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PARA QUE SERVE A ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO Autores: José Marçal Jackson Filho Eugênio Paceli Hatem Diniz Mauro Marques Muller Disponível em: https://www.escolavirtual.gov.br/ Obra referenciada: A ergonomia como instrumento de segurança e melhoria das condições de trabalho Autores: Francisco de Paula Antunes Lima Fonte: LIMA, F. P. A. A Ergonomia como instrumento de segurança e melhoria das condições de trabalho. In: I Simpósio Brasileiro sobre ergonomia e segurança do trabalho florestal e agrícola, 2000, Belo Horizonte. Ergoflor. Viçosa: Universidade Federal de Viçosa, 2000. p. 1-11. 1 A ERGONOMIA COMO INSTRUMENTO DE SEGURANÇA E MELHORIA DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO Francisco de Paula Antunes Lima1 1. Introdução Este texto consiste em uma introdução aos princípios de análise ergonômica do trabalho, se limitando a expor os fundamentos de uma abordagem específica, que se convencionou denominar ergonomia francofônica (ou francesa)2. O ponto forte desta abordagem é a análise minuciosa do comportamento dos homens em situações de trabalho, que permite identificar e eliminar as causas mediatas de acidentes, de doenças e de sobrecarga de trabalho que gera situações penosas. Normalmente, vários problemas ainda permanecem após terem sido utilizadas outras metodologias convencionais, que apenas identificam os problemas mais visíveis e imediatos. Assim, a ergonomia francesa não dispensa os métodos usuais de análise como árvore de causas, check lists, fatores humanos, higiene industrial, segurança do trabalho etc., mas fornece meios para ampliar os limites atuais da compreensão e da prevenção de acidentes e de doenças ocupacionais. 2. Questões preliminares Antes de discutirmos os princípios da AET, vejamos, inicialmente, o que é a ergonomia e o que ela pode fazer para ajudar a entender e a prevenir problemas de saúde ocupacional. Duas questões importantes devem ser aqui lembradas: (1) o debate sobre as “duas ergonomias”; e (2) como conciliar saúde e produção. 2.1. O que é ergonomia Tornou-se usual dizer que há duas ergonomias, ou que existem duas abordagens diferentes na ergonomia: a norte-americana e a francesa. Em verdade, a questão posta desta forma está mal colocada. Não há porque coexistirem duas formas de entender uma mesma realidade - no caso em questão o trabalho, pois “ergonomia” quer dizer estudo do trabalho -, a não ser enquanto Publicado nos anais do I Simpósio Brasileiro sobre Ergonomia e Segurança do Trabalho Florestal e Agrícola (ERGOFLOR), Belo Horizonte/Viçosa: UFV/FUNDACENTRO, 2000, pp. 1-11. Nesta versão foram corrigidos erros de digitação. 1 Engenheiro Mecânico-Produção e Ergonomista. Professor do Departamento de Engenharia de Produção da UFMG. Coordenador do Laboratório de Ergonomia. 2 Neste texto abstive-me de citar todos os autores que elaboraram e sistematizaram a metodologia de Análise Ergonômica do Trabalho – AET - (no final acrescentei uma bibliografia básica). Tentei redigi-lo da forma a torná-lo auto-explicativo, sem recorrer a conceitos que exijam conhecimentos especializados prévios. 2 abordagens ou explicações mais ou menos superficiais, mais ou menos parciais, que devem ser, mais cedo ou mais tarde, aglutinadas num todo mais global e coerente. O que de fato está em jogo são práticas mais ou menos profundas da ergonomia e não ergonomias diferentes. Assim, a ergonomia tradicional pode ajudar a identificar condições inadequadas de trabalho, mas lhe escapam certos detalhes que apenas a análise ergonômica do trabalho (AET) permite evidenciar. Para entender melhor esta questão, vejamos um exemplo clássico: o problema da postura e a recomendação de se usar cadeiras ergonômicas para postos de trabalho sentado. Durante muito tempo, através de análises e testes em laboratório, a ergonomia norte- americana dedicou-se a definir as características ergonômicas de uma cadeira, compatíveis com qualquer posto de trabalho sentado, conforme resumido no quadro 1. Componente Características Exemplos Pés estabilidade movimentação resistência Cadeiras com rodízios, de preferência com cinco apoios (rodízios). Assento altura (menor que altura das pernas) profundidade (entre 38 e 43 centímetros) resistência (relativamente duro) largura (mais larga do que o corpo) inclinação (entre 3 e 5 graus) material que facilita transpiração e confortável ao contato (baixa condutividade térmica) bordas recurvadas para baixo, evitando quinas vivas que possam causar compressão da parte inferior da coxa Assim se evita a compressão das coxas e nádegas, permitindo movimentos laterais do corpo e manter os pés apoiados no chão. Na prática, esses requisitos só são satisfeitos com cadeiras de altura regulável, estofadas com espuma ou outro material de alta densidade Apoio altura mediana (apoio da região lombar), permitindo movimentos da coluna e dos braços ligeiramente côncava, para acomodar as costas inclinação em torno de 5 graus rígido, o suficiente para suportar o peso do tronco ser vazado, na parte inferior, para acomodar as nádegas Encosto regulável em altura e reclinável, com dispositivo articulado ou dobrável QUADRO 1: Características de uma “cadeira ergonômica” Todavia, podemos mostrar que esta relação de características de conforto de uma cadeira não esgota tudo o que deve ter uma cadeira ergonômica, sobretudo porque a condição de ser ou não ergonômica não é algo inerente apenas ao mobiliário, no caso a cadeira, mas sim dependente da relação que se estabelece entre o objeto e o corpo do trabalhador, numa determinada situação de trabalho e atividade. Uma cadeira, por exemplo, não é confortável ou desconfortável em si mesma, mas depende do tempo e das condições em que é utilizada. Assim, uma cadeira confortável para se realizar determinada atividade, digamos costurar, pode não ser apropriada em outra situação, como, por exemplo, dirigir um trator ou assistir um filme. Por isso, por mais itens que sejam listados como sendo propriedades de uma cadeira ergonômica, esta caracterização será sempre insuficiente, pois o conforto depende da situação e da atividade em que a cadeira é utilizada. 3 A cadeira, como qualquer outro instrumento de trabalho, serve de mediação entre o trabalhador e a realização de uma tarefa, que exige estabelecer compromissos entre objetivos conflitantes. Caso os instrumentos não se adeqüem às situações que fazem parte da atividade necessária para efetivar a tarefa no tempo certo, com a qualidade e a precisão exigidas, na quantidade estipulada pela empresa etc., eles deixam de ser ergonômicos. Para se convencer disto basta lembrar como o assento de um automóvel de passeio pode ser mais ou menos confortável, caso estejamos fazendo uma longa viagem, dirigindo em trânsito pesado ou fazendo um curto trajeto entre a casa e o local de trabalho. O banco é o mesmo, mas mudam as condições de sua utilização. Esta afirmação de que não há características ergonômicas intrínsecas e exclusivas aos objetos e instrumentos de trabalho é certamente contra-intuitiva e pode mesmo parecer absurda para alguns. Vejamos outros exemplos também relacionados à cadeira. Num trabalho que exige um controle visual importante durante a realização de certa tarefa, os trabalhadores preferem cadeiras cujo encosto não seja reclinável, pois assim conseguem manter uma certa rigidez postural sem sobrecarregar os músculos das costas, que dão sustentação à cabeça e aos membros superiores. O que parece ser, à primeira vista, o símbolo mesmo de conforto (lembre-se da cadeira do chefe e do presidente da empresa), torna-se um tormento quando não se pode mudar a postura. Em outra situação, quando é necessário fazer movimentos laterais (por exemplo, para pegar documentos ou atender o telefone) é importante que o assento não escorregue muito, pois senão ocorpo tende a se desequilibrar. Neste caso aparece uma outra característica importante: o coeficiente de atrito do material do assento e dos pés (ou dos rodízios com o piso). Este exemplo mostra que definir o que é uma cadeira ergonômica é, de fato, uma questão bem mais complexa do que escolher um móvel num catálogo do fabricante, e requer uma cuidadosa análise da atividade e da situação em que este objeto será utilizado. Um outro exemplo do cotidiano pode nos convencer. O assento do metrô de Belo Horizonte é considerado um bom projeto ergonômico. As exigências principais (e contraditórias) que devem ser atendidas pelo tipo de assento é dar estabilidade ao corpo nas curvas (o que requer um maior coeficiente de atrito) e facilitar a limpeza (o que requer um material liso, portanto com baixo coeficiente de atrito). A solução adotada foi usar material liso, sem a rugosidade costumeira que dificultava a limpeza, mas dar ao assento uma forma côncava, oferecendo apoio lateral para o corpo e amenizando o efeito das forças centrífugas quando o trem faz uma curva. 4 Em suma, a questão das “duas” ergonomias não tem sentido. Na verdade existe apenas um único problema: trata-se de entender o que é o trabalho e como melhorar a eficiência da produção e evitar problemas de saúde, o que pode ser feito com maior ou menor profundidade, dependendo do tipo de problema que se quer resolver ou de sobrecarga de trabalho que se quer identificar. Isto fica evidente quando se procura entender o que é a postura. 2.2. A postura como suporte à atividade Na abordagem tradicional da ergonomia dos fatores humanos, atribui-se propriedades ergonômicas aos objetos e instrumentos apenas porque se descaracteriza a atividade de trabalho, reduzindo-a aos gestos e movimentos do corpo humano. Desta forma teria sentido resolver o problema através de modelos físicos, na medida em que o trabalhador aí comparece apenas na condição de objeto. É por isso que se tenta educar os trabalhadores para assumirem “posturas corretas” ou condicioná-los fisicamente para suportarem certas cargas de trabalho, tal como se faz no esporte. Entretanto, também os atletas, bem assessorados pelos melhores especialistas, sofrem lesões. Numa primeira aproximação podemos definir a postura como a "organização dos segmentos corporais no espaço"3. É evidente então que a posição do corpo seja um compromisso entre a constituição física e biológica (e mesmo psicológica) do corpo humano de um lado e, de outro, o ambiente físico, mediado pelo tipo de atividade que se exerce, donde a importância da “atitude” (ou atividade finalizada) da postura. É através desta mediação pela atividade de trabalho que a AET pretende abordar e esclarecer os problemas posturais. Um aspecto que passa desapercebido à ergonomia tradicional é que a postura é, de fato, uma mediação da atividade, estando sujeita indiretamente às mesmas exigências de tempo, qualidade e quantidade. Em situações de trabalho, a postura não é um fim em si mesmo, como faz supor a prática de “educação postural”. Durante a realização de um trabalho, as exigências da tarefa e a atividade em curso tendem a prevalecer sobre a “consciência corporal”. De certa forma, estar envolvido com um trabalho que exige atenção ou pressa requer que nos esqueçamos do corpo próprio, fixando a consciência no próprio trabalho, seus instrumentos e 3 "A atividade postural se expressa na imobilização de partes do esqueleto em posições determinadas, solidárias uma às outras e que conferem ao corpo uma atitude de conjunto. Essa atitude indica o modo pelo qual o organismo enfrenta os estímulos do mundo exterior, e se prepara para reagir. Seja no início, no decorrer ou no fim de um movimento dirigido no espaço, a atitude constitui um aspecto fundamental da atividade motriz.” (Paillard, apud Laville, 1979, p.49). 5 objetos. O corpo e a postura se tornam meios de uma atividade finalizada, que entra em conflito e se sobrepõe à autoconsciência ou mesmo às percepções do corpo próprio. Se o trabalhador não é capaz de reconciliar, por si próprio, as exigências da tarefa com um uso econômico e confortável do corpo, esta poderia ser definida pela ergonomia ou pela fisiologia do trabalho? É um sonho antigo da fisiologia (de pelo menos dois séculos) definir o que seria o uso ótimo das capacidades do corpo humano, assim como a engenharia define o uso ótimo de uma estrutura ou de um motor. Hoje, as técnicas são certamente bem sofisticadas que aquelas dos pioneiros (um deles foi Lavoisier, que relacionou a carga de trabalho com o consumo de oxigênio), mas os limites continuam insuperados. A fisiologia humana, por si só, é tão complexa que nenhuma medida isolada pode ser tomada como síntese do desgaste do corpo ao realizar uma tarefa. Mesmo a conjugação de variáveis (como esforço e postura) está longe de explicar todas as formas de desgaste, como as lesões por esforços repetitivos ou lombalgias. O sistema orgânico é tão complexo que, no estágio atual de nossos conhecimentos (e talvez em definitivo), somente podemos favorecer a auto-regulação, modificando as condições que perturbam o compromisso entre postura e exigências da tarefa. Isto implica tanto alterar as condições físicas (mobiliário, equipamento, materiais...) quanto organizacionais e temporais (jornada, pausas, pressões por produção...)4. Nesse sentido, a “melhor postura” é aquela que se pode mudar. Os instrumentos de trabalho e a organização das atividades devem favorecer esta variação postural e dar condições para a auto-regulação. A postura depende de uma orientação cognitiva de um sujeito em ação, assim o que determina a atividade, as exigências da tarefa e suas condições é que devem ser mudadas, possibilitando que o trabalhador adote posturas confortáveis na realização do trabalho. 4 "A postura adotada num determinado momento do trabalho é um compromisso complexo. Ela deve, ao mesmo tempo, permitir a manutenção do equilíbrio apesar dos efeitos da gravitação, suportar a tomada de informações (visão, tato...) e a atuação no espaço (mãos sobre um controle, pés nos pedais etc.); tudo isto em função de uma ação em realização, e procurando respeitar as possíveis limitações articulares de modo a não provocar dor. Mesmo neste caso, os músculos são solicitados de maneira estática, a circulação evacua mal os resíduos que eles produzem, resultando rapidamente em dores musculares. Uma postura ressentida como confortável durante alguns minutos acabará por se revelar penosa se ela for impossível de ser modificada. Um estudante sentado à sua mesa de trabalho modifica constantemente sua postura, a inclinação do seu tronco, a posição de suas pernas ou dos braços. Ele alterna, assim, os músculos que são contraídos e fatigados. "Em vários postos de trabalho, quando as exigências relacionadas à tarefa são satisfeitas, uma pessoa não tem como escolher sua postura: uma vez que o assento, a direção do olhar, a posição das mãos e dos joelhos são fixados, não resta muitos graus de liberdade. Uma intervenção cuja finalidade seria de ensinar aos trabalhadores a "adotar uma boa postura" teria poucas chances de sucesso. Para limitar os efeitos nocivos das posturas constatadas, se trata, antes de tudo, de diminuir a quantidade de pontos fixos para aumentar a possibilidade de alternância de posturas". (Guérin et al., 1991, pp. 84-5) 6 2.3. A contradição entre saúde e produção Outra questão igualmente fundamental diz respeito à possibilidade efetiva de conciliar eficiência da produção com a saúde e conforto dos trabalhadores, isto é, se saúde e produção são sempre compatíveis. Aqui também os ergonomistas encontram-se divididos, alguns sustentam que uma boa análise ergonômica sempre consegue conciliar eficiência e saúde, outros afirmam que isto depende de negociações sociais e que não há solução técnica que naturalmenteleve à conciliação de saúde e produção. Na prática, sempre que há uma contradição manifesta entre produção e saúde, é esta última que acaba sofrendo. Assim, se fazem horas-extras para cumprir prazos de entrega; se acelera o ritmo de trabalho para recuperar atrasos, paradas inesperadas ou refugos; se dobra turno em caso de absenteísmo; se trabalha à noite para fazer com que as máquinas não parem. Mesmo quando o trabalho é facilitado por alguma melhoria do processo, tende-se a aumentar o ritmo e a meta de produção; e assim por diante. O que, em um primeiro momento, serviu para reduzir a carga de trabalho, é absorvido novamente pela produção em detrimento da saúde. Se é criado um novo dispositivo de segurança, mais confiável, o sistema passa a ser operado em limites mais extremos; se uma máquina tem seu uso facilitado, aumenta-se a produção. Não há, portanto, solução de natureza técnica para os problemas de saúde ocupacional, como pretendem alguns engenheiros, que retardam medidas organizacionais (aumento de efetivos ou redução das metas de produção, introdução de pausas etc.) apenas porque se espera a chegada de uma nova máquina ou alteração no processo de produção. Quanto a esta questão, os que defendem a qualquer custo o direito dos trabalhadores de terem sua saúde preservada, podem assumir uma posição contrária à predominância da produção de acordo com o seguinte princípio prático: tem-se verificado que produção e saúde são relativamente conflitantes, por isso, até prova em contrário, existem apenas duas alternativas, ou sacrifica-se a saúde ou a produção. O princípio ergonômico fundamental é que a produção deve se acomodar às características, limites e capacidades dos homens e não o contrário. E este princípio deve valer imediatamente para organizar o trabalho (ritmo, pausas, posto, metas, rodízio de tarefas, etc.) e não esperar até que se encontre uma solução técnica que minimize a carga de trabalho. Estas mudanças técnicas são evidentemente sempre bem- vindas, mas não há necessidade de se esperar por novos métodos de fabricação, pois o que define carga de trabalho é a divisão e a organização das tarefas e não as técnicas e processos 7 de fabricação, assim como não é a cadeira que possui propriedades ergonômicas, mas a atividade de quem se serve dela. Há uma exceção importante à afirmação de que produção e saúde são contraditórias: a reconciliação é possível quando se trata de processos de produção mecanizados ou automatizados. Quando o processo de trabalho ainda é manual, como na montagem, o método de fabricação é idêntico à divisão de tarefas e à sua organização (ciclo de trabalho, ritmo, pausa etc.). Em conseqüência, definir o método de trabalho é definir diretamente o que será a carga de trabalho. Mas isto também quer dizer que o método de trabalho manual deixa de ser uma simples questão técnica, sob responsabilidade exclusiva dos engenheiros de tempos e métodos: dividir tarefas e organizar o trabalho é essencialmente uma questão social, que depende, portanto, de negociações entre trabalhadores e patrões. Os estudos de tempos e métodos não têm fundamento científico, quando pretende definir um ritmo de trabalho independentemente desta negociação social. Colocados esses problemas fundamentais, vejamos como fazer, na prática, para resolvê-los. Alguns métodos simples têm sido propostos na linha da ergonomia norte-americana (e também da engenharia de tempos e métodos), mas, devido à relativa complexidade dos problemas envolvidos, eles têm sido de pouca serventia. 3. Limites das análises baseadas em roteiros e check lists O mais usual dos instrumentos de análise de postos de trabalho são as listas de verificação (ou check lists). Estas listas tem uma série de vantagens: são de utilização fácil e bastante completas quanto aos itens considerados. Além de funcionarem como instrumentos de medida e de avaliação, servem de ajuda à memória, evitando que se esqueça algum item importante. Entretanto, o que constitui a sua principal vantagem é também a sua principal fraqueza. Quanto mais geral um instrumento, menos ele permite identificar problemas específicos do posto de trabalho e dos modos operatórios. Assim, uma lista extensa de fatores que podem causar lesões por esforços repetitivos ou acidentes permite ver apenas o que já é conhecido e comum a todos os postos de trabalho, mas não aquilo que é específico aos postos em questão. Para usar um exemplo do cotidiano, é mais ou menos como os interioranos que, para resolver seus problemas de visão, eram obrigados a escolher os óculos no conjunto exposto na banca do feirante. Certamente eles conseguiam enxergar melhor, mas não tão bem quanto poderiam se lhes tivessem oferecido óculos sob medida. Da mesma forma, quando já se aplicaram as 8 técnicas e os conhecimentos mais comuns da ergonomia, é necessário desenvolver técnicas de observação específicas e não recorrer a check lists padronizados. Mas por que os check lists não funcionam e apenas fornecem uma visão grosseira e deturpada das condições de trabalho? Em primeiro lugar, quem os utiliza corre o risco de só enxergar o que a lista permite ver, isto é que ela já contém. Dessa forma, deixa-se de lado tudo o que pode ser diferente do que já se conhece sobre o problema a ser analisado. Mais especificamente, o uso de check lists comporta outros vícios inerentes ao próprio instrumento. Além de incluir apenas o que já se sabe sobre um problema, os check lists pretendem servir de instrumentos de avaliação e medida do risco de um determinado posto de trabalho. Aqui, a deficiência advém precisamente da extensão exagerada dos itens considerados. Quando se inclui um item que não é pertinente àquele posto, tende-se a diminuir a probabilidade de a situação ser considerada de risco. Todos os fatores se eqüivalem. No caso das lesões por esforços repetitivos, por exemplo, a repetitividade passa a ser tão significativa quanto trabalhar com luvas ou manipular materiais congelados, ou estar sujeito à vibração. Não se analisa como esses fatores se associam e se relacionam num posto de trabalho e atividade específicos, mas apenas se estão presentes ou não numa situação de trabalho. O que se ganha em facilidade e amplitude, perde-se em acuidade e profundidade. O princípio subentendido do check list é que o parâmetro de comparação adotado passa a ser um posto de trabalho no qual estariam presentes todos os fatores desfavoráveis, na verdade um posto que não existe em lugar algum, quando de fato verifica-se que a presença de apenas um fator, dependendo da sua intensidade, pode desencadear as LER, e que há fatores que são preponderantes, notadamente o ritmo de trabalho e as posturas estáticas. Assim, mais importante do que reconhecer a presença de riscos, no que os check lists podem ser de alguma valia, é saber como um fator determinado afeta o corpo do trabalhador. Isto só é possível quando se entende como as pessoas trabalham, isto é, quando se compreende o que é a atividade de trabalho. 4. O objeto essencial da ergonomia: compreender a atividade A finalidade principal deste texto é predominantemente prática: mostrar como a uma análise ergonômica do trabalho é capaz de identificar fatores que causam as doenças ocupacionais e os acidentes do trabalho e como preveni-los. Antes de considerarmos os métodos e princípios de análise da atividade de trabalho, temos que justificar sua necessidade. Até agora vimos que 9 os métodos tradicionais são limitados quando se quer fazer uma análise minuciosa e que esta requer uma análise da atividade de trabalho. Mas o que é esta “atividade”? A resposta a esta questão mostrará porque não é suficiente utilizar check lists e o que deve ser observado numa situação, além dos fatores imediatamente visíveis. Para compreender a atividade de trabalho de alguém é necessário um longo tempode observação, utilizando técnicas compatíveis com a natureza do que é observado. A dificuldade maior é que a atividade não é algo estático que se pode observar e qualificar com um simples sim ou não (como nos check lists), ela se desenrola no tempo, é dinâmica e variável, e por isso só pode ser compreendida se acompanhada de perto e enquanto ela se desenrola. Há várias características da atividade que tornam necessário proceder a uma análise demorada e minuciosa antes de se fazer um diagnóstico. Um aspecto fundamental é que a atividade é algo diferente de sua descrição. Realizar um trabalho é bem mais do que seguir um conjunto de regras ou procedimentos operatórios, por mais precisa e detalhada que possa ser a descrição da tarefa (como é feito nos procedimentos operatórios da ISO 9000). Há sempre algo que não pode ser colocado em forma de regras explícitas e claras, o que exige que o trabalhador invente alguma coisa para conseguir realizar seu trabalho. Isto é o que, em ergonomia, se denomina de diferença entre trabalho prescrito e trabalho real. Esta diferença pode ferir o senso comum dos engenheiros, que sempre acreditam que a obediência a um padrão qualquer é a melhor forma de se conseguir qualidade e eficiência, mas o que se verifica em todas as situações de trabalho é que apenas obedecer ao padrão não dá uma produção satisfatória. Aliás, quando os trabalhadores querem pressionar os patrões durante uma negociação costumam recorrer à operação padrão, limitando-se a fazer estritamente o que é previsto nos procedimentos, o que sempre gera ineficiências e atrasos ou interrupção quase total da produção. Há, portanto, algo na maneira como os trabalhadores realizam suas atividades que está para além do que se conhece formalmente e está descrito nos procedimentos operatórios. 4.1. A atividade de trabalho é contextualizada Uma das coisas que ajuda a explicar esta diferença entre o trabalho prescrito e o trabalho real é que a atividade se realiza sempre em contextos específicos. Apesar da tentativa de se controlar tudo que faz parte da produção, sempre ocorrem incidentes e variações que mudam 10 a situação de trabalho: a matéria-prima não vem no tempo ou qualidade desejada; as ferramentas se desgastam, as máquinas se desregulam ou quebram; colegas faltam ou entram novatos na equipe; os modelos de produtos se modificam; etc. Mesmo se todos esses parâmetros fossem controlados e mantidos dentro de margens de segurança aceitáveis, ainda assim haveria algo que sempre muda: o próprio trabalhador; hoje está mais cansado do que ontem; não dormiu direito; está preocupado com a falta de dinheiro; neste ano está evidentemente mais velho do que no ano anterior, mas também mais experiente, aprendeu como fazer esta tarefa que era considerada difícil, desenvolveu mais uma habilidade para operar tal equipamento etc. Portanto, longe de ser um conjunto de regras conhecidas de antemão, a atividade é um conjunto de regulações contextualizadas, no qual tomam parte tanto a variabilidade do contexto no qual se realiza o trabalho quanto a variabilidade própria ao trabalhador que o executa. Por isso, para se entender o que é o trabalho de uma pessoa, é necessário observar e analisar o desenrolar de sua atividade em situações reais, em seu contexto, procurando identificar tudo o que muda e faz com que o trabalhador tenha que tomar micro-decisões, a fim de resolver os pequenos mas recorrentes problemas do cotidiano da produção. Estas situações são tão numerosas, e dependentes das circunstâncias, que os trabalhadores as esquecem tão logo o que as motivou desapareça. Por esta razão, a análise ergonômica do trabalho requer um longo tempo de observação, acompanhando o trabalhador durante a realização de suas tarefas, e em situações variadas. 4.2. A atividade de trabalho funda-se sobre regulações subconscientes Uma outra dificuldade para compreender o que é a atividade de trabalho é que várias habilidades desenvolvidas pelos trabalhadores tornam-se automatismos, isto é, hábitos de comportamento que são eficazes, mas que são colocados em prática de forma subconsciente. Por isso, não basta perguntar aos trabalhadores quais são as dificuldades de sua tarefa, porque grande parte dos problemas já se tornaram “naturais”, isto é, não são mais percebidos como problemáticos. A atividade está fundada na experiência dos trabalhadores, que se adquire ao longo da vida profissional. Quando perguntados sobre como realizam uma tarefa, os trabalhadores sempre dizem que é no “olhômetro”, forma como traduzem a experiência acumulada, às vezes duramente, num “simples” toque do dedo para ajustar uma peça, um golpe de vista para avaliar um empeno, perceber um ruído surdo para sentir se a máquina está bem regulada etc. 11 É sobretudo em razão dessas competências latentes que as tentativas de rodízio entre funções dificilmente são bem-sucedidas. Quando se quer mudar um trabalhador de um posto menospreza-se tanto o tempo que ele levou para fazer o seu trabalho atual com mais facilidade, quanto o tempo que será necessário para desenvolver as novas habilidades para realizar a outra tarefa. Como parte desta experiência se tornou subconsciente, nem o próprio trabalhador sabe explicar claramente como faz o seu trabalho e todos os macetes que adquiriu. Age como um peixe dentro d’água. Dessa forma, não consegue transmitir tudo o que sabe e quase sempre fica impaciente com os novatos, pois tudo lhe parece tão simples e evidente que o trabalhador experiente não entende mais porque o outro não trabalha tão bem quanto ele ou não aprende logo. Mesmo pessoas experientes que são emprestadas para outros setores têm dificuldades de se ajustarem à forma de trabalhar de outra equipe. Essas dificuldades de analisar a atividade podem ser contornadas através de métodos e técnicas de observação apropriadas, capazes de evidenciar esses conhecimentos tácitos, que permanecem escondidos a um olhar menos cuidadoso. 5. Métodos de observação e de entrevista Para identificar as causas de sobrecarga de trabalho e deficiências dos postos de trabalho comumente se recorre à observação direta ou indireta, esta última através de registros em vídeo ou entrevistas com os próprios trabalhadores. A análise ergonômica do trabalho se apóia tanto em observações quanto em entrevistas. Um e outro método - observação e entrevistas - permitem obter resultados, mas utilizados isoladamente tornam-se incompletos. A observação do comportamento por um observador externo (um ergonomista, ou mesmo um colega de trabalho) permite identificar várias coisas que não funcionam corretamente numa determinada situação. Mas a observação não é suficiente para explicar as razões do que se observa. Podemos observar um gesto, uma expressão de que a pessoa faz mais esforço, um movimento diferente, um ciclo que demora mais, modos operatórios diferentes, a seleção de materiais ou produtos bons etc. Entretanto, não podemos saber o porquê ou as razões que levaram os trabalhadores a se comportarem desta forma a não ser que compreendamos o seu trabalho. Isto é só possível através da própria fala dos trabalhadores que devem ser solicitados a explicarem as causas do que foi observado. Desta forma se pode explicitar inclusive os conhecimentos tácitos, que geralmente não são relatados quando se utilizam somente entrevistas e questionários. 12 As entrevistas são limitadas porque buscam estabelecer o diagnóstico apenas recuperando as queixas espontâneas dos trabalhadores. É verdade que os trabalhadores já conhecem vários problemas e deficiências dos postos de trabalho, e é sempre fundamental começar a análise pelas queixas que eles expressam, mas nem tudo o que sabem pode ser facilmente verbalizável, isto é expresso na forma de palavras. Vários problemas, por exemplo, já foram resolvidos através de macetese habilidades que se tornaram automatismos do comportamento e, portanto, não são mais vivenciados como problemáticos (ver item anterior). Outros problemas são conhecidos, mas apenas no momento em que acontecem, tão logo passa a dificuldade, as pessoas tendem a esquecer o que as causou. É o caso, sobretudo, dos problemas esporádicos, que acontecem apenas em determinadas situações (mudança de produto; variação da matéria-prima, desregulagem da máquina etc.). Por estas razões, é necessário conjugar observação direta e entrevista para que se possa relatar e compreender o máximo possível de problemas. Esta articulação entre observação e entrevista pode ser resumida em dois princípios: 1. primeiramente observar atos e gestos (o comportamento visível) e apenas depois perguntar, sobretudo quando notar algo estranho (uma mudança de modo operatório, uma demora maior para terminar a tarefa, necessidade de fazer mais esforço, defeito nas peças, ou mesmo uma agilidade maior, etc.); 2. observar várias situações e sobretudo os momentos indicados pelos próprios trabalhadores e que eles consideram mais críticos (qualidade ruim da matéria-prima, máquina desregulada, virada de produção, fim de turno ou sexta-feira etc.). Estas situações são tão variadas que, em geral, os trabalhadores sempre nos dizem quando vamos observá-los trabalhando em seus postos: Ah! Você deveria ter vindo aqui ontem pra ver! Assim, para retratar as situações mais significativas, as observações necessitam de um tempo relativamente longo para serem realizadas, porque devem se dar em vários momentos e situações, alguns dos quais são imprevisíveis. Há também métodos mais sofisticados, denominados entrevista em autoconfrontação, para se analisar detalhes da atividade. Consiste em gravar em vídeo o trabalhador realizando a sua tarefa e, logo em seguida, entrevistá-lo confrontando-o a sua imagem e colocando questões para esclarecer como e por que ele trabalha daquela forma. A análise das gravações não é feita como os engenheiros analisam tempos e movimentos, sem a presença do trabalhador, mas sim juntamente com ele, que poderá assim explicar porque demorou mais num ciclo ou porque foi mais rápido, etc. 13 6. Resultados da AET Com essas observações e entrevistas minuciosas podem ser descobertos vários detalhes que explicam as sobrecargas de trabalho e queixas, sobretudo aquelas mais diferenciadas, isto é, que não parecem ter uma relação direta com o trabalho porque manifestam-se apenas em algumas pessoas e não em outras, ou aparecem ou se agravam apenas sob certas circunstâncias. Estabelecer se existe ou não um nexo entre queixas de dores e o trabalho nem sempre pode ser feito no consultório médico ou através de rápidas inspeções do posto de trabalho. Vários problemas que podem ser detectados aparecem no interior do que se considera ser uma situação normal de produção, isto é, sob a aparência de normalidade (mesmo sendo procedimentos utilizados durante anos) pode se encontrar uma situação inadequada. Vejamos dois exemplos que esclarecerem este ponto. Comumente os engenheiros tentam estabilizar a produção através do controle de alguns parâmetros, por exemplo quando do recebimento de um componente que será usado na produção. Esses critérios de controle são pensados e estabelecidos para evitar problemas de funcionamento do produto, o que não quer dizer que atendam necessariamente os critérios ergonômicos da atividade de montagem. Os materiais podem estar dentro da faixa de tolerância técnica especificada, e mesmo assim representar uma grande carga de trabalho para os trabalhadores que os manipulam. Exemplo 1: numa empresa observamos que, numa máquina de solda, se misturavam componentes de dois lotes diferentes. Ambos estavam dentro dos critérios dimensionais especificados pelo controle de qualidade. Entretanto, as peças de um lote agarravam muito quando a trabalhadora a inseria no mandril, enquanto as outras se encaixavam facilmente. A figura 1 abaixo ilustra este caso. O que ocorria era que os dois lotes variavam em sentidos diferentes em relação à média da faixa de tolerância, cuja dimensão era regulada pelo mandril de encaixe. Por isso, um lote era relativamente folgado e outro mais apertado, causando mais dificuldade na montagem. Limite Superior LOTE 1 Regulagem do mandril (média) 14 LOTE 2 Limite Inferior FIGURA 1: Limites de Tolerância e faixas de variação dos dois lotes Exemplo 2: numa outra empresa, o fornecimento de peças (arruelas e hastes de um pistão) é interno, sendo também controlada a dimensão através de um calibre passa não passa, com formato em “C”. No entanto, a trabalhadora no posto de montagem se queixava de que as arruelas agarravam muito, exigindo mais força para serem encaixadas na haste. Os engenheiros argumentavam que isto era impossível porque os lotes eram todos controlados e estavam dentro das especificações. Quando fomos observar como era feito este controle, vimos que o calibre em forma de “C” não reproduzia exatamente os movimentos feitos no posto de montagem, onde se inseria a arruela deslizando-a verticalmente sobre a haste, enquanto o calibre era usado horizontalmente (ver figura 2). Foi então sugerido que se adotasse um calibre semelhante à arruela (ou seja, circular), que assim permitiria controlar qualquer forma de interferência, tais como as que ocorriam no momento da montagem (presença de rebarbas na ponta da haste e ovalização). FIGURA 2: Dois modelos de mandril para teste de ovalização da haste Esses exemplos podem parecer detalhes insignificantes em relação aos problemas de saúde no trabalho, mas são precisamente esses detalhes que explicam a persistência de queixas de dores ou surgimento de doenças osteomusculares quando vários outros aspectos mais visíveis foram identificados e corrigidos. No caso das queixas e dores diferenciais, entre trabalhadores que realizam tarefas semelhantes ou ocupam o mesmo posto de trabalho, são precisamente os detalhes que fazem a diferença. Além disso, quando as tarefas são repetitivas ou contém fases Movimento transversal em relação à haste Movimento paralelo em relação à haste, idêntico à montagem da arruela SITUAÇÃO ATUAL SITUAÇÃO PROPOSTA 15 repetidas, esses pequenos esforços podem ocorrer milhares de vezes durante uma jornada de trabalho. 6.1. A ergonomia não é normativa Os resultados de uma análise ergonômica do trabalho são, às vezes, usados de forma inadequada: servem para definir normas de comportamento e não como diagnóstico ou colocação de um problema que deve ser melhor explicado. Quando, por exemplo, observamos que alguém assume uma postura “inadequada” para realizar uma tarefa (ou quando carrega muito peso sozinho) somos levados espontaneamente a ditar uma norma de comportamento mais adequada. Por isso os livros de ergonomia mais tradicionais estão cheios de figuras dizendo o que é postura correta e o que é postura incorreta. Essas prescrições de como os trabalhadores devem se comportar são, entretanto, insuficientes. Por exemplo, a recomendação de levantar uma caixa de peças somente com ajuda de um colega, esbarra logo na situação de que nem sempre o colega está disponível, na falta de jeito ou de espaço para manipular a caixa a dois e outras limitações. Um outro exemplo mais comum: levantar pesos com postura adequada, usando as pernas e não as costas. Todos nós conhecemos a maneira correta, mas poucos são os que assim efetivamente se comportam, não porque sejamos negligentes ou desleixados, mas devido à falta de praticidade em aplicar esta norma. Em geral, a própria forma dos objetos impede a postura correta: levantar um botijão de gás, um engradado de cerveja ou um saco de cimento usando as pernas é bem pouco prático, senão impossível. Além da forma dos objetos, há outras circunstâncias,como as pressões temporais, que tornam pouco prática e efetiva a adoção de posturas corretas, tal como elas são definidas do ponto de vista estritamente fisiológico. Quando se tem pressa, pode ser mais fácil e rápido usar a coluna do que se agachar. A atividade de trabalho não implica apenas o uso do corpo, trabalhar não é uma atividade fisiológica, embora pressuponha o corpo como fundamento. Para dar um exemplo mais concreto, trabalhar não é apenas levantar uma certa carga, mas sim levantar uma certa quantidade de cargas num certo tempo. É o tempo que é essencial no trabalho e não o carregamento de peso. Há, assim, uma tendência espontânea do trabalhador (e de seu corpo) a se ajustar às exigências físicas, organizacionais e temporais presentes na situação de trabalho e adotar uma postura que seja mais conveniente globalmente e não só do ponto de vista fisiológico. Esta auto-regulação da atividade é que deve ser favorecida no sentido de se criarem as condições 16 que favoreçam posturas mais adequadas, que, enquanto perdurarem outras exigências, não podem ser mudadas apenas com o recurso a uma norma sobre o que é postura correta. Quando se observa uma postura que nós julgamos inadequada ou quando um trabalhador se recusa a se comportar da forma como foi orientado, isto não prova que ele seja teimoso ou desobediente, ao contrário mostra que nossa análise ainda foi insuficiente para compreender tudo o que influencia em seu comportamento. É o ergonomista que foi negligente em sua análise e não o trabalhador em sua forma de agir. Em geral este é o princípio que orienta a utilização dos resultados da análise ergonômica do trabalho: sua eficiência consiste em criar um espaço para ampliar a regulação individual e coletiva da atividade e da carga de trabalho a ela associada. Por isso a grande importância da introdução do rodízio, das pausas, de modos operatórios alternativos, dos coringas ou trabalhadores polivalentes, do treinamento, etc. Bibliografia básica: BRASIL/MTb. Norma Regulamentadora 17: Manual de Utilização. Brasília, MTb., 1994 (Elaborado por Carlos A. Diniz SILVA). DANIELLOU, F.; LAVILLE, A.; TEIGER, C. Ficção e realidade do trabalho operário. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v.17, n.68, pp.7-13, out./dez. 1989. GUÉRIN, F. et. al. Comprendre le travail pour le transformer. Paris, ANACT, 1991. LAVILLE, A. Ergonomia. São Paulo, EPU/EDUSP, 1977. WISNER, A. Por dentro do trabalho: ergonomia, método e técnicas. São Paulo, Oboré/FTD, 1987. WISNER, A. A Inteligência do trabalho. São Paulo, Fundacentro, 1994.