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Disciplina: Educação, sexualidade e gênero Aula 4: Interseção entre a opressão de gênero/classe/etnia Apresentação Nesta aula, veremos que existe uma convergência entre gênero, classe e etnia que tem gerado um intenso debate nas últimas décadas, principalmente entre grupos feministas. Identi�caremos que as relações de poder que geram opressão estão presentes no campo educacional e que, por esse motivo, é fundamental re�etir sobre os caminhos de reprodução e de mudança sociocultural envolvidos na escola. Objetivos Descrever a convergência entre a opressão de gênero, classe e raça; Decodi�car o papel da educação e da escola na reprodução das relações de poder que geram opressão; Apontar caminhos de mudança socioculturais que minimizem este tipo de opressão. Vamos falar sobre gênero, raça e etnia? Para que possamos prosseguir, diante da complexidade do tema, é importante esclarecer do que estamos falando quando nos referimos a raça e etnia. Em meados do século IX, cientistas sentiram a necessidade de explicar as diferenças entre as sociedades, os homens e os grupos de indivíduos. Essa divisão foi in�uenciada pelas teorias darwinistas, que certamente você estudou no ensino médio, em que a ciência tentava explicar as diferenças por um determinismo biológico. Nesse cenário surge o conceito de raça. Acreditava-se que havia uma predisposição de comportamentos sociais e individuais, possivelmente explicáveis através das diferenças físicas, de caráter genético, entre os indivíduos e entre os grupos sociais ou sociedades. Esse pensamento in�uenciou as teorias racistas, ou seja, preconceituosas e excludentes. É possível a�rmar que o conceito de raça está associado, portanto, ao biológico como questões de cor de pele, tipo de cabelo, conformação facial e cranial, ancestralidade e genética. Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online (Fonte: Shutterstock). Já o conceito de etnia está situado no campo cultural. Tendo em vista que o termo etnia deriva do grego ethnos, que signi�ca povo, a etnia diz respeito aos modos de viver, costumes, a�nidades linguísticas de um determinado povo, e que criam as condições de pertencimento àquela determinada etnia. Gênero/classe/etnia e os debates feministas sobre desigualdade social Os debates sobre desigualdade e opressão envolvendo as categorias de gênero, classe e etnia estão na pauta há bastante tempo. Durante toda a década de 1970, ele ganha força entre marxistas, feministas, marxistas-feministas e feministas socialistas com ênfase na relação entre gênero e classe. Ainda nesse período, através da voz de feministas negras, a questão étnica irá compor essa discussão. Mas é a partir dos anos 1980 que os debates ganham uma nova perspectiva: a interseccionalidade entre gênero, classe e etnia. Uma proposta que se consolida a partir dos anos 1990 e nos faz re�etir, atualmente, sobre o papel da escola tanto na reprodução quanto na desconstrução da desigualdade e opressão vivenciada por mulheres no mundo todo. Ainda nesse período, através da voz de feministas negras, a questão étnica irá compor essa discussão. Mas é a partir dos anos 1980 que os debates ganham uma nova perspectiva: a interseccionalidade entre gênero, classe e etnia. Uma proposta que se consolida a partir dos anos 1990 e nos faz re�etir, atualmente, sobre o papel da escola tanto na reprodução quanto na desconstrução da desigualdade e opressão vivenciada por mulheres no mundo todo. Feminismo marxista e socialista A abordagem do feminismo marxista e socialista privilegiava a dualidade gênero-classe social. Nesse sentido, a partir dos anos 1970 houve um esforço por parte do movimento em colocar em pauta a crítica ao capitalismo e sua relação com a dominação de gênero. Discutia-se o valor do trabalho doméstico no capitalismo e o lugar da mulher como mão de obra remunerada. Propunha-se que as mulheres fossem entendidas como classe, em oposição aos homens. As ideias feministas tinham um compromisso com o materialismo histórico que se concretiza na intenção de relacionar a dominação masculina com a materialidade, da mesma forma que foi feito com a dominação burguesa. Com isso, desejavam demonstrar que a divisão do trabalho estava na raiz da opressão sofrida pelas mulheres. Porém, toda essa discussão não pode desconsiderar que existem hierarquias entre as mulheres e que os privilégios de classe as posicionam de formas diferentes. O feminismo negro Ao contrário de que ocorreu com o feminismo marxista e socialista, gênero, classe e raça foram categorias exploradas em conjunto pelo feminismo negro. No entanto, nem sempre produziram um referencial que tivesse foco na interseção entre eles. Embora não houvesse uma relação automática entre raça/classe, o fato das mulheres deste movimento serem, na sua maioria, de origem popular permitiu um novo olhar sobre a questão. O feminismo negro não diminuía o peso da categoria de gênero. Apenas deu voz a mulheres negras e trabalhadoras, trazendo como pauta uma re�exão sobre suas próprias experiências. Jornalista Claudia Jones Fonte da imagem: https://www.newstatesman.com /politics/uk/2017 /10/claudia-joness- transnational-radicalism Pondo em questão os modelos unilaterais, essas mulheres demonstraram que havia uma hierarquia na opressão entre ser mulher, ser mulher pobre, ser mulher pobre e negra, que foi denominada de tripla opressão da trabalhadora negra pelas dirigentes comunistas negras nos Estados Unidos. Neste cenário é possível destacar o papel da jornalista Claudia Jones (1995). No Brasil, é possível identi�car essa realidade se levarmos em conta que a distância entre as mulheres brancas e as negras em situação de extrema pobreza. Nesse quesito, o número de mulheres é bem maior do que de homens. No entanto, quando associada à questão racial, as mulheres negras estão numa posição mais próxima da dos homens negros do que das mulheres brancas. Portanto, é possível a�rmar que a opressão sobre negros deve ser considerada como um elemento signi�cante nas relações de gênero. Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online Este movimento surge como uma crítica ao chamado feminismo branco, que coloca em evidência as experiências das mulheres brancas e burguesas. A proposta é compreender que existe uma sobreposição de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação, que precisa ser estudada. A noção de interseccionalidade A interseccionalidade entre gênero, classe e etnia deve ser entendida como uma categoria analítica para a explicação de desigualdades sociais complexas, ou seja, a presença de formas múltiplas e articuladas de opressão. (Fonte: Shutterstock). Desenvolvida a partir dos anos 1980 por feministas inglesas, a noção de interseccionalidade entende que os estudos nessa área não podem privilegiar uma categoria a outra e muito menos elaborar uma síntese por agrupamento. Como uma vertente do feminismo, parte do pressuposto de que não existe feminismo no singular e sim feminismos ou movimentos feministas, heterogêneos, com suas próprias formas de articulação e promoção de pautas a respeito dos direitos das mulheres. Defendem a necessidade de se pensar em recortes de gênero, de etnia, de classe, de orientação sexual, reconhecendo que a opressão sofrida pelas mulheres e a forma de lidar com ela em função de existirem reações de poder que ultrapassam a opressão do sistema patriarcal, a exemplo da que envolve etnia, classe, sexualidade etc. Comentário Cabe destacar que o feminismo interseccional não exclui, contempla todas, sejam cis ou trans, magras ou gordas, brancas, negras, pobres ou ricas, com ou sem de�ciência, entre outras realidades possíveis. Atenção! Aqui existe uma videoaula, acesso pelo conteúdo online O papel da educação e da escola na reprodução da opressão/ desigualdades e os caminhos de mudança No Brasil, o maior índice de desigualdade está entre mulheres e negros. Sabemos que há uma contradição entre o discurso de que somos um povo miscigenadoe que por isso somos únicos nas nossas diferenças e as práticas cotidianas de atitudes preconceituosas e discriminatórias. O relatório da pesquisa realizada em fevereiro de 2019 pela ONG Oxfam Brasil aponta que 81% dos entrevistados concordam com a a�rmação de que pobres negros sofrem mais com a desigualdade no Brasil do que os pobres que são brancos, ainda que se diga que não somos um país racista. Saiba mais Para entender melhor do que estamos falando sobre desigualdade, acesse o site da OXFAM BRASIL, assista o vídeo O que os brasileiros pensam sobre desigualdades?; e leia o relatório da pesquisa realizada pela OXFAM BRASIL/DATAFOLHA Percepções sobre desigualdades no Brasil 2019. Para que você possa entender o que nos leva a a�rmar que a educação e a escola, em vários momentos de sua história, atuaram como reprodutoras da desigualdade e opressão envolvendo a interseccionalidade de gênero, classe e etnia, basta pensarmos que a mulher, por muito tempo, não tinha direito a uma educação formal. Além disso, a pobreza e desigualdade racial continua a ter grande peso na exclusão de crianças e jovens dos bancos escolares. Muitos dos estudantes de classes mais pobres chegam à universidade como representantes de toda a sua família e, às vezes, de gerações inteiras que não tiveram nem acesso ao banco escolar. Mesmo com políticas a�rmativas nas universidades públicas, ainda é muito pequeno o número de estudantes que conseguem concluir seus estudos e isso não está relacionado à falta de capacidade, mas muitas vezes à falta de dinheiro até para o transporte e alimentação. A realidade nas universidades particulares não é muito diferente. Aqueles que ultrapassam esses limites ainda tem que vencer as barreiras impostas por um mercado de trabalho segregador. A escola e seus métodos tradicionais de ensino que não levam em consideração a realidade de seus alunos nas avaliações, reprovam, alimentando os bancos de evasão, onde o Brasil ocupa o status negativo de 3º lugar. Muitos desses alunos que abandonam a escola costumam ter baixa autoestima por acreditarem que que ali não é o seu lugar. Assim, a educação para todos, direito constitucional, continua perguntando a si mesma: todos merecem estar na escola? javascript:void(0); Se abordamos a desigualdade em relação à classe social e etnia, o quadro não é favorável, acrescentando a questão de gênero, ele se agrava muito mais. Nesse ponto, o silêncio da escola em relação às meninas e às novas realidades de sexualidade e gênero, associa-se ao despreparo em lidar com os chamados assuntos polêmicos como abuso e violência sexual, aborto, trabalho e casamento infantil, transexualidade, entre outros. Tanto nas práticas pedagógicas quanto na fala dos professores, ainda persiste uma visibilidade subalterna de diversos grupos sociais, como índios, negros e ribeirinhos, e a total invisibilidade de outros, como acontece com a identidade de gênero trans. Muitos pesquisadores do assunto consideram que isto pode levar tais grupos a uma autorrejeição. Além disso, dados do MEC apontam que um em cada dez estudantes brasileiros é vítima de bullying – atos de intimidação e violência física ou psicológica, que geralmente ocorrem em ambiente escolar. Ao silenciar ou tornar esses temas interditos e invisíveis, a escola reforça e reproduz a opressão e a desigualdade. Outro dado importante, resulta de uma pesquisa realizada pela UNICEF em 2017 que aponta que 70% dos jovens brasileiros entre 14 e 19 anos que são vítimas ou autores de homicídios estão fora da escola há pelo menos dois anos. Os motivos apontados para a evasão são os mesmos citados anteriormente: discriminação racial, homofobia, exploração sexual e, sobretudo, trabalho infantil. Fonte da imagem : https://www.hojeemdia.com.br/ horizontes/evas%C3%A3o-escolar -favorece-a-entrada-de-jovens- no-mundo-do-crime-1.492943 Os dados não nos surpreendem e parecem apresentar o óbvio, que apesar de não verbalizado, está no imaginário coletivo. É uma bola de neve que só aumenta. A violência vivenciada na escola ajuda a inseri-los na violência urbana, que, por sua vez, acaba invadindo os muros da escola como temos visto nos noticiários. Um primeiro caminho de desconstrução do cenário de opressão na escola passa necessariamente pela valorização do professor e por dar visibilidade a temáticas ainda pouco discutidas dentro do currículo. Comentário A valorização do professor vai muito além da questão salarial. É preciso que se pense em segurança e condições de trabalho para o exercício da pro�ssão para que o docente não seja apenas mais um a fazer parte do quadro de desigualdade e opressão dentro da educação e da escola. Por outro lado, é importante uma re�exão séria e consistente sobre o papel da escola na sociedade brasileira, ultrapassando os limites políticos e religiosos, que fomentam a invisibilidade das discussões sobre a complexidade das discussões de gênero, classe e etnia e desconsidera as variáveis regionais no contexto curricular, restringindo-o a uma matriz curricular comum limitante. O respeito à diversidade deve estar presente em toda a prática pedagógica, buscando problematizar esses temas e sensibilizando os alunos para a importância dessa discussão. Dar voz e importância à fala do aluno sobre suas realidades, levando-o a re�etir sobre caminhos e possibilidades de superação de obstáculos, fortalecendo o diálogo necessário à educação. Atividades 1. Leia a charge abaixo e marque a alternativa que representa a atitude dos alunos em relação ao preconceito e à discriminação. Disponível em: //blgeducacao.blogspot.com/ 2012/10/charge- da-galerinha- do-bem-sobre-o.html a) Uma atitude reflexiva e de conscientização para mudança de atitude. b) Uma atitude de reprodução do preconceito e discriminação. c) Uma atitude radical de oposição à escola. d) Uma atitude de opressão contra quem estava praticando bullying. e) Uma atitude de rebeldia sem nenhum propósito. 2. Assinale a alternativa que completa corretamente a sentença: Durante toda a década de 1970, o debate entre gênero, classe e etnia ganha força entre marxistas, feministas, marxistas- feministas e feministas socialistas com ênfase na dualidade........................... a) Gênero-classe social b) Gênero-etnia c) Classe social-etnia d) Sexo-gênero e) Sexo-diversidade 3. Tendo sido iniciado nos anos 1980 e ganhado força nos anos 1990, o movimento feminista de interseccionalidade entendia que os estudos nessa área não podem privilegiar uma categoria em detrimento de outra e muito menos elaborar uma síntese por agrupamento. Nesse sentido, através do estudo das categorias gênero, classe e etnia o movimento buscava explicação para as: a) Desigualdades sociais complexas. b) Igualdades sociais complexas. c) Desigualdades sociais simples. d) Desigualdades individuais. e) Igualdades sociais simples. Referências ______. Nós e as desigualdades. In: Pesquisa OXFAM Brasil/Datafolha – percepções sobre desigualdades no Brasil. 8 abr. 2019. Notas ______ g q / p pç g Disponível em: https://www.oxfam.org.br/ nos-e-as- desigualdades-2019. Acesso em: 17 jul. 2019. ARCOVERDE, M. T. B. Gênero e interseccionalidade: chaves de leitura para um feminismo latino-americano. In: Simpósio internacional pensar e repensar a América Latina, 2., São Paulo. Anais [...]. 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