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1
-----
Rega,Jose Per
eira , Hofe. 55-
66
MANIFESTO
DO
CENTRO LIBERAL
RIO DE JANEIRO
TYP. AMERICANA -RUA DOS OURIVES, 19
1869
MA
M
MANIFESTO
MANIFESTO
DO
CENTRO LIBERAL
RIO DE JANEIRO
TYP. AMERICANA - RUA DOS OURIVES, 19
1869 .
Dos nossos concidadãos!
O Centro Liberal, publicando este manifesto , preenche a
promessa que fez, na circular de 20 de novembro proximo
passado , de justificar perante o paiz e o mundo civilisado
a abstenção, que aconselhou ao partido liberal.
Limitada a eleição de janeiro pelas causas resumidas na
mesma circular , não extensiva a todas as funcções politicas,
essa abstenção não é uma imitação da abstenção do partido
liberal da Hespanha, onde foi absoluta , systematica , aliás
menos justificada, porque , como se sabe , teve ella somente por
causa a circular do marquez de Miraflores, presidente do con
selho , que consagrava as candidaturas officiaes, e restringia
o direito das reuniões eleitoraes .
A abstenção das funcções parlamentares, certamente muito
mais grave, praticada pelo partido Whig em 1776 , e pelo partido
Tory em 1722 , 1733, incorreu em varias censuras , nunca
porém foi considerada como meio revolucionario .
Nos paizes , onde 0 systema representativo é
dade, e se dá a contingencia muito natural da victoria da
opposição , como recentemente mostrou a Inglaterra por uma
prova explendida, ahi a luta é dever, a abstenção suicidio .
ver
6
No Brasil, porém , onde o governo póde tudo, se , além da
grande influencia do poder, elle emprega a violencia para
impedir a livre intervenção da opposição liberal, a abstenção é
dever, é necessidade.
Não ha fraqueza na abstenção, quando se dá a impossibili
dade da luta , quando a luta é crime, e o cidadão além
de vencido , é perseguido por causa da eleição.
A historia não ha de considerar fraqueza senão dignidade
pessoal, e resignação perante a força material, os oito annos
de abstenção, que viveram os liberaes de França desde o golpe
de estado de 1852 até que o decreto de 24 de novembro
de 1860 lhes deu satisfação , ampliando os direitos do
parlamento ; permittindo a adresse para manifestação das opi
niðes ; consagrando a publicidade dos debates, e encarregando
aos ministros a explicação dos actos do governo perante o
parlamento.
« o governo , dizia a circular de 20 de novembro, armado ,
« como está, por leis reaccionarias , de immenso arbitrio para
« comprimir a liberdade dos cidadãos ; e ainda mais dispon
« do dos poderes extraordinarios que o estado de guerra lhe
« depára ; querendo abusar, é senhor absoluto das urnas, e
« não podem ellas exprimir senão a vontade d'elle. >>
Esta verdade está na consciencia publica, e não carece de
demonstração.
Mas se as urnas não podem exprimir a vontade nacional,
e só reflectem a imagem do governo, ha em nossa organisa
ção politica vicio radical, que denuncia a existencia de um
governo absoluto.
O governo absoluto não perde o seu caracter, porque se
rodeia de um parlamento . Se elle mesmo elege o parlamento,
não ha senão simulacro de parlamento ; e o simulacro de
parlamento pode provar uma especie de governo absoluto, mas
punca a existencia de governo representalivo.
E tudo está dito quando se diz, em ultima analyse, que a
7
vontade que nomeia os ministerioş é a mesma que elege o par
lamento , que depois os vem apoiar; que a vontade que cria e
muda as situações politicas é a mesma que as confirma por seus
mandatarios ou eleitos.
Onde está n'este regimen , que se diz do povo e pelo povo ,
a influencia mediata ou immediata, proxima ou remota do povo
no governo do paiz, na nomeação e demissão d'aquelles que
o governam ? Se nem ao menos a municipalidade é obra do
povo, mas creatura da policia, o que resta ao povo ?
0 Imperio da França tem parlamento, mas ninguem
dirá que é parlamentar o governo da França , onde os mi
nistros não tem palavra propria e nem responsabilidade ,
onde o parlamento não exerce acção sobre os ministerios e
a eleição não influe sobre a sorte d'elles : entretanto é força
confessar que as eleições são em França relativamente mais
livres que as nossas , porque lá a questão é da influencia
dos elementos do poder , entre nós a questão é de abuso do
poder ; lá as candidaturas officiaes ( não menos de 33 em
1863 ) têm naufragado perante as influencias naturaes, aqui
não ha influencia legitima , que resista á violencia do go
Verno .
Por ventura no Brasil contra Luiz Napoleão, não obstante
as energicas circulares de Persigny, sahiriam eleitos os Thiers,
os Berryer , Marie , J. Favre , Simon , Olivier , Picard , Lan
juinais, Pelletan , e outros ?
0 governo absoluto , que temos , faça -se justiça , não é
obra de algum 18 brumaire ou de outro golpe de Estado se
melhante, desfechado pelo Imperador ; mas é o effeito das
leis reaccionarias criadas e mantidas pelo partido conservador,
essas leis, em virtude das quaes o governo pode fazer de
qualquer cidadão innocente um réo sujeito ás arbitrariedades
da prisão preventiva, ou de qualquer cidadão isento um sol
dado sujeito aos castigos corporaes do conde de Lippe .
Para Monarcha esse falseamento da eleição é um0
8
abysmo que elle tem sob os pés . porque a eleição em vez
de ser a verdade que o adverte, é a mentira que o obriga
a errar , a provocação que conduz o paiz fatalmente á re
volução .
Sem dúvida os erros do poder moderador nå apreciação
das situações politicas do paiz não seriam fataes, se as elei
ções fossem livres . Então tantas dissoluções quantas provas
da opinião : a eleição julgaria a dissolução, e não seria con
sequencia necessaria d'ella ; a responsabilidade moral da
mesma dissolução não reverteria, como hoje , só e só, sobre o
poder que a decreta , que faz appello á nação para respon
der elle mesmo por ella , sendo assim juiz em propria causa .
Este estado de cousas não podia continuar.
Quando mesmo a luta fosse possivel e não impedida pela
violencia empregada pelo ministerio de 16 de julho , a oppo
sição liberal não deveria lutar : em vez de dissimular a ver
dade das cousas , concorrendo com sua cumplicidade para
uma farça que desmoralisa o paiz, deveria em todo o caso
tornar o mal patente e escandaloso pela abstenção, formal.
Ficaria por este modo evidente a ausencia do systema
representativo pela ausencia do concurso das opiniões , base
om que elle essencialmente se funda .
Assim o extremo e a evidencia do mal provocariam a ne
cessidade de um remedio .
O remedio seria a reforma.
u O meio de tornar as revoluções raras o difficeis, dizia o duque de
« Orleans em 1804 , é tornar as reformas faceis. »
Foi por esquecer este preceito por elle mesmo ensinado,
diz um habil escriptor , que Luiz Felippe perdeu o throno
em 1848 .
A abstenção, aconselhada pelo centro liberal, não se fun
dou somente nesta omnipotencia do governo ; seria talvez
9
assim se a opposição podesse concorrer ou deixar de con
correr a eleição ; a abstenção foi um acto de necessidade .
Portanto a razão da abstenção não foi a inutilidade da
luta , mas a impossibilidade da luta ; não foi , como na Hes
panha , a desigualdade dos meios da luta, mas a exclusão
de todos os meios da luta a não ser a resistencia material ,
que no estado do paiz poderia ter consequencias imprevistas.
Muitos ministerios têm abusado mais ou menos dessas leis
reaccionarias, que fizeram absoluto o poder em nosso paiz ;
ainda não houve porém um ministerio que , como o actual,
levasse a reacção até o exterminio ; e a intimidação à ca
thegoria de systema governativo .
O partido conservador em sua restauração não mostra ter
aprendido a sentença que Guizot escreveu na adversidade.
« Enquanto os grandes partidos nutrirem a esperança de se annullarem re
« ciprocamente e de possuirem sós o imperio , é impossivel a paz publica . »
O partido conservador na sua restauração esqueceu -se de uma
verdade que aliás está na consciencia de todos , e foi repetida por
um habil escriptor, em relação á Hespanha, mezes antes dare
volução.
« As camaras unanimes da Hespanha como de todo o mundo são o signal es
« sencial de situações violentas, nunca salvarão nada, ao contrario tudo perderão.
« Ainda serão precisas experiencias neste mundo para saber -se que a
dictadura promette o que não pode , e não faz senão provocar a revolução ? »
Não sabe o partido conservador :
Que uma reacção é a razão de ser de outra reacção e dahi
um circulo fatal que só se resolve pela revolução ?
O ministerio de 16 de julho , subindo ao poder inesperada
mente e por um golpe de estado, não fixou seu pensamento senão
na dictadura .
Desde 1853 havia declinado a reacção contra a liberdade ;
dessa data todos os ministerios, compostos total ou parcialmente
de conservadores, transigiram com as idéas liberaes : cada qual
2
10
ou menos
se ostentava mais popular que seu antecessor ; cada qual cortejava
mais o liberalismo , sem duvida reconhecendo-o como a necessi
dade do mundo moderno , como a condição de paz publica, e nos
programmas de todos vinham promessas mais
amplas.
Pois bem , o ministerio de 16 de julho , apresentando -se perante
as camaras , não fallou de reformas senão como cousa accidental ,
sem promessa, sem compromisso ; e desmentindo o que está na
consciencia publica, e foi o pensamento de todos os ministerios
de varias cores politicas , que o tinham precedido, attribuio nossos
males, não ao defeito das leis , mas á execução dellas e só pro
metteu moderação, justiça e respeito aos direitos de todos .
Dahi as apprehensões de um poder retrogrado; de uma res
tauração do passado, sem temperamento liberal , remontada não á
época em que o partido conservador deixou o poder em 1863,
senão ás épocas mais atrazadas do exterminio e excomunhão dos
liberaes .
Moderação, justiça e respeito aos direitos de todos não carac
terisam ministerio algum , é programma subentendido em todos
os paizes civilisados, e sob qualquer forma de governo.
Entretanto os factos vieram provar que essas palavras não
eram senão banalidades.
Os preambulos dos Ukases Russos de 1864 , que esbulharam a
propriedade dos polacos, fallavam muito do desejo e necessidade
da pacificação moral : e na verdade não ha meio mais adaptado
para a pacificação moral que o esbulho da propriedade, como não
ha prova mais irresistivel da moderação, justiça e respeito aos direi
tos de todos , do que a prisão arbitraria com o luxo asiatico do tron
co, das algemas, das cordas, e da cruz ; o recrutamento não
obstante as isenções legaes ; o cerco e varejo das casas do ci
dadão, de noite , com violação dos aposentos reconditos da fa
milia, attentados ao pudor e assassinato dos infelizes destinados
á prisão e recrutamento !
O Centro liberal neste manifesto tratará :
11
1.º Dos actos de absolutismo exercidos pelo ministerio contra
a Constituição do Estado.
2 ° Da reacção :
1. Demissões.
2.• Nomeações .
3. ° Suspensões das garantias da eleição .
4. ° Intimidação .
5. ° Violencias no acto da eleição municipal .
6.• Fraude .
7. • Annullação .
8. • Violencias ainda depois da eleição .
9. • Conclusão .
3
I
Actos de absolutismo contra a Constituição do Estado .
O absolutismo do Poder Executivo revelou -se pelos primeiros
actos do ministerio de 16 de julho , dos quaes vão ser indicados os
mais conspicuos .
O Acto Addicional foi a maior conquista liberal , que a revolução
de Abril alcançou .
A reacção portanto fez dessa instituição o seu alvo principal ,
cerceando algumas das suas disposições por meio de uma inter
pretação , que não foi interpretação senão nova lei .
Pois bem ; contra o que resta desse monumento de liberalismo
de nossos maiores desfechou seus primeiros golpes o espirilo re
trogrado do ministerio .
O Acto Addicional em o art . 10 $ 1 ° conferio ás Assembléas Pro
vinciaes a attribuição de legislar sobre a divisão civil , judiciaria ,
e ecclesiastica das respectivas provincias.
O ministerio, porém , na circular de 21 de julho de 1868 , or
denou aos presidentes de provincia que não sanccionassem lei
alguma , - lei alguma — das Assembléas Provinciaes creando
comarcas .
São duas cousas absolutamente incompativeis, a proposição
directa e a proposição contraria ; a disposição do Acto Addicional ,
que confere as Assembléas Provinciaes a attribuição de legislar
sobre a divisão judiciaria,-e a ordem do governo , que em these e
13
forma geral , manda que os presidentes de provincia não sanccio
nem lei alguma, - lei alguma -, sobre a divisão judiciaria .
Ora, os casos em que os presidentes de provincia podem negar
sancção às leis provinciaes estão expressos nos arts . 15 e 16
do Acto Addicional e não cabe em nenhum dos casos , sem con
tradicção com o art . 10 $ 1 ° , o veto absoluto das leis , que cream
comarcas .
Ha de o presidente soccorrer-se ao caso do art . 15 , isto é ,
quando a lei provincial não convem aos interesses da pro
vincia ?
Este caso suppõe uma certa lei , v . g . , a creação da comarca
tal , ' e não em these e á priori toda e qualquer lei sobre um
objecto que é da competencia da assembléa provincial, porque
isto implica com a attribuição, importa a negação da attribuição.
Que vale a negação da sancção , no caso do art . 15 ? Esse abuso
do presidente teria o correctivo do mesmo art . 15 ; a lei seria
adoptada por dous terços de votos .
A circular , porém , annulou esse correctivo ; abyssus abyssum in
vocat ; a lei não será executada, a comarca não será provida.
Esta ameaça é expressa na circular.
A lei não será executada, quer dizer que ficará suspensa .
Mas a suspensão das leis provinciaes só tem logar nos casos
expressos do art . 16 do acto addicional.
Para se incluir n'esse art . 16 o caso da lei provincial offensiva
da Constituição foi precisa a disposição da lei interpretativa,
art. 7 .
O ministerio não precisou de lei para incluir mais um caso .
O ministerio actual foi além dos ministerios dos tempos da
reacção contra o Acto Addicional .
Então as circulares, porém reservadas , insinuavam aos presi
dentes que influissem para prevenir que as assembléas provin
ciaes creassem comarcas ; e aconselhando aos mesmos presi
dentes que não sanccionassem essas creações , deixavam salvo o
caso da absoluta necessidade da comarca creada .
14
O ministerio actual manda, porém , que os presidentes não sanc
cionem lei alguma, – lei alguma — creando comarcas.
E ' caracteristica a defeza deste acto do ministerio no Diario
Official de 14 e 17 de Dezembro : consiste na figura de retho
rica pela qual se toma o continente pelo conteudo ; o direito que
tem o ministerio de instruir aos presidentes pelo objecto da
instrucção.
Não se nega que o governo tenha o direito de instruir aos
presidentes; o que se nega é que possa instruil-os contra as leis ,
e dizer -lhes que neguem sancção absolutamente e em todo caso
ás leis provinciaes que cream comarcas , porque o Acto Addicio
nal só os autorisa para negar sancção, quando a creação da co
marca não convier aos interesses da provincia .
Não se nega que o governo imperial possa dizer ao presidente
de provincia o seu pensamento sobre o objecto de alguma lei
provincial, o que se nega é que o governo possa ordenar
aos presidentes de provincia que não sanccionem alguma lei
provincial.
A doutrina que os presidentes de provincia não têm poder pro
prio , mas só delegado em relação aos interesses provinciaes ,
quando o poder que elles tem lhes foi conferido directamente e
só a elles pelo acto addicional, é mais que provocação, é desafio
ás provincias .
E ' insinuar-lhes que os interesses provinciaes estão absoluta
mente dependentes do governo central , dirigidos sem indepen
dencia e sem responsabilidade propria pelos delegados do mesmo
governo central , e por tanto compromettidos .
E ' fomentar a idea de Benjamin Constant de agentes proprios ,
independentes do poder central, e insuspeitos para representar
os interesses locaes e sustental-os em collisão com os interesses
geraes.
Concebe-se, não obstante a opinião do DiarioOfficial, que os
presidentes de provincia , posto que delegados do poder
central, exercem attribuições proprias e independentes , como
15
exercem jurisdicção os chefes de policia , aliás delegados do
governo .
A doutrina do ministerio seria umgermen de conflictos com
as Assembléas Provinciaes, e a prudencia manda prevenil-os e
não provocal-os .
Fica demonstrado que o ministerio derogou uma attribuição
conferida ás Assembléas Provinciaes pelo Acto Addicional, que
tanto importa derogal- a , como negar absolutamente a sancção
ou execução, que é essencial para o exercicio da attribuição .
A summa da centralisação revela-se no aviso do ministerio do
Imperio de 16 de setembro de 1868 , declarando que as Assem
bléas Provinciaes não podem crear o lugar de ajudante do seu
procurador, porque o não permitte a lei de 1º de outubro
de 1828 .
Mas o art . 10 $ 7° do Acto Addicional confere as Assem
bléas Provinciaes a attribuição de legislar sobre a creação e
suppressão dos empregos municipaes. Não será municipal o
emprego de ajudante do procurador da camara ?
Certamente, se a lei de 10 de outubro de 1828 subsiste ainda
na parte incompativel com o Acto Addicional , se as Assembléas
Provinciaes não podem crear outros empregos além dos que
aquella lei já creou , a consequencia é que a attribuição da
Assembléa Provincial não tem objecto .
E porque a lei de 1º de outubro de 1828 , como lei geral,
só pode ser alterada pelo poder geral, é consequencia que ao
poder geral é que vem a competir a creação e suppressão
dos empregos municipaes que o Acto Addicional aliás confe
rio ás Assembléas Provinciaes .
Eis ahi duas attribuições das Assembléas Provinciaes annul
ladas por avisos do ministerio .
Eis ahi duas provas de espirito de reacção contra os poderes
16
locaes , para completar a obra das reacções dos tempos pas
sados .
E mais promette o ministerio pelo Diario Oficial de 14 e 17
de dezembro , alludindo á sancção das Leis Provinciaes pelo
Imperador, como na Belgical
Assim que, em vez de alguma concessão ás reclamações locaes
contra a centralisação que aniquilla as provincias, insinuam -se ,
em artigos officiaes, reformas retrogradas e ainda mais cen
tralisadoras!
Do mesmo espirito reaccionario ostentado pelo ministerio
contra o Acto Addicional, a arca de alliança dos interesses
geraes e provinciaes , o vinculo da integridade do Imperio ,
tambem se mostram penetrados os delegados do ministerio .
Na provincia do Piauhy foram suspensas 13 leis provin
ciaes relativas á interesses locaes , e nenhuma dellas incursa
nos casos de suspensão estabelecida pelo art . 16 do Acto
„Addicional.
Em outras provincias , como a de Minas Geraes , houve tam
bem suspensão de Leis provinciaes, fóra dos casos legaes .
E esses presidentes não foram responsabilisados, confirmando -se
assim a cumplicidade do ministerio nos attentados contra as
provincias , e a cruzada que levantou contra o Acto Addicional .
O ministerio usurpando uma attribuição que só é do Se
nado , como consequencia da sua exclusiva competencia para
verificação dos poderes de seus membros (art . 21 da Constituição ),
annullou por aviso de 21 de julho de 1868 os eleitores especiaes
eleitos em Pernambuco para preencher- se uma vaga no Senado .
Que a verificação dos poderes é uma idéa complexa que com
prehende não só as formalidades da eleição , como tambem os
direitos dos que elegem , e dos que são eleitos , e a sinceridade ou
moralidade da eleição -- é principio seguido em todos os paizes
livres (Dalloz, Droits Politiques 368 e 369), fundado em varias
17
disposições da lei de 1846 arts . 71 e 76 , assim como na juris
prudencia consignada pelas Camaras legislativas em todas as veri
ficações de poderes que têm havido .
Esses eleitores deviam reunir -se em o dia 2 de agosto do
mesmo anno para cumprirem o seu mandato especial e o teriam
cumprido se não fosse o acto do ministerio .
Fundou - se o aviso :
1. ° No art . 112 da lei 377 de 1846 o qual diz assim :
« Dissolvida a Camara dos Deputados considera-se finda a Legislatura e cassa
« dos todos os poderes dos respectivos eleitores , os quaes servirão todavia para os
« trabalhos das mesas parochiaes . Qualquer eleição por elles feita posteriormente
« ao acto da dissolução ficará sem vigor. »
Esta disposição não podia comprehender como eleitores da
legislatura RESPECTIVOS ELEITORES os eleitores especiaes
de Senadores , que , conforme a mesma lei art . 81 , são no
meados para cada vaga : ainda não existia o decreto de 1850
que prorogou os poderes de taes eleitores , e pois não podia a lei
cogitar uma hypothese que não havia em sua data .
Fundou -se tambem o aviso no decreto n . 565 de 1º de julho
de 1850, o qual declara que os eleitores especiaes, uma vez no
meados , são competentes para procederem a todas as eleições de
Senadores que haja de fazer - se até o fim da legislatura, que então
decorra .
Este decreto , como se vê , não alterou o caracter especial desses
eleitores nomeados por occasião de alguma vaga, porquanto se
assim fòra deveriam ser nomeados esses eleitores , como são no
meados os geraes em todas as provincias para cada nova legis
latura .
Este decreto , prevenindo a repetição de eleições, mandou que
uma vez nomeados por occasião de alguma vaga os eleitores espe
ciaes , seus poderes fossem prorogados para todo o tempo da le
gistatura em que a vaga occorresse .
A consequencia dessa disposição é que, dissolvida a legislatura,
3
18
em que a vaga occorreu , não podia ter lugar a prorogação dos
eleitores especiaes, mas nunca que ficasse annullado o mandato
desses eleitores especiaes para a vaga em virtude da qual elles
forão nomeados .
Que tem esses eleitores com a legislatura , se a eleição dos Sena
dores não tem relação com aslegislaturas ? Que tem esses eleitores
com a dissolução , a qual não entende com o Senado que é vitalicio?
Que tem a eleição parcial de Senadores como resultado e mo
ralidade da eleição geral quando são diversos os eleitores , e no
meados uns por provincias e outros por circulos ?
O ministerio não tinha confiança nos eleitores especiaes que
estavam nomeados , e os demittio como demittio os inspectores de
quarteirão para virem outros que concorram para consolidar sua
maioria no Senado .
O que está porém fóra de duvida é que o ministerio praticou
um acto de absolutismo annullando uma eleição que só o Senado
podia annullar ; inutilisando um mandato popular , de cuja legiti
midade só o Senado podia conhecer.
A nossa Constituição em o art . 8º declara expressamente
os casos , em que se suspendem os direitos politicos do cidadão ,
isto é :
1. • Por incapacidade fisica ou moral.
2. • Por sentença condemnatoria à prisão ou degredo emquanto
durarem os seus effeitos .
Conforme a mesma Constituição (art. 178) aquillo que é cons
titucional não pode ser alterado , senão pela forma e tramites que a
mesma Constituição prescreve no art . 174 e seguintes :
« E é - constitucional - o que diz respeito aos direitos politicos
do cidadão . (Citado art . 178.) >>
E são direitos politicos , os que conferem ao cidadão a facul
dade de participar mais ou menos immediatamente do exercicio
ou estabelecimento do poder, e das funcções publicas. (Consoli
19
dação das leis civis , na introducção ; Lafferriere, Serrigny e
outros .)
A lei reaccionaria de 3 de dezembro de 1841 (art. 94. ) infrin
gindo a Constituição estabeleceo , independentemente de reforma
della , outro caso da suspensão de direitos politicos : - a pronuncia
sustentada.
A Constituição exige a condemnação para suspensão dos direitos
politicos ; a lei de 3 de dezembro diz que basta a pronuncia
sustentada .
Assim a lei de 3 de dezembro derogou a Constituição .
Pois bem , o ministerio de 16 de Julho com o poder da dicta
dura, sem reforma da Constituição, e sem lei estabeleceu mais um
caso de suspensão de direitos politicos .
Eis ahi o aviso de 8 de agosto de 1868 :
« Porquanto tornando-se incapaz civilmente o individuofallido, como se de -
« duz do art . 826 do Codigo do Commercio , e só desapparecendo essa incapaci
« dade pelo facto de rehabilitação , art . 897 do mesmo Codigo , é repugnante que
« exerça direitos politicos - quem está privado da capacidade civil -. »
E ' mais um caso de suspensão de direitos politicos este outro
que a dictadura accrescentou : -o caso de fallido não reha
bilitado .
Ora este novo caso de suspensão não se refere a ſallido frau
dulento ou culposo pronunciado ou condemnado, porque para
este fóra desnecessaria a interpretação,visto como a pronuncia e
a condemnação importam a suspensão .
Refere-se ao fallido fraudulento que já cumprio a condemnação
ou ao fallido casual.
No primeiro caso , o aviso ainda é contrario á Constituição,
art . 8º § 2º , que só suspende os direitos politicos , emquanto
duram os effeitos da condemnação .
No segundo caso, a interpetração nem ao menos tem o merito
da moralidade, porque só attinge ao infeliz , que a lei e a huma
nidade protegem .
20
Sobreleva que a premissa do aviso , a incapacidade civil do
fallido , é falsa.
A incapacidade civil do fallido não é absoluta , como o aviso
presupõe e quer dizer essa expressão generica, que só cabe ao
menor e interdicto ; a incapacidade do fallido é relativa : capaz
para todos os actos da vida civil , elle só é incapaz para os
actos definidos do art. 826 do Codigo do Commercio .
Ainda mais, a incapacidade relativa do art . 826 do Codigo do
Commercio não se resolve somente pela rehabilitação,como omes
mo aviso diz : antes da rehabilitação já ella está resolvida, ou pela
concordata (art . 854) , ou pela excussão dos bens (art . 870) .
A incapacidade, que perdura até a rehabilitação , é a do
art . 2º § 4º do Codigo, é a da profissão commercial.
A defeza do ministerio, fundada na autoridade de Dalloz e Vi
vien não procede , porque esses autores referem -se á lei fran
ceza que é diversa da nossa . A lei de 31 de março de 1850 ,
e decreto de 2 de fevereiro de 1852 excluem expressamente
o fallido dos direitos politicos , emquanto não está rehabili
tado.
Outra prova do absolutismo do ministerio é a jurisdicção ,
por elle conferida ao presidente da Relação por avisos de 13
e 28 de outubro , para julgar a suspeição posta ao juiz de di
reito que na corte exerce a vara de orphãos.
A disposição provisoria, acerca da administração da justiça
civil , no art. 18, como consequencia da nova organisação ju
diciaria, que estabeleceu de conformidade com o principio
constitucional das duas instancias, suprimio , e não podia deixar
de suprimir , a jurisdicção de todos os magistrados , que jul
gavam em Relação, tanto em primeira instancia, como em uma
unica com adjuntos .
Uma d'essas jurisdicções exercida - em Relação
unica instancia --com adjuntos - era a do juiz da chancellaria,
em uma
21
que julgava a suspeição, posta a todos os ministros e officia es
da cidade de S. Sebastião .
Pois bem , o ministerio , de propria autoridade, restaurou essa
jurisdicção abolida pela disposição provisoria , ha 35 annos , e
restaurou— , não como ella era pelo art . 36 do regimento da
Relação de 14 de março de 1751, mas — sem adjuntos.
A intervenção dos adjuntos era uma garantia que na orga
nisação antiga supria a segunda instancia e ainda foi mantida
pelo actual regimento da Relação , nas suspeições de dezem
bargadores.
De sorte que, em uma instancia , sem recurso , e sem adjuntos,
são julgadas só e só pelo presidente da Relação as suspeições
postas ao juiz de Direito , que é juiz dos orphãos . Muito póde o
governo deste paiz !
A razão dada, em os sobreditos avisos , é que o art . 4° § 7º
do regulamento de 3 de janeiro de 1833 passou para os pre
sidentes das Relações as attribuições do chanceller .
Porém essa jurisdicção não era do chanceller , mas do juiz da
chancellaria , e posto o chanceller na córte accumulasse as func
ções do juiz da chancellaria , as funcções d'esses dous cargos
eram distinctas , tão distinctas como é a jurisdicção da admi
nistração ; e o citado art . , passando para o presidente da Relação
as funcções do chanceller , não podia passar as do juiz da
chancellaria, derogadas pela regra geral do art . 18 da disposição
provisoria, como jurisdicção unica , e com adjuntos e exercida
na Relação.
Ainda outros casos poderiam ser adduzidos, como são as de
cisões sobre habeas corpus; basta para o proposito do Manifesto
os que vão referidos.
A reacção .
Se o absolutismo se manifestou na theoria e na interpreta
ção do systema representativo, como está demonstrado , foi elle
na pratica desenvolvido por uma reacção espantosa , como nunca
houve nos tempos classicos das reacções .
Não parou esta reacção na completa inversão das posições
officiaes envolvendo em seu furor até os empregos vitalicios,
desceu tambem ao seio da população e por palavras é obras
ostentou -se com o caracter de uma conquista estrangeira .
Por palavras, o pensamento de conquista ficou patente de
varios officios do presidente da Bahia , um dos mais competentes
interpretes da situação , o qual, além dos insultos e menoscabos
barateados á opposição, declarou que os liberaes eram vencidos,
e os conservadores vencedores e com esta distincção official tratou
a uns e a outros conforme as leis da guerra , como inimigos e
amigos.
Se esse presidente, por sua franqueza, fallou por todos os
presidentes, explicando o procedimento de todos, houve um
subdelegado , o de Araçás (na Bahia ), que fallou oficialmente,
por toda a policia do Imperio .
Eis ahi o firman -programma :
« Illm . Sr. - Logo que receber este , passe a avisar o povo do seu quar
« teirão para as eleições de sete de setembro, e para n'esse dia estarem
« promptos e se acharem em Alagoinhas, e Vossa Mercê tambem para res
23
« ponder por elles : advirto- lhe, que faça sciente a todos , que o recrutamento
« só é para aquelles, que votarem contra o governo , então não tem amigo c
« nem empenho para taes gentes , e aquelles que votarem a favor do governo ,
« nada soffrerão e ficam garantidos ; assim avise a todos para que não se
« chamem á ignorancia . Deos guarde . Subdelegacia de Araçás, 26 de agosto
« de 1868. Illm . Sr. Inspector José Diniz Guerra . - Francisco Pereira Dantas,
« subdelegado em exercicio . »
Foi esta a palavra de ordem para todos , e as obras deviam
corresponder-lhe .
AS DEMISSÕES . — As demissões comprehenderão :
Todos os presidentes de provincias ,
Vice-presidentes ,
Chefes de policia ,
Delegados ,
Subdelegados,
Supplentes ,
Inspectores de quarteirão.
Em quasi todas as provincias forão demittidos os
Promotores publicos,
Inspectores de thesourarias provinciaes,
Collectores,
Escrivães de collectorias ,
Procuradores fiscaes provinciaes,
Officiaes de corpos de policia ,
Professores publicos,
Administradores de passeios publicos e cemiterios.
No Piauhy forão tambem demittidos os empregados provin
ciaes, que tinhão titulo vitalicio .
No Ceará até foi demittido um tabellião publico, que é empre
gado vitalicio . ( Veja -se a portaria da demissão transcripta no
Diario do Povo de 7 de outubro de 1868. )
O Vice-Presidente de Minas para não perder tempo com de
missões individuaes , demittio por meio de portarias deste theor :
24
« Ficão demittidas todas as autoridades policiaes do municipio tal, e nomea
« dos os individuos taes e taes .
A suspensão dos officiaes da guarda nacional das provincias
foi em massa .
Em algumas como no Ceará e Piauhy as patentes dos
officiaes da guarda nacional assignadas pelo punho Impe
rial, que já tinhão sido remettidas e ainda não estavam entregues
quando aconteceu a crise, foram embargadas e inutilisadas pelos
novos presidentes, que as recusaram aos nomeados.
Foram tambem cassadas pelos novos presidentes as patentes
dos officiaes da guarda nacional, nomeados pelos antecessores .
Na provincia da Bahia, por acto do presidente de 29 de ontu
bro foi demittido o alferes da guarda nacional Cecidio Marques
por ter sido illegalmente nomeado, e assim inutilisada uma pa
tente vitalicia que o art. 60 da lei de 19 de setembro de 1850
assemelha a dos officiaes do exercito .
Ainda mais , e como a reacção seria vagarosa dependendo de
decretos Imperiaes, por decreto de 1º de agosto de 1868 o minis
terio autorisou ospresidentes de provincias parareintegrarem , quan
do julgassem conveniente, os officiaes da guarda nacional sus
pensos em conformidade do decreto de 4 de agosto de 1865 .
Ora , o decreto de 1865 autorisando a suspensão por tempo in
determinado dos officiaes da guarda nacional, que não se pres
tassem ao serviço da guerra , permittindo que , em tal caso , se lhes
nomeasssem successores, tinha como fundamento uma urgente e
imperiosa necessidade do serviço : tratava - se de,mediante o afas
tamento dos officiaes que fossem remissos, nomear officiaes que
auxiliassem efficazmente o governo no empenho de debellar
a guerra .
E , pois , o recente decreto do 1º de agosto , annullando os re
sultados do anterior e desfazendo quanto em virtude delle se fizera,
é uma medida reaccionaria e ingrata com o fim somente de
espezinhar servidores distinctos que , no periodo mais sombrio da
25
guerra contra o dictador Lopez , haviam concorrido para essas
remessas de contingentes, as quaes dando eloquente testemunho
do patriotismo e vigor do Imperio , tornaram esses officiaes dig
nos, aos olhos do governo e do paiz, dos galardões que lhes forão
distribuidos . Assim o decreto de 1865 mandava suspender
os officiaes refractarios, ao passo que o de 1868 castiga os que
bem serviram !
A urgencia do serviço de guerra justificava pois a delegação
do governo Imperial conferida aos presidentes de provincia pelo
decreto de 1865 ; a reacção politica nunca poderá justificar a de
legação do decreto de 1868.
Os abusos deste instrumento de reacção teem sido deplora
veis ; todos os officiaes que foram remissos no serviço relativo á
guerra teem sido reintegrados , mas todos que prestaram contin
gentes para o exercito , que vindicou a honra nacional , foram todos
dispensados . Ingratidão clamorosa que oblitera toda a sancção
moral , e faz descrer de tudo e de todos !
E na verdade , como não devia causar sensação no Rio Grande
do Sul a demissão do tenente-coronel Joaquim Gomes de Carva
lho e do coronel Demetrio Xavier, o primeiro que foi um dos glo
riosos feridos do Paraguay, o segundo voluntario da patria nos dias
da invasão da provincia : como não pasmaria o povo vendo as de
missões dessas influencias liberaes que no mesmo Rio Grande , no
Rio de Janeiro , na Bahia, e em outras provincias , convocavam e
enviavam milhares de voluntarios para a guerra ?
E cumpre notar que esse decreto tém sido pretexto para sus
pensões que nem estão no caso por elle previsto : en algumas pro
vincias , como no Ceará, não houve officiaes suspensos em virtude
do decreto de 1865 , entretanto foi nessa provincia applicado o
decreto de 1868 e suspensos muitos officiaes da guarda nacional
por serem liberaes.
Assim , esse decreto de 1868 , cujo preambulo falla na necessi
dade de restabelecer a Lei da guarda nacional, foi na sua execu
ção muito além do decreto de 1865 e importou a derogação da
4
26
mesma Lei , sendo que os presidentes de provincia fóra dos casos
do mesmo decreto de 1868 e sem as clausulas e requisitos do
de 1865 suspendem quando lhes apraz os officiaes da guarda na
cional , uzurpando deste modo attribuição conferida pela Lei ao
Governo Supremo .
Como o Governo Imperial delegou aos presidentes a attribuição
de suspender os officiaes superiores da guarda nacional , houve
presidentes, como o da Bahia, que delegaram aos commandantes
superiores a attribuição de suspender os officiaes subalternos, que
lhes não merecessem confiança.
NOMEAÇÕES . — As nomeações se resentem do mesmo espirito que
inspirou as demissões : não se attendeu ao serviço da administração
publica e ás necessidades da policia , mas só e só ao interesse po
litico de vencer ; não se procuraram empregados publicos , mas
instrumentos de reacção : quem fosse mais capaz de perseguir e
exterminar os adversarios, este era o mais apto .
As vinganças e odios privados tão fataes nas localidades , em
vez de arredarem as nomeações , eram motivos dellas, como abo
nos de adhesão e fidelidade dos nomeados .
Nem por outro modo se explicam muitas nomeações entre as
quaes se distingue a do delegado de Taubaté , Costa Guimarães ,
que tantas e tão atrozes perseguições commetteu , que o Governo
Imperial recommendou que o demittissem .
A sancção moral deste acto ficára , porém , inutilisada, porque
uma Portaria do Presidente ante-datada concedeu á pedido a
demissão desse delegado .
E o mal se tornou mais grave, porque a substituição recahio
em pessoa que é instrumento do delegado demittido, o qual dahi
por diante fez tudo , mas sem responsabilidade.
Não houve escrupulo em se nomear criminosos para os car
gos, cujo missão principal é a perseguição dos criminosos ; é que o
crime inquina a nomeação, mas a intrepidez de criminosos era
27
uma necessidade para os commettimentos de uma reacção como
a que se tem praticado .
O Centro Liberal prescinde de citar, mas poderá citar se for
preciso , os nomes dos criminosos , que , na Bahia , Pernambuco ,
Ceará, S. Paulo , Pará e outras provincias forão chamados para
exercerem a autoridade nesta situação destinada a regeneração do
principio da autoridade.
Quatro exemplos bastam .
E ' subdelegado da Freguezia do Poço da Panella (Pernambuco)
José Cesario de Mello , que assassinou barbaramente um seu cu
nhado nos braços da propria irmã , apezar dos rogos della, e do
perigo que correu no meio de repetidos golpes desfechados
sobre o corpo do marido , que ella queria cobrir com o seu .
E' delegado de S. Francisco (Ceará) Carlos Salles, que já respon
deu ao jury por duas mortes .
E ' agente de policia no Pará o celebre Angelin, autor da
carnificina do largo do Carino, no anno de 1835 .
E' subdelegado na Bahia João Rodrigues Rolla, que em officio
de 22 de setembro de 1859 o chefe de policia Figueiredo Rocha
chama criminoso de morte .
Facto caracteristico : foi nomeado delegado de Páo d'Alho
(Pernambuco) o tenente-coronel Maranhão, o mesmo que ha
pouco
mais de anno capitaneou e ordenou o assalto da cadea do
Páo d'Alho, de que resultou a morte de varios soldados , e
a dispersão de todos os presos.
SUSPENSÃO DAS GARANTIAS DA ELEIÇÃO . Entre as garantias
fundamentaes da eleição estabelecidas pela Lei de 19 de agosto
de 1846 consideram-se as seguintes :
1. As qualificações de votantes .
2. A presidencia do juiz de paz mais votado .
3. * A publicidade do tempo e lugar da eleição.
4a A exclusiva competencia do juiz de paz na policia das as
sembléas parochiaes.
28
Pois bem , todas estas garantias forão supprimidas ou illudidas
pelo ministerio e seus delegados.
1. As qualificações dos votantes.
Esta garantia é de todas a mais importante , por ser a base es
sencial da eleição , visto como é ella que diz quaes os cidadãos , que
devem votar e exclue os que não podem votar .
Perde, porém , todo o valor essa garantia, se a qualificação não
tem certesa e depende do governo , que é parte na eleição , e por
consequencia suspeito .
Pois bem, a respeito da qualificação o despotismo dos pre
sidentes de provincia foi inaudito .
Na Bahia, por exemplo, o presidente mandou que em algumas
freguezias a eleição fosse feita pelas qualificações de 1862 , fican
do annulladas as qualificações posteriores, algumas já approvadas
pela camara dos deputados ; mandou por despacho incluir nas
qualificações os individuos que reclamaram por terem sido ex
cluidos ; mandou que o cidadão Jacintho Muniz Barreto , contador
da camaramunicipal, não votasse !!
No Ceará o presidente tambem annullou as qualificações de
1863 das freguezias da Granja , Aporé e Saboeiro, approvadas
pela camara dos deputados !
2. A garantia da presidencia dos juizes de paz mais votados
foi illudida por declaração de infinitas incompatibilidades,
adrede inventadas para excluir os liberaes vencidos e substituil-os
pelo conservadores vencedores .
Ainda mais, o presidente da Bahia demittio fundado em at
testados dos subdelegados osjuizes de paz mais votados , como foi o
de Saubára, sob o pretexto de mudança de domicilio ; e sem ao
menos ouvir os demittidos !
Tambem foi demittido, de conformidade com o aviso de 8 de
agosto de 1868 do ministerio da justiça , por ter fallido o cida
dão Thomaz de Aquino Jurema, juiz de paz mais votado !
Assim a presidencia dos juizes de paz mais votados, que
a lei por principio de ordem publica e garantia da eleição man
29
teve , não obstante os impedimentos , que aliás produzem a incapa
cidade para o exercicio de todos os outros empregos, essa presi
dencia foi excluida em quasi toda a parte, ou por incompatibili
dades futeis , ou pelo pretexto de mudança de domicilio ,
ou por violencia , de que em lugar proprio adiante
tratará .
3. A publicidade do tempo e lugar da eleição.
Houve presidentes , como v . g. o da Bahia, que por acto seu e
sem intelligencia com o prelado mudou a séde de parochias
nas vesperas da eleição municipal, mudando por consequencia , e
sem o povo saber, o lugar designado nos editaes do juiz de paz
para as assembléas parochiaes . Assim nas freguezias de Assú da
Torre, Aporá , Alagoinhas.
E note-se que o acto de transferencia de Alagoinhas para
Igreja Nova , distante duas leguas, foi no dia 5 de setembro , ante
vespra da eleição .
Como podiami os votantes convocados para Alagoinhas ir á
Igreja Nova ? Não podiam , porque não sabiam , pois isto mesmo é
que convinha.
4. A exclusiva competencia do juiz de paz sobre a policia das
assembléas parochiaes .
Eis ahi o art . 47 , § 1º da Lei de 19 de Setembro de 1846 que
estabelece essa competencia :
« Compete ao presidente da meså parochial :
« § 1.• Regular a policia da assembléa parochial chamando á
ordem os que della se desviarem , impondo silencio aos expecta
dores , fazendo sahir os que se não aquietarem , e os que in
juriarem os membros da mesa ou a qualquer dos votantes, man
dando fazer neste caso auto de desobediencia e remettendo - o á
autoridade competente . No caso porém de offensa physica contra
qualquer dos mesarios ou votantes, poderá o presidente prender o
offensor, remettendo - o ao juiz competente para o ulterior proce
dimento . >>
E' a mesma attribuição que compete ás mesas das camaras
30
legislativas, ao presidente do jury, attribuição que exercem in
dependente da policia e contra a policia .
Mas o ministerio da justiça , por aviso de 7 de setembro
de 1868 , DECIDIO :
« 1. ° Que não ha preceito algum da lei , que mande por á dis
« posição do presidente da mesa qualquer força como medida
<< preventiva . >>
Isto é , o presidente ha de fazer sahir os expectadores,
que se não aquietarem , ou injuriarem a mesa ou votantes ,
ha de prender os criminosos, mas não tem força a sua disposição !
Terá força, mas não como medida preventiva ! Assim que , só
depois dos faclos perpetrados, depois de evadidos os criminosos ,
é que o presidente da mesa pode requisitar força ! Manda -se
força, como medida preventiva, para qualquer theatro e reunião
popular, abi onde não ha senão divertimento , ou curiosidade ;
não deve haver porém força, como medida preventiva, nas as
sembléas parochiaes , em que o antagonismo politico póde travar
conflictos a cada momento !
Até hoje sempre se tem reconhecido que a attribuição de fa
zer a policia do lugar de uma reunião importa, como meio indis
pensavel para o fim , o direito de requisitar a força publica .
E essa requisição o bom senso ensina que pode ser antes dos
factos e para prevenil-os, porque policia quer dizer prevenção .
Quem sabe a occasião de requisitar a força é a autoridade , que
estando presente pode apreciar a tendencia dos animos , e a occa
sião propria ; ella que tem a responsabilidade da omissão é o
juiz competente da necessidade .
Diz mais o aviso :
« Que nem a liberdade do voto permitte semelhante apparato. »
Aqui parece haver zelo pharizaico pela liberdade do voto .
Não implica com a liberbade do voto, que a policia tenha
força à sua disposição á porta da igreja, para impor aos cidadãos,
31
repugna porém o apparato da força à disposição do eleito do
povo !
Quantas vezes essa força não é preciza para valer ao povo con
tra os capangas da policia , e os soldados, que disfarçados, se in
tromettem na assembléa popular ?
Ainda mais : o chefe de policia da çörte explicando as ordens ,
que tinha do Governo, confessou que estava autorisada a policia
para penetrar nas igrejas, quando houvesse evidente perturbação da
ordem publica , ou no caso de se commetterem crimes contra
a segurança individual .
Assim é bem evidente que a policia da assembléa parochial
foi uzurpada ao juiz de paz , e ficou pertencendo á policia .
Com effeito, até haver perturbação da ordem , ou até haver
crime não pode o juiz de paz requisitar a força como medida
preventiva
Mas, havendo perturbação da ordem , ou havendo crime,
penetra a policia na igreja e faz ella a policia, que aliás nesses
mesmos casos só compete ao juiz de paz .
Dahi o pretexto para a policia recusar a força requisitada,
por entender que é requisitada antes e fóra dos casos que o mi
nistro manda .
Dahi o pretexto para a policia penetrar na igreja, sup
pondo que a ordem está perturbada ou algum crime se
commette .
A verdade é , que dependendo a prestação da força da autori
dade policial, que é parte no litigio da eleição , nem o juiz de
paz pode contar com essa força que não vira ou virá tarde , nem
a parcialidade opposta å policia pode confiar na protecção da
força, que está á disposição da mesma policia .
E para que fazer a autoridade policial intermediaria entre a
força publica, e o presidente da mesa parochial ? Não é isto des
truir o espirito e a disposição do art . 47 da Lei ?
A policia é que commanda a força publica ?
Não, ella tem seus chefes .
32
A policia tem alguma inspecção ou jurisdicção na assembléa
parochial ? Não .
Para que esse intermediario suspeito , excentrico , illegal , que
não inspira confiança,mas sim terror ?
Inteirado da mesma doutrina do ministerio , o presidente da
Bahia mandou que o delegado de policia fósse a uma mesa
parochial fiscalisar a contagem das cedulas e as conferisse com a
votação, escrevendo-se disto uma acta especial !
OSINTIMIDAÇÃO. - Outr'ora a intimidação guardava-se para
dias da eleição , quando os votantes se encaminhavam para as urnas ;
agora o partido conservador começou a obra da intimidação muilo
mais cedo ; quiz vencer préviamente , lornando pr violencias ante
cipadas impossivel no dia ca eleição o concurso da população aterrada.
O plano era eſlicaz ; as violencias soffridas, por muitos , nas ves
pcras da eleição e por causa da cleição , eram a certeza das violencias
que esperavam a todos ao pé da urna . Quem concorreria ?
Prescinde o Centro liberal de assignalar as correrias nocturnas , á
semelhança da Mashorca , praticadas por bandos de criminosos per
correndo as ruas e estradas , apedrejando as casas dos vencidos, insul
tando-os e ameaçando-os de morte , alerrando as familias e a todos
causando alarma .
Bastará citar alguns lugares onde esses factos se deram .
0 Icó (Ceará) , onde foi apedrejada a casa do ex-deputado
Barão do Crato , e quebradas todas as vidraças.
O Assere (Ceará) , onde os famulos e vaqueiros do vice -presi
dente. Gonçalo, seguidos de outros , foram as casas das autoridades
demiltidas , insultaram a esses cidadãos e a suas familias espa voridas.
A cidade de Campos, onde esses bandos furiosos insultavam aos
liberaes que encontravam .
O Saboeiro (Ceara ) , onde a casa do proprietario Ferrer foi cercada
por uma multidão frenetica , que pretendeu forçar as portas a ma
chado, para assassinar a esse pacifico cidadão , desistindo de tal in
tento , porque um conservador, vizinho da viclima , affirmou que elle
não estava em casa .
A provincia das Alagðas,onde em algumas povoações, com pro
33
fanação da religião do Estado, esses bandos simulavam com mané
quins o enterro dos homens mais distinctos do partido adverso.
Prescinde o Centro liberal de assignatar os processos politicos do
Pará , Bahia e S. Paulo , e citará , como exemplo, o monstruoso
processo do Dr. Moreira de Barros (Taubaté , S. Paulo ) , cujas nulli
dades foram reconhecidas pelo tribunal da Relação, que por habeas
corpus salvou a esse distincio brasileiro , ex -presidente de provincia ,
e juiz de direito , de uma prisão eminente e que era o meio de arredar ou
annullar a sua reconhecida influencia no lugar .
Prescinde o Centro liberal de recordar a ostentação de força mani
festada pela remessa de destacamentos, armas é munições para o
interior de todas as provincias, augmento da guarnição das capitaes, etc.
Prescinde ainda o Centro liberal de assignalar o desterro forçado á
que foram obrigados os liberaes de muitos lugares para não serem vicli
mas da perseguição que os ameaçava ; assim no Icó, Saboeiro , Ipù e
varios outros lugares da provincia do Ceará ; assim em Geremoabo
( Bahia ) figurando ahi , entre os que fugiram para salvar-se , o vigario da
freguezia ; assim no Pombal ( Bahia ) de onde fugio o cidadão Antonio de
Souza Amaral, fazendeiro , eleitor , chefe de numerosa familia.
No Icó , os juizes de direito e municipal foram intimados, sob commi
nação de morte, para deixarem as suas residencias .
A perseguição neste sentido foi tão feroz no Ceará que della mesma
nasceu º recurso do SALVO-CONDUCTO , a que se soccorreram os
liberaes vindo á capital peilil-os ao presidente e chefe de policia , que
tremendo da sua propria obra os concediam .
Eis ahi como se exprime uma pessoa fidedigna, a respeito desses
SALVO -CONDUCTOS .
« O que vale no meio de tanta perseguição é que as victimas sempre encontram
« na capital , ás vezes entre os negociantes conservadores, de quem são freguezes,
« algum protector, que os soccorre e alcançam do chefe de policia ou do presidente
« SALVO-CONDUCTO para que tal e tal individuo do centro não seja mais per
« seguido e que o deixem viver. »
« Não é raro vêr-se homens do centro virem , ou mandarem aqui solicitar esses
» SALVO-CONDUCTOS para viverem tranquillos . O tenente-coronel Vicente Torres
« ( do Ipú) aqui veio , fallou ao presidente , ao chefe de policia , levou SALVO -CON
« DUCTO e ordem para serem soltos seus trabalhadores e não foi lá obedecido .
« Mandou o presidente novo SALVO -CONDUCTO e posto obedecessem a prin
5
34
a cipio , todavia ainda continúa o mesmo tenente - coronel a ser apoquentado, cercan
a do-se repetidas vezes a sua fazenda rural para afugentar os trabalhadores .
O salvo -conducto é amostra da generosidade do presidente e chefe
de policia , mas é triste documento da fraqueza da autoridade publi
ca , da ausencia da sociedade civil , do estado violento que exige esse
meio de salvação .
Com effeito,
Se a autoridade pede é porque não póde.
Não ha sociedade civil onde impera a força privada Ubi vis valet,
diz Bacon .
O salvo -conducto não é necessario senão porque não vale o habeas
corpus e não ha garantias legaes!
Os meios principaes de intimidação foram : – a prisão arbitraria ; 0
recrutamento ; e a designação para o serviço da guerra , — cada qual
desses meios por si só efficaz para aterrar a população pacifica .
S 1. A prisão arbitraria . – Não é do numero das prisões arbi
trarias que o Centro liberal se occupará, porque foram ellas sem
numero e infinitas, praticadas pelos diversos pretextos — de recruta
mento , designação para o serviço da guerra , ou indicio de crimes .
O que convem assignalar para caracterisar esta época são as prisões
notaveis , ou pela qualidade das pessoas que foram victimas dessa vio
lencia , ou pelas circumstancias de atrocidade , que desmentem a nossa
civilisação e liberdade .
Com effeito, nas vesperas da eleição , foram presos juizes de paz ,
tores , supplentes de eleitores , officiaes superiores da guarda nacional ,
fazendeiros, e outros muitos cidadãos importantes.
Eis ahi alguns exemplos :
A prisão para recruta do juiz de paz de Itambé (Pernambuco) , An
tonio Rufino Monteiro, de 46 annos de idade, collector das rendas pro
vinciaes , ex-subdelegado , e proprietario .
Este facto está confirmado pelo presidente da provincia , em ofticio de
12 de setembro de 1868 ( Diario Official de 22 de setembro)
paz, elei
Convem notar que este cidadão, posto obtivesse ordem de habeas
corpus, foi conduzido algemado e a pé para a cadèa de Goianna ,
distante algumas legoas.
E o que soffreram o delegado, o promotor publico , e o subdelegado ,
que commetteram tão horroroso attentado contra a liberdade do cidadão
na antevespera da eleição , que desprezaram o habeas-corpus, a maior
garantia que a lei concede ao brasileiro ?
O delegado e o promotor publico foram conservados ; apenas foi de
mittido o subdelegado, que aliás era 3° supplente , mas não houve para
elle processo de responsabilidade.
Entretanto a policia logrou o seu intento , arredou da eleição o juiz
de paz , e a influencia liberal .
A prisão do tenente -coronel Alexandrino Ferreira de Almeida Alcan
tara , em Itamaracá (Pernambuco) , influencia liberal, que na vespera
da eleição, apesar de ser tenente-coronel , foi mettido em uma escolta
e conduzido a pé , a pé, de Iguarassú para a cadêa de Goianna .
No sobredito oflicio , o presidente da provincia tambem confirma
este facto, e diz que esperava informações para responsabilisar os seus
autores.
Mas a policia , livre dessa influencia adversa, venceu a eleição, sem
obstaculos.
A prisão dos eleitores, supplentes de eleitores , e votantes de S. Mi
guel dos Milagres (Alagoas), os quaes amarrados com cordas e cipós
foram enviados para districtos e comarcas differentes.
E ' o presidente da provincia que confirma este facto, no officio reim
presso no Diario do Povo de 23 de janeiro do corrente anno.
Os eleitores presos foram :
José Ignacio de Lima , Antonio Francisco Souza Costa, João de Deos
Soares, Manoel Chaves, José Lopes de Souza, José do Rego, Pedro
Antonio da Silva , Joaquim Moreira de Souza , Manoel Joaquim do
Nascimento , Manoel Bernardo de Souza, José Couto, Domingos dos
Santos Corrêa , Alexandre Alves da Cruz, João Barbosa , Manoel Leite
da Silva , Francisco Bento Pereira , Marcianno Leal dos Santos.
A prisão de Pedro José de Souza Costa , fazendeiro abastado , de
Lorena (S. Paulo) , eleilor de parochia, guarda nacional da reserva , por
se ter recusado a levar um preto fugido á Pindamonhangaba. O do
36
cumento deste facto está inserto no Diario do Povo de 9 de ou
tubro .
A prisão (em Taubaté) do liberal Polycarpo de Abreu Fialho , de
64 annos de idade, prisão arbitraria e sem molivo declarado . Os docu
mentos d'este facto tambem constam do Diario do Povo de 30 de
outubro .
A prisão do alferes Luiz Ferreira dos Santos Rocha, ex-subdelegado
do districto de Malhada Vermelha (Bahia), algemado e meltido en
um tronco .
A prisão do cidadão Firmino Ribeiro Mendes (Barbacena), casado,
com filhos, fazendeiro, possuindo mais de trezentos contos, juiz de paz :
a prisão foi feita pelo recrutador Hermogenes , que o amarrou com um
cabresto e o trouxe a pé por espaço de uma legoa .
A prisão do fazendeiro Sebastião Teixeira de Siqueira , para o serviço
da guerra !
A prisão do ex -subdelegado do Bom Conselho (Babia) , Manoel
Soares do Nascimento , realisada na sua fazenda das Contendas, onde
foi amarrado, esbofeteado, e mellido no tronco .
A perseguição contra este cidadão , infeliz brasileiro, estendeu-se á
Todos os seus filhos ; seu filho José Luiz Soares foi preso com elle ,
seu filho Ezequiel Profeta recrutado para o exercito, seu filho Cy
rillo Soares , de menor idade , remettido para a marinha.
A prisão de José da Silva Amaral , eleitor do Pombal (Bahia) ,
negociante , o qual depois de amarrado e algemado, tendo corrido
em exposição as ruas da povoação , foi remettido como recruta paraa capital.
A prisão do ex-escrivão do juiz de paz do Bom Conselho (Bahia ) ,
João Luiz dos Santos Baptista, casado, e com filhos, mettido por 5
dias em um tronco e ao depois remeltido para a capital como recruta .
A prisão de José Pereira de Souza Carvalho (Sant'Anna, Ceará) ,
casado, tendo seis filhos, ex -promotor interino da comarca , sollici
tador de causas , eleitor de parochia ; depois de preso , espaldeirado
e algemado, foi levado em procissão pelas ruas da povoação, e re
mettido a pé, no meio de uma escolla , para a cadèa de Sobral , e de
lá , depois de alguns dias , devolvido para Sant'Anna , jungido a um
escravo !
37
A do tenente-coronel e do major da guarda nacional de Sant'Anna
(Ceará ) , assim como de diversos cidadãos proprietarios d'esse lugar,
prisão effectuada pelo alferes Alencar , primo dodo ministro da
justiça e com o mesmo nome d'elle : esses cidadãos foram remetti
dos da cadea de Sant'Anna e d'ahi conduzidos á pé para a cadea
de Sobral como mais segura !
O Centro Liberal não pode deixar de levantar perante o paiz ,
e perante o mundo civilisado , um brado de indignação contra as
prisões arbitrarias , aggravadas ainda mais pela atrocidade , e igno
minia dos troncos , das algemas , das longas viagens a pé , das cordas
e cipós e da cruz !
Dos troncos, das algemas, e das longas viagens a pé bastam,
para exemplos, essas prisões que já foram referidas e nas quaes não
faltaram taes circumstancias.
E para que mais provas ?
Algemas foram vistas nos pulsos de um brasileiro , guarda nacio
nal , pela Princesa Imperial e seu Augusto Esposo , que estremece
ceram de horror.
Todos sabem deste facto occorrido na capella da Apparecida em
Guarantinguetá .
As cordas e cipós constam do officio do presidente das Alagoas,
inserlo no Diario do Povo , de 23 de janeiro .
Eis-ahi :
« Vê-se todavia dos interrogatorios feitos a Oliveira , Francisco Salgueiro, e
« tenente Antonio de Souza Costa que foram presos e amarrados até com
« cordas e cipós - eleitores, supplentes e votantes . »
A violencia da - cruz, - com que foi aggravada a prisão de alguns
cidadãos volantes de S. Miguel dos Milagres, nas Alagoas, está con
firmada, posto que com differença de circumstancias, no relatorio do
chefe de policia d'essa provincia , transcripto no Diario do Povo de
23 de janeiro .
A imprensa da opposição havia denunciado que em S. Miguel
dos Milagres nas Alagoas fôra levantada no quartel do destacamento
cruz em que eram amarrados e pendurados os liberacs presos .
38
Pois bem , o relatorio do chefe de policia explica o facto como
foi, e ver -se -la que a differença está em que a cruz não era em pé,
mas deitada no chão.
Eis-ahi :
« Do documento n . 5 verá V. S. que elles dizem terem sido deitados e amar
« rados em dous páos, á que estavam atados pelos pés e mãos, tendo outros
a dous páos atravessados nos peitos e na bocca !! - »
Será menos azialica a cruz deitada , nunca será , porém, um meio
de prisão em um paiz civilisado, em um paiz livre.
S 2. O recrutamento . - O abuso deste grande meio de intimi
dação chegou até o escandalo.
Com effeito não houve isenção legal , que fosse respeitada , sendo
outrosim recusada ou illudida a substituição que a lei admitte para
harmonisar o serviço da guerra com serviço das outras industrias e
profissões necessarias á vida do paiz .
Casados com filhos e sem filhos,
· Viuvos com filhos, ou sem filhos,
Velhos e invalidos,
Juizes de paz e eleitores,
Fazendeiros e commerciantes,
Empregados publicos,
Todos foram victimas d'esse meio heroico, de que dependia a
restauração conservadora .
Rejeitadas as isenções legaes , não havia mais liberdade possi
vel ; tudo ficava reduzido a este dilemma terrivel :
Ou votante do governo,
Ou soldado do governo .
São infinitas e não carecem de ser referidas, por notorias, as
violações da isenção legal do recrutamento .
Para que mais exemplos , que os seguintes :
O recrutamento do juiz de paz de Itambé ( Pernambuco ), com
46 annos de idade , collector de rendas provinciaes e proprietario,
39
De um vereador da camara municipal de Nova Almeida , no Es
pirito Santo ,
Dos eleitores de S. Miguel dos Milagres ( Alagoas ) ,
Do eleitor e negociante José da Silva Amaral ( Bahia ) ,
De Raymundo Nonato de Souza, casado , com filhos e netos
( Ceara ) ,
De Bernardo Ribeiro Pinto , fazendeiro ( Pará ) ?
Será ainda preciso mencionar aqui os factos muito notorios do
recrutamento dos compositores e typographos da imprensa libera ]
de Taubaté ( S. Paulo ) , de S. Amaro e Cachoeira (Bahia ) e do
Para ?
Não ha melhor prova do abuso e escandalo do recrutamento , do
que o seu reconhecimento pelos presidentes de provincia e ministros,
mandando voltar os recrutas que , atravez de todas as difficuldades,
foram admittidos a provar isençõe s legaes .
A verdade porém é, que os l'ecrutadores nada soffreram pelos
attentados que commetteram contra a liberdado individual .
Entretanto os cidadãos abandonaram seus lares, suas familias, seu
patrimonio, sua profissão, caminharam leguas e leguas a pé , algema
dos e amarrados, ou soffreram os incommodos de uma viagem por
mar ! E qual a reparação ? Nenhuma .
Em todo o caso a policia recrutando, conseguio o seu intento ,
arredou os que podiam ser-lhe adversos, ou punio os que lhe foram
adversos .
$ 3.• A designação. - A designação para o serviço de guerra
é o mesmo recrutamento com outro nome, é mais terrivel que o
recrutamento .
Com effeito, o recrutamento pode evitar-se , homisiando-se o ci
dadão, mas a designação não se evita senão incorrendo -se na de
serção.
Quando o cidadão tem as isençõs legaes do recrutamenlo ,' re
corre -se á designação .
A designação é uma fraude, uma emboscada : porquanto a qua
lificação da guarda nacional não se faz mais como a lei manda ,
40
não ha formalidades, prasos e recursos , sendo que o cidadão sabe .
que é guarda nacional , quando é designado e sem remedio da noite
para o dia ha de marchar, ou embarcar. Que horror !
Entretanto , por uma interpretação judaica e absurda , suspenıle-se
durante a eleição o recrutamento , mas não se suspende a designação .
Certo é uma tortura da lei , uma injuria ao legislador , o consi
derar-se permittido pela lei um meio ainda mais incompativel com
a liberdade do voto do que o meio que a mesma lei prohibio.
Que importa ao governo a suspensão do recrutamento, se elle
tem a sua disposição a designação , – a designação que não tem as
isenções do recrutamento ; que se faz como o recrutamento ; que
como a sombra acompanhia ao cidadão por toda a parte ; espera - o
junto da urna, eo arrebata de junto da urna ?
E quem ha ahi que, sem aterrar-se, soporte a idéa de abandonar
bruscamente e sem providencia a familia , a profissão , o patri
monio ?
Esta é a synthese dos factos da designação, os factos são todos
os dias registrados e discutidos pela imprensa ; seria inutil reſe
ril-os, porque estão na consciencia publica , e por infinitos e minu
ciosos não cabem no proposito deste trabalho,
e
S 4. ° ' Os cercos e varejos das casas e fazendas, e outras
violencias. - recrutamento e a designação para o serviço da guerra,
apezar dos seus proprios abusos, seriam soportaveis pelo objeclo que
lhes serve de pretexto , se não fossem as violencias atrozes
asiaticas que os acompanham :
A entrada de noite na casa do cidadão ,
A violação dos aposentos mais reconditos da familia ,
Os attentados ao pudor,
A morte e ferimentos dos infelizes liberaes destinados ao re
crulamento e á designação .
O espancamento dos famulos, parentes e amigos, e a surra dos
escravos.
O Centro Liberal sente a necessidade de recontar alguns desses
factos horrorosos, que são a injuria da nossa civilisação é dignidade
de paiz livre , factos inverosimeis no anno da graça de 1869.
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Prescinde o Centro Liberal de muilos factos, denunciados pela
imprensa, e apenas desmentidos pela negativa dos responsaveis da si
tuação , que pedem provas , como se fossem possiveis provas ondeessas
violencias são possiveis ; como se houvesse testemunhas, que quizessem
tomar o lugar das victimas , e participar do mesmo furor dos con
quistadores ! Desde que a imprensa refere os factos, indicando o tempo
e o lugar, o algoz e a victima , e as circumstancias relativas , o governo,
que respeila a opinião tem v dever de inquiril-os e averigual-os, por pes
soas insuspeitas ; não se defende com a negativa do chefe de policia , que
muitas vezes autor da idéa , tremeu ao depois da propria obra , vendo a
sua execução e conseqnencias .
O Centro Liberal não pode deixar de inserir neste manifesto uma carta
do senador Pompeo, relativa aos factos do Ceará .
Eis ahi :
Horresco referens :
« Ilim . e Exm . Sr. conselheiro.- Fortaleza ,4 de Dezembro de 1868.
- estrondo da derrubada é tão forte por todos os angulus do Imperio ,
que talvez V. Ex . não tenha prestado allenção ao que vai pelo Ceará .
« Confesso - lhe que , ha trinta annos , acompanho e testemunho os ne
gocios politicos desta provincia , e pelo estudo de sua historia , á que me
tenho dedicado, conheço perfeitamente o que se passou nos movimentos
de 1817 , 22 , 24 e 31 ; nada porém é comparavel com as scenas que o
governo de julho mandou representar !
« Não fallo nesse frenesi de demissões de policia , de officiaes da guarda
nacional , de empregados , que se conlam por muitas centenas ; não fallo
nessas dezenas de suspensões de officiaes superiores da guarda nacional,
de juizes municipaes. Tudo isso é pouco, á vista do furor de prender,
cspancar, matar e devastar, de que se tomaram os agentes do governo
por toda a parle .
« Ah ! Conselheiro, é preciso ver , é preciso assistir á essas scenas de
consternação e dôr porque passa esta porção desherdada de subditos do
Sr. D. Pedro II , para acreditar no facto e reconhecer-se que a sorte dos
subdilos da Turquia Asialica é mil vezes preferivel á de um brasileiro
liberal , na siluação actual .
« Do agosto , depois que chegou a noticia da subida dos
conservadores, tem se dado assassinatos conhecidos , sendo destes 8
6
42
pelas escoltas, ou soldados de policia , em diligencias, porquo quem
tem sua intriga, aproveita o tempo, offerece- se á qnalquer autori
dade para recrutar, pede força , vai á casa do scu inimigo , e o assassina !
Sabe V. Ex . se em algum paiz civilisado , se pratica isso ? Não quero
cansar sua attenção com a narração dos sofrimentos do infeliz povo
do
Ceará, mas citarci somente alguns factos, por exemplo, do que por aqui
se passa .
« Em Sant'Anna o alferes de policia José de Alencar, primo do minis
tro deste nome , que d'alli foi mandado para conquistar a eleição passada
de setembro, entre muitas das suas, mandou prender para recruta um
cidadão importante do lugar, casado , carregado de filhos.
« A escolta cerca e penetra a casa , em occasião que a mulher dava á
luz ; o marido, para poupar sobresalto á mesma, (.fferece-se logo á prizão :
mas os soldados varejam toda a casa , vão á cama da mulher, levantam
lhe os lençóes para ver (diziam ), se algum homem recrutavel se escondia
alli ; a infeliz horrorisa-se , grita, em nome do pudor, que lhe poupem essa
vergonha, mas os vandalos vão por diante ; clla enlouquece, e dias de
pois expira , deixando uns poucos de fillos menores ! No Paraguay se faz
peior, Sr. Conselheiro ?
« Ah ! E estes que assim soffrem são brasileiros, subdilos de um
Monarcha, christão, liberal e liunano !
« Em Campo-Grande, o subdelegado cérca a fazenda de café do Te
nenle -Coronel Vicente Torres, para prendel-o, sem motivo : estava elle
nesla capital . Prende seus trabalhadores, surra suas escravas, vareja
lola a casa , ameaça a respcilavel senhora de bôlos , com uma palmaloria
em punho !
« No Saboeiro, um primo e cunhado do Vice-Presidente , Gonçalo Bap
tista Vieira , manda uma escolla prender o capitão Luiz Antonio Arraes
na villa , e outra á sua fazenda , onde estava sua mulher e familia . Ahi
esfaqueam um seu aggregado, prendem o espancam um filho menor ;
c porque a mãe corre, á acudil -o, espancão-na e ella aborta !
« Em Santa-Quiteria , o subdelegado e delegado assentaram de des
terrar do termo una familia muito trabalhadora , e que mais planta
algodão, querem tomar-lhe as terras. Prenderam os trabalhadores, os
filhos , genros e outros se esconderam . Para apanharem a lodos, um dia o
subdelegado lançou fogo em um roçal de algodão, contando que fossem
43
apagar, correram alguns da familia ao fogo, e ahi o subdelegado que
estava de cspreila , agarra-os . O pobre velho veio á capital pedir pro
tecção ao presidente , que lhe désse ao menos tempo de apanhar sua
safra, para relirar -se ; voltou cheio de esperanças ; apenas lá chegou , a
policia cabio -lhe em cima, elle vio-se obrigado a abandonar suas terras .
« Agora , nestes oito dias ,, no Cascavel , perto da capital , o juiz muni
cipal , que é recrutador , mandou que um individuo fosse prender um ou
dous individuos para substituir outro , por quem pedia .
« Leva a escolta , cérca alta noite a casa de um velho, que tem dous
filhos, bate, abre-se a porta , os rapazes tentam fugir, atiram , malam um ,
co outro cahe ferido.
« Em Queixeramombim , um pobre velho, vaqueiro do Dr. Vicente
Alves de Paula Pessoa, é malvisto de um sujeito, este offerece -so ser
recrulador para prender gente , vai com a escolta á casa do velho. Esto
corre de casa com o filho, o malvado alcança -o, fere -o, o velho cahe
morto .
« Em Sobral , agora mesmo, o delegado manda uma escolta á um silio
perto, onde o clono da casa celebrava uma festa campestro pelo bapti
sado de um filho , os soldados cahem de xofre, prendendo aqui, acolá ,
e um vaqueiro fogo a cavallo , os soldados deilam - o por terra, e clle ainda
corre a pé, fazem-lhe fogo e cahe morto !
« Perdoe abusar da sua allenção . Ah ! conselheiro, peça ao Impe
rador amnistia para este pobre povo !
« Aqui ninguem sc anima a disputar ou aconselhar a outrem que dis
pute a cleição . Seria com sacrificio certo para uma cousa incerta .
« Só para brigar : nós não queremos brigar . Amigo , collega e obri
gado— Thomaz Pompeo de Souza Brasil. »
Além d'esses factos, occorridos no Ceará e referidos com tanta
eloquencia pelo senador Pompeo, o Centro Liberal vai adduzir outros,
constantes de informações fidcdignas.
Na provincia das Alagoas , no dia 7 de selembro, ás 10 horas
da noite , foi cercado o engenho – Cana-Brava – do coronel Vicɔnle
de Paula Carvalho, commandante superior de Anadia, pelo delegado
José do Rego c subdelegado Francisco Firmino Jatobá . O fim d'esse
varejo, como assoalhavam os execulores, era evitar que esse cidadão
1
44
liberal e influente concorresse á eleição no dia seguinto ! O fim foi
conseguido.
Na provincia da Parahyba, em 24 de setembro, em Cajazeiras,
foi cercada a casa do advogado João José Rolim do Alencar, cello
preso como designado para o serviço de guerra !
Na provincia de S. Paulo foi cercada e varejada de noile ,
por ordem do subdelegado do Patrocinio , a casa de João Pereira
de Moraes Paiva , e por uma escolta de 20 praças a casa do liberal
Miguel Ramos, afim de serem recrutados dous filhos scus , lavradores
honestos. Esses moços opposeram-se ao despotismo da policia, bem
manifesto , pela entrada violenta de noile na casa do cidadão.
Custou -lhes caro : um dos filhos de Ramos cahio morto com um
tiro de bacamarte, o outro foi atrozmente mutilado, cum soldado ficou
ferido !!!
O recrutador João Ferreira da Silva, em Pinheiros, cercou e varejou
de noile lodas as casas dos aggregados do fazendeiro liberal Joaquim
Soares Lyrio do Valle , e ahi , porque os oulros ſugiram , só conseguio
recrutar a um pobre homem , casado e com filhos, o qual , conduzido aló
a freguezia, foi então solto , com a promessa de votar na chapa do go
verno !
Outra escolta do mesmo recrutador percorreu o bairro da Parahyba,
varejou casas e recrutou os seguintes cidadãos :
Manoel Ribeiro da Silva , de 48 annos de idade , casado com Rila
Alves Maria , tendo cinco filhos,Antonio Alves de Araujo, de 42 annos de idade , casado com Rosa
Fernandes Vianna , tendo cinco filhos,
Manoel Cyriaco Tristão , 38 annos de idade , casado com Marianna
de tal , tendo tres filhos menores ,
José Alves Netto , 28 annos de idade , casado com Silveria Marinho
Rangel
A camara municipal de Campo Largo, em representação dirigida
ao presidente da provincia , expõe os factos seguintes que horrorisam :
« Eram 3. horas da madrugada quando apresentou-se n’esta villa uma gran
« de escolta, commandada por um tenente , em nome do delegado de Sorocaba,
a essa mesma hora - foi varejada a casa do respeitavel vigario , o re
45
casas
« verendo padre Raphael Gomes da Silva , a titulo de recrutar-se um unico
« creado que tem á scu serviço, guarda racional da reserva .
« Fôram mais varejadas as de qustro cidadãos e com tal desa
<< cato que em casa de Manoel Estevão de Oliveira , chefe de uma familia
« honesta e honrada, levaram a ousadia a apalpar o collo de sua mulher e
« descobrir suas filhas, já moças , para verificarem se eram homens .
« Em casa da viuva pobre e honesta Maria Penteado , cujo filho mais
« velho marchou ha tempo para o Paraguay , restando-lhe apenas o ultimo
« ainda de menor idade e seu unico amparo e de sua filha já moça, sem res
« peitarem e condoerem-se das lagrimas d'essa infeliz mãe , bateram em sua
« presença na face da filha, gracejando ! »
Na provincia da Bahia foi cercada o varejada de noite a casa
do c'dadão Bencdicto de Jezus Velho , pae de familia, residente na
freguczia do Aporá , termo de Inhambupo. Depois de muitos excessus ,
a patrulha disparou dous tiros sobre o menor Pedro de Jezus que
milagrosamente escapou .
Tambem foi cercada e varejada , n'esse mesmo lugar, a casa de
D. Francisca Maria de Souza Leão , e ahi recrutado o seu escravo
Elias !
Tambem foi cercada e varejada, alta noite , no lugar – Areia-- ,
districlo da Divina Pastora (Inhambupe), pelo subdelegado José Nunes
Affonso de Brito , a casa de Bento da Silva . A cscolta , arrombando as
portas , penelrou até o aposento em que dormia um pobre moço, que
acordou espavorido, recebendo uma horrivel pancada na cabeça :
armado de una faca matou clle o seu aggressor , ferio a mais dous,
csendu barbaramente cspancado, foi preso e conduzido para a cadêa.
O subdelegado de Nagé , Braz Pacheco Monteiro, mandou uma
tropa de mais de 40 homens armados á povoação do Coquciro para
cercar a casa do cidadão Francisco José Pinto, afim de recrutar a .
Camillo Percira da Silva . O cerco pralicou -se de noite , as porlas
forain violentamente arrombadas, e a tropa, penetrando no interior da
casa , espancou barbaramenie a muller e a uma filla do dono da casa .
Durante a luta , que se trava na sala , um tiro é disparado que
fere a um dos soldados.
Chegando o cidadão Pinlo , que se achava fóra, é espancado pela
tropa , preso e amarrado com cordas , de braços para traz, e presas
tambem a mulher e filha ; a mulher é arrastada pelos cabellos por
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que se recusa a caminhar ; as victimas, cobertas de sangue, são leva
das para a cadêa , aonde jazeram por muilos dias !
Na provincia de Minas foram varejadas, entre outras, as fazendas
dos liberaes : Severiano Ribeiro da Fonseca, João Anlonio de Oliveira
e Francisco de Paula Fernandes.
Foi tambem cercada a fazenda do capitão Costa , fazendeiro im
portante de Ouro Branco e elle preso , e tambem preso para recrula
um menino de 14 annos, aggregado d'esse fazendeiro !
Na provincia do Espirito Santo, foram cercadas e varejadas ás duas
horas da noite lodas as casas dos moradores do bairro chamado de Ma
ruhype, por motivo de recrutamento .
Foi tambem cercada e varejada a casa de negocio de Francisco da
Rocha Fagundes, vereador liberal , c elle preso para recruta .
No Piauly, a casa do distincto tenente -coronel José Antão de Car
valho foi cercada e invadida, seus fimulos foram espancados, seus
escravos surrados.
Em Cametá , no Pará, diz pessoa fidedigna, o lar das familias tem
sido violado , penetrando os soldados de noite até ás alcovas onde ellas
dormem , para d'ali tirarem recrutas !
A csle quadro o Centro liberal accrescentará a parte final da
representação dirigida ao governo pela respeita vel camara municipal
de Taubaté . Diz assim :
« A pretexto do recrutamento tem sido varejadas sem observancia das
prescripções legaes , as casas dos seguintes cidadãos : do abastado capi
lalista Antonio de Abreu Guimarães, ás 3 horas da manhã, pouco mais
menos ; a de Abreu Fialho, á meia -noite, à procura de um
scu nelo casado, e com quatro filhas ; a do Joaquim Jacintho , pelas
i1 horas ( la noute , percorrendo a escolla até os aposentos de suas
irmās solteiras, sendo este preso como recruta e solto no dia seguinte ;
a do mesmo , alguns dias depois, à meia noute , que está tisico, e que
foi solto cinco dias depois ; a de José Monteiro Silva por duas vezes,
com intervallo de poucos dias, a primeira depois de 10 horas da
noute , e aposentos de suas duas filhas solteiras , una de 14 e outra
de 16 annos , sendo preso seu filho menor de 12 annos no leito em que
dormia , c conduzido varias vezes até o terreiro da casa , e ahi sollo ou
tras tantas, foi afinal dispensado , á pedido de um dos guardas, que
ou
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d'elle se compadeceu ; a de Antonio Fernandes de Camargo á 1 hora da
noule, sendo este preso , pela segunda vez como recruta , apezar de maior
de 40 annos, e já dispensando no dia 7, de Setembro deste anno , foi
solto no dia seguinte ; a de José Benediclo dos Santos pelas 11 horas
da noite ; a de Vicente Luiz dos Santos pelas 10 horas da noule ; a do
Ignacio Pinto pelas 9 horas da noute ; a do fazendeiro Pedro Alves
Moreira , a dos lavradores Manoel Ignacio Moreira , a de João Gomes
do Nascimento, a do fazendeiro Felippe Monteiro Gomes, de um genro
e de quatro aggregados em uma só noute ; a de Bento Thomaz de Al
varenga ; a do tenente-coronel Marianno José de Oliveira Costa ; as de
quasi todos os moradores do bairro do Pouso -Frio ; de muitos da fre
guezia do Paiolinho, todas as noutes ; a do negociante , alſeres Francisco
Pereira da Costa , sendo preso seu caixeiro , maior de 40 annos, solto
no dia seguinte ; e as de muitos outros cidadãos, cujos nomes deixa eta
camara de referir , para não cansar a attenção de Vossa Magestade Im
perial ; consignando somente, por ultimo, a invasão da casa do lavrador
José Narciso, da freguezia do Paiolinho , alta noute estando sua
mulher de cama, por ter dado á luz ha poucos dias , e que pelo susto ,
occasionado por este facto, está em risco de vida.
« Estas escoltas vão sempre armadas de trabuco , espadas , e fazem
grande alarma nas casas que varejam , e por onde passam , procurando
infundir terror . Só obtêm segurança e dispensa do serviço os que, sob
juramento e assignando um termo, promellem acompanhar as auto
ridades nas proximas eleições de janciro , e por esta forma conse
seguiram aquelle resultado, entre outros, José Rodrigues Monte-Mór,
Manoel Rodrigues Monte-Mór, João Gomes do Nascimento , Ignacio
Pinto, e o importante fazendeiro Felippe Monteiro Gomes, que ainda
foi obrigado a apresentar por fiador scu irmão José Monteiro Gomes,
amigo do delegado.
« Por ordem do recrutador forinam -se escoltas de cincoenta a scs
senta homens, dos da parcialidade contraria, que percorrem grande
parte do municipio , sem fim algum e sob pretexto de diligencia , como
ainda aconteceu no dia 9 do corrente, em que, atravéz de uma nouto
tempestuosa , partiram da capella do Tremembé alé as proximidades
da serra de São Bento, cerca de tres leguas de distancia .
« Q recrutador, de nome Thomaz Bandeira, que se diz do Rio Grande
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do Sul , e que aqui se acha ha dous annos, sem que se saiba ao
certo quem seja , tem por principaes agenles Francisco da Molta e
Antonio Luiz ; aquelle ebrio e desordeiro habitual, e que já tem res
pondido ao jury e sido condemnado, e este la poucos mezes ainda
respondeu ao jury em Pindamonhangaba, por crime de furto de ca
vallos.« A pequena lavoura está em abandono, e a pobreza muito terá
de soffrer , porque esta é a época em que devem ser feitas as plan
tações ; e a população, sem csperanças c sem garantias legaes , está
possuida de terror, e em grande parte foragida.
« Nesta conjunctura, esta camara cede a um imperioso dever, levando
csles factos ao alto conhecimento de V. M. Imperial , solicitando mc
didas, em ordem a sereni respeilados os direitos individuacs garan
lidos pela Constituição do Imperio, fazendo V. M. Imperial aos habi
tantes deste termo a costumada justiça .-Barão de Tremembé.
Dr. Antonio José da Veiga Cabral. - Jordão Pereira de Barros.
João da Palma Pereira .-- Jacintho Pereira da Silva . - João Baptista
de Paiva Baracho . - Bento Vieira de Moura. >>
As VIOLENCIAS NA ELEIÇÃO MUNICIPAL . - Onde a intimidação não
foi cfficaz para arredar os liberaes , violencias directas foram empro
gadas nos dia : da eleição, para excluil-os ou punil-os do crime de
votar contra o governo .
Houve povoações em cujas cnlradas ou proximidades foram posladas
escollas armadas para impedir ou prender os infelizes liberacs .
Assim , em algumas freguezias do Ceará, Alagoas, Bahia , etc.
A povoação do Canindé, no Ceará, teve uma trincheira de saccas de
algodão, guarnecida pelo destacamento , armado e municiado para rece
beros volantes libcracs, como seriam recebidos os paraguayos se ali
apparecessem .
Muitas matrizes foram , desde a vespera ou madrugada, occupadas
pelos capangas, e amanheceram cercadas por força armada que impedio o
accesso e entrada ao juiz de paz , eleitores , e votantes liberaes .
Assim , em Ociras, Principe Imperial, e Valença (Piauly ); Santa
Izabel de Valença (Rio de Janeiro) ; Pomba, S. João d'El -Rei , Minas Novas
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e Ayuruoca (Minas); em quasi todas as freguezias de Alagôas e Ceará;
em S. Lourenço e outras (Pernambuco).
Pessoas muito qualificadas do partido liberal foram impedidas de
entrar na igreja para votarem .
Assim, o Dr. Burlamaque , no Piauly, de onde acabava de ser depu
lado e presidente da provincia .
A prizão arbitraria e o recrutamento, com a variante da designa
ção , foram em muilos lugares praticados, mesmo á porta da igreja, ou nu
aclo da eleição, contra os cidadãos volantes.
Assim , foram presos :
Benediclo Feliciano Moreira de Mello e João Marlins , em Minas Novas.
(Documentos do Diario do Povo de 6 de outubro de 1868. )
João Silverio , Martiniano de Salle: Lima e Antonio José da Silva ,
em Ayuruoca . ( Documentos do Diario do Povo de 24 de setembro.
Tenente -coronel Franco , em $ . Vicente Ferrer, no Maranhão. (Docu
mento do Diario do Povo de 22 de outubro . )
Trinla votantes na Coritiba, segundo uma correspondencia fidc
digna .
Alguns votantes de Saubara, na Bahia, (carta de pessoa fidedigna).
Dez votantes de Camelá, no Pará , cujos nomes vem referidos no
Diario do Povo n . 266.
E para que invocar outros factos referidos na imprensa de S. Paulo ,
Baliia , Pernambuco, Espirito Santo e outras provincias , se podemos citar
cxemplos aqui mesmo da Côrte ?
Assim , foram presos na freguezia do Espirilo-Santo os cidadãos vo
lantes bacharel Rufino Antonio Frucluoso, Patricio José Borges e José
Luiz Gomes ; e ameaçados de prizão o tenente Soares e o cidadão Narbal
Pamplona.
Essas prisões coastam do Diario Official e são conſessadas pelo
chefe de policia em o seu relatorio sobre as eleições municipaes, porém
altribuidas á motivos não verdadeiros e tanto que a sollura foi arbitraria
como a prizão , sem processo e quando approuve á policia , conseguido o
fim que era a intimidação aos volantes .
As circumstancias destas prizos constain de um importanle artigo ,
inserto no Diario do Povo de 12 de novembro , em resposta ao dito rela
torio do chefe de policia : nesse artigo se demonstram com evidencia os
7
50
attentados commettidos pela policia contra a libördade da eleição , aqui
na Côrte onde está o Imperador, e sem temor do Imperador, á quem o
ministerio deve lealdade.
A proposito da eleição municipal da Côrte , o Centro Liberal não pode
deixar de explicar a razão porque não respondeu ao celebre relatorio do
chefe de policia , tocante á essa eleição .
Quando o Centro aconselhou ao partido liberal do municipio neutro
que abandonasse as urnas, no dia 8 de setembro, annunciou -se que o
Sr. visconde de Itaborahy, zelando os creditos do ministerio a que
preside , ordenára um estudo dos faclos denunciados.
Se esse estudo fosse feito com seriedade e por bem das instituições
livres , encontraria o Centro disposto a auxilial-o . Se fosse mesmo um
trabalho politico, embora apaixonado , para defeza do parlido conser
vador, - ainda nesse caso cumpriria o Centro o dever de contestal-o .
Mas o Sr. ministro da justiça , incumbindo o cxame da denuncia ao
réo principal , que tão ardentemente se constiluira o foco de todos os
manejos e violencias durante a eleição , não podia esperar que o
Centro liberal se rebaixasse a ponto de acceilar como documento sério um
papel , redigido com o maior despreso da verdade, e com o mais tristo
rebaixamento do principio da autoridade !
Houve freguezias , nas qnacs os eleitores, membros da mesa , foram
della arrancados e presos pela policia .
Assim , na freguezia de Brotas, no termo da capital da Bahia , ondo
foi preso o cleitor membro da mesa Benjamin Vieira pelo sub
delegado Joaquim Pereira de Carvalho. A prova é um officio do presi
dente da provincia, inserto no Diario do Povo de 2 de outubro de 1868 ,
officio em o qual esse funccionario apenas declara — que é irregular a
prisão, e deplora as funestas consequencias de tal procedimento !!
Como podiam ter liberdade os volantes, se a mesa ' parochial encar
regada de mantel-a não o tinha ! ?
Correu o sangue dos liberacs nas freguezias de S. Miguel da Lage
(na Bahia) e S. Vicente Ferrer (no Maranhão).
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Nesta freguezia , além dos ferimentos, houve seis mortes !
Em algumas freguezias, onde a ostentação da força seria escan
dalosa , como na còrtc, a policia , desfarçada, metteu - se entre os volantes
como o lobo entre as ovelhas, e forte pela unidade, que provinha da
obediencia , forte ainda mais pela audacia que lhe dava a certeza de não
ser reprimida, ameaçava a todos, c a todos aterrava .
O chefe de policia , no sobredito rclalorio , querendo desmentir a ar
guição da policia desfarçada — , soccorre -se ao numero da força e sua
distribuição nos dias da eleição .
Quid inde ? Os mappas trataram talvez de força legalmente reunida .
0 que obsta , porém , que muitos guardas- nacionaes não aquartelado
fossem arbitrariamente chamados para a empreza da eleição ?
O que obsta que para esse fim especial fossem urbanos e pedestres
resses dias todos os vadios da cidade e arrebaldes ?
Não se discute a origem da gente da policia , que se transfigurou
em gente do povo : o que é notorio é que havia gente arregimentada e
movida ao aceno da policia para coagir o povo .
Temendo o chefe de policia que a sua defeza vaga e inverosimil não
calasse no animo publico , que bem sabe como a simulação dos mappas
pòde acompanhar a simulação da força, prevenio e combateu uma ar
guição relativa á eleição de Santa-Rila .
« Talvez se refira esta arguição (da policia desfarçada) ao facto de ter
« comparecido na freguezia de Santa Rita , onde estava qualificado votante,
« o tenente commandante . do 3º districto da guarda urbana (1 ° districto de
« S. José) , Manoel José de Souza Leite . »
O importante arligo, ao qual já se referio o Centro Liberal , in
serto no Diario do Povo ns . 265 , 266 e 267, responde victoriosamente
á essa coarctada do chefe de policia. Eis-ahi o trecho respectivo .
« Ora sendo certo, como é , que o tenenle Manoel José de Souza
Leite , em contrario do que affirma o chefe de policia , não era vos
tante em Santa Rita ;
« Confessando o mesmo chefe de policia que Santa Rita não per
tence ao districto urbano, onde commandava Souza Leite, que effecti
vamente tinha o commando do districto de S. José ;
« E acrescentando$ . S. , que não distrahio a guarda urbana do seu
serviço especial;
52
« Nos desculpará o nobre choſe de policia se lhe perguntarmos ainda
o que faziam em Santa Rita o commandante dos urbanos do dis
tricto de S. Jo:é , Manoel José de Souza Lcile e o guarda urbano
Tavares e as outras praças de pret, quo necessariamente acompa
bhavam o seu commandante ?
« Estamos certos que S. S. nos não confessará , que eram phosphoros
é capangas . O chefe temeu o rigor d'esta conclusão e por isso pro
curou arredar da policia toda a solidariedade com Souza Leite , in
formando que este oficial fòra ; « posteriormente exonerado do com
mando, por portaria de 14 de setembro . »
« Dir -se- ia que o chefe de policia , cm signal de veneração pela
liberdade do voto, tendo sabido que o urbano Tavares, e os mais
do contingente do tenenle Souza Leite , tinham procedido mal em
Santa Rita , demillira o tenente em salisfação á opinião publica , e
desaggravo da freguezia. Cumpre, porém , informar que o chefe não leve
merito , nem ingerencia na demissão, a qual tornou-se falal e necessaria ,
om visla da sentença condemnatoria a 4 mezes de prisão, que por
crime particular lançou contra Souza Leite o juiz de cireito, Dr.
Faria . »
No protesto do Centro Liberal alludio-se á ostentação de forças
nas vesperas da eleição da côrle.
O chefe de policia , para responder a essa arguição, allegou que nas
eleições anteriores, desde 1856, houve aqui na côrto mais força que
na eleição de 1863 .
A questão, porém , não é do numero da força e sim do movimento
- d'ella , é n'isto que consiste a ostentação .
Dizeis que n'essas eleições passadas havia mais força ?
Pois bem :
Em 1856, havia mais força e o partido liberal concorreu e venceu
a eleição em muitas freguerias !
Em 1860, havia mais força e o partido liberal venceu, quasi com
pletamente, a eleição da côrte!
Em 1867 , havia mais força e o partido conservador em opposição
coricorreu e venceu em algumas freguezias !
E como, havendo menos força em 1868, o partido liberal não pôde
concorrer a eleição ?
53
Tinha mesas e qualificação , - e recuoli, elle que nunca havia
recuado , mesmo sem mesas, mesmo sem qualificações , é diante
de adversarios mais imponentes como chefes do partido conser
vador ! Só a violencia explica na consciencia publica este facto in
verosimil !
A verdade ressumbra ; até 1868 o proverbio dizia- quem tem
mezas e qualificação não pode perder a cleição : boje a violencia
vale mais que tudo, intimida as mezas e os votantes; — prescinde
das mesas e dos votantes: e em vez dos qualifica los faz votar os não
qualificades, ou phosphoros. Quis resistet ?
A FRAUDE. -- A obra da violencia foi coroada pela fraude a mais
escandalosa .
E sem a fraude a violencia scria inutil : expelliddas mezas os vo
tantes legitimos, cra essencial substiluil-os : então serviram os juizos
de paz intrusos e vieram os não qualificados volar em lugar dos qua
lificados .
Quanto aos phosphoros, que exemplo mais eloqucnte e caracteristico
poderia o Centro liberal invocar que o facto occorrido na freguezia do Sa
cramento da Côrte ?
Pretendeu a policia que votasse nessa freguezia um phosphoro, com o
nome de Fiavio do Amaral Vasconcellos , e como a maioria da mesa re
pellisse esse volante por não ser o proprio , a mesma policia insistio e
provocou grave tumullo, o qual teria funestas consequencias se não fora
a prudencia do juiz de paz , o distincto liberal e deputado Dr. Dias
da Cruz .
Como foi injusta tal imposição da policia bem o provam os seguintes
documentos , em vista dos quaes o votante da policia não podia ser o
mesmo cidadão qualificado Flavio do Amaral Vasconcellos , que á mesma
hora achava -se na typographia do Jornal do Commercio.
Eil-os ahi :
« O cidadão Flavio do Amaral e Vasconcellos, compositor emprega
do no Jornal do Commercio , declara que, tendo morado na rua da
Uruguayana n . 30 , sobrado , foi qualificado no 10° quarteirão do 1 ° dis
tricto do Santissimo Sacramento ; declara mais que não foi elle que so
apresentou a volar na matriz do Sacramento no dia 7 de setembro, e
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que ficou sorprendido quando na noute desse mesmo dia soube por no
ticia que lhe deu o Sr. Gaspar João José Velloso, e depois , o
Sr. Dr. Dias da Cruz, que fòra o seu nome a causa do tumulto que se
levantára . Outrosim declara que é conhecido desde a infancia do Sr.
Dr. Dias da Cruz, bem que este não lhe soubesse o nome inteiro .
Flavio do Amaral Vasconcellos. Rio , 9 de Setembro de 1868.
« O Sr. Flavio do Amaral Vasconcellos, é empregado nesla officina ,
c no dia 7 do corrente achava-se trabalhando na mesma , desde as 3 horas
da tarde até ás 10 da noite , hora em que findou o trabalho. Rio de
Janeiro, officina typographica do Jornal do Commercio, em 9 de se
lembro de 1868.- José Gabriel Fernandes Pereira , director desta offi
cina.- Pedro Nuno Alvares Jardim , sub-director da mesma . – Os
empregados da officina :
« José Moreira de Lemos . - Bernardino Francisco Gonçalves.
- Antonio de Souza Pereira Junior.- João Tiburcio Horacio da
Costa . - João Pinto de Souza . - João José Fernandes de Souza .
-Marcos Francisco de Salles . - João José Rosado Freire . - Bento Je
suino Ferreira.- João Severiano da Silva . – João Francisco de Araujo
e Sá . - Antonio Ferreira Monteiro.- Sabino Aniceto Rosas.- Luiz
Julio Ogier.- Manoel Antonio Martins.- João Malaquias dos Santos
Maia . –Manoel da Costa Lima.- Ladisláo José S. Araujo.- Joaquim
José Guedes Pinto Junior.- José da Silva Leal.-J. F. Vieira.- José
Joaquim da Silva Pimentel . --João Gualberto de Queiroz Peçanha . »
« E ' exacta a declaração acima feita, porque fui testemunha de ter
estado trabalhando na composição do Jornal ás horas supra designadas
o Sr. Flavio do Amaral Vasconcellos, a quem conheço ha annos e a todos
os seus irmãos .-Augusto Cesar Ramos , revisor do Jornal do Com
mercio.- João Camillo Alves, idem . »
Não obstante taes documentos, que ahi correm impressos, o chefe de
policia no seu relatorio sobre as eleições municipaes ainda incalca que o
phosphoro, que quiz votar com o nome de Flavio do Amaral Vasconcellos,
era o proprio Flavio !
Eis ahi como ousa exprimir -se esta authoridade, em face de
lodos empregados e typographos do Jornal do Commercio :
« Comparecendo ás 5 horas da tarde o cidadão Flavio do Amaral Vascon
cellos, foi sua identidade contestada pelo juiz de paz, dizendo não ser elle
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« o mesmo que com igual nome fðra na vespera á sua casa , e reconhecida pelo
« inspector de quarteirão José Antonio Pereira da Silva Rocha , e pela maioria
« ( N. B. ) dos cidadãos presentes, que indicavath o numero da casa e rua de
<< sua residencia .
« Consultados pelo juiz de paz os membros da mesa , votaram os dous
< secretarios para não ser recebido o voto d'aquelle cidadão , e em sentido con
« trario os dous escrutadores . »
Poderiamos indicar em cada parochia cidadãos qualificados, pelos
quacs escandalosamente votaram os phosphoros da policia ; seria
porém um trabalho fastidioso e desnecessario por ser facto notorio e
proverbial .
Exclusivamente senhores do campo , sem a presença e a disputa dos
liberaes, por consequencia sem inspecção , os conservadores não fizeram
mais eleição , fabricaram actas de eleição , repartindo os votos como
as affeições e os interesses d'aquella hora exigiram .
Para provar este assérto, basta o testemunho de um conservador
distincto , que indignado com a falsificação da eleição municipal da
côrte , veio denuncial- a ao publico no seguinte protesto , lão consciencioso ,
como eloquente :
O SR . DR . JOSÉ PEREIRA REGO .
Eleição municipal.
« Acabando de receber as maiores provas de consideração e favor,
que me podia dispensar o povo fluminense na actual eleição municipal,
honrando -me com um lugar no meio de seus escolhidos, fallam -me
expressões com que possa manifestar-lhe o profundo respeito e gra
tidão que lhe consagro , tanto mais quanto os meus amigos sa
bem que recusei sempre ser candidato na actualeleição , e que só
por ultimo accedi ,. como a uma exigencia do parlido a que me honro
de pertencer, á vista de considerações que me foram apresentadas em
uma unica reunião para que fui convidado, considerações que me pare
ceram sinceras.
« E, se com praser e reconhecimento agradeço o testemunho
insuspeito, que me deu o povo fluminense, da approvação de meus actos,
como vereador do quatriennio que ora finda , reelegendo-me, como
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mais profundo pezar venho publicamente declarar que resigno essa
honrosa commissão, porque assim o exigem a minha dingnidade, a
independencia do meu caracter, a intenção dos que me distinguiram
com seus votos , e a lionra do parlido a que pertenço , ao qual nenhuma
responsabilidade cabe nas tropelias e abusos que occorreram no aciual
pleito eleitoral, porque contra isso protesta lodo o seu passado .
« E a não serem as allianças pouco felizes com homens que n'elle
vieram acolher -se, com o fim de cavar -lhe a ruina e desmoralisal-o ,
expondo-o ao desconceito publico , á sombra de uma conversão ficticia,
de certo não teriamos presenciado os factos desagradaveis occorridos em
algumas freguerias desta corte , vendo -se homens, que se deviam con
siderar solidarios em principios, praticar , acobertados com o segredo
do escrutinio , actos inqualificaveis mutilando na volação a seus corre
ligionarios.
« E ' , pois, contra essa nodoa atirada á face de um grande partido
que venho protestar, e ao mesmo tempo declarar que não posso fazer
parte da actual camara municipal, porquanto , partiilario do principio de
que nos paizes regidos pelas sabias instituições que possuimos , o ele
mento democratico, ou antes poderes conferidos pela nação , devem vir
directamente della pela expressão das urnas nas lutas eleitoraes, afim
de haver o equilibrio indispensavel entre os poderes publicos e não
estar o direito de burlal-os á mercê da vontade de qualquer que, por uma
dessas eventualidades da politica , póde tomar preponderancia , em vir
tude de condições especiaes que acluer no carro da administração pu
blica , e declarar , repita, que não posso ac :itar o lugar de vercador da
camara actual, porque não é ella a expressão do voio popular, mas sim
uma designação, adrede preparada, para a collocação dos eleitos em
lugar conveniente, como sabe toda a população desta cidade .
« Terminando repetirei: a actual eleição municipal não é a ex
pressão do voto do partido conservador, é a de vontades pessoaes enca
minhadas por interesses ſuluros, cumprindo -me de ante -mão declarar
que não sou candidato a qualquer das eleições que se lêm de pleitear em
Janciro vindouro . - Dr. José Pereira Rego. Rio , 14 de setembro
de 1868. »
Outra especie de fraude foi tambem praticada escandalosamente pelo
parlido conservador, isto é , as duplicatas .
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Onde a violencia, foi impotente porque a população toda , ou quasi
toda, era liberal , fabricaram-se actas de eleição que não houve, para
ficarem assim inutilisadas as verdadeiras eleições.
Contava-se com o governo para este abuso, e nas mãos do governo
está a cleição municipal, porque á elle é que compete verifical- a o
julgal-a .
E ' publico e notorio , que o presidente da Bahia insinuou este meio
ao seu partido, e esse escandalo chegou a ponto de dizer elle
á uma influencia, que se escusava de fazer uma duplicata , por não haver
no lugar juiz de paz conservador : « Mande vir um juiz de paz de Goyaz
ou de outra parte. » Bem comprehendida a insinuação, a duplicata se
fez o foi válida !
Com tal presidente , o abuso das duplicatas foi tão escandaloso , que
cm Lençóes onde tanto sangue correu, e por convenio de ambos os
partidos se adoptou o adiamento da eleição, fabricou -se clandestina.
mente a acta de uma eleição , que não tinha havido, como mostra
o convenio, e essa eleição foi approvada !
Prescindimos ainda da fraude, demonstrada com toda a evidencia,
pelo numero de votantes , que se diz terem concorrido á eleição de
muitos lugares , numero maior que o que concorreu ás eleições passadas
quando aliás as qualificações ultimas não podiam deixar de resentir - se
da ausencia de muitos cidadãos, que como voluntarios, recrutados ou de
signados , foram para o Paraguay. N'este sentido , é digno de lêr-se o
artigo inserto no Diario do Povo , em resposta ao relatorio do chefe
de policia .
Quero governo dar uma prova de moralidade ? Mande publicar
das actas eleitoraes as relações dos unicos cidadõos que ellas resão
não ter volado . Que de escandalos vergonhosos vão ficar patente
com essa publicação ?
1
AS ANNULLAÇÕES.-As poucas eleições , que os liberacs não obstante
a violencia e a fraude poderam vencer, têm sido annulladas pelo
governo, juiz supremo nas eleições municipaes, arbitro omnipolento
dos interesses locaes
Eis ahi o self governement entre nós !
8
58
O municipio é a imagem do ministerio !
Não ha n'este vasto Imperio, senão uma ou outra pequena luca
lidade, onde predomincmº influencias libcraes?
Toda a população é hoje conservadora ?
Municipios de S. Paulo, Minas , Bahia e outras provincias onde,
dcsdo que la eleições , sempre venceu o partido libcral , todos ſicaram
conservadores ?
Que causa operou esto nilagre de conversão geral ?
A historia ha de assignalar a vio.enca, porque só a conquista
póde subordinar e uniformisar apparentemente interesses , habilos e tra
dicções de populações diversas .
De todas as annullações, a mais revollante , é a annullação das
eleições municipaes de todas as freguezias da provincia de Mallo
Grosso , por meio de uma só portaria !
Procedèra -se n’essa provincia á eleição municipal , vencendo o par
tido liberal ; chega entretanto a noticia da mudança da situação : uin
novo vice -presidenle assume a adm :: istração, e sem informações , e
sem espaço para conhecimento de causa , semi allegar motivos, ou
nullidades, de um só golpe annulla todas as eleições feitas no dia
7 de setembro.
Eis ahi o documento :
« O vice-presidente da p :ovincia, convicto da procedencia das irre
gularidades, que huvcram nas eleições do vereadores e juizes do
paz dis parocrias da Sé , Pedro II , Santo Antonio do Rio Abaixo,
Nossa Senhora do Livramento, Nossa Senhora da Guia e cidade clo
Poconé, conforme as representações, que lhe foram n'esse sentido diri
gidas, resolve, fundado na segunda parte do art. 118 da lei regula
mentar das eleiçõcs , annullar as que tiveram lugar no dia 7 de sc
tembro do corrente anno, e mandar proceder a outras em lodas as
parochias referidas, inclusive as das Brotas e Rosario, por não terem
levado a cſfeito paquelle dia tão indispensavel dever, por lci pres
cripto, designando para isso a segunda dominga do mc2 de dezem
kro do correnle anno, afim de evitar -se a tempo o inconveniente de
não entrarcin em excrcicio os novos cleitos , 10 dia marcado por lei ,
que necessariamente intervir devem nas eleiçõi's geraes , que tem deha
ver na ultima dominga de jan : iro ſuluro, decrctadas pelo governo im
59
perial , tudo de harmonia com os avisos do ministerio do Imperio de
8 de janeiro e 19 de junho de 1849 ; ficando, outrosim , o dia 28
do mesmo mez de dezembro designado á camara municipal para pro
ccder á respectiva apuração , dando conta immediatamente a esta pre
sidencia de tudo quanlo se lhe ha ordenado. Palacio do governo do
Malto -Grosso, em Cuyabá, 7 de outubro de 1868.- Dr. José Anto
nio Murtinho . >>
E o que é isso senão absolulismo ?
Ubinam gentium sumus !
VIOLENCIAS AINDA DEPOIS DA ELEIÇÃO MUNICIPAL . - Vencida a
eleição municipal parecia que a intensidade da reacção devia declinar.
Não,
Havia ainda a eleição de janeiro e o interesse de vence-la justificara
a continuação da reacção .
Como se explica , porém , a mesma rracção , depois da abstenção do
partido liberal ?
Certo não foram mais as necessidades da eleição , senão o exterminio
do partido liberal , que inspirou a continuação do estado violento em que
o Brasil se acha , c cuja sulução é um grande problema.
Muitos factos posteriores á eleiçãomunicipal e occorridos depois da
abslenção do partido liberal , já foram , em razão da connexão da materia ,
recontados no artigo relativo á intimidação, mas ainda outros vão ser
referidos.
1.° O facto occorrido no dia 25 de dezembro , na Villa de Simão Dias,
provincia de Sergipe, ás 2 horas da tarde . Foi assaltada a casa de morada
do juiz municipal Dr. Tito Luiz Vieira Dantas pela força a'i destacada,
a qual inlimou formalmente ao mesmo juiz que se retirasse por ordem
do delegado, porquc a casa cra neceessaria para quartel : c apossaram -se
da casa , o magistrado foi despejado, e para ali foram conduzidos e
mandados todos os moveis do quartel, inclusive os troncos .
Isto importa a resurreição das antigas aposentadorias do tempo do
absolutismo !
2. ° 0 altentado contra a camara municipal de Cajazeiras ( Parahyba) ,
no acto de proceder ella á apuração das eleições municipaes .
60
Este facto é assim referido por pessoa fidedigna :
a 0 subdelegado, José Franco de Albuquerque, cercou a casa da
camara , e invadindo a sala das sessões, e collocando soldados de baio
netas caladas em roda do presidente e vereadores, deu voz de prisão
ao vereador José Martins da Fonseca Moraes, que se achava com os livros
das actas e entrando com elle em luta , com ajuda dos soldados, apode
rou-se dos mesmos livros e os levou comsigo, para fazer a apuração
na povoação de Souza.
3. O attentado commettido contra a camara municipal de Picos , na
provincia de Piauhy ; repellidos pelas baionetas os vereadores em exer
cicio , e ferido o bacharel Lourenço Valente de Figueirede , logrou o
tenente-coronel Clementino de Souza Martins realisar a apuração do
actas falsas .
Este facto violento é exposto pela camara municipal , na seguinte
representação :
« Illm . e Exm. Sr. Os abaixo assignados , vereadores de numcro
da camara municipal da villa dos Picos, vêm perante V. Ex . narrar um
facto inaudito , que se acaba de dar n'esta villa em pleno dia e á face
de todos.
« Tendo o coronel Clementino de Souza Martins assumido , lá na fazenda
onde reside, a presidencia da camara municipal , no dia 15 do passado ,
só hontem aqui veiu convocal-a , sem duvida para apurar uma eleição ,
que elle simulou ter feito , cujo livro ainda não foi remettido para o ar
chivo . Entretanto , os abaixo assignados , conscios da reclidão e inteireza
de V. Ex . , não punham a menor duvida em apural-a , fazendo apenas
isto mesmo constar a V. Ex. , o que já havia sido accordado entre alguns
amigos nossos e o capitão Jeremias José da Silva e Mello , advogado, que
trouxeram os conservadores para este negocio . Mas , hoje , de 8 para
9 horas da manhã, quando os abaixo assignados se reuniram na porta
da casa da camara, viram o Dr. Lourenço Valente de Figueiredo , juiz
municipal , voltar da casa do referido coronel Clementino, banhado em
sangue e gravemente ferido, sendo logo informado que fora o mesmo
coronel autor de semelhante attentado , commcllido á traição , e sem mo
tivos , e de que o mesmo doutor lhe havia dado voz de prisão em lla
grante delicto . Entendemos que , pelo facto de estar preso e salpicado de
sangue , não podia conservar - se na presidencia d'esta camara ; comludo
61
comparecemos na porta do edificio '; mas vimol-o cercado por todos os
soldados do deslacamento e por muitos paisanos armados , e sabemos que
o referido coronel gritava que o liberal que ali penetrasse teria igual
sorle a que havia tido o Dr. Valente !
« Somos liberaes , e recuamos espavoridos, diante de scmelhante
precipicio . Consta -nos que ha ordem de V. Ex . para a apuração da
cleição do coronel Clementino; e como fica dito , não nos recusamos, c
nem nos recusaremos a isso , desde que não nos collocarem , como hoje ,
sob a pressão das baionetas, dos sabres e dos punhaes. Receiamos que
nos obrigassem a assignar tudo quanto quizessem , diante da perspectiva
da morte, ou que nos espancassem pelo gosto de ver correr o nosso
sangue, como aconteceu com o Dr. Valente, que causou riso e alegria ás
autoridades policiaes ! Levando o occorrido ao conhecimento de V. Ex.
os abaixo assignados protestam que não se recusam a cumprir as ordens
de V. Ex.; mas não podem fazel-o, sob a terrivel coacção empregada
pelos conservadores d'este termo ; portanto , em seu nome e em nome da
população d'este municipio, pedem instantemente a V. Ex . garanlia
para a vida e liberdade dos cidadãos . - Dous guardo a V. Ex . - Villa
dos Picos, 17 de Novembro de 1868. — Illm . e Exm . Sr. Dr. Augusto
Olympio Gomes de Castro , muito digno presidente d'esta provincia.
José do Rego Barros Paim .-- Felix de Hollanda Cavalcanti. - Luiz
Gonzaga Leal. — Felippe de Araujo Rocha. »
Conclusão .
A ' visla dos faclos referidos c da apreciação, que os acompanha,
o Centro Liberal lem a consciencia de haver justificado a abstenção ,
que aconselhou ao partido liberal , pela circular de 20 de novembro .
E na verdade os factos se precipitaram em torrente para provar que
era impossivel a lucia .
Como resistir á esse proposito de absolutismo , manifestado pelo
governo, á essa intimidação systematica empregada para extermi
nar os liberacs ? Quem , a não ser hieróe , se arriscaria á abandonar
familia, profissão e patrimonio por amor da eleição ?
Em lal caso , para que fazer victimas ? Para que irritar a suscepti
bilidade do partido vencedor ? Para que provocar mais provas de
sua omn'potencia ? Para que forlifical- o por uma resistencia inutile
ingloria , mas que, entrelanto , manteria a unidade, que por uma fata
lidade das cousas humanas, as mais das vezes falta depois da victoria ?
Não so vio que o despotismo ia até o requinto da ostentação ? Nem
se quiz deixar ás nações cullas a duvida sobre a veracidade das quei
xas do partido liberal ! Ali está o facto vergonhoso de não se con
sentir ao Rio Grande do Sul o repetir, no suffragio cleiloral , á Osorio
cá Porto Alegre o testemunho de profundo amor e gratidão que
manifestára nas recepções enthusiasticas d'aquelles heróes quando
Vollárão á terra da patria ! Ordenou -se á policia que nodoasso o
caracter do povo rio - grandense fazendo - o apparecer aos olhos do
mundo como raça degenerada, semn cnthusiasmo , sem virtudes, nem
scquer à da gralidão ! E para maior vergonha, não da infeliz pro
vincia repellida de junto das urnas, -mas d’esta situação que ini
63
péra despolicamente - a patria de Osorio e Porto Alegre, logo após a
brilhante campanha do Paraguay, figura nas actas da policia como
orphã de filhos dignos do senado e pedindo á outras emprestado
algum nome secundario !
A historia julgará severamente essa provocação systematica , esse
despotismo frio e calculadamente insultante , que para alardear de sua
omnipotencia nen poupa a um heróc ferido, em combate pela causa da
palria e á quem se pedem novos sacrificios para fechar com a mesma
galhardia a campanha que lão brilhantemente iniciou !
O partido liberal appella para a historia : ella lambem julgará seve
ramente o recrutamento, a designação e os outros elementos da res
tauração conservadora.
Sim, esse recrutamento com as circumstancias de violencia e alro
cidade , que o Centro Liberal refcrio, só se compara ao celc
bre recrutamento , que provocou a insurreição Polaca em 1863 , re
crutamento contra o qual se crgueu o clamor do mundo civilisado,
e que foi fulminado pelo conde Russelem a nota de 11 de fe
vereiro de 1863 , dirigida ao embaixador da Russia com estas palavras
eloqucntes :
« Não ha razão que possa dar direito para converter a conscripção em pros
« cripção. (To turn conscription in proscription .)
Essas palavras , repetidas pelo conde Russel no parlamento, forain
acolhidas com enthusiasmo e ficaram memoraveis.
E como vem á proposito estas outras expressões de Lord Napier,
embaixador na Russia, a respeito d'esse barbaro recrutamento !
« O governo Russo (dizia elle em 7 de fevereiro, dirigindu -se ao seu go
« verno) confessa que sua autoridade não pode ser mantida pela stricta lega
« lidade :: - a legalidade nos mata—diz elle e confessa que o recrutamento foi
« empregado como meio de dispersar e reduzir á impotencia os adversarios
a politicos. Em minha opinão, nem a existencia prévia de uma conspiração ,
« nem o fim de destruir planos revolucionarios, podem justificar um recru
« tamento arbitrario ... E' um meio tão excepcional e tão repugnante ao di
« reito commum, que destroe toda a confiança publica na sinceridade e leül
« dade (consistency ) do governo russo , e desperta apprehensões funestas sobre
a sua politica em outras questões . »
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Lord Napier resume assim sua opinião sobre as consequencias da
victoria , que a Russia sc lisongcia de obler, provocando e sufocando
a insurreição :
« Sem duvida, muitos patriotas polacos serão mortos ou remettidos para
« as provincias asiaticas, ou viveráő em longo serviço militar ; as forças ma
« teriaes ficaráð diminuidas por algum tempo, mas por cada patriota morto,
« reduzido ao silencio, ou proso , viráo cem na geração nova, a qual aceitará
« a herança dos odios e das vinganças. »
Mas como se pralicou csse recrutamento que, na frase de For
cade ( Revista dos Dous Mundos ), fez arder a Polonia ?
Eis ahi como o descreve Mazade ( mesma revista ) :
Esse recrutamento leve lugar em Varsovia , em a noute de 15
de janeiro de 1863 : as casas foram cercadas simultaneamente :
arrombadas as portas, os soldados penetraram até os aposenlos das
familias: cada official trazia sua lista de conscriptos , e se estes não
eram achados, recrutavam -se em seu lugar os pais, filhos, irmãos ,
ou encontradiços , velhos ou enfermos. »
Dizei quaes são as differenças, comparado este recrutamento com
as scenas do recrutamento descripto n’este manifesto ?
E ' que em Varsovia o recrutamento foi simultanco , em uma só
noile ; entre nós é todos os dias , e todas as noites , aqui e alli !
Lá , a scena passou -se na capital , aqui no interior do paiz aondo
o despotismo póde ao mesmo tempo commelter a violencia , e obli
lerar as provas , restando somente os gemidos das victimas, cla
mando no deserto.
Lá as atrocidades não começaram senão depois da insurreição ;
aqui o sangue e os attentados ao pudor macularam o recrutamento,
como em S. Paulo , Bahia e Ceará !
o estrangeiro conquistador, aqui é o patricio contra o pa
tricio , é o exterminio dos brasileiros por serem liberaes .
E um paiz onde impunemente a policia commette os factos reſe
ridos é um paiz livre ? Livre !
Qual é o paiz livre onde a policia póde invadir a casa do
cidadão de noite, o sem formalidades, do mesmo modo porque os
cossacos invadem as casas dos polacos , infelizes conquistados ?
Lá era
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E ' uma menlira a disposição da Constituição quando diz « que a
casa do cidadão é um asylo inviolavel . »
Mereceria riso entre nós essa expressão de lord Chatam , quando
preconisou o asylo inviolavel do cidadão em Inglaterra : - « podem
entrar pelas fendas da choupana arruinada do pobre o vento e a
chuva , mas o rei de Inglaterra lá não pode entrar. »
Que garantia tem o cidadão contra o despotismo do recruta
mento , que não respeita as isenções da natureza e da lei , que invadle
de noite o asylo do cidadão , com susto e menoscabo da familia ?
Nenhuma garantia.
O habeas-corpus, a maior garantia da liberdade individual , não
vale para estes casos graves, porque, como declarou o ministerio da
justiça , o poder judiciario só póde conceder habeas-corpus, quando
a autoridade policial não está autorisada para recrutar !
Não é isto o ludibrio accumulado á violencia ?
· Que autoridade policial não está autorisada para recrutar ? Ou
qual é o lugar em que não ha um commissario de recrutamento ?
O poder judiciario não pode conceder habeas-corpus av cidadão,
ainda mesmo dada a evidencia da isenção legal !
Ben podem ser recrutados o ministro do Supremo tribunal , o
desembargador, o senador : não é caso de habeas -corpus ; basta
que se pronuncie a palavra --recrutamento— paraque cessen todas
as garanlias constitucionaes .
A hypothese, sobre a qual versu a decisão do ministerio da
justiça , era a de recrutamento do juiz de paz de Itambé , em Per
nambuco, com 46 annos de idade , collector de rendas provinciaes e
proprietario !
O juiz de direito concedeu habeas-corpus, considerando o recru
tamento como pretexto de prisão arbilraria á vista das manifestas
isenções do juiz de paz.
« Fez mal o juiz de direito (decidio o ministro) , porque o motivo
da prisão era o recrutamento ; e quanto ao recrutamento o habeas
corpus só é applicavel quando a autoridade, que recruta , não está
autorisada para recrutar . »
Ainda mais , o habeas corpus, concedido pelo juiz de direito , foi deso
bedecido pela policia , e o ministerio da justiça não se importou com
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este lacio gravissimo e de funestas consequencias para a liberdade
individual.
Quando o recrutamento , não obstante as isenções evidentes, não fosse
motivo legal de habeas corpus, em caso algum a poli ' ia podia desobe
decer ao ħabeas corpus e apreciar os seus motivos.
Os principios de ordem publica exigiam que fossem respeitadas pela
policia as decisões do poder judiciario, as quacs só podem ser annulla
das mediante os recursos legaes : os principios de ordem publica exigiam
que o habeas corpus, a maior garantia da liberdade individual, não
fosse uma só vez desmoralisado, e recusado pelo detentor.
E ' o primeiro caso de habeas corpus desobedecido pola autoridade
policial.
E ' mais um facto caracteristico desta época de absolulistio .
O que vale , dado este precedente, o habeas corpus ?
A policia só o executará quando lhe convier e parecer . A garantia da
victima fica assim nas mãos do algoz .
1
O parlido liberal não tinha pois cutro recurso senão a resistencia
material ou a abstenção .
Preferio a abstenção , e tem consciencia de que acertou .
Poderia aguardar a sua vez de governar, para então votar, e vencer a
eleição .
Este arbitrio seria o egoismo de uma facção , mas não o patriotismo
de um partido.
Continuaria o mesmo circulo vicioso , do qual é força saliir : aliás de
reacção em reacção irá o paiz ao abysmo.
A abstenção do partido progressista da Hespanha, absoluta e syste
matica , como foi, não tinha outra salida senão a revolução.
A abstenção do partido liberal do Brasil naluralmente engendra uma
situação definida e legilima :
Ou a reforma,
Ou a revolução.
A reforma para conjurar a revolução ;
A revolução , como consequencia necessaria da natureza das cousas,
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da ausencia do systema representativo, do exclusivismo, e olygarchia de
um partido.
Não ha que hesitar na escolha :
A REFORMA !
E o paiz será salvo .
Tosi'Thomaz Nabuco de Beaujo.
Bernardo de Souza Franco.
Zacharias de Góes e Vasconcellos.
Antonio Pinto Chichovo da Gama.
Francisco José Furtado.
Jose' Pedra Dias de Carvalho
João Lustosa da Cunha Faranaguá.
Theophil. Benedicto Ottone:
Francisca Octaviane de Almeida Roosa.
Typographia Americana , rua dos Ourives n . 19.
JL2498
Счесча
1849
	Front Cover
	Dos nossos concidadãos! ...
	assim se a opposição podesse concorrer ou deixar de ...
	1. Demissões. ...
	I ...
	disposições da lei de 1846 arts. 71 e 76...
	A reacção. ...
	guerra contra o dictador Lopez, haviam concorrido para essas ...
	fanação da religião do Estado, esses bandos simulavam com ...
	Convem notar que este cidadão, posto obtivesse ordem de ...
	Prescinde o Centro Liberal de muilos factos, denunciados pela ...
	e Ayuruoca (Minas); em quasi todas as ...
	Onde a violencia, foi impotente porque a população toda...
	Conclusão. ...
	E' uma menlira a disposição da Constituição quando diz ...
	. ...

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