do contexto histórico para a análise
dos fatos.
Introdução
Definir se a história é ou não é uma ciência faz parte de um debate 
aparentemente eterno dentro do campo da história. Nenhum historiador 
poderá ficar indiferente a esta discussão, devendo confrontar o pro-
blema mais cedo ou mais tarde. A importância de realizar essa reflexão 
é que, a partir dela, o trabalho do historiador pode ganhar contornos 
mais precisos, auxiliando sua tarefa como produtor de conhecimento 
histórico. Em um ramo do conhecimento que possui tantas tendências 
relevantes e diversos paradigmas, conhecê-los e estar apto a fazer sua 
crítica é outra característica essencial para um bom historiador. Ademais, 
o domínio dos conceitos e a sua correta aplicação para evitar o erro 
do anacronismo são fundamentais para o correto desenvolvimento de 
um trabalho histórico.
Neste capítulo, você vai conhecer a discussão sobre a cientificidade 
da história e quais os principais fundamentos da história como ciência. 
Além disso, vai aprender sobre as principais correntes historiográficas 
surgidas a partir do século XIX. Por fim, você vai refletir sobre a impor-
tância do contexto histórico e do uso dos conceitos para a análise dos 
fatos históricos.
Afinal, a história é uma ciência?
Em seus estudos, você descobrirá que até hoje existem historiadores que 
debatem se seu ramo do conhecimento humano se trata de uma ciência ou 
não. Essa discussão envolve sobretudo o questionamento das possibilidades 
de se conhecer objetivamente o passado. Isso signifi ca que, de uma certa 
perspectiva, o uso de teorias e métodos permite que a história seja uma ciência; 
sob outra ótica, pode-se dizer que a escrita da história é apenas um discurso 
autorreferente. Nesta primeira seção, você conhecerá as características de 
ambas as correntes, bem como historiadores que representam cada uma delas. 
Além disso, você conhecerá os fundamentos da história enquanto ciência.
Os primórdios da história científica
A história, como ramo independente do conhecimento humano, existe desde 
a Antiguidade. Os gregos foram os primeiros a produzir trabalhos envol-
vendo a sua própria história e a de outros povos. Nesse sentido, Heródoto de 
Halicarnasso (séc. V a.C.) frequentemente é tido como o “pai” da história. 
Sua obra mais conhecida, Histórias, traz relatos de suas viagens e conversas 
com habitantes de lugares distantes, possibilitando ao autor discorrer sobre 
costumes tanto de gregos quanto de outros povos. Contudo, esse tipo de fazer 
historiográfi co carecia de métodos precisos e de um instrumental teórico. 
Portanto, não se tratava ainda de uma história científi ca. 
A história científica irá surgir somente na virada do século XVIII para o 
século XIX, momento em que a ciência como um todo passa a avançar con-
sideravelmente em pouco tempo. Na história científica, que aparece após a 
Revolução Francesa, exige-se rigor no trato das fontes, cuja autenticidade deve 
ser verificada, e a teoria passa a ocupar papel fundamental para a interpretação 
dos acontecimentos do passado narrado pelo historiador, agora profissiona-
lizado. Portanto, foi somente nos últimos 200 anos que os pesquisadores da 
história buscaram traçar fronteiras mais nítidas entre o discurso narrativo 
histórico e a narrativa literária ou poética. De acordo com Moscateli (2005, 
documento on-line): “[...] o século XIX assistiu ao esforço dos historiadores 
para institucionalizar sua área de estudos por meio de uma ruptura da história 
em relação à arte e à filosofia”.
O nome mais importante na institucionalização da história como ciência foi 
o do alemão Leopold von Ranke (1797–1886). Assim comoHeródoto foi o “pai” 
da história, Ranke é considerado o “pai” da história científica, e isso se deve ao 
fato dele ter posto em marcha uma verdadeira revolução no modo de produzir 
O conceito de história2
conhecimento histórico. Em primeiro lugar, Ranke determinou a importância do 
uso das fontes primárias para o trabalho do historiador. Até então, não havia essa 
preocupação, o que acabava afetando a credibilidade dos trabalhos históricos. 
No entanto, deve-se ressaltar que, apesar deste ter sido um importante passo 
na criação da história científica, Ranke dava atenção especial somente aos 
documentos produzidos pelo Estado, de forma que pudesse escrever sua história. 
Por outro lado, Ranke acreditava na total separação entre o historiador 
(sujeito) e o passado (objeto), defendendo que o seu trabalho deveria ser exe-
cutado de forma neutra, com o historiador deixando de lado suas vivências, 
preferências e características pessoais, formando assim um processo de com-
pleta objetividade. Os fundamentos para essa perspectiva estavam no seu 
método. De acordo com os princípios metodológicos de Ranke, não caberia 
ao historiador julgar o passado, devendo se ater, em vez disso, ao relato do 
que de fato havia acontecido, sem juízos de valor. Isso só seria possível se 
o historiador escapasse de todos os condicionamentos sociais capazes de 
interferir no objeto sobre o qual se ocupa em seu ofício. Para produzir sua 
narrativa científica, o historiador deveria efetuar a crítica rigorosa das fontes 
(documentos escritos), organizados cronologicamente e sem especulações 
filosóficas sobre seus conteúdos. Ao obedecer a essas regras, surgiria a história 
como ciência (BOURDÉ; MARTIN, 1983)
Contudo, apesar de suas pretensões, isso ainda não garante uma história 
plenamente científica, justamente por descartar a utilização de teorias e, desse 
modo, a formulação de hipóteses. No entanto, Ranke deu os primeiros passos 
na formulação de uma história-ciência, que seriam seguidos pela chamada 
Escola Metódica, influenciada pelo positivismo e fundada por Gabriel Mo-
nod (1844–1912), Charles Seignobos (1854–1942) e Charles-Victor Langlois 
(1863–1929), no final do século XIX. Tal tradição científica prosseguiu com 
o marxismo e a Escola dos Annales no século XX.
Os fundamentos da história como ciência
Ao refl etir sobre as relações entre o historiador e seu objeto de pesquisa (o 
passado), face à lógica específi ca de que os fatos históricos devem ser tratados 
a partir de uma perspectiva científi ca, Reis (2010, p. 26) afi rma:
O historiador não está condenado a registrar fatos, a constatá-los. Ele raciocina 
sobre eles, busca a sua inteligibilidade, atribuindo-lhes sentido, pensando 
as possibilidades objetivas e os seus desdobramentos. Afinal, pensar não é 
registrar, mas considerar caminhos possíveis, alternativas.
3O conceito de história
Portanto, é fundamental que na pesquisa histórica, muito mais do que 
elencar nomes, datas e fatos, o historiador desenvolva hipóteses a respeito dos 
processos históricos. Dessa forma, é possível estabelecermos que o conheci-
mento histórico é eminentemente racional, pois, ao produzi-lo, o historiador 
busca determinar sentidos, criando uma razão histórica, que tem por base 
teorias da história. Assim, são construídas análises racionais sobre os objetos 
de estudo. 
O historiador e filósofo alemão Jörn Rüsen (1938–) é um dos autores de 
maior destaque dentro do pensamento contemporâneo a respeito da cientifi-
cidade da história. Para Rüsen, só é possível pensar a história como ciência 
se levarmos em consideração os métodos que devem ser aplicados às fontes. 
Segundo essa perspectiva, que torna relevante a reflexão do historiador so-
bre o trato que dá ao conjunto de suas fontes, é a partir deste momento que 
a construção do conhecimento científico passar a acontecer no âmbito da 
história. Em síntese, a definição de um método preciso é um pressuposto 
para a ciência histórica.
É isso que irá, primeiramente, diferenciar a narrativa histórica de qualquer 
outra forma de narrativa. De acordo com Rüsen (2001, p. 97), a “[...] história 
como ciência é a forma peculiar de garantir a validade que as histórias, em geral, 
pretendem ter. Histórias narradas com especificidade científica são histórias 
cuja validade está garantida mediante uma fundamentação particularmente 
bem feita”. Esta “garantia” que Rüsen menciona, que torna científico o conhe-
cimento produzido pelo historiador, reside especificamente na utilização de 
teorias para elaborar a experiência do passado em forma de história. Por isso, 
tanto quanto o método, a teoria é indispensável na produção historiográfica.
Outro nome importante na fundamentação da história como ciência foi 
Marc Bloch, um dos fundadores da Escola dos Annales. Em seu livro Apologia 
da História ou o ofício do historiador, ele apresenta suas concepções sobre a 
história científica. É nesta obra que Bloch cunha a sua célebre definição de que 
a história é “[...] uma ciência dos homens no tempo” (BLOCH, 2001, p. 67). 
Decorre desse entendimento o fato de que o conhecimento histórico deve ser 
compreendido como produção científica, com suas próprias especificidades 
teórico-metodológicas.
Uma das grandes ressalvas feitas pelos autores que não consideram possível 
a cientificidade da história é a de que o historiador não tem acesso direto ao 
seu objeto (REIS, 2010). No entanto, para Bloch (2001), as ciências não são 
definidas única e exclusivamente por seus objetos de estudo. O mais importante, 
segundo o autor, é a posição do historiador no processo de investigação, já que 
é ele quem determinará seus limites, ou seja, criando os recortes necessários 
O conceito de história4
para o estudo sistemático do objeto. É nesse sentido que assume particular 
relevância a definição dos métodos adequados para sua pesquisa e posterior 
escrita e comunicação dos resultados. Cabe ressaltar que a aproximação que o 
historiador faz dos diversos objetos cria a necessidade de diferentes formas de 
abordagem metodológica. Uma metodologia que serve para pesquisar acervos 
escritos do século XX possivelmente não servirá para um historiador que 
estude a história da pintura renascentista. Dessa forma, estão caracterizados 
os procedimentos formais para a construção do conhecimento histórico.
A contestação da história enquanto ciência
Embora grande parte dos autores considere que o conhecimento histórico é 
fruto da pesquisa científi ca rigorosamente metódica, existem historiadores 
que apresentam uma perspectiva diversa. Paul Veyne (1930–), em Como se 
escreve a história: Foucault revoluciona a história, uma obra do início dos 
anos 1980, foi categórico em sentenciar que a história, em hipótese alguma, 
pode ser considerada uma ciência.
Para o autor (VEYNE, 1982), os historiadores apresentam pretensões 
científicas, mas não teriam condições de revelar qual seu método quando 
questionados a respeito. Dessa forma, a história não explicaria nada. Portanto, 
ao não possuir método e não apresentar modelos explicativos convincentes, a 
ciência histórica dos últimos dois séculos seria uma farsa, existindo somente 
na cabeça dos historiadores. Nesse sentido, Veyne (1982, p. 8) coloca a questão 
“o que é a história?”, para em seguida responder: “[...] os historiadores narram 
fatos reais que têm o homem como ator; a história é um romance real”. Portanto, 
a história na visão de Veyne nada mais é do que uma mera narrativa, devido 
à sua incapacidade de conhecer objetivamente o passado.
O ataque de Veyne (1982) aos historiadores, deslocando-os do campo cien-
tífico e colocando-os no campo narrativo, não foi isolado. Logo após ser aberto 
este novo caminho, outro historiador o seguiu: Hayden White (1928-2018).
White (2008), seguindo na mesma linha de Veyne, contesta o caráter 
científico da história e a coloca no campo da literatura. Para o autor de Meta-
-história, o historiador é incapaz de reconstruir os fatos da mesma forma que 
ocorreram, devendo,portanto, se afastar dos pendores científicos, de forma a 
se aproximar do campo literário, com uma escrita mais livre. De acordo com 
White (2008), a linguagem é um fator determinante nos sentidos do texto. 
Assim, a racionalidade buscada pelo historiador, com o objetivo de produzir 
um conhecimento lógico e estruturado, dá lugar ao estilo literário que estará 
na base do discurso histórico. Portanto, na impossibilidade, segundo White 
5O conceito de história
(2008), de se atingir objetivamente o passado, a narrativa histórica se aproxima 
dos outros gêneros de narrativas, sendo autorreferente.
Como visto, o debate dos fundamentos científicos da história permanece 
em aberto, com disputas entre duas correntes. No entanto, é crucial que os 
historiadores compreendam que essa problemática sobre a natureza do conhe-
cimento históricos deve ser confrontada permanentemente.
Positivismo, marxismo e nova história
Desde as primeiras tentativas de criação de uma história científi ca, nos primór-
dios do século XIX, o fazer histórico passou por profundas transformações. 
A partir deste longo século — que testemunhou o fi m do Antigo Regime, a 
ascensão da burguesia como classe dominante, a consolidação dos Estados 
nacionais, a expansão imperialista, o rápido desenvolvimento das ciências, tanto 
as naturais quanto as humanas, e o surgimento de poderosas ideologias — um 
novo mundo foi criado. A partir de então, novas formas de encarar a sociedade 
e a história surgiram, determinando os rumos das ciências humanas até hoje. 
Assim, novas e importantes teorias apareceram, infl uenciando sobremaneira a 
ciência histórica, sendo as mais importantes delas o positivismo, o marxismo 
(século XIX) e a nova história (século XX).
Positivismo
O francês Auguste Comte (1798–1857) é geralmente referido como o “pai” da 
sociologia. Esse campo do conhecimento não existia até a primeira metade 
do século XIX, tendo algumas de suas bases lançadas por Comte. Além 
disso, Comte foi o responsável pela criação de uma nova doutrina, chamada 
por ele de positivismo. Dentre suas principais características, podemos nos 
referir à concepção de que o pesquisador (sujeito) nas ciências humanas pode 
posicionar-se de maneira absolutamente neutra perante seu objeto de estudo, 
tal qual nas ciências naturais.
Como nos lembram Bourdé e Martin (1983), a ciência positivista era calcada 
na ideia da “lei dos três estados”, que seriam as etapas pelas quais o conheci-
mento humano havia passado pela história. A primeira “lei” diz respeito ao 
“estado teológico”, no qual o ser humano atribuía os eventos históricos a seres 
sobrenaturais; no estado seguinte, o metafísico, os seres sobrenaturais seriam 
substituídos pelas abstrações de modo a explicar a história; finalmente, no “es-
tado positivo”, o ser humano busca explicar a realidade pelo método científico.
O conceito de história6
É importante lembrarmos que os avanços científicos da Revolução Industrial 
tiverem forte impacto sobre o imaginário social e sobre a produção intelectual, 
como fica evidente na fé depositada por Comte na ciência. A questão é que 
essa nova forma de conceber a sociedade teve influência sobre a produção 
das ciências humanas, que nesse período passavam a se institucionalizar. É 
dessa maneira que surge uma história positivista. Portanto, como nos informa 
Fonseca (2009, documento on-line): 
Esta história positivista será uma história que, exatamente por acreditar que os 
fatos podem ser isolados do sujeito que os confronta (o historiador) e podem 
ser percebidos em seus contornos precisos, terá a capacidade de descrever a 
verdade sobre os fatos históricos (que a este ponto constituem, para o positi-
vismo, a própria História), pois a análise do objeto pode ser assimilada pela 
ciência (aquela ciência que é metodologicamente bem informada — isto é, a 
ciência positivista) sem que haja qualquer perda ou redução: o saber histórico 
tem a capacidade de reproduzir fielmente os fatos históricos.
Como fica evidente nessa passagem, a história positivista tem pretensões de 
objetividade total do historiador frente ao seu objeto, como se ele, o historiador, 
pudesse desaparecer por detrás de suas fontes e de sua escrita, sem imprimir 
qualquer traço subjetivo de sua personalidade. É precisamente esta busca 
pela total neutralidade do historiador que conduzirá os trabalhos de Leopold 
von Ranke, um dos primeiros e mais importantes historiadores positivistas.
Ranke foi o criador dessa nova corrente historiográfica conhecida como 
científica e/ou positivista. Seus pressupostos advêm do positivismo, buscando 
utilizar os métodos das ciências naturais nas ciências humanas, particularmente 
na história. No entanto, o autor reduzia muito o seu campo de pesquisa, ao 
aceitar somente documentos escritos e oficiais como fontes dignas de créditos. 
Dessa forma, a pesquisa histórica de Ranke, embora com pretensões cientí-
ficas, acaba elaborando apenas uma história do Estado. Contudo, esse foco 
nos documentos oficiais fundamentou a crítica rigorosa de tal material. Esse 
modo de fazer história atravessou as fronteiras da Alemanha e influenciou 
uma das mais importantes escolas históricas francesas: a Escola Metódica.
Fundada em torno da Revista Histórica, a Escola Metódica teve como seus 
maiores expoentes Charles Seignobos e Charles-Victor Langlois. Ambos pu-
blicaram um trabalho que tinha como objetivo estabelecer os métodos a serem 
utilizados na ciência histórica. Essa obra, intitulada Introdução aos Estudos 
Históricos, exerceu larga influência sobre as gerações seguintes de historiadores. 
Contudo, completamente imbuídos pelo espírito positivista, não conseguiram 
superar suas amarras metodológicas e teóricas, já que prosseguiram com o 
7O conceito de história
credo na total separação entre sujeito e objeto. Da mesma forma, permaneceram 
impassíveis em relação ao uso exclusivo de fontes oficiais, fixando-se assim 
como objeto de suas pesquisas os fatos e os grandes vultos históricos. 
Marxismo
Na primeira metade do século XIX, com a publicação do Manifesto Comunista 
(1848), Karl Marx (1818–1883) e Friedrich Engels (1820–1895) inauguraram 
uma nova e radical concepção da história, conhecida posteriormente por 
materialismo histórico-dialético. No Manifesto, redigido sob encomenda em 
1847 para a Liga dos Justos, como programa da organização, Marx e Engels 
afi rmaram que “[...] a história de todas as sociedades até hoje existentes é a 
história da luta de classes” (MARX; ENGELS, 2010, p. 40). A partir dessa 
simples, mas poderosa frase, todo um novo horizonte teórico se abriria, que 
mais tarde seria chamado de marxismo. Segundo a concepção dos autores, 
ao longo dos séculos todas as sociedades apresentaram um confl ito principal 
entre duas grandes classes principais. Na Antiguidade, a oposição se dava entre 
senhores e escravos; no período medieval, a contradição social ocorria entre 
nobres e plebeus; já na modernidade, com a ascensão da burguesia, que no 
seu seio criava o proletariado, o confl ito se tornava ainda mais simples, com 
uma pequena parcela de burgueses contra a vasta população de proletários.
Para o marxismo, as lutas de classes são o motor da história, pois é a partir 
delas que as novas sociedades surgem, suplantando as sociedades anteriores. 
Isto ocorre pelos modos como uma sociedade se organiza em relação ao tra-
balho e à produção. Quando um determinado modo de produção se exaure, a 
classe que o comandava é destruída por uma nova classe, que estabelece uma 
nova forma de produção e circulação de mercadorias. Assim, cada vez que 
o modo de produção de uma sociedade é revolucionado, toda a sociedade é 
transformada radicalmente. 
Para o marxismo, portanto, são as condições concretas da vida, o modo 
como os homens reproduzem a sua existência (estrutura), que determinam 
em última análise a consciência social e suas instituições política, jurídicas, 
religiosas etc. (superestrutura). Segundo essa óptica, toda forma de Estado 
é umaditadura de classe, pois esse Estado é um reflexo da exploração e da 
opressão que a classe dominante exerce sobre a classe dominada. O marxismo, 
portanto, é uma corrente intelectual materialista, em oposição ao idealismo 
alemão originado em Hegel.
O conceito de história8
No contexto em que Marx (2017) produziu seus escritos, com destaque 
para O Capital, uma obra monumental de crítica à economia política, na qual 
o funcionamento do capitalismo é dissecado minuciosamente, a burguesia — 
que outrora fora uma classe revolucionária, responsável por derrubar o Antigo 
Regime — agora encontrava-se plenamente assentada sobre o poder, tornando-se 
assim uma classe conservadora e contrarrevolucionária. Portanto, o objetivo da 
burguesia seria o de manter seu controle sobre o proletariado, de forma que esse 
não se organizasse e viesse, eventualmente, a tomar o seu lugar como classe 
dominante, no que o marxismo conceitua como “ditadura do proletariado”. 
Para superar sua condição de classe explorada e oprimida, os proletários 
deveriam se organizar politicamente, tendo em vista a conquista do poder. 
Chegando lá, de acordo com o marxismo, haveria uma etapa de transição, que 
é o socialismo, no qual os meios de produção são expropriados, caracterizando 
assim a referida ditadura do proletariado. Ou seja, o Estado ainda existe, e 
pelo simples fato de sua existência, trata-se de uma ditadura de classe. Porém, 
o objetivo final é atingir o comunismo, uma sociedade em que as classes 
sociais deixam de existir e, devido a isso, ocorre o definhamento do Estado, 
que acabar por sumir. Dessa forma, o marxismo é frequentemente descrito 
como uma historiografia “teleológica”, isto é, que visa um fim em um futuro 
ainda incerto: a destruição do capitalismo, abrindo o caminho para a sociedade 
comunista. Devido a isso, a produção intelectual marxista é praticamente 
indissociável da luta política.
Os trabalhos marxistas, em geral, são divididos em humanistas e estrutura-
listas. No marxismo humanista, aquele que se aproxima mais do pensamento 
de Marx, o ser humano está no centro de tudo, pois a libertação da humanidade 
defendida por Marx visa à realização integral do ser humano. Porém, de acordo 
com Marx (1969, p. 17), existem condições pré-determinadas nas quais os 
homens se situam na história:
Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não 
a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se 
defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de 
todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.
Marx reconhece que os seres humanos agem dentro de estruturas herdadas 
do passado, e que isso limita a atuação livre de cada um ou de uma sociedade. 
No entanto, ao contrário dos estruturalistas, que basicamente fazem uma 
9O conceito de história
história sem o ser humano, levando em consideração apenas as estruturas 
sociais, Marx afirma que são os homens que, no fim das contas, fazem a sua 
própria história. 
Para Althusser (2017, p. 17), célebre pensador marxista do ramo estrutu-
ralista, Marx em O Capital, sua magnum opus, fez a descoberta de um novo 
“continente” científico:
Esta obra gigantesca que é O Capital contém simplesmente uma das três 
grandes descobertas científicas de toda a história humana: a descoberta do 
sistema de conceitos (portanto, da teoria científica) que abre ao conhecimento 
científico aquilo que podemos chamar de “Continente-História”. Antes de 
Marx, dois “continentes” de importância comparável já haviam sido “abertos” 
ao conhecimento científico: o Continente-Matemática, pelos gregos do século 
V a.C., e o Continente-Física, por Galileu.
Dessa forma, é possível percebermos a grande contribuição do marxismo 
às mais diversificadas áreas do conhecimento humano, como economia, psica-
nálise, sociologia, filosofia, geografia e artes. Na história, talvez a influência 
marxista tenha sido ainda maior, com alguns dos maiores historiadores do 
século XX tendo se inscrito nas fileiras do marxismo, como Gordon Childe, 
Eric Hobsbawm, Perry Anderson, E. P. Thompson dentre outros. No Brasil, 
Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré e Ciro Flamarion Cardoso são 
alguns dos mais importantes historiadores marxistas.
Desde que Karl Marx publicou seus primeiros trabalhos, no século XIX, o marxismo 
esteve no centro dos debates acadêmicos e políticos. Por conta disso, ainda hoje existe 
muita confusão sobre o significado dessa corrente intelectual e política conhecida como 
marxismo. No podcast a seguir, você irá encontrar um debate entre professores doutores 
com visões distintas a respeito do termo, explicando o que é e o que não é marxismo.
https://qrgo.page.link/z2qmd
Nova história
A chamada “nova história” é uma corrente historiográfi ca que surge em fi ns 
da década de 1960, vinculada à terceira geração da Escola dos Annales. Esta 
O conceito de história10
geração apresentou grandes mudanças em relação às que a precederam. Até 
então, por exemplo, mulheres nunca haviam integrado o grupo dos Annales, 
mas a partir da terceira geração, diversas historiadoras passaram a compô-lo, 
como Christiane Klapisch (especializada em história da família na Idade Média 
e Renascimento), Mona Ozouf (que estudou os festivais ocorridos durante a 
Revolução Francesa) e Arlette Farge (pesquisadora do mundo social de Paris 
no século XVIII) (BURKE, 1997).
Outra diferença importante é que a terceira geração se mostrou mais re-
ceptiva às ideias vindas de outros lugares, com vários de seus membros tendo 
estudado nos Estados Unidos, sendo, portanto, capazes de produzir em inglês, 
algo que não acontecia com as gerações anteriores. Porém, é no campo dos 
novos objetos de estudo histórico que a terceira geração dos Annales fará 
uma revolução dentro da já tradicional, àquela altura, escola histórica. Isto é, 
novos problemas foram colocados diante dos historiadores.
As inovações se deram sobretudo no campo da história das mentalidades 
e no emprego de metodologia quantitativa na história cultural. Dessa forma, a 
orientação intelectual de diversos historiadores, de acordo com Burke (1997, p. 
81) “[...] transferiu-se da base econômica para a ‘superestrutura’ cultural, ‘do 
porão ao sótão’”. Isto significa uma ruptura com o marxismo, que, ao contrário, 
vê a estrutura material da sociedade como a base da qual se irradiam os outros 
elementos que a constituem. Portanto, ocorre uma transição importante da 
história econômica para a história cultural, sendo essa passagem umas das prin-
cipais contribuições historiográficas da terceira geração da Escola dos Annales.
Essa mudança de foco, de acordo com Burke (1997), ocorreu como uma 
reação a Braudel, mais especificamente contra o determinismo histórico. 
Assim, historiadores como Philippe Ariès (1914–1984) voltaram-se para as 
relações entre a natureza e a cultura, produzindo estudos de grande quali-
dade que perscrutavam as conexões entre fenômenos sociais e fenômenos 
naturais, tais como a infância, por exemplo. Ariès chegou a conclusões bas-
tante interessantes, ao afirmar, por exemplo, que na Idade Média não havia a 
noção de infância tal como a percebemos hoje, com as crianças sendo vistas 
como adultos em miniatura, que participavam de todas as situações sociais. 
É uma contribuição valiosa para a compreensão da importância do contexto 
no trabalho do historiador, que deve evitar incorrer no erro do anacronismo. 
É evidente que, sempre que investigamos o passado, nossos valores e nosso 
tempo, de maneira mais ou menos intensa, exercerão alguma influência em 
nossas conclusões. Contudo, devemos ter em mente que ideias como indivi-
dualidade, privacidade, infância e trabalho não são as mesmas em todos os 
lugares e no decorrer do tempo histórico.
11O conceito de história
Phillipe Ariès foi um dos grandes nomes da terceira geração da Escola dos Annales. 
Ariès dedicou seus estudos às questões envolvendo família e infância. Confira no vídeo 
a seguir uma pequenabiografia deste historiador.
https://qrgo.page.link/9q25M
Outro historiador importante da terceira geração é Jean Delumeau (1923–). 
Antes um historiador socioeconômico, acabou se interessando pela psicologia 
histórica. Baseando-se nos estudos de psicanalistas marxistas como Wilhelm 
Reich (1897–1957) e Erich Fromm (1900–1980), e escreveu a monumental obra 
História do medo no ocidente: 1300–1800: uma cidade sitiada, em que traça 
um grande panorama dos fatores que amedrontaram as pessoas no período 
escolhido (DELUMEAU, 2009). Fantasmas, judeus, mulheres, bruxas foram 
alguns dos principais medos da população europeia entre os séculos XIV e 
XIX, com alguns deles se tornando mais fortes em determinados períodos 
e praticamente desaparecendo em outros, revelando importante dinâmica 
histórica e cultural.
Por fim, assumindo que a história é filha de seu tempo, não podemos 
desconsiderar a influência do contexto da década de 1960 sobre o apare-
cimento da terceira geração da Escola dos Annales e sobre seu modo de 
fazer histórico. No contexto em questão, isto é, da sociedade industrial de 
consumo, a percepção de aceleração do tempo se tornou cada vez mais evi-
dente. Certamente, os historiadores também se sentiram afetados por essas 
transformações. Isso levou:
[...] os intelectuais ocidentais do pós-guerra a se confrontar com a necessidade 
de revisitar sua identidade coletiva em seus aspectos cruciais, definidores. E 
isso exigiu-lhes a reafirmação de seu poder sobre o passado, para alcançar uma 
história e uma legitimidade que só podiam advir da tradição e da longevidade. 
E não temos qualquer dúvida de que devemos situar como parte desse vasto 
reexame “da identidade coletiva ocidental” por parte de seus intelectuais os 
esforços de desbravamento e inovação historiográficos levados a cabo pela 
Nouvelle Histoire (RUST, 2008, documento on-line).
O conceito de história12
Dessa forma, a aceleração do tempo ocorrida no instante em que a nova 
geração dos Annales surgiu fez com que seus historiadores buscassem amparo 
na antropologia, na sociologia e na psicologia, privilegiando temas humanos 
por excelência, como os medos, a morte, a infância, as superstições, em suma, 
as abstrações coletivas.
A importância do contexto histórico
O problema do anacronismo
Observar o contexto histórico é tarefa essencial para o historiador. Um dos pio-
res erros de abordagem que o historiador pode cometer é utilizar conceitos que 
fazem sentido na época em que produz seu texto, mas que são completamente 
estranhos à época sobre a qual se debruça. A isso chamamos de anacronismo, 
ou seja, atribuir a um determinado período histórico ideias, sentimentos, 
instituições e outras características gerais que já haviam desaparecido ou 
que surgiriam muito tempo depois. Um exemplo claro: um historiador, ao 
escrever sobre a forma como os antigos egípcios se organizavam em relação 
ao trabalho, jamais poderá utilizar categorias como burguesia ou proletariado, 
classes sociais que surgiriam muitos séculos depois. Para Febvre (1968, p. 15 
apud RIAUDEL, 2015, documento on-line), o historiador deve evitar a todo 
custo o anacronismo, sendo este “[...] o pecado dos pecados, o pecado entre 
todos irremissível”.
Para você conhecer uma importante discussão a respeito do anacronismo na história, 
leia o livro O problema da incredulidade no século XVI: a religião de Rabelais, de Lucien 
Febvre (1878–1956). Na obra, o autor procura rebater as ideias do historiador Abel Lefranc 
(1863–1952), para o qual o padre, médico e escritor François Rabelais (1494–1553) seria 
partidário de uma espécie de fé racional (ou seja, ateu). Febvre considera isso uma 
impossibilidade no século XVI, ou seja, um anacronismo por parte de Lefranc. Para 
Febvre, o conceito de ateísmo não existia no século XVI, ao menos como o entendemos 
atualmente, tornando impossível a incredulidade naquele período.
13O conceito de história
No entanto, a questão do anacronismo na história não é tão simples. Mui-
tas palavras que o historiador precisa usar para classificar elementos no seu 
objeto de estudo não existiam na época investigada. Entretanto, é necessária 
muitas vezes a utilização de vocabulário estranho ao passado, com origens 
mais recentes, mas indispensável para a correta compreensão dos fatos, fenô-
menos ou características que o historiador deseja destacar, sem incorrer em 
anacronismo. Na época do Papa Gregório (540–604 d.C.), a palavra “papa” 
não era utilizada exclusivamente para nomear os líderes da Igreja Católica. 
Contudo, é perfeitamente aceitável que, nos dias de hoje, ao nos referirmos 
à Gregório, ele seja chamado de papa. Na época em que ele viveu, a palavra 
não possuía o sentido que tem hoje, mas ao utilizá-la, o historiador age com 
correção, esclarecendo perfeitamente quem foi personagem histórico Papa 
Gregório (BARROS, 2017).
De acordo com Barros (2017, documento on-line) “[...] não há uma receita” 
que o historiador possa seguir para determinar quais palavras soam como 
anacronismo e quais não. No exemplo acima, isso parece funcionar muito 
bem, o que já não ocorreria com a palavra “guerrilheiro” ou “guerrilha” para 
caracterizar pequenos grupos beligerantes de um passado longínquo. Seria 
uma questão de feeling do historiador. Isso se dá dessa forma pois no campo 
das palavras de uso cotidiano a questão é mais simples do que no campo 
conceitual, que veremos a seguir.
Contexto histórico e o uso preciso dos conceitos
Tendo em vista os cuidados redobrados que o historiador precisa ter para não 
cair no erro do anacronismo, uma boa compreensão do contexto histórico 
sobre o qual ele dedica seus esforços de pesquisa facilitará enormemente seu 
trabalho. Para isso, é fundamental o domínio dos conceitos, de forma a não 
atribuir a uma determinada época signifi cados impossíveis. Embora na prática 
seja difícil suprimir o descompasso cronológico existente entre duas épocas, é 
absolutamente necessário que o historiador procure entender como os homens 
e mulheres do passado pensavam e entendiam a vida, para que consiga recriar 
da forma mais aproximada possível o “espírito” da época em seu texto.
A dificuldade existente quando um historiador trata de um contexto histó-
rico totalmente diverso do seu implica, de acordo com Barros (2017, documento 
on-line), em duas formas principais de anacronismo:
O conceito de história14
Em um caso, pode ocorrer o anacronismo “de ontem para hoje”. É o que ocorre 
quando lemos um texto de outra época e, de modo inaceitável, atribuímos a 
certa palavra um sentido que ela não tem hoje, comprometendo toda a inter-
pretação do texto. Em outro caso, pode ocorrer o anacronismo “de hoje para 
ontem”. É o que se verifica quando, ao tentar analisar um texto ou processo 
histórico do passado, ou ao tentar descrever cenas e acontecimentos históricos, 
utilizo uma palavra de hoje (que não existia naquela época) e o resultado é ca-
tastrófico, produzindo incontornáveis estranhamentos e drásticas deformações.
Como visto, exige-se do historiador, no trato de suas fontes, uma precisão 
absoluta, tanto em termos de palavras quanto no de conceitos. Em termos 
conceituais, o trabalho do historiador apresenta suas próprias especificidades.
Na produção historiográfica, o historiador irá se deparar com dois níveis 
de conceitos. O primeiro deles consiste naqueles conceitos com origens dentro 
do próprio campo da história, ou das ciências humanas. No segundo nível, 
vamos encontrar os conceitos que surgem nas próprias fontes. Dessa forma, o 
historiador encontra-se numa posição intermediária, entre duas temporalidades 
conceituais. É importante frisar que mesmo conceitos criados pelas ciências 
humanas há séculos ainda podem ser utilizados nas pesquisas atuais, ou ao 
menos em determinadas perspectivas historiográficas, como os conceitos de 
modo de produção e ideologia, por exemplo, amplamente utilizados entre os 
historiadores marxistas.
A questão se torna mais complexa quando se trata dos conceitos expressospelas fontes. A interpretação pouco precisa ou anacrônica desses conceitos pode 
comprometer totalmente a qualidade científica de um trabalho de história. A 
natureza do ofício do historiador é que está por traz dessa dupla dificuldade 
conceitual, pois a história é a ciência que tem por objeto o passado. Portanto, 
o texto do historiador, além dos conceitos que ele utiliza para entender e 
explicar o seu objeto, sempre trará os conceitos de outras épocas, expressos 
pelas fontes e pela reprodução que o historiador faz delas (BARROS, 2017).
Portanto, ao trabalhar com o tempo e com conceitos, o historiador deve 
atentar sobretudo ao contexto histórico. Um exemplo fácil de entender: o con-
ceito de Idade das Trevas, frequentemente utilizado não só pelos historiadores 
como pelo senso comum. É evidente que os homens e mulheres que viviam 
no período medieval não viam sua própria existência como dentro de uma 
“Idade das Trevas”. Portanto, quando usamos esse conceito devemos ter em 
mente que ele tem sua historicidade e surge em um determinado ponto muito 
15O conceito de história
específico do tempo, durante o Renascimento. Como houve um importante 
movimento intelectual e artístico nesse período que se voltava para a Antigui-
dade Clássica, passou-se a se considerar o período histórico imediatamente 
anterior como um período no qual o obscurantismo dominara a sociedade, 
mergulhando-a nas trevas.
Como visto, a natureza duplamente conceitual do historiador torna seu 
trabalho mais complexo, sobretudo quando consciente de que é fundamental 
compreender bem os diferentes contextos históricos. Além da consciência da 
historicidade do objeto de estudo em si, é fundamental que o historiador se 
conscientize sobre a historicidade dos conceitos também. Os conceitos servem 
para que a produção do conhecimento se torne possível; portanto, seu manejo 
deve ser hábil, de maneira que o anacronismo seja evitado e assim não seja 
comprometida a veracidade do trabalho histórico.
ALTHUSSER, L. Advertência aos leitores do Livro I d'O Capital. In: MARX, K. O capital: 
crítica da economia política: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo 
Editorial, 2017. Livro 1.
BARROS, J. A. Os conceitos na história: considerações sobre o anacronismo. Ler História, 
n. 71, p. 155-180, 2017. Disponível em: https://journals.openedition.org/lerhistoria/2930. 
Acesso em: 13 ago. 2019.
BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BOURDÉ, G.; MARTIN, H. As escolas históricas. Lisboa: Publicações Europa-América, 1983.
BURKE, P. A escola dos annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São 
Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.
DELUMEAU, J. História do medo no ocidente 1300-1800: uma cidade sitiada. São Paulo: 
Companhia das Letras, 2009.
FONSECA, R. M. O positivismo, "historiografia positivista" e história do direito. Argumenta, 
n. 10, p. 143–166, 2009. Disponível em: http://seer.uenp.edu.br/index.php/argumenta/
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MARX, K. O 18 Brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969.
MARX, K. O capital: crítica da economia política: o processo de produção do capital. 
São Paulo: Boitempo Editorial, 2017. Livro 1.
O conceito de história16
MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto comunista. São Paulo: Boitempo Editorial, 2010.
MOSCATELI, R. A narrativa histórica em debate: algumas perspectivas. Revista Urutágua, 
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REIS, J. C. O desafio historiográfico. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.
RIAUDEL, M. Literatura vs história: uma questão anacrônica? Literatura e sociedade, v. 20, 
n. 20, p. 157–166, 2015. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ls/article/view/107426. 
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RÜSEN, J. Razão histórica: teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: 
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RUST, L. D. A "terceira geração dos annales" e o exorcismo do tempo. BIBLOS, v. 22, 
n. 1, p. 47–60, 2008. Disponível em: http://www.brapci.inf.br/index.php/res/v/22893. 
Acesso em: 13 ago. 2019.
VEYNE, P. M. Como se escreve a história: Foucault revoluciona a história. Brasília: Editora 
Universidade de Brasília, 1982.
WHITE, H. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. São Paulo: EDUSP, 2008.
17O conceito de história
DICA DO PROFESSOR
Karl Marx é um dos grandes pensadores do século XIX, sobretudo pela análise crítica pioneira 
que elaborou sobre o modo de produção capitalista. Sua obra derivou em uma tradição 
intelectual denominada marxismo, e se tornou influente politicamente desde o fim do século 
XIX até os dias de hoje, inspirando as revoluções do século XX.
No entanto, muito além de sua mera influência sobre as lutas políticas, o marxismo se tornou 
uma corrente historiográfica, que encarava a história como fruto das lutas de classes, 
relacionando o seu desenrolar com as condições materiais das sociedades, no que se 
convencionou chamar de visão materialista-dialética da história. 
Nesta Dica do Professor, você conhecerá informações biográficas sobre Karl Marx e tópicos de 
sua obra que influenciaram o ofício do historiador. 
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EXERCÍCIOS
1) A discussão sobre se a história é uma ciência, ou não, remonta há séculos. E ela não se 
encerrará tão cedo, devido à natureza peculiar do trabalho do historiador e de seu 
objeto de estudo que é o passado. Portanto, os historiadores sempre devem estar 
prontos para confrontar essa problemática, de forma a se obter avanços sobre o 
tema. Muitos historiadores utilizam um argumento específico para comprovar a 
cientificidade da pesquisa histórica, que era justamente algo que faltava na 
perspectiva historiográfica de Leopold von Ranke. Qual seria esse elemento principal 
que torna a história uma ciência?
A) Definir se utilizará um método ou uma teoria.
B) As teorias da história, pois é a partir delas que o historiador pode produzir o conhecimento 
histórico.
C) A rigorosa manipulação das fontes, sobretudo as oficiais.
D) A criação de uma teoria específica para o objeto em estudo.
E) A busca de fontes que se expliquem por si só.
2) Em seu ofício, o historiador deve estar atento para não se tornar apenas um 
compilador de fatos, os quais ele busca constatar a veracidade ou não. Nesse sentido, 
é necessário que, ao entrar em contato com o seu objeto de estudo, ou seja, as suas 
fontes, o historiador esteja disponível para pensar sobre elas. Essa reflexão, que é 
feita a partir de seu método e da teoria escolhida para o entendimento do objeto, será 
fundamental para que o historiador possa escrever seu texto e proceder com a 
comunicação dos resultados. De que forma isso deve ser feito de maneira que o 
processo inteiro adquira sentido?
A) Buscar os sentidos ocultos fora das fontes de maneira a não contaminar a sua ótica sobre o 
processo como um todo.
B) Estabelecer parâmetros narrativos anteriormente às suas hipóteses.
C) Desenvolver novos processos dando ênfase ao grau de ineditismo do objeto.
D) Compilar uma base de fontes que apresentem um sentido imanente.
E) Elaborar hipóteses sobre os seus objetos, de forma a criar um processo racional e com 
sentido.
O século XIX foi um século de grandes transformações. A Revolução Industrial fez 
com que um novo mundo surgisse, com aumento da população urbana, novas classes 
sociais, conquista de novos territórios por parte dos europeus em busca de matérias-
primas e novos mercados. Dessa forma, toda a sociedade europeia foi afetada em 
3) 
maior ou menor grau. Os avanços científicos do período também tiveram forte 
impacto no imaginário social e na produção intelectual. O Positivismo foi uma 
doutrina fortemente influenciada pelas novidades desse contexto histórico. Por sua 
vez, o Positivismo também influenciou a produção historiográfica do século XIX. 
Quais são as principaisinfluências do Positivismo sobre os historiadores do século 
XIX?
A) A fé na chamada religião da humanidade, criada por Auguste Comte.
B) A visão de que o historiador deve levar a subjetividade em conta na sua produção.
C) O paradigma de que o historiador deve se apresentar absolutamente objetivo perante as 
suas fontes, bem como a defesa de uma total separação entre sujeito e objeto.
D) A concepção de que a história não é uma ciência de fato, portanto, não devendo utilizar em 
suas pesquisas metodologias das ciências naturais.
E) O uso de fontes de vários tipos de forma a diversificar a produção historiográfica.
4) A chamada “terceira geração” da Escola de Annales, surgida na década de 1960, 
diversificou enormemente os temas de pesquisa dos historiadores. Ao passarem do 
“porão ao sótão”, isto é, da historiografia materialista para uma história cultural, 
historiadores como Philippe Ariès descobriram como é importante levarmos em 
consideração o contexto histórico para descobrirmos as sensibilidades de uma 
determinada época e como elas são diferentes de outros tempos. Da mesma forma, 
Jean Delumeau, em trabalho monumental, estudou os medos das pessoas através de 
vários séculos, demonstrando uma grande variação entre eles. Ariès descobriu que na 
Idade Média não havia a ideia de infância, com as crianças sendo vistas como adultos 
em miniatura. Que tipo de conexão Ariès fez para sustentar a sua descoberta?
A) Conexões entre a produção material e a social.
B) Conexões entre crenças religiosas e doutrinas econômicas.
C) Para os homens medievais, as crianças não tinham importância, pois não podiam guerrear.
D) As crianças eram vistas como um estorvo.
E) O autor estabeleceu conexões entre fatos naturais ( a infância ) e sociais ( o modo que a 
sociedade lidava com essa fase da vida ).
5) Lucien Febvre afirmou certa vez que o anacronismo, para o historiador, é o "pecado 
dos pecados", isto é, o erro mais grave que se pode cometer no estudo e na escrita da 
história. No âmbito da história, o anacronismo pode ser entendido como o uso de 
conceitos que fazem sentido na época do historiador, mas que se apresentam 
completamente estranhos à época sobre a qual o pesquisador dedica a sua 
investigação. Também poder ser compreendido como o uso de termos que na 
atualidade têm um determinado sentido e na época estudada não existiam ou tinham 
sentido diverso. Tendo em vista o exposto, como o historiador pode evitar o 
anacronismo?
A) Estudando linguística e observando as origens dos idiomas.
B) Observando as formas dominantes de escrita em determinada região.
C) Tendo domínio conceitual e redação precisa.
D) Evitando discussões que possam utilizar termos dúbios.
E) Tendo domínio do contexto histórico estudado e dos conceitos utilizados.
NA PRÁTICA
O professor de história sempre deve estar preparado para elaborar atividades que tornem o 
aprendizado mais significativo e proporcione a adesão dos seus alunos. Um dos temas mais 
importantes a serem tratados nas aulas de história diz respeito à noção de contexto histórico, 
bem como a de anacronismo.
Compreender esses dois elementos é fundamental para se aprender história. Sem a compreensão 
deles, o estudo histórico perde o sentido, pois não será reflexivo, tornando-se apenas 
memorização de fatos e datas sem as suas devidas contextualizações e reflexões. 
Conheça, Na Prática, a professora Marlene, que desenvolveu uma atividade para a educação 
básica com o objetivo de ensinar a importância dos contextos históricos no estudo da história, de 
maneira a evitar que os estudantes incorram em anacronismo.
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
SAIBA MAIS
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do 
professor:
Robert Darnton – o historiador e o anacronismo
Neste vídeo, o historiador Robert Darnton fala sobre os riscos do anacronismo no trabalho do 
historiador.
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Qual a importância de uma época? Anacronismo e história
Neste artigo, você acompanha uma importante discussão a respeito da relação que o ser humano 
tem com o tempo, a partir da análise de autores como Kant, Hegel e Marx.
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Marxismo e positivismo: uma análise comparada
Neste artigo, você encontra os fundamentos do positivismo e do marxismo por meio de uma 
análise comparativa entre ambos.
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Historiadores descrevem como foi o início da história como ciência
Neste link, você lê uma matéria do jornal Folha de São Paulo, com a introdução do livro A 
História Pensada, que traz uma seleção de textos sobre a virada científica da história.
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História e ideologia: a produção brasileira sobre a Guerra do Paraguai
Neste link, você acessa um artigo no qual o autor aborda, dentre outras questões, a influência do 
positivismo na historiografia brasileira sobre a Guerra do Paraguai.
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Não incorrer em anacronismo foi êxito do historiador Caio Prado Jr.
Neste link você acessa uma discussão sobre como o historiador Caio Prado Jr. não incoreu em 
anacronismo para explicar a história brasileira. 
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A função social do conhecimento 
histórico
APRESENTAÇÃO
A história é uma ciência que apresenta as suas próprias especificidades. Seu objeto de estudo é o 
passado e o acesso ao seu objeto se dá por meio das fontes. Estas, por sua vez, são vestígios de 
atividades humanas que chegaram até o historiador e são trabalhadas de modo a revelar aspectos 
das sociedades do passado. Como essas fontes podem ser de caráter material ou imaterial, a 
memória é uma das formas utilizadas pelos historiadores para conhecer o passado, podendo ser 
considerada como base da constituição das identidades individuais ou coletivas de uma 
sociedade.
Promover o pensamento crítico em relação ao passado em conexão com futuro é uma das tarefas 
do aprendizado histórico. Dessa maneira é formada a consciência histórica, que tem importância 
singular na vida humana, e possibilita ao ser o humano o conhecimento de quem ele é e onde 
está inserido. Da mesma forma, ela serve para a correta compreensão do passado em suas 
relações com o presente, visando às orientações para o futuro.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você compreenderá como acontece a edificação do processo 
de consciência histórica e reconhecerá as identidades coletivas e individuais que decorrem desse 
processo. Além disso, você vai conhecer as elaborações teóricas do tempo e das memórias nos 
tempos históricos.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Identificar a edificação do processo da consciência histórica.•
Reconhecer as identidades individual e coletiva.•
Descrever as elaborações teóricas do tempo e da memória nos tempos históricos.•
DESAFIO
O uso da memória como fonte histórica auxilia o historiador na compreensão das questões 
relativas à identidade e às representações individuais e coletivas no passado recente, objeto de 
seu estudo. Os relatos memorialísticos e os depoimentos têm sido usados com sucesso na 
elaboração de narrativas históricas sobre classes oprimidas, testemunhos de grandes eventos 
históricos (o holocausto é um grande exemplo) e até mesmo pela história institucional, com 
entrevistas de ex-funcionários de empresas que existem há muito tempo.
Nesse sentido, cumpre ressaltar que a história não tem mais por objetivo recuperar os fatos 
exatamente como eles ocorreram, em sua totalidade, pois isso seria uma tarefa impossível. 
Dessa forma, o que se busca com os depoimentos oriundos da memória é problematizar os fatos 
históricos, de forma a se construir um panorama com diferentes perspectivas de um mesmo 
acontecimento.Tudo isso é posteriormente interpretado pelo historiador, que, então, escreve o 
seu trabalho.
Você coordena um grupo de pesquisadores responsável por pesquisar a história de um grande 
grupo empresarial. Além da análise dos documentos produzidos ao longo de sua história, o 
grupo recorre também a entrevistas com ex-funcionários da empresa. No entanto, você percebeu 
que os pesquisadores concluíram que as pessoas entrevistadas tinham a mesma visão sobre fatos 
da empresa, não havendo nenhum tipo de divergência.
Diante dessa constatação, descreva e justifique:
a) Qual é o problema metodológico que provocou esse resultado?
b) Como você interviria para solucioná-lo?
INFOGRÁFICO
Lugar de memória é um conceito exposto pelo historiador Pierre Nora no início da década de 
1980. Desde então, as discussões a respeito da memória têm sido cada vez mais importantes 
dentro da historiografia, fazendo com que o conceito seja utilizado para a compreensão das 
relações entre história, memória e identidade. 
Neste Infográfico, você verá os tipos de lugares de memória e as suas principais classificações. 
CONTEÚDO DO LIVRO
A história tem como uma de suas funções a formação de identidades individuais e coletivas, 
situadas em contextos determinados, ajudando na constituição da consciência histórica e social. 
A memória também cumpre um papel importante nesse processo, pois o ato de (re)memorar é 
indissociável da narrativa, tendo, dessa forma, uma função social que corresponde à 
comunicação entre sujeitos sobre um determinado objeto ausente.
As relações entre a função social do conhecimento histórico, as identidades coletivas e 
individuais e a memória histórica são muito profundas. A primeira é inerente à história enquanto 
ramo do conhecimento, pois é este que dará as orientações para a vida humana. A memória 
cumpre um papel importante nesse aspecto, pois é ela que atua na formação da identidade. Sem 
o conhecimento do passado, seja em forma de história ou em forma de memória, a vida humana 
seria muito diferente da que conhecemos, senão impossível.
No capítulo A função social do conhecimento histórico, da obra Teoria da História e 
Historiografia, você aprenderá como ocorre a edificação do processo da consciência histórica, 
bem como reconhecerá as identidades coletivas e individuais inerentes e ele. Você 
também conhecerá as elaborações teóricas do tempo e da memória nos tempos históricos.
Boa leitura.
TEORIA DA 
HISTÓRIA E 
HISTORIOGRAFIA 
Eduardo Pacheco Freitas
A função social do 
conhecimento histórico
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Identificar a edificação do processo da consciência histórica.
  Reconhecer as identidades individual e coletiva.
  Descrever as elaborações teóricas do tempo e da memória nos tempos 
históricos.
Introdução
A história é um ramo do conhecimento humano que apresenta diversas 
particularidades. Em primeiro lugar, seu objeto de estudo — o passado 
— é problemático, por não ser diretamente acessível ao historiador. 
Portanto, o historiador trabalha a partir de fontes, que são vestígios de 
outros tempos que chegaram aos dias atuais e podem ser analisados, 
descritos, interpretados e comunicados pelo pesquisador por meio de 
uma narrativa.
No entanto, a história não é uma forma de conhecimento que simples-
mente revela a erudição do historiador, sem conexão alguma com o con-
texto no qual se situa. Na verdade, é possível afirmar que o conhecimento 
histórico possui uma função social. Seu ensino serve para a formação da 
identidade e para a constituição de cidadãos críticos, por meio do aprendi-
zado da história e da memória. É via conhecimento histórico que o ser hu-
mano pode se situar no espaço e no tempo, sendo capaz de compreender 
o mundo onde vive. Em suma, o conhecimento histórico cria a consciência 
histórica, isto é, o conhecimento do passado, que orienta o presente e 
projeta o futuro, na formação das identidades individuais e coletivas.
Neste capítulo, você vai aprender como ocorre a edificação do pro-
cesso da consciência histórica, bem como reconhecer as identidades 
coletivas e individuais inerentes a ele. Além disso, também conhecerá 
as elaborações teóricas do tempo e da memória nos tempos históricos.
O processo de formação da consciência histórica
Certamente você já deve ter ouvido alguém falar que a história não “serve 
para nada”. No senso comum, frequentemente existe a ideia de que apenas 
disciplinas como português e matemática são importantes, pois seriam as 
únicas úteis para o trabalho. Porém, nada está mais distante da realidade do 
que essa ideia de a história não ter valor. Muito pelo contrário, a história é uma 
das ciências mais importantes, justamente por estudar o que o ser humano 
já fez e, assim, mostrar quem ele é. Dessa forma, a história como disciplina 
tem uma função social, que, a partir da formação da consciência histórica, 
promove o desenvolvimento de cidadãos críticos.
Conhecimento histórico e formação 
de cidadãos críticos
Afi nal, por que estudamos história? Essa é uma questão que perpassa gerações 
e é respondida de diversas maneiras com o passar do tempo ou de acordo com 
a sociedade que faz a indagação. No entanto, existe atualmente um possível 
consenso sobre qual a necessidade e a importância de se estudar e produzir 
conhecimento histórico. A resposta sem dúvida alguma passa pela formação dos 
cidadãos, mas necessariamente levando em conta seu desenvolvimento crítico 
como ser humano, de forma que cada um possa se apropriar das experiências 
do passado para pensar o presente e projetar o futuro. 
Estudar história é indagar ao mesmo tempo os sentidos da vida individual e 
da coletividade no decorrer do tempo. Não é à toa que Marc Bloch (2001, p. 67) já 
pontuava que a história é a “[...] ciência dos homens no tempo”. Portanto, é dessa 
forma que a história contribuirá para a localização do ser humano nesse mundo. 
É ela que pode fornecer as coordenadas necessárias para a orientação de cada 
um de nós na própria vida, enquanto seres sociais e históricos que somos, afinal.
É importante saber ler a história criticamente. Vejamos o caso das chamadas 
histórias nacionais, por exemplo, que narram o processo de construção das nações. 
Não raro esse tipo de história é apologética, com o intuito de gerar uma identidade 
nacional. Portanto, há a glorificação de um passado mítico, supostamente comum 
a todos os habitantes da nação, fato que desconsidera que qualquer coletividade 
humana é heterogênea, com diferentes grupos, uns privilegiados, outros opri-
midos. Nesse sentido, é possível dizer que uma nação possui muitos passados.
Um exemplo que deixa isso muito claro diz respeito à conquista da América 
pelos europeus — no caso do território que viria a se tornar o Brasil, pelos 
portugueses. Esse processo de forma alguma foi pacífico ou sem violência, 
A função social do conhecimento histórico2
causando, inclusive, genocídio. As populações indígenas foram quase que 
totalmente exterminadas. Da mesma forma, não é possível narrar a história do 
país sem incluir a escravidão africana, que ao longo de quase quatro séculos 
trouxe da África milhões de homens, mulheres e crianças, que encontraram 
aqui uma vida de abuso e sofrimento. Pois estes são elementos que estão na base 
da construção da nação brasileira e que nos ajudam entender a desigualdade 
e a violência existentes no país.
Outro exemplo importante é que, até algumas décadas atrás, a história era 
escrita sem personagens femininas, como se as mulheres jamais tivessem realizado 
qualquer atividade importante na experiência histórica da humanidade. Somente 
nos últimos anos, quando os direitos das mulheres se tornaram um assunto a ser 
discutido com mais seriedade, é que a historiografia passou a inclui-las, surgindo 
até mesmo um ramo específico conhecido como “história das mulheres”.
É assim que os historiadores, em conexão com a disciplina ensinada em 
salade aula, devem ter em mente a construção de uma história que demonstre a 
pluralidade do ser humano e de sua experiência ao longo do tempo. Os grupos 
historicamente oprimidos devem seu passado contado e incluso na busca de 
uma história que faça sentido e que exerça sua função social de promover o 
pensamento crítico. A produção do conhecimento histórico deve atender a 
esses critérios para que as novas gerações conheçam o passado, de modo a 
refletirem sobre o presente e projetarem o futuro.
Marc Baldó, professor espanhol de história contemporânea, defende que os historia-
dores saiam dos ambientes acadêmicos e divulguem o conhecimento histórico que 
produzem de maneira mais intensiva na sociedade. Afinal, a história tem sua função 
social e deve chegar ao grande público. Na entrevista disponível no link a seguir, você 
conhecerá o pensamento e as propostas do professor.
https://qrgo.page.link/PfCAM
Formação de sentido e consciência histórica
Rüsen (2014) propõe uma disciplina que estabeleça a conexão entre a história 
como disciplina acadêmica e a história ensinada em sala de aula: a “didática 
da história”. Esta, por sua vez, teria como objeto a formação de consciência 
3A função social do conhecimento histórico
histórica, que é “[...] a forma de consciência temporal humana, na qual a expe-
riência do passado enquanto história é interpretada para o presente” (RÜSEN, 
2014, p. 97). Ou seja, na história, enquanto formadora de consciência histórica, 
são interpretados e debatidos os acontecimentos históricos — consideradas 
as cargas de sentidos e interpretações acumuladas pela historiografi a — à luz 
do presente e das questões atuais.
Para o autor, as narrativas históricas “[...] podem gerar regras de ação 
abstratas a partir de acontecimentos concretos do passado e aplicá-las ao 
acontecimento atual e às expectativas de futuro (historia magistra vitae — 
história mestra da vida)” (RÜSEN, 2014, p. 99). Portanto, a história, ao ser 
ensinada, tem em vista produzir conhecimento histórico que responda questões 
cotidianas em busca de orientações para a vida, para ações visando o futuro. 
Ainda segundo Rüsen (2014, p. 103), a orientação tem a ver com a memoração 
histórica, isto é, com o processo de formação de sentido, através do ato de 
narrar histórias e interpretar a experiência temporal, que “[...] torna o passado 
tão presente que ele se torna proveitoso à vida”. 
Se compreendermos a “[...] história como grandeza orientadora da práxis 
vital” (RÜSEN, 2014, p. 100), teremos melhores condições de entender o que 
é de fato a consciência histórica. Para isso, é importante termos em mente 
que a consciência histórica humana atua em três modos: funcional, reflexivo 
e pragmático. O primeiro deles diz respeito às instituições culturais onde os 
seres humanos são “construídos”; já o modo reflexivo tem a ver com a elabo-
ração interpretativa e representativa do passado, ou seja, um posicionamento 
consciente perante a experiência do tempo. A escola é uma dessas instituições 
culturais que fornecem a consciência histórica. É a partir do modo reflexivo que 
a história deixa de ser premissa e passa a ser o término da formação histórica 
de sentido, encaminhando assim ao último modo, o pragmático, que serve 
como diretriz ao que queremos extrair da experiência histórica com vistas ao 
presente e ao futuro (RÜSEN, 2014). 
Para finalizar, chegamos ao ponto principal, o aprendizado histórico, 
que se dá na “formação de sentido” que “[...] pode ser explicitada concei-
tualmente como a interconexão complexa de quatro atividades mentais: 
experimentar, interpretar, orientar e motivar” (RÜSEN, 2014, p. 267). 
Como resultado, a experiência do passado é interpretada e atualizada como 
história, derivando daí a formação histórica de sentido. A consciência his-
tórica tem a ver com o desenvolvimento da capacidade de interpretação do 
tempo. Assim, o aprendizado histórico, além de proporcionar a aquisição 
de competências experienciais, orientadoras e motivadoras, promove a 
A função social do conhecimento histórico4
aquisição daquele elemento que é central neste processo: a competência 
interpretativa. Dessa forma, a narrativa histórica atuaria como um “[...] 
processo de constituição de sentido da experiência do tempo” (RÜSEN, 
2011, p. 95).
Para ampliar seus conhecimentos sobre a teoria da consciência histórica, como 
pensada pelo alemão Jörn Rüsen, assista à conferência “Historiografia e pesquisa a 
partir da teoria da consciência histórica na Alemanha”, realizada pelo professor Dr. 
Marcelo Fronza.
https://qrgo.page.link/EPrrQ
Consciência histórica e as identidades 
individual e coletiva
Você já deve ter se deparado em algum momento com as velhas perguntas 
“quem somos, de onde viemos e para onde vamos”. Muitas vezes, elas podem 
nos parecer engraçadas, como uma brincadeira a respeito das especulações 
fi losófi cas sobre a vida. No entanto, se você analisar a questão mais de perto, 
irá perceber que, em boa medida, essas perguntas retratam muito bem o que 
é que a consciência histórica, a qual, em última análise, tem a ver com o 
problema da identidade, seja coletiva ou individual.
Identidades emergentes nas memórias históricas
Imagine por um momento se a cada dia você acordasse a não lembrasse de 
nada que havia ocorrido no dia anterior, nem em todos os outros. A vida se 
tornaria impossível, não é mesmo? Isso comprova que o ser humano é o que 
é em grande parte pela sua experiência acumulada, pelos conhecimentos que 
adquiriu, por tudo que fez e viveu. Isso certamente ocorre no nível indivi-
dual. Porém, se você considerar a questão mais de perto, perceberá que esse 
cenário acontece também no âmbito da coletividade. Uma sociedade ou um 
grupo social qualquer não pode existir enquanto agrupamento que possui suas 
próprias regras, suas tradições e seus conhecimentos sem que o passado, ou 
5A função social do conhecimento histórico
sua memória, exerça um papel preponderante nas atividades do presente e nas 
concepções do porvir. Em resumo, todos esses elementos giram em torno de 
uma relação principal: a do passado com a formação da identidade.
De acordo com Pais (1999, p. 1):
Sem consciência histórica sobre o nosso passado (e antepassados...) não 
perceberíamos quem somos. Esta dimensão identitária — quem somos? 
— emerge no terreno de memórias históricas partilhadas. Por isso, o sen-
timento de identidade — entendida no sentido de imagem de si, para si e 
para os outros — aparece associado à consciência histórica, forma de nos 
sentirmos em outros que nos são próximos, outros que antecipam a nossa 
existência que, por sua vez, antecipará a de outros. Ao assegurar um senti-
mento de continuidade no tempo e na memória (e na memória do tempo) a 
consciência histórica contribui, deste modo, para a afirmação da identidade 
— individual e coletiva.
Assim, o autor nos esclarece o que é identidade: é a visão que temos de 
nós mesmos, para nós e para os outros. Esse fenômeno ocorre não somente no 
âmbito individual, mas também na coletividade. Ou seja, não apenas o indivíduo 
expressa sua própria individualidade, mas igualmente esta é expressa pela 
sociedade na qual vive, ambas inter-relacionadas. Mas como essas identidades 
surgem? É precisamente por meio da consciência histórica, do conhecimento 
do passado em comum e da projeção do futuro que sabemos quem somos no 
presente, tanto individual quanto coletivamente.
A questão da identidade pode ser delimitada como uma construção 
social, tratando-se, portanto, de um processo a longo prazo, que vai de-
monstrar com o passar do tempo que a identidade tem a ver com um 
permanente diálogo com o outro. Pois essa é uma das maneiras iniciais 
de se pensar a identidade, tanto em nível individual quanto social: é o 
espelho do outro que pode ajudar a mostrar quem o sujeito é ou deixa de 
ser. É a partir das definições do outro que a identidade pode ser definida. 
Portanto, a identidade permanece em constante elaboração, moldando-se 
nessas relaçõesde alteridade.
Inicialmente, no âmbito do Iluminismo, a identidade foi pensada como 
algo apenas individual, inerente ao indivíduo. Posteriormente, ela passou a 
ser concebida sociologicamente, pressupondo-se a interação entre a identidade 
interna que se relaciona o tempo todo com a externa, isto é, a identidade so-
cial. Na pós-modernidade, a identidade passa a ser vista como algo mutável, 
cambiável, que não é estático, estando em constante movimento, além de ser 
fragmentária e pode existir como diversas identidades que coexistem. Con-
A função social do conhecimento histórico6
tudo, uma questão central diz respeito à relação entre identidade e memória. 
Esta última é o referencial para a primeira. A identidade é construída sobre 
a memória, sobre o que é lembrado, sobre o que é esquecido e silenciado 
(SOUZA, 2014).
No link a seguir, você poderá assistir a um vídeo da mesa redonda com os professores 
Giovani José da Silva e Jean Carlo Moreno no X Seminário Nacional de Didática da 
História, ocorrido em 2018, em que são discutidas, dentre outros temas, a nova Base 
Nacional Comum Curricular (BNCC) e a didática da história.
https://qrgo.page.link/5Q4AG
Segundo Rüsen (2001), a relação entre o “ser” — entendido como a iden-
tidade — e o “dever” — a ação — é feita precisamente pela consciência 
histórica. Isso significa que a narrativa histórica, em sua operação de apanhar 
os eventos passados, acaba por criar a identidade dos indivíduos a partir das 
suas próprias experiências e da coletividade. Nesse processo, o presente é 
tornado inteligível, sendo-lhe conferida uma expectativa em relação ao futuro. 
Dessa maneira, a consciência histórica apresenta uma atribuição prática, que 
promove a identidade dos sujeitos e estabelece uma dimensão temporal na 
realidade vivida por eles. Assim, surge uma orientação que tem a capacidade 
de guiar a ação, mediadora da memoração da história.
Nesse sentido, fica evidente o papel central que uma formação sólida dos 
professores de história e o ensino desta disciplina adquirem na sociedade. Há uma 
relação direta entre o ensino de história, aprendizado de história e a construção 
de habilidades para orientação na vida de modo a promover uma identidade 
histórica coerente e estável. De acordo com Rüsen (2006, documento on-line):
O aprendizado histórico é uma das dimensões e manifestações da consciên-
cia histórica. É o processo fundamental de socialização e individualização 
humana e forma o núcleo de todas estas operações. A questão básica é como 
o passado é experienciado e interpretado de modo a compreender o presente 
e antecipar o futuro. Aprendizado é a estrutura em que diferentes campos de 
interesse didático estão unidos em uma estrutura coerente. Ele determina a 
significância do assunto da história da didática bem como suas abordagens 
teóricas e metodológicas específicas.
7A função social do conhecimento histórico
Assim, no ensino de história, deve-se procurar retomar as vivências 
pessoais e coletivas dos alunos e professores, vendo-os como seres históricos 
que vivem em uma realidade analisável, que pode e deve ser retrabalhada 
objetivando sua conversão em conhecimento histórico — e, mais do que 
isso, em autoconhecimento. É dessa forma que os sujeitos encontrarão um 
sentimento de pertencimento “[...] numa ordem de vivências múltiplas e 
contrapostas na unidade e diversidade do real” (SCHMIDT; GARCIA, 2005, 
documento on-line).
Muitas vezes, os alunos podem não gostar de história; nesse caso, o que 
precisa ficar claro é que sem ela não é possível compreender o mundo em que 
vivemos. A história tem seu papel essencialmente social, pois a partir dos seus 
conteúdos, pode-se chegar-se à cidadania. Em primeiro lugar, a consciência 
histórica terá importância na formação da identidade, seja ela individual, co-
letiva, nacional etc. Como um segundo passo, o aprendizado histórico ajudará 
na consolidação dos valores democráticos, permitindo que os jovens estudantes 
tenham contato com sua própria herança histórico-cultural, bem como com 
a de outras pessoas, outros povos e outros contextos muito diferentes. Isso 
fará com que o estudante de história não seja contaminado por preconceitos, 
intolerância ou irracionalidade. A consciência histórica é uma das premissas 
básicas da civilização. Como acentua Rüsen (2006, documento on-line), a 
história é uma matéria de “[...] experiência e interpretação”, e a sua didática 
demonstra a conexão existente entre “[...] história, vida prática e aprendizado”, 
o que garantiria um novo sentido à expressão historia magistra vitae.
Elaborações teóricas do tempo 
e da memória na história
Memória, lugares de memória e memórias históricas
Para o historiador Jacques Le Goff (2003), o conceito de memória é “crucial” no 
seio das ciências humanas e da história. Seu signifi cado pode estar relacionado 
tanto a um fenômeno psicológico e individual quanto à vida em sociedade. A 
noção de memória varia de acordo com a presença ou não da escrita, e quando 
se torna objeto do Estado ou de outras instituições visando a preservação 
dos acontecimentos passados, produz documentos e monumentos. Portanto, 
a memória, enquanto fenômeno social, também é controlada em algum nível 
pelas forças dominantes. A memória está relacionada à ausência e, portanto, 
na mesma medida, às representações. O ato de memorar é indissociável da 
A função social do conhecimento histórico8
narrativa, possuindo dessa forma uma função social que corresponde à co-
municação entre sujeitos sobre um determinado objeto ausente.
Nos estudos historiográficos sobre as memórias históricas, é indispensável 
que se leve em consideração as diferenças relevantes que a memória, ou a 
memoração, apresenta em diferentes contextos históricos no tempo e no espaço. 
Segundo Le Goff (2003), existiram e existem sociedades com memória essen-
cialmente oral, enquanto outras possuíram ou possuem a memória estruturada 
sobre a escrita. A partir daí, o autor divide as memórias históricas em cinco 
os tipos, considerando também os momentos de transição entre a memória 
oral para a memória escrita.
A primeira delas seria a memória étnica, das sociedades ágrafas. Nessa 
modalidade, a memória coletiva se apresenta, sobretudo, como a narrativa dos 
mitos de origem. Já no tipo de memória que surge na passagem da Pré-história 
para a Antiguidade, ocorre a transição da oralidade à escrita. Nessa forma de 
memória, há grande destaque para a construção de monumentos, que, além da 
frequente motivação religiosa, tem por objetivo registrar os feitos da sociedade 
que os erige. No período medieval, com o predomínio do cristianismo, que se 
apresenta como uma religião da recordação (já que firmada teologicamente na 
história), a lembrança do sacrifício de Cristo e das vidas dos santos configura 
a forma da memória social desse época. O surgimento da imprensa, no século 
XV, opera uma transformação radical na memória ocidental. De modo similar, 
novas formas de comemoração acabam surgindo, como medalhas, festas 
cívicas no calendário, selos postais etc. Durante os processos revolucionários 
de 1789, foram criados arquivos nacionais e públicos, abrindo uma nova fase 
dos documentos da memória nacional (LE GOFF, 2003).
Nos dias de hoje, com o desenvolvimento das tecnologias da informação, a 
memória é preservada de maneiras inimagináveis até bem pouco tempo atrás, 
sem esquecermos dos outros avanços do último século, como a fotografia, o 
cinema, as gravações de áudio etc.
Um conceito importante dentro do âmbito das relações entre história e 
memória é o de “lugares de memória”, definido da seguinte forma pelo his-
toriados francês Pierre Nora (1993, documento on-line):
São lugares com efeito nos três sentidos da palavra, material, simbólico e 
funcional, simultaneamente, somente em graus diferentes. Mesmo um lugar 
de aparência puramente material, como um depósito de arquivo, só é lugar 
de memória se a imaginação o investe de uma aura simbólica. Mesmo um 
lugar puramentefuncional, como um manual de aula, um testamento, uma 
associação de antigos combatentes, só entra na categoria se for objeto de um 
ritual. Mesmo um minuto de silêncio que parece um exemplo extremo de 
9A função social do conhecimento histórico
uma significação simbólica, é ao mesmo tempo o recorte material de uma 
unidade temporal e serve, periodicamente, para uma chamada concentrada 
da lembrança. Os três aspectos coexistem sempre.
Portanto, nem somente locais físicos como monumentos, museus ou memo-
riais podem ser considerados lugares que resguardam ou evocam memórias. 
As próprias criações não tangíveis da cultura, como os saberes, as práticas e 
os ritos, servem como locais privilegiados para a memoração social. A razão 
essencial para a existência dos lugares de memória é materializar o passado, 
permitir que o tempo pare, que o esquecimento seja bloqueado, que o imaterial 
seja materializado (NORA, 1993).
Com isso em mente, cumpre lembrar que é na memória que ocorre o 
encontro do momento com a duração; é a memória que refaz a experiência 
vivida do real. Dessa forma, o próprio ato de memorar em si carrega uma 
função social, que é a de fornecer ou propiciar as orientações para o agir:
Lembramos menos para conhecer do que para agir, sublinharam os autores 
modernos [Paul Ricoeur e Pierre Nora]. Nessa perspectiva, a memória é 
menos um entender o passado do que um agir; impossibilidade, portanto, de 
se cogitar uma memória desinteressada, voltada para o conhecimento puro e 
descompromissado do passado (SEIXAS, 2005, p. 53).
Barros (2009), baseado nos trabalhos de Maurice Halbwachs, afirma 
que é preciso estabelecer as diferenças entre memória e memória histórica. 
Esta última tem a ver com a memória que é partilhada entre todos os indi-
víduos de uma determinada sociedade. Ela se apresenta independente da 
historiografia elaborada pelos historiadores. Assim, a memória histórica 
é muito mais ampla, por exemplo, do que a memória autobiográfica, que 
se resume ao tempo de vida do indivíduo rememorado. Por sua vez, a 
memória histórica abrange um período muito maior de tempo, abarcando 
a vida desse indivíduo e talvez toda a existência da sociedade na qual ele 
se encontra inserido.
A memória como fonte histórica
Como vimos, a memória não é um processo exclusivamente restrito ao indi-
víduo, possuindo relações importantes com os modos como uma sociedade 
se constitui e refl ete sobre si mesma. No entanto, as características pecu-
liares da memória oferecem ao historiador novos desafi os e a necessidade 
A função social do conhecimento histórico10
de enfrentar questões diversas quando em comparação aos outros tipos de 
fontes. A memória é imprecisa e, além do que é lembrado, o trabalho com a 
memória deve atentar para seus silêncios e para as suas lacunas. Nos dias de 
hoje, os historiadores já não tem mais as pretensões da “história científi ca” do 
século XIX, de reproduzir literalmente os fatos sobre os quais se debruçam. 
Como impossibilidade metodológica, esse elemento acaba se impondo sobre 
a pesquisa histórica, fazendo com que os historiadores aceitem que seu objeto 
de estudo é, por sua natureza, calcado sobre vestígios e, portanto, lacunar e 
impreciso em grande parte das vezes. Tudo isso, quando tratamos da memória 
enquanto fonte histórica, cresce exponencialmente, impondo novos problemas 
frente aos historiadores.
Barros (2009, documento on-line), suscita questionamentos acerca das 
possibilidades do uso da memória como fonte para o trabalho do historiador:
Com relação ao aspecto da utilização da memória como “fonte histórica”, 
persiste ainda nos dias de hoje uma série de polêmicas com relação a como 
tratar a memória como fornecedora de materiais para a história, essa vista 
como ciência ou campo de saber que organiza o conhecimento sobre o passado 
ou sobre o homem no tempo. Como considerar a memória para a construção 
de uma interpretação histórica? Como utilizar fontes tidas como registros 
memorialistas, como as fontes orais, pelos historiadores?
Percebe-se, na citação acima, que Barros trata da história oral, método 
de pesquisa histórica que se utiliza de entrevistas com o objetivo de explorar 
memórias as mais diversas, desde pessoas que tenham vivido como atores em 
eventos históricos de grande vulto até meros observadores de acontecimentos 
que tenham passados despercebidos pela história.
O uso da memória como fonte histórica passou por diversas fases ao longo dos 
séculos. No século XVI, era bem aceita, com o frade franciscano Bernardino de Saha-
gún (1499–1590) entrevistando os povos nativos da América recém-conquistada 
pelos espanhóis, com o objetivo de conhecê-los melhor. No século XVIII, com o 
Iluminismo, os registros orais perderam credibilidade, devido às pretensões cientí-
ficas do período. Contudo, no século XIX, o historiador Jules Michelet (1798–1874) 
realizou um trabalho inédito e muito interessante, no qual entrevistou muitos 
franceses, com o objetivo de registrar suas impressões a respeito da Revolução 
Francesa (BARROS, 2009).
11A função social do conhecimento histórico
Há muitos séculos, as fontes orais, que são, em sua essência, memoria-
lísticas, vêm sendo utilizadas para a promoção de reflexões históricas. No 
século XVI, historiadores se valiam deste recurso para escrever e inter-
pretar a história. No entanto, com o surgimento da história positivista no 
século XIX, que considerava como fonte histórica somente os documentos 
escritos e de origem oficial, a história feita com base em depoimentos orais 
perdeu sua credibilidade. Somente a partir do século XX, sobretudo com o 
advento de tecnologias que permitem a gravação de voz, é que a oralidade 
voltou a fazer parte do arsenal de fontes do historiador. Segundo Barros 
(2009, documento on-line), “[...] como não se pretende recuperar os fatos, 
mas problematizar os fatos”, a utilização de fontes orais, ou seja, de fontes 
eminentemente estruturadas sobre a memória individual e social, tornou-se 
comum na historiografia, sobretudo a partir da década de 1980.
Assim, fica clara a relação entre a função social do conhecimento 
histórico, as identidades coletivas e individuais e a memória histórica. A 
primeira é inerente à história enquanto ramo do conhecimento, pois é este 
que dará as orientações para a vida humana. A memória cumpre um papel 
importante nesse aspecto, pois é ela que atua na formação da identidade. 
Sem o conhecimento do passado, seja em forma de história ou em forma 
de memória, a vida humana seria muito diferente da que conhecemos, 
senão impossível.
No Brasil, diversas instituições são voltadas à produção de conhecimento histórico 
com base na utilização da memória como fonte histórica. Em seus acervos, existem 
milhares de entrevistas sobre os mais diversos temas, abarcando desde personalidades 
do cinema e do campo das artes em geral até moradores das favelas do Rio de Janeiro. 
É um material riquíssimo, que registra as memórias de pessoas de todas as idades, 
gêneros, profissões e condições socioeconômicas. Os acervos são abertos para 
consulta pública e constituem uma vasta fonte para a pesquisa historiográfica. As 
instituições mais importantes onde você pode encontrar os registros memorialistas 
são: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Rio 
de Janeiro), Museu da Imagem e do Som (São Paulo), Museu da Maré (Rio de Janeiro) 
e Museu da Pessoa (São Paulo).
A função social do conhecimento histórico12
BARROS, J. A. História e memória — uma relação na confluência entre tempo e espaço. 
Mouseion, v. 3, n. 5, p. 35–67, 2009. Disponível em: https://biblioteca.unilasalle.edu.br/
docs_online/artigos/mouseion/2009_v3_n5/jdbarros.pdf. Acesso em: 29 ago. 2019.
BLOCH, M. Apologia a história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
LE GOFF, J. História e memória. Campinas: Editora UNICAMP, 2003.
NORA, P. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, v. 10, 
p. 7–28, 1993. Disponívelem: https://revistas.pucsp.br/revph/article/view/12101/8763. 
Acesso em: 29 ago. 2019.
PAIS, J. M. Consciência histórica e identidade: os jovens portugueses num contexto 
europeu. Oeiras: Celta Editora, 1999.
RÜSEN, J. Cultura faz sentido: orientações entre o ontem e o amanhã. Petrópolis: Editora 
Vozes, 2014.
RÜSEN, J. Didática da história: passado, presente e perspectivas a partir do caso alemão. 
Práxis Educativa, v. 1, n. 2, p. 7–16, 2006 Disponível em: https://core.ac.uk/download/
pdf/26007678.pdf. Acesso em: 29 ago. 2019.
RÜSEN, J. Narrativa histórica: fundamentos, tipos, razão. In: SCHMIDT, M. A.; BARCA, I.; 
REZENDE, E. Jörn Rüsen e o ensino de história. Curitiba: Editora UFPR, 2011.
RÜSEN, J. Razão histórica: teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: 
Editora UnB, 2001.
SCHMIDT, M. A. M. S.; GARCIA, T. M. F. B. A formação da consciência histórica de alunos 
e professores e o cotidiano em aulas de história. Cadernos Cedes, v. 25, n. 67, p. 297–308, 
2005. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ccedes/v25n67/a03v2567.pdf. Acesso 
em: 29 ago. 2019.
SEIXAS, J. A. Percursos de memórias em terras de história: problemáticas atuais. In: 
BRESCIANI, S.; NAXARA, M. Memória e ressentimento: indagações sobre uma questão 
sensível. Campinas: Editora UNICAMP, 2005.
SOUZA, M. J. A memória como matéria prima para uma identidade: apontamentos 
teóricos acerca das noções de memória e identidade. Revista Graphos, v. 16, n. 1, p. 
91–117, 2014. Disponível em: http://www.periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/graphos/
article/view/20337. Acesso em: 29 ago. 2019.
13A função social do conhecimento histórico
DICA DO PROFESSOR
O ensino de história deve considerar o conceito de consciência histórica, pois esta é uma 
ferramenta imprescindível, sobretudo para os professores que pensam as conexões entre o 
conhecimento histórico produzido nas universidades e a história ensinada em sala de aula. A 
consciência história está na base das identidades, bem como nas relações entre memória e 
história e na orientação temporal necessária para os seres humanos enquanto seres sócio-
históricos. 
Veja, na Dica do Professor, as relações entre consciência histórica e ensino de história.
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EXERCÍCIOS
1) A história, como ciência particular, apresenta importantes desafios tanto para 
aqueles que produzem conhecimento histórico quanto para os professores que 
ensinam a disciplina na educação básica. Na verdade, de acordo com a Didática da 
História, essa distinção não deveria ocorrer com a história enquanto ciência, devendo 
se aproximar da história como disciplina escolar. Tendo em vista o exposto, qual é a 
principal razão para a aproximação da história acadêmica da história escolar?
A) Tanto a história acadêmica quanto a história ensinada já têm um alto grau de 
complementaridade.
B) O processo de formação de sentido que, contudo, não torna o passado presente e 
proveitoso à vida.
C) A necessidade de professores compreenderem que o seu objeto de análise é o passado.
D) A busca da superação da história do tipo "historia magistra vitae".
E) A história, ao ser ensinada, tem em vista produzir conhecimento histórico que responda 
questões cotidianas em busca de orientações para a vida e para ações visando ao futuro.
2) De acordo com Rüsen (2014), a experiência do passado, ao ser interpretada e 
atualizada como história, faz com que venha a existir no ser humano a formação 
histórica de sentido. Portanto, ao adquirir essa competência interpretativa do 
passado, o ser humano se torna historicamente consciente, tornando-se capaz de, a 
partir da experiência do passado, orientar-se e motivar-se em relação ao presente e 
ao futuro, resultantes do aprendizado histórico. Sabendo que a consciência histórica 
humana pode ser construída no seio das instituições culturais, para em seguida 
interpretar e elaborar o passado e, finalmente, emergir no aprendizado atualizado 
como história, quais são os três modos de atuação da consciência histórica humana?
A) Escolar, acadêmico e reflexivo.
B) Funcional, acadêmico e pragmático.
C) Funcional, reflexivo e pragmático.
D) Acadêmico, escolar e funcional.
E) História, memória e funcional. 
3) A consciência histórica é um fenômeno que apresenta relação direta com a 
identidade, pois sem ela não poderíamos perceber quem somos de fato no tempo e no 
espaço. Portanto, essa dimensão identitária vai emergir justamente no âmbito das 
memórias partilhadas historicamente. Assim, surge o sentimento de identidade, que 
tem a ver também com as relações de alteridade, isto é, na confrontação com o outro, 
a identidade se torna mais visível, mais bem definida. Desta maneira, não somente o 
indivíduo expressa a sua própria identidade, mas expressa, igualmente, uma 
identidade social, sendo ambas fruto de longos processos históricos e sociais.
A partir disso, qual é a relação entre identidade e função social da história?
A) É na junção de aprendizado histórico e identidade que se pode chegar à cidadania.
B) É a partir da conexão de ambas que a sociedade pode evoluir tecnologicamente.
C) Não existe uma relação entre ambas que demonstre isso, mas sim entre identidade e 
tolerância.
D) A partir do aprendizado histórico da sua própria sociedade, sem contaminações externas.
E) Dentro do âmbito de história em memória com a utilização de fontes orais.
4) A memória pode se apresentar em duas formas principais. A primeira delas diz 
respeito a um fenômeno psicológico e individual, significando o ato de reter 
informações ou, então, da rememoração de fatos ocorridos há pouco ou há muito 
tempo. A memória também pode ser social, significando, com isto, as memórias 
partilhadas por uma determinada formação social no espaço e no tempo. Na história, 
a memória tem um papel importante, que é o de ajudar na criação de identidade e 
consciência histórica. Nesse sentido, Pierre Nora (1993) salienta o conceito de 
"lugares de memória", que é fundamental para entendermos essas relações.
Quais são os aspectos coexistentes de lugares de memória aos quais o autor se refere?
A) Símbolos, monumentos e materiais.
B) Simbólico, funcional e imaterial.
C) Material, imaterial e simbólico.
D) Material, simbólico e funcional.
E) Imaterial, concreto e funcional.
5) O aprendizado histórico surge como uma das expressões da consciência histórica, 
sendo um dos processos essenciais da sociabilidade e individualidade humana. Ao ser 
experienciado e interpretado, o passado determina de que forma o presente será 
compreendido e a partir daí as formas às quais a antecipação do futuro poderá 
assumir. Eis aí a grande importância que ganha o ensino de história, havendo a 
necessidade de formação sólida dos professores, de modo que eles possam estabelecer 
pontes entre os seus alunos e as suas identidades.
Como ocorre esse processo?
A) A consciência histórica é desenvolvida individualmente e apresenta, assim, a capacidade 
de explicar o presente.
B) A partir da experiência do passado, este é interpretado, tornando o presente inteligível e 
conferindo-lhe expectativas para o futuro.
C) Ao se deparar com a experiência do passado atualizada com a informação no presente, o 
indivíduo se torna autossuficiente.
D) As memórias só podem existir em sociedades que têm escrita, de forma que existam 
escolas para a promoção da consciência histórica.
E) Dentre as novas tecnologias da informação, a capacidade de memória é um dos maiores 
destaques na preservação da história.
NA PRÁTICA
Para termos uma correta abordagem sobre a dimensão identitária, isto é, saber quem somos e em 
quais contextos estamos inseridos, é necessária a construção da consciência histórica. É ela 
quem vai nos orientar, no tempo e no espaço, sobre as nossas ancestralidades e também sobre 
quais rumos estamos tomando. A identidade é a imagem que temos de nós mesmos e que 
transmitimos aos outros. Em um país com um passadode escravidão africana, a questão da 
identidade negra é muito problemática, devendo ser enfrentada pelos historiadores e professores 
de história. O passado dos negros tende a ser apagado, afinal, ao serem trazidos da África para 
serem escravos no Brasil, esses homens e mulheres tiveram rompidos os vínculos com os seus 
antepassados e culturas.
Além disso, houve toda uma elaboração intelectual ao longo do século XX no sentido de 
amenizar o racismo, fazendo crer em uma "democracia racial", na qual os conflitos étnicos-
raciais foram suprimidos. Portanto, é tarefa dos professores de história recuperar essa 
ancestralidade em sala de aula, de forma que a identidade negra se torne mais evidente, 
tornando, assim, o país mais justo e igualitário. 
Confira, Na Prática, o trabalho de uma professora que busca, a partir das memórias históricas 
partilhadas de seus alunos, contribuir para a consciência histórica e a formação de identidade 
negra em seus alunos. 
SAIBA MAIS
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do 
professor:
Da memória à história
Neste vídeo, o historiador italiano Carlo Ginzburg faz uma breve e interessante reflexão sobre as 
relações entre história e memória.
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Jovens brasileiros, consciência histórica e vida prática
Neste artigo, a profª drª Maria Auxiliadora Schmidt elabora uma relevante discussão acerca das 
relações entre a formação da consciência histórica e a vida prática de jovens.
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Memória individual e coletiva
Neste texto, do professor Lucas Mascarenhas de Miranda, você encontrará uma discussão sobre 
a formação das memórias individuais e coletivas, verificando como ambas se relacionam e 
influenciam a história.
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Verdade e objetividade na história
APRESENTAÇÃO
A organização da História como disciplina remete à segunda metade do século XIX, um período 
marcado por disputas quanto à identidade nacional e quanto à construção da própria narrativa 
historiográfica. Dentro desse contexto, alguns dos parâmetros que regeram as principais escolas 
históricas - a Escola Positivista Francesa e o Hitoricismo Alemão - constituem-se enquanto 
reflexões válidas até hoje. A discussão sobre a objetividade da pesquisa em História e da 
subjetividade à qual o historiador está submetido compõe quesitos importantes para a pesquisa 
historiográfica. 
Nesta Unidade de Aprendizagem, você irá estudar sobre as concepções de objetividade e de 
subjetividade na História, bem como os limites de ambos para o historiador. Aprenderá também 
sobre as correntes Positivista e Historicista, suas origens, influências e principais características. 
Por último, serão analisadas também as principais diferenças e semelhanças entre ambas, a fim 
de melhor observar suas contribuições para os debates na História. 
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Explicar a objetividade e a subjetividade do conhecimento histórico.•
Comparar o paradigma positivista com o historicista.•
Analisar os paradigmas antagônicos e suas características em uma mediação comparativa.•
DESAFIO
Um bom desempenho como professor não requer apenas conhecimento sobre os acontecimentos 
situados no tempo e no espaço. É importante que o docente também tenha domínio sobre Teoria 
da História, para poder ajudar o aluno na compreensão da importância de estudar a disciplina e 
como ela estrutura o seu conhecimento.
Suponha que você é um professor de História de uma turma de 1o ano do Ensino Médio, e está 
dando uma aula de Introdução à História. Durante a sua fala, você comenta como o pesquisador 
da área de História interpreta as fontes e que a disciplina não é dotada de uma verdade absoluta. 
Em meio a esse contexto, um de seus alunos faz as seguintes perguntas:
a) Como pode a História ser uma ciência se não há como comprovar a veracidade por meio de 
uma fórmula (como na Matemática ou na Física) ou a partir de uma experiência (como na 
Química)?
b) Pode o historiador determinar o que aconteceu e estabelecer isso como uma verdade?
Após a consideração do seu aluno, como você responderia a esse Desafio?
INFOGRÁFICO
As correntes historiográficas estão diretamente relacionadas com o contexto histórico ao qual 
estão inseridas. O entendimento das teorias positivista e historicista não pode vir 
desvinculado do contexto histórico e social de seus teóricos.
Neste Infográfico, você vai observar o contexto no qual França e Alemanha estavam inseridas 
na Europa do século XIX e quais foram os fatores que influenciaram a organização da corrente 
positivista e do Historicismo alemão.
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CONTEÚDO DO LIVRO
Sem um estudo mais aprofundado sobre as concepções de objetividade e subjetividade na 
História, os historiadores teriam dificuldades em compreender como deveriam se inserir 
enquanto pesquisadores quanto ao seu objeto de estudo. A disciplina, como parte do campo das 
Ciências Humanas, teve de lidar, frequentemente, com o debate neutralidade versus ação do 
sujeito. Tendo isso em mente, é necessário abordar os limites para adoção da objetividade e da 
verdade impostos pelo historiador enquanto sujeito, ao mesmo tempo em que deve existir o seu 
comprometimento ético.
No capítulo Verdade e objetividade na história, da obra Teoria da História e Historiografia, 
você vai ver sobre as concepções de objetividade e subjetividade no conhecimento histórico e de 
que forma tais noções são importantes para a disciplina. A partir de duas principais correntes 
historiográficas do século XIX: o Positivismo e o Historicismo, você poderá estabelecer 
comparações entre as características de ambos os paradigmas, para melhor compreender quais 
são os pontos de contato e de divergência e a importância de suas contribuições para a história.
Boa leitura.
TEORIA DA 
HISTÓRIA E 
HISTORIOGRAFIA
Isabela de Albuquerque Rosado do Nascimento
Verdade e objetividade 
na história
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 Explicar a objetividade e a subjetividade do conhecimento histórico.
 Comparar o paradigma positivista com o historicista.
 Analisar os paradigmas antagônicos e suas características em uma
mediação comparativa.
Introdução
As relações entre verdade, objetividade e subjetividade na história trazem 
à luz não só questões referentes à organização da disciplina em si, mas 
também as contraposições éticas referentes ao próprio fazer historiográ-
fico. Afinal, ao campo da teoria da história pertencem indagações sobre 
como se produz o conhecimento histórico e, consequentemente, como 
demarcar o terreno do que é correto e legítimo no fazer historiográfico. 
Neste capítulo, você vai estudar os conceitos de objetividade e sub-
jetividade na história e de que forma eles coexistem na ciência histórica. 
Aprenderá também sobre as correntes do positivismo e do historicismo, 
de forma a identificar as principais características de cada uma delas. Além 
disso, aprenderá sobre os conceitos de verdade na história e como eles 
são constantemente confrontados dentro das atividades de pesquisa 
do historiador.
Objetividade e subjetividade 
no conhecimento histórico
Em diferentes períodos da história, pessoas buscaram responder questões 
relativas à sua existência. Indagações como “quem somos?” e “onde estão 
nossas origens?” foram importantes para a compreensão do passado e para dar 
coesão ao próprio tempo em que viviam. A consciência que o ser humano tem 
de si mesmo como sujeito, seja como indivíduo ou como parte de um grupo, 
demanda uma busca constante pelo sentido de sua trajetória.
A partir da compreensão do papel do ser humano enquanto agente de seu 
próprio tempo, filósofos e historiadores vinhamquestionando desde os ilumi-
nistas do século XVIII a forma como o conhecimento histórico era produzido 
e como a disciplina organizava seus pressupostos epistemológicos. Ao longo 
do século XIX, o papel da história oscilou entre as premissas da filosofia e a 
busca pela objetividade das ciências naturais — que buscavam “leis gerais” 
para compreender fenômenos específicos ocorridos em qualquer região do 
planeta — e o entendimento de que o homem não consegue se desvencilhar 
do tempo em que vive, confirmando que sua subjetividade compunha parte 
de sua análise sobre o processo histórico (BARROS, 2010).
Será possível afirmar que a história é verdadeira e objetiva? Essa inda-
gação vem sendo feita por filósofos, historiadores, literatos e sociólogos. O 
pensamento iluminista — tanto nas suas vertentes francesa quanto alemã 
— propunha que a razão e a objetividade devem ser as responsáveis pelo 
controle, pela produção e pela disseminação do conhecimento. De acordo 
com o paradigma iluminista, a noção de progresso é o elemento norteador da 
história, e deve ser verificado ao longo de sucessivas épocas, pois, do ponto de 
vista filosófico, a história era universal e, portanto, sujeita às mesmas regras 
que tenderiam a se repetir em diferentes regiões (BARROS, 2010).
Tal formulação de uma história universal, marcada pela noção de progresso, 
entretanto, já não compõe mais o entendimento de historiadores contempo-
râneos a respeito da epistemologia da história. Cada caminho adotado por 
um grupo social representa uma trajetória bastante particular. Mesmo que o 
historiador identifique elementos que o aproximem de outro contexto histó-
rico, a visão de que a história das sociedades humanas desenrola-se a partir 
de uma trajetória idêntica, baseada nos mesmo elementos está, nos dias de 
hoje, ultrapassada. Todavia, como deve o historiador investigar o passado? 
Sobre quais elementos estão assentados as balizas para realizar sua pesquisa?
Em sua obra História e verdade, Adam Schaff (1995) reconhece os pro-
blemas da objetividade na disciplina e define que o conceito representa um 
conhecimento que provém do objeto, universal e isento de carga emocional. 
Entretanto, o historiador alemão relativiza a questão da objetividade na pes-
quisa, observando que: “O sujeito desempenha um papel ativo no conhecimento 
histórico, e a objetividade desse conhecimento contém sempre uma dose de 
subjetividade. Senão, esse conhecimento seria a-humano ou sobre-humano” 
(SCHAFF, 1995, p. 280).
Verdade e objetividade na história2
A dicotomia sujeito–objeto não passa por uma relação ativo–passivo, pois o 
objeto de pesquisa não pode ser dissociado do caráter humano, sociocultural e 
também histórico. Contudo, não seria um exagero afirmar que o fato histórico 
existiu e é, portanto, dotado de uma materialidade. Para Certeau (2000), a 
objetividade é uma virtude epistemológica que deve ser almejada com o fato 
histórico em si, que é também dotado de uma objetividade, pois ele existe 
independente da vontade do historiador.
A história está circunscrita ao campo das ciências humanas. Diferente dos 
métodos e dos pressupostos teóricos das ciências da natureza, subjetividades 
fazem parte deste campo do saber, pois não apenas o historiador é sujeito, mas 
também os materiais com os quais trabalha (fontes históricas) foram igual-
mente produzidos por agentes históricos que viveram num contexto específico 
(KOSELLECK, 2006). Em vista disso, a subjetividade está presente tanto no 
historiador quanto na documentação com a qual ele lida.
Em seu livro Futuro passado, Koselleck (2006) aborda as relações objetivas 
e subjetivas dentro da história, discutindo a concepção de verdade na disci-
plina para proposição de uma teoria que seja “possível”, como o próprio autor 
considera. Na visão do finado historiador alemão, a história como disciplina 
avançou muito nos últimos 200 anos, pois conseguiu mesmo com limitações 
— ou até ausência de fontes — produzir interpretações sobre o passado. Ao 
usar interpretação, Koselleck faz alusão à hermenêutica de Dilthey, à crítica 
às fontes submetida a critérios “[...] acessíveis, comprováveis e racionais” 
(KOSELLECK, 2006, p. 161–162).
Como a maior parte do trabalho do historiador consiste em interpretação, 
Koselleck (2006) afirma que ele deve se ater a produzir enunciados verdadeiros 
acerca do passado, mas não produzir verdades. Ao admitir isso, ele pode lidar 
melhor com sua consciência de que suas premissas sempre serão relativas. 
Reconhecer que existem limitações quanto à produção do conhecimento 
historiográfico não significa desacreditar a história; funciona mais como uma 
ferramenta que vem auxiliar o entendimento dos entraves que o pesquisador 
da área de história enfrenta. Repare que a subjetividade não significa aqui 
tomar partido ou levantar uma bandeira acerca de um determinado tema. De 
acordo com Rüsen (2001), o partidarismo é aquilo que se refere aos posicio-
namentos mais práticos na vida social, e que, portanto, corresponde à parcela 
mais visível da subjetividade.
Logo, a subjetividade não deve ser encarada como algo que desqualifica 
a história enquanto disciplina científica, pois ela também está marcada 
pelos mesmos pressupostos das demais, tais como método, teoria, hipó-
teses. O historiador deve compreender que está suscetível a limitações, 
3Verdade e objetividade na história
como o tempo histórico no qual está inserido, o seu local de enunciado na 
sociedade, a classe social a qual pertence, a experiência de vida que carrega 
(CERTEAU, 1995). Todos esses fatores contribuem para sua interpretação 
acerca dos fatos. A partir do momento em que ele assume as deficiências 
objetivas decorrentes deste quadro do qual não pode se desvencilhar, está 
apto a uma melhor qualidade do seu trabalho historiográfico.
Em sua concepção, René Descartes (1596–1650) tinha por objetivo atingir um co-
nhecimento verdadeiro, ao qual só se poderia chegar a partir da utilização da razão 
humana na construção do conhecimento científico. No entanto, para o filósofo francês, 
o conhecimento verdadeiro só seria oriundo da matemática, pois esta não estava 
vinculada a concepções, tradições e preconceitos sociais. Por conta dessas questões, 
Descartes punha em xeque o papel e a relevância da história, a qual, em sua concepção, 
não era considerada ciência. 
Ao se debruçar sobre a análise do que havia sido produzido acerca do passado 
na forma de narrativas, Descartes mostrou que tal registro não era a reprodução do 
passado em si, mas fruto de uma narrativa elaborada pelos historiadores. A objetividade, 
portanto, não era inerente à história; apenas a matemática proporcionaria a objetividade 
e o acesso a um conhecimento verdadeiro (EMILIO, [2019]).
Os paradigmas positivista e historicista 
Positivismo e historicismo foram as duas grandes correntes historiográfi cas 
do século XIX, e seus legados podem ser identifi cados até hoje nas discussões 
sobre a disciplina. Muitas vezes consideradas como tradições historiográfi cas 
equivalentes, existem diferenças estruturantes em ambas. De acordo com 
Barros (2010, documento on-line):
A oposição fundamental entre positivismo e historicismo dá-se em torno de 
três aspectos fundamentais: a dicotomia objetividade/subjetividade no que 
se refere à possibilidade ou não de a História chegar a leis gerais válidas 
para todas as sociedades humanas; o padrão metodológico mais adequado 
à história (de acordo com o modelo das Ciências Naturais, ou um padrão 
específico para as ciências humanas); e a posição do historiador face ao 
conhecimento que produz (neutro, imerso na própria subjetividade, engajado 
na transformação social).
Verdade e objetividade na história4
A partir dessas três vertentes (objetividade e subjetividade, padrão metodo-
lógico das ciências naturais e das ciências humanas e o historiador neutro ou 
não frente ao processo histórico), observe como as duas correntes distinguem-se 
entre si. Mesmo situadas ao longo do século XIXe num mesmo contexto de 
afirmação da história enquanto disciplina científica integrante dos quadros nas 
universidades, esse tripé compõe reflexões centrais acerca de sua epistemologia.
Positivismo
Vinculado ao contexto de uma sociedade burguesa industrializada que via com 
bons olhos os avanços científi cos que o século XIX produziu, o positivismo francês 
é um herdeiro direto do Iluminismo. Apoiados nas discussões já realizadas pelos 
iluministas (a possibilidade de um conhecimento humano totalmente objetivo, a 
construção de uma história universal, a imparcialidade do sujeito que produz o 
conhecimento), esses pressupostos seriam sistematizados agora nas ciências sociais.
Na vertente francesa, o maior nome é Augusto Comte (1798–1857) (Figura 1). 
Sua obra magna, Curso de filosofia positiva, foi publicada entre 1830–1852 
e continha 60 lições que tratavam da forma das ciências e da evolução das 
sociedades (BOURDÉ; MARTIN, 1990). Partindo de uma abordagem mais 
conservadora, acrescentou ao ideal de progresso o conceito de ordem. Ao tentar 
equiparar os métodos das ciências naturais às ciências sociais, Comte afirmou 
que existiam “[...] leis gerais e invariáveis que regeriam as sociedades humanas” 
(BARROS, 2010, documento on-line) e que o cientista social é capaz de assumir 
uma postura rigorosamente neutra frente ao seu objeto de estudo.
Figura 1. Pensadores de destaque da escola positivista: 
(a) Augusto Comte (1798–1857); (b) Émile Durkheim (1858–1917).
Fonte: Reis (2016, documento on-line); Emile... ([2017], documento on-line).
5Verdade e objetividade na história
De influência mais tardia na historiografia, Émile Durkheim (1858–1917), 
herdeiro do positivismo comtista, o sociólogo francês viria a influencia as 
ciências sociais. Seguro de que as leis da natureza não eram tão diferentes 
daquelas que regiam as sociedades, Durkheim (2007) afirma que o método 
que serve para descobri-las não é outro senão o método das outras ciências.
Na segunda metade do século XIX, o positivismo começou a influenciar a 
nascente “Escola Metódica” francesa. Os metódicos seguem a linha positivista 
no que tange à concepção da história enquanto ciência. A busca por leis gerais, 
a adoção de uma objetividade metodológica tão próxima às ciências naturais, a 
neutralidade do historiador — que deveria se destacar de seu objeto de estudo 
e observá-lo à distância — e uso de uma linguagem erudita avessa a formas 
narrativas compõem os pressupostos da escola francesa. Sua influência na 
França é grande, pois seus proponentes:
[...] participaram na reforma do ensino superior e ocupam cátedras em novas 
universidades; dirigem grandes colecções [..]; formulam os programas e 
elaboram as obras de história destinadas aos alunos dos colégios secundários 
e das escolas primárias. Ora, os manuais escolares, muito explicitamente, ve-
neram o regime republicano, alimentam a propaganda nacionalista e aprovam 
a conquista colonial. [...] A escola metódica continua a dominar o ensino e 
a investigação em história nas universidades até aos anos 1940 (BOURDÉ; 
MARTIN, 1990, p. 97).
O papel desempenhado pelos historiadores vinculados ao positivismo 
francês ecoou até quase a segunda metade do século XX, dominando o cenário 
acadêmico, intelectual e estudantil.
A obra que inaugura a influência positivista na historiografia francesa foi 
A história e os historiadores, um ensaio crítico sobre a história considerada 
como ciência positiva, de L. Bourdeau, de 1888. De acordo com o autor, a 
história é a "[...] ciência dos desenvolvimentos da razão", fixando o objetivo 
de "[...] investigar leis que presidem ao desenvolvimento da espécie humana" 
(BOURDEAU, 1888 apud BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 112–113). As leis 
citadas podem ser divididas em três grupos:
1. Leis de ordem: mostram a semelhança das coisas.
2. Leis de relação: fazem com que as mesmas originem os mesmos efeitos.
3. Lei suprema: regula o curso da história.
Na obra de Bourdeau, de expressivo caráter determinista, percebe-se o uso 
do vocábulo lei, uma herança da sociologia. A corrente positivista entendia o 
Verdade e objetividade na história6
desenvolvimento das sociedades humanas a partir de padrões que se repetiam, 
haja vista que as sociedades caminhavam rumo ao progresso e ao desenvol-
vimento. Tal premissa é coroada pela ideia de uma lei suprema, a qual seria 
responsável por regulamentar a organização da história como um todo, o que 
só é possível a partir do seu entendimento como universal.
Historicismo
A corrente historicista, tanto a alemã quanto seus desdobramentos em 
outros países europeus e americanos, também está circunscrita ao contexto 
de afi rmação dos Estados Nacionais no século XIX. A história como dis-
ciplina (Geschichte, em oposição a Historie, em alemão) organizou-se no 
período em que se formava o Império Alemão, conhecido como II Reich, 
a partir de 1871.
Na Alemanha, os principais expoentes da Historik — como ficou conhe-
cido o historicismo na época — foram Johan Gustav Droysen (1808–1884), 
Leopold von Ranke (1795–1886) e Theodor Mommsen (1817–1903). Ao colocar 
em pauta a discussão da posição que a história ocupava no campo científico, 
normalmente alocada entre a especulação filosófica e as ciências naturais, os 
historicistas avançaram no campo da teoria da história, versando sobre preo-
cupações quanto ao trato das fontes primárias, auxiliados pela hermenêutica.
Uma das bases influenciadoras do historicismo alemão foi o Romantismo. 
Para os historiadores românticos, o conhecimento sobre a história jamais é 
abstrato e depende diretamente da experiência, ou seja, do contexto histórico 
no qual o historiador se insere e, consequentemente, das leituras de mundo 
que ele carrega consigo.
Ranke defendia a concepção de uma história narrativa que, a partir da 
consulta a fontes históricas, levava à compreensão do todo. As fontes repre-
sentavam o próprio passado, mas careciam do historiador para auxiliar na 
sua compreensão. À ciência voltada para a interpretação dos textos históricos 
dá-se o nome de hermenêutica, e seu uso foi particularmente ressaltado entre 
os historicistas.
Apesar de Ranke ser o nome mais conhecido do historicismo alemão, as 
reflexões de Droysen (2009) na primeira fase desse embate contribuíram muito 
para a constituição da história como disciplina. De acordo com Assis (2010, 
p. 9), a importância de Droysen se dá: “[...] por ter realizado uma síntese de 
três perspectivas teóricas que, até então, nunca haviam sido interconectadas 
de forma sistemática: a teoria da historicidade do mundo humano [...], a teoria 
do conhecimento histórico e a teoria do método histórico”.
7Verdade e objetividade na história
O século XIX corresponde ao momento em que a história será organizada 
nas universidades europeias enquanto disciplina. Com Droysen, o pensamento 
histórico deixou de ser um apêndice da filosofia, e seu método histórico 
desprendeu-se do filosófico. A história ganhou status de ciência autônoma e, 
como tal, cabia aos historiadores as reflexões acerca de sua episteme.
O historiador americano Patrick J. Geary, em sua obra O mito das nações: a invenção 
do nacionalismo (GEARY, 2005), aborda o tema da organização dos povos germânicos 
na Antiguidade Tardia (século IV–VIII). Ao analisar sua etnogênese (os mitos de forma-
ção enquanto grupo étnico), Geary chegou à conclusão de que a interpretação dos 
germânicos enquanto grupos coesos e organizados que ocupavam o poder político 
não corresponde ao quadro dos primeiros tempos medievais, mas à uma leitura dos 
acadêmicos (historiadores, arqueólogos, filólogos) do século XIX. Logo, a compreensão 
que os historicistas alemães fizeram sobre o passado germânico na Europa serviu para a 
construção e legitimação dos Estados Nacionais em formação, como o Estado Alemão 
a partir de 1871. A preocupação dos historiadores da Historik era, portanto, narrar os 
eventos que marcaram a primeira forma de organização política do povo alemão.
Paradigmas antagônicos sob viéscomparativo
A história vivenciou modelos de alternância quanto ao papel do historiador e 
sua infl uência sobre seu objeto de estudo. A partir das heranças do Iluminismo 
e do Romantismo, duas grandes correntes históricas emergiram na forma do 
positivismo e do historicismo.
O positivismo primava pela objetividade e a mantinha enquanto uma meta 
a ser alcançada. O objeto de estudo era o homem universal. Já o historicismo 
não escondia as relações — afetivas, inclusive — entre o pesquisador e seu 
objeto de estudo, pois entendia que o indivíduo concreto estava sujeito a uma 
historicidade específica, da qual não podia se desvencilhar.
Dos debates entre positivistas e historicistas, emergiram as discussões 
do papel do historiador frente ao seu objeto de estudo e sua neutralidade. O 
historicismo já se afirmava como relativista, enquanto o positivismo almejava 
a objetividade.
Com relação à teoria do conhecimento, a corrente positivista afirmava que 
a função da história é explicar os fenômenos históricos e sociais, ao passo que 
Verdade e objetividade na história8
os historicistas — com sua perspectiva objetiva — buscavam compreendê-los. 
A dicotomia explicação–compreensão denota o posicionamento antagônico 
que as correntes historiográficas apresentavam frente ao objeto estudado e 
ao papel do historiador nesse processo. Enquanto os positivistas acreditavam 
que, com “leis gerais”, cabia ao historiador identificá-las e explicá-las, os 
historicistas vislumbravam a importância de entender que tanto o historiador 
quanto os agentes que produziram as fontes eram sujeitos e que, como tais, 
sua função era compreender o passado e narrá-lo. O Quadro 1 resume as 
concepções básicas de cada escola.
Positivismo Historicismo
O que é história? Compreendia que a história 
era um processo pelo qual to-
dos os homens deveriam pas-
sar para atingir o progresso.
A história é como uma 
organização de fatos que se 
desenrolam num determi-
nado tempo.
Para que serve a 
história?
A história serve para explicar 
o presente e comprovar seu 
desenrolar no tempo.
Para entender os fenômenos 
históricos em sua especifici-
dade e descobrir o que acon-
teceu em sua forma mais 
completa e exata. Considera 
todos os aspectos relativos à 
historicidade dos fenômenos, 
suas influências políticas, ide-
ológicas, culturais, sociais, etc.
Como se escreve a 
história?
A partir dos documentos, 
considerados como veicu-
ladores de uma verdade 
e como fontes confiáveis; 
o historiador (neutro) não 
toma partido para evitar ser 
tendencioso.
A escrita da história é de 
caráter narrativo, de con-
teúdo político. Considera a 
importância das ideias e das 
instituições nas raízes do 
processo histórico.
Quadro 1. Comparação entre positivismo e historicismo
A inserção do caráter objetivo na história, apesar dos historiadores terem 
ciência de que ele não existe em 100%, é importante como uma forma de 
minimizar as subjetividades, tanto do pesquisador quanto dos materiais 
9Verdade e objetividade na história
com os quais ele lida. Como o historiador não consegue ter acesso a todo o 
passado, mas apenas a uma parte dele — a partir dos vestígios deixados — 
cabe a ele reconstituir a totalidade de um evento/episódio/período, baseado 
em fatos particulares.
Bloch (2001), em seu célebre livro Apologia da História, tece uma metá-
fora profícua a respeito das diferenças entre o cientista e o juiz. Afirma que 
ambos estão comprometidos em atingir a verdade sobre os fatos, sendo que 
o cientista realiza o experimento e o registra. Já o juiz, mesmo que baseado 
em aspectos legais e acreditando ser verdadeiramente imparcial, chega à 
sua decisão final de condenar ou absolver sempre pautado por seus valores, 
algo que não está vinculado a qualquer forma de ciência (BLOCH, 2001). O 
autor deixa clara, portanto, a diferença entre investigar o passado e julgá-
-lo. O primeiro verbo estaria vinculado à objetividade da ciência histórica, 
enquanto o segundo — parte integrante do historiador como sujeito — não 
deve interferir na sua pesquisa.
Le Goff (1990, p. 32), em seu livro História e memória, ao citar Weber, 
afirma que “toda a tentativa de compreender a realidade (histórica) sem hipó-
teses subjetivas só conseguiria chegar a um caos de ‘juízos existenciais’ sobre 
inúmeros acontecimentos isolados". Não é função dos historiadores julgar 
fatos históricos, envoltos por uma justificativa de que estão comprometidos 
com a verdade e a objetividade. 
Além de Bloch e Le Goff, outros historiadores consagrados como Reinhart 
Koselleck (2006) e Michel de Certeau (2000) já afirmaram que inexiste verdade 
na história, por se tratar a disciplina de uma narrativa historiográfica. No 
entanto, essa ausência de objetividade absoluta não pode servir para invalidar 
a disciplina. A subjetividade é inerente ao conhecimento científico, pois todos 
nós estamos subordinados a vínculos socioculturais.
No entanto, as supostas limitações na neutralidade e na objetividade não 
devem ser um entrave para o entendimento da história enquanto ciência; o 
enquadramento do ofício do historiador não pode ser representado apenas 
por uma titulação como bacharel ou licenciado em história. Requer, antes 
de tudo, um compromisso ético, com consciência de suas escolhas teóricas 
e metodológicas ao longo de uma pesquisa. É justamente a partir da ciência 
de suas imperfeições que ele pode melhor entender e extrapolar as fronteiras 
do fazer historiográfico.
Verdade e objetividade na história10
ASSIS, A. A teoria da história de Jörn Rüsen: uma introdução. Goiânia: Editora da UFG, 2010.
BARROS, J. D. Objetividade e subjetividade no conhecimento histórico: a oposição 
entre os paradigmas positivista e historicista. Revista Tempo, Espaço e Linguagem (TEL), 
v. 1, n. 2, p. 73–102, 2010. Disponível em: https://www.revistas2.uepg.br/index.php/tel/
article/viewFile/2628/1970. Acesso em: 6 ago. 2019.
BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BOURDÉ, G.; MARTIN, H. As escolas históricas. Lisboa: Europa-América,1990.
CERTEAU, M. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
CERTEAU, M. A operação histórica. In: LE GOFF, J.; NORA, P. (org.). História: novos pro-
blemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.
DROYSEN, J. G. Manual de teoria da história. Petrópolis: Editora Vozes, 2009.
DURKHEIM, É. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
EMILE Durkheim. Sociologia, [2017]. Disponível em: http://sociologiacienciaevida.com.
br/como-e-produzido-o-conhecimento/emile-durkheim/. Acesso em: 6 ago. 2019.
EMILIO, D. R. Descartes, René du Perron (1596–1650). Biblioteca Unicamp, [2019]. Disponível em: 
http://www.fem.unicamp.br/~em313/paginas/person/descarte.htm. Acesso em: 6 ago. 2019.
GEARY, P. J. O mito das nações: a invenção do nacionalismo. São Paulo: Conrad, 2005.
KOSELLECK, R. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de 
Janeiro: Contraponto, 2006.
LE GOFF, J. História e memória. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990.
REIS, L. Augusto Comte. Mundo Ciência, 2016. Disponível em: https://www.mundociencia.
com.br/sociologia/augusto-comte/. Acesso em: 6 ago. 2019.
RÜSEN, J. Razão histórica, teoria da história: fundamentos da ciência histórica. Brasília: 
Editora da UnB, 2001.
SCHAFF, A. História e verdade. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
Leituras recomendadas
BARROS, J. D. “Teorias da história” e “filosofias da história”: considerações sobre o 
contraste entre dois espaços de reflexão sobre o fazer histórico. Anos 90, v. 19, n. 
36, p. 367–400, 2012. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/anos90/article/
view/15756. Acesso em: 6 ago. 2019.
BARROS, J. D. Considerações sobre o paradigma positivista em história. Revista Historiar, 
v. 4, n. 4, p. 1–20, 2011x. Disponível em: http://www.uvanet.br/historiar/index.php/1/
article/view/49/35. Acesso em: 6 ago. 2019.
11Verdade e objetividade na história
BARROS, J. D. Escola histórica, paradigma,matriz disciplinar: três conceitos para a teoria 
da história. Oficina do Historiador, v. 3, n. 2, p. 1–18, 2011x. Disponível em: revistasele-
tronicas.pucrs.br/ojs/index.php/oficinadohistoriador/article/view/8141/6447. Acesso 
em: 6 ago. 2019.
BARROS, J. D. Teoria da história. 4. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.
GILBERT, F. History: politics or culture? Reflections on Ranke and Burckhardt. Princeton: 
Princeton University Press, 1990.
Verdade e objetividade na história12
DICA DO PROFESSOR
É comum citarmos a contribuição de diversos historiadores quanto à sua compreensão acerca do 
fazer historiográfico, principalmente a partir do movimento conhecido como Escola dos 
Annales. No entanto, as correntes positivista e historicista estiveram marcadas por profissionais 
que deram os primeiros passos da História como disciplina a vir alcançar uma posição nas 
universidades europeias. Pesquisadores com uma sólida formação em diversas áreas dedicaram-
se ao trabalho de organizar o que hoje classificamos como grandes obras de referência, nas quais 
traduziram diversas fontes documentais dos períodos Antigo e Medieval para idiomas 
modernos.
Confira, na Dica do Professor, alguns dos principais historiadores positivistas e historicistas, a 
inserção da sua produção em cada uma dessas áreas e as suas contribuições mais importantes no 
campo historiográfico.
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EXERCÍCIOS
1) As questões relativas à objetividade e à subjetividade na História talvez sejam um dos 
pontos mais sensíveis da disciplina. Adam Sachff, em sua obra História e Verdade, 
discutiu sobre essas relações, dialogando com seus limites na historiografia. A 
respeito das discussões entre objetividade e subjetividade na historiografia moderna, 
assinale a alternativa correta:
A) A objetividade não deve ser almejada pelo pesquisador, pois a história é uma Ciência 
Humana.
B) O fato histórico em si é dotado de uma objetividade, pois existe independente da vontade 
do historiador.
O objeto de estudo do pesquisador representa um conhecimento objetivo, porém não isento C) 
de carga emocional.
D) A ideia do pesquisador neutro ainda faz parte das concepções historiográficas.
E) O historiador está suscetível às limitações de seu tempo, tais como seus laços 
socioculturais, mas estes nada influenciam no seu papel como pesquisador.
2) A Escola Metódica organizou-se a partir do Positivismo e representa a corrente 
historiográfica francesa, a partir da qual a História afirmou-se enquanto ciência. 
Como se trata da afirmação da História como ciência, os pressupostos 
historiográficos estão conciliados com os do Positivismo de Augusto Comte. Sobre 
tais pressupostos, marque a alternativa correta:
A) Compreendia a História enquanto suscetível às Leis Gerais, tal como as Ciências Naturais.
B) A posição do historiador é relativa e ele não é neutro frente ao conhecimento produzido.
C) Foi influenciado pelas ideias de progresso de Ranke e de Droysen.
D) Representam os mesmos do Historik.
E) Culminaram na organização da Escola Metódica Francesa, que primava pela erudição e 
pelas narrativas historiográficas.
“A partir da segunda metade do século XIX, a posição intermediária ocupada pela 
ciência histórica – entre a especulação filosófica e a explicação causal das ciências 
naturais – levou historiadores, filósofos, filólogos e sociólogos a investigarem e 
ressaltarem a especificidade metodológica das ciências humanas. (...) Para Droysen, a 
história lida costumeiramente com fenômenos que não se deixam entender de 
maneira determinista. A tarefa do historiador seria, portanto, reconstruir eventos e 
decifrar significados do passado que se tornaram pouco ou nada evidentes ao olhar 
3) 
contemporâneo.”
ASSIS, Arthur. A teoria da história de Jörn Rüsen: uma introdução. Goiânia: 
Editora UFG, 2010. p. 8.
As noções sobre a subjetividade do historiador talvez tenham sido um dos principais 
fatores que influenciaram historiadores contemporâneos e estiveram presentes desde 
a organização da História como disciplina. Sobre o Historicismo alemão, pode-se 
afirmar que:
A) Johan Gustav Droysen (1808-1884), Leopold von Ranke (1795-1886) e Émile Durkheim 
são seus principais representantes.
B) A subjetividade é vista como um problema que acometia a disciplina.
C) O Historicismo preocupou-se com a explicação da história a partir de modelos explicativos 
gerais.
D) Utilizou-se da hermenêutica no trato com as fontes textuais. 
E) Seus ideais serviram aos interesses da burguesia industrial e à noção de progresso.
4) "À primeira vista, a 'lei dos três estados' apresenta-se como uma teoria do 
conhecimento; considerando-a de mais perto, revela-se também como uma filosofia 
da história. Com efeito, ao passo que Hegel encara a marcha do Espírito segundo os 
três tempos da dialética, Comte imagina a progressão do espírito humano por etapa, 
segundo o ritmo igualmente ternário, mas diferente na sua essência dos três estados."
BOURDÉ, Guy; MARTIN, Hervé. As Escolas Históricas. Lisboa: Europa-
América,1990. p. 53.
A "lei dos três estados" refere-se à maneira que o Positivismo explicava as etapas 
pelas quais as sociedades humanas passavam no tempo. Tal concepção foi 
influenciada por qual outra corrente filosófica ou histórica?
A) Historicismo.
B) Iluminismo.
C) Romantismo.
D) Historik.
E) Ciências exatas.
5) As chamadas "Escolas Históricas" do século XIX, que marcaram a sua organização 
enquanto disciplina nas universidades europeias, foram influenciadas por 
movimentos filosóficos, estéticos e intelectuais. Assinale a alternativa correta quanto 
às influências sofridas pela historiografia do século XIX quanto à organização dos 
seus pressupostos teóricos:
A) O Positivismo consiste na corrente filosófica que privilegia a concepção da história como 
processo.
B) O Historicismo compreende a passagem do tempo como rumo ao progresso.
C) O Romantismo influenciou o movimento historicista no que tange à subjetividade do 
pesquisador.
D) O Iluminismo influenciou a corrente positivista francesa quanto ao entendimento das 
particularidades nas sociedades.
E) A Escola Metódica Francesa diferencia-se da corrente Positivista Francesa quanto aos seus 
pressupostos epistemológicos.
NA PRÁTICA
O Positivismo e o Historicismo apresentavam características muito antagônicas quanto às 
leituras que as Academias francesa e alemã faziam sobre a História e no tocante à organização 
da disciplina. Porém, ambas contribuíram – e muito – para as reflexões historiográficas dos 
historiadores contemporâneos, dentre elas, as relações entre objetividade e subjetividade.
Confira, Na Prática, como um historiador realiza sua pesquisa tendo que lidar com questões 
relativas à sua subjetividade.
SAIBA MAIS
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do 
professor:
Hermenêutica e historiografia: tradição hermenêutica e demarcação da ciência histórica
Artigo da Aedos, Revista do Corpo Discente do PPG-História da UFRGS, que aborda de 
maneira breve a história da hermenêutica, desde sua origem na modernidade (e sua apropriação 
dos clássicos) até o final do século XX, em suas contribuições para delimitação epistemológica 
da historiografia como uma ciência.
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
Historiografia na rede
Blog da historiadora Anita Lucchesi (doutoranda em História Digital e História Pública, pela 
Universidade de Luxemburgo, e mestre em História Comparada, pela Universidade Federal do 
Rio de Janeiro), no qual mantém vários artigos, postagens, sugestões bibliográficas sobre 
história digital, historiografia e teoria da história.
Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!
Metodologia científica e o problema da objetividade
Leia o Capítulo 2, da obra História - Introdução ao Ensino e à Prática, disponível na biblioteca 
do Grupo A, para saber mais sobre a trajetóriada história enquanto ciência, partindo da 
discussão dos autores historicistas.
O historiador enquanto pesquisador e desdobramento paradoxal
Realize a leitura do Capítulo 9, da obra Conteúdo e metodologia do ensino de história, para 
compreender melhor o papel do professor e do pesquisador da área de História e em como 
exerce influência sobre um aluno ao ensinar a disciplina.
A construção do tempo histórico
APRESENTAÇÃO
Marc Bloch, em sua célebre obra Apologia da História, definiu a disciplina como “o estudo do 
homem no tempo”. Neste contexto, a categoria tem um lugar central no entendimento do 
processo histórico e na compreensão de como se organiza a passagem do tempo. A sensação da 
passagem do tempo como algo externo às sociedades deve-se à necessidade que se tem de dar 
sentido à existência e às atividades cotidianas. Afinal, nos dia de hoje é possível pensar em um 
mundo sem calendário, relógio e horários que regulamentam o tempo de estudo e trabalho?
Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar o tempo histórico e suas descrições, ao 
mesmo tempo em que vai conhecer as diferentes concepções de tempo cronológico. Ainda, você 
vai analisar como é feita a contagem dos séculos no tempo, e de que forma isso influencia o 
estudo da disciplina.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Descrever o tempo histórico.•
Explicar o tempo cronológico.•
Analisar o tempo na contagem dos séculos.•
DESAFIO
A concepção de tempo braudeliana não apenas posicionou a História no debate de outras 
Ciências Sociais, como também abriu novas formas de encarar as relações entre passado, 
presente e futuro, uma vez que, num mesmo objeto de estudo do pesquisador, é possível atestar 
a existência de múltiplas temporalidades.
A Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis (GO) foi registrada e reconhecida pelo Instituto 
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural Imaterial 
Brasileiro em 15 de abril de 2010. Com duração de doze dias e ápice no Domingo do Divino, 
cinquenta dias após a Ressureição, a celebração mescla festejos religiosos e profanos e constitui-
se de novenas, folias, procissões, missas, roqueiras, mascarados, cavalhadas, pastorinhas, 
congadas e apresentações de grupos folclóricos.
Neste contexto, imagine que você vai passar algum tempo na cidade de Pirenópolis e se depara 
com a cena abaixo, com expressivas evidências ao passado medieval, sobretudo de origem 
portuguesa.
Dessa forma, seu Desafio é: 
1) Identificar, a partir das reminiscências medievais encontradas, as diferentes dimensões de 
tempo de Fernand Braudel. 
2) Compreender as relações entre o presente e o passado e em como esses dois elementos são 
intrínsecos.
INFOGRÁFICO
O tempo permeia as relações entre as atividades laborais, de lazer e de descanso desde a 
organização das primeiras sociedades humanas. Seja por meio da passagem do tempo com base 
nas transformações da natureza, por calendários ou por relógios, as dinâmicas entre tempo e 
trabalho não se restringem à Revolução Industrial e à adoção do sistema capitalista, embora elas 
tenham alterado profundamente a maneira como os sujeitos históricos passaram a trabalhar e em 
para o que seu tempo livre era destinado. 
A seguir, no Infográfico, observe as diferenças com relação à organização do tempo entre as 
sociedades capitalistas e pré-capitalistas.
CONTEÚDO DO LIVRO
A compreensão do tempo é um problema que engloba tanto o campo das ciências quanto o da 
Filosofia. Na Física, o tempo é uma grandeza fundamental vista de maneira plural: seria, dessa 
forma, o tempo um ente físico ou abstrato? Marcado por um aspecto linear ou cíclico? Estaria 
ele presente apenas na mente humana ou como parte do mundo físico? Seria ele contínuo ou 
descontínuo? Tais indagações ainda estão presentes em diversas obras científicas e filosóficas, 
sejam as que identificam o tempo como objeto de estudo ou as que apenas o tangenciam. 
No capítulo A construção do tempo histórico, da obra Teoria da História e Historiografia, leia 
sobre a construção do tempo histórico, sobre a definição do tempo cronológico e, também, sobre 
a análise da passagem do tempo a partir da contagem dos séculos. 
Boa leitura.
TEORIA DA 
HISTÓRIA E 
HISTORIOGRAFIA
Isabela de Albuquerque Rosado do Nascimento
A construção do 
tempo histórico
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Descrever o tempo histórico.
  Explicar o tempo cronológico.
  Analisar o tempo na contagem dos séculos.
Introdução
Abordar o tempo é algo complicado, porque ele assume diversas di-
mensões. É possível falar de tempo biológico, geológico, psicológico, 
histórico, dentre outros. Embora os historiadores sejam impelidos a lidar 
constantemente com a variável “tempo” em suas pesquisas, ela nem 
sempre é alvo de estudos metodológicos. 
O tempo costuma ser tratado mais como um objeto de estudo — a 
partir da delimitação de um recorte acerca de um determinado grupo 
social — do que como uma categoria de análise. A carência de reflexões 
na área faz com que os historiadores pouco discutam sobre como lidar 
com o indicador temporal na pesquisa histórica. Mas, afinal, como po-
demos definir o tempo?
Neste capítulo, você vai estudar as explicações em torno do tempo 
da história, a partir do confronto com outras áreas do conhecimento 
científico, e entenderá a diferença entre os conceitos de tempo histórico 
e tempo cronológico. Por fim, analisará também a passagem do tempo 
a partir da contagem dos séculos, parte importante na organização dos 
currículos escolares na área de história. 
Descrição do tempo histórico
Dissociar a atividade da história do componente “tempo” é, de certa forma, 
inutilizá-la. Sem essa variável, o historiador perde sua razão de ser e seu ofício 
passa a ser associado a outros, como dos geógrafos, sociólogos, antropólogos 
e críticos literários, por exemplo. Muito embora esses profi ssionais também 
utilizem a categoria de tempo em suas pesquisas, em nenhuma delas o tempo 
é tão importante quanto para o pesquisador da área de história. Nossa cons-
ciência sobre o tempo já está tão interiorizada que é difícil pensar em nosso 
cotidiano sem horários ou calendários.
Elias (1998), em seu livro Sobre o tempo, analisa como esse conceito foi 
construído socialmente, por meio de um processo caracterizado pelo autor 
como civilizador. É ao estabelecermos seus parâmetros organizacionais, a partir 
da adoção de um calendário, por exemplo, que somos inseridos num contexto 
social mais amplo, do qual passamos a também fazer parte. Nesse contexto, os 
calendários devem ser identificados não apenas no seu sentido cronológico e 
linear. De acordo com Elias (1998), é pela adoção de calendários que as sociedades 
humanas também expressam, como parte integrante de suas culturas, as práticas 
ritualísticas identificadas, garantindo sua repetição e destacando sua recorrência.
Sendo assim, o tempo histórico só pode ser estudado à luz de referências 
específicas, pois ele nada mais é do que uma construção histórica e social. 
Por outra perspectiva, o tema por ser identificado como objeto de estudo, 
enquadrando-se numa história cultural do tempo, cujo objetivo é seria estudar 
a rede de elaboração de seus significados nas experiências dos sujeitos sociais.
As leituras sobre a concepção do tempo histórico sofreram variações em 
cada uma das correntes historiográficas. A concepção de tempo presente em 
Isaac Newton (1643–1727) — marcada por seu caráter puro e absoluto, inde-
pendente dos objetos materiais e dos acontecimentos — dominou o cenário 
dos debates filosóficos por mais de dois séculos e influenciou a maneira como 
os historiadores enxergavam o desenrolar dos fatos.
Até meados do século XX, as heranças positivista e historicista viam o 
tempo a partir dos paradigmas newtonianos e kantianos, respectivamente. 
Deacordo com Immanuel Kant (1724–1804), o tempo é uma experiência 
intuitiva. É por meio dele que o ser humano pode identificar as transformações 
na natureza, bem como a mudança de estado dos objetos (SOUZA, 2008). A 
concepção idealista e subjetiva sobre o tempo do filósofo alemão coaduna 
com a ideia de que o tempo não pode ser interpretado fora de organizações 
A construção do tempo histórico2
culturalmente definidas. A Figura 1 apresenta um esboço de diferentes ca-
lendários adotados por tradições distintas.
Figura 1. Os calendários das principais religiões monoteístas.
À concepção de tempo histórico, a primeira geração da escola dos Annales, 
composta por Marc Bloch (1886–1944) e Lucien Febvre (1878–1956), avançou 
com importantes contribuições. Ao definir a história como “[...] uma ciência 
dos homens no tempo” (BLOCH, 2001, p. 67), Bloch (2001) assinala o tempo 
como o plasma que envolve e explica os fenômenos. Fora do tempo, portanto, 
não é possível explicar os fenômenos presentes nas sociedades, pois ele é o 
seu local de inteligibilidade.
Os tempos históricos estão divididos em presente, passado e futuro, inter-
ligados por uma relação simbiótica, na qual presente e passado influenciam-se 
mutuamente (BLOCH, 2001). No entanto, como pode o presente influenciar 
o passado? Deve-se levar em conta que a história, por ser uma ciência inter-
pretativa, descreve no presente como estão estruturadas suas visões acerca do 
3A construção do tempo histórico
passado, de um determinado tempo histórico. Em certa medida, toda história é 
contemporânea, já que o tempo histórico em que o historiador se insere ajuda 
a moldar o seu olhar sobre o passado.
Se a primeira geração dos Annales auxiliou no entendimento do tempo 
histórico, foi com a segunda geração que as concepções sobre o tempo foram 
aprimoradas. Braudel (2007) apresenta uma nova concepção sobre a dimensão 
temporal na história a partir de sua tripartição: curta, média e longa duração.
A curta duração refere-se ao “[...] tempo breve, ao indivíduo, ao evento” 
(BRAUDEL, 2007, p. 44), marcados por acontecimentos delimitados cronolo-
gicamente dentro de uma sociedade. Pode ser de dias, meses ou alguns anos, 
e estão, portanto, datados historicamente.
A média duração é o tempo conjuntural, das décadas. Para Braudel, a média 
duração funcionava como uma espécie de contraponto à curta duração — que 
pertencia ao campo da história factual. Insere-se neste campo a Nova História 
Econômica e Social, para a descrição das oscilações dos preços, variações de 
taxas de juros, progressões demográficas, entre outras.
Já a longa duração é de caráter estrutural e corresponde ao tempo dos 
séculos. O tempo da longa duração está presente nas mentalidades e na arqui-
tetura, por exemplo, e representa a expressão mais lenta da mudança — ou 
permanências — do tempo histórico.
Membro da terceira geração dos Annales, Philippe Ariès (1989) é provavel-
mente o maior expoente a discutir a noção do tempo histórico. De acordo com 
o historiador, a melhor percepção que se pode ter do tempo está na dicotomia 
entra presente e passado, “[...] ou, ainda, na distinção entre as várias estruturas 
entre si, consideradas sob a perspectiva de estruturas totais e fechadas que se 
sucedem” (BARROS, 2018, documento on-line).
Fora do movimento dos Annales, há outras importantes discussões sobre o tempo. 
Um autor pouco abordado no Brasil é Robert Berkhofer Junior (1931–2012). O historia-
dor americano sugere que o uso da temporalidade pelos historiadores implica duas 
dimensões básicas: o tempo físico (externo e natural) e o tempo subjetivo (dimensão 
interna e sujeita às questões da cultura).
A construção do tempo histórico4
Explicação de tempo cronológico
Segundo o dicionário Michaelis Online ([2019], documento on-line), a defi nição 
geral de tempo corresponde a “Período de momentos, de horas, de dias, de 
semanas, de meses, de anos etc. no qual os eventos se sucedem, dando-se a 
noção de presente, passado e futuro”.
Em linhas gerais, o tempo cronológico é aquele que pode ser contabili-
zado e agrupado em unidades que já conhecemos, pois são utilizadas em 
nossa sociedade – dias, semanas, meses, anos, séculos e milênios. Pode ser 
entendido, portanto, como o tempo do relógio e do calendário. Muito embora, 
como você já deve ter observado, a escolha de um parâmetro temporal esteja 
relacionada à cultura e ao processo histórico, o tempo cronológico é dotado 
de uma materialidade e possui regularidade, previsibilidade e estabilidade, 
utilizando medidas exatas para aferir o tempo com rigor e precisão. 
Elias (1998, p. 4) delimitou os relógios como “[...] processos físicos que a 
sociedade padronizou, decompondo-os em sequências-modelo de recorrência 
regular, como as horas ou os minutos”. Você já leu no subtópico anterior que a 
divisão e a organização do tempo fazem parte de um processo civilizador, no 
Na visão de Berkhofer, a grande falha do historiador está em utilizar poucas variedades 
analíticas possíveis na leitura do tempo físico ou mensurável, que estaria normalmente 
vinculado ao seu caráter meramente contextual e explicativo, numa espécie de cenário 
no qual o objeto maior está localizado (CARDOSO, 1988. p. 35–36). O Quadro 1 resume 
essa concepção.
Fonte: Adaptado de Cardoso (1988).
Tempo Físico Tempo Subjetivo
Da natureza Da cultura 
Externo Interno
Linear, irreversível, matemático Heterogêneo, descontínuo
Quadro 1. Proposta das dimensões básicas do uso da temporalidade pelos histo-
riadores segundo Robert Berkhofer Jr.
5A construção do tempo histórico
qual medidas foram arbitrária e culturalmente demarcadas, com o propósito 
identificá-lo. No entanto, é possível estudar o tempo de forma objetiva.
Em nossa percepção humana, o tempo pode ser localizado em três etapas 
principais: o instante, a anterioridade e a posterioridade. O instante corres-
ponde ao momento de enunciação e fala do sujeito e, por ser dinâmico, passa 
tão rapidamente que se torna impossível manter-se nele. É a partir do instante 
que estão definidos os parâmetros de anterioridade — aquilo que aconteceu 
antes do instante — e de posterioridade — situado após o instante enquanto 
referencial. 
Aristóteles (384 a.C.–322 a.C.), logo no início do Capítulo 10 do Livro IV de 
Física, começa por perguntar se o tempo existe e, se sim, qual a sua natureza 
(ROARK, 2011). Ao abordar a temática, o filósofo considera como certo que 
ele é composto de um passado que já não é e por um futuro que ainda não é. 
O presente seria a divisão entre passado e futuro, e, apesar de não fazer parte 
do tempo, corresponderia ao que chamamos de realidade. Dando sequência à 
opinião de Platão, que o ligava ao movimento dos astros, ao menos uma coisa 
parece certa: ele está vinculado ao movimento (REIS, 1996).
Para um estudante de história de uma instituição de ensino superior, pode 
parecer despropositado dialogar com a física, mas os campos científicos estão 
mais interligados do que se imagina. O conhecimento — apesar de divididos 
em áreas de saber específicas — não pode ser compartimentalizado de forma 
estanque, pois a realidade em que vivemos não é tão bem delimitada quanto 
imaginamos. Sendo assim, ao tratar do tema do tempo cronológico, o diálogo 
com outras ciências vem a acrescentar ao entendimento do historiador, apri-
morando, assim, seu ofício.
Desde Aristóteles, passando por Isaac Newton (1643–1727) e chegando à 
visão da relatividade postulada por Albert Einstein (1879–1955), a forma como 
o tempo cronológico era entendido foi alvo de estudos. Na tradição ocidental, 
filósofos e cientistas esforçaram-se por produzir reflexões, fórmulas e postu-
lados sobre sua natureza e materialidade. Apesar de tradições diversas — e 
muitas vezes divergentes — no campo de estudos da física, essa discussão 
tem avançado bastante e abalado as concepções humanas do como encarar 
tempo, chegando à Teoria da Relatividade de Einstein e às novas propostas 
estabelecidas pelo britânico Stephen Hawking(2015). 
A construção do tempo histórico6
O físico inglês Stephen Hawking (1942–2018), autor de Uma breve história do tempo 
e O universo numa casca de noz, dialoga com a ideia do físico alemão erradicado nos 
Estados Unidos Albert Einstein (1879–1955). Em 1905, Einstein descobriu que o tempo 
não corre da mesma maneira em todos os lugares e, se um relógio está parado, seus 
ponteiros avançam mais rápido em comparação a um relógio em movimento.
A partir de instrumentos que possibilitam observar elementos muito pequenos 
(na casa de 10–33 milímetros), é exequível identificar importantes fenômenos para a 
compreensão de objetos ainda inexplicáveis, tais quais os buracos negros.
Hawking ainda observa que a nossa noção temporal de uma seta que aponta do 
passado para o futuro encontra correspondência na noção física de passagem do tempo 
pelo critério da entropia. A segunda lei da termodinâmica afirma que a desordem do 
universo, sua entropia, sempre aumenta do passado para o futuro, e nunca o inverso. 
Assim, o físico sustenta que há não apenas uma seta do tempo termodinâmica como 
também uma seta do tempo psicológica, pela qual podemos lembrar do passado, 
mas nunca do futuro (HAWKING, 2015).
 A filósofa húngara Agnes Heller (1981, p. 53) dedicou um subtópico de sua 
obra Uma teoria da história apenas para discutir as relações entre passado, 
presente e futuro:
Toda recordação do que passou é uma interpretação: reconstruímos nosso 
passado. As experiências que tivemos, nossos interesses, sinceridade e in-
sinceridade, tudo isto modifica aquilo que reconstruímos, o modo pelo qual 
o fazemos e o tipo de significação que atribuímos ao passado reconstruído. 
Em síntese, mudamos nosso passado através da interpretação seletiva.
A partir da valorização da experiência, a qual Heller (1981) considera 
importante e estruturante com relação à construção do passado, a historiadora 
alemã defende que o presente é fundamental neste processo, pois é nele que 
atribuímos sentido ao que vivemos anteriormente. Isso posto, o passado passa 
no presente por um processo de ressignificação, onde ele pode ser, inclusive, 
alterado e modificado. 
7A construção do tempo histórico
Com relação à história, a disciplina mais adequada ao diálogo quanto a 
postulados teóricos a respeito da noção de tempo é a filosofia. Em função 
das dificuldades no tocante à definição do conceito na sua totalidade e de 
forma absoluta, filósofos reconhecem que a maneira mais fácil de se apro-
ximar do conceito é de forma enviesada, a partir de noções correlatas como 
temporalidade e duração, processo e evento e continuidade e ruptura. 
(BARROS, 2014). Na Figura 2, você pode conferir cada um desses conceitos 
e sua dimensão. 
Figura 2. Conceitos relacionados ao tempo, segundo Barros.
Fonte: Adaptada de Barros (2014).
No esquema proposto por Barros (2014), é possível verificar conceitos 
regularmente utilizados em obras historiográficas. Mediante a identificação 
e definição de cada um deles, é possível tomar maior consciência de como o 
tempo é dimensionado nas pesquisas da área de história. 
A noção de temporalidade refere-se à dimensão humana do tempo, através 
da qual o tempo adquire sentido. O conceito pode ser identificado quando 
os historiadores começaram a utilizá-lo na acepção de seus recortes (Anti-
guidade, Medievalidade, Modernidade e Contemporaneidade). O processo 
A construção do tempo histórico8
de identificação de uma temporalidade corresponde, portanto, a percebê-la 
simbolicamente, a fim de operacionalizá-la (BARROS, 2014).
Já a noção de duração refere-se ao ritmo, ao modo e à velocidade como 
ocorre uma transformação no tempo, bem como aos elementos que se manti-
veram até serem suplantados por algo novo. A percepção da duração é distinta, 
pois há um “tempo interno” (sentido e percebido subjetivamente). Em alguns 
casos, a mudança ocorre num ritmo mais curto, enquanto noutras pode ser 
percebida variando mais lentamente (BARROS, 2014).
Os conceitos de processo e evento também são caros à ciência histórica. 
Evento e processo são aparentemente complementares; enquanto o primeiro 
remete-se ao acontecimento, o outro alude a uma sucessão de fatos com uma 
lógica interna que fazem parte de um todo, em função do seu desenrolar 
(BARROS, 2014).
Por último, temos os conceitos de ruptura e continuidade. Se por 
um lado uma das principais marcas da disciplina é a mudança, por outro 
a permanência de elementos também se faz presente. No debate sobre a 
duração, é possível observar que a duração braudeliana, por exemplo, é 
marcada por sinais de ruptura (curta duração), mas também pela conti-
nuidade (longa duração). 
A passagem do tempo a partir da contagem
dos séculos
O tempo cronológico também é objeto de estudo do historiador. O entendimento 
de como as sociedades humanas compreendiam a passagem do tempo e de 
que forma organizavam meios e métodos para mensurá-lo coopera para um 
constante exercício de alteridade de como a nossa sociedade enxerga — e lida 
com — seu próprio tempo histórico. 
Como a história tem como alvo não apenas as sociedades longínquas no 
tempo, mas também aquelas que dialogam com o próprio tempo histórico do 
historiador, a modalidade denominada de História do Tempo Presente tem 
estado cada vez mais em evidência, sobretudo desde finais dos anos 1980.
Das relações e discussões entre o tempo cronológico e o tempo histórico, 
a disciplina organizou os seus próprios parâmetros com o objetivo de medir 
e estudar as diferentes temporalidades. Para fins didáticos e organizacionais, 
portanto, os currículos da disciplina precisam ser estruturados em extensos 
períodos — que servem como espécie de norteadores — vinculados, porém, 
a temporalidades específicas. Portanto, o entendimento quanto ao estudo e, 
9A construção do tempo histórico
consequentemente, à organização da passagem do tempo não está pautado 
em elementos universais, mas a partir da eleição de marcos de temporais.
Apesar de não ser alvo de estudos e reflexões quanto à periodização da 
disciplina, a passagem dos séculos seria uma maneira dos historiadores me-
lhor aferirem o desenrolar mais ou menos total dos fatos, além de uma visão 
de conjunto dificilmente possível para quem se encontra inserido na área de 
acontecimentos (FONSECA, 1967). Nos debates acadêmicos atuais, os filó-
sofos e pesquisadores estão mais interessados em desconstruir e relativizar a 
maneira como a periodização da história é concebida do que em explicar como 
isso foi feito. Entretanto, tal divisão é a maneira principal como os currículos 
da disciplina estão orientados e, mesmo reconhecendo que essas formas de 
organização não são absolutas, é importante entender como isso é estabelecido.
A partir da organização do tempo mediante a contagem dos séculos, surgem 
algumas indagações: como dividir a história? De que maneira organizar o 
tempo e quais critérios utilizar para estruturação da história? É importante 
salientar que a prática de estabelecer recortes remonta a tempos remotos e 
que cada sociedade desenvolve seu próprio modo peculiar de divisão histórica 
e temporal. Tomemos como base, por exemplo, o caso do nosso país, para o 
qual há quatro grandes eixos principais: período pré-cabralino (anterior a 
1500), período colonial (1500–1822), período imperial (1822–1889) e período 
republicano (1889–). Repare que neste caso específico estamos referenciando 
um único país e que para cada eixo histórico foram estabelecidos marcos 
específicos, referentes a rupturas políticas. No entanto, como funcionaria essa 
organização do ponto de vista global/universal? Seria essa missão possível? 
Cabe adiantar que não existem marcos que possam ser identificados como 
naturais ou a priori e que todos eles foram organizados posteriormente.
Dessas disputas quanto à divisão da história em períodos, épocas ou idades, 
nasce a periodização da história. Nesse contexto, “realistas” e “convencio-
nalistas” foram os protagonistas no tocante à divisão da disciplina.Sobre as 
duas correntes, Cardoso (1988, p. 32) afirma que:
A primeira afirma que a periodização provém necessariamente da própria 
natureza do objeto de pesquisa: os períodos, quando estabelecidos de maneira 
adequada, seriam, portanto, um reflexo fiel da realidade história. A segunda 
acredita, pelo contrário, que a história é um devir ou movimento constante, 
ininterrupto, e que qualquer periodização é arbitrária — podendo justificar-se 
unicamente por razões didáticas e pragmáticas.
Pela perspectiva dos realistas, há uma periodização correta para cada 
delimitação de um objeto de pesquisa, cabendo aos pesquisadores encaixá-la 
A construção do tempo histórico10
adequadamente. Já os convencionalistas, partindo da ideia de que toda forma 
de periodização é imperfeita e de pouca base científica, sustentam que a 
sociedade é marcada por estruturas em diferentes níveis e que essa forma de 
organização serve puramente para auxiliar em aspectos didáticos e formais. 
Desse modo, os períodos históricos surgem como formas de evidenciarmos 
“[...] transformações de técnicas, produção, estilos de vida, mentalidade e ideias 
de comunidade nacionais ou mesmo universal” (FONSECA, 1967, documento 
on-line). É importante ressaltar que toda e qualquer forma de divisão é baseada 
em escolhas, em critérios específicos e histórico-culturais. 
As diferenças com relação à organização da disciplina entre as escolas de 
tradição germânica, francesa e anglo-saxônica são expressivas e estabelecidas a 
partir de seus próprios marcos historiográficos quanto ao estudo das sociedades 
humanas. Malgrado os debates em torno dessa divisão e das divergências com 
relação à sua adoção, os principais eixos temporais vinculados aos estudos 
de história no Ocidente estão vinculados ainda a quatro grandes períodos: 
Antigo (c. 4.000 a.C.– 476 d.C.), Medieval (476–1453), Moderno (1453–1789) e 
Contemporâneo (1789–). Cada um desses marcos estabelecidos corresponde a 
eventos ou episódios específicos que, na concepção dos historiadores franceses 
do século XIX, teriam sido responsáveis por identificar o fim de um período e 
o advento de novos tempos. A Antiguidade corresponderia do surgimento da 
escrita até a queda do Império Romano do Ocidente; o Medievo se estenderia 
daí até o episódio da conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos; a 
Modernidade encerrar-se-ia com a Revolução Francesa e seus impactos sobre 
os rumos na Europa e nas Américas, dando início assim à chamada Idade 
Contemporânea.
Mesmo com da nossa tradição americana no estudo das sociedades pré-
-cabralinas e pré-colombianas e com a inserção da disciplina de História da 
África como obrigatória nos currículos escolares desde 2008, esse é o modelo 
adotado ainda nas principais universidades brasileiras, fruto da influência eu-
rocêntrica — principalmente francófona — em nossa tradição historiográfica.
Dentro dessa lógica, como ficam as sociedades pré-colombianas e as civili-
zações do Extremo Oriente como China e Índia? A tentativa de livros didáticos 
de aproximar os povos da América Pré-Colombiana com as sociedades do 
Antigo Oriente Próximo, estabelecendo comparáveis no tocante à invenção 
da escrita representam, por exemplo, uma forma de encaixá-las na lógica 
segundo a qual a História Europeia Ocidental foi organizada (VAINFAS et 
al., 2016). Nesse trâmite, o conceito de temporalidade é o principal norteador 
dessa divisão, pois é ele quem atesta, a partir da passagem do tempo e tomando 
como base a tradição europeia, como esses recortes serão estabelecidos.
11A construção do tempo histórico
No caso específico da Educação Básica, seja ela no Ensino Fundamental 
ou Médio, a história é abordada como a disciplina que estuda as mudanças no 
tempo. Com relação ao uso da temporalidade, a proposta da Base Nacional 
Comum Curricular (BNCC) apresenta que a “[...] relação passado/presente não 
se processa de forma automática, pois exige o conhecimento de referências 
teóricas capazes de trazer inteligibilidade aos objetos históricos selecionados” 
(BRASIL, 2018, documento on-line). Partindo dessa premissa, fica claro que 
a proposta da disciplina como componente curricular é suscitar discussões 
sobre o passado, seja ele longínquo ou mais próximo da temporalidade atual, 
a partir das suas interpolações com o presente. 
O agrupamento dos conteúdos por períodos (Antigo, Medieval, Moderno 
e Contemporâneo) ainda é a principal ferramenta para a compreensão da 
passagem do tempo nas sociedades humanas, identificadas por determinadas 
características que as compunham. Mesmo com a proposta da BNCC em 
aproximar diferentes sociedades no tempo — afinal, qual é a semelhança 
entre a sociedade brasileira do século XXI e as sociedades da Mesopotâmia 
em 3.000 a.C., por exemplo — a dimensão temporal não pode ser ignorada na 
disciplina, pois, caso contrário, ela perderia seu principal norteador. 
Mesmo adotando a divisão histórica em temporalidades específicas, é 
sempre bom lembrar que os grupos humanos foram constantemente suscetí-
veis a trocas culturais, sendo praticamente impossível pensar em sociedades 
100% fechadas e avessas a qualquer forma de contato. Mesmo com a divisão 
em períodos extensos marcados por séculos, a história compreende que essa 
divisão não é pura e absoluta, mas passível de considerações e críticas diversas.
O professor Paulo Duarte Silva, do Instituto de História da UFRJ, pesquisou em sua tese 
de doutorado, defendida pelo PPGHC–UFRJ, o processo de formação do calendário 
cristão nos séculos V e VI, em compasso com o fortalecimento da autoridade cívica 
episcopal no Ocidente. O autor destaca especialmente em sua pesquisa as festas 
cristãs relativas aos ciclos temporais do Natal e da Páscoa, comparando a pregação de 
Leão de Roma (440–461) e de Cesário de Arles (502–542). Seu trabalho é um exemplo 
do estudo do tempo como o próprio objeto de análise. Caso queira acessar sua tese 
completa, ela está disponível no link a seguir.
https://qrgo.page.link/2qMVa
A construção do tempo histórico12
ARIÈS, P. O tempo da história. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1989.
BARROS, J. D. A historiografia e os conceitos relacionados ao tempo. Dimensões, v. 32, 
p. 240–266, 2014. Disponível em: http://www.periodicos.ufes.br/dimensoes/article/
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BARROS, J. D. Os historiadores e o tempo: a contribuição dos Annales. Cadernos de 
História, v. 19, n. 30, p. 182–210, 2018. Disponível em: http://periodicos.pucminas.br/
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CARDOSO, C. F. O tempo das ciências naturais e o tempo da História. In: CARDOSO, C. F. 
Ensaios racionalistas: filosofia, ciências naturais e história. Rio de Janeiro: Campus, 1988.
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FONSECA, C. F. A. Continuidade, mudança e tempo: o problema da periodização da 
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VAINFAS, R. et al. História: ensino médio. Pinheiros: Editora Saraiva, 2016. v. 1.
13A construção do tempo histórico
Leitura recomendada
CARVALHO, E. R. A concepção holística e processual do tempo. Lua Nova, n. 103, p. 
203–231, 2018. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ln/n103/1807-0175-ln-103-203.
pdf. Acesso em: 8 ago. 2019.
A construção do tempo histórico14
DICA DO PROFESSOR
Desde os gregos, pensadores buscaram compreender a essência do tempo, bem como sua 
organização, sua passagem e os elementos que compunham sua relação com o ser humano. 
Apesar de a profissão de historiador não existir na Antiguidade e no Medievo, intelectuais da 
época dedicaram-se a compreender a constituição do tempo. Trabalhando com influências 
diversas - desde o estudo do movimento dos astros até referências bíblicas - o entendimento que 
o ser humano tem sobre sentido do tempo como um ente diz muito sobre o período histórico em 
que ele se insere.
A seguir, na Dica do Professor, conheça alguns pensadores de origem grega e do período 
medieval que proporcionaram contribuições importantes sobre a discussão do tempo.
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EXERCÍCIOS
1) As discussões sobre o tempo histórico propostas por Fernand Braudel, membro da 
segunda geração da Escola dos Annales, promoveram transformações na forma como 
os historiadores entendiam a dimensão de diferentes tempos e sua relação com o 
ritmo vivenciado em diferentes temporalidades. A influência dessa concepção pode 
ser entendida na seguinte afirmativa:
A) As dimensões do ritmo podem ser identificadas na curta e na longa duração, as quais ditam 
os principais aspectos das mudanças e das permanências.
B) A existência de três percepções sobre a passagem do tempo numa mesma temporalidade a 
partir da curta, média e longa duração.
C) A identificação de três tempos: curta, média e longa duração, porém em temporalidades 
distintas.
D) As durações remetem aos ritmos identificados, sendo que estes não são influenciados por 
questões socioculturais e históricas.
E) A existência de diferentes tempos é apenas a partir da perspectiva do historiador, pois o 
sujeito histórico jamais consegue identificar ritmos distintos. 
2) O tempo não é apenas um dado físico e natural. As distintas leituras sobre a 
concepção de tempo e em como elas sofreram variações atestam a diversidade na 
maneira como o tempo foi visto ao longo da história. Desde autores gregos até a 
contemporaneidade, o tempo foi objeto de estudo de filósofos, historiadores e físicos. 
Sobre a dimensão do tempo cronológico, marque a alternativa correta:
A) Ocorre da mesma forma em todos os lugares.
B) Pode ser dividido dois blocos principais: passado e presente.
C) É dotado de materialidade e não está vinculado a formas culturais.
D) Os conceitos de temporalidade, duração e processo, apesar do uso no vocábulo 
historiográfico, não se aplicam a dimensão do tempo cronológico.
E) A dificuldade em compreender o tempo de forma objetiva impeliu o uso de acepções que 
tangenciaram seu vocábulo.
3) O historiador francês Marc Bloch, integrante do movimento da Escola dos Annales, 
foi responsável por importantes contribuições no campo da Teoria da História e na 
forma como os historiadores compreendem o tempo. Dentre os escritos de Bloch 
sobre o tempo histórico, podemos destacar:
A) Os tempos passado, presente e futuro estão interligados e influenciam-se mutuamente.
B) A história é dotada de tempos múltiplos numa mesma temporalidade.
C) Diferença entre o tempo físico (natural) e o subjetivo (dimensão cultural).
D) Pode ser dividido em curta, média e longa duração.
E) Está dividido em quatro grandes temporalidades: Antiguidade, Medievo, Modernidade e 
Contemporaneidade.
4) "Diz-se algumas vezes: "A história é a ciência do passado". É [no meu modo de ver] 
falar errado. 
[Pois, em primeiro lugar,] a própria idéia de que o passado, enquanto tal, possa ser 
objeto de ciência é absurda. Como, sem uma decantação prévia, poderíamos fazer, de 
fenômenos que não têm outra característica comum a não ser não terem sido 
contemporâneos, matéria de conhecimento racional? Será possível imaginar, em 
contrapartida, uma ciência total do Universo, em seu estado presente?"(BLOCH, 
2001)
Em sua obra Apologia da História ou Ofício do Historiador, Marc Bloch faz uma 
série de reflexões a respeito do fazer historiográfico, dentre elas a discussão do objeto 
de estudo da disciplina e sua relação com o tempo. Sobre a Ciência Histórica e o 
tempo, pode-se afirmar que:
A) A História destina-se apenas a estudar o passado e, assim, o presente não faz parte do seu 
escopo de análise.
B) O historiador pode estudar o tempo apenas como categoria analítica.
C) A disciplina organiza seus currículos a partir das relações entre tempo histórico e tempo 
cronológico.
D) A corrente realista na história identifica a periodização como arbitrária.
E) A corrente convencionalista defende a periodização e provém de um reflexo fiel da 
realidade histórica.
5) "Outro exemplo: o papa Gregório XIII resolveu proceder a uma revisão do 
calendário juliano, porque, no correr dos séculos, o equinócio da primavera, do qual, 
no ano de 325, o concílio de Niceia fizera depender a festa de Páscoa, havia-se 
deslocado paulatinamente de 21 para 11 de março. Uma bula papal suprimiu dez dias 
do ano de 1552, decidindo que o dia seguinte a 4 de outubro seria 15 de outubro, e 
não 5. Essa reforma gregoriana da reforma do antigo calendário romano feita por 
Julio César constituiu, até hoje, a última tentativa de estabelecer um sistema de 
calendário em que o ano social não se desviasse demais, no correr dos séculos, do 
“ano natural”, isto é, do tempo que o Sol — considerado em sua relação com homens 
espectadores e centros de referência — leva para retornar a um ponto do céu 
escolhido por eles como ponto de partida." (ELIAS,1998)
Sobre as relações entre tempo histórico e tempo cronológico, é possível afirmar que:
A) É inerente à atividade do historiador, mas é possível pesquisar em História sem utilizar tal 
categoria.
B) Os calendários e os relógios, organizados de forma objetiva, não tem relação com a 
cultura.
C) As concepções de Kant sobre o tempo influenciaram autores positivistas.
D) Fora do tempo, não é possível explicar os fenômenos sociais.
E) A compreensão do tempo histórico passa pela relação entre presente e futuro.
NA PRÁTICA
Agora, vejamos como o historiador lida com o seu próprio tempo histórico na produção do 
conhecimento. Afinal, a História deve se dedicar apenas ao passado ou ela também pode estudar 
o presente? 
Como você já deve ter observado, ao investigar as sociedades humanas, a variável "tempo" 
precisa ser destacada, ou seja, deve ser considerado o recorte estabelecido pelo historiador na 
circunscrição do seu objeto de estudo, como faz o historiador que trabalha com eventos muito 
próximos ou, até mesmo, ainda em curso.
A seguir, no Na Prática, veja mais sobre essa modalidade denominada pela historiografia como 
História do Tempo Presente.
SAIBA MAIS
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do 
professor:
O museu como local de aprendizagem e o tempo histórico
Leia o artigo de Ricardo de Aguiar Pacheco, "O Museu como lugar de aprendizagem: o tempo 
histórico", apresentado no XXVIII Simpósio Nacional de História em Florianópolis (SC). Nele, 
o autor apresenta como os museusnos dias de hoje representam mais do que a ilustração de 
eventos e sua cronologia, proporcionando ao visitante a experiência com o tempo histórico.
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Tempos na história, tempos da história
Veja a entrevista com o historiador João Paulo Pimenta, professor da Faculdade de Filosofia, 
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, na qual ele comenta sobre o tempo 
histórico e conceitos históricos, destacando a importância de se dialogar teoria e empiria na 
pesquisa em História.
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O conceito de modernidade
APRESENTAÇÃO
O conceito de modernidade pode ser analisado apartir da pretensão de rejeitar a tradição, 
submetendo tudo ao exame crítico da razão e à experimentação criativa.Por isso, há uma 
tendência para um dinamismo e uma mudança incessantes, para o questionamento das próprias 
conquistas, para abusca contínua de inovações. Nesse sentido, ao estudar o conceito de 
Modernidade, outros conceitos fundamentais em nossos estudos sofrem transformações 
significativas no contexto da modernidade, como, por exemplo, a nova representação de 
temporalidade, a história universal, a crítica da razão e do sujeito na ideia do progresso.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você irá conhecer a ideia de modernidade e a busca pela 
racionalização, relacionará o sentido histórico à nova representação da temporalidade. Além 
disso, comparará o conceito de história universal à crítica da razão e do sujeito.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Desenvolver a ideia da modernidade e sua busca pela racionalização.•
Relacionar o sentido histórico à nova representação da temporalidade.•
Comparar o conceito de história universal à crítica da razão e do sujeito.•
DESAFIO
A modernidade é um período de tempo que se caracteriza pela realidade social, cultural e 
econômica vigente no mundo. Ao tratar da era moderna, pré-moderna ou ainda pós-moderna, 
faz-se referência à ordem política, à organização de nações, à forma econômica que essas 
adotaram e inúmeras outras características. O termo modernidade já é tão naturalizado 
linguisticamente que passou a ter o mesmo contexto de contemporâneo, o que coexiste em um 
mesmo período de tempo. Mas será que esse pensamento corresponde à definição de 
modernidade?
Você é professor do Ensino Médio da disciplina de História. Em uma de suas aulas sobre as 
características da modernidade e da pós-modernidade, a turma inicia alguns questionamentos, e 
você percebe que eles ainda têm muitas dúvidas em relação ao tema. É necessário, por isso, 
esclarecer-lhes as características de cada qual.
Diante dos questionamentos realizados em aula, ajude seus alunos questionando-se:
a) Como eles podem identificar se a modernidade se estende até os dias atuais?
b) Como eles podem encontrar características da modernidade nos tempos atuais?
INFOGRÁFICO
Modernidade refere-se a estilo, costume de vida e/ou organização social que emergiram na 
Europa e que ulteriormente se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência. A época 
moderna surge com a descoberta do Novo Mundo, o Renascimento e a Reforma (século XV e 
XVI), desenvolve-se com as Ciências Naturais no século XVII, atinge seu clímax político nas 
revoluções do século XVIII, desenrola suas implicações gerais após a Revolução Industrial do 
século XIX e termina no limiar do século XX.
O Infográfico apresentará o conceito de modernidade sob o enfoque de duas perspectivas.
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CONTEÚDO DO LIVRO
O conceito de modernização refere-se a um conjunto de processos cumulativos e de reforço 
mútuo: formação de capital e mobilização de recursos; desenvolvimento das forças produtivas e 
aumento da produtividade do trabalho; estabelecimento do poder político centralizado e 
formação de identidades nacionais; expansão dos direitos de participação política, das formas 
urbanas de vida e da formação escolar formal; secularização de valores e normas.
Sem dúvida, a modernidade trouxe muitas transformações atinentes à humanidade, que 
impactam até hoje na nossa realidade, no nosso modo de viver, relacionar-se e atuar sobre o 
mundo, sobretudo no aspecto relacionado à temporalidade, transformada sob a perspectiva da 
Revolução Industrial, por exemplo. Dessa maneira, a história universal passou a ser analisada 
sob a ótica da crítica da razão, contextualizada por grandes teóricos como Kant e Hegel e suas 
complexidades, bem como sob a generalização da história e a transformação das ideias de 
providências para a ideia da razão pura, a qual conduziu ao processo e à ideia de progresso da 
humanidade.
No capítuloO conceito de modernidade, da obra Teoria da História e Historiografia, você 
compreenderá o contexto, a ideia de modernidade e a busca pela racionalização, relacionada ao 
sentido histórico à nova representação da temporalidade, comparada ao conceito de história 
universal à crítica da razão e do sujeito (ideia de progresso), sendo essas grandes teorias que 
constituíram os tempos modernos.
Boa leitura.
TEORIA DA 
HISTÓRIA E 
HISTORIOGRAFIA 
Simone de Oliveira
O conceito de modernidade
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Desenvolver a ideia da modernidade e sua busca pela racionalização.
  Relacionar o sentido histórico à nova representação da temporalidade.
  Comparar o conceito de história universal à crítica da razão e do sujeito.
Introdução
É interessante para a sociedade atual compreender o surgimento das 
ideias de modernidade, assim como seus fundamentos, entre eles a 
racionalização. A modernidade acabou por trazer grandes conquistas 
para a humanidade, marcando a própria evolução do ser humano de 
um contexto e sistema teocrático para uma organização de mundo 
racional. Ela acabou por favorecer a construção e o fortalecimento de 
um mundo mais democrático, em que os direitos humanos devem ser 
respeitados. Além disso, o grande avanço técnico-científico garantiu maior 
bem-estar à sociedade e uma reorganização com base na racionalização 
dos processos sociais, políticos, econômicos, entre outros.
Neste capítulo, você estudará o contexto da ideia de modernidade e 
sua busca pela racionalização, relacionada ao sentido histórico de nova 
representação da temporalidade, comparada ao conceito de história 
universal à crítica da razão e do sujeito (ideia de progresso), sendo essas 
grandes teorias que constituíram os tempos modernos.
A ideia de modernidade e sua busca
pela racionalização
Para iniciarmos nossas refl exões sobre ideia de modernidade e sua busca pela 
racionalização, precisamos compreender o conceito em si. Nesse sentido, é 
relevante lembrar que a conceitualização de modernidade pode ser analisada 
a partir de diferentes perspectivas, resultando em noções distintas se, por 
exemplo, partirmos dos conhecimentos da sociologia ou da história em nossa 
análise. Assim, quando falamos em modernidade sob o prisma da história, 
algumas pessoas podem lembrar da divisão clássica e tradicional dos períodos 
históricos: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. 
Já na perspectiva sociológica, a modernidade não se defi ne como um período, 
mas se estende até os dias atuais, porque a sua conceitualização revela-se na 
complexidade do desmanche dos laços da tradição e da religião. Para Max 
Webber (1982), sociólogo alemão, a modernidade tem seu início marcado em 
1517 pela Reforma Protestante, que rompe com as tradições religiosas exclusivas 
da Igreja Católica Apostólica Romana, constituídas na Idade Média com base 
no poder religioso, político, social e econômico. 
Giddens (1991) corrobora Webber quanto ao conceito e ao nascimento da 
modernidade, apresentando como estilo um costume de vida ou organização 
social que emergiu na Europa e que ulteriormente setornou mais ou menos 
mundial em sua influência. Assim, a época moderna surge com a descoberta do 
Novo Mundo, o Renascimento e a Reforma (séculos XV e XVI), desenvolve-se 
com as ciências naturais no século XVII, atinge seu clímax político nas revo-
luções do século XVIII, desenrola suas implicações gerais após a Revolução 
Industrial do século XIX e termina no limiar do século XX.
Ainda podemos analisar a conceitualização dada por Habermas (2002), que 
analisa o conceito de modernização como um conjunto de processos cumu-
lativos e de reforço mútuo: a formação de capital e mobilização de recursos; 
o desenvolvimento das forças produtivas e o aumento da produtividade do
trabalho; o estabelecimento do poder político centralizado e a formação de
identidades nacionais; a expansão dos direitos de participação política, das
formas urbanas de vida e da formação escolar formal; e a secularização de
valores e normas.
Numa primeira e rápida leitura, o conceito de Habermas pode nos parecer 
um pouco distante das demais definições apresentadas. Contudo, o que autor 
fala sobre a formação de capital e mobilização de recursos e sobre o desen-
volvimento das forças produtivas e aumento da produtividade do trabalho 
refere-se claramente ao rompimento com o antigo sistema medieval, pautado 
O conceito de modernidade2
na religião e suas doutrinas, e ao advento da Reforma Protestante, que valoriza 
as profissões, pois a salvação divina era sinalizada pela ofício de cada um, 
sendo que o dinheiro adquirido deveria ser investido para gerar mais dinheiro, 
conforme a teoria calvinista.
A Reforma Protestante foi um movimento reformista cristão culminado 
no início do século XVI por Martinho Lutero (1483–1546), na Alemanha. 
A Reforma Protestante se espalhou pela região e teve rápida aceitação em 
vários países. Enquanto na Alemanha a reforma era liderada por Lutero, na 
França e na Suíça a Reforma teve como líderes João Calvino (1509–1564) 
e Ulrico Zuínglio (1484–1531). Na França e nos Países Baixos, os adeptos 
foram chamados de huguenotes, na Inglaterra, de puritanos, e na Escócia, de 
presbiterianos. A Figura 1 exibe o Mur des Réformateurs, em Genebra, que 
traz a imagem de Guillaume Farel, João Calvino, Théodore Bèze e John Knox, 
todos figuras importantes da Reforma Protestante.
Figura 1. Mur des Réformateurs, ou Muro dos Reformadores, em Genebra, Suíça.
Fonte: Elenarts/Shutterstock.com.
Podemos observar a partir das conceitualizações apresentadas que 
a modernidade se constituiu principalmente em função da pretensão de 
rejeitar a tradição e submeter tudo ao exame crítico da razão e da expe-
rimentação. É claro que a tradição persistiu em outros âmbitos da vida, 
numa dinâmica constante, com questionamentos sobre suas conquistas e 
3O conceito de modernidade
na busca contínua pela inovação. Seja como for, o conceito de modernidade 
foi fortalecido por alguns fatos que marcaram a humanidade, tais como a 
Reforma da Igreja, a descoberta da América, inaugurando uma nova visão 
de mundo, e a invenção do telescópio, que possibilitou a construção das 
novas concepções científicas. 
Conforme Weber (1982), uma das principais características que alicerça-
ram a modernidade ocidental foi a racionalização. Mas o que realmente seria 
a “racionalização” e, sobretudo, o “processo de racionalização”? De certa 
forma, podemos dizer que entender a racionalização é entender o mundo 
moderno. Para Weber (1982), existe uma relação profunda e complexa entre 
ambos os aspectos, devido a alguns fatores advindos da modernidade, como o 
capitalismo e o estado, que são exemplos de racionalização. Enfim, podemos 
observar que a marca da modernidade é a racionalização. Nesse contexto, 
para conceitualizarmos a racionalização:
Temos de lembrar-nos, antes de qualquer coisa, que “racionalismo” pode 
significar coisas bem diferentes. Significa uma coisa se pensarmos no tipo 
de racionalização que o pensador sistemático realiza sobre a imagem do 
mundo: um domínio cada vez mais teórico da realidade por meio de conceitos 
cada vez mais precisos e abstratos. O racionalismo significa outra coisa se 
pensarmos na realização metódica de fim, precisamente dado e prático, por 
meio de um cálculo cada vez mais preciso dos meios adequados. Esses tipos 
de racionalismo são muitos diferentes, apesar do fato de que em última análise 
estão inseparavelmente juntos (WEBER, 1982, p. 337).
Nesse sentido, o termo “racional” pode ser entendido como uma “dis-
posição sistemática”. A racionalização pode ser compreendida como uma 
ação sistemática e metódica, ou seja, para atingir um objetivo, se age 
metodicamente com intuito de alcançá-lo. No entanto, no mundo raciona-
lizado, são as figuras do capitalista e do político que demonstram como se 
dá esse processo na modernidade, sem que se precise recorrer a qualquer 
base religiosa para suas ações, ou seja, há uma “[...] ausência de metafísica 
religiosa e de quase todos os resíduos de ligação religiosa” (WEBER, 1982, 
p. 337). Com isso, a realidade moderna cada vez mais se racionaliza. É 
importante lembrar que Weber não propunha o conceito de racionalização 
como uma característica pertencente a um progresso universal, como se 
a razão proporcionasse uma verdadeira justiça ou virtude, sendo melhor 
ou pior que o contexto da Idade Medieval.
Podemos analisar que a racionalização só se torna uma característica 
conhecida da ação num mundo moderno na medida em que se incorpora às 
O conceito de modernidade4
instituições e interpretações culturais e às estruturas da personalidade. Esta 
última pode ser percebida na passagem do protestante ao capitalista. En-
quanto um agia sob o manto das ordens divinas, com seu trabalho organizado 
racionalmente, o outro age sem qualquer base religiosa, restando somente a 
racionalização do trabalho, e assim passa a surgir um ser humano político. 
Portanto, o termo racionalização é utilizado para designar o processo mediante 
o qual acontece essa incorporação.
Em síntese, podemos dizer que não resta dúvida de que a modernidade 
trouxe grandes conquistas. Isso é inegável. Ela acabou por favorecer a cons-
trução e o fortalecimento de um mundo mais democrático, em que os direitos 
humanos devem ser respeitados. Além disso, o grande avanço técnico-científico 
permitiu um melhor bem-estar à sociedade e uma reorganização com base na 
racionalização dos processos sistematizados.
No link a seguir, você encontrará o vídeo de uma entrevista com Antônio Flávio Pierucci, 
professor de sociologia da USP, que discute alguns conceitos de Weber presentes em 
sua obra seminal A ética protestante e o espírito do capitalismo.
https://qrgo.page.link/X4yRb
O sentido histórico da nova representação
da temporalidade
Quando pensamos em temporalidade, muitos conceitos e defi nições podem vir 
à nossa mente, inclusive se existem diferenças, semelhanças ou contrariedades 
entre tempo e temporalidade. O tempo pode ser defi nido como algo cronológico, 
como medida do transcorrer de dias, meses, anos etc. No entanto, a tempora-
lidade utiliza os fatos do tempo, cruzando e relacionando os acontecimentos 
e os fatores desencadeadores, as consequências e o contexto social envolvido.
Assim, ao analisamos a temporalidade na perspectiva histórica, po-
demos perceber nesse conceito um dos elementos mais importantes para 
registrar e preservar os fatos e acontecimentos, pois sua importância pode 
ser percebida na narração e organização dos fatos históricos. No entanto, 
por si só ele é incapaz de dar sentido ao chamado tempo histórico. Essa 
5O conceito de modernidade
difícil tarefa, porém de extrema relevância para o trabalho do historiador, 
envolve realizar de maneira competente e abrangente os ensaios reunindo 
o futuro e o passado.
É interessante observar as formas como os povos se relacionam com o 
passado, o que pode variar conforme a organização social e a construção 
dos seus processos históricos. Para Thompson (1998), as organizações 
sociais têm diferentes tipos de percepçõesdo passado. Sob essa ótica, as 
sociedades tradicionais (ou sociedades camponesas) percebem o passado, 
e também o tempo, de maneira cíclica. Segundo essa perspectiva, podemos 
dizer que o passado se reconfigura, e poderá até se repetir de diferentes 
formas, em ciclos. 
Na contemporaneidade, podemos perceber que os indivíduos têm relaciona-
mentos diferentes com o tempo ou com a temporalidade. Isso ainda é possível 
observar nas sociedades modernas (ou sociedades urbano-industriais), que 
adquiriram uma compreensão linear do tempo. Nesse sentido, nas sociedades 
modernas, o passado é percebido como algo imutável, perdido no tempo, e 
nesse contexto entendemos a transformação da temporalidade e suas novas 
representações desde a metade do século XX. Para Alvin e Miranda (2008), 
a forma como o passado é visto se relaciona diretamente na temporalidade 
histórica e constrói formas específicas de justificar o presente. Com isso, 
o passado pode ser entendido como criação humana, relacionada a formas 
particulares de organizações sociais. Assim, em se tratando das sociedades 
modernas, o passado é socialmente criado com base na perspectiva do tempo 
linear, com marcos fixo e anteriores ao presente.
Um ponto interessante que merece nossa atenção é perceber o quanto o 
profissional historiador utiliza o tempo e a temporalidade como sua matéria-
-prima, sendo o historiador o profissional que busca fazer da história a ciência 
“[...] dos homens no tempo” (BLOCH, 2001, p. 55). O professor de história 
usa o tempo como recurso didático para a construção de representações 
sobre as sociedades do passado. O professor trabalha com os problemas 
da temporalidade para a compreensão das representações sociais compar-
tilhadas pelas sociedades do passado e algumas delas, eventualmente, que 
permanecem no presente. 
O conceito de modernidade6
Diante disso, podemos perceber que o professor de história deve compre-
ender as questões das temporalidades também como objeto de ensino e não 
apenas como ferramenta. O professor deve pensar o tempo e refletir sobre ele, 
para além da linearidade, sobre suas rupturas, permanências, simultaneidades, 
continuidades e descontinuidades, com intuito de analisar a complexidade das 
novas representações da temporalidade.
Para Koselleck (2006, p. 13), o tempo histórico, embora esteja ligado ao 
tempo natural, não coincide com ele: “[...] quem busca encontrar o cotidiano 
do tempo histórico deve contemplar as rugas no rosto de um homem, ou então 
as cicatrizes nas quais se delineiam as marcas de um destino já vivido”.
Além da compreensão do tempo histórico, precisamos também entender 
qual o sentido da nova representação da temporalidade e como ela foi sendo 
reconfigurada e ressignificada no decorrer do tempo nas diferentes sociedades, 
diferentes organizações políticas, culturais, econômicas e diferentes contextos 
de espaços geográficos.
Koselleck (2006) apresenta em sua análise o nascimento de uma nova 
concepção temporal, em que algumas das suas principais transformações 
podem ser estudadas no contexto da modernidade. Nesse sentido, o processo 
de temporalização da história ocorrido durante os tempos modernos, ou 
seja, a transformação que se fez notar principalmente durante os séculos 
que separaram a Reforma Protestante da Revolução Francesa, foi um grande 
diferencial de compreensão sobre o conceito de temporalidade. 
Podemos encontrar no período da modernidade um exemplo prático das 
transformações e ressignificações da temporalidade: até o século XVI, a 
história da cristandade foi uma contínua espera pelo fim dos tempos, pela 
crença extraordinária no Juízo Final (Figura 2). Tal crença muniu os homens 
de uma mesma expectativa, funcionando não só como um fator de integração 
da Igreja, mas também como um fator de integração histórica — presente 
e passado pareciam se unir na perspectiva de um mesmo horizonte. Desta 
forma, experiência e expectativa eram inseparáveis em um espaço histórico 
que, por ser estruturalmente semelhante, era incapaz de fornecer exemplos 
que promoveriam o aperfeiçoamento intelectual ou moral dos povos e seus 
governantes (KOSELLECK, 2006).
7O conceito de modernidade
Figura 2. O tempo e a cristandade — detalhe de Último Julgamento, 
de Jan van Eyck.
Fonte: Everett - Art/Shutterstock.com.
O conceito de modernidade8
Ainda utilizando o exemplo das rupturas de representação temporal do 
período da modernidade, podemos analisar como um dos principais fatos 
históricos para a construção de uma nova representação da temporalidade foi 
o advento das disputas religiosas da Reforma. Foi quando os pressupostos de 
unificação e harmonia em direção ao fim do mundo deixaram de dominar a 
consciência histórica ocidental, e as especulações sobre o Juízo Final perde-
ram importância. Sem a presença constante das previsões apocalípticas, as 
expectativas deixaram de se estender para o além, e a relação com o porvir 
transformou-se gradativamente em prognósticos racionais. O futuro tornou-
-se o campo das probabilidades e o presente, espaço de cálculo e de ações 
políticas, transformando a temporalidade.
A modernidade inaugura um novo conceito de temporalidade, acabando por 
desvincular a ideia do passado e do futuro mediante a noção de “progresso da 
humanidade”. O novo conceito de progresso é criado no final do século XVIII, 
e um novo horizonte pode ser descortinado. Como uma espécie de mistura 
entre prognósticos racionais e previsões messiânicas, o conceito de progresso 
desvinculou radicalmente passado e futuro; em outras palavras, foi aberto um 
verdadeiro “[...] fosso entre a experiência anterior e a expectativa do que há de 
vir” (KOSELLECK, 2006, p. 294). Esse caráter de novidade foi fortemente 
acompanhado por uma visão otimista: o futuro não seria apenas novo — seria 
melhor. A nova percepção temporal que passa então a ser percebida é a de um 
tempo emancipado da cronologia, um tempo não mais vinculado apenas aos 
ciclos da natureza, mas que passa a caracterizar-se como uma força própria 
da história.
Para Koselleck (2006), essa nova forma de experimentar o tempo e a 
temporalidade também pressupõe o surgimento de um novo conceito e uma 
nova concepção de história. Assim, ele considera que não houve apenas uma 
historicização da temporalidade, mas também uma temporalização da história. 
A nova percepção é de que “[...] cada época tem suas próprias condições e está 
em uma situação individual; as decisões devem e podem ser tomadas apenas 
na própria época, de acordo com ela” (HEGEL, 1995, p. 50).
O ineditismo do movimento revolucionário francês permitiu que a tem-
poralização da história se consolidasse, pois nada antes podia se comparar 
aos acontecimentos extraordinários que se seguiram a 1789; o coeficiente 
de mudança foi incluído nas expectativas dos agentes, os quais passaram a 
acreditar no papel decisivo da sua ação para o curso da história.
9O conceito de modernidade
Caso você deseje se aprofundar nesse tema, pode acessar, via o link a seguir, uma rese-
nha do professor Mauro Dillmann para a obra História & teoria: historicismo, modernidade, 
temporalidade e verdade, de 2006, de autoria de José Carlos Reis. 
https://qrgo.page.link/YAu8D
A história universal e a crítica da razão
e do sujeito
Podemos iniciar nossos estudos sobre o conceito proposto nesta seção a partir das 
teorias apresentadas e construídas por Kant (Figura 3), um teórico importante que 
percebeu a história como uma ciência, apesar da subjetividade que a constitui. 
Ele foi um importante fi lósofo prussiano do século XVIII, e é considerado um 
dos mais importantes e expressivos pensadores da Era Moderna.
Figura 3. Immanuel Kant.
Fonte: Nicku/Shutterstock.com.
O conceito de modernidade10
As teorias de Kant sobre uma história universal recebem naturalmente 
diferentes interpretações. No entanto, todas elas concordam em um fundamento, 
uma dimensão e um uso teórico da filosofia: Kant tentou transformar a história 
em ciência e, para fazer isso, ahistória:
[...] precisa ser posta sob as leis universais da natureza, para o que ao invés da cau-
salidade é posto em validade o cálculo da probabilidade. O pensamento teórico-
-probabilístico coloca a escrita da história empírica na posição de descobrir uma 
determinada regularidade na coletividade (KLEIN, 2014, documento on-line).
O conceito apresentado de uma história universal encontra a sua justificação 
na ideia kantiana de “dialética transcendental”, especialmente quanto ao uso 
regulativo das ideias da razão pura. A utilidade do conceito de história universal 
funcionaria como um sistema interconectado que organizaria os dados históricos 
e que deveria guiar os historiadores na sua investigação científica (KLEIN, 2014).
Rauscher (2001 apud KLEIN, 2014), por sua vez, pretende mostrar que 
a distinção entre os dois tipos diferentes de história, isto é, a historiografia 
(Historie) e a história universal (Weltgeschichte), é finalmente problemática e 
que ambas poderiam ser vistas como sendo a mesma coisa. Segundo ele, todas 
as proposições seriam compatíveis com uma investigação histórica empírica, 
podendo-se concluir empiricamente que o progresso na história é real. Isso 
poderia ser inferido em passagens nas quais Kant afirma que a experiência 
poderia revelar algo a respeito do curso do mundo, a partir do que se poderia 
inferir o restante, tal como acontece com a revolução dos astros. Dessa forma, 
ao invés de Kant ter sugerido, como ele fez, que seu trabalho não visa tomar o 
lugar daquela história cuja composição é completamente empírica, ele deveria 
ter oferecido suas reflexões como uma hipótese dentro da história empírica.
Portanto, uma forma legítima de descrever a posição de Kant é afirmar que 
ele procede a partir de considerações de razão teórica, projetando a “ideia” (ou 
conceito racional a priori) de um programa puramente teórico para atribuir um 
sentido compreensível aos fatos acidentais da história humana. Ao fim e ao cabo, 
existiria uma espécie de convergência com as nossas preocupações práticas, de 
forma a unir nosso entendimento teórico da história a nossas esperanças moral-
-religiosas como seres históricos.
Com isso, você pode estar se perguntando: mas, afinal, qual é o conceito 
de história universal? Diante do exposto, podemos considerar que a história 
universal é a história sendo compreendida como ciência, e que é possível 
contribuir de alguma forma para a expansão do conhecimento teórico a respeito 
dos fenômenos do mundo, o que não poderia ocorrer de outra maneira a não 
11O conceito de modernidade
ser seguindo em linhas gerais que a história universal deveria guiar o processo 
de investigação e sistematização da história empírica, de modo que a última 
poderia ser conduzida ao caminho seguro de uma ciência. 
Para Klein (2014), dentre as teorias de Kant quanto à história universal na 
crítica da razão e do sujeito, ele desenvolveu o que chamou de ens rationis. 
As linhas gerais do argumento ens rationis são as seguintes: 
  A história universal concentra-se essencialmente no futuro; contudo, 
não faz parte do procedimento teórico-regulativo das ideias da razão 
(isto é, de uma reflexão com o propósito de auxiliar o uso sistemático 
e interconectado do entendimento).
  Assume-se que uma capacidade específica (de agir moralmente e criar 
instituições jurídicas justas) deva ser em algum momento distante no 
futuro realizada perfeitamente na espécie humana.
  A perspectiva de uma totalidade histórica que se concentra no futuro 
para alcançar um significado sistemático para as experiências passadas 
e presentes é, da perspectiva teórica das ideias da razão, um ens rationis.
Podemos perceber que a disciplina da história enquanto história universal 
que inclui em sua totalidade o presente, o passado e especialmente o futuro não 
é um objeto de interesse teórico da razão pura. A respeito do conhecimento 
interconectado dos fenômenos, apenas as ideias que se referem à totalidade 
ascendente são consideradas necessárias para a derivação de um condicionado 
dado, mas não o contrário, ou seja, a série descendente (KLEIN, 2014). 
Nas palavras de Kant (1980 apud KLEIN, 2014, documento on-line):
Se, porém, existe alguma condição dada inteiramente (e incondicionalmente), 
então não se precisa mais de um conceito da razão para prosseguir a série, pois 
o entendimento faz por si todo passo para baixo, da condição ao condicionado. 
Deste modo as ideias transcendentais servem somente para ascender, na série de 
condições, até o incondicionado, isto é, até os princípios. Todavia, com respeito 
ao descer ao condicionado, há um uso lógico bastante extenso que nossa razão 
faz das leis do entendimento, mas nenhum uso transcendental; e, se [...] formamos 
uma ideia da absoluta totalidade de uma tal síntese (do progressus), por exemplo, 
da série total de todas as mudanças futuras do mundo, trata-se então de um ente 
de pensamento (ens rationis), que é pensado só arbitrariamente e não pressuposto 
necessariamente pela razão. Com efeito, para a possibilidade do condicionado é, na 
verdade, pressuposta a totalidade de suas condições, mas não de suas sucessões.
Nessa citação, “ens rationis” é definido por Kant como uma mera ficção 
não contraditória. Sendo assim, não faz parte do interesse teórico da razão 
O conceito de modernidade12
entender o fenômeno histórico como algo que se projeta para um futuro inde-
finido. Para a história universal, isso significa que os seres humanos precisam 
ser considerados também como agentes livres, algo que não pode ser reduzido 
ou restringido ao conhecimento teórico.
Podemos fazer um comparativo com o que diz Hegel (1995, p. 20) sobre 
a história universal à crítica da razão: “Na história universal, lidamos com 
indivíduos, que formam povos, e com totalidade, que são os Estados. Por-
tanto, não podemos nos ater a miudezas da crença na Providência, e menos 
ainda à crença abstrata e indeterminada, que apenas quer generalizar, ou 
seja, supor que existe uma Providência, mas não para os fatos determinantes 
da mesma”. É interessante observar que o universal, segundo Hegel (199), se 
encontra presente no particular, e sua razão constitui a busca por esclarecer 
sua própria existência.
Hegel (1995) trilha o caminho do progresso orientado pela razão superior 
que impulsiona a humanidade a esclarecer e superar as estruturas sociopolíticas, 
econômicas e igualmente filosóficas que não mais refletem em seu âmago as 
ânsias do “espírito” de uma determinada época. Do conflito dialético (seja 
entre civilizações ou ideias), a síntese culminante acabaria por refletir em 
seu conteúdo a lógica do esclarecimento libertador de um estado não mais 
satisfatório para algo mais rico e mais concreto.
Em síntese, podemos analisar que a história universal à crítica da razão e 
do sujeito (ideia de progresso) é analisada por teóricos relevantes e complexos 
para explicar que, apesar da universalidade da história, a generalização não 
revela os fatos históricos influenciadores. Ao mesmo tempo, essa característica 
permite o desenvolvimento da razão e delimitação da subjetividade empírica, 
que necessita da ciência para que seja uma história e, mesmo que fundamentada 
em objetos empíricos, uma história universal. E essa ideia de universalidade 
é um dos elementos que constituem a ideia do progresso. 
Acessando o link a seguir, você poderá assistir a um vídeo de Daniel Omar Perez, 
professor de filosofia da Unicamp e psicanalista, em que ressalta a crítica da razão pura 
e a razão prática segundo da visão de Kant. Nele, o professor tenta responder se, por 
si só, a filosofia crítica consegue formular e resolver um problema.
https://qrgo.page.link/Ve3Jo
13O conceito de modernidade
ALVIM, Y. C.; MIRANDA, S. R. Sobre a cultura do tempo e o livro didático de História. 
História & Ensino, v. 14, p. 115–132, 2008. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/
index.php/histensino/article/view/11526. Acesso em: 30 ago. 2019.
BLOCH, M. A história,os homens e o tempo. In: BLOCH, M. Apologia da história ou o 
ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
GIDDENS, A. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991.
HABERMAS, J. O discurso filosófico da modernidade. Lisboa: Dom Quixote, 2002.
HEGEL, G. W. F. Filosofia da história. Brasília: Editora UnB, 1995.
KLEIN, T. Kant e a ideia de uma história universal no contexto da crítica da razão. 
Analytica, v. 18, n. 1, p. 47–81, 2014. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/
analytica/article/download/2504/2124. Acesso em: 30 ago. 2019.
KOSELLECK, R. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de 
Janeiro: Contraponto, 2006.
THOMPSON, E. P. Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial. In: THOMPSON, 
E. P. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
WEBER, M. A ciência como vocação: In: WEBER, M. Ensaios de sociologia. 5. ed. Rio de 
Janeiro: Zahar, 1982.
Leituras recomendadas
ABREU, M.; SOIHET, R. (org.). Ensino de história: conceitos, temáticas e metodologia. Rio 
de Janeiro: Casa da Palavra: FAPERJ, 2003.
BARROS, J. D’. A. A historiografia e os conceitos relacionados ao tempo. Dimensões, v. 
32, p. 240–266, 2014. Disponível em: http://www.periodicos.ufes.br/dimensoes/article/
view/8336. Acesso em: 30 ago. 2019.
MIRANDA, S. R. Aprender e ensinar o tempo histórico em tempos de incertezas: refle-
xões e desafios para o professor de história. In: GONÇALVES, M. A. et al. (org.). Qual o 
valor da história hoje? Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012.
O conceito de modernidade14
 
DICA DO PROFESSOR
No conceito de modernidade, foram exploradas concepções muito relevantes como o tempo e a 
temporalidade histórica.Sendo assim, a narrativa da história estabeleceu, há séculos, escolhas 
que denotam posicionamentos interpretativos de análise do homem como ser histórico, 
circunscrito a um tempo, a uma forma contextualizada de encarar a passagem do tempo,reflexo 
da própria essência do debate em torno da observação das mudanças e permanências, centro do 
conceito de História.
 
Veja, nesta Dica do Professor, uma reflexão sobre as diferenças entre tempo e temporalidades.
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EXERCÍCIOS
1) Quando falamos em modernidade para a História, o consenso mais comum é a 
divisão clássica e tradicional dos períodos históricos, tais como: Idade Antiga, Idade 
Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Nesse sentido, qual o conceito de 
modernidade na perspectiva sociológica?
A) No campo da perspectiva sociológica, busca-se responder a razão que orienta a 
manifestação do ser no mundo fenomênico, o que seria, por princípio, o trabalho magno do 
filósofo.
B) Define-se a um período que se estende até os dias atuais, porque a sua conceitualização 
revela-se na complexidade do desmanche dos laços da tradição e da religião.
C) São fragmentos dispersos que refletem em sua manifestação a essência do todo universal, 
possibilitando, assim, o desvelar da essência ímpar de todo o conjunto que constitui a vida.
D) Devido à aproximação específica com a antropologia, os historiadores conseguem explicar 
a importância dos valores para a produção, acumulação e consumo da população.
E) Pode ser definido como o início da era moderna, associado ao surgimento do Iluminismo 
Europeu, aproximadamente nos meados do século dezoito.
2) Como afirma Habermas (2002), o conceito de modernização refere-se a um conjunto 
de processos cumulativos e de reforço mútuo: formação de capital e mobilização de 
recursos; desenvolvimento das forças produtivas e aumento da produtividade do 
trabalho; estabelecimento do poder político centralizado e formação de identidades 
nacionais; expansão dos direitos de participação política, das formas urbanas de vida 
e da formação escolar formal; e secularização de valores e normas. Diante disso, 
escolha a alternativa que se relaciona a essa citação:
A) Não há uma tendência para um dinamismo e uma mudança incessantes, questionando as 
suas próprias conquistas e buscando continuamente inovações.
B) No limiar da era moderna, grandes eventos lhe determinam o seu caráter: a descoberta da 
América, com uma nova visão de mundo, e a Escola de Annales.
C) Modernidade é sinônimo de sociedade moderna ou civilização industrial e está associada a 
um conjunto de atitudes perante o mundo, como a ideia de que o mundo é passível de 
repetições dos fatos sem a intervenção política.
D) A modernidade constitui-se a partir da pretensão de rejeitar a tradição, submetendo tudo ao 
exame crítico da razão e à experimentação, embora essa mesma tradição tenha persistido 
em muitas esferas da vida.
E) A modernidade trouxe a ideia de desilusão ou desencanto do mundo e extinção das formas 
tradicionais de autoridade e saber.
A modernidade enquanto momento histórico caracteriza-se pela antitradição, pela 3) 
derrubada das convenções, dos costumes e das crenças, pela saída dos 
particularismos e entrada no universalismo, ou ainda pela entrada da idade da 
razão. Muitas combinações do moderno e do tradicional podem ainda ser 
encontradas nos cenários sociais concretos. Diante do exposto, escolha a alternativa 
que apresenta a ideia da antitradição e pela derrubada das convenções.
A) Civilização industrial foi associada a um conjunto de atitudes perante o mundo, como a 
ideia de que o mundo é passível de transformações constantes no viés político.
B) Inaugura-se um tempo de primazia centralizada no indivíduo e não, no grupo como sujeito 
de direitos e de decisões.
C) A ideia de antitradição e pela derrubada das convenções se deu principalmente no âmbito 
religioso, em que o próprio papel da Igreja alterou-se diante dos novos contextos de 
mundo que se inauguravam.
D) Essas noções de antitradição são os processos que envolvem a difusão cultural, os sistemas 
que dão suporte a esses processos e sujeitos, e, por fim, as normas a que se conformam as 
sociedades.
E) A antitradição refere-se a um complexo de instituições econômicas, em especial a 
produção industrial e a economia de mercado. 
Leia o texto e, a seguir, assinale a alternativa correta:
''No século XIX não é mais o poder despótico dos reis que tem que ser derrubado, é essa 
nova instância onipotente, a força da necessidade histórica, que se levanta para 
determinar o curso dos acontecimentos. Contrariando a ideia humanista da Iluminação 
que postulava o poder glorioso da razão humana, o que anuncia a filosofia de Hegel é 
um novo Absoluto: do Bon Plaisir do rei ao Ukase inelutável da lei histórica – um 
processo imanente e irrevogável que os novos profetas procuraram interpretar e predizer 
como autênticos sacerdotes do mistério divino''. (PENNA, 2016).
Levando-se em consideração os principais acontecimentos que caracterizam o século 
4) 
XIX, é possível dizer que Meira Penna em “derrubar a força da necessidade 
histórica” faz referência:
A) à concepção de tempo dos reis absolutistas, que pregavam a demolição dos privilégios 
aristocráticos e clericais.
B) à concepção de tempo clássica, que vigorava nas antigas civilizações grega e romana e que 
teve seu retorno no século XIX.
C) à concepção de tempo revolucionário, nascida com a Revolução Francesa e que se 
disseminou no século XIX.
D) à concepção de tempo na Idade Média, na qual os sacerdotes esperavam pelo Juízo Final, 
pelo fim dos tempos e pela reintegração do Homem com a Eternidade.
E) à concepção de tempo cíclico, herdada da cultura indiana pelos intelectuais europeus do 
século XIX.
5) Conforme Kant, se o projeto de uma história universal é mais do que simplesmente 
uma questão de opinião para o uso teórico da razão, ou seja, se pretende ser 
considerado um conhecimento, o qual, por sua vez, precisa articular e organizar o 
conhecimento histórico-empírico, então, nesse caso, a história universal precisa 
respeitar as condições do sistema crítico-transcendental, pois, a história universal quetem, em certo sentido, é um fio condutor a priori. Em sua Crítica da Razão Pura, 
Kant define o conhecimento a priori como aquele que:
A) Pode ser obtido exclusivamente mediante a experiência empírica.
B) Pode ser obtido unicamente por meio da análise lógica dos conceitos.
C) Diz respeito às coisas nelas mesmas.
D) Pode ser obtido independentemente de qualquer acontecimento empírico.
E) Diz respeito ao conceito dos contrários: progresso e evolução.
NA PRÁTICA
O conceito de modernidade propõe algumas reflexões sobre temáticas relevantes que 
influenciam no nosso contexto atual.Nesse sentido, existem alguns desafios sobre como 
trabalhar com esses conceitos na sala de aula.
Confira, Na Prática, algumas estratégias pedagógicas que poderão ser aplicadas em sala de aula 
para trabalhar com o conceito de tempo histórico.
SAIBA MAIS
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do 
professor:
Racionalização e modernidade em Max Weber
O texto fala sobre a realidade moderna e argumenta que a racionalização existente nas 
sociedades modernas recebeu grande influência da Ética Protestante.
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História e Teoria. Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade
O artigo discorre, com erudição, sobre a importância da filosofia e de suas construções teóricas.
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A Razão Pura
Daniel Omar Perez, professor de filosofia na Unicamp e psicanalista, ressalta a crítica da razão 
pura e a razão prática conforme a visão de Kant. A filosofia crítica consegue formular e resolver 
um problema?
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O tempo para Fernand Braudel
O vídeo aborda, de forma sucinta, a questão do tempo para Fernand Braudel, especialmente 
relacionando-o às discussões com Claude Levi-Strauss na década de 1950.
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O conceito de pós-modernidade
APRESENTAÇÃO
A pós-modernidade apresenta-se como um conceito que ultrapassa um período histórico 
demarcado pelo tempo cronológico e revela-se no desafio de novas ideias, que se sobrepõem às 
concepções iluministas, com base na razão pura e, ainda, permeada de grandes histórias e heróis 
mundiais. Atualmente, a pós-modernidade desafia constantemente o cotidiano da nova história 
cultural, na busca de pesquisa e investigação que considere a micro história, dos sujeitos que 
constroem a cada dia, todas as histórias, na multiplicidades dos fatos e fenômenos que 
constituem a humanidade atual. Isso fica claro nas transformações constantes no mundo do 
trabalho, no avanço tecnológico e nas relações pessoais, sociais ou econômicas.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você verá a história global do período pós 1945, o 
estruturalismo e a revolução cultural pós-moderna, a pós-modernidade e a era digital.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Explicar a história global do período pós 1945.•
Identificar o estruturalismo e a revolução cultural pós-moderna.•
Analisar a pós-modernidade e a era digital.•
INFOGRÁFICO
A pós-modernidade, ainda em movimento, caracteriza-se fortemente pelo rompimento com as 
concepções iluministas da modernidade, fundamentadas na racionalidade universal, nas grandes 
histórias da humanidade e em heróis nacionais escolhidos para constituir as identidades de uma 
nação. Em oposição, a pós-modernidade promove a história de cada sujeito, a história das 
mulheres, a história dos trabalhadores, entre tantas outras histórias que constituem a humanidade 
e a riqueza da diversidade étnica, cultural ou social.
Veja, no Infográfico, características dessa realidade contemporânea, a pós-modernidade.
CONTEÚDO DO LIVRO
É interessante para a sociedade atual compreender que o pós-modernismo é um conceito que 
representa toda a estrutura sociocultural e histórica, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, até 
os dias atuais. Em suma, o pós-modernismo é um conceito da sociologia histórica que designa a 
condição sociocultural e estética. É diferente da pós-modernidade que consiste no ambiente em 
que a sociedade pós-moderna está inserida, caracterizado pela globalização e domínio do 
sistema capitalista.
Nessa perspectiva, faz parte do processo natural de análise compreender os fatos e os 
acontecimentos que marcaram o pós-modernismo e a pós-modernidade; difundida depois da 
Segunda Guerra Mundial e marcada pela Guerra Fria, pelo fortalecimento do capitalismo e, por 
fim, pela queda do muro de Berlim, inaugurando novas transformações mundiais como a 
Globalização e as evoluções tecnológicas digitais que invadiram os novos tempos.
No capítulo, O conceito de pós-modernidade, do livro Teoria da História e Historiografia, você 
verá o conceito de pós-modernidade expresso na história global no período pós 1945, analisado 
na perspectiva do estruturalismo e da revolução cultural pós-moderna; e poderá explorar 
algumas características da pós-modernidade e da era digital.
Boa leitura.
TEORIA DA 
HISTÓRIA E 
HISTORIOGRAFIA 
Simone de Oliveira
O conceito de 
pós-modernidade
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Explicar a história global no período pós 1945.
  Identificar o estruturalismo e a revolução cultural pós-moderna.
  Analisar a pós-modernidade e a era digital.
Introdução
O período pós 1945 apresenta um mundo transfigurado por crises, saltos 
tecnológicos, instabilidade crônica, conflitos e dramas sociais de com-
plexa solução, além de uma busca constante pelos direitos humanos, 
políticos e sociais, inaugurando novas concepções e formas de analisar o 
mundo. Nesse cenário, a pós-modernidade reflete a estrutura capitalista 
da sociedade atual com base na globalização. É nesse contexto que o 
capitalismo globalizado ingressa em nova fase de produção industrial e 
educação, cercada por transformações tecnológicas digitais e inéditas 
formas de conectividade e acesso a informações.
Neste capítulo, você estudará o conceito de pós-modernidade ex-
presso na história global no período pós 1945, o qual será analisado na 
perspectiva do estruturalismo e da revolução cultural pós-moderna, 
explorando também algumas características da pós-modernidade vin-
culadas à era digital.
A história global no período pós 1945
Para iniciarmos nossas refl exões sobre a história global pós 1945, pre-
cisamos compreender que esse período faz parte do que chamamos de 
pós-modernismo. O pós-modernismo é um conceito que representa toda a 
estrutura sociocultural e histórica desde o fi m da Segunda Guerra Mundial 
até os dias atuais. Em suma, é um termo da sociologia histórica que designa 
uma condição sociocultural e estética.
O pós-modernismo é vista por vários estudiosos, como Lyotard e Boaven-
tura de Sousa Santos, como um movimento de superação da modernidade, 
que por sua vez, também expressa a rejeição a um modelo cultural anterior. 
Nesse sentido, o Iluminismo (movimento intelectual que rompe com o con-
trole da Igreja Católica), apesar de sugerido como um propenso “gerador” 
da crise do conhecimento no século XX, pode ser considerado como “[...] a 
proposta mais generosa de emancipação jamais oferecida ao gênero humano”. 
(ROUANET, 1987, p. 27). No entanto, sua postura teleológica (preocupação 
enfática com a finalidade do conhecimento) desencadeia principalmente 
um movimento de rejeição aos padrões estabelecidos. Este movimento é 
batizado então de pós-moderno. 
Vários autores, como Rouanet (1987), dividem o pós-modernismo em dois 
períodos principais:
1. A primeira fase, que teria começado com o fim da Segunda Guerra 
Mundial e se desenvolvido até o declínio da União Soviética (fim 
da Guerra Fria). 
2. A segunda e derradeira fase, que teria início no fim da década de 1980, 
com a quebra da bipolaridade vivida no mundo durante a Guerra Fria.
De modo geral, o pós-modernismorepresenta a “quebra” com antigos 
modelos de pensamento linear defendidos na era moderna pelos ilumi-
nistas, que se baseavam na defesa da razão e da ciência como parte de 
um plano em prol do desenvolvimento da humanidade. Porém, com os 
horrores presenciados na Segunda Guerra Mundial, começou a crescer 
um forte sentimento de insatisfação e decepção na sociedade, visto que 
todo o “plano” moldado com base nos ideais iluministas supostamente 
já não respondia às demandas da sociedade que se inaugura após 1945. 
Muitos fatos e acontecimentos chocaram o mundo durante a Segunda 
Guerra Mundial e após o seu término, como, por exemplo, o lançamento 
da bomba atômica (Figura 1).
O conceito de pós-modernidade2
Figura 1. Bomba atômica detonada sobre a cidade de 
Nagasaki, no Japão, em 9 de agosto de 1945.
Fonte: Everett Historical/Shutterstock.com.
Conforme Gaspar (2015), uma sequência de eventos acabaram por reorgani-
zando as novas relações mundiais entre os países: as experiências traumáticas 
da primeira metade do século XX e as constantes ameaças de colapso sistêmico 
e possíveis fracassos associados, acima de tudo, à latente incapacidade da 
concepção liberal em lidar com as novas realidades econômicas, levaram, já 
perto do final da Segunda Guerra Mundial, uma delegação de 44 nações a se 
reunirem na cidade americana de Bretton Woods, em julho de 1944. Naquela 
ocasião, foram definidas as bases de gerenciamento econômico internacional 
do pós-guerra e fixadas as regras para as relações comerciais e financeiras 
entre os países mais industrializados do mundo. 
Com isso, podemos perceber que a Segunda Guerra Mundial transfor-
mou completamente a configuração do mundo e as relações entre as nações. 
O período conhecido como pós-guerra impôs grandes desafios às populações e 
governantes de todo o mundo, principalmente na Europa e na Ásia, devastadas 
e destruídas pelos conflitos. 
No entanto, as duas grandes potências vencedoras, Estados Unidos e 
União Soviética, que haviam se aliado para lutar contra o nazifascismo, 
tornaram-se rivais logo após o fim do conflito, opondo o capitalismo 
ocidental ao chamado comunismo soviético, na configuração do que ficou 
convencionado chamar de mundo bipolar, inaugurando o que conhecemos 
como Guerra Fria. 
Nesse contexto, ainda antes do fim da Segunda Guerra Mundial, foi 
criada a Organização das Nações Unidas (ONU). A ONU é uma organização 
3O conceito de pós-modernidade
universal, mas que não pretende substituir os Estados nem transformar-se 
num governo mundial. A entidade não se propõe a ser uma organização 
supranacional, mas sim uma organização intergovernamental (os Estados 
são os membros dos órgãos ou instituições compreendidas), constituída 
com a finalidade geral de “[...] concertação a nível político, sem prejuízo 
de prosseguirem uma multiplicidade de fins específicos, normalmente 
definidos em termos muito amplos” (RIBEIRO, 1998, p. 95 apud XAVIER 
et al., 2007, documento on-line). 
Concomitante a isso, logo após 1945 a estrutura do mundo colonial 
europeu desmoronou rapidamente, levando ao surgimento de vários novos 
países na África e na Ásia. A Europa viu-se dividida entre as esferas de 
influência dos Estados Unidos e da União Soviética. A Europa Ocidental 
aproximou-se dos americanos, que retiraram suas tropas do continente. Já 
porção oriental da Europa ficou sob influência da União Soviética e das 
tropas de seu Exército Vermelho, que se manteve nos territórios ocupados 
após lutar contra os nazistas.
Nesse cenário, o então primeiro-ministro inglês Winston Churchill 
criou uma metáfora, com intuito de expressar essa divisão do continente 
europeu em 1946, afirmando que existia uma “Cortina de Ferro” que se 
estendia do mar Báltico até o mar Adriático, separando o chamado “mundo 
livre” (do capitalismo ocidental) do “mundo comunista” (sob influência 
do comunismo soviético). Esse era o clima que se inaugurava após 1945: 
o mundo dividido, vivendo a tensão de um novo confronto global que 
poderia ser ainda pior que o recém-testemunhado, devido às evoluções 
tecnológicas na esfera armamentista. 
Para Hobsbawm (1995), a Guerra Fria (Figura 2) dominou a política 
internacional até o fim da década de 1980, ao contrapor distintas visões 
de mundo e estratégias de poder, materializadas na adesão aparentemente 
irredutível dos Estados a um dos dois lados da disputa, Estados Unidos ou 
União Soviética, que passaram a ser o centro das atenções e responsáveis 
pela nova divisão mundial.
O conceito de pós-modernidade4
Figura 2. Guerra Fria.
Fonte: adriano.cz/Shutterstock.com.
Para Gaspar (2015), a Guerra Fria marcou a política e a economia globais na segunda 
metade do século XX. Na perspectiva estritamente político-militar, constituíram-se 
blocos opostos. De um lado, o Pacto de Varsóvia, uma aliança militar formada pela 
União Soviética e pelos países socialistas do Leste Europeu, com exceção da Iugoslávia 
(a Albânia viria a deixar a aliança anos mais tarde). De outro, a Organização do Tratado 
do Atlântico Norte (OTAN), que uniu as nações capitalistas da Europa Ocidental e os 
Estados Unidos para prevenir e defender países membros de eventuais ataques vindos 
do leste comunista. A ameaça de conflito nuclear pairou sobre a humanidade ao longo 
de todo o período de vigência da Guerra Fria.
É bem verdade que, durante a Guerra Fria, não houve conflitos diretos 
entre Estados Unidos e União Soviética, mas ambos participaram de vários 
conflitos indiretos. A Guerra da Coreia (1950–1953) e a Guerra do Vietnã 
(1965–1973) foram exemplos relevantes da participação indireta dos dois países 
em conflitos armados durante a Guerra Fria. A eclosão da Revolução Chinesa, 
em 1949, contribuiu para acirrar essa divisão do mundo, já que o novo regime 
instalado em Pequim também se declarava comunista. O principal símbolo 
dessa divisão mundial foi a cidade de Berlim, na Alemanha. A criação do 
Muro de Berlim, que dividiu a cidade por quase 30 anos, expressou a tensão 
existente entre os dois blocos.
5O conceito de pós-modernidade
No Ocidente, dentre tantas transformações advindas do pós 1945, podemos 
observar a urbanização em larga escala, o que impunha novas pautas ao sistema 
produtivo e ao comportamento social. Uma mudança institucional começava a 
se tornar imperativa, sem que seus contornos se delineassem com precisão. O 
novo padrão produtivo, com base na produção e no consumo de massa, elevada 
capacidade de geração de emprego e uso intensivo de energia, encontrava 
assim as condições propícias para se generalizar, enquanto consolidavam-se os 
princípios tayloristas e fordistas de organização do trabalho (GASPAR, 2015).
Nesse cenário, a cultura se massificava, avançavam as conquistas cientí-
ficas e sua conversão em tecnologia. A bem da verdade, desde seu despon-
tar, o século XX já anunciava uma nova era, cujo nascimento fora doloroso. 
A partir da belle époque no final do século XIX, esperava-se um progresso 
para a sociedade como um todo, mas junto com ele, prefigurou-se uma crise 
de grandes proporções. De todo modo, a utopia constituía projetos de vida em 
permanente elaboração, defendidos com paixão, que mobilizavam milhões de 
pessoas em todo o mundo (SANTOS, 2001). 
Em síntese, o período pós 1945 apresenta um mundo transfigurado por 
crises, radicais mudanças tecnológicas, crônica instabilidade, conflitos e 
dramas sociais carentes de solução, além de uma busca constante pelos direitos 
humanos, políticos e sociais, o que inaugurava uma série de novas concepções 
e formas de analisar o mundo.
O estruturalismo e a revolução 
cultural pós-moderna
Muitos textos introdutórios ao estruturalismo localizam sua origem na fi losofi a 
de Aristóteles; embora essa interpretação seja incontestável de um ponto de 
vista histórico, podemos analisar a particularidade metodológica do estrutu-
ralismo como método próprio das ciências sociais, sem, com isso, deixar de 
reconhecer a infl uência de formas de pensamento anteriores. 
Nessa acepção,o estruturalismo surgiu entre os anos 1950 e 1960, a partir 
de teóricos e pesquisadores franceses, como possibilidade de aplicação do 
processo científico nas ciências humanas, contrapondo-se à fenomenologia, o 
que suscitou a dedicação de pensadores como Jacques Lacan, Roland Barthes 
e Claude Lévi-Strauss.
O conceito de “estrutura” começou a ser usado no âmbito das ciências 
humanas no século XIX, por teóricos como Spencer, Morgan e Marx. Com 
maior expressão, sua representação foi configurada na obra de Durkhein 
O conceito de pós-modernidade6
intitulada As regras do método sociológico, de 1895. Nesse contexto, podemos 
analisar que Spencer utiliza o conceito de “estrutura” no sentido de modelo 
biológico e insumos para forjar a expressão “estruturas sociais”. Lévi-Strauss, 
considerado um dos fundadores do conceito de estruturalismo, o emprega 
ao considerar o estudo dos sistemas de parentesco. Já para Marx, o conceito 
está relacionado às suas importantes definições das relações entre a base, a 
estrutura e as superestruturas da sociedade. 
Diante disso, no início do século XX surgiu o neologismo “estruturalismo”, 
vindo da área da psicologia do pensamento da escola de Würzburg; desse 
contexto, nasce a expressão “o pensamento é o espelho da alma”. No entanto, 
o conceito de estruturalismo não se limitou na área da psicologia, passando 
a também ser aplicado em outras áreas das ciências sociais. 
Para Sales (2003), foi com Ricoeur que a conceitualização de estruturalismo 
ganhou um caráter de reconhecimento ao tempo histórico. Para formular esse 
questionamento, ele aloca seu alvo sobre aquela que foi a primeira e a mais 
discutida tentativa de transpor os modelos linguístico e matemático para 
as ciências humanas. Assim, Ricoeur defende que o estruturalismo pode 
funcionar como uma fase importante na compreensão dos fatos culturais. Se 
o estruturalismo só pode existir na suposição da existência de uma função 
simbólica, o teórico afirma que ele é justamente a fase abstrata (preocupada 
com a sintaxe) da compreensão dessa função. 
Com isso, o estruturalismo não pode ser entendido exatamente como uma 
teoria sobre a sociedade nem como uma metodologia em si; ele é, sobretudo, um 
ponto de vista sobre as formas possíveis de conhecer as atividades humanas. 
Nas ciências sociais, ele ganha maior relevância a partir da década de 1960, 
sendo as universidades francesas seu principal palco de desenvolvimento. Há no 
estruturalismo uma eminente intenção de reelaborar as ciências humanas — e 
reafirmar seu status científico — a partir da noção central de estrutura social. 
Essa noção tem por objetivo revisar os dualismos suscitados pelo positivismo 
sociológico, retomando a unidade entre os campos do subjetivo e do objetivo, 
do indivíduo e da sociedade, do sujeito e do objeto de estudo.
A ideia de estrutura social, segundo Giddens (2003), segue a noção de que os 
contextos sociais onde praticamos nossas ações individuais não são um conjunto 
aleatório de eventos ou ações. Esses contextos sociais seguem padrões — ou 
estruturas —, isto é, apresentam repetições observáveis na forma como nos 
relacionamos uns com os outros. Isso significa que nossos comportamentos 
não podem ser compreendidos sem que se leve em consideração a estrutura 
onde estão localizados. Com isso, não se quer dizer que nosso comportamento 
é completamente determinado por essa estrutura. A estrutura é também al-
7O conceito de pós-modernidade
terada por nós mesmo, que somos suas unidades fundamentais. Ou seja, ao 
mesmo tempo em que agimos sobre as estruturas, elas agem sobre nós. Nossas 
atividades estruturam a sociedade, ao passo que a sociedade estrutura a forma 
como agimos no mundo. O individual está ligado ao todo coletivo e há uma 
estrutura que sustenta essas relações. Sendo assim, nada — nem mesmo os 
conceitos e os fatos sociais — pode ser entendido por si mesmo, sem levar em 
consideração esse sistema de relações chamado estrutura social.
Para alguns autores, ao enfatizar a estrutura, esse tipo de abordagem acaba 
deixando em segundo plano a análise histórica dos fenômenos sociais. Por outro 
lado, há também uma série de filósofos recentes que procuraram radicalizar o 
pensamento estruturalista, fundando aquilo que se conveniou chamar de escola 
pós-estruturalista, muito próxima ao pensamento pós-moderno como um todo.
No contexto do pensamento estruturalista das décadas de 1950 e 1960, 
podemos observar o movimento de revolução cultural se constituindo. Para 
Hobsbawm (1995), um dos elementos abalados pelas revoluções culturais que 
emergiram do pós 1945 foi a estrutura familiar, quer pela difusão do divórcio 
como possibilidade viável, quer pelo sexo sendo visto como outra forma de 
relacionamento na sociedade.
Uma das principais revoluções culturais se deu pela cultura jovem, que se 
tornou matriz no sentido mais amplo de uma revolução nos modos e costumes, 
nos meios de desfrutar do lazer e nas artes comerciais, que formavam cada 
vez mais a atmosfera respirada por homens e mulheres urbanos. Duas de 
suas características são mais relevantes: a nova cultura era ao mesmo tempo 
informal e antinômica, sobretudo em questões de conduta pessoal. Todo mundo 
tinha de “estar na sua”, com o mínimo de restrição externa, embora na prática 
a pressão dos pares e a moda impusessem tanta uniformidade quanto antes, 
pelo menos dentro dos grupos de pares e subculturas (HOBSBAWM, 1995).
Para Hobsbawm (1995, p. 318):
[...] a nova “autonomia” da juventude como uma camada social separada foi 
simbolizada por um fenômeno que, nessa escala, provavelmente não teve 
paralelo desde a era romântica do início do século XIX: o herói cuja vida e 
juventude acabavam juntas. Essa figura, antecipada na década de 1950 pelo 
astro do cinema James Dean, foi comum, talvez mesmo um ideal típico, no que 
se tornou a expressão cultural característica da juventude — o rock. Buddy 
Holly, Janis Joplin, Brian Jones, membro dos Rolling Stones, Bob Marley, Jimi 
Hendrix e várias outras divindades populares caíram vítimas de um estilo de 
vida fadado à morte precoce. O que tornava simbólicas essas mortes era que 
a juventude por eles representada era transitória por definição.
O conceito de pós-modernidade8
Em síntese, as concepções e a formas de analisar o mundo por meio do 
estruturalismo nos permitem perceber que, ao pensar o processo histórico 
como elemento que está em constante transformação, e que ao mesmo tempo 
é transformado pelos indivíduos, fica claro o quanto das revoluções culturais 
ocorridas no mundo pós 1945 influenciaram e foram influenciadas no processo 
constante. Ademais, nos tempos atuais, ainda podemos perceber o reflexo 
dessas transformações.
A pós-modernidade e a era digital
Conforme explicado na primeira seção deste capítulo, o pós-modernismo é 
um conceito organizado na estrutura sociocultural e histórica pós 1945 até os 
dias atuais, o que consiste no ambiente em que a sociedade pós-moderna está 
inserida, caracterizada pela globalização e domínio do sistema capitalista.
No entanto, de acordo com Jameson (1979), é importante percebermos a 
diferença entre pós-modernismo e pós-modernidade. Segundo essa análise, o 
pós-modernismo refere-se às revoluções culturais, enquanto a pós-modernidade 
trata da estrutura capitalista da sociedade atual com base na globalização. Nesse 
sentido, o capitalismo globalizado, que também pode ser chamado de globali-
zação ou terceiro estágio do capitalismo, está associado à pós-modernidade. 
Mas independente de terminologias, levaremos um bom tempo para sair desse 
estágio, já que o contexto atual desse capitalismo globalizado já ingressa na sua 
quarta geração econômica, da produção industrial e da educação, cercada por 
transformações tecnológicas digitais, inteligência artificial, toda a espécie de 
conectividade e acesso a informações, resultando numa base de dados nunca 
produzida anteriormente na história da humanidade.
Não podemos analisar a pós-modernidade sem falarmosde Bauman, um 
dos grandes pensadores desse período. Em seu livro O mal-estar da pós-
-modernidade, Bauman (1998) mostra precisamente o quanto a liberdade 
individual é contida por fenômenos como a desestruturação do mercado de 
trabalho, a criminalização da pobreza e a mercantilização de importantes 
espaços culturais e emocionais como a arte e o amor. Nesse sentido, sua história 
é de uma ordem que não pode ser construída, na medida em que a maior parte 
dos atos da vida e suas motivações foi desregulamentada, depois de ter sido 
concentrada, centralizada, globalizada e liberalizada pelo capitalismo global.
No contexto desse capitalismo globalizado, além de todas essas questões 
sociais e políticas, ainda encontramos as transformações que resultaram das 
demandas atuais, caraterizadas pela era digital nas relações e nosso modo de 
9O conceito de pós-modernidade
vida. Com isso em vista, Hartog (2014) chama essa concepção de “presentismo”, 
isto é, a suposta e ampla dominância, a partir das últimas décadas da história 
da humanidade, do presente sobre qualquer noção de passado ou futuro.
Segundo essa perspectiva, a sociedade atual testemunha grandes revoluções 
tecnológicas, as quais acabam por interferir e influenciar nas relações sociais, 
políticas e econômicas, das tarefas mais complexas até as mais simples, como retirar 
dinheiro no caixa eletrônico, consultar saldo de uma conta bancária na Internet 
ou enviar um simples e-mail. Essas situações do cotidiano exigem o mínimo 
de domínio das tecnologias digitais, que hoje se apresentam como mecanismos 
que fazem parte da realidade presente. Nesse cenário, é preciso ter cuidado para 
não fortalecê-las como potencial de determinismo, mas como possibilidade de 
transformação, para colocá-las a serviço de melhorias das necessidades humanas.
É interessante observar o avanço da era digital em diversas áreas e setores, 
tal como no processo educacional. No mundo da pós-modernidade, estão sendo 
introduzidas cada vez mais tecnologias sofisticadas para melhorar e qualificar 
os processos. Assim, na área do ensino e da aprendizagem, podemos observar 
uma evolução dos recursos, ilustrações textuais, tecnologias audiovisuais, 
slides, computador, Internet, Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVAs), 
software educacional, inteligência artificial, realidade virtual amentada, robó-
tica, pensamento computacional, simulações em 3D e produção de Objetos de 
Aprendizagem (OA), todos eles elementos que na atualidade estão estruturando 
novas formas de ensinar e aprender no contexto da Educação 4.0, em que o 
sujeito constrói seu processo de aprendizagem com base no desenvolvimento 
da autonomia (Figura 3).
Figura 3. Avanços tecnológicos educacionais.
Fonte: Gorodenkoff/Shutterstock.com.
O conceito de pós-modernidade10
Quando pensamos em era digital na pós-modernidade, as mais diversas 
evoluções tecnológicas vêm à mente, numa gama de possibilidades que se abrem 
para reflexão, já que se trata de um termo polissêmico, que apresenta diversas 
vertentes e contextos para ser analisado. Contudo, quando falamos em tecnologia, 
a maioria das pessoas se remete diretamente ao uso do computador ou de aparatos 
eletrônicos. No entanto, essa palavra possui etimologia grega, que significa a 
“ciência da técnica”, a qual provém da junção entre téchne, que significa “arte” 
ou “destreza”, e logos, que quer dizer “estudo” ou “ciência”. Nessa perspectiva, 
pode-se pensar que tecnologia envolve a aplicação dos conhecimentos cientí-
ficos na solução de problemas, ou seja, é o estudo das técnicas que auxiliam a 
humanidade a viver com melhor qualidade (RAIÇA, 2008).
As tecnologias digitais aplicadas ao processo de ensino e aprendizagem 
poderão impulsionar e motivar o desenvolvimento cognitivo ao contribuírem 
para a nossa comunicação e interação. Morin, Ciurana e Motta (2003, p. 22) 
afirmam que a “[...] evolução do conhecimento científico não se dá unicamente 
do crescimento e da extensão do saber, mas também de transformações, 
rupturas, de passagem de uma teoria para outra”. Ainda segundo os autores:
[...] o avanço tecnológico alarga consideravelmente o campo do cognoscível, 
isso é, o campo do que pode ser visto, observado, percebido e concebido. 
[...] esse alargamento do cognoscível faz surgir novos dados que certamente 
existiam, mas eram desconhecidos, e o aparecimento desses novos dados 
como anomalias em relação à teoria existente produz um questionamento da 
teoria (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p. 64).
As transformações alcançadas pelas tecnologias digitais possibilitam novas 
formas de produção do conhecimento, em que sua utilização acaba por conduzir 
a novas propostas e metodologias para ofertar a construção efetiva do saber. 
De acordo com Maraschin (2000), o aparato tecnológico representa uma reali-
dade inegável no cotidiano. Assim, o barateamento dos computadores pessoais, 
a imensa difusão do acesso à Internet e a constante inovação tecnológica 
trouxeram a tecnologia para dentro de todos os processos da sociedade atual. 
Podemos perceber que, desde o desenvolvimento da oralidade e da escrita 
até os tempos atuais, um mundo digital está se inaugurando; porém, até chegar 
ao patamar que se encontra, a sociedade vivenciou inúmeras transformações 
que foram produzidas por esses avanços tecnológicos e, ao mesmo tempo, pela 
própria sociedade. A geração atual está vivenciando uma revolução tecnológica 
digital, que acaba por gerar uma nova cultura, com novos tipos de trocas, novos 
espaços e tempos, novas posturas diante dessas transformações, resultando no 
que é chamado de “cibercultura”. Para Levy (1999), a cibercultura é definida 
11O conceito de pós-modernidade
como o conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), práticas, atitudes, modos 
de pensamento e valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento 
do ciberespaço, definido pelo autor como um espaço de interação digital. 
Essas noções são corroboradas por Marques (2006, p. 104), quando afirma 
que “[...] a tecnologia não é simplesmente ciência aplicada, mas ciência reedifi-
cada e impulsionada por instrumentos técnicos conceituais propositadamente 
instituídos”. Nesse sentido, o autor afirma que:
O dinamismo, caracterizado também pela crescente evolução da informação e 
da tecnologia, provoca profundas mudanças no mundo do trabalho e no âmbito 
da educação. São perplexidades e desafios que exigem a produção de novos 
conhecimentos e, além disso, uma busca de proposições educacionais que 
atendem às necessidades dos novos tempos e cenários. Esse processo revela 
que, ao mesmo tempo em que há um alargamento tecnológico, ele não exige 
tecnicista; ao contrário, reivindica uma formação abrangente que permita 
ampliar as diferentes maneiras de interagir com a pluralidade dos diferen-
tes mundos que hoje se entrecruzam, ou lê-la, reconhecê-la e interpretá-la. 
Dessa forma, o que está em jogo é a criação de novas maneiras de (re)educar 
as pessoas, para lidar não exatamente com o aparato tecnológico, mas com 
as informações advindas desse novo tipo de saber ou propiciadas por ele 
(MARQUES, 2006, p. 33).
Para analisar se o desenvolvimento tecnológico da pós-modernidade está 
provocando a construção de sujeitos mais autônomos e inteligentes, precisamos 
compreender que, por si só, tais ferramentas não alteram ou modificam as 
pessoas, tornando-as indivíduos evoluídos. O que realmente causa a transfor-
mação significativa é a nossa ação, a nossa estratégia sobre essas tecnologias, 
ou seja, seu modo de uso. Ademais, outros elementos importantes devem ser 
levados em consideração, como o tipo de tecnologia selecionada, a concepção 
intrínseca à construção dessa tecnologia e a mediação que será aplicada sobre a 
ferramenta. Em síntese, podemos refletir que a pós-modernidade, representada 
hoje pelo capitalismo globalizado, é manifestada no presentismo por grandes 
transformações em todas as áreas, principalmente as de cunho tecnológico, 
constituindo uma era marcada pelas fortes caraterísticasdigitais.
O conceito de pós-modernidade12
Via o link a seguir, você terá acesso a uma entrevista produzida pela TV Senado com 
o cientista Isaac Roitmann, professor emérito do Instituto de Ciências Biológicas e 
Coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro da UnB, em que ele fala sobre as 
expectativas quanto ao avanço da tecnologia e o progresso da ciência. Durante a 
entrevista, ele também avalia as mudanças no mundo do trabalho e os desafios 
didáticos para as crianças e jovens de hoje.
https://qrgo.page.link/DFkGF
BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
GASPAR, R. C. A trajetória da economia mundial: da recuperação do pós-guerra aos de-
safios contemporâneos. Cadernos Metrópole, v. 17, n. 33, p. 265–296, 2015. Disponível em: 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-99962015000100265&ln
g=pt&tlng=pt. Acesso em: 4 set. 2019.
GIDDENS, A. A constituição da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
HARTOG, F. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Ho-
rizonte: Autêntica, 2014.
HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX: 1914–1991. São Paulo: Companhia 
das Letras, 1995.
JAMESON, F, Reification and utopia in mass culture. Social Text, n. 1, p. 130–148, 1979. 
Disponível em: https://www.jstor.org/stable/466409?seq=1#metadata_info_tab_con-
tents. Acesso em: 4 set. 2019.
LEVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.
MARASCHIN, C.. A sociedade do conhecimento e a educação a distancia. In: CAPISANI, 
D. (org.). Educação e arte no mundo digital. Campo Grande: Editora da Universidade 
— UFMS, 2000.
MARQUES, M. O. A escola no computador: linguagem rearticulada, educação outra. 
Ijuí: Editora Unijuí, 2006.
MORIN, E.; CIURANA, E.; MOTTA, R. D. Educar na era planetária: o pensamento complexo 
como método de aprendizagem no erro e na incerteza humana. São Paulo: Cortez; 
Brasília: UNESCO, 2003.
13O conceito de pós-modernidade
RAIÇA, D. (org.). Tecnologia para educação inclusiva. São Paulo: Avercamp, 2008.
ROUANET, S. P. As razões do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras,1987.
SALES, L. S. Estruturalismo — história, definições, problemas. Revista de Ciências Humanas, 
Florianópolis, n. 33, p. 159–188, 2003. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.
php/revistacfh/article/view/25371. Acesso em: 4 set. 2019.
SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 
Rio de Janeiro: Record, 2001.
XAVIER, A. I. et al. A organização das Nações Unidas. Coimbra: Publicações Humanas, 
2007. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/abc/onu/onu_humana_global_onu.
pdf. Acesso em: 4 set. 2019.
Leituras recomendadas
ARRIGHI, G. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens do nosso tempo. Rio de 
Janeiro: Contraponto; São Paulo: Editora UNESP, 1996.
BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
EAGLETON, T. Capitalismo, modernismo e pós-modernismo. Crítica Marxista, v. 1, n. 
2, p. 53–68, 1995. Disponível em: https://www.ifch.unicamp.br/criticamarxista/arqui-
vos_biblioteca/artigo265Artigo4.pdf. Acesso em: 4 set. 2019.
HARVEY, D. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 
São Paulo: Edições Loyola, 1996.
O conceito de pós-modernidade14
DICA DO PROFESSOR
A passagem da modernidade para a pós-modernidade vem sendo intensamente estudada em 
várias perspectivas. No entanto, é interessante observar as principais características que 
diferenciam a modernidade da pós-modernidade.
As profundas transformações sociais pelas quais o mundo vem passando nas últimas décadas 
têm permitido que se identifique com mais clareza as diferenças entre o período moderno e pós-
moderno, tanto na trama econômica, quanto na dinâmica da nova organização social. 
Assim, oportuniza a apreensão cada vez mais acurada da realidade característica da pós-
modernidade.
Veja, na Dica do Professor, as características da modernidade e da pós-modernidade.
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EXERCÍCIOS
1) A ideia de pós-modernismo surgiu pela primeira vez no mundo hispânico, na década 
de 1930, uma geração antes de seu aparecimento na Inglaterra ou nos EUA. Porém, 
coube ao filósofo francês Jean-François Lyotard, com a publicação de A Condição 
Pós-Moderna (1979), a expansão do uso do conceito. Em sua origem, pós-modernismo 
significava a perda da historicidade e o fim da grande narrativa - o que no campo 
estético significou o fim de uma tradição de mudança e ruptura, o apagamento da 
fronteira entre alta cultura e cultura de massa e a prática da apropriação e da citação 
de obras do passado (LIMA, 2004). É uma característica importante do pós-
modernismo: 
A) A exploração dos movimentos culturais da contemporaneidade associados as suas 
manifestações e ideologias políticas. 
B) A dissolução de limites rígidos entre os fenômenos culturais, produzindo uma nova visão e 
orientação social. 
C) A manutenção de linhas conservadoras de valor estético, em conformidade com as 
tendências modernistas. 
D) A consolidação de seus estudos na observação do mundo hispânico e na contraposição 
com os valores do velho mundo. 
E) A consolidação dos laços da tradição e da religião na busca por responder a razão que 
orienta a manifestação do ser no mundo. 
2) A religião continua como uma utilidade para muitos, crescendo dentro das igrejas, 
como apoio diante das dificuldades da vida e, em grande medida, a religião funciona 
como um dos tipos de autoajuda, longe de uma preocupação maior com os mistérios 
da existência e da morte. Bauman, no seu livro O mal-estar da pós-modernidade, 
aponta que na pós-modernidade a definição de religião importa em um exercício de: 
A) Supremacia da racionalidade sobre o transcendente. 
B) Substituição de um inefável por outro. 
C) Supremacia do transcendental sobre as tendências históricas. 
D) Autossuficiência. 
E) Articulação de tudo que se sabe. 
3) Pós-modernidade, alta-modernidade, modernização reflexiva, modernidade 
líquida, são algumas categorias utilizadas, no âmbito das ciências sociais, como 
referência ao processo intenso de mudanças sociais, políticas, culturais e estéticas, 
que começou a espalhar-se mundialmente a partir da segunda metade do século XX. 
O que significou esse conjunto de mudanças?
A) Esse conjunto de mudanças alterou o modo de produção industrial, que foi associado a um 
conjunto de atitudes, como a ideia de que o mundo é passível de transformações constantes 
no viés do mercado. 
B) A consolidação e a supremacia do Estado-Nação como organização capaz de conduzir ou 
estancar o fluxo de mudanças econômicas. 
C) A reafirmação dos princípios iluministas de que a ciência, por meio da razão instrumental, 
seria capaz de construir as bases de um novo modelo social. 
D) A continuidade de um modelo trabalhista industrial pautado na rotina, na obediência à 
hierarquia e na alta produtividade industrial. 
E) O surgimento de novas agendas sociais e políticas, caracterizadas por preocupações 
ecológicas e pelo fortalecimento dos movimentos sociais. 
4) O estruturalismo nasce na linguística, sobretudo a partir dos estudos de Ferdinand 
de Saussure, que concebeu a língua como um sistema ou conjunto autônomo e 
unitário de signos. Ao longo do século XX, a análise estrutural foi ampliada, sendo 
aplicada a outros campos do saber; incluindo a antropologia e a sociologia. Em 
termos gerais, com o termo estrutura, os estruturalistas definem:
A) A ordem diacrônica dos fatos, responsável pela contradição interna de um sistema. 
B) Uma cadeia de razões, em relação de causalidade entre si. 
C) A lógica do desenvolvimento histórico da sociedade, incluindo sua trajetória até o 
presente. 
D) Uma totalidade ordenada e organizada, a partir da combinatória de elementos. 
E) Os fenômenos sociais caracterizados pelas ações contingentes dos indivíduos. 
5) A geração atual está vivenciando uma revolução tecnológica digital, que acaba por 
geraruma nova cultura, com novos tipos de trocas, novos espaços e tempos e novas 
posturas diante dessas transformações, resultando no que é chamado de Cibercultura 
(Lévy, 1999). A integração das redes de informação e do espaço virtual ao espaço 
geográfico corrobora para o conceito de:
A) Unidade tecnológica. 
B) Ciberespaço. 
C) Espacialidade digital. 
D) Sociointeratividade. 
E) Tecnosfera. 
NA PRÁTICA
O conceito de pós-modernidade desafia todos a pensar estratégias e metodologias inovadoras 
para o processo de ensinar e aprender, os quais possam responder as demandas da atualidade, 
com as características próprias do seu tempo. Nesse sentido, é preciso pensar uma nova proposta 
de escola, que apoie a construção de sujeitos capazes de agir e interferir na sociedade atual.
Conheça, Na Prática, a escola Âncora, um novo jeito de ensinar e aprender na perspectiva da 
pós-modernidade.
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SAIBA MAIS
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do 
professor:
O que é pós-modernidade?
Neste vídeo, você assiste a Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, explicando o que caracteriza a 
pós-modernidade e apontando o momento em que ela teria começado. Segundo Bauman, a 
revolução pós-moderna acontece quando há a confissão pública de assuntos, até então, privados.
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Pós-modernismo ou pós-modernidade?
Neste vídeo, você assiste a Fredric Jameson, crítico literário e teorista político norte-americano, 
diferenciando pós-modernidade, uma estrutura, e pós-modernismo, um estilo cultural.
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Modernidade, Pós-Modernidade e Emancipação na Perspectiva da Ética da Alteridade
Este artigo fala sobre o enfraquecimento das utopias moderna e, a relativização de certos valores 
da modernidade.
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Pós-modernidade ou antimodernidade?
Neste artigo, você encontra uma reflexão histórica em torno do debate moderno/pós-moderno.
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Conhecimento e educação na pós-modernidade
Este artigo tem como principal objetivo demonstrar a influência da ideia de pós-modernidade 
para o conhecimento e, por conseguinte, para a educação.
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O positivismo e a história
APRESENTAÇÃO
O positivismo foi uma corrente filosófica criada na primeira metade do século XIX pelo francês 
Auguste Comte. Durante aquele período – e ainda no início do século XX –, as ideias 
positivistas alcançaram larga influência sobre as ciências humanas, particularmente sobre a 
História. Dessa forma, surge a escola histórica "positivista", uma corrente historiográfica que se 
apropriou de diversas premissas do positivismo e acabou por se tornar hegemônica na 
historiografia europeia do século XIX. 
Daquele contexto, também emergiram diversas correntes conservadoras, que reagiam ao novo 
mundo rapidamente surgido dos escombros da época medieval. Mais de dois séculos após 
seu surgimento como ideologia, o conservadorismo se tornou um fenômeno complexo que 
continua sendo estudado pelas ciências humanas. 
Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estabelecer comparações entre as correntes 
conservadoras e positivista, além de identificar o conservadorismo como objeto de análise da 
sociologia. A partir disso, você será capaz de relacionar o positivismo com a história científica 
do século XIX. 
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Comparar as correntes conservadoras com a positivista.•
Identificar o conservadorismo como objeto de análise 
da sociologia.
•
Relacionar o positivismo com a história científica do século XIX.•
DESAFIO
Além de sua grande influência na Europa entre os séculos XIX e XX, os ideais positivistas 
atravessaram o Atlântico e chegaram ao Brasil, onde fizeram grande sucesso nos diversos 
círculos intelectuais pró-republicanos e, sobretudo, nas Forças Armadas. Não é à toa que, logo 
após a Proclamação da República por parte dos militares em 1889, a inspiração para a nova 
bandeira nacional veio do lema positivista "O Amor por princípio e a Ordem por base; o 
Progresso por fim".
Neste Desafio, no papel de professor, imagine que você precisa preparar uma aula sobre a 
Proclamação da República para uma turma de 9º ano, em que abordará a influência do 
positivismo nos símbolos nacionais. Para tanto, você vai utilizar a imagem da bandeira do 
Brasil, além da música “Positivismo”, de Noel Rosa e Orestes Barbosa.
Acompanhe a letra dessa canção:
Mediante o exposto, explique como você abordaria o tema de modo a destacar os diferentes 
enfoques dados ao positivismo pelos autores da bandeira brasileira e pelos compositores Noel 
Rosa e Orestes Barbosa.
INFOGRÁFICO
Você já deve ter ouvido por aí os termos conservador ou conservadorismo. Porém, muitas vezes 
as pessoas os utilizam de maneira indiscriminada, sem saber muito bem quais são seus reais 
significados, que podem ser vários.
O conservadorismo surgiu logo após a Revolução Francesa, como uma forma de reação aos 
ideais revolucionários. De lá para cá, já se vão mais de 200 anos, e o conservadorismo tem sido 
objeto de análise da sociologia. Afinal, ele pode se apresentar de diferentes formas. 
No Infográfico a seguir, você conhecerá as mais importantes perspectivas a respeito do 
conservadorismo nos dias atuais.
CONTEÚDO DO LIVRO
Durante o século XIX, a Europa passou por grandes e profundas transformações que tiveram 
impacto em todo o mundo. Desde meados do século anterior, a Inglaterra dava os primeiros 
passos no evento que ficou conhecido como Revolução Industrial, que atinge seu ápice nas 
primeiras décadas do século XIX. Na França, em 1789, revolucionários derrubam a monarquia 
absolutista, abrindo caminho para que a burguesia – que já tinha o predomínio econômico – 
alcançasse o poder político. Naquele contexto, de rápidas transformações estruturais da 
sociedade, novas e influentes correntes filosóficas começaram a surgir, algumas inspiradas pelos 
novos avanços, outras reagindo contra eles. 
Da mesma forma que as ciências naturais experimentaram grande progresso ao longo do século 
XIX, as ciências humanas também se desenvolveram largamente no mesmo período. É 
precisamente na interseção entre ambas que desponta o positivismo, criado pelo francês Auguste 
Comte. Nessa doutrina, surge a concepção de que as ciências humanas devem utilizar os 
mesmos métodos das ciências naturais, buscando a total objetividade em suas pesquisas. É 
assim que se nota a influência positivista sobre as correntes historiográficas do século XIX. Por 
outro lado, é igualmente no século XIX que o conservadorismo surge como ideologia, em 
reação à Revolução Francesa. 
No capítulo O positivismo e a história, da obra Teoria da História e Historiografia, você vai 
encontrar uma discussão sobre o positivismo e as correntes conservadoras do século, e também 
verificará como o conservadorismo é visto sob a ótica da sociologia, conhecendo, ainda, as 
relações entre o positivismo e a história científica do século XIX. 
Boa leitura.
TEORIA DA 
HISTÓRIA E 
HISTORIOGRAFIA
Eduardo Pacheco Freitas
O positivismo e a história
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Comparar as correntes conservadoras com a positivista.
  Identificar o conservadorismo como objeto de análise da sociologia.
  Relacionar o positivismo com a história científica do século XIX.
Introdução
O século XIX foi um período fértil para o surgimento de novas correntes 
de pensamento. Durante aquele período, as rápidas transformações eco-
nômicas, sociais e políticas, advindas sobretudo da Revolução Industrial 
inglesa e da Revolução Francesa, estimularam o ambiente intelectual da 
Europa Ocidental,que ora se manifestava favorável às novas conquistas 
técnicas e sociais (progressismo), ora reagia contra a dissolução do Antigo 
Regime (conservadorismo, reacionarismo).
Foi justamente nesse contexto atribulado que o francês Auguste 
Comte criou a sociologia e uma nova doutrina chamada de positivismo. 
O positivismo se tornou uma das correntes filosóficas mais influentes 
daquele século e, além de seu impacto político, trouxe grandes mudanças 
para as ciências humanas — sobretudo para a história —, que passaram 
a utilizar métodos das ciências naturais em suas pesquisas.
Neste capítulo, você vai aprender as principais características do po-
sitivismo e das correntes conservadoras do século XIX. Você também 
vai conhecer as diferentes perspectivas a respeito do conservadorismo 
enquanto objeto de análise da sociologia e, por fim, aprender quais são 
as relações entre o positivismo e a história científica do século XIX.
O positivismo e as correntes conservadoras
Auguste Comte e o positivismo
É bastante provável que você já tenha ouvido falar no termo “positivismo”, da 
mesma forma que já deve ter lido em algum lugar que Auguste Comte (1798–1857) 
foi o “pai” da sociologia. Mas você já se perguntou por que veio a ter esse co-
nhecimento mesmo sem ainda ser um profi ssional da área das ciências humanas?
Em primeiro lugar, é importante termos em mente que o século XIX foi 
pródigo na criação de novas doutrinas, filosofias e correntes de pensamento. 
Desde a filosofia idealista até o marxismo — sua antítese completa —, durante 
aquele século o pensamento humano sofreu grandes e profundas reviravol-
tas, que o continuam influenciando ainda no século XXI. É por isso, muito 
provavelmente, que você já teve algum contato com o positivismo, pois tal 
doutrina foi justamente uma das novas — e mais influentes — formas de 
se pensar a realidade surgidas no século XIX. Seu criador, Auguste Comte, 
francês nascido na cidade de Montpellier, pode ser considerado o “inventor” 
da sociologia, ciência que não existia até então.
Mas como Comte definia esta nova ciência? 
De acordo com ele, a sociologia é “[...] o estudo positivo do conjunto das 
leis fundamentais próprias dos fenômenos sociais” (BOURDÉ; MARTIN, 
1990, p. 52). Portanto, em termos mais simples, a sociologia se trataria da 
ciência que estuda a sociedade ao buscar compreender as leis que regem seu 
funcionamento. Assim, seria literalmente uma “ciência da sociedade”, uma 
espécie de “física social”, semelhante às outras ciências da natureza. Durante 
aproximadamente 25 anos, Comte editou o seu Curso de Filosofia Positivista, 
composto por 60 lições. Foi mais precisamente na 47ª lição que Comte chamou 
de sociologia este novo ramo do saber humano.
A nova ciência dividia-se em dois domínios: a “estática social”, que se 
referia à existência propriamente dita da sociedade, e, portanto relacionada 
a uma teoria da ordem; e a “dinâmica social”, relativa ao movimento da so-
ciedade e ao progresso.
Aqui saltam aos olhos os traços fundamentais do positivismo, que, pos-
teriormente, influenciarão as escolas históricas do século XIX. A primeira 
característica a se destacar é o entendimento que Comte possuía sobre como a 
sociedade deveria funcionar. De acordo com suas conclusões, uma sociedade 
só pode existir se houver uma rígida ordem social; portanto, Comte, defendia a 
existência de um governo forte, autoritário, capaz de manter a sociedade coesa 
e em funcionamento, embora este governo não devesse cercear a liberdade de 
O positivismo e a história2
expressão (LACERDA, 2004). Desta forma, seria possível atingir o progresso, 
que Comte chama de “dinâmica social”. Em resumo, toda e qualquer sociedade 
(sem perdermos de vista que Comte pensava sempre em termos de sociedades 
europeias, as quais considerava o auge da civilização), tendo como objetivo 
último o progresso, deve estar baseada na ordem. Há uma verdadeira fé no 
progresso moral e social humano, devendo ser o Estado o ente que concentra 
a racionalidade e uma república ditatorial sua forma de governo.
Outro fator central do pensamento comtista diz respeito à “lei dos três estados”, 
que, em primeiro lugar, apresenta-se como uma teoria do conhecimento, mas acaba 
por se revelar também uma filosofia da história. Comte julgava ter descoberto uma 
lei que regia o desenvolvimento da inteligência humana ao longo do tempo. De 
acordo com seus estudos, todo o ramo do conhecimento passava obrigatoriamente 
por três etapas históricas: a teológica (ou fictícia), a metafísica e a positiva.
No estado teológico, o ser humano buscaria a explicação de todos os 
fenômenos através da atuação de agentes sobrenaturais (divindades, por 
exemplo), que incidiriam sobre a realidade. No estado metafísico, que Comte 
considerava apenas uma simples modificação do estado teológico, os con-
ceitos substituiriam os deuses, isto é, em vez de apelar para explicações 
sobrenaturais, os homens, embora ainda desconhecendo a explicação cien-
tífica de determinados fatos, desenvolveriam categorias filosóficas sobre 
estes (BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 52–5). 
Finalmente, temos o terceiro estágio, chamado por Comte de “estado positivo”. 
Nessa etapa, o ser humano busca o conhecimento através da observação e do 
raciocínio, atendo-se a explicar os fatos de maneira científica, em seus termos 
reais. Comte aplica a lei dos três estados especialmente à evolução das sociedades 
ocidentais, correspondendo o estado teológico à Idade Média, o metafísico ao 
Renascimento e ao século das Luzes e, por fim, o estado positivo diretamente 
ao século XIX, fruto da Revolução Industrial e dos desenvolvimentos científicos 
e tecnológicos (BOURDÉ; MARTIN, 1990).
Não se confunda. Para Comte, o termo “positivo” não significa o contrário de “nega-
tivo”. De acordo com a sociologia desenvolvida por este pensador, “positivo” seria 
todo aquele conhecimento adquirido única e exclusivamente por meio de métodos 
científicos (COMTE, 1978).
3O positivismo e a história
Assim, delineadas as principais características do positivismo, você terá 
condições de compreender melhor sua influência sobre as escolas históri-
cas do século XIX, sobretudo a chamada Escola Metódica. Esta corrente 
historiográfica, tendo como seus proponentes mais célebres Gabriel Monod 
(fundador da Revue Historique, em 1876), Charles-Victor Langlois e Charles 
Seignobos, tinha pretensões cientificizantes para o ofício do historiador, o 
qual deveria apresentar total neutralidade e objetividade perante suas fontes, 
como se desaparecesse atrás delas. Assim, retirava-se da história qualquer 
traço de subjetividade, restringindo-se a investigação historiográfica aos fatos 
(curta duração) e às vidas das grandes personalidades, através do uso estrito 
de documentos escritos e oficiais.
Auguste Comte, próximo ao final de sua vida, chegou à conclusão de que uma política 
positiva somente poderia ser implementada a partir de uma religião positiva. Assim, 
foi criada a “Religião da Humanidade”, cujo principal dogma assentava-se sobre uma 
trindade: o Grande Meio (o Espaço), o Grande Ídolo (a Terra) e o Grande Ser (a Hu-
manidade). Para tanto, era necessária a constituição de uma igreja com sacerdotes, 
templos e uma imagem feminina a ser adorada (inspirada em Clotilde de Vaux, paixão 
não correspondida de Comte) (BOURDÉ; MARTIN, 1990, p. 52). Alguns templos foram 
construídos, inclusive no Brasil. Em Porto Alegre, o Templo Positivista encontra-se em 
funcionamento até os dias de hoje
Acessando o link a seguir, você poderá assistir a um minidocumentário que mostra 
como funcionam os cultos da “Religião da Humanidade”, criada por Auguste Comte.
https://qrgo.page.link/qMx6D
O idealismo alemão
Um dos grandes debates existentes até os dias de hoje no âmbito das ciências 
humanas diz respeito às relações entre sujeito e objeto. Nas ciências naturais, 
evidentemente, é muito mais simples atingir a plena objetividade. Na descrição 
de um átomo (objeto), por exemplo, as experiências pessoaisou as preferências 
religiosas e partidárias do cientista (sujeito) não terão infl uência alguma.
Já nas ciências humanas, sujeito e objeto podem se confundir, o que nos leva 
à outra discussão, agora de caráter epistemológico e fi losófi co: a realidade é 
O positivismo e a história4
um dado, sobre o qual a existência do sujeito não interfere absolutamente, ou 
então a existência do objeto é condicionada pelo sujeito (FONSECA, 2009)?
É nesse ponto que temos a divisão entre duas correntes importantes de 
pensamento. De acordo com o “realismo”, é a primeira afirmação que está 
correta, isto é, existe uma realidade objetiva independente da subjetividade. 
É importante destacarmos que aqui há um ponto de aproximação com o po-
sitivismo, pois este acredita na possibilidade de total distinção entre sujeito 
e objeto, podendo, dessa forma, ser enquadrado nas correntes realistas. Já o 
“idealismo”, de maneira inversa, percebe a existência de uma razão subjetiva, 
dando, portanto, grande destaque ao subjetivismo. De acordo com Fonseca 
(2009, documento on-line), “[...] a primeira corrente (realismo) (...) coloca 
nessa relação cognitiva um forte acento no objeto; já a segunda corrente 
(idealismo) acentua, na operação do saber, a figura do sujeito”. Em resumo, 
são epistemologias distintas, duas formas opostas de compreender como se 
dá o processo de apreensão da realidade.
O idealismo alemão foi uma corrente filosófica surgida em fins do século 
XVIII e que se desenvolveu principalmente nas primeiras três décadas do 
século XIX, fortemente imbuída pelo espírito romântico da época. O contexto 
de sua aparição é uma época em que os países mais adiantados da Europa 
(Inglaterra, França e Holanda) já haviam conseguido impor as novas relações 
de produção capitalista, derrotando o feudalismo e conduzindo a derrota do 
absolutismo. Portanto, o idealismo é uma forma de filosofia clássica da as-
censão da burguesia como classe dominante. No entanto, a Alemanha — que 
naquele momento sequer havia conseguido unificar seu território — ainda era 
o país mais atrasado social e economicamente da Europa Ocidental, fato que 
contrastava com a sofisticada filosofia produzida pelos alemães. 
As origens dessa corrente de pensamento podem ser traçadas até Immanuel 
Kant (1724–1804), que influenciou os trabalhos dos grandes nomes do idealismo 
alemão no século XIX: Fichte, Schelling e o mais importante deles, Hegel. 
Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu em Stuttgart em 1770, morrendo 
em Berlim em 1831. Sua obra frequentemente é tida como obscura e de difícil 
compreensão, servindo de base filosófica tanto para movimentos reacionários 
quanto para progressistas, como no caso de seus discípulos que se dividi-
ram entre a “direita hegeliana” e a “esquerda hegeliana”. Esta divisão se dá 
basicamente devido a dois aspectos profundos e contraditórios da filosofia 
de Hegel. O primeiro deles, que inspirou Weisse e Fichte (direita hegeliana), 
diz respeito à “teoria do real como racional”, que acabava por concluir que o 
Estado prussiano era a forma política mais elevada produzida pela humanidade, 
ensejando, portanto, uma obediência completa. Já Feuerbach, Bauer e Marx 
5O positivismo e a história
(esquerda hegeliana) voltaram-se à dialética de Hegel (tese, antítese e síntese) 
e à sua filosofia da história, defendendo que o socialismo seria historicamente 
inevitável (DURAND, 1996).
Para se ter uma boa ideia da importância intelectual da polêmica entre os discípulos 
de Hegel, basta levarmos em consideração que foi a partir dela que uma nova e 
radical concepção da história surgiu. No livro A Ideologia Alemã, escrito por Karl Marx 
e Friedrich Engels entre 1845 e 1846 (mas publicado somente em 1932), os autores 
fazem uma crítica contundente aos autores alemães que expressavam a maneira 
idealista de pensar, lançando assim as bases para o materialismo histórico-dialético.
Romantismo
O romantismo foi um movimento fi losófi co e cultural que teve seu ápice no 
século XIX, na Alemanha. Para compreendê-lo, é necessário analisarmos o 
contexto histórico europeu daquele período. O século XIX é o “século bur-
guês”, assim chamado pois é o momento em que, após a Revolução Industrial
(que transformou radicalmente a economia e o modo de produção) e a Revolu-
ção Francesa (que marca uma ruptura política defi nitiva em relação ao Antigo 
Regime), a burguesia, agora constituída como classe, consegue consolidar seu 
poder econômico e político. 
Este mundo novo, que rapidamente emerge na Europa entre os séculos 
XVIII e XIX, não tardou a provocar reações no mundo intelectual, que muitas 
vezes traduziu, via novas correntes de pensamento ou estéticas, a insatisfação 
de determinados grupos da sociedade — dentre eles a nobreza — com as 
profundas transformações ocorridas em tão curto espaço de tempo. É neste 
contexto que surge o romantismo, saudoso de uma Europa que deixava de 
existir, soterrada sob os escombros da Idade Média. 
O subjetivismo é uma das marcas principais do movimento romântico, con-
trastando enormemente com a busca da objetividade inerente ao positivismo. 
Como afirma Ribeiro (2010, p. 7), “[...] o espírito romântico passa a designar 
toda uma visão do mundo centrada no historicismo e no individualismo. Se o 
século XVIII fora marcado pela objetividade, pelo Iluminismo e pela razão, 
o início do século XIX seria marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela 
O positivismo e a história6
emoção e pelo eu”. Portanto, a partir desse entendimento podemos afirmar que 
o romantismo se tratou de um movimento de caráter conservador, até mesmo 
reacionário, pois renegava os avanços do século das Luzes e da ciência que 
haviam desembocado nas duas grandes revoluções do período (Industrial e 
Francesa). 
Em relação à historiografia, sobretudo a francesa, é possível observarmos 
grande influência do romantismo. Enquanto no século XVIII os historiadores 
iluministas procuravam apagar qualquer lembrança do período medieval
(chamado a partir dessa época de “Idade das Trevas”), a abordagem historio-
gráfica sobre o medievo foi transformada no século XIX. Todavia, a questão 
não é tão simples. A Idade Média não passou a ser vista com mais simpatia 
pelos historiadores franceses do século XIX apenas por um capricho intelectual 
ou mera nostalgia. O cerne da questão está no entendimento de que o pro-
cesso revolucionário havia desagregado a França. Assim, historiadores como 
François Guizot (1787–1874), Jules Michelet (1798–1874) e Augustin Thierry 
(1795–1856) — pioneiros na utilização de fontes originais —, voltaram-se 
à Idade Média no intento de buscar as origens da nação francesa e escrever 
uma história comum a todos os franceses. De acordo com Oliveira (1999, 
documento on-line), essa romantização do passado medieval francês — con-
trarrevolucionária, vale frisar — teve como origens o fato de que havia uma 
“[...] necessidade de consolidar as instituições sociais, de estabelecer a paz e 
a ordem entre as classes, de obter a unidade da nação”. 
Historicismo
O historicismo é uma corrente de pensamento que, assim como o idealismo, 
o romantismo e o positivismo, adquire força durante o século XIX, possuindo 
relações com estas. Por historicismo, podemos entender uma forma de conceber 
a história na qual se dá importância em demasia ao passado, que passa a ser 
glorifi cado. Nesse sentido, o historicismo tende a buscar a preservação de 
costumes, instituições e valores de um determinado povo, apresentando-se, 
assim, como uma corrente conservadora, que se aproxima muito do romantismo 
e do tradicionalismo. Outra característica fundamental do historicismo reside 
no entendimento de que a pesquisa histórica se resume à coleta e compilação 
de dados históricos, aproximando-se, dessa forma, da visão positivista da 
história, que pode ser defi nida como objetivismo histórico (SCHOLTZ, 2001).
No entanto, a relação entre historicismo e a questão metodológica nas 
ciências se torna mais complexa a partir do pensamento do filósofoalemão 
Wilhelm Dilthey (1833–1911). Dilthey, um dos herdeiros do historicismo do 
7O positivismo e a história
final do século XIX, procurou estabelecer claramente a distinção metodológica 
entre as ciências humanas e as naturais. A partir de seu trabalho, houve uma 
importante caracterização das ciências humanas como ciências interpretativas, 
que não poderiam ser adaptadas à lógica das ciências naturais, evidenciando, 
portanto uma concepção oposta à de Comte. Contudo, embora fosse um crítico 
da visão positivista — por acreditar, ao contrário desta, que não era possível 
no campo das “ciências do espírito” se falar em leis gerais que regessem a 
história ou a sociedade —, para alguns autores Dilthey não estava tão distante 
assim do positivismo, já que evitou tirar conclusões que colidissem com a ideia 
de uma ciência livre de valores (SCOCUGLIA, 2002).
O conservadorismo como objeto da sociologia
Você já deve ter se deparado muitas vezes com o termo “conservador”. É 
frequente em debates políticos que uma ou outra parte busque desqualifi car 
seu adversário caracterizando-o como representante do conservadorismo 
ou então como defensor de práticas políticas e sociais conservadoras. Já na 
linguagem cotidiana, conservador seria aquele indivíduo que não é muito 
afeito a mudanças, geralmente nos costumes. Mas você sabe realmente qual 
o signifi cado do conceito conservadorismo? Trata-se de uma ideologia, com 
uma história já bastante longa, diga-se de passagem, e que tem sido objeto de 
estudos muito sérios por parte das ciências sociais.
O surgimento da ideologia conservadora
O conservadorismo surge enquanto ideologia como uma forma de reação 
às intensas transformações políticas, sociais e econômicas que passam a 
ocorrer no Ocidente entre fi ns do século XVIII e início do século XIX. 
Em síntese: o conservadorismo é uma ideologia reativa “[...] que tende a 
emergir quando confrontada a propostas radicais de mudança social”
(GAHYVA, 2017, documento on-line). Afi nal, foram muitas revoluções em 
pouquíssimo tempo: Revolução Industrial, Revolução Americana, Revolução 
Francesa... Tudo o que era sólido estava se desmanchando no ar e as novas 
relações sociais advindas do desmoronamento do Antigo Regime (feudalismo 
e absolutismo) causavam forte impacto no imaginário dos intelectuais, pro-
vocando uma verdadeira batalha de ideias. 
O positivismo e a história8
O irlandês Edmund Burke (1729–1797) foi o principal nome da ideologia 
conservadora. Temeroso de que os ventos da revolução na França soprassem 
sobre a Irlanda e a Inglaterra, produziu em 1790 (apenas um ano depois de 
iniciado o processo revolucionário francês) o livro Reflexões sobre a Revo-
lução em França, em que expõe os princípios básicos do conservadorismo, 
que ainda hoje, passados mais de 200 anos, servem como guia para os que se 
afiliam à corrente conservadora.
No livro, Burke volta-se sobretudo contra a Declaração dos Direitos do 
Homem e do Cidadão, proclamada pelos revolucionários franceses, que, 
em última análise, marcava a refundação da sociedade agora assentada so-
bre os direitos naturais. Assim, Burke demarcará a posição do conserva-
dorismo frente ao avanço dos ideais da Revolução. Como explica Gahyva 
(2017, documento on-line): 
Se os revolucionários reivindicam a refundação da sociedade a partir da noção 
de direito natural, Burke opera uma reversão sistemática da ideia de natureza 
que fará escola no pensamento conservador. Para ele, natural não é o que 
vale para todos os homens, ou aquilo que pertence essencialmente à natureza 
humana — isto é, o que se refere ao homem considerado anteriormente a 
todos os vínculos sociais. Natural, ao contrário, corresponde ao resultado de 
longo desenvolvimento histórico. Para Burke, a natureza equivale à história.
Como fica claro no trecho citado, Burke descarta a ideia de direitos 
naturais como entendida pelos iluministas e que acabaria por influen-
ciar sobremaneira os ideais revolucionários (direito à vida, à liberdade, à 
igualdade, à propriedade etc.). Para o ideólogo do conservadorismo, mais 
importante do que tudo isso são os costumes e as tradições. Se, por exem-
plo, a aristocracia feudal tem prevalência na sociedade sobre os outros 
grupos sociais, com privilégios e direitos diferenciados, é porque isto re-
sultou de um longo processo histórico, que, portanto, não deve ser alterado.
Como afirma Souza (2016, documento on-line), na visão burkeana “[...] a 
divisão da sociedade em classes e a desigualdade social, portanto, compõem 
um quadro de hierarquia e ordenamento correspondentes à natureza”. Trata-
-se de um pensamento absolutamente conservador e contrarrevolucionário, 
que vê em qualquer transformação estrutural da sociedade e na busca pela 
igualdade inimigos a serem combatidos.
9O positivismo e a história
Um bom exemplo para compreendermos a ideologia conservadora está nas diferentes 
concepções de Edmund Burke sobre as revoluções americana (1776) e francesa (1789), 
já que o autor concordava com a primeira e combatia ferozmente a segunda. Para 
Burke (1997b), a Revolução Francesa se tratava de um movimento conduzido por 
“homens de letras”, que tinham como único objetivo a subversão total da ordem, já 
que, segundo sua visão, não possuíam apreço por “[...] quase nada [...] que foi feito 
antes de sua época” e viviam “[...] apenas em função de novas descobertas” (BURKE, 
1997a, p. 108). Por outro lado, o autor via a Revolução Americana como a luta dos “[...] 
colonos americanos [...] pela preservação de seus hábitos e costumes em face de uma 
potência estrangeira” (GAHYVA, 2017, documento on-line).
Outro importante nome do conservadorismo foi o francês Alexis de Toc-
queville (1805–1859). Este autor produziu importantes análises sobre as causas 
da Revolução Francesa, bem como sobre as origens do ideal revolucionário de 
igualdade, duramente combatido pelos ideólogos do conservadorismo, por ser 
considerado incompatível com o exercício da liberdade. Para Tocqueville, o 
próprio regime absolutista, por seu processo de centralização administrativa, 
havia pavimentado o caminho não só para a revolução como para o socialismo. 
Portanto, de acordo com Tocqueville, a Idade Média havia sido o momento 
histórico que privilegiou a liberdade e a heterogeneidade, substituídos em 
seguida pela igualdade e homogeneidade oriundas da centralização do poder 
absoluto.
Para você conhecer melhor o pensamento de Alexis de Tocqueville, leia o texto A feno-
menologia do poder: Marx, Engels, Tocqueville, de autoria do filósofo italiano Domenico 
Losurdo, disponível no link a seguir.
http://ref.scielo.org/3jx5hk
O positivismo e a história10
Perspectivas sociológicas do conservadorismo
Do ponto de vista sociológico, além de uma ideologia, o conservadorismo 
pode apresentar, no mínimo, outras três interpretações. Na primeira delas, 
o conservadorismo é visto como uma forma de pragmatismo político, isto é, 
uma doutrina política que não apresenta conteúdo próprio, na qual tudo que 
possa ser útil acaba por ser incorporado ao seu programa. 
Já a segunda interpretação, a situacional — que não deve ser confundida 
com a pragmática — ocorreria quando uma força política institucionalizada, 
ao perceber qualquer movimento que possa tirá-la do poder — não necessaria-
mente por vias revolucionárias, mas até mesmo por meras medidas reformistas 
—, acaba por demonstrar uma postura defensiva frente a novas ideias. 
Por fim, a terceira perspectiva, que pode ser chamada de habitual, refere-
-se ao entendimento de que ser conservador é algo “natural”, ou seja, de que 
o conservadorismo faz parte da essência humana. Dessa forma, o conceito 
é transformado em algo “a-histórico”, isto é, passa a ser encarado como um 
fato da natureza e não uma ideologia que apresenta origens históricas bem 
definidas como examinamos anteriormente. Esta última perspectiva é utilizada, 
em geral, pelos próprios conservadores (VARES, 2015).
No entanto, as classificações possíveis do conservadorismonão param por 
aqui. De acordo com Vares (2015, documento on-line):
Mesmo no interior do pensamento conservador as divergências são enormes. 
A este respeito, podemos identificar duas posições antagônicas. A primeira 
delas defende que há apenas uma doutrina genuína do conservadorismo, o 
que invalida a tese acerca dos diversos conservadorismos [que vimos acima]. 
A segunda, mais difundida, aponta a existência de diferentes correntes con-
servadoras das quais é possível destacar pelos menos três grandes ideologias, 
a saber, a tradicionalista, a romântica e a liberal.
Para o conservadorismo tradicionalista, as convenções sociais, as tradições 
e os costumes assumem importância central na sociedade. Por isso, dentro 
desta visão, dá-se muito mais valor às coisas práticas do que às teóricas. 
Outro aspecto importante nesse tipo de conservadorismo é a visão de que as 
mudanças na sociedade devem ocorrer lentamente, de maneira natural. Isso 
tem um impacto direto na concepção acerca da desigualdade, pois de acordo 
11O positivismo e a história
com a visão tradicionalista ela é natural, não tendo origem social. Dentro do 
conservadorismo romântico, percebe-se a idealização de um passado mítico, 
em que a vida seria mais simples e por isso mesmo melhor. Há uma tendência 
a se contrapor a cidade ao campo, a indústria à agricultura, os tempos de hoje 
aos “tempos de antigamente”, sempre valorizando-se os últimos em relação aos 
primeiros. Finalmente, temos o conservadorismo liberal. Nesse tipo de vertente 
conservadora costumam-se aceitar os principais valores do liberalismo clássico: 
o individualismo, a propriedade privada e o Estado mínimo (VARES, 2015).
O positivismo e a histórica científica
do século XIX
“Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais” é um antigo 
provérbio árabe retomado pela antropóloga Lilia Schwartz na apresentação 
à edição brasileira do clássico da historiografi a Apologia da História ou o 
Ofício do Historiador, de Marc Bloch (2001, p. 7). No mesmo texto, a autora 
recupera outra afi rmação complementar a esta, desta vez de Lucien Febvre, 
fundador, juntamente com Bloch, da Escola dos Annales: “a história é fi lha 
de seu tempo”. 
Para compreendermos corretamente a relação entre a doutrina de Auguste 
Comte e a forma que a pesquisa histórica assumiu entre meados do século 
XIX e as primeiras décadas do século XX, é importante considerarmos que 
toda produção humana é sempre determinada pelas condições gerais de sua 
época, sejam elas materiais ou intelectuais. Assim, torna-se evidente que o 
positivismo, enquanto uma das correntes de pensamento mais importantes 
do século XIX, exerceu forte influência sobre a produção intelectual e histo-
riográfica daquele século.
Ranke e a história positivista
O século XIX é conhecido como o “século burguês” por ser o momento his-
tórico em que a burguesia, agora constituída como classe, promove grandes 
revoluções econômicas e políticas, consolidando seu poder. Na esteira dessa 
transformação social, os avanços tecnológicos daquele século (motores, 
trens, química, telégrafo etc.) terão um grande impacto sobre o imaginário 
social, sobretudo nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, fazendo surgir 
o conceito de progresso. A humanidade (do ponto de vista do Ocidente, vale 
O positivismo e a história12
sempre lembrar) parecia encontrar-se em um caminho de desenvolvimento 
social e técnico infi nito, em que a ciência e a sua objetividade tornaram-se os 
novos parâmetros a conduzir as atividades dos homens. É nesse sentido que 
podemos compreender as razões para que até mesmo as ciências humanas 
deixassem de lado a subjetividade e buscassem se tornar cada vez mais 
semelhantes às ciências naturais. Há um verdadeiro ideal de neutralidade 
por parte dos novos historiadores, infl uenciados pelo positivismo e imbuí-
dos da missão de realizar uma “revolução copernicana” (BURKE, 1997b) 
na historiografi a, que tem como seu maior expoente o historiador alemão 
Leopold von Ranke (1795–1886).
Contudo, é importante verificarmos antes uma breve afirmação de Peter 
Burke (1997b, p. 17) sobre a história da historiografia, a fim de esclarecermos 
melhor a “revolução” posta em marcha por Ranke: 
Desde os tempos de Heródoto e Tucídides, a história tem sido escrita sob uma 
variada forma de gêneros: crônica monástica, memória política, tratados de 
antiquários, e assim por diante. A forma dominante, porém, tem sido a nar-
rativa dos acontecimentos políticos e militares, apresentada como a história 
dos grandes feitos de grandes homens — chefes militares e reis. Foi durante 
o Iluminismo que ocorreu, pela primeira vez, uma contestação a esse tipo 
de narrativa histórica.
Muitos historiadores e intelectuais do século XVIII (Voltaire é um exemplo) 
passaram a se preocupar em escrever uma história que não se restringisse aos 
temas recém-citados, mas que procurasse abordar outros aspectos do desenvol-
vimento histórico das sociedades, como a economia, a moral, os hábitos etc. 
Portanto, é somente a partir do Iluminismo que acontece uma transformação 
real na forma como os historiadores encaravam a história, explicitada nos 
novos recortes, nos novos objetos de estudo. Assim, quando Ranke valoriza 
excessivamente a história política e demonstra total desprezo por qualquer 
outro campo historiográfico que não seja esse, podemos tirar duas conclusões 
principais: (1) Ranke foi profundamente influenciado pelo positivismo e (2) 
a propalada “revolução” que ele supostamente teria provocado no método 
histórico se trata na verdade de uma “contrarrevolução”, já que vai contra a 
tendência de abertura de novos campos investigativos na história que ocorria 
desde o século XVIII. 
Ranke é tido como o criador dessa nova escola histórica, chamada científica, 
que é baseada nos preceitos positivistas de separação total entre sujeito e objeto, 
de utilização da metodologia das ciências naturais nas ciências humanas, do 
13O positivismo e a história
uso exclusivo de documentos escritos e oficiais como fontes e, principalmente, 
de que o passado pode ser apreendido totalmente enquanto objeto de estudo 
da ciência, desde que aplicados estes pressupostos. 
Apesar destas pretensões, que desconsideram a subjetividade do pesqui-
sador, como se este pudesse “desaparecer” por detrás de suas fontes e de 
seus textos, a história científica de Leopold von Ranke, sem dúvida alguma, 
promoveu grandes avanços no ofício do historiador. Talvez a maior conquista a 
partir da abordagem rankeana seja a prioridade no uso de fontes primárias e a 
necessidade de uma crítica rigorosa dos documentos estudados. Além disso, o 
modelo criado por Ranke atravessou as fronteiras da Alemanha, influenciando 
decisivamente a chamada “escola metódica”, surgida na França. 
A influência da história positivista na França
Em 1876, foi fundada em Paris a Revue Historique (Revista Histórica) por 
Gabriel Monod (1844–1912) e Gustave Charles Faganiez (1842–1927), na qual 
os pilares da escola metódica começam a ser estabelecidos, seguindo os passos 
da história positivista de Ranke. Em seu círculo de colaboradores, a revista 
acabou servindo como espaço de projeção para aqueles que se tornariam os 
mais conhecidos historiadores desta corrente historiográfi ca: Charles-Victor 
Langlois (1863–1929) e Charles Seignobos (1854–1942). Com a publicação 
do texto “Introdução aos Estudos Históricos”, extremamente infl uente nas 
gerações posteriores de historiadores, Langlois e Seignobos procuraram 
estabelecer o método a ser seguido pelo historiador. Contudo, revelando a 
infl uência de Ranke e do positivismo em geral, permaneceram afeitos a uma 
história do tipo événementielle, isto é, fi xada apenas nos eventos, nos fatos 
históricos. Essa perspectiva histórica seria superada somente muitas décadas 
depois, com o surgimento da revista Annales, fundada por Marc Bloch e 
Lucien Febvre, em 1929.
Dessa forma, é possível perceber que o positivismo, embora surgido no 
século XIX, teve grandeinfluência sobre a historiografia, chegando até o 
século XX. No entanto, neste último, muitas outras correntes historiográficas 
surgiram, criando diversas subespecialidades dentro do campo histórico e 
tornando ainda mais complexo o trabalho do historiador. 
O positivismo e a história14
BLOCH, M. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BOURDÉ, G.; MARTIN, H. As escolas históricas. Lisboa: Publicação Europa–América, 1990.
BURKE, E. Reflexões sobre a Revolução em França. Brasília: Editora da UnB, 1997a.
BURKE, P. A escola dos Annales (1929–1989): a revolução francesa da historiografia. São 
Paulo: Unesp, 1997b.
COMTE, Auguste. Curso de filosofia positiva. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
DURAND, E. A história da filosofia. Rio de Janeiro: Nova Cultural, 1996.
FONSECA, R. M. O positivismo, “historiografia positivista” e história do direito. Argumenta 
Journal Law, n. 10, p. 143–166, 2009. Disponível em: http://seer.uenp.edu.br/index.php/
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Política e Sociedade, v. 16, n. 35, p. 299–320, 2017. Disponível em: https://periodicos.ufsc.
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RIBEIRO, R. A. O. Romantismo: contextualização histórica e das artes. 2010. Dissertação 
(Mestrado em Música) — Instituto Politécnico de Castelo Branco, Escola Superior de 
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SCHOLTZ, F. O problema do historicismo e as ciências do espírito no século XX. História 
da Historiografia, n. 6, p. 42–63, 2001. Disponível em: https://www.historiadahistoriografia.
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SCOCUGLIA, J. B. C. A hermenêutica de Wilhelm Dilthey e a reflexão epistemoló-
gica nas ciências humanas contemporâneas. Sociedade e Estado, v. 17, n. 2, p. 249–
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SOUZA, J. M. A. Edmund Burke e a gênese do conservadorismo comparação ideias liberais 
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VARES, S. F. A sociologia durkheimiana e a tradição conservadora: elementos para 
uma revisão crítica. RBSE — Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 14, n. 40, p. 
135–156, 2015. Disponível em: http://www.cchla.ufpb.br/rbse/VaresRes.pdf. Acesso 
em: 15 jul. 2019.
15O positivismo e a história
Leituras recomendadas
LOSURDO, D. A fenomenologia do poder: Marx, Engels, Tocqueville. Lua Nova: Revista 
de Cultura e Política, n. 38, p. 31–53, 1996. Disponível em: http://ref.scielo.org/3jx5hk. 
Acesso em: 15 jul. 2019.
MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
O positivismo e a história16
DICA DO PROFESSOR
A Escola Metódica foi uma das mais importantes correntes historiográficas inspiradas pelo 
positivismo. Surgida na França, a partir da publicação da Revista Histórica, em 1876, exerceu 
influente papel na formação de gerações de historiadores, que encontraram em seu método uma 
forma de "cientificizar" a produção do conhecimento histórico. Por outro lado, 
essa escola apresentou sérias limitações ao trabalho do historiador, sobretudo no que diz respeito 
ao uso das fontes.
Diante disso, nesta Dica do Professor, aproveite para conhecer o contexto histórico e as 
principais características da Escola Metódica.
Veja a seguir.
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EXERCÍCIOS
1) Durante o desenvolvimento da filosofia positivista, houve uma verdadeira 
transformação do pensamento científico no interior das ciências humanas. O 
positivismo tornou-se muito influente sobre estas, principalmente sobre a história, 
trazendo a fé inabalável no progresso científico e o rigor metódico para o trabalho do 
historiador.
Qual das características apresentadas a seguir comprova isso?
A) Separação total entre sujeito e objeto.
B) Lei dos três estados.
C) Subjetivismo.
D) Idealismo.
E) Idealização de um passado mítico.
2) Leopold von Ranke foi um dos historiadores mais influenciados pelo positivismo. 
Frequentemente é visto como um "revolucionário" da historiografia, porém, alguns 
autores consideram que Ranke fez uma "contrarrevolução" no método histórico, já 
que posicionou-se contra os campos de estudo abertos pelos historiadores iluministas. 
Dessa forma, é possível compreender os recortes realizados pelo autor e sua 
predisposição em valorizar determinadas áreas do conhecimento histórico em 
detrimento de outras. 
A partir disso, qual campo da história foi privilegiado por Ranke? 
A) História social.
B) História cultural.
C) História econômica.
D) História política.
E) História geral.
3) Edmund Burke é tido como o criador da ideologia conservadora, em fins do século 
XVIII. Seus escritos foram uma reação às grandes transformações pelas quais a 
Europa passava naquele momento, sobretudo em decorrência do processo 
revolucionário na França. Burke posicionou-se contra os direitos naturais, 
defendidos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, por considerá-los 
incorretos. 
Nessa questão dos direitos naturais, que equívoco metodólogico Burke comete?
A) Naturaliza algo que é histórico.
B) Não aponta soluções para o problema.
C) Considera a França um país inferior.
D) Não deixa claro seu ponto de vista.
E) Não expõe sua visão sobre os privilégios.
4) A ideologia conservadora de Burke fica muito clara nos posicionamentos que o autor 
assume perante as Revoluções Americana (1776) e Francesa (1789). Em relação a esta 
última, Burke considerava um movimento de "homens de letras", que não tinham 
apreço pela tradição e que valorizavam somente aquilo que era novidade. O que 
evidência a divergência com o autor, já que este defendia a tradição. 
Em relação à Revolução Americana, qual foi o motivo para que Burke a apoiasse?
A) Burke acreditava que a Revolução Americana seria um exemplo para a Inglaterra.
B) Burke via a Revolução Americana como um desenvolvimento natural da história.
C) Burke considerava a Revolução Americana uma revolta de colonos que lutavam pela 
preservação de sua cultura.
D) Burke simpatizava com o caráter republicano da Revolução Americana.
E) Burke confiava plenamente nos colonos.
Wilhelm Dilthey foi um dos nomes mais importantes da corrente de pensamento 
chamada historicismo. Essa corrente, por um lado, aproxima-se do positivismo, 
5) 
devido a seu entendimento de que a pesquisa histórica deve se resumir à coleta e à 
compilação de fatos históricos, caracterizando um objetivismo histórico, por outro 
lado, afasta-se do positivismo.
Qual característica comprova essa última afirmação?
A) Dilthey considerava as ciências humanas como interpretativas.
B) O método de Dilthey era o das ciências naturais.
C) Dilthey acreditava em uma ciência livre de valores.
D) Dilthey defendia somente o método das ciências humanas.
E) Dilthey acreditava em leis gerais.
NA PRÁTICA
Uma das características fundamentais do bom professor de História é saber associar eventos 
históricos às ideias correntes no período em que ocorreram. Portanto, ao professor não basta 
simplesmente explicar acontecimentos com base em datas e nomes, sem a devida 
contextualização teórica.Daí a importância do estudo das ideias influentes em cada etapa 
histórica e suas relações com a sociedade. Assim, as razões para que eventos tenham ocorrido ou 
deixado de ocorrer se tornarão mais claras para os alunos. Por exemplo, para ensinar sobre a 
Idade Antiga, é importante conhecimentos gerais sobre a mitologia grega; para conteúdos de 
Idade Média, é indispensável que o professor tenha noções sobre as doutrinas cristãs daquele 
período; para as Idades Moderna e Contemporânea, o professor deve conhecer as 
características do liberalismo, do socialismo e do conservadorismo. 
Neste Na Prática, você entenderá melhor a importância que a história das ideias tem nas aulas 
do ensino fundamental. Note como ela pode ser articulada aos fatos históricos, pela utilização de 
conhecimentos sobre a ideologia conservadora, criada por Edmund Burke, para o conteúdo de 
Revolução Francesa. 
SAIBA MAIS
Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do 
professor:
A última religião
Excelente documentário que refaz a trajetória do positivismo no Brasil, desde sua chegada, em 
meados do século XIX, passando pelo seu auge na Proclamação de República e chegando até os 
dias de hoje. Aproveite.
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O pensamento conservador
O seguinte artigo, do professor Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas, traz 
uma discussão muito interessante sobre as relações entre o pensamento conservador e o 
pensamento científico.
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Historicismo e história
APRESENTAÇÃO
No século XIX, diversas correntes de pensamento surgiram, provocando uma verdadeira 
revolução no pensamento humano. Dentre elas, destaca-se o historicismo alemão, que 
geralmente é classificado em romântico (do início daquele século) e epistemológico (situado na 
passagem para o século XX). Essa corrente filosófica causou grande impacto sobre as ciências 
humanas, sobretudo por suas discussões a respeito dos melhores métodos a serem empregados 
nas pesquisas sobre o ser humano e a sociedade. Assim, novos paradigmas foram criados, 
tornando a ciência histórica e as ciências sociais cada vez mais complexas.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você aprenderá a diferenciar o historicismo romântico do 
epistemológico, bem como conhecerá as principais características do pensamento de Wilhelm 
Dilthey. Você também estudará a história e o desenvolvimento dos principais paradigmas das 
ciências sociais.
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Diferenciar o historicismo romântico do epistemológico.•
Identificar a experiência vivida e a veracidade no processo histórico em Dilthey.•
Analisar a história e os paradigmas atuais das ciências sociais.•
DESAFIO
Um dos principais desafios do historiador é a capacidade de domínio conceitual. É impossível 
produzir conhecimento histórico sem a compreensão detalhada dos conceitos que o historiador 
utiliza para entender e explicar o seu objeto e os processos históricos, ocorrendo em dois níveis 
principais. Em um deles, o historiador deve conhecer – e dominar – o instrumental teórico e 
conceitual que diz respeito diretamente ao objeto que analisa. Por exemplo, para produzir 
conhecimento sobre a Idade Média, é fundamental que o pesquisador compreenda conceitos 
como feudalismo e cristandade. Sem eles, torna-se inviável um trabalho histórico sobre o 
período.
Em outro nível, o historiador precisa dominar os conceitos que dizem respeito ao seu próprio 
ofício, bem como à história da historiografia. Somente dessa maneira o historiador, além de 
produzir pesquisas com sentido, poderá compreender o sentido da sua própria atuação em 
relação ao que já se fez no passado e ao que se espera do presente e do futuro. O historicismo e 
as suas diferentes correntes são um exemplo importante sobre a diferença que faz na trajetória 
de um historiador ter o conhecimento sobre as formas de se pensar a história que surgiram há 
muito tempo, mas que continuam a influenciar o ofício historiográfico no presente. Portanto, é 
sempre importante que o historiador faça reflexões acerca dos problemas que o historicismo 
coloca, de forma a comunicar os resultados que encontra aos seus pares encetando discussões a 
respeito dos modos de escrita da história.
Você escreveu um artigo no qual discute as principais diferenças entre o historicismo romântico 
e o historicismo epistemológico. Ele foi aprovado para apresentação em um congresso sobre 
historicismo e história, e os organizadores informaram que você terá apenas cinco minutos para 
a sua comunicação e que ela deverá ser exposta em três tópicos. Dessa forma, você precisará 
demonstrar grande capacidade de síntese, expondo o conteúdo de maneira esquemática, porém 
sem perder a profundidade.
Diante desse cenário, você deve:
1) Escrever um roteiro que servirá como base para a sua fala no evento.
2) Elaborar uma apresentação de slides contendo os três tópicos e as informações que você 
considera indispensáveis para abordar o tema.
INFOGRÁFICO
Nas ciências sociais, existem quatro pressupostos básicos que servem como orientação para as 
pesquisas realizadas, não somente na área, mas nas ciências humanas em geral e na história 
especificamente. O primeiro deles é o ontológico, que busca a essência por trás da aparência dos 
fenômenos sociais; o segundo é o pressuposto epistemológico, responsável pela verificação dos 
modos que o conhecimento se apresenta; há o pressuposto da natureza humana, que investiga as 
relações entre indivíduos e ambiente; e, por fim, o pressuposto metodológico, que serve para 
conduzir os métodos de investigação. Esses pressupostos são a base para todos os paradigmas 
que já foram utilizados pelas ciências sociais. 
Da mesma forma, na questão da interdisciplinaridade, extremamente relevante na produção do 
conhecimento nos dias atuais, os paradigmas citados também são utilizados pela antropologia, 
etnologia, história, etc.
No Infográfico, você irá conhecer todos esses paradigmas: funcionalista, interpretativo, 
humanista radical, estruturalista radical e o da globalização.
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CONTEÚDO DO LIVRO
Na área da história, bem como das ciências humanas em geral, é fundamental o domínio de suas 
respectivas teorias. O historicismo foi uma das correntes de pensamento mais influentes sobre a 
produção historiográfica do século XIX, tornando-se uma importante filosofia da história que 
até os dias de hoje ainda tem relevância dentro dos estudos históricos. Um de seus nomes mais 
conhecidos foi o alemão Wilhelm Dilthey, que produziu reflexões sobre diversas áreas das 
humanidades, fundamentando teórica e metodologicamente muitas dessas ciências. 
No capítulo Historicismo e história, da obra Teoria da História e Historiografia, você conhecerá 
as características do historicismo e aprenderá a diferenciar o historicismo romântico do 
epistemológico. Você também conhecerá o pensamento de Wilhelm Dilthey e o seu conceito de 
"experiência vivida", bem como a história e os paradigmas das ciências sociais. 
Boa leitura.
TEORIA DA 
HISTÓRIA E 
HISTORIOGRAFIA
Eduardo Pacheco Freitas
Historicismo e história
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Diferenciar o historicismo romântico do epistemológico.
  Identificar a experiência vivida e a veracidade no processo histórico 
em Dilthey.
  Analisar a história e os paradigmas atuais das ciências sociais.
Introdução
No século XIX, algumas correntes filosóficas se tornaram extremamente 
importantes para a consolidação da ciência histórica. Dentre elas, a mais 
relevante foi o historicismo, que se dividiu em duas perspectivas prin-
cipais, o historicismo romântico, do início do século, e o historicismo 
epistemológico, da passagem do séculoXIX para o XX. Dentro desse 
último, outras subdivisões surgiram, situando-se uma delas em torno 
do pensamento de Wilhelm Dilthey e a outra nos trabalhos de Heinrich 
Rickert e Wilhelm Windelband.
Além da história, essas novas abordagens do mundo histórico-social 
tiveram grande impacto sobre o desenvolvimento das ciências sociais, 
sobretudo no que tange a suas metodologias e paradigmas. Naquele 
momento, as discussões se tornaram bastante intensas em torno da 
problemática do uso de metodologias das ciências naturais nas ciências 
humanas.
Neste capítulo, você vai aprender a diferenciar o historicismo român-
tico do epistemológico, bem como conhecer as principais características 
e definições em geral do historicismo. Você também vai identificar o 
significado da experiência vivida (vivência) para Dilthey e como ela se 
articula na veracidade do processo histórico. Por fim, você poderá analisar 
a história e os novos paradigmas das ciências sociais.
Historicismo romântico e epistemológico
Características e definições gerais do historicismo
O termo historicismo tem origem na palavra alemã Historismus, e até hoje 
não existe um verdadeiro consenso sobre qual a melhor tradução para o por-
tuguês, se historicismo ou historismo. Contudo, o primeiro termo teve seu 
uso consagrado, enquanto o segundo possui um signifi cado próprio como 
veremos adiante. O historicismo se trata de uma expressão característica da 
cultura germânica, associada à revolta romântica contra o Iluminismo. Seu 
auge correspondeu à notoriedade da escola histórica alemã, com Leopold von 
Ranke e Johann Gustav Droysen. Assim, o historicismo esteve diretamente 
ligado à transformação da história em uma disciplina profi ssional, havendo, 
desta forma, a superação da habitual história erudita e exemplar em benefício 
de uma ciência racional e específi ca: a ciência histórica (FALCON, 2010). 
Além disso, o historicismo ocupou papel importante na fi losofi a e na teoria 
social em fi ns do século XX.
Podemos entender por historicismo também a época histórica na qual 
a história se constituiu como ciência. Da mesma maneira, o historicismo é 
uma forma de reação à crise de orientação pela qual passavam as sociedades 
europeias após a Revolução Francesa, surgindo a necessidade da elaboração 
de uma nova consciência histórica que fosse crítica à exaltação da razão 
pelo Iluminismo. Já na segunda metade do XIX a nova consciência acerca 
da história havia se institucionalizado com seu próprio discurso científico e 
acadêmico, permanecendo influente até hoje na ciência histórica. Em outras 
palavras, o historicismo é um tipo de produção historiográfica característico 
do século XIX.
O contexto alemão do início do século XIX é fundamental para compre-
endermos algumas características importantes do historicismo. A Alemanha 
ainda não havia se unificado, sendo um território composto por diversos 
pequenos Estados, dos quais a Prússia era o mais importante. Assim, uma 
parcela expressiva dos intelectuais do período nutria o desejo que a Alemanha 
se tornasse uma mesma nação unificada, sob o comando da Prússia. Ao mesmo 
tempo, havia uma luta pela manutenção das tradições, que via na história 
uma forma de educar a nação e estabelecer um espírito em comum aos seus 
membros. É exatamente nesse âmbito que o historicismo se encaixa, pois tinha 
Historicismo e história2
como um dos seus objetivos posicionar-se contra a Revolução Francesa, contra 
o socialismo, contra a democracia e favoravelmente à monarquia prussiana.
Assim:
[...] os historicistas combateram a revolução, a dissolução do passado, proposta 
pelos iluministas. Seu projeto era o de fortalecer o passado construindo uma 
‘história científica’, que o reconstruísse com a maior fidelidade; que o crista-
lizasse e o endurecesse. A história científica veio opor-se à história filosófica 
[e se essa] pudesse vencer toda especulação, todo subjetivismo teleológico, e 
restaurasse o passado em sua verdade, ela serviria à sua conservação (REIS, 
2002, documento on-line).
Esse era o espírito dos historiadores alemães do período. Lutavam contra a 
revolução a partir de justificativas que buscavam no passado, como forma de 
legitimar a ordem existente. Ao mesmo tempo, faziam a crítica do racionalismo 
iluminista, considerado, por suas relações com os processos revolucionários, 
uma ameaça à sociedade. Em síntese, o historicismo foi um movimento con-
servador e de reação ao Iluminismo e seus valores universalizantes.
A unificação da Alemanha, um sonho acalentado pelos historicistas, só viria a ocorrer 
de fato em 1871, com o término da guerra franco-prussiana e o surgimento do Impé-
rio Alemão. Após a derrota dos franceses, o chanceler prussiano Otto von Bismarck 
(1815–1898) obteve enorme prestígio, conseguindo assim concretizar a unificação 
alemã sob o comando da Prússia.
O conceito de historicismo é bastante problemático, devido ao seu caráter 
muitas vezes confuso e polissêmico. Assim sendo, é sempre uma tarefa com-
plexa e arriscada a tentativa de uma definição precisa de seu significado. No 
entanto, como estamos nos referindo aqui ao historicismo alemão clássico, 
as possibilidades para sua descrição se tornam mais simples. Em síntese, o 
historicismo é uma forma eminentemente germânica de se pensar a história. 
Em geral, são destacadas — de maneira esquemática — as seguintes carac-
terísticas do historicismo (REIS, 2002):
3Historicismo e história
  trata-se de uma “invenção da história”, ou seja, a descoberta desta como 
ramo do conhecimento, em que se exige uma “atitude de historiador” 
(metodologia própria);
  foi uma revolução cultural que afetou também o direito, a literatura, 
a política etc.;
  distingue os fenômenos naturais e dos históricos, e, por isso, defende 
diferentes métodos de investigação;
  a história — e somente ela — explica todos os fenômenos humanos.
Além disso, é importante destacarmos o “contextualismo” como um prin-
cípio central do historicismo, isto é, a visão de que cada cultura deve ser 
compreendida em seus próprios termos. Outro pressuposto importante diz 
respeito ao entendimento de que a história existe como realidade estruturada 
e como totalidade, como uma linha que se desenvolve segundo uma direção 
ou sentido que podem ser racionalmente apreendidos.
A história do historicismo pode ser dividida em três fases. Na primeira delas, 
temos o historicismo romântico, que é irracionalista, opondo-se frontalmente 
ao racionalismo iluminista, colocando em seu lugar a história; na segunda fase, 
surgem os trabalhos de Johann Gustav Droysen e Leopold von Ranke, com 
a ascensão da escola histórica alemã; por fim, temos a terceira e última fase, 
que corresponde ao historicismo epistemológico, característico da passagem 
do século XIX para o XX, quando ocorre uma crise da consciência histórica. 
Nessa fase, o historicismo é quase um retorno ao positivismo.
Historicismo romântico
Entre o término do século XVIII e início do XIX, surge o movimento chamado 
de romantismo, tendo como seu ponto de partida os trabalhos do literato Frie-
drich Schlegel (1772—1829). O movimento se posicionou claramente desde 
seus primórdios como uma reação contra o racionalismo, o cosmopolitismo 
e o universalismo iluministas. Dessa forma, temos duas formas de compre-
ensão dos fenômenos do mundo colocadas em campos opostos: a racional e 
científi ca do iluminismo versus a busca do absoluto pela escola romântica. 
Para muitos autores, o historicismo romântico deve ser chamado simplesmente 
de “historismo” (MARTINS, 2002).
Historicismo e história4
O romantismo, com seu foco na subjetividade e no “eu”, teve forte influ-
ência sobre o ofício dos historiadores no início do século XIX, conduzindo a 
uma nova forma de conhecimento histórico que agora atribuía aos indivíduos 
(muitas vezes vistos sob a perspectiva da genialidade ou do heroísmo) papel 
preponderante no desenrolar da história. Contudo, o historicismo romântico 
não se restringia somente a esse tipode individualidade. Para os historia-
dores que subscreveram essa nova forma de pensar a história e produzir a 
historiografia, havia também o indivíduo coletivo, isto é, as comunidades, 
que poderiam ser categorizadas como épocas, povos ou nações. Esse é um 
entendimento central na filosofia da história de Herder, que veremos adiante.
Um dos aspectos típicos do historicismo romântico é a nostalgia pelo 
passado. Devido à visão contestatória do presente da qual surgiu, o movi-
mento romântico em geral valorizava o passado, como um tempo melhor e 
que, infelizmente, havia desaparecido. Daí seu o foco na Idade Média e nas 
origens da humanidade, bem como nas chamadas regiões exóticas do planeta. 
Assim, foram realizados muitos estudos linguísticos e a publicação de muitos 
documentos do período medieval.
Um dos nomes mais importantes para a primeira fase do historicismo foi 
Johann Gottfried Herder (1744—1803). Autor de obras importantes de filosofia da 
história como Mais uma filosofia da história para educação da humanidade (1774) 
e Ideias sobre uma filosofia da história da humanidade (1791), Herder exerceu 
profunda influência sobre o chamado historicismo romântico, ocupando papel de 
destaque na consolidação do historicismo como uma nova forma de abordagem 
— assim como novo entendimento — da história. Como fator principal para 
isso, podemos citar suas ideias acerca da individualidade e da evolução humana.
Herder interpretava a história de maneira a valorizar aquilo que era in-
dividual e original em cada povo. Dessa forma, exaltava a diferença e a di-
versidade entre os diferentes povos ao longo da história. Para demonstrar 
seu ponto de vista, valia-se de metáforas sobre a infância e a maturidade da 
humanidade. Para Herder, as sociedades amadureciam como crianças, tendo 
suas peculiaridades aprimoradas no devir histórico, como, em tese, seria a 
evolução individual de um ser humano. Além disso, acreditava na existência 
de um centro de felicidade de cada povo e época, dando ênfase a um aspecto 
central do historicismo: toda cultura tem seus valores específicos, de forma 
que felicidade e sucesso não podem ser vistos como valores universais.
5Historicismo e história
A partir destas premissas, Herder estruturou sua visão da história e, de 
acordo com Gaio (2007, documento on-line): “[...] analisou as diversas civili-
zações da história universal em analogia com o desenvolvimento do homem: 
o despotismo oriental representaria a infância da humanidade, assim como os 
gregos seriam os adolescentes e Roma a chegada à fase adulta”.
Herder tinha viés providencialista, isto é, acreditava na interferência divina 
nos destinos dos povos, cabendo somente a Deus o conhecimento do futuro de 
cada um deles. Por outro lado, não via a história como uma sucessão de povos 
que superavam uns aos outros, em uma evolução constante, mas a entendia 
como o decurso dos erros e das virtudes destas sociedades, parecendo-lhe 
uma eterna revolução.
A ideia principal de Herder caracteriza perfeitamente o historicismo ro-
mântico: cada época deve ser avaliada sob seus valores. Portanto, há nesse 
caso uma colisão com os ideais iluministas, que defendiam o direito natural 
e a imutabilidade da natureza humana. Por isso mesmo, Herder atacava a 
filosofia francesa da história, por considerá-la equivocada ao julgar outras 
épocas a partir de seus próprios parâmetros.
Historicismo epistemológico
Como visto, o historicismo se opôs radicalmente à concepção de história 
iluminista. Se para o Iluminismo a história é a parteira do futuro, para os 
historicistas ela deve ser objeto de culto e reconstituída fi elmente pelo histo-
riador. O que temos então é um embate entre revolucionários e conservadores. 
Portanto, a história científi ca do século XIX se inscreve em uma tradição inte-
lectual conservadora. Na perspectiva iluminista, a história era uma ideologia 
cúmplice do passado, que, por justifi car as trevas, precisaria ser destruída 
junto com ele tendo em vista o futuro. Os historicistas rebatiam, afi rmando 
a impossibilidade do futuro ser objeto do conhecimento, enquanto o passado 
poderia ser rigorosamente reconstituído.
O historicismo epistemológico, que teve seu auge no final do século XIX 
e início do século XX, surge como uma forma de contestação à filosofia da 
história do historicismo romântico. Para esta, o espírito (o ser humano) era 
ontologicamente oposto à natureza (duas essências completamente distintas). Já 
para o historicismo epistemológico, tanto a história poderia ter uma abordagem 
naturalista quanto a natureza poderia ter uma abordagem histórica. Deste 
Historicismo e história6
entendimento decorre a visão peculiar do historicismo epistemológico sobre 
a autonomia das ciências sociais, que deveria se distanciar metodologicamente 
das ciências da natureza.
Muitas vezes, nas ciências sociais, os conceitos são obscuros, de difícil compreensão. 
Por isso, é necessário esclarecermos que, ao falarmos de “historicismo epistemológico”, 
estamos nos referindo à importância que esse ramo do historicismo dá à busca da 
compreensão de como conhecemos e entendemos a história. A palavra “epistemologia” 
vem da junção das palavras gregas episteme, que significa “conhecimento verdadeiro”, 
e logos, que, de maneira sintética, é sinônimo de ciência. Portanto, epistemologia é a 
ciência que estuda o conhecimento humano. Em outras palavras, epistemologia é uma 
teoria do conhecimento que busca amparar-se sobre a metodologia científica, a única 
capaz, segundo seu entendimento, de produzir saberes verdadeiros. De acordo com 
Quine (1989, p. 91), “[...] a epistemologia se interessa pelos fundamentos da ciência”.
Nas fileiras do historicismo epistemológico, havia uma cisão entre duas 
correntes filosóficas principais que tinham por objetivo, através de métodos 
diversos, realizar uma crítica da razão histórica. Para a primeira delas, orga-
nizada em torno de Wilhelm Dilthey (1833–1911), a tentativa de apreender o 
humano e o histórico por meio de categorias da lógica conduzia inevitavelmente 
ao formalismo vazio, distanciado da vida real (MATA, 2016).
Dilthey, assim como Georg Simmel (1858–1918), é considerado um neokan-
tiano crítico, ou até mesmo um antikantiano, pois suas reflexões acerca da 
história uniam a epistemologia à filosofia. Ou seja, embora sendo um histori-
cista que, em tese, deveria repelir as especulações filosóficas, Dilthey acabava 
por abraçá-las, efetuando assim um desvio dentro do historicismo.
Na outra vertente, encontravam-se Heinrich Rickert (1863–1936) e Wilhelm 
Windelband (1848–1915), tidos somente como neokantianos e criadores da 
chamada escola de Baden. Estes pensadores recusavam-se a ver os estudos 
históricos enquanto filosofia, pois acreditavam que a história se tratava única 
e exclusivamente de uma forma concreta de abordagem e compreensão da 
realidade.
7Historicismo e história
Immanuel Kant (1724–1804), filósofo nascido na então Prússia Oriental, tornou-se a 
grande referência para os pensadores do historicismo epistemológico. Isso porque Kant 
foi o pioneiro, na filosofia moderna, nas reflexões sobre os limites do conhecimento, 
sempre buscando suas interconexões com a razão e a prática. Dessa forma, acabou 
estabelecendo as bases para o idealismo alemão.
No link a seguir, você pode conferir uma matéria com informações interessantes 
sobre a vida e obra de Kant: 
https://qrgo.page.link/8N6JQ
No trecho a seguir, Reis (2002, documento on-line) esboça um excelente 
resumo sobre as características da escola de Baden: 
[...] esse historicismo estritamente epistemológico, sem ‘contaminações fi-
losóficas’, foi considerado por muitos como uma recaída no positivismo. Era 
uma reivindicação de cientificidade particular que propunha uma postura 
contemplativa, distanciada dos problemas e opções políticas. E, por isso, 
era conservador. Por um lado, evitava o naturalismo; por outro, buscava um 
padrão científico de tipo físico.
Assim, é possível perceber com mais clareza

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