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Estratégia Competitiva Anderson Mota 2008 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br M917 Mota, Anderson. / Estratégia Competitiva. / Anderson Mota. — Curitiba : IESDE Brasil S.A. , 2009. 284 p. ISBN: 978-85-7638-964-4 1. Concorrência. 2. Administração de empresas. 3. Trustess in- dustriais. I. Título. CDD 338.6048 IESDE Brasil S.A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br Todos os direitos reservados. © 2008 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. Capa: IESDE Brasil S.A. Imagem da capa: IESDE Brasil S.A. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Anderson Mota Especialista em Análise Financeira e de Investi- mentos pelo ICES-GPGA.Graduado em Ciências Econômicas pela PUC-MG. Ocupou cargos de gestão em empresas nacionais e multinacionais. Consultor de empresas, professor e orientador na Fundação Dom Cabral, no IBMEC, e na Fun- dação Getulio Vargas, tendo atuado no Brasil e no exterior. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br su m ár io su m ár io su m ár io su m ár io Ampliando a visão sobre a estratégia competitiva 13 13 | Desenvolvimento da estratégia 18 | A estratégia aplicada aos negócios Análise do ambiente interno 29 29 | Os recursos 32 | As capacidades 33 | As competências essenciais 34 | A cadeia de valor 35 | Os fatores críticos de sucesso 39 | A análise do ambiente interno 40 | Conceitos econômicos para uso de recursos e capacidades 48 | Economias de aprendizagem ou experiência Análise do ambiente externo 55 56 | O ambiente geral 57 | O ambiente da indústria 60 | O ambiente dos concorrentes 61 | Oportunidades e ameaças 62 | Concorrência 69 | Parcerias e alianças Estratégia competitiva e posicionamento 75 77 | Estratégias genéricas 81 | Criação de valor 86 | Valor e posicionamento 88 | O processo de criação de valor 89 | Terceirização, uma forma de ampliar os recursos e criar valor 91 | Análise conjunta das forças e fraquezas, oportunidades e ameaças (swot – strength, weakness, opportunities, threats) Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições 97 99 | Breve histórico das fusões e aquisições 100 | Diferentes naturezas das fusões e aquisições 102 | Sinergias, um forte argumento para fusões e aquisições 103 | As escolhas da empresa para fusões ou aquisições 107 | Dificuldades inerentes às fusões e aquisições 109 | Reestruturação Governança corporativa 115 116 | Propriedade versus administração 118 | Relações de agência 120 | Concentração da propriedade 123 | Conselhos de direção e de administração 126 | Remuneração executiva 126 | Diferenças da governança corporativa em outros países 126 | Algumas características do modelo praticado na Alemanha 127 | Algumas características do modelo praticado no Japão 128 | Algumas características do modelo praticado na Europa de origem latina 128 | Algumas características do modelo praticado nos Estados Unidos Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br su m ár io su m ár io su m ár io su m ár io Estratégia internacional 135 138 | Identificar oportunidades internacionais 139 | Explorar recursos e capacidades 139 | Usar a competência essencial – formas de entrada 142 | Estratégia multilocal 143 | Estratégia global 144 | Estratégia transnacional 144 | Determinantes da vantagem nacional 146 | Riscos e oportunidades no mercado internacional 147 | Limites da expansão internacional: administrando problemas 148 | A internacionalização de empresas latino-americanas O controle da execução da estratégia 157 158 | O desdobramento das estratégias 160 | O impacto externo das perspectivas 161 | O double loop (duplo laço)uma estrutura para ação estratégica 164 | A perspectiva financeira 166 | A perspectiva de clientes 170 | A perspectiva dos processos internos 173 | A perspectiva do aprendizado e crescimento 179 | A construção de mapas estratégicos A estrutura para a estratégia 189 192 | Os níveis de diversificação organizacional 195 | Os cinco mecanismos de coordenação de Mintzberg 197 | As cinco partes da organização 198 | A estrutura na forma U 200 | A estrutura na forma H 200 | A estrutura na forma M 205 | Estrutura matricial 206 | Estrutura em rede Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia para o empreendedorismo 213 214 | A quebra do equilíbrio estático walrasiano 216 | A natureza e a importância dos empreendedores 217 | O empreendedor e o intra-empreendedor Liderança na condução da estratégia 233 235 | Estilos de liderança estratégica 239 | Recursos organizacionais 240 | A direção estratégica 242 | Desenvolvimento dos RH 244 | Como é forjada a cultura organizacional 246 | Mudando a cultura Alianças estratégicas e estratégia cooperativa 251 251 | O que é uma aliança estratégica 256 | Formas de alianças 260 | As alianças e a decisão de fazer ou comprar 263 | Alianças internacionais 264 | Estratégia cooperativa Gabarito 273 Referências 277 Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Apresentação E stratégia C om petitiva A relevância do estudo da estratégia dispensa apresentações. No entanto, convém introduzi- la com sendo o caminho previamente indicado pelas diretrizes pretendidas pelas instituições, à busca de obter e sustentar sua vantagem com- petitiva, realizando no dia-a-dia o objetivo do seu negócio que, segundo Peter F. Drucker, é “criar um cliente”. O tema “estratégia”, qualquer que seja a sua forma de abordagem, será sempre instigante, uma vez que remete o analista à busca de sinais concretos manifestados no meio ambiente capazes de possibilitar a interpretação de ten- dências que orientem os próximos passos das instituições. Utilizo aqui o termo instituição em razão do seu significado de amplo espectro, isto é, termo que pode ser aplicado a qualquer es- pécie de organização, com ou sem fins lucrati- vos, governamental ou privada, de serviço ou de manufatura. As origens do termo estratégia estão vinculadas às artes militares, como confirma a etimologia da palavra, que tendo sido derivada do termo grego strategos, significa “a arte do general”, isto é, a arte da guerra, o que inclui a expedição, a campanha ou a tropa em campanha. Na verdade associar a trajetória das organiza- ções, às campanhas militares é uma forma de in- terpretar os confrontos entre empresas, em sua trajetória para conquista de clientes no merca- do, como as muitas escaramuças militares. Assim, em toda a sua dinâmica, a estratégia pro- cura interpretar os movimentos dos diversos agentes econômicos que possam favorecer ou prejudicar a posição assumida pela instituição Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br E stratégia C om petitiva induzindo-a a assumir novosposicionamentos que a favoreçam. Torna-se atraente o risco en- volvido devido às inúmeras possibilidades desse “jogo”, visto que em suas diferentes interpreta- ções, não há duas “jogadas” iguais, tampouco, há duas conseqüências idênticas, ainda que, as “jo- gadas” que lhe deram origem se assemelhem. O presente livro, em sua organização, tem a pre- tensão de examinar as diferentes vertentes desse tema instigante, de uma forma objetiva, procu- rando dar foco aos grandes temas do estudo da estratégia. Desse modo, o Capítulo 1 oferece uma visão geral da estratégia, procurando apre- sentá-la sob a ótica de diferentes e renomados autores. Em seu Capítulo 2, o texto procura mer- gulhar no Ambiente Interno das instituições, abordando os seus diferentes elementos, os quais produzem reflexos nas diversas áreas do negócio, influenciando as suas potencialidades. Em seu Capítulo 3, a abordagem se volta para o Ambiente Externo, indicando os vários meios de interpretá-lo. O Capítulo 4, sob o título de Estra- tégia Competitiva e o Posicionamento, procura abordar o conceito de valor para o cliente, a sua importância para o posicionamento competiti- vo e como o mesmo é criado. O foco dado ao Capítulo 5 tem como alvo as Fusões e Aquisi- ções, as quais têm se mostrado de fundamental importância para concentração e consolidação em indústrias, em sua dinâmica de reorganiza- ção para sustentação da competitividade. No Capítulo 6, o texto procura apresentar os diver- sos elementos associados à Governança Corpo- rativa, voltados para a busca de convergência entre acionistas e dirigentes das instituições. A abordagem feita no Capítulo 7 é dirigida à Es- tratégia Internacional, tema que tem desafia- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br E stratégia C om petitiva do, principalmente os gestores de empresas de países emergentes que procuram se estabelecer em locais diferentes do seu mercado domésti- co. O Capítulo 8 procurou abordar o Controle da Execução da Estratégia apresentando o Balan- ced Scorecard como instrumento capaz de cons- truir o mapa de estratégia, a sua conversão em objetivos, um plano de ação estratégica e suas medidas de controle, indicadores que permitem monitorar o encaminhamento da estratégia. O Capítulo 9 tem foco na estrutura organizacional como um reflexo da estratégia adotada pela em- presa. O Capítulo 10 procura enfocar a estratégia sob a ótica do empreendedorismo, visto tanto sob a perspectiva do intra-empreendedor como do empreendedor “autônomo”. No Capítulo 11, o enfoque foi dado à liderança e o papel assumi- do pelo líder na condução da organização atra- vés dos desafios da implementação da estraté- gia. Finalmente, no Capítulo 12, a abordagem foi dada às alianças estratégicas e à estratégia co- operativa como forma de vencer os obstáculos mais desafiadores que se pronunciam no novo cenário do século XXI. Finalmente, uma breve recomendação. O aprendizado da estratégia impõe certa dificul- dade, qual seja a de estudar e construir instru- mentos para a sua gestão. Assim, torna-se de grande importância, somar à leitura atenta, a experiência e a maturidade dos participantes. Este é o maior trunfo para a fixação do conte- údo estudado. Para o melhor aproveitamento, torna-se mandatória uma completa preparação para as aulas, por meio da leitura dos capítulos, realização das atividades práticas, assim como assistir às aulas. Desejo-lhes sucesso! Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ampliando a visão sobre a estratégia competitiva Objetivo: ao final da leitura deste capítulo o aluno deverá ser capaz de compreender os laços que ligam a estratégia militar ao estudo da estraté- gia competitiva, conhecer as diferentes percepções de autores consagrados acerca do seu conceito, assim como as suas diferentes formas assumidas du- rante o seu “ciclo de vida”. A estratégia, como conceito, foi desenvolvida há milênios, embora não fosse conhecida por este nome. Na verdade, os primeiros conceitos e teorias sobre estratégia surgiram na área militar, cujos princípios foram enunciados, dentre outros por Sun Tzu, Alexandre, o Grande e Júlio César, aproximada- mente, entre 600 a.C. e 50 a.C. Durante o século XIX surge também, a impor- tante contribuição elaborada por Carl Phillip Gottlieb Von Clausewitz. Além da literatura estrangeira acerca do tema, pode-se obter na literatura brasilei- ra uma contribuição ao pensamento estratégico militar no livro Os Sertões de Euclides da Cunha, publicado nos primeiros anos do século XX. Sun Tzu, retratou no livro A Arte da Guerra, todo o seu aprendizado obtido durante um período da história da China chamado de “período dos estados guerreiros”. Este momento histórico culminou com a unificação da China. O mais notável, dentre os seus comentários é a atualidade das suas conside- rações como, inicialmente, que “a guerra é uma questão vital para o Estado” (TZU, 2001). Continuando, Sun Tzu explica que a razão da assertiva anterior é “por ser o campo (a guerra) onde se decidem a vida ou a morte, o caminho para a sobrevivência ou para a ruína, torna-se de suma importância estudá- la com muito cuidado em todos os seus detalhes”. Metaforicamente falando, pode-se trazer para o cenário das empresas tais princípios apregoados por Sun Tzu. Assim, a guerra, vista como competição necessária entre as empre- sas, é vital para as mesmas, tendo o campo concorrencial como o teatro de guerra onde se travam os combates pela conquista dos clientes. Desenvolvimento da estratégia O caráter dinâmico da estratégia nos permite dizer, sem sombra de dúvida, tratar-se de um tema inesgotável. Inicialmente no campo militar e, Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 14 Estratégia Competitiva atualmente, também no campo dos negócios é um tema instigante e que mexe com os corações e mentes da humanidade desde os tempos mais remotos. Para avaliá-la mais detidamente, torna-se necessária a avaliação de alguns comentários dos principais autores que a descreveram desde os tempos antigos. Sun Tzu No caso de Sun Tzu há dúvidas da sua real existência, devido a que na China antiga o conceito de autoria era bastante vago. No entanto, o que é certo é que a obra foi escrita durante o período chamado de “estados guer- reiros”, período esse mais ou menos situado em torno de 500 a.C., e que era composta por 13 capítulos. Sabe-se também que foi comentada, posterior- mente por diversos autores chineses que o estudaram. Anteriormente ao período dos “estados guerreiros”, as guerras eram ritu- ais e bastante caóticas, com provas de violência quase macabra antes das batalhas, como suicídios coletivos, para assustar o inimigo. Após esse período, os exércitos evoluíram, tendo sido introduzidos novos conceitos como o de “estado maior” e diversas funções novas dentro dos exércitos, como as de cartógrafos, meteorologistas, engenheiros de minas e demais especialistas. Como já mencionado, Sun Tzu, baseou os seus escritos em muitas lições aprendidas por meio de observação atenta de diversas batalhas ocorridas durante um período bastante tumultuado da história da China antiga. Este período ocorreu aproximadamente em torno de 500 a.C. Estados como Chin, Han, Yen ou Chi, viviam em constante estado de guerra uns com os outros. No entanto, a despeito de todas as controvérsias acerca da autoria e da origem dos textos atribuídos a Sun Tzu, dentre seus notáveis escritos, estão os seguintes comentários: Mestre Sun Tzu (2001) disse: 1 –A guerra é uma questão vital para o Estado. Por ser o campo onde se decidem a vida ou a morte, o caminho para a sobrevivência ou para a ruína, torna-se de suma importância estudá-la com muito cuidado em todos os seus detalhes. 2 – Portanto deve-se avaliá-la nos termos dos cinco fatores: Influência moral (valores); � Clima; � Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ampliando a visão sobre a estratégia competitiva 15 Terreno; � Comando; � Doutrina (método, regulamentos e instruções). � [...] 11 – Se me disserem qual o governante que possui influência moral, qual o mais hábil dos comandantes, qual exército tira maior vantagem do terreno [...] 14 – Saberei prever qual dos lados será o vitorioso e qual o derrotado. Pelo que se pode ler no texto antecedente, Sun Tzu chamava a atenção para o caráter de extensão entre o Estado e a guerra como meio de sobrevi- vência ou ruína. Além disso, ele chama a atenção para o cenário que chama de cinco fatores. Também, indica a importância da liderança e sua influência moral dos dirigentes. Além desses elementos, em termos de estrutura interna, sobre a autori- dade, Sun Tzu (2001) oferece uma interessante percepção: 1 – Em geral, dirigir muitos é quase igual a dirigir poucos. Depende somente de organização; 2 – E controlar muitos é o mesmo que controlar poucos. É questão de formações e sinais (comunicação); 3 – O fato de um exército agüentar um ataque do inimigo sem ser derrotado depende dos movimentos das tropas especiais e normais (uso de recursos especializados). Von Clausewitz Carl Phillip Gottlieb Von Clausewitz, oficial prussiano durante as guerras napoleônicas do século XIX, escreveu sua obra a partir da observação das estratégias elaboradas por Napoleão e influenciado por seu mestre na Escola Militar, o Marechal General de Campo Helmuth Graf Von Moltke. Dentre os princípios elaborados por Von Clausewitz (1979) estão os seguintes: A guerra não é um fenômeno independente, mas a continuação da política por diferentes sentidos. Dois princípios básicos . . . sublinham todos os planos estratégicos. . . 1 – atuar com a maior concentração (rastreie as últimas substâncias da força do inimigo, as menores fontes possíveis; reduza o ataque a estas fontes às menores ações possíveis; e subordine as menores ações tanto quanto possível). 2 – atuar com a maior velocidade (todo dispêndio desnecessário de tempo e todo atalho desnecessário é um gasto de força; tome a menor estrada possível para a meta). Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 16 Estratégia Competitiva a – A primeira tarefa é, então, no planejamento para a guerra identificar o centro de gravidade do inimigo e se possível reduzir as suas fontes a apenas uma. b – A segunda tarefa é assegurar que as forças que forem utilizadas contra aquele ponto sejam concentradas na ofensiva principal. Como no caso de Sun Tzu, Clausewitz chama a atenção para a continui- dade entre o Estado e a guerra. Ademais, ele nos indica dois atributos na sua condução, quais sejam a concentração e a velocidade. Com a finalidade de obter tais atributos é necessário, segundo Clausewitz identificar o centro de gravidade, onde deve haver concentração de forças. Euclides da Cunha Euclides da Cunha é raramente tratado como referencial no campo dos estudos sobre estratégia competitiva. No entanto, devido à sua percepção de importantes elementos a serem considerados no campo militar, e além disso, por ser um autor que retratou a realidade estratégica militar brasileira, suas idéias estão aqui inscritas. Cunha escreveu o livro Os Sertões, após visitar e conviver com militares e sertanejos no teatro de guerra de Canudos no in- terior da Bahia. Empreendida por Antônio Conselheiro, um visionário e líder religioso, a campanha conquistou muitos seguidores, dentre os sertanejos, impondo seguidas derrotas ao exército da República recém fundada. O texto apresenta a percepção de Cunha do cenário de caos nos primeiros enfren- tamentos, decorrentes, principalmente, do desdém com que foi tratado o grupo de Conselheiro, pelos comandantes militares da época. As seguidas derrotas dessas primeiras missões militares, demonstrou o quanto interfe- riu no desempenho das forças militares, o seu desconhecimento do cenário, da geografia e do homem do sertão, sumariamente falando, como pode ser visto pela forma como Cunha subdivide a sua obra, como segue: a) A terra: Representada pela percepção do ambiente em que se desenrola o teatro de guerra (clima, relevo, vegetação e os seus desafios impostos ao ser humano), isto é, os facilitadores e dificultadores; b) O homem: O ser humano (os diferente tipos constituídos pelos traços físicos, cul- turais e sociais) e a sua influência sobre as forças aliadas e inimigas; Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ampliando a visão sobre a estratégia competitiva 17 c) A luta: Causas próximas da guerra, os preparativos da ação e reação, o arranjo das forças e os combates. Utilizando como referência a percepção de Cunha sobre a Guerra de Ca- nudos pode-se tomar, metaforicamente: a) A terra: A análise do ambiente externo - oportunidades e ameaças impostas à indústria pelo seu macro ambiente, pelos concorrentes, entrantes, fornecedores, clientes e substitutos; b) O homem: A análise do ambiente interno - forças e fraquezas impostas à firma pelos seus recursos e capacidades; c) A luta: A concorrência entre as empresas – ações e reações pela liderança na indústria em que atua e a luta pelo crescimento sustentável. Charles Darwin Embora não esteja associada à área militar, a abordagem evolucionária de Darwin possibilitou uma importante reflexão sobre os atributos que dife- renciam os seres que são bem sucedidos daqueles que são mal sucedidos no processo evolucionário, principalmente no que concerne à sua adaptabili- dade às mudanças no meio em que vivem. As causas do sucesso no domínio do meio ambiente em que vivem, principalmente no que se refere aos confli- tos pelos recursos naturais, com aqueles que, também, deles necessitam, se aproximam dos conflitos econômicos entre firmas por razões semelhantes. Tais aspectos podem ser observados a seguir, na lógica do pensamento evo- lucionário elaborado por Darwin. Os textos abaixo entre aspas foram reti- rados de http://darwin-online.org.uk/ (THE COMPLETE WORK OF CHARLES DARWIN ONLINE, 2008) e traduzidos pelo autor. O primeiro fato observado por Darwin é o de que “as criaturas vivas se � reproduzem em progressão geométrica (pela multiplicação)”. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 18 Estratégia Competitiva O segundo fato observado é o de que “o número de indivíduos de � qualquer espécie tende a manter-se mais ou menos constante, com o correr do tempo”. Por conseqüência, Darwin concluiu que “a concorrência entre indiví- � duos e entre espécies reduz o número de exemplares vivos (já que os recursos são escassos)”, significando, isto, “a luta pela existência”. O terceiro fato notado por Darwin foi o de que “todos os seres vivos � tendem a variar de modo apreciável. Não há dois indivíduos exata- mente iguais, e alguns são distintamente semelhantes na mesma es- pécie”. Além disso, notou que “embora nem todas as variações sejam transmissíveis pela hereditariedade, as criações experimentais mos- tram que algumas o são”. Assim, Darwin percebeu que “visto haver luta pela existência e não � serem todos os indivíduos semelhantes, algumas variedades sobre- vivem por que suas diferenças lhes dão ligeiramargem de superiori- dade”. Além disso, Darwin inferiu que “as variedades inferiores serão eliminadas”. A isto Darwin deu o nome de “seleção natural”. Como resultado final de sua análise Darwin concluiu a elaboração da � sua teoria refletindo que “prosseguindo de geração em geração, a sele- ção natural tende a acumular pequenas diferenças em quantidade su- ficiente para constituir uma diferença maior”, conduzindo à “evolução”. A estratégia aplicada aos negócios Segundo Grant (1995) os conceitos de estratégia eram bem escassos antes do início da década de 1960. Apesar de algumas divergências quanto a importância da contribuição ofe- recida pela área militar ao campo dos negócios o certo é que, no mínimo ofe- receu insights importantes, como a diferença entre estratégia e tática. Assim, a estratégia é o plano geral para distribuir recursos e estabelecer uma posição favorável (GRANT, 1995). Uma tática é um esquema para uma ação específica. O que atrai os estudiosos e outros interessados pela estratégia compe- titiva é fundamentalmente o estudo das razões do sucesso das empresas. Quando se fala em sucesso, em termos empresariais, está se referindo fun- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ampliando a visão sobre a estratégia competitiva 19 damentalmente à lucratividade, visto que a razão de ser das organizações é o lucro. Interpretar os sinais que indicam o caminho para o lucro é crucial para as organizações que desejam alcançá-lo. Portanto, avaliar os sintomas de uma estratégia bem sucedida e desenhar o caminho para se chegar à lu- cratividade sustentável é o principal apelo para o estudo da estratégia. A mudança no foco da estratégia do campo militar para o dos negócios reflete um movimento ao longo do tempo no meio da competição entre nações e grupos empresariais. Até o início do século XX a riqueza das nações e indivíduos era determinada principalmente pela propriedade e controle da terra. A competição entre países envolvia a busca por território que era perse- guida por meio do conflito militar. Segundo Grant (1995), o desenvolvimento industrial e o crescimento do comércio alteraram as bases da competição por terra pela busca por novos clientes. As conseqüências tiveram duplo des- dobramento, entre os quais, primeiro a competição econômica substituiu a rivalidade militar. Em segundo lugar, os agentes da linha de frente na compe- tição global são empresas em vez de governos (GRANT, 1995). O interesse explícito pela estratégia corporativa começou em torno do final dos anos 1950 e início dos anos 1960, motivado, principalmente, pelo aumento na complexidade e no tamanho das organizações, o qual compro- metia sua coordenação no que tange as decisões individuais e a manuten- ção do amplo controle da alta administração. Por que estudar estratégia? Essa, provavelmente, é uma questão que nos vem à mente no instante em que nos deparamos com o nome da disciplina. É uma pergunta que possui uma resposta de amplo espectro. Qualquer insti- tuição, tenha ela fins lucrativos ou não, seja pública ou privada, tenha atuação local ou global, seja de capital aberto ou fechado, atue no setor de serviços ou de manufatura, deve ter uma clara idéia da direção que pretende tomar na sua trajetória em direção ao futuro. Estes agentes econômicos estão, per- manentemente, submetidos a diversas forças que se impõem e ameaçam a sua existência. Como qualquer pessoa que segue uma trilha em direção a um local de destino, a firma deve ter com clareza a geografia do local, quais os me- lhores caminhos a seguir como também deve evitar desvios ou atalhos que a afastem do seu destino final pretendido. Em um ambiente de negócios cada vez mais dinâmico, em que as mudanças ocorrem com velocidade cada vez maior, as firmas devem agir reativa e proativamente para se manterem com- petitivas. Assim, a firma deve conhecer com clareza, qual o seu destino, qual Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 20 Estratégia Competitiva a direção a ser tomada, que dificuldades e facilidades existem em seu trajeto, que atributos possuídos facilitam ou dificultam a trajetória e quais recursos e capacidades deve possuir para tornar a caminhada mais fácil e rápida. As organizações são sistemas abertos, isto é, mantêm estreita interação com o meio ambiente, no qual estão inseridas. Tal interação ocorre por meio de um ciclo ininterrupto de importação, transformação e exportação para o ambiente. Mediante tal ciclo, é possível afirmar que dependendo do porte da firma, simultaneamente, com maior ou menor intensidade, ela influenciará e será influenciada pelas diversas oscilações ocorridas em seu meio ambiente. Para tanto, o sistema aberto é constituído por cinco elementos inter-agentes e interdependentes, quais sejam, o seu ambiente externo ou geral e do setor, o ambiente interno ou o processo, o canal de entrada ou suprimento, o canal de saída ou distribuição e o canal de retroalimentação ou feedback. O processo, como elemento constitutivo do sistema organizacional, cor- respondente ao ambiente interno, sendo, portanto, o espaço em que ocor- rem as transformações dos fatores importados do seu ambiente externo, em produtos ou serviços. Após a sua transformação, tais produtos ou serviços são exportados para o ambiente externo, através do canal de distribuição, onde serão consumidos. O canal de retroalimentação assume o papel de levar para o interior do sistema, isto é, para o processo, produtos devolvidos, assim como os dados e as informações acerca das ocorrências no ambiente externo. Assim, tais organizações, como sistemas abertos, à busca de sustentação da sua bem sucedida sobrevivência, procuram identificar as melhores fontes de recursos e capacidades (insumos), o melhor arranjo para processá-los (processos), o melhor canal para distribuí-los ao mercado (produtos e ser- viços) e o melhor uso dos dados e informações que emanam do ambiente externo (retroalimentação). Todas essas ações devem ser conduzidas por um plano coerente e consis- tente que, em geral, costuma ser chamado de estratégia. Um dos principais desafios que surgem no momento em que se decide construir e implementar a estratégia está em estabelecer o seu conceito. Evi- dentemente, a bibliografia que trata do assunto é bastante vasta. Tal amplitude, Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ampliando a visão sobre a estratégia competitiva 21 muitas vezes, confunde o leitor que se coloca diante das inúmeras aborda- gens apresentadas. Rapidamente, após esta ampla leitura, vem à mente a questão – mas afinal o que é estratégia? Alguns autores tomaram para si a difícil tarefa de conceituá-la e apre- sentaram a sua própria definição. Alfred D. Chandler (1962, apud BESANKO, 2006, p. 25), nos diz que a estratégia é “[...] a determinação das metas e dos objetivos básicos de longo prazo de uma empresa e a adoção de cursos de ação e alocação dos recursos necessários para realizar essas metas.” De acordo com Prahalad; Hamel, (1995, p. 26, 27), a estratégia está [...] menos preocupada em garantir uma adequação total entre metas e recursos e mais preocupada em criar metas que superem os limites e desafiem os funcionários a conseguir o aparentemente impossível [...] vai além da alocação de recursos escassos a projetos que competem entre si; estratégia é a luta para superar as limitações de recursos através de uma busca criativa e infindável da melhor alavancagem de recursos. [...] Esta visão da estratégia reconhece que a competição pela liderança das competências essenciais precede a competição pela liderança de produtos [...] concebe a organização como umportfólio de competências, bem como um portfólio de empresas. [...] ocorre dentro e entre coalizões de empresas e não entre empresas isoladas. Já sob a ótica de Michael Porter (1986, p. 45) uma estratégia competitiva efetiva assume uma ação ofensiva ou defensiva de modo a criar uma posição defensável contra as cinco forças competitivas. De modo amplo, isto compreende uma série de abordagens possíveis: posicionar a empresa [...] contra o conjunto existente de forças competitivas; influenciar o equilíbrio de forças [...]; antecipar as mudanças nos fatores básicos das forças [...] Segundo Schumpeter (apud NAPOLEONI, 1979), para os fins da teoria do desenvolvimento, a característica do estado estacionário Walrasiano a que se deve dar destaque é o fato de que ele é a imagem de um processo de contínua repetição das mesmas coisas, seja no campo da produção, seja no campo do consumo: uma vez que a concorrência tenha impelido o sis- tema para a posição de máximo rendimento, atinge-se uma configuração que se repete indefinidamente em um ciclo sempre idêntico a si mesmo. A conseqüência particular que isto acarreta para o mundo da produção é o fato de que a gestão da unidade produtiva da firma, se reduz a uma gestão de pura rotina: cada firma deve produzir sempre os mesmos tipos e as quantidades de bens, combinando sempre do mesmo modo os fatores necessários à produção. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 22 Estratégia Competitiva Empresário inovador Invenção Fracasso Sucesso Inovação Lucro ImitaçãoDifusão Generalização do Lucro Ciclos contínuos e repetitivos de produção e consumo Figura 1 – O modelo de fluxo circular e o empresário inovador. Assim, de acordo com Schumpeter, a ruptura deste mundo estacionário é, também, o início de um processo de desenvolvimento que ocorre pre- cisamente no âmbito da produção, em conseqüência de eventos que mo- dificam, às vezes profundamente, os velhos sistemas produtivos. Tais modi- ficações são classificadas por Schumpeter da seguinte maneira: Introdução de um novo bem – isto é, não familiar aos consumidores – ou de uma nova qualidade de um certo bem. Em uma segunda fase, a introdução de um novo método de produção, ou seja, de um método ainda não verificado pela expe- riência naquele ramo da indústria em que tal introdução é realizada e que não decorre necessariamente de qualquer descoberta científica, mas que pode simplesmente consistir em um novo método de tratar comercialmente uma mercadoria. Na terceira fase, a abertura de um novo mercado, isto é, de um mercado “novo” para uma determinada indústria, no sentido dos produ- tos desta indústria nunca terem tido acesso, independentemente do fato de Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ampliando a visão sobre a estratégia competitiva 23 este mercado ter ou não existido anteriormente. A quarta fase representa a conquista de uma nova fonte de matérias-primas ou de produtos semi-aca- bados, de novo independentemente do fato de esta fonte existir prece- dentemente ou de ter sido criada. E, finalmente, o estabelecimento da nova organização de uma determinada indústria como a criação ou a ruptura de uma posição de monopólio. Tais modificações são em seu conjunto indica- das pelo termo inovações. Introduziu, assim, a famosa noção de destruição criativa a qual constitui o motor que mantém o capitalismo em movimento para frente e quem dirige esse motor é o empreendedor. Para Schumpeter o empreendedor não é necessariamente alguém que investe o capital ini- cial ou inventa o novo produto, mas sim a pessoa com a idéia do negócio. Além disso, chama ato empresarial a introdução de uma inovação no sis- tema econômico e empresário ao que executa este ato. A empresa e o em- presário são fatos específicos do desenvolvimento e de todo inexistentes no estado estacionário, no qual, repetimos, a direção da produção implica apenas uma atividade de rotina que não se distingue de qualquer outro tipo de trabalho. Em outras palavras, “o problema que usualmente é visto é o de como o capitalismo administra as estruturas existentes, enquanto o problema relevante é como ele as cria e as destrói” (SCHUMPETER, apud NAPOLEONI, 1979). A distinção entre empresários e diretores de uma firma é pois fundamen- tal, mesmo que às vezes as duas figuras coexistam na mesma pessoa ou no mesmo órgão. A diferença decisiva entre as duas funções pode ser bem ob- servada quando se reflete na diferença que existe, por exemplo, entre a de- cisão relativa à introdução de um novo processo para a produção de tecido de lã e a decisão relativa à aquisição da quantidade de lã que é necessária no âmbito de um dado processo produtivo. Na visão de W. Chan Kim e Renée Mauborgne (2005) [...] o foco predominante do pensamento estratégico tem convergido para as estratégias do oceano vermelho. [...] as raízes da estratégia empresarial sofrem forte influência da estratégia militar. Portanto, concentrar-se nos oceanos vermelhos é aceitar os principais fatores restritivos da guerra – território limitado e necessidade de derrotar o inimigo para realizar os objetivos – e negar a força diferenciadora do mundo dos negócios: a capacidade de criar novos espaços de mercado inexplorados. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 24 Estratégia Competitiva input Processo output Por exemplo, uma firma pode, inicialmente, ter uma estratégia delibe- rada de “ampliar o seu faturamento em 20%,” no ano seguinte. Durante o ano, no entanto, ao per- seguir a estratégia de am- pliação de faturamento, a empresa, testando o mer- cado, primeiro compra um hotel urbano. Em seguida, adquire um res- taurante. Depois compra um “resort”. Finalmen- te, compra outro hotel urbano com restaurante. Assim, acaba assumindo uma estratégia emer- gente de “diversifica- ção“ do seu portfólio de negócios.feedback Estratégia pretendida Estratégia deliberada Estratégia realizada Estratégia não realizada Estratégia emergente Processo formal de elaboração da estratégia (M IN TZ BE RG , 2 00 0. A da pt ad o. ) Figura 2 – Estágios do ciclo de vida da estratégia. Assim, a partir destes conceitos apresentados, a estratégia começa a ganhar contornos mais tangíveis. Mas ainda é preciso acrescentar algo, isto é, as diferentes fases do que poderia ser chamado de ciclo de vida da estraté- gia, conforme apresentado pelo professor Henry Mintzberg (2000), da McGill University. Na primeira fase a firma assume uma estratégia pretendida, na ver- dade esta é uma abordagem preliminar das diretrizes que a firma preten- de assumir. Em uma segunda fase, após intensa revisão dos planos a partir de questionamentos sobre cenários e recursos e capacidades necessários, a firma assume uma estratégia deliberada, a qual representa o plano a ser seguido para que os objetivos da firma sejam alcançados, isto é, as intenções plenamente descritas. Durante a segunda fase, ocorre o aporte de uma estra- tégia emergente, que representa uma alternativa a uma ou mais diretrizes da estratégia deliberada e que a modificará, devido à ocorrência de mudanças no ambiente interno ou externo, isto é, um padrão realizado não era expres- samente pretendido. Tais mudanças podem ser relativas a oportunidades ou ameaças, ou ainda a reforços ou enfraquecimentos de recursos e capacida- des da firma. Se há uma estratégia emergente, por um lado, há também uma estratégia não-realizada, por outro. A estratégia não-realizada constitui parte da estratégia deliberada que, por alguma razão, foi descartada. Finalmente,Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ampliando a visão sobre a estratégia competitiva 25 em sua última fase, a estratégia assume a forma de uma estratégia realizada, a qual representa todos os planos conforme foram materializados, bem ou mal sucedidos. A verdade é que, como pode ser observado, há apenas uma e ao mesmo tempo há muitas estratégias. A estratégia é uma massa maleável de argila, constituída pelo portfólio de recursos e capacidades, que pode ser moldada de acordo com a percepção que os seus “escultores” (administradores) têm dos diferentes cenários que se descortinam à frente do negócio da firma. Há uma estratégia corporativa e várias estratégias funcionais que a apóiam. Há ainda uma estratégia para cada organização, mesmo que pertencentes à mesma indústria ou à mesma cadeia de suprimentos. E há também “nenhuma” estra- tégia, como menciona Robert Grant (1995), para o caso de sucesso da banda de rock The Beatles, em que simplesmente, “as coisas foram acontecendo”. Ampliando seus conhecimentos The Beatles (Grant, 1995. Adaptado.) No alvorecer dos anos 60 a banda de rock’n roll The Beatles era uma banda comum, tocando no Cavern Club, em Liverpool, na Grã Bretanha, e faturando, cada um de seus membros, US$3,00 por apresentação, como várias outras do mesmo gênero. Dois anos depois chegava aos Estados Unidos provocando grande furor no Aeroporto Kennedy. Seus discos haviam alcançado, por cinco vezes, o primeiro lugar no ranking da revista Billboard e influenciaram não só a juventude americana mas toda uma geração. O grupo The Beatles (fab four) possuía importantes atributos de originalidade, entusiasmo e senso de humor, mas mesmo durante o pico do seu sucesso, ocorrido entre 1964 e 1965, não se pode afirmar que fossem os mais brilhantes cantores, instrumentistas ou com- positores. Mas foi capaz de criar um frenesi chamado “Beatlemania”. Na visão de Robert Grant (1995), no caso do The Beatles, não havia uma estratégia, um plano de ação claro, assim como ocorre em muitas organizações bem suce- didas; na verdade, havia principalmente um senso de direção o qual estava fundamentado em três elementos-chave: Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 26 Estratégia Competitiva 1. Objetivos de longo prazo, simples e acordados: a) “ser uma banda maior que Elvis”, segundo Brian Epstein (em- presário do The Beatles). 2. Profunda compreensão do ambiente competitivo: b) Brian Epstein era um caçador de sucessos, assim, possuía intui- ção da combinação da música e da imagem necessária ao apelo dos jovens dos anos 1960; 3. Avaliação objetiva dos recursos: c) a imagem que Epstein estabeleceu para o The Beatles foi cons- tituída sobre a juventude, o senso de humor, a espontaneidade e a irreverência dos seus membros. Epstein e George Martin (produtor) encorajaram o The Beatles a sair do estilo e temas convencionais da música popular americana (até mesmo as roupas com que se apresentavam) e a desenvolver um som que explorasse sua própria criatividade e individualidade. Atividades de aplicação 1. Quais as principais contribuições dos estrategistas militares acerca da estratégia competitiva no campo dos negócios? a) Melhorar o desempenho das empresas fabricantes de armamentos. b) Atuar como suporte às idéias de segurança interna da empresa. c) Oferecer exemplos de estratégias de guerra, aplicáveis à estratégia das empresas. d) Aumentar a disciplina na gestão estratégica das empresas, como nos quartéis. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Ampliando a visão sobre a estratégia competitiva 27 2. Qual o impacto apresentado por Schumpeter em relação aos ciclos econômicos? a) O de que os ciclos acompanham os ciclos de vida dos produtos. b) O de que as firmas se estruturam internamente conforme o propó- sito estratégico. c) De que as guerras nada mais são do que a continuação da política do estado. d) As inovações quebram o ciclo econômico repetitivo, e iniciam um processo novo de desenvolvimento, é a chamada “destruição cria- tiva”. 3. Na visão de Mintzberg, quais são os estágios do ciclo de vida da estra- tégia? a) Estratégia nascente, crescente, madura e morta. b) Estratégias pretendida, deliberada, realizada, não realizada e emer- gente. c) Estratégia inicial, planejada, executada, controlada e concluída. d) Estratégia fundamentada, estruturada e elaborada. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 28 Estratégia Competitiva Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno Objetivo: ao final da leitura deste capítulo o aluno deverá ser capaz de reconhecer os diferentes elementos constitutivos do ambiente interno, a in- teração estabelecida entre tais elementos, assim como, deverá ser capaz de elaborar análise do ambiente interno das organizações. O ambiente interno é constituído por todo o conjunto de recursos e ca- pacidades pertencentes à organização ou disponíveis para seu uso, reunidos e organizados para elaborar, produzir e distribuir produtos ou serviços des- tinados ao seu mercado alvo. A combinação entre recursos e capacidades cria as competências essenciais com as quais a empresa torna únicos seus produtos ou serviços, reinventa a indústria ou cria uma identidade singular para a sua empresa. Recursos, capacidades e competências essenciais, por- tanto, são o tripé que oferece suporte, de alguma forma, a competitividade da firma. Os recursos Recursos assumem duas naturezas distintas, podendo ser classificados como recursos tangíveis ou recursos intangíveis. Tais recursos, mediante os quais a firma cria produtos ou serviços para seus clientes, estão disponíveis tanto para si quanto para seus concorrentes. Os recursos podem incluir desde materiais até pessoas talentosas, ou ainda bens de capital, localiza- ção privilegiada, habilidades e aptidões dos funcionários, marcas, finanças e gerentes talentosos. Tomados isoladamente, os recursos da firma, por mais singulares e valiosos que sejam, não são capazes de criar per si vanta- gem competitiva. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 30 Estratégia Competitiva (G RA N T, 1 99 5. A da pt ad o. ) Figura 1 – Modelo Baseado em Recursos. Estrégia Modelo Baseado em Recursos na Visão de Robert Grant Potencial para a vantagem competitiva sustentável Etapa 1: Identificar os recursos da firma e locali- zar as áreas de força e fraquezas relativas aos concorrentes. Capacidades Recursos Etapa 5: Identificar as lacunas de recursos que pecisam ser preenchidas. Investir no reabastecimento e aumento da base de recursos da firma. Etapa 4: Selecionar uma estratégia que explore melhor as capacidades da firma relativas às oportunidades e ameaças. Etapa 3: Avaliar o potencial de geração de renda dor recursos/capacidades em termos do seu potencial de criar,sustentar e explo- rar as vantagens competitivas. Etapa 2: Identificar as capacidades/competências da firma (o que a firma pode fazer?) O caso da empresa Atmosfera é emblemático no que diz respeito à com- binação de recursos de forma diferente do tradicional e criar produtos dife- renciados. A Atmosfera nasceu na década de 1990, como Mr. Clean, como era chamada, inicialmente, para prestar serviços de lavanderia. Em sua evolução, ela passou a alugar uniformes para a indústria, lavando-os ou substituindo osmais desgastados pelo uso e entregando-os limpos ou novos no início da semana. Também passou a alugar e lavar enxovais para hotéis. A seguir estendeu os serviços de lavagem e esterilização de enxovais hospitalares. Hoje, atende às principais redes hoteleiras, às principais fábricas e hospitais em diversos locais do Brasil. Para tanto possui unidades em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina, Bahia e Amazonas. Segundo a des- crição no próprio site na Internet, a mesma “oferece produtos diferenciados e todas as opções de atendimento em locação, higienização especializada, lavanderia em sala limpa, esterilização e gestão” (ATMOSFERA, 2008). Como pode ser visto pelo exemplo, a combinação de recursos disponíveis no mercado para qualquer lavanderia poderia ter sido utilizada em diferen- tes combinações. No entanto, a forma como foram combinados tais recursos ofereceu singularidade aos serviços da Atmosfera, traduzida em competiti- vidade sustentável. Segundo a sua natureza, os recursos podem assumir uma constituição tangível quando podem ser tocados fisicamente, vistos e quantificados. São bens econômicos, ativos etc., que têm existência física. Assim, são considera- dos tangíveis os recursos financeiros, os quais podem ser constituídos pelo capital, pelos fundos financeiros etc. Também são considerados tangíveis os Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 31 recursos organizacionais, os quais são constituídos pela estrutura formal de comunicação da empresa, seus sistemas de planejamento e controle, entre outros. Além dos já mencionados, ainda são considerados tangíveis os recur- sos físicos constituídos pela localização, grau de sofisticação das instalações e equipamentos, acesso a matérias-primas etc., assim como os recursos tec- nológicos que se constituem do estoque de tecnologia, isto é, as patentes, marcas registradas, direitos autorais, segredos etc. Já os recursos intangíveis são aqueles arraigados à história da empresa e acumulados ao longo do tempo. Os recursos humanos são constituídos pela experiência, capacidade, conhecimento, habilidade etc. Os recursos de inovação: idéias, capacidade científica, capacidade de inovar etc. Os recursos de imagem: reputação junto aos clientes: nome da marca, reconhecimento da qualidade e confiabilidade e reputação junto aos fornecedores: intera- ções, relações de efetividade, suporte e benefício. Um bom exemplo a ser apresentado é o da Gol Linhas Aéreas Inteligentes. Como uma linha aérea de baixo custo, utiliza apenas aviões Boeing 737, como forma de baratear tanto seus custos de aquisição (investimento), quanto seus custos de manutenção (custos operacionais). Quando tomados isoladamente, os recursos da firma, por mais singulares e valiosos que sejam, não são capazes de criar vantagem competitiva susten- tável. Assim, precisam estar integrados de modo a exercer sinergia, por meio de uma combinação o que somente pode ser realizada pela aplicação das capacidades da empresa. A mobilidade é uma importante característica assumida por alguns recur- sos que favorecem a sua incorporação em qualquer tempo ou lugar. Assim, por exemplo, há a possibilidade de compra de matérias-primas em um país e seu consumo em outro (minério de ferro retirado do Brasil e consumido na China), ou ainda, projeto elaborado nos Estados Unidos, produção na China e distribuição na Europa (impressoras Hewllet-Packard). Conforme Wright (2000), a teoria baseada em recursos (resource-based theory) reforça o argumento de que a competitividade é obtida mediante a combinação singular de recursos humanos, organizacionais e físicos de uma empresa. Além disso, à medida que recursos novos adquiridos são incorporados aos já existentes em seu portfólio, sinergias únicas ocorrem entre eles elevando, deste modo, o caráter sustentável da competitividade da firma. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 32 Estratégia Competitiva As capacidades As capacidades decorrem da combinação deliberada de diferentes recur- sos, a fim de criar produtos ou serviços distribuídos ao mercado pela firma. Capacidades constituem as diferentes habilidades da firma de alocar ou rea- locar recursos, integrando-os de maneira efetiva, a fim de alcançar um obje- tivo estratégico desejado. Existem muitos exemplos de capacidade das empresas, entre eles o atendimento eficaz ao cliente (Localiza), utilização eficaz da logística (Mar- tins, Wal-Mart), motivação e retenção de funcionários (a empresa Masa em Você S/A), qualidade e confiabilidade (Toyota), pesquisa e desenvolvimento (Embraer). Figura 2 – Capacidade estratégica e competência. Teste para identificar uma competência essencial: Devem oferecer acesso potencial a � uma gama de mercados; Devem dar uma � contribuição significativa aos bene- fícios percebidos pelos clientes; Devem ser difíceis para os concor- � rentes imitarem. Prahalad e Hamel RECURSOS Insumos do processo de produção de uma empresa. CAPACIDADE Integração de um conjunto de recursos COMPETÊNCIA ESSENCIAL Uma capacidade estratégica Competências Valiosas � Raras � Imitação difícil � Dispendiosa � insubstituíveis � Capacidades Habilidades � Conhecimento � Fonte A capacidade satisfaz aos critérios de vantagem competitiva sustentável? sim não (H IT T, 2 00 8. A da pt ad o. ) CAPACIDADE Um conjunto não estratégico de habilidades A característica de mobilidade possuída pelas capacidades tem levado as firmas a contratá-las em diferentes partes do mundo. Assim, tem sido cada vez mais comum a contratação de recursos e capacidades em outros merca- dos diferentes do mercado doméstico. A Índia tem se destacado na oferta de software, a China em transferência de tecnologia, assim como o Brasil no caso do etanol ou de aviação no caso da Embraer. Coisa impensável a alguns anos atrás. A capacidade de gestão do conhecimento e de distribuí-lo às demais áreas tem sido cada vez mais relevante para o sucesso das organizações. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 33 Capacidades vão se tornando cada vez mais importantes na media em que, quando combinadas em um arranjo singular a um conjunto de recur- sos, são capazes de criar competências essenciais. Desta forma, criam valor estratégico para a organização, e por via de conseqüência podem conduzir à vantagem competitiva sustentável. As competências essenciais Competências essenciais são, portanto, constituídas por recursos e capa- cidades combinados, de tal forma que podem ser criadores de vantagem competitiva sobre os concorrentes. Neste aspecto, as mesmas são capazes de distinguir, competitivamente, uma empresa de outra e a tornam diferen- te das demais. Alguns especialistas recomendam a identificação de três ou quatro competências, quando da elaboração de ações estratégicas, em torno das quais devem ser constituídas as suas ações estratégicas. Tal conjunto de atividades que habilmente combinam recursos e capacidades, possibilitam que a empresa crie valor percebido pelos seus clientes, especialmente bem, quando comparado aos criados por outras empresas. Além disso, segundo Besanko (2006), a empresa deve possuir “competên- cia dinâmica”, a qual envolve “a capacidade de manter e adaptar as compe- tências que constituem a base de sua vantagem competitiva”. Segundo Hitt (2008), para gerarem vantagem competitiva sustentável, recursos e capacidades devem possuir certas características: serem valiosos (permitem aproveitar oportunidades e neutralizar � ameaças);serem raros (poucos competidores os possuem); � onerosos de imitar (exigem um grande esforço e dispêndio para copiar); � insubstituíveis (são aqueles que não possuem equivalentes). � Já sobre as competências essenciais, Hitt (2008) diz que quando constru- ídas a partir de recursos e capacidades que contemplam as características mencionadas acima, estas provavelmente devem ser capazes de criar: vantagem competitiva; � Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 34 Estratégia Competitiva competitividade estratégica; � habilidade para gerar retornos acima da média. � A cadeia de valor Onde estão alocados os recursos e capacidades da firma? Segundo Mi- chael Porter, na cadeia de valor das empresas. Constituídas por atividades primárias e de apoio, tais cadeias, através da interação dos recursos atribuí- dos a cada uma das atividades, criam valor para os clientes. Porter distingue as atividades primárias como sendo logística interna, operações de produ- ção, logística externa, marketing e vendas e serviços. Também atribui quatro atividades de apoio às organizações, quais sejam a de infra-estrutura da em- presa (por exemplo jurídico, contábil, financeiro etc.), a de gerenciamento de recursos humanos, a de desenvolvimento tecnológico e a de aquisições. É importante lembrar que combinados dentro destas atividades estão recur- sos e capacidades, que pelo seu uso e interação ao mesmo tempo em que criam benefícios, também geram custos. Infra-estrutura organizacional (Finanças, Planejamento etc) Administração de RH Desenvolvimento de Tecnologia Compras Logística de entrada Operações (manufatura) Logística de saída Marketing e vendas Serviços de Pós-vendas M ARGEM M ARGEM Atividades de Apoio Atividades Primárias Figura 3 – Cadeia de Valor. (P O RT ER , 1 98 6. A da pt ad o) Os processos organizacionais (tais como vendas, compras, produção ou distribuição), envolvem a participação de diferentes atividades ou funções. Assim, os mesmos são encaminhados horizontalmente ao longo de todas as atividades ou funções primárias recebendo sistematicamente das atividades ou funções de apoio o suporte necessário à conclusão do processo. É importante lembrar que caso o cliente tenha clara percepção do bene- fício criado e esteja disposto a pagar pelo custo de tal benefício, então está Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 35 claro que foi criado valor, visto que esta atitude do cliente demonstra ser o custo menor que o benefício recebido. No entanto, caso o cliente não perce- ba o benefício, então foi criado custo maior que o benefício, e não valor. De tudo o que foi descrito, é possível deduzir a importância da interação entre os recursos e as capacidades. Por contribuírem para a criação de bene- fícios para os clientes e por serem raros, valiosos, inimitáveis e insubstituíveis, a sua melhor alocação dentro do negócio contribui para reduzir seus custos de produção e para a criação de benefícios percebidos pelos clientes. Os fatores críticos de sucesso Os fatores críticos de sucesso são condições essenciais que devem ser contempladas, pela gestão da organização, por meio das suas competências essenciais, sendo, portanto, decisivos para que a organização esteja apta a competir, com sucesso, em seu mercado alvo, considerando a sua estraté- gia pretendida. No entanto, podem se manifestar tanto de forma positiva quanto negativa. Assim, quando manifestados positivamente são também chamados de forças, visto que impulsionam a organização e quando mani- festados de forma negativa são chamados de fraquezas, visto que a tornam mais lenta ou inerte. A título de exemplo, caso a estratégia pretendida seja o desenvolvimento de soluções em tecnologia da informação a presença de software e hardware de última geração pode ser identificada como uma força, ao passo que a ausência de uma equipe capacitada, com certificação ou atualizada tecnolo- gicamente pode ser considerada uma fraqueza. Convém, ao analista, realizar o levantamento do portfólio de forças e fra- quezas para compor o quadro atual de fatores críticos de sucesso, e compará- lo com o portfólio exigido pela estratégia pretendida. Assim, a lacuna entre ambos pode indicar que fatores críticos de sucesso devem ser adquiridos, ampliados ou mitigados para superar as deficiências apresentadas. Forças e fraquezas Como mencionado, no âmbito interno da organização, interessa ao ana- lista identificar o grupo de forças e fraquezas ou, como também são cha- mados, pontos fortes e fracos que podem sustentar as ações estratégicas Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 36 Estratégia Competitiva pretendidas ou deliberadas pela firma. Uma estratégia pretendida é uma abordagem preliminar das diretrizes que a firma pretende assumir diante de um provável cenário que se descortina à frente do seu negócio. A seguir, após intensa revisão dos planos a partir de questionamentos sobre cenários, recursos e capacidades necessários, a firma converte a estratégia pretendida em estratégia deliberada, a qual representa o plano a ser seguido para que os objetivos da firma sejam alcançados, isto é, as intenções plenamente de- claradas. A estratégia deliberada é, assim, materializada pelo plano estratégi- co que emana da alta administração, no início do exercício. Para a elaboração e condução de uma análise mais efetiva do ambiente interno, é conveniente buscar respostas às seguintes perguntas: Como a firma obtém conjuntos de recursos, capacidades e as compe- � tências essenciais que decorrem da sua interação, para criar valor para os clientes? Como a firma efetivamente administra as suas competências essen- � ciais correntes, isto é, aquelas que já possui, enquanto, simultanea- mente, desenvolve novas? Como a firma aprende a realizar mudanças rapidamente, a fim de ad- � quirir, ampliar ou mitigar fatores críticos de sucesso? As respostas a tais questões podem orientar a elaboração de um mapa, mediante o qual será possível uma percepção mais clara da realidade atual e a necessária a efetivar as diretrizes estratégicas pretendidas, convertendo-as em uma estratégia deliberada. Partindo dessas diferentes condições mencionadas, a análise deve ser ini- ciada com um diagnóstico, mediante o qual serão enumeradas as principais manifestações sintomáticas de problemas ou de melhoria de performance. A principal função da fase de diagnóstico é a identificação tanto de obstácu- los que se interpõem ao bom desempenho organizacional, de forma geral, como, queda nas vendas ou na participação de mercado em determinado segmento (problema), como das ações de superação de obstáculos como aumento do EBTIDA ou EVA da organização (superação de problemas). Como fase preliminar de toda a análise das forças e fraquezas, é manda- tória a definição do portfólio de recursos e capacidades, assim como os seus atributos necessários a oferecer competitividade sustentável à organização. Após essa elaboração, a identificação do gap entre o portfólio e as necessi- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 37 dades, pode ser elaborado um plano de desenvolvimento/aquisição. Assim, o ponto de partida é a avaliação da cadeia de valor, como forma de determi- nação das necessidades de recursos e capacidades, assim como seus atribu- tos necessários, em atividades principais e atividades de apoio. Tal portfólio torna-se o parâmetro fundamental, a partir do qual serão determinadasas fraquezas e forças necessárias à competição no seu ambiente. As fraquezas representam a ausência ou deficiências em recursos e em capacidades necessárias a oferecer sustentabilidade competitiva à organi- zação. Alguns sintomas podem ser indicativos da presença de fraquezas na organização. O seu diagnóstico é importante para que ações possam ser pro- movidas a fim de supri-la do que for necessário. Como exemplo de sintomas de problemas (fraquezas), seguem os seguintes: perda de clientes; � insatisfação de clientes; � aumento na necessidade de capital de giro; � salários abaixo da média oferecida pelo mercado; � baixa qualificação da equipe etc. � As forças representam a presença de recursos e capacidades, os quais contenham os atributos necessários a oferecer sustentabilidade competiti- va à organização. É possível detectá-los por meio da avaliação do portfólio construído preliminarmente. Da mesma forma que no caso das fraquezas alguns sintomas podem demonstrar a presença de forças através de proble- mas já superados, como seguem: aumento de participação no mercado; � aumento de fidelização de clientes; � crescimento nas vendas do � mix mais lucrativo; redução no � turn over de funcionários pertencentes a funções-chave etc. Nos casos mencionados pode-se construir um Gráfico de Pareto, dentro do qual podem ser seqüenciadas, as forças e fraquezas identificadas, em ordem decrescente, segundo o custo da sua ocorrência ou a freqüência da sua ocorrência. Deste modo ficaria mais fácil estabelecer o problema prio- ritário quanto à procura das suas causas, e o plano de ação adotado para superar as fraquezas e ampliar as forças. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 38 Estratégia Competitiva A identificação das causas é iniciada logo após o diagnóstico ser conclu- ído. Esta fase pode ser iniciada com o estudo dos casos de sucesso. Assim, para problemas que foram superados (por exemplo o aumento na venda de produtos em determinado mercado), o objetivo da identificação das causas de superação é o de aprendizado das melhores práticas, a fim de padroni- zar e perpetuar o procedimento que funcionam bem dentro do ambiente interno da empresa. Forças (S) Relação de forças Como tirar vantagem Fraquezas (W) Relação de fraquezas Como minimizá-las Figura 4 – Análise ambiental interna: forças e fraquezas. Da mesma forma, quando se trata da identificação das causas de proble- mas (por exemplo a perda de clientes), o objetivo é a solução do mesmo ou a eliminação do obstáculo manifestado na forma de sintoma. Finalmente, em seguida à identificação das causas, deve ser realizada a identificação dos seus efeitos. Como exemplo: Problema – baixa retenção de funcionários em funções-chave; � Causa – forte centralização das tomadas de decisão; � Efeito – perda de conhecimento tácito, experiência e maturidade na � tomada de decisões e descrédito por parte de clientes nas atividades da companhia. A solução de problemas como este poderá conduzir a alterações em procedimentos e aperfeiçoamento contínuo; Fraqueza � – forte centralização das tomadas de decisão. Por outro lado, para o resultado de superação ocorre o seguinte: Superação – aumento de participação no mercado; � Causa – maior intensidade no relacionamento com clientes; � Efeito – maior presença no mercado, maior visibilidade da marca e re- � conhecimento da confiabilidade. Situações de superação como esta Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 39 poderão ser exemplares das melhores práticas dentro da própria em- presa o que poderá ser aplicado a outros segmentos, com sucesso; Força � – maior intensidade no relacionamento com clientes. Na verdade, como pode ser observado, tanto as fraquezas quanto as forças são resultantes das causas atribuídas aos problemas e as superações, respectivamente. A análise do ambiente interno A análise interna deve se basear em um contexto globalizado no qual estão atuando as organizações, não importando a sua natureza como pres- tador de serviços ou de manufatura. Isto significa que a análise do ambien- te interno deve ser feita à luz das imposições feitas pelo ambiente exter- no globalizado, que não pode ser modificado unilateralmente pela firma. Em um mundo cada vez mais plano, conforme abordado por Friedman (2006), em que o acesso e a mobilidade de fatores é cada vez maior, o am- biente externo é fonte de recursos e capacidades que ajudam a remodelar o seu ambiente interno. Assim, é natural que caiba à firma, por meio da avalia- ção feita pelos seus executivos, identificar os diferentes aspectos do ambien- te interno, de maneira a moldá-lo, adaptando-o às diferentes características de cada país ou de cada mercado em que atua ou pretende atuar. Fo nt e: b as ea do e m H itt , ( 20 08 ) Atributos Descrição Valiosos Permitem à firma explorar oportunidades ou neutralizar ameaças em seu ambiente externo. Raros Possuída por poucas firmas, se é que por algu- ma competidora concorrente e potencial. Dispendiosos de imitar Quando outras firmas não podem obtê-las ou devem obtê-las a um custo muito mais alto le- vando o concorrente a uma desvantagem de custos. Insubstituíveis A firma é organizada apropriadamente para obter todos os benefícios dos recursos (quando não possuem equivalentes estruturais) a fim de conquistar uma vantagem competitiva. Tabela 1 – Quatro atributos de recursos e capacidades. Como já comentado, a combinação dos recursos e das capacidades ine- rentes à empresa constituem o portfólio singular de competências que a diferenciam das demais concorrentes, portfólio este que é construído pelos seus executivos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 40 Estratégia Competitiva Assim, como ponto-chave para a construção da vantagem competitiva sustentável está, inicialmente, a identificação e aquisição de recursos e capa- cidades valiosos, raros, onerosos de imitar e insubstituíveis. Além disso, deve ser realizada a análise da cadeia de valor com o objetivo de identificar que atividades (principais ou de apoio) podem ser terceirizadas ou não. As organizações adquirem e ordenam recursos e capacidades com o objeti- vo de criar valor que possa ser percebido pelos seus clientes. O valor é constitu- ído pelos atributos inerentes ao produto ou ao serviço oferecido pela empresa, que são utilizados pelos clientes para avaliar a funcionalidade e desempenho do que foi adquirido. Na verdade quanto maior o valor criado maior a probabi- lidade da obtenção de resultados acima da média da indústria. De acordo com Hitt (2008) há três condições que afetam a criação de valor pelas firmas. A primeira delas é a incerteza. Tal condição é criada a partir das circunstâncias que permeiam tanto o ambiente geral quanto o da indústria em que está inserida a firma e também dos movimentos realizados pelas firmas concorrentes e as alterações, cada vez mais freqüentes, nas preferên- cias dos clientes. A segunda é a complexidade, relacionada com as diferentes causas correla- cionadas que são capazes de moldar todo o contexto da firma. Assim, quanto melhor a capacidade da firma de perceber as causas e o quanto se relacionam maior a possibilidade de criar valor que possa ser percebido pelo cliente. A terceira condição que afeta a criação de valor é constituída pelos con- flitos intra-organizacionais resultantes da ausência de alinhamento entre as pessoas que tomam decisões e as que são afetadas pela decisão tomada. Conceitos econômicos para uso de recursos e capacidades Os conceitos econômicossão muito importantes na elaboração da estratégia organizacional. Para uma correta compreensão de alguns desses importantes conceitos econômicos na análise da estratégia competitiva, foi elaborado esse tópico. Demanda e oferta O termo demanda, que é sinônimo de procura, é uma importante função microeconômica que significa a quantidade de um bem ou serviço que o Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 41 cliente (consumidor) deseja adquirir, por certo preço, em um dado momen- to. Assim, a demanda é a expressão do comportamento do consumidor. Há um conjunto de aspectos que interferem na demanda pelo consumidor, conforme Sandroni (1989), como por exemplo: renda do consumidor (qual o percentual da sua renda será destinado � à compra de cada bem que adquirir); preferência do consumidor (são os gostos do consumidor); � preço do bem demandado; � preço dos outros bens (tanto bens substitutos quanto complementares); � qualidade do bem; � expectativas do consumidor. � Mantidas as condições de preço e quantidade demandada pelo mercado, a curva da função de demanda tende a manter a sua inclinação como nega- tiva, significando que quanto maior o preço praticado pelo mercado, menor a quantidade demandada. A oferta representa a quantidade de certo bem ou serviço colocado, no mercado, à disposição do consumidor, por determinado preço, em deter- minado momento. Muitos fatores interferem no comportamento daquele que oferta o produto, isto é, o fabricante ou prestador do serviço, quais sejam: preço do bem ofertado (normalmente o preço estimula a oferta quan- � do é elevado e vice-versa. é bom fazer a ressalva de que muitas vezes a retenção especulativa da oferta gera aumentos artificiais de preços, como no caso dos monopólios); a tecnologia (visto que esta possibilita ampliação da oferta, como no � caso dos chips de computadores); condições climáticas (altera as condições de oferta e preço de � commo- dities); suprimento de insumos. � Mantidas as condições de preço e quantidade oferecida ao mercado, a curva da função de oferta tende a manter a sua inclinação como positiva, significando que quanto maior o preço praticado pelo mercado maior a oferta do produto. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 42 Estratégia Competitiva Preço $ curva de oferta curva de demanda P1 P2 Q1 Quantidade P3 Q2 Q3 Figura 5 – Curvas de oferta e demanda. Como pode ser observado, a figura 5 representa as curvas de oferta e de- manda de um dado produto, comercializado em um mercado, em um certo momento. Como as curvas têm inclinação com sinais opostos, elas se cruzam em algum ponto. Quando a quantidade ofertada (Q1) é inferior à demanda, o preço praticado (P1) está acima do preço de equilíbrio (P2). Assim, preços mais altos tendem a estimular a oferta, elevando-a ao nível de (Q3), o que com o tempo acaba por abastecer plenamente o mercado provocando, assim, queda nos preços ao nível (P3). Preços tão baixos tendem a desesti- mular a oferta, reduzindo-a ao nível de (Q2).O desabastecimento do merca- do provoca nova elevação nos preços. Assim, devido ao ajuste na oferta, os preços tenderão a subir até ao nível de (P2). Assim ocorrendo, aos poucos os movimentos do mercado levarão preços e quantidades ao ponto em que se cruzam as curvas de oferta e demanda, indicando assim, o preço e a quanti- dade de equilíbrio do mercado. Elasticidade preço da demanda A elasticidade preço da demanda representa a relação entre a variação re- lativa na quantidade demandada de um bem ou serviço e a variação relativa em seu preço. Assim, o coeficiente de elasticidade preço da demanda pode ser obtido pela razão entre a variação relativa da quantidade e a variação relativa nos preços. Caso este coeficiente apresente um resultado maior que 1, a demanda é chamada de elástica, o que significa que uma variação relati- va no preço resulta uma variação relativa maior na quantidade demandada. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 43 Se o coeficiente for igual a 1 a demanda possui elasticidade unitária, assim, uma variação relativa no preço resulta a mesma variação relativa na quanti- dade demandada. Quando o coeficiente de elasticidade preço da demanda é menor que 1, então, a demanda é chamada de inelástica, isto significa que uma variação relativa no preço tem como resposta uma variação relativa- mente menor na quantidade demandada. Na figura 6 a curva DA representa uma curva de demanda inelástica, en- quanto que a curva DB representa uma curva de demanda elástica. Nos seus extremos, quando a curva é perpendicular ao eixo das quantidades, diz-se que ela é perfeitamente inelástica, ao passo que quanto paralela ao eixo das quantidades, diz-se que é perfeitamente elástica. Para o estudo da competitividade, alguns aspectos relacionados com a elasticidade preço da demanda são de substancial importância. Em merca- dos de produtos que apresentam menor grau de diferenciação, como no caso de commodities, iniciativas representadas por pequenas reduções nos preços, recebem como resposta grandes aumentos na quantidade deman- dada. Assim é possível inferir que nesses mercados a elasticidade preço da demanda tende a ser elástica. Em mercados de produtos que apresentam maior grau de diferenciação, como no caso dos menos massificados ou mais sofisticados, a sensibilidade a alterações nos preços é menor. Assim, iniciativas representadas por gran- des reduções nos preços, recebem como resposta pequenos aumentos na quantidade demandada. Neste caso, é provável que a elasticidade preço da demanda seja inelástica. Preço $ QuantidadeQ0 DA DB Figura 6 – Demanda: significado da elasticidade. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 44 Estratégia Competitiva A seguir estão representados os cálculos que permitem determinar o coeficiente de elasticidade-preço de uma curva de demanda. η = (∆Q / Q0) / (∆P / P0) Diante de um aumento nos preços de R$5,00 para R$5,75, a demanda cai de 1000 para 800. η = [(800 – 1000) / 1000] / [(5,75 – 5)] / 5 η = – 0,20 / 0,15 => η = -1,33 η < 1 então a demanda é inelástica η > 1 , então a demanda é elástica Se η = – 0,75 , então se o preço aumentar em 3% a quantidade diminuirá em 3 x – 0,75 = – 2,25%. Se η = -1,25 , então se o preço aumentar em 3% a quantidade diminuirá em 3 x -1,25 = – 3,75%. Custos Inicialmente, o custo contábil se diferencia do custo econômico. O custo contábil é apurado pelo reconhecimento das receitas quando ganhas e as despesas quando incorridas, independentemente do efetivo recebimento das receitas ou do pagamento das despesas, o que é chamado de regime de competência. Os números contábeis precisam ser objetivos e verificáveis por credores e investidores, dentre outros, o que, para tais fins é bem represen- tado pelos custos históricos. O custo econômico é representado pelo benefício decorrente do melhor uso alternativo do ativo gerador de custo, isto é, o custo de oportunida- de. Assim, um bom exemplo pode vir da experiência de uma pessoa que deixa um emprego em que ganha R$8.000,00 por mês para montar o seu negócio. Se o melhor uso alternativo da sua força de trabalho a remunera em R$8.000,00 por mês, então, o seu custo econômico para o empreendi- mento será de R$8.000,00, embora, contabilmente a sua remuneração possa ser de apenas R$3.000,00. Isto significa que apesar da pessoa estar obtendo um ganho positivo de R$3.000,00, seu resultado econômicoé negativo em R$5.000,00. Este tipo de raciocínio pode ser utilizado em relação a qualquer recurso ou capacidade da organização. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 45 Apenas para melhor esclarecer os conceitos, contabilmente o conceito de regime de competência, se diferencia do conceito de regime de caixa. O regime de caixa representa a receita pelo ingresso efetivo do dinheiro e a despesa pelo seu desembolso efetivo, independente do momento em que ocorrerem. Q1 C2 R2 Preço curva de demanda curva de oferta P1 Q1 Q2 Q3 P2 P3 Custo Receita QQ3Q2 custo variável Custo Fixo Receita Custo total O nível de oferta em Q1 é inferior à demanda mantendo os preços em P1. Em Q2 a oferta aumenta para absorver esse nível de demanda. Assim, o preço é forçado a cair para P2 caso a oferta tenda a continuar subindo, o preço tenderá a cair ainda mais (P3), forçando a demanda para baixo. Um novo entrante eleva a oferta de Q2 para Q3 Lucro = R-CT A presença de grande lucratividade atrai novos entrantes que se sentem seduzidos a abrir negócios no mesmo ramo da indústria. A queda nos preços conduz a queda na receita. Não sendo acompanhada pela queda no custo total, esta conduz a uma queda no lucro. Figura 7 – Curvas de oferta e demanda e curvas de receita total, custo total, custo fixo. Como é possível deduzir do que foi mencionado, as decisões no campo dos negócios devem ser tomadas com base no conceito de custo de opor- tunidade. Segundo este conceito, o custo econômico do investimento em ativos, em certo negócio, corresponde ao valor renunciado pelo seu melhor uso alternativo. Em um feliz exemplo, Besanko (2006), cita o caso de uma empresa que utiliza certa matéria-prima para produzir os bens que vende. Quando consegue adquiri-la por um custo inferior ao praticado pelo mer- cado, o custo contábil por considerar o seu custo histórico, irá registrar o custo pelo preço de aquisição. No entanto, sob a ótica econômica, este não é o custo, visto que como a empresa teria como alternativa vendê-la por um preço superior ao custo de aquisição, este seria o seu melhor uso alternati- vo. No entanto, esta optou por utilizá-la na produção dos seus bens, renun- ciando a oportunidade do seu melhor uso, isto é, revendê-las. Então o maior Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 46 Estratégia Competitiva preço praticado no mercado, isto é, o valor renunciado, seria considerado o seu custo de oportunidade. Em geral, as decisões estratégicas assumem, como referência, as diferentes oportunidades e restrições enfrentadas pela empresa, no que irá diferenciar as boas das más decisões. Assim, como os custos econômicos, os custos contábeis também são úteis à tomada de decisão estratégica, por exemplo, quando são necessários estu- dos que envolvam os custos históricos, como a evolução das demonstrações contábeis, ao longo do tempo, ou ainda na comparação do desempenho da firma frente a um concorrente. Outros conceitos importantes estão associados aos custos fixos e variá- veis. Os custos fixos segundo Sandroni (1989) são “aqueles que permanecem inalterados independentemente do grau de ocupação da capacidade da empresa. São custos originados pela própria existência da empresa, estando a firma produzindo ou não, estes, ainda assim, são incorridos”. Alguns exem- plos são os aluguéis, a depreciação, os juros, as amortizações etc. Ainda de acordo com Sandroni (1989), os custos variáveis são a “parte do custo total que oscila conforme o grau de ocupação da capacidade produti- va da empresa, como por exemplo, matérias-primas, salários por produção, energia elétrica, dentre outros”. O custo total é constituído pela soma dos custos fixos e custos variáveis. Percebe-se que os custos fixos estão fortemente atados à intensidade de capital e os custos variáveis à intensidade de mão-de-obra. No gráfico inferior da figura 7, estão representadas as curvas do custo fixo, do custo variável e do custo total. Está representada, também, a curva de re- ceita total, cuja forma parabólica é resultante da forma da curva de demanda, isto é, quando o preço é alto a demanda é baixa e quando o preço é baixo a demanda é alta. Sendo a receita gerada pelo produto do preço pela quanti- dade, acompanhando a trajetória da curva de demanda e calculando o pro- duto do preço praticado pela quantidade demandada, ao longo de toda a curva chega-se à forma parabólica da receita total. O lucro ou prejuízo é o resultado da diferença entre a receita total e custo total, também representados no gráfico inferior da figura 7. Economias de escala As economias de escala se acham vinculadas ao conceito de custo total médio, para os quais dependendo do que se deseja demonstrar, pode assu- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 47 mir diferentes abordagens, como visto no item anterior. Assim, quanto maior o peso que custos fixos exercem na formação do custo total maior a sensibi- lidade às economias de escala. Tais economias de escala estão associadas ao uso de ativos fixos e sua produtividade. Portanto, são elas bastante sensíveis aos investimentos intensivos de capital e seu volume de produção. Grandes fábricas, por exemplo, possuem uma enorme proporção de ativos geradores de custos fixos. Assim, ao aumentarem a sua produção o custo total médio tende a variar em uma função cuja forma se assemelha à letra U do alfabeto, conforme figura 8. Custo Médio $ QuantidadeQ1 C1 CM Maiores economias de escala Figura 8 – Curva de custo médio, representativa das economias de escala. Como pode ser observado, na medida em que aumenta a produção, os custos médios vão decaindo até que todas as economias de escala sejam obti- das, pelo melhor uso dos seus ativos. Nesse ponto, o custo médio é o mínimo. A partir desse ponto, caso a firma continue a aumentar a sua produção em pre- juízo do melhor uso dos seus ativos, ela incorrerá em deseconomias de escala, o que pode ser observado pelo aumento nos custos médios mínimos. Economias de escopo As economias de escala e escopo se inter-relacionam. Como visto, as economias de escala representam reduções no custo unitário na medida em que aumenta a produção de determinado bem ou serviço. Já as eco- nomias de escopo ocorrem quando os custos unitários se reduzem ou se mantêm na medida em que aumenta a variedade de bens produzidos ou serviços prestados. Segundo Besanko (2006), as economias de escala são Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 48 Estratégia Competitiva definidas em termos de custo total médio em declínio, as economias de escopo são definidas em termos do custo total relativo a uma variedade de bens e serviços considerados em conjunto em uma empresa. Por isso, quando uma empresa produz uma certa variedade de bens ou serviços compartilhando recursos e capacidades sem necessidade de ampliação de ativos fixos, ela obtém queda nos custos relativos à cada opção dentro de um portfólio de variedades. Assim, são obtidas economias de escopo. A indústria automobilística consegue obtê-la por meio do uso de platafor- mas comuns, como por exemplo, a família Pálio da FIAT, em que os mode- los Pálio, Strada, Weekend e Siena, são produzidos utilizando um conjunto comum de processos, peças e partes (plataforma). Assim, é possível am- pliar a variedade de bens oferecidos aos clientes sem, no entanto, neces- sidade de aumento de investimentosem estoques ou ativos fixos. Custo Médio $ VariedadeV1 C1 CM CM2 V2 Figura 9 – Curva de custo médio, representativa das economias de escopo. De acordo com Wright (2000), as economias de escopo podem ser cha- madas de horizontais quando as unidades de negócio da firma comparti- lham atividades de compra, P&D, marketing e distribuição entre outras, a um custo total médio inferior ao que seria incorrido caso as unidades os contra- tassem individualmente. Economias de aprendizagem ou experiência O conceito de economia de aprendizagem ou experiência se baseia no fundamento de que quanto mais uma tarefa é repetida, melhor ela será Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 49 realizada. Assim, na medida em que uma firma acumula a produção de certo bem ou a prestação de certo serviço, ao longo de certo tempo, o conheci- mento acumulado aumenta e evolui reduzindo assim os erros cometidos, assim como as falhas e retrabalhos. A conseqüência disso é que os custos unitários de manufatura ou de prestação de serviços tendem a diminuir com o acúmulo de experiência. A sua função correlaciona o custo unitário com o acúmulo do número de itens produzidos de certo produto ou número de vezes que a prestação de certo serviço é repetida. O conceito se baseia em três pilares, quais sejam, o aprendizado, as economias de escala e a possibili- dade de substituição de capital por trabalho. O aprendizado tem efeitos mais significativos em atividades intensivas de mão-de-obra, como nos serviços ou atividades industriais possuidoras dessa característica, devido ao impacto sobre a curva de aprendizagem de mão-de-obra. No caso de atividades in- tensivas de capital, o aprendizado é aplicável ao desenvolvimento de novos processos e métodos de fabricação. A escala de produção também impacta a volume acumulado, contribuindo para um percurso mais rápido pela tra- jetória da curva de experiência ou aprendizagem. Como mencionado por Wright (2000) a experiência pode orientar aperfeiçoamento em processos de modo a substituir capital por mão-de-obra, como no caso de processos realizados em locais cujo custo do trabalho é baixo, ou o contrário, por meio da automação intensiva, como no caso de países desenvolvidos em que o custo do trabalho é alto. Há benefícios também aplicados ao projeto do pro- duto, aos sistemas de suprimento e aos de distribuição. Custo Unitário Produção acumulada 1 2 3 4 n C4 Cn Figura 10 – Curva de aprendizagem ou experiência. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 50 Estratégia Competitiva Alianças para recursos e capacidade Em termos dos primeiros passos dados, pela Embraer, no desenvolvimen- to dos modelos ERJ 170 e ERJ 190, era fundamental a seleção de parceiros fornecedores dispostos a compartilhar riscos e o início de desenvolvimento conjuntos de partes das aeronaves com eles. Nesses termos, o compartilha- mento de riscos era elemento mandatório e não opcional para os grandes fornecedores da Embraer – especialmente para os dez que seriam responsá- veis por mais de US$200.000 por aeronave. Pedidos de propostas foram en- viados para 85 potenciais parceiros, dos quais 58 apresentaram propostas e 16 foram selecionados, ao final do processo. Outros parceiros de menor porte foram incorporados à medida em que o projeto caminhava e estimava-se que perto de cem fornecedores seriam envolvidos como parceiros. Diferentemen- te do caso dos modelos ERJ 145/135/140, as parcerias foram estruturadas de modo a dar aos parceiros de risco responsabilidade pelo fornecimento de sis- temas completos ao invés de componentes, encorajando, portanto, o desen- volvimento de relacionamentos mais estreitos com um número mais reduzi- do de fornecedores. A Bombardier, ao contrário, era encarada como menos enfática em termos das parcerias externas porque era maior e mais horizontal e verticalmente integrada. No caso da Fairchild Dornier, em razão de questões financeiras e de propriedade, provavelmente, tinha limitada a sua capacidade para estabelecer e manter relacionamentos de longo prazo. Dada a deliberada agressividade do programa de lançamento, velocida- de e flexibilidade mostraram-se importantes no processo de seleção de for- necedores. Assim, quando a Rolls Royce, fornecedora dos motores da família anterior da Embraer, insistiu em basear sua proposta no motor BR 710/715 (usado no Boeing 717 mas considerado por Yokota “muito pesado e bebedor para o ERJ 170”), a GE ganhou a parada – mesmo sendo também a fornece- dora dos motores para o CRJ-700 (Bombardier) e para o FD-728 (Fairchild). Na expectativa de obter similaridade construtiva, a Embraer tentou combinar propostas de fornecedores para o ERJ 170 e para o ERJ 190. Esperava-se que os fornecedores arcassem com o trabalho de desenvolvimento de suas partes in- dividuais do(s) projeto(s), uma contribuição a ser dada por eles, sem recursos Ampliando seus conhecimentos Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 51 vindos da Embraer, avaliada em US$200 a US$250 milhões dos gastos totais com desenvolvimento das três novas aeronaves. Adicionalmente, esperava-se que eles oferecessem contribuições em dinheiro para ajudar a custear a fração dos custos de desenvolvimento da Embraer. A Embraer avaliou as propostas dos for- necedores potenciais, inclusive contribuições em dinheiro e bens, em termos de suas implicações no fluxo de caixa, descontado à uma taxa anual de 16% para se obter o NPV (Valor Presente Líquido). Os fornecedores selecionados receberiam uma quantia fixa previamente acordada por unidade vendida, atualizada de acordo com índices de custos relativos ao setor industrial, mais a maior parte do negócio de peças de repo- sição. Para alguns produtos ou subsistemas, como pneus e freios, as peças de reposição podiam gerar muito mais receita do que a atividade de OEM (Original Equipment Manufacturer). Não havia, no entanto, qualquer compartilhamento de lucros ou receita com os fornecedores. De acordo com Yokota, cuja área incluía gerenciamento de fornecedores internos e externos tanto na fase de desenvolvimento quanto na fase de produção, isto refletia a dificuldade de se contratar com base em lucros ou faturamento no ambiente das aeronaves comerciais. As primeiras fases do processo de desenvolvimento necessitavam de uma coordenação particularmente bem feita com os parceiros de risco. Na segun- da metade de 1999, os integrantes de uma equipe para a Fase de Definição Conjunta (JDP – Joint Definition Phase), composta por 350 engenheiros e téc- nicos da Embraer e 250 dos parceiros de risco, trabalharam lado a lado em São José dos Campos. Este grupo recebia apoio adicional da equipe de 1.000 engenheiros da Embraer e do Centro de Realidade Virtual, que entrou em operação em fevereiro de 2000 e que permitia que engenheiros e operadores “caminhassem por dentro” de protótipos tridimensionais, como se a aeronave estivesse fisicamente concluída. Neste momento, havia apenas vinte destas instalações em empresas fabris no mundo. Um dos grandes desafios era o de abrigar tantos empregados, vindos de tão diferentes culturas durante muitos meses, o que implicava em alguns desafios gerenciais. Tais desafios foram parcialmente resolvidos com a defi- nição de que cada parceiro era primariamente responsável por seus próprios empregados. Yokota se lembra de que a competição pelos melhores quartos de hotel tinha sido particularmente intensa. Depois da finalização do proje- to preliminar do ERJ 170, ao final da fase de definição conjunta, no iníciode Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 52 Estratégia Competitiva 2000, esperava-se significativa descentralização. Contudo, haveria permanen- te comunicação com os fornecedores a respeito do desenvolvimento e, even- tualmente, compras – função em que se empregavam cerca de 200 pessoas na Embraer. A Embraer queria terceirizar toda e qualquer coisa que não se integrasse a sua estratégia de longo prazo, que era a de se concentrar no fornecimento de “sistemas de inteligência”. Em uma atitude de reviravolta do foco tradicional de fornecimento de bens físicos, as áreas centrais de negócio foram então re- definidas para incluir projeto, direcionamento de projeto, engenharia de sis- temas mais sofisticados de navegação (“Nunca terceirizaríamos a cabine de comando – é lá que projeto e funcionalidade se juntam,” dizia Yokota), monta- gem final e gerenciamento do suporte aos clientes. Atividades de aplicação 1. Por que é importante para uma empresa avaliar e compreender o seu ambiente interno? a) Devido à necessidade de compreender a importância dos aspec- tos ergométricos no trabalho. b) Em razão do impacto que o arranjo físico exerce sobre o desempe- nho da equipe. c) A fim de compreender como recursos e capacidades associados geram competências-chave para a firma. d) Para compreender melhor a elasticidade-preço da demanda. 2. O que significa cadeia de valor? a) O conjunto de preços que se paga por um bem ou serviço. b) A cadeia de clientes e fornecedores de uma firma. c) Local em que ficam presos os bens de valores de uma firma. d) Funções onde se acham alocados os recursos e capacidades da firma. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente interno 53 3. Quais as diferenças entre recursos, capacidades e competências? a) Recursos são bens enquanto capacidades e competências são ser- viços. b) Recursos são pessoas enquanto capacidades são o mesmo que competências. c) Recursos podem ser tangíveis ou intangíveis e as capacidades de- correm da combinação deliberada de diferentes recursos. d) Recursos e capacidades são a mesma coisa, devendo ser valiosos, raros, insubstituíveis e dispendiosos de imitar. e) Recursos, capacidades e competências possuem o mesmo signifi- cado podendo ser utilizados como sinônimos um do outro. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 54 Estratégia Competitiva Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo Objetivos: ao final deste capítulo o aluno deverá compreender os diver- sos aspectos que constituem o ambiente externo em toda a sua extensão assim como visualizar os diferentes estratos em que se divide. Além disso, deverá ser capaz de avaliar como tais aspectos pressionam a organização a se adaptar para se contrapor ou se valer de tais pressões, a fim de sustentar a sua competitividade. Atualmente, muitas empresas com receio dos desafios impostos pela con- corrência internacional, se fixam em seu ambiente doméstico sobre o qual têm controle e postergam as mudanças internas. Como se tal atitude as pro- tegesse das pressões externas. Não adianta fugir, a concorrência vem inva- dindo implacavelmente os mercados domésticos criando ameaças àquelas empresas que, com receio de realocarem recursos e capacidades e desen- volverem novas competências, mantêm sua atuação restrita ao seu mercado doméstico. O ambiente externo é vasto e desafiador em todos os sentidos, não apenas no âmbito doméstico como também no âmbito internacional. Para a sua melhor compreensão, este pode ser estratificado, como proposto por Hitt (2008), em um ambiente geral, um ambiente da indústria e o ambiente dos concorrentes. Ambiente Geral Global Dem ografia Ec on ôm ic o Tecnológico Sócio-cultural Po lít ico -L eg al Ambiente da indústria ou do setor Ambiente do concorrente (H IT T, 2 00 8. A da pt ad o. ) Figura 1 – Diferentes estratos do ambiente externo. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 56 Estratégia Competitiva Para elaboração de uma análise mais criteriosa deste ambiente tão vasto e desafiador, convém estratificá-lo sob diversas óticas. O ambiente geral O ambiente externo, em seu âmbito mais amplo, isto é, o ambiente geral, “é composto por fatores da sociedade em geral os quais influenciam a in- dústria (setor) e as empresas que a compõem” (HITT, 2008). É possível, assim, avaliar as suas diversas fontes de influência tomando como referencial os seguintes fatores: Econômico � O fator econômico está relacionado com os diversos aspectos relativos à estrutura da economia em que está instalada ou pretende se instalar a em- presa, assim como a sua conjuntura e política econômica local. Além do mais, envolve todo o impacto a que está sujeita devido aos movimentos, em maté- ria de economia, assumidos pelos diversos países com os quais se relaciona, e que podem exercer influência sobre o andamento da economia local. Sociocultural � Este fator se relaciona com a composição do tecido social do país em que a firma tem interesses. Também envolve elementos como valores éticos, morais e culturais. Global � O fator global possui relação com as transformações que estão ocorren- do nas necessidades, gostos e expectativas dos consumidores, assim como novos canais de acesso ao mercado consumidor, em termos mundiais. Trata também de elementos tais como os eventos políticos, culturais e institucio- nais dos mercados mundiais. Tecnológico � Possui relação com os diferentes aspectos tecnológicos associados à produção, prestação de serviços e comercialização, isto é, todo o conjunto de inovações que concorrem para a criação de novos produtos, processos e materiais, no ambiente global e que pode ser oportunidade ou ameaça à ampliação da competitividade. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo 57 Político-Jurídico � Mantém relação com a base legal que sustenta o relacionamento entre agentes econômicos e países, e que promovem ou restringem as transações comerciais e institucionais, que buscam o suprimento ou a distribuição de recursos e capacidades. Demográfico � Envolve elementos relacionados à população. Assim, pode incluir o seu tamanho, a distribuição das suas diferentes faixas etárias, a distribuição geográfica da população, a distribuição e o nível de miscigenação entres as diferentes raças que a compõem, assim como a distribuição da renda pelos diferentes estratos populacionais. O ambiente da indústria O ambiente da indústria é o espaço do ambiente externo que influencia diretamente a empresa e seus concorrentes, a partir dos seus movimentos de avanço ou recuo. Os aspectos são bastante conhecidos pelo modelo das cinco forças de Porter (1986): Poder de barganha dos fornecedores O setor competindo por uma posição entre os concorrentes Ameaças de novos entrantes Ameaças de serviços ou produtos substitutos Poder de barganha dos clientes Figura 2 – As forças competitivas de Porter (1986). Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 58 Estratégia Competitiva Rivalidade entre Concorrentes � A rivalidade existente entre os diversos concorrentes na indústria, será re- sultante de um conjuntode fatores tomados isoladamente ou em conjunto. Tais fatores são apresentados abaixo: numerosos ou bem equilibrados; � crescimento lento na indústria; � custos fixos altos (busca de escala); � ausência de diferenciação ou � switching cost; capacidade ampliada em grandes incrementos; � barreiras de saída elevadas, induzidas pela existência de: � ativos especializados; custos fixos de saída (trabalhistas etc.); restrições de governos e sociais (pressões políticas); mudanças nas condições de rivalidade (fusões, tecnologia etc.). Pressão dos Produtos Substitutos � Por bens substitutos, devem ser interpretados todos aqueles que pos- suem atributos de qualidade, desempenho e preço que possam ser compa- rados entre si e cuja utilidade marginal seja equivalente, como por exemplo, sucos de frutas e refrigerantes. barreiras à entrada induzidas pela existência de: � produtos não sujeitos a melhoramento do trade-off preço-desempe- nho com o produto da indústria; produtos com lucratividade baixa. Ameaça de novos entrantes � Os novos entrantes são empresas que, atraídas por atividades potencial- mente lucrativas procuram se estabelecer nesse mercado. É o caso da Nokia Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo 59 que até os anos 1960 produzia apenas pneus e botas de borracha. Entretan- to, em 1963 entrou no mercado de telefonia e nos anos 1980 na produção de micro-computadores. barreiras à entrada induzidas pela existência de: � economias de escala; diferenciação; necessidade de capital; switching cost elevado; difícil acesso aos canais de distribuição; política governamental; retaliação pelos já estabelecidos na indústria; preço de entrada dissuasivo; mudanças nas condições de rivalidade (devido, por exemplo a uma nova tecnologia, aumento na concentração da indústria etc.). Poder de negociação dos clientes � Diversos aspectos interferem no aumento do poder de barganha dos clientes no ambiente de uma indústria, dentre os inúmeros, destacam-se as seguintes: quando possui grande peso nas vendas do fornecedor; � quando o produto tem alto peso nos custos do cliente; � produtos que ele compra são padronizados ou não diferenciados; � baixo nível de � switching cost; os clientes são uma ameaça à integração a montante; � não alteram a qualidade do produto do cliente; � o cliente detém completo conhecimento do fornecedor. � Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 60 Estratégia Competitiva Poder de negociação dos fornecedores � Dentre os inúmeros aspectos que interferem no aumento da força dos fornecedores em uma indústria, destacam-se as seguintes: são mais concentrados que a indústria cliente; � não há produtos substitutos; � a indústria não é um cliente importante; � o seu produto ou serviço é um insumo importante . � Quando uma indústria se mostra atraente em termos de lucratividade, ela atrai interesses de muitas empresas, que desejam compartilhar os ganhos oferecidos pela atuação no setor. No entanto, na medida em que aumenta a entrada de novos agentes e aumenta a pressão de fornecedores e clientes, a lucratividade começa a cair, como demonstra a figura 3. Margem % Taxa mínima de atratividade Número Máximo (provável) Número de concorrentes 1 2 3 4 n Figura 3 – Correlação entre número de competidores e a margem corrente na indústria. O ambiente dos concorrentes A análise do ambiente dos concorrentes focaliza a avaliação de cada um dos seus concorrentes em cada segmento em que atua, avaliando os critérios ou atributos a serem considerados na distinção do seu produto ou serviço, pelos clientes em relação ao concorrente, sendo composta por uma avalia- ção dos seguintes aspectos: objetivos futuros (metas próprias x concorrentes – ênfase da concorrência � e atitude em relação ao risco); Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo 61 estratégia atual (como a firma concorre hoje – está preparada para mudan- � ças na estrutura da competição); premissas (como é a estratégia do setor para os concorrentes – temas que � tornarão o futuro volátil); capacidades (quais os pontos fortes e fracos e qual a classificação da firma � em relação aos concorrentes). Como resultante da análise de todo o ambiente externo encontram-se as avaliações de oportunidades e ameaças do ambiente de negócio. Daí decor- rem as respostas reativas ao que os concorrentes vão fazer no futuro, onde estão as vantagens competitivas da firma sobre os concorrentes ou como isso vai modificar o relacionamento com a indústria. Como resultado de todas as informações coletadas e sistematizadas está o conhecimento organizacional, também chamado business intelligence ou in- teligência competitiva mediante a qual é possível entender e prever melhor os objetivos, estratégias, premissas e capacidades dos competidores. Oportunidades e ameaças A avaliação de ameaças e oportunidades decorre da prévia análise do am- biente geral, do ambiente da indústria e do ambiente da concorrência. Assim, todo este campo oferece oportunidade para a análise de diferentes cenários que se descortinam à frente da empresa e confrontados com as forças e fra- quezas da mesma indicam diretrizes a serem assumidas pelos executivos. Análise ambiental externa Oportunidades (O) Relação de oportunidades Como aproveitá-las Ameaças(T) Relação de ameaças Como identificar e evitá-las Figura 4 – Análise ambiental externa: oportunidades e ameaças. Segundo Tavares (2005), o conceito de análise de forças e fraquezas, ame- aças e oportunidades, também conhecido pela sua sigla em inglês, SWOT, Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 62 Estratégia Competitiva começou a se popularizar a partir de uma conferência sobre política de ne- gócios realizada por Keneth Andrews em Harvard. Esta abordagem procura colocar frente a frente os atributos do ambien- te interno e externo. Assim, forças e fraquezas representam atributos de de- sempenho pertencentes ao ambiente interno, ao passo que, oportunidades e ameaças representam a natureza dos atributos do ambiente externo. Pelo lado do ambiente interno, as forças são atributos de recursos e capacidades que impulsionam o desempenho, enquanto que as fraquezas freiam o de- sempenho. Do lado do ambiente externo, enquanto as ameaças são obstá- culos que comprometem o sucesso das ações estratégicas, as oportunidades são circunstâncias que, como um campo fértil, favorecem a ação estratégica. Concorrência Concorrentes são empresas que competem por um mesmo mercado, no chamado ambiente da indústria, oferecendo produtos ou serviços que se as- semelham no que concerne à sua utilidade e visam atrair para si o mesmo grupo de clientes. Assim, além de concorrentes diretos, há também concor- rentes que oferecem bens substitutos. O conjunto de ações e reações competitivas assumidas pelos concor- rentes ao tentarem obter uma posição vantajosa no mercado, o qual leve a obtenção de lucros acima da média, é comumente chamado de rivalidade competitiva. Tais empresas em suas ações e reações, ao competir para criar ou defender posições vantajosas, assumem posturas, cuja natureza indica diferentes tipos de comportamento competitivo. Assim, é possível perceber em cada mercado, por meio da observação do conjunto de ações e reações de todos os concorrentes, a dinâmica competitiva que caracteriza. É conve- niente lembrar que muitas empresas competem, nãosó em um mercado mas, simultaneamente, em vários. Em síntese, os concorrentes se envolvem em uma rivalidade competiti- va em razão da busca da obtenção de uma posição vantajosa no mercado, por meio de um comportamento competitivo, constituído por ações de um concorrente e respostas competitivas do outro. Como resultante desta rivali- dade nasce a dinâmica competitiva da indústria. Diante disto é possível construir um modelo para avaliar a rivalidade competitiva, constituída das seguintes etapas: análise da concorrência, Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo 63 direcionadores do comportamento competitivo, rivalidade inter-empresas e resultados (HITT, 2008). Análise da concorrência Qual o grau de concentração da indústria (Índice de Herfindahl)? � Qual a quantidade e quais os mercados em comum? � Qual o grau de similaridade dos recursos entre as empresas? Grau de se- � melhança que os recursos tangíveis e intangíveis de uma empresa mantêm entre si tanto em termos de tipo quanto quantidade. O Índice de Herfindahl (IH) é uma medida da estrutura do mercado , refere-se ao número e à distribuição de empresas num mercado, ou seja, por meio da sua interpretação é possível inferir acerca da concentração na indústria em ques- tão. O Coeficiente de Concentração (CC) mede a participação conjunta de um grupo de empresas em uma indústria. O seu cálculo é feito mediante o cálculo da razão entre a soma das participações das quatro principais empresas no total de uma indústria e o total da indústria, ou o percentual acumulado das partici- pações das quatro principais empresas de uma indústria. O CC4, por exemplo, na indústria de livros é de 0,58 e na indústria de aços planos é de 0,97. BALANÇO ANUAL 2005 - Gazeta Mercantil EDITORAS DE LIVROS Firmas Receita Líquida Herfindahl 1 Saraiva Editores R$ 222769 0,031639 2 FTD R$ 218.725 0,030501 3 Editora Ática R$ 192.738 0,023683 4 Scipione R$ 99.226 0,006277 5 Paulus R$ 61.093 0,006277 6 Editora do Brasil R$ 50.247 0,002380 7 Editora Atlas R$ 44.098 0,001610 8 Cia. das Letras R$ 40.534 0,001240 9 Record R$ 40.367 0,001047 10 Elsevier - Campus R$ 39.997 0,001039 11 Caderbras R$ 39.990 0,001020 12 Guanabar Koogan R$ 34.692 0,000767 13 Ediouro Publicações R$ 33.604 0,000720 14 Editora Nova Fronteira R$ 29.450 0,000553 15 Artmed - Bookman R$ 27.959 0,000498 16 IT Mídia R$ 22.134 0,000312 17 Editora Melhoramentos R$ 20.777 0,000275 18 Ave Maria R$ 17.714 0,000200 19 Forense R$ 16.290 0,000169 TOTAL DO SETOR R$ 1.252.404 0,104950246 Índice de Herfindahl 0,10 Conc. Monopo- lística Coefic. de Concentração 4 CC4 0,58564 BALANÇO ANUAL 2005 - Gazeta Mercantil AÇOS PLANOS Firmas Receita Líquida Herfindahl 1 CSN R$ 8.134.492 0,101884326 2 USiminas R$ 6.683.127 0,068771094 4 Cosipa R$ 5.115.084 0,040285805 5 CST Tubarão R$ 4.787.995 0,035298307 10 Vega do Sul R$ 763.839 0,000898359 TOTAL DO SETOR R$ 25.484.537 0,247137892 Índice de Herfindahl 0,25 Oligopólio Coefic. de Concentração 4 CC4 0,58564 Índice de Herfindahl = ∑ (Si) 2 Tipo de concorrência Índice de Herfindahl Concorrência Perfeita < 0,2 Concorrência Monopolística < 0,2 Monopólio > = 0,6 Oligopólio 0,2 <IH <0,6 Figura 5 – Índice de Herfindahl e o grau de concentração da indústria. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 64 Estratégia Competitiva Fica perceptível, assim, o tipo de concorrência dentro da indústria, sendo possível identificar a sua natureza, isto é, se é monopólio, oligopólio, concor- rência monopolística ou concorrência perfeita. Uma dúvida que pode ocorrer, está relacionada com a igualdade entre o limite para o Índice de Herfindahl da concorrência perfeita e da concorrência monopolística, visto que ambos são < 0,2. Como o Índice de Herfindahl indica o grau de concentração da indústria, isto significa que em ambos os tipos de concorrência o grau de concentração é o mesmo, ou seja, ambos os mercados possuem muitos fornecedores e pouco concentrados. Então o que muda? O que muda é a natureza do produto comercializado por cada indústria e o grau de conhecimento do mercado, pelo consumidor. Em essência a diferença entre ambas está em que enquanto na concorrência monopolística os produtos são diferenciados, na concorrência perfeita os produtos são iguais e há plena li- berdade para a entrada e saída de novos concorrentes (PINDYCK; RUBINFELD, 2002). Embora o modelo da concorrência perfeita seja uma abstração feita pelos economistas para apresentar um extremo ao monopólio perfeito, este modelo pode ocorrer em locais em que há pouca ou nenhuma diferença entre os concorrentes e é fácil para os clientes fazerem sua avaliação e escolha, como nos locais em que há concentração de camelôs, por exemplo. Concorrência perfeita � A característica marcante da concorrência perfeita é a presença de muitos fornecedores de um bem homogêneo e muitos consumidores bem-informa- dos e livres para procurar aquele que oferece o menor preço. Nesse caso há um preço de equilíbrio que é determinado pela interação entre oferta e procura, mas que está fora de controle de fornecedores e clientes. Assim, o fornecedor enfrenta uma demanda “infinitamente elástica” (a curva de demanda é hori- zontal, isto é, paralela ao eixo das quantidades). Assim, caso o vendedor cobre do cliente um centavo a mais que seus concorrentes, ele não venderá nem uma unidade do produto e, caso ofereça um preço abaixo do preço de merca- do ele estará sacrificando desnecessariamente a sua receita. Um bom exemplo está na compra de cereais como milho ou arroz, vendido a granel, em um mer- cado central de qualquer cidade. Há muitos fornecedores de igual tamanho, e nenhum deles, individualmente, pode influenciar o preço de mercado. Concorrência monopolística � Trata-se de um tipo de situação de mercado em que existem muitas em- presas fornecedoras, cujos produtos ou serviços, são muito semelhantes, Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo 65 sem que, no entanto, sejam substitutos perfeitos um do outro, de forma que cada empresa possa manter certo grau de controle sobre os seus preços pra- ticados. Na verdade cada fornecedor vende um produto diferenciado em relação ao do seu concorrente. Conforme Besanko (2006), “os produtos A e B serão diferenciados se houver algum preço para cada produto em que alguns consumidores preferirão comprar A e outros preferirão comprar B”. Assim, o fornecedor enfrenta uma demanda “elástica” (a curva de demanda sofre uma ligeira inclinação negativa, isto é, não é paralela ao eixo das quan- tidades, como na concorrência perfeita). Assim, caso o vendedor cobre do cliente um preço maior que o preço de equilíbrio do mercado, ele perderá muitos clientes, o que pode ser negativo, do ponto de vista da receita total. Da forma contrária, caso ofereça um preço abaixo do preço de mercado ele poderá ter um acréscimo em seu número de clientes, cujo incremento em termos de receita pode ser positivo. Um exemplo para esse modelo é o das drogarias, hotéis ou editoras. Oligopólio � É o tipo de organização de mercado em que poucas empresas detêm o controle da maior parte do volume comercializado no mercado. Nesta mo- dalidade de organização, com poucos fornecedores, é razoável esperar que as estratégias de formação de custos de produção e de preços de quaisquer dos concorrentes possam afetar os níveis de produção da indústria como um todo. Assim , o fornecedor enfrenta uma demanda inelástica (a curva de demanda sofre uma forte inclinação negativa, isto é, não é paralela ao eixo das quantidades e sua inclinação é maisforte que a da concorrência mono- polística). Um exemplo vem das aciarias de aços planos ou longos. Monopólio � O monopólio constitui a forma de estruturação de um mercado em que uma empresa domina a oferta de um bem ou serviço, para o qual não há substituto similar. Em geral, os custos de produção são dissuasivos para os novos entrantes, visto que o monopolista já explora ao máximo as econo- mias de escala possíveis naquele mercado. O fornecedor monopolista enfren- ta uma curva de demanda descendente relativamente inelástica, podendo perder clientes caso aumente excessivamente os seus preços. Nas palavras de Besanko (2006), “ter poder de monopólio não é a mesma coisa que ter in- fluência repressora sobre a demanda”. Assim, a firma pode até aumentar seus preços, e o fará até que comece a perder clientes. O que distingue o monopo- lista, não é a forma da curva de demanda que é obrigado a defrontar e sim a Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 66 Estratégia Competitiva sua prerrogativa de aumentar seus preços sem se preocupar com a reação de um concorrente. Um exemplo, no caso do Brasil, está no refino do petróleo, o qual é monopólio da Petrobras. Direcionadores de comportamento competitivo Comportamento competitivo é o conjunto de ações e respostas compe- titivas que a firma assume para construir ou defender sua vantagem com- petitiva e melhorar a sua posição de mercado. Tem como direcionadores os seguintes tópicos (HITT, 2008): Reconhecimento – diz respeito ao nível de reconhecimento do grau de � interdependência recíproca, a qual resulta da similaridade entre recursos – comparáveis em termos de tipo e quantidade – dos concorrentes, capaci- dades dos concorrentes e a quantidade de mercados atendidos – os mercados atendidos e o seu grau de importância para os concorrentes; Motivação – diz respeito ao incentivo da empresa para agir ou reagir ao ataque � dos concorrentes e relaciona-se com a percepção de perdas e ganhos; Habilidade – diz respeito às características presentes na firma e que a torna � mais ou menos apta a reagir a um ataque do adversário. Tem relação com os recursos da firma e com a flexibilidade proporcionada por tais recursos. Isto significa que sem recursos disponíveis a firma pode perder a habilidade para atacar um competidor ou responder à sua ação. Barreiras à Saída Baixas Altas Barreiras à Entrada Baixas Retornos estáveis baixos Retornos arriscados baixos Saídas Retornos estáveis altos Retornos arriscados altos Figura 6 – Barreiras à entrada e à saída. Rivalidade inter-empresas A rivalidade entre empresas é marcada por dois importantes aspectos presentes em diferentes indústrias como a probabilidade de ataque e a pro- babilidade de resposta ao ataque. A probabilidade de ataque é dependente de alguns motivadores presen- tes no setor em que se acham as firmas, quais sejam: Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo 67 Incentivos aos � first-movers – há muitos incentivos para as empresas pionei- ras, lançando um novo produto no mercado. Os mais óbvios são maiores margens (figura 3), proporcionadas por um mercado ainda inexplorado. Além disso, por serem pioneiras, antecipam o percurso da curva de apren- dizado da indústria, obtendo as vantagens de redução de custos antes que seus concorrentes. Tamanho da organização – as empresas menores apresentam maior pro- � babilidade de lançarem ações competitivas, mais rapidamente do que as maiores, por serem concorrentes mais ágeis e flexíveis. O ideal para as gran- des empresas é pensar como as grandes e agir como as pequenas. Atributos – o sentido da palavra atributos tem espectro amplo, represen- � tando todos os aspectos disponíveis no produto ou serviço que beneficiam os clientes que os adquirem. Assim, as firmas estão sempre atentas aos atributos oferecidos pelos seus competidores, mediante os quais podem ganhar ou perder clientes. A probabilidade de resposta a uma ação competitiva tomada pelo con- corrente, também depende de alguns motivadores relacionados, como os aspectos descritos abaixo: Tipo de resposta – inicialmente ações estratégicas recebem respostas estra- � tégicas e ações táticas recebem respostas táticas. As respostas estratégicas envolvem maior uso de recursos, sendo também mais difíceis de implantar e reverter. Reputação – tem ligação com a avaliação feita pelo concorrente acerca do � seu competidor que tomou a iniciativa competitiva. Assim, caso haja ex- pectativa de ganhos acima da média pela empresa que tomou a iniciativa, ela conquistará uma reputação positiva. As respostas deflagradas pelo con- corrente, no presente ou no passado, permitem avaliar a probabilidade de reação futura. Dependência do mercado – representa o peso que certo mercado tem na � composição das suas receitas totais. É altamente provável que as maio- res reações a iniciativas estratégicas partam de empresas que dependam mais fortemente daquele mercado. Casos interessantes podem ser asso- ciados a reação da Bombardier à entrada da Embraer nos mercados de aviões de até 100 lugares, iniciando um projeto bilionário para entrar nes- se mercado. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 68 Estratégia Competitiva Resultados Tomando como referência um ciclo de vida de três fases para as organiza- ções em certa indústria é possível inferir o que acontece durante as fases de nascimento, crescimento e maturidade da indústria em relação à posição no mercado e desempenho financeiro, como segue: Posição no mercado – na fase de � nascimento, a proposta deve ser explorar nichos de alguns mercados difíceis de serem atendidos ou percebidos pelo restante da indústria. Na verdade, tratam-se de pontos cegos ou de incer- teza competitiva. Neste caso a conquista de reputação é fundamental para que a firma possa se estabelecer definitivamente na indústria. Um exemplo é a varejista de óculos de sol Chilli Beens. O modelo de loja criado pela Chilli Beans é um verdadeiro sucesso. Em vez de óculos expostos em vitrines, uti- liza balcões self-service; em vez de produtos de diferentes marcas, apresenta apenas a marca própria e, em lugar de apresentar duas ou três coleções por ano, optou por apresentar pequenas tiragens e óculos novos na prateleira a cada dez dias, o que dá a impressão de exclusividade. Na fase de crescimen- to, serão exploradas as vantagens relacionadas com o uso dos fatores de produção (padronização, ganhos de produtividade e expansão de vendas). Bons exemplos, vêm de redes como Habbib’s ou McDonald’s. Na fase de maturidade o foco passa a ser a exploração da posição de mercado, devido à força que as empresas adquirem em razão do maior nível de concentra- ção que acaba envolvendo tal indústria. Assim, a firma procura desenvolver linhas de produtos que sejam mais lucrativas, produzindo-as com eficiência devido às economias de escala e escopo. Desempenho financeiro – na fase de � nascimento, por ser direcionado por ações empreendedoras. O foco está no aumento da taxa de vendas por segmento, no percentual de receita gerado por novos produtos, serviços e clientes ou ainda vendas por funcionário. Também a avaliação do inves- timento e P&D como percentual de vendas. Na fase de crescimento, o foco passa ser direcionado às ações orientadas para a expansão. Assim, o desem- penho pode ser medido por indicadores como fatia de clientes e contas- alvo, as vendas cruzadas, o percentual de receita gerado por novas utilida- des para o produto e a lucratividade por clientes ou por linhas de produtos. Também será útil medir as taxas de utilização dos ativose os custos da firma versus custos dos concorrentes, a taxa de redução de custos e despesas in- diretas como percentual de vendas. Finalmente, na fase de maturidade, as medidas financeiras podem passar a ser a lucratividade por clientes e por linhas de produtos, o percentual de clientes não-lucrativos e custos unitá- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo 69 rios por unidade de produção, e por transação, assim como o rendimento dos processos ou retorno dos ativos. Parcerias e alianças O portfólio de recursos e capacidades organizacionais, formadores das suas competências essenciais não esgotam as possibilidades de aperfeiço- amento pela via de obtenção de novos recursos e capacidades. Para tornar possível a obtenção de novos recursos e capacidades sem que seja necessá- ria a sua aquisição, é preciso que a empresa tenha a habilidade para consti- tuição de parcerias e alianças. Sendo esta, na visão de Hayes (2008), “uma das mais importantes decisões estratégicas com que toda empresa se depara”. Segundo Wright (2000), as alianças estratégicas, são um tipo de parceria em que duas ou mais empresas realizam um projeto específico ou cooperam em determinada área de negócio. As empresas, formadoras dessa modalidade de parceria, preservam a sua autonomia administrativa e personalidade jurídica, compartilhando custos, riscos e os benefícios de explorar e arriscar novas opor- tunidades de negócios. Slack (2008) cita que podem haver muitas variações em torno de alguns modelos básicos, os quais limita a: co-contratação ( � joint ventures); contratação coordenada (sub-empreitada); � elo de receita coordenada (franquias); � comprometimento comercial de médio/longo prazo (contratos); � comprometimento comercial de curto prazo (negócios eventuais). � Dentre as diversas modalidades de alianças estão aquelas conhecidas como co-contratação ou joint-ventures. Também chamadas de empreen- dimento conjunto, as joint-ventures, constituem uma modalidade de alian- ça em que as empresas se associam, temporariamente, para obter alguma vantagem recíproca, não necessariamente igual, sendo a joint-venture uma entidade à parte das suas formadoras. As vantagens estão associadas à reali- zação e conclusão de um projeto, cujo término, automaticamente, encerra a joint-venture. Há diversos exemplos no Brasil e no mundo desta modalidade de aliança, como por exemplo a Autolatina, uma união entre a Volkswagen e Ford, mantida até 1996. O projeto tinha como objetivo a obtenção de eco- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 70 Estratégia Competitiva nomias de escopo, sendo que para tanto, a VW ofereceu à Ford os motores AP-1800 e AP-2000 (em substituição aos antiquados CHT) e a plataforma do sedã Santana. A Ford, em contrapartida, ofertou a VW a plataforma do Escort, que originou os modelos Apollo, Logus e Pointer. Outro exemplo realizado no Brasil é da Unilever Brasil com a Perdigão. A Unilever ofereceu, para ingresso na aliança, as marcas Becel, Doriana, Claybom e Delicata e todo o equipa- mento, mão-de-obra e a fábrica localizada em Valinhos (SP), em regime de comodato e a Perdigão disponibilizou sua estrutura de venda e distribuição. Ambas as empresas se uniram também para contribuir com a área de marke- ting, pesquisa, inovação e no desenvolvimento de novos itens desse setor de margarinas. No resto do mundo, há outros exemplos interessantes como a aliança entre a Sony e a Ericsson, realizada para a produção de celulares. Outro modelo de aliança é o de acordos de franquia/licenciamento ou de franchising, como também são chamados. Constituem o licenciamento de direitos de uso ou propriedade intelectual relativos a marcas comerciais ou ao know-how ou patente para a utilização e distribuição de bens ou serviços. Além da licença de uso de marcas e direito de uso de propriedade intelectual, o franqueador presta normalmente assistência comercial ou técnica ao fran- queado, durante o prazo do acordo. Ao franqueador, geralmente, em troca da conceção da licença, é paga uma taxa de franquia pelo franqueado para a utilização do método comercial específico, sem contudo ficar caracterizado vínculo empregatício. Os acordos de franquia podem proporcionar ao fran- queador a criação, com investimentos limitados, de uma rede de distribui- ção dos seus produtos, ao tempo em que possibilita ao franqueado possuir um negócio com marca amplamente divulgada e conhecida e orientação quanto às técnicas consagradas de gestão. Basta para tanto observar marcas como McDonald’s, O Boticário etc. Há muitas outras modalidades de alianças estratégicas, tais como os de P&D conjuntos (como o do Brasil com a Ucrânia para construção de um fo- guete para lançamento de satélites), a contratação coordenada (sub-em- preitada, freqüentemente utilizada em obras de construção civil, tais como estradas, barragens etc.), o comprometimento comercial de médio/longo prazo (regido por contratos de fornecimentos, muito utilizados nas relações entre montadoras de automóveis e seus fornecedores de primeira camada). Em geral os fatores que motivam o estabelecimento de alianças são vários, no entanto, o que costuma reger os demais é o que aumenta a força de mer- cado das empresas para competirem. Assim, caso o custo seja o principal obstáculo, o motivador da aliança pode ser aquele que conduz a economias Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo 71 de escala e escopo. Caso o obstáculo esteja relacionado com o desco- nhecimento do mercado em que pretende atuar, uma empresa pode ser motivada a se associar a uma parceira com vasto conhecimento e experi- ência, para que ela possa tirar proveito do aprendizado. Caso esteja rela- cionado com a especificidade de ativos como recursos ou conhecimento, tecnologia e know-how, o motivador será a especialização do parceiro. Há uma última razão nascida do estabelecimento de barreiras sanitárias e fiscais, mediante as quais uma empresa para contorná-las precisa se associar a uma empresa local. Uma importante ressalva se faz necessária, não importa a natureza desta aliança, ela será tão duradoura quanto forem semelhantes a sua cultura e a plataforma tecnológica que compartilham. Ampliando seus conhecimentos Petrobras e a Bolívia – o que diz o ambiente externo? (UOL, 2008. Adaptado.) A principal empresa estrangeira operando na Bolívia, é a Petrobras, e con- seqüentemente a maior prejudicada pela nacionalização dos hidrocarbonetos perpetrada pelo governo de Evo Morales, a qual envolve, inclusive a desapro- priação de ativos, da empresa, no país andino. Em síntese, há dados que de- monstram a importância da empresa naquele país, dentre os quais, o de que a filial boliviana da Petrobras responde por 24% da arrecadação de impostos, 18% do PIB total e 20% dos IED (Investimentos Estrangeiros Diretos) na Bolívia. Como se não bastasse, a Petrobras opera 75% das exportações de gás envia- das da Bolívia ao Brasil, 46% das reservas do país, 95% da capacidade de refino e 23% da distribuição de derivados. Há outros números que impressionam, como o fato de que a empresa produz 100% da gasolina e 60% do diesel con- sumido naquele país. Seus investimentos, entre 1994 e 2005, totalizaram US$ 1,5 bilhão (US$ 1 bilhão, diretamente, e o restante por meio de seus sócios). Brasil e Bolívia Os dois países, Brasil e a Bolívia, assinaram, em 1991, uma “Carta de Intenção de Integração Energética”, a qual se seguiu a construção de um gasoduto binacional entre 1997 e 2000, operado pela Petrobras e por Esse material é parte integrante do Curso de Atualizaçãodo IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 72 Estratégia Competitiva onde o produto é conduzido ao território brasileiro. O gasoduto tem capacidade para 30 milhões de metros cúbicos por dia. Em 2005, suas vendas tiveram média de 22,9 milhões de metros cúbicos para o Brasil e 0,9 milhão para a Argentina. A Petrobras explora poços de petróleo e de gás natural em seis dos nove estados bolivianos (Tarija, Chuquisaca, Co- chabamba, Beni, La Paz e Santa Cruz de La Sierra) e opera os gigantescos campos de gás de San Antonio e San Alberto, no sul do país. Outros números impressionam, como o de que o gás boliviano representa 52,5% “em novas descobertas internacionais e das reservas da Petrobras no exterior”. Na Bolívia está a maior parte das reservas, 158 bilhões de metros cú- bicos, contabilizadas pela Petrobras dentro de seus ativos próprios de acordo com os critérios da “Securities and Exchange Commission”, dos Estados Unidos, entidade que regula os mercados de valores do país. A Petrobras é controlada pelo Estado brasileiro, mas suas ações são negociadas nas bolsas de valores de Nova York, Madri, Buenos Aires e São Paulo. Além disso, a filial Petrobras Bolívia Refinación S.A. (PBR) opera as duas prin- cipais refinarias bolivianas, Gualberto Villaroel, em Cochabamba, e Guillermo Elder Bell, em Santa Cruz de la Sierra, as quais processam em média 40 mil barris de petróleo por dia, o suficiente para atender toda a demanda de gasolina de aviação e querosene. (...) A estatal brasileira também é dona de 100 dos 400 postos de gasolina existentes na Bolívia. Além disso, a empresa emprega 750 pessoas no país andino, entre bolivianos, brasileiros, argentinos, equatoria- nos, holandeses e uruguaios. Em 2005, a Petrobras produziu, na Bolívia, 8.500 barris de petróleo por dia e 7,75 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia, o equivalente a 54.000 bpd de petróleo. A Petrobras está associada a outras multinacionais na operação de sete blocos de produção na Bolívia e opera seis diretamente. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Análise do ambiente externo 73 Atividades de aplicação 1. Por que é importante para uma empresa avaliar e compreender o seu ambiente externo? a) Devido à importância das relações com os sindicatos patronais. b) Devido à relevância das condições climáticas no preço das merca- dorias, principalmente das commodities. c) Devido à importância cada vez menor da concorrência nos am- bientes doméstico e internacional. d) Devido à relevância da compreensão de todas as pressões do am- biente geral e da indústria que ameaçam a competitividade. 2. Que fatores compõem o ambiente geral? a) Econômico, sócio-cultural, econômico, político-jurídico, global, tecnológico e demográfico. b) Político, técnico, social e cultural. c) Financeiro, cambial, tarifário e fiscal. d) Cognitivo, contemplativo, e ativo. 3. Quais as forças competitivas que se impõem sobre as organizações em seu mercado competitivo? a) A força da gravidade e a pressão atmosférica. b) As forças dos concorrentes e dos fornecedores. c) As cinco forças preconizadas por Michael Porter. d) As forças das marcas concorrentes e substitutas. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento Objetivos: ao final deste capítulo o aluno deverá compreender as estra- tégias genéricas que demonstram o posicionamento competitivo. Deve co- nhecer de que modo a criação de valor interfere no posicionamento compe- titivo das empresas. Deve ser também, capaz de compreender como é criado o valor, suas diversas formas de mensuração e os seus modos e possibilida- des de avaliação, frente a concorrência. A descrição de Porter (1986) para estratégia competitiva é o conjunto de ações ofensivas ou defensivas para criar uma posição defensável em uma indústria, para enfrentar com sucesso as cinco forças competitivas (rivalidade entre empresas competidoras, ameaça de novos entrantes, ameaça dos bens/serviços substitutos, poder de negociação de fornecedores e poder de negociação de clientes) e, assim obter retorno sobre o investimento maior para a empresa. Assim, em síntese, o posicionamento diz respeito à forma escolhida pela empresa para competir dentro do segmento de mercado escolhido. Sob esta ótica, e para enfrentar as cinco forças mencionadas, a empre- sa pode escolher quatro estratégias genéricas, quais sejam, a liderança em custo, diferenciação, custo focalizado em um nicho de mercado e diferen- ciação focalizada em um nicho de mercado. As estratégias associadas ao custo devem ser adotadas em mercados em que o cliente é mais sensível aos mesmos, como nos casos de produtos “commoditizados”. As estratégias de diferenciação são recomendadas para indústrias cujos clientes são mais sensíveis aos atributos diferenciadores que ao custo. Segundo Mintzberg (2000) o posicionamento significa a estratégia vista como a escolha do local de um produto específico em um mercado parti- cular. Especificamente, o sentido da palavra “posicionar” está relacionado à ação de “localizar” uma organização em um “ambiente”. Por esta definição, a estratégia torna-se força mediadora ou de alinhamento entre a organização e o ambiente que está, entre o contexto interno e externo. O posicionamento é importante, internamente, devido à elaboração da es- trutura do negócio que deve ser a mais eficiente para a estratégia genérica escolhida. Externamente, a sua importância é a de apresentar-se ao cliente, Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 76 Estratégia Competitiva possibilitando-lhe o alinhamento do produto ou serviço, conforme esteja po- sicionado à sua necessidade. Há casos em que, devido à indecisão quanto à melhor estratégia, a empresa corre o risco de ficar “presa” no meio termo, di- ficultando a percepção pelo cliente do quanto o produto ou serviço atende às suas necessidades. Assim, empresas nesta situação, comumente, perdem mercado e, em casos extremos acabam sucumbindo à concorrência, melhor posicionada. Para que haja um posicionamento bem sucedido, dentro da estratégia competitiva, inicialmente, convém à organização estabelecer vínculo entre as diversas partes que a constituem evitando com isto que as mesmas atuem de forma estanque. Assim fazendo, busca-se a orquestração das idéias e ações implementadas em áreas, muitas vezes, distantes fisicamente da em- presa. Assim, como ponto de partida, há a criação de uma comunidade da visão, isto é, a idealização do futuro da empresa, compartilhado por todos aqueles que a constituem, sem exceções, como proposto por Backer (1992). A visão é a idealização de um futuro desejado para a empresa. Um retrato do que ela pretende ser, na visão empreendedora dos seus líderes, em termos amplos, daquilo que pretende realizar. Trata-se de um quadro desafiador e imaginativo do seu papel futuro e dos objetivos que ultrapassam seu ambiente e sua posição competitiva atual. É a essência do negócio que o conduz até o futuro. Um bom exemplo, é a AmBev que quer ser reconhecida como “a mais competitiva companhia de bebidas do mundo”. No caso do McDonald’s é “nossa visão é ser o melhor restaurante de atendimento rápido”. A missão é a razão de ser da empresa, em termos qualitativos, no que se distingue de meta (quantitativa). A missão possui uma constituição mais concreta que a visão e juntamente com a visão são capazes de definir a natureza e a individualidade da organização. Assim, a missão da empresa podetomar como referência para a sua constituição quatro elementos, quais sejam: o mercado, a tecnologia, a geografia, e os benefícios. Um dos elemen- tos que melhor define uma empresa não é o seu nome, ou seu estatuto ou, até mesmo o produto que faz, na verdade, ela é melhor definida pela sua missão. Somente uma definição clara da missão torna clara e objetiva a sua razão de existir, assim como torna possíveis, claros e realistas os objetivos da empresa. Um exemplo interessante vem de uma das maiores redes de varejo do Reino Unido, a Marks and Spencer Group PLC, visitada por mais de 21 milhões de pessoas por semana, qual seja, “vender roupas para a família...” – M&S. Ainda, o McDonald’s, apresenta um bom exemplo de missão, qual Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 77 seja “Ser o melhor empregador para nossos funcionários, em todas as co- munidades do mundo e oferecer excelência operacional aos nossos clientes em todos nossos restaurantes”. A Air Liquide Brazil tem como missão, para a divisão de grandes negócios “oferecer soluções de gás e energia para gran- des indústrias no mundo inteiro para melhorar a eficiência de seus proces- sos e ajudá-las a se tornar ambientalmente responsáveis”. A missão da Gol Linhas Aéreas Inteligentes é “prover transporte seguro de pessoas e cargas, sustentado pelo trinômio baixo custo, baixo preço e de excelência na qua- lidade, através de soluções inovadoras, buscando maximizar os resultados para nossos clientes, acionistas, colaboradores e sociedade”. Na visão e missão estão contidas as crenças e valores, enfim, as aspirações de uma organização, com as quais, de forma ampla, pretende conquistar co- rações e mentes dos seus intervenientes (stakeholders). Os valores traduzem a filosofia da organização. A efetividade da missão será maior na medida em que os intervenientes assumem e orientam seu comportamento pelos pa- drões éticos apregoados e praticados pela organização. Como indicado por Hitt (2008), a ética nos negócios é parte essencial das discussões da empresa sobre o que pretende se tornar (sua visão) bem como sobre os clientes ou grupos aos quais planeja e como pretende atender (sua missão). Exemplos de valores vêm de diversas empresas, e, em geral, possuem características como “valorização das pessoas”, “o nosso funcionário é o número um”, “respeitamos a meio ambiente” etc. Um exemplo da Clarion é “ ´AMBIÇÃO` – Buscamos a nossa contínua melhoria através da auto inovação e coragem. ‘CRIATIVIDADE’- Fomentamos a criatividade e trabalho para produzir novos valores e transfor- mar sonhos em realidade. ‘SINCERIDADE’ – Trabalhamos diligentemente e de boa fé com o objetivo de demonstrarmos sermos dignos de confiança”. Outro importante elemento a ser determinado, preliminarmente, é o negó- cio. É vital para qualquer empreendimento um delineamento claro do escopo da sua atuação, isto é, do espaço que a mesma pretende ocupar em relação às demandas ambientais. Qual é o nosso negócio? Qual será o nosso negócio? Qual deveria ser o nosso negócio? Por exemplo, para uma empresa do setor de comunicações poderia ser: “nosso negócio é o transporte da informação”. Estratégias genéricas À busca de identificar uma posição defensável em uma indústria, como afirma Michael Porter, as empresas procuram e descobrem diferentes manei- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 78 Estratégia Competitiva ras de fazê-lo. A tais alternativas dá-se o nome de posicionamento competiti- vo, o qual tem como base quatro estratégias genéricas, conforme figura 1. Inicialmente, é necessário diferenciar as empresas em dois grandes grupos, quais sejam, aquelas empresas que pretendem oferecer baixo custo a todo o setor, de um lado e, do outro lado, aquelas que pretendem diferen- ciar seus produtos ou serviços para toda a indústria em que atuam, isto é, em todo o setor. Neste caso, não há distinção entre grupos de produtos relacio- nados a diferentes unidades de negócios. Além da separação apresentada no parágrafo anterior, há uma segunda divisão em dois grupos de empresas, quais sejam, de um lado as que preten- dem oferecer baixo custo a segmentos bastante distintos dentro da indústria e de outro, aquelas que pretendem diferenciar seus produtos ou serviços a segmentos bastante distintos da indústria. Diferenciar por: Projeto ou imagem da marca; Tecnologia; Peculiaridades; Serviços; Rede de fornecedores etc. Competir com: Construção de instalações em � escala eficiente; Pers � eguição vigorosa de reduções de custo e despesas gerais; Busca de alta parcela de mercado; � Projetos de produtos que � simplifiquem a fabricação. Atender a: Determinado grupo comprador; Clientes de uma linha de produtos; Um mercado geográfico. Vantagem estratégica Unicidade Baixo Custo A lv o es tr at ég ic o âm bi to d e to da a in dú st ria ap en as u m se gm en to pa rt ic ul ar Diferenciação Enfoque Custo Figura 1 – As quatro estratégias genéricas de Porter. Fica claro então que os diferentes posicionamentos que podem ser assu- midos pelas empresas em sua indústria, são os seguintes: a líder em custos em toda a indústria; � a diferenciação em toda a indústria; � a líder em um segmento específico da indústria: � em custos; � em diferenciação. � Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 79 Liderança em custos em toda a indústria Esta estratégia genérica vislumbra a obtenção de vantagem sobre os demais concorrentes por meio de atuação sobre a escala e a experiência. Assim, instalações intensivas de capital, capazes de produzir grandes vo- lumes, preparadas para atender a demanda intensiva, sendo desse modo sensíveis às economias de escala devem ser a opção. Outro tipo de eco- nomia é a de aprendizagem, obtida mediante a acumulação, ao longo do tempo de grandes volumes de produção, e capazes de reduzir os custos na medida em que, com o tempo, as pessoas fazem melhor e cometem um número de erros cada vez menor. As indústrias mais intensivas de mão- de-obra e as prestadoras de serviço são mais sensíveis às economias de aprendizagem. Para alcance de uma posição de baixo custo, em geral, exige uma grande participação de mercado, assim como acesso a fontes de matérias-primas, o que possibilita grandes economias de escala. Além disso, exige projetos de produtos e de processos que reduzam os custos operacionais, além de eco- nomias de escopo que favoreçam o compartilhamento e ativos e insumos capazes de aumentar a variedade de produtos ou serviços oferecidos sem aumento de custos fixos ou variáveis. Há produtos que, naturalmente, são associados a esta modalidade de es- tratégia genérica como, por exemplo, as commodities. No Brasil podem ser identificados bons exemplos na indústria de pneumáticos como do grupo BS Colway e Pneuback. Diferenciação em toda a indústria Uma outra alternativa em termos estratégicos é optar por diferenciar o produto ou serviço oferecido ao mercado criando um produto ou serviço que devido à sua singularidade, pode ser considerado como único em toda a indústria. A unicidade pode ser obtida em funcionalidade, qualidade, ser- viços associados, por meio de recursos como os da engenharia de valor ou de confiabilidade. Pode-se dizer que a Mercedes Benz, possui um produto diferenciado. O mesmo pode-se dizer do iPhone que oferece um telefone móvel associado a um conjunto de aplicativos apoiados pela Apple que o torna único. Até mesmo dos sorvetes da Häagen Datzs queoferecem diver- sas opções de sabores exóticos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 80 Estratégia Competitiva Líder em um segmento específico da indústria (foco) A terceira estratégia genérica está associada ao enfoque de um grupo de clientes, um segmento de produtos ou serviços ou até mesmo um certo mercado geográfico. O enfoque pode assumir formas diferentes, como a de baixo custo ou de diferenciação, voltada para um alvo determinado por um grupo particular de clientes ou por um segmento de produto específico. Este alvo é alcançado mediante a elaboração de uma política funcional específi- ca, conforme o enfoque determinado pela estratégia. A Nextel, por exemplo, enfocou os serviços diferenciados de dados e voz para clientes corporativos em vez de desenvolver uma estratégia para toda a indústria. Nesse grupo ainda encontram-se a Michelin ou a Goodyear em pneus para empilhadeiras e caminhões fora de estrada com enfoque em custo. E para o caso do enfo- que em diferenciação a fábrica de pneus Durathread (oferece, além do pro- duto, os acessórios, os serviços de consultoria e monitoramento e produtos para ampliação da vida útil) para o segmento de empilhadeiras e caminhões fora de estrada. As estratégias genéricas envolvem o uso diferenciado de recursos e ca- pacidades estabelecidos pelas políticas funcionais da organização. Devem também influenciar os arranjos funcionais e produtivos, além de procedi- mentos operacionais e de controle específicos para cada uma. Finalmente, as mesmas vão requerer novos estilos de liderança, capazes de influenciar os valores e induzir a cultura e o clima internos. Presa no meio ou meio-termo Michael Porter (1986) criou o termo stuck in the middle para descrever a posição de uma empresa que não assume vantagem de custo ou de diferen- ciação. Porter afirma que as empresas que estão “presas no meio” acabam por obter menor lucro que as empresas com posições claras de custo ou di- ferenciação, conforme sua afirmação “à empresa que se fixou no meio-termo é quase garantida uma baixa rentabilidade”. Como este tipo de organização deseja oferecer “tudo para todos”, a pro- vável conseqüência da falta de uma clara definição do seu posicionamento é a ausência de uma estrutura organizacional e arranjos físicos de processos adequados ao mercado que deseja atender. Assim, não consegue atender aos clientes de alto volume que exigem preços baixos, o que para ser alcançado Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 81 deve ser precedido por processos padronizados e poucas opções em termos de variedade. Tampouco consegue atender ao mercado que exige ampla va- riedade de opções, o que é precedido por um processo menos padronizado capaz de oferecer uma ampla gama de benefícios em detrimento do preço. Uma forma de ampliar a variedade sem, no entanto, haver necessidade de ampliar os ativos, o que exigiria grandes volumes para obtenção de econo- mias de escala, é por meio do compartilhamento de recursos geradores de economias de escopo. Essa poderia ser uma saída para as empresas que se encontram no “meio-termo”. Um exemplo da aplicação alternativa vem dos bancos comerciais. Um pequeno banco pode oferecer apenas depósitos e empréstimos. No entanto, para ampliar o seu escopo, sem exigência de in- vestimentos em seguradoras, operadoras de cartão de crédito etc. tais em- presas firmam alianças com seguradoras e operadoras de cartões de crédito, Banco 24 Horas, como forma de oferecer tais serviços aos seus clientes sem necessidade de investimentos em ativos e incorrer em aumentos no overhe- ad (são as despesas correntes de operação de um negócio, necessárias à sua continuidade exceto materiais diretos e mão-de-obra direta, sendo portanto formado por custos fixos). Criação de valor Em termos de causa efeito, segundo Besanko (2006) a lucratividade de um negócio depende, por um lado, do valor criado pela empresa em rela- ção aos concorrentes, por outro, da economia de mercado, isto é, como as 5 forças de Porter (1986) atuam como vetores da indústria. Pelo seu lado o valor criado pela empresa é uma composição entre custo e benefício. O conceito de valor é bastante discutido em muitos textos de economia, finanças e marketing. No entanto, parece haver um consenso quando se trata de expressá-lo como sendo o resultado da razão entre custo e benefí- cio. Assim, a vantagem competitiva e a criação de valor estão intimamente ligadas. Isto significa que a escolha por um benefício será sempre compara- da ao seu custo total de propriedade e que somente haverá criação de valor para o cliente na medida em que os benefícios superarem os custos. Desse modo, será competitivamente vantajosa a posição em que o concorrente oferece ao cliente um bem ou serviço cujo índice de valor seja melhor que o do seu competidor. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 82 Estratégia Competitiva Ameaças de novos entrantes Ameaças de serviços ou produtos substitutos Poder de barganha dos clientes Poder de barganha dos fornecedores O setor competindo por uma posição entre os concorrentes (P O RT ER , 1 98 6) Figura 2 – As forças competitivas de Porter (1986). A discussão acerca da criação de valor para o cliente, leva à reflexão preli- minar sobre a forma como devem ser medidos o custo e o benefício. O custo deve ser tratado como “custo total de propriedade”, isto é, todo o custo in- corrido desde o momento da aquisição até o momento do descarte. Assim, devem ser incluídos o preço pago, o dispêndio com manutenção, o seguro, a depreciação dentre outros e deve ser deduzido o valor residual do bem apurando quando o usuário abrir mão do seu uso. Nos atributos de valor, estão contidos dois importantes aspectos relacio- nados com a escolha pelo posicionamento, quais sejam, o custo e a diferen- ciação. O enriquecimento dos atributos qualificadores, diferentes do custo, levaria a empresa a concorrer com foco na percepção que o cliente tem e valoriza dos elementos diferenciadores do produto ou serviço. No entanto, caso a firma opte por concorrer em custo, ela deverá procurar reduzir ao mínimo o custo total de propriedade incorrido pelo cliente. O benefício deve ser medido em termos dos atributos, diferentes do preço, possuídos pelo bem ou pelo serviço, produzidos ou prestados, res- pectivamente, pela empresa. Tais atributos, dentre outros, podem ser: a qualidade, a consistência, a flexibilidade, o rendimento, a confiabilidade, a durabilidade etc. Uma fábrica de automóveis pode oferecer flexibilidade de modelos e marcas de veículos, assim como consistência em seus produtos, mas pode não oferecer rapidez na entrega de seus produtos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 83 Valor = CustoTotal de Propriedade (C) (preço + outros custos - valor residual) Benefícios (B) (atributos intrínsecos + extrínsecos Figura 3 – Valor criado como sendo a razão entre Custo e Benefício. Um restaurante pode oferecer serviço de self-service, em que há pouca flexibilidade de variedade de pratos para a escolha do cliente, no entanto, pode oferecer rapidez na prestação do serviço, assim como facilidade de acesso, visto que a sua localização, em geral, encontra-se próximo aos locais de maior consumo e circulação de pessoas e veículos. Cu st o To ta l d e pr op rie da de Benefícios Percebidos Baixo Alto Valor inferior Valor competitivoValor superior Alto Figura 4 – Trade off: Matriz de Valor (custo total de propriedade x benefícios percebidos). Intuitivamente, o cliente estabelece uma avaliação entre os benefícios e os custos. Na verdade, ao pensar em benefícios, o cliente levará em conside- ração apenas aqueles que podem ser por ele percebidos, como por exem- plo, os atributos consistência, flexibilidade, rapidez, confiabilidade etc. Da mesma forma, ao pensar em custos o cliente que se acha dentro da cadeia de suprimentos, mantendo relacionamento do tipo “bussiness to bussiness”, não pensa exclusivamente no preço pago, mas antes no custo total de pro- priedade, entendido como a soma dos custos de pré-transação (identificação da necessidade; procura e qualificação de fornecedores; treinamento; cadas- tramento de fornecedores etc.), dos custos de transação (incluindo nesse grupo preço; custo de pedido; transporte; recepção; inspeção; devolução etc.) e custos de pós-transação (paradas de processo; as não conformidades; pré e pós-venda etc.) e deduzindo, ao final, o valor residual. Assim, o cliente Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 84 Estratégia Competitiva estabelece como critério de avaliação, um índice de valor representado pela razão apresentada na figura 3. Como conseqüência, quanto menor a razão custo/benefício maior o valor criado, conforme figura 4, visto que a mesma é representativa da proporção do custo no total do benefício oferecido e percebido pelo cliente. Sob esta ótica, o benefício não constitui um pacote único e uniforme. O benefício é constituído por um elenco diversificado de atributos, conforme mencionados no parágrafo anterior, sendo que cada produto ou serviço possui seus próprios atributos e em quantidades diferentes. O analista pode, assim, avaliar a relevância de cada atributo, sob a ótica do cliente, segundo os pesos atribuídos a cada um desses atributos. Em seguida o analista poderá medir o pacote de atributos oferecidos ao cliente em termos da quantidade de cada um, contida no produto ou serviço produzido pela empresa ou pelo seu concorrente. Como forma de equalizar integralmente o pacote de bene- fícios oferecidos aos clientes, é elaborada uma média ponderada, dos pesos e das quantidades de cada um dos atributos. Dessa forma, o valor criado pela firma pode ser medido conforme demonstrado a seguir na figura 5. Situação no momento 1 Atributos Marca Peso A Consistência 5 1 5 Qualidade 4 1 4 Flexibilidade 2 2 4 Rendimento 2 1 2 Confiabilidade 3 1 3 Durabilidade 1 1 1 Média ponderada 17 1,118 Preço ou custo 50,00 Índice de valor 45 Figura 5 – Medida da avaliação da posição competitiva do produto da marca A. A seguir, pode ser realizada análise semelhante em relação ao concorren- te, o que possibilita a comparação entre o concorrente e a empresa. Diante de ambas as informações pode ser traçada uma revisão da estratégia, repo- sicionando o produto da firma. Percebe-se pelos dados que embora o preço da marca B seja $48,00 e o da marca A seja de $50,00, a média ponderada dos benefícios oferecidos pela marca B é de 1,059, portanto inferior à média ponderada dos benefícios de A, que é de 1,118. Na verdade, como se pode perceber o preço compensa a diferença no número de atributos oferecidos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 85 Valor inferior Valor competitivo Valor superior Curvas do momento 1 60,00 50,00 40,00 30,00 20,00 10,00 0,00 0,00 0,50 1,00 1,50 Benefícios (média ponderada) Produto A Produto B Pr eç o + M an ut en çã o - R es id ua l Situação no momento 1 Atributos Marca Peso A B Consistência 5 1 5 1 5 Qualidade 4 1 4 1 4 Flexibilidade 2 2 4 1 2 Rendimento 2 1 2 1 2 Confiabilidade 3 1 3 1 3 Durabilidade 1 1 1 2 2 Média ponderada 17 1,12 1,06 Preço ou custo 50,00 48,00 Índice de valor 45 45 Figura 6 – Comparação da posição competitiva das marcas A e B. Uma vez detectada a situação de igualdade em termos de valor oferecido ao cliente, o próximo passo é alterar o posicionamento, isto é, ou alterar o custo ou alterar a diferenciação em termos de benefício oferecido. Assim, como pode ser observado na figura 7, a marca B altera o seu preço, oferecen- do um índice de valor superior ao oferecido pela marca A. Curvas do momento 2 Valor inferior Valor competitivo Valor superior 60,00 50,00 40,00 30,00 20,00 10,00 0,00 0 0,5 1 1,5 Benefícios (média ponderada) Produto A Produto B Pr eç o + M an ut en çã o - R es id ua l Situação no momento 2 Atributos Marca Peso A B Consistência 5 1 5 1 5 Qualidade 4 1 4 1 4 Flexibilidade 2 2 4 1 2 Rendimento 2 1 2 1 2 Confiabilidade 3 1 3 1 3 Durabilidade 1 1 1 2 2 Média ponderada 17 1,12 1,06 Preço ou custo 50,00 40,00 Índice de valor 45 38 Figura 7 – Comparação da posição competitiva das marcas A e B (momento 2). Na verdade, como demonstra a figura 7, a marca B, (talvez devido aos seus baixos custos) pode reduzir seus preços ao nível de $40,00, o que equivale a uma diferença de 20% a menos que a marca A. No entanto, a diferença entre as médias ponderadas de benefícios se manteve inferior a 20%, isto é, 5,28 %, o que denota uma vantagem de benefício em favor do cliente. Por esta razão o índice de valor (IV) torna-se favorável à marca B, visto que o IV da marca A é de 45, enquanto o da marca B é de 38. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 86 Estratégia Competitiva Curvas do momento 3 Valor inferior Valor competitivo Valor superior 60,00 50,00 40,00 30,00 20,00 10,00 0,00 0,0 0,5 1,0 1,5 Benefícios (média ponderada) Produto A Produto B Pr eç o + M an ut en çã o - R es id ua l Situação no momento 3 Atributos Marca Peso A B Consistência 5 1 5 1 5 Qualidade 4 1 4 2 8 Flexibilidade 2 2 4 1 2 Rendimento 2 1 2 1 2 Confiabilidade 3 1 3 1 3 Durabilidade 1 1 1 2 2 Média ponderada 17 1,12 1,29 Preço ou custo 50,00 35,00 Índice de valor 45 27 Figura 8 – Comparação da posição competitiva das marcas A e B (momento 3). Em um terceiro momento, a marca B realiza um segundo movimento com- petitivo ousado, qual seja, aperfeiçoa a sua qualidade, assim, ela aumenta a vantagem de benefício ao cliente, uma vez que além de ter elevado a média ponderada de benefícios, saindo de 1,06 para 1,29, ou seja, oferecendo mais benefícios ao cliente que a marca A, ainda reduziu seus preços para $35,00. Fica clara a vantagem de B sobre A, quando é avaliado o índice de valor, em que A aparece com 45 e B com 27, demonstrando que a marca B está agre- gando muito mais valor ao cliente que a marca A. Valor e posicionamento Conforme modelo apresentado por Kim (2005), há três características a serem contempladas na boa estratégia, quais sejam foco, singularidade e mensagem consistente. Em termos de foco, toda estratégia notável possui foco, sendo que a sua curva de valor deve mostrá-lo com nitidez. A singula- ridade, significa que o produto ou serviço é distinto dos demais, isto é, não há nenhum produto ou serviço que se assemelhe ao oferecido pela empre- sa. Quando a estratégia é formulada de maneira reativa, como tentativa de acompanhar a concorrência, a empresa perde a singularidade. A mensagem consistente e convincente, é um componente importante da boa estratégia. Como no caso da Gol é o “transporte seguro de pessoas e cargas, sustentado pelo trinômio baixo custo, baixo preço e de excelência na qualidade”.Já no caso da Southwest Airlines, a linha aérea que inspirou a Gol, é “velocidade de avião a preço de carro”. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 87 Se comparados os atributos de outras modalidades de transporte alterna- tivos ao transporte da Southwest, como os casos do transporte por automóvel ou o transporte por outras companhias aéreas, pode ser elaborada a matriz de avaliação de valor, como apresentada por Kim (2005), conforme a figura 9. (K IM , 2 00 5, p .3 7)Perfis dos Recursos ATRIBUTOS DA OPERAÇÃO Preço Refeições Sala de Espera Escolha de assentos Vôos com conexão Serviços amigáveis Velocidade OPERAÇÃO IDEAL Southwest Automóvel Outras companhias Baixo Inexistentes Inexistente Poucos Pouco Baixa Inexistente Alto Grandes Amplas Irrestrita Muitos Muito Alta Figura 9 – Matriz de avaliação de valor da Southwest Airlines . Observando a matriz, é possível observar o posicionamento intermediário entre o automóvel e o de outras companhias aéreas, construído por meio do rompimento com trade off usual entre as alternativas do transporte por auto- móvel ou pelas companhias aéreas tradicionais, o que gera a singularidade al- mejada pelas boas estratégias. Desse modo, a Southwest foi capaz de criar um valor excepcional para os clientes, na medida em que, nitidamente, entrega um conjunto de benefícios sem precedentes a um custo extremamente baixo. A clara diferença entre as curvas de valor apresentadas na figura 9, demonstra a força do posicionamento, uma vez que os clientes identificam na Southwest o que de fato ela é, isto denota a mensagem consistente, oferecida pelo posi- cionamento. O foco está definido como direcionado aos serviços amigáveis e velocidade. Sendo que em razão do baixo custo e a flexibilidade devido à sua freqüência de vôos ela consegue competir diretamente com os automóveis flexíveis e a opção é de baixo custo, o que denota a singularidade do serviço da Southwest. Para alcançar o baixo custo, a companhia não investe em sala VIP, em assentos previamente escolhidos, ou até mesmo em refeições grandes ou completas. Finalmente, fica claro que a Southwest, em vez de simplesmente reagir aos movimentos dos seus concorrentes, reinventou a sua indústria, utili- zando o modelo das quatro ações proposto por Kim (2005), quais sejam: Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 88 Estratégia Competitiva Reduzir – quais atributos devem ser reduzidos bem abaixo dos padrões se- � toriais? Elevar – quais atributos devem ser elevados bem acima dos padrões setoriais? � Eliminar – quais atributos considerados indispensáveis pelo setor devem � ser eliminados? Criar – quais atributos nunca oferecidos pelo setor devem ser criados? � Considerando tais questões e buscando alternativas em suas respostas, a empresa pode redesenhar a sua curva de valor. Entretanto, convém lembrar que a busca não deve se limitar a identificação de respostas explicativas, mas sim, alternativas para o redesenho da curva de valor, por meio da quebra de paradigmas da indústria em que o negócio está instalado. O processo de criação de valor O processo de criação de valor ocorre quando os insumos percorrem as ati- vidades primárias da cadeia de valor, sendo transformados por estas e apoiadas pelas diversas atividades de apoio da organização. Assim, a atividade compras adquire matérias-primas, as quais são administradas pela logística de entrada, e pagas ao fornecedor segundo o que está previsto no orçamento elaborado pelas áreas de planejamento e de finanças. Ou por outro lado, os funcionários neces- sários à operação da manufatura serão recrutados segundo as especificações passadas à atividade de administração de recursos humanos para seu suprimen- to. Da mesma forma a promoção para a venda do produto será elaborada pelas áreas de marketing e vendas e a área de serviços de pós-vendas irá administrar todo o suporte aos produtos em garantia, inclusive a logística reversa, no caso de devoluções ou recall para correções em não-conformidades em produtos. Infra-estrutura organizacional (Finanças, Planejamento etc) Administração de RH Desenvolvimento de Tecnologia Compras Logística de entrada Operações (manufatura) Logística de saída Marketing e vendas Serviços de Pós-vendas M ARGEM M ARGEM Atividades de Apoio Atividades Primárias Objetivos estratégicos (P O RT ER , 1 98 6) Figura 10 – Cadeia de valor. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 89 Normalmente, as empresas procuram suprir as suas necessidades de re- cursos e capacidades internamente, ou as contratam externamente. Terceirização, uma forma de ampliar os recursos e criar valor Há casos, no entanto, em que a busca pela criação de valor superior para seus clientes, leva as empresas a optarem por terceirizar as atividades, em vez de assumirem a sua produção interna. A razão provém de pressões do ambiente geral, exercidas dentre outros aspectos, principalmente, pela: competição; � elementos sociais; � elementos econômicos; � presença de fornecedores capacitados; � elementos políticos; � elementos ambientais. � Tais pressões acabam por disparar gatilhos para que a empresa dê início a um processo para a tomada de decisão quanto a que atitude assumir. Assim, as atitudes podem ser voltadas para: redução de custos (o custo marginal de produzir é maior que o custo de � adquirir); falta de capacidade (o nível de especificidade dos ativos envolvidos no pro- � cesso é pequeno tornando viável a terceirização); menor � time to market (necessidade de reduzir o tempo de lançamento de novos produtos ou serviços, por meio de uso de engenharia simultânea); melhoria da qualidade (aproveitar a � expertise de fornecedores melhor ca- pacitados); introdução de novos produtos; � investimento focalizado; � equilíbrio de capacidades; � Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 90 Estratégia Competitiva habilidades insuficientes; � aumento da prontidão de resposta. � Empresa em T0 Empresa em T1Desligamento de atividades Agregação de atividades Terceirização Aumento do escopo “core competence” Características: Controla várias • atividades; Diversidade em custos • operacionais; Insegura quanto à • competitividade sustentada. (R EZ EN D E, 2 00 4) Figura 11 – Movimentos em direção à core competence. Como apresentado na figura 11, em um momento inicial (T0) as empresas têm controle sobre todas as atividades criadoras de valor. Por tal razão assu- mem uma grande diversidade de custos operacionais e não têm convicção clara de como sustentar a sua competitividade. Em sua trajetória rumo à con- centração em seu core business a firma certamente irá desligar atividades por meio da terceirização, ou aumentar o seu escopo de atividades por meio de alianças com quem as possui. Segundo Zook (2001), core business é o conjunto de produtos, recursos, clientes, canais e áreas geográficas que delimita a essência do que a empresa é ou pretende ser para atingir sua meta de crescimento – ou seja, ampliar suas receitas de maneira sustentável e lucrativa. Assim, alcança o momento 1 (T1) em que a firma se aproxima mais e mais da sua core competence (competência central) , como no caso das segurado- ras que, no passado ofereciam apenas a cobertura de sinistros aos seus clien-tes e que, atualmente, oferecem, além da cobertura para sinistros, também um elenco de serviços de manutenção ou suporte durante 24 horas, por meio de alianças que ampliam o seu escopo de serviços oferecidos aos clientes. Para uma maior efetividade do processo de terceirização, convém às empresas determinarem que áreas da organização devem ser envolvidas na tomada de decisão, criando uma equipe multifuncional capaz de avaliar amplamente as repercussões dessa decisão. Tal equipe, além de apresentar a sua posição acerca do processo, deve determinar a extensão da aliança, o modelo de aliança a ser adotado e responsabilidades de cada uma das em- presas nesse processo. Além disso, deve-se criar indicadores de desempe- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 91 nho capazes de monitorar o andamento do processo frente aos objetivos almejados pelo mesmo. Assim fazendo, é possível avaliar a conveniência da continuidade do processo ou a revisão das responsabilidades, o modelo ou a extensão. Em uma decisão ainda mais radical deve ser reavaliada a conve- niência da continuidade da terceirização. Análise conjunta das forças e fraquezas, oportunidades e ameaças (swot – strength, weakness, opportunities, threats) A avaliação conjunta das forças e fraquezas, oportunidades e ameaças é uma importante ferramenta para planejamento das diferentes diretrizes que podem ser elaboradas para constituição da estratégia competitiva e do posicionamento. Pessoas Processos Sistemas Gestão Sociais Políticas Economias Tecnologias Mercadológicas Tradução de Estratégias em Termos Operacionais planejamento & gestão SWOT - ambiência interna e externa Exemplo: negócio no ramo de cosméticos e bem estar Internos Externos Forças (S) Oportunidades (O) Fraquezas (W) Ameaças (T) Relação de forças Produtos que oferecem benefícios 1. à saúde Boa localização2. Know-how de produção3. Criatividade de equipe4. Qualidade da matéria-prima5. Poder de inovação6. Nível de investimento relativamente 7. baixo Baixo custo de mão-de-obra8. Condições de pagamento facilitadas9. Relação de fraquezas Capacidade geral limitada1. Fraca distribuição2. Capacidade de produção limitada3. Estrutura insuficiente4. Marca sem expressão no mercado5. Situação financeira imatura6. Inexistência de sistemas de 7. informações Cadastro incipiente de clientes atuais8. Capacidade de marketing preária9. Promoção/Comunicação precária10. Como tirar vantagem Como miinimizá-las Relação de oportunidades Grande número de fornecedores no 1. mercado Tamanho do segmento do mercado 2. interno e externo Taxa de crescimento do mercado 3. interno e externo Mercado maduro4. Barreiras à saída de concorrentes5. Aceitabilidade social dos produtos 6. (qualidade de vida e saúde) Alto grau de investimento no setor7. Relação de ameaças Economia instável1. Inexistência de barreira a novos 2. entrantes Fidelidade do cliente a marcas já 3. estabelecidas no mercado Mercado de produtos inelásticos4. Alteração das necessidades dos 5. clientes Sazonalidade do mercado6. Tendência do consumidor em com-7. parar produtos de marcas líderes Como aproveitá-las Como identificar e evitá-las N eg at iv os Po si tiv os Figura 12 – Análise SWOT. A tabela apresentada na figura 12 constitui um exemplo do modo como podem ser estruturadas as informações para a análise, para o caso de um negócio na indústria de cosméticos e bem estar. Como pode ser observado Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 92 Estratégia Competitiva existem duas dimensões importantes. Uma das dimensões está associada ao ambiente externo (ambiente geral) e interno (a organização). A outra di- mensão vislumbra descrever os aspectos positivos (forças e oportunidades) e negativos (fraquezas e ameaças) dos ambientes interno e externo. Além disso, há espaço em uma segunda coluna a ser utilizado para a descrição dos planos de ação para tirar vantagem das forças, minimizar as fraquezas, no que concerne ao ambiente interno e como aproveitar oportu- nidades e evitar as ameaças, no ambiente externo. Ampliando seus conhecimentos Sandálias Havaianas, um Caso e Reposicionamento Desde 1962, quando foi fabricado o primeiro par de sandálias Havaianas a empresa, São Paulo Alpargatas, tinha como objetivo criar um produto com produção em alta escala e distribuí-lo ao mercado por um preço acessível, a fim de atender às necessidades da camada da população composta pelas classes C, D e E. Para a época era considerado um produto inovador, devido à sua produção utilizando a borracha sintética, com apenas dois componentes (solado e tira), tendo como conseqüência o baixíssimo custo de produção. O seu posicionamento de mercado (baixo custo e enfoque) estava orien- tado para o seguimento das camadas de menor renda da população, ficando marcada pelas campanhas de televisão sendo que utilizavam como garoto- propaganda o humorista Chico Anísio. O seu slogan era “Sandálias Havaianas... não deformam, não têm cheiro e não soltam as tiras”. As vendas atingiram a invejável marca de 100 milhões de pares produzidos em apenas um ano durante a década de 90. Apesar disso, além do produto ter sido amplamente copiado pela concorrência, conquistou uma imagem nega- tiva junto às camadas de poder aquisitivo mais alto, o que resultou em baixas margens de lucro. Nem mesmo a conquista de 90% do mercado de sandálias de borracha garantiu uma rentabilidade acima da média para o produto. En- tretanto, a sandália não sofreu nenhuma modificação significativa (somente acréscimo de novas cores) passando a ser considerado um produto de uso por pessoas pouco exigentes, e considerado de baixo prestígio mesmo em classes de renda intermediária, como a classe B. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 93 O cenário adequado à mudança no posicionamento das Sandálias Havaia- nas ocorreu a partir de 1994, com a consolidação do Plano Real, o qual contri- buiu para a elevação do padrão de vida e do poder aquisitivo da população brasileira. A primeira empresa que vislumbrou as oportunidades advindas deste cenário foi a Grendene, em relação ao seu chinelo Rider. Feito a partir do PVC e com preço mais elevado do que as Havaianas, possuía uma linha de produtos mais confortável e colorida, amparada por forte campanha de comunicação com artistas consagrados, além do conhecido slogan “Dê férias aos seus pés”. Como resposta a tal iniciativa a Grendene ganhou mercado e conquistou o gosto da população brasileira. No final dos anos 90, a São Paulo Alpargatas empreendeu uma agressiva estratégia de marketing que mudou completamente o status das Sandálias Havaianas. Lançando várias versões das Havaianas, a nova estratégia foi base- ada em três premissas, conforme exposto por Monteiro, Nucci e Lima (2004): ampliação da linha de produtos (Havaianas Top); � suporte de mídia eletrônica e impressa com forte campanha publicitária; � foco na distribuição da nova linha no canal de varejo de calçados. � O status das Havaianas começou a ser alterado a partir da estratégia de re- vitalização da marca, iniciado em 1994, em função do lançamento das Havaia- nas Top. Até aquele ano, as Havaianas tradicionais ofereciam apenas 5 cores, dentre as opções. A estratégia para revitalizar o produto incluiu o lançamen- to de cores da tendência da moda, contidas em embalagens, novos suportes para a exposição do produto e propaganda voltada para um público consu- midor de classe média. A empresapassou, então, a se valer de atores famosos em sua campanha, demonstrando que eles também faziam uso do produto em seu dia-a-dia, nas situações de lazer ou em suas próprias residências. Nesta etapa do processo de revitalização, a empresa identificou que 90% das compras de Havaianas eram realizadas por impulso, o que tornava o PDV (ponto-de-venda) essencial para a realização da venda aos consumidores das classes A e B. Foram desenvolvidos projetos específicos, objetivando o aten- dimento aos canais de atacado, o varejo de calçados e o auto-serviço. Embora fosse um produto de baixo volume, em comparação às Sandálias Havaianas tradicionais, as Havaianas Top obtiveram uma resposta bastante positiva do mercado, possibilitando à empresa construir um novo segmento de mercado Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 94 Estratégia Competitiva para seu produto. Em seguida, dando continuidade à sua estratégia, a empresa decidiu cons- tituir uma nova unidade de negócios para as Sandálias Havaianas, possuidora de uma equipe exclusiva para pensar e operacionalizar a estratégia. Com esta finalidade foram criadas diversas linhas de produtos, visando atender a distintos segmentos de mercado, como surfistas, crianças, mulhe- res e aventureiros. Como é possível perceber, pela leitura, a segmentação e o reposicionamento do produto foram muito bem sucedidos o que acabou por encorajar a empresa a discutir a possibilidade de adotar estratégia semelhan- te para as sandálias Havaianas no mercado internacional. O produto tinha como principal estratégia de internacionalização a ex- portação, até 1999, para mais de 40 países, principalmente, países da Amé- rica Latina, da África e alguns países da Ásia. Em termos mercadológicos, a empresa utilizava, fundamentalmente, a mesma estratégia, sem nenhuma alteração no produto, comunicação ou promoção. As Sandálias Havaianas eram vendidas às camadas populares, a preços relativamente baixos. No en- tanto, apresentava-se uma oportunidade de reposicionamento para as Ha- vaianas em mercados de elevado poder aquisitivo, como os EUA, a Austrália e a Europa. A ousadia foi a principal marca da estratégia estabelecida para os princi- pais mercados internacionais. O projeto teve seu início em 2001, perpetrado nos dois principais países formadores de opinião (Itália e França), em termos de moda. Naquele ano as Sandálias Havaianas participaram de uma mostra sobre a América Latina na Galerie Lafayette, em Paris. O sucesso do evento abriu portas à exportação de Sandálias Havaianas para outros países, dentre os quais a Inglaterra, a Bélgica, a Suíça, a Grécia e o Principado de Mônaco. No caso dos EUA, foram realizadas inúmeras ações como a participação na New York Fashion Week, além da distribuição do produto em megaeven- tos, como na entrega do Grammy e na premiação do Oscar em 2003, inclusi- ve no MTV Awards. Este trabalho foi realizado em conjunto com o distribui- dor do produto nos EUA, visando divulgar a marca. Graças à associação com eventos de grande prestígio e ao uso do produto por formadores de opi- nião, como atrizes de renome, o reposicionamento estratégico para vender a marca, e não o produto, caracteriza a atuação da Alpargatas no mercado internacional. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia competitiva e posicionamento 95 Atividades de aplicação 1. Quais estratégias genéricas indicam o posicionamento a ser assumido pelas empresas? a) Estratégia de concorrência em custo e diferenciação em toda a in- dústria ou em segmento em particular. b) Estratégia de concorrência com os novos entrantes, com os con- correntes e com fornecedores. c) Estratégia de concorrência com os fabricantes de bens substitutos e com os clientes. d) Estratégia de concorrência com os fabricantes de produtos dife- renciados. 2. Como é medido o valor entregue aos clientes da empresa? a) Pela razão entre os benefícios percebidos pelos clientes e o custo total de propriedade. b) Pela razão entre o preço pago pelo cliente e o custo da sua aquisi- ção. c) Pela razão entre o grau de satisfação dos clientes e o volume de serviços prestados aos clientes. d) Pela razão entre o preço pago pelo cliente em um concorrente e o preço pago pela cliente junto à firma. 3. Quais as ações devem ser promovidas com o objetivo de criar um valor singular para os clientes, desenvolvidas por Kim? a) Planejar, desenvolver, checar e agir. b) Reduzir, elevar, eliminar, e criar. c) Construir, implantar, monitorar e concluir. d) Iniciar, planejar, executar/controlar e finalizar. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições Objetivos: Ao final do capítulo o aluno deverá compreender os conceitos de fusões e aquisições, os seus motivadores e as suas diferentes formas de sua implementação. Deverá também ter a percepção dos riscos e dificulda- des envolvidos em tais operações, assim como os diferentes processos de reestruturação. Uma fusão é o tipo de movimento estratégico em que duas empresas de- cidem estabelecer integração das suas operações. Exemplos desse tipo de movimento estratégico, são a fusão entre a Companhia Cervejaria Brahma e Companhia Antártica de Cervejas ou a da Gerdau e a Co-Steel, ou ainda da Interbrew e Ambev. Uma aquisição é o tipo de movimento estratégico em que uma empresa adquire o controle ou a integralidade das ações de outra, a fim de torná-la uma subsidiária, nesse caso o exemplo é da Ambev e da Quilmes . Uma incorporação, também chamada takeover é o movimento estratégi- co, semelhante à aquisição em que a empresa a ser adquirida não solicita oferta pela compra de suas ações, assim ocorre a chamada oferta hostil, para compra das suas ações. Neste caso, quanto mais pulverizada a proprieda- de de suas ações mais vulnerável à oferta hostil uma empresa estará, prin- cipalmente devido à dificuldade de controle por parte dos demais acionis- tas. Exemplo dessa modalidade de movimento estratégico é o takeover pela Mital Steel da Arcelor, ou também da Couros pela TATA Steel. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 98 Estratégia Competitiva D iv ul ga çã o: K PM G c or po ra te fi na nc e Figura 1 – Anúncios publicados de algumas transações realizadas no Brasil. Os três movimentos estratégicos mencionados formam um elenco básico de possibilidades, colocado à disposição das empresas, para aumento do seu poder de mercado em um cenário competitivo. Um tema corrente no estudo da estratégia competitiva, particularmente nas últimas duas décadas, tem sido o que trata da importância das aquisições de outras empresas. O número de movimentos dessa natureza tem aumen- tado bastante, não estando restrito apenas ao universo das grandes corpo- rações, mas também às médias empresas. As causas desses movimentos são diversas, como mencionam as principais publicações. Dentre as razões estão, a consolidação da indústria, busca de ampliação das economias de escala, sinergia de atividades, internacionalização de mercados, dentre outros. Há também razões inconfessáveis como o “aumento do poder de mercado e im- posição de preços mais altos”, como cita Grava (2002). Harding (2002) aumenta a lista, acrescentando outros motivos para as fusões e aquisições: como uma forma de estender segmentos de produtos ou mercados, como uma maneira de adquirir competências/ativos em P&D, ou até mesmo comoferramenta para construir uma nova indústria. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições 99 Breve histórico das fusões e aquisições Desde a Segunda Revolução Industrial a história econômica presenciou diversas ondas de fusões decorrentes de ajustes naturais motivados por di- versos vetores. A primeira onda de fusões ocorreu entre os anos de 1887 e 1904. Esta onda teve o seu início com a expansão que se seguiu à depressão de 1883, tendo durado aproximadamente 20 anos, indo até 1904. Foi mo- tivada, principalmente por grandes mudanças nos transportes (ferrovias), comunicações (cabo submarino entre Europa e os Estados Unidos, telégra- fo e telefone), técnicas de manufatura, competição e instituições legais de- correntes da consolidação da indústria do petróleo (Standard Oil) e aço (US Steel), além da formação dos grandes monopólios. Um segundo movimento nas fusões ocorreu entre os anos de 1916 e 1929. Durante esse período, houve uma verdadeira explosão nos negócios realizados no mercado de capitais. Esta explosão contribuiu para que os in- vestidores constituíssem firmas em diversas indústrias, como a dos serviços de utilidade pública (eletricidade e gás), os serviços de comunicações (Bell) e a indústria automobilística (Ford, Chrysler, GM etc.). Cabe porém uma res- salva, as fusões de várias empresas em uma única companhia, as chamadas consolidações na indústria, não eram permitidas por leis anti-truste, moti- vadas, por episódios como o da Standard Oil, que no início do século XX, foi obrigada a se sub-dividir em três empresas diferentes. Nesta segunda onda de fusões e aquisições ocorreu um número maior de fusões por integração vertical e diversificação do que a onda que a precedeu. O seu principal obje- tivo visava a força de oligopólio, enquanto a onda que a antecede objetivava monopólio. A terceira onda de fusões e aquisições foi marcada pelas fusões de con- glomerados ocorridas na década de 1960. Nesse período, o principal motiva- dor passou a ser a fusão com o objetivo de diversificação. Surgem, então, os conglomerados com a formação de grupos de atividades diferentes. Segun- do Chandler (1990), ao final da década de 1960, as fusões haviam se tornado uma mania. Antes da Segunda Guerra Mundial eram raros os executivos de grandes empreendimentos internacionais que gerenciavam mais de 10 divi- sões. Em 1969, inúmeras empresas operavam com um número entre 40 e 70 divisões. Neste período grandes modificações no sistema contábil-financeiro Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 100 Estratégia Competitiva (Chandler, 1990), assim como a grande explosão no mercado de capitais esti- mularam as aquisições dos anos 1960. Houve um grande número de fusões e aquisições mal sucedidas, nesse período, devido principalmente às defici- ências na gestão de atividades tão diversificadas, o que pode conduzir à má alocação de recursos e controle deficiente das subsidiárias. A onda de fusões e aquisições dos anos 1980, teve como característica principal a expansão dos negócios relacionados a investimentos na compra de outras empresas devido ao baixo valor das ações das mesmas no mer- cado de capitais comparado com os investimentos alternativos (custo de oportunidade) na própria planta da empresa ou na construção de plantas novas. O crash ocorrido, em 1987, na Bolsa de Nova York tornou muito ba- ratas as empresas americanas, negociadas em bolsa, o que promoveu um boom nas aquisições hostis (takeovers), favorecido, também, pela evolução nos mecanismos financeiros. Outra característica marcante desta onda está relacionada ao grande número de aquisições de empresas do mesmo porte ou até maiores. Pode-se afirmar que o principal motivador desta onda foi a expansão internacional das grandes empresas transnacionais. Já nos anos 1990, o perfil das negociações associadas às fusões e aquisi- ções assumem uma forma somente possível a partir de uma maior maturi- dade dos mercados financeiros e de capitais internacionais. Assim, se trans- formam em uma opção inteligente às constantes oscilações ocorridas no mercado global, decorrentes de políticas econômicas de governos, ajustes impostos pelos mercados e tecnologias. (BOWER,1995) Segundo Andrade e Rosseti (2007), entre os anos de 1990 e 2006, o número de transações dessa natureza no Brasil, subiu de 186 para 473. Além disso, um dado é notável, qual seja, o de que no mesmo período o número de transações envolvendo empresas estrangeiras subiu de 56 para 290. Diferentes naturezas das fusões e aquisições Dependendo da relação estabelecida entre as atividades de ambas as empresas envolvidas na transação, as fusões e aquisições podem assumir naturezas diferentes, como as aquisições horizontais, as aquisições verticais, as aquisições relacionadas e as aquisições internacionais. (HITT, 2008) Aquisições horizontais – são assim chamadas devido ao fato da aquisição � envolver empresas pertencentes à mesma indústria, como suas concor- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições 101 rentes. Em geral esse tipo de aquisição aumenta o poder de mercado da empresa compradora devido às possibilidades da exploração de sinergias com foco em redução de custos e aumento de receitas. Um exemplo foi a aquisição do BankBoston pelo Banco Itaú, ou ainda a aquisição da Rede Bom Preço pelo Wal-Mart. Aquisições verticais – têm esse nome, pois envolvem empresas fornecedo- � ras, clientes ou distribuidores do produto, isto é, “de cima para baixo” ou “de baixo para cima” na cadeia de suprimentos. Devido à sua natureza, esse tipo de transação torna a compradora verticalmente integrada em sua ca- deia de suprimentos. Um caso bastante estudado de verticalização é o Ford Motors, que produzia do aço que consumia até o látex usado nas partes de borracha dos seus veículos. É costume dizer que quando esse tipo de transação ocorre na direção dos fornecedores (a montante) trata-se de uma estratégia defensiva, visto que protege os canais de suprimento contra possíveis perdas de poder de barganha. Isso pode ocorrer tanto devido à aquisição do fornecedor pelo concorrente quanto ao aumento no tamanho do fornecedor. Quando esta transação ocorre em direção ao cliente ou dis- tribuidor (a jusante), trata-se de uma aquisição ofensiva, devido à sua maior aproximação do mercado. Embora as razões possam ser parecidas com as que levam a verticalização à montante, como maior controle sobre os canais de distribuição, tem também como razão, o melhor relacionamento e co- nhecimento do mercado em que atua a empresa compradora. Um exemplo de aquisição dessa natureza foi a aquisição da Tritec Motors pela FIAT, uma transação vertical a montante. “Vertical”, devido à sua incorporação ao por- tfólio de divisões da FIAT e a “montante”, visto se tratar da aquisição de um fornecedor de motores da empresa. Aquisições relacionadas – são assim chamadas devido à aquisição envolver � empresas pertencentes à indústrias relacionadas, isto é, seus produtos po- dem ser substitutos ou complementares. Um exemplo desse tipo de tran- sação foi a aquisição da Gillete pela Procter&Gamble. Aquisições internacionais – são assim chamadas devido às aquisições envol- � verem empresas pertencentes a países diferentes. Tem a finalidade principal de transpor barreiras de entrada. Essa é a forma mais efetiva de manutenção de controle das operações internacionais quando comparada com outras, tais como exportação, licenciamento ou parceria. Um exemplo é a aquisição da Ameristeel pela Gerdau. Recentemente, a Gerdau Ameristeel Corporation adquiriu, nos EUA,a Chaparral Steel Company por US$ 4,22 bilhões. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 102 Estratégia Competitiva Sinergias, um forte argumento para fusões e aquisições Há dois tipos de sinergia na abordagem de Harding (2002), quais sejam as sinergias positivas e as negativas. As positivas são aquelas cuja soma de 1 + 1 > 2. As sinergias negativas são aquelas em que 1 + 1 < 2. Curta Longa Es ca la d e te m po Baixa Alta Pr ob ab ili da de d e su ce ss o Sinergia de receita: novos produtos através de novos canais Sinergia de receita: produtos existentes através de novos canais Racionalização de instalações Atividades operacionais compartilhadas Funções corporativas duplicadas (H A RD IN G , 2 00 2) Figura 2 – Avaliação das sinergias. De acordo com a figura 2, o grau de intensidade das sinergias pode ser ava- liado conforme caminha-se de um círculo mais exterior para outro mais inte- rior. Assim, quanto mais ao centro estiver, como no caso círculo inferior (Fun- ções corporativas duplicadas), isto indica que os efeitos da ação serão mais duradouros e haverá alta probabilidade de sucesso. A necessidade desta ação se destina a eliminar ou compartilhar funções corporativas duplicadas (que existem em ambas as empresas), como a contabilidade ou a área de RH. Como pode ser observado na figura 2, esta sinergia deve ser estabelecida, principal- mente entre aquelas funções relacionadas às atividades de apoio da cadeia de valor, isto é, RH, finanças e contabilidade, planejamento, P&D e até compras, isto é, são aquelas funções que se acham mais afastadas do relacionamento direto com os clientes. Trata-se, assim de uma combinação que ocorre logo após a fusão. O benefício de transformar duas funções (uma em cada empresa) em apenas uma função na empresa resultante da fusão, certamente, será obtido (alta probabilidade de sucesso), devido ao menor risco envolvido. Além disso, seu efeito será mais duradouro sendo, por isso, a escala de tempo, mais longa. O impacto do seu efeito está associado mais aos custos do que à receita. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições 103 Na medida em que ocorre a migração para os círculos mais externos, isto significa um maior impacto sobre a geração de receita por meio, por exem- plo, da capacidade de desenvolver novos produtos e canais de distribuição, sendo portanto, uma importante fonte de inovação. Qualquer que seja o caso, a avaliação do tipo de intervenção deve se concentrar em estimar a velocidade em que as sinergias poderão ser realizadas e o nível requerido de investimento para construí-las. A recomendação feita por Harding (2002) é a de que deve ser avaliada a probabilidade de sucesso para cada círculo e a partir daí o seu impacto sobre o fluxo de caixa resultante. Os aspectos decisivos na condução da integração das empresas após a fusão são os seguintes, segundo pesquisa da Bain&Company realizada em 205 empresas (HARDING, 2002), durante o segundo semestre de 2002: integração de culturas abordada desde o início; � identificação das melhores pessoas para liderar a empresa resultante; � integração focada em valor; � comunicação intensiva pelos líderes; � métricas de sucesso estabelecidas e monitoradas; � plano pronto antes de concluída a transação; � abordagem adaptada à razão estratégica da transação; � novo time de gestão escolhido antes do anúncio da fusão; � maioria dos funcionários focada no negócio central; � rapidez mais valorizada que a perfeição. � As escolhas da empresa para fusões ou aquisições O passo inicial é constituído por uma declaração de como a aquisição ou fusão irá beneficiar o negócio, de modo a fortalecer o core business ou o negó- cio central da empresa que está adquirindo a outra. Segundo Zook (2001), core business é o “conjunto de produtos, recursos, clientes, canais e áreas geográfi- cas que delimita a essência do que a empresa é ou pretende ser para atingir sua meta de crescimento – ou seja, ampliar suas receitas de maneira sustentável e lucrativa”. De acordo com a concepção de Harding (2002), o termo utilizado para Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 104 Estratégia Competitiva denominar a declaração de como a fusão irá beneficiar o core business é tese de investimento. Em síntese, a tese de investimento é uma declaração elaborada pela empresa que está desenvolvendo a operação de compra para os acionis- tas e alta administração com a finalidade de demonstrar como a aquisição ou fusão irá beneficiar o negócio, no sentido de fortalecer o seu core business. Na verdade, a responsabilidade da aquisição está em avaliar corretamente em que medida tal aquisição irá fortalecer o portfólio de negócios como um todo. Mas há um conselho importante a ser dado. Antes de elaborar a “tese de investimento” é necessário o seu perfeito alinhamento com a sua estra- tégia deliberada. Assim, é necessário obter o melhor conhecimento acerca do negócio dentro da própria empresa, de modo a compreender como ela ganha dinheiro hoje e como irá ganhar no futuro. Prahalad; Hammel (1995), convidam a pensar em certas questões, como seguem: Que clientes você está servindo hoje? E daqui a 5,10 anos? � Através de que canais você atinge seus clientes hoje? E daqui a 5,10 anos? � Quem são seus concorrentes hoje? E daqui a 5,10 anos? � Qual é a base da sua vantagem competitiva hoje? E daqui a 5,10 anos? � De onde vêm seus lucros hoje? E daqui a 5,10 anos? � Que habilidades ou capacidades fazem sua empresa única hoje? E daqui a � 5,10 anos? De que mercados de produtos finais você participa hoje? E daqui a 5,10 anos? � A resposta a estas perguntas pode ajudar na determinação dos itens da tese de investimento, qual seja a determinação da base de competição, isto é, como a sua empresa ganha dinheiro e como compete para vencer. O investi- mento em seu core business tende a garantir sustentabilidade aos seus ganhos, assim como em empresas com atividades relacionadas. (ZOOK, 2001) Outro ponto importante, após definir a base de competição da empresa, é ra- cionalizar o seu negócio central. Assim, pensar em realocar recursos por meio da venda de parte da sua carteira de negócios como forma de aquisição de outros que estejam em melhores condições de contribuir de forma efetiva na criação valor, é essencial. Convém repensar a estrutura e reavaliar quais negócios não re- lacionados existem na carteira ou, ainda mesmo aqueles negócios que, embora relacionados, não cumpriram o que prometiam, em termos das expectativas. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições 105 Algumas sugestões apresentadas por Harding (2002) são: bons candidatos a venda são as empresas que exigem uma parcela signifi- � cativa de atenção da gerência; os riscos percebidos de diluição de lucros e fluxo de caixa são geralmente � menores que os riscos reais. Empresas que venderam seus ativos tiveram aumento no valor de suas ações; a reestruturação do portfólio pode chamar a atenção da sua equipe que � está acomodada e eventualmente complacente em relação a decisões que precisam ser tomadas e estão sendo adiadas. (H IT T, 2 00 8)Atributos Resultados 1 A firma adquirida possui ativos ou recursos que são complementares para os negócios centrais da firma adquirente. Elevada probabilidade de sinergia e vantagem competitiva ao manter potencialidades. 2 A aquisição é amigável. Interaçãomais rápida e efetiva: ágios possivelmente menores. 3 A firma adquirente escolhe firma-alvos e realiza negociações cuidadosas e deliberadamente. Firmas que possuem complementaridades mais extensas são adquiridas evitando- se pagamento demasiado. 4 A firma adquirente possui folga financeira(baixo grau de endividamento ou recursos financeiros líquidos). O financiamento é mais fácil e menos oneroso. 5 A firma incorporada mantém uma posição de endividamento baixo ou moderada. Menor custo relacionado ao endividamento, menor risco e anulação de “trade off” associado ao endividamento. 6 A firma adquirente possui experiência com mudanças e é flexível e adaptável. Ocorre uma interação mais fácil, rápida e sinérgica. 7 Ênfase sustentável e consistente em P&D e inovação. Mantêm vantagem competitiva de longo prazo em mercados. Figura 3 – Alguns atributos das aquisições bem-sucedidas. Além disso, após a realocação de ativos, ao redor do negócio central, a empresa pode, então, apontar suas armas para os alvos apropriados. E quem são? Convém inicialmente, elaborar uma lista contendo empresas que este- jam em condições de atender aos objetivos estratégicos, tais como ampliar a capacidade ou ampliar a presença em outros segmentos dentro do mercado. Em seguida, avalie os alvos, tendo como foco a sua base competitiva, como por exemplo, aquela que reforce o seu fluxo de caixa, ou que esteja próxima dele, ou ainda que esteja apresentando um desempenho abaixo das suas potencialidades. Por que adquirir uma empresa com desempenho abaixo das suas potencialidades? Inicialmente porque devido ao baixo desem- penho o seu valor está inferior ao real. Em segundo lugar, porque uma vez Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 106 Estratégia Competitiva adquirida e feita a sua reestruturação, tais potencialidades podem ser ple- namente aproveitadas elevando o seu valor de mercado. O terceiro passo é desenvolver perfis detalhados dos alvos, como o setor em que atua, sua posição competitiva, desempenho recente e equipe gerencial atual. É, então, chegada a hora de elaborar a tese de investimento, a qual deve conter: descrição clara do modo como aquela transação irá criar valor para a em- � presa; demonstração da percepção clara de como, do ponto de vista da área de � negócios relacionada, o acréscimo desse novo negócio ao atual portfólio irá tornar a firma adquirente mais valiosa; descrever o benefício concreto do negócio, em vez de um valor estratégico � vago. por exemplo, “alavancar a força de vendas já existente” ou ainda “ob- ter o canal de distribuição em um mercado que possui muitas particulari- dades difíceis de serem dominadas”; evite a armadilha do “se não comprar os concorrentes o farão”. somente con- � cretize a transação se o negócio for convincente pelos seus próprios méritos. Uma outra recomendação a ser feita em relação ao processo de fusão ou aquisição é quanto ao desenvolvimento de bons relacionamentos com as empresas alvo. O relacionamento pode ser estabelecido desde o nível dos seus acionistas ou cotistas até o nível de sua equipe de funcionários. Tal reco- mendação é factível devido a que as empresas de capital fechado, em geral, tendem a negociar com empresas que conhecem e que mais apreciam. Quanto à sociedade de capital aberto possuidoras de capital bastante pul- verizado, tendem a ser sensíveis aos acionistas minoritários que esperam um tratamento digno e respeitoso, sendo remunerados com a mesma atenção dispensada aos seus acionistas majoritários. Outro importante instrumento a ser elaborado em um processo de fusão ou aquisição é a due dilligence, cujo passo é o de definir qual transação fechar. Este instrumento deve contemplar: lista de clientes, dados de custos e receitas, o processo de gestão e as insta- � lações da empresa; qual o valor intrínseco do negócio considerando o comportamento do seu � fluxo de caixa em diferentes cenários; Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições 107 qual o valor da sinergia em termos de redução de custos (economias de � escala e escopo) e aumento de receitas (mix de vendas e vendas cruzadas). Harding (2002) sugere a adoção dos quatro C’s como forma de melhor fixar o que deve ser lembrado no caso da due dilligence, quais sejam, clientes, concorrentes, custos e competências. Há, segundo o autor, algumas ferramen- tas que procuram as respostas a perguntas-chave para aumentar a densida- de e consistência da due dilligence, quais sejam: mapeamento do mercado – qual o tamanho do mercado e quem são os � concorrentes; precificação do setor – qual o poder da empresa para ditar os preços; � análise da combinação de lucros do setor – quem faz dinheiro no setor; � posição relativa de custo – qual o nível de custos da empresa frente o mer- � cado; rentabilidade cliente/produto – quais produtos e clientes direcionam a ren- � tabilidade; análise swot da empresa – onde a empresa deveria investir; � lealdade do cliente/funcionário – esta aquisição apresenta uma carteira de � clientes; análise de sinergias (positivas e negativas) – qual a margem de segurança; � avaliação de pessoa – qual a medida de confiabilidade da equipe; � avaliação dos sistemas – qual a qualidade da informação para a gestão. � Dificuldades inerentes às fusões e aquisições As fusões e aquisições descritas anteriormente podem aumentar signifi- cativamente os retornos das empresas, elevando-os a níveis acima da média da indústria. No entanto, diversos riscos já comentados nos itens anterio- res do capítulo, podem dificultar a obtenção de resultados promissores. De acordo com Hitt (2008), algumas pesquisas sugerem que cerca de 20% das fusões e aquisições são bem sucedidas, 60% obtêm resultados decepcionan- tes e 20% são fracassos indiscutíveis. Quanto às estratégias bem sucedidas, estas correspondem àquelas que seguiram o caminho proposto pela tese de investimento e a due dilligence, discutidos anteriormente. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 108 Estratégia Competitiva A integração das empresas é um processo difícil e repleto de armadilhas e obstáculos, os quais podem ser resumidos a sete problemas, segundo Hitt (2008): dificuldades de integração (técnica, cultural e política); � avaliação inadequada do alvo ( � due dilligence deficiente); dívida grande ou extraordinária (relatórios financeiros falseados); � incapacidade de obter sinergia (avaliação deficiente dos 5 círculos); � diversificação excessiva (desconhecimento do negócio da própria empresa); � administradores excessivamente concentrados em aquisições (síndrome � do “se a firma não compra seus concorrentes o farão” ou “preciso garantir o meu emprego”); grande demais (“Jonas engole a baleia”, conforme Harding, 2002), isto é, a � empresa adquirida é maior que a capacidade de absorção pela empresa compradora. (H IT T, 2 00 8) A firma resultante da aquisição torna-se muito grande Gerentes excessivamente focalizados em aquisições Excesso de diversificação Inabilidade para obtenção de sinergia e dificuldade de integração Dívida muito grande Avaliação inadequada da firma “alvo” (due diligence) Aquisições Figura 4 – Problemas com aquisições. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições 109 Reestruturação Embora a reestruturação não esteja diretamente ligada ao escopo do pre- sente capítulo, em razão da sua importância no contextodas fusões e aqui- sições tornou-se importante a sua inclusão a fim de contribuir na compreen- são do processo de incorporação de atividades aos negócios da organização. Em outras palavras, quando ocorrem problemas no processo de fusão ou aquisição dá-se início ao processo de reestruturação. Conforme descrito por Hitt (2008), entre as décadas de 1970 e 2000, “a alienação de negócios das carteiras de empresas e a desverticalização res- ponderam por uma grande porcentagem das estratégias de reestruturação das empresas”. Normalmente, aquisições ou fusões, quando mal sucedidas, acabam levando a um processo de reestruturação. Downsizing Trata-se de um redesenho da estrutura organizacional que pode levar a redu- ção no quadro de funcionários, a diminuição no número de unidades operacio- nais ou no número de funções organizacionais. Trata-se de um movimento vo- luntário e proativo da administração da empresa, sendo, portanto um processo endógeno, isto é, não originado de fora para dentro e sim de dentro para fora. Downscoping O chamado downscoping, que significa redução do escopo, representa a exclusão de determinadas atividades exercidas pela empresa, na forma da spin off (que significa a cisão e alienação de parte da empresa). Na realidade, este movimento tem a intenção de concentrar as atividades de uma firma mais próxima do seu core business ou do seu negócio central. Este movimento reduz a variedade de atividades do portfólio de uma empresa. LBO(Leveraged Buyouts) ou compras alavancadas As compras alavancadas são compras que envolvem a totalidade dos ativos de outra empresa para fechar seu capital. Logo que concluído o negó- cio, as ações deixam de ser negociadas publicamente. Em geral, a empresa Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 110 Estratégia Competitiva compradora contrai dívidas elevadas para fazê-lo. Não raro, a empresa com- pradora realiza um downscoping, o que permite obter recursos financeiros pela alienação de boa parte dos seus ativos e ficar concentrada em seu ne- gócio central. Além da aquisição por outra empresa, esse tipo de movimento pode ser realizado tanto pelos funcionários no processo chamado de EBO (employee buyout) ou MBO (management buyout), em que a aquisição é feita pela administração da empresa. As três principais formas de reestruturação, são o downsizing, o downs- coping (redução do escopo) e as compras alavancadas (LBO ou leveraged buyout). Eventualmente, as LBO são realizadas para proteger as empresas das fortes flutuações no mercado que prejudicam seu valor, permitindo à gestão das empresas se manterem dirigidas à conquista de mercado e inovações. Em decorrência do processo de reestruturação muitas conseqüências podem se manifestar tanto em curto prazo quanto em longo prazo, assim como, algumas conseqüências positivas e outras negativas. Hitt (2008) apre- senta de forma sintética tais resultados da reestruturação na figura 5. Downsizing É o processo de redução no número de funcionários, níveis hierárquicos ou número de unidades Downscoping Renúncia à posse, spin off ou outro meio de eliminar negócios não relacionados ao core business LBO (levaraged buyout) Reestruturação mediante compra de todos os ativos de uma firma a fim de torná-la privada (não megociada em bolsa) Custos reduzidos de mão-de-obra Custos de endividamento reduzido Ênfase nos controles estratégicos Custos de endividamento elevados Perca de capital humano Performance reduzida Performance ampliada Risco mais alto (H IT T, 2 00 8) Figura 5 – Os diferentes resultados da reestruturação em curto e longo prazo. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições 111 Ampliando seus conhecimentos Vale adquire a Inco e se torna a segunda maior mineradora do mundo (ADMINISTRADORES, 2006) Após um longo período de negociações, a Companhia Vale do Rio Doce finalmente obteve sucesso em sua oferta de aquisição da mineradora cana- dense Inco. Com isso, subindo três posições no ranking global das maiores mineradoras, a Vale passa a ser líder mundial no mercado de níquel. As negociações foram iniciadas no início de agosto, período em que a dis- puta pelo controle da Inco envolvia a americana Phelps Dodge e a também canadense Teck Cominco. Com o pagamento de C$ 86,00 (dólares canadenses) por ação ordinária, a Vale adquiriu 75,66% das ações ordinárias. A empresa prorrogou ainda para o dia 3 de novembro o prazo de sua oferta. O intuito é cumprir o plano original e adquirir 100% das ações emitidas pela Inco. Segunda maior mineradora do mundo Além de representar um recorde, a operação se apresenta como a maior compra de empresas em outros países já efetuada por uma companhia latino- americana. A aquisição eleva a Vale ao posto de segunda maior mineradora do mundo, atrás apenas da anglo-australiana BHP Billiton. O valor de mercado da Vale passará de US$ 59,8 bilhões para US$ 77 bi- lhões. O valor de mercado da BHP, que também atua no segmento de petróleo e gás, é de US$ 160 bilhões. Juntas as receitas das duas companhias somaram US$ 18 bilhões em 2005, crescimento significativo frente à receita de US$ 13,4 bilhões obtidas apenas pela Vale. Combinados, os ganhos das duas companhias chegariam a US$ 5,6 bilhões em 2005. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 112 Estratégia Competitiva O financiamento da operação também surpreende. Disponibilizando cerca de US$ 34 bilhões, sob a forma de um empréstimo sindicalizado, 34 bancos participaram da operação. A oferta da Vale pela Inco contempla um pagamen- to máximo de US$ 18 bilhões. Ou seja, a empresa obteve crédito de sobra. Boas perspectivas e redução dos riscos Além do interesse de desenvolver suas operações e criar valor aos seus acionistas, a estratégia da empresa ao adquirir a Inco é aumentar a sua parti- cipação nos negócios de metais não-ferrosos, visto a demanda em mercados de alto crescimento no longo prazo. A companhia avalia ainda que a aquisição irá reduzir os riscos das ope- rações visto que eleva a diversificação de produtos e melhora a localização geográfica dos ativos, reduzindo os custos. Com a aquisição, a Vale reduz suas receitas com ferrosos de 74% para 56% do total. Além disso, a empresa diversifica ao reduzir o percentual de ativos no Brasil, de 98% para 60%. Atividades de aplicação 1. O que significa uma fusão? a) Movimento estratégico em que uma empresa adquire o controle ou a integralidade das ações de outra, a fim de torná-la uma subsi- diária. b) Movimento estratégico em que duas empresas decidem estabele- cer integração das suas operações. c) Movimento estratégico em que a empresa a ser adquirida não so- licita oferta pela compra de suas ações. d) Movimento estratégico em que uma empresa adquire o controle ou a totalidade das dívidas de outra, a fim de torná-la livre. 2. O que são aquisições horizontais? a) É assim chamada devido à aquisição envolver empresas perten- centes à mesma indústria. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia de fusões e aquisições 113 b) Têm esse pois envolve empresas fornecedoras e clientes ou distri- buidores do produto. c) É assim chamada devido à aquisição envolver empresas perten- centes à indústria relacionada. d) É assim chamada devido à aquisição envolver empresas perten- centes a países diferentes. 3. Dos aspectos mencionados nos itens abaixo, segundo pesquisa da Bain&Company, qualé decisivo na condução da integração entre em- presas após a fusão? a) Integração de culturas aborígenes desde o início. b) Identificação das melhores práticas para liderar. c) Integração focada em valor. d) Desenvolvimento de sistema de telecomunicações. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Governança corporativa Objetivos: Após concluir o capítulo o aluno deverá ter compreendido o sentido da palavra governança em sua aplicação à gestão das organizações. Além disso, deverá ter uma clara visão das dificuldades que permeiam as relações entre acionistas ou sócios e os administradores do negócio. Deverá compreender as relações de agência e a importância dos conselhos de admi- nistração no Brasil e em outros países. A governança corporativa diz respeito a elaboração da forma como se re- lacionam acionistas e administradores, de modo a oferecer ampla visibilida- de aos acionistas dos atos gerenciais, com a finalidade de ampliar o valor da empresa. Conforme Hitt (2008) “governança é o conjunto de estratégias utili- zadas para administrar a relação entre os acionistas, que é utilizado para de- terminar e controlar a direção estratégica e o desempenho das organizações”. Segundo o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa IBGC, (2006): é o sistema pelo qual as sociedades são dirigidas e monitoradas, envolvendo os relacionamentos entre acionistas/cotistas, conselho de administração, diretoria, auditoria independente e conselho fiscal. As boas práticas de governança corporativa têm a finalidade de aumentar o valor da sociedade, facilitar seu acesso ao capital e contribuir para a sua perenidade. Segundo Peng (2008), os principais participantes são os proprietários, os administradores e o quadro de diretores, representando o “tripé” da gover- nança corporativa, conforme figura 1. Quadro de diretores Proprietários Administradores Figura 1 – O “tripé” da governança corporativa. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 116 Estratégia Competitiva Os proprietários são os cotistas ou acionistas, isto é, aqueles que realizam o provimento do capital necessário à fundação do negócio e à sua sustenta- ção. Assim, são aqueles que assumem o risco do investimento, como legíti- mos proprietários do negócio. Por administradores devem ser compreendidos os executivos membros do Conselho de Administração, que em geral é presidido pelo Diretor Exe- cutivo ou CEO. O quadro de diretores atua como intermediário entre os proprietários e os administradores. Assim, são os diretores que supervisionam e ratificam as decisões estratégicas, avaliam, premiam e, eventualmente, diante da neces- sidade, punem os administradores. Propriedade versus administração Segundo Steinberg (2003), no Brasil, a cultura que prevalece é do “dono”. Os proprietários das empresas são detentores do poder absoluto e autênti- co. Atrair e reter sócios não estão nos planos dos proprietários formados em nossa cultura. O que acaba ocorrendo, segundo Steinberg (2003) é que os sócios minoritários acabam prejudicados, e por tal motivo, não reinvestem seus recursos no negócio. Quando uma empresa é administrada pelos seus sócios, como acontece em geral em empresas de porte menor, os atos administrativos são compar- tilhados, em tempo real por todos eles. Neste cenário, caso haja contestação, esta é imediata, evitando-se, nesse caso futuras controvérsias entre eles. Em geral, as controvérsias mencionadas estão associadas à aquisição de ativos, aquisição de outras empresas, diversificação no portfólio de produtos etc., pre- valecendo ao final, algum acordo entre os sócios, para a tomada de decisão. No entanto, quando as organizações começam a crescer e ampliar suas atividades, novos administradores são admitidos, sendo-lhes outorgada a tomada de decisão. Nesses casos quando a empresa ainda é capitaneada pelo proprietário principal (quotista ou acionista) a proximidade dos admi- nistradores assim como a centralização das decisões restringe a amplitude da outorga. Diferentemente do que aconteceu com as empresas a partir do advento da moderna empresa, sociedade por ações, de capital aberto, cuja fragmentação do controle acionário levou os acionistas majoritários, muitas vezes bancos (como fez JPMorgan em relação à US Steel), a optarem por trans- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Governança corporativa 117 ferir a administração para administradores profissionais. Em muitos casos, os sócios ou acionistas se retiram da administração, permanecendo em um conselho de acionistas, outorgando a gestão do negócio à administradores profissionais e, permanentemente, avaliando o desempenho da administra- ção, propondo novas diretrizes ou até substituindo os administradores. Nesta modalidade de gestão, outorgar a um profissional a gestão do ne- gócio não garante sucesso. Há necessidade de alinhamento entre os interes- ses dos acionistas e os atos dos administradores. Para tanto torna-se de subs- tancial importância a transparência dos atos administrativos dos gerentes e da presença de instrumentos de monitoramento e de ação dos acionistas para evitar abusos realizados pelos administradores. Segundo IBGC (2006), ocorreram uma série de turbulências que conduzi- ram a mudanças significativas no cenário corporativo nos anos 1990. Entre tais fatos estão as demissões de presidentes de grandes empresas como a American Express, Compac, GM, IBM, Kodak, Sears, Time Warner, Westin- ghouse entre outras, pelos seus conselhos e por grupos de acionistas. Na ver- dade estes episódios foram conseqüência do despertar dos acionistas para a necessidade de novas regras que protegessem seus interesses dos abusos cometidos pelos executivos. Na realidade, a era da governança corporativa teve seu marco inicial em 1992, a partir da queda do diretor-presidente da GM e do seu conselho de administração. Dentre as reações à sua derrubada está a presença mais atuante dos conselhos de grandes empresas. Nível de diversificação que reduza o risco e que aumente o valor por meio de economias de escala e escopo Nível de diversificação que maximize o tamanho da firma e a sua remuneração e reduza o seu risco de emprego Negócio dominante Relacionamento restrito Relacionamento vinculado Negócios não relacionados A G a b Perfil de risco para o acionista (negócio) Perfil de risco para a administração (emprego) Ri sc o Diversificação (H IT T, 2 00 8) Figura 2 – Gerentes e acionistas: risco e diversificação. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 118 Estratégia Competitiva As questões relativas ao risco a ser assumido também são conflituosas no que concerne aos interesses de proprietários e de administradores. Assim, devido ao seu perfil, acionistas preferem assumir um projeto para a carteira de negócios para empresas do tipo negócio dominante ou rela- cionamento restrito, isto é, que sejam fortemente capazes de possibilitar sinergias entre eles, o que provavelmente é capaz de elevar a remunera- ção do investidor. Já os administradores também estão dispostos a as- sumir riscos, no entanto o seu interesse é por uma carteira que dependa mais de gestão, assegurando-lhe a sustentabilidade da remuneração. Por isso, ainda que esteja pronto a correr riscos, prefere combiná-los com uma carteira de negócios possuidores de relacionamento vinculado ou negócios não relacionados.O ponto de divergência é que esta carteira de negócios oferece menor potencial sinérgico do que a desejada pelos proprietários, oferecendo, portanto, provavelmente, pior remuneração ao investimento do acionista, enquanto garanta remuneração por mais tempo ao administrador. Relações de agência Como já foi mencionado no item anterior, há uma separação entre os proprietários do negócio (quotistas ou acionistas) e os administradores. O termo relação de agência é aplicável à situação em que uma ou mais pessoas, chamadas de proprietárias, contratam uma ou mais pessoas, chamadas de agentes, especialistas em tomada de decisão, para administrar um negó- cio. Assim posto, a relação de agência se estabelece quando o proprietário delega ao agente, a autoridade e a responsabilidade decisória, pela qual será remunerada. Na verdade, apenas a título de informação, o termo relação de agên- cia pode ser ampliado para além dos administradores do negócio, incluin- do aí os consultores, seguradoras etc. e até mesmo os gerentes e seus funcionários. As relações entre proprietários e administradores nem sempre são pacíficas. Ao contrário, tornam-se bastante conflituosas, principalmen- te devido a que seus interesses são diversos. E, segundo alguns autores, chega a estar na raiz dos principais problemas de gestão das organiza- ções. Embora haja muitos problemas, como veremos a seguir, estas re- lações permitem o encontro de um ponto de equilíbrio entre o interesse Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Governança corporativa 119 por preservar o investimento (aversão ao risco), do acionista e o interes- se em ousar buscando investimentos de rentabilidade mais alta (risco maior), do administrador. De um modo geral as pessoas procuram obter benefícios associados ao seu interesse particular, o que inclui os administradores, ao que Hitt (2008) chama de oportunismo administrativo. Como em qualquer relaciona- mento, à primeira vista é pouco provável que se tenha conhecimento pre- ciso do grau de oportunismo que permeia as atitudes dos administradores, além disso, tomar como referência, exclusivamente a sua reputação tem demonstrado ser um frágil referencial. Por tudo isso, os proprietários dos negócios estabelecem como instrumento de controle a governança, como forma de prevenção das atitudes oportunistas. Dentre os interesses conflituosos entre proprietários e gestores, está o que se relaciona com o grau da diversificação de um negócio. Para o acio- nista, cujo risco é de “quebra”, dentro de um espectro amplo de risco, a posição que oferece o menor risco é a de uma empresa com um menor grau de diversificação em um negócio, mas não tão pequeno quanto o do tipo negócio dominante ou negócio único, visto que nesse caso o risco au- menta, devido à dependência de um negócio ligado a uma única indústria. Assim, caso essa indústria sofra algum revés o negócio será imediatamente impactado. No extremo oposto está o administrador, para quem, um negócio com um maior grau de diversificação pode reduzir seu risco de perda de empre- go, o mais temido pelos administradores. No entanto, como no caso dos proprietários, o grau de diversificação que oferece a posição de menor risco precisa ficar aquém o tipo “negócios não relacionados”, grau máximo de di- versificação. Assim, a posição que minimiza o risco dos administradores fica mantida em um ponto em que há um certo grau de vinculação e relaciona- mento entre as diferentes unidades de negócios. Um aspecto bastante importante sobre as relações de agência está rela- cionado ao seu custo. Os custos de agência, na verdade, compreendem os custos relacionados com incentivos e monitoramento dos agentes, assim como os custos das conseqüências de seus atos administrativos, tais como as perdas financeiras contraídas pelos agentes. Tais custos decorrem da im- possibilidade de garantia efetiva das medidas de governança a fim de obter obediência por parte dos administradores. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 120 Estratégia Competitiva Medidas efetivas de governança conseguem estabelecer o correto equi- líbrio entre interesses dos acionistas e dos administradores, os quais podem ter prevalência caso as medidas de governança sejam frágeis. Uma importante vitória institucional sobre a manutenção de equilíbrio entre aqueles interesses conflitantes foi obtida pela Lei Sarbanes-Oxley, pro- mulgada pelo Congresso dos Estados Unidos da América em 2002. Esta lei fortaleceu os poderes da United States Securities and Exchange Commicion – SEC, equivalente à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) no Brasil. A causa desta promulgação foi a seqüência de fraudes decorrentes de falhas nos controles internos, em geral frágeis, em empresas como a Enron, WorldCom, Adelpha e Tyco, com o envolvimento direto ou indireto da Arthur Ander- sen, empresa de auditoria que atuava tanto na Enron quanto na WorldCom. Devido às suas exigências em relação à independência dos auditores, res- trição ao envolvimento na contabilidade de empresas de serviços de audi- toria e de consultoria relacionadas, manutenção da independência entre os comitês e os conselhos de administração, avaliação dos controles internos e certificação pelos CEO e diretores financeiros dos relatórios financeiros das empresas, a SOX, como costuma ser chamada, embora tenha nascido nos Estados Unidos, ganhou o mundo e teve suas diretrizes adotadas por em- presas que possuem ações negociadas nas bolsas norte-americanas e outras ligadas a elas. Devido aos custos incorridos em razão da implantação das suas dire- trizes (custos médios de US$3,14 milhões, segundo o Financial Executive Institute) e do aumento nos custos de auditoria interna em torno de 32%, o número de empresas que têm recorrido à solicitação de dispensa da sua adoção tem sido grande. Em alguns casos certas empresas estrangeiras desistiram de manter negócios na NYSE (Bolsa de Valores de Nova Iorque) devido a tais custos. Concentração da propriedade A concentração de propriedade diz respeito ao percentual de ações de uma empresa detido por seus acionistas. Assim, quando o percentual de ações possuído por uma minoria de acionistas é grande, diz-se que a con- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Governança corporativa 121 centração de propriedade é alta. Esta porcentagem varia de indústria para indústria e de empresa para empresa. Há dois problemas associados à propriedade muito fragmentada. O primeiro diz respeito à maior dificuldade no monitoramento das decisões dos gestores. O segundo, à vulnerabilidade da manutenção do controle. Em uma oferta hostil , também chamada de takeover, diferentemente do que seria de se supor em que o interesse pela venda parte da firma alvo da compra, ocorre o oposto, ou seja, o interesse pelo negócio é proposto, publicamente, por parte da firma compradora. Com tal finalidade é feita uma oferta pública de compra, por parte da empresa compradora para aquisição de ações da outra empresa. É perceptível que diante de uma situação em que o grau de fragmentação do controle é alto, os acionistas, individualmente, são vulneráveis podendo se sentir tentados a vender suas posições pouco representativas em suas carteiras, favorecendo assim a venda do controle da empresa a um concorrente mais forte. Esse episódio ficou bastante evidente quando da aquisição, pela Mital do con- trole da Arcelor. Um outro aspecto está relacionado ao grau de diversificação da carteira de produtos além do seu nível ideal, o que compromete a melhor rentabi- lidade do capital investido. Estudos têm demonstrado que o grau de con- centraçãodo controle interfere, inversamente, no grau de diversificação da carteira de produtos e conseqüentemente em sua rentabilidade. Outro importante fenômeno decorrente da evolução dos papéis exerci- dos por novos agentes econômicos ao longo dos anos, foi a presença dos investidores institucionais, como os fundos mútuos de ações e os fundos de pensão, por exemplo. No Brasil há fundos como o Petros, dos funcionários da Petrobrás entre outros, os quais assumem um papel, que no passado era exercido por investidores individuais (pessoas físicas). Uma vez que em di- versas situações tais fundos possuem a maioria das ações (em alguns casos mais de 50%), tendo portanto assento nos conselhos diretores, eles exercem forte influência no processo de gestão. Assim, freqüentemente, indicam ou destituem diretores que se mostram ineficazes, tanto quanto, orientam a escolha de diretrizes estratégicas para as organizações. Em geral, tal tipo de acionista devido à sua atitude em relação à organização, costuma ser chama- do de acionista ativista. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 122 Estratégia Competitiva Atores e órgãos Funções Proprietários Assembléia Geral Órgão soberano da sociedade; � Deliberar sobre questões relevantes; � Prestação de conta dos administradores; � Destinação dos resultados; � Estrutura, emissões e reduções de capital; � Operações de alto impacto; � Eleição dos administradores; � Eleição do Conselho Fiscal. � Conselho Fiscal Fiscalizar atos de administradores; � Opinar sobre o relatório anual da administração; � Analisar e emitir opinião sobre demonstrações � financeiras; Acompanhar o trabalho dos auditores independentes; � Denunciar irregularidades e fraudes. � Administradores Conselho de Administração Órgão guardião do interesse dos proprietários; � Eleição e avaliação do desempenho da Diretoria � Executiva; Homologação e monitoramento da estratégia de � negócios; Homologação e acompanhamento das políticas � funcionais; Definição das expectativas de resultados e � acompanhamento de sua efetivação; Definição da criação e da constituição de comitês; � Escolha e contratação da Auditoria Independente; � Definição da constituição do Comitê de Auditoria. � Comitê de Auditoria Acompanhamento e avaliação do ambiente de controle; � Auditoria interna e externa; � Identificação, avaliação e análise dos riscos da � companhia; Supervisão e elaboração dos relatórios financeiros. � Auditoria Independente Verificação da conformidade no cumprimento de � disposições legais; Auditoria das demonstrações econômico-financeiras; � Verificação da adequação e realidade dos relatórios � financeiros. Direção Executiva Interação com o Conselho de Administração e � execução das diretrizes dele emanadas; Exercício da gestão dos negócios e áreas funcionais da � companhia; Definição das estratégias e dos planos funcionais, � submetendo-os à homologação do Conselho de Administração: Resultados, riscos e oportunidades. � Produzir demonstrações patrimoniais e de resultados � responsabilizando-se amplamente por ambas. Auditoria Interna Organização do ambiente interno de controle; � Interação e contribuição com o sistema interno � de auditoria; Implantação do sistema de controle e auditoria; � Exigência que os relatórios contábil-financeiros sejam: � Aderentes às leis e regulamentos aplicáveis às � operações; Confiáveis, abrangentes e oportunos. � (A N D RA D E; R O SS ET TI , 2 00 7) Figura 3 – Síntese das funções dos atores e órgãos da governança. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Governança corporativa 123 Conselhos de direção e de administração Os conselhos de direção são constituídos por um grupo de pessoas eleitas. Sua principal responsabilidade é cuidar dos interesses dos proprietários por meio do monitoramento e controle dos atos dos administradores. No Brasil a Lei das Sociedades por Ações, teve um papel importante na evolução da Governança Corporativa. A Lei número 6.404/76, chamada Lei das Sociedades Anônimas, sofreu reformas decorrentes da publicação da Lei número 10.303/01, vigente a partir de março de 2002, assumindo, então, o nome de nova Lei das Sociedades Anônimas. Uma importante evolução foi a introdução do tag along, que ofereceu tratamento mais igualitário aos acionistas minoritários. Assim, ficava assegurado aos ti- tulares de ações, com direito a voto, preço mínimo igual a 80% do que foi pago às ações integrantes do bloco de controle. O tag along é uma figura jurídica prevista na legislação brasileira e que tem por finalidade assegurar a venda do controle acionário de uma empresa. Esta venda so- mente poderá ser concluída sob a estrita condição de que o adquirente faça uma oferta pública para a compra das demais ações ordinárias, a fim de assegurar a seus possuidores (freqüentemente pequenos acionistas) o preço mínimo de 80% do valor pago pelas ações integrantes do bloco de controle. Um dos principais aspectos contidos na Lei das Sociedades por Ações é o reconhecimento da figura do acionista controlador como uma instância de poder social, atribuindo-lhe responsabilidades e obrigações para com os acionistas minoritários, os preferenciais, os funcionários e os membros da co- munidade em que se encontra atuando a empresa. Foram também incluídas medidas de contenção às atitudes de insider trading, uso de informações pri- vilegiadas, que acabou por ser transformada em ilícito penal. Insider trading trata-se da comercialização de ações ou debêntures de uma empresa, moti- vada pelo conhecimento de informações privilegiadas, em geral obtidas por empregados ou dirigentes da mesma, antecipadamente. Tais informações, que ainda não se tornaram públicas, acabam por promover a obtenção de algum benefício financeiro. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 124 Estratégia Competitiva Em relação à Governança Corporativa, a Lei instituiu a obrigatoriedade da implantação dos Conselhos de Administração nas companhias abertas, companhias de capital autorizado e sociedades de economia mista. Nessas organizações o Conselho de Administração tornou-se o órgão necessário de orientação das estratégias da companhia, de fiscalização da ação da direto- ria, além de ser um foro de diálogo entre o acionista controlador e os acio- nistas minoritários. A sua formação é composta por três grandes sub-grupos. Um dos sub- grupos é composto por membros internos da empresa, quais sejam, altos executivos eleitos devido ao seu grande conhecimento acerca das ope- rações do dia-a-dia da empresa. O segundo sub-grupo é composto por membros externos relacionados à empresa, isto é, representantes de em- presas cujo profundo relacionamento contratual ou por alianças oferece importante fonte de informações acerca das suas atividades no dia-a-dia da empresa. Finalmente, o terceiro sub-grupo é constituído por membros externos não relacionados à empresa, mas cuja eleição se deve fundamen- talmente à possibilidade de aconselhamento, devido ao seu conhecimento sobre o mercado, conjuntura ou gestão, em razão do exercício de cargos de gestão em outras empresas. A subdivisão dos conselhos de direção deve ser parcimoniosa devido aos riscos de vazamento de informações por membros externos ou ainda quando predominam os membros internos, à feroz resistência à alteração na cultura e outros aspectos internos que ameacem o status quo. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Governança corporativa 125 CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃOFUNÇÕES E OBJETIVOS Proteger o patrimônio da corporação. Orientar a direção para maximizar o retorno do investimento. CONSTITUIÇÃO De 5 a 9 conselheiros, tecnicamente qualificados. Pelo menos 2 conselheiros com capacidade em finanças e técni- cas contábeis. Em corporações com controle corporativo, o número pode ser maior. FUNCIONAMENTO Defenir seu regimento, detalhando atribuições e procedimentos. Submeter a Diretoria Executiva, anualmente, a uma avaliação formal. Admitir participações de detentores de ações preferenciais. Os cargos de presidente do conselho (Chaiman) e da direção (CEO) devem ser exercidos por pessoas diferentes. CONSELHO FISCAL CONSELHO FISCAL E AUDITORES Constituição definida por titulares de ações ordinárias e preferenciais. Adoção de regimento com atribuições e procedimentos. Relacionamento com auditores supervisionados por Comitê de Auditoria. Acesso sem limitações a quaisquer informações. ANÁLISE TRIMESTRAL Exame e divulgação de fatores que influenciaram o resultado. Indicação de fatores de risco a que a corporação está sujeita. Perspectiva do ambiente de negócios: Macroeconômicas; � Relacionadas ao setor. � DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Adoção de normas internacionais: IASB - International Accounting Standards Board; � GAAP-United States Generally Accepted Accounting Principles. � (A N D RA D E; R O SS ET TI , 2 00 7) Figura 4 – Recomendações da CVM sobre governança. De acordo com as descrições de Andrade; Rossetti (2007), as recomendações fei- tas pela CVM sobre a governança corporativa em relação aos Conselho de Admi- nistração e Conselho Fiscal, Auditoria e Demonstrativos Financeiros estão relacio- nadas na figura 4. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 126 Estratégia Competitiva Remuneração executiva Na verdade, dentre as inúmeras diretrizes à disposição dos conselhos de administração está o controle da remuneração dos altos executivos. A remu- neração, assim, pode se tornar uma fonte de alinhamento entre os interesses do proprietário e dos executivos, começando pelo CEO, por meio da oferta de bônus, opções de ações e remuneração etc. Uma política de remuneração e incentivos de longo prazo oferecida aos executivos pode favorecer a manutenção de uma equipe de executivos que aja no melhor interesse dos acionistas. Diferentemente, muitas vezes uma remuneração excessivamente alta pode, além de minar a lucratividade, também prejudicar as atitudes dos executivos, visto que para mantê-la, tais indivíduos podem assumir uma gestão excessivamente conservadora, de baixo risco e de baixa rentabilidade para os acionistas. Diferenças da governança corporativa em outros países As empresas em sua trajetória de internacionalização devem se preparar para atuar em mercados diferentes e cujas exigências divergem das vigentes em seu mercado doméstico. Assim, alguns exemplos como os da Alemanha ou do Japão podem ser úteis para compreensão de tais diferenças. Algumas características do modelo praticado na Alemanha Na Alemanha, por exemplo, conforme abordado por Hitt (2008), o pro- prietário e gerente podem ser o mesmo indivíduo em empresas privadas de capital fechado. Além disso, firmas de capital aberto freqüentemen- te possuem um acionista majoritário, em geral um banco. Como credores, os bancos tornam-se grandes acionistas. De modo geral, na Alemanha, há menor ênfase no valor dos acionistas que em empresas americanas, apesar de isto estar mudando. Médias e grandes empresas com mais de 2000 fun- cionários, possuem conselhos em dois níveis, a Vorstand ou conselho admi- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Governança corporativa 127 nistrativo e a Aufsichtstrat ou conselho de supervisão. A camada Vorstand monitora e controla as decisões gerenciais e a camada supervisora Aufsichts- rat seleciona a Vorstand. Além disso, os membros do Aufsichtsrat são desi- gnados pelos funcionários, pelos membros do sindicato e pelos acionistas. Apesar dos aspectos positivos do modelo alemão, este apresentou elevados custos de agência, principalmente, devido à ausência de um poder acionário externo. Assim, o modelo alemão vem passando por algumas modificações devido, principalmente, ao avanço no nível de globalização das empresas alemãs. A direção da mudança no modelo alemão tem-se encaminhado para o modelo norte-americano. Algumas características do modelo praticado no Japão No Japão a governança está associada ao conceito de obrigação, família e consenso. No que tange à obrigação, no Japão o dever da retribuir é muito forte. No que se refere à família, os funcionários que ingressam na organiza- ção se tornam parte da família da empresa, a qual, freqüentemente, assume o sobrenome dos proprietários, como por exemplo, Sumitomo, Kawasaki, Mitsubishi etc. passando então a fazer parte das suas vidas. Os keiretsu são grupos de empresas fortemente inter-relacionados, unidos por participação acionária cruzada, o que obedece ao conceito de famílias de empresas. Os bancos (especialmente o banco principal) exercem alta influência junto aos executivos da empresa, principalmente, porque desempenham um papel significativo no que concerne ao financiamento e ao monitoramento de empresas de capital aberto. Assim, o maior credor da empresa e seu maior acionista, dentre os bancos, terá o relacionamento mais estreito com os seus executivos, oferecendo orientação, monitoramento dos gerentes da empre- sa. Desta forma, pode-se dizer que a estrutura de governança corporativa no Japão está baseada em bancos, ao passo que nos Estados Unidos esta se mantém baseada no mercado. Outras características encontradas no modelo de governança japonês são a intervenção governamental forte, o relacionamento próximo entre empresas e setores do governo, a postura passiva e estável dos acionistas que exercem pequeno controle e a inexistência de mercado externo para o controle administrativo. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 128 Estratégia Competitiva Algumas características do modelo praticado na Europa de origem latina No modelo latino-europeu, segundo Andrade; Rosseti (2007), os con- selhos de administração são conduzidos por vários sistemas. Na França há dois modelos, sendo que no mais freqüentemente implementado, o princi- pal gestor, chamado de President Directeur Générale (PDG) acumula as fun- ções de Presidente do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva. Outro modelo praticado é dos dois conselhos, quais sejam o Conselho de Administração (Conseil du Surveillance) e o de Gestão (Directoire). Segundo os autores, excetuando-se o caso da França, os conselhos de administração têm poder reduzido. Na Espanha e na Itália o colegiado é constituído por um órgão único. No que tange a propriedade e gestão, o acionista majori- tário exerce forte controle, prevalecendo a sobreposição. Os conselhos de administração exercem mais funções consultivas. Dois aspectos relevantes são: em primeiro lugar que a justaposição propriedade-controle reduz bas- tante os conflitos de agenciamento. O segundo é o de que os amplos direitos sobre o fluxo de caixa, conduzem à expropriação de acionistas minoritários. As forças de controle mais atuantes, como é de se imaginar, diante do ex- posto, estão no âmbito interno, devido à concentração da propriedade (na Itália, em 95% das 500 maiores empresas o acionista majoritário possui mais de 50% do capital). Com as recomendações tendendo a seguir os princípios de governança corporativa da OCDE haverá maior ênfase dada às práticas de governança e uma tendência das corporações ao controleexterno, com ênfase aos Conselhos de Administração mais eficazes, atenção maior ao di- reito dos acionistas minoritários, à definição da remuneração dos adminis- tradores e a responsabilidade corporativa. Algumas características do modelo praticado nos Estados Unidos Já em relação ao modelo praticado nos Estados Unidos, tem sido crescen- te a presença de outsiders. Outsiders são literalmente os de fora, isto é, inves- tidores, consultores e financiadores eleitos pelo Conselho de Administração, para prover consultoria independente à firma, podendo ocupar cargos de alto nível em outra empresa. Opõem-se aos insiders, os empreendedores e gerentes de alto nível, ativos na empresa, eleitos para os quadros da dire- toria pelo fato de possuírem grande conhecimento acerca do dia-a-dia da Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Governança corporativa 129 empresa. A principal fonte de financiamento provém dos mercados de capi- tais, sendo que os fundos de pensão são os principais acionistas. A estrutura da propriedade é pulverizada, sendo raros os acionistas detentores de mais de 10% do capital, em flagrante contraste com o modelo latino-europeu. A propriedade e a gestão são dissociadas. Até os anos 1980 predominava a figura do CEO poderoso. A governança surgiu como uma reação de acionis- tas às manobras dos administradores que acabaram em escândalos, fraudes etc. Devido às leis, os minoritários são fortemente protegidos. As forças mais atuantes são decorrentes de uma combinação de forças internas e externas, como no caso dos Estados Unidos a Lei Sarbanes-Oxley, o ativismo dos in- vestidores institucionais e o controle do mercado. Em termos de Governança Corporativa os códigos produzidos nos Estados Unidos foram pioneiros. Ampliando seus conhecimentos Acionista quer que Yahoo aceite proposta de US$ 48,7 bilhões da Microsoft (G1, 2008) Em abril, Microsoft fez oferta de US$ 33 por ação, mas Yahoo exigiu US$ 37. O acionista da Yahoo Carl Icahn afirmou na sexta-feira que pediu aos diretores que aceitem a venda da empresa para a Microsoft por US$ 34,375 por ação, ou cerca de US$ 48,7 bilhões. Em sua mais recente carta a Roy Bostock, presidente do conselho de admi- nistração do Yahoo, Icahn afirmou que se a Microsoft não aceitar a oferta “em uma transação amigável e cooperativa”, ele vai pressionar para que a compa- nhia faça um acordo com o Google. Icahn, que promove uma campanha para a substituição do conselho do Yahoo na reunião marcada para 1.º de agosto, não tinha citado até agora um preço que ele acredite que o Yahoo deveria aceitar. Em 3 de maio, a Microsoft desistiu de sua proposta de compra da empresa por US$ 33 por ação depois que o Yahoo pediu US$ 37. Icanh, um bilionário que moveu uma série de campanhas de acionistas, renovou seu ataque sobre o Yahoo e o co-fundador da empresa Jerry Yang, a Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 130 Estratégia Competitiva quem ele acusa de “sabotar” um possível acordo com a Microsoft. O acionista afirmou que o plano da Microsoft beneficia empregados se eles continuarem na companhia, enquanto o plano do Yahoo dá a eles incentivo para deixar a empresa. “Em minha opinião, a Microsoft não acredita que vocês consegui- rão vender a companhia inteira em termos amigáveis”, disse Icahn na carta. “Então, porque vocês não param de dançar em torno do assunto e publica- mente oferecem a venda da companhia para a Microsoft por US$ 34,375 por ação, prometendo cooperar completamente?”, pergunta o acionista. Representantes da Microsoft não comentaram o assunto e o Yahoo di- vulgou comunicado afirmando que Icahn não tem um plano confiável para operar a empresa. A companhia informou ainda que está aberta a qualquer transação, incluindo uma venda para a Microsoft, se isso for do melhor inte- resse dos acionistas. CEO da Oracle: conselho da BEA deve deixar acionistas decidirem sobre venda (UOL, 2007) Para Larry Ellison, mesmo que o conselho recomende o veto à aquisi- ção, deveria permitir que os acionistas se manifestassem. Prazo terminou na semana passada, mas Oracle continua interessada na BEA. O conselho diretor da BEA deve deixar os acionistas decidirem se empresa aceita ou não a oferta de compra da Oracle de 17 dólares por ação. Essa é a opinião de Larry Ellison, CEO da Oracle, que aponta que apesar de o prazo ter tecnicamente expirado uma semana atrás, a companhia continua interessada na BEA. “O conselho da BEA pode até ir adiante e recomendar contra o voto. Mas devem ser os acionistas que devem decidir o destino da empresa”, afir- mou durante o encontro anual de acionistas da Oracle. Ellison apontou que a tentativa de compra da Oracle valorizou a compa- nhia. “Se você olhar para a forma como eles pretendiam vender antes verá algo em torno de 11 dólares por ação”, apontou. “Nós achamos que 17 dólares é um prêmio fantástico sobre o que eles estariam negociando”. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Governança corporativa 131 Por “investidores ativistas”, Ellison se referiu ao maior investidor da BEA, Carl Icahn, que exigiu que o conselho permitisse aos acionistas considerarem a oferta da Oracle. O Icahn, que congrega mais de 58 milhões de ações da BEA, afirmou em um comunicado recente que começou os procedimentos legais em Delaware para realizar um encontro de acionistas “antes que quaisquer transações da BEA – como emissões de ações, vendas de ativos, aquisições ou ocorrências similares – sejam realizadas sem a participação dos acionistas”. Icahn também cobrou o conselho da BEA de tentar encontrar formas de bloquear a venda. A BEA pode evitar entrar em um processo se concordar em realizar um leilão, que permitiria aos acionistas considerarem ofertas de quem fizer a melhor oferta. Atividades de aplicação 1. Qual o objetivo fundamental da governança corporativa? a) Determinar e controlar a direção de uma organização, mas não o seu desempenho. b) Assegurar que os interesses dos administradores de alto-nível es- tão alinhados com os interesses dos acionistas. c) Lobby de legisladores a fim de fazer passar leis que estejam alinha- das com os interesses da organização. d) Resolver conflitos entre funcionários da corporação. 2. O que significa dizer que há separação entre propriedade e controle ad- ministrativo? a) Que são os proprietários que detêm o controle administrativo. b) Que é o controle administrativo que detêm a propriedade. c) Que nem propriedade nem controle administrativo controlam a organização. d) Que os interesses de ambos, na maioria das vezes, é antagônico. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 132 Estratégia Competitiva 3. Quando é que há uma relação de agência? a) Quando a responsabilidade pela tomada de decisão é delegada a uma segunda parte. b) Quanto a responsabilidade financeira é delegada aos empregados. c) A implementação da estratégia é delegada aos gerentes funcionais. d) A propriedade da companhia é delegada a uma segunda parte. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 134 Estratégia Competitiva Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional Objetivos: ao final do capítulo o aluno deverá compreender a importân- cia da expansão internacional das empresas, os diferentesmodos de entra- da, os riscos envolvidos além de conhecer experiências bem sucedidas tanto de países desenvolvidos quando de países emergentes, particularmente, os países latino americanos. A internacionalização de empresas não é um tema novo no campo da es- tratégia, embora, inicialmente, o tema tenha focalizado com maior ênfase as exportações e empréstimos aos governos para execução de obras de infra-es- trutura, como comprovam os textos escritos durante o século XIX. (ANDREFF, 2000). O tema evoluiu na medida em que evoluiu a forma de internaciona- lização do capital ocorrida a partir do final do século XIX e início do século XX. Seja por meio da implantação de subsidiárias em outros países, como Investimento Estrangeiro Direto (IED), ou pelo estabelecimento de outras formas de aliança, as organizações se internacionalizaram. Exemplos de in- vestimentos importantes são a Colt (em Londres), Bayer (nos EUA), Singer (em Glasgow), entre 1852 e 1895. Além das mencionadas, outras empresas que realizaram seus primeiros IDE foram a Ciba, Ericsson, GE, Hoechst, Kodak, Nestlé, Siemens, Standard Oil, Texaco e Westinghouse. Inicialmente, houve uma troca de IDE entre os países mais desenvolvidos, isto é, países da Europa e EUA. Além disso, provenientes de países com forte tradição imperialista, as empresas transnacionais também se aproveitaram dos mercados consumi- dores das suas colônias ou de países recém tornados independentes. Poste- riormente, aproveitando-se do crescimento de mercados em países chama- dos “em desenvolvimento” essas organizações ampliaram sua participação no mercado global. Após a 2.ª Guerra Mundial houve uma ampliação de IDE entre os países da chamada “tríade”: Europa, Estados Unidos e Japão. Começou também a am- pliação do investimento em países chamados “em via de desenvolvimento” que iniciaram a prática de uma política chamada de substituição de importa- ções, proposta, inicialmente, pela CEPAL (Comissão Econômica para a Améri- ca Latina). Assim fazendo, as empresas de países desenvolvidos transferiram para países latino americanos plantas já obsoletas em seus países de origem, pelo que, optaram por fabricar para os mercados “em vias de desenvolvi- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 136 Estratégia Competitiva mento” os produtos já tornados obsoletos em seus mercados domésticos. Enquanto isto modernizaram as plantas dos mercados domésticos, o mesmo acontecendo com os seus produtos. Esse movimento permanece acompa- nhando as diferentes fases do ciclo de vida dos produtos. Com o tempo, os países em que estas empresas inicialmente se estabe- leceram, se desenvolveram, assim como desenvolveu seu mercado consu- midor e a capacidade de gestão das firmas domésticas. Tais firmas, então, atuando como fornecedores ou clientes, se aliaram ou passaram a oferecer concorrência às primeiras transnacionais que ali se implantaram. Incluem-se no termo desenvolvimento, a evolução da capacidade ge- rencial, a mudança nos costumes, a evolução nos modelos de fabricação e distribuição e também na renda per capita. Assim, as empresas aliadas ou concorrentes das transnacionais instaladas em seus mercados domésticos, conquistaram “massa muscular” e se prepararam para concorrer em merca- dos externos. Hoje tais empresas, provenientes dos países chamados “emer- gentes” estão exportando seus produtos, estabelecendo escritórios ou sub- sidiárias em países já desenvolvidos ou em países emergentes, valendo-se de produtos bem sucedidos em seus mercados domésticos e da sua larga experiência em lidar com sistemas logísticos deficientes como os que se apresentam em seu país de origem. Vendas Globais $ Mercado País D Mercado País C Mercado País B Mercado País A Mercado Doméstico Tempo Introdução Crescimento Maturidade Saturação Declínio (R O O T, 1 99 8) Figura 1 – Ciclo de vida global de um produto genérico durante certo tempo. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional 137 O processo de internacionalização, em geral, tem obedecido a um caminho comum como o apresentado abaixo: a empresa, após a introdução do produto inovador em seu mercado � doméstico, vê a demanda se desenvolver e amadurecer naquele mer- cado. Bem sucedida, em termos comerciais, a empresa dá início à ex- portação daquele produto para outros países; devido à lucratividade obtida em seu mercado doméstico, as empre- � sas concorrentes estrangeiras são logo atraídas, iniciando então, a pro- dução naquele mercado; a seguir, a firma, após ter o seu mercado invadido pelas empresas con- � correntes estrangeiras, além de exportar para outros países, dá início à sua produção no exterior; após todo esse ciclo de evolução do produto, a produção se torna pa- � dronizada, e o produto “commoditizado” oferece baixas margens de lucro. Assim, a sua produção acaba sendo deslocada para outros paí- ses periféricos, os quais apresentam vantagem comparativa em custos de insumos, principalmente o trabalho. Na visão de Root (1998), as empresas de países desenvolvidos introduzem a maioria dos novos produtos industriais e de consumo. Em geral, conforme figura 1, os novos produtos são, inicialmente, comercializados em seus mer- cados domésticos e assim, este produto avança por diferentes fases do ciclo de vida global em diferentes países. Ele inicia o seu ciclo de vida no mer- cado doméstico em que foi lançado. Em seguida é iniciada a sua produção em um país também desenvolvido, chamado de mercado A. Assim, em suas fases iniciais de expansão para outros mercados o mesmo é encaminhado a países mais desenvolvidos, sendo que em suas fases mais adiantadas é en- caminhado para países em vias de desenvolvimento. Por exemplo, a linha de produção do Volkswagem Santana, foi projetada na Alemanha no final dos anos 1970, na década de 1980 esta linha foi transferida para o Brasil e para China nos anos 1990. A produção do Santana no Brasil foi encerrada no final do mês de maio de 2006. O único país do mundo a ainda produzir este carro é a República Popular da China, montado pela Shangai Volkswagen. Além dos países mencionados o Santana foi produzido na Espanha, África do Sul, Japão (sob a marca Nissan), Nigéria, México, China e Argentina. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 138 Estratégia Competitiva Identificar oportunidades internacionais A alternativa de expansão internacional tem sido assumida por diversos tipos de empresas, sejam de manufatura ou de serviços, privadas ou esta- tais. Segundo ROOT (1998) entre outros motivos, tem sido encaminhada por empresas cujo crescimento em seu mercado doméstico tem sido instável ou insuficiente para manter sustentabilidade, ou ainda, cujos mercados po- tenciais externos apresentam fortes taxas de crescimento. Há ainda aquelas firmas que seguem seus clientes, quando estes migram para mercados no exterior, principalmente devido à competência demonstrada durante seu relacionamento comercial, no mercado doméstico. 1 2 3 4 5 Operações ingressadas Avaliando produtos e mercados: escolha do mercado /produto alvo Determinando objetivos e metas Escolha da forma de ingresso: exportação, contrato, acordos ou investimentos Desenho do plano de marketing: produto, preço, promoção, praça e prontidão Mercado alvo Sistema de Controle: monitoramento das operações/revisão da estratégia de ingresso Figura 2 – Caminho da internacionalização. Assim, inicialmente, as empresas procuram oportunidade em mercados em expansão (Cemex, uma fábrica mexicana de cimento, na Espanhaou Em- braer, uma fábrica brasileira de aeronaves, na China) enquanto seus merca- dos domésticos apresentam poucas oportunidades para expansão. Outras buscam oportunidades em mercados de grande volume que possibilitam altos níveis de economias de escala e, portanto elevação nas margens devido aos baixos custos. Assim agindo podem obter, simultaneamente, ROI (retorno do investimento) acima da taxa mínima de atratividade, economias de escala e/ou de aprendizagem (por exemplo, a exportação conjunta entre Perdigão Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional 139 e Sadia para a Europa) e localização favorável (por exemplo, aproveitando-se do CAFTA-RD – Central America Free Trade Agreement – a Santista Têxtil plane- ja investir US$ 100 M na América Central para produzir 25 milhões de metros de jeans por ano e exportar principalmente para os Estados Unidos). Explorar recursos e capacidades A estratégia de negócios de nível internacional é um conjunto integrado e coordenado de compromissos e ações que a empresa implementa para obter vantagem competitiva pela exploração de competências essenciais no mercado de produtos específicos no âmbito extra-doméstico. A atratividade do mercado internacional vislumbra, entre outros objeti- vos, inicialmente, a ampliação do tamanho do mercado servido e potencial da organização, o que estimula também suas atividades de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) para atender a diferentes ambientes. Em segundo lugar, o retorno sobre o investimento, visto que mercados maiores oferecem grandes economias de aprendizado e escala. Estes atributos viabilizam investimentos em equipamentos e P&D. Além disso, ser first mover (first mover significa o primeiro a lançar um produto inovador ou o primeiro a entrar em um certo mercado, por exemplo, a Sony foi um first mover, em relação ao Walkman ou às fitas de vídeo Betamax) em certos mercados garante alto retorno devido aos benefícios de margens mais elevadas praticadas em um mercado em que ainda há poucos ou nenhum concorrente. Um terceiro objetivo pode ser obtido pela localização favorável, como por exemplo, a proximidade de grandes mercados consumidores como o asiático, ou locais onde há opor- tunidades de intercâmbio tecnológico, como a Vale do Silício na Califórnia, ou ainda locais em que há abundância de mão-de-obra capacitada e barata como no caso da Irlanda, no final dos anos 1990, que atraiu muitas empresas de tecnologia e que tem contribuído para mudar a face daquele país. Usar a competência essencial – formas de entrada Exportação Esta estratégia de entrada apresenta custo elevado e oferece poucos meios de controle pela empresa exportadora. Pode assumir natureza indire- ta, quando realizada por um agente situado em seu próprio país de origem. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 140 Estratégia Competitiva Ou direta, quando a exportação é realizada por meio de um agente ou dis- tribuidor localizado no país de destino. Isto significa que, quando realizada pela via direta, a exportação é conduzida por um braço ou subsidiária da pró- pria empresa exportadora situada no país de destino. O exemplo, pertinente, de um caso brasileiro associado à exportação é o da BRF Trading Company. Embora tenha sido desfeita a aliança em 2002, a Perdigão e a Sadia, empresas líderes nos setores de aves e suínos no Brasil, acertaram em 2001 a formação de uma empresa comercial exportadora (a BRF Trading Company, com sede no exterior) a fim de atuar exclusivamente com objetivo de incrementar as exportações nacionais de carnes suína e de aves em mercados emergentes (Rússia e os países do leste europeu, Egito, África do Sul, Angola, Cuba, Repú- blica Dominicana, Irã, Jordânia e Iraque com grande potencial de negócios para produtos alimentícios brasileiros). Ao mesmo tempo, Perdigão e Sadia continuariam concorrendo entre si em mercados já consolidados pelas duas empresas. A nova empresa pretendia ter porte e capacidade para competir com as maiores companhias mundiais do setor de alimentos, otimizando a experiência que as duas empresas líderes tinham no mercado externo, seu poder de negociação, a logística e a tecnologia para desenvolvimento de produtos que respondiam às necessidades específicas de cada mercado. Licenciamento Esta estratégia de entrada apresenta baixo custo, algum risco, oferece poucos meios de controle e baixo retorno. Trata-se de uma forma pela qual a empresa transfere para uma empresa estrangeira por tempo predetermi- nado o direito de uso da sua propriedade industrial, (tal como, patentes, know how, ou marcas registradas) e em troca recebe royalties ou alguma compensação. Um bom exemplo vem da Chrysler LLC, em sua estratégia de expansão fora da América do Norte, a qual prevê o licenciamento da produ- ção de veículos, da manufatura e da montagem de automóveis em parceria com sócias locais. Em agosto de 2007, uma fábrica no sul da China de pro- priedade da South East Motors Inc. (joint venture de empresas da China e de Taiwan) apresentou a sua primeira minivan Chrysler, a Grand Voyager, produ- zida na China. A produção do veículo está sendo realizada como parte de um acordo de licenciamento firmado em 2005, entre a South East e a Chrysler. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional 141 Alianças estratégicas Esta estratégia apresenta custos compartilhados, recursos compartilhados, riscos compartilhados, mas oferece alguns problemas de integração como cul- tura, tecnologia etc. É um modelo pelo qual a propriedade de um empreendi- mento é compartilhada com outra ou outras empresas parceiras, como no caso das joint ventures. Um exemplo, dentre empresas brasileiras é o da Embraer que em 2002 firmou uma joint venture com a China Aviation Industry Corporation II (AVIC II) dando origem à Harbin Embraer Aircraft Industry Co. Ltd. (HEAI), o que possibilitou a construção e venda de aviões ERJ-145 para o mercado da China. Aquisições Por esta estratégia a empresa pode iniciar um rápido acesso a novos mer- cados. No entanto apresenta custo elevado, negociações complexas, além de apresentar problemas de fusão com operações domésticas (culturais, tec- nológicos, de gestão etc.). No caso das empresas brasileiras, há dois bons exemplos dessa modalidade de expansão, são eles o da Gerdau e o da Com- panhia Vale do Rio Doce. Numa demonstração de uma medida bem sucedi- da de internacionalização pela via da aquisição o Grupo Gerdau se tornou 14.º maior produtor de aço do mundo e líder no segmento de aços longos nas Américas, com unidades no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uru- guai, México, República Dominicana, Venezuela, Guatemala, Estados Unidos e Canadá. Além disso, possui 40% de participação em negócios da Corpora- ción Sidenor, da Espanha e uma joint venture com o Grupo Kalyani da Índia. A Vale seguiu um longo caminho desde a sua fundação. Foi criada por Getúlio Vargas, quando encampou as jazidas pertencentes à Percival Far- quhar, proprietário da Itabira Iron Ore Company. A empresa que nasceu como sociedade de economia mista, é hoje uma empresa privada, de capital aberto. Em 2006 a Vale anunciou a incorporação da INCO, uma empresa canadense e a maior mineradora de níquel do mundo. Após a incorpora- ção, o novo conglomerado empresarial CVRD Inco, tornou-se a 31.ª maior empresa do mundo, atingindo um valor de mercado de R$ 298 bilhões, à frente da IBM. Em 2008 seu valor de mercado foi estimado em 196 bilhões de dólares, ficando no Brasil atrás apenas da Petrobras, tornando-se, assim, a 12.° maior empresa do mundo (ECONOMATICA, 2008). Esse materialé parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 142 Estratégia Competitiva Estabelecimento de uma nova subsidiária (greenfield investment ou greenfield venture) Trata-se de uma estratégia de entrada complexa, freqüentemente onerosa, consumidora de tempo, risco elevado, máximo controle, contudo ofere- ce retornos potenciais acima da média. Também chamada sole venture, é o modelo mediante o qual a propriedade e o controle pertencem à empresa mãe situada no seu país de origem. Para essa forma de entrada nos merca- dos internacionais um exemplo interessante é o da WEG Indústrias S/A. Esta é uma empresa brasileira com sede na cidade de Jaraguá do Sul, no estado de Santa Catarina e um dos maiores produtores mundiais de equipamen- tos eletroeletrônicos de uso industrial e equipamentos relacionados. A WEG anunciou, em março de 2008, o estabelecimento de uma nova subsidiária para comercialização e distribuição no mercado externo, a WEG Rússia, cons- tituída na cidade de Nizhny Novgorod (anteriormente Gorki). A WEG Rússia foi constituída para atuar na comercialização, distribuição e assistência téc- nica de produtos e sistemas na Rússia e em países que anteriormente forma- vam a União Soviética. O motivo que deu origem ao projeto foi o de que tal mercado oferece grande potencial de negócios em áreas como exploração, produção e transporte de petróleo e gás. Estratégia multilocal A estratégia multilocal é a modalidade de estratégia internacional em que as decisões estratégicas e operacionais são descentralizadas ao nível da uni- dade estratégica comercial de cada país, a fim de possibilitar a criação pela unidade local de produtos sob medida das necessidades daquele mercado. O foco é a concorrência naquele país, sob o pressuposto de que os mercados diferem entre si. Essa modalidade de estratégia é aplicável com maior fre- qüência aos mercados de produtos e serviços mais customizados. Entre as empresas que a praticam incluem-se a Procter&Gamble e a FIAT. Em artigo publicado, Massa; Campos Filho (2006), estudaram o caso das fábricas trans- nacionais de refrigerantes no Brasil. Os autores declaram que até o início da década de 1990 o mercado brasileiro de refrigerantes tinha o predomínio de apenas um grupo estratégico representado pela Coca-Cola e pela Pepsi- Cola. Essas empresas apoiavam sua proteção contra novos entrantes na ne- cessidade de capital, para essa modalidade de investimento, e à diferencia- ção de seus produtos. Esta estratégia obteve sucesso em influenciar as forças competitivas a seu favor. Além disso, tal estratégia garantiu alta lucratividade Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional 143 e a liderança no mercado brasileiro. A gestão dessas empresas mantinha centralizadas as decisões estratégicas e de operações na matriz, o que dimi- nuía a capacidade das subsidiárias locais de agir ou reagir frente a mudanças no mercado. Assim, mesmo com um mercado que oferecia as mencionadas barreiras à entrada, além das forças competitivas que se interpunham a favor das líderes de mercado, após o Plano Real, que gerou uma forte ampliação na demanda, um novo grupo de empresas nacionais, caracterizado pelas marcas populares, passou a ocupar os espaços antes ocupados pelas mul- tinacionais. Tais empresas chegaram a alcançar uma participação de 30% do mercado. Como conseqüência, se propagaram as perdas de mercado e de rentabilidade das líderes, para ágeis concorrentes locais. Além disso, tais perdas ocorreram em concomitância com a seqüência de crises administra- tivas que forçaram as transnacionais, que atuavam no mercado brasileiro de refrigerantes, a repensar sua estratégia e a descentralizar aceleradamente as suas decisões estratégicas. Estratégia global A estratégia global, é a modalidade de estratégia em que há maior padroni- zação entre produtos ao longo dos mercados territoriais. Assim, esta estratégia é centralizada e controlada pelo escritório central. Presume-se que as unida- des estratégicas de negócio em cada país sejam interdependentes e o escritó- rio central busca a integração entre elas. Um bom exemplo é o da Cemex que se tornou a terceira maior produtora de cimento do mundo, atrás apenas da Lafarge (França) e Holcim (Suíça). A Cemex é a maior companhia cimenteira na América do Norte e a quarta maior do mundo, com aproximadamente 24 mi- lhões de toneladas de capacidade ao final de 1991 e 63% de market share do mercado mexicano. Após consolidar a indústria cimenteira mexicana, ganhou musculatura para concorrer em mercados internacionais. A partir de 1988, deu início ao seu processo de internacionalização com a aquisição de ativos nos Estados Unidos e em seguida, em julho de 1992, a Cemex anunciou que com- praria as duas maiores fábricas de cimento espanholas. Primeiro, ela fez uma oferta amigável pelas ações da segunda maior empresa cimenteira da Europa, a Compañía Valenciana de Cementos, alcançando um acordo para a compra das ações dos três maiores acionistas, pagando em torno de US$1,25 bilhão. Logo em seguida, a Cemex estabeleceu um acordo para a compra da Sansón, a segunda maior fabricante de cimento da Espanha por US$600 milhões. As duas companhias, juntas, controlavam 28% do mercado espanhol. Para pro- mover a integração com grande eficiência em seu negócio a nível global, a Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 144 Estratégia Competitiva Cemex utilizou a internet como forma de ampliar suas receitas e reduzir custos, o que promoveu o aumento de sua eficiência logística. Estratégia transnacional É uma estratégia internacional por meio da qual a empresa procura obter tanto eficiência global quanto ser responsiva ao local. É uma estratégia com- plexa e possui como exemplo a Nissan. A Renault ao assumir a estratégia de revigorar a Nissan, após assumir o seu controle acionário em 1999, vem convertendo a empresa de concorrente sem expressão em um dos principais agentes do setor. Para tanto as unidades de negócio da Renault colaboram para o alcance da eficiência global e regional e para a adaptação bem suce- dida aos mercados locais. Determinantes da vantagem nacional Estratégia, Estrutura e Rivalidade Estabelecidas Condições de Fatores Setores Industriais e de Serviços Relacionados e de Apoio Condições de Demanda (P O RT ER , 1 98 9) Figura 3 – Determinantes da vantagem nacional – “Diamante de Porter”. Segundo Michael Porter (1989), há alguns atributos que oferecem vanta- gens a algumas regiões em detrimento de outras. São eles: Condições de fatores de produção Os fatores de produção, em termos clássicos são a terra, o trabalho e o capital. No entanto, modernamente alguns autores estabelecem grupos Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional 145 de fatores ou insumos, segundo a sua natureza. Assim, podem ser recursos humanos, recursos físicos, recursos de conhecimento, recursos de capital e infra-estrutura. São as condições oferecidas pela nação em termos de mão-de-obra edu- cada, alfabetizada e capacitada, infra-estrutura logística (matriz de transpor- tes, recursos intermodais, portos, vias de transporte, armazéns etc.), de ener- gia (usinas e redes de distribuição), de comunicações (correios, banda larga de alta velocidade), saneamento (redes de esgoto e tratamento de água) etc. que favoreçam a competição em uma ou mais indústrias. Assim, os países bem aquinhoados em insumos, certamente serão mais atraentes para as in- dústrias que deles dependem. Estratégia, estrutura e rivalidadeestabelecidas Esse determinante da vantagem competitiva que certo país exerce em re- lação a outro, se refere às condições que determinam, em cada país, o modo como as empresas são constituídas, organizadas e gerenciadas, bem como a natureza da rivalidade entre elas e seus demais concorrentes. É um impor- tante determinante do modo como esse ambiente favorece a criação de “massa muscular competitiva”, preparando as empresas que ali atuam para competirem em mercados igualmente concorridos. Condições de demanda As condições de demanda são determinantes tanto do volume consu- mido, o qual é capaz de criar grandes economias de escala, que possibilita grandes investimentos de capital, quanto da qualidade, cujo nível de exigên- cia é capaz de criar grande variedade de produtos, possuidores de atributos de diferenciação. A natureza e maturidade do mercado consumidor de pro- dutos e serviços, devido ao seu nível de sofisticação e exigência, são capazes de criar atributos diferenciadores que habilitam o fabricante ou prestador de serviços a enfrentar diversos tipos de concorrentes em diferentes países. Setores industriais relacionados e de apoio Presença/ausência no país de indústrias correlatas ou fornecedores de classe mundial. Assim, a resultante de pesquisa em indústrias correlatas com reconhecimento internacional, pode oferecer oportunidade para uso da Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 146 Estratégia Competitiva tecnologia nos produtos de outra indústria. Fornecedores podem oferecer produtos da sua experiência em insumos semelhantes aos já utilizados ou completamente inovadores. Exemplos na indústria de vestuário podem ser a indústria de corantes, a indústria de fiação e tecelagem, as universidades de moda ou de engenharia de produção. Assim, a combinação dessas diferen- tes fontes com grande expertise favorece o fortalecimento da indústria. Riscos e oportunidades no mercado internacional Riscos político-sociais incluem: � instabilidade nos governos nacionais; � guerra civil e internacional; � potencial de nacionalização dos recursos de uma empresa; � xenofobia (aversão a pessoas e coisas estrangeiras). � Por exemplo: luta na Chechênia pela independência da Libéria; conflitos no Oriente Médio; nacionalização (Bolívia, Venezuela). Riscos econômicos (há interdependência dos riscos políticos e econô- � micos): diferenças e flutuações no valor das diferentes moedas, diferenças � nos salários; dificuldades na garantia dos direitos à propriedade; � desemprego. � Por exemplo: O chamado Efeito Tequila – assim chamada a crise ecônomica do Méxi- � co de 1994 foi a última e mais recente crise do país que teve repercus- sões mundiais. Ocorrida devido a uma sobrevalorização de sua moeda e déficits de transações correntes crescentes, causada, prinicipalmente, Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional 147 pela baixa competitividade das empresas mexicanas em relação às demais empresas do NAFTA que se instalaram no país, atuando como maqui- ladoras. Essa crise se propagou por toda a América Latina e só foi supe- rada graças ao apoio dos EUA e do FMI. A taxa de desemprego dobrou de um ano para o outro. Dificuldades de ajuste na China – na medida em que aumentava o ta- � manho da sua economia, os salários foram aumentando; a inflação foi crescendo; a moeda se desvalorizou; a qualidade dos créditos e a ex- posição ao risco passaram a preocupar; os marcos regulatórios finan- ceiros se mostraram precários para uma economia complexa e gran- de como a chinesa. A conseqüência de tudo isso é que começaram a surgir muitas demandas de instituições internacionais, empresas e governos por medidas corretivas da parte do governo. Limites da expansão internacional: administrando problemas Custo da coordenação através de unidades de negócios em áreas ge- � ográficas diferentes: os custos para integração e compartilhamento de informações e insumos são altíssimos e devem estar perfeitamente integrados em termos logísticos de forma a minimizar os custos de ob- tenção, transporte, estoques, manuseio e armazenagem, assim como os de gestão das informações. Barreiras institucionais e culturais: Kenichi Ohmae (2006) aponta para � os grandes desafios e para o valor das habilidades em atuar em um palco global, em que projetos são complexos, envolvem participan- tes de vários lugares do mundo, demandam sensibilidade cultural e adaptabilidade, exigem fontes globais de financiamento e, em geral estão voltados para os países emergentes. Uma equipe de dirigentes, culturalmente sofisticada e capaz de perceber as nuances entre os am- bientes, envolvendo suas diferentes economias, sociedades, política e cultura é fundamental. Compreensão das ações estratégicas dos competidores. � A ampla complexidade da competição. � Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 148 Estratégia Competitiva A internacionalização de empresas latino-americanas Indiferentes às medidas governamentais de fomento à exportação ou financiamento de aquisições internacionais, muitas empresas latino-ame- ricanas, iniciaram seu processo de internacionalização como estratégia de sobrevivência, sem nenhum apoio governamental e assumidas pelos seus dirigentes, com apoio exclusivo das suas competências e muitas vezes por meio de alianças estratégicas. Na maioria das vezes esse processo foi iniciado devido à instabilidade político/econômica em seus mercados domésticos e à busca da manutenção de níveis sustentáveis de competitividade. Como afirma Rúbens Ricupero (in SAUVANT, 2007, p.6), “o exemplo brasileiro é o de um aumento de empresas que se internacionalizaram em contexto de cres- cimento nacional baixo ou errático e, em boa parte dos casos, para buscar no exterior o dinamismo que lhes falta interiormente.” Ainda segundo Ricupero (in SAUVANT, 2007), historicamente, o processo de internacionalização de empresas brasileiras foi constituído por fases. A primeira, entre 1960 e 1982, foi um processo que envolveu, fundamental- mente, a Petrobras, algumas instituições financeiras, empresas de engenha- ria e construção. Na segunda fase, que vai de 1983 a 1992, houve uma maior diversificação das empresas, vindas de outros setores. Além disso, neste período, ocorre uma maior concentração do fluxo em direção aos países do Mercosul, o que continua a ocorrer até o final da década de 1990. No final dos anos 1990, começam a se destacar indústrias de manufaturados, princi- palmente a siderurgia, os materiais de transporte e bens intermediários. Entre 1995 e 2004, o IDE (Investimento Direto Estrangeiro) do Brasil no exterior cresceu de US$1,3 bilhão para US$9,5 bilhões. Duas importantes formas de investimento surgiram, a primeira foi a compra da Interbrew pela Ambev, por US$4 bilhões, e o aumento dos empréstimos das matrizes brasi- leiras às suas unidades no exterior. Segundo Ricupero, a UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development) afirma que da mesma forma que as transnacionais provenien- tes de países desenvolvidos, as provenientes de nações emergentes buscam recursos, mercados e tecnologia, motivadas pelos mesmos fatores que de- terminam o IDE de países com extensa tradição de investimento além das suas fronteiras domésticas. Assim, em um cenário desafiador para todos os competidores, constituído por uma concorrência em nível mundial cada vez Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional 149 mais acirrada, empresas como Gerdau não concorrem com a CSN, mascom a Arcelor Mital, ou ainda a Embraer concorre com a Bombardier etc. Empresa Origem Índice Globalização Países Vendas exterior (%) 1 CEMEX México 77,3 50 82,3 2 Techint (Rocca) Argentina 75,8 ND 62,5 3 Odebrecht Brasil 71 19 76,7 4 Vale Brasil 60,6 27 84 5 Sudamericana de Vapores Chile 59,6 ND 90 6 Tenaris (Rocca) Argentina 55,7 11 81 7 Grupo Alfa (Rocca) México 53,2 ND 53,1 8 Embraer Brasil 48 5 96,4 9 Gerdau Brasil 47,3 9 54 10 Grupo Bimbo México 46,8 18 31,2 (R EV IS TA A M ÉR IC A E CO N O M IA , 2 00 8) Figura 4 – As dez maiores multinacionais latino-americanas. A revista América Economia (2008) informa que da lista dos 100 desafia- dores do Boston Consulting Group, (The 2008 BCG 100 Global Challengers) há apenas 22 empresas em toda a América Latina que podem ser consideradas globais, ao passo que apenas a Índia possui 20 e a China 41. E conclui “às em- presas latino-americanas ainda falta muita ambição global para posicionar- se no mundo”. Segundo a publicação a história de internacionalização das empresas latino-americanas começa pelo completo domínio do seu merca- do doméstico. Só então estas empresas partem para o mercado global. Em vez disso as empresas indianas, têm saltado a etapa do mercado doméstico e se encaminhado para a conquista do mercado global, antes mesmo de se es- tabelecerem de forma sustentável em seu próprio mercado doméstico. Uma exceção para este quadro é o da Embraer, no caso do Brasil. No caso da escolha de diferentes formas de entrada no mercado internacio- nal (exportação, licenciamento, alianças estratégicas, aquisição, nova subsidi- ária integral), para alguns países da América Latina, algumas opções podem ser assumidas como forma de contornar barreiras fiscais ou até mesmo sani- tárias. Um bom exemplo vem do etanol. O Brasil tem apenas como clientes os Estados Unidos, o Caribe, que é utilizado pelos exportadores brasileiros como meio de acessar o mercado norte-americano sem o ônus das sobretaxas, e a Suécia, cuja demanda é muito pequena, por meio de aliança estratégica Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 150 Estratégia Competitiva para a exportação do produto. Enfrentando dificuldades de ser exportado do Brasil para os Estados Unidos pela aplicação de uma tarifa alfandegária que, dependendo dos custos, inviabiliza o seu preço competitivo, a alternativa assumida foi a de criar uma empresa subsidiária em algum país do Caribe, pertencente ao CAFTA (Central America Free Trade Agreement), Acordo de Livre Comércio da América Central. Assim fazendo, o produto pode ser en- viado para os Estados Unidos em função do benefício tarifário. No caso do licenciamento, outro exemplo da prática no Brasil foi utilizada pela Gradiente. Não possuindo tecnologia para produzir aparelhos telefônicos móveis celu- lares, quando o primeiro leilão da banda analógica foi realizado, a Gradiente estabeleceu um acordo de licenciamento com a Nokia para produzir um dos seus aparelhos no Brasil. Acordo semelhante já havia sido estabelecido entre a Gradiente e a JVC para produção de aparelhos vídeo cassete, com sucesso. A Telmex em sua expansão pelos países da América Latina, optou, no caso do Brasil, pela aquisição da Embratel, o que lhe ofereceu força de mercado de uma empresa já consagrada no mercado interno. Assim, como é possível observar, os modelos apresentados e utilizados por países desenvolvidos têm inspirado e contribuído para alavancar o su- cesso de empresas latino-americanas em sua trajetória rumo aos mercados internacionais. Ampliando seus conhecimentos Ecil prepara processo de internacionalização (KARAM, 2004) São Paulo, 18 de Novembro de 2004 – O aumento da produção mundial de aço e o esforço para ganhar participação no exterior vão render ao grupo bra- sileiro Ecil um crescimento de 30% nas vendas deste ano, projetadas em cerca de R$ 70 milhões. Entre os principais responsáveis por essa expansão nos negó- cios está um pequeno e descartável sensor para medir temperatura utilizado em larga escala por siderúrgicas e fundições, entre outras indústrias. Tecnologia que a Ecil adquiriu da norte-americana Leeds & Northrup na década de 1970 e sob a qual pretende embasar o processo de internacionalização do grupo. “Para sobreviver é preciso operar também fora do Brasil, ter escala, au- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional 151 mentar a linha de produtos e aplicações. O ano que vem será para definir a internacionalização da Ecil”, afirmou o diretor presidente, Nelson Peixoto Freire, que comemora este mês os 75 anos da empresa. Os planos iniciais in- cluem a instalação de uma operação própria nos Estados Unidos ou no México com o objetivo de oferecer mais segurança aos compradores quanto ao abas- tecimento e à assistência técnica. Inclusive para clientes brasileiros que se in- ternacionalizam como a Gerdau, explicou Freire. O projeto será tocado com parceiros locais. Freire coloca a empresa entre as maiores do mundo no pro- duto. “O desenvolvimento do sensor descartável foi da Leeds e por 10 anos mantivemos um contrato de transferência de tecnologia com eles”, disse. Há dois anos, quando a empresa passou a contar com uma linha completa de produtos para siderurgia reforçou a presença no exterior. Nesse período investiu US$ 2,5 milhões e ampliou em 50% a capacidade de produção atin- gindo 6,5 milhões de sensores. De lá para cá, as exportações também cres- ceram 50% e representam 20% das vendas, segundo Freire. Além do sensor, a operação envolve todos os instrumentos ligados ao processo de leitura. “O mercado mundial de sensores é de cerca de US$ 700 milhões.” O grupo tem três empresas. Os sensores descartáveis ficam com a Ecil Met Tec. O negócio responde por R$ 44 milhões do total faturado e a carteira de clientes tem nomes como Usiminas, Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A venda para a indústria do aço re- presenta 85% do total e será o foco da Ecil no exterior. Os demais 15% ficam com as fundições. O grupo tem ainda a Ecil Produtos e Sistemas de Medição e Controle e a Ecil Informática. Criada em 1929 como uma empresa comercial, a Ecil passou a atuar no segmento industrial em 1963 produzindo alternadores para vagões de trem. Em 1970, contou Freire, a Rede Ferroviária Federal, única cliente, decidiu não fazer mais vagões. Foi então que os sócios, que já distribuíam produtos Leeds, decidiram pela produção local. Posteriormente, a Ecil se classificou junto ao Conselho de De- senvolvimento Industrial, órgão do governo, a produzir também controladores industriais. Da época da Leeds, Freire e os filhos mantêm uma importante “rede de amigos” atuando como consultores no Japão, França, Itália e Alemanha, e as parcerias com institutos de pesquisa ajudam na atualização tecnológica. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 152 Estratégia Competitiva HTA: a união faz a força (SILVEIRA, 2005) Portas do cargueiro A330 serão fabricadas por grupo brasileiro As portas da versão cargueira do avião da Airbus modelo A330 serão fabri- cadas no Brasil por um grupo de 12 pequenas e médias empresas instaladas em São José dos Campos, na região do Vale do Paraíba (SP) e que integram o consórcio High Technology Aeronautics – HTA. São José dos Campos (SP) – As portas da aeronave cargueira Airbus A330 serão fabricadas no Brasil por um grupo de 12 pequenas e médias empresas, de São José dos Campos, que integram hoje o consórcio HTA (Hight Technolo- gy Aeronautics). O contrato que prevê o fornecimento para o grupo europeu Airbus foiassinado semana passada com a empresa EADS-CASA, divisão de aeronaves de transporte militar da EADS, grupo que controla a Airbus. O contrato com a HTA é o primeiro fechado pela EADS-CASA dentro de um acordo de contrapartidas comerciais previsto no âmbito do fornecimento de 12 aviões de transporte militar C-295 e da modernização de oito aeronaves de patrulha marítima P-3 para a Aeronáutica brasileira. As compensações defini- das pela Aeronáutica em conjunto com a EADS-CASA, segundo o diretor geral da EADS no Brasil, Eduardo Marson Ferreira, vão gerar um retorno de US$ 800 milhões para a indústria nacional, com a geração de 1,5 mil empregos diretos, num período de 10 anos. O valor, segundo Marson, é superior aos US$ 722 milhões que serão in- vestidos pelo Brasil nos projetos do C-295 e do P-3. No próximo mês, a EADS- CASA também pretende concluir novos contratos de offset com as empresas Varig Engenharia e Manutenção (VEM), Aeroeletrônica e Atech. Com os programas de offset oferecidos pela empresa espanhola, a indús- tria nacional também terá acesso a tecnologias de ponta relativas a integração de sistemas embarcados completos, simuladores e sistemas de treinamento, processamento de imagens e sistemas geo-referenciados embarcados, data link, engenharia e projeto, usinagem, fabricação de materiais compostos, de- senvolvimento e manutenção de hardware e software. O contrato inicial acertado com a HTA está avaliado em US$ 30 milhões, mas pode atingir US$ 90 milhões em dez anos, segundo informou o presidente do Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Estratégia internacional 153 consórcio, Urbano Cícero de Fleury Araújo. Além de subconjuntos para a aero- nave cargueira da Airbus, a HTA também fornecerá peças das asas e portas dos modelos de transporte C 295 e C 235, fabricados pela EADS-CASA na Espanha. Os detalhes do fornecimento das portas do cargueiro da Airbus, em termos de volume, ainda não foram definidos. A EADS-CASA deverá transferir essa ati- vidade para o Brasil, antes produzida internamente em uma fábrica da empresa em Sevilha. Cada porta pesa, em média, 550 quilos e é feita de alumínio, titânio e aço, materiais que serão importados em regime de “draw back” pela HTA. Embora as empresas da HTA já tenham experiência no fornecimento de peças para a indústria aeronáutica, através da Embraer, está previsto um inter- câmbio de mão de obra com a Espanha. O objetivo, segundo Araújo, é fazer um treinamento dos engenheiros e técnicos de empresas da HTA mais direcio- nado aos sistemas de controle de qualidade empregados pela EADS-CASA. Menor grau de dependência O contrato da HTA com a EADS-CASA, segundo o diretor Eduardo Marson, vai praticamente dobrar o faturamento de cada uma das empresas do consór- cio e diminuir a dependência delas em relação aos contratos da Embraer. A abertura do mercado externo, segundo o presidente da HTA, é também uma forma das empresas conseguirem um equilíbrio em suas encomendas e não ficarem tão vulneráveis às oscilações do segmento. Na época dos atentados de 11 de setembro de 2001 aos EUA as fornecedoras da Embraer tiveram uma redução de mais de 60% nas encomendas. Outros fornecimentos No Brasil, além da HTA, já existem duas empresas que fornecem para o grupo europeu Airbus. A gaúcha Digicon S.A foi subcontratada pela ameri- cana Hamilton Sundstrand para produzir conjuntos de eixos e discos para os sistemas de gerenciamento de ar do novo Airbus A380, o maior avião de pas- sageiros do mundo. A Sopeçaero, de São José dos Campos, empresa inaugurada no mês de abril pela Airbus e a chinesa Eletra Holding Overseas, também estão produ- zindo chapas de alumínio de pequenas dimensões para a fuselagem do A320. A HTA também fornecerá peças das asas e portas dos modelos C-295 e C-235, feitos pela EADS-CASA na Espanha. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 154 Estratégia Competitiva Atividades de aplicação 1. Quais das razões abaixo, segundo Root levam as empresas a se encami- nharem para o mercado internacional? a) Passarem a ser conhecidas internacionalmente. b) Devido ao crescimento instável em seu mercado doméstico. c) Passarem a remunerar seus executivos em dólares. d) Devido à taxa de juros no mercado doméstico. 2. Quais das opções abaixo correspondem às formas assumidas pelas em- presas, para se encaminharem ao mercado internacional? a) Exportação, licenciamento, alianças internacionais e aquisições e subsidiárias. b) Importação, favorecimento, construção de navios e exportação. c) Merchandising, leasing, offshore e spin-off. d) Reestruturação, drawback e certificação. 3. Quais os riscos envolvidos no mercado internacional? a) Sanitários e fiscais. b) Jurídicos e fiscais. c) Administrativos e financeiros. d) Político-sociais e econômicos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 156 Estratégia Competitiva Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia Objetivos: ao concluir o capítulo o aluno deve obter conhecimento claro dos elementos constitutivos de como controlar a execução da estratégia por meio do Balanced Scorecard, formulando o mapa de estratégia e o scorecard incluindo as suas diferentes perspectivas, quais sejam, a do aprendizado e crescimento, a dos processos internos, a de clientes e a financeira. Também deverá perceber a correlação entre tais perspectivas, traduzida por objetivos, indicadores, metas e iniciativas, a fim de obter o melhor impacto estratégico. Atualmente, a evolução dos sistemas baseados em TI (Tecnologia da In- formação) ampliaram substancialmente a capacidade de processamento de dados. Associada à integração e barateamento de componentes de har- dware, às velozes redes com maior largura de banda e à Internet, as redes têm sido indutoras de uma série de mudanças no fluxo de dissipação do conhecimento. Tais elementos possibilitaram avanços outrora inimagináveis na distribuição e compartilhamento de dados e informações, permitindo um grande avanço na capacidade das organizações criarem, processarem e manterem ricas bases de dados. Assim, foram lançados os fundamentos que catalisaram o avanço da chamada era do conhecimento. Tudo isso passou, por um lado, a oferecer às organizações meios para assegurar sucesso competitivo no que concerne ao aperfeiçoamento das ferramentas de gestão, mas, por outro lado passou a exigir das empresas a aquisição de novas capacidades e recursos. A capacidade de mobilização e utilização de ativos tangíveis e intangíveis tornou-se muito mais decisiva do que, apenas, gerenciar ativos físicos. Os ativos intangíveis somente foram per- cebidos e considerados como parte integrante das organizações a partir do advento da era do conhecimento. Tais ativos compõem uma base de conhe- cimento capaz de possibilitar o desenvolvimento de relacionamentos dura- douros e fiéis, além do rápido lançamento de produtos e serviços inovado- res. Possibilitou também, a customização1 de produtos com alta qualidade a preços acessíveis, a rápida mobilização de habilidades e competências, a motivação dos colaboradores e a utilização da TI. Enfim, possibilitou a criação de um modelo de gestão integrado, cuja principal implicação é a medição do desempenho organizacional, não somente relacionadas com ativos fixos e 1 Customização é uma adapta- ção para o português do termo customization, em inglês, cujo significado é o ajuste de umproduto ou serviço às neces- sidades do cliente. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 158 Estratégia Competitiva financeiros, mas avançando a sua medição em termos de outras perspectivas de natureza diferente. O Balanced Scorecard (BSC) traz consigo a propriedade de preservar as me- didas financeiras que, sendo tomadas separadamente de outras medidas não financeiras, tornam-se inadequadas para orientar e avaliar a trajetória que as empresas assumem nos tempos atuais, a fim de gerar valor futuro a partir de investimentos em clientes, fornecedores, processos, tecnologia e inovação. O que haveria de novo em adotar o BSC? A resposta pode ser obtida a seguir. O desdobramento das estratégias A conversão da missão e estratégia em objetivos e medidas, feita pelo Balanced Scorecard, é organizada segundo quatro diferentes perspectivas: a financeira, a de clientes, a de processos internos e a de aprendizado e cres- cimento. O scorecard, assim posto, cria uma estrutura, uma linguagem para comunicar a missão e a estratégia, e utiliza indicadores para informar aos funcionários sobre os vetores do sucesso atual e futuro. A elaboração do Balanced Scorecard é um processo complexo que é iniciado mediante a constituição de uma equipe de trabalho da alta ad- ministração, cujo principal objetivo é traduzir a estratégia daquela unida- de de negócios em objetivos específicos. Mediante a determinação dos objetivos, são definidas iniciativas (ações) mediante as quais os objetivos serão alcançados. Em geral, deve ser indicada ao menos uma iniciativa para alcançar cada objetivo. No entanto, pode haver mais de uma iniciati- va para cada objetivo. A seguir, são escolhidos indicadores de desempenho para medir o andamento das iniciativas em direção ao objetivo deseja- do. Finalmente, para cada indicador é indicada uma meta a ser alcançada. Tais metas, dependendo do seu arrojo, podem indicar a necessidade de um ritmo mais intenso ou menos intenso na direção do alcance do objetivo al- mejado. No que concerne aos objetivos da perspectiva financeira, deve ser dada prioridade tanto ao aumento de receitas e reduções de custo. Em re- lação aos objetivos da perspectiva de clientes, devem ficar bastante claros quais os segmentos objetivados, que atributos serão oferecidos, que tipo de relacionamento será exigido por tal segmento, facilitando, assim a escolha das metas almejadas. O mesmo deve ser feito para as demais perspectivas. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 159 O que se segue é a avaliação de quais objetivos devem ser alcançados ao nível da perspectiva dos processos internos. Assim fazendo, podem ser ela- boradas iniciativas (ações) capazes de convertê-los em realidade. Da mesma forma que na perspectiva de clientes, são também determinados indicado- res e estabelecidas metas desafiadoras para cada objetivo, o mesmo deve ser feito em relação à perspectiva dos processos internos. A lógica presente nessa estrutura é a de que os processos internos devem ser concebidos para satisfação dos clientes, e que estes, assim satisfeitos, se tornam geradores de aumentos de receita, e alta rentabilidade. A perspectiva de aprendizado e crescimento procura, por meio do es- tabelecimento de objetivos, indicadores e metas, direcionar e monitorar as iniciativas para o desenvolvimento do conhecimento e das habilidades dos funcionários, dos sistemas de informação e dos valores éticos e morais que permeiam toda a organização. Assim fazendo, todos os programas de treina- mento e capacitação, os bancos de dados e sistemas geradores de informa- ções, assim como o clima interno serão contemplados por iniciativas alinha- das à estratégia organizacional, gerando impacto na perspectiva de processos internos, na perspectiva de clientes e finalmente na perspectiva financeira. O BSC e a metáfora da árvore Perspectiva financeira Perspectiva dos clientes Perspectiva dos processos internos Perspectiva de aprendizado (inovação) e crescimento (conhecimento) Figura 1 – As perspectivas e a metáfora da árvore. Conforme a metáfora da árvore, figura 1, as raízes (aprendizado e cresci- mento) alimentam a árvore, o tronco (processos internos) sustenta os fluxos Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 160 Estratégia Competitiva que possibilitam manter viçosa a sua copa (o que os clientes querem ver) que, finalmente, gera belos frutos (o que os acionistas desejam). O impacto externo das perspectivas Segundo Kaplan; Norton (1997), o Balanced Scorecard impõe a adoção de quatro princípios norteadores da sua filosofia, a fim de tornar viáveis os pro- cessos gerenciais críticos para a sua implementação, quais sejam: esclarecer e traduzir a visão e a estratégia; � comunicar e associar objetivos e medidas estratégicas; � planejar, estabelecer metas e alinhar iniciativas estratégicas; � melhorar o � feedback e o aprendizado estratégico. A visão e a estratégia são elementos abstratos para a maioria dos colabo- radores da organização. Assim, o seu esclarecimento e tradução facilitam a construção do planejamento estratégico visto que a harmonia entre ambos torna factível a execução da estratégia em torno do envolvimento e compro- metimento dos colaboradores. A comunicação e a associação dos objetivos e medidas estratégicas con- tribuem para que todos os colaboradores compreendam e possam, cada um ao seu modo, contribuir para o sucesso da estratégia. Assim, como ponto de partida, o BSC esclarece os objetivos estratégicos e identifica um pequeno número de vetores críticos (indicadores) que deter- minam os objetivos estratégicos. Visto que o scorecard é desenvolvido por uma equipe formada pelos altos executivos da empresa, o resultado desse trabalho é a construção de um modelo consensual da empresa inteira para o qual todos ofereceram a sua contribuição. Os objetivos do scorecard tornam-se, então, uma responsabili- dade funcional recíproca do grupo executivo, e assume o papel de referencial para uma série de importantes processos gerenciais baseados em equipes. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 161 Os objetivos e medidas estratégicos do BSC são transmitidos à empresa inteira através de diferentes mídias e o sistema de gestão à vista, como painel de bordo. Há outros meios como vídeos e via eletrônica usando softwares de trabalho em grupo e à intranet corporativa. A comunicação tem um papel central na apresentação, a todos os funcionários, dos objetivos críticos que devem ser alcançados para que a estratégia da empresa seja bem sucedida. Depois de estabelecidas as metas para os clientes, os processos internos e para as medidas de aprendizado e crescimento, os executivos estarão em condições de alinhar suas iniciativas estratégicas relacionadas com a qualidade, o tempo de resposta e de reengenharia para alcançar aqueles objetivos competitivos. No que se refere à melhoria do feedback e do aprendizado estratégico, ao incorporar este princípio, o BSC assume uma abordagem mais inovadora, visto que dá relevância a um importante fundamento da gestão estratégica, qual seja o fortalecimento dos recursos e capacidades, a fim de desenvolver competências essenciais. Assim, fazendo, ele torna factível a elaboração de instrumentos executivos para planejar, organizar, dirigir e controlar o apren- dizado organizacional. Assim, os feedbacks gerados permitem aferir o efeito cascata do desenvolvimento e capacitação da equipe organizacional. As organizaçõesprecisam adquirir a capacidade de aprender num “duplo laço”, que ocorre quando os executivos questionam pressupostos e avaliam se as teorias com que estão trabalhando continuam coerentes com os indí- cios, as observações e experiências reais. O processo de feedback ao corpo gerencial e o seu conseqüente aprendi- zado, fecha o ciclo. O double loop (duplo laço) uma estrutura para ação estratégica Nos modelos tradicionais de gestão, as operações são guiadas unicamente pela gestão do orçamento. Os recursos financeiros associados a cada uma das rubricas que sustentam os processos, têm como base os indicadores financeiros que ofereçam parâmetros aos limites orçamentários, fixados no ano anterior. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 162 Estratégia Competitiva Problema Falta um processo para gestão da estratégia Recurso Revisão Input (recursos) output (resultados) Iniciativas e programas Loop de gestão das operações ORÇAMENTO OPERAÇÕES (K A PL A N , 2 00 0) Figura 2 – O orçamento operacional: limitação ao controle da execução estratégica. Segundo Kaplan; Norton (1997), as organizações focalizadas na estratégia utilizam um processo de “duplo laço”, que integra a gestão dos orçamentos e das operações com a gestão da estratégia. O sistema de relatórios que utiliza como base o Balanced Scorecard permite o monitoramento do progresso em relação à estratégia e a adoção das ações corretivas necessárias. O scorecard atua como o dispositivo central catalisador do aprendizado estratégico, co- nectando o processo de controle das operações, realizado pelo orçamento operacional, com o processo de controle e aprendizado, para o monitora- mento da estratégia, realizado pelo orçamento estratégico. O orçamento operacional, conforme figura 2, é composto pela previsão de receitas (vendas de produtos e/ou serviços) e da previsão das despesas a serem incorridas para a produção e distribuição daqueles bens e serviços. Além disso, esta modalidade orçamentária apresenta as despesas de desem- bolso contínuo, como aquelas destinadas à manutenção dos processos, produtos e clientes, despesas de lançamento de novos produtos e despesas para a atração de novos clientes. O orçamento estratégico, por sua vez, conforme figura 3, espelha me- lhorias incrementais nas operações existentes. Ele habilita a realização dos Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 163 gastos destinados às iniciativas estratégicas previstas. Assim, essa modali- dade orçamentária identifica as necessidades de desenvolvimento de novas operações, da ampliação das capacidades existentes, do lançamento de novos produtos/serviços, do atendimento a novos clientes, mercados, apli- cações/regiões, formação de novas alianças e joint ventures etc. Solução Converter a estratégia em um processo contínuo Recurso Avaliação Input (recursos) Loop de gestão das operações Iniciativas e programas ORÇAMENTO OPERAÇÕES output (resultados) BALANCED SCORECARD ESTRATÉGIA Experimentação, aprendizado e adaptação Experimentação de � relações causais; Simulação dinâmica; � Análise do negócio; � Estratégia emergente. � Experimentação das hipóteses Elaboração de relatórios Fechamento do loop estratégico Feedback � estratégico; Reuniões gerenciais; � Responsabilidade. � Atualização da estratégia Conexão entre a estratégia e o orçamento Metas distendidas; � Iniciativas estratégicas; � Previsões rotativas. � Loop de aprendizado estratégico (K A PL A N , 2 00 0) Figura 3 – O orçamento estratégico: o controle da execução estratégica. Com o sistema gerencial baseado na estratégia, as equipes gerenciais podem monitorar o desempenho, trabalhar como equipes na interpretação dos dados, desenvolver novos insights estratégicos, definir novas trajetórias, atualizar os indicadores dos scorecards e alterar os orçamentos. As organizações baseadas na estratégia devem ser capazes de adaptar suas diretrizes em razão das mudanças externas e do amadurecimento da própria estratégia. O sistema gerencial estratégico de “duplo laço” fornece as bases para a conversão da estratégia em processo contínuo. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 164 Estratégia Competitiva A perspectiva financeira A maioria das empresas estabelece objetivos financeiros de aumento da receita e da produtividade, redução de custos e despesas, melhor utilização dos ativos em todas as unidades de negócio etc. As metas financeiras típicas se relacionam com a rentabilidade, o crescimento e o valor para os acionis- tas. Segundo Kaplan; Norton (1997) os indicadores de desempenho financei- ro demonstram se a implementação e a execução da estratégia da empresa estão contribuindo para a melhoria dos resultados. Essa perspectiva deve mostrar os resultados das escolhas estratégicas feitas sob outras perspectivas, enquanto, ao mesmo tempo, estabelece vários dos objetivos de longo prazo e, assim, grande parte das regras e pre- missas básicas gerais para as outras perspectivas. Aqui são encontradas as expectativas dos proprietários da firma em termos de crescimento e lucrati- vidade. Outros pontos que podem ser abordados dizem respeito ao custo e às estratégias de investimento. O ciclo de caixa O capital de giro é constituído pelo perfil combinado do contas a receber, do estoque e do contas a pagar das empresas. Por este motivo, é um impor- tante indicador da estrutura de capitais de empresas tão diversas quanto as fábricas, os distribuidores, os atacadistas e os varejistas. O chamado “ciclo caixa a caixa” ou o “ciclo financeiro”, corresponde a uma importante medida de eficiência. Como é possível visualizar na figura 4, este corresponde a soma algébrica do tempo médio (dias) de rotação dos estoques, com o prazo médio (dias) das contas a receber, menos o prazo médio (dias) de contas a pagar. A tese em que se baseia esse indicador é simples. As empresas, de modo geral, compram materiais e outros insumos que serão utilizados para pro- duzir bens acabados e os armazenam para garantir o suprimento da manu- fatura ou do serviço. O período de tempo decorrido desde o momento em que as mercadorias compradas ingressaram no armazém da empresa até o momento em que elas foram vendidas (saindo do armazém), representa o tempo de imobilização do capital de giro na forma de estoques. O período de tempo decorrido entre a compra dos materiais, e demais insumos e o seu efetivo pagamento corresponde ao crédito, na forma de prazo, conce- dido pelos fornecedores à firma. Os dias correspondentes ao prazo médio de contas a receber, isto é, o tempo decorrido entre a realização da venda Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 165 e o seu efetivo recebimento dos clientes, corresponde ao crédito, na forma de prazo, concedido pela firma aos seus clientes. Portanto, o ciclo de caixa a caixa representa o tempo necessário para que a empresa converta os paga- mentos efetuados junto aos seus fornecedores de materiais em recebimen- tos dos seus clientes. A figura 4 e as fórmulas apresentadas a seguir, demons- tram esta explicação. Compra de Matérias-primas ou Mercadorias dos Fornecedores Venda de Produtos ou Mercadorias aos Clientes Pagamento de Materiais (Mercadorias) aos Fornecedores Recebimento de Vendas 60 dias 30 dias PMRE (dias) PMRV (dias) 40 dias 50 dias PMPC (dias) Ciclo Caixa aCaixa TEMPO ..... ..... TEMPO Figura 4 – Ciclo de caixa ou ciclo financeiro. CCC (Ciclo Caixa a Caixa) = PMRE + PMRV – PMPC Onde: PMRE (prazo médio de rotação dos estoques) = Estoques ÷ CMV . 360 PMPC (prazo médio de pagamento de compras) = Fornecedores ÷ Com- pras . 360 PMRV (prazo médio de recebimento de vendas) = Duplicatas a Receber ÷ Vendas . 360 Conforme dados apresentados na figura 4: CCC = 60 dias + 30 dias – 40 dias CCC = 50 dias NCG (Necessidade de Capital de Giro) = CCC . VD + A Onde: VD = Vendas diárias A = Ajuste relativo à diferença entre “outros ativos operacionais” e “outros passivos operacionais” (Valores do Ativo e do Passivo Circulantes que osci- lam no ritmo das operações, isto é, salários, encargos e tributos). Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 166 Estratégia Competitiva Medição dos temas financeiros estratégicos Vistos como desdobramentos da missão, os diversos temas associados a cada uma das quatro perspectivas oferecem diretrizes a serem perseguidas, pela organização, em busca da realização da sua estratégia. A criação de valor para os acionistas é o desfecho almejado por toda estratégia. Com tal finalida- de a empresa deve escolher um único objetivo financeiro que seja represen- tativo do seu sucesso, como por exemplo, o ROI (Return on Investment) ou o ROCE (Return on Capital Employed), como medidas do sucesso alcançado Mais recentemente, de forma geral, as empresas têm adotado vários cri- térios de mensuração, tais como o EVA e o fluxo de caixa descontado. Inde- pendentemente de qual indicador esteja utilizando, seja ROI, ROCE, EVA ou qualquer outro critério de mensuração, as empresas dispõem de duas estra- tégias básicas para impulsionar o desempenho financeiro, quais sejam: crescimento das vendas; � produtividade. � A estratégia de crescimento das vendas se concentra no desenvolvimento de novas fontes de receita. Em geral, apresenta dois componentes, a busca de novas fontes de receita, como aquelas provenientes de novos mercados, de novos pro- dutos ou de novos clientes e aumento da oferta de valor para os clientes. A estratégia de produtividade trata da execução eficiente das atividades operacionais em apoio ao atendimento das necessidades dos clientes. Seu foco é a redução de custos e o aumento da eficiência. Como a estratégia de cresci- mento da receita, a estratégia de produtividade, geralmente, tem dois compo- nentes: a melhoria na estrutura de custos, além das economias de escopo pelo compartilhamento de recursos comuns com outras unidades de negócio. A perspectiva de clientes Essa perspectiva descreve as formas pelas quais o valor deve ser entregue para os clientes, como a demanda do cliente por esse valor deve ser satisfeita e o motivo pelo qual o cliente vai querer pagar por ele. Portanto, os pro- cessos internos e os esforços de desenvolvimento da companhia devem ser orientados por essa perspectiva. Pode-se dizer que essa parte do processo é o coração do scorecard. Se a companhia falhar na entrega dos produtos e ser- viços certos, na hora certa, na quantidade certa, na qualidade certa, na satis- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 167 fação das necessidades de custo do cliente, tanto no curto quanto no longo prazo, não haverá geração de receita e o negócio vai definhar e morrer. A perspectiva de clientes deve ser orientada para os seguintes temas: atributos do produto ou serviço (características desejadas pelos � clientes); imagem; � relacionamento. � Quanto aos atributos dos produtos ou serviços, estes abrangem a funciona- lidade do produto/serviço, seu preço e qualidade. No que tange à categoria relacionamento com os clientes, esta se refere à entrega do produto/serviço ao cliente, inclusive a dimensão do tempo de res- posta e entrega e o conforto do cliente na relação de compra. Além disso, pode incluir pessoal qualificado, acesso conveniente e capacidade de resposta. Finalmente, a categoria imagem e reputação reflete os fatores intangíveis que atraem um cliente para a empresa. Através da publicidade e qualidade dos produtos e serviços oferecidos, algumas empresas conseguem gerar fidelida- de dos clientes muito além dos aspectos tangíveis dos produtos e serviços. Medidas essenciais O grupo de medidas essenciais de resultados dos clientes é comum a todos os tipos de empresa e inclui indicadores de participação de mercado, de retenção, de captação, satisfação e lucratividade de clientes. Medir a participação de mercado é simples desde que o grupo ou seg- mento de mercado desejado seja conhecido. As federações ou associações setoriais, as associações comerciais ou o governo e outras fontes públicas de dados geralmente oferecem estimativas do tamanho total do mercado. Depois de selecionar segmentos específicos de clientes ou de mercado, as empresas podem adotar ainda uma segunda medida da participação de mercado: a participação na conta total de negócios desses clientes. A retenção de clientes é outra importante medida e que pode estar as- sociada à medida anterior pelo fato de ser a retenção de clientes a melhor forma de aumentar a sua participação de mercados. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 168 Estratégia Competitiva (C H RI ST O PH ER , 1 99 9) Taxa de retenção = 1 - N° de clientes perdidos (ano) total de clientes atuais Figura 5 – Taxa de retenção de clientes. Uma forma de medir a taxa de retenção de clientes é subtraindo da unidade, a razão entre o número de clientes perdidos por unidade de tempo (mês, trimes- tre ou ano) e o número total de clientes da carteira atual (CHRISTOPHER, 1999). Quanto à captação de clientes, a sua forma de cálculo da taxa é semelhan- te. Essa taxa é apurada mediante o cálculo da razão entre o número de clien- tes novos no período de tempo considerado (mês, trimestre ou ano) e o total de clientes atuais. (C H RI ST O PH ER , 1 99 9) Taxa de captação = N° de clientes novos (ano) total de clientes atuais Figura 6 – Taxa de captação de clientes. A satisfação de clientes é outra medida crítica para a perspectiva de clientes. Pode até mesmo ser tratada como um vetor da taxa de retenção e da taxa de captação. Assim como as medidas citadas anteriormente, os indicadores de satisfação de clientes oferecem feedback sobre o desempenho da empresa. A sua importância não deve ser subestimada visto que pesquisas, em geral, indicam que um nível meramente adequado de satisfação dos clientes não basta para assegurar um alto grau de fidelidade, retenção e lucratividade. Não há uma única medida para avaliar o grau de satisfação de clientes visto que esta envolve uma série de elementos não quantitativos. Entretanto, um outro vetor da satisfação de clientes pode ser obtido por meio da taxa de retenção, conforme apresentado a seguir. Duração média do ciclo de vida do cliente (anos) = 1 1 - Taxa de retenção (C H RI ST O PH ER , 1 99 9) Figura 7 – Duração média do ciclo de vida do cliente. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 169 A lucratividade dos clientes merece uma atenção especial visto que a car- teira de clientes apresenta uma grande diversidade de perfis. Há clientes al- tamente lucrativos, dependendo do mix de produtos e serviços que conso- mem, assim como há também o contrário, isto é, clientes que dão prejuízo durante o seu relacionamentocom a firma. Isto exige a construção de um demonstrativo de resultado por cliente, devendo, por conseguinte, ser apu- rada a receita obtida pelo relacionamento comercial com cada cliente, assim como todas as despesas incorridas neste relacionamento. Contribuição para o lucro total (%) Base total de clientes (%) 100% Contribuição para o lucro total (%) 100% 125% 80%Base total de clientes (%) (C H RI ST O PH ER , 1 99 9) Figura 8 – Rentabilidade da carteira de clientes. O gráfico à esquerda da figura 8 apresenta o Gráfico de Pareto dos resulta- dos apresentados por toda a carteira de clientes. Para a sua construção, pro- cede-se o ordenamento dos resultados gerados por cada cliente, partindo do cliente de maior lucro para o cliente de maior prejuízo. Como os resultados são acumulados, os últimos clientes são aqueles que dão prejuízo, o que conduz a uma redução no lucro total. Esta é causa da inversão da inclinação das tan- gentes à curva quando se aproxima dos 100% dos clientes da carteira. A comprovação disto está no gráfico à direita da figura 8. Como pode ser observado, na medida em que a firma exclui da sua carteira de clientes aqueles que dão prejuízo, digamos 20% de todos os clientes da carteira, o lucro sobe em 25%. Fica claro, então, que do resultado total apurado pela empresa, uma boa parte do mesmo resulta de prejuízos incorridos em relacionamentos onero- sos que apresentam um custo muito superior à receita que geram. O que resulta dessa análise é a avaliação de qual o peso que cada cliente tem na formação do resultado total apurado pela empresa. Assim, é possível fazer uma avaliação da necessidade de mantê-los na carteira segundo a sua importância estratégica, apesar do alto custo da sua manutenção. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 170 Estratégia Competitiva Calculando o valor presente do fluxo de caixa do cliente, baseado na du- ração média do ciclo de vida do cliente, e comparando com o investimento necessário a obtê-lo, é possível avaliar o NPV (Net Present Value), também cha- mado VPL (Valor Presente Líquido) dos principais clientes, facilitando as deci- sões sobre o investimento no relacionamento e a composição da carteira. O VPL é o valor atual do fluxo de caixa líquido de cada período, descontado a uma certa taxa de juros, considerando o fluxo de caixa no instante 0 (zero) como o investimento realizado. O VPL é obtido segundo a seguinte fórmula: VPL = – C0 + C1/(1+r) +C2/(1+r) 2 + ... Cn/(1+r) n Onde: VPL (Valor Presente Líquido) = quando negativo significa que o C0 (inves- timento inicial) é maior que os retornos esperados pelos Cn demonstrando, assim, a inviabilidade econômico/financeira do investimento, visto que nin- guém, em sã consciência investe para retirar menos do que investiu. Quando positivo, significa que os retornos esperados pelo investimento em C0 serão remunerados, sobrando algum recurso após o retorno de todo o investimen- to feito. Desse modo, pode ser recompensador o investimento. n = é a estimativa quanto ao número de anos que se espera que dure o relacionamento com o cliente. Cn/(1+r) n = ao fluxo de caixa de cada ano, mês, semestre ou trimestre, des- contado a uma taxa r e corresponde ao custo de oportunidade ou alternati- vo para o recurso investido. A perspectiva dos processos internos No intuito de definir uma estratégia para os processos internos, os executi- vos devem identificar os processos críticos para a realização dos objetivos dos clientes e acionistas (stakeholders). As empresas costumam desenvolver obje- tivos e medidas para essa perspectiva depois de formular objetivos e medi- das tanto para a perspectiva financeira quanto do cliente. Tal desdobramento possibilita às empresas melhor definição de métricas dos processos internos nas atividades que conduzem aos objetivos dos clientes e acionistas. Para o BSC é recomendável a definição preliminar da cadeia de valor com- pleta, no que concerne aos processos internos que se inicia no processo de inovação (identificação das necessidades atuais e futuras e elaboração de Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 171 novas soluções) prosseguindo através dos processos operacionais (manu- fatura ou prestação dos serviços) e concluindo com os serviços pós-venda (helpdesk, assistência técnica, logística reversa etc.). As tendências mais recentes apóiam a idéia de que é fundamental medir o desempenho dos processos de negócios, tais como, atendimento aos pedidos, compras, planejamento e controle de produção que atravessam vários depar- tamentos organizacionais. Normalmente, medidas de custo, de qualidade, de produtividade e de tempo devem ser definidas e avaliadas para esses processos. Assim, na medida em que se possa superar o desempenho dos concorrentes em todos os processos de negócios, no que se refere à qualidade, à produtivi- dade, ao tempo e ao custo, tais melhorias aumentarão as chances de sobrevi- vência, mas não gerarão vantagens competitivas distintas e sustentáveis. O modelo da cadeia de valor Cada empresa utiliza um conjunto específico de processos a fim de criar valor para os clientes e produzir resultados financeiros. Entretanto, uma cadeia genérica de valores pode ser adaptada a qualquer empresa ao cons- truir a sua concepção da perspectiva dos processos internos. Esse modelo inclui três processos principais, quais sejam, a inovação, as operações e os serviços pós-vendas. Os principais temas dos processos internos são: a inovação; � o processo operacional; � a venda e pós-venda. � Processo de Inovação Processo de Operação Processo de Serviço Pós-venda Identificação das Necessidades dos Clientes Satisfação das Necessidades dos Clientes Identificar o Mercado Idealizar Oferta de Produtos e Serviços Gerar Produtos/ Serviços Entregar Produtos/ Prestar Serviços Serviços aos Clientes (K ap la n, 1 99 7) Figura 9 – Cadeia de valor. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 172 Estratégia Competitiva A inovação O processo de inovação possui dois componentes. No primeiro, os ge- rentes realizam pesquisas de mercado para identificar o seu tamanho, a na- tureza das preferências dos clientes e os pontos de preço para cada produ- to ou serviço. Além de sondar clientes atuais e potenciais, esse segmento poderia incluir também a idealização de mercados e oportunidades intei- ramente novas para os produtos e serviços que a empresa pode fornecer. Hamel; Prahalad, (1995) descrevem esse processo como a busca “de espaços vazios [...], as oportunidades que residem entre ou em torno das definições do negócio baseadas nos produtos”. Algumas medidas sugeridas por Kaplan; Norton (1997), são: percentual de vendas gerado por novos produtos; � percentual de vendas gerado por produtos proprietários (ainda prote- � gidos por patente); lançamento de novos produtos x novos lançamentos dos concorrentes; � lançamento de novos produtos x lançamentos planejados; � time-to-market � (tempo para o lançamento da nova geração ou de no- vos produtos). O processo operacional O processo operacional que compõe o segundo estágio da cadeia de valor interna representa a onda curta da criação de valor nas empresas. Nos processos relacionados com as operações, os produtos e serviços são criados e oferecidos aos clientes, através dos processos de manufatura ou prestação de serviços. Historicamente, esse tem sido o foco dos sistemas de medição de desempenho da grandemaioria das organizações. A excelência operacional e a redução de custos nos processos de produ- ção e prestação de serviços ainda constituem metas importantes. Entretanto, a cadeia de valor genérica demonstra que essa excelência operacional talvez seja apenas um dos componentes, e não o mais decisivo, isto é, a entrega regular e pontual dos produtos e serviços existentes aos clientes atuais. As operações tendem a ser repetitivas, permitindo que técnicas de admi- nistração científica sejam diretamente aplicadas para controlar e melhorar o Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 173 recebimento e o processamento de pedidos dos clientes e os processos de suprimentos, produção e entrega. Tradicionalmente, esses processos eram monitorados e controlados por medidas financeiras, como custo-padrão, orçamentos e variações. Os problemas associados ao uso de medidas tradi- cionais de contabilidade de custos no ambiente atual, de ciclos rápidos, alta qualidade e foco no cliente já foram amplamente documentados. A influência relativamente recente da gestão da qualidade total e da gestão baseada no tempo praticadas pelas principais indústrias globais e diversas de ação local, levaram muitas empresas a completar as suas medidas tradicionais de custo e finanças com medidas de qualidade e tempo de ciclo. As medidas de qualidade, do tempo de ciclo e do custo dos processos operacionais foram amplamente discutidas e aplicadas no âmbito de quase todas as indústrias. O serviço pós-venda O terceiro estágio da cadeia de valor é o serviço ao cliente após a venda ou prestação do serviço. O serviço pós-venda inclui garantia e reparo, corre- ção de defeitos, devoluções e processamento de pagamentos, assim como administração de cartões de crédito. As empresas que vendem equipamen- tos ou sistemas sofisticados sabem que qualquer tempo de paralisação de seu equipamento acarreta enormes custos adicionais e inconvenientes aos seus clientes. Assim, tais organizações procuram oferecer um serviço rápido e confiável a seus clientes, minimizando os transtornos ocasionados. Outro aspecto pouco avaliado no serviço pós-venda é o processo de fatu- ramento e cobrança. A fixação de um objetivo de redução do tempo decorrido entre a conclusão do processo de venda e o pagamento final pelo cliente é um bom exemplo de foco e disciplina num processo crítico de serviço pós-venda. Há também o rastreamento via logística reversa de produtos como bate- rias, embalagens de defensivos agrícolas, produtos químicos etc. que podem ser medidos através da quantidade vendida e a quantidade rastreada até a sua eliminação. A perspectiva do aprendizado e crescimento A quarta perspectiva do Balanced Scorecard desenvolve objetivos e medi- das para orientar o aprendizado e o crescimento organizacional. Os objetivos estabelecidos nas perspectivas financeiras, do cliente e dos processos internos Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 174 Estratégia Competitiva revelam onde a empresa deve se destacar para obter um desempenho excep- cional. Os objetivos da perspectiva do aprendizado e crescimento oferecem a infra-estrutura que possibilita a consecução de objetivos ambiciosos nas outras três perspectivas. Os objetivos da perspectiva de aprendizado e crescimento são os vetores de resultados nas três primeiras perspectivas do scorecard. A experiência adquirida ao longo dos anos, demonstra que o desempe- nho das pessoas em seu ambiente de trabalho é determinada pelos graus diferentes de conhecimento, motivação e poder. Daí surgiu a fórmula R = f(D), isto é, o resultado (R) é uma função desempenho (D). O desempenho por sua vez é resultante da soma algébrica do saber (S) que inclui o conhecimento e as habilidades que as pessoas possuem ou devem possuir acerca do trabalho que realizam; do nível de querer (Q) o qual se refere ao nível de motivação com que realizam as atividades para as quais foram designadas; e o nível de poder (P) que envolve as ferramentas e os instrumentos necessários para que possam assumir responsabilidades. Estão incluídos nesse grupo a autoridade e os re- cursos que pode utilizar em favor da realização do trabalho. Sabedores de que o nível de desempenho (D) para que a empresa seja competitiva, na maioria das vezes está aquém das necessidades, as gerências elaboram medidas de desempenho e programas de capacitação e de desenvolvimento para elevar os níveis de Q, S e P. Inspirados por tais elementos os scorecards da perspectiva de aprendizado e crescimento assumem três categorias principais para a: capacidade dos funcionários, associada ao S; � capacidade dos sistemas de informação, associada ao P; � motivação, � empowerment e alinhamento, associada ao Q. Indicadores Essenciais Resultados Produtividade dos funcionários Satisfação dos funcionários Retenção dos funcionários Vetores Competências do quadro de funcionários Infra-estrutura tecnológica Clima para a ação (K A PL A N , 1 99 7) Figura 10 – Vetores e indicadores para a Perspectiva do Aprendizado e Crescimento. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 175 Uma das mudanças mais radicais ocorridas no pensamento gerencial nos últimos anos foi a transformação do papel dos funcionários. Hoje, na maio- ria das empresas que ampliaram a automação em suas operações não mais impõem ao trabalhador a execução do mesmo trabalho repetidamente, com o mesmo nível de eficiência. Desse modo, esse deixa de ser um sinalizador de sucesso operacional da organização. Assim, como tem acontecido cada vez com maior freqüência, as empresas precisam ouvir e utilizar as idéias que emanam das suas equipes operacionais que se encontram mais próxi- mas dos processos e dos seus problemas inerentes. No entanto, devido aos diferentes graus de Q, S e P, mudanças nesse nível exigem treinamento, capa- citação e reciclagem dos funcionários, para que suas mentes e capacidades criativas sejam mobilizadas no sentido dos objetivos organizacionais. As principais categorias Como foi mencionado, as três categorias principais, ou temas, para a pers- pectiva de aprendizado e crescimento são a capacidade dos funcionários (ca- pital humano), a capacidade dos sistemas de informação (capital da informa- ção) e a motivação, empowerment e alinhamento (capital organizacional). Na primeira, isto é, a capacidade dos funcionários (S), as empresas traçam os seus objetivos extraindo-os de três medidas de resultado. satisfação dos funcionários; � retenção de funcionários; � produtividade dos funcionários. � Já na satisfação dos funcionários (Q) é, em geral, considerado o vetor das outras duas medidas: a retenção e a produtividade. As empresas costumam medir o grau de satisfação dos funcionários por meio de pesquisas contínuas ou anuais, nas quais um percentual de funcioná- rios escolhido aleatoriamente é entrevistado a cada mês, podendo incluir: envolvimento em decisões; � reconhecimento pela realização de um bom trabalho; � acesso a informações suficientes ao seu bom desempenho no trabalho; � incentivo constante ao uso de criatividade e iniciativa; � Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 176 Estratégia Competitiva qualidade do apoio administrativo; � satisfação geral com a empresa. � Os vetores de aprendizado e crescimento Depois de escolher indicadores para o grupo de medidas essenciais do funcionário – satisfação, retenção e produtividade – as empresas devemidentificar os vetores situacionais peculiares à perspectiva de aprendizado e crescimento. Constatamos que os vetores costumam ser extraídos de três variáveis críticas, isto é, reciclagem da força de trabalho, capacidades dos sis- temas de informação e motivação, empowerment e alinhamento. Capacitação e reciclagem do time de trabalho Muitas empresas que adotaram o Balanced Scorecard estão passando por mudanças radicais. Seus funcionários têm assumido responsabilidades radi- calmente novas para que a empresa alcance seus objetivos nas perspectivas dos clientes e dos processos internos. Reciclagem Estratégica Reciclagem Maciça Atualização de Competências Percentual de força de trabalho N ív el d e re ci cl ag em (c ar ên ci a de h ab ili da de s) Baixo Alto Alto (K A PL A N , 1 99 7) Figura 11 – Diferentes modalidades de capacitação e reciclagem. É possível analisar a necessidade de capacitação e de reciclagem dos fun- cionários de uma empresa, em duas dimensões, isto é, o percentual da força de trabalho da empresa que precisa ser treinado ou reciclado, e na outra dimensão, o tamanho da carência de conhecimento dos funcionários: Quando o percentual da força de trabalho, com alto grau de carên- � cia de habilidades e conhecimentos é grande, não basta a atualização de competência, mas sim uma necessidade maciça de reciclagem dos funcionários. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 177 Quando o percentual da força de trabalho, como alto grau de carência � de habilidades e conhecimentos é pequeno, será necessária uma reci- clagem estratégica, isto é, mais pontual com efeito mais profundo. Quando é baixo o nível de carência de habilidades e conhecimentos, � qualquer que seja o percentual da força de trabalho que apresenta tal carência, apenas a atualização de competências será suficiente para manter os níveis de capacitação atuais. A reciclagem merecerá um lu- gar de destaque no Balanced Scorecard organizacional. Entretanto, as empresas cujos funcionários estão na parte superior da figura 11, isto é, com altos níveis de carência em habilidades e conhecimen- to, precisam, urgentemente, reciclar significativamente sua equipe caso queiram alcançar os objetivos da perspectiva dos processos internos, os ob- jetivos da perspectiva de clientes e os objetivos da perspectiva financeira de longo prazo. Normalmente, o indicador revela uma lacuna significativa entre as neces- sidades futuras e as competências atuais, medidas nas dimensões de habili- dades, conhecimentos e atitudes (em geral chamadas de CHA). Para aquelas firmas que carecem de reciclagem generalizada, outra medida poderia ser o tempo necessário para que os funcionários existentes atingissem os novos patamares de competência exigidos. A fim de que o objetivo de reciclagem generalizada seja alcançado, a própria empresa deve ser capaz de reduzir o tempo necessário para que cada funcionário seja reciclado. Sistemas de informações A motivação e as habilidades da equipe podem ser necessárias para o alcance das metas de superação nas perspectivas dos clientes e dos proces- sos internos. Para que os funcionários se desempenhem com eficiência no ambiente competitivo de hoje, precisam de excelentes informações sobre os clientes, os processos internos e as conseqüências financeiras de suas decisões. Os funcionários da linha de frente devem ser informados do segmento em que se situa cada cliente, para que possam julgar o grau de esforço a ser despendido não apenas para satisfazer ao cliente no relacionamento ou na transação em curso, mas também para conhecer e tentar satisfazer às neces- sidades emergentes desse cliente. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 178 Estratégia Competitiva Os funcionários da área de operações da empresa necessitam de um fee- dback rápido, oportuno e preciso sobre o produto que acabou de ser entre- gue ou o serviço que acabou de ser prestado. Algumas empresas adotam um indicador de cobertura de informações estratégicas. Motivação, empowerment e alinhamento Mesmo funcionários habilitados que dispõem de excelente acesso às informações, não contribuirão para o sucesso organizacional se não forem motivados a agir no melhor interesse da empresa. O resultado de funcionários motivados e investidos de empowerment pode ser medido de várias maneiras. Uma medida simples e amplamente utilizada é o número de sugestões por funcionários. Essa medida capta a par- ticipação contínua dos funcionários na melhoria do desempenho da empre- sa e pode ser reforçada por uma medida complementar, qual seja, o número de sugestões implementadas, que monitora a qualidade das sugestões apre- sentadas e transmite à força de trabalho o fato de que suas sugestões são valorizadas e levadas a sério. Os vetores de desempenho para o alinhamento individual e organiza- cional estão voltados para determinar se as metas dos departamentos ou indivíduos estão alinhadas com os objetivos da empresa articulados no Ba- lanced Scorecard. Uma empresa descreveu o processo evolutivo através do qual a alta administração implementou um programa para a apresentação do scorecard aos níveis hierárquicos inferiores. A iniciativa tinha dois objeti- vos principais: metas individuais e organizacionais para as subunidades e o alinhamento � dos sistemas de recompensa e reconhecimento com a realização dos objetivos da empresa; medidas de desempenho baseadas em equipes. � Medidas de desempenho da equipe A grande maioria das empresas, hoje em dia, reconhece que para a re- alização de metas estratégicas ambiciosas que repercutam positivamen- te junto a clientes e acionistas há necessidade de processos internos bem elaborados. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 179 Assim, na perspectiva de aprendizado e crescimento, algumas empresas elaboraram seis medidas voltadas para o desenvolvimento e desempenho da equipe, quais sejam, a pesquisa interna para desenvolvimento de equipes; nível de ganhos compartilhados de equipes internas com equipes de empresas parceiras; número de projetos realizados por equipes integradas; utilização do controle de perdas; percentual de planos de negócios desenvolvidos pela equipe; percentual de equipes com incentivos compartilhados. Essas medidas possibilitam a transmissão clara dos objetivos corporati- vos para que os indivíduos trabalhem de forma eficaz em equipes, e para que as equipes de diferentes setores da empresa prestem assistência e apoio mútuos. A construção de mapas estratégicos Os mapas estratégicos representam o ponto de partida para a elaboração do Balanced Scorecard. Na verdade, é o passo inicial para esclarecer e traduzir a estratégia em termos operacionais. Conceitualmente, os mapas estratégicos são referenciais elaborados para cada uma das quatro perspectivas do BSC, segundo as suas relações de cau- sa-efeito. A relação de causa-efeito constitui a hipótese da estratégia. Assim, tais referenciais têm como parâmetro fundamental para sua elaboração a missão proposta pela estratégia organizacional. Portanto, por via de conse- qüência, os mapas estratégicos mantêm-se alinhados, inexoravelmente, à estratégia. Tais referenciais se relacionam com cada uma das perspectivas por meio de temas estratégicos, os quais descrevem o modo como a organização pre- tende criar valor para clientes e acionistas. Desse modo, fica claro como a organização irá articular os diversos componentes da estratégia organizacio- nal como formade alcançar a sua missão. Fica claro, desde o primeiro instante do seu processo de elaboração, que o mapa estratégico pretende descrever o processo de transformação de ativos intangíveis em resultados tangíveis para clientes e na forma de resultados fi- nanceiros para acionistas. Principalmente, fornece aos executivos um referen- cial mapeado para descrição e gerenciamento da estratégia, por meio de rela- ções de causa efeito na forma “se... então...”, possibilitando a concepção de uma arquitetura genérica para descrição da estratégia a ser implementada. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 180 Estratégia Competitiva Para a sua elaboração é, então, desenvolvida uma cadeia de causa-efeito entre diversos temas estratégicos representativos da visão dos executivos quanto ao que deve ser feito internamente para a obtenção de resultados estratégicos (a meta associada à missão). Há um conjunto de elementos te- máticos que possibilitam o arranjo mais sistemático do mapa estratégico. Elementos temáticos Como pode ser observado no Mapa Estratégico apresentado na figura 12, cada uma das perspectivas, se refere a um agrupamento de elementos tan- gíveis ou não que corroboram a criação de valor para clientes e acionistas. Por “elementos temáticos” devem ser compreendidos os referenciais básicos constituintes do escopo de cada perspectiva, os quais inspiram a escolha de temas estratégicos que contribuam para o alcance da missão. Os elementos temáticos da perspectiva financeira são, principalmente: a rentabilidade; � crescimento. � A rentabilidade está associada à redução dos custos. Neste sentido, qual- quer tema que esteja associado ao aumento da rentabilidade, tais como aumentos de margem ou reduções de custo podem ser aí descritos. Assim, da mesma forma, qualquer tema que possa estar associado ao aumento da receita é representativo do crescimento. No caso da perspectiva dos clientes, os temas estão associados aos seguin- tes elementos temáticos: atributos do produto ou serviço; � imagem; � relacionamento. � Assim, qualquer tema que possa ser associado aos atributos do produto ou serviço, tais como preço, qualidade, tempo ou funcionalidade estará in- cluído em seu escopo. Do mesmo modo, no que se refere à imagem ou marca do produto ou serviço poderá ser ali incluída desde que esteja alinhada com a missão. Também o relacionamento é parte do escopo de temas a serem incluídos na perspectiva dos clientes. Por relacionamento devem-se compreen- der todos os aspectos relativos ao chamado marketing de relacionamento, devendo ser, portanto, incluídos os temas que possuam tal abrangência. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 181 No que tange a perspectiva dos processos internos os elementos temáticos assumem outra forma, sendo estes: a inovação; � o processo; � a venda e pós-venda. � Informações Clima Processos Inovação Pessoas Suporte Capacitar a equipe das unidades de beneficiamento Desenvolver habilidades em gestão Aperfeiçoar o sistema de informações Reter talentos Minimizar ocorrência de erros Tornar processo mais efetivos Identificar novas oportunidades Desenvolver novo mix c/ mesmo escopo Aperfeiçoar suporte ós- venda Elevar a percepção de valores Desenvolver a marca Desenvolver relacionamento de confiança Reduzir os custos Aumentar as Receitas Aumentar as lucratividadeFinanceira Clientes Processos Internos Aprendizado e Crescimento Mapa Estratégico da Alimentos da Várzea Figura 12: Mapa estratégico da agroindústria Alimentos da Várzea Assim, ficam aí incluídos os temas concernentes a tais elementos. Por exemplo, a elaboração de novos produtos ou novos processos, a redução de tempos de ciclo ou ainda a elaboração de medidas para atendimento ao canal de distribuição ou para a logística reversa, estarão dentro do escopo de cada um dos elementos temáticos que constituem a perspectiva dos pro- cessos internos. Finalmente, no âmbito da perspectiva do aprendizado e crescimento (também chamada por alguns de inovação e aprendizado), os elementos te- máticos serão constituídos pelos seguintes temas: Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 182 Estratégia Competitiva capital humano; � capital da informação; � capital organizacional. � Aqui o capital humano se refere às habilidades e aos conhecimentos das pessoas que compõem a organização; o capital da informação abrange os sistemas relacionados com a tecnologia da informação, de bancos de dados etc.; já o capital organizacional abrange os aspectos culturais, ambientais, o clima para atividades em equipe, a gestão do conhecimento. A figura 12 apresenta um mapa estratégico de uma agroindústria. Como pode ser observado na perspectiva de aprendizado e crescimento estão con- templados os elementos temáticos nas caixas pessoas, informações e clima. Como forma de facilitar a leitura por pessoas leigas em gestão, a empresa procurou utilizar-se de termos mais usuais, como pessoas para se referir ao capital humano, informações para se referir ao capital da informação e clima para se referir ao capital organizacional. Dentro de cada caixa estão os obje- tivos a serem buscados pelas ações propostas dentro do âmbito do BSC. O mesmo procedimento foi assumido em relação às demais perspecti- vas e seus temas estratégicos. As setas indicam as relações de causa-efeito, de baixo para cima, representadas no Balanced Scorecard. Assim posto, ao alcançar um ou mais objetivos da perspectiva de aprendizado e crescimen- to a empresa estará apta a identificar e monitorar os seus efeitos na pers- pectiva de processos internos e por via de conseqüência na de clientes e na financeira. Princípios em que se baseia o mapa estratégico A fim de oferecer coerência aos mapas estratégicos, foram estabelecidos alguns princípios capazes de nortear tal construção. São eles: A estratégia equilibra forças contraditórias � A estratégia baseia-se em proposições de valor diferenciadas para os � clientes Cria-se valor por meio de processos internos � A estratégia compõe-se de temas complementares e simultâneos � O alinhamento estratégico determina o valor dos ativos intangíveis � Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 183 Balanced Scorecard da Alimentos da Várzea Perspectiva Objetivo Indicador Meta Iniciativas (Plano de Ação) Financeira Superar o crescimento do � mercado; Crescimento lucrativo; � Promover a redução de custos. � Aumento de vendas; � Aumento de margem; � Redução do custo operacional. � Crescimento de 2% acima da � taxa do mercado; Crescimento da margem de or- � dem 5% em 3 anos; Redução de 2% ao ano. � Renegociar dívidas com o � Banco de Desenvolvimento e com outros credores. Clientes Elevar a percepção de valor; � Desenvolver a marca; � Desenvolver relacionamento de � confiança. Pesquisa de opinião c/ os � clientes; “Top of Mind”; � N° de novos clientes no � mercado alvo. Classificados como n° 1 c/ 75%; � “Top of Mind” em 2 anos; � Crescimento de 100% ao ano. � Programa de divulgação de � benefícios; Programa de divulgação; � Programa de ampliação de � “market share”. Processos In- ternos Minimizar a ocorrencia de erros; � Tornar o processo mais efetivo; � Identificar novas oportunidades � (tempo de ciclo, qualidade, inovação etc); Desenvolver novo mix com o � mesmo escopo; Aperfeiçoar suporte pós-venda. �Índice de refugos; � Índice de retrabalho; � Tempo de ciclo; � Índice de lançamento de novos � produtos dentro da carteira; Índice de lançamento de � produtos sem similares no mercado; “Tempo de resposta”. � Reduzir a 3% em 1ano; � Reduzir a 3% em 1ano; � Reduzir em 50% em 1 ano; � 2 Produtos em cada linha a � cada ano; 1 produto a cada ano; � Redução de 20% ao ano. � Implantação de 5S, FTA, � CEP, MASP etc.; Programa de intercâmbio � com outros produtores e fabricantes; Programa de pesquisa � novos produtos; Desenvolvimento de canal � direto de comunicação. Aprendizado e Crescimento Desenvolver habilidades em � gestão; Capacitar a equipe operacional � das unidades de beneficiamento; Aperfeiçoar o sistema de � informações; Reter talentos. � Percentual de gestores com � habilidades de gestão existente; Percentual de colaboradores � com conhecimento-chave; Número de processos � automatizados; “Turn over”. � 100% em 1 ano; � 80% em 1 ano; � 80% dos sistemas em 1 ano 5% � em 2 anos. Programa de Habilidades � em PCP e Liderança; Programa de capacitação � operacional; Implantar sistema de TI; � Atividades motivacionais. � Figura 13: Balanced Scorecard da agroindústria Alimentos da Várzea A estratégia equilibra forças contraditórias, visto que muitas vezes o in- vestimento em ativos intangíveis, cujo tempo de retorno se materializa em longo prazo, se contrapõe às medidas de corte nos custos que por ter espec- tro de curto prazo acaba por eliminar os investimentos em ativos intangíveis, como corte nos investimentos em capacitação e treinamento. A percepção da conexão entre ambas as medidas de curto e longo prazo é obtida pela construção de mapas estratégicos. No que se refere ao princípio de que a estratégia baseia-se em proposi- ções de valor diferenciadas para os clientes, ela se baseia na elaboração de diferenciais relacionados com os atributos pertinentes ao produto ou servi- ço, assim como a marca e imagem e a força do relacionamento estabelecido entre a organização e o cliente. No terceiro princípio, segundo o qual se cria valor por meio de processos internos, fica claramente estabelecida a importância dos processos voltados para inovação dos processos operacionais, dos processos de relacionamento com os clientes (venda e pós-venda) e com a sociedade. O quarto princípio prescreve que a estratégia compõe-se de temas com- plementares e simultâneos. Na verdade o principal ponto a ser abordado é identificar os temas relacionados com os processos internos. O correto esta- belecimento de tais temas é capaz de gerar crescimento sustentável. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 184 Estratégia Competitiva Por fim, chega-se ao quinto princípio, o qual propõe que o alinhamento estratégico determina o valor dos ativos intangíveis. Na verdade as funções estratégicas alinham o capital humano com os temas estratégicos. Também, o portfólio estratégico de TI alinha o capital da informação com os temas estratégicos e a agenda de mudanças organizacionais alinham o capital or- ganizacional aos temas estratégicos. Assim, o capital humano, o capital da informação e o capital organizacional, conforme estejam arranjados a ponto de oferecer mobilidade aos processos internos são altamente capazes de criar valor tanto para os acionistas quanto para os clientes. Ampliando seus conhecimentos Gerdau Açominas conquista o Balanced Scorecard Hall of Fame (GERDAU, 2006) A Gerdau Açominas S.A, empresa do Grupo Gerdau localizada em Ouro Branco/MG, conquistou o prêmio Balanced Scorecard Hall of Fame, seção América Latina, o mais importante prêmio mundial de excelência em Gestão da Estratégia. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (29/09), du- rante o evento 2006 Balanced Scorecard Latin American Summit, em São Paulo. Com a conquista, a Gerdau Açominas se junta a outras 37 companhias em todo o mundo que já alcançaram esse patamar de excelência. O Ba- lanced Scorecard Hall of Fame é um prêmio entregue anualmente pela Balanced Scorecard Collaborative (BSCol) às organizações que se desta- cam pelo alcance de resultados extraordinários utilizando o Balanced Scorecard (BSC). O Balanced Scorecard contribuiu significativamente para a evolução dos indicadores da siderúrgica. De 2003 a 2005, por exemplo, o EBITDA da empresa aumentou 60,38%. BSC significa indicadores balanceados de desempenho. Trata-se de uma metodologia voltada para a gestão estratégica das empresas, em que a escolha de indicadores para a gestão de uma organização não deve Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 185 ser restrita a informações econômicas ou financeiras, pois somente esses dados não são suficientes para garantir que a empresa esteja no rumo certo. O Balanced Scorecard avalia o desempenho de diferentes áreas. A metodologia foi criada pelos americanos Robert Kaplan e David Norton. A Gerdau Açominas conquistou a premiação por ter se destacado em itens como o alcance significativo de resultados econômico-financeiros e de mercado com a utilização da metodologia do BSC, e a efetiva demons- tração dos cinco princípios de uma organização orientada para a estratégia: mobilização, tradução, alinhamento, tarefa de todos e processo contínuo. A siderúrgica mineira iniciou a implementação da metodologia BSC em 2002, como a mais alta prioridade naquele momento. Com a absor- ção gradativa da metodologia, foi criado, ao final de 2003, o primeiro Mapa Estratégico, para o triênio 2004-2006. Com a adoção da metodolo- gia do BSC, toda a Companhia passou a se envolver no planejamento e na execução da estratégia. O alinhamento das iniciativas com a estraté- gia surgiu da participação de todos os níveis da organização em todas as etapas do processo, desde a sua formulação. A partir de 2003, a Gerdau Açominas orientou seus princípios para uma visão de longo prazo. Traduziu seus objetivos, indicadores, metas e projetos no Mapa Estratégico. Revisou e enunciou claramente sua Missão, Visão e seus valores. Alinhou todas as unidades operacionais, de apoio e processos com a Estratégia. Implantou um modelo de gestão que inclui reuniões mensais nas áreas, reuniões trimestrais no Conselho de Administração e definição de instrumentos de acompanhamento dos resultados, desde o chão de fábrica até o Conselho de Administração. Mobilizou as pessoas em todos os níveis, contando com o apoio funda- mental das lideranças, demonstrando que alcançar o sucesso depende do esforço de cada um. A Gerdau Açominas A Gerdau Açominas é a maior unidade produtiva do Grupo Gerdau. Localizada em Ouro Branco/MG, aproximadamente 100 quilômetros de Belo Horizonte, a empresa possui cerca de 5.000 empregados diretos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 186 Estratégia Competitiva Seu mix de produtos é composto por placas, blocos, tarugos, perfis estruturais, perfis U, cantoneiras, fio-máquina e produtos carboquímicos. A empresa tem uma capacidade instalada de 3 milhões de toneladas de aço líquido por ano e possui escritórios em Belo Horizonte e São Paulo, além de ser uma das proprietárias do Terminal Portuário de Praia Mole, em Vitória/ES, por onde exporta quase 70% de sua produção. Como produto de seu planejamento de longo prazo, a empresa está em fase de ampliação de sua capacidade produtiva. Com aporte de re- cursos da ordem de US$ 1,5 bilhão, a empresa instalará novos alto-forno, coqueria e sinterização, além de melhorias em seus processos produtivos. Destaca-se, ainda, a instalação de um lingotamento contínuo de blocos e um lingotamento contínuode placas, ampliando seu mix de produtos e possibilitando a prospecção de novos nichos de mercado. As obras estão previstas para serem concluídas no segundo semestre de 2007, possibilitando à empresa produzir 4,5 milhões de toneladas de aço líquido/ano. O Grupo Gerdau O Grupo Gerdau é o maior produtor de aços longos das Américas e a 14º maior siderúrgica do mundo, de acordo com o International Iron and Steel Institute (IISI). Tem unidades no Brasil, Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Peru e Uruguai. Possui, ainda, participação de 40% no controle acionário da espanhola Sidenor. Atividades de aplicação 1. Qual a maior relevância da aplicação do controle da execução da es- tratégia? a) O conhecimento dos conceitos de estratégia competitiva. b) O conhecimento das forças competitivas. c) Arranjo de medidas que complementam as medidas financeiras com vetores que impulsionam o desempenho futuro. d) Oferecer mobilidade aos processos internos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br O controle da execução da estratégia 187 2. Quais mudanças têm sido causadoras do aperfeiçoamento no contro- le estratégico? a) Avanços físicos e lógicos na tecnologia da informação e nas ferra- mentas e gestão. b) A globalização das economias nacionais. c) O desenvolvimento da comunicação via satélite. d) A conscientização cada vez maior do desenvolvimento sustentável. 3. Quais as quatro perspectivas básicas que compõem o Balanced Score- card? a) Financeira, administrativa, de produção e de logística. b) Financeira, processos internos, aprendizado e crescimento e clientes. c) Clientes, fornecedores, compradores e vendedores. d) Processos internos, processos externos, clientes internos e clientes externos. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 188 Estratégia Competitiva Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A estrutura para a estratégia Objetivos: ao concluir o capítulo o aluno deve obter conhecimento claro do impacto das diferentes estratégias estabelecidas pela empresas em suas estruturas organizacionais, de forma a construir internamente um suporte sustentável para responder aos desafios impostos pela competição em seus mercados domésticos ou internacionais. A formulação da estratégia busca preparar internamente a organização, em termos dos seus recursos e capacidades, para enfrentar os desafios provocados por fatos reais ou potenciais de impacto em seu ambiente competitivo. Diante disso, é considerável que o modo como a empresa organiza seus recursos e ca- pacidades mantenha uma forte correlação com os desafios que a organização está superando ou pensa que deva superar. É por esta razão que a estratégia for- mulada exerce forte influência sobre a forma estrutural de uma organização. Segundo o professor Mintzberg (2003, p.36), “no caso da estrutura organiza- cional, design significa girar botões que influenciam a divisão do trabalho e os mecanismos de coordenação que afetam as funções da organização”. Além disso, menciona que a estrutura envolve duas exigências fundamentais, quais sejam a divisão do trabalho em tarefas distintas e a coordenação entre as tarefas. Estrutura simples Crescimento de vendas - problemas de coordenação e controle Estrutura funcional Estrutura multidivisional Crescimento de vendas - problemas de coordenação e controle Micro e Pequenas empresas Grandes empresas que implementam estratégias com altos níveis de diversificação Médias e grandes empresas que implementam estratégias com baixos níveis de diversidficação - (Toyota - estratégias de custo-diferenciação) Implementação eficiente da estratégia formulada Implementação eficiente da estratégia formulada (H IT T, 2 00 8) Figura 1 – Padrões evolucionários de estratégia e estrutura. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 190 Estratégia Competitiva A Figura 1 representa o processo evolutivo das estruturas organizacionais que acompanha a evolução histórica das organizações, ao longo do tempo. Assim, é possível visualizar como, durante o seu ciclo evolutivo, as organiza- ções ampliam as suas instalações, aumentam o seu faturamento, diversificam o seu portfólio de produtos ou serviços e, diante disso, como alteram a sua es- trutura e atribuem autoridade e responsabilidades aos seus funcionários. Tais mudanças são necessárias para que a firma possa responder de forma ágil às necessidades impostas pela dinâmica de um ambiente competitivo. É diante dessa necessidade de agilidade que muitas organizações têm dificuldade em responder às ações competitivas perpetradas pelos seus concorrentes. Agir e reagir são atitudes requeridas pelas empresas em seu dia-a-dia, de acordo com o comportamento competitivo dos concorrentes em sua indústria. A estrutura simples é a forma básica assumida pelas micro e pequenas empresas. Tais firmas, em geral, são comandadas pelo seu proprietário. Pos- suem poucos níveis em sua estrutura funcional, no máximo três níveis. As decisões são mais centralizadas, sendo o proprietário-gerente quem super- visiona todas as atividades e toma todas as decisões. Os seus funcionários são uma extensão fiscalizadora do gerente. Produzem apenas uma linha de produtos ou serviços, como em uma estratégia de foco. Dentre os exemplos desse porte de estrutura estão os restaurantes, as oficinas mecânicas, os postos de gasolina, as lojas, as serralherias ou até mesmo pequenas fábricas ou distribuidoras. A estrutura funcional é comum nas médias e grandes empresas. Tais estru- turas podem ser mais ou menos centralizadas. Possuem um presidente que está à frente de um quadro de diretores ou gerentes funcionais, sob os quais há gerentes, chefes e supervisores. Assim, possui no máximo cinco níveis de autoridade. Os diretores ou gerentes funcionais assumem a responsabilida- de pelas funções tradicionais de marketing e vendas, P&D e Projetos, produ- ção e engenharia, contabilidade e finanças, recursos humanos e pessoal. O papel assumido pelo presidente exige pulso firme e apoio aos executivos de forma equilibrada para que a firma não sucumba a algum viés decorrente da força predominante de algum diretor ou gerente. Nesse tipo de empre- sa predomina o negócio único ou dominante e baixo grau de diversificação como ocorre em empresas de engenharia, algumas fábricas, distribuidores e operadores logísticos etc. A estrutura multidivisional, ou estrutura de forma M, como costuma ser chamada, é uma estrutura constituída para firmas com maiores níveis de di- Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A estrutura para a estratégia 191 versificação. Tal diversificação pode estar relacionada com os diversos mer- cados geográficos ou com a diversidade de produtos oferecidos. Assim, cada divisão representa um negócio independente ou centro de lucro (produto, ou centro regional). O executivo principal ou CEO delega responsabilidades aos gerentes da divisão ou da unidade estratégica de negócios em relação à elaboração tanto da sua estratégia como, também, da gestão da rotina do dia-a-dia. Portanto, uma das características da forma M é a descentralização da tomada de decisões. Foi uma resposta aos desafios de coordenação e controle surgidos com a formação das grandes organizações diversificadas da década de 20, como a General Motors e DuPont. As estruturas organizacionais podem ser subdivididas em dois modelos: mecanicista ou orgânico.O modelo mecanicista é baseado em regras geran- do organizações hierarquizadas e burocráticas, adequadas a condições am- bientais estáveis. O indivíduo tem pouca autonomia e não há espaço para a improvisação. Perde-se em agilidade mas ganha-se em disciplina. As orga- nizações que seguem este modelo tendem a ser impessoais, rígidas e regu- lamentadas. Tem como ponto forte a disciplina e cumprimento de normas. O modelo orgânico enfatiza a equipe, gerando organizações flexíveis, com redefinição contínua de tarefas e organogramas de pouca utilidade. Estas organizações são adequadas a condições ambientais dinâmicas. A autono- mia das pessoas é maior, assim como a ênfase na comunicação informal. É comum encontrarmos os dois modelos em todas as organizações, podendo um ou outro ser predominante em determinada situação. Os controles são recursos utilizados pelas organizações para avaliar o de- sempenho de partes da organização ou da organização como um todo. Os controles avaliam, sob a ótica da cadeia de valor, se cada atividade princi- pal está encadeada com a sua subseqüente, criando condições para que ela crie valor para seus clientes, isto é, há uma relação de causa-efeito entre as várias atividades principais. Por exemplo, quando as operações (manufatu- ra) se preocupam com a qualidade e a pontualidade, a logística de saída, o marketing e vendas e os serviços de pós-vendas, são beneficiados. Da mesma forma, as atividades de apoio para com as atividades principais também há relação de causa-efeito. Por exemplo, quando o recrutamento e seleção em uma empresa são criteriosos e dirigidos à efetividade do trabalho e à quali- dade do ambiente de trabalho, seus reflexos são percebidos no clima inter- no, nos bons resultados da produção e da produtividade. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 192 Estratégia Competitiva (P O RT ER , 1 98 6)Infra-estrutura organizacional (Finanças, Planejamento, etc) Administração de RH Desenvolvimento de Tecnologia Compras Logística de entrada Operações (manufatura) Logística de saída Marketing e vendas Serviços de Pós-vendas M ARGEM M ARGEM Atividades de Apoio Atividades Primárias Objetivos Estratégicos Figura 2 – Cadeia de valor. Os níveis de diversificação organizacional A diversificação de produtos diz respeito a amplitude no escopo de pro- dutos, mercados ou setores nos quais a empresa compete dentro das restri- ções impostas pela sua estratégia corporativa. Assim, uma linha de produtos ou serviços, geralmente, está em uma divisão ou unidade de negócio. Por esta razão os produtos daquela divisão ou unidade de negócio possuem uma natureza comum, como poderá ser observado nas explicações sobre os níveis de diversificação. A unidade de negócio torna-se, assim, a responsável pela produção e distribuição dos produtos daquela linha. Dependendo do grau de diversificação e da forma como a diversificação é realizada (mix), esta tende a reduzir a variabilidade nos lucros e riscos incorridos. A diversificação está também associada ao peso relativo que cada unidade de negócio ou divisão tem no total de receitas geradas pela organização. A seguir são apre- sentados os diferentes níveis de diversificação: Baixos níveis de diversificação. � Em negócios com baixos níveis de diversificação estão aqueles em � que, segundo Hitt (2008), 95% ou mais das receitas provêm de uma única unidade de negócio. Um exemplo desse tipo de empresa é a Cemig que tem 95% da sua receita total gerada pelas atividades das várias unidades da empresa: Cemig Geração, Transmissão e Distri- buição (31%) + Cemig Geração e Transmissão (26%) + Cemig Distri- buição (31%) + Light (7%). Algumas vezes esse tipo de empresa é chamado de negócio único. Ainda dentro dos negócios com baixos níveis de diversificação, há � também aquelas chamadas de negócio dominante, para as quais, Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A estrutura para a estratégia 193 entre 70% e 95% das receitas provêm de uma única unidade de ne- gócio. Um bom exemplo desse tipo de empresa é a Petrobras para a qual 90% da receita gerada está composta da seguinte forma: 29% provêm das atividades de exploração e produção, 46% provêm da atividade de abastecimento e 15% são provenientes de distribuição. Níveis moderados de diversificação. � Neste grupo estão organizações em que algo entre 30% e 70% de � todas as receitas geradas provêm de apenas uma unidade de negó- cios da organização. Além disso, todos os negócios compartilham dos vínculos com o produto, com a tecnologia utilizada e com a dis- tribuição, como no caso da Nestlé, em que todos os produtos são alimentos, podem ser transportados em um mesmo veículo e são vendidos em um mesmo estabelecimento comercial. Nesse tipo de vínculo há grandes oportunidades de sinergia provenientes, den- tre outros, das economias de escopo obtidas. A Nestlé possui 17 divisões de negócios no Brasil e 2.470 itens. Por exemplo, a divisão de Águas comercializa os produtos Perrier, São Lourenço, Petrópolis e Aquarel. A divisão de Cereais comercializa os produtos Neston, Aveia Neston, Farinha Láctea, Neston Barra e Neston Vitamina; e a divisão de Cafés comercializa os produtos Nescafé Tradição, Origi- nal, Matinal, Descafeinado, Café com Leite e Dolca etc. Ainda dentro do campo dos negócios com moderados níveis de di- � versificação há aquelas possuidoras de relacionamentos vinculados (mistos), em que menos de 70% e mais de 30% das receitas provêm de um negócio dominante e há somente relacionamentos limita- dos entre tais negócios, como no caso da Unilever e suas divisões de alimentos (Hellmann’s, Arisco, Kibon, Maizena etc.), de cuidados pessoais (Dove, CloseUp, Lux, Seda etc.) e de limpeza (OMO, Miner- va, Confort etc.). Níveis muito altos de diversificação. � Nos casos de empresas pertencentes a este grupo há divisões com � atividades não relacionadas nas quais menos de 30% das receitas de todo o negócio vêm do negócio dominante e não há nenhum laço co- mum entre os negócios, como o caso do Grupo Tavares Melo (PE) que é proprietário da Dupé S/A (fabricante de sandálias), de usinas de açú- car e destilarias de álcool, agroindústrias e participações empresariais. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 194 Estratégia Competitiva Diversificação relacionada restrita Integração vertical - Sinergia operacional pelo acompanhamento de ativos - (poder de mercado) Relação tanto operacional quanto corporativa (capacidade rara e quando falham podem criar deseconomias de escopo) Diversificação não-relacionada - compartilhamento de recursos financeiros para reestruturação de negócios adquiridos - (economias financeiras) Diversificação vinculada relacionada - Sinergia corporativa de compartilhamento de habilidades (ativos de conhecimento) - (economias de escopo) Relação corporativa: Transferência de habilidades a negócios por meio do escritório corporativo Baixa Alta Ba ix a A lta Re la ci on am en to o pe ra ci on al : Co m pa rt ilh am en to e nt re n eg óc io s (H IT T, 2 00 8) Figura 3 – Razões para diversificação. Há duas razões motivadoras para a diversificação e que se correlaciona- das orientam para um nível maior ou menor de diversificação, conforme apresentado na figura 3: Relacionamento corporativo – necessidade de transferência de habili- � dades por meio do escritório corporativo; Relacionamento operacional –necessidade de compartilhamento de � recursos e capacidades entre negócios. Há inúmeras resultantes da elevação da competitividade estratégica, dentre elas estão a obtenção de economias de escopo (diversificação rela- cionada vinculada), o aumento da força do mercado (diversificação relacio- nada restrita), economia financeira (diversificação não-relacionada) e dese- conomias de escopo (diversificação tanto operacional quanto corporativa). Os incentivos com efeitos neutros na competitividade estratégica são a le- gislação anti-truste (CADE), a legislação fiscal, a baixa performance, o futuro incerto do fluxo de caixa e a redução do risco da empresa. Os recursos com efeitos variáveis na criação de valor e competitividade estratégica são os recursos tangíveis (recursos financeiros e ativos físicos) e Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A estrutura para a estratégia 195 os recursos intangíveis (conhecimento tácito, relacionamento com os clien- tes e imagem e reputação). Os motivos gerenciais para a diversificação são a variação do risco do em- prego administrativo e os incrementos na remuneração gerencial. Os cinco mecanismos de coordenação de Mintzberg De acordo com Mintzberg (2003), os cinco mecanismos de coordenação devem funcionar como a argamassa que liga as partes da organização. Tais mecanismos são: O � ajuste mútuo – é o arranjo mais simples e natural, tanto que é utilizado com freqüência em pequenas empresas. Por meio de um processo de co- municação informal, combinação recíproca e relacionamento, as pessoas alcançam uma divisão de tarefas que possibilita o melhor ajuste; G = Gerente A = Analista O = Operador G A O O (M IN TZ BE RG , 2 00 3) Figura 4 – Mecanismo de coordenação: ajuste mútuo. A � supervisão direta – na medida em que evolui, a organização acres- centa ao seu quadro de pessoal novos funcionários. Em razão dessa evolução a empresa deve se ajustar novamente, elaborando novos mecanismos de coordenação, qual seja o mecanismo de supervisão direta. Assim fazendo, um indivíduo (G) recebe autoridade e respon- sabilidade para orientar e coordenar o trabalho de outras pessoas (O), instruindo-os e monitorando suas atividades. G = Gerente A = Analista O = Operador G A O O (M IN TZ BE RG , 2 00 3) Figura 5 – Mecanismo de coordenação: supervisão direta. Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 196 Estratégia Competitiva Padronização � – por esse mecanismo, através de padronização de proce- dimentos e definição clara de autoridade e responsabilidades, os fun- cionários sabem exatamente o que é esperado que eles façam, quanto, quando, como e porque. São três os casos de padronização, quais sejam, o input de acessos e capacidades, o processo de trabalho e os outputs na forma de produtos ou serviços. Em geral, nas empresas esse tipo de padronização está representado pelos procedimentos operacionais, ins- truções de trabalho ou padrões operacionais elaborados para atender às determinações para certificação pela norma ISO 9000-2000. G = Gerente A = Analista O = Operador G A O O Input de recursos capacitados Processos de trabalho (throughputs) Output de produtos/serviços (M IN TZ BE RG , 2 00 3) Figura 6 – Mecanismo de coordenação: padronização. Input de recursos e capacidades – � são padronizados a fim de que tanto os equipamentos e materiais como também a capacitação das pessoas possam ser padronizados para assumir as funções. Além disso, o trei- namento deve ser especificado para elevar o nível de capacitação da equipe, possibilitando, assim, atender às necessidades demandadas pelos equipamentos e materiais utilizados. Equipes multifuncionais exigem alto grau de padronização visto que a sua melhor interação depende da sua capacidade técnica e interpessoal. As habilidades pa- dronizadas respondem pela maior parte da coordenação. Processo de trabalho � – o conteúdo do trabalho é especificado ou pro- gramado. Esse tipo de procedimento/instrução/padrão (documento) está associado ao trabalho que deve ser realizado dentro da rotina do dia-a-dia. Cada passo da tarefa deve ser realizado segundo as orien- tações contidas nos documentos elaborados, a fim de que ao final o trabalho atenda as especificações estabelecidas; Outputs na forma de produtos ou serviços � – são os resultados (dimensões, e/ou desempenho/funcionalidade) de acordo com a especificação. Esse tipo de procedimento/instrução/padrão orienta que especificações em termos de funcionalidade e desempenho devem ser obtidas para que Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br A estrutura para a estratégia 197 os produtos estejam de acordo com o exigido pelo cliente. O mesmo pode ser dito em relação aos projetos da empresa, cuja taxa interna de retorno deve ser especificada, assim como aplicações financeiras etc. As cinco partes da organização Ainda sob a ótica de Mintzberg (2003), a organização pode ser desmembra- da em cinco segmentos distintos, a fim de poder capturar e dirigir os sistemas de fluxos e estabelecer o inter-relacionamento entre suas diferentes partes. Cúpula Estratégica Técno- estrutura Assessoria de Apoio Linha Intermediária Núcleo Operacional (M IN TZ BE RG , 2 00 3) Figura 7 – As cinco partes básicas da organização. Cúpula estratégica � – está localizada no extremo superior da estrutura sendo constituída por executivos com responsabilidade sobre toda a organização além de assegurar que a empresa cumpra sua missão de forma efetiva e de atender às necessidades daqueles que lhe outorga- ram o poder de gestão. Linha intermediária � – é composta pelo corpo gerencial da organização, o qual liga a cúpula estratégica ao núcleo operacional. Estabelece a ligação entre os Gerentes Seniores aos Supervisores de Primeira Linha, os quais têm autoridade direta sobre os operadores. Núcleo operacional � – é composto pelos que executam as tarefas bá- sicas diretamente ligadas às atividades principais da cadeia de valor (PORTER, 1996), muitas vezes chamados operadores. Em suas ativi- dades principais esta força de trabalho executa, segundo Mintzberg (2003), quatro funções principais, quais sejam: Esse material é parte integrante do Curso de Atualização do IESDE BRASIL S/A, mais informações www.iesde.com.br 198 Estratégia Competitiva asseguram os � inputs para produção; transformam os � inputs em outputs; distribuem os � outputs; fornecem apoio direto às funções de � input (entrada) , de throughput (transformação) e output (saída). Assessoria de apoio � – é constituída pelas unidades especializadas que apóiam as atividades principais da empresa, tais como a assessoria jurídica, relações públicas, P&D etc. O que caracteriza esse grupo de funções é o seu alto grau de especialização e seu vínculo indireto com a atividade principal do negócio. Tecnoestrutura � – esse grupo de funções assume atividades que afetam o trabalho de outras pessoas. Tais analistas, em geral, cumprem a ta- refa de desenhar, planejar, mudar ou treinar as pessoas que executam o trabalho, utilizando, assim, técnicas analíticas para tornar o trabalho de outras pessoas mais eficaz. Essa equipe é composta principalmente pelos elaboradores do plano estratégico, controladoria, pesquisa ope- racional, equipe de escritório etc. A estrutura na forma U Conforme conceituação elaborada por Ouchi (1985), a estrutura na forma U, conhecida como organização funcional, é aquela em que a organização é unifi- cada, daí o nome U da forma, no