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Psicologia da Educação SABRINA LINS BONFATTI 1ª Edição Brasília/DF - 2019 Autores Sabrina Lins Bonfatti Revisor Amanda Damasceno Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário Organização do Livro Didático........................................................................................................................................4 Introdução ..............................................................................................................................................................................6 Capítulo 1 O Desenvolvimento Humano e suas Dimensões ................................................................................................9 Capítulo 2 Escola Comportamental ........................................................................................................................................... 14 Capítulo 3 Freud e a Psicanálise ................................................................................................................................................. 32 Capítulo 4 Jean Piaget e a Epistemologia Genética ............................................................................................................ 51 Capítulo 5 Lev Vygotsky e a Teoria Interacionista ................................................................................................................. 69 Capítulo 6 Mais Algumas Bases Psicológicas para Educação ........................................................................................... 83 Referências ........................................................................................................................................................................109 4 Organização do Livro Didático Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização do Livro Didático. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Cuidado Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. Importante Indicado para ressaltar trechos importantes do texto. Observe a Lei Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem, a fonte primária sobre um determinado assunto. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. 5 ORGAnIzAçãO DO LIVRO DIDáTICO Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Posicionamento do autor Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. 6 Introdução Como se faz um homem? Falar de psicologia da educação é ter como objeto de investigação o sujeito que está comprometido com seu processo de construção do conhecimento. Ora, ao falarmos de processo estamos, portanto, colocando foco em um ser em eterna constituição. Um ser que embarca numa viagem muito própria, mas com um trilho universal, que nem por isso é livre de surpresas e percalços. Trataremos da pluridimensionalidade do ser. Mas, de que se trata tal perspectiva? O sujeito do conhecimento só pode ser compreendido se o considerarmos em toda a sua complexidade, ou seja, como portador de três dimensões: relacional, afetiva e racional. Como se faz este ser pluridimensional? Como se aproximar de um entendimento desse homem que é relacional, emocional e racional, tudo ao mesmo tempo, aqui e agora? Como, se ele é muito maior do que a soma das partes? Para nos aproximarmos da questão, entrelaçamos diversas teorias de estudiosos que, dando foco em uma das dimensões, não poderiam deixar de iluminar e nem flertar com as demais. Nosso primeiro capítulo trata das dimensões do ser em constante processo de conhecimento. Trataremos da dimensão relacional, afetiva e racional (ou cognitiva), buscando refletir sobre suas interações e consequências para a aprendizagem. No segundo capítulo, conheceremos a Escola Comportamental. Aprenderemos que mesmo o Behaviorismo (termo em inglês que significa comportamento), que muitos acreditam negar a dimensão afetiva, não o faz. No começo de sua trajetória, defendiam o abandono da introspecção e a adoção da observação direta do comportamento como o único método possível para uma psicologia científica. Ou seja, eles não negavam a afetividade como constituinte do ser humano, só não se ativeram a essa dimensão. Ao longo do desenvolvimento teórico, passaram a compreender que os problemas psicológicos podem ser entendidos em termos de sistemas de respostas intercalados: cognitivo, afetivo, fisiológico e o comportamental. Refletiremos sobre a teoria do Sistema Estímulo-Resposta, proposta por grandes autores, como Pavlov e Watson. Abordaremos o conceito de Condicionamento Operante, de Skinner, e o sistema de reforço proposto por ele. Nosso terceiro capítulo trata da Psicanálise de Freud e seu entendimento sobre afetividade humana. Veremos, mais especificamente, a evolução da libido nas fases denominadas por ele de: Fase Oral, Fase Anal, Fase Fálica, Período de Latência, Fase Genital. Para lançarmos luz sobre os processos de desenvolvimento do conhecimento, recorremos a Piaget em nosso quarto capítulo. Ao longo dos seus estudos, ele verificou que existem 7 formas diversas de interação com o meio, em todas as faixas etárias, denominando-as estágios ou períodos. Os estágios representam as aquisições típicas de cada idade, que determinarão a maneira como a criança irá agir no mundo, construindo, assim, a sua inteligência. “Cada estágio constitui uma forma particular de equilíbrio, efetuando-se a evolução mental no sentido de uma equilibração sempre mais completa e de uma interiorização progressiva.” (RAPPAPORT, 1981, v.1, p. 65.). Apoiaremos nossa reflexão nos seguintes estágios: Sensório-motor (0-24 meses), pré-operacional (2-7 anos) e operatório-concreto (7-11, 12 anos). Nosso quinto capítulo traz Vygotsky e sua Teoria Sociointeracionista. Trataremos dos processos mentais, considerados pelo autor como a principal característica da espécie humana, abordando conceitos como pensamento, inteligência, consciência e linguagem. A teoria de aprendizagem de Vygotsky dá destaque ao papel das relações sociais no desenvolvimento intelectual. Para ele, o homem é um ser que se forma em contato com a sociedade. No último capítulo, apresentaremos três teóricos que estão influenciando o cenário da educação contemporânea. Henri Wallon, com sua Teoria Psicogenética, defende o processo de evolução, dependendo tanto da capacidade biológica do sujeito quanto do ambiente que o afeta de alguma forma. Observaremos que a dimensão afetivaocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto do ponto de vista do conhecimento. Para ele, a gênese da inteligência é genética e organicamente social. Já Howard Gardner traz a novidade das Inteligências Múltiplas. Ele revolucionou o cenário da psicologia e da educação, ao afirmar que o sujeito pode desenvolver diversos tipos de inteligência, dependendo do estímulo que recebe e do contexto em que vive. David Ausubel nos apresenta a Teoria da Aprendizagem Significativa, afirmando que o fator isolado mais importante que influencia o aprendizado é aquilo que o aprendiz já conhece. Objetivos » Compreender o sujeito como um indivíduo pluridimensional. » Conhecer os principais teóricos da psicologia do desenvolvimento humano. » Refletir sobre as principais teorias da aprendizagem. » Correlacionar as teorias do desenvolvimento humano e da aprendizagem. » Pensar a sala de aula à luz das teorias estudadas. 8 9 Introdução Quando falamos de uma ligação entre a Psicologia e a Educação, o primeiro conceito que nos vem à cabeça é o da Psicopedagogia, não é mesmo? E qual seria, então, o objeto de estudo da Psicopedagogia? De acordo com Almeida e Silva (2006), esse objeto é o homem como ser em processo de construção do conhecimento. Para entendermos, então, como se dá a aprendizagem, precisamos considerar o ser humano como um ser pluridimensional, com uma dimensão racional, também chamada de dimensão cognitiva, uma dimensão afetiva e uma dimensão relacional. Entendermos o sujeito como um ser pluridimensional não quer dizer que acreditamos na concepção individualista, na qual o homem é um sujeito absoluto e único construtor de seu conhecimento. Tampouco acreditamos na concepção mecanicista e objetiva que vê o homem como sujeito passivo, cuja única função é registrar o conhecimento que lhe foi passado. Aqui, trataremos de um modelo baseado no princípio da interação do sujeito, em que tanto sujeito quanto objeto atuam um sobre o outro. Isso significa que jamais o sujeito será passivo no processo de aprendizagem. Ele é sempre ativo, na medida em que introduz algo de si no conhecimento. Como o sujeito é determinado por suas dimensões – afetiva, relacional e racional – podemos afirmar que elas são constituintes no processo de construção do conhecimento. 1 CAPÍTULO O DESEnVOLVIMEnTO HUMAnO E SUAS DIMEnSÕES Importante Um objeto não corresponde apenas a coisas e pessoas. Aqui, ele também significa ideias, fatos, ideologias, cultura e conteúdos transmitidos durante a aprendizagem. Ou seja, entendemos como objeto tudo o que não é sujeito na relação cognitiva. 10 CAPÍTULO 1 • O DESEnVOLVIMEnTO HUMAnO E SUAS DIMEnSÕES Objetivos » Entender o sujeito como um ser pluridimensional. » Refletir sobre a influência de cada dimensão no processo de aprendizagem. » Conhecer as três dimensões constituintes do sujeito: afetiva, racional e relacional. Dimensão afetiva A dimensão afetiva é constituinte na construção do conhecimento, pois o sujeito é determinado por um saber que ele não conhece, ou melhor, que não é consciente. Isso quer dizer que o indivíduo não é o senhor absoluto dos seus próprios pensamentos, pois eles são regidos, também, pelo inconsciente, como veremos no Capítulo 2. Existem ideias que ocorrem no sujeito de origens não conhecidas. Há pensamentos cuja elaboração não está acessível ao indivíduo. Muitos atos conscientes nos parecem incoerentes ou incompreensíveis, quando não partimos do pressuposto de que todo o processo mental tem sua parte consciente, mas também uma grande parcela inconsciente. Por isso, é fundamental ir além da experiência imediata. O conhecimento consciente está intimamente ligado a uma inconsciência psíquica. Freud ressalta, em toda a sua obra, a importância do inconsciente na vida mental, dizendo que a mesma é essencialmente inconsciente. Isso quer dizer que tudo que é consciente passou por um estágio inconsciente. Assim, podemos afirmar que o sujeito pluridimensional tem dois sistemas de funcionamento. O consciente é lógico e intelectivo e funciona de maneira secundária. Freud nos ensina que tal sistema é regido pelo princípio da realidade. O segundo sistema é inconsciente, simbólico, funcionando em processo primário. Tal sistema é regido pelo princípio de prazer. Isso tudo quer dizer que nós não temos autonomia absoluta sobre os nossos próprios pensamentos, muito menos do nosso inconsciente e da essência de nossas vidas mentais Tanto a dimensão afetiva, como a relacional e a racional têm sua representação no aparelho psíquico de forma consciente e inconsciente. A dimensão afetiva se articula às demais dimensões numa totalidade dinâmica, gerando ações que organizam e modificam o meio. É dessa organização e interação com o meio que, não só o conhecimento, mas o próprio sujeito é construído. 11 O DESEnVOLVIMEnTO HUMAnO E SUAS DIMEnSÕES • CAPÍTULO 1 Dimensão racional A dimensão racional é constituinte do processo de construção do conhecimento, pois o sujeito, na medida em que age sobre o meio, constrói suas próprias estruturas no processo desta ação interiorizada. Portanto, a ação do indivíduo sobre o objeto é o ponto de partida para a construção de conhecimento. Para que haja aprendizagem, é preciso que ela se estruture a partir do que já foi vivido, ou seja, da formulação e enunciação do conceito pelo sujeito. Quando nascemos, a base da relação sujeito-objeto se dá através de experiências sensório-motoras e o conhecimento se reduz ao campo da motricidade. Em seguida, o sujeito representa mentalmente o vivido e faz representações figurativas. O conhecimento nessa etapa é, apenas, um conhecimento prático, concreto. A última fase é marcada pelas trocas simbólicas. Aqui, o sujeito já formula hipóteses através de operações combinadas, baseadas em enunciados verbais em que o conhecimento se constitui numa lógica formal, aplicada a qualquer conteúdo. A construção do conhecimento se dá na seguinte ordem: perceber, discriminar, organizar, conceber, conceituar e enunciar. Independentemente da fase do desenvolvimento em que o sujeito se encontra, todas essas etapas acontecem. O que muda é qualidade, organização e seu funcionamento da percepção, discriminação, organização, concepção, conceituação e enunciação, pois a cada fase eles se tornam mais complexos. Dimensão relacional O sujeito aprende na interação com o meio e com os outros, construindo sua identidade, para alcançar o conhecimento e a autonomia. Sendo um ser contextualizado e determinado por suas condições biológicas, ele interage de maneira particular, estabelecendo vínculos. Provocação “A ação precede o conhecimento e este consiste numa organização, sempre mais rica e coerente, das operações que prolongam a ação no sujeito.” (PIAGET, 1983 p. 148) Posicionamento do autor A dimensão racional é constituinte do processo de construção do conhecimento, pela ação do sujeito sobre o objeto e pela estruturação do vivido dessa ação, formulada em percepções, discriminações, organizações, concepções, conceitos e enunciados, que ficam mais complexos, formando estrutura própria que prepara para a etapa seguinte. 12 CAPÍTULO 1 • O DESEnVOLVIMEnTO HUMAnO E SUAS DIMEnSÕES Essas relações vinculares positivas ou negativas são marcadas por relações anteriores e representativas e, por isso mesmo, podem ser resgatadas. A título pedagógico, podemos dividir a dimensão relacional em duas partes: contextual e interpessoal. A dimensão relacional contextual constitui o processo de construção do conhecimento na medida em que o sujeito é um ser social. O sujeito é formado a partir das suas relações sociais. Ele é determinado pelas condições materiais de existência que vive na sociedade. Ser constituido a partir das relações traz diversas consequências no que tange ao conhecimento. A maneira de se perceber o mundo à sua volta e de se distinguir determinados elementos estão intrinsicamenteligadas à maneira pela qual o sujeito constrói seus conhecimentos. Como percebemos, o mundo também depende dos valores que recebemos da família e da sociedade em que estamos inseridos. Esse julgamento, como veremos no próximo capítulo, pode ser consciente ou inconsciente e determina as ações sobre o objeto, sem as quais o conhecimento não se constrói. Já a dimensão relacional interpessoal é constituinte no processo de construção do conhecimento, pois o sujeito é determinado pelas relações que estabelece com as outras pessoas. Essas relações incluem o sujeito e suas multiplas relações. À medida que os pressupostos da vida, que não eram questionados, quer pela relação afetiva ou pelas certezas pré-reflexivas do sujeito, passam a ser questionados, a partir da confrontação dialógica com o outro é que essa relação passa a ser constitutiva no processo de construção do conhecimento. Articulações entre as dimensões As dimensões do sujeito se articulam de maneira dinâmica. Essa articulação é um processo complementar e conflitivo. Por terem suas especificidades, as dimensões não se fundem, mas também não se excluem. Elas se completam mesmo havendo confronto e conflito. Esse processo de confronto e conflito também se dá no processo de construção do conhecimento. A dimensão relacional é quem caracteriza o sujeito como um ser pensante. Ela se articula com a dimensão afetiva, ajustando o desejo à realidade. Já a dimensão afetiva caracteriza o ser apaixonado, no qual o desejo se constitui. Ou seja, aquela modula o desejo através da palavra. A dimensão relacional interpessoal caracteriza o ser das relações. Ela se articula com as dimensões afetiva e racional, pois em toda a ação buscamos o reconhecimento do outro, ou melhor, do desejo do outro; do que o outro espera de nós. A dimensão relacional 13 O DESEnVOLVIMEnTO HUMAnO E SUAS DIMEnSÕES • CAPÍTULO 1 contextual é o que caracteriza o ser contextualizado. Sendo assim, ela se relaciona com as dimensões racional e afetiva, já que o desejo do sujeito é construído a partir do ambiente em que ele está inserido. Ou seja, o sujeito, que é único, é mediatizado por formas e significações sociais. Todavia, como falamos anteriormente, pode haver distorções nesse processo complementar, mas conflitivo, bloqueando a autonomia e a construção de conhecimento do sujeito. Quando as dimensões afetiva e relacional se sobrepõem à dimensão racional, o sujeito torna-se suscetível à falsa consciência, às opiniões e ideologias, impedindo seu conhecimento. Caso a dimensão relacional reprima a racional e a afetiva, torna o sujeito emissor de uma fala vazia, de uma fala justificada, dificultando, assim, a aprendizagem. Como diz Habermas (1980) “as ideias servem muitas vezes como esquemas justificativos de ações sem ter em conta dados da realidade, seus móveis reais. No nível individual, esse processo chama-se racionalização; no nível de ação coletiva, denomina-se ideologia.” (p. 308) Concluímos que as distorções que aparecem nas articulações entre as dimensões prejudicam a estruturação e a organização do meio. Assim, as ações do sujeito se tornam limitadas, pouco criativas, conservadoras e/ou conformistas. Isto está completamente relacionado a como o sujeito irá aprender e como ele irá agir dentro de uma sala de aula. Para entendermos melhor as dificuldades enfrentadas pelos nossos alunos, o primeiro passo é compreender que esse aluno é constituído por muitas dimensões. O segundo é tentar entender como as três dimensões (afetiva, relacional e racional) se articulam e se há predominância de alguma delas naquele momento. Sintetizando Vimos até agora: » O sujeito é constituído por três dimensões: afetiva, racional e relacional. » O processo de construção do conhecimento se dá através da constituição das suas dimensões. » A articulação entre as dimensões se dá de maneira complementar e conflitiva. » Quando uma dimensão se sobrepõe às outras, ocorre disfunção no processo de aprendizagem. 14 Introdução É possível haver uma ciência do comportamento? O comportamento é subjetivo, ou seja, varia de sujeito para sujeito? O Behaviorismo, corrente filosófica que propôs a ciência da análise do comportamento no começo do século XX, continua sendo uma das correntes mais fortes da psicologia. Essa corrente considera o comportamento humano como o centro de estudo e investigação da psicologia. Aqui no Brasil, é chamada de Escola Comportamental, pois behavior é a tradução de comportamento em inglês. Essa escola aborda tópicos que muito prezamos e que nos tocam de perto: por que fazemos, o que fazemos e o que devemos ou não devemos fazer. Você, aluno, consegue imaginar a aplicabilidade desta abordagem na sala de aula? É possível ensinar aos alunos o que devem ou não fazer? Os comportamentalistas acreditam que sim. Acreditam que podemos condicionar pessoas (no nosso caso, o aluno) para que tenham uma melhor aprendizagem. Vamos entender como? Estudaremos, ao longo deste capítulo, os principais autores da psicologia comportamental. Refletiremos sobre as implicações dessa abordagem na Educação. Objetivos » Conhecer a Escola Comportamental e a sua evolução ao longo do tempo. » Apreciar a Teoria do Condicionamento Clásico de Watson: Estímulo Resposta » Ampliar o conhecimento a partir do conceito de Condicionamento Operante de Skinner. » Refletir sobre os benefícios e as críticas em relação ao comportamento humano. » Analisar as influências da Escola Comportamental na Educação, buscando estratégias para a sala de aula. 2CAPÍTULOESCOLA COMPORTAMEnTAL 15 ESCOLA COMPORTAMEnTAL • CAPÍTULO 2 Behaviorismo(S) Os pioneiros dessa corrente foram os russos Vladimir Mikhailovich Bechterev e Ivan Petrovich Pavlov. Bechterev foi o primeiro a propor uma psicologia pautada no estudo do comportamento humano. Ele chamou essa “nova psicologia” de “psicologia objetiva” Pavlov, um renomado fisiologista, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 1904, foi reconhecido ao afirmar que o comportamento pode ser condicionado. Ele iniciou os seus estudos observando o processo de salivação em cães. Notou que todos os animais de estudo sempre salivavam quando estavam diante de um pote de comida. Contudo, alguns desses animais começavam a salivar já ao ouvir os passos do seu assistente que levava o alimento para os cães. Assim, concluiu que todos os cães salivavam em frente a um pote de comida porque se tratava de um comportamento inato, mas outros aprendiam que o som dos passos do assistente era o evento que antecedia a alimentação e, por isso, já começavam a salivar. Aprimorando suas observações, Pavlov fez um experimento com seus cães, tocando, primeiro, um sino. Isso não provocava nenhuma resposta de comportamento do cachorro. Depois, passou a tocar o sino e colocar, em seguida, o pote de comida. Após algumas repetições, o cão passava a salivar (resposta nata) ao tocar o sino. Sendo assim, Pavlov afirmava que, para além dos reflexos inatos, podemos desenvolver reflexos aprendidos podendo, então, proceder uma alteração no comportamento. Esses reflexos aprendidos, chamados de reflexos condicionados, são produzidos pela associação de um estímulo novo, que não produzia, a princípio, nenhuma resposta específica (por exemplo, o andar do assistente) ao estímulo antigo (o pote de comida chegando). O Prêmio Nobel foi recebido quando ele comprovou que é no córtex cerebral que os reflexos condicionados se formam, modificam-se e desaparecem. Saiba mais Neste momento, a psicologia, que também poderia ser chamada de Reflexologia, estava limitada ao estudo dos reflexos. Isso quer dizer que os reflexos – inatos e condicionados – são o fundamento das respostas do indivíduo aos estímulos provenientes do meio. A partir dos seus estudos sobre condicionamento, Pavlov constrói a sua teoria da aprendizagem, sobretudo no que tange à linguagem. 16 CAPÍTULO 2 • ESCOLA COMPORTAMEnTAL Foram os estudos de Pavlovque inspiraram John B. Watson a escrever, em 1913, o artigo “A Psicologia como um behaviorista a vê”, dando início a uma área da psicologia que desperta interesse e crítica até os dias de hoje. Dos tempos de Watson até o momento atual, muitos ramos da psicologia comportamental surgiram, como veremos a seguir: I. Behaviorismo Clássico: Figura 1. Condicionamento Clássico. Fonte: <https://lamenteesmaravillosa.com/pavlov-condicionamiento-clasico/>. Acesso em: 26/4/2019. Fundada por Watson, essa linha teórica propõe a observação do comportamento em detrimento do estudo dos processos mentais, que dominavam o cenário da psicologia no início do século XX. Para ele, era preciso tornar a psicologia uma ciência, concentrando os estudos naquilo que podería ser observado. Sua crítica ao estruturalismo de Wundt se dá pois, para ele, o estudo dos processos mentais não são produtivos. Importante Condicionamento: apresentando repetidamente o estímulo novo (ambiental), seguido do estímulo antigo (inato), o condicionado passa a ser semelhante ao inato. Após um determinado número de repetições, basta apresentar o estímulo condicionado para se obter a resposta apresentada pelo estímulo inato. Contudo, esse condicionamento não é definitivo. Se cessa o estímulo, cessa a resposta. Provocação Qualquer comportamento é sempre uma consequência de um estímulo anterior específico. Saiba mais A psicologia como uma área do saber foi desenvolvida a partir dos trabalhos de Wilhelm Wundt. Foi o primeiro a construir um laboratório de psicologia experimental, seguindo os modelos dos laboratórios de ciências naturais. Tanto para Wundt quanto para os seguidores do Estruturalismo, as operações mentais resultam da organização das sensações elementares que se relacionam com as estruturas do sistema nervoso. Wundt determina como objeto da psicologia o estudo da mente, da experiência consciente do Homem. 17 ESCOLA COMPORTAMEnTAL • CAPÍTULO 2 Segundo o Behaviorismo Clássico, o comportamento se define como qualquer alteração observada em um organismo, sendo produto de um estímulo anterior. Sua base de estudo é o modelo pavloviano de estímulo-resposta, chamado de condicionamento clássico. II. Behaviorismo Filosófico Também conhecido como behaviorismo analítico ou behaviorismo lógico, o behaviorismo filosófico se baseia na premissa de que existem pré-disposições mentais para determinados comportamentos. Ou seja, em contrapartida ao behaviorismo clássico, que defendia a tese de estímulo-resposta, o behaviorismo filosófico acredita que para haver determinada resposta para um estímulo específico é necessário antes que o indivíduo tenha uma disposição mental para desenvolver tal resposta. III. Behaviorismo Metodológico Defendido pelo psicólogo Stanley Smith Stevens, o behaviorismo metodológico se baseia na teoria de que o comportamento é somente uma resposta pública do indivíduo. Para o behaviorismo metodológico, apenas comportamentos publicamente observáveis são admitidos como objeto de estudo psicológico, excluindo desse estudo todo comportamento de ordem privada, uma vez que este tipo de comportamento não pode ser diretamente observado. IV. Behaviorismo Radical O behaviorismo radical não procura modificar o comportamento de um indivíduo através de estímulos, mas sim estudar e compreender o comportamento deles. Ou seja, foi desenvolvido não como uma área de pesquisa experimental, mas como uma proposta de reflexão sobre o comportamento humano. A realização de pesquisas empíricas constitui o campo da análise experimental do comportamento, enquanto a implementação prática faz parte da análise aplicada do comportamento. Nesse sentido, o behaviorismo radical é uma filosofia da ciência do comportamento. Cuidado Watson não negava a importância dos processos mentais na psicologia, mas apenas os considerava pouco práticos para a realização de estudos objetivos. 18 CAPÍTULO 2 • ESCOLA COMPORTAMEnTAL A psicologia de estímulo e resposta de Watson Conhecendo sua história Figura 2. Pai do comportamentalismo. Fonte: <http://psychclassics.yorku.ca/Watson/intro.htm>. Acesso em: 26/4/2019. John Broadus Watson nasceu em 9 de Janeiro de 1878, na Carolina do Sul, Estados Unidos. Embora tenha crescido em uma família religiosa, na idade adulta se opôs declaradamente à religião. Cursou Psicologia na Universidade de Chicago, onde começou a desenvolver sua teoria, baseada nos preceitos de Pavlov. Em 1903, recebeu o PhD em Neuropsicologia, após apresentar sua tese sobre a relação entre o comportamento dos ratos de laboratório e o sistema nervoso central. Após o doutorado, permaneceu na Universidade de Chicago, como pesquisador, até ser convidado a lecionar Psicologia Experimental e Comparada na Johns Hopkins University em Baltimore. Lá, instalou um um laboratório de Psicologia Animal. Em 1913 publicou o artigo “A Psicologia como um comportamentalista vê”, tornando-se o “pai do behaviorismo”. Conhecido como “manifesto behaviorista”, defendeu o abandono da introspecção e a adoção da observação direta do comportamento como o único método possível para uma psicologia científica. Watson é muito conhecido como o precursor da Escola Comportamental, mas pouco sabem de sua importante contribuição na transformação da psicologia em uma disciplina aplicada, separando-a do campo da Filosofia. Além de um grande defensor da psicologia como um campo de aplicação, Watson foi um grande disseminador dessa área do saber para o público leigo. Saiba mais Pesquisas empíricas são aquelas realizadas através da observação. Para a ciência, empírica é um tipo de evidência inicial para comprovar alguns métodos científicos em que o primeiro passo é a observação, para então fazer uma pesquisa, que é o método científico. Nas ciências, muitas pesquisas são realizadas inicialmente através da observação e da experiência. Quer saber mais? Acesse aqui: <https://www.significados.com.br/empirico/>. 19 ESCOLA COMPORTAMEnTAL • CAPÍTULO 2 Nesse manifesto, Watson esclarece as bases da corrente comportamental contrária à Psicologia de Freud, que ele considerava fantasiosa. Também era contrário à hereditariedade como responsável pelos diversos tipos de personalidade, atribuindo à experiência e ao condicionamento do comportamento tal função. Em função da Primeira Guerra Mundial, interrompeu seus estudos para se integrar ao exército em uma campanha militar na França. Já em 1915, retornou e foi nomeado presidente da Associação Psicológica Americana (APA). Em 1918, retornou às suas investigações, interessado no estudo da primeira infância. Em 1920, foi convidado a deixar a Universidade, após vir a público o seu relacionamento com sua aluna Rosalie Rayner. Watson e Rayner casaram-se e continuaram suas investigações na área da infância. O casal Watson se propôs a demostrar como é possível a criação científica dos filhos. Tornar a criação de filhos uma profissão baseada no conhecimento científico era o grande objetivo dos Watson para a correção dos caminhos que a civilização americana seguia em sua época. Após sua demissão, o casal se mudou para Nova York, mas Watson não conseguiu se realocar em universidades. Sendo assim, ingressou em uma agência de publicidade, chegando ao cargo de presidente da J. Walter Thompson, uma das maiores empresas de publicidade dos Estados Unidos. Contudo, não deixou suas pesquisas, aproveitando o novo conhecimento em marketing para divulgar suas teorias. Após a sua aposentadoria, em 1945, John Watson passou a levar uma vida reclusa em uma fazenda em Connecticut. Em 1957, recebeu o Prêmio da APA: Pelas Contribuições para a Psicologia. Pouco antes de sua morte, queimou grande parte de seus documentos e escritos inéditos. John Watson faleceu em Nova Iorque, Estados Unidos, no dia 25 de setembro de 1958. Behaviorismo clássico Já vimos anteriormente que Watson foi influenciado por Pavlov e trabalhou a partir do conceito de estimulo-respostae condicionamento clássico. Também vimos que Watson investiu nos estudos do condicionamento de crianças. Então, vamos entender um pouco mais sobre a teoria do estímulo-resposta, antes de conhecermos os experimentos e conclusões de Watson e seu behaviorismo clássico. 20 CAPÍTULO 2 • ESCOLA COMPORTAMEnTAL Figura 3. Sistema Estímulo-Resposta. Fonte: <https://www.slideshare.net/Anaruma/teoria-behaviorista-1587515>. Acesso em: 26/4/2019. Os conceitos de estímulo e resposta não podem ser entendidos separadamente. Qualquer evento torna-se um estímulo, se for seguido por uma resposta, e a relação entre estímulo e resposta gera um reflexo. A proposta behaviorista é estudar como estímulos recebidos do meio ambiente geram uma resposta no indivíduo. Sendo assim, Watson sugeriu que a relação estímulo-resposta pode ser usada como uma forma de controle e previsão do comportamento humano. Em contrapartida, uma estimulação anormal pode provocar o aparecimento de “modelos” de comportamento mal adaptados. Por isso a relação mãe e filho é fundamental para que ocorra a estimulação infantil. O tipo de estimulação vai depender da situação social da família e isso vai determinar as possibilidades de aprendizado e pensamento abstrato da pessoa em desenvolvimento. É importante considerar essas informações, para que possamos entender que as pessoas de classes sociais menos privilegiadas não têm menos capacidade de aprender e de se desenvolver do que as que possuem uma condição social melhor, elas apenas são menos estimuladas porque, provavelmente, seus pais têm um repertório comportamental mais limitado e a escola ou creche a que estão vinculadas também estimulam de forma precária a criança em questão, interferindo no seu desenvolvimento. Nessa linha teórica, o ser humano é descrito como um objeto a ser observado e analisado pela Psicologia, o que lhe coloca em uma posição secundária. Como o ser humano é o resultado da sua capacidade de resposta, compete à Psicologia Comportamental predizer qual é a resposta produzida em decorrência do estímulo adequado e ainda predizer o estímulo antecedente dado à resposta, já que o homem é uma máquina estímulo-resposta. Posicionamento do autor Para Watson, o comportamento está intrinsecamente ligado ao estímulo daquele meio. 21 ESCOLA COMPORTAMEnTAL • CAPÍTULO 2 Cabe ressaltar que a teoria behaviorista de Watson não se dedicou ao estudo do cérebro, chamado de “caixa misteriosa”. Isso porque ele acreditava que o comportamento não era restrito ao sistema nervoso. Suas pesquisas foram mais voltadas para os comportamentos humanos mais complexos e sua interação como o meio ambiente. Para Watson, toda a abordagem comportamentalista podia e devia ser reduzida ao estudo do comportamento, a partir de suas unidades mais elementares, as reações estímulo-reposta. Essa unidade básica, além de ser possível se comprovar através da investigação em laboratório, fornece a base científica para a compreensão dos comportamentos mais complexos do ser humano. Voltemos aos experimentos do casal Watson... Você se lembra de que eles acreditavam ser possível a criação científica dos filhos? Watson sonhava em tornar a criação de filhos em uma profissão, baseada no conhecimento científico, corrigindo, assim, os caminhos que a civilização americana seguia na época. Parece absurdo para você? Mas foi a partir desta hipótese que Watson passou observar o comportamento das crianças. Apesar de não haver nenhum embasamento teórico-científico, Watson argumentava que raramente uma criança do início do século XX era feliz na América. Para o casal Watson, uma criança feliz era definida como: [...] uma criança que nunca chora a menos que furado por uma ponta, ilustrativamente falando que se perde no trabalho e nas brincadeiras que rapidamente aprende a superar pequenas dificuldades em seu ambiente sem correr para a mãe, pai, enfermeira ou outro adulto [...] que aplica aqueles hábitos de polidez, conforto e limpeza de modo que os adultos fiquem dispostos a ficar perto dele ao menos parte do dia; crianças que se disponham a ficar perto dos adultos sem lutar incessantemente para serem notadas [...] que passa pela adolescência tão bem equipado que essa adolescência é apenas um trecho dos anos férteis e que consegue finalmente entrar na fase adulta tão fortificado, com trabalho estável e hábitos emocionais, que nenhuma adversidade pode sobrepujá-lo (WATSON, J.; WATSON, R., 1928. p. 12. Analisando esse trecho de sua obra, fica evidente que os Watson não estavam preocupados em proporcionar uma felicidade subjetiva, ou seja, para aquela criança especificamente. Provocação “Ninguém sabe o suficiente para criar uma criança. O mundo seria consideravelmente melhor se parássemos de ter filhos por vinte anos (exceto aqueles criados com propósitos experimentais) e começássemos novamente com fatos suficientes para se fazer o trabalho com algum grau de habilidade e precisão” (WATSON, J.; WATSON, R., 1928, p. 12). 22 CAPÍTULO 2 • ESCOLA COMPORTAMEnTAL Sua intenção era que as crianças fossem capazes de superar as dificuldades da vida de modo autônomo, sem demostrar sofrimento. Para eles, essa seria a concepção de felicidade! Eles partem de seus antigos estudos na universidade sobre o condicionamento emocional das crianças para demonstrar que são poucos os estímulos capazes de provocar emoções em crianças recém-nascidas. Apenas barulhos altos e perda de equilíbrio causam medo, ser impedido de movimentar-se causa ira e o toque na pele, principalmente nos lábios e órgãos genitais, causa amor. Com base nos experimentos de condicionamento que descrevem no livro, J. B. Watson e R. R. Watson (1928) defendem que todos os outros estímulos que provocam reações emocionais ganham essas propriedades por emparelhamento com os estímulos prévios, derivando dessa ideia orientações sobre como se evitar o desenvolvimento de medos, ódio e o que ele chamava de “amor excessivo”. Condicionamento operante Skinner Burrhus Frederic Skinner, um dos autores mais renomados da área da psicologia, defendia a tese de que o ambiente consiste no principal responsável pelo comportamento humano, sendo precursor do chamado Behaviorismo Radical, distanciando-se um pouco dos conceitos iniciais trazidos por Watson. Provocação O medo pode ser ensinado tão facilmente quanto ler e escrever, construir com blocos ou desenhar. Ele pode ser ensinado adequadamente ou inadequadamente. Quando ensinado cientificamente a vida emocional está então sob “controle” (WATSON, J.; WATSON, R., 1928, p. 68). “[...] o amor excessivo cria um invalidismo. Quando adultos temos muitos mal-estares e dores vagos [...] Na exata medida em que você dispensa tempo mimando e acariciando [...] você furta da criança o tempo que ela deveria estar dedicando na manipulação do universo, adquirindo técnica com os dedos, mãos e braços [...] Mimar é um experimento perigoso.” (WATSON, J.; WATSON, R., 1928, pp. 76-80). Para eles, os contatos físicos deveriam se resumir à higiene das crianças (o que deveria ser-lhes ensinado o quanto antes). Caso a mãe sentisse muita necessidade de beijar o filho que o fizesse na testa antes de dormir. Para os Watson, as mães que exageram no contato físico (que eram a maioria das mães americanas) com o filho o fazem motivadas por suas próprias necessidades de amor (que devem ter sido condicionadas na infância dessas mães. Todavia, a previsão de que o “supercondicionamento” do amor não era um evento saudável, e especialmente a previsão de que esses eventos levariam ao desenvolvimento de um adulto inseguro e dependente, não eram derivados diretamente de observações ou experimentos. Atualmente, essa teoria de Watson só se perpetua pela curiosidade histórica, tendo pouco a ver com a base científica do estímulo-resposta construída no início de sua carreira. 23 ESCOLA COMPORTAMEnTAL • CAPÍTULO 2 Conhecendo sua história Figura 4. Burrhus Skinner. Fonte: <https://probaway.wordpress.com/2013/08/18/philosophers-squared-b-f-skinner/>.Acesso em: 1/5/2019. Skinner nasceu na Pensilvânia, Estados Unidos, em 20 de março de 1904. Filho de um advogado e de uma dona de casa, desde cedo, se interessou pelo comportamento dos animais. Tinha como meta profissional se tornar escritor, cursando a faculdade em Literatura Inglesa e Línguas românicas. Contudo, após concluir seu bacharelado, percebeu que não tinha aptidão literária e foi buscar novos caminhos. Em 1928, Skinner inscreveu-se no curso de pós-graduação em Psicologia pela Universidade de Harvard, embora nunca tivesse estudado psicologia antes. Fez simultaneamente o mestrado e o doutorado, concluindo o mestrado em 1930 e o doutorado em 1931. Permaneceu na Universidade, como pesquisador, até 1936. Foi professor em diversas universidades dos Estados Unidos, tornando-se professor titular no Instituto de Psicologia de Harvard. Skinner escreveu vários livros e centenas de artigos sobre teoria do comportamento, reforço e teoria da aprendizagem. Seu radicalismo, ao rejeitar a maioria das teorias no campo da psicologia, levantou diversas polêmicas em seu país. Sua maior crítica foi contra o pensamento de Sigmund Freud. Ele acreditava que examinar os motivos inconscientes era inútil, pois o único fato passível de investigação é o comportamento. As ideias de impulsos internos com Id, Ego e Superego, que veremos em um outro capítulo, eram vistas como absurdas. Saiba mais Principais obras de Skinner » Skinner, B. F. The behavior of organisms. New York: Appleton-Century, 1938. (Comportamento dos Organismos). » SKINNER, Burrhus Frederic. Walden II: uma sociedade do futuro. 2. Ed. São Paulo: EPU, 2009. » SKINNER, B. F. (1984). Contingências do reforço: Uma análise teórica. In: Os pensadores (Vol. 51, pp. 158-396). São Paulo, SP: Abril Cultural. (Original publicado em 1969). » SKINNER, B. F. (1982). Sobre o behaviorismo. São Paulo, SP: Cultrix. (Original publicado 1974). » SKINNER, B. F. (1978). O comportamento verbal. São Paulo, SP: Cultrix. (Original publicado em 1957). » SKINNER, B. F. (1983). O mito da liberdade. São Paulo, SP: Summus. (Original publicado em 1971). 24 CAPÍTULO 2 • ESCOLA COMPORTAMEnTAL Aprendizagem por condicionamento Influenciado pela teoria dos reflexos condicionados de Pavlov e pelo estudo do comportamento de John B. Watson, Skinner acreditava que o comportamento era um conjunto de respostas fisiológicas condicionadas. A partir daí, se dedicou ao estudo de técnicas de reforço (estímulo do comportamento desejado) para o controle de condutas. Sua teoria, conhecida como “Behaviorismo Radical”, era contra causas internas (mentais) para explicar a conduta humana. Mas não foi somente a psicanálise o alvo de suas críticas. Negou a realidade e a atuação dos elementos cognitivos, opondo-se à concepção de Watson. Para ele, o indivíduo era um ser único, homogêneo e não um todo construído de corpo e mente. Em 1950, Skinner apresenta o conceito que mudou o rumo do behaviorismo, o de condicionamento operante. Ele afirmava que o comportamento operante ocorre sem qualquer estímulo externo anterior. Segundo o autor, a resposta do organismo parece ser espontânea, sem relação com qualquer estímulo observável. O condicionamento operante se concentra no uso de reforço ou punição para aumentar ou diminuir um comportamento. Através desse processo, uma associação é formada entre o comportamento e as consequências para esse comportamento. Saiba mais Figura 5. Caixa de Skinner. Fonte: <http://slideplayer.com.br/slide/3504017/>. Acesso em: 27/4/2019. Skinner criou um experimento que ficou conhecido como “Caixa de Skinner”. Nessa caixa, foi colocado um rato, privado de alimento. Quando o rato se aproximava de uma barra perto da parede, Skinner colocava uma gota de água na caixa, através de um mecanismo, e o rato bebia. As gotas seguintes foram dadas quando o rato se aproximou mais da barra, depois quando encostou o nariz na barra, depois as patas e foi seguindo essa lógica. Como consequência, o rato começou a pressionar a barra dezenas de vezes até saciar completamente a sua sede. Com esse princípio, Skinner passou a modelar diferente padrão comportamentais em diferentes espécies, inclusive em humanos. 25 ESCOLA COMPORTAMEnTAL • CAPÍTULO 2 Vários fatores podem influenciar a rapidez com que uma resposta é aprendida e a força da resposta. Skinner propôs um “cronograma de reforço” para que o comportamento seja aprendido mais rapidamente e eficazmente. Com que frequência a resposta é reforçada, conhecida como um cronograma de reforço, pode desempenhar um papel importante na rapidez com que o comportamento é aprendido e quão forte a resposta se torna. O tipo de reforçador usado também pode ter um impacto na resposta. O comportamento operante é modelado a partir de nosso repertório inato. As respostas que geram mais reforço tendem a ser repetidas em um mesmo contexto. Skinner chamou de reforço as técnicas que aumentam a probabilidade de acontecer o mesmo comportamento em ambientes semelhantes. Pode ser definido, também, como aquilo que aumenta a probabilidade de um comportamento se repetir. Skinner faz uma distinção entre os conceitos de reforço e punição. Em ambos, cabem os termos positivo e negativo. Para ele, o reforço aumenta as chances do comportamento voltar a ocorrer. Já a punição diminui as chances do comportamento voltar a acontecer. Tabela 1. Reforço X Punição. Reforço Punição Positivo » Apresentação de um estímulo agradável após um comportamento desejável. » Aumento da frequência de um comportamento. » Apresentação de uma consequência desagradável após a realização de um comportamento indesejável. » Diminuição da frequencia do comportamento. Negativo » Remoção de um evento desagradável após o comportamento desejável. » Aumento da frequência do comportamento. » Remoção de um evento agradável após a realização de um comportamento indesejável. » Diminuição da frequência do comportamento. Fonte: Elaboração própria da autora. O senso comum costuma se referir ao sujeito da Teoria Comportamental como uma tábula rasa. Isso porque o ser humano só se torna um indivíduo à medida que adquire ao longo da vida um variado repertório de comportamentos. Quando nasece, é apenas um organismo. À medida que estabelece relações mais complexas com o meio ambiente, vai modificando e aumentando seu repertório comportamental, a partir de reforçadores presentes em cada situação. Isso quer dizer que nossa resposta depende de inúmeras possibilidades apresentadas em cada situação, em cada ambiente que se apresenta. Mesmo que uma resposta possa ser a mais previsível, ela dependerá (positiva ou negativamente) dos reforçadores apresentados. Atenção Os termos “positivo” e “negativo” são usados para se referir à ausência ou à presença de estímulos, e não a valores como “bom” ou “ruim”. O conceito está ligado a termos matemáticos de adição e subtração. 26 CAPÍTULO 2 • ESCOLA COMPORTAMEnTAL Skinner afirmava que devemos entender – e atender – cada diferença individual, apresentando reforços adequados a cada indivíduo. Somente assim seria possível garantir o melhor desempenho de cada um. Skinner propôs uma nova sociedade, substituindo suas regras tradicionais pela Teoria do Reforço! Behaviorismo cognitivo Na década de 1960, os estudiosos estavam muito insatisfeitos com a prática comportamental por não considerar os fatores cognitivos como importantes, ou mesmo fundamentais, para compreensão e tratamento de questões mais complexas como ansiedade e depressão. A partir daí, as pesquisas avançaram, incorporando processos cognitivos aos modelos comportamentais clássicos, gerando o que muitos estudiosos da área classificam como “revolução cognitiva”. Atualmente, a abordagem cognitivo-comportamental é utilizada na maioria das desordens mentais encontradas. Sendo assim, a sucessora da prática behaviorista, a cognitivo-comportamental, considera que os problemas psicológicos podem ser compreendidosem termos de sistema de respostas intercalados: cognitivo, afetivo, fisiológico e o comportamental. Para os adeptos dessa “revolução”, o modo como uma pessoa percebe seu ambiente é seletivo e depende de um conjunto de regras e crenças adquiridas no desenvolvimento dessa pessoa. As reações cognitivas influenciam e são influenciadas pelas reações afetivas, fisiológicas e comportamentais. Assim, nas desordens de ansiedade e na depressão, por exemplo, o indivíduo percebe e avalia a situação de forma distorcida, tendenciosa (distorção cognitiva), propiciando a ocorrência de afetos desagradáveis (angústia, desânimo etc.), de reações fisiológicas correspondentes (sudorese, taquicardia, tonteira, fraqueza etc.) e de comportamento (bloqueio, colapso, tremor, fuga, evitação etc.), que acabam confirmando as hipóteses negativistas acerca de uma situação e da autoimagem. Com base no que foi visto até agora, podemos perceber claramente as diferenças existentes entre os behavioristas e os cognitivistas. A primeira diferença parece estar no nível de rigor científico, ou melhor, do que se entende por científico. Para os behavioristas radicais, aceitar o uso da palavra “cognição” seria aderir a uma postura dualista, constituindo um sério problema metodológico. Seria retroceder ao que eles mais criticavam nas teorias, como a psicanálise, chamadas de mentalistas. 27 ESCOLA COMPORTAMEnTAL • CAPÍTULO 2 Volta-se a se falar de “processos mentais” que, segundo essa visão, não são observáveis, portanto, não devem ser considerados enquanto método científico. A referência às reações cognitivas como “comportamentos encobertos” foi uma estratégia brilhante de Skinner que estendeu o modelo operante à compreensão de fenômenos mais complexos. Já os cognitivistas-comportamentais também consideram as cognições como um sistema de respostas, mas não de uma forma tão compromissada com contingências e com termos precisamente impostos. Embora preocupados com validade empírica e expressão de conceitos operacionais, não são tão rigorosos do ponto de vista científico. Outra diferença encontrada entre cognitivistas e behavioristas está na ênfase dada às contingências ambientais e às cognições. Enquanto os behavioristas radicais enfatizam a determinação ambiental na compreensão dos comportamentos (abertos e encobertos) do indivíduo, os cognitivo-comportamentais priorizam os processos cognitivos, considerando que o homem reage a um ambiente percebido e não a um ambiente real. Percebemos, ao final deste tópico, que a abordagem cognitivo-comportamental se aproxima bem mais da visão do ser humano integral, repleto de dimensões, que exploramos no primeiro capítulo. Críticas ao Behaviorismo Desde o seu desenvolvimento até os dias atuais, o behaviorismo constitui uma das mais influentes teorias da psicologia, no entanto ele não é o único modelo de estudo psicológico e existem diversos críticos de seus métodos e conclusões. Contudo, se fizermos uma análise detalhada das críticas empregadas a essa abordagem, verificaremos que há falta de informação sobre os avanços obtidos ao longo do tempo. A maioria das críticas falam da abordagem clássica, de Pavlov e Watson. Skinner, por ser, talvez, o teórico mais conhecido, acaba sendo criticado sem que se compreenda a evolução feita por ele na teoria behaviorista. Inclusive, o termo radical empregado (Behaviorismo radical) fala, justamente, da radicalidade contra a abordagem clássica. A crítica mais vista nos meios acadêmicos acusa o behaviorismo de ser reducionista e de tratar o homem como uma máquina, desprovida de pensamento, que somente responde a estímulos ambientais. Contudo, isso é uma postura claramente do behaviorismo clássico de Watson. Skinner afirma que os homens agem sobre o mundo, modificando-o e, por sua vez, são modificados pela consequência de sua ação. Ou seja, sua teoria não se apoia unicamente no conceito de comportamento respondente, adotando o conceito de condicionamento operante. 28 CAPÍTULO 2 • ESCOLA COMPORTAMEnTAL A partir do behaviorismo radical, o homem não é mais visto como um indivíduo que responde, apenas, a estímulos do ambiente. Aqui, o ser humano age no mundo modificando-o e sendo por ele modificado. O condicionamento operante, e seu método de reforço e punição, mostra ao sujeito que seu comportamento tem consequências. A partir dessa constatação, um comportamento pode ser mantido, melhorado ou extinto. Cabe ressaltar que não se trata de um modelo determinista e sim probabilista. Ou seja, não há a certeza de que um comportamento, que apresente consequências satisfatórias, voltará a ocorrer. O que se espera é que, se isso ocorrer, haverá uma probabilidade maior desse comportamento se repetir. Mais uma prova de que o comportamentalismo não trata do indivíduo como robô é a afirmativa de Skinner de que o que é satisfatório para uma pessoa pode não ser para todos. Assim também ocorre com as punições. Skinner via o Homem como produto da filogênese (história de sua espécie), da ontogênese (sua história individual) e da cultura. Considerar filogênese, ontogênese e cultura, para Skinner, diferencia os gostos e valores de cada indivíduo, visto que as pessoas têm histórias de vida diferentes. Isso nos leva à maior crítica, quando falamos da Escola Comportamental: a de que ela não leva em consideração a subjetividade. Falam que ela nega a existência de sentimentos, sensações e outros processos mentais. O que Skinner dizia é que a subjetividade e o pensamento não são passíveis de observação; logo, não dá para se basear neles para produzir ciência. O behaviorismo radical não nega a possibilidade da auto-observação ou do autoconhecimento ou sua possível utilidade, mas questiona a natureza daquilo que é sentido ou observado e, portanto, conhecido. Restaura a introspecção, mas não aquilo que os filósofos e os psicólogos introspectivos acreditavam “esperar”, e suscita o problema de quanto do nosso corpo podemos realmente observar. Contribuições da escola comportamental à educação “A escola pública foi inventada para oferecer os serviços de um tutor particular a mais de um estudante ao mesmo tempo. Como o número de estudantes aumentou, cada um necessariamente passou a receber menos atenção. No momento em que o número atingiu a marca de 25 ou 30 alunos, a atenção pessoal tornou-se esporádica, se tanto. Os livros foram inventados para fazer uma parte do trabalho do tutor, mas eles não podem fazer duas coisas importantes . Eles não podem, assim como o tutor, avaliar imediatamente o que cada estudante disse e nem dizer-lhe exatamente o que deve fazer em seguida. As máquinas de ensino e os textos programados foram inventados para restabelecer essas características importantes da instrução tutorial” . (Skinner, Ciência e Comportamento Humano”, 1954) 29 ESCOLA COMPORTAMEnTAL • CAPÍTULO 2 Os estudos behavioristas trouxeram grandes influências para a área da educação. Para John Watson, a educação consiste em um dos principais elementos transformadores quanto ao comportamento dos indivíduos, sendo possível “moldar” o comportamento das crianças de modo que elas possam, futuramente, exercer adequadamente uma profissão. Skinner apostava na promessa de reforço para que o aluno progrida. O reforço negativo, caso o aluno se comporte de forma indevida, ou o reforço positivo, quando o aluno passa a se comportar de maneira adequada. Ele trouxe algumas propostas psicopedagógicas para a sala de aula: » Apresentações das informações em pequenas etapas (para que possa haver controle de cada avanço da aprendizagem). » Exigência de participação ativa do aluno (resposta) através de um sistema de avaliação ancorado na reprodução da resposta. » Reforço imediato à resposta, no sentido de um feedback indicando acerto ou erro. » Autocontrole por parte do aluno (isto é, o aluno que responde corretamente às questões pode passar a módulos posteriores). Skinner apoiava as avaliações como metodologiaque supervaloriza o acerto, buscando a incidência de erro igual a zero. Ou seja, via a avaliação como um sistema de reforço, afirmando, inclusive, que a aprendizagem não acontece como resultado de penalidade. Para que haja controle na tríade estímulo – resposta – reforço, acreditava que tanto a aprendizagem como a avaliação devem ser feitas da seguinte maneira: » A apresentação do conteúdo deve ser feita em itens sequenciais curtos. » Os alunos devem responder a uma resposta de cada vez. » Os alunos devem dispor do tempo necessário para responder. » As questões não devem ser puladas. A sequência é um importante fator para o desencadeamento da aprendizagem. » As perguntas devem ser simples, para que os alunos cometam poucos erros. Cabe ressaltar que as avaliações servem muito mais como reforçadores do que como um instrumento de aferição escolar. É um treinamento para melhoramento do rendimento. » As sequências devem ser encadeadas em progressão racional. Seguindo essas sugestões, o aluno é levado, gradualmente e logicamente, a um domínio cada vez mais completo do assunto. 30 CAPÍTULO 2 • ESCOLA COMPORTAMEnTAL Atualmente, tanto o condicionamento clássico quanto o operante são utilizados para uma variedade de propósitos por professores, pais e psicólogos. Contudo, percebemos uma maior utilização de técnicas de condicionamento operante para reforçar a aprendizagem. Esse envolve punições e recompensas, que podem ser feitas por um professor, por exemplo, oferecendo um elogio como recompensa por um trabalho bem feito ou uma lição extra como punição por não fazê-lo bem. O condicionamento clássico não pode ser utilizado tão diretamente, mas muitas vezes pode funcionar, juntamente ao condicionamento operante, para reforçar a aprendizagem. Por exemplo, se o ambiente geral na sala de aula é de elogios e é, também, prazeroso durante a aprendizagem, se as aulas são realizadas de maneira dinâmica, se os alunos se identificam com o professor, o educando associará esse prazer com a aula em específico, sendo mais propenso a participar e, consequentemente, aprender. Em contrapartida, alunos que associam situações ameaçadoras ou temerosas com experiências em sala de aula podem ter mais dificuldades. Por exemplo, muitas vezes os alunos associam testes de matemática à ansiedade e à pressão de uma prova. Mesmo mais velho, o aluno pode ter respostas autonômicas, como o suor e o aumento da frequência cardíaca, simplesmente quando pensa em fazer uma prova ou quando é confrontado com problemas difíceis de matemática. Outro bom exemplo é quando um aluno tira uma nota baixa e acredita ser “burro”. A partir desse reforço, ele passa a ir mal em todas as provas, acreditando não conseguir aprender. Cientes dos efeitos do condicionamento clássico na ansiedade motivada por uma prova, os professores devem criar um ambiente de aprendizagem e de prova que reforce a sensação calma e de foco. Quando o aluno, ao longo do tempo, faz provas em um ambiente positivo sob pouca pressão, a reação classicamente condicionada tornar-se extinta e desaparece. É impor tante lembrar que, ao contrár io do condicionamento operante, o condicionamento clássico não pode ser suprimido apenas por força de vontade. As reações ligadas ao condicionamento clássico são involuntárias. É possível suprimir comportamentos, mas não os impulsos associados a eles. Por exemplo, se um professor usa doces para reforçar as respostas corretas positivamente, os alunos associarão o sucesso com o gosto do açúcar. Se em seguida o professor parar de usar doces, mesmo que explique o motivo da mudança, os alunos provavelmente ainda ansiarão pelo açúcar ao darem respostas positivas. 31 ESCOLA COMPORTAMEnTAL • CAPÍTULO 2 Sintetizando Vimos até agora: » A psicologia Objetiva de Pavlov em oposição a Psicologia Mentalista, vigente em sua época. » O conceito de Reflexo Condicionado de Pavlov. » O Behaviorismo Clássico de Watson e a psicologia do Estímulo-Resposta (Condicionamento Clássico). » O Behaviorismo Radical de Skinner e o conceito de Condicionamento Operante. » A evolução ao longo do tempo da Escola Comportamental. » As implicações da Escola Comportamental na aprendizagem. » A influência do Behaviorismo na Educação. 32 Introdução do Capítulo Neste capítulo, conheceremos um dos maiores ícones do século XX, Sigmund Freud, que nos deixou como legado a Teoria Psicanalítica. Conheceremos um conceito inovador e fundamental para entender o sujeito da aprendizagem, o Inconsciente. Abordaremos sua teoria da personalidade e refletiremos sobre as fases do desenvolvimento psicossexual, base da teoria psicanalítica freudiana. Te convido, caro aluno, a fazer uma viagem ao tão falado, mas ao mesmo tempo desconhecido, inconsciente humano. Saber que não somos senhores absolutos dos nossos pensamentos e das nossas ações é intrigante, fascinante e desafior. Entender cada fase do desenvolvimento sob o viés do que não percebemos “a olho nú”, mas que influencia todo nosso percursso é a proposta deste capítulo. Perceber que nossos alunos são regidos por forças que eles próprios desconhecem nos faz ter outra visão do processo de construção de conhecimento. Objetivos » Desvendar os conceitos de Consciente e o Incosciente. » Conhecer as estruturas da personalidade: Ego, Id e Superego. » Identificar, reconhecer e compreender o desenvolvimento psicossexual e suas fases. » Promover estratégias adequadas a cada fase da criança para seu desenvolvimento e aprendizagem. 3CAPÍTULOFREUD E A PSICAnáLISE 33 FREUD E A PSICAnáLISE • CAPÍTULO 3 Conhecendo sua história Figura 6. Freud e a Psicanálise. Fonte: <https://zahar.com.br/blog/post/livros-de-psicanalise-com-desconto-no-aniversario-de-freud>. Acesso em: 16/4/2019. No capítulo anterior, buscamos entender o sujeito em suas três dimensões, cognitiva, afetiva e relacional. Entendo ser importante buscarmos compreender todo e qualquer indivíduo com quem nos relacionamos de forma integral, por isso, acredito ser relevante não só buscarmos a compreensão dos nossos alunos, enquanto sujeitos únicos, constituídos por três dimensões, mas também compreendermos o processo de ensino-aprendizagem dos teóricos que influenciam a nossa maneira de agir com nossos alunos. Comecemos, então, por esta pessoa fantástica que deixou como legado para a posteridade um dos maiores marcos do século XX: a psicanálise. Sigmund Freud nasceu em 6 de Maio de 1856, em Freiberg, Moravia. Viveu a maior parte de sua vida em Viena, Áustria. Como era judeu, Freud encontrou grandes dificuldades em sua vida e, como era de imaginar, seus estudos foram comprometidos pelo momento que vivia. Contudo, sua demora em concluir a faculdade de medicina, em 1881, não se deve às suas dificuldades pessoais. Sua grande curiosidade científica levava-o a acompanhar cursos de grandes cientistas e pensadores da época. Adorava o curso de Filosofia, lecionado por Brentano. Acompanhou tais aulas por três anos, possibilitando a Freud dar uma base bem humanística para sua teoria psicanalítica. Também é fato que Freud não se interessou muito pela medicina prática, preferindo o campo da pesquisa e do ensino. A Neurologia foi a única área da medicina que lhe despertou desejo. Contudo, após se formar e com a perspectiva de um casamento, foi impelido a deixar seus projetos acadêmicos para depois e investir na clínica médica. Dedicou sua prática à Psiquiatria. Depois de anos, concluiu que os conhecimentos existentes sobre o tema não davam conta da complexidade dos pacientes psicóticos. Deslizou, então, sua prática para a dermatologia, dedicando-se ao estudo da sífilis e de várias moléstias do sistema nervoso. Entre as décadas de 1880 e 1890, Freud se fixa como neurologista. Dissertou sobre diversos campos do conhecimento, tornando-se um neurologista de renome. Sua dedicação culminou 34 CAPÍTULO 3 • FREUD E A PSICAnáLISE em um trabalho sobreparalisia cerebral infantil, que lhe assegurou um lugar histórico na medicina. Seu interesse pela psiquiatria, que estava adormecido, despertou e Freud ganhou uma bolsa para estudar com Martin Charcot, em Paris. Ele havia trazido, novamente, ao cenário da psiquiatria, o método da hipnose para pacientes histéricas. Defendia a ideia de que, através da hipnose, era possível eliminar temporariamente as manifestações dos sintomas histéricos, bem como introduzir um novo sintoma. Da observação, estudo e prática com Charcot, Freud descobriu que os fenômenos histéricos eram frutos não de causas físicas, como uma lesão neural, mas manifestações de um processo sugestivo, como na hipnose. Apesar de Freud ter abandonado, posteriormente, o método hipnótico e as contribuições de Charcot, essas serviram como base para a teoria psicanalítica. Isso porque os processos sugestivos e os sintomas de doenças mentais sedimentarão a ideia de que existem processos inconscientes, que são determinantes para a constituição do sujeito. Apesar da grande contribuição de Charcot para a psicanálise, foi Josef Breuer, médico vienense, que também se utilizava da hipnose para tratar suas pacientes histéricas, o grande colaborador do início da teoria psicanalítica. Isso porque, uma paciente histérica de Breuer se tornou o primeiro caso clínico da teoria Psicanalítica. Ela havia se curado de seus sintomas histéricos pela fala, após reconstituir cenas traumáticas de seu passado, esquecidos há tempos de sua consciência. O método de eliminar os sintomas, recordando cenas traumáticas passadas, ficou conhecido como Método Catártico. Freud e Breuer atuaram juntos por muitos anos, a partir da elaboração do Método Catártico. A ruptura da parceria só se deu com a elaboração da teoria da sexualidade de Freud. A partir daí, Freud voou. Construiu, ao longo de cinquenta anos, uma linda e complexa teoria. Saiba mais Alguns trabalhos são os organizadores centrais da teoria psicanalítica. São eles: » Os estudos sobre a histeria. In: Obras completas. Vol.II– 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago, 1989. » A interpretação dos sonhos. In: Obras completas. Vol.II– 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago, 1989. » Psicopatologia da vida cotidiana. In: Obras completas. Vol.VI– 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago, 1989. » Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Obras completas. Vol. VII– 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago, 1989. » Os três casos clínicos (O Pequeno Hans, O “homem dos ratos” e O caso Shereber). In: Obras completas. Vol. VIII– 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago, 1989. » Os instintos e seus destinos. In: Obras completas. Vol. XI– 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago, 1989. » Mais além do princípio do prazer. In: Obras completas. Vol. XVIII– 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago, 1989. » O Ego, o Id e seus destinos. In: Obras completas. Vol. XIX– 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago, 1989. » Inibição, sintoma e angústia. In: Obras completas. Vol. XIX– 2ª edição. Rio de Janeiro: Imago, 1989. 35 FREUD E A PSICAnáLISE • CAPÍTULO 3 O Inconsciente e suas implicações na aprendizagem Você já ouviu falar do inconsciente? Esse é um conceito, elaborado por Freud, que hoje já é aceito, tanto pela comunidade científica e acadêmica, como pela sociedade de modo geral. Contudo, esse foi um conceito muito polêmico, sobretudo na época em que foi concebido. O próprio Freud fala que é natural rejeitarmos a ideia de que somos dominados por processos psíquicos que desconhecemos. A descoberta do inconsciente tira do homem o domínio de sua própria vida. Na teoria da personalidade, de Freud, o inconsciente é visto como um reservatório de sentimentos, pensamentos, impulsos e memórias que não são acessados pela nossa consciência, são “esquecidos”, ou recalcados, como diria o próprio autor. Isso porque os conteúdos inconscientes são inaceitáveis ou desagradáveis, trazem sentimentos conflitantes, de dor ou de angústia. Tais sentimentos, desejos e emoções são entendidos como ameaçadores e, por isso, são reprimidos e mantidos fora da consciência. Contudo, apesar de parecerem adormecidos, tais conteúdos influenciam todos os nossos comportamentos e experiências, mesmo que não nos demos conta das suas influências e consequências. Para refletir Figura 7. Inconsciente e o Iceberg. Fonte: <http://www.novoequilibrio.com.br/ver_topico.php?Tipo=25&Cod=148&w=1366>. Acesso em: 15/4/2019. A imagem, aqui ilustrada, faz uma analogia bem interessante sobre a estrutura do inconsciente. Como se sabe, os icebergs são blocos de gelo que flutuam sob águas geladas, deixando, apenas, 10% de seu volume para fora da água. Ela nos apresenta uma consciência como se fosse a ponta do iceberg. Tudo que está submerso é aquilo que não conseguimos acessar, mas que exerce forte influência em quem somos e que, como não são vistos “a olho nu”, tendem a trazer inúmeros transtornos, de ordem física e emocional. 36 CAPÍTULO 3 • FREUD E A PSICAnáLISE Baseado em seus estudos sobre a histeria, Freud criou o método da associação livre, para trazer esses sentimentos recalcados no inconsciente à consciência. Isso porque a psicanálise diz que a recordação trazida à tona, através da fala, à consciência, produz uma descarga de emoções reprimidas, fazendo com que o sintoma desapareça. Já entendemos que sentimentos, desejos e emoções são recalcados em nosso inconsciente, buscando evitar sofrimento, angústia ou dor para o sujeito, certo? Agora, precisamos saber como os eventos geradores de angústia e sofrimento são, constantemente, afastados da percepção consciente. Estes processos psíquicos são chamados de mecanismos de defesa. Comecemos, então, esclarecendo que eles são processos inconscientes. Ativado por uma angústia, o sujeito desencadeia, diante do sinal de perigo, uma série de mecanismos repressores que impedirão a vivência de fatos dolorosos porque o organismo não está preparado para suportar. Cabe ressaltar que, tanto o evento doloroso, como seus mecanismos de defesa são processos inconscientes e, portanto, não perceptíveis ao sujeito. E o que o inconsciente tem a ver com a aprendizagem? Vou além na nossa reflexão, perguntando-lhes o que o inconsciente nos fala sobre o processo de ensino- aprendizagem? Precisamos entender que esse processo se dá, justamente, na troca entre dois sujeitos: o aluno e o professor. O aluno é composto não só pela sua dimensão cognitiva, mas também pela relacional e afetiva. Logo, ele será influenciado por seu inconsciente, por seus desejos, sentimentos e emoções recalcados. Mas e o professor? Ele também não tem seus desejos, sentimentos e emoções recalcados, influenciando o processo de ensino – aprendizagem? Será que as dificuldades de aprendizagem dos alunos não esbarram, justamente, em mecanismos de defesa inconscientes, tanto do aluno quanto do professor? Termino este tópico, reforçando a ideia de que o sujeito é regido pelo seu cognitivo, suas relações sociais e pelo seu afeto, seja ele consciente ou não! Importante Para Freud, a aprendizagem se estabelece na relação entre alguém que ensina e alguém que aprende, sendo a transferência a força motriz desse processo. Segundo Laplanche e Pontalis (1998, p. 514), transferência: “(...) designa em psicanálise o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica. Trata- se, aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com um sentimento de atualidade acentuada.” Laplanche e Pontalis - Vocabulário de Psicanálise, São Paulo: EPU,1998 p. 514 37 FREUD E A PSICAnáLISE • CAPÍTULO 3 Estruturas da personalidade Figura 8. A Trindade da Mente Humana. Fonte: https://www.jrmcoaching.com.br/blog/ego-id-e-superego/>. Acesso em: 12/4/2019. Após entender e explicar os conceitos inovadores de consciente e inconsciente, algumas perguntas ainda pairavam na mente de Freud. Entendido que uma força repressora bloqueavasentimentos traumáticos, restava, agora, entender de onde vinha tal força. A primeira hipótese, de que o consciente era o fator desencadeante da repressão não fazia muito sentido, visto que o consciente não tem acesso aos conteúdos inconscientes. Então, como explicar este processo? De onde partia a repressão? Seria consciente, inconsciente ou ambas? Em 1920 há a grande virada da psicanálise, quando os conceitos de consciente e inconsciente dão lugar ao modelo da estruturação da personalidade: Ego, Id e Superego. Id Freud nos diz que o Id é o reservatório de energia do indivíduo. Desde o nascimento, somos impulsionados por uma fonte de energia que nos mobiliza em direção ao mundo, buscando satisfazer nossas necessidades durante todo o nosso desenvolvimento. Para que a necessidade seja satisfeita, é preciso que o organismo tenha um objeto que corresponda a essa necessidade. É através desses objetos que são estabelecidas relações afetivas com o mundo. 38 CAPÍTULO 3 • FREUD E A PSICAnáLISE Nos primórdios da psicanálise, vimos que Freud definiu o inconsciente como o conjunto de desejos reprimidos e as relações que esses desejos estabelecem com o mundo interno e externo, não é mesmo? Pois bem, este conceito de inconsciente é abarcado pelo do Id, no novo modelo de estruturação da personalidade. Mas o Id está para além, na medida em que ele também é a fonte de energia psíquica e o gerador das imagens (seio, por exemplo) que organizam a canalização dessa energia. O id tem como uma de suas características principais o funcionamento pelo princípio do prazer. Ele busca a satisfação imediata das necessidades. Para o Id, não há contradição, ou seja, dentro de uma lógica, a do prazer, podem estar presentes desejos e fantasias que, a princípio, parecem excludentes. Ego Em seu texto “O Ego e o Id” (1923), Freud coloca o Ego como a instância psíquica que serve de intermediária entre o desejo e a realidade. Afirma, também, que o Ego é, acima de tudo, corporal, ou seja, biológico. Esse é o ponto em que Freud e Piaget têm pensamentos similares. Ambos acreditam que há uma formação instintiva inicial que se desdobra em estruturas mais sofisticadas a partir do momento em que o sujeito vai construindo sua realidade. Ao contrário do Id, que é regido pelo princípio de prazer, o Ego, diante do desejo, se mobiliza para que ele seja satisfeito pela realidade. Isso quer dizer que o Ego funciona a partir do Para refletir Um bom exemplo para pensarmos sobre essa fonte de energia, que nos mobiliza para o mundo, através de objetos que saciam nossas necessidades, que nos trazem satisfação e prazer, é a relação estabelecida com o seio materno. Quando o bebê está com fome, ele é impulsionado ao seio da mãe (objeto de prazer). Quando a criança fantasia a imagem do seio para a sua satisfação, não é só sobre fome que estamos falando. Também é trabalhada a ligação afetiva com este seio, a construção da figura da mãe, as relações de bom e mau estabelecidas, a adequação do processo mãe – criança, a confiança no mundo exterior etc. (RAPAPPORT, 1981p. 21) Figura 9. Amamentação. Fonte: <https://bebe.abril.com.br/amamentacao/mae-e-solicitada-a-parar-de-amamentar-o-filho-na-uti/>. Acesso em: 12/4/2019. 39 FREUD E A PSICAnáLISE • CAPÍTULO 3 princípio da realidade. É ele quem dá o juízo de realidade. O Id é da ordem do desejo, do querer, independentemente se esse desejo é possível, ou não, de ser satisfeito. O Ego também parte do desejo, porém a partir da imagem construída, aqueles objetos de desejo criados pelo sujeito, que estabelecem as relações afetivas com o mundo, ele constrói na realidade caminhos que lhe possibilitem saciar sua necessidade. Uma característica importante, no que tange à aprendizagem, é que todas as funções lógicas do funcionamento mental são atribuições do Ego, incluindo a memória e o desenvolvimento do pensamento logico e operatório. Ou seja, é o Ego quem se apresenta na escola, na figura do aluno. O tão falado “ofício do aluno” é executado por essa parte da psiquê. Cabe lembrar que o conhecimento epistemológico da construção da realidade é o foco da obra de Piaget. Para Freud, ao contrário, a organização dessas funções precisa ser entendida após sofrer as influências afetivas, tanto conscientes quanto inconscientes. Superego Essa é a instância psíquica responsável pela estruturação interna dos valores morais. Através do Superego, o sujeito internaliza as normas sociais e é capaz de discernir aquilo que é moralmente proibido e aquilo que deve ser valorizado e buscado. O Superego é fundamental para conseguirmos nos relacionar em grupos sociais, viver em sociedade. Se não fosse sua existência, estaríamos fadados à delinquência, obedecendo, apenas, aos limites externos. Ele é o responsável pela autocrítica, pela consciência moral e pela formação de ideologias. Porém, apesar de necessário para a convivência em grupo, quando ele se torna exagerado, tende a imobilizar ou mesmo adoecer o sujeito. Quando as exigências são muito altas, o sujeito passa a se sentir incapaz de cumpri-las. Se fizermos uma análise para a vida acadêmica, conseguiremos entender aquele aluno que se desinteressa do estudo, por passar a acreditar que é burro, que é menos capaz do que seus colegas. As fases psicossociais do desenvolvimento Para entermos cada fase do desenvolvimento, segundo a psicanálise, é preciso conhecermos alguns conceitos fundamentais da teoria. A libido, termo complexo, que sofreu grandes mudanças conceituais ao longo da construção da teoria de Freud, pode ser compreendida como a fonte original de energia afetiva que mobiliza o sujeito rumo aos seus objetivos. Ela é, portanto, uma energia voltada para a obtenção de prazer. Nesse sentido é que Freud dizia que a libido é uma energia sexual. É preciso entender que o termo sexualidade tem um conceito mais amplo na psicanálise. Ela abarca todas as evoluções das ligações afetivas 40 CAPÍTULO 3 • FREUD E A PSICAnáLISE estabelecidas desde o nascimento até a sexualidade genital adulta. Ou seja, a sexualidade na psicanálise é carregada de afeto, do afeto que é construído na troca com o outro, com o meio. O afeto nada mais é do que o vínculo prazeroso que se estrutura, independentemente das necessidades básicas. Sendo assim, por definição, todo vínculo de prazer é sexual ou erótico. A libido sofre progressivas mudanças em sua organização, ao longo do desenvolvimento humano, amparada por organizações biológicas emergentes de cada período da vida. Ela se organiza progressivamente em torno de zonas erógenas, caracterizando as três fases de desenvolvimento infantil – fase oral, anal e fálica –, uma fase de latência, sem novas organizações, e uma fase final de organização adulta, a fase genital. Fase oral Figura 10. Fase Oral. Fonte: <https://www.guiadobebe.com.br/crianca-que-leva-tudo-a-boca/>. Acesso em: 10/5/2019. Apesar desse estágio compreender o período de zero a dois anos, é necessário começarmos nossa narrativa na vida intrauterina. A relação estabelecida nesse período é caracterizada por uma relação simbiótica entre a mãe e seu filho. O feto respira e se alimenta atraves da mãe. Já há processos que acontecem dentro do útero, como se alimentar do que é necessário e excretar o que é prejudicial. A hora do nascimento traz grande angústia ao bebê. E não estamos falando, aqui, dos traumas físicos sofridos. Estamos falando de uma dor emocional, a dor da separação. Saiba mais O termo angústia, etimologicamente falando, significa “dificuldade para respirar”. 41 FREUD E A PSICAnáLISE • CAPÍTULO 3 Com o corte do cordão umbilical, corta-se, também, o transporte de oxigênio trazido da mãe. Nesse momento, trava- se uma luta pela sobrevivência. É preciso que o bebê reaja, respire: inspire e expire. É a primeira troca com o meio ambiente. Ou ele recebe o que é externo, dentro de si, ou não sobreviverá. A criança terá, necessariamente, que enfrentar o mundo. E e desse enfrentamento,dessa troca, dessa relação que ela terá a oportunidade de construir, passo a passo, estágio a estágio, suas relações afetivas e cognitivas. Respirar é apenas a primeira de várias etapas até a aquisição de sua identidade, marcando o início da independência humana. Dito isso, passemos para a fase oral, propriamente dita. Nessa fase do desenvolvimento, a estrutura sensorial mais desenvolvida é a boca. Através dela começamos a conhecer e a “provar” o mundo. É a partir dela que estabelecemos nossa primeira e mais importante descoberta afetiva, o seio materno. Figura 11. Relação Mãe-Bebê. Fonte: <http://cdn3.mamaeonline.com.br/wp-content/uploads/2013/12/amanetacao-o-que-nao-fazer-620x413.jpg>. Acesso em: 19/4/2019. Em um primeiro momento, o bebê ainda não consegue entender que o seio constitui aquele que vai se tornar seu maior objeto de afeto, a mãe. A figura da mãe vai se construindo, justamente, a partir da ligação afetiva que o recém-nascido estabelece com o seio. É seu primeiro objeto de ligação infantil, que lhe desperta amor, quando a fome é saciada, e o ódio, quando sente fome. Quando a criança bebe o leite, é o momento em que ela sente ter a mãe dentro dela. Surge o vínculo inicial entre o bebê e sua mãe. Já vimos, anteriormente, que a capacidade de formar um vínculo de prazer é o que permite formarmos nossa afetividade. Esse processo de constantes ligações emocionais começa, justamente, com o amor que a criança dirige ao seio. Posteriormente, o afeto passa a reconhecer a mãe, pai e outros objetos até constituir a afetividade genital adulta. Importante Freud percebeu que, para além da necessidade física de alimentação, a criança sente um grande prazer no ato de mamar. Neste momento, a libido está organizada em torno da zona oral. Ressaltamos que o conceito psicanalítico de fase pressupõe a organização da libido em torno de uma zona erógena. A fase é caracterizada por uma zona erógena alvo da libido. A da fase oral é a boca. 42 CAPÍTULO 3 • FREUD E A PSICAnáLISE Fase anal Figura 12. Fase Anal. Fonte: <https://www.padresyhogar.com/dejar-el-panal-como-ensenar-a-ir-al-bano-a-un-nino/>. Acesso em: 19/4/2019. Esta fase é denominada de anal porque a libido passa a se organizar sobre a zona erógena do ânus. Ela acontece entre 18 e 24 meses e perdura até os 3 anos de vida, aproximadamente. Esse é o momento da vida em que se dá a maturação da organização psicomotora básica. É o período em que a criança começa a andar, a falar e que começamos a controlar nosso esfíncter. Por isso, é marcada pelas conquistas de autodomínio e socialização. Momento em que começamos a manifestar a recusa. Quem nunca observou o NÃO tão falado nessa fase? Chega ao ponto de, quando um adulto pergunta se a criança quer água, por exemplo, ela balança a cabeça em sinal afirmativo, mas pronuncia o “não” satisfeita. Dois processos psicológicos se organizam nesse momento. O primeiro, fala das fantasias que o sujeito elabora sobre os primeiros produtos que, genuinamente, produzem as fezes. Pensem bem, é algo que vem de dentro do próprio corpo, que faz “parte” da criança, e que presenteia aos pais. Para refletir Desde que a criança nasce, nasce também a preocupação parental quanto às fezes de seu bebê. Passam pelo momento dos gases: os pais precisam massagear a barriguinha, fazer exercícios com as pernas para que sejam liberados. Há a preocupação se o bebê está ou não evacuando... Em seguida vem o temido desfralde. Vemos mães ensinando suas crianças a utilizarem o “troninho” e, quando a criança, enfim, consegue evacuar de maneira adequada, é elogiada, parabenizada. As fezes são recebidas com honrarias por toda a família! A criança passa a querer mostrar aos pais aquele objeto, aquela sua conquista, e é recompensada pelo seu esforço. Agora, imagine, por exemplo, um extraterrestre em visita à Terra. O que ele pensaria a respeito deste ritual? No mínimo, acharia uma loucura, não é mesmo? Outros exemplos podem ser citados como, já na fase adulta, observamos nossas fezes antes de dar descarga. E os banheiros, transformados em salão de estar, com música, revistas e, até mesmo, sofás? E as meninas, principalmente, que adoram ir ao banheiro acompanhadas de suas amigas? Um bom exemplo antropológico são as tribos que defecam em cima do tumulo de entes queridos em sinal de respeito. Já pararam para reparar que o odor de nossas fezes não nos parece tão ruim quanto para outras pessoas que o sentem? 43 FREUD E A PSICAnáLISE • CAPÍTULO 3 Todo esse ritual desenvolve na criança o sentimento de que coisas suas são boas e que ela pode apresentar, ou mesmo presentear ao outro. Assim como ela dá ao outro, ela também nega. O segundo processo diz respeito ao modelo de retenção nas relações estabelecidas com o mundo. Um exemplo deste comportamento é o andar ou falar. Quando a criança se sente amedrontada ou constrangida com a presença de um estranho, ela trava. Ou seja, se o ambiente lhe parece hostil, seus presentes são negados. Essa etapa é conhecida como retentiva, proporcionando a base para os mecanismos psicológicos ligados ao controle. Esses mecanismos são necessários e fazem parte da adequação do sujeito ao mundo. O sentimento de que o que produzimos é bom, de que o outro gosta deles, é necessário para construirmos relações produtivas saudáveis com o meio. Contudo, tais mecanismos fazem parte de uma etapa específica da vida. A questão surge quando um desses mecanismos se fixa, tornando-se o centro da organização afetiva, fazendo com que o sujeito desenvolva quadros psicopatológicos. Quando o desenvolvimento é normal, a cr iança sente-se amada pelos pais, presenteando-os com seus produtos, que são valorizados e entendidos como algo bom. Isso desenvolve no sujeito um sentimento de adequação e de mais valia. Assim, ele é livre e estimulado a produzir sempre mais. Freud associava o sucesso deste estágio ao aumento da capacidade artística No entanto, há aquelas mães que entram em pânico toda vez que o filho suja as fraldas. Ou aquelas que repreendem o filho quando “escapa” e a criança não faz suas necessidades no local que ELA acha adequado. Isso pode gerar angústia forte no que diz respeito às relações de amor. Pode trazer, também, sentimento de fracasso e desenvolver comportamentos paranoicos ou obsessivos no sujeito. Em relação à aprendizagem, podemos, agora, compreender melhor aquele aluno que não consegue produzir com eficiência suas atividades. Alunos que desistem frente ao novo, por acharem que não são capazes de realizar algo bom, algo que o outro vai valorizar. Podemos entender melhor o comportamento agressivo daqueles que introjetaram que seus produtos constituem armas destrutivas que agridem o mundo toda vez que são produzidos. Fase Fálica Figura 13. Fase Fálica. Fonte: <https://espelhopsicanalitico.wordpress.com/2016/06/30/a-fase-genital/>. Acesso em: 19/4/2019. 44 CAPÍTULO 3 • FREUD E A PSICAnáLISE Aos três anos, aproximadamente, a libido passa por nova organização sendo dirigida aos genitais. A criança passa a discriminar o feminino e o masculino, a partir da comparação entre esses orgãos. Freud nos diz que, nessa fase do desenvolvimento, o masculino e o feminino são caracterizados pela presença ou ausência do pênis. Ou seja, homens são marcados pela presença do falo e mulheres por sua ausência. A princípio, as crianças acreditam que o clitóris é o pênis feminino, e que ele irá crescer também. Quando elas percebem que, ao contrário, há uma ausência, meninos passam a ter medo da castração. Aqui se estabelecem conflitos nas relações interpessoais, pois o homem passa a ter medo de ser castrado. Já as meninas passam a ter inveja deste pênis, e suas relações são estabelecidas a partir do desejo de se ter o falo ou de compensar sua ausência no campo da fantasia. Figura 14. Medo da castração. Fonte: <http://psicoaulas.blogspot.com/p/freud.html>. Acesso em: 20/4/2019. Para refletir As crianças desta idade tendem a reproduziressa comparação, inclusive, em objetos. Você já observou uma criança de 3 ou 4 anos? Elas são capazes de pensar: o avião tem pipi? Ah, se não tem, é menina! Percebe que a pergunta é sempre se tem ou não tem pênis? Importante Vimos que, na fase oral, a criança tem a fantasia da incorporação do afeto através do seio. Incorporando, pela boca, o leite materno, se estabelece sua relação com o mundo. Na fase anal, a fantasia infantil está no campo do controle. Através de seu esfincter, a criança pode escolher a quem dar, ou recusar, seu produto de afeto, as fezes. Aqui, na fase fálica, a fantasia é a presença ou ausência do pênis. Sua tarefa básica é a construção da relação entre os homens e as mulheres. 45 FREUD E A PSICAnáLISE • CAPÍTULO 3 Já entendemos que na fase fálica a libido erotiza os genitais. A fantasia básica é fálica. Os genitais erotizados buscam a satisfação do desejo nos órgãos sexuais. Mas cabe lembrar, também, que estamos falando de fantasias infantis. A procura de parceiros para relações sexuais só acontecerá na fase genital quando já adultos. Aqui, o que é definido é o modo como as relações são constituídas. É uma etapa de socialização importante na vida do sujeito, pois estabelece a relação homem-mulher. A erotização genital cria a necessidade de satisfação no sexo oposto. É natural que os meninos busquem uma figura feminina para satisfazer sua fantasia. E, nada mais óbvio, que a mãe seja a representação dessa figura feminina aos olhos do menino. Essa relação construída será o suporte para as relações amorosas futuras. A partir desse vínculo afetivo, o sujeito constrói outros vínculos futuramente, formando, então, sua própria família. Isso significa que é aprendendo a amar em casa que o sujeito é capaz de amar o mundo exterior. Porém, entra em cena a figura paterna e um esquema repressor é instituído. Foi importante aprender a amar, mas a relação incestuosa é proibida e deve ser reprimida. O pai entra como a autoridade capaz de barrar tal relação. A autoridade paterna usará de sua força, de seu falo, para barrar o desejo incestuoso do filho pela mãe. Um sentimento de amor e ódio passa a ser dirigido ao pai. O menino passa a ter o desejo de eliminar o pai, estabelencendo, aqui, o que Freud chamou de Complexo de Édipo. Como, na fantasia infantil o pai é mais forte, dono da mãe, a criança passa a temer que o pai lhe castre, obrigando-o a reprimir sua atração sexual pela mãe. Dessa angústia de castração vem a resolução da crise edipiana. Duas consequências decisivas ocorrem na estruturação da personalidade do menino ao fim do Complexo de Édipo: o surgimento do superego e a confirmação de uma identidade sexual nascida por volta dos dois anos de idade e afirmada, mais solidamente, após o fim da puberdade. Ao renunciar aos pais como objeto sexual, incorpora-os como objetos do seu eu. Aí surge o superego: o sujeito renuncia à mãe, como parceira sexual, prometendo, inconscientemente, ser como eles em suas ambições, fraquezas e ideais. Provocação Aqui vale lembrarmos a poesia de Shakespeare “Você aprende”: “Com o tempo você descobre que há muito mais do seus pais em você do que você supunha”. Disponível em: <https://cemgrilos.blogspot.com/2006/12/william- shakespeare-voc-aprende.html>. Acesso em: 11/5/2019. Ou nosso saudoso Renato Russo em sua música Pais e Filhos: “Você culpa seus pais por tudo. Isso é absurdo! São crianças como você. O que você vai ser, quando você crescer”. 46 CAPÍTULO 3 • FREUD E A PSICAnáLISE Com essa repressão, encerra-se a fase fálica, possibilitando ao sujeito ingressar no período de latência. E nas meninas, como se dá esse processo? O Complexo de Édipo feminino é um dos temas mais controversos entre os continuadores da psicanálise. Desde que Freud falou sobre este complexo até os dias atuais, tem sido alvo de críticas e de releituras. O próprio Freud se posicionou algumas vezes, dizendo que lhe faltavam elementos confirmadores acerca da sexualidade feminina. As meninas também vivem a dicotomia falo/castração. Como vimos anteriormente, a menina também acredita que o clitóris é um pênis que irá se desenvolver a posteriori. Ela também valoriza o falo como objeto de prazer. É esse erro de percepção que mantém a menina na fase fálica. Dentro de seu grupo familiar, é o pai quem possui o objeto fálico. Sendo assim, a menina passa a dirigir sua afetividade para esse pai, símbolo de força e poder. Não há uma atração física, como acontece na relação da mãe com o filho, mas a busca por essa pessoa poderosa, fálica, representada na figura do pai. Quando fica claro para a menina o vínculo afetivo existente entre a mãe e o pai, a menina passa, então, a imitar a mãe em uma tentativa de atrair o pai. É a mãe quem sabe como conquistar o falo do pai, e é com ela que a menina deverá aprender como ter o sonhado pênis. Com isso, a menina passa a desenvolver sua feminilidade, introjetando os valores femininos passados pela sua mãe. Sendo assim, o Édipo nas mulheres é iniciado na descoberta de sua castração, mas perdura durante o período de latência. A identidade feminina e a organização da sexualidade são graduais, possuindo dois desfechos: a transição da libido do clitóris para a vagina e a vinda do filho. Freud acreditava que a solução do Complexo de Édipo é mais satisfatória com a vinda do filho homem, quando a mulher, em sua fantasia, obtém um pênis. Período de Latência Figura 15. Período de Latência. Fonte: <http://psicoaulas.blogspot.com/p/freud.html>. Acesso em: 19/4/2019. 47 FREUD E A PSICAnáLISE • CAPÍTULO 3 Esse período se inicia entre os 5 ou 6 anos de idade e perdura até 10 a 12 anos, aproximadamente. Após a dissolução do complexo de Édipo, com a repressão da energia sexual, a libido fica temporariamente deslocada de seus objetivos sexuais. Mas toda essa energia, essa libido, tem que ser canalizada para outra finalidade, já que ela não pode ser reprimida ou extirpada. Como os objetivos eróticos estão suspensos, temporariamente, ela é, então, dirigida para o desenvolvimento intelectual e social da criança. O mecanismo de defesa que permite o deslocamento da libido sexual para uma energia mobilizadora, Freud chamou de subilimação. Nesse momento, não há formação de novas modalidades de relações objetais, não há novas organizações quanto a estruturas afetivas também. Surge um sentimento de ternura no que tange às relações, substituindo a libido sexual. Surgem, também, aspirações morais e estéticas, bem como o pudor. Todos frutos da superação do Complexo de Édipo e da cristalização do Superego. Com o fim da fase fálica e todo o progresso no desenvolvimento afetivo construído nas fases oral, anal e fálica, a criança usa o período de latência para se preparar para o seu desenvolvimento em relação ao mundo exterior. Para que isso aconteça, ela precisa retirar sua libido das fontes sexuais para se dedicar a essas relações, já que conhecer não está mais ligado à obtenção imediata de prazer. Assim, a criança fica mais focada em resolver suas questões de socialização e o conhecimento epistemológico. Não por coincidência, o período de latência acontece, justamente, quando a criança ingressa na educação básica. Contudo, as questões que surgiram ao longo das fases anteriores e as evoluções emocionais inadequadas refletirão em sintomas, no período de latência, refletindo na socialização e no aprendizado da criança. Podemos encontrar, por exemplo, uma forte resistência ao aprendizado, um temor à aquisição de novos conhecimentos, transformando-se em uma incapacidade real para conhecer. Isso acontece porque, em períodos anteriores à escolarização, não há uma cobrança formal de conhecimento. A criança que já apresentava uma defasagem, sem que isso fosse percebido ou valorizado, será cobrada nas avaliações escolares, confirmando sua incapacidade para aprender. Em contrapartida, o pensamento escolar erotizado poderá criar grandes gênios em matemática exadrez, por exemplo, mas suas relações sociais poderão estar comprometidas, fazendo com que a criança, agora representada na figura do aluno, se isole em seus estudos. Esse quadro se agrava na entrada da adolescência, período marcado pela formação de grupos sociais. Quando há questões de defasagem evolutiva em fases anteriores, além das questões trazidas anteriormente, como a resistência ao aprendizado e a dificuldade de socialização, crianças que se afastam muito das ideologias parentais ou das normas sociais são vistas como “delinquentes”, apresentando comportamento agressivo, tanto com os colegas como com os professores, desafiadores ou de recusa, por exemplo, de realizar as tarefas impostas pela escola. Para essas crianças, é melhor serem conhecidos como maus caracteres do que serem consideradas burras ou incapazes. 48 CAPÍTULO 3 • FREUD E A PSICAnáLISE No período de latência, a criança começa a elaborar suas primeiras saídas reais em grupos sociais fora do âmbito familiar. Nas fases anteriores, a criança era sempre mediada por um adulto em suas relações sociais. Poucas eram as conquistas reais efetuadas. Elas não tinham acesso a grupos sociais com suas regras próprias, por isso as dificuldades e os conflitos não eram resolvidos sozinhos pelo grupo de crianças. Com a entrada na escola, isso muda radicalmente. Os grupos de amigos começam a se formar efetivamente. No começo, esses grupos, influenciados pela dissolução do Complexo de Édipo são compostos quase que exclusivamente por meninos ou por meninas. Em um segundo momento, os grupos começam a se constituir mais por afinidade do que por gênero, marcando, inclusive, o final do período de latência, na entrada da adolescência. Uma vez constituído o próprio grupo, o conflito pelo poder e pela liderança é estabelecido. Demostrações de força, inteligência e coragem começam a surgir, chegando, às vezes, a níveis de crueldade. Cada membro do grupo buscará stentar suas melhores habilidades em detrimento das qualidades dos outros. Não raro, observamos episódios de agressividade e segregação. Porém, em um grupo sadio, tudo isso acontecerá, mas, no fim, prevalecerá o espírito de união, camaradagem, proteção daqueles que eles julgam mais frágeis e de perseverança em busca de objetivos únicos. A fomação de um grupo de crianças também tem como objetivo a criação de uma fortaleza contra os adultos. Este é o momento em que o sujeito busca se afastar de seu núcleo familiar, na tentativa de construir a sua própria identidade. É perceptível que muitos dos comportamentos de bravura e enfrentamento são a tentativa de confrontar as regras de proteção impostas pelos pais. Mas, para aquela criança com um desenvolvimento tido como normal, apesar de todo o esforço e tentativa de camuflagem, os valores parentais sempre prevalecerão. Com a entrada na puberdade, a sexualidade, que permaneceu reprimida durante todo o período de latência, ressurge, dando início à fase genital. Fase genital Figura 16. Fase Genital. Fonte: <http://psicoaulas.blogspot.com/p/freud.html>. Acesso em: 19/4/2019. 49 FREUD E A PSICAnáLISE • CAPÍTULO 3 Durante as fases anteriores, o sujeito aprendeu a amar e a competir. Discriminou seu papel sexual e desenvolveu sua socialização e seu intelecto. Agora, ele entra no período das realizações. Certa vez, quando questionado sobre como definiria o adulto tido como normal, Freud respondeu que o homem é aquele capaz de amar e trabalhar. Alcançar a fase genital, para a psicanálise, significa atingir o pleno desenvolvimento do adulto normal. Esse estágio do desenvolvimento psicossocial se inicia com o começo da puberdade (11/12 anos) e termina com a aquisição a fase adulta. Nesse estágio, o sujeito busca o objeto sexual fora de si, almejando satisfazer suas pulsões sexuais com alguém do sexo oposto. A puberdade é um momento em que toda a fisiologia do sujeito se altera. É essa mudança abrupta e profunda endócrino-hormonal que permite uma abertura fisiológica de canalização da libido. Como vimos anteriormente, cada fase do desenvolvimento é marcada pela fixação da libido em um objeto de prazer. À medida que o sujeito alcança satisfação nesse objeto, a libido se afasta, buscando satisfação no objeto da nova fase que se aproxima. Assim, a libido que primeiramente investiu no seio, ou, para ser mais precisa, na representação psíquica do seio (fase oral), se instala depois nas fezes (fase anal), e ainda mais tarde no pênis (fase fálica). Essa nova composição acaba por personificar o modo de ser do sujeito, assim como suas relações específicas com o próprio corpo e, qualitativamente, suas interações relacionais sociais. Dessa forma, o sujeito supera o autoerotismo das fases anteriores, redirecionando sua energia libidinal a um objeto externo, ou seja, a outro indivíduo. Alcançando integralmente seu desenvolvimento psicossexual, o sujeito é capaz de amar e trabalhar. Essa é a configuração subjetiva apropriada do sujeito social. Ele surge da adaptação biológica, psicológica, intelectual e socialmente desenvolvidos a partir das experiências, vivências e interdições do mundo, sentidas por aquele sujeito único. Finalizamos afirmando que um adulto desenvolvido psicossexualmente é aquele que tem seu papel sexual determinado, capaz de compartilhar afeto, competente para produzir, com vínculos emocionais e sexuais maduros, expressivos, relevantes e perenes, com o objetivo de procriar e, assim, perpetuar sua biogenética subjetiva. 50 CAPÍTULO 3 • FREUD E A PSICAnáLISE Importante Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, Freud fala sobre a fase genital: “A diferença desta última reside apenas em que a concentração das pulsões parciais e sua subordinação ao primado da genitália não são conseguidas na infância, ou só o são de maneira muito incompleta. Assim, o estabelecimento desse primado a serviço da reprodução é a última fase por que passa a organização sexual.” (FREUD, 1905, p. 233) Sintetizando Vimos até agora: » O revolucionário conceito de Inconsciente e de Consciente. » As instâncias psíquicas – Ego, Id e Superego – e os conceitos de pulsão e libido. » A teoria do desenvolvimento psicossexual e suas fases: oral, anal, fálica, período de latência e genital. A teoria do desenvolvimento que nos ajuda a compreender sobre o vínculo com a aprendizagem de cada sujeito. 51 Introdução do Capítulo Neste capítulo, conheceremos um pouco da história de Jean Piaget, uma das principais influências no pensamento da Psicologia do século XX, possibilitando-nos refletir sobre o próprio processo de construção do conhecimento, que culminou na Epistemologia Genética. Abordaremos conceitos importantes para entendermos a teoria do desenvolvimento, como inteligência, hereditariedade, adaptação e esquemas, bem como a teoria da equilibração e refletiremos sobre os estágios de desenvolvimento humano. Objetivos » Ampliar a compreensão sobre o desenvolvimento humano na perspectiva da Epistemologia Genética. » Conhecer sobre o processo de aprendizagem. » Identificar, reconhecer e compreender as etapas de desenvolvimento lógico do nascimento até a idade adulta. » Promover estratégias adequadas a cada fase da criança para seu desenvolvimento e aprendizagem. Conhecendo sua historia Figura 17. Jean Piaget. Fonte: <http://mtmmrl.pbworks.com/w/page/25818078/Piaget>. Acesso em: 8/5/2019. 4 CAPÍTULO JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA 52 CAPÍTULO 4 • JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA Quem nunca ouviu falar de Piaget e de sua teoria do desenvolvimento humano, não é mesmo? Em todo este material, reforço a importância de entendermos o sujeito único, em todas as suas dimensões, para compreendermos como se dá o processo de aprendizagem em determinado indivíduo em particular. Sendo assim, que tal voltarmos nosso olhar para o processo que levou Piaget a desenvolver a sua teoria? A vida que precisa ser sonhada parece ter estado, desdemuito cedo, na certeza de Jean Piaget. Sonhada e realizada. Nascido em 1896, na Suíça, o precoce investigador, que aos 7 anos já revelava o desejo de saber, passaria grande parte dos 84 anos de sua existência mergulhado em estudos sobre a inteligência do homem. Considerado uma das principais influências no pensamento da Psicologia do século XX, ele criou um arcabouço teórico complexo e consistente, que ficou registrado em 70 livros e inúmeros artigos. Frutos esses, em grande parte, das investigações clínicas de Piaget, que aprimorou um método de entrevistas, inspirado na Psiquiatria, para utilizá-lo com crianças e buscar compreender seu objeto de estudo. Desde a tenra infância, Piaget já se interessava em assuntos relativos à biologia. Seu interesse foi crescendo à medida que se desenvolvia. Durante a adolescência, expandiu seu interesse em estudar assuntos da área de Filosofia, Religião, Biologia, Sociologia e Psicologia. Começou a esboçar algumas ideias que já indicavam o aparecimento de conceitos teóricos que iria desenvolver mais tarde, na fase adulta. Foi após concluir seu doutorado em Ciências Naturais, em 1918, que Piaget buscou conhecer mais profundamente, através de estudos e experiências, o campo da psicologia. Fez cursos na Sorbonne e observou práticas em uma clínica psiquiátrica. A partir daí, desenvolveu o que chamou de “método clínico”, característico de seu trabalho. Convidado por uma colega, trabalhou em um laboratório na padronização do teste de raciocínio de Burt em crianças. A Piaget não interessavam muito os aspectos normativos e psicométricos do teste, mas os processos mediante os quais a criança chegava às suas respostas, sobretudo, fascinavam-lhe as respostas incorretas. Assim, iniciou seus estudos de desenvolvimento infantil, cujo principal objetivo era a obtenção de dados para uma epistemologia sistemática e ampla, que lhe daria notoriedade nos anos seguintes. Na década de 1920, Piaget começou a estudar a teoria freudiana. Interessou-se, sobretudo, pela concepção psicanalítica do funcionamento cognitivo como oposto ao afetivo. Buscou Atenção Neste período, desenvolveu a convicção de que tanto as ações externas, como os processos do pensamento, admitem organizações lógicas e que essas surgem de uma espécie de organização dos atos. 53 JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA • CAPÍTULO 4 a relação entre a estrutura do pensamento inconsciente adulto com o pensamento consciente do adulto e da criança. Também aproveitou a teoria psicanalítica para interpretar alguns mitos infantis, quando estudou o artificialismo no pensamento da criança, na fase egocêntrica, que conheceremos mais adiante. Contudo, divergiu em muitos pontos com o que Freud pregava, abandonando tal teoria mais adiante. Entre 1940 e 1950, em colaboração com sua esposa, novos progressos na investigação de Piaget aconteceram a partir de uma série de estudos feitos na observação detalhada da conduta espontânea de seus próprios filhos. Tais observações foram fundamentais na coleta dos dados necessários sobre os fundamentos do desenvolvimento cognitivo a e organização das fases do desenvolvimento humano. Foi a partir desse estudo que Piaget realizou sua pesquisa sobre as propriedades estruturais do pensamento. Piaget utilizava um método de conversação livre com a criança sobre um tema específico, pedindo que ela justificasse sua resposta, explicando o porquê de seu pensamento. Tal método foi empregado exaustivamente por ele e seus colaboradores, juntamente com a pura observação. Entretanto, ao contrário da psiquiatria, que tem como alvo de estudo a psicopatologia, ou da psicanálise, que traz luz sobre os processos inconscientes, Piaget, desde cedo, faz uma opção clara e coerente: “.... preferindo sempre o estudo dos casos normais e do funcionamento do intelecto ao das malícias do inconsciente” (PIAGET apud DOLLE, 2000. p. 146). Quando paramos para pensar em toda a trajetória de Piaget, podemos dividir seus estudos em três grandes categorias. A primeira, investiga espaço, tempo, probabilidade, movimento etc. Publicou alguns livros, com seus colaboradores, sobre o emprego de tarefas quantitativas (constância de massa, peso e volume), como instrumento de diagnóstico destinado a provar a capacidade de pessoas com deficiência intelectual. Também foi a partir desses estudos que dissertou sobre o raciocínio adolescente, em que é feita uma análise teórica completa das operações concretas, formais e da relação entre as duas. Para refletir Certa vez, ao levar para minha terapia a angústia que eu vivia com algumas discordâncias na teoria psicanalítica, que me levavam a buscar novos referencias teóricos para minha prática profissional, minha analista disse uma frase que me marcou: “Uma vez conhecedor da psicanálise, para sempre seu olhar para o outro carregará essa marca.” Entender o funcionamento do inconsciente e sua influência na forma de agir e pensar de cada sujeito, de fato, muda nossa visão e, nossa perspectiva sobre a pessoa. Sendo assim, acredito que, mesmo abandonando a teoria psicanalítica, Piaget nunca poderia abandonar seu “olhar psicanalítico” em suas teorias. 54 CAPÍTULO 4 • JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA A segunda grande categoria de estudo refere-se à pesquisa sobre a percepção. Essa pesquisa foi mais bem fundamentada teoricamente do que aquela que tratava do desenvolvimento intelectual, pesquisada na primeira categoria. Cabe ressaltar que, até hoje, essa categoria continua sendo pesquisada, explorada e desenvolvida. A terceira categoria refere-se ao estudo sistemático, teórico e experimental dos problemas de epistemologia genética que, já em 1950, contava com três volumes publicados sobre o tema. Em 1955, Piaget fundou, em Genebra, o Centro Internacional de Epistemologia Genética, com a proposta de estudar problemas de natureza genético-epistemológica. Assim, nasce sua teoria, que veremos a seguir. Conhecendo sua teoria Epistemologia genética Na busca pelo conhecimento, Piaget criou e se dedicou ao que denominou de Epistemologia Genética. A Epistemologia é um ramo da Filosofia que se dedica a investigar o que é o conhecimento. Porém, Piaget visava a responder a uma pergunta muito mais empírica. Ele quis ir para além das hipóteses da esfera do pensamento, tão caras à Filosofia, e que tornam a epistemologia, ainda hoje, muitas vezes objeto de especulação pura. Piaget situou sua obra no campo da experiência científica. Ao falar de GENÉTICA, foge do sentido usual desse termo e põe em foco a gênese e a evolução do conhecimento. Sua maior preocupação, objeto de estudo, era o sujeito epistêmico, ou seja, aprofundou- se no estudo dos processos de pensamento que acompanham o sujeito desde a infância até a velhice. Falava sobre a necessidade de conhecimento, característico dos Homens. Este foi o diferencial de sua teoria. Correntes teóricas, que também dissertavam sobre o desenvolvimento humano, tais como a Psicanálise e o Behaviorismo, não abordavam a necessidade de conhecimento como inerente ao ser humano. Ele nos ensina que não há conhecimento predeterminado, nem na estrutura do sujeito, nem nas características preexistentes do objeto, já que o conhecimento é adquirido da interação entre sujeito e objeto. Saiba mais Epistemologia vem do grego ἐπιστήμη [episteme] – conhecimento, ciência; λόγος [logos] – estudo de, ou seja, estudo do conhecimento. 55 JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA • CAPÍTULO 4 As principais perguntas que acompanharam Piaget, ao longo de seus estudos, e que ele tentou responder foram: » Como se formam nossos conhecimentos? » Como os homens, sozinhos ou em conjunto, aumentam o conhecimento? » Por quais etapas? Uma vez que as crianças são seres que essencialmente constroem conhecimento, Piaget contou com elas para a sua investigação. Através da criança, mostrou que o ser humano está em um processo ativo e contínuo de interações, buscando explicar quais os mecanismosmentais que o sujeito utiliza em todas as etapas de seu desenvolvimento para construir seu conhecimento. Para Piaget, a adaptação à realidade externa depende basicamente do conhecimento Inteligência e a teoria da equilibração Não podemos, contudo, falar em construção do conhecimento sem compreendermos o que Piaget entendeu por inteligência. Esta foi definida por ele, segundo De La Taille, enquanto função e estrutura. Desse modo, os processos de inteligência têm por finalidade a ADAPTAÇÃO, permitindo a conservação e a sobrevivência: “(...) há adaptação quando o organismo se transforma em função do meio, e que essa variação tem por efeito um aumento das trocas entre o meio e o organismo, favoráveis a sua conservação” (PIAGET apud DOLLE, 2000. P. 49). Já enquanto estrutura, a inteligência é uma organização de processos. Quanto mais complexa for tal organização, mais superior é a inteligência. O crescimento desta não se dá de forma linear e pelo acúmulo de informações, mas por saltos, rupturas e pela sua reorganização. Na medida em que o sujeito reestrutura seu saber, ele supera esquemas e conhecimentos anteriores e ruma em direção a um melhor entendimento sobre o objeto. Importante Conceito de Interacionismo Piagetiano: é no contexto de uma interação entre o sujeito e o objeto que se situa a problemática, que se constrói um conhecimento. Sugestão de estudo Quer saber mais sobre a obra de Jean Piaget? Acesse: Vídeo: Coleção Grandes Educadores – Jean Piaget, em: <https:// www.youtube.com/watch?v=rRLukE2HGzA>. 56 CAPÍTULO 4 • JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA Hereditariedade Será que herdamos nossa inteligência? Para Piaget, o sujeito herda estruturas biológicas, sensoriais e neurológicas, mas não inteligência. Essas estruturas herdadas, que amadurecem em contato com o meio ambiente, resultarão em estruturas cognitivas que funcionarão por toda a vida do sujeito de maneira semelhante. Paremos, agora, para pensar o que entendemos por “meio ambiente”. O meio ambiente abarca aspectos físicos, como o local onde você mora – casa, bairro, cidade e país – por exemplo. Contudo, ele é constituído, também, por aspectos sociais, como comportamentos, conceitos e valores. Sendo assim, a criança precisará desenvolver sua inteligência para solucionar uma variedade de situações, para viver em um determinado ambiente social. Pensemos, por exemplo, se uma criança que nasce na Noruega precisará desenvolver as mesmas habilidades e competências de uma criança no Congo. Aquela que nasceu em uma família de artistas desenvolverá as mesmas habilidades que outra nascida em uma família de corredores de carros? A inteligência, portanto, não é herdada e sim construída e pressupõe uma mudança de qualidade, ao longo de toda a vida, passando por estágios. Estágios esses que, aliás, não podem ser pulados e que guardam – cada um em seu tempo – conceitos/ características universais, distinguindo-os e conferindo-lhes a identidade de cada etapa e que são fundamentais para a seguinte. Não obstante falaremos de tais estágios mais adiante. Por ora, vamos mergulhar um pouco mais em como se dá o processo de construção do conhecimento. Para isso, é fundamental considerarmos três importantes conceitos da obra piagetiana: ASSIMILAÇÃO, ACOMODAÇÃO e EQUILIBRAÇÂO. Teoria do esquema equilibração O termo “assimilação” – com toda a sua fundamentação – foi extraído da Biologia. Mas o que é assimilar? Em contato com um objeto de conhecimento, o homem extrai dele informações, incorporando-as a partir da e à estrutura preexistente: “(...) em todos os casos a adaptação intelectual comporta um elemento de assimilação, isto é, de estruturação por incorporação da realidade externa a formas devidas à atividade do sujeito” (PIAGET apud DOLLE, 2000, p. 59). Ou seja, assimilar é criar sentido, tendo como ponto de partida os conceitos formados anteriormente por aquele sujeito específico, tornando seus alguns elementos do mundo. Isso faz com que as coisas nunca sejam conhecidas em si mesmas, mas a partir do que aquele sujeito assimila delas. Nesse processo, informações ficam para trás em detrimento de outras mais complexas. 57 JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA • CAPÍTULO 4 Ora, a assimilação não pode ser pensada dissociada da Acomodação. Afinal, é preciso que o sujeito modifique suas estruturas mentais, reorganizando-as (acomodando-as) para açambarcar a singularidade do objeto. A Equilibração é justamente a estabilidade mental alcançada, quando aquilo do objeto que havia escapado à organização e provocado desequilíbrio se acomoda. Assim, a adaptação intelectual é o “(...) equilíbrio progressivo entre um mecanismo assimilador e uma acomodação complementar”, e a “(...) adaptação só se completa quando chega a um sistema estável, isto é, quando há equilíbrio entre a assimilação e a acomodação” (DOLLE, 2000, p. 59). Figura 18. Teoria da Equilibração. Fonte: <https://piagetvygostky.wordpress.com/category/jean-piaget/>. Acesso em: 15/4/2019. Agora, que já entendemos os conceitos de inteligência, assimilação, acomodação e equilibração, podemos voltar aos estágios do desenvolvimento da inteligência listados por Piaget. Esses dizem respeito a diferentes lógicas de pensamento, que são superadas radicalmente pela posterior em direção a uma inteligência sempre superior. Esses estágios são conhecidos como: » Sensório-motor (0-24 meses). » Pré-operatório (2-7 anos). Importante Dessa forma, a construção da inteligência se dá de modo dinâmico por um processo de desequilíbrio e equilibração presente ao longo de toda a vida do sujeito. 58 CAPÍTULO 4 • JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA » Operatório Concreto (7-12 anos). » Operatório Formal (a partir dos 12 anos). Estágios do desenvolvimento Sensório – Motor – 0 a 2 anos Figura 19 . Sensório-Motor. Fonte: <http://psicopedagogiacuritiba.com.br/fases-desenvolvimento-infantil-parte-2-estagio-sensorio-motor/>. Acesso em: 20/4/2019. Antigamente, acreditava-se que um bebê não tinha inteligência, já que não tem o instrumento da linguagem. Foi Piaget, com sua teoria, que mostrou ao mundo que crianças com idade entre 0 e 2 anos possuem, sim, inteligência. Só que essa é sem representações, sem fala, sem linguagem verbal. Ou seja, é uma inteligência prática, pautada na ação. Todo o conhecimento adquirido visa ao êxito e não à verdade. Falta à criança dessa idade a função simbólica. Assim, a construção do real se dá através da percepção e da ação. Por isso, esse estágio é chamado de Sensório (percepção) – Motor (ação). Há três conceitos básicos que Piaget utilizou para entendermos o processo de construção do conhecimento nesse período: 1. OBJETO: construção da noção de objeto. Nessa fase, a criança e o objeto são uma só coisa, indiferenciados. Outra característica importante é que para ela, a princípio, só existe aquilo que ela vê. 2. CAUSALIDADE: construção da consciência de relações entre causa e efeito. O sujeito já se percebe diferente do objeto, estabelecendo uma interação com ele. A causalidade introduz-se pela atribuição de operações lógicas nos objetos, ou seja, é a percepção de que nas interações do indivíduo com seu meio, há uma relação de causa e efeito. 3. NOÇÃO ESPACIAL: reconhecimento do objeto no espaço. No começo desse estágio, o bebê não tem noção de espaço. Ele só percebe os objetos em 2 dimensões. 59 JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA • CAPÍTULO 4 Segundo De La Taille (2003 p. 38), na obra piagetiana, “a criança nasce em um universo para ela caótico, habitado por objetos evanescentes (que desapareceriam uma vez fora do campo da percepção), com o tempo e o espaço subjetivamente sentidos e causalidade reduzida ao poder das ações, em uma forma de onipotência”. No recém-nascido, portanto, as funções mentais limitam-se ao exercício dos aparelhos reflexos inatos. Assim sendo, o universo que circunda a criança é conquistado mediante a percepção e os movimentos, como, por exemplo, nasucção e no movimento dos olhos. Progressivamente, ela vai aperfeiçoando tais movimentos reflexos e adquirindo habilidades. Assim, a criança chega ao final do período sensório-motor já se concebendo dentro de um cosmo “...com objetos, tempo, espaço, situando a si mesma como um objeto específico, agente e paciente dos eventos que nele ocorrem” (TAILLE, 2003 p. 42). Para o bebê recém-nascido o que é do seu corpo e o que é do meio exterior não se distinguem. Há, nessa fase, uma onipotência infantil. Tudo gira em torno da sua própria ação. Mesmo quando o bebê já começa a diferenciar o objeto de si, ainda demora a entender que as coisas são regidas por normas e regras próprias. Para a criança, as coisas acontecem como num passe de mágica e sempre atreladas a ela. Ainda não há a noção de causalidade. Outra característica importante dessa fase da vida é que não há construção do objeto permanente. Para o bebê, tal permanência é estabelecida apenas enquanto a ação está em curso. Tendo certos padrões prontos ao nascer (reflexo de sucção, preensão...) e pequena plasticidade em termos de adaptação ao meio, predominará a repetição dos comportamentos que possui. Essa repetição vai cedendo lugar à invenção e criação de formas novas de adaptação. O bebê começa a repetir resultados interessantes, descobertos por obra do acaso – chamado de reação circular. A seguir, estende essa reação ao meio externo. Dessa forma, torna-se consciente dos eventos do mundo ao seu redor e procura produzir o mesmo efeito sobre ele, aprimorando os movimentos numa aprendizagem por tentativa e erro. Esse período marca a atividade propriamente inteligente, ainda que incompleta por não haver intencionalidade. O período entre 08 e 12 meses é de extrema importância no desenvolvimento da inteligência do bebê. Ele irá construir conceitos importantes como: dissociação entre meios e fins, mobilidade dos esquemas e intencionalidade do comportamento. A partir dos 12 meses, o bebê não se satisfaz mais com a repetição do comportamento original, mas experimenta variações. Buscar novidades é a marca desse período. A criança inventa novas formas de ação para atingir um objetivo almejado. São comuns, por exemplo, comportamentos como deixar cair inúmeras vezes o brinquedo no chão, saboreando novas formas de jogá-lo para descobrir flutuações nos resultados. Também é nessa fase que a 60 CAPÍTULO 4 • JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA criança começa a construir o conceito de objeto permanente. Mesmo sem vê-lo, ela sabe que o objeto existe e passa a procurá-lo. Agora, ela está preparada para entrar numa nova fase. Pré – Operatório - 2 a 7 anos Figura 20. Pensamento Pré-Operatório. Fonte: Elaboração própria da autora. Para Piaget, o que marca a passagem do período sensório-motor para o pré-operatório é o aparecimento da função simbólica, com a emergência da linguagem. Neste estágio, a criança não depende mais unicamente de suas sensações, de seus movimentos. Ela já distingue uma imagem, palavra ou símbolo daquilo que ele significa (o objeto ausente). Exemplos de funções simbólicas nesse estágio são a imitação diferida, o desenhar e o jogo simbólico. Saiba mais Imitação diferida é a repetição de um comportamento atrasado em um momento posterior ao que ele realmente ocorreu. Este fenômeno foi descrito pela primeira vez pelo psicólogo Jean Piaget que observou que essa capacidade surgiu em crianças com idades entre 18 e 24 meses. Bebês e crianças muito jovens são incapazes de manter memórias de comportamentos e recuperá-las mais tarde. Crianças, eventualmente, desenvolvem a capacidade de representar mentalmente o comportamento em sua mente e repeti-lo. Exemplos de Imitação Diferida: » Quando a criança pega as panelas de casa e imita, dizendo que está fazendo comida. » Quando a criança em idade pré-escolar imita a professora, dando aula para suas bonecas. 61 JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA • CAPÍTULO 4 Também conhecido como o estágio da representação, nele a criança é capaz de pensar um objeto através de outro objeto. Assim sendo, cada vez que nomeia um objeto, ela consegue evocar uma imagem correspondente. O pensamento está dominado pela representação imagística de caráter simbólico. A criança trata as imagens como verdadeiras substitutas do objeto e pensa, efetuando relações entre elas. É nesse período que percebe sua imagem refletida no espelho. Ela sabe que aquela imagem não é outra criança e que, tampouco, é ela. Contudo, as representações ainda não são coerentes. O mundo não se distribui em categorias lógicas, mas em elementos particulares, individuais, em relação com a sua experiência pessoal (egocentrismo intelectual). A criança não sabe pensar a generalidade. Está encerrada na particularidade. Quando fala, vê o que enuncia tão fortemente que sua linguagem é mais alusiva que informativa. É como se o adulto pudesse ver como ela o que ela evoca. Meninos e meninas, aqui, constroem o mundo a partir de si mesmos. Por isso, essa fase é tão fantasiosa. Aquilo que a criança sente e vê é realidade. Podemos afirmar que não há conceitos, e sim, pré-conceitos, uma vez que a criança evoca realidades particulares. Resumindo, a criança deste estágio é egocêntrica, centrada em si mesma, e não consegue se colocar, abstratamente, no lugar do outro. Não aceita a ideia do acaso e tudo deve ter uma explicação. Já pode agir por simulação, “como se”. Possui percepção global sem discriminar detalhes e deixa-se levar pela aparência sem relacionar fatos. O raciocínio infantil não é nem dedutivo nem indutivo, mas transdutivo, indo do público ao particular. O juízo não é lógico, porque está centrado no sujeito, em suas experiências passadas e nas relações subjetivas que estabelece em função das mesmas. Os desejos, as motivações e todas as características conscientes, morais e afetivas são atribuídas às coisas (animismo). A criança pensa, por exemplo, que o cão late porque está com saudades da mãe. Por outro lado, para as crianças até os seis anos de idade, os processos psicológicos internos têm realidade física: ela acha que os pensamentos estão na boca ou os sonhos estão no quarto. Dessa confusão entre o real e o irreal surge a explicação artificialista, segundo a qual, se as coisas existem é porque alguém as criou. Assim, apesar de a criança desse estágio trabalhar com representações, ainda não tem capacidade de organizá-las de maneira coerente. Essas lacunas e dificuldades serão superadas, justamente, no estágio posterior. 62 CAPÍTULO 4 • JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA Operatório Concreto – 7 a 12 anos Figura 21. Pensamento Operatório Concreto. Fonte: <http://psicopedagogiacuritiba.com.br/fases-desenvolvimento-infantil-parte-4-estagio-operatorio-concreto/>. Acesso em: 20/4/2019. No estágio operatório concreto, o pensamento da criança vai, aos poucos, deixando de ser simbólico e passando a ser mais lógico. A percepção, tão forte no estágio anterior, vai perdendo espaço para a razão. O egocentrismo dá lugar à socialização. A criança desenvolve características como centração, compreensão das transformações, reversibilidade, classificação, seriação e conservação. O declínio do egocentrismo e o aumento da socialização se dá tanto em relação ao pensamento quanto à linguagem. No primeiro caso, enquanto a criança pré-operatória é incapaz de assumir os pontos de vista dos outros e não tem necessidade de buscar validação para seus próprios pensamentos, a operatória concreta compreende que as outras pessoas podem chegar a conclusões diferentes das suas e, como consequência, está preparada para perceber a necessidade de validação dos seus pensamentos. No segundo caso, pode-se dizer que o uso da linguagem se torna mais comunicativo quanto à função. Os conceitos são verificados ou negados através das trocas de “argumentações” com os outros, na interação social. Praticamente não se veem mais os monólogos coletivos, característicos dafala infantil antes dos 6 ou 7 anos. As crianças trocam informações em suas conversas e aprendem a ver os eventos da perspectiva dos outros. Outra característica do estágio operatório concreto é a descentração. Enquanto, no estágio anterior, a criança tende a centrar ou fixar sua atenção sobre os aspectos perceptivos do objeto, nesse estágio, ela é capaz de descentrar o enfoque visual, avaliando os eventos perceptivos de forma coordenada com os conhecimentos. Por exemplo, ao comparar duas fileiras de objetos semelhantes, uma com nove objetos e a outra, mais longa, com apenas sete (porém, mais distantes um do outro), a criança pré-operatória tende a identificar a fileira perceptivelmente maior como tendo “mais” objetos. Já a criança operatória concreta 63 JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA • CAPÍTULO 4 compreende que a fileira perceptivelmente maior tem menos objetos porque sabe que sete é menos que nove. Desse modo, ela aplica seu raciocínio lógico ao problema concreto. A capacidade de compreender transformações também é característica do estágio operatório concreto. Se antes a criança era incapaz de enfocar ou coordenar os vários passos de uma transformação, percebendo-os como independentes uns dos outros, agora ela compreende as relações entre os passos sucessivos. Por exemplo, a criança pré-operatória não entende como a chuva cai, enquanto a operatória concreta consegue compreender que o sol evapora a água do oceano, que condensa ao chegar nas camadas mais frias da atmosfera, formando gotículas de água que se acumulam e se precipitam, ou caem em forma de chuva. O raciocínio transformacional também se faz presente na avaliação dos sentimentos. Assim, as crianças deste estágio adquirem a capacidade de compreender as razões das mudanças ou transformações nos estados afetivos dos outros, como por exemplo, da alegria à tristeza, ou vice-versa. O estágio operatório concreto é marcado, ainda, pela reversibilidade, ou seja, a capacidade da representação de uma ação no sentido inverso a uma anterior, anulando a transformação observada. A criança deste estágio consegue, então, compreender, por exemplo, que se do RJ a SP a distância é de 400 km, a mesma distância é percorrida de SP ao RJ, ou seja, no caminho inverso. As construções lógicas fundamentais do estágio operatório concreto são: » Classificação: o agrupamento mental de objetos de acordo com as semelhanças (animais, pessoas, objetos etc.). » Seriação: ordenação de acordo com as diferenças (tamanho, altura, distância, peso etc.). » Conservação: conservação (de substância, área ou volume) é a capacidade de perceber que, apesar das variações de forma ou arranjo espacial, uma quantidade ou valor não varia se dele não se retira ou adiciona algo. Por exemplo, um saco com 1kg de penas e um saco com 1kg de pedras têm o mesmo peso. A criança pré-operatória entenderá que a pedra é mais pesada do que a pena e, por isso, o saco de pedras é mais pesado. Já a criança operatória concreta percebe que, apesar da pedra ser mais pesada do que a pena, ambos os sacos têm o mesmo peso, ou seja, 1kg. Como podemos perceber, são muitas as conquistas adquiridas pela criança no estágio operatório concreto, uma vez que ela descentra suas percepções e acompanha as transformações, alcança a reversibilidade das operações mentais e passa a ser cada vez mais social e menos egocêntrica, tanto no pensamento quanto na linguagem. A qualidade 64 CAPÍTULO 4 • JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA do pensamento operatório concreto ultrapassa a do pensamento pré-operatório, surgindo os esquemas para operações lógicas de seriação e classificação. Embora, neste estágio, a criança desenvolva operações lógicas, estas têm emprego apenas na solução de problemas que envolvam objetos e fatos concretos (reais, observáveis) no presente imediato. Em geral, a criança ainda não pode aplicar a lógica a problemas hipotéticos, puramente verbais ou abstratos. Além disso, também não consegue raciocinar corretamente sobre problemas concretos que envolvam muitas variáveis. O estágio operatório concreto pode ser entendido como um período de transição entre o pensamento pré-lógico (pré-operatório) e a capacidade de pensamento totalmente lógico, própria das crianças mais velhas, que atingiram as operações formais. Operatório Formal - 12 anos em diante Figura 22. Operatório Formal. Fonte: <http://noticias.universia.com.br/educacao/noticia/2016/5/12/1139398/universidades-90-dias-criar-cotas-pos- graduacao.html>. Acesso em: 20/4/2019. Nesse estágio, a criança constrói o tipo de raciocínio e a lógica que possibilitam a solução de todos os tipos de problemas. O pensamento se liberta da experiência direta e as estruturas cognitivas da criança adquirem maturidade. Do ponto de vista funcional, o pensamento concreto e o formal são semelhantes, uma vez que ambos empregam a lógica. Porém, o pensamento concreto limita-se à solução de problemas concretos palpáveis, conhecidos no presente, enquanto o formal lida com problemas hipotéticos e problemas proposicionais verbais, ligados ao presente, passado ou futuro. A criança operatória formal torna-se, ainda, capaz de introspecção e está apta a pensar sobre seus próprios pensamentos e sentimentos como se fossem objetos. As principais estruturas desenvolvidas no estágio operatório formal são: o raciocínio hipotético-dedutivo, o raciocínio científico-indutivo e a abstração reflexiva. 65 JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA • CAPÍTULO 4 O raciocínio hipotético vai além da percepção e da memória e lida com objetos dos quais não temos conhecimento direto, ou seja, objetos hipotéticos. O dedutivo é aquele que vai das premissas à conclusão, ou do geral para o específico. O raciocínio hipotético-dedutivo é o que implica deduzir conclusões de premissas que são hipóteses em vez de deduzir fatos que o sujeito tenha realmente verificado São características deste tipo de raciocínio: (1) a capacidade de raciocinar sobre hipóteses verdadeiras chegando a conclusões lógicas e (2) a capacidade de raciocinar sobre hipóteses não verdadeiras chegando a conclusões lógicas. No primeiro caso, temos como exemplo a seguinte afirmação: “Maria é menor que João e João é menor que Carlos”. A criança operatória formal consegue concluir logicamente que Maria é menor que Carlos. Já a criança operatória concreta não consegue resolver esse problema. No segundo caso, a partir da frase “Suponha que o carvão é branco”, a criança operatória concreta diz que o carvão é preto e que a questão não pode ser respondida, enquanto a criança operatória formal aceita a hipótese de o carvão ser branco e aplica o raciocínio lógico sobre o argumento. O raciocínio científico-indutivo é aquele comumente empregado pelos cientistas. É indutivo na medida em que vai dos fatos específicos às conclusões gerais. Uma importante característica desse tipo de raciocínio é a capacidade de pensar sobre certo número de variáveis diferentes ao mesmo tempo. Por exemplo, num jogo de xadrez, a criança operatória formal é capaz de prever jogadas, trabalhar com hipóteses e estratégias, a fim de ganhar o jogo. Ou seja, ela pensa nas diferentes combinações de um conjunto de variáveis, o que Piaget chamou de raciocínio combinatório. A criança operatória concreta, por sua vez, só consegue raciocinar sobre problemas com uma única variável ou aqueles que ela pode resolver através da observação. A abstração reflexiva diz respeito ao pensamento interno ou reflexão baseada no conhecimento disponível. É muito comum em analogias. Por exemplo, em “cachorro está para pelo assim como pássaro está para penas”, há quatro membros na analogia: cachorro, pássaro, pelo e penas. O núcleo é a relação entre cachorro-pelo e pássaro-penas. A relação não é observável e só se dá pela reflexão, ou seja, pela abstração reflexiva. Esta ultrapassa o observável e resulta em reorganização mental. Implica sempre em uma abstração de um nível mais elementarpara um nível mais alto. É importante ressaltar que as capacidades cognitivas do adolescente com as operações formais já consolidadas são qualitativamente iguais às do adulto. Os adolescentes podem raciocinar de forma tão lógica quanto os adultos, embora estes, por terem mais experiência, possam ser mais hábeis em raciocinar sobre mais coisas do que os adolescentes. Nem todos os adolescentes e adultos desenvolvem as operações formais completamente, mas, de acordo com Piaget, todas as pessoas normais têm o potencial para desenvolvê-las. 66 CAPÍTULO 4 • JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA Desenvolvimento afetivo nos diferentes estágios No capítulo anterior, vimos como se dá o desenvolvimento na dimensão cognitiva do ser. Mas, como já discutimos aqui, não e só do desenvolvimento cognitivo que se constrói a aprendizagem. Ou seja, sempre que pensamos a aprendizagem, há de se pensar na dimensão cognitiva, relacional, e afetiva daquele que aprende. Assim como o desenvolvimento cognitivo, o desenvolvimento afetivo é construído e amadurece a cada estágio. Os primeiros sentimentos sociais bem definidos surgem durante o desenvolvimento pré-operacional. As crianças mais novas mostram afeição e têm sentimentos de gostar e não gostar, mas a representação e a linguagem falada são fundamentais no desenvolvimento dos sentimentos sociais. Durante o estágio sensório-motor, as experiências e eventos passados não podem ser reconstruídos por não serem representados pela criança. Tal representação só é construída durante o estágio pré-operatório. Segundo Piaget: “A representação e a linguagem permitem que os sentimentos adquiram uma estabilidade e duração que não tinham antes. Os afetos, ao serem representados, duram além da presença dos objetos que os provocou. Esta capacidade para conservar os sentimentos torna possível os sentimentos interpessoais e morais.” (Piaget, 1981p. 75) As crianças pré-operatórias têm potencial para interagir socialmente com os outros enquanto iguais, mas normalmente com os adultos elas interagem como se fossem inferiores (respeito unilateral). Os conflitos entre as crianças são superados somente através da autêntica cooperação. Como vimos anteriormente, no estágio operatório concreto, o raciocínio e o pensamento adquirem mais estabilidade em relação ao pensamento pré-operatório. A capacidade para raciocinar torna-se cada vez mais lógica e menos sujeita às influências perceptivas. A reversibilidade do pensamento e a descentração ajudam a trazer consistência e conservação ao raciocínio da criança. Esses fatores não influenciam apenas o desenvolvimento cognitivo, mas também o afetivo. Nesse estágio, os afetos adquirem maior estabilidade e consistência do que antes. No estágio operatório concreto, emerge a conservação dos sentimentos e dos valores. As crianças são capazes de coordenar os seus pensamentos afetivos de um evento para outro. O pensamento afetivo agora é reversível. O passado pode ser transformado em uma parte do raciocínio presente, através da capacidade de reverter e de conservar. 67 JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA • CAPÍTULO 4 Outro avanço no desenvolvimento da afetividade no estágio operatório concreto é a emergência dos sentimentos autônomos e, por consequência, as relações de respeito mútuo com os adultos. Segundo Piaget, “O conceito de autônomo ... significa que, pelo menos em parte, é possível para a [criança] ... elaborar suas próprias normas. Após os 7 ou 8 anos, a criança passa a ser capaz de fazer suas próprias avaliações morais, desempenhar atos de livre vontade e exibir apreciações morais que, em certos casos, conflitam com aquelas presentes na moralidade heterônoma de obediência [respeito unilateral]” (Piaget, 1981 p. 69 com adaptações acréscimo da autora) No estágio operatório formal, o desenvolvimento afetivo é caracterizado por dois fatores principais: o desenvolvimento dos sentimentos idealistas e a continuação da formação da personalidade. O pensamento do adolescente é puramente lógico. Falta-lhe uma compreensão maior de como o mundo está organizado. Ele ainda não distingue entre o mundo lógico e o “real”. Assim, não consegue entender, por exemplo, por que, apesar das sociedades afirmarem que é errado matar, algumas adotam a pena de morte, outras estão constantemente em guerra etc. Seu pensamento lógico-idealista frequentemente se manifesta na crítica à sociedade e na elaboração de mundos ideais. Quando o adolescente se defronta com o mundo como ele realmente é, e não como acha que deveria ser, as adaptações podem ser realizadas, o que permite uma mudança de perspectiva lógico-egocêntrica para uma perspectiva lógico-realista. Segundo Piaget, isso ocorre quando o adolescente entra no mundo do trabalho. Quanto à formação da personalidade, é na adolescência que ela se define. Piaget faz uma distinção entre personalidade e eu. O eu começa o seu desenvolvimento no primeiro ano de vida e se orienta para o indivíduo. Refere-se ao auto interesse e não implica em obrigação para com os outros além do eu. Diferentemente do eu, que se dirige para o indivíduo, a personalidade se dirige para a sociedade e para tornar-se parte dela. Refere- se ao “papel que o indivíduo desempenha na sociedade ou ao papel que o(a) jovem se atribui e que deseja desempenhar.” (Piaget, 1963, p.177) A personalidade é, então, um produto do desejo e do esforço ativo para tornar-se um adulto, enquanto afirmação da autonomia e dos valores. 68 CAPÍTULO 4 • JEAn PIAGET E A EPISTEMOLOGIA GEnÉTICA Tabela 2. Afetividade em Piaget. ESTÁGIO AFETIVIDADE Sensório-motor (0-2 anos) Surgem os sentimentos primitivos de gostar e não gostar. A afetividade é investida no “eu”. Pré-operatório (2-7 anos) Tem início o verdadeiro comportamento social: cooperação. Intencionalidade ausente nos julgamentos morais. Operatório Concreto (7-11 anos) Aparecimento da vontade e início da autonomia. A intencionalidade é construída. Operatório Formal (11-15 anos) Emergência dos sentimentos idealistas e formação da personalidade. Início da adaptação ao mundo adulto. Fonte: Elaboração própria da autora. Sintetizando Vimos até agora: » Teoria criada por Piaget, denominada Epistemologia Genética. » Conceitos como adaptação, acomodação e equilibração. » A inteligência não é hereditária, e sim construída a partir dos estágios do desenvolvimento humano. 69 Introdução do Capítulo Neste capítulo, conheceremos a obra do psicólogo Lev Vygotsky e sua Teoria Interacionista. Para isso, refletiremos sobre o contexto histórico em que seu pensamento foi elaborado, a Revolução Russa de 1917, entendendo o papel de destaque dado à cultura em sua teoria. Trataremos dos processos mentais, considerados pelo autor a principal característica da espécie humana, abordando conceitos como pensamento, inteligência, consciência e linguagem. Conheceremos um novo conceito: Zona de Desenvolvimento Proximal. Refletiremos, a partir desses conceitos, sobre a aprendizagem e o papel do professor na teoria vygotskyana. Por fim, traçaremos um paralelo entre a obra de Piaget e Vygotsky, buscando reconhecer suas semelhanças e diferenças. Objetivos » Analisar o contexto histórico no qual foi elaborada a Teoria Interacionista de Lev Vygotsky, buscando entender o papel fundamental da cultura em sua obra. » Entender como ocorre o desenvolvimento dos processos mentais superiores, a partir da influência do meio social em que o indivíduo está. » Refletir sobre o papel da escola no processo de aprendizagem. » Promover estratégias adequadas, em sala de aula, a partir da interação social. 5 CAPÍTULO LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA 70 CAPÍTULO 5 • LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA Conhecendo sua história Figura 23. Vygotsky. Fonte: <https://www.firstdiscoverers.co.uk/virtual-interview-lev-vygotsky/>. Acesso em: 20/4/2019. Lev Vygotsky nasceu em 17 de novembro de 1896 na cidadede Orsha, na antiga União Soviética. Foi educado, a princípio, por tutores em sua casa, indo para a educação formal aos 15 anos de idade. Formou-se em Direito, História e Filosofia. Também estudou literatura, medicina e psicologia, aprimorando seu conhecimento, apesar de não ter concluído alguns desses cursos. Em direito, formou-se após apresentar um trabalho sobre Hamlet. Saiba mais Tão importante quanto Piaget, Vygotsky é conhecido por sua obra tanto no campo da Psicologia como no da Educação. Contudo, poucos sabem que o eminente psicólogo bielo-russo escreveu uma das obras fundamentais da crítica shakespeariana. Paulo Bezerra, notório tradutor e crítico literário brasileiro, conhecido principalmente pelas traduções de diversas obras de Fiódor Dostoiévski para a língua portuguesa, traduziu A Tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca em 1999, com acesso público (Vygoysky, Lev. A tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca. São Paulo: Martins Fontes, 1999). Segundo Vygotsky, Hamlet passa por um processo de transformação psicológica e existencial a partir da morte de seu pai. Tal transformação se completa quando o filho se encontra com o fantasma, entendendo o encontro como um segundo nascimento ou um divórcio da razão, da vida e do mundo. A partir daí, todas as coisas vislumbradas pelo príncipe da Dinamarca passam a ser da ordem do incompreensível. Vygotsky conclui dizendo que a alma do personagem rapta e conduz os outros personagens a um automatismo trágico de grande força magnética, capaz de atraí-los para o fim igualmente trágico ao dele, como acontece com Ophelia, Guildenstern e Rosencrants. Aliás, o único personagem que não morre é Horatio, que após as súplicas de Hamlet, não se suicida. Segundo Vygotsky, ao invés de ter um efeito catártico, como acontece nas tragédias clássicas, o desfecho de Hamlet transtorna o espectador, sem nada expurgar. Para ele, não há, propriamente, um fim nessa história. Há algo, um “resto”, que o protagonista não revela, levando-o consigo para o túmulo. Para ele, isso faz com que todos nós, espectadores, nascidos e cúmplices da tragédia, ao contemplá-la vejamos reproduzida em cena a culpa de havermos nascido; a culpa de existirmos e nos identificamos com a dor desta tragédia. (Vygotsky, 1999, p. 185) E, talvez, sejamos, TODOS, acometidos pela vontade de tomarmos o veneno que ainda sobra na taça, tal qual o personagem Horatio. 71 LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA • CAPÍTULO 5 Em 1917, Vygotsky começa a ministrar aulas de Psicologia, tendo a oportunidade de criar um laboratório de Psicologia na Escola de Formação de Professores. Quando nos propomos a conhecer o legado que Vygotsky nos deixou, não podemos deixar de pensar no contexto socioemocional em que vivia, afinal, a cada capítulo deste material, reforço a importância de pensarmos o sujeito de maneira integral, em suas dimensões cognitiva, afetiva e relacional. É preciso, portanto, analisar a conjuntura intelectual e sócio- política em que se encontravam nossos teóricos influenciadores. Nascido sob o regime dos czares russos, Vygotsky acompanhou de perto, como estudante e intelectual, os acontecimentos que levaram à revolução comunista de 1917. O período que se seguiu foi marcado por um clima de efervescência intelectual, com a abertura de espaço para as vanguardas artísticas e o pensamento inovador nas ciências, além de uma preocupação em promover políticas educacionais eficazes e abrangentes. Tanto a revolução de 1917 quanto o período que a sucede marcam de forma significativa todo o pensamento vygotskyano. Visitou comunidades rurais, nas quais pesquisou a relação entre nível de escolaridade e conhecimento e a influência das tradições no desenvolvimento cognitivo. Influenciado por Marx, Vygotsky usou a dialética para sua teoria de aprendizado, mas sua análise da importância da esfera social no desenvolvimento intelectual era criticada por não se basear na luta de classes, como se tornara obrigatório na produção científica soviética. Cabe ressaltar que Vygotsky não foi um teórico do marxismo, mas um pensador marxista. Essa sutil diferença representa um fator determinante dentro da sua configuração intelectual, posto que o pensamento marxista representava o substrato teórico sobre o qual Vygotsky construiu a sua psicologia, mas não os limites aos quais ela estava circunscrita. Influenciado, também, pelo socialista Friedrich Engels, Vygotsky utiliza a tese filosófica do materialismo histórico-dialético como ferramenta em seu modelo científico de estudo dos fenômenos psíquicos. 72 CAPÍTULO 5 • LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA Com a ascensão ao poder de Josef Stalin, em 1924, o ambiente cultural ficou cada vez mais limitado. Neste mesmo ano, Vygotsky começa a trabalhar no Instituto de Psicologia em Moscou e um ano depois alguns de seus trabalhos começam a ser reconhecidos e publicados em meios acadêmicos. No entanto, a maior parte de sua obra, suas principais ideias, foram publicadas postumamente, pois Vygotsky morreu aos 38 anos, vítima de tuberculose. Em 1936, dois anos após a sua morte, toda a obra de Vygotsky foi censurada pela ditadura de Stalin e assim permaneceu por 20 anos. Figura 24. Lenin discursando em Moscou. Fonte: <https://novaescola.org.br/conteudo/382/lev-vygotsky-o-teorico-do-ensino-como-processo-social>. Acesso em: 20/4/2019. Teoria Sociointeracionista A teoria de aprendizagem de Vygotsky dá destaque ao papel das relações sociais no desenvolvimento intelectual. Para ele, o homem é um ser que se forma em contato com a sociedade. Na ausência do outro, o homem não se constrói homem, ele afirma. Saiba mais O materialismo dialético, teoria criada por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), é uma corrente filosófica que utiliza o conceito de dialética para entender os processos sociais ao longo da história. A dialética é uma forma de discurso entre duas ou mais pessoas que possuem diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto, mas que pretendem estabelecer a verdade através de argumentos fundamentados e não simplesmente vencer um debate ou persuadir o opositor. A premissa básica do materialismo dialético é “O movimento é o modo de existência da matéria”. Isto quer dizer que a história, quando é analisada como algo em movimento, torna-se transitória e, por sua vez, pode ser transformada pelas ações humanas. Por meio dessa relação dialética entre o ambiente, o organismo e os fenômenos físicos, os seres humanos, a cultura e a sociedade criam o mundo, ao mesmo tempo que são modelados por ele. Quer saber mais? Acesse: <https://www.todamateria.com.br/materialismo-dialetico/>. 73 LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA • CAPÍTULO 5 Sua compreensão é a de que a formação se dá na relação entre o sujeito e a sociedade ao seu redor. Assim, o indivíduo modifica o ambiente e este o modifica de volta. Por atribuir um papel preponderante às relações sociais, a sua teoria é conhecida como sócioconstrutivista ou sociointeracionista. Diferentemente de Piaget, que elaborou um sistema lógico e ordenadamente estruturado, os trabalhos de Vygotsky não se constituem em uma teoria propriamente dita. Primeiro porque sua obra, durante e após ser escrita, sofreu perseguição política. Segundo porque ele morreu precocemente. Coube aos seus seguidores organizar suas ideias e princípios. Fato é que, mesmo sem uma teoria do desenvolvimento humano que configure um sistema explicativo completo, totalmente estruturado, sua obra alcançou seu objetivo: mostrar que processos socioculturais estão totalmente implicados na formação dos processos mentais superiores. Ele acredita que a partir das estruturas orgânicas, determinadas pelo processo maturacional da espécie, novas funções mentais mais complexas se formam, a partir das experiências sociais vividas pela criança. Sendo assim, o ser humano é percebido como construtor da cultura e, ao mesmo tempo, transformado por ela e, por isso,um agente de mudança social. Em relação à aprendizagem, segue o mesmo raciocínio. Ela é um processo que parte de uma estrutura orgânica, mas vai se estruturando de maneira mais complexa ao longo das experiências sociais vividas. Ele afirma, também, que o único momento em que fatores biológicos prevalecem sobre fatores sociais é no início da vida. Depois disso, cada sujeito segue seu caminho a partir das suas vivências, das suas relações sociais. Por isso o sujeito é único. Por isso, mesmo nascendo da mesma mãe e do mesmo pai, por exemplo, cada irmão age de uma forma totalmente distinta. Mesmo gêmeos univitelinos, que apresentam o mesmo DNA, não passam pelo mesmo processo de aprendizagem. Cada um deles tem a sua própria experiência, pois as pessoas, mesmo os gêmeos univitelinos, interagem de maneira diferente com o ambiente. Eles entendem o mundo e se relacionam com ele, a partir do seu entendimento pessoal, que é único. Sugestão de estudo Quer conhecer melhor a obra de Vygotsky? Indico: » VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem (1989). São Paulo: Martins Fontes, 2005. » VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores 7ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2007. » Vygotsky, L.S. O desenvolvimento psicológico na infância. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 74 CAPÍTULO 5 • LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA Processos mentais superiores Vygotsky dedicou grande parte de seus estudos à descrição dos processos mentais superiores, considerados por ele a principal característica da espécie humana. O estudo sobre o pensamento foi a base para a teoria de Vygotsky. Ele acreditava que este era estimulado e transformado pelo contexto social e pela constante comunicação que se estabelece entre a criança e uma outra pessoa. A interação da criança com outro adulto, ou com uma criança mais experiente, estimula o processo de pensamento, por isso a escola assume papel de destaque, como veremos a seguir. Levando em consideração que todo o desenvolvimento humano depende de fatores históricos e sociais, Vygotsky não podia acreditar em fases do desenvolvimento únicas para todo tipo de pessoa. Sendo assim, a inteligência é uma habilidade adquirida e não uma aptidão inata. Assim como o pensamento e a inteligência, a consciência também tem sua origem no social. Para Vygotsky, o sujeito não é apenas ativo, mais interativo por excelência, porque forma conhecimento e se constitui a partir de relações intra e interpessoais. O processo de aprendizagem é resultado, portanto, das trocas sociais, afetivas, no dia a dia, no trabalho, enfim, na própria vida. Formamos nossa consciência e conhecimento através da internalização de informações, papéis e funções sociais. A linguagem é um dos processos mentais superiores mais valorizados, já que representa a cultura e depende do intercâmbio social. É por meio dela que interiorizamos as orientações advindas do social. Para Vygotsky, pensamento e linguagem estão intimamente interligados. As palavras (conceitos) são construídas durante o processo histórico e o cérebro humano é resultado desta evolução. São os símbolos os grandes mediadores civilizatórios. E, apesar de serem símbolos, os conceitos são internalizados de maneira não linear, ou seja, diferente para cada pessoa. Atenção Os processos mentais superiores são: percepção, memória, linguagem e pensamento. 75 LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA • CAPÍTULO 5 A cultura é a instância que fornece ao indivíduo os sistemas simbólicos e os esquemas cognitivos de representação da realidade. Isso quer dizer que os símbolos – e seus significados – e a capacidade de se apropriar deles é que nos permitem construir a nossa realidade. Para Vygotsky, a subjetividade “(...) é constituída através das mediações sociais, dentre as quais a linguagem é a que melhor representa a síntese entre objetividade e subjetividade, já que o signo é ao mesmo tempo produto social que designa a realidade objetiva, construção subjetiva compartilhada por diferentes indivíduos e construção individual que se dá através do processo de apropriação do significado social e atribuição de sentidos pessoais”. Estudos sobre a História do Comportamento, 1997 p. 267) Importante Vygotsky introduz o conceito de internalização, dizendo ser fundamental para o desenvolvimento do funcionamento psicológico humano. Ela envolve uma atividade externa que deve ser modificada para tornar-se uma atividade interna. Tal processo pressupõe que um movimento de apropriação da realidade, que inicialmente é interpessoal, ou seja, social, torne-se, progressivamente, intrapessoal e individual. Para refletir Você já ouviu falar do complexo de vira lata, termo criado por Nelson Rodrigues? Comumente, ouvimos esse termo para denominar o brasileiro. Ele significa que nós, os brasileiros, estamos sempre com um discurso de nos diminuir, comparando-nos, por exemplo, a sociedades tidas como “mais civilizadas”. São alguns exemplos do discurso que ouvimos: » “Lá no Japão, todos limpam os estádios de futebol, após o término da partida”. » “Brasileiro é corrupto. Quando tem a oportunidade, vai lá e se corrompe”. Que tal pensarmos neste discurso sobre a ótica da teoria Sociointeracionista e do conceito de internalização? Desde o descobrimento do Brasil, ouvíamos que os portugueses eram uma sociedade civilizada, disposta ao trabalho, ao novo. Os nativos, que aqui viviam, a saber, os índios, eram vistos como preguiçosos, ruins para o trabalho. Depois trouxeram os negros, escravizados, para o trabalho. Esses eram vistos como arredios, transgressores da ordem e dos bons costumes. Como se constituiu o povo brasileiro? Fomos formados por índios – preguiçosos – negros – transgressores – e pelos portugueses libidinosos, que ousaram se relacionar com os outros povos que aqui viviam. Durante séculos, esse estereótipo de brasileiro foi internalizado por nós! Essa é a realidade construída por todos os brasileiros. Internalizamos esse discurso e hoje ele se tornou um fato, sem muito questionamento. Por isso, vivemos nos diminuindo frente a outras culturas. Nessa mesma linha de pensamento podemos refletir sobre o racismo, questões de gênero, homofobia e muitos outros preconceitos que permeiam a nossa vida. 76 CAPÍTULO 5 • LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA Ainda hoje, suas ideias acerca do pensamento e da linguagem são influência no meio acadêmico. O caráter contemporâneo das ideias de Vygotsky são: 1. A visão do ser humano e, consequentemente, do desenvolvimento humano estão imersos em um contexto histórico. 2. A interdisciplinaridade dos processos sociais. zona de Desenvolvimento Proximal (zDP) Já entendemos, ao longo deste capítulo, que o desenvolvimento da criança está diretamente relacionado à sua socialização. Sendo assim, Vygotsky categorizou o processo de desenvolvimento em três níveis: 1. Zona de desenvolvimento real: refere-se às etapas já alcançadas pela criança e que permitem que ela solucione problemas de forma independente. Aqui, as funções psicológicas já estão consolidadas. A criança já tem capacidade de desempenhar a tarefa sozinha. 2. Zona de desenvolvimento potencial: é a capacidade que a criança tem de desempenhar tarefas desde que seja ajudada por adultos ou companheiros mais capazes. Aqui, as funções psicológicas estão em processo de amadurecimento. A criança só poderá desempenhar tarefas com a colaboração de adultos ou companheiros mais capazes. 3. Zona de desenvolvimento proximal: é a distância entre as zonas de desenvolvimento real e potencial. Ou seja, é o caminho a ser percorrido até o amadurecimento e a consolidação de funções. Figura 25. zona de Desenvolvimento Proximal. Fonte: <https://www.researchgate.net/figure/Figura-3-Zona-de-Desenvolvimento-Proximal_fig3_320474614>. Acesso em: 21/4/2019. 77 LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA • CAPÍTULO 5 O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximaldemostra que o desenvolvimento do indivíduo dependerá das trocas sociais e do suporte cultural acontecidos em um determinado contexto histórico. Tais zonas são constituídas pela aprendizagem. Antes mesmo de frequentar a escola, a criança desenvolve seu potencial a partir das trocas estabelecidas e adquire conhecimento. Quando vai para o ambiente escolar, ela se familiariza com esse mundo e sai da zona de desenvolvimento real para, com auxílio do professor, atingir seu desenvolvimento potencial. A noção de desenvolvimento remete a um contínuo de evolução. Assim, é como se o indivíduo caminhasse ao longo do ciclo vital. Essa evolução nem sempre é linear e ocorre nos aspectos afetivo, cognitivo, social e motor. O processo inclui tanto a maturação biológica quanto as interações com o meio. A cultura ao redor do indivíduo é uma das principais influências nesse processo. Pela interação social, cada pessoa aprende, se desenvolve, cria formas de agir no mundo e amplia os meios de atuar no complexo contexto que a cerca. Aprendizagem escolar Diante de tudo que já foi falado, podemos afirmar que os ensinamentos de Vygotsky têm grande peso nas rupturas de construção das ideias pedagógicas. Isto porque a base de seus estudos é a psicologia evolutiva e a perspectiva usada para concebê-los é a da função social do professor, pois será ele o mediador da zona de desenvolvimento proximal. Vygotsky atribui ao professor um importante papel como impulsionador do desenvolvimento psíquico da criança. Compete ao professor observar o desenvolvimento das zonas de desenvolvimento proximal para orientar o aprendizado do aluno, buscando adiantar o seu desenvolvimento potencial, tornando-o real. Isto quer dizer que o desenvolvimento mental só se realiza por intermédio do aprendizado, que é realizado em grupo, mas a atividade cognitiva é internalizada por cada sujeito de forma diferente. Como o contexto social é determinante no desenvolvimento cognitivo, o professor terá que responder aos desafios impostos pela diversidade em sala de aula. Não há um Atenção Conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal: “(...) a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes.” (VYGOTSKY, 1994 p. 87). 78 CAPÍTULO 5 • LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA estudante igual a outro. As habilidades individuais são distintas, o que significa também que cada criança avança em seu próprio ritmo. À primeira vista, ter como missão lidar com tantas individualidades parece assustador. Mas o que realmente está ao alcance do professor é uma excelente oportunidade de promover a troca de experiências. Através da diversidade, da troca com o novo, o desconhecido, a criança aprende novos conceitos e novas formas de agir. Vygotsky, inclusive, defendia o convívio em sala de aula de crianças mais adiantadas com aquelas que ainda precisam de maior apoio. Para ele, o convívio em classe de alunos mais velhos, com mais conhecimentos, com aqueles com menor conhecimento é riquíssimo para ambos. Frente as diferenças em sala de aula, o professor tem duas opções: olhar para trás avaliando as deficiências do aluno e aquilo que já foi, ou não, aprendido por ele, ou olhar para frente, tentando trazer à tona seu potencial. Muito mais importante do que avaliar a deficiência buscando eliminar tal deficiência, a fim que ele consiga “acompanhar” os seus colegas de turma, o professor deve estimular as diferenças, buscando transformar isso em aprendizado para todos. Esse conceito é promissor porque sinaliza novas estratégias em sala de aula. Depois que Vygotsky dissertou sobre o tema, a integração de crianças em diferentes níveis de desenvolvimento passou a ser encarada como um fator determinante no processo de aprendizado. Nessa troca de experiência proposta, o professor deixa de ser a única fonte de saber na sala de aula. Porém, seu papel enquanto mediador continua sendo decisivo. Cabe a ele identificar os diferentes níveis de conhecimento de seus alunos e propor, por exemplo, grupos de trabalhos formado por todos os tipos de alunos. A principal vantagem de promover essa mescla, na concepção vygotskyana, é que todos saem ganhando. Por um lado, o aluno menos experiente se sente desafiado pelo que sabe mais e, com a sua assistência, consegue realizar tarefas que não conseguiria sozinho. Por outro, o mais experiente ganha discernimento e aperfeiçoa suas habilidades ao ajudar o colega. Além disso, quando um aluno mais experiente ajuda aqueles com menos experiência, dá lugar para que o professor possa investir naqueles alunos com mais dificuldades e que precisam da sua orientação mais próxima. Figura 26. A riqueza do grupo mediado pelo professor. Fonte: <https://novaescola.org.br/conteudo/4911/entrevista-o-desafio-de-organizar-e-mediar-o-trabalho-em-grupo- rachel-lotan>. Acesso em: 20/4/2019. 79 LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA • CAPÍTULO 5 Porém, quando o conceito de zona de desenvolvimento proximal não é levado em conta pelo professor, isso pode acarretar alguns problemas no desenvolver das aulas. Ao ignorar o limite proximal, muitas propostas em sala de aula acabam colocando os alunos diante de desafios impossíveis. Isso pode acarretar o desestímulo do grupo ou mesmo uma baixa autoestima de alguns alunos os impossibilitando de adquirir novos conhecimentos. Corre-se o risco também de formar grupos homogêneos ou permitir que os alunos se organizem somente de acordo com suas afinidades. Isso traz empobrecimento nas trocas de saberes e, consequentemente o empobrecimento da aprendizagem. É importante aproximar alunos com diferentes níveis de ensino nas atividades em que o domínio dos saberes seja um diferencial. Diante de tudo que aprendemos neste capítulo, podemos afirmar que o aluno não é somente o sujeito da aprendizagem. Ele é o sujeito que aprende a partir da troca com o outro, a partir do que o seu grupo social produz, como valores, linguagem e o próprio conhecimento. Vygotsky e Piaget Tanto Piaget quanto Vygotsky são pessoas notórias quando falamos de psicologia do desenvolvimento. Suas teorias influenciaram acadêmicos e profissionais da educação e psicologia, desde os clássicos até os modernos. Graças aos dois, podemos entender como as crianças se desenvolvem a partir de uma perspectiva ampla. Contudo, historicamente, as teorias de Piaget e Vygotsky foram categorizadas como totalmente opostas. Mas será que é assim mesmo? É importante, então, fazermos uma reflexão sobre as semelhanças e diferenças entre esses dois autores. Analisar todas as suas teorias nos ajudará a interpretá-las com base em um contexto integrador nos dando uma visão mais completa do desenvolvimento do ser humano. Cabe ressaltar que Piaget e Vygotsky desenvolveram suas teorias separados um do outro, em épocas distintas e em países diferentes. Já sabemos que contexto histórico, pessoal e emocional determinam a aprendizagem do sujeito, e com eles não seria diferente. Porém, é interessante perceber como chegaram a ideias similares sobre o processo de desenvolvimento e onde suas ideias divergem. Provocação Há um ponto que não pode ser negligenciado. A zona de desenvolvimento proximal tem limite, além do qual a criança não consegue realizar tarefa alguma, nem com ajuda ou supervisão de quem quer que seja. É papel do professor determinar o que os alunos podem fazer sozinhos ou o que devem trabalhar em grupos, avaliar quais atividades precisam de acompanhamento e decidir quais exercícios ainda são inviáveis mesmo com assistência (por exigir saberes prévios que ainda não estão consolidados ou acessíveis). 80 CAPÍTULO 5 • LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA É importante comparar e avaliar a forma como cada teórico explica o desenvolvimento humano. Ambos se distanciaramdas propostas inatistas e empiristas quando falam da aquisição de conhecimentos, apresentando uma teoria a partir de um paradigma construtivista e interacionista. Para eles, as mudanças produzidas no desenvolvimento são principalmente qualitativas, com determinantes complexos de caráter interativo e dialético. Por isso, categorizaram a criança como um sujeito ativo, atento que cria hipóteses sobre seu ambiente, criando uma versão particular da sua realidade. A partir deste momento, suas teorias começam a se separar. Em primeiro lugar, eles recorrem a fatores distintos como principal fonte de conhecimento. Para Vygotsky, o importante era a interação com o ambiente social, ao passo que Piaget achava fundamental a ação individual. Por aceitar que os fatores internos preponderam sobre os externos, Piaget postula que o desenvolvimento humano segue uma sequência fixa e universal de estágios. Para ele, o desenvolvimento é fruto de reorganizações internas do indivíduo, tendo como bases suas manipulações objetivas, sem necessidade de ajuda por parte de uma fonte externa. Já Vygotsky, ao dissertar sobre o ambiente social em que a criança nasceu, reconhece que, em se variando esse ambiente, o desenvolvimento também variará. Neste sentido, não se pode aceitar uma visão única, universal, de desenvolvimento humano. Ele está relacionado à contínua internalização dos meios e recursos cognitivo-culturais adquiridos através da interação com o contexto social. Uma das maiores divergências entre os autores diz respeito a importância da cultura empregada em cada teoria. Vygotsky faz uma distinção entre o “desenvolvimento natural” e o “desenvolvimento cultural”. Esta dicotomia criada por Vygotsky é um bom exemplo do caráter dualista dessa abordagem. Sua teoria é pautada em conceitos contrapostos, como o crescimento biológico (amadurecimento) X desenvolvimento cultural (aprendizagem). Piaget, por sua vez, rejeita veementemente a distinção entre desenvolvimento natural e cultural. Sua perspectiva, ao contrário, é monista. Ou seja, o sujeito é unificador do contraste social/ biológico. Em hipótese alguma, Piaget ignorava os aspectos sociais do desenvolvimento. Ele somente interpreta o fator social de maneira diferente a de Vygotsky. Enquanto para Vygotsky a unidade de análise é o ambiente sociocultural em que o indivíduo vive, Piaget acreditava que a unidade de análise é o indivíduo, sendo o fator social uma variável que influencia os processos. A direção do desenvolvimento proposta por cada um dos teóricos, talvez, seja a maior divergência proposta por eles. Para Piaget, o desenvolvimento avança no sentido de 81 LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA • CAPÍTULO 5 uma maior descentralização e socialização. Significa dizer que o indivíduo parte do internalismo para uma concepção sobre a realidade. Vygotsky pensa justamente o oposto. O conhecimento vem de fora para dentro. Ele vem da sociedade, da cultura em que está inserido, e é internalizada pelo sujeito, transformando algo que é sociocultural em pessoal. Outra diferença entre eles diz respeito à construção do real. Piaget acreditava que os conhecimentos são elaborados espontaneamente pela criança, de acordo com o estágio de desenvolvimento em que se encontra. A visão egocêntrica que as crianças mantêm sobre o mundo vai, progressivamente, aproximando-se da concepção dos adultos, tornando-se socializada e objetiva. Vygotsky discorda de que a construção da realidade parta do individual para o social. Em seu entender a criança já nasce num mundo social e, desde o nascimento, vai formando uma visão desse mundo através da interação com adultos ou crianças mais experientes. A construção do real é, então, mediada pelo interpessoal antes de ser internalizada pela criança. Desta forma, procede-se do social para o individual, ao longo do desenvolvimento. Em relação à aprendizagem, Vygotsky acredita que tanto ela quanto o desenvolvimento são processos que se influenciam reciprocamente, de modo que, quanto mais aprendizagem, mais desenvolvimento. Já Piaget preconiza que a aprendizagem está subordinada ao desenvolvimento, tendo pouco impacto sobre ele. Ou seja, enquanto Piaget minimiza o papel da interação social, Vygotsky postula. Sobre a linguagem, para Piaget o pensamento é anterior, sendo, apenas, uma das formas de expressão. Ou seja, a formação do pensamento não é atrelada à linguagem, e sim aos esquemas sensório-motores. A linguagem só é alcançada depois que o sujeito alcançou determinado nível de habilidades mentais, estando, desta forma, subordinada aos processos de pensamento. Piaget estabeleceu uma clara separação entre as informações que podem ser passadas por meio da linguagem e os processos que não parecem sofrer qualquer influência dela. Este é o caso das operações cognitivas que não podem ser trabalhadas por meio de treinamento específico feito com o auxílio da linguagem. Por exemplo, não se pode ensinar, apenas usando palavras, a classificar, a seriar, a pensar com responsabilidade. Já para Vygotsky, pensamento e linguagem são processos interdependentes, desde o início da vida. A aquisição da linguagem pela criança modifica suas funções mentais superiores: ela dá uma forma definida ao pensamento, possibilita o aparecimento da imaginação, o uso da memória e o planejamento da ação. Neste sentido, a linguagem, diferentemente daquilo que Piaget postula, sistematiza a experiência direta das crianças e por isso adquire uma função central no desenvolvimento cognitivo, reorganizando os processos que nele estão em andamento. 82 CAPÍTULO 5 • LEV VYGOTSKY E A TEORIA InTERACIOnISTA Mas, quem teria razão entre os dois? São pontos de vista diferentes. E o são, justamente, porque a unidade de análise é o ponto de referência e, por isso, não tem uma posição verdadeira. Seria tentar ver uma figura geométrica a partir de ângulos diferentes. Um cilindro, por exemplo, visto por um lado pode parecer um círculo. Visto de outro lado, pode parecer um quadrado. Mas, ele nunca deixará de ser um cilindro. Cabe a nós, aproveitarmos cada olhar, cada diferença e semelhança, aprimorando nossos conhecimentos e tornando nossa prática educacional mais rica. Sintetizando Vimos até agora: » A teoria criada por Vygotsky, denominada Teoria Interacionista. » A influência do social e do cultural na construção de conhecimento. » O papel da linguagem no processo de desenvolvimento humano. » Como ocorre o desenvolvimento dos processos mentais superiores, segundo o autor. 83 Introdução do Capítulo Neste último capítulo do nosso livro, apresentaremos três teóricos contemporâneos que estão influenciando o cenário da educação. Baseado em sua história pessoal e experiência profissional, Henri Wallon criou a Teoria Psicogenética. Observaremos que sua teoria defende o processo de evolução, dependendo tanto da capacidade biológica do sujeito quanto do ambiente que o afeta de alguma forma. Entenderemos que a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto do conhecimento. Para ele, a gênese da inteligência é genética e organicamente social. Refletiremos, a partir de seus conceitos, sobre as fases do desenvolvimento humano. O segundo autor, Howard Gardner, é um dos mais renomados e reconhecidos psicólogos que disserta acerca da inteligência. Gardner causou forte impacto na área educacional com sua teoria das inteligências múltiplas, divulgada no início da década de 1980. Ele revolucionou o cenário da psicologia e da educação, ao afirmar que o sujeito pode desenvolver diversos tipos de inteligência, dependendo do estímulo que recebe e do contexto em que vive. Sendo assim, refletiremos sobre as nove inteligências apresentadas por Gardner e debateremos sobre as implicações dessa teoria no ensino formal. O terceiro autor, David Ausubel, apresenta-nos a Teoria da Aprendizagem Significativa, afirmando que o fator isolado mais importante que influencia oaprendizado é aquilo que o aprendiz já conhece. Ele, diferentemente da maioria dos autores abordados neste livro, não estava interessado com as etapas do desenvolvimento. Sua preocupação foi construir uma teoria de ensino que pudesse ajudar os professores no seu desempenho em sala de aula. Por isso, conheceremos o processo da aprendizagem significativa. Refletiremos sobre o papel do professor e, também, sobre os princípios apresentados por Ausubel, para conseguirmos uma aprendizagem significativa. 6 CAPÍTULO MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO 84 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO Objetivos » Conhecer a Teoria Psicogética de Henri Wallon. » Refletir sobre as inteligências múltiplas propostas por Howard Gardner. » Analisar as propostas da aprendizagem significativa de David Ausubel. Henri Wallon e a Psicogenética Ao longo deste livro, tivemos a oportunidade de conhecer grandes teóricos do desenvolvimento humano. Observamos que Freud, Piaget e Vygotsky já atribuíam importância à afetividade no processo evolutivo. Mas foi Henri Wallon quem se aprofundou na questão. Para ele, a afetividade é a porta de entrada do conhecimento. Em seus estudos sobre o desenvolvimento, a inteligência não é vista como o principal componente do desenvolvimento. Também não acredita ser a interação com o ambiente o fator primordial, embora dê grande ênfase ao contexto social, tampouco disserta sobre ações inconscientes agindo no sujeito. Wallon defende que a vida psíquica é formada por três dimensões: motora, afetiva e cognitiva. Essas dimensões coexistem e atuam de forma integrada. Conhecendo sua história Figura 27. Henri Wallon. Fonte: <https://pedagogiaaopedaletra.com/henri-wallon/>. Acesso em: 21/4/2019. Henri Wallon nasceu em 15 de junho de 1879 em Paris. Viveu em um período de instabilidade social e turbulência política. Viveu as duas grandes guerras, o avanço do fascismo entre elas; a revolução russa de 1917 e as guerras para a libertação das colônias francesas na África. Em 1902, formou-se em Filosofia e em 1908 em Medicina. Tornou-se conhecido por seu trabalho científico sobre a Psicologia do Desenvolvimento. Entre 1908 e 1931 dedicou-se ao trabalho com crianças com deficiência cognitiva. Em 1914 foi a 1ª Guerra Mundial. 85 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 Lá atuou como médico, acompanhando soldados com lesões neurológicas graves. Essa experiência fez com que revisse algumas convicções quando trabalhava com as crianças com deficiência. Após a guerra, até 1931, trabalhou em instituições psiquiátricas. Atuou na Resistência Francesa na 2ª Guerra Mundial contra os alemães, sendo perseguido pela Gestapo, vivendo na clandestinidade por anos. De 1920 a 1937 foi o encarregado da Conferência sobre Psicologia, em Sorbonne. Durante os anos dedicados à academia, fundou um laboratório de pesquisa, dedicado ao atendimento de crianças com deficiência. A partir daí, lança inúmeros livros voltados para a Psicologia da criança. Wallon também teve uma vida política muito agitada, era marxista convicto e criticava a forma agressiva de ensino aplicada em sua época. Filiou-se ao partido socialista e em 1931 viaja para Moscou, convidado para integrar o Círculo da Rússia Nova. Esse grupo era formado por intelectuais, para aprofundar o conhecimento sobre o materialismo dialético, buscando possibilidades para a integração dessa ideia aos campos da ciência. Em 1942 filia-se ao Partido Comunista, mantendo relação com o partido até sua morte, em 1962. Teoria psicogenética Wallon defende que o processo de evolução depende tanto da capacidade biológica do sujeito quanto do ambiente, que o afeta de alguma forma. Para ele, o organismo é a condição primeira do pensamento, visto que toda função psíquica supõe um componente orgânico e que o objeto da ação mental vem do ambiente em que o sujeito está inserido. Ou seja, o indivíduo é determinado tanto fisiologicamente quanto socialmente. Para ele, a gênese da inteligência é genética e organicamente social. Saiba mais O primeiro trabalho de Wallon se chama Delírio da Perseguição. O delírio Crônico na base da interpretação, publicado em 1909. A maioria de sua obra não foi traduzida para o português, apenas algumas, são elas: I. Evolução psicológica da criança. Rio de Janeiro: Andes, s.d. II. Psicologia e educação da infância. Lisboa: Estampa, 1975. III. Objetivos e métodos da psicologia. Lisboa: Estampa, 1975. IV. Origens do pensamento na criança. São Paulo: Manole, 1989. Atenção Já falamos sobre as ideias marxistas e o materialismo dialético quando estudamos Vygotsky. 86 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO Assim como Piaget, Wallon divide o desenvolvimento em etapas. No entanto, sua pesquisa estava centrada na criança enquanto sujeito contextualizado. Para ele, o desenvolvimento da criança aparece como um processo descontínuo, sempre marcado por contradições e conflitos, como resultado do processo maturacional e das condições ambientais, provocando alterações qualitativas no seu comportamento em geral. Wallon preconiza, inclusive, que no processo de desenvolvimento pode haver uma regressão. Apesar da aquisição de um estágio ser irreversível, o sujeito pode retornar a atividades anteriores ao estágio. Isso porque um estágio não suprime os comportamentos anteriores, mas sim os integra, resultando em um comportamento que é a acumulação das partes. É nesse ponto que Wallon discorda da teoria behaviorista. Enquanto estes acreditam que a aprendizagem é um processo de modelagem, no qual vários comportamentos são condicionados e posteriormente extintos, Wallon afirma que o comportamento aprendido não é extinto, mas sim integrado a outra aprendizagem. Na teoria de Wallon, a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto do conhecimento. Ele afirma que a emoção é a exteriorização da afetividade. A emoção, antes da linguagem, é o meio utilizado pelo recém-nascido para estabelecer uma relação com o mundo externo. Os movimentos de expressão evoluem de fisiológicos a afetivos, em que a emoção cede terreno aos sentimentos e, depois, às atividades. A emoção precede as condutas cognitivas. Ela é um processo corporal que, quando intenso, prejudica a percepção do exterior. Portanto, com um bom desenvolvimento cognitivo a razão prepondera sobre a emoção. Em sua obra, Wallon demostra que não é possível separar um único aspecto da vida do ser humano, pois seu desenvolvimento acontece dentro de vários campos funcionais – afetivo, motor e cognitivo – de forma integrada. Fases do desenvolvimento Para Wallon, ‘o desenvolvimento humano é dividido em cinco estágios. Segundo ele, na sucessão de estágios há uma alternância entre as formas de atividades e de interesses da criança, denominada de “alternância funcional”, em que cada fase predominante incorpora as conquistas realizadas pela outra fase, construindo-se, reciprocamente, em um permanente processo de integração e diferenciação. Wallon enfatiza o papel da emoção no desenvolvimento humano, pois todo contato que a criança estabelece com as pessoas que cuidam dela, desde o nascimento, é feito de emoções e não apenas cognições. Classificou os estágios da seguinte maneira: 87 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 Impulsivo-emocional Figura 28. Mãe e Bebê. Fonte: <http://time.com/1311/the-impossibility-of-the-good-black-mother/>. Acesso em: 22/4/2019. Este estágio ocorre no primeiro ano de vida e está relacionado a questões internas, emocionais e motoras da criança, especificamente no desenvolvimento do seu “EU”. Quando nasce, a criança é totalmente dependente do meio externo, mostrando-se incapaz de sobreviver sozinha, necessitando do meio social para dar significado e trazer respostas para ela. Consequentemente necessita de adultos, que os cercam de reações de cunho afetivo e de natureza emocional,que os trazem as respostas de suas necessidades e estabelecem paulatinamente a interação entre a criança e o meio externo. Aqui, o bebê ainda não consegue distinguir o “eu” do outro. Através das trocas ocorridas nas relações estabelecidas com seus cuidadores é que a criança irá se diferenciar de seu meio, constituindo seu eu diferenciado do outro. Wallon subdividiu esta fase do desenvolvimento em dois momentos. No primeiro, que vai de 0 a 3 meses de idade, o bebê é quase um organismo puro, e suas atividades se baseiam em reflexo e movimentos impulsivos. Para este momento, Wallon chamou de Impulsividade Motora. Tais atividades são da ordem fisiológica e não são mais atendidas automaticamente como no período fetal, causando lhe momentos de espera, ansiedade e desconforto. Nesse momento ocorrem descargas motoras que são os movimentos reflexo, que servem como a primeira comunicação entre a criança e o meio exterior. O segundo momento, chamado de Emocional é construído após ser estabelecida esta primeira comunicação entre o bebê e seu cuidador, que sacia suas necessidades primeiras. Esta troca entre o bebê e seu cuidador é uma troca essencialmente afetiva e, inicialmente, sem relação intelectual. Após experiência de trocas, o bebê passará a estabelecer associações aprendendo a interpretar os significados que recebe do meio. A partir desse 88 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO momento, suas atitudes passam a ser intencionais. Suas ações passam a ter como objetivo não só a satisfação das necessidades básicas, mas a construção de novas relações sociais, com o predomínio da emoção sobre as demais atividades. Quanto melhor a qualidade das interações emocionais maior o horizonte da criança levando-a a ultrapassar sua subjetividade e se inserir no social. Sensório-motor e projetivo Figura 29. Expressão Corporal. Fonte: <https://cannonballread.com/2016/03/its-not-just-for-parents/>. Acesso em: 22/4/2019. Ocorre entre 1 e 2 anos, quando a criança já possui coordenação motora que a impulsiona a manipular objetos. Inicialmente, a manipulação de objetos se restringe ao espaço bucal, por ser a boca o único local que possui movimentos coordenados. Com o desenvolvimento do aparato motor, a criança coordena o movimento das mãos e braços, realizando a manipulação de objetos, com intencionalidade em suas ações. Nesse período, a função dominante é a sensório-motora, que desencadeia dupla função: a manipulação de objetos e a imitação, que possibilita a representação e o pensamento. O desenvolvimento da marcha e da fala demarcam o início do estágio sensório-motor, aprofundando e expandindo as relações com o mundo exterior. O desenvolvimento da linguagem possibilita nomear os objetos, propriedades e ações do mundo físico, representando- os e conceituando-os a partir do significado daquele repertório da linguagem, que é dado pela sociedade na qual a criança está inserida. Ao se apropriar do espaço, a criança desenvolve a inteligência prática, denominada por Wallon de inteligência espacial. As atividades circulares (sensações que produzem movimentos e movimentos que produzem sensações, através da coordenação entre percepção e situação correspondente) garantem o progresso da preensão, do reconhecimento do esquema corporal e da linguagem, passando a diferenciar-se do mundo físico. O período projetivo surge quando o movimento deixa de se relacionar exclusivamente com a percepção e manipulação de objetos. A expressão gestual cede lugar à representação, que independe do movimento. A atividade projetiva produz representação, permitindo 89 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 que a criança avance em relação ao pensamento presente e imediato. As atividades predominantes, nesse período, são a imitação e o simulação. A partir da imitação aparecem os jogos de ficção, que permitem realizar uma ação com o objeto, mesmo na sua ausência, o que conduz à autonomia da imagem, à representação. Personalismo Figura 30. Egocentrismo. Fonte: <http://criancapequenina.blogspot.com/2013/08/dicas-para-brincar-usando-o-espelho.html>. Acesso em: 22/4/2019. É nesta fase do desenvolvimento, entre os 3 e os 6 anos, que a criança começa a construir a consciência de si, através das interações sociais que estabelece. Essa fase é marcada por oposições, inibições, autonomia, sedução e imitação, que irão contribuir para a formação e enriquecimento do eu, a edificação interior. Divide-se em três períodos: Primeiramente, ao buscar afirmar-se como indivíduo autônomo, a criança toma consciência de si própria, o que é constatado pelo emprego dos pronomes eu e meu e demonstração de atitudes de recusa (uso do não). Seu ponto de vista diante do mundo se torna único e exclusivo, e suas crises de oposição confrontam-se com as pessoas do meio próximo a fim de imperar sua vontade. Ao conseguir tal objetivo, sente-se exaltada. Contudo, nem sempre a criança sai vencedora do “duelo” com o outro. Isso lhe causa ressentimentos e diminuição da autoestima. A alternância entre a vitória e a derrota causam uma crise no sujeito necessária para a construção do eu. Os sentimentos de ciúme, a posse extensiva aos objetos e as cenas para chamar a atenção dos que estão ao seu redor são características essenciais para se distinguir dos outros. É um período regido pelas interações sociais, no qual as crianças demonstram interesse pelas pessoas do seu cotidiano. A etapa é marcada pelo retorno da preponderância da afetividade, ou seja, das relações afetivas. 90 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO Em um segundo momento é marcado pelo narcisismo da criança que busca admiração e satisfação pessoal, expressando-se de forma sedutora, elegante e suave, a fim de ser aceita pelo outro. A criança só agrada a si mesma se agradar ao outro. Se é frustrada em sua necessidade de afirmação, pode demonstrar timidez. São tais contradições que desencadeiam a apropriação de papéis e personagens que possuem prestígio, admiração ou atração para si. A criança passa a reproduzi-los com acréscimo de características subjetivas, enriquecendo o personagem imitado por ela. No último período, a criança se esforça para substituir a imitação do outro por representações. É a representação que garante ao pensamento a função de antecipação e a possibilidade de pensar na relação entre um significante e um significado, além de expressar simbolicamente os objetos interiorizados. Categorial Figura 31. Categorial. Fonte: <https://pt.depositphotos.com/122560908/stock-illustration-three-kids-reading-books.html>. Acesso em: 22/4/2019. Essa etapa estende-se dos 7 aos 11 anos de idade, ocorrendo uma predominância funcional. Tanto a função simbólica quanto a inteligência são concretizadas nessa etapa. Nela a criança direciona suas atenções para a aquisição e para o entendimento do mundo exterior. Assim como no Estágio Sensório-Motor, essa etapa é guiada pelas relações cognitivas com o meio, predominando, assim, o aspecto cognitivo. Quando ingressa nesta etapa, o pensamento da criança é marcado pelo sincretismo. Ou seja, a criança pensa em pares. O pensamento de pares é um ato intelectual, inicialmente confuso e mesclado, que supõe vários outros pares concorrentes e complementares que culminam por desencadear a identificação e diferenciação. Para um melhor entendimento, citarei um exemplo da utilização dos pares para a formação das estruturas de pensamento: » O que é a chuva? » A chuva é vento. 91 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 » Então a chuva e o vento são iguais? » Não. » O que é a chuva? » A chuva é quando tem trovão. » O que é o vento? » É a chuva. » Então é a mesma coisa? » Não, não é igual. » O que é que não é igual? » É o vento. » O que é o vento? » É céu. A estrutura de pares é etapa necessária ao desenvolvimento do pensamento categorial, permitindo à criança afirmar as qualidadese as relações existentes, a partir dos conflitos e contradições entre a estrutura elementar do par e as interações entre os pares. Em um segundo momento, o pensamento torna-se categorial, passando a haver a representação das coisas e a explicação do real, iniciada com a integração das diferenciações produzidas durante o período pré-categorial. É com o desenvolvimento da função categorial que a relação causa-efeito se faz presente. A noção de espaço e tempo passam a integrar-se a um sistema permitindo que a criança relacione as suas implicações com o movimento. Aqui, aumenta-se a concentração e atenção na atividade, permitindo que as atividades espontâneas sejam progressivamente substituídas por atividades intencionais. Tais diferenciações, no nível de operações mentais, culminam com a formação das categorias intelectuais, tornando possível a representação e a explicação da realidade. Este momento é determinante para a construção de uma personalidade polivalente, dando início à participação em diferentes grupos sociais, enriquecendo sua identidade. A criança começa a atravessar para o estágio da puberdade e da adolescência, no qual as exigências para a construção da identidade adulta se impõem. Assim como no Estágio Sensório-Motor, esta etapa é guiada pelas relações cognitivas com o meio, predominando, assim o aspecto cognitivo. 92 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO Adolescência Figura 32. A puberdade. Fonte: <https://www.papodemae.com.br/wp-content/uploads/2015/07/puberdade.png>. Acesso em: 22/4/2019. Esse estágio inicia-se a partir dos 12 anos, quando a relação da criança e do adulto é rompida começando uma crise a que Wallon denominou crise da puberdade. Essa fase afeta todos o sentimento do adolescente. O jovem expressa seus sentimentos com o corpo. A prova disso é que o espelho se torna uma companhia constante, proporcionando momentos de prazer e de grande inquietação. Na adolescência aparece a ambivalência de atitudes e vários sentimentos, que são resultado da riqueza da vida afetiva e imaginativa que traduz o desequilíbrio interior. É uma fase de transformação na qual se inicia um período de rebeldia e oposição. Wallon afirma que o jovem pode procurar satisfazer suas necessidades de conquista e aventuras não em sonhos ou fantasia, mas em ações reais cujos efeitos podem ser positivos ou negativos dependendo das opções de ordem social e moral que o jovem faça nessa fase de desenvolvimento. Trata-se, portanto, de uma escolha de valores morais que o jovem precisa fazer e implica o estabelecimento de relações com a sociedade que podem se adequados ou não, conforme orientação recebida dos adultos e do meio à qual está inserido. A etapa é marcada, novamente, pelo retorno da preponderância da afetividade, com especial atenção a motes de ordem pessoal, existencial e moral. Aprendizagem Segundo Wallon, como uma aptidão só se manifesta se encontrar ocasião favorável e objetos que lhes respondam, muitas aptidões novas poderiam manifestar-se no encontro das necessidades psicológicas das crianças com as necessidades crescentes da sociedade. 93 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 Assim, o acesso à cultura é função primordial da educação formal, pois ela é a expressão do florescimento das criações e das aptidões, sejam manuais, corporais, estéticas, intelectuais ou morais. A escola tem como função primordial dar acesso à cultura. É a partir dela que o sujeito se desenvolve e se constitui, devendo intervir nesse processo de maneira a promover o desenvolvimento de tantas aptidões quantas forem possíveis. Só assim o homem poderá se desenvolver de maneira completa, aprendendo a compreender, ponderar e escolher. Wallon acreditava que todos deveriam ter oportunidades iguais, mas respeitando a singularidade de cada um. Para isso, seria necessário haver escola para todos, em que cada um pudesse encontrar, segundo suas aptidões, todo o desenvolvimento intelectual, estético e moral que fosse capaz de assimilar. Por isso, Wallon insiste na importância de o professor conhecer as condições de existência de seu aluno. É necessário conhecer os valores que estão sendo cultivados pelo aluno, conhecer o meio em que esse aluno vive, para saber qual o objetivo a ser alcançado pelo educando. A sala de aula deve ser um ambiente de cooperação, um espaço heterogêneo e de troca, onde os alunos que dominam uma dada função promovam o desenvolvimento desta função em seus colegas. Ao professor cabe a tarefa de promover a colaboração entre os alunos, socializando e construindo conceitos. As ideias devem ser constantemente reformuladas no confronto com a realidade, considerando as contradições sociais. A educação deve ajudar a criar as condições para que os alunos sejam transformadores da sociedade e de si mesmos. Howard Gardner e a teoria da inteligência emocional Muitos são os autores que dialogam sobre a educação e suas nuances. Um dos mais renomados e reconhecidos internacionalmente é Howard Gardner, psicólogo cognitivo e educacional e professor na Universidade Harvard. Seu interesse pelos processos de aprendizado já estava presente nos primeiros estudos de pós-graduação, quando pesquisou as descobertas do suíço Jean Piaget (1896-1980). Gardner causou forte impacto na área educacional com sua teoria das inteligências múltiplas, divulgada no início da década de 1980. Ele propôs que a vida humana requer o desenvolvimento de vários t ipos de inteligências. Portanto, Gardner não entra em conflito com a definição científica de inteligência como sendo “a capacidade de resolver problemas ou fazer coisas 94 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO importantes”, mas ele acredita que é possível resolver problemas ou fazer coisas importantes de maneiras diferentes. Howard Gardner afirma que a inteligência acadêmica (obtida através de qualificações e méritos educacionais) não pode ser o fator decisivo para determinar a inteligência de uma pessoa. Conhecendo sua história Figura 33. Howard Gardner. Fonte: <http://pixelrz.com/lists/suggestions/howard-gardner/>. Acesso em: 22/4/2019. Filho de pais refugiados da Alemanha nazista, Howard Gardner nasceu em 1943 na Pensilvânia, Estados Unidos. Seus pais chegaram aos Estados Unidos em 1938 com um filho, Eric, de três anos. Um pouco antes do nascimento de Howard, Eric faleceu, vítima de um acidente de trenó. Traumatizados com a morte do filho mais velho, seus pais não estimulavam as atividades físicas. Em contrapartida, a criatividade e as atividades cognitivas eram muito valorizadas. A morte do irmão e as origens judaicas eram tabus na família Gardner. Mas o próprio dizia que ambos os eventos impactaram sobre sua obra, pois o conhecimento é construído a partir das experiências vividas. (GARDNER, 1994. pág. 22) A dedicação à música e às artes, que começou na infância, levou-o a supor que as noções consagradas a respeito das aptidões intelectuais humanas eram parciais e insuficientes. Imerso em um mundo de manifestas atividades estéticas e de comunicação com grande força, Gardner começou a supor que as aptidões intelectuais humanas não eram tudo o que uma pessoa precisava ter. Ou seja, o seu QI (Quociente de Inteligência, que mede o conhecimento cognitivo e lógico-matemático de uma pessoa) não era suficiente para medir suas reais competências e habilidades. Em 1961 ingressa na universidade de Harvard para estudar história. Lá, conheceu um renomado psicólogo, especializado em desenvolvimento humano e educação, Erik Erikson, que muito influenciou Gardner. 95 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 Howard Gardner mudou de curso, passando a estudar Ciências Sociais, uma combinação de psicologia, sociologia e antropologia, com particular interesse em psicologia clínica. Novamente troca de curso, após conhecer o psicólogo cognitivo Jerome Bruner, que se dedicava aos estudos sobre o processo deeducação, graduando-se em psicologia em 1965. Dentre emoção e cognição, optou por estudar a cognição, dando destaque à obra de Piaget. Também se interessava em estudar as manifestações artísticas modernas. Passou a se dedicar aos estudos sobre a inteligência humana, dedicando-se ao estudo da criatividade, das competências e do talento das pessoas. Em seus primeiros estudos, observou a inteligência dos superdotados., depois, a das pessoas com lesões ou disfunções cerebrais. Assim, ele foi formulando hipóteses sobre habilidades individuais e sobre qual região do cérebro reagia a tipos diferentes de estímulos. Em 1966 começou seu doutorado, também em Harvard, escrevendo sua tese sobre a sensibilidade e estilo nas crianças. Em 1967 passou a integrar a equipe do Projeto Zero, na área de educação artística, permanecendo lá até hoje. Seu primeiro grande livro, A Mente Quebrada, foi escrito em 1975. Depois desse, mais de 15 livros foram publicados. Howard Gardner é atualmente Hobbs Professor de Cognição e Educação da Escola Superior de Educação de Harward e professor adjunto de neurologia da Universidade de Boston School of Medicine. Saiba mais Erik Erikson defendeu, em seu livro Infância e Sociedade, publicado em 1950, a ideia de que as sociedades criam mecanismos institucionais que propiciam e enquadram o desenvolvimento da personalidade, embora as soluções específicas para problemas similares variem de cultura para cultura. Erikson publicou livros sobre Martinho Lutero, Gandhi e Hitler e escreveu ensaios em que relaciona a psicanálise com a história, política, filosofia e teologia, tais como A história da vida e o momento histórico (1975). Criador da expressão “crise de identidade”, Erik Erikson morreu em 12 de maio de 1994, em Harwich, estado de Massachusetts. As suas concepções revolucionaram a psicologia do desenvolvimento, influenciando acadêmicos e clínicos nos dias de hoje. Saiba mais O Projeto Zero é composto por equipes multidisciplinares e tem como objetivo estudar as relações entre inteligência, compreensão e ensino. Quer saber mais? Acesse aqui: <https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/o-projeto-de-harvard-que-esta- mudando-a-maneira-de-dar-aulas-2m8n5cewct51u4bvyb29vzaqt/>. 96 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO Teoria das inteligências múltiplas Figura 34. O Cérebro Humano. Fonte: <https://www.pinterest.es/pin/692006298965935506/?autologin=true&lp=true>. Acesso em: 22/4/2019. Saiba mais Publicações traduzidas para o português: » Gardner, H. A Criança Pré-escolar. São Paulo: Artmed, 1994. » ________. Estruturas da Mente. São Paulo: Artmed, 1994. » ________. A Nova Ciência da Mente. São Paulo: EDUSP, 1995. » ________. Inteligências - Múltiplas Perspectivas. São Paulo: Artmed, 1995. » ________. Inteligências Múltiplas - A Teoria na Prática. São Paulo: Artmed, 1995. » ________. Mentes Que Lideram. São Paulo: Artmed, 1995. » ________.Mentes Que Criam. São Paulo: Artmed, 1996. » ________. As Artes e o Desenvolvimento Humano. São Paulo: Artmed, 1997. » ________. 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A palavra inteligência tem sua origem na junção de duas outras palavras latinas, a palavra inter (entre) e a palavra legere (eleger ou escolher), ou seja, é a capacidade de fazer a escolha melhor entre duas ou mais situações. O primeiro dos testes de sucesso escolar foi realizado e desenvolvido pelo psicólogo Alfred Binet, em 1900, conhecido como teste de QI (quoeficiente de inteligência). Esse teste tinha por finalidade diagnosticar crianças com e sem deficiência mental e também foi usado para medir a inteligência dos soldados, após a primeira guerra mundial. Acreditava-se que era possível medir quantitativamente a inteligência. Mesmo hoje em dia, o senso comum, e alguns acadêmicos, ainda creem neste tipo de avaliação para medir a inteligência. Gardner apresenta uma nova proposta, dizendo que os testes desenvolvidos anteriormente medem, apenas, a inteligências verbal e lógico-matemática. Isso porque ele acredita que há 9 dimensões da inteligência e que cada sujeito tem habilidades em determinadas dimensões. O que leva as pessoas a desenvolverem suas inteligências são a educação que recebem e as oportunidades que encontram. Para Gardner, cada indivíduo nasce com um vasto potencial de talentos, ainda não moldado pela cultura, o que só começa a ocorrer por volta dos 5 anos. Segundo ele, a educação costuma errar, ao não levar em conta os vários potenciais de cada um. Além disso, é comum que essas aptidões sejam sufocadas pela tendência das escolas de nivelar seus alunos. Estimular as aptidões individuais de cada aluno é a proposta do autor para termos escolas de excelência. Em sua publicação mais conhecida, Estruturas da Mente, Gardner propôs sete dimensões da inteligência. Depois, acrescentou mais duas, totalizando 9 dimensões, a saber: Inteligência linguística: Figura 35. Inteligência Linguística. Fonte: <https://asafetuosas.blogspot.com/2012/10/historia-e-vida-de-gardner.html>. Acesso em: 22/4/2019. 98 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO Capacidade de pensar em palavras e usar a linguagem para expressar e apreciar significados complexos. Permite-nos compreender a ordem e significado das palavras e aplicar habilidades metalinguísticas para refletir sobre nosso uso da linguagem. Essa inteligência é a competência humana mais amplamente compartilhada e é evidente em poetas, escritores, jornalistas, dentre outros. Adultos com esse tipo de inteligência gostam de escrever, ler, contar histórias e fazer palavras cruzadas. Os indivíduos com essa inteligência desenvolvida são ótimos oradores e comunicadores, além de possuírem grande capacidade de aprendizado de idiomas. Inteligência lógico-matemática Figura 36. Inteligência Lógico-matemática. Fonte: <http://criancasenumeros.blogspot.com/2012/08/porque-estudar-matematica.html>. Acesso em: 22/4/2019. Competência para calcular, quantificar, considerar proposições e hipóteses e realizar operações matemáticas completas. Ela nos permite perceber relações e conexões e usar pensamento abstrato e simbólico. As pessoas com essa inteligência têm habilidade de raciocínio sequencial, padrões de pensamento indutivo e dedutivo e, geralmente, são atraídas por problemas de aritmética, jogos de estratégia e experimentos. São sujeitos voltados para conclusões baseadas em dados numéricos e na razão. As pessoas com essa inteligência possuem facilidade em explicar o mundo, utilizando-se de fórmulas e números. Costumam fazer contas de cabeça rapidamente. Inteligência musical Figura 37. Inteligência Musical. Fonte: <http://losarquitectosdelfuturo.es/inteligencia-musical/>. Acesso em: 22/4/2019. 99 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 A inteligência musical é a capacidade de discernir entre ritmo, timbre e tom. Permite que as pessoas reconheçam, criem, reproduzam e reflitam sobre música, como demonstrado por compositores, maestros, músicos, vocalistas e ouvintes sensíveis. Curiosamente, muitas vezes há uma ligação afetiva entre música e emoções.Além disso, inteligências matemáticas e musicais podem compartilhar processos de pensamento comuns. Adultos jovens com esse tipo de inteligência são geralmente muito conscientes de sons que outros podem não notar. Inteligência naturalista Figura 38. Inteligência naturalista. Fonte: <https://br.freepik.com/fotos-premium/crianca-feliz-explorando-a-natureza-com-lupa_1951478.htm>. Acesso em: 22/4/2019. A Inteligência Naturalista está voltada para a análise e compreensão dos fenômenos da natureza: físicos, climáticos, astronômicos e químicos. Ela está ligada à capacidade humana de discriminar os seres vivos – plantas, animais – bem como à sensibilidade do homem para observar outras características do mundo natural, como nuvens, formações rochosas etc. Essa capacidade foi muito valorizada, no nosso passado evolutivo, quando era extremamente útil aos caçadores, coletores e agricultores, e continua a ser central em profissões como botânicos ou chefes de cozinha. Acredita-se que grande parte da nossa sociedade de consumo explora as inteligências naturalistas, que podem ser mobilizadas na discriminação entre carros, tênis, tipos de maquiagem e afins. Inteligência existencial Figura 39. Inteligência Existencial. Fonte: <http://picture24gallery.blogspot.com/2012/11/existential-intelligence-multiple.html>. Acesso em: 22/4/2019. 100 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO A inteligência existencial é a sensibilidade e capacidade de abordar questões profundas sobre a existência humana, tais como o sentido da vida, por que morremos e como chegamos aqui. Muito comum em líderes espirituais, teólogos e filósofos. Um indivíduo tem alta inteligência existencial, quando possui forte interesse por questões relacionadas à existência, como a morte, o universo, à origem da vida etc. Inteligência interpessoal Figura 40. Inteligência Intrapessoal. Fonte: <https://soumamae.com.br/iteligencia-interpessoal-nas-criancas-o-que-e-e-como-se-desenvolve/>. Acesso em: 22/4/2019. Aptidão de compreender e interagir eficazmente com os outros. Trata-se de uma comunicação eficaz, verbal e não verbal, a capacidade de notar as diferenças entre as pessoas, ter sensibilidade para identificar os humores e temperamentos dos outros e a capacidade de ter múltiplas perspectivas. Pessoas com predominância dessa inteligência têm facilidade em estabelecer relacionamentos com outras pessoas. Indivíduos com essa inteligência conseguem facilmente identificar a personalidade das outras pessoas. Costumam ser ótimos líderes e atuam com facilidade em trabalhos em equipe. Geralmente, professores, assistentes sociais, atores e políticos exibem inteligência interpessoal. Adultos jovens com esse tipo de inteligência são normalmente líderes, bons em se comunicar e parecem compreender sentimentos e motivações dos outros. Inteligência corporal-cenestésica Figura 41. Inteligência Corporal-Cinestésica. Fonte: <https://luzflores.com/>. Acesso em: 22/4/2019. 101 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 Competência para manipular objetos e usar uma variedade de habilidades físicas. Essa inteligência também envolve um senso de tempo certo e perfeição de habilidades através da união mente-corpo. A pessoa com essa inteligência pode utilizar o corpo para se expressar. Atletas, dançarinos, cirurgiões e artesãos exibem essa inteligência bem desenvolvida. Inteligência intrapessoal Figura 42. Inteligência Intrapessoal. Fonte: <https://ramblingsofa20yearold.wordpress.com/2014/02/23/being-stupid-about-intelligence/>. Acesso em: 22/4/2019. Capacidade de compreender a si mesmo, seus pensamentos e sentimentos e emoções, usando esse conhecimento no planejamento e direcionamento da vida. Essa inteligência envolve não só a valorização do eu, mas também da condição humana. É evidente em psicólogos, líderes espirituais e filósofos. Estes jovens adultos podem ser tímidos. São muito conscientes de seus próprios sentimentos e são auto motivados. Inteligência espacial Figura 43. Inteligência Espacial. Fonte: <https://amenteemaravilhosa.com.br/inteligencia-espacial/>. Acesso em: 22/4/2019. 102 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO É a habilidade na interpretação e reconhecimento de fenômenos que envolvem movimentos e posicionamento de objetos. A pessoa com essa inteligência, tem a capacidade de perceber com exatidão o mundo visual, realizar transformações e modificações em relação às percepções iniciais próprias e recriar aspectos das próprias experiência visual. Um jogador de futebol habilidoso possui esta inteligência, pois consegue facilmente observar, analisar e atuar com relação ao movimento da bola. Saber se localizar, ler mapas e fazer esculturas O papel da escola Após a obra de Gardner, algumas escolas se esforçam para mudar seus procedimentos, buscando valorizar todos os tipos de inteligências. Elas tentam estimular todas as habilidades potenciais dos alunos, quando se está ensinando um mesmo conteúdo. As melhores estratégias partem da resolução de problemas. Gardner diz que não há como compensar totalmente a desvantagem genética com um ambiente estimulador da habilidade correspondente, mas condições adequadas de aprendizado sempre suscitam alguma resposta positiva do aluno - desde que elas despertem o prazer do aprendizado. Para Gardner, a escola tem duas funções primordiais: modelar papéis sociais e transmitir valores. “A missão da educação deve continuar a ser uma confrontação com a verdade, a beleza e a bondade, sem negar as facetas problemáticas dessas categorias ou as discordâncias entre diferentes culturas”, (Atividades Iniciais de Aprendizagem. 2001, p.37) escreveu. Pela própria natureza de suas descobertas, o trabalho de Gardner favorece uma visão integral de cada indivíduo e a valorização da multiplicidade e da diversidade na sala de aula. David Ausubel e a teoria da aprendizagem significativa David Paul Ausubel dizia que, quanto mais sabemos, mais aprendemos. Famoso por ter proposto o conceito de aprendizagem significativa, afirmava que o fator isolado mais importante que influencia o aprendizado é aquilo que o aprendiz já conhece. Quando sua teoria foi apresentada, em 1963, as ideias behavioristas predominavam. Acreditava-se na influência do meio sobre o sujeito. O que os alunos sabiam não era considerado e entendia-se que só aprenderiam se fossem ensinados por alguém. Ausubel pensava justamente o oposto. Para ele, aprender significativamente é ampliar e reconfigurar ideias já existentes na estrutura mental e com isso ser capaz de relacionar e acessar novos conteúdos. 103 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 Conhecendo sua história Figura 44. David Ausubel. Fonte: <https://novaescola.org.br/conteudo/262/david-ausubel-e-a-aprendizagem-significativa>. Acesso em: 8/5/2019. David Ausubel nasceu em 1918, em Nova York, Estados Unidos. Filho de imigrantes, de família judia e pobre, imigrantes da Europa Central, cresceu insatisfeito com a educação que recebera. Seu interesse pela forma de aprendizagem surgiu a partir do sofrimento vivido na escola. Revoltado contra os castigos e humilhações pelos quais passara, afirmava que a educação é violenta e reacionária. Ele contava que, certa vez, ao falar um palavrão, sua professora lavou sua boca com sabão e o manteve em pé em um canto da sala, o dia inteiro, para que servisse de exemplo para a turma com cinquenta alunos assustados. Para ele, a escola é um cárcere para meninos. O crime de todos é a pouca idade e por isso os carcereiros lhes dão castigos. Formado pela universidade de Nova York, é o criador da teoria da aprendizagem significativa, um dos conceitos básicos no construtivismo moderno. Sua teoria é baseada na concepção cognitiva, segundo a qual a aprendizagem acontece quando as pessoas interagem com ela, tentando dar sentido ao mundo que percebem. Apesar de sua formação em Medicina Psiquiátrica, ele dedicou partede sua vida acadêmica à Psicologia Educacional. Após sua formação acadêmica, vai viver no Canadá, buscando pensar nas melhorias necessárias ao verdadeiro aprendizado. Totalmente contra a aprendizagem puramente mecânica, torna-se um representante do cognitivismo, e propõe uma aprendizagem que tenha uma “estrutura cognitivista”, de modo a intensificar a aprendizagem como um processo de armazenamento de informações que, ao agrupar-se no âmbito mental do indivíduo, seja manipulada e utilizada adequadamente no futuro, através da organização e integração dos conteúdos aprendidos significativamente. 104 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO Baseado em sua história de vida, sua obra leva em consideração a história do sujeito e ressalta o papel dos docentes como facilitadores da aprendizagem. De acordo com ele, há duas condições para que ocorra uma aprendizagem significativa: o conteúdo a ser ensinado deve ser potencialmente revelador e o estudante precisa estar disposto a relacionar o material de maneira consistente e não arbitrária Ensinar sem levar em conta o que a criança já sabe, segundo Ausubel, é um esforço vão, pois o novo conhecimento não tem em que se ancorar. Mas há outro requisito, que se refere ao desafio diário de tornar a escola um ambiente motivador. Pode-se preparar a melhor atividade, mas é o aluno que determina se houve ou não a compreensão do tema. Não adiantaria o professor criar uma aula divertida se ela não trouxer a reflexão e a negociação de significados para seus alunos. Ausubel publicou seus primeiros estudos sobre a teoria da aprendizagem significativa na obra Psychology of Meaningful Verbal Learning, publicada em 1963. Mais tarde, no final da década de 1970, recebeu a contribuição de Joseph Novak, que progressivamente incumbiu-se de refinar e divulgar a teoria. Em 1975, Ausubel esteve no Brasil na, PUC-SP, e coordenou um Seminário Avançado, que reuniu 25 pesquisadores de todo o Brasil. Com a contribuição de Novak, a teoria da aprendizagem significativa modificou o foco do ensino do modelo estímulo → resposta → reforço positivo para o modelo: aprendizagem significativa → mudança conceptual → construtivismo. Aprendizagem significativa Figura 45. Aprendizagem Significativa. Fonte: <https://amenteemaravilhosa.com.br/aprendizagem-significativa/>. Acesso em: 23/4/2019. Um dos aspectos mais importantes da obra de David Ausubel foi a sua preocupação em construir uma teoria de ensino que pudesse ajudar os professores no seu desempenho em sala de aula. Quem aqui não se lembra do seu próprio período escolar? De quais conteúdos que você ainda se lembra? E aqueles que esqueceu? Que fez questão de esquecer? Isso nos mostra que nem tudo que nos ensinam, aprendemos de maneira igual. A aprendizagem profunda só acontece, quando derivada de um tema de nosso interesse. 105 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 Por isso, Ausubel estudou as diferenças entre a aprendizagem profunda e a superficial, partindo dessa observação para construir sua teoria da aprendizagem significativa. Sua teoria é uma das que melhor explicam como ocorre a aprendizagem profunda. Para que haja uma aprendizagem significativa dos conteúdos escolares, é fundamental que eles façam algum sentido para o aluno. Também deverá ser uma aprendizagem construída e relacionada com os conhecimentos prévios, na qual o sujeito adquire um papel ativo, reestruturando e organizando a informação. É no curso da aprendizagem significativa que o significado lógico do material de aprendizagem transforma-se em significado psicológico para o sujeito. Para Ausubel (1963, p. 58), a aprendizagem significativa é o mecanismo humano, por excelência, para adquirir e armazenar a vasta quantidade de ideias e informações representadas em qualquer campo de conhecimento. A teoria da aprendizagem significativa sofreu forte influência do construtivismo de Piaget, na medida em que seu autor acredita que o conhecimento verdadeiro é construído pelo sujeito através de suas próprias interpretações. Contudo, diferentemente de outros autores que vimos neste livro, preocupados com o processo de desenvolvimento humano, Ausubel estava interessado em provocar uma mudança no modo como a informação é passada em sala de aula Aqueles conteúdos que não absorvemos de fato, que esquecemos com o passar do tempo, são baseados na memória literal, sem um significado para quem está aprendendo. É difícil que uma aprendizagem literal ou superficial modifique as representações do sujeito, não sendo, portanto, uma aprendizagem real. Precisamente, nasce desse questionamento a necessidade de entender o que é a aprendizagem significativa. O primeiro conceito que devemos ter em mente, quando falamos de uma aprendizagem significativa, é que ela é relacional. Ou seja, está relacionada com os conhecimentos prévios e experiências vividas. Ela precisa modificar ou complementar nossos esquemas ou representações da realidade, para que se torne uma aprendizagem profunda. Muito mais do que dados memorizados, ela precisa ser um marco conceitual sobre como interpretamos a realidade que nos rodeia. Para Ausubel, a aprendizagem é cíclica. Observamos a realidade e, a partir de nossos esquemas prévios, construímos a representação dessa realidade. Ao construir tal representação, ela se incorpora em nosso esquema, mudando ou complementando nosso conhecimento. Assim, as representações adicionadas influenciarão na criação de novas representações, criando assim um ciclo REPRESENTAÇÃO NOVO MARCO CONCEITUAL NOVA REPRESENTAÇÃO 106 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO Fica, então, claro que nesta perspectiva, o conhecimento prévio – a estrutura cognitiva do aprendiz – é a variável crucial para a aprendizagem significativa. Aprendizagem significativa e a sala de aula O processo de aprendizagem significativa, utilizado para as crianças em idade pré-escolar é o de formação de conceito, envolvendo generalizações de interesses específicos para que, na idade escolar, os alunos já tenham desenvolvido um conjunto de conceitos, de modo a favorecer o desenvolvimento da aprendizagem significativa. Esses conceitos deverão ser adquiridos através de assimilação, diferenciação progressiva e reconciliação integrativa de conceitos. Para tanto, Ausubel sugere para esse processo, a utilização de organizadores prévios para, de fato, ancorar a nova aprendizagem, levando o aluno ao desenvolvimento de conceitos subsunçores, isto é, conceitos relevantes, preexistentes na estrutura cognitiva do aprendiz, de modo a facilitar a aprendizagem seguinte. Para que a aprendizagem significativa ocorra, o autor assinala duas condições essenciais: 1. Disposição do aluno para aprender. 2. O material didático desenvolvido, que deve ser, sobretudo, significativo para o aluno. Somente dessa forma é que se dará a verdadeira compreensão de conceitos e proposições, o que implica na posse de significados claros e intransferíveis. Para a avaliação consistente da aprendizagem significativa, o método válido e prático, segundo Ausubel, consiste em buscar soluções de problemas diversos, através de testes de compreensão, utilizando-se de recursos diferentes daqueles, utilizados Saiba mais Mas o que são organizadores prévios? Segundo o autor, são informações e recursos introdutórios, que devem ser apresentados antes dos conteúdos da matriz curricular, uma vez que têm a função de servir de ponte entre o que o aluno já sabe e o que ele deve saber, para que o conteúdo possa ser realmente aprendido de forma significativa. Os organizadores se tornarão mais eficazes, se forem apresentados no início das tarefas de aprendizagem, para que suas propriedades possam integrar-se como elemento atrativo para o aluno, visando a provocar o interesse e desejo de aprender. Sua formulação deve contar com um vocabulário bastante familiar ao aluno, de modo que, sua organização, bem como a aprendizagemsejam consideradas como material de valor pedagógico. Atenção Subsunçores significa: “que funcionam como âncoras para as novas aprendizagens”. 107 MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO • CAPÍTULO 6 anteriormente no material instrucional. Para que se possa constatar, de fato, se o aluno desenvolveu ou não, as habilidades necessárias à aquisição da aprendizagem significativa. Se trouxermos a teoria da aprendizagem significativa para os dias de hoje, observaremos vários equívocos no método de ensino-aprendizagem. O sistema é feito para favorecer uma aprendizagem de memorização ou literal, em que os alunos aprendem dados e fórmulas sem nenhum significado para ele. Nosso sistema de avaliação, baseado em provas, também é falho, pois valoriza a aprendizagem superficial. Isso porque, para realizar uma boa prova não é necessária uma aprendizagem profunda, significativa. Basta tirar uma boa nota. Para isso, temos excelentes professores particulares para ensinar “macetes” para seus alunos. Para aqueles alunos que buscam compreender a matéria, tirar uma nota inferior à nota dos colegas, que apenas memorizaram o conteúdo, faz com que se sintam desmotivados e não entendam por que têm resultados piores. Para conseguir uma aprendizagem significativa, Ausubel propôs os seguintes princípios: I. Levar em consideração os conhecimentos prévios dos alunos. Lembramos que a aprendizagem significativa é relacional. Para ser profunda, ela precisa estar conectada com conteúdos já introjetados pelo sujeito. II. Proporcionar atividades que despertem o interesse do aluno. Quanto maior o interesse, mais disposto ele estará para incorporar novos conhecimentos em seu marco conceitual. III. Confiança no professor. É fundamental que o professor crie um clima harmônico em sua sala de aula. O aluno jamais deveria ver seu professor como um obstáculo à sua aprendizagem. Um dos papéis do professor é transmitir confiança e tranquilidade para seus alunos. IV. Proporcionar atividades em que o aluno possa opinar e debater sobre o conteúdo. O conhecimento deve ser construído pelo próprio sujeito, pois é ele, através de seu marco conceitual, quem irá interpretar a realidade material. V. Dar exemplos concretos do conteúdo explicado. Eles ajudam a contextualizar o conteúdo, a partir da realidade vivida. VI. Ser o guia do processo cognitivo do aluno. Como o aluno é livre para construir seu conhecimento, cabe ao professor supervisionar o processo, orientando seu aluno, quando o mesmo cometer algum erro conceitual. 108 CAPÍTULO 6 • MAIS ALGUMAS BASES PSICOLÓGICAS PARA EDUCAçãO VII. Criar uma aprendizagem situada no ambiente sociocultural. É fundamental que o aluno entenda que o conhecimento é construído e interpretado a partir da sua realidade sociocultural. Entender o porquê das diferentes interpretações ajudará a construir uma aprendizagem significativa. Claramente, apostar em um modelo que priorize a aprendizagem significativa requer uma maior dedicação do corpo docente escolar. É preciso que o professor tenha disponibilidade para identificar os conhecimentos prévios de seus alunos e construir sua aula a partir disso. Termino, assim, este livro perguntando a vocês: que modelo de ensino-aprendizagem queremos para nossos alunos? Sintetizando Vimos até agora: » A Psicogenética, teoria criada por Henri Wallon defende o processo de evolução, dependendo tanto da capacidade biológica do sujeito quanto do ambiente, que o afeta de alguma forma. » Assim como Piaget, Wallon divide o desenvolvimento em etapas. Contudo, sua pesquisa estava centrada na criança enquanto sujeito contextualizado. » Na teoria de Wallon, a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto do conhecimento. » As inteligências múltiplas, propostas pelo renomado Howard Gardner. » Segundo Gardner, o que leva a pessoa a desenvolver suas inteligências é a educação que recebem e as oportunidades que encontram. » O processo de aprendizagem significativa, segundo David Ausubel. » Como proporcionarmos conhecimento profundo a nossos alunos. 109 Referências ALMEIDA E SILVA, M. C. 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