Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

CAPÍTULO
13
Identidade
© Thinkstock/iStock/GregC
Tatuagens, piercings e outros adereços revelam a identificação com um grupo.
Vemos uma pessoa desconhecida em uma festa, no
pátio da escola ou no ponto de ônibus. Não sabemos
nada a respeito dela. É um enigma a ser desvendado.
Será? Nem tanto... A partir do momento em que a
olhamos, já começamos a conhecê-la: podemos
discriminar o gênero, a faixa etária (criança, jovem,
adulto), a etnia.
E, se prestamos mais atenção, podemos perceber alguns
detalhes que fornecem outros indicadores sobre esse
desconhecido: como o modo de se vestir e os piercings que o
situam em determinado grupo.
Aí, nos aproximamos da pessoa e vem a famosa pergunta:
“Qual é o seu nome?”. Depois dessa, podemos fazer muitas
outras... Mais ou menos como aquelas da ficha para procurar
emprego, do formulário para fazer crediário ou das entrevistas
iniciais com o psicólogo – onde mora e estuda, a idade, a
religião, se trabalha ou não, do que gosta e do que não gosta
de fazer, enfim, um roteiro que pode ser interminável e se
referir ao presente, ao passado e ao futuro desse
desconhecido que começa a deixar de sê-lo.
Conhecer o outro é querer saber quem ele é. Quem é você?
Quem sou eu? Perguntas não tão simples de serem
respondidas e que acompanham a história da humanidade.
IDENTIDADE: DECIFRA-ME OU TE
DEVORO!
Na Grécia Antiga, na cidade de Delfos, encontrava-se o
oráculo do deus Apolo, em cujo frontispício havia o lema:
“Conhece-te a ti mesmo”. Na famosa tragédia de Sófocles,
Édipo, em dúvida quanto à sua origem, procura esse oráculo
para saber quem ele é – sua identidade – e a resposta é
aterradora: Édipo é aquele que dormiria com a própria mãe e
mataria o próprio pai. Édipo, não sabendo que fora adotado
pelos reis de Corinto, nunca mais volta para sua cidade na
tentativa de fugir da maldição e vai parar exatamente em
Tebas, onde moram seus verdadeiros pais, que ele
desconhece. Já na chegada a Tebas, ele enfrenta um homem
arrogante que o desafia sem saber que era o rei de Tebas,
Laio, seu pai, que viajava disfarçado. Na luta, Édipo acaba
matando o homem. Ao entrar em Tebas, depara-se com a
esfinge, monstro que aterrorizava a cidade e devorava os
visitantes. Decifra o famoso enigma – Decifra-me e te direi
quem és – e como reconhecimento é coroado rei de Tebas e
recebe a viúva Jocasta, mulher de Laio, e sua mãe, em
casamento.
© Album/Prisma/Album/Fotoarena
Detalhe de arte etrusca, urna representando a luta entre Eteocles e Polynices,
filhos de Édipo, para o trono de Tebas. 4o e 3o séculos D.C. Museu de
Arqueologia de Barcelona, Catalunha, Espanha.
Ao procurar fugir de seu destino, encontra a si mesmo.
Muitos séculos depois, Shakespeare escreveria a peça
Hamlet, cujo mote se vulgarizou: “Ser ou não ser... eis a
questão”. Agora não é mais o destino que define quem somos,
mas buscamos em nossa própria consciência a resposta para
esse mistério.
“Quem anda com quatro
pernas pela manhã, com
duas à tarde e três ao
anoitecer?” Édipo
responde: “O homem, que
quando nasce engatinha,
quando é adulto anda com
seus dois pés e quando
envelhece usa sua
bengala”. A esfinge é
destruída caindo em um
precipício, libertando
Tebas de sua maldição.
Em 1900, Machado de Assis escreve o romance Dom
Casmurro, que constrói um dos principais enigmas da literatura
brasileira para a compreensão de sua personagem principal,
Capitu. Ainda hoje se discute se ela traiu ou não seu marido,
Bentinho, e essa informação é importante para definir o perfil
de Capitu e sua real identidade. Portanto, saber quem é o
outro é uma questão aparentemente simples e, ao mesmo
tempo, constitui-se em desafio a cada novo encontro. Isso
ocorre porque as pessoas mudam, embora continuem elas
mesmas.
Para compreender esse processo de produção do sujeito, que
lhe permite apresentar-se ao mundo e reconhecer-se como
alguém único, a Psicologia construiu o conceito de identidade.
Esse conceito, como muitos outros em Psicologia, tem várias
compreensões e utiliza contribuições de outras áreas do
conhecimento. Vamos elencar as principais.
Carlos R. Brandão,1 antropólogo e educador, diz que a
identidade explica o sentimento pessoal e a consciência da
posse de um eu, de uma realidade individual que torna cada
um de nós um sujeito único diante de outros eus; e, ao mesmo
tempo, o reconhecimento individual dessa exclusividade é a
consciência de minha continuidade em mim mesmo. A
referência do autor ao eu em oposição aos outros eus leva-nos
a considerar algo bastante importante: é em relação ao outro –
diferente de nós – que nos constituímos e nos reconhecemos
como sujeito único. Esse aspecto será abordado quando
falarmos de identificação e identidade: dois conceitos que, no
senso comum, muitas vezes são usados como sinônimos, mas
se referem a processos bastante diferentes.
Segundo o psicanalista André Green, o conceito de
identidade agrupa várias ideias, como a noção de
permanência, de manutenção de pontos de referência que não
mudam com o passar do tempo, como o nome de uma pessoa,
suas relações de parentesco, sua nacionalidade. São aspectos
que, geralmente, os indivíduos carregam a vida toda. Assim, o
termo identidade aplica-se à delimitação que permite a
distinção de uma unidade e a relação com os outros,
propiciando o reconhecimento de si.
É em relação ao outro –
diferente de nós – que nos
constituímos e nos
reconhecemos como
sujeito único.
Tais propriedades – constância, unidade e reconhecimento –
descrevem um determinado momento da identidade de
alguém, mas não são capazes de acompanhar o processo de
sua produção e transformação.
Várias correntes da Psicologia (e a Psicanálise, inclusive) nos
ensinam que o reconhecimento do eu se dá no momento em
que aprendemos a nos diferenciar do outro. Eu passo a ser
alguém quando descubro o outro e a falta de tal
reconhecimento não me permitiria saber quem sou, pois não
teria elementos de comparação que permitissem ao meu eu
destacar-se dos outros eus. Dessa forma, podemos dizer que
a identidade depende da sua diferenciação em relação ao
outro.
O primeiro “outro” importante é a mãe (sempre ela!), de quem
o bebê vai se diferenciando, aprendendo que não é uma
extensão dela. Ao mesmo tempo, é o olhar da mãe sobre o
bebê que vai dando a ele o seu valor como pessoa. Por isso,
as primeiras relações são tão importantes na vida de todos, na
constituição da subjetividade. Nesse processo de
diferenciação, a criança começa a escolher outras pessoas
como objeto de identificação. São pessoas significativas, que
funcionam como modelo em relação ao qual o sujeito vai se
apropriando de algumas características, por meio do processo
de identificação, e formando sua identidade: o que sou e quero
ser, sendo que o que quero ser (o futuro!) já constitui o que
sou (o presente).
A identidade depende da
sua diferenciação em
relação ao outro.
© Thinkstock/iStock/Monkeybusinessimages
O primeiro outro importante é a mãe.
É importante, aqui, esclarecer que o conjunto de experiências,
ao longo da vida, permite a cada um “montar” o seu próprio
modelo do que pretende ser como homem ou mulher, como
profissional, como cidadão etc. Isso porque o que quero ser
como mulher, por exemplo, tem como referência várias
mulheres que foram importantes para mim, ao longo de minha
vida: é uma amálgama de características de minha mãe,
daquela professora tão especial, da heroína de um romance,
da mãe de uma amiga minha. Esse é um modelo com o qual
me identifico e procuro construir minha identidade.
Como continuo vivendo e tendo experiências com novas
pessoas, posso alterar esse modelo e, nesse momento,
podemos perguntar: alguém é sempre igual a si mesmo? Há a
possibilidade de mudança de identidade? Se a resposta for
afirmativa, estará ocorrendo perda de identidade?
Essas perguntas são importantes porque introduzem a ideia
fundamental de que a identidade está em permanente
transformação. Assim, chegamos a um ponto bastante
interessante: Como é possível alguém mudar e continuar
sendo igual a si mesmo? E é exatamenteisso o que acontece.
Repare em quantas mudanças ocorreram: Você deixou de ser
filho único; não é mais o primeiro aluno da classe; você
descobriu que pensa diferente de seus pais em muitas coisas
e se deu conta de que seu corpo mudou muito – você, que
sempre sonhou em ser aeromoça ou bailarina, agora está
pensando seriamente em se profissionalizar na área de
enfermagem... e quantas mudanças ainda ocorrerão!
Então, ao longo de todas essas mudanças, alguns elementos
constitutivos da identidade foram “abandonados”, embora
ainda constituam a formação do sujeito porque fizeram parte
da sua história pessoal; outros foram se agregando, em um
processo contínuo enquanto estamos vivos e, assim, nunca
duvidamos de quem somos.
A IDENTIDADE COMO
METAMORFOSE
Para compreender esse processo do ponto de vista teórico,
Antônio da Costa Ciampa2 desenvolveu uma concepção de
identidade, enfatizando sua dimensão de processo. Para esse
autor, a identidade tem o caráter de metamorfose, ou seja,
está em constante mudança. Entretanto, ela se apresenta – a
cada momento – como em uma fotografia, estática, não como
uma metamorfose, encobrindo sua dinâmica real de
permanente transformação. As transformações referem-se
tanto àquelas que são inexoráveis: a passagem da infância
para a adolescência e, posteriormente, para a idade adulta;
como àquelas que dependem das oportunidades sociais e do
acesso aos benefícios da sociedade: a possibilidade de
estudar, de cursar uma faculdade, de viajar e de ter acesso a
outras experiências culturais, por exemplo.
A identidade é algo
mutável, em permanente
transformação.
Para esclarecer melhor esse aspecto, o autor utiliza o
belíssimo poema Morte e vida severina, de João Cabral de
Melo Neto. Ao dar nome a alguém, torno esse alguém
determinado, substantivo. No poema, o retirante se apresenta
ao leitor dizendo assim:
O meu nome é Severino,não tenho outro de pia.Como há muitos
Severinos,que é santo de romaria,deram então de me chamar Severino
de Maria;como há muitos Severinos com mães chamadas Maria fiquei
sendo o da Maria do finado Zacarias [...]
A identidade tem o caráter
de metamorfose, está em
constante mudança.
Para não ser confundido com outros tantos Severinos, o
retirante procura definir, de uma forma substantiva, quem ele
é: um determinado Severino e, ao falar de sua identidade, ele
também está retratando aspectos culturais de uma realidade
social. A realidade social em que está inserido, as condições
de vida no sertão do nordeste brasileiro. Ele fala de como a
família se estrutura (a falta de sobrenome – não tem outro
nome de pia, isto é, de batismo), fala da religiosidade do
nordestino (o nome do santo de romaria, a quem se pede e se
homenageia dando seu nome aos filhos), da morte prematura
das pessoas nessa região (o Severino da Maria do finado
Zacarias).
Ao falar do contexto social, ele percebe que, cada vez mais, é
semelhante a tantos outros Severinos e que não tem como se
apresentar. A sua substantivação não é suficiente para definir
sua identidade. Ele só consegue expressar a sua
particularidade quando, no final desse trecho, nos diz:
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.3
Assim, ficamos sabendo exatamente quem é esse Severino,
não na sua definição, na sua substantivação, mas na sua
ação, na sua predicação.
© GOELDI, Oswaldo. Retirantes. [S.l.: s.n.], [19--]. 1 grav., xilograv., p&b, 18,5 x
15cm. Disponível em:
<http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon382965.jpg>. Acesso em:
21 jun. 2018.
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon382965.jpg
Retirantes, de Oswaldo Goeldi (1895-1961).
É a atividade que constrói
a identidade.
É a atividade que constrói a identidade. Trata-se da
predicação de uma atividade anterior, que presentifica o ser.
Entretanto, pelo fato de estarmos inseridos nas organizações,
a ação é fragmentada. Eu sou o que faço naquele momento e
não é possível repor o tempo todo, minhas outras facetas,
minha ação em outros grupos. Na escola, sou reconhecido
como um bom estudante ou um bom jogador de basquete; no
meu emprego, sou um bom técnico de informática; e, junto aos
amigos, sou um bom conselheiro. O bom conselheiro não
inclui o profissional da informática, embora ambos se refiram a
mim.
A ideia de que a identidade é metamorfose nos permite
pensá-la como em permanente movimento e, também, como
um processo que engloba tudo o que não somos mais, o que
ainda não somos e o que somos sem estar sendo em
determinado momento. Ciampa amplia de tal forma nossa
noção de eu que nos possibilita que se inclua um conjunto de
aspectos à nossa constituição sem estar, naquele momento da
vida, sendo expresso. Tudo o que fomos e o que queremos ser
(projetamos para nosso futuro) fazem parte do eu; as
possibilidades para o humano, criadas historicamente no
desenvolvimento da humanidade, estarão ali como
potencialidades daquele eu. Um eu que somos sem estar
sendo; um eu que somos sem ainda ter sido ou já tendo
ultrapassado aquela possibilidade.
Assim, a criança que fomos (levada ou tímida, alegre, afetiva,
malcriada, emburrada) mantém-se como parte de nossa
identidade. Relações que vivemos e rompemos, projeto de
profissão que fizemos, negócios ou atividades que já tivemos e
abandonamos; enfim, Ciampa está nos avisando que a
identidade é um processo em movimento e que guarda ou
contém todos os nossos momentos e personagens.
A personagem, no entanto, pode “congelar” a atividade e nós
perdermos a dinâmica de nossa própria transformação. Isto
pode acontecer quando a personagem é tornada fetiche, ou
seja, admirada em exagero ou cultuada. Nós podemos ocupar
um lugar social e realizarmos uma atividade que,
extremamente valorizada pelo coletivo social onde nos
inserimos, pode nos levar a uma condição de querermos
permanecer com aquela identidade. Passamos, então, a fazer
o esforço cotidiano de repor a identidade que uma vez foi
posta; repetirmos nosso ser, ou como diz Ciampa, repomos a
mesmice de nós. A identidade, então, que é metamorfose,
apresenta-se como não metamorfose. Note que utilizamos o
verbo no presente “a identidade que é metamorfose”, isto
porque ela nunca deixa de ser, apenas, nestes casos de
reposição da mesmice, sua aparência é de não metamorfose.
O culto a determinada forma de identificar-se foi denominada,
por Ciampa, como identidade-mito (personagem congelada,
independente da ação). A personagem subsiste mesmo que já
não exista mais a atividade, como é o caso de Severino, que,
chegando à cidade, é visto como lavrador – um lavrador que já
não lavra, que agora lava carros, trabalha como peão na
construção civil ou recolhe sucata nas ruas. Nós, professores,
muitas vezes somos reconhecidos anos depois por um ex-
aluno que nos diz: “Oi, professor(a)!”, podendo isto acontecer
mesmo quando já deixamos de professorar.
© Joaquim S. Lavado Tejón (QUINO)/Fotoarena
 
IDENTIDADE E CRISE
É importante que tenha ficado claro que a identidade é um
processo de construção permanente, em contínua
transformação – desde antes de nascer (vai ser o filho caçula)
até a morte – e, nesse processo de mudança, o novo – quem
sou, agora – se amalgama com o antigo, quem fui ontem,
	Capítulo 13 - Identidade
	Identidade: decifra-me ou te devoro!
	A identidade como metamorfose
	Identidade e crise

Mais conteúdos dessa disciplina