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CAPÍTULO 13 Identidade © Thinkstock/iStock/GregC Tatuagens, piercings e outros adereços revelam a identificação com um grupo. Vemos uma pessoa desconhecida em uma festa, no pátio da escola ou no ponto de ônibus. Não sabemos nada a respeito dela. É um enigma a ser desvendado. Será? Nem tanto... A partir do momento em que a olhamos, já começamos a conhecê-la: podemos discriminar o gênero, a faixa etária (criança, jovem, adulto), a etnia. E, se prestamos mais atenção, podemos perceber alguns detalhes que fornecem outros indicadores sobre esse desconhecido: como o modo de se vestir e os piercings que o situam em determinado grupo. Aí, nos aproximamos da pessoa e vem a famosa pergunta: “Qual é o seu nome?”. Depois dessa, podemos fazer muitas outras... Mais ou menos como aquelas da ficha para procurar emprego, do formulário para fazer crediário ou das entrevistas iniciais com o psicólogo – onde mora e estuda, a idade, a religião, se trabalha ou não, do que gosta e do que não gosta de fazer, enfim, um roteiro que pode ser interminável e se referir ao presente, ao passado e ao futuro desse desconhecido que começa a deixar de sê-lo. Conhecer o outro é querer saber quem ele é. Quem é você? Quem sou eu? Perguntas não tão simples de serem respondidas e que acompanham a história da humanidade. IDENTIDADE: DECIFRA-ME OU TE DEVORO! Na Grécia Antiga, na cidade de Delfos, encontrava-se o oráculo do deus Apolo, em cujo frontispício havia o lema: “Conhece-te a ti mesmo”. Na famosa tragédia de Sófocles, Édipo, em dúvida quanto à sua origem, procura esse oráculo para saber quem ele é – sua identidade – e a resposta é aterradora: Édipo é aquele que dormiria com a própria mãe e mataria o próprio pai. Édipo, não sabendo que fora adotado pelos reis de Corinto, nunca mais volta para sua cidade na tentativa de fugir da maldição e vai parar exatamente em Tebas, onde moram seus verdadeiros pais, que ele desconhece. Já na chegada a Tebas, ele enfrenta um homem arrogante que o desafia sem saber que era o rei de Tebas, Laio, seu pai, que viajava disfarçado. Na luta, Édipo acaba matando o homem. Ao entrar em Tebas, depara-se com a esfinge, monstro que aterrorizava a cidade e devorava os visitantes. Decifra o famoso enigma – Decifra-me e te direi quem és – e como reconhecimento é coroado rei de Tebas e recebe a viúva Jocasta, mulher de Laio, e sua mãe, em casamento. © Album/Prisma/Album/Fotoarena Detalhe de arte etrusca, urna representando a luta entre Eteocles e Polynices, filhos de Édipo, para o trono de Tebas. 4o e 3o séculos D.C. Museu de Arqueologia de Barcelona, Catalunha, Espanha. Ao procurar fugir de seu destino, encontra a si mesmo. Muitos séculos depois, Shakespeare escreveria a peça Hamlet, cujo mote se vulgarizou: “Ser ou não ser... eis a questão”. Agora não é mais o destino que define quem somos, mas buscamos em nossa própria consciência a resposta para esse mistério. “Quem anda com quatro pernas pela manhã, com duas à tarde e três ao anoitecer?” Édipo responde: “O homem, que quando nasce engatinha, quando é adulto anda com seus dois pés e quando envelhece usa sua bengala”. A esfinge é destruída caindo em um precipício, libertando Tebas de sua maldição. Em 1900, Machado de Assis escreve o romance Dom Casmurro, que constrói um dos principais enigmas da literatura brasileira para a compreensão de sua personagem principal, Capitu. Ainda hoje se discute se ela traiu ou não seu marido, Bentinho, e essa informação é importante para definir o perfil de Capitu e sua real identidade. Portanto, saber quem é o outro é uma questão aparentemente simples e, ao mesmo tempo, constitui-se em desafio a cada novo encontro. Isso ocorre porque as pessoas mudam, embora continuem elas mesmas. Para compreender esse processo de produção do sujeito, que lhe permite apresentar-se ao mundo e reconhecer-se como alguém único, a Psicologia construiu o conceito de identidade. Esse conceito, como muitos outros em Psicologia, tem várias compreensões e utiliza contribuições de outras áreas do conhecimento. Vamos elencar as principais. Carlos R. Brandão,1 antropólogo e educador, diz que a identidade explica o sentimento pessoal e a consciência da posse de um eu, de uma realidade individual que torna cada um de nós um sujeito único diante de outros eus; e, ao mesmo tempo, o reconhecimento individual dessa exclusividade é a consciência de minha continuidade em mim mesmo. A referência do autor ao eu em oposição aos outros eus leva-nos a considerar algo bastante importante: é em relação ao outro – diferente de nós – que nos constituímos e nos reconhecemos como sujeito único. Esse aspecto será abordado quando falarmos de identificação e identidade: dois conceitos que, no senso comum, muitas vezes são usados como sinônimos, mas se referem a processos bastante diferentes. Segundo o psicanalista André Green, o conceito de identidade agrupa várias ideias, como a noção de permanência, de manutenção de pontos de referência que não mudam com o passar do tempo, como o nome de uma pessoa, suas relações de parentesco, sua nacionalidade. São aspectos que, geralmente, os indivíduos carregam a vida toda. Assim, o termo identidade aplica-se à delimitação que permite a distinção de uma unidade e a relação com os outros, propiciando o reconhecimento de si. É em relação ao outro – diferente de nós – que nos constituímos e nos reconhecemos como sujeito único. Tais propriedades – constância, unidade e reconhecimento – descrevem um determinado momento da identidade de alguém, mas não são capazes de acompanhar o processo de sua produção e transformação. Várias correntes da Psicologia (e a Psicanálise, inclusive) nos ensinam que o reconhecimento do eu se dá no momento em que aprendemos a nos diferenciar do outro. Eu passo a ser alguém quando descubro o outro e a falta de tal reconhecimento não me permitiria saber quem sou, pois não teria elementos de comparação que permitissem ao meu eu destacar-se dos outros eus. Dessa forma, podemos dizer que a identidade depende da sua diferenciação em relação ao outro. O primeiro “outro” importante é a mãe (sempre ela!), de quem o bebê vai se diferenciando, aprendendo que não é uma extensão dela. Ao mesmo tempo, é o olhar da mãe sobre o bebê que vai dando a ele o seu valor como pessoa. Por isso, as primeiras relações são tão importantes na vida de todos, na constituição da subjetividade. Nesse processo de diferenciação, a criança começa a escolher outras pessoas como objeto de identificação. São pessoas significativas, que funcionam como modelo em relação ao qual o sujeito vai se apropriando de algumas características, por meio do processo de identificação, e formando sua identidade: o que sou e quero ser, sendo que o que quero ser (o futuro!) já constitui o que sou (o presente). A identidade depende da sua diferenciação em relação ao outro. © Thinkstock/iStock/Monkeybusinessimages O primeiro outro importante é a mãe. É importante, aqui, esclarecer que o conjunto de experiências, ao longo da vida, permite a cada um “montar” o seu próprio modelo do que pretende ser como homem ou mulher, como profissional, como cidadão etc. Isso porque o que quero ser como mulher, por exemplo, tem como referência várias mulheres que foram importantes para mim, ao longo de minha vida: é uma amálgama de características de minha mãe, daquela professora tão especial, da heroína de um romance, da mãe de uma amiga minha. Esse é um modelo com o qual me identifico e procuro construir minha identidade. Como continuo vivendo e tendo experiências com novas pessoas, posso alterar esse modelo e, nesse momento, podemos perguntar: alguém é sempre igual a si mesmo? Há a possibilidade de mudança de identidade? Se a resposta for afirmativa, estará ocorrendo perda de identidade? Essas perguntas são importantes porque introduzem a ideia fundamental de que a identidade está em permanente transformação. Assim, chegamos a um ponto bastante interessante: Como é possível alguém mudar e continuar sendo igual a si mesmo? E é exatamenteisso o que acontece. Repare em quantas mudanças ocorreram: Você deixou de ser filho único; não é mais o primeiro aluno da classe; você descobriu que pensa diferente de seus pais em muitas coisas e se deu conta de que seu corpo mudou muito – você, que sempre sonhou em ser aeromoça ou bailarina, agora está pensando seriamente em se profissionalizar na área de enfermagem... e quantas mudanças ainda ocorrerão! Então, ao longo de todas essas mudanças, alguns elementos constitutivos da identidade foram “abandonados”, embora ainda constituam a formação do sujeito porque fizeram parte da sua história pessoal; outros foram se agregando, em um processo contínuo enquanto estamos vivos e, assim, nunca duvidamos de quem somos. A IDENTIDADE COMO METAMORFOSE Para compreender esse processo do ponto de vista teórico, Antônio da Costa Ciampa2 desenvolveu uma concepção de identidade, enfatizando sua dimensão de processo. Para esse autor, a identidade tem o caráter de metamorfose, ou seja, está em constante mudança. Entretanto, ela se apresenta – a cada momento – como em uma fotografia, estática, não como uma metamorfose, encobrindo sua dinâmica real de permanente transformação. As transformações referem-se tanto àquelas que são inexoráveis: a passagem da infância para a adolescência e, posteriormente, para a idade adulta; como àquelas que dependem das oportunidades sociais e do acesso aos benefícios da sociedade: a possibilidade de estudar, de cursar uma faculdade, de viajar e de ter acesso a outras experiências culturais, por exemplo. A identidade é algo mutável, em permanente transformação. Para esclarecer melhor esse aspecto, o autor utiliza o belíssimo poema Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. Ao dar nome a alguém, torno esse alguém determinado, substantivo. No poema, o retirante se apresenta ao leitor dizendo assim: O meu nome é Severino,não tenho outro de pia.Como há muitos Severinos,que é santo de romaria,deram então de me chamar Severino de Maria;como há muitos Severinos com mães chamadas Maria fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias [...] A identidade tem o caráter de metamorfose, está em constante mudança. Para não ser confundido com outros tantos Severinos, o retirante procura definir, de uma forma substantiva, quem ele é: um determinado Severino e, ao falar de sua identidade, ele também está retratando aspectos culturais de uma realidade social. A realidade social em que está inserido, as condições de vida no sertão do nordeste brasileiro. Ele fala de como a família se estrutura (a falta de sobrenome – não tem outro nome de pia, isto é, de batismo), fala da religiosidade do nordestino (o nome do santo de romaria, a quem se pede e se homenageia dando seu nome aos filhos), da morte prematura das pessoas nessa região (o Severino da Maria do finado Zacarias). Ao falar do contexto social, ele percebe que, cada vez mais, é semelhante a tantos outros Severinos e que não tem como se apresentar. A sua substantivação não é suficiente para definir sua identidade. Ele só consegue expressar a sua particularidade quando, no final desse trecho, nos diz: Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra.3 Assim, ficamos sabendo exatamente quem é esse Severino, não na sua definição, na sua substantivação, mas na sua ação, na sua predicação. © GOELDI, Oswaldo. Retirantes. [S.l.: s.n.], [19--]. 1 grav., xilograv., p&b, 18,5 x 15cm. Disponível em: <http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon382965.jpg>. Acesso em: 21 jun. 2018. http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon382965.jpg Retirantes, de Oswaldo Goeldi (1895-1961). É a atividade que constrói a identidade. É a atividade que constrói a identidade. Trata-se da predicação de uma atividade anterior, que presentifica o ser. Entretanto, pelo fato de estarmos inseridos nas organizações, a ação é fragmentada. Eu sou o que faço naquele momento e não é possível repor o tempo todo, minhas outras facetas, minha ação em outros grupos. Na escola, sou reconhecido como um bom estudante ou um bom jogador de basquete; no meu emprego, sou um bom técnico de informática; e, junto aos amigos, sou um bom conselheiro. O bom conselheiro não inclui o profissional da informática, embora ambos se refiram a mim. A ideia de que a identidade é metamorfose nos permite pensá-la como em permanente movimento e, também, como um processo que engloba tudo o que não somos mais, o que ainda não somos e o que somos sem estar sendo em determinado momento. Ciampa amplia de tal forma nossa noção de eu que nos possibilita que se inclua um conjunto de aspectos à nossa constituição sem estar, naquele momento da vida, sendo expresso. Tudo o que fomos e o que queremos ser (projetamos para nosso futuro) fazem parte do eu; as possibilidades para o humano, criadas historicamente no desenvolvimento da humanidade, estarão ali como potencialidades daquele eu. Um eu que somos sem estar sendo; um eu que somos sem ainda ter sido ou já tendo ultrapassado aquela possibilidade. Assim, a criança que fomos (levada ou tímida, alegre, afetiva, malcriada, emburrada) mantém-se como parte de nossa identidade. Relações que vivemos e rompemos, projeto de profissão que fizemos, negócios ou atividades que já tivemos e abandonamos; enfim, Ciampa está nos avisando que a identidade é um processo em movimento e que guarda ou contém todos os nossos momentos e personagens. A personagem, no entanto, pode “congelar” a atividade e nós perdermos a dinâmica de nossa própria transformação. Isto pode acontecer quando a personagem é tornada fetiche, ou seja, admirada em exagero ou cultuada. Nós podemos ocupar um lugar social e realizarmos uma atividade que, extremamente valorizada pelo coletivo social onde nos inserimos, pode nos levar a uma condição de querermos permanecer com aquela identidade. Passamos, então, a fazer o esforço cotidiano de repor a identidade que uma vez foi posta; repetirmos nosso ser, ou como diz Ciampa, repomos a mesmice de nós. A identidade, então, que é metamorfose, apresenta-se como não metamorfose. Note que utilizamos o verbo no presente “a identidade que é metamorfose”, isto porque ela nunca deixa de ser, apenas, nestes casos de reposição da mesmice, sua aparência é de não metamorfose. O culto a determinada forma de identificar-se foi denominada, por Ciampa, como identidade-mito (personagem congelada, independente da ação). A personagem subsiste mesmo que já não exista mais a atividade, como é o caso de Severino, que, chegando à cidade, é visto como lavrador – um lavrador que já não lavra, que agora lava carros, trabalha como peão na construção civil ou recolhe sucata nas ruas. Nós, professores, muitas vezes somos reconhecidos anos depois por um ex- aluno que nos diz: “Oi, professor(a)!”, podendo isto acontecer mesmo quando já deixamos de professorar. © Joaquim S. Lavado Tejón (QUINO)/Fotoarena IDENTIDADE E CRISE É importante que tenha ficado claro que a identidade é um processo de construção permanente, em contínua transformação – desde antes de nascer (vai ser o filho caçula) até a morte – e, nesse processo de mudança, o novo – quem sou, agora – se amalgama com o antigo, quem fui ontem, Capítulo 13 - Identidade Identidade: decifra-me ou te devoro! A identidade como metamorfose Identidade e crise