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20- Dopplervelocimetria obstétrica

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de invasão trofoblástica, 
em que o segmento celular do trofoblasto fica aderido ao 
endométrio, invadindo-o em direção aos vasos do útero. 
Os primeiros vasos encontrados são as artérias 
espiraladas, que sofrem modificação morfológica. Elas 
perdem o tônus, bem como os receptores para agentes 
adrenérgicos, e se tornam “fetalizadas” (dilatadas, 
complacentes), para favorecer o máximo de perfusão que 
vem da artéria uterina. Isso proporciona a melhor 
perfusão possível para o trofoblasto ou placenta. 
Algumas mulheres não aceitam a invasão 
trofoblástica, um fenômeno semelhante a uma alergia ao 
aloenxerto, que é o feto. A não penetração desses vasos 
até as artérias espiraladas pelo trofoblasto deixa a 
placenta isquemiada/hipoperfundida. Logo, uma má 
perfusão placentária é uma má perfusão fetal. 
Isso é possível de detectar? Sim. Podemos analisar 
através da dopplervelocimetria da artéria uterina. Quanto 
mais dilatada ela estiver, melhor foi a invasão 
trofoblástica. Por outro lado, quanto mais contraída, 
menor foi o processo de invasão. O sucesso da gravidez 
está na capacidade de invasão trofoblástica. 
 
• Análise subjetiva: incisura protodiastólica 
presente ou ausente. Todo vaso do organismo 
humano tem um tônus basal. Temos a bomba 
cardíaca, que emite a sístole e, a depender da 
resistência periférica, há um fechamento no início 
da diástole, e depois uma abertura do vaso para o 
momento diastólico, de perfusão. Isso é 
importante porque muitas vezes o vaso não 
precisa de tanto sangue. O útero de uma mulher 
não grávida é pequeno e não precisa de perfusão 
tão exagerada, ao contrário do útero da mulher 
grávida. Na invasão trofoblástica, o tônus do vaso 
diminui bastante e o vaso se torna complacente, 
então não se consegue mais identificar a incisura 
protodiastólica. 
• Análise objetiva: índice de pulsatilidade média. 
IPM = IP (AUD) + IP (AUE) / 2 
o AUD = artéria uterina direita 
o QUE = artéria uterina esquerda 
Baixo valor preditivo para uso universal 
Todas as mulheres vão fazer? Não, apenas as 
mulheres que trazem, na sua epidemiologia, grandes 
possibilidades de desenvolver restrição de crescimento 
intraútero e pré-eclâmpsia. Por exemplo: já teve pré-
eclâmpsia, obesa, mãe teve pré-eclâmpsia, doenças 
hipertensivas crônicas, doenças renais crônicas, 
trombofilias, diabetes etc. 
Nessas mulheres, quando temos índices de pulsatilidade 
muito altos, há evidencias de que o uso de AAS entre 80 e 
100 mg/dia faz diminuir significativamente a restrição de 
crescimento e a pré-eclâmpsia. 
Processo de invasão trofoblástica 
 
As células invadem a camada endometrial e a 
camada miometrial, destruindo a capa musculoelástica 
das artérias espiraladas, bem como seus receptores 
adrenérgicos. Portanto, o tônus basal desaparece e o vaso 
tende a ficar totalmente dilatado, tanto no seguimento 
endometrial quanto no miometrial. 
Na pré-eclâmpsia, a invasão não consegue atingir 
sequer o segmento miometrial. Nesses casos, o vaso é de 
baixa perfusão, enquanto que, na gravidez normal, é de 
alta perfusão. 
Interpretação clínica – artéria uterina 
• Análise vascular do compartimento materno 
• As artérias sofrem modificações morfológicas em 
função das invasões trofoblásticas (1ª e 2ª ondas). 
A primeira onda vai até a 14ª-16ª semana de 
gestação, a segunda vai até a 20ª-22ª semana de 
gestação. 
• Período de estudo: 1ª e 2ª trimestres. 
• Rastreio: pré-eclâmpsia e/ou restrição de 
crescimento intrauterino. Analisa capacidade 
vascular do compartimento materno, que é a 
artéria uterina. O que se encontra é uma artéria 
uterina contraída, de baixo fluxo. 
 
4 
O gráfico anterior é o da curva de normalidade, 
que mostra que, à medida que a gestação avança, o índice 
de pulsatilidade cai, porque o vaso se torna cada vez mais 
dilatado. 
Espectro de fluxo da artéria uterina 
 
A linha que desce é a que nos orienta a sonar a 
artéria que desejada. Colocamos o feixe de som 
exatamente dentro do vaso. Temos sístole → desce → 
diástole. 
Ademais, do ponto de vista subjetivo, há uma 
pequena incisura protodiastólica, no início da diástole. 
Veja acima, no círculo vermelho. 
• Imagem esquerda: pequena incisura 
protodiastólica, diástole com componente bem 
cheio e alongado. 
• Imagem direita: sístole muito pronunciada e forte 
incisura, mostrando vaso muito contraído, com 
tônus basal ainda muito forte. O componente 
diastólico está bastante reduzido em 
prolongamento e altura. Portanto, a perfusão está 
diminuída. 
Aplicativo para calcular o percentil do achado dos valores 
obtidos 
 
Compartimento fetoplacentário 
Neste compartimento, vamos analisar a artéria e 
a veia umbilical. Procuramos fazer insonação em cerca de 
3 a 5 cm da inserção do cordão na placenta, porque ele 
fica mais fixo. Contudo, também pode ser feita na alça livre 
do cordão umbilical, embora seja mais difícil, pois ela se 
movimenta muito. 
Interpretação clínica 
A dopplervelocimetria das artérias umbilicais 
reflete o fluxo sanguíneo placentário no espaço 
interviloso. A troca acontece aonde está a anastomose da 
perfusão que vem da mãe, pela artéria uterina, e os vasos 
placentários, onde ocorre o shunt. Nesse local, o sangue é 
concentrado, ocorrendo a troca de sangue fetal, rico em 
CO2, e materno, rico em O2. 
Na artéria umbilical, temos o sangue que vem do 
feto e vai para a placenta. Se ocorreu boa invasão 
trofoblástica, não há alteração. Se a placenta, contudo, foi 
rejeitada, e não teve boa invasão trofoblástica, ela sofre 
rapidamente um processo degenerativo e obliterativo, em 
que o fluxo que vem da artéria umbilical do feto encontra 
uma barreira. Ele tenta vencer essa obstrução 
aumentando a resistência e diminuindo a sua 
complacência. Isso é detectado no doppler. Se a placenta 
é uma barreira, portanto não se perfunde o feto 
adequadamente. 
A contração da artéria umbilical é sinônimo de baixa 
perfusão fetal. 
Interpretação clínica 
• A dopplervelocimetria das artérias umbilicais 
reflete o fluxo sanguíneo placentário 
• Caracteriza-se pela formação de um shunt 
materno-fetal de baixa resistência e alto fluxo. 
• No espaço interviloso se dá a homeostase. 
É por isso que dizemos que a placenta é o pulmão 
do feto. Quando se faz uma análise da a. umbilical, 
estamos analisando o fluxo que vem do feto em direção à 
placenta. Se ocorreu alguma invasão trofoblástica, não há 
nenhuma obstrução ao fluxo. No entanto, se houve 
intolerância da placenta a essa invasão, ela sofre um 
processo aterosclerótico. Existe uma barreira na placenta, 
que aumenta a resistência para tentar compensar. 
Modificações no fluxo da a. umbilical = baixa perfusão 
fetal. 
• Patologias que resultam em insuficiência 
placentária determinam alta resistência e 
diminuição e/ou ausência de fluxo. 
Centralização fetal (Brain-sparing effect) 
Esse fenômeno – artéria umbilical com alta 
resistência e contraída, é chamado de centralização fetal. 
 
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No estudo doppler, observamos uma diminuição de fluxo 
das artérias umbilicais e aumento de fluxo da artéria 
cerebral média. 
A artéria umbilical não consegue levar o sangue 
adequadamente para a placenta, oxigenar e voltar para a 
veia umbilical. Então há, retrogradamente, uma 
manutenção de um estado de hipoxemia, o qual é 
detectado pelos baro e quimiorreceptores do sistema 
vascular fetal. Assim, o feto vai privilegiar alguns órgãos, 
com vasodilatação dos vasos que vão para cérebro, 
miocárdio e adrenais. 
Nos outros órgãos, a vascularização fica bastante 
reduzida. Isso acontece quando a artéria umbilical não 
consegue levar sangue para a placenta, levando à 
hipoxemia. 
Trata-se de um mecanismo compensatório com 
manutenção do equilíbrio ácido/básico fetal. Chega um 
momento em que a hipoxemia se eleva tanto que já não 
se tem mais equilíbrio ácido/básico. Nesse momento, 
devemos partir para a interrupção da gestação.