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Classificação ABC em saúde APRESENTAÇÃO Os altos custos envolvidos nos processos assistenciais e administrativos das organizações de saúde necessitam de ferramentas de gestão apuradas e consistentes, visando à entrega de resultados, tanto qualitativos – insumos adequados e seguros — como quantitativos – autossustentáveis e competitivos. O cenário altamente acirrado nesse segmento intensifica o aprimoramento dos conhecimentos voltados ao dimensionamento, ao controle e à tomada de decisão para otimizar o uso dos recursos da melhor forma possível, evitando custo indiretos associados ao seu estoque parado ou não consumido no momento correto, com consequências graves no capital de giro da organização. A classificação ABC é uma ferramenta que irá auxiliar no dimensionamento dos insumos de acordo com o grau de prioridade, por meio da visão sistêmica de todos os itens estocados. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar a definição da classificação ABC, seus critérios, sua utilização para otimizar os recursos tangíveis, como materiais e medicamentos, e sua estrutura visual como ferramenta para o auxílio na tomada de decisão. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir a classificação ABC.• Identificar a utilização da classificação ABC para materiais e medicamentos na área da saúde como ferramenta para a tomada de decisões. • Explicar como a classificação ABC é estruturada.• INFOGRÁFICO Você conhece os critérios que são utilizados para compor cada um dos grupos da metodologia de classificação ABC? O mercado da área da saúde apresenta um contexto complexo. Seus processos assistenciais são geridos mediante mão de obra altamente especializada, tecnologia avançada e insumos com alto custo agregado, oriundos de maciços investimentos em P&D. Não se pode negar que um dos principais desafios dos gestores que atuam nesse mercado é garantir o equilíbrio entre a qualidade, a segurança e a sustentabilidade econômica e financeira, fruto do cuidado prestado ao paciente. Insumos como materiais e medicamentos são responsáveis por grande parte desses custos; portanto, garantir a eficiência e a eficácia na gestão do estoque desses insumos é fundamental para sustentar o processo administrativo e assistencial de uma organização. No Infográfico a seguir, você vai conhecer os critérios adotados para cada um dos grupos que contemplam a classificação ABC. CONTEÚDO DO LIVRO A classificação ABC é uma metodologia considerada estratégica para gerir o estoque de insumos de uma organização. Sua utilização auxilia na eficiência e na eficácia da tomada de decisão por parte dos seus gestores que acompanham e monitoram a cadeia de suprimentos. Todo recurso parado ou com tempo demasiado sem uso gera custos diretos e indiretos: o próprio valor destinado ao produto, que no momento não está sendo utilizado, como os demais investimentos em local de armazenamento, espaço, tecnologia e pessoas para controle. Você sabia que muitas organizações de saúde acabam inviabilizando suas atividades, declarando falência ou falta de capacidade de manter os seus processos, com estoques cheios de insumos, como materiais e medicamentos? Isso ocorre porque os investimentos estão sendo realizados de forma errônea, destinados a uma relação desequilibrada entre necessidade e disponibilidade. No capítulo Classificação ABC em saúde, da obra Gestão da cadeia de suprimentos em saúde, você vai aprender como a classificação ABC maximiza a gestão dos insumos que compõem parte da cadeia de suprimentos, além de entender como os recursos devem ser administrados para fortalecer as relações sistêmicas existentes em um segmento complexo como o da prestação de serviços em saúde. Boa leitura. GESTÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS EM SAÚDE Fabiano Jardim Araújo Classificação ABC em saúde Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Definir a classificação ABC. � Identificar a utilização da classificação ABC para materiais e medica- mentos na área da saúde como ferramenta para a tomada de decisões. � Explicar como a classificação ABC é estruturada. Introdução A classificação ABC caracteriza-se como uma metodologia de geren- ciamento de ativos que utiliza critérios de priorização para uma gestão mais eficiente e eficaz, viabilizando a manutenção de estoques mais equilibrados entre disponibilidade e necessidades. Essa capacidade de identificar os grupos de insumos que possuem grande impacto financeiro e que, consequentemente, são demandados para a operacionalização das organizações gera uma assertividade na tomada de decisão pelos líderes em suas instituições. Hoje as organizações de saúde enfrentam o grande desafio de gerirem seus processos com sustentabilidade econômica, segurança e qualidade assistencial. Em virtude dos recursos financeiros limitados e de uma demanda epidemiológica que pode variar de paciente para paciente, com previsibilidade intermediária, manter os estoques com insumos extremamente necessários, sem gerar a ociosidade e a esterilização de capital parada, se torna parte estratégica da agenda de tais gestores que conduzem esse perfil de organização voltada para o cuidado da saúde da população. Neste capítulo, você será apresentado aos conceitos da classificação ABC e poderá compreender a sua utilização no gerenciamento dos ma- teriais e medicamentos de uma instituição de saúde, bem como ver sua ferramenta sustentada na curva de criticidade de consumo e impacto econômico-financeiro. 1 Classificação ABC Características marcantes do mercado da área da saúde, o enorme número de materiais e medicamentos disponíveis (que, muitas vezes, apresentam desfechos distintos ao serem recrutados para o tratamento de pacientes com patologias idênticas), a alta competitividade entre as instituições e o desafio de se utilizarem, da melhor forma possível, os recursos são fatores que geram um modelo com grandes variabilidades para a tomada de decisão pelos seus gestores. Um exemplo clássico disso é a multidisciplinaridade envolvida nos processos, desde demandas administrativas com característica financeiras, até fluxos operacionais extremante técnicos, com diretrizes de cuidados médicos, que são puramente assistenciais. Em função da grande variabilidade de insumos que alimentam esses processos assistenciais — desde recursos produzidos no Brasil, até produtos com patentes e comercialização exclusivamente internacionais —, o gerenciamento de estoques é um dos principais desafios para os gestores das organizações de saúde. Conforme Bowersox et al. (2014), as organizações normalmente possuem estocado um alto volume de itens, com uma variação substancial entre recur- sos efetivamente utilizados e outros com ociosidade de consumo. Identificar esses insumos e poder tratá-los de forma diferenciada é um grande desafio para os gestores da área de suprimentos. É esse um modo de viabilizar uma disponibilidade coerente com a demanda existente, atendendo plenamente ao processo de cuidado assistencial e à sua sustentabilidade. Em virtude da variabilidade de insumos estocados no ambiente hospita- lar, associada às necessidades muitas vezes peculiares, em se tratando dos recursos que melhor atendem às demandas da característica da doença e, consequentemente, do perfil do paciente, gerenciar esses ativos a partir do uso de uma ferramenta que possa gerar critérios de similaridade é fundamental para maximizar a tomada de decisão. A classificação ABC é uma ferramenta utilizada para gerenciar os esto- ques que permite classificá-los em grupos, estratificando a sua importância de acordo com valores e consumo. É de suma importância sinalizar os itens que merecem atenção especial no seu acompanhamento, que exigem maior controle ou realização de inventário. No processo de disponibilidade versus consumo, sempre haverá um pequeno conjuntode itens que correspondem a um valor econômico agregado maior, como um conjunto mais expressivo, volumoso, com menor valor imobilizado. Classificação ABC em saúde2 Imaginemos dois produtos distintos: a seringa tradicionalmente utilizada nos processos de cuidados assistenciais e um stent cardíaco de 9 mm para cirurgias de alta complexidade. No caso de uma instituição de saúde de pequena e média complexidade, o segundo item poderia não ser considerado essencial, porém o primeiro, sim. O primeiro possui baixo valor agregado, mas com alta rotatividade; o segundo, por outro lado, tem característica inversamente proporcional à do produto anterior: baixa demanda, mas alto valor imobilizado. Diante da situação apresentada, a classificação ABC servirá para que se implementem critérios de estratificação dessas relações, proporcionando um modelo de gestão sólido que direcionará as atenções necessárias a cada conjunto de recursos estocados na instituição. Conforme Jacobs e Chase (2012, p. 454), “[...] As previsões também são necessárias para o modo pelo qual a empresa opera seus processos diariamente. Por exemplo, quando o estoque de um item deve ser reabastecido ou quanto de um item devemos programar para produção durante a próxima semana”. A classificação ABC precisa contribuir com as informações de prioridade da disponibilidade versus necessidade, equilibrando o investimento financeiro e garantindo os recursos para atenção do cuidado ao paciente com qualidade e segurança. Essa integração é fundamental para o gerenciamento da área de suprimentos e farmácia, mas estratégica para os gestores das organizações. São essas diretrizes que vão fundamentar a tomada de decisão nesses crité- rios assumidos para descrever uma fotografia do consumo dos seus recursos, canalizando os devidos investimentos a tais insumos, uma vez que grande parte da receita gerada pelas instituições é oriunda desses itens estocados e utilizados no processo assistencial. Na Figura 1, é possível identificar as múltiplas variáveis envolvidas no processo de gestão da cadeia de suprimentos, em que são demandados esses insumos. 3Classificação ABC em saúde Figura 1. Variáveis da cadeia de suprimentos. Fonte: Ballou (2006). As origens da classificação ABC datam do século XIX, quando o econo- mista italiano Vilfredo Pareto aferiu que 80% das terras da Itália estavam nas mãos de 20% da população, havendo, portanto, uma relação desproporcional entre elas. Ainda nos primórdios, essa relação foi chamada de regra 80-20, ou princípio de Pareto. De acordo com Jacobs e Chase (2012, p. 7), “[...] A análise de Pareto é aplicada à gestão do estoque sob o título ‘análise ABC’, que ainda é o ponto de partida convencional dos consultores para controle da produção quando examinam os problemas de gestão do estoque”. Essa contribuição de Pareto foi fundamental para as futuras ferramentas de gestão da qualidade que iriam surgir ao longo dos anos. A classificação ABC compreende que uma pequena quantidade estocada representa um valor considerável imobilizado, na proporção de 20% para 80%, que denominaríamos grupo A. Outra parte dos itens, em uma proporção de 30% para 15%, ficaria em um escopo intermediário, chamado grupo B. Já o restante da proporção, 50% para 5%, corresponderia ao grupo C. Essas dimensões possibilitam ao gestor tomar suas decisões por meio de grupos, conjuntos similares com maior impacto financeiro e operacional. Classificação ABC em saúde4 Vale ressaltar que muitas organizações vão adaptar à sua realidade as proporções sinalizadas anteriormente, podendo haver alguma adequação ao modelo. Isso é muito comum na área da saúde, pois hospitais e serviços de saúde caracterizados como instituições genéricas, tradicionalmente conhecidas como hospitais gerais, terão um escopo de atuação muito amplo, com diferentes serviços e especialidades médicas atuando, além de uma gigantesca variabili- dade de protocolos assistenciais e, consequentemente, de insumos estocados. Implementar uma metodologia que seja capaz de reduzir esse escopo amplo é o grande acréscimo que a classificação ABC pode deixar como legado aos gestores dessas organizações. Conforme Ballou (2006, p. 77), Outra utilização frequente do conceito 80-20 e da classificação ABC é que ela serve para agrupar os produtos num armazém, ou outro ponto de estocagem, de acordo com um número limitado de categorias e sendo gerenciados com diferentes níveis de disponibilidade de estoque. As classificações dos produtos são arbitrárias. O ponto principal é que nem todos os itens de produtos deveriam merecer tratamento logístico igual. O conceito 80-20, com sua classificação de produtos, proporciona um esquema, baseado na atividade de vendas, para determinar quais produtos receberão os variados níveis e tratamento logístico. Muitas organizações trabalham com um dilema. A meta dos seus gestores da área de suprimentos é investir em estoque aquilo que é considerado estrita- mente necessário, uma vez que, segundo essa visão, qualquer excedente deve ser considerado recurso que poderia estar sendo destinado a outro bem de capital. No entanto, nas instituições de saúde, a maior parte da receita gerada é oriunda de materiais e medicamentos, de itens estocados, e não dos seus processos médico-assistenciais. Portanto, gerenciar essa estrutura a partir de uma ferramenta de gestão sólida, eficiente e eficaz, é a principal atribuição dos líderes dessas organizações. Diante disso e tendo em vista a classificação ABC, podemos afirmar que a grande entrega metodológica proporcionada por ela é uma gestão de estoque perene, que vise à excelência no seu processo de monitoramento dos insumos mediante critérios sólidos que possam garantir a disponibilidade de recursos na quantidade exata, com margem de segurança adequada, evitando parte do capital financeiro parado, o que acarretaria a impossibilidade de outros investimentos. 5Classificação ABC em saúde É fundamental que o modelo de gestão da cadeia de suprimentos seja composto por diferentes metodologias que possam auxiliar na tomada de decisão dos gestores. A classificação ABC é uma das formas de estratificar subgrupos de itens com criticidades pré-definidas. Entender a relação existente entre os diferentes fluxos da cadeia é essencial para que o desfecho da informação seja fiel à demanda prática da operação. Para ampliar o seu conhecimento a respeito dessa diretriz de fluxos e processos entre as áreas, consulte o livro Administração de Materiais, de J. R. Tony Arnold, considerado um clássico sobre o assunto (ARNOLD, 1999). 2 Utilização da classificação ABC para materiais e medicamentos na área da saúde Implementar a classificação ABC como um dos pilares de gestão da cadeia de suprimentos é imprescindível para o monitoramento dos estoques e da capacidade de gerar informações para tomada de decisão dos gestores na área da saúde. Essas decisões estarão centradas na capacidade estratégica de gerar eficiência e eficácia em seus múltiplos processos com o melhor custo benefício, garantindo o investimento adequado e o volume de itens estocados. As organizações de saúde possuem inúmeros nichos de atuação: podem ser instituições especializadas em um único ciclo de cuidado, como especia- lidade médica, ou podem ser estruturas com atuação mais ampla, chamadas gerais, nas quais a complexidade pode variar desde ambulatórios com baixo risco até unidades de internações complexas, como unidades de tratamento intensivo (UTIs) e unidades de cuidados especiais (UCEs), com desfechos amplos e risco acentuado. Todas essas estruturas serão alimentadas por insumos, que vão desde itens com baixo valor agregado até recursos com alto valor, cujo mau gerenciamento poderia impactar na própria sobrevivência econômica da instituição. E soma-se a isso o fato de que a eventual ausência desses insumos, para além de quaisquer outros impactos negativos, poderá implicar, em se tratando da área da saúde,a perda de uma vida humana. Para a tomada de decisão dos gestores da área da saúde, um dos pontos que demanda atenção é a possível indisponibilidade da informação. Isso coloca tais gestores em um voo às cegas, com margem de erro próxima ao zero, em virtude do amplo escopo de recursos armazenados em uma instituição e da Classificação ABC em saúde6 necessidade iminente desse insumo no ciclo de cuidado do paciente. Portanto, as áreas operacionais que realizam a gestão desses estoques, sejam elas centrais ou periféricas (como suprimentos e farmácias), devem manter seus painéis de indicadores atualizados, constantemente monitorados de acordo com os grupos e critérios estabelecidos pela classificação ABC. Segundo Simchi-Levi, D., Kaminsky e Simchi-Levi, E. (2010, p. 33), Em uma cadeia de suprimentos típica, matérias-primas são compradas, produ- tos são manufaturados em uma ou mais fábricas, transportados para depósitos para fins de armazenamento temporário e então transportados para varejistas e clientes. Desta forma, para reduzir custos e melhorar os níveis de serviço, as estratégias eficazes de gestão da cadeia de suprimentos precisam contemplar as interações entre seus diferentes níveis. O mercado da área da saúde possui uma dinâmica complexa, com inúmeros processos que podem variar de paciente para paciente. Essa particularidade gera um escopo de insumos: materiais e medicamentos com estoques amplos nas instituições. Conseguir estabelecer uma relação de equilíbrio entre as necessidades e a sua disponibilidade de recursos na proporção adequada é um desafio. No atual cenário, as organizações precisam prover o equilíbrio entre a sua sustentabilidade e a qualidade assistencial, garantindo um processo seguro e com custos gerenciáveis. A respeito do assunto, vale a leitura da matéria “O papel da logística intra-hospitalar na garantia de segurança e redução de custos”, disponível na internet, no portal Hospitais Brasil. Na prática, diariamente as organizações vivenciam situações similares a essa. Com volumosos estoques, as instituições da área da saúde podem possuir cadastrado um número de insumos superior a 2.500 itens, só no escopo de materiais. Somando-se a essa quantia os recursos classificados como medi- camentos, o número pode ultrapassar os 4 mil. Isso mostra a dificuldade de gerenciá-los, na medida em que a sua ausência pode representar um efeito colateral no processo assistencial de cuidado ao paciente. Para gerenciar esses insumos, materiais e medicamentos, precisamos separá- -los em grupos distintos, obtendo o histórico de consumo, de preferência por uma janela de tempo expressiva, a qual, estatisticamente, possa representar um comportamento constante. De acordo com Barbieri e Machline (2017), 7Classificação ABC em saúde os processos de suprimentos estão tradicionalmente centrados na cadeia de gestão de materiais e medicamentos, visando a disponibilizar os insumos de forma adequada ao fluxo de consumo. No caso da área da saúde, o processo assistencial de atendimento ao paciente é altamente controlado e com a variável de tempo presente. Isso mostra como é importante que as organizações possuam sistemas integrados de informações, que atuem com uma base de dados ampla, com capacidade de relacionar um conjunto complexo e amplo de dados, gerando re- latórios com expressiva série temporal. É parte da sustentação da boa aplicação da classificação ABC a qualidade da informação disponível para tomada de decisão. Na medida em que um amplo conjunto de insumos, como materiais e medicamentos, passa a ser monitorado, identificar o seu histórico de consumo é o primeiro passo para classificá-los. A seguir, podemos ver um exemplo com 10 itens do grupo dos medicamentos. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Cloreto de sódio Solução �siológico 0,9% 100 ml Paracetamol Água destilada Oxacilina Dipirona Acebutolol Tramadol Heparina Alopurinol R$ 0,95 R$ 2,36 R$ 0,64 R$ 0,68 R$ 2,28 R$ 0,95 R$ 2,36 R$ 1,21 R$ 4,83 R$ 3,01 5445 16600 11230 1800 2130 4350 365 986 12250 185 R$ 5.172,75 R$ 39.176,00 R$ 7.187,20 R$ 1.224,00 R$ 4.856,40 R$ 4.132,50 R$ 1.193,06 R$ 59.167,50 R$ 556,85 R$ 123.527,66 R$ 861,40 N° MEDICAMENTOS (ITENS) VALOR UNITÁRIO VOLUME (UTILIZAÇÃO) RELAÇÃO VALOR × VOLUME Vamos considerar que esse exemplo seja simplório, pois, como mencionado anteriormente, um estoque de uma organização em saúde costuma trabalhar na casa dos milhares de itens, com valores que, na sua soma, podem comprometer a saúde financeira de uma organização. Conforme Jacobs e Chase (2012, p. 454), [...] ao considerar qual abordagem de previsão utilizar, é importante levar em consideração o objetivo da previsão. Algumas previsões servem para análises genéricas de demandas. Por exemplo, qual deve ser a demanda para um grupo de produtos durante o próximo ano? Algumas previsões são utilizadas para ajudar a estabelecer a estratégia de como atenderemos à demanda, em um sentido global. Classificação ABC em saúde8 Em função da gestão de suprimentos em saúde possuir inúmeras interfaces que são alimentadas pelo conhecimento de áreas distintas, como adminis- trativas e médico-assistenciais, é importante a padronização e uso de uma metodologia que possa integrar esses conceitos. A classificação ABC possi- bilita estabelecer esse padrão. Adaptando-se apenas o peso dado a cada um dos grupos ABC, conforme eventual peculiaridade institucional, a sequência a ser seguida prevê: 1. hierarquizar os recursos atendendo ao critério decrescente em relação ao valor utilizado; 2. identificar o valor total que constitui a soma de todo o inventário — conjunto de itens; 3. identificar as porcentagens que cada recurso representa de forma individual; 4. estabelecer uma relação sequencial das porcentagens acumuladas de todo o conjunto de itens; 5. de acordo com a particularidade da instituição, estabelecer os critérios de corte dos grupos e sua classificação dentro das dimensões A, B e C. A metodologia ABC tem a capacidade de diagnosticar o grau de excelência da ad- ministração de estoques, contribuindo para a definição das políticas de gestão e, desse modo, trazendo maior perenidade ao processo. Isso resulta na programação e na disponibilidade dos insumos de forma adequada, o que evita outros problemas usuais na empresa. Veja mais exemplos práticos no livro Administração de Materiais: Uma Abordagem Logística, de Marco Aurélio P. Dias (2010). É fundamental que as instituições entendam que um modelo de gestão passa pela organização, pelo uso de metodologia e pela qualidade da informação, que são frutos de um planejamento sólido, controlado e constantemente mo- nitorado que possa refletir as demandas multidisciplinares existentes desde a sua origem até o ponto de consumo. 9Classificação ABC em saúde Os estoques das instituições de saúde são compostos por uma variabilidade gigantesca de materiais e medicamentos, todos eles dedicados ao cuidado do paciente. Portanto, seguir os passos da classificação ABC nos possibilita uma fotografia gerencial da relação de disponibilidade e demanda. A seguir, podemos ver a nova reestruturação a partir dos três primeiros passos citados. Solução �siológico 0,9% 100ml Cloreto de sódio Água destilada Nessa nova fotografia, já é possível identificar os principais itens que acumulam o maior volume de recursos financeiros imobilizados. O critério também poderia ser empregado para identificar a utilização, tendo como referência o consumo, e não o valor em espécie. Conforme Bowersox et al. (2014, p. 37), “Estratégias logísticas devem ser projetadas para manter o menorinvestimento financeiro possível em estoques. O objetivo principal é conseguir o máximo de giro do estoque ao mesmo tempo que as necessidades de serviço são satisfeitas”. Esse exemplo mostra o quanto a classificação ABC pode contribuir para a assertividade da tomada de decisão, exercendo uma função estratégica e única na geração de valor para a organização. Para completar as etapas que constituem a classificação ABC, as porcen- tagens individuais precisam ser somadas aos demais itens na ordem hierár- quica estabelecida, subdividindo-se os itens nos grupos conforme os critérios adotados. Solução �siológico 0,9% 100ml Cloreto de sódio Água destilada Classificação ABC em saúde10 Após essas definições, é importante que se estabeleça um painel de gestão, com a atenção que deverá ser dedicada a cada um dos grupos de itens; nesse momento, o gestor terá uma diretriz bem definida para tomada de decisão. A seguir, é possível ver a contribuição gerencial a partir do uso da classificação ABC para o suporte da tomada de decisão. Solução �siológico 0,9% 100ml Cloreto de sódio Água destilada Fazer uso dessa metodologia possibilita que a gestão seja realizada de forma integrada, identificando-se os pontos de atenção aos quais precisam ser dedicados os devidos esforços. Na Figura 2, é possível ver a contribuição da metodologia de classificação ABC quando utilizada na área da saúde, uma vez que ela auxilia na conexão entre as diferentes áreas de conhecimento. Essa integração possibilita um equilíbrio nas decisões administrativas amparadas pelo processo assistencial, garantindo a sustentabilidade a partir de decisões multidisciplinares, o que gera processos seguros com qualidade técnica, eficiência e eficácia. Figura 2. Fluxos e conexões setoriais para tomada de decisão. Fonte: Oliveira e Musetti (2014). 11Classificação ABC em saúde 3 Estruturação da classificação ABC A classificação ABC possui como principal característica a identificação dos grupos prioritários para gestão centrada na disponibilidade versus demanda; em outras palavras, é dispor de um estoque que de fato seja utilizado, apre- sentando um giro de capital físico e financeiro equilibrado. Todo o recurso imobilizado sem uso ou com baixo giro deve ser considerado uma disponibi- lidade ociosa. Cabe ressaltar que, no mercado da área da saúde, alguns itens, mesmo que não utilizados, devem estar sempre disponíveis, como os insumos de um carro de parada. O fato é que a competitividade cada vez mais acirrada, o uso de tecnologia de ponta, a constante integração entre os processos administrativos e assis- tenciais e a necessidade urgente de redução de custos para sustentabilidade das organizações geraram uma evolução acelerada no modelo de controle e disponibilidade de insumos. Medicamentos, materiais e outros insumos fun- damentais para a execução das atividades médicas e assistenciais acumulam parte decisiva para a autossustentabilidade e a perenidade das instituições de saúde. De acordo com Ballou (2006, p. 304): A alta administração tem geralmente interesse maior pelo investimento total comprometido em estoques e com os níveis de serviços para grupos ampliados de itens do que pelo controle de itens separados. Embora a cuidadosa deter- minação de uma política para cada item acabe proporcionando um controle seguro dos estoques de itens separados, e também dos estoques em seu con- junto, a gestão deste nível de detalhamento para fins de planejamento geral acaba se tornando por demais incômoda. Por isso mesmo, métodos capazes de controlar coletivamente grupos de itens vêm ganhando espaço entre os procedimentos de controle de estoques. Giro de estoques, classificação ABC de produtos e agregação de riscos são alguns dos métodos usados para o controle agregado de estoques. No mercado da área da saúde, a disputa por maiores margens nos serviços, consequentemente embarcados por uma cadeia de suprimentos com materiais e medicamentos, faz que os processos de gestão de suprimentos e estoque sejam tratados como estratégicos para a organização. Classificação ABC em saúde12 A classificação ABC possui na sua materialização a chamada curva visual, muito utilizada para demonstrar graficamente o comportamento dos grupos estratificados entre A, B e C. A imensa variedade de insumos que diariamente são demandadas em uma instituição de saúde gera um alto valor imobilizado, além do espaço físico necessário. O risco do seu desabastecimento cria mar- gens de segurança muito baixas, gerando uma complexa cadeia de controle. A adoção da metodologia por meio dos critérios anteriormente apresen- tados possibilita que identifiquemos de forma visual os grupos prioritários a partir da curva ABC. A porcentagem numérica pode variar de autor para autor, assim como da característica da instituição em análise; o importante é que seja adotado o mesmo critério para todo o conjunto de itens, conforme as especificações apresentadas a seguir. � Grupo A — Conjunto de itens com maior relevância. Compõem este grupo insumos que demandam maior atenção da gestão e devem ser acompanhados rotineiramente. Sua margem de ressuprimento deve ser ágil e rápida, em função do alto valor imobilizado. � Grupo B — Conjunto de itens que demandam uma atenção intermediá- ria, isto é, embora necessitem de atenção, tais itens podem ser tratados com menor cautela. Seu controle deve ser preciso. � Grupo C — Conjunto de itens com escopo de menor atenção. Sua periodicidade pode ser mais espaçada, conforme peculiaridade da instituição, e seu reflexo na operação se torna mais tangível na eventual necessidade de ação. A classificação ABC pode ser representada mediante uma curva (Figura 3), que vai confrontar os dois eixos: demanda versus impacto econômico-finan- ceiro, ou demanda versus disponibilidade, dependendo da análise em questão. De acordo com Bowersox et al. (2014, p. 79), Essa regra declara que um percentual grande (talvez 80%) da receita e do lucro da empresa normalmente deriva de um pequeno percentual de seus clientes (apenas 20%). Esses percentuais não são absolutos, mas o conceito é muito claro. Esse princípio também pode ser aplicado aos produtos que uma empresa vende; poucos produtos representam um grande percentual da receita de vendas e dos lucros. 13Classificação ABC em saúde Figura 3. Distribuição da classificação ABC. Como se pôde observar na Figura 3, a visualização da relação entre o vo- lume dos recursos e seu impacto econômico-financeiro por meio do desenho da curva de classificação ABC proporciona ao gestor uma tomada de decisão mais assertiva, sustentada na diretriz do perfil epidemiológico da organização, o que viabiliza sua operação da forma mais eficiente e eficaz. Dessa forma, com base no que foi exposto neste capítulo, foi possível compreender que a classificação ABC permite que as organizações de saúde possam identificar as suas relações sistêmicas entre o consumo de recursos (materiais e medicamentos), seu impacto financeiro na imobilização de valores e sua capacidade de gerar receita — isso perante a execução de inúmeros fluxos de cuidados assistenciais. E, então, a partir da discussão aqui empreendida, podemos concluir que, num segmento em que a qualidade e a segurança são essenciais, o uso de uma metodologia robusta garante o sucesso e a perenidade das instituições. Classificação ABC em saúde14 ARNOLD, J. R. T. Administração de materiais: uma introdução. São Paulo: Atlas, 1999. BALLOU, R. H. Gerenciamento da cadeia de suprimentos/Logística empresarial. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. BARBIERI, J. C.; MACHLINE, C. Logística hospitalar: teoria e prática. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. BOWERSOX, D. J. et al. Gestão logística da cadeia de suprimentos. 4. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. DIAS, P. M. Administração de materiais: uma abordagem logística. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2010. JACOBS, F. R.; CHASE, R. B. Administração de operações e da cadeia de suprimentos. 13.ed. Porto Alegre: AMGH, 2012. OLIVEIRA, T. S.; MUSETTI, M. A. Revisão compreensiva de logística hospitalar: conceitos e atividades. Revista de Gestão em Sistemas de Saúde, v. 3, n. 1, p. 1–13, 2014. Disponível em: http://www.revistargss.org.br/ojs/index.php/rgss/article/view/90/129. Acesso em: 15 jun. 2020. SIMCHI-LEVI, D.; KAMINSKY, P.; SIMCHI-LEVI, E. Cadeia de suprimentos projeto e gestão: conceitos, estratégias e estudos de caso. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2010. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 15Classificação ABC em saúde DICA DO PROFESSOR É importante que você saiba que a gestão de insumos como materiais e medicamentos pode garantir a sustentabilidade de uma organização de saúde tanto no que diz respeito à parte econômica como médico-assistencial. Esses insumos são responsáveis por uma parcela significativa dos custos alocados em uma organização de saúde. A ausência de gestão nesse processo inviabiliza a qualidade e a segurança no ciclo de cuidado do paciente, uma vez que a falta de recursos específicos para o tratamento de determinada patologia gera consequências restritivas de atendimento, insustentabilidade econômica e falência da cadeia produtiva. Nesta Dica do Professor, você verá um pouco mais sobre a gestão de medicamentos e materiais utilizando a classificação ABC para tomada de decisão em um ambiente hospitalar, cuja estrutura está moldada pela participação de profissionais multidisciplinares com atuação direta ou indireta no processo de cuidado aos pacientes. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! NA PRÁTICA Você sabia que materiais e medicamentos são responsáveis pela maior parte dos insumos revertidos em receitas nas organizações de saúde e, consequentemente, seus maiores custos no ciclo de cuidado dos pacientes? Estabelecer um modelo de gestão sustentado em metodologias práticas que possam subsidiar as decisões dos gestores, por meio de diretrizes que garantam qualidade, segurança e sustentabilidade nas organizações, é fundamental para gerar eficiência e eficácia nos processos de gerenciamento de estoques e suprimentos. Por meio da classificação ABC, é possível subdividir e fragmentar o inventário do estoque em grupos que irão demandar atenções distintas, desde o primordial até o mais “supérfluo”, o que garante a maximização no processo de gestão. Veja, Na Prática, como implementar o uso da metodologia de classificação ABC. SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Gestão de estoque de medicamentos utilizando classificação ABC em um hospital público Leia este artigo, que apresenta a utilização da classificação ABC em um hospital, considerando as suas múltiplas variáveis e o impacto na operação da sua estrutura administrativa e assistencial. Inclui a elaboração da curva ABC, ferramenta que auxiliou o gestor da farmácia a identificar os itens com a necessidade de acompanhamento mais detalhado e minucioso, garantindo a eficiência e a eficácia para o sistema como um todo. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Como utilizar a curva ABC para gestão de estoque Acesse este portal, dedicado a apoiar os empreendedores para acelerar o crescimento de suas empresas no Brasil. Uma matéria registra como utilizar a curva ABC para gestão de estoque em um segmento não hospitalar, estabelecendo inúmeras matrizes de risco. Cabe uma reflexão dos passos e das metodologias utilizados para o mercado da área da saúde e suas organizações complexas, com foco no equilíbrio econômico e assistencial. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Análise de sistema de estoques por meio de análise de curva ABC e giro de estoque: um estudo de caso numa organização hospitalar pública Leia este artigo, que apresenta a utilização da metodologia da curva ABC em uma instituição hospitalar pública, que buscou avaliar o grau de distribuição dos produtos na forma de gestão dos seus níveis de estoque e reposição, visando a promover maior equilíbrio no processo assistencial e econômico-financeiro. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!