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Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Alfabetização de Crianças Currículo Inclusivo na Alfabetização e Organização do Trabalho Pedagógico Responsável pelo Conteúdo: Profa. Ms. Edna de Oliveira Telles Revisão Textual: Prof. Ms. Luciano Vieira Francisco 5 Un id ad e Currículo Inclusivo na Alfabetização e Organização do Trabalho Pedagógico Compreender a organização do trabalho pedagógico em alfabetização na perspectiva de um currículo inclusivo. Compreender a organização de um currículo inclusivo a partir da heterogeneidade em sala de aula nas classes de alfabetização na perspectiva do direito de ser alfabetizado. Compreender como planejar a diversificação das atividades considerando a heterogeneidade infantil. Compreender o trabalho com diferentes gêneros textuais na perspectiva da diversidade e da progressão da aprendizagem. Nesta Unidade o principal objetivo é compreender a organização do trabalho pedagógico em alfabetização na perspectiva de um currículo inclusivo, considerando a heterogeneidade em sala de aula. Leia todo o texto com atenção, fique atento(a) às referências de material complementar, resolva as atividades propostas e participe do fórum de discussão. Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos: • Introdução • A heterogeneidade em sala de aula nas classes de alfabetização: currículo inclusivo e o direito de ser alfabetizado • O trabalho com diferentes gêneros textuais: diversidade e • progressão da aprendizagem T hinkstock/G etty Im ages 6 Unidade: Currículo Inclusivo na Alfabetização e Organização do Trabalho Pedagógico A compreensão dos principais aspectos que envolvem o debate sobre educação, alfabetização e letramento no Brasil – e que envolvem a intersecção de assuntos como currículo inclusivo; concepções de alfabetização; planejamento do trabalho em salas de alfabetização; ludicidade; cultura e letramento –, peças-chave na construção e acompanhamento do processo de ensino e aprendizagem nas séries iniciais, necessitam de um conhecimento teórico e prático para que possam contribuir na direção de uma educação de qualidade. Atenta à tal necessidade, esta disciplina foi elaborada para que a formação na área seja significativa, em consonância com as reais necessidades da organização educacional e do mundo contemporâneo na perspectiva de uma educação emancipadora. Nesta Unidade você estudará a organização do trabalho pedagógico em alfabetização na perspectiva de um currículo inclusivo, considerando a heterogeneidade em sala de aula e o direito de ser plenamente alfabetizado para uma participação ativa na sociedade letrada. Para iniciarmos esta Unidade, reflita sobre as seguintes questões: O que é uma educação inclusiva? Quais os princípios de uma educação inclusiva? Como construir um currículo inclusivo nas salas de alfabetização? Nessa perspectiva, o que fazer na prática em salas de alfabetização? Tente responder essas perguntas a partir da experiência que tem na escola, seja como estudante, seja como profissional da educação. Ademais, adentre neste universo maravilhoso da construção do conhecimento, tomando contato com nossos textos e tirando suas próprias conclusões! Lembre-se que este conteúdo é de suma importância para sua formação pessoal e profissional e fará parte de sua trajetória ao longo da vida. Por isso, não limite seu empenho nesta jornada! Contextualização 7 Introdução O relatório De olho nas metas, divulgado em 2013 pelo movimento Todos pela Educação (TPE), aponta que 92% das crianças e jovens entre quatro e dezessete anos estão na escola. Porém, de acordo com a prova ABC 2012, apenas 44,5% dos alunos do terceiro ano do Ensino Fundamental revelaram aprendizagem adequada em leitura e somente 30,1% em escrita (GIESTEIRA, 2014). Esses dados nos mostram que grande parte das crianças até o terceiro ano estão longe de alcançar o letramento e a alfabetização plena. Isto é, falta-lhes capacidades linguísticas para participar ativamente das diferentes situações sociais de uso da língua. O problema é sério, complexo e envolve uma série de questões, entre as quais uma análise do papel e da formação do principal agente desse processo: o professor. Faz-se necessário uma reformulação urgente dos cursos de Pedagogia – a chamada formação inicial – e também dos currículos de forma geral, para uma perspectiva inclusiva, cultural e de vivência e inserção no mundo letrado em que vivemos. Isso quer dizer que o professor precisa ser capaz de inserir as crianças em fase de alfabetização em práticas sociais de leitura e escrita, ultrapassando o modelo tradicional de decodificação da língua. Além disso, alfabetizar plenamente todas as crianças requer planejamento estratégico dos governos, investimento nas formações inicial e ao longo da vida docente, estrutura material adequada, situação social de alunos e professores, troca de experiências entre os professores alfabetizadores e mesmo entre todos os docentes da escola, pois todos lidam, de alguma forma, com a leitura e a escrita. Ciente da urgência em se alfabetizar plenamente todas as crianças brasileiras com até oito anos de idade, o governo federal, por meio da Portaria n.º 867, de 4 de julho de 2012, instituiu o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic), suas ações e diretrizes gerais. Nesse sentido, o primeiro artigo traz o seguinte texto: Art. 1º Fica instituído o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa, pelo qual o Ministério da Educação (MEC) e as secretarias estaduais, distrital e municipais de educação reafirmam e ampliam o compromisso previsto no Decreto n.º 6.094, de 24 de abril de 2007, de alfabetizar as crianças até, no máximo, os oito anos de idade, ao final do 3º ano do Ensino Fundamental, aferindo os resultados por exame periódico específico, que passa a abranger: I A alfabetização em Língua Portuguesa e em Matemática; II A realização de avaliações anuais universais, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), para os concluintes do 3º ano do Ensino Fundamental; III O apoio gerencial dos Estados, aos municípios que tenham aderido às ações do Pacto, para sua efetiva implementação. 8 Unidade: Currículo Inclusivo na Alfabetização e Organização do Trabalho Pedagógico As ações do Pacto se caracterizam pela integração e estruturação, a partir do eixo formação continuada de professores alfabetizadores, de ações, materiais e referências curriculares e pedagógicas do MEC que contribuam para a alfabetização e o letramento; pelo compartilhamento da gestão do programa entre a União, Estados, Distrito Federal e municípios; e pela garantia dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento, a serem aferidos nas avaliações externas anuais. Quando mencionamos estrutura social, dificuldades oriundas da falta de condições materiais decorrentes das desigualdades sociais, é papel da escola trabalhar em prol da melhoria da qualidade social da educação, cumprindo sua função na garantia dos direitos de aprendizagem discente. Um dos quais é o direito à alfabetização plena. As ações do Pacto têm por objetivos: garantir que todos os estudantes dos sistemas públicos de ensino estejam alfabetizados, em Língua Portuguesa e em Matemática, até o final do terceiro ano do Ensino Fundamental; reduzir a distorção idade-série na Educação Básica; melhorar o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb); contribuir para o aperfeiçoamento da formação dos professores alfabetizadores; construir propostas para a definição dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças nos três primeiros anos do Ensino Fundamental. Considerando todos esses fatores, não há como mencionarmos melhorias na educação e, mais especificamente, na alfabetização em nosso país se não deixarmos explícita a escolha pela concepção de educação inclusiva. Para tanto, em primeiro lugar, questiona-se: o que é uma educação inclusiva? Quais os princípios de uma educaçãoinclusiva? Como construir um currículo inclusivo nas salas de alfabetização? A heterogeneidade em sala de aula nas classes de alfabetização: currículo inclusivo e o direito de ser alfabetizado Para discorrermos sobre a construção de um currículo inclusivo nas salas de alfabetização, faz-se necessário compreender o que é uma educação inclusiva. Em linhas gerais, podemos dizer que uma educação inclusiva é aquela que amplia o conceito de inclusão para além das crianças com necessidades educativas especiais, além de trazer a discussão para o foco de como incluir todas as crianças que estão na escola, independentemente de gênero, raça/etnia, idade, classe social, religião, níveis de aprendizagem diferenciados etc., considerando os seus saberes, as suas formas de se relacionar, a sua cultura e adaptando as situações de modo que todos possam participar e construir conhecimento. Os princípios de uma educação inclusiva são: • Trabalho visando a inclusão equitativa de todas as pessoas em todos os contextos sociais e, no caso mais específico de nossa discussão, na escola e nas classes de alfabetização; 9 • Trabalho que considera a cultura da diversidade e a pluralidade em detrimento da cultura do preconceito; • Valorização das diferenças como enriquecedoras do trabalho pedagógico; • Valorização da pluralidade cultural e dos diferentes significados presentes no espaço escolar; • Garantia de direitos de aprendizagem e da alfabetização plena; • Educação para a democracia e construção de cidadania, o que requer uma postura democrática da escola e dos professores na organização do trabalho escolar, considerando a criança como sujeito que constrói o seu conhecimento na interação com objetos e pessoas, com o ambiente, com o próprio conhecimento. Nessa perspectiva, um currículo inclusivo corresponde a planejar o ensino para todos, independentemente de suas diferenças. A heterogeneidade em sala de aula e a diversificação das atividades A heterogeneidade é um fenômeno intrínseco ao processo educativo. Jamais teremos uma turma de alunos iguais, com as mesmas experiências anteriores, mesmos interesses, mesmos conhecimentos. Obviamente, em algumas turmas essa heterogeneidade é maior que em outras. Nesses casos, a atenção do professor às diferentes necessidades, no momento do planejamento, deve ser maior (LEAL; ALBUQUERQUE; CRUZ, 2012, p. 14). Mas, na prática, o que fazer em salas de alfabetização? Alguns professores que atuam em sala de aula relatam que algumas das dificuldades encontradas no cotidiano dizem respeito à complexidade das interações em ambiente escolar, principalmente sobre a heterogeneidade de conhecimentos das crianças e que, muitas vezes, precisam dar maior atenção para os que têm mais dificuldades e acabam deixando os outros um pouco sem suporte, ou então dão a mesma atividade para todos os alunos, mas nem todos conseguem realizá-las, pois há crianças que não têm determinados conhecimentos. Diante dessa situação, surge a seguintes questão: O que fazer com uma classe que tem crianças que parecem estar muito à frente do que se espera como expectativa de aprendizagem para aquele ano, enquanto há outras que apresentam muitas dificuldades e que parecem não estar avançando? Em primeiro lugar, o professor precisa conhecer bem o que ensinará, ou seja, o objeto de ensino. Precisa também conhecer o processo discente e planejar atividades que podem ajudá- los no desenvolvimento em relação ao objeto de ensino. No caso da alfabetização, é preciso desenvolver práticas que envolvam atividades de reflexão sobre a escrita alfabética, leitura e produção de textos, com base nos conhecimentos apresentados pelos alunos, sem seguir um manual, utilizando-se de diferentes materiais. Para tanto, é preciso construir uma rotina diferenciada, com atividades diversificadas para alfabetizar. 10 Unidade: Currículo Inclusivo na Alfabetização e Organização do Trabalho Pedagógico Leal, Cruz e Albuquerque (2012) nos alertam para o fato de que é preciso diversificar as atividades por, pelo menos, duas razões: a primeira é a de que o aprendiz precisa refletir sobre os diversos conhecimentos que compõem o objeto de ensino, e a segunda é que, em uma mesma turma, as crianças têm necessidades diferentes. Em relação à primeira razão, é relevante ressaltar que uma mesma criança precisa refletir sobre a escrita sob diferentes aspectos e desenvolver estratégias de leitura e de escrita variadas. Desse modo, é preciso que sejam criadas diferentes oportunidades de aprendizagem. Se tomarmos o caso da aprendizagem do sistema de escrita alfabética, podemos dizer que as crianças precisam compreender os diferentes princípios que o constituem. Ela precisa, por exemplo, entender que as palavras são formadas por unidades menores, as sílabas. Desse modo, é preciso promover atividades nas quais elas tenham de decompor as palavras em sílabas. Além disso, a criança precisa também compreender que a ordem das letras na palavra corresponde à ordem de emissão sonora dos fonemas. Neste caso, mesmo não sendo necessário teorizar sobre tais conceitos, podem ser realizadas atividades nas quais elas percebam que, se mudarmos uma letra de lugar, a palavra já não é a que está desejando escrever (LEAL; CRUZ; ALBUQUERQUE, 2012, p. 8). Compreende-se que é necessário variar as atividades, mesmo considerando um mesmo objeto de ensino: o sistema alfabético. Em relação à segunda razão citada pelos autores – de que a diversificação das atividades se faz necessária porque as crianças têm necessidades diferentes –, podemos pensar na situação de que em uma mesma turma podemos ter uma criança que ainda não percebeu que para escrever é preciso usar letras e não as conhece, e uma outra criança, essa que compreende o funcionamento do sistema de escrita, lê e escreve com autonomia. Pode-se perceber então que nessa situação há graus significativamente variados de conhecimento. Considere o seguinte exemplo de diversificação de atividade: A professora pode, em um primeiro momento, realizar a leitura de um livro para toda a turma e conversar sobre o texto, possibilitando a socialização de saberes e impressões a respeito da história, mas, em outro momento, dividir a turma, solicitando que uma parte dos estudantes, em pequenos grupos, trabalhe na releitura do texto e escrita da história com um desfecho diferente, com a proposta de que, ao final da aula, a turma ouvirá todos os desfechos criados. A outra parte da turma pode ser dividida em grupos para participar de um jogo ou para realizar uma atividade de reflexão sobre a escrita de palavras, ou na comparação de palavras quanto às semelhanças sonoras e gráficas. Em outro dia, a professora pode inverter os grupos e, após a leitura em grande grupo e conversa com a turma, pedir que metade dos alunos produza, em grupo, outros desfechos para as histórias, estimulando suas tentativas de escrita, mesmo que não dominem o sistema alfabético, ao passo que a outra metade pode participar de jogos ou de atividades de reflexão sobre a escrita de palavras, com foco em dificuldades ortográficas (LEAL; CRUZ; ALBUQUERQUE, 2012, p. 9). 11 É relevante ressaltar que os alunos agrupados em uma mesma sala de aula, apesar de terem mais ou menos a mesma idade, não aprendem as mesmas coisas, da mesma maneira e no mesmo momento. Essa heterogeneidade não deve ser vista de forma negativa, pois sabe-se que é na interação entre crianças de diferentes níveis que ocorre a aprendizagem (SILVA, 2012, p. 6). Como vimos nas unidades anteriores, o diagnóstico do conhecimento das crianças sobre o sistema de escrita alfabética, o levantamento e avaliação realizados pelo professor sobre o que as crianças já sabem e o que precisam aprender e a comparação com aquilo que está colocado como objetivo de aprendizagem para o ciclo são fatores que contribuirão para um bom planejamento das atividades a serem propostas. A respeito disso, ressalta-se a importância de que – como diagnóstico em mãos – o professor organize agrupamentos produtivos com os alunos e os distribua em atividades diversificadas. Esses agrupamentos produtivos devem colocar juntos os estudantes com diferentes níveis de aprendizagem, mas aproximados, sem discrepâncias, pois assim as crianças podem ajudar umas às outras, trocar experiências, colocar em xeque que sabem e reelaborar suas hipóteses iniciais. Alunos com diferenças significativas de aprendizagem, principalmente em relação à alfabetização, não devem estar juntos em atividades de reflexão sobre o sistema de escrita, pois o que pode acontecer é que aquele que está em um nível mais rudimentar de entendimento provavelmente não participará, enquanto o outro, que já sabe um pouco mais, realizará a atividade por ambos. Isso é ruim porque não há desafio para nenhum dos dois alunos e, consequentemente, não há aprendizagem ou troca. Mas essa forma de agrupamento deve ocorrer sempre? Como dito, dependerá do objetivo da atividade proposta. Se for uma atividade de produção de texto, por exemplo, pode-se colocar um aluno silábico com um alfabético, desde que o aluno silábico seja aquele que ditará, criará a história, enquanto o estudante alfabético escreverá a história contada pelo colega. Mas em uma atividade de reflexão sobre a língua escrita, os alunos devem ser agrupados por íveis aproximados. O professor alfabetizador deverá planejar atividades de sua classe considerando essa diversidade de aprendizagens infantis. Por isso há momentos em que as crianças farão atividades diferentes em um mesmo tempo. Diante desses argumentos, pode-se perceber que fazer com que todas as crianças realizem a mesma atividade simultaneamente – no que diz respeito à aprendizagem do sistema alfabético – não as levará à aprendizagem. É importante considerar que mesmo que a maioria das crianças já tenha construído uma hipótese alfabética de escrita, muitas vezes algumas precisarão de um tempo maior para compreender como funciona a escrita alfabética. No entanto, o respeito à diversidade de percursos de aprendizagem discente não significa a ausência de metas em relação à alfabetização, pois todas as crianças têm o direito de aprender a ler e a escrever com autonomia até o final o terceiro ano do Ensino Fundamental. Para isso, é preciso que sejam estabelecidos direitos de aprendizagem para cada ano do ciclo de alfabetização que, podendo até ter nomes diferentes nas redes brasileiras de ensino, contudo, geralmente têm a duração de três anos (SILVA, 2012, p. 10). Sobre heterogeneidade e alfabetização, o Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa) do MEC (BRASIL, 2001) ressalta os seguintes pontos: • Trabalhar considerando a heterogeneidade não é realizar um trabalho individualizado que pressupõe planejar para cada aluno uma atividade diferente. Isso, além de não ser possível na situação de aula, “significaria retroceder a um 12 Unidade: Currículo Inclusivo na Alfabetização e Organização do Trabalho Pedagógico sistema de ensino individualizado, que fecha cada criança numa relação unilateral com o professor e a impede de fazer precisamente aquilo que é fundamental para o progresso da aprendizagem: interagir com seus companheiros, confrontar com eles suas ideias sobre os problemas que tentam resolver, oferecer e receber informações pertinentes” (LERNER; PIZANI, 1995). Portanto, considerar que os alunos têm saberes diferentes pressupõe trabalhar em um sistema de ensino que possibilite que esses saberes sejam compartilhados, discutidos, confrontados, modificados. As propostas de atividades, ora iguais para todos, ora com variações, devem permitir que cada aluno possa fazer novas descobertas a partir delas; • É na interação que os alunos aprendem. Portanto, planejar situações didáticas em que os alunos estejam agrupados criteriosamente e possam trocar pontos de vista, negociar e chegar a um acordo é imprescindível no cotidiano da sala de aula. Nessa proposta o professor deixa de ser o único informante e os alunos passam a ter também um status de informantes válidos. Essa condição, além de permitir que todos avancem, possibilita uma mobilidade maior ao professor dentro da sala de aula para atender os que precisam de mais ajuda. Desse modo, poderá planejar esse atendimento de forma que, por exemplo, possa se dedicar a todos ao longo de uma semana; • Agrupar os alunos deve ser uma ação intencional e criteriosamente planejada pelo professor. Tal ação deve estar baseada em três aspectos: o conhecimento dos alunos sobre o que se pretende ensinar, as características pessoais dos alunos e a clareza do objetivo da atividade que se pretende propor. Deixar de considerar esses aspectos em geral resulta em agrupamentos improdutivos, baseados na improvisação; • Além de contar com os conflitos cognitivos que, naturalmente, o trabalho em parceria provoca, o professor deve se preocupar em garantir que as atividades propostas sejam “portadoras” de desafios, ou seja, que carreguem em si um problema a ser resolvido, para que, na tentativa de solucioná-lo, os aprendizes coloquem em uso tudo o que já sabem sobre o conteúdo da tarefa. Dessa forma, maiores serão as possibilidades de os alunos progredirem em seu processo de alfabetização, mesmo quando não puderem contar com a intervenção direta do professor; • As atividades individuais, incontestavelmente, devem ter um lugar entre as situações de aprendizagem propostas aos alunos, pois eles necessitam de espaços em que possam trabalhar com suas próprias ideias. No entanto, são as atividades que potencializam uma elaboração cooperativa do conhecimento que devem ser priorizadas; • Dadas as diferenças de saberes dos alunos, a maneira de intervir não deve ser a mesma para todos. É preciso diversificar os tipos de ajuda: propor perguntas que requeiram níveis de esforço diferentes; oferecer uma informação específica que promova o estabelecimento de novas relações; ouvir o que o aluno tem a dizer sobre o que pensou para chegar a um determinado produto; estimular o progresso pessoal; 13 • Se quer que os alunos assumam como valores a cooperação, o respeito às ideias e maneiras de ser dos parceiros, a solidariedade, a justiça, o professor precisa atuar de acordo com esses princípios – ou seja, demonstrar em sala de aula atitudes de cooperação, de justiça, de solidariedade etc. – e criar um ambiente que traduza os valores que pretende ensinar. Assim, por exemplo, se a cooperação é um dos valores a ser ensinado, não basta discursar sobre o que são comportamentos cooperativos: é preciso que a aula transcorra de fato em um clima cooperativo, no qual seja possível testemunhar e experimentar atitudes desse tipo; • Lidar com a heterogeneidade em sala de aula é um aprendizado para o professor. É um aprendizado trabalhoso, pois, em geral, a ideia de classe heterogênea vai de encontro à concepção tão difundida de que as classes homogêneas facilitam o aprendizado do aluno e o trabalho do professor. Na prática, essa concepção, além de não facilitar o aprendizado dos alunos, contribuiu para a desprofissionalização do professor que, ao delegar a responsabilidade pelas aprendizagens dos alunos a fontes externas (métodos e materiais produzidos com a única finalidade de ensinar a ler e escrever), minimiza a importância de seu papel no processo de aprendizagem. É preciso então, que o professor assuma a condição de autor da própria prática pedagógica: aquele que, diante de cada situação, precisa refletir, buscar suas próprias soluções, construir novas estratégias, tomar decisões, enfim, ter autonomia intelectual. Trilhar esse caminho exige estudo, reflexão sobre sua ação, autoavaliação, trabalho em parceria, intencionalidade e, principalmente, disponibilidade para aprender e experimentar (BRASIL, 2001). O trabalho com diferentes gêneros textuais: diversidade e progressão da aprendizagem Como vimos nas unidades anteriores desta disciplina, as atividadespropostas durante um longo período nas classes de alfabetização tinham como base a repetição, a memorização e o medo do erro. O rompimento da concepção de língua escrita como código para uma concepção da mesma para sistema de notação alfabética, realizado por meio de diversos estudos, entre eles, os de Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1986), trouxe avanços significativos para o fazer pedagógico. Atrelada à essa compreensão, veio também a de que é por meio da interação com os usos e funções da língua escrita que a aprendizagem ocorre. Assim, fica claro não mais haver sentido em se trabalhar com os alunos os textos “artificiais” encontrados em cartilhas (SOUZA; LEAL, 2012, p. 7). 14 Unidade: Currículo Inclusivo na Alfabetização e Organização do Trabalho Pedagógico Sabemos ainda que as crianças vivenciam diferentes situações de uso da linguagem fora da escola. Esse caráter espontâneo mostra que as crianças estão inseridas num contexto comunicativo, sendo capazes de produzir falas e compreender o que escutam com certa desenvoltura. Sendo assim, as práticas de leitura e escrita realizadas em situações informais são inúmeras e geram motivação e oportunidade de reflexão em torno dos diferentes textos que circulam em nossa sociedade. Informalmente, as crianças vão descobrindo características sobre seus estilos, usos e finalidades. Entretanto, o desenvolvimento de capacidades mais elaboradas, tanto no que se refere à compreensão e produção de textos orais, como quanto às capacidades de ler e escrever, não ocorrem espontaneamente. Portanto, cabe à escola a sistematização dos conhecimentos relativos à produção e à compreensão de textos orais e escritos (LEAL; SANTOS apud SOUZA; LEAL, 2012). Nesse sentido, se a escola quer formar leitores e escritores, se quer que as crianças participem ativamente da sociedade letrada, terá que trabalhar com a diversidade de textos existentes nessa, com as situações sociais reais de uso desses textos, seus propósitos de leitura e de escrita. Ou seja, quais objetivos temos ao ler ou escrever um texto e aspectos referentes à sua diversidade? A alfabetização deve ser baseada no trabalho com diferentes tipos de textos. As questões que devem permear esse trabalho são: a qual gênero esse texto pertence? Quais as suas caraterísticas e como se difere dos demais? Em qual situação social utilizo esse texto? Com qual propósito? Para quê ler esse texto? Para quê escrever esse texto? Tais questões devem ser apresentadas e discutidas com as crianças e isso pode ser feito pensando em situações diversificadas de leitura e de escrita, em torno de eixos do componente curricular Língua Portuguesa, considerando a oralidade, leitura, produção textual e análise linguística. A escola deve gerar situações de escrita que proponham à produção de textos à semelhança da variedade textual que circula socialmente. Ou seja, garantir o desenvolvimento de diferentes capacidades de linguagem, como narrar, expor, relatar, instruir e argumentar (DOLZ; SCHNEUWLY, 1996). No trabalho com os diferentes gêneros, deve-se diversificar as atividades: ler; ouvir ler; recomendar leituras; comentar e dar opiniões sobre o que foi lido; selecionar e escolher o que ler; escrever; ditar; copiar; reescrever; revisar; resumir; citar; parafrasear; expandir um escrito; ler para resolver problemas como escritor; entre outras atividades. Tudo dependerá do objetivo que o professor terá na atividade. O importante é planejar e sistematizar o ensino da linguagem por meio de diferentes textos, sempre enfatizando, conhecendo e vivenciando seu uso social. Nesse sentido, as atividades com os diferentes gêneros devem estar atreladas à um contexto de uso real da linguagem, onde os alunos não escrevam ou leiam apenas para o professor. Por exemplo: junto à classe a professora pode organizar um projeto de estudo e produção do gênero poema para, ao seu final, promover um sarau, onde as crianças apresentarão seus poemas preferidos para outras classes em um evento organizado pelos próprios alunos. Note que o projeto aqui envolve a organização de um sarau, que é uma situação social onde as pessoas leem poemas. O modelo de compreensão de leitura e de escrita é aquele 15 que considera a interação do texto, do leitor e do contexto. Dentro do desenvolvimento desse projeto, por exemplo, haveria uma sequência de atividades para ensinar o gênero poema. E dentro dessas atividades, a professora poderia organizar situações onde as crianças refletiriam sobre o sistema alfabético de escrita, trabalhando a questão dos sons das palavras nas rimas, da leitura de poemas conhecidos, entre outras atividades. Uma boa sequência de atividades para ensinar um gênero deve conter as seguintes etapas: • Diagnóstico do que os alunos já sabem e o que precisam aprender sobre o gênero que será estudado. Aqui pode ser solicitado que os estudantes escrevam um texto do gênero que será estudado e que digam o que sabem a respeito. Esse texto será guardado para posterior retomada; • Repertoriar a classe com textos do gênero estudado e conhecimento dos respectivos escritores consagrados; • Levantamento das características do gênero – estruturais, linguísticas. Isso deverá ser realizado junto com os alunos, coletivamente, onde a professora vai registrando no quadro o que forem levantando de informações. Esse registro servirá de critério de avaliação para a escrita de um bom texto no gênero; • Produção escrita do gênero estudado; • Autoavaliação ou avaliação entre pares do texto produzido, com base nos critérios estudados e levantados anteriormente; • Atividades de fechamento, que podem ser leitura dos textos, produção de livros, sarau etc., dependendo do gênero escolhido. É importante ressaltar a necessidade de considerar a diversidade de níveis de aprendizagem das crianças e, conforme dito, planejar como essas serão realizadas, quais se darão individualmente, quais em grupo, quais serão diversificadas e quais serão compartilhadas por todos. Um dos maiores desafios no trabalho com os diferentes tipos de texto é pensar em situações diversificadas de leitura e escrita. Essas situações podem ser agrupadas em quatro tipos principais de situações: • De interação, mediadas pela escrita, em que se busca causar algum efeito sobre interlocutores em diferentes esferas de participação social – circulação de informações cotidianas, como textos jornalísticos, científicos, instrucionais, literários, publicitários, entre outros; • Voltadas para a construção e sistematização do conhecimento, caracterizadas sobretudo pela leitura e produção de gêneros textuais que usamos como auxílio para organização e memorização, quando necessário, de informações, tais como anotações, resumos, esquemas e outras formas que empregamos para estudar temas diversos; 16 Unidade: Currículo Inclusivo na Alfabetização e Organização do Trabalho Pedagógico • Voltadas para a autoavaliação e expressão “para si próprio” de sentimentos, desejos, angústias, como forma de auxílio ao crescimento pessoal e ao resgate da identidade, assim como ao próprio ato de investigar-se e resolver seus próprios dilemas, com utilização de diários pessoais, poemas, cartas íntimas, sem destinatários; • Em que a escrita seja utilizada para automonitoração de suas ações, para a organização do dia a dia, apoio mnemônico, tais como agendas, calendários, cronogramas e outros (SOUZA; LEAL, 2012, p. 8-9). O foco nas turmas de primeiro ano precisa ser a apropriação o sistema de escrita alfabética, na articulação com o letramento. O que nem sempre é fácil. É comum ouvirmos professores alfabetizadores perguntarem: “Por que, apesar de usarmos textos diversos em sala de aula, trabalhando numa perspectiva do letramento, não conseguimos alfabetizar os alunos?” Tal questionamento ocorre justamente, porque, muitas vezes, busca-se construir práticas que pendem para um dos lados: ou se realiza um trabalho intenso de apropriação do sistema de escrita,ou se realiza um trabalho voltado para a interação por meio dos textos. O desafio é construir práticas que contemplem as duas dimensões e que, na medida do possível, se articulem (SOUZA; LEAL, 2012, p. 9). Na próxima unidade estudaremos um tema importantíssimo para o desenvolvimento do trabalho com alfabetização: a ludicidade e a formação do professor alfabetizador! 17 Material Complementar Para saber mais sobre o trabalho com alfabetização em uma perspectiva inclusiva, considerando a heterogeneidade infantil, consulte as seguintes indicações: • Conheça o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic) em: <http:// pacto.mec.gov.br>. Neste site você terá acesso a inúmeros materiais sobre alfabetização e letramento, entre textos e vídeos. Vale a pena conferir; • Leia o artigo Alfabetização e letramento: repensando o ensino da língua escrita, de Silvia M. Gasparian Colello e disponível em: <http://www.nre.seed.pr.gov.br/ toledo/arquivos/File/Alfabetizacao__e_Letramento_repensando_o_ensino_da_lingua_es- crita.pdf>, que discorre sobre a organização do trabalho com alfabetização considerando a heterogeneidade infantil; • Assista ao programa Escrita também é coisa de criança, oitava parte da Série Letra Viva e disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm. do?select_action=&co_obra=47212>; • Leia o texto A relação entre as práticas de alfabetização e as aprendizagens das crianças nos três anos iniciais do Ensino Fundamental em escolas organizadas em série e em ciclos, publicado por Maria do Carmo Silva Cruz e Eliana Borges Correia de Albuquerque na 35ª Reunião Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped) e disponível em: <http://35reuniao.anped.org.br/ trabalhos/111-gt10>. Esse consiste no relato de uma pesquisa que teve como objetivo analisar a construção de práticas de alfabetização na perspectiva do “alfabetizar letrando” e as relações dessas práticas com as aprendizagens das crianças que frequentam escolas organizadas em séries e em ciclos. http://pacto.mec.gov.br http://pacto.mec.gov.br http://www.nre.seed.pr.gov.br/toledo/arquivos/File/Alfabetizacao__e_Letramento_repensando_o_ensino_da_lingua_escrita.pdf http://www.nre.seed.pr.gov.br/toledo/arquivos/File/Alfabetizacao__e_Letramento_repensando_o_ensino_da_lingua_escrita.pdf http://www.nre.seed.pr.gov.br/toledo/arquivos/File/Alfabetizacao__e_Letramento_repensando_o_ensino_da_lingua_escrita.pdf http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=47212 http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=47212 http://35reuniao.anped.org.br/trabalhos/111-gt10 http://35reuniao.anped.org.br/trabalhos/111-gt10 18 Unidade: Currículo Inclusivo na Alfabetização e Organização do Trabalho Pedagógico Referências BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa). Contribuições à prática pedagógica. Módulo 2, unidade 2, texto 6. Brasília, DF, 2001. DOLZ, J.; SCHNEUWLY, B. Genres et progression em expression orale et écrite. Trad. Roxane Helena Rodrigues Rojo. Eléments de réflexions à propôs d´une expérience romand, p. 31-49, 1996. (circulação restrita). GIESTEIRA, M. O professor como agente de letramento. Revista Pátio, Porto Alegre, RS, v. 18, n. 71, p. 28-31, ago./out. 2014. LEAL, T. F.; ALBUQUERQUE, E. B. C.; CRUZ, M. C. S. Heterogeneidade e direitos de aprendizagem na alfabetização: os diferentes percursos dos estudantes. In: BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretoria de Apoio à Gestão Educacional. Pacto nacional pela alfabetização na idade certa: alfabetização para todos: diferentes percursos, direitos iguais. Ano 1. Unidade 7. Brasília, DF, 2012. p. 6-13. LERNER, D.; PIZANI, A. P. 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