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1 ----- Rega,Jose Per eira , Hofe. 55- 66 MANIFESTO DO CENTRO LIBERAL RIO DE JANEIRO TYP. AMERICANA -RUA DOS OURIVES, 19 1869 MA M MANIFESTO MANIFESTO DO CENTRO LIBERAL RIO DE JANEIRO TYP. AMERICANA - RUA DOS OURIVES, 19 1869 . Dos nossos concidadãos! O Centro Liberal, publicando este manifesto , preenche a promessa que fez, na circular de 20 de novembro proximo passado , de justificar perante o paiz e o mundo civilisado a abstenção, que aconselhou ao partido liberal. Limitada a eleição de janeiro pelas causas resumidas na mesma circular , não extensiva a todas as funcções politicas, essa abstenção não é uma imitação da abstenção do partido liberal da Hespanha, onde foi absoluta , systematica , aliás menos justificada, porque , como se sabe , teve ella somente por causa a circular do marquez de Miraflores, presidente do con selho , que consagrava as candidaturas officiaes, e restringia o direito das reuniões eleitoraes . A abstenção das funcções parlamentares, certamente muito mais grave, praticada pelo partido Whig em 1776 , e pelo partido Tory em 1722 , 1733, incorreu em varias censuras , nunca porém foi considerada como meio revolucionario . Nos paizes , onde 0 systema representativo é dade, e se dá a contingencia muito natural da victoria da opposição , como recentemente mostrou a Inglaterra por uma prova explendida, ahi a luta é dever, a abstenção suicidio . ver 6 No Brasil, porém , onde o governo póde tudo, se , além da grande influencia do poder, elle emprega a violencia para impedir a livre intervenção da opposição liberal, a abstenção é dever, é necessidade. Não ha fraqueza na abstenção, quando se dá a impossibili dade da luta , quando a luta é crime, e o cidadão além de vencido , é perseguido por causa da eleição. A historia não ha de considerar fraqueza senão dignidade pessoal, e resignação perante a força material, os oito annos de abstenção, que viveram os liberaes de França desde o golpe de estado de 1852 até que o decreto de 24 de novembro de 1860 lhes deu satisfação , ampliando os direitos do parlamento ; permittindo a adresse para manifestação das opi niðes ; consagrando a publicidade dos debates, e encarregando aos ministros a explicação dos actos do governo perante o parlamento. « o governo , dizia a circular de 20 de novembro, armado , « como está, por leis reaccionarias , de immenso arbitrio para « comprimir a liberdade dos cidadãos ; e ainda mais dispon « do dos poderes extraordinarios que o estado de guerra lhe « depára ; querendo abusar, é senhor absoluto das urnas, e « não podem ellas exprimir senão a vontade d'elle. >> Esta verdade está na consciencia publica, e não carece de demonstração. Mas se as urnas não podem exprimir a vontade nacional, e só reflectem a imagem do governo, ha em nossa organisa ção politica vicio radical, que denuncia a existencia de um governo absoluto. O governo absoluto não perde o seu caracter, porque se rodeia de um parlamento . Se elle mesmo elege o parlamento, não ha senão simulacro de parlamento ; e o simulacro de parlamento pode provar uma especie de governo absoluto, mas punca a existencia de governo representalivo. E tudo está dito quando se diz, em ultima analyse, que a 7 vontade que nomeia os ministerioş é a mesma que elege o par lamento , que depois os vem apoiar; que a vontade que cria e muda as situações politicas é a mesma que as confirma por seus mandatarios ou eleitos. Onde está n'este regimen , que se diz do povo e pelo povo , a influencia mediata ou immediata, proxima ou remota do povo no governo do paiz, na nomeação e demissão d'aquelles que o governam ? Se nem ao menos a municipalidade é obra do povo, mas creatura da policia, o que resta ao povo ? 0 Imperio da França tem parlamento, mas ninguem dirá que é parlamentar o governo da França , onde os mi nistros não tem palavra propria e nem responsabilidade , onde o parlamento não exerce acção sobre os ministerios e a eleição não influe sobre a sorte d'elles : entretanto é força confessar que as eleições são em França relativamente mais livres que as nossas , porque lá a questão é da influencia dos elementos do poder , entre nós a questão é de abuso do poder ; lá as candidaturas officiaes ( não menos de 33 em 1863 ) têm naufragado perante as influencias naturaes, aqui não ha influencia legitima , que resista á violencia do go Verno . Por ventura no Brasil contra Luiz Napoleão, não obstante as energicas circulares de Persigny, sahiriam eleitos os Thiers, os Berryer , Marie , J. Favre , Simon , Olivier , Picard , Lan juinais, Pelletan , e outros ? 0 governo absoluto , que temos , faça -se justiça , não é obra de algum 18 brumaire ou de outro golpe de Estado se melhante, desfechado pelo Imperador ; mas é o effeito das leis reaccionarias criadas e mantidas pelo partido conservador, essas leis, em virtude das quaes o governo pode fazer de qualquer cidadão innocente um réo sujeito ás arbitrariedades da prisão preventiva, ou de qualquer cidadão isento um sol dado sujeito aos castigos corporaes do conde de Lippe . Para Monarcha esse falseamento da eleição é um0 8 abysmo que elle tem sob os pés . porque a eleição em vez de ser a verdade que o adverte, é a mentira que o obriga a errar , a provocação que conduz o paiz fatalmente á re volução . Sem dúvida os erros do poder moderador nå apreciação das situações politicas do paiz não seriam fataes, se as elei ções fossem livres . Então tantas dissoluções quantas provas da opinião : a eleição julgaria a dissolução, e não seria con sequencia necessaria d'ella ; a responsabilidade moral da mesma dissolução não reverteria, como hoje , só e só, sobre o poder que a decreta , que faz appello á nação para respon der elle mesmo por ella , sendo assim juiz em propria causa . Este estado de cousas não podia continuar. Quando mesmo a luta fosse possivel e não impedida pela violencia empregada pelo ministerio de 16 de julho , a oppo sição liberal não deveria lutar : em vez de dissimular a ver dade das cousas , concorrendo com sua cumplicidade para uma farça que desmoralisa o paiz, deveria em todo o caso tornar o mal patente e escandaloso pela abstenção, formal. Ficaria por este modo evidente a ausencia do systema representativo pela ausencia do concurso das opiniões , base om que elle essencialmente se funda . Assim o extremo e a evidencia do mal provocariam a ne cessidade de um remedio . O remedio seria a reforma. u O meio de tornar as revoluções raras o difficeis, dizia o duque de « Orleans em 1804 , é tornar as reformas faceis. » Foi por esquecer este preceito por elle mesmo ensinado, diz um habil escriptor , que Luiz Felippe perdeu o throno em 1848 . A abstenção, aconselhada pelo centro liberal, não se fun dou somente nesta omnipotencia do governo ; seria talvez 9 assim se a opposição podesse concorrer ou deixar de con correr a eleição ; a abstenção foi um acto de necessidade . Portanto a razão da abstenção não foi a inutilidade da luta , mas a impossibilidade da luta ; não foi , como na Hes panha , a desigualdade dos meios da luta, mas a exclusão de todos os meios da luta a não ser a resistencia material , que no estado do paiz poderia ter consequencias imprevistas. Muitos ministerios têm abusado mais ou menos dessas leis reaccionarias, que fizeram absoluto o poder em nosso paiz ; ainda não houve porém um ministerio que , como o actual, levasse a reacção até o exterminio ; e a intimidação à ca thegoria de systema governativo . O partido conservador em sua restauração não mostra ter aprendido a sentença que Guizot escreveu na adversidade. « Enquanto os grandes partidos nutrirem a esperança de se annullarem re « ciprocamente e de possuirem sós o imperio , é impossivel a paz publica . » O partido conservador na sua restauração esqueceu -se de uma verdade que aliás está na consciencia de todos , e foi repetida por um habil escriptor, em relação á Hespanha, mezes antes dare volução. « As camaras unanimes da Hespanha como de todo o mundo são o signal es « sencial de situações violentas, nunca salvarão nada, ao contrario tudo perderão. « Ainda serão precisas experiencias neste mundo para saber -se que a dictadura promette o que não pode , e não faz senão provocar a revolução ? » Não sabe o partido conservador : Que uma reacção é a razão de ser de outra reacção e dahi um circulo fatal que só se resolve pela revolução ? O ministerio de 16 de julho , subindo ao poder inesperada mente e por um golpe de estado, não fixou seu pensamento senão na dictadura . Desde 1853 havia declinado a reacção contra a liberdade ; dessa data todos os ministerios, compostos total ou parcialmente de conservadores, transigiram com as idéas liberaes : cada qual 2 10 ou menos se ostentava mais popular que seu antecessor ; cada qual cortejava mais o liberalismo , sem duvida reconhecendo-o como a necessi dade do mundo moderno , como a condição de paz publica, e nos programmas de todos vinham promessas mais amplas. Pois bem , o ministerio de 16 de julho , apresentando -se perante as camaras , não fallou de reformas senão como cousa accidental , sem promessa, sem compromisso ; e desmentindo o que está na consciencia publica, e foi o pensamento de todos os ministerios de varias cores politicas , que o tinham precedido, attribuio nossos males, não ao defeito das leis , mas á execução dellas e só pro metteu moderação, justiça e respeito aos direitos de todos . Dahi as apprehensões de um poder retrogrado; de uma res tauração do passado, sem temperamento liberal , remontada não á época em que o partido conservador deixou o poder em 1863, senão ás épocas mais atrazadas do exterminio e excomunhão dos liberaes . Moderação, justiça e respeito aos direitos de todos não carac terisam ministerio algum , é programma subentendido em todos os paizes civilisados, e sob qualquer forma de governo. Entretanto os factos vieram provar que essas palavras não eram senão banalidades. Os preambulos dos Ukases Russos de 1864 , que esbulharam a propriedade dos polacos, fallavam muito do desejo e necessidade da pacificação moral : e na verdade não ha meio mais adaptado para a pacificação moral que o esbulho da propriedade, como não ha prova mais irresistivel da moderação, justiça e respeito aos direi tos de todos , do que a prisão arbitraria com o luxo asiatico do tron co, das algemas, das cordas, e da cruz ; o recrutamento não obstante as isenções legaes ; o cerco e varejo das casas do ci dadão, de noite , com violação dos aposentos reconditos da fa milia, attentados ao pudor e assassinato dos infelizes destinados á prisão e recrutamento ! O Centro liberal neste manifesto tratará : 11 1.º Dos actos de absolutismo exercidos pelo ministerio contra a Constituição do Estado. 2 ° Da reacção : 1. Demissões. 2.• Nomeações . 3. ° Suspensões das garantias da eleição . 4. ° Intimidação . 5. ° Violencias no acto da eleição municipal . 6.• Fraude . 7. • Annullação . 8. • Violencias ainda depois da eleição . 9. • Conclusão . 3 I Actos de absolutismo contra a Constituição do Estado . O absolutismo do Poder Executivo revelou -se pelos primeiros actos do ministerio de 16 de julho , dos quaes vão ser indicados os mais conspicuos . O Acto Addicional foi a maior conquista liberal , que a revolução de Abril alcançou . A reacção portanto fez dessa instituição o seu alvo principal , cerceando algumas das suas disposições por meio de uma inter pretação , que não foi interpretação senão nova lei . Pois bem ; contra o que resta desse monumento de liberalismo de nossos maiores desfechou seus primeiros golpes o espirilo re trogrado do ministerio . O Acto Addicional em o art . 10 $ 1 ° conferio ás Assembléas Pro vinciaes a attribuição de legislar sobre a divisão civil , judiciaria , e ecclesiastica das respectivas provincias. O ministerio, porém , na circular de 21 de julho de 1868 , or denou aos presidentes de provincia que não sanccionassem lei alguma , - lei alguma — das Assembléas Provinciaes creando comarcas . São duas cousas absolutamente incompativeis, a proposição directa e a proposição contraria ; a disposição do Acto Addicional , que confere as Assembléas Provinciaes a attribuição de legislar sobre a divisão judiciaria,-e a ordem do governo , que em these e 13 forma geral , manda que os presidentes de provincia não sanccio nem lei alguma, - lei alguma -, sobre a divisão judiciaria . Ora, os casos em que os presidentes de provincia podem negar sancção às leis provinciaes estão expressos nos arts . 15 e 16 do Acto Addicional e não cabe em nenhum dos casos , sem con tradicção com o art . 10 $ 1 ° , o veto absoluto das leis , que cream comarcas . Ha de o presidente soccorrer-se ao caso do art . 15 , isto é , quando a lei provincial não convem aos interesses da pro vincia ? Este caso suppõe uma certa lei , v . g . , a creação da comarca tal , ' e não em these e á priori toda e qualquer lei sobre um objecto que é da competencia da assembléa provincial, porque isto implica com a attribuição, importa a negação da attribuição. Que vale a negação da sancção , no caso do art . 15 ? Esse abuso do presidente teria o correctivo do mesmo art . 15 ; a lei seria adoptada por dous terços de votos . A circular , porém , annulou esse correctivo ; abyssus abyssum in vocat ; a lei não será executada, a comarca não será provida. Esta ameaça é expressa na circular. A lei não será executada, quer dizer que ficará suspensa . Mas a suspensão das leis provinciaes só tem logar nos casos expressos do art . 16 do acto addicional. Para se incluir n'esse art . 16 o caso da lei provincial offensiva da Constituição foi precisa a disposição da lei interpretativa, art. 7 . O ministerio não precisou de lei para incluir mais um caso . O ministerio actual foi além dos ministerios dos tempos da reacção contra o Acto Addicional . Então as circulares, porém reservadas , insinuavam aos presi dentes que influissem para prevenir que as assembléas provin ciaes creassem comarcas ; e aconselhando aos mesmos presi dentes que não sanccionassem essas creações , deixavam salvo o caso da absoluta necessidade da comarca creada . 14 O ministerio actual manda, porém , que os presidentes não sanc cionem lei alguma, – lei alguma — creando comarcas. E ' caracteristica a defeza deste acto do ministerio no Diario Official de 14 e 17 de Dezembro : consiste na figura de retho rica pela qual se toma o continente pelo conteudo ; o direito que tem o ministerio de instruir aos presidentes pelo objecto da instrucção. Não se nega que o governo tenha o direito de instruir aos presidentes; o que se nega é que possa instruil-os contra as leis , e dizer -lhes que neguem sancção absolutamente e em todo caso ás leis provinciaes que cream comarcas , porque o Acto Addicio nal só os autorisa para negar sancção, quando a creação da co marca não convier aos interesses da provincia . Não se nega que o governo imperial possa dizer ao presidente de provincia o seu pensamento sobre o objecto de alguma lei provincial, o que se nega é que o governo possa ordenar aos presidentes de provincia que não sanccionem alguma lei provincial. A doutrina que os presidentes de provincia não têm poder pro prio , mas só delegado em relação aos interesses provinciaes , quando o poder que elles tem lhes foi conferido directamente e só a elles pelo acto addicional, é mais que provocação, é desafio ás provincias . E ' insinuar-lhes que os interesses provinciaes estão absoluta mente dependentes do governo central , dirigidos sem indepen dencia e sem responsabilidade propria pelos delegados do mesmo governo central , e por tanto compromettidos . E ' fomentar a idea de Benjamin Constant de agentes proprios , independentes do poder central, e insuspeitos para representar os interesses locaes e sustental-os em collisão com os interesses geraes. Concebe-se, não obstante a opinião do DiarioOfficial, que os presidentes de provincia , posto que delegados do poder central, exercem attribuições proprias e independentes , como 15 exercem jurisdicção os chefes de policia , aliás delegados do governo . A doutrina do ministerio seria umgermen de conflictos com as Assembléas Provinciaes, e a prudencia manda prevenil-os e não provocal-os . Fica demonstrado que o ministerio derogou uma attribuição conferida ás Assembléas Provinciaes pelo Acto Addicional, que tanto importa derogal- a , como negar absolutamente a sancção ou execução, que é essencial para o exercicio da attribuição . A summa da centralisação revela-se no aviso do ministerio do Imperio de 16 de setembro de 1868 , declarando que as Assem bléas Provinciaes não podem crear o lugar de ajudante do seu procurador, porque o não permitte a lei de 1º de outubro de 1828 . Mas o art . 10 $ 7° do Acto Addicional confere as Assem bléas Provinciaes a attribuição de legislar sobre a creação e suppressão dos empregos municipaes. Não será municipal o emprego de ajudante do procurador da camara ? Certamente, se a lei de 10 de outubro de 1828 subsiste ainda na parte incompativel com o Acto Addicional , se as Assembléas Provinciaes não podem crear outros empregos além dos que aquella lei já creou , a consequencia é que a attribuição da Assembléa Provincial não tem objecto . E porque a lei de 1º de outubro de 1828 , como lei geral, só pode ser alterada pelo poder geral, é consequencia que ao poder geral é que vem a competir a creação e suppressão dos empregos municipaes que o Acto Addicional aliás confe rio ás Assembléas Provinciaes . Eis ahi duas attribuições das Assembléas Provinciaes annul ladas por avisos do ministerio . Eis ahi duas provas de espirito de reacção contra os poderes 16 locaes , para completar a obra das reacções dos tempos pas sados . E mais promette o ministerio pelo Diario Oficial de 14 e 17 de dezembro , alludindo á sancção das Leis Provinciaes pelo Imperador, como na Belgical Assim que, em vez de alguma concessão ás reclamações locaes contra a centralisação que aniquilla as provincias, insinuam -se , em artigos officiaes, reformas retrogradas e ainda mais cen tralisadoras! Do mesmo espirito reaccionario ostentado pelo ministerio contra o Acto Addicional, a arca de alliança dos interesses geraes e provinciaes , o vinculo da integridade do Imperio , tambem se mostram penetrados os delegados do ministerio . Na provincia do Piauhy foram suspensas 13 leis provin ciaes relativas á interesses locaes , e nenhuma dellas incursa nos casos de suspensão estabelecida pelo art . 16 do Acto „Addicional. Em outras provincias , como a de Minas Geraes , houve tam bem suspensão de Leis provinciaes, fóra dos casos legaes . E esses presidentes não foram responsabilisados, confirmando -se assim a cumplicidade do ministerio nos attentados contra as provincias , e a cruzada que levantou contra o Acto Addicional . O ministerio usurpando uma attribuição que só é do Se nado , como consequencia da sua exclusiva competencia para verificação dos poderes de seus membros (art . 21 da Constituição ), annullou por aviso de 21 de julho de 1868 os eleitores especiaes eleitos em Pernambuco para preencher- se uma vaga no Senado . Que a verificação dos poderes é uma idéa complexa que com prehende não só as formalidades da eleição , como tambem os direitos dos que elegem , e dos que são eleitos , e a sinceridade ou moralidade da eleição -- é principio seguido em todos os paizes livres (Dalloz, Droits Politiques 368 e 369), fundado em varias 17 disposições da lei de 1846 arts . 71 e 76 , assim como na juris prudencia consignada pelas Camaras legislativas em todas as veri ficações de poderes que têm havido . Esses eleitores deviam reunir -se em o dia 2 de agosto do mesmo anno para cumprirem o seu mandato especial e o teriam cumprido se não fosse o acto do ministerio . Fundou - se o aviso : 1. ° No art . 112 da lei 377 de 1846 o qual diz assim : « Dissolvida a Camara dos Deputados considera-se finda a Legislatura e cassa « dos todos os poderes dos respectivos eleitores , os quaes servirão todavia para os « trabalhos das mesas parochiaes . Qualquer eleição por elles feita posteriormente « ao acto da dissolução ficará sem vigor. » Esta disposição não podia comprehender como eleitores da legislatura RESPECTIVOS ELEITORES os eleitores especiaes de Senadores , que , conforme a mesma lei art . 81 , são no meados para cada vaga : ainda não existia o decreto de 1850 que prorogou os poderes de taes eleitores , e pois não podia a lei cogitar uma hypothese que não havia em sua data . Fundou -se tambem o aviso no decreto n . 565 de 1º de julho de 1850, o qual declara que os eleitores especiaes, uma vez no meados , são competentes para procederem a todas as eleições de Senadores que haja de fazer - se até o fim da legislatura, que então decorra . Este decreto , como se vê , não alterou o caracter especial desses eleitores nomeados por occasião de alguma vaga, porquanto se assim fòra deveriam ser nomeados esses eleitores , como são no meados os geraes em todas as provincias para cada nova legis latura . Este decreto , prevenindo a repetição de eleições, mandou que uma vez nomeados por occasião de alguma vaga os eleitores espe ciaes , seus poderes fossem prorogados para todo o tempo da le gistatura em que a vaga occorresse . A consequencia dessa disposição é que, dissolvida a legislatura, 3 18 em que a vaga occorreu , não podia ter lugar a prorogação dos eleitores especiaes, mas nunca que ficasse annullado o mandato desses eleitores especiaes para a vaga em virtude da qual elles forão nomeados . Que tem esses eleitores com a legislatura , se a eleição dos Sena dores não tem relação com aslegislaturas ? Que tem esses eleitores com a dissolução , a qual não entende com o Senado que é vitalicio? Que tem a eleição parcial de Senadores como resultado e mo ralidade da eleição geral quando são diversos os eleitores , e no meados uns por provincias e outros por circulos ? O ministerio não tinha confiança nos eleitores especiaes que estavam nomeados , e os demittio como demittio os inspectores de quarteirão para virem outros que concorram para consolidar sua maioria no Senado . O que está porém fóra de duvida é que o ministerio praticou um acto de absolutismo annullando uma eleição que só o Senado podia annullar ; inutilisando um mandato popular , de cuja legiti midade só o Senado podia conhecer. A nossa Constituição em o art . 8º declara expressamente os casos , em que se suspendem os direitos politicos do cidadão , isto é : 1. • Por incapacidade fisica ou moral. 2. • Por sentença condemnatoria à prisão ou degredo emquanto durarem os seus effeitos . Conforme a mesma Constituição (art. 178) aquillo que é cons titucional não pode ser alterado , senão pela forma e tramites que a mesma Constituição prescreve no art . 174 e seguintes : « E é - constitucional - o que diz respeito aos direitos politicos do cidadão . (Citado art . 178.) >> E são direitos politicos , os que conferem ao cidadão a facul dade de participar mais ou menos immediatamente do exercicio ou estabelecimento do poder, e das funcções publicas. (Consoli 19 dação das leis civis , na introducção ; Lafferriere, Serrigny e outros .) A lei reaccionaria de 3 de dezembro de 1841 (art. 94. ) infrin gindo a Constituição estabeleceo , independentemente de reforma della , outro caso da suspensão de direitos politicos : - a pronuncia sustentada. A Constituição exige a condemnação para suspensão dos direitos politicos ; a lei de 3 de dezembro diz que basta a pronuncia sustentada . Assim a lei de 3 de dezembro derogou a Constituição . Pois bem , o ministerio de 16 de Julho com o poder da dicta dura, sem reforma da Constituição, e sem lei estabeleceu mais um caso de suspensão de direitos politicos . Eis ahi o aviso de 8 de agosto de 1868 : « Porquanto tornando-se incapaz civilmente o individuofallido, como se de - « duz do art . 826 do Codigo do Commercio , e só desapparecendo essa incapaci « dade pelo facto de rehabilitação , art . 897 do mesmo Codigo , é repugnante que « exerça direitos politicos - quem está privado da capacidade civil -. » E ' mais um caso de suspensão de direitos politicos este outro que a dictadura accrescentou : -o caso de fallido não reha bilitado . Ora este novo caso de suspensão não se refere a ſallido frau dulento ou culposo pronunciado ou condemnado, porque para este fóra desnecessaria a interpretação,visto como a pronuncia e a condemnação importam a suspensão . Refere-se ao fallido fraudulento que já cumprio a condemnação ou ao fallido casual. No primeiro caso , o aviso ainda é contrario á Constituição, art . 8º § 2º , que só suspende os direitos politicos , emquanto duram os effeitos da condemnação . No segundo caso, a interpetração nem ao menos tem o merito da moralidade, porque só attinge ao infeliz , que a lei e a huma nidade protegem . 20 Sobreleva que a premissa do aviso , a incapacidade civil do fallido , é falsa. A incapacidade civil do fallido não é absoluta , como o aviso presupõe e quer dizer essa expressão generica, que só cabe ao menor e interdicto ; a incapacidade do fallido é relativa : capaz para todos os actos da vida civil , elle só é incapaz para os actos definidos do art. 826 do Codigo do Commercio . Ainda mais, a incapacidade relativa do art . 826 do Codigo do Commercio não se resolve somente pela rehabilitação,como omes mo aviso diz : antes da rehabilitação já ella está resolvida, ou pela concordata (art . 854) , ou pela excussão dos bens (art . 870) . A incapacidade, que perdura até a rehabilitação , é a do art . 2º § 4º do Codigo, é a da profissão commercial. A defeza do ministerio, fundada na autoridade de Dalloz e Vi vien não procede , porque esses autores referem -se á lei fran ceza que é diversa da nossa . A lei de 31 de março de 1850 , e decreto de 2 de fevereiro de 1852 excluem expressamente o fallido dos direitos politicos , emquanto não está rehabili tado. Outra prova do absolutismo do ministerio é a jurisdicção , por elle conferida ao presidente da Relação por avisos de 13 e 28 de outubro , para julgar a suspeição posta ao juiz de di reito que na corte exerce a vara de orphãos. A disposição provisoria, acerca da administração da justiça civil , no art. 18, como consequencia da nova organisação ju diciaria, que estabeleceu de conformidade com o principio constitucional das duas instancias, suprimio , e não podia deixar de suprimir , a jurisdicção de todos os magistrados , que jul gavam em Relação, tanto em primeira instancia, como em uma unica com adjuntos . Uma d'essas jurisdicções exercida - em Relação unica instancia --com adjuntos - era a do juiz da chancellaria, em uma 21 que julgava a suspeição, posta a todos os ministros e officia es da cidade de S. Sebastião . Pois bem , o ministerio , de propria autoridade, restaurou essa jurisdicção abolida pela disposição provisoria , ha 35 annos , e restaurou— , não como ella era pelo art . 36 do regimento da Relação de 14 de março de 1751, mas — sem adjuntos. A intervenção dos adjuntos era uma garantia que na orga nisação antiga supria a segunda instancia e ainda foi mantida pelo actual regimento da Relação , nas suspeições de dezem bargadores. De sorte que, em uma instancia , sem recurso , e sem adjuntos, são julgadas só e só pelo presidente da Relação as suspeições postas ao juiz de Direito , que é juiz dos orphãos . Muito póde o governo deste paiz ! A razão dada, em os sobreditos avisos , é que o art . 4° § 7º do regulamento de 3 de janeiro de 1833 passou para os pre sidentes das Relações as attribuições do chanceller . Porém essa jurisdicção não era do chanceller , mas do juiz da chancellaria , e posto o chanceller na córte accumulasse as func ções do juiz da chancellaria , as funcções d'esses dous cargos eram distinctas , tão distinctas como é a jurisdicção da admi nistração ; e o citado art . , passando para o presidente da Relação as funcções do chanceller , não podia passar as do juiz da chancellaria, derogadas pela regra geral do art . 18 da disposição provisoria, como jurisdicção unica , e com adjuntos e exercida na Relação. Ainda outros casos poderiam ser adduzidos, como são as de cisões sobre habeas corpus; basta para o proposito do Manifesto os que vão referidos. A reacção . Se o absolutismo se manifestou na theoria e na interpreta ção do systema representativo, como está demonstrado , foi elle na pratica desenvolvido por uma reacção espantosa , como nunca houve nos tempos classicos das reacções . Não parou esta reacção na completa inversão das posições officiaes envolvendo em seu furor até os empregos vitalicios, desceu tambem ao seio da população e por palavras é obras ostentou -se com o caracter de uma conquista estrangeira . Por palavras, o pensamento de conquista ficou patente de varios officios do presidente da Bahia , um dos mais competentes interpretes da situação , o qual, além dos insultos e menoscabos barateados á opposição, declarou que os liberaes eram vencidos, e os conservadores vencedores e com esta distincção official tratou a uns e a outros conforme as leis da guerra , como inimigos e amigos. Se esse presidente, por sua franqueza, fallou por todos os presidentes, explicando o procedimento de todos, houve um subdelegado , o de Araçás (na Bahia ), que fallou oficialmente, por toda a policia do Imperio . Eis ahi o firman -programma : « Illm . Sr. - Logo que receber este , passe a avisar o povo do seu quar « teirão para as eleições de sete de setembro, e para n'esse dia estarem « promptos e se acharem em Alagoinhas, e Vossa Mercê tambem para res 23 « ponder por elles : advirto- lhe, que faça sciente a todos , que o recrutamento « só é para aquelles, que votarem contra o governo , então não tem amigo c « nem empenho para taes gentes , e aquelles que votarem a favor do governo , « nada soffrerão e ficam garantidos ; assim avise a todos para que não se « chamem á ignorancia . Deos guarde . Subdelegacia de Araçás, 26 de agosto « de 1868. Illm . Sr. Inspector José Diniz Guerra . - Francisco Pereira Dantas, « subdelegado em exercicio . » Foi esta a palavra de ordem para todos , e as obras deviam corresponder-lhe . AS DEMISSÕES . — As demissões comprehenderão : Todos os presidentes de provincias , Vice-presidentes , Chefes de policia , Delegados , Subdelegados, Supplentes , Inspectores de quarteirão. Em quasi todas as provincias forão demittidos os Promotores publicos, Inspectores de thesourarias provinciaes, Collectores, Escrivães de collectorias , Procuradores fiscaes provinciaes, Officiaes de corpos de policia , Professores publicos, Administradores de passeios publicos e cemiterios. No Piauhy forão tambem demittidos os empregados provin ciaes, que tinhão titulo vitalicio . No Ceará até foi demittido um tabellião publico, que é empre gado vitalicio . ( Veja -se a portaria da demissão transcripta no Diario do Povo de 7 de outubro de 1868. ) O Vice-Presidente de Minas para não perder tempo com de missões individuaes , demittio por meio de portarias deste theor : 24 « Ficão demittidas todas as autoridades policiaes do municipio tal, e nomea « dos os individuos taes e taes . A suspensão dos officiaes da guarda nacional das provincias foi em massa . Em algumas como no Ceará e Piauhy as patentes dos officiaes da guarda nacional assignadas pelo punho Impe rial, que já tinhão sido remettidas e ainda não estavam entregues quando aconteceu a crise, foram embargadas e inutilisadas pelos novos presidentes, que as recusaram aos nomeados. Foram tambem cassadas pelos novos presidentes as patentes dos officiaes da guarda nacional, nomeados pelos antecessores . Na provincia da Bahia, por acto do presidente de 29 de ontu bro foi demittido o alferes da guarda nacional Cecidio Marques por ter sido illegalmente nomeado, e assim inutilisada uma pa tente vitalicia que o art. 60 da lei de 19 de setembro de 1850 assemelha a dos officiaes do exercito . Ainda mais , e como a reacção seria vagarosa dependendo de decretos Imperiaes, por decreto de 1º de agosto de 1868 o minis terio autorisou ospresidentes de provincias parareintegrarem , quan do julgassem conveniente, os officiaes da guarda nacional sus pensos em conformidade do decreto de 4 de agosto de 1865 . Ora , o decreto de 1865 autorisando a suspensão por tempo in determinado dos officiaes da guarda nacional, que não se pres tassem ao serviço da guerra , permittindo que , em tal caso , se lhes nomeasssem successores, tinha como fundamento uma urgente e imperiosa necessidade do serviço : tratava - se de,mediante o afas tamento dos officiaes que fossem remissos, nomear officiaes que auxiliassem efficazmente o governo no empenho de debellar a guerra . E , pois , o recente decreto do 1º de agosto , annullando os re sultados do anterior e desfazendo quanto em virtude delle se fizera, é uma medida reaccionaria e ingrata com o fim somente de espezinhar servidores distinctos que , no periodo mais sombrio da 25 guerra contra o dictador Lopez , haviam concorrido para essas remessas de contingentes, as quaes dando eloquente testemunho do patriotismo e vigor do Imperio , tornaram esses officiaes dig nos, aos olhos do governo e do paiz, dos galardões que lhes forão distribuidos . Assim o decreto de 1865 mandava suspender os officiaes refractarios, ao passo que o de 1868 castiga os que bem serviram ! A urgencia do serviço de guerra justificava pois a delegação do governo Imperial conferida aos presidentes de provincia pelo decreto de 1865 ; a reacção politica nunca poderá justificar a de legação do decreto de 1868. Os abusos deste instrumento de reacção teem sido deplora veis ; todos os officiaes que foram remissos no serviço relativo á guerra teem sido reintegrados , mas todos que prestaram contin gentes para o exercito , que vindicou a honra nacional , foram todos dispensados . Ingratidão clamorosa que oblitera toda a sancção moral , e faz descrer de tudo e de todos ! E na verdade , como não devia causar sensação no Rio Grande do Sul a demissão do tenente-coronel Joaquim Gomes de Carva lho e do coronel Demetrio Xavier, o primeiro que foi um dos glo riosos feridos do Paraguay, o segundo voluntario da patria nos dias da invasão da provincia : como não pasmaria o povo vendo as de missões dessas influencias liberaes que no mesmo Rio Grande , no Rio de Janeiro , na Bahia, e em outras provincias , convocavam e enviavam milhares de voluntarios para a guerra ? E cumpre notar que esse decreto tém sido pretexto para sus pensões que nem estão no caso por elle previsto : en algumas pro vincias , como no Ceará, não houve officiaes suspensos em virtude do decreto de 1865 , entretanto foi nessa provincia applicado o decreto de 1868 e suspensos muitos officiaes da guarda nacional por serem liberaes. Assim , esse decreto de 1868 , cujo preambulo falla na necessi dade de restabelecer a Lei da guarda nacional, foi na sua execu ção muito além do decreto de 1865 e importou a derogação da 4 26 mesma Lei , sendo que os presidentes de provincia fóra dos casos do mesmo decreto de 1868 e sem as clausulas e requisitos do de 1865 suspendem quando lhes apraz os officiaes da guarda na cional , uzurpando deste modo attribuição conferida pela Lei ao Governo Supremo . Como o Governo Imperial delegou aos presidentes a attribuição de suspender os officiaes superiores da guarda nacional , houve presidentes, como o da Bahia, que delegaram aos commandantes superiores a attribuição de suspender os officiaes subalternos, que lhes não merecessem confiança. NOMEAÇÕES . — As nomeações se resentem do mesmo espirito que inspirou as demissões : não se attendeu ao serviço da administração publica e ás necessidades da policia , mas só e só ao interesse po litico de vencer ; não se procuraram empregados publicos , mas instrumentos de reacção : quem fosse mais capaz de perseguir e exterminar os adversarios, este era o mais apto . As vinganças e odios privados tão fataes nas localidades , em vez de arredarem as nomeações , eram motivos dellas, como abo nos de adhesão e fidelidade dos nomeados . Nem por outro modo se explicam muitas nomeações entre as quaes se distingue a do delegado de Taubaté , Costa Guimarães , que tantas e tão atrozes perseguições commetteu , que o Governo Imperial recommendou que o demittissem . A sancção moral deste acto ficára , porém , inutilisada, porque uma Portaria do Presidente ante-datada concedeu á pedido a demissão desse delegado . E o mal se tornou mais grave, porque a substituição recahio em pessoa que é instrumento do delegado demittido, o qual dahi por diante fez tudo , mas sem responsabilidade. Não houve escrupulo em se nomear criminosos para os car gos, cujo missão principal é a perseguição dos criminosos ; é que o crime inquina a nomeação, mas a intrepidez de criminosos era 27 uma necessidade para os commettimentos de uma reacção como a que se tem praticado . O Centro Liberal prescinde de citar, mas poderá citar se for preciso , os nomes dos criminosos , que , na Bahia , Pernambuco , Ceará, S. Paulo , Pará e outras provincias forão chamados para exercerem a autoridade nesta situação destinada a regeneração do principio da autoridade. Quatro exemplos bastam . E ' subdelegado da Freguezia do Poço da Panella (Pernambuco) José Cesario de Mello , que assassinou barbaramente um seu cu nhado nos braços da propria irmã , apezar dos rogos della, e do perigo que correu no meio de repetidos golpes desfechados sobre o corpo do marido , que ella queria cobrir com o seu . E' delegado de S. Francisco (Ceará) Carlos Salles, que já respon deu ao jury por duas mortes . E ' agente de policia no Pará o celebre Angelin, autor da carnificina do largo do Carino, no anno de 1835 . E' subdelegado na Bahia João Rodrigues Rolla, que em officio de 22 de setembro de 1859 o chefe de policia Figueiredo Rocha chama criminoso de morte . Facto caracteristico : foi nomeado delegado de Páo d'Alho (Pernambuco) o tenente-coronel Maranhão, o mesmo que ha pouco mais de anno capitaneou e ordenou o assalto da cadea do Páo d'Alho, de que resultou a morte de varios soldados , e a dispersão de todos os presos. SUSPENSÃO DAS GARANTIAS DA ELEIÇÃO . Entre as garantias fundamentaes da eleição estabelecidas pela Lei de 19 de agosto de 1846 consideram-se as seguintes : 1. As qualificações de votantes . 2. A presidencia do juiz de paz mais votado . 3. * A publicidade do tempo e lugar da eleição. 4a A exclusiva competencia do juiz de paz na policia das as sembléas parochiaes. 28 Pois bem , todas estas garantias forão supprimidas ou illudidas pelo ministerio e seus delegados. 1. As qualificações dos votantes. Esta garantia é de todas a mais importante , por ser a base es sencial da eleição , visto como é ella que diz quaes os cidadãos , que devem votar e exclue os que não podem votar . Perde, porém , todo o valor essa garantia, se a qualificação não tem certesa e depende do governo , que é parte na eleição , e por consequencia suspeito . Pois bem, a respeito da qualificação o despotismo dos pre sidentes de provincia foi inaudito . Na Bahia, por exemplo, o presidente mandou que em algumas freguezias a eleição fosse feita pelas qualificações de 1862 , fican do annulladas as qualificações posteriores, algumas já approvadas pela camara dos deputados ; mandou por despacho incluir nas qualificações os individuos que reclamaram por terem sido ex cluidos ; mandou que o cidadão Jacintho Muniz Barreto , contador da camaramunicipal, não votasse !! No Ceará o presidente tambem annullou as qualificações de 1863 das freguezias da Granja , Aporé e Saboeiro, approvadas pela camara dos deputados ! 2. A garantia da presidencia dos juizes de paz mais votados foi illudida por declaração de infinitas incompatibilidades, adrede inventadas para excluir os liberaes vencidos e substituil-os pelo conservadores vencedores . Ainda mais, o presidente da Bahia demittio fundado em at testados dos subdelegados osjuizes de paz mais votados , como foi o de Saubára, sob o pretexto de mudança de domicilio ; e sem ao menos ouvir os demittidos ! Tambem foi demittido, de conformidade com o aviso de 8 de agosto de 1868 do ministerio da justiça , por ter fallido o cida dão Thomaz de Aquino Jurema, juiz de paz mais votado ! Assim a presidencia dos juizes de paz mais votados, que a lei por principio de ordem publica e garantia da eleição man 29 teve , não obstante os impedimentos , que aliás produzem a incapa cidade para o exercicio de todos os outros empregos, essa presi dencia foi excluida em quasi toda a parte, ou por incompatibili dades futeis , ou pelo pretexto de mudança de domicilio , ou por violencia , de que em lugar proprio adiante tratará . 3. A publicidade do tempo e lugar da eleição. Houve presidentes , como v . g. o da Bahia, que por acto seu e sem intelligencia com o prelado mudou a séde de parochias nas vesperas da eleição municipal, mudando por consequencia , e sem o povo saber, o lugar designado nos editaes do juiz de paz para as assembléas parochiaes . Assim nas freguezias de Assú da Torre, Aporá , Alagoinhas. E note-se que o acto de transferencia de Alagoinhas para Igreja Nova , distante duas leguas, foi no dia 5 de setembro , ante vespra da eleição . Como podiami os votantes convocados para Alagoinhas ir á Igreja Nova ? Não podiam , porque não sabiam , pois isto mesmo é que convinha. 4. A exclusiva competencia do juiz de paz sobre a policia das assembléas parochiaes . Eis ahi o art . 47 , § 1º da Lei de 19 de Setembro de 1846 que estabelece essa competencia : « Compete ao presidente da meså parochial : « § 1.• Regular a policia da assembléa parochial chamando á ordem os que della se desviarem , impondo silencio aos expecta dores , fazendo sahir os que se não aquietarem , e os que in juriarem os membros da mesa ou a qualquer dos votantes, man dando fazer neste caso auto de desobediencia e remettendo - o á autoridade competente . No caso porém de offensa physica contra qualquer dos mesarios ou votantes, poderá o presidente prender o offensor, remettendo - o ao juiz competente para o ulterior proce dimento . >> E' a mesma attribuição que compete ás mesas das camaras 30 legislativas, ao presidente do jury, attribuição que exercem in dependente da policia e contra a policia . Mas o ministerio da justiça , por aviso de 7 de setembro de 1868 , DECIDIO : « 1. ° Que não ha preceito algum da lei , que mande por á dis « posição do presidente da mesa qualquer força como medida << preventiva . >> Isto é , o presidente ha de fazer sahir os expectadores, que se não aquietarem , ou injuriarem a mesa ou votantes , ha de prender os criminosos, mas não tem força a sua disposição ! Terá força, mas não como medida preventiva ! Assim que , só depois dos faclos perpetrados, depois de evadidos os criminosos , é que o presidente da mesa pode requisitar força ! Manda -se força, como medida preventiva, para qualquer theatro e reunião popular, abi onde não ha senão divertimento , ou curiosidade ; não deve haver porém força, como medida preventiva, nas as sembléas parochiaes , em que o antagonismo politico póde travar conflictos a cada momento ! Até hoje sempre se tem reconhecido que a attribuição de fa zer a policia do lugar de uma reunião importa, como meio indis pensavel para o fim , o direito de requisitar a força publica . E essa requisição o bom senso ensina que pode ser antes dos factos e para prevenil-os, porque policia quer dizer prevenção . Quem sabe a occasião de requisitar a força é a autoridade , que estando presente pode apreciar a tendencia dos animos , e a occa sião propria ; ella que tem a responsabilidade da omissão é o juiz competente da necessidade . Diz mais o aviso : « Que nem a liberdade do voto permitte semelhante apparato. » Aqui parece haver zelo pharizaico pela liberdade do voto . Não implica com a liberbade do voto, que a policia tenha força à sua disposição á porta da igreja, para impor aos cidadãos, 31 repugna porém o apparato da força à disposição do eleito do povo ! Quantas vezes essa força não é preciza para valer ao povo con tra os capangas da policia , e os soldados, que disfarçados, se in tromettem na assembléa popular ? Ainda mais : o chefe de policia da çörte explicando as ordens , que tinha do Governo, confessou que estava autorisada a policia para penetrar nas igrejas, quando houvesse evidente perturbação da ordem publica , ou no caso de se commetterem crimes contra a segurança individual . Assim é bem evidente que a policia da assembléa parochial foi uzurpada ao juiz de paz , e ficou pertencendo á policia . Com effeito, até haver perturbação da ordem , ou até haver crime não pode o juiz de paz requisitar a força como medida preventiva Mas, havendo perturbação da ordem , ou havendo crime, penetra a policia na igreja e faz ella a policia, que aliás nesses mesmos casos só compete ao juiz de paz . Dahi o pretexto para a policia recusar a força requisitada, por entender que é requisitada antes e fóra dos casos que o mi nistro manda . Dahi o pretexto para a policia penetrar na igreja, sup pondo que a ordem está perturbada ou algum crime se commette . A verdade é , que dependendo a prestação da força da autori dade policial, que é parte no litigio da eleição , nem o juiz de paz pode contar com essa força que não vira ou virá tarde , nem a parcialidade opposta å policia pode confiar na protecção da força, que está á disposição da mesma policia . E para que fazer a autoridade policial intermediaria entre a força publica, e o presidente da mesa parochial ? Não é isto des truir o espirito e a disposição do art . 47 da Lei ? A policia é que commanda a força publica ? Não, ella tem seus chefes . 32 A policia tem alguma inspecção ou jurisdicção na assembléa parochial ? Não . Para que esse intermediario suspeito , excentrico , illegal , que não inspira confiança,mas sim terror ? Inteirado da mesma doutrina do ministerio , o presidente da Bahia mandou que o delegado de policia fósse a uma mesa parochial fiscalisar a contagem das cedulas e as conferisse com a votação, escrevendo-se disto uma acta especial ! OSINTIMIDAÇÃO. - Outr'ora a intimidação guardava-se para dias da eleição , quando os votantes se encaminhavam para as urnas ; agora o partido conservador começou a obra da intimidação muilo mais cedo ; quiz vencer préviamente , lornando pr violencias ante cipadas impossivel no dia ca eleição o concurso da população aterrada. O plano era eſlicaz ; as violencias soffridas, por muitos , nas ves pcras da eleição e por causa da cleição , eram a certeza das violencias que esperavam a todos ao pé da urna . Quem concorreria ? Prescinde o Centro liberal de assignalar as correrias nocturnas , á semelhança da Mashorca , praticadas por bandos de criminosos per correndo as ruas e estradas , apedrejando as casas dos vencidos, insul tando-os e ameaçando-os de morte , alerrando as familias e a todos causando alarma . Bastará citar alguns lugares onde esses factos se deram . 0 Icó (Ceará) , onde foi apedrejada a casa do ex-deputado Barão do Crato , e quebradas todas as vidraças. O Assere (Ceará) , onde os famulos e vaqueiros do vice -presi dente. Gonçalo, seguidos de outros , foram as casas das autoridades demiltidas , insultaram a esses cidadãos e a suas familias espa voridas. A cidade de Campos, onde esses bandos furiosos insultavam aos liberaes que encontravam . O Saboeiro (Ceara ) , onde a casa do proprietario Ferrer foi cercada por uma multidão frenetica , que pretendeu forçar as portas a ma chado, para assassinar a esse pacifico cidadão , desistindo de tal in tento , porque um conservador, vizinho da viclima , affirmou que elle não estava em casa . A provincia das Alagðas,onde em algumas povoações, com pro 33 fanação da religião do Estado, esses bandos simulavam com mané quins o enterro dos homens mais distinctos do partido adverso. Prescinde o Centro liberal de assignatar os processos politicos do Pará , Bahia e S. Paulo , e citará , como exemplo, o monstruoso processo do Dr. Moreira de Barros (Taubaté , S. Paulo ) , cujas nulli dades foram reconhecidas pelo tribunal da Relação, que por habeas corpus salvou a esse distincio brasileiro , ex -presidente de provincia , e juiz de direito , de uma prisão eminente e que era o meio de arredar ou annullar a sua reconhecida influencia no lugar . Prescinde o Centro liberal de recordar a ostentação de força mani festada pela remessa de destacamentos, armas é munições para o interior de todas as provincias, augmento da guarnição das capitaes, etc. Prescinde ainda o Centro liberal de assignalar o desterro forçado á que foram obrigados os liberaes de muitos lugares para não serem vicli mas da perseguição que os ameaçava ; assim no Icó, Saboeiro , Ipù e varios outros lugares da provincia do Ceará ; assim em Geremoabo ( Bahia ) figurando ahi , entre os que fugiram para salvar-se , o vigario da freguezia ; assim no Pombal ( Bahia ) de onde fugio o cidadão Antonio de Souza Amaral, fazendeiro , eleitor , chefe de numerosa familia. No Icó , os juizes de direito e municipal foram intimados, sob commi nação de morte, para deixarem as suas residencias . A perseguição neste sentido foi tão feroz no Ceará que della mesma nasceu º recurso do SALVO-CONDUCTO , a que se soccorreram os liberaes vindo á capital peilil-os ao presidente e chefe de policia , que tremendo da sua propria obra os concediam . Eis ahi como se exprime uma pessoa fidedigna, a respeito desses SALVO -CONDUCTOS . « O que vale no meio de tanta perseguição é que as victimas sempre encontram « na capital , ás vezes entre os negociantes conservadores, de quem são freguezes, « algum protector, que os soccorre e alcançam do chefe de policia ou do presidente « SALVO-CONDUCTO para que tal e tal individuo do centro não seja mais per « seguido e que o deixem viver. » « Não é raro vêr-se homens do centro virem , ou mandarem aqui solicitar esses » SALVO-CONDUCTOS para viverem tranquillos . O tenente-coronel Vicente Torres « ( do Ipú) aqui veio , fallou ao presidente , ao chefe de policia , levou SALVO -CON « DUCTO e ordem para serem soltos seus trabalhadores e não foi lá obedecido . « Mandou o presidente novo SALVO -CONDUCTO e posto obedecessem a prin 5 34 a cipio , todavia ainda continúa o mesmo tenente - coronel a ser apoquentado, cercan a do-se repetidas vezes a sua fazenda rural para afugentar os trabalhadores . O salvo -conducto é amostra da generosidade do presidente e chefe de policia , mas é triste documento da fraqueza da autoridade publi ca , da ausencia da sociedade civil , do estado violento que exige esse meio de salvação . Com effeito, Se a autoridade pede é porque não póde. Não ha sociedade civil onde impera a força privada Ubi vis valet, diz Bacon . O salvo -conducto não é necessario senão porque não vale o habeas corpus e não ha garantias legaes! Os meios principaes de intimidação foram : – a prisão arbitraria ; 0 recrutamento ; e a designação para o serviço da guerra , — cada qual desses meios por si só efficaz para aterrar a população pacifica . S 1. A prisão arbitraria . – Não é do numero das prisões arbi trarias que o Centro liberal se occupará, porque foram ellas sem numero e infinitas, praticadas pelos diversos pretextos — de recruta mento , designação para o serviço da guerra , ou indicio de crimes . O que convem assignalar para caracterisar esta época são as prisões notaveis , ou pela qualidade das pessoas que foram victimas dessa vio lencia , ou pelas circumstancias de atrocidade , que desmentem a nossa civilisação e liberdade . Com effeito, nas vesperas da eleição , foram presos juizes de paz , tores , supplentes de eleitores , officiaes superiores da guarda nacional , fazendeiros, e outros muitos cidadãos importantes. Eis ahi alguns exemplos : A prisão para recruta do juiz de paz de Itambé (Pernambuco) , An tonio Rufino Monteiro, de 46 annos de idade, collector das rendas pro vinciaes , ex-subdelegado , e proprietario . Este facto está confirmado pelo presidente da provincia , em ofticio de 12 de setembro de 1868 ( Diario Official de 22 de setembro) paz, elei Convem notar que este cidadão, posto obtivesse ordem de habeas corpus, foi conduzido algemado e a pé para a cadèa de Goianna , distante algumas legoas. E o que soffreram o delegado, o promotor publico , e o subdelegado , que commetteram tão horroroso attentado contra a liberdade do cidadão na antevespera da eleição , que desprezaram o habeas-corpus, a maior garantia que a lei concede ao brasileiro ? O delegado e o promotor publico foram conservados ; apenas foi de mittido o subdelegado, que aliás era 3° supplente , mas não houve para elle processo de responsabilidade. Entretanto a policia logrou o seu intento , arredou da eleição o juiz de paz , e a influencia liberal . A prisão do tenente -coronel Alexandrino Ferreira de Almeida Alcan tara , em Itamaracá (Pernambuco) , influencia liberal, que na vespera da eleição, apesar de ser tenente-coronel , foi mettido em uma escolta e conduzido a pé , a pé, de Iguarassú para a cadêa de Goianna . No sobredito oflicio , o presidente da provincia tambem confirma este facto, e diz que esperava informações para responsabilisar os seus autores. Mas a policia , livre dessa influencia adversa, venceu a eleição, sem obstaculos. A prisão dos eleitores, supplentes de eleitores , e votantes de S. Mi guel dos Milagres (Alagoas), os quaes amarrados com cordas e cipós foram enviados para districtos e comarcas differentes. E ' o presidente da provincia que confirma este facto, no officio reim presso no Diario do Povo de 23 de janeiro do corrente anno. Os eleitores presos foram : José Ignacio de Lima , Antonio Francisco Souza Costa, João de Deos Soares, Manoel Chaves, José Lopes de Souza, José do Rego, Pedro Antonio da Silva , Joaquim Moreira de Souza , Manoel Joaquim do Nascimento , Manoel Bernardo de Souza, José Couto, Domingos dos Santos Corrêa , Alexandre Alves da Cruz, João Barbosa , Manoel Leite da Silva , Francisco Bento Pereira , Marcianno Leal dos Santos. A prisão de Pedro José de Souza Costa , fazendeiro abastado , de Lorena (S. Paulo) , eleilor de parochia, guarda nacional da reserva , por se ter recusado a levar um preto fugido á Pindamonhangaba. O do 36 cumento deste facto está inserto no Diario do Povo de 9 de ou tubro . A prisão (em Taubaté) do liberal Polycarpo de Abreu Fialho , de 64 annos de idade, prisão arbitraria e sem molivo declarado . Os docu mentos d'este facto tambem constam do Diario do Povo de 30 de outubro . A prisão do alferes Luiz Ferreira dos Santos Rocha, ex-subdelegado do districto de Malhada Vermelha (Bahia), algemado e meltido en um tronco . A prisão do cidadão Firmino Ribeiro Mendes (Barbacena), casado, com filhos, fazendeiro, possuindo mais de trezentos contos, juiz de paz : a prisão foi feita pelo recrutador Hermogenes , que o amarrou com um cabresto e o trouxe a pé por espaço de uma legoa . A prisão do fazendeiro Sebastião Teixeira de Siqueira , para o serviço da guerra ! A prisão do ex -subdelegado do Bom Conselho (Babia) , Manoel Soares do Nascimento , realisada na sua fazenda das Contendas, onde foi amarrado, esbofeteado, e mellido no tronco . A perseguição contra este cidadão , infeliz brasileiro, estendeu-se á Todos os seus filhos ; seu filho José Luiz Soares foi preso com elle , seu filho Ezequiel Profeta recrutado para o exercito, seu filho Cy rillo Soares , de menor idade , remettido para a marinha. A prisão de José da Silva Amaral , eleitor do Pombal (Bahia) , negociante , o qual depois de amarrado e algemado, tendo corrido em exposição as ruas da povoação , foi remettido como recruta paraa capital. A prisão do ex-escrivão do juiz de paz do Bom Conselho (Bahia ) , João Luiz dos Santos Baptista, casado, e com filhos, mettido por 5 dias em um tronco e ao depois remeltido para a capital como recruta . A prisão de José Pereira de Souza Carvalho (Sant'Anna, Ceará) , casado, tendo seis filhos, ex -promotor interino da comarca , sollici tador de causas , eleitor de parochia ; depois de preso , espaldeirado e algemado, foi levado em procissão pelas ruas da povoação, e re mettido a pé, no meio de uma escolla , para a cadèa de Sobral , e de lá , depois de alguns dias , devolvido para Sant'Anna , jungido a um escravo ! 37 A do tenente-coronel e do major da guarda nacional de Sant'Anna (Ceará ) , assim como de diversos cidadãos proprietarios d'esse lugar, prisão effectuada pelo alferes Alencar , primo dodo ministro da justiça e com o mesmo nome d'elle : esses cidadãos foram remetti dos da cadea de Sant'Anna e d'ahi conduzidos á pé para a cadea de Sobral como mais segura ! O Centro Liberal não pode deixar de levantar perante o paiz , e perante o mundo civilisado , um brado de indignação contra as prisões arbitrarias , aggravadas ainda mais pela atrocidade , e igno minia dos troncos , das algemas , das longas viagens a pé , das cordas e cipós e da cruz ! Dos troncos, das algemas, e das longas viagens a pé bastam, para exemplos, essas prisões que já foram referidas e nas quaes não faltaram taes circumstancias. E para que mais provas ? Algemas foram vistas nos pulsos de um brasileiro , guarda nacio nal , pela Princesa Imperial e seu Augusto Esposo , que estremece ceram de horror. Todos sabem deste facto occorrido na capella da Apparecida em Guarantinguetá . As cordas e cipós constam do officio do presidente das Alagoas, inserlo no Diario do Povo , de 23 de janeiro . Eis-ahi : « Vê-se todavia dos interrogatorios feitos a Oliveira , Francisco Salgueiro, e « tenente Antonio de Souza Costa que foram presos e amarrados até com « cordas e cipós - eleitores, supplentes e votantes . » A violencia da - cruz, - com que foi aggravada a prisão de alguns cidadãos volantes de S. Miguel dos Milagres, nas Alagoas, está con firmada, posto que com differença de circumstancias, no relatorio do chefe de policia d'essa provincia , transcripto no Diario do Povo de 23 de janeiro . A imprensa da opposição havia denunciado que em S. Miguel dos Milagres nas Alagoas fôra levantada no quartel do destacamento cruz em que eram amarrados e pendurados os liberacs presos . 38 Pois bem , o relatorio do chefe de policia explica o facto como foi, e ver -se -la que a differença está em que a cruz não era em pé, mas deitada no chão. Eis-ahi : « Do documento n . 5 verá V. S. que elles dizem terem sido deitados e amar « rados em dous páos, á que estavam atados pelos pés e mãos, tendo outros a dous páos atravessados nos peitos e na bocca !! - » Será menos azialica a cruz deitada , nunca será , porém, um meio de prisão em um paiz civilisado, em um paiz livre. S 2. O recrutamento . - O abuso deste grande meio de intimi dação chegou até o escandalo. Com effeito não houve isenção legal , que fosse respeitada , sendo outrosim recusada ou illudida a substituição que a lei admitte para harmonisar o serviço da guerra com serviço das outras industrias e profissões necessarias á vida do paiz . Casados com filhos e sem filhos, · Viuvos com filhos, ou sem filhos, Velhos e invalidos, Juizes de paz e eleitores, Fazendeiros e commerciantes, Empregados publicos, Todos foram victimas d'esse meio heroico, de que dependia a restauração conservadora . Rejeitadas as isenções legaes , não havia mais liberdade possi vel ; tudo ficava reduzido a este dilemma terrivel : Ou votante do governo, Ou soldado do governo . São infinitas e não carecem de ser referidas, por notorias, as violações da isenção legal do recrutamento . Para que mais exemplos , que os seguintes : O recrutamento do juiz de paz de Itambé ( Pernambuco ), com 46 annos de idade , collector de rendas provinciaes e proprietario, 39 De um vereador da camara municipal de Nova Almeida , no Es pirito Santo , Dos eleitores de S. Miguel dos Milagres ( Alagoas ) , Do eleitor e negociante José da Silva Amaral ( Bahia ) , De Raymundo Nonato de Souza, casado , com filhos e netos ( Ceara ) , De Bernardo Ribeiro Pinto , fazendeiro ( Pará ) ? Será ainda preciso mencionar aqui os factos muito notorios do recrutamento dos compositores e typographos da imprensa libera ] de Taubaté ( S. Paulo ) , de S. Amaro e Cachoeira (Bahia ) e do Para ? Não ha melhor prova do abuso e escandalo do recrutamento , do que o seu reconhecimento pelos presidentes de provincia e ministros, mandando voltar os recrutas que , atravez de todas as difficuldades, foram admittidos a provar isençõe s legaes . A verdade porém é, que os l'ecrutadores nada soffreram pelos attentados que commetteram contra a liberdado individual . Entretanto os cidadãos abandonaram seus lares, suas familias, seu patrimonio, sua profissão, caminharam leguas e leguas a pé , algema dos e amarrados, ou soffreram os incommodos de uma viagem por mar ! E qual a reparação ? Nenhuma . Em todo o caso a policia recrutando, conseguio o seu intento , arredou os que podiam ser-lhe adversos, ou punio os que lhe foram adversos . $ 3.• A designação. - A designação para o serviço de guerra é o mesmo recrutamento com outro nome, é mais terrivel que o recrutamento . Com effeito, o recrutamento pode evitar-se , homisiando-se o ci dadão, mas a designação não se evita senão incorrendo -se na de serção. Quando o cidadão tem as isençõs legaes do recrutamenlo ,' re corre -se á designação . A designação é uma fraude, uma emboscada : porquanto a qua lificação da guarda nacional não se faz mais como a lei manda , 40 não ha formalidades, prasos e recursos , sendo que o cidadão sabe . que é guarda nacional , quando é designado e sem remedio da noite para o dia ha de marchar, ou embarcar. Que horror ! Entretanto , por uma interpretação judaica e absurda , suspenıle-se durante a eleição o recrutamento , mas não se suspende a designação . Certo é uma tortura da lei , uma injuria ao legislador , o consi derar-se permittido pela lei um meio ainda mais incompativel com a liberdade do voto do que o meio que a mesma lei prohibio. Que importa ao governo a suspensão do recrutamento, se elle tem a sua disposição a designação , – a designação que não tem as isenções do recrutamento ; que se faz como o recrutamento ; que como a sombra acompanhia ao cidadão por toda a parte ; espera - o junto da urna, eo arrebata de junto da urna ? E quem ha ahi que, sem aterrar-se, soporte a idéa de abandonar bruscamente e sem providencia a familia , a profissão , o patri monio ? Esta é a synthese dos factos da designação, os factos são todos os dias registrados e discutidos pela imprensa ; seria inutil reſe ril-os, porque estão na consciencia publica , e por infinitos e minu ciosos não cabem no proposito deste trabalho, e S 4. ° ' Os cercos e varejos das casas e fazendas, e outras violencias. - recrutamento e a designação para o serviço da guerra, apezar dos seus proprios abusos, seriam soportaveis pelo objeclo que lhes serve de pretexto , se não fossem as violencias atrozes asiaticas que os acompanham : A entrada de noite na casa do cidadão , A violação dos aposentos mais reconditos da familia , Os attentados ao pudor, A morte e ferimentos dos infelizes liberaes destinados ao re crulamento e á designação . O espancamento dos famulos, parentes e amigos, e a surra dos escravos. O Centro Liberal sente a necessidade de recontar alguns desses factos horrorosos, que são a injuria da nossa civilisação é dignidade de paiz livre , factos inverosimeis no anno da graça de 1869. 41 Prescinde o Centro Liberal de muilos factos, denunciados pela imprensa, e apenas desmentidos pela negativa dos responsaveis da si tuação , que pedem provas , como se fossem possiveis provas ondeessas violencias são possiveis ; como se houvesse testemunhas, que quizessem tomar o lugar das victimas , e participar do mesmo furor dos con quistadores ! Desde que a imprensa refere os factos, indicando o tempo e o lugar, o algoz e a victima , e as circumstancias relativas , o governo, que respeila a opinião tem v dever de inquiril-os e averigual-os, por pes soas insuspeitas ; não se defende com a negativa do chefe de policia , que muitas vezes autor da idéa , tremeu ao depois da propria obra , vendo a sua execução e conseqnencias . O Centro Liberal não pode deixar de inserir neste manifesto uma carta do senador Pompeo, relativa aos factos do Ceará . Eis ahi : Horresco referens : « Ilim . e Exm . Sr. conselheiro.- Fortaleza ,4 de Dezembro de 1868. - estrondo da derrubada é tão forte por todos os angulus do Imperio , que talvez V. Ex . não tenha prestado allenção ao que vai pelo Ceará . « Confesso - lhe que , ha trinta annos , acompanho e testemunho os ne gocios politicos desta provincia , e pelo estudo de sua historia , á que me tenho dedicado, conheço perfeitamente o que se passou nos movimentos de 1817 , 22 , 24 e 31 ; nada porém é comparavel com as scenas que o governo de julho mandou representar ! « Não fallo nesse frenesi de demissões de policia , de officiaes da guarda nacional , de empregados , que se conlam por muitas centenas ; não fallo nessas dezenas de suspensões de officiaes superiores da guarda nacional, de juizes municipaes. Tudo isso é pouco, á vista do furor de prender, cspancar, matar e devastar, de que se tomaram os agentes do governo por toda a parle . « Ah ! Conselheiro, é preciso ver , é preciso assistir á essas scenas de consternação e dôr porque passa esta porção desherdada de subditos do Sr. D. Pedro II , para acreditar no facto e reconhecer-se que a sorte dos subdilos da Turquia Asialica é mil vezes preferivel á de um brasileiro liberal , na siluação actual . « Do agosto , depois que chegou a noticia da subida dos conservadores, tem se dado assassinatos conhecidos , sendo destes 8 6 42 pelas escoltas, ou soldados de policia , em diligencias, porquo quem tem sua intriga, aproveita o tempo, offerece- se á qnalquer autori dade para recrutar, pede força , vai á casa do scu inimigo , e o assassina ! Sabe V. Ex . se em algum paiz civilisado , se pratica isso ? Não quero cansar sua attenção com a narração dos sofrimentos do infeliz povo do Ceará, mas citarci somente alguns factos, por exemplo, do que por aqui se passa . « Em Sant'Anna o alferes de policia José de Alencar, primo do minis tro deste nome , que d'alli foi mandado para conquistar a eleição passada de setembro, entre muitas das suas, mandou prender para recruta um cidadão importante do lugar, casado , carregado de filhos. « A escolta cerca e penetra a casa , em occasião que a mulher dava á luz ; o marido, para poupar sobresalto á mesma, (.fferece-se logo á prizão : mas os soldados varejam toda a casa , vão á cama da mulher, levantam lhe os lençóes para ver (diziam ), se algum homem recrutavel se escondia alli ; a infeliz horrorisa-se , grita, em nome do pudor, que lhe poupem essa vergonha, mas os vandalos vão por diante ; clla enlouquece, e dias de pois expira , deixando uns poucos de fillos menores ! No Paraguay se faz peior, Sr. Conselheiro ? « Ah ! E estes que assim soffrem são brasileiros, subdilos de um Monarcha, christão, liberal e liunano ! « Em Campo-Grande, o subdelegado cérca a fazenda de café do Te nenle -Coronel Vicente Torres, para prendel-o, sem motivo : estava elle nesla capital . Prende seus trabalhadores, surra suas escravas, vareja lola a casa , ameaça a respcilavel senhora de bôlos , com uma palmaloria em punho ! « No Saboeiro, um primo e cunhado do Vice-Presidente , Gonçalo Bap tista Vieira , manda uma escolla prender o capitão Luiz Antonio Arraes na villa , e outra á sua fazenda , onde estava sua mulher e familia . Ahi esfaqueam um seu aggregado, prendem o espancam um filho menor ; c porque a mãe corre, á acudil -o, espancão-na e ella aborta ! « Em Santa-Quiteria , o subdelegado e delegado assentaram de des terrar do termo una familia muito trabalhadora , e que mais planta algodão, querem tomar-lhe as terras. Prenderam os trabalhadores, os filhos , genros e outros se esconderam . Para apanharem a lodos, um dia o subdelegado lançou fogo em um roçal de algodão, contando que fossem 43 apagar, correram alguns da familia ao fogo, e ahi o subdelegado que estava de cspreila , agarra-os . O pobre velho veio á capital pedir pro tecção ao presidente , que lhe désse ao menos tempo de apanhar sua safra, para relirar -se ; voltou cheio de esperanças ; apenas lá chegou , a policia cabio -lhe em cima, elle vio-se obrigado a abandonar suas terras . « Agora , nestes oito dias ,, no Cascavel , perto da capital , o juiz muni cipal , que é recrutador , mandou que um individuo fosse prender um ou dous individuos para substituir outro , por quem pedia . « Leva a escolta , cérca alta noite a casa de um velho, que tem dous filhos, bate, abre-se a porta , os rapazes tentam fugir, atiram , malam um , co outro cahe ferido. « Em Queixeramombim , um pobre velho, vaqueiro do Dr. Vicente Alves de Paula Pessoa, é malvisto de um sujeito, este offerece -so ser recrulador para prender gente , vai com a escolta á casa do velho. Esto corre de casa com o filho, o malvado alcança -o, fere -o, o velho cahe morto . « Em Sobral , agora mesmo, o delegado manda uma escolta á um silio perto, onde o clono da casa celebrava uma festa campestro pelo bapti sado de um filho , os soldados cahem de xofre, prendendo aqui, acolá , e um vaqueiro fogo a cavallo , os soldados deilam - o por terra, e clle ainda corre a pé, fazem-lhe fogo e cahe morto ! « Perdoe abusar da sua allenção . Ah ! conselheiro, peça ao Impe rador amnistia para este pobre povo ! « Aqui ninguem sc anima a disputar ou aconselhar a outrem que dis pute a cleição . Seria com sacrificio certo para uma cousa incerta . « Só para brigar : nós não queremos brigar . Amigo , collega e obri gado— Thomaz Pompeo de Souza Brasil. » Além d'esses factos, occorridos no Ceará e referidos com tanta eloquencia pelo senador Pompeo, o Centro Liberal vai adduzir outros, constantes de informações fidcdignas. Na provincia das Alagoas , no dia 7 de selembro, ás 10 horas da noite , foi cercado o engenho – Cana-Brava – do coronel Vicɔnle de Paula Carvalho, commandante superior de Anadia, pelo delegado José do Rego c subdelegado Francisco Firmino Jatobá . O fim d'esse varejo, como assoalhavam os execulores, era evitar que esse cidadão 1 44 liberal e influente concorresse á eleição no dia seguinto ! O fim foi conseguido. Na provincia da Parahyba, em 24 de setembro, em Cajazeiras, foi cercada a casa do advogado João José Rolim do Alencar, cello preso como designado para o serviço de guerra ! Na provincia de S. Paulo foi cercada e varejada de noile , por ordem do subdelegado do Patrocinio , a casa de João Pereira de Moraes Paiva , e por uma escolta de 20 praças a casa do liberal Miguel Ramos, afim de serem recrutados dous filhos scus , lavradores honestos. Esses moços opposeram-se ao despotismo da policia, bem manifesto , pela entrada violenta de noile na casa do cidadão. Custou -lhes caro : um dos filhos de Ramos cahio morto com um tiro de bacamarte, o outro foi atrozmente mutilado, cum soldado ficou ferido !!! O recrutador João Ferreira da Silva, em Pinheiros, cercou e varejou de noile lodas as casas dos aggregados do fazendeiro liberal Joaquim Soares Lyrio do Valle , e ahi , porque os oulros ſugiram , só conseguio recrutar a um pobre homem , casado e com filhos, o qual , conduzido aló a freguezia, foi então solto , com a promessa de votar na chapa do go verno ! Outra escolta do mesmo recrutador percorreu o bairro da Parahyba, varejou casas e recrutou os seguintes cidadãos : Manoel Ribeiro da Silva , de 48 annos de idade , casado com Rila Alves Maria , tendo cinco filhos,Antonio Alves de Araujo, de 42 annos de idade , casado com Rosa Fernandes Vianna , tendo cinco filhos, Manoel Cyriaco Tristão , 38 annos de idade , casado com Marianna de tal , tendo tres filhos menores , José Alves Netto , 28 annos de idade , casado com Silveria Marinho Rangel A camara municipal de Campo Largo, em representação dirigida ao presidente da provincia , expõe os factos seguintes que horrorisam : « Eram 3. horas da madrugada quando apresentou-se n’esta villa uma gran « de escolta, commandada por um tenente , em nome do delegado de Sorocaba, a essa mesma hora - foi varejada a casa do respeitavel vigario , o re 45 casas « verendo padre Raphael Gomes da Silva , a titulo de recrutar-se um unico « creado que tem á scu serviço, guarda racional da reserva . « Fôram mais varejadas as de qustro cidadãos e com tal desa << cato que em casa de Manoel Estevão de Oliveira , chefe de uma familia « honesta e honrada, levaram a ousadia a apalpar o collo de sua mulher e « descobrir suas filhas, já moças , para verificarem se eram homens . « Em casa da viuva pobre e honesta Maria Penteado , cujo filho mais « velho marchou ha tempo para o Paraguay , restando-lhe apenas o ultimo « ainda de menor idade e seu unico amparo e de sua filha já moça, sem res « peitarem e condoerem-se das lagrimas d'essa infeliz mãe , bateram em sua « presença na face da filha, gracejando ! » Na provincia da Bahia foi cercada o varejada de noite a casa do c'dadão Bencdicto de Jezus Velho , pae de familia, residente na freguczia do Aporá , termo de Inhambupo. Depois de muitos excessus , a patrulha disparou dous tiros sobre o menor Pedro de Jezus que milagrosamente escapou . Tambem foi cercada e varejada , n'esse mesmo lugar, a casa de D. Francisca Maria de Souza Leão , e ahi recrutado o seu escravo Elias ! Tambem foi cercada e varejada, alta noite , no lugar – Areia-- , districlo da Divina Pastora (Inhambupe), pelo subdelegado José Nunes Affonso de Brito , a casa de Bento da Silva . A cscolta , arrombando as portas , penelrou até o aposento em que dormia um pobre moço, que acordou espavorido, recebendo uma horrivel pancada na cabeça : armado de una faca matou clle o seu aggressor , ferio a mais dous, csendu barbaramente cspancado, foi preso e conduzido para a cadêa. O subdelegado de Nagé , Braz Pacheco Monteiro, mandou uma tropa de mais de 40 homens armados á povoação do Coquciro para cercar a casa do cidadão Francisco José Pinto, afim de recrutar a . Camillo Percira da Silva . O cerco pralicou -se de noite , as porlas forain violentamente arrombadas, e a tropa, penetrando no interior da casa , espancou barbaramenie a muller e a uma filla do dono da casa . Durante a luta , que se trava na sala , um tiro é disparado que fere a um dos soldados. Chegando o cidadão Pinlo , que se achava fóra, é espancado pela tropa , preso e amarrado com cordas , de braços para traz, e presas tambem a mulher e filha ; a mulher é arrastada pelos cabellos por 46 que se recusa a caminhar ; as victimas, cobertas de sangue, são leva das para a cadêa , aonde jazeram por muilos dias ! Na provincia de Minas foram varejadas, entre outras, as fazendas dos liberaes : Severiano Ribeiro da Fonseca, João Anlonio de Oliveira e Francisco de Paula Fernandes. Foi tambem cercada a fazenda do capitão Costa , fazendeiro im portante de Ouro Branco e elle preso , e tambem preso para recrula um menino de 14 annos, aggregado d'esse fazendeiro ! Na provincia do Espirito Santo, foram cercadas e varejadas ás duas horas da noite lodas as casas dos moradores do bairro chamado de Ma ruhype, por motivo de recrutamento . Foi tambem cercada e varejada a casa de negocio de Francisco da Rocha Fagundes, vereador liberal , c elle preso para recruta . No Piauly, a casa do distincto tenente -coronel José Antão de Car valho foi cercada e invadida, seus fimulos foram espancados, seus escravos surrados. Em Cametá , no Pará, diz pessoa fidedigna, o lar das familias tem sido violado , penetrando os soldados de noite até ás alcovas onde ellas dormem , para d'ali tirarem recrutas ! A csle quadro o Centro liberal accrescentará a parte final da representação dirigida ao governo pela respeita vel camara municipal de Taubaté . Diz assim : « A pretexto do recrutamento tem sido varejadas sem observancia das prescripções legaes , as casas dos seguintes cidadãos : do abastado capi lalista Antonio de Abreu Guimarães, ás 3 horas da manhã, pouco mais menos ; a de Abreu Fialho, á meia -noite, à procura de um scu nelo casado, e com quatro filhas ; a do Joaquim Jacintho , pelas i1 horas ( la noute , percorrendo a escolla até os aposentos de suas irmās solteiras, sendo este preso como recruta e solto no dia seguinte ; a do mesmo , alguns dias depois, à meia noute , que está tisico, e que foi solto cinco dias depois ; a de José Monteiro Silva por duas vezes, com intervallo de poucos dias, a primeira depois de 10 horas da noute , e aposentos de suas duas filhas solteiras , una de 14 e outra de 16 annos , sendo preso seu filho menor de 12 annos no leito em que dormia , c conduzido varias vezes até o terreiro da casa , e ahi sollo ou tras tantas, foi afinal dispensado , á pedido de um dos guardas, que ou 47 d'elle se compadeceu ; a de Antonio Fernandes de Camargo á 1 hora da noule, sendo este preso , pela segunda vez como recruta , apezar de maior de 40 annos, e já dispensando no dia 7, de Setembro deste anno , foi solto no dia seguinte ; a de José Benediclo dos Santos pelas 11 horas da noite ; a de Vicente Luiz dos Santos pelas 10 horas da noule ; a do Ignacio Pinto pelas 9 horas da noute ; a do fazendeiro Pedro Alves Moreira , a dos lavradores Manoel Ignacio Moreira , a de João Gomes do Nascimento, a do fazendeiro Felippe Monteiro Gomes, de um genro e de quatro aggregados em uma só noute ; a de Bento Thomaz de Al varenga ; a do tenente-coronel Marianno José de Oliveira Costa ; as de quasi todos os moradores do bairro do Pouso -Frio ; de muitos da fre guezia do Paiolinho, todas as noutes ; a do negociante , alſeres Francisco Pereira da Costa , sendo preso seu caixeiro , maior de 40 annos, solto no dia seguinte ; e as de muitos outros cidadãos, cujos nomes deixa eta camara de referir , para não cansar a attenção de Vossa Magestade Im perial ; consignando somente, por ultimo, a invasão da casa do lavrador José Narciso, da freguezia do Paiolinho , alta noute estando sua mulher de cama, por ter dado á luz ha poucos dias , e que pelo susto , occasionado por este facto, está em risco de vida. « Estas escoltas vão sempre armadas de trabuco , espadas , e fazem grande alarma nas casas que varejam , e por onde passam , procurando infundir terror . Só obtêm segurança e dispensa do serviço os que, sob juramento e assignando um termo, promellem acompanhar as auto ridades nas proximas eleições de janciro , e por esta forma conse seguiram aquelle resultado, entre outros, José Rodrigues Monte-Mór, Manoel Rodrigues Monte-Mór, João Gomes do Nascimento , Ignacio Pinto, e o importante fazendeiro Felippe Monteiro Gomes, que ainda foi obrigado a apresentar por fiador scu irmão José Monteiro Gomes, amigo do delegado. « Por ordem do recrutador forinam -se escoltas de cincoenta a scs senta homens, dos da parcialidade contraria, que percorrem grande parte do municipio , sem fim algum e sob pretexto de diligencia , como ainda aconteceu no dia 9 do corrente, em que, atravéz de uma nouto tempestuosa , partiram da capella do Tremembé alé as proximidades da serra de São Bento, cerca de tres leguas de distancia . « Q recrutador, de nome Thomaz Bandeira, que se diz do Rio Grande 48 do Sul , e que aqui se acha ha dous annos, sem que se saiba ao certo quem seja , tem por principaes agenles Francisco da Molta e Antonio Luiz ; aquelle ebrio e desordeiro habitual, e que já tem res pondido ao jury e sido condemnado, e este la poucos mezes ainda respondeu ao jury em Pindamonhangaba, por crime de furto de ca vallos.« A pequena lavoura está em abandono, e a pobreza muito terá de soffrer , porque esta é a época em que devem ser feitas as plan tações ; e a população, sem csperanças c sem garantias legaes , está possuida de terror, e em grande parte foragida. « Nesta conjunctura, esta camara cede a um imperioso dever, levando csles factos ao alto conhecimento de V. M. Imperial , solicitando mc didas, em ordem a sereni respeilados os direitos individuacs garan lidos pela Constituição do Imperio, fazendo V. M. Imperial aos habi tantes deste termo a costumada justiça .-Barão de Tremembé. Dr. Antonio José da Veiga Cabral. - Jordão Pereira de Barros. João da Palma Pereira .-- Jacintho Pereira da Silva . - João Baptista de Paiva Baracho . - Bento Vieira de Moura. >> As VIOLENCIAS NA ELEIÇÃO MUNICIPAL . - Onde a intimidação não foi cfficaz para arredar os liberaes , violencias directas foram empro gadas nos dia : da eleição, para excluil-os ou punil-os do crime de votar contra o governo . Houve povoações em cujas cnlradas ou proximidades foram posladas escollas armadas para impedir ou prender os infelizes liberacs . Assim , em algumas freguezias do Ceará, Alagoas, Bahia , etc. A povoação do Canindé, no Ceará, teve uma trincheira de saccas de algodão, guarnecida pelo destacamento , armado e municiado para rece beros volantes libcracs, como seriam recebidos os paraguayos se ali apparecessem . Muitas matrizes foram , desde a vespera ou madrugada, occupadas pelos capangas, e amanheceram cercadas por força armada que impedio o accesso e entrada ao juiz de paz , eleitores , e votantes liberaes . Assim , em Ociras, Principe Imperial, e Valença (Piauly ); Santa Izabel de Valença (Rio de Janeiro) ; Pomba, S. João d'El -Rei , Minas Novas 49 e Ayuruoca (Minas); em quasi todas as freguezias de Alagôas e Ceará; em S. Lourenço e outras (Pernambuco). Pessoas muito qualificadas do partido liberal foram impedidas de entrar na igreja para votarem . Assim, o Dr. Burlamaque , no Piauly, de onde acabava de ser depu lado e presidente da provincia . A prizão arbitraria e o recrutamento, com a variante da designa ção , foram em muilos lugares praticados, mesmo á porta da igreja, ou nu aclo da eleição, contra os cidadãos volantes. Assim , foram presos : Benediclo Feliciano Moreira de Mello e João Marlins , em Minas Novas. (Documentos do Diario do Povo de 6 de outubro de 1868. ) João Silverio , Martiniano de Salle: Lima e Antonio José da Silva , em Ayuruoca . ( Documentos do Diario do Povo de 24 de setembro. Tenente -coronel Franco , em $ . Vicente Ferrer, no Maranhão. (Docu mento do Diario do Povo de 22 de outubro . ) Trinla votantes na Coritiba, segundo uma correspondencia fidc digna . Alguns votantes de Saubara, na Bahia, (carta de pessoa fidedigna). Dez votantes de Camelá, no Pará , cujos nomes vem referidos no Diario do Povo n . 266. E para que invocar outros factos referidos na imprensa de S. Paulo , Baliia , Pernambuco, Espirito Santo e outras provincias , se podemos citar cxemplos aqui mesmo da Côrte ? Assim , foram presos na freguezia do Espirilo-Santo os cidadãos vo lantes bacharel Rufino Antonio Frucluoso, Patricio José Borges e José Luiz Gomes ; e ameaçados de prizão o tenente Soares e o cidadão Narbal Pamplona. Essas prisões coastam do Diario Official e são conſessadas pelo chefe de policia em o seu relatorio sobre as eleições municipaes, porém altribuidas á motivos não verdadeiros e tanto que a sollura foi arbitraria como a prizão , sem processo e quando approuve á policia , conseguido o fim que era a intimidação aos volantes . As circumstancias destas prizos constain de um importanle artigo , inserto no Diario do Povo de 12 de novembro , em resposta ao dito rela torio do chefe de policia : nesse artigo se demonstram com evidencia os 7 50 attentados commettidos pela policia contra a libördade da eleição , aqui na Côrte onde está o Imperador, e sem temor do Imperador, á quem o ministerio deve lealdade. A proposito da eleição municipal da Côrte , o Centro Liberal não pode deixar de explicar a razão porque não respondeu ao celebre relatorio do chefe de policia , tocante á essa eleição . Quando o Centro aconselhou ao partido liberal do municipio neutro que abandonasse as urnas, no dia 8 de setembro, annunciou -se que o Sr. visconde de Itaborahy, zelando os creditos do ministerio a que preside , ordenára um estudo dos faclos denunciados. Se esse estudo fosse feito com seriedade e por bem das instituições livres , encontraria o Centro disposto a auxilial-o . Se fosse mesmo um trabalho politico, embora apaixonado , para defeza do parlido conser vador, - ainda nesse caso cumpriria o Centro o dever de contestal-o . Mas o Sr. ministro da justiça , incumbindo o cxame da denuncia ao réo principal , que tão ardentemente se constiluira o foco de todos os manejos e violencias durante a eleição , não podia esperar que o Centro liberal se rebaixasse a ponto de acceilar como documento sério um papel , redigido com o maior despreso da verdade, e com o mais tristo rebaixamento do principio da autoridade ! Houve freguezias , nas qnacs os eleitores, membros da mesa , foram della arrancados e presos pela policia . Assim , na freguezia de Brotas, no termo da capital da Bahia , ondo foi preso o cleitor membro da mesa Benjamin Vieira pelo sub delegado Joaquim Pereira de Carvalho. A prova é um officio do presi dente da provincia, inserto no Diario do Povo de 2 de outubro de 1868 , officio em o qual esse funccionario apenas declara — que é irregular a prisão, e deplora as funestas consequencias de tal procedimento !! Como podiam ter liberdade os volantes, se a mesa ' parochial encar regada de mantel-a não o tinha ! ? Correu o sangue dos liberacs nas freguezias de S. Miguel da Lage (na Bahia) e S. Vicente Ferrer (no Maranhão). 51 Nesta freguezia , além dos ferimentos, houve seis mortes ! Em algumas freguezias, onde a ostentação da força seria escan dalosa , como na còrtc, a policia , desfarçada, metteu - se entre os volantes como o lobo entre as ovelhas, e forte pela unidade, que provinha da obediencia , forte ainda mais pela audacia que lhe dava a certeza de não ser reprimida, ameaçava a todos, c a todos aterrava . O chefe de policia , no sobredito rclalorio , querendo desmentir a ar guição da policia desfarçada — , soccorre -se ao numero da força e sua distribuição nos dias da eleição . Quid inde ? Os mappas trataram talvez de força legalmente reunida . 0 que obsta , porém , que muitos guardas- nacionaes não aquartelado fossem arbitrariamente chamados para a empreza da eleição ? O que obsta que para esse fim especial fossem urbanos e pedestres resses dias todos os vadios da cidade e arrebaldes ? Não se discute a origem da gente da policia , que se transfigurou em gente do povo : o que é notorio é que havia gente arregimentada e movida ao aceno da policia para coagir o povo . Temendo o chefe de policia que a sua defeza vaga e inverosimil não calasse no animo publico , que bem sabe como a simulação dos mappas pòde acompanhar a simulação da força, prevenio e combateu uma ar guição relativa á eleição de Santa-Rila . « Talvez se refira esta arguição (da policia desfarçada) ao facto de ter « comparecido na freguezia de Santa Rita , onde estava qualificado votante, « o tenente commandante . do 3º districto da guarda urbana (1 ° districto de « S. José) , Manoel José de Souza Leite . » O importante arligo, ao qual já se referio o Centro Liberal , in serto no Diario do Povo ns . 265 , 266 e 267, responde victoriosamente á essa coarctada do chefe de policia. Eis-ahi o trecho respectivo . « Ora sendo certo, como é , que o tenenle Manoel José de Souza Leite , em contrario do que affirma o chefe de policia , não era vos tante em Santa Rita ; « Confessando o mesmo chefe de policia que Santa Rita não per tence ao districto urbano, onde commandava Souza Leite, que effecti vamente tinha o commando do districto de S. José ; « E acrescentando$ . S. , que não distrahio a guarda urbana do seu serviço especial; 52 « Nos desculpará o nobre choſe de policia se lhe perguntarmos ainda o que faziam em Santa Rita o commandante dos urbanos do dis tricto de S. Jo:é , Manoel José de Souza Lcile e o guarda urbano Tavares e as outras praças de pret, quo necessariamente acompa bhavam o seu commandante ? « Estamos certos que S. S. nos não confessará , que eram phosphoros é capangas . O chefe temeu o rigor d'esta conclusão e por isso pro curou arredar da policia toda a solidariedade com Souza Leite , in formando que este oficial fòra ; « posteriormente exonerado do com mando, por portaria de 14 de setembro . » « Dir -se- ia que o chefe de policia , cm signal de veneração pela liberdade do voto, tendo sabido que o urbano Tavares, e os mais do contingente do tenenle Souza Leite , tinham procedido mal em Santa Rita , demillira o tenente em salisfação á opinião publica , e desaggravo da freguezia. Cumpre, porém , informar que o chefe não leve merito , nem ingerencia na demissão, a qual tornou-se falal e necessaria , om visla da sentença condemnatoria a 4 mezes de prisão, que por crime particular lançou contra Souza Leite o juiz de cireito, Dr. Faria . » No protesto do Centro Liberal alludio-se á ostentação de forças nas vesperas da eleição da côrle. O chefe de policia , para responder a essa arguição, allegou que nas eleições anteriores, desde 1856, houve aqui na côrto mais força que na eleição de 1863 . A questão, porém , não é do numero da força e sim do movimento - d'ella , é n'isto que consiste a ostentação . Dizeis que n'essas eleições passadas havia mais força ? Pois bem : Em 1856, havia mais força e o partido liberal concorreu e venceu a eleição em muitas freguerias ! Em 1860, havia mais força e o partido liberal venceu, quasi com pletamente, a eleição da côrte! Em 1867 , havia mais força e o partido conservador em opposição coricorreu e venceu em algumas freguezias ! E como, havendo menos força em 1868, o partido liberal não pôde concorrer a eleição ? 53 Tinha mesas e qualificação , - e recuoli, elle que nunca havia recuado , mesmo sem mesas, mesmo sem qualificações , é diante de adversarios mais imponentes como chefes do partido conser vador ! Só a violencia explica na consciencia publica este facto in verosimil ! A verdade ressumbra ; até 1868 o proverbio dizia- quem tem mezas e qualificação não pode perder a cleição : boje a violencia vale mais que tudo, intimida as mezas e os votantes; — prescinde das mesas e dos votantes: e em vez dos qualifica los faz votar os não qualificades, ou phosphoros. Quis resistet ? A FRAUDE. -- A obra da violencia foi coroada pela fraude a mais escandalosa . E sem a fraude a violencia scria inutil : expelliddas mezas os vo tantes legitimos, cra essencial substiluil-os : então serviram os juizos de paz intrusos e vieram os não qualificados volar em lugar dos qua lificados . Quanto aos phosphoros, que exemplo mais eloqucnte e caracteristico poderia o Centro liberal invocar que o facto occorrido na freguezia do Sa cramento da Côrte ? Pretendeu a policia que votasse nessa freguezia um phosphoro, com o nome de Fiavio do Amaral Vasconcellos , e como a maioria da mesa re pellisse esse volante por não ser o proprio , a mesma policia insistio e provocou grave tumullo, o qual teria funestas consequencias se não fora a prudencia do juiz de paz , o distincto liberal e deputado Dr. Dias da Cruz . Como foi injusta tal imposição da policia bem o provam os seguintes documentos , em vista dos quaes o votante da policia não podia ser o mesmo cidadão qualificado Flavio do Amaral Vasconcellos , que á mesma hora achava -se na typographia do Jornal do Commercio. Eil-os ahi : « O cidadão Flavio do Amaral e Vasconcellos, compositor emprega do no Jornal do Commercio , declara que, tendo morado na rua da Uruguayana n . 30 , sobrado , foi qualificado no 10° quarteirão do 1 ° dis tricto do Santissimo Sacramento ; declara mais que não foi elle que so apresentou a volar na matriz do Sacramento no dia 7 de setembro, e 54 que ficou sorprendido quando na noute desse mesmo dia soube por no ticia que lhe deu o Sr. Gaspar João José Velloso, e depois , o Sr. Dr. Dias da Cruz, que fòra o seu nome a causa do tumulto que se levantára . Outrosim declara que é conhecido desde a infancia do Sr. Dr. Dias da Cruz, bem que este não lhe soubesse o nome inteiro . Flavio do Amaral Vasconcellos. Rio , 9 de Setembro de 1868. « O Sr. Flavio do Amaral Vasconcellos, é empregado nesla officina , c no dia 7 do corrente achava-se trabalhando na mesma , desde as 3 horas da tarde até ás 10 da noite , hora em que findou o trabalho. Rio de Janeiro, officina typographica do Jornal do Commercio, em 9 de se lembro de 1868.- José Gabriel Fernandes Pereira , director desta offi cina.- Pedro Nuno Alvares Jardim , sub-director da mesma . – Os empregados da officina : « José Moreira de Lemos . - Bernardino Francisco Gonçalves. - Antonio de Souza Pereira Junior.- João Tiburcio Horacio da Costa . - João Pinto de Souza . - João José Fernandes de Souza . -Marcos Francisco de Salles . - João José Rosado Freire . - Bento Je suino Ferreira.- João Severiano da Silva . – João Francisco de Araujo e Sá . - Antonio Ferreira Monteiro.- Sabino Aniceto Rosas.- Luiz Julio Ogier.- Manoel Antonio Martins.- João Malaquias dos Santos Maia . –Manoel da Costa Lima.- Ladisláo José S. Araujo.- Joaquim José Guedes Pinto Junior.- José da Silva Leal.-J. F. Vieira.- José Joaquim da Silva Pimentel . --João Gualberto de Queiroz Peçanha . » « E ' exacta a declaração acima feita, porque fui testemunha de ter estado trabalhando na composição do Jornal ás horas supra designadas o Sr. Flavio do Amaral Vasconcellos, a quem conheço ha annos e a todos os seus irmãos .-Augusto Cesar Ramos , revisor do Jornal do Com mercio.- João Camillo Alves, idem . » Não obstante taes documentos, que ahi correm impressos, o chefe de policia no seu relatorio sobre as eleições municipaes ainda incalca que o phosphoro, que quiz votar com o nome de Flavio do Amaral Vasconcellos, era o proprio Flavio ! Eis ahi como ousa exprimir -se esta authoridade, em face de lodos empregados e typographos do Jornal do Commercio : « Comparecendo ás 5 horas da tarde o cidadão Flavio do Amaral Vascon cellos, foi sua identidade contestada pelo juiz de paz, dizendo não ser elle 55 « o mesmo que com igual nome fðra na vespera á sua casa , e reconhecida pelo « inspector de quarteirão José Antonio Pereira da Silva Rocha , e pela maioria « ( N. B. ) dos cidadãos presentes, que indicavath o numero da casa e rua de << sua residencia . « Consultados pelo juiz de paz os membros da mesa , votaram os dous < secretarios para não ser recebido o voto d'aquelle cidadão , e em sentido con « trario os dous escrutadores . » Poderiamos indicar em cada parochia cidadãos qualificados, pelos quacs escandalosamente votaram os phosphoros da policia ; seria porém um trabalho fastidioso e desnecessario por ser facto notorio e proverbial . Exclusivamente senhores do campo , sem a presença e a disputa dos liberaes, por consequencia sem inspecção , os conservadores não fizeram mais eleição , fabricaram actas de eleição , repartindo os votos como as affeições e os interesses d'aquella hora exigiram . Para provar este assérto, basta o testemunho de um conservador distincto , que indignado com a falsificação da eleição municipal da côrte , veio denuncial- a ao publico no seguinte protesto , lão consciencioso , como eloquente : O SR . DR . JOSÉ PEREIRA REGO . Eleição municipal. « Acabando de receber as maiores provas de consideração e favor, que me podia dispensar o povo fluminense na actual eleição municipal, honrando -me com um lugar no meio de seus escolhidos, fallam -me expressões com que possa manifestar-lhe o profundo respeito e gra tidão que lhe consagro , tanto mais quanto os meus amigos sa bem que recusei sempre ser candidato na actualeleição , e que só por ultimo accedi ,. como a uma exigencia do parlido a que me honro de pertencer, á vista de considerações que me foram apresentadas em uma unica reunião para que fui convidado, considerações que me pare ceram sinceras. « E, se com praser e reconhecimento agradeço o testemunho insuspeito, que me deu o povo fluminense, da approvação de meus actos, como vereador do quatriennio que ora finda , reelegendo-me, como 56 mais profundo pezar venho publicamente declarar que resigno essa honrosa commissão, porque assim o exigem a minha dingnidade, a independencia do meu caracter, a intenção dos que me distinguiram com seus votos , e a lionra do parlido a que pertenço , ao qual nenhuma responsabilidade cabe nas tropelias e abusos que occorreram no aciual pleito eleitoral, porque contra isso protesta lodo o seu passado . « E a não serem as allianças pouco felizes com homens que n'elle vieram acolher -se, com o fim de cavar -lhe a ruina e desmoralisal-o , expondo-o ao desconceito publico , á sombra de uma conversão ficticia, de certo não teriamos presenciado os factos desagradaveis occorridos em algumas freguerias desta corte , vendo -se homens, que se deviam con siderar solidarios em principios, praticar , acobertados com o segredo do escrutinio , actos inqualificaveis mutilando na volação a seus corre ligionarios. « E ' , pois, contra essa nodoa atirada á face de um grande partido que venho protestar, e ao mesmo tempo declarar que não posso fazer parte da actual camara municipal, porquanto , partiilario do principio de que nos paizes regidos pelas sabias instituições que possuimos , o ele mento democratico, ou antes poderes conferidos pela nação , devem vir directamente della pela expressão das urnas nas lutas eleitoraes, afim de haver o equilibrio indispensavel entre os poderes publicos e não estar o direito de burlal-os á mercê da vontade de qualquer que, por uma dessas eventualidades da politica , póde tomar preponderancia , em vir tude de condições especiaes que acluer no carro da administração pu blica , e declarar , repita, que não posso ac :itar o lugar de vercador da camara actual, porque não é ella a expressão do voio popular, mas sim uma designação, adrede preparada, para a collocação dos eleitos em lugar conveniente, como sabe toda a população desta cidade . « Terminando repetirei: a actual eleição municipal não é a ex pressão do voto do partido conservador, é a de vontades pessoaes enca minhadas por interesses ſuluros, cumprindo -me de ante -mão declarar que não sou candidato a qualquer das eleições que se lêm de pleitear em Janciro vindouro . - Dr. José Pereira Rego. Rio , 14 de setembro de 1868. » Outra especie de fraude foi tambem praticada escandalosamente pelo parlido conservador, isto é , as duplicatas . 57 Onde a violencia, foi impotente porque a população toda , ou quasi toda, era liberal , fabricaram-se actas de eleição que não houve, para ficarem assim inutilisadas as verdadeiras eleições. Contava-se com o governo para este abuso, e nas mãos do governo está a cleição municipal, porque á elle é que compete verifical- a o julgal-a . E ' publico e notorio , que o presidente da Bahia insinuou este meio ao seu partido, e esse escandalo chegou a ponto de dizer elle á uma influencia, que se escusava de fazer uma duplicata , por não haver no lugar juiz de paz conservador : « Mande vir um juiz de paz de Goyaz ou de outra parte. » Bem comprehendida a insinuação, a duplicata se fez o foi válida ! Com tal presidente , o abuso das duplicatas foi tão escandaloso , que cm Lençóes onde tanto sangue correu, e por convenio de ambos os partidos se adoptou o adiamento da eleição, fabricou -se clandestina. mente a acta de uma eleição , que não tinha havido, como mostra o convenio, e essa eleição foi approvada ! Prescindimos ainda da fraude, demonstrada com toda a evidencia, pelo numero de votantes , que se diz terem concorrido á eleição de muitos lugares , numero maior que o que concorreu ás eleições passadas quando aliás as qualificações ultimas não podiam deixar de resentir - se da ausencia de muitos cidadãos, que como voluntarios, recrutados ou de signados , foram para o Paraguay. N'este sentido , é digno de lêr-se o artigo inserto no Diario do Povo , em resposta ao relatorio do chefe de policia . Quero governo dar uma prova de moralidade ? Mande publicar das actas eleitoraes as relações dos unicos cidadõos que ellas resão não ter volado . Que de escandalos vergonhosos vão ficar patente com essa publicação ? 1 AS ANNULLAÇÕES.-As poucas eleições , que os liberacs não obstante a violencia e a fraude poderam vencer, têm sido annulladas pelo governo, juiz supremo nas eleições municipaes, arbitro omnipolento dos interesses locaes Eis ahi o self governement entre nós ! 8 58 O municipio é a imagem do ministerio ! Não ha n'este vasto Imperio, senão uma ou outra pequena luca lidade, onde predomincmº influencias libcraes? Toda a população é hoje conservadora ? Municipios de S. Paulo, Minas , Bahia e outras provincias onde, dcsdo que la eleições , sempre venceu o partido libcral , todos ſicaram conservadores ? Que causa operou esto nilagre de conversão geral ? A historia ha de assignalar a vio.enca, porque só a conquista póde subordinar e uniformisar apparentemente interesses , habilos e tra dicções de populações diversas . De todas as annullações, a mais revollante , é a annullação das eleições municipaes de todas as freguezias da provincia de Mallo Grosso , por meio de uma só portaria ! Procedèra -se n’essa provincia á eleição municipal , vencendo o par tido liberal ; chega entretanto a noticia da mudança da situação : uin novo vice -presidenle assume a adm :: istração, e sem informações , e sem espaço para conhecimento de causa , semi allegar motivos, ou nullidades, de um só golpe annulla todas as eleições feitas no dia 7 de setembro. Eis ahi o documento : « O vice-presidente da p :ovincia, convicto da procedencia das irre gularidades, que huvcram nas eleições do vereadores e juizes do paz dis parocrias da Sé , Pedro II , Santo Antonio do Rio Abaixo, Nossa Senhora do Livramento, Nossa Senhora da Guia e cidade clo Poconé, conforme as representações, que lhe foram n'esse sentido diri gidas, resolve, fundado na segunda parte do art. 118 da lei regula mentar das eleiçõcs , annullar as que tiveram lugar no dia 7 de sc tembro do corrente anno, e mandar proceder a outras em lodas as parochias referidas, inclusive as das Brotas e Rosario, por não terem levado a cſfeito paquelle dia tão indispensavel dever, por lci pres cripto, designando para isso a segunda dominga do mc2 de dezem kro do correnle anno, afim de evitar -se a tempo o inconveniente de não entrarcin em excrcicio os novos cleitos , 10 dia marcado por lei , que necessariamente intervir devem nas eleiçõi's geraes , que tem deha ver na ultima dominga de jan : iro ſuluro, decrctadas pelo governo im 59 perial , tudo de harmonia com os avisos do ministerio do Imperio de 8 de janeiro e 19 de junho de 1849 ; ficando, outrosim , o dia 28 do mesmo mez de dezembro designado á camara municipal para pro ccder á respectiva apuração , dando conta immediatamente a esta pre sidencia de tudo quanlo se lhe ha ordenado. Palacio do governo do Malto -Grosso, em Cuyabá, 7 de outubro de 1868.- Dr. José Anto nio Murtinho . >> E o que é isso senão absolulismo ? Ubinam gentium sumus ! VIOLENCIAS AINDA DEPOIS DA ELEIÇÃO MUNICIPAL . - Vencida a eleição municipal parecia que a intensidade da reacção devia declinar. Não, Havia ainda a eleição de janeiro e o interesse de vence-la justificara a continuação da reacção . Como se explica , porém , a mesma rracção , depois da abstenção do partido liberal ? Certo não foram mais as necessidades da eleição , senão o exterminio do partido liberal , que inspirou a continuação do estado violento em que o Brasil se acha , c cuja sulução é um grande problema. Muitos factos posteriores á eleiçãomunicipal e occorridos depois da abslenção do partido liberal , já foram , em razão da connexão da materia , recontados no artigo relativo á intimidação, mas ainda outros vão ser referidos. 1.° O facto occorrido no dia 25 de dezembro , na Villa de Simão Dias, provincia de Sergipe, ás 2 horas da tarde . Foi assaltada a casa de morada do juiz municipal Dr. Tito Luiz Vieira Dantas pela força a'i destacada, a qual inlimou formalmente ao mesmo juiz que se retirasse por ordem do delegado, porquc a casa cra neceessaria para quartel : c apossaram -se da casa , o magistrado foi despejado, e para ali foram conduzidos e mandados todos os moveis do quartel, inclusive os troncos . Isto importa a resurreição das antigas aposentadorias do tempo do absolutismo ! 2. ° 0 altentado contra a camara municipal de Cajazeiras ( Parahyba) , no acto de proceder ella á apuração das eleições municipaes . 60 Este facto é assim referido por pessoa fidedigna : a 0 subdelegado, José Franco de Albuquerque, cercou a casa da camara , e invadindo a sala das sessões, e collocando soldados de baio netas caladas em roda do presidente e vereadores, deu voz de prisão ao vereador José Martins da Fonseca Moraes, que se achava com os livros das actas e entrando com elle em luta , com ajuda dos soldados, apode rou-se dos mesmos livros e os levou comsigo, para fazer a apuração na povoação de Souza. 3. O attentado commettido contra a camara municipal de Picos , na provincia de Piauhy ; repellidos pelas baionetas os vereadores em exer cicio , e ferido o bacharel Lourenço Valente de Figueirede , logrou o tenente-coronel Clementino de Souza Martins realisar a apuração do actas falsas . Este facto violento é exposto pela camara municipal , na seguinte representação : « Illm . e Exm. Sr. Os abaixo assignados , vereadores de numcro da camara municipal da villa dos Picos, vêm perante V. Ex . narrar um facto inaudito , que se acaba de dar n'esta villa em pleno dia e á face de todos. « Tendo o coronel Clementino de Souza Martins assumido , lá na fazenda onde reside, a presidencia da camara municipal , no dia 15 do passado , só hontem aqui veiu convocal-a , sem duvida para apurar uma eleição , que elle simulou ter feito , cujo livro ainda não foi remettido para o ar chivo . Entretanto , os abaixo assignados , conscios da reclidão e inteireza de V. Ex . , não punham a menor duvida em apural-a , fazendo apenas isto mesmo constar a V. Ex. , o que já havia sido accordado entre alguns amigos nossos e o capitão Jeremias José da Silva e Mello , advogado, que trouxeram os conservadores para este negocio . Mas , hoje , de 8 para 9 horas da manhã, quando os abaixo assignados se reuniram na porta da casa da camara, viram o Dr. Lourenço Valente de Figueiredo , juiz municipal , voltar da casa do referido coronel Clementino, banhado em sangue e gravemente ferido, sendo logo informado que fora o mesmo coronel autor de semelhante attentado , commcllido á traição , e sem mo tivos , e de que o mesmo doutor lhe havia dado voz de prisão em lla grante delicto . Entendemos que , pelo facto de estar preso e salpicado de sangue , não podia conservar - se na presidencia d'esta camara ; comludo 61 comparecemos na porta do edificio '; mas vimol-o cercado por todos os soldados do deslacamento e por muitos paisanos armados , e sabemos que o referido coronel gritava que o liberal que ali penetrasse teria igual sorle a que havia tido o Dr. Valente ! « Somos liberaes , e recuamos espavoridos, diante de scmelhante precipicio . Consta -nos que ha ordem de V. Ex . para a apuração da cleição do coronel Clementino; e como fica dito , não nos recusamos, c nem nos recusaremos a isso , desde que não nos collocarem , como hoje , sob a pressão das baionetas, dos sabres e dos punhaes. Receiamos que nos obrigassem a assignar tudo quanto quizessem , diante da perspectiva da morte, ou que nos espancassem pelo gosto de ver correr o nosso sangue, como aconteceu com o Dr. Valente, que causou riso e alegria ás autoridades policiaes ! Levando o occorrido ao conhecimento de V. Ex. os abaixo assignados protestam que não se recusam a cumprir as ordens de V. Ex.; mas não podem fazel-o, sob a terrivel coacção empregada pelos conservadores d'este termo ; portanto , em seu nome e em nome da população d'este municipio, pedem instantemente a V. Ex . garanlia para a vida e liberdade dos cidadãos . - Dous guardo a V. Ex . - Villa dos Picos, 17 de Novembro de 1868. — Illm . e Exm . Sr. Dr. Augusto Olympio Gomes de Castro , muito digno presidente d'esta provincia. José do Rego Barros Paim .-- Felix de Hollanda Cavalcanti. - Luiz Gonzaga Leal. — Felippe de Araujo Rocha. » Conclusão . A ' visla dos faclos referidos c da apreciação, que os acompanha, o Centro Liberal lem a consciencia de haver justificado a abstenção , que aconselhou ao partido liberal , pela circular de 20 de novembro . E na verdade os factos se precipitaram em torrente para provar que era impossivel a lucia . Como resistir á esse proposito de absolutismo , manifestado pelo governo, á essa intimidação systematica empregada para extermi nar os liberacs ? Quem , a não ser hieróe , se arriscaria á abandonar familia, profissão e patrimonio por amor da eleição ? Em lal caso , para que fazer victimas ? Para que irritar a suscepti bilidade do partido vencedor ? Para que provocar mais provas de sua omn'potencia ? Para que forlifical- o por uma resistencia inutile ingloria , mas que, entrelanto , manteria a unidade, que por uma fata lidade das cousas humanas, as mais das vezes falta depois da victoria ? Não so vio que o despotismo ia até o requinto da ostentação ? Nem se quiz deixar ás nações cullas a duvida sobre a veracidade das quei xas do partido liberal ! Ali está o facto vergonhoso de não se con sentir ao Rio Grande do Sul o repetir, no suffragio cleiloral , á Osorio cá Porto Alegre o testemunho de profundo amor e gratidão que manifestára nas recepções enthusiasticas d'aquelles heróes quando Vollárão á terra da patria ! Ordenou -se á policia que nodoasso o caracter do povo rio - grandense fazendo - o apparecer aos olhos do mundo como raça degenerada, semn cnthusiasmo , sem virtudes, nem scquer à da gralidão ! E para maior vergonha, não da infeliz pro vincia repellida de junto das urnas, -mas d’esta situação que ini 63 péra despolicamente - a patria de Osorio e Porto Alegre, logo após a brilhante campanha do Paraguay, figura nas actas da policia como orphã de filhos dignos do senado e pedindo á outras emprestado algum nome secundario ! A historia julgará severamente essa provocação systematica , esse despotismo frio e calculadamente insultante , que para alardear de sua omnipotencia nen poupa a um heróc ferido, em combate pela causa da palria e á quem se pedem novos sacrificios para fechar com a mesma galhardia a campanha que lão brilhantemente iniciou ! O partido liberal appella para a historia : ella lambem julgará seve ramente o recrutamento, a designação e os outros elementos da res tauração conservadora. Sim, esse recrutamento com as circumstancias de violencia e alro cidade , que o Centro Liberal refcrio, só se compara ao celc bre recrutamento , que provocou a insurreição Polaca em 1863 , re crutamento contra o qual se crgueu o clamor do mundo civilisado, e que foi fulminado pelo conde Russelem a nota de 11 de fe vereiro de 1863 , dirigida ao embaixador da Russia com estas palavras eloqucntes : « Não ha razão que possa dar direito para converter a conscripção em pros « cripção. (To turn conscription in proscription .) Essas palavras , repetidas pelo conde Russel no parlamento, forain acolhidas com enthusiasmo e ficaram memoraveis. E como vem á proposito estas outras expressões de Lord Napier, embaixador na Russia, a respeito d'esse barbaro recrutamento ! « O governo Russo (dizia elle em 7 de fevereiro, dirigindu -se ao seu go « verno) confessa que sua autoridade não pode ser mantida pela stricta lega « lidade :: - a legalidade nos mata—diz elle e confessa que o recrutamento foi « empregado como meio de dispersar e reduzir á impotencia os adversarios a politicos. Em minha opinão, nem a existencia prévia de uma conspiração , « nem o fim de destruir planos revolucionarios, podem justificar um recru « tamento arbitrario ... E' um meio tão excepcional e tão repugnante ao di « reito commum, que destroe toda a confiança publica na sinceridade e leül « dade (consistency ) do governo russo , e desperta apprehensões funestas sobre a sua politica em outras questões . » 64 Lord Napier resume assim sua opinião sobre as consequencias da victoria , que a Russia sc lisongcia de obler, provocando e sufocando a insurreição : « Sem duvida, muitos patriotas polacos serão mortos ou remettidos para « as provincias asiaticas, ou viveráő em longo serviço militar ; as forças ma « teriaes ficaráð diminuidas por algum tempo, mas por cada patriota morto, « reduzido ao silencio, ou proso , viráo cem na geração nova, a qual aceitará « a herança dos odios e das vinganças. » Mas como se pralicou csse recrutamento que, na frase de For cade ( Revista dos Dous Mundos ), fez arder a Polonia ? Eis ahi como o descreve Mazade ( mesma revista ) : Esse recrutamento leve lugar em Varsovia , em a noute de 15 de janeiro de 1863 : as casas foram cercadas simultaneamente : arrombadas as portas, os soldados penetraram até os aposenlos das familias: cada official trazia sua lista de conscriptos , e se estes não eram achados, recrutavam -se em seu lugar os pais, filhos, irmãos , ou encontradiços , velhos ou enfermos. » Dizei quaes são as differenças, comparado este recrutamento com as scenas do recrutamento descripto n’este manifesto ? E ' que em Varsovia o recrutamento foi simultanco , em uma só noile ; entre nós é todos os dias , e todas as noites , aqui e alli ! Lá , a scena passou -se na capital , aqui no interior do paiz aondo o despotismo póde ao mesmo tempo commelter a violencia , e obli lerar as provas , restando somente os gemidos das victimas, cla mando no deserto. Lá as atrocidades não começaram senão depois da insurreição ; aqui o sangue e os attentados ao pudor macularam o recrutamento, como em S. Paulo , Bahia e Ceará ! o estrangeiro conquistador, aqui é o patricio contra o pa tricio , é o exterminio dos brasileiros por serem liberaes . E um paiz onde impunemente a policia commette os factos reſe ridos é um paiz livre ? Livre ! Qual é o paiz livre onde a policia póde invadir a casa do cidadão de noite, o sem formalidades, do mesmo modo porque os cossacos invadem as casas dos polacos , infelizes conquistados ? Lá era 65 E ' uma menlira a disposição da Constituição quando diz « que a casa do cidadão é um asylo inviolavel . » Mereceria riso entre nós essa expressão de lord Chatam , quando preconisou o asylo inviolavel do cidadão em Inglaterra : - « podem entrar pelas fendas da choupana arruinada do pobre o vento e a chuva , mas o rei de Inglaterra lá não pode entrar. » Que garantia tem o cidadão contra o despotismo do recruta mento , que não respeita as isenções da natureza e da lei , que invadle de noite o asylo do cidadão , com susto e menoscabo da familia ? Nenhuma garantia. O habeas-corpus, a maior garantia da liberdade individual , não vale para estes casos graves, porque, como declarou o ministerio da justiça , o poder judiciario só póde conceder habeas-corpus, quando a autoridade policial não está autorisada para recrutar ! Não é isto o ludibrio accumulado á violencia ? · Que autoridade policial não está autorisada para recrutar ? Ou qual é o lugar em que não ha um commissario de recrutamento ? O poder judiciario não pode conceder habeas-corpus av cidadão, ainda mesmo dada a evidencia da isenção legal ! Ben podem ser recrutados o ministro do Supremo tribunal , o desembargador, o senador : não é caso de habeas -corpus ; basta que se pronuncie a palavra --recrutamento— paraque cessen todas as garanlias constitucionaes . A hypothese, sobre a qual versu a decisão do ministerio da justiça , era a de recrutamento do juiz de paz de Itambé , em Per nambuco, com 46 annos de idade , collector de rendas provinciaes e proprietario ! O juiz de direito concedeu habeas-corpus, considerando o recru tamento como pretexto de prisão arbilraria á vista das manifestas isenções do juiz de paz. « Fez mal o juiz de direito (decidio o ministro) , porque o motivo da prisão era o recrutamento ; e quanto ao recrutamento o habeas corpus só é applicavel quando a autoridade, que recruta , não está autorisada para recrutar . » Ainda mais , o habeas corpus, concedido pelo juiz de direito , foi deso bedecido pela policia , e o ministerio da justiça não se importou com 9 66 este lacio gravissimo e de funestas consequencias para a liberdade individual. Quando o recrutamento , não obstante as isenções evidentes, não fosse motivo legal de habeas corpus, em caso algum a poli ' ia podia desobe decer ao ħabeas corpus e apreciar os seus motivos. Os principios de ordem publica exigiam que fossem respeitadas pela policia as decisões do poder judiciario, as quacs só podem ser annulla das mediante os recursos legaes : os principios de ordem publica exigiam que o habeas corpus, a maior garantia da liberdade individual, não fosse uma só vez desmoralisado, e recusado pelo detentor. E ' o primeiro caso de habeas corpus desobedecido pola autoridade policial. E ' mais um facto caracteristico desta época de absolulistio . O que vale , dado este precedente, o habeas corpus ? A policia só o executará quando lhe convier e parecer . A garantia da victima fica assim nas mãos do algoz . 1 O parlido liberal não tinha pois cutro recurso senão a resistencia material ou a abstenção . Preferio a abstenção , e tem consciencia de que acertou . Poderia aguardar a sua vez de governar, para então votar, e vencer a eleição . Este arbitrio seria o egoismo de uma facção , mas não o patriotismo de um partido. Continuaria o mesmo circulo vicioso , do qual é força saliir : aliás de reacção em reacção irá o paiz ao abysmo. A abstenção do partido progressista da Hespanha, absoluta e syste matica , como foi, não tinha outra salida senão a revolução. A abstenção do partido liberal do Brasil naluralmente engendra uma situação definida e legilima : Ou a reforma, Ou a revolução. A reforma para conjurar a revolução ; A revolução , como consequencia necessaria da natureza das cousas, 67 da ausencia do systema representativo, do exclusivismo, e olygarchia de um partido. Não ha que hesitar na escolha : A REFORMA ! E o paiz será salvo . Tosi'Thomaz Nabuco de Beaujo. Bernardo de Souza Franco. Zacharias de Góes e Vasconcellos. Antonio Pinto Chichovo da Gama. Francisco José Furtado. Jose' Pedra Dias de Carvalho João Lustosa da Cunha Faranaguá. Theophil. Benedicto Ottone: Francisca Octaviane de Almeida Roosa. Typographia Americana , rua dos Ourives n . 19. JL2498 Счесча 1849 Front Cover Dos nossos concidadãos! ... assim se a opposição podesse concorrer ou deixar de ... 1. Demissões. ... I ... disposições da lei de 1846 arts. 71 e 76... A reacção. ... guerra contra o dictador Lopez, haviam concorrido para essas ... fanação da religião do Estado, esses bandos simulavam com ... Convem notar que este cidadão, posto obtivesse ordem de ... Prescinde o Centro Liberal de muilos factos, denunciados pela ... e Ayuruoca (Minas); em quasi todas as ... Onde a violencia, foi impotente porque a população toda... Conclusão. ... E' uma menlira a disposição da Constituição quando diz ... . ...