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Ritos trabalhista Noções preliminares Diz o art. 2o do CPC, aplicável ao processo do trabalho (CLT, art. 769; CPC, art.15), que o processo começa por iniciativa da parte e se desenvolve por impulso oficial, salvo as exceções previstas em lei. A petição inicial é, portanto, a peça inaugural do processo, sendo, também, apelidada de “peça exordial”, “peça vestibular”, “peça de ingresso”, “peça preambular” ou, simplesmente, “inicial”. O adjetivo “inicial” significa que é o primeiro requerimento dirigido pela parte à autoridade judiciária para, segundo os preceitos legais, iniciar o processo. No processo, há outras petições, como a petição do réu, a petição recursal, a petição do terceiro, as petições avulsas etc. Na verdade, a petição inicial é o veículo, o meio, o instrumento pelo qual o autor exerce o direito fundamental de acesso à justiça. Trata-se, pois, do ato processual mais importante para o exercício desse direito. Além disso, a petição inicial é pressuposto processual de existência da própria relação jurídica que se formará em juízo. Sem petição inicial, o processo não existe. Se a petição inicial for inepta, o caso é de pressuposto processual de validade (ou desenvolvimento) da relação processual. Diferentemente do processo civil (CPC, art. 319), a CLT (art. 840) não utiliza o termo “petição inicial”. Na verdade, o texto consolidado confunde petição inicial com “reclamação”, sendo que esta, como já foi dito, é apenas o nomen iuris atribuído à ação trabalhista. Transplantando a norma inscrita no art. 839 da CLT para a linguagem da ciência processual, podemos dizer que a petição inicial da ação trabalhista pode ser formulada: • pelos sujeitos da relação de emprego, isto é, pelos empregados e empregadores ou pelos trabalhadores avulsos por equiparação constitucional, pessoalmente (jus postulandi), ou por seus representantes; • pelos sindicatos, em defesa dos interesses ou direitos coletivos ou individuais da categoria que representam; • pelo Ministério Público do Trabalho, nos casos previstos em lei. Com a ampliação da competência da Justiça do Trabalho (CF, art. 114, com nova redação dada pela EC n. 45/2004), a petição inicial no processo do trabalho também poderá ser apresentada: • por outros titulares da relação de trabalho, como os trabalhadores autônomos, eventuais, voluntários, estagiários e os tomadores dos seus serviços (vide Capítulo V, item 2.2.1); • pela União, na hipótese de ação de cobrança das multas impostas aos empregadores pela SRT (Superintendência Regional do Trabalho); • pelos sindicatos, nas hipóteses de lides intersindicais ou entre eles e seus representados ou filiados; • pelos empregadores ou tomadores de serviços, quando sujeitos de uma relação de emprego ou de trabalho, respectivamente. Nas localidades em que houver apenas uma Vara do Trabalho (ou Juizado de Direito), a petição será protocolada diretamente na Secretaria da Vara ou no cartório do Juízo (CLT, art. 837). Se na localidade houver mais de uma Vara ou Juízo, a petição inicial será, primeiramente, sujeita à distribuição (CLT, art. 838, c/c os arts. 783 a 788). 2. Requisitos da petição inicial. Os requisitos da petição inicial da ação trabalhista individual estão previstos no art. 840 da CLT, razão pela qual não se mostram aplicáveis, em princípio, as regras subsidiárias do CPC/2015 (art. 319). Com efeito, o art. 840 da CLT diz que a petição inicial poderá ser escrita ou verbal. Se verbal, deverá ser reduzida a termo (termo de reclamação), em duas vias datadas e assinadas pelo Diretor de Secretaria ou escrivão. · Nas localidades com mais de uma Vara ou Juízo, a petição inicial verbal deverá ser distribuída antes de sua redução a termo. A petição inicial verbal deve observar, no que couber, os requisitos exigidos para a petição inicial escrita (CLT, art. 840, § 2o). A redução a termo da petição verbal é feita por um servidor público da Vara do Trabalho ou Juízo de Direito. A petição inicial da ação trabalhista individual escrita (CLT, art. 840), geralmente subscrita por advogado, é a mais utilizada nos foros trabalhistas. Não obstante, tanto a petição inicial escrita quanto a verbal devem ser registradas em livro próprio, devendo o Distribuidor (ou Diretor da Secretaria) fornecer ao interessado um recibo, do qual constarão o nome do autor e do réu, a data da distribuição (ou protocolo na Secretaria da Vara ou Cartório do Juízo), o objeto da ação e o Juízo ou Vara a quem for dirigida ou distribuída. Tratando-se de ação oriunda de relação de trabalho distinta da relação de emprego ou da relação de trabalho avulso (CF, art. 114, I, com nova redação dada pela EC n. 45/2004), parece-nos que não é incompatível a utilização da petição inicial verbal, pois o art. 840 da CLT não tem por destinatários exclusivos o empregado e o empregador. Todavia, em se tratando de lides sobre representação sindical (CF, art. 114, III), mandados de segurança, habeas corpus e habeas data (idem, IV) e ações relativas às penalidades administrativas impostas aos empregadores pela DRT (idem, VII), parece-nos incabível a petição verbal, pois tais demandas envolvem matérias eminentemente técnicas, o que exige a representação da parte por advogado. De acordo com o art. 1o da IN/TST n. 27/2005, devem ser escritas as petições iniciais de mandado de segurança, habeas corpus, habeas data, ação rescisória, ação cautelar e ação de consignação em pagamento e, no mesmo sentido, prevê a Súmula 425 do TST. Por interpretação lógica, parece-nos que também devem ser escritas as petições iniciais da ação civil pública, da ação civil coletiva e da ação anulatória coletiva de cláusulas convencionais. A petição inicial do dissídio coletivo (CLT, art. 856) e do inquérito para apuração de falta grave deve ser, necessariamente, escrita (CLT, art. 853). Vê-se, assim, com base na literalidade do texto obreiro consolidado, que o processo do trabalho, regido que é pelo princípio da simplicidade, não exige alguns requisitos formais previstos no CPC, tais como: os fundamentos jurídicos do pedido, as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados e o requerimento para a citação do réu. Não obstante, a doutrina e a jurisprudência trabalhistas vêm exigindo, em alguns casos, alguns requisitos típicos da petição inicial do processo civil. É o que veremos mais adiante. De acordo com a literalidade do § 1o do art. 840 da CLT, com nova redação dada pela Lei n. 13.467/2017, a petição inicial escrita nos dissídios individuais deverá conter seis requisitos: a) a designação do Juízo; b) a qualificação das partes; c) a breve exposição dos fatos de que resulte o dissídio; d) o pedido, que deverá ser certo, determinado e com indicação de seu valor; e) a data; e f) a assinatura do reclamante ou de seu representante. Foram, assim, por força da Lei n. 13.467/2017, instituídos novos requisitos da petição inicial da reclamação trabalhista no tocante à designação do Juízo e ao pedido, o qual deverá ser: I – certo; II – determinado; III – com indicação de seu valor. É importante relembrar que a ampliação da competência da Justiça do Trabalho para outras demandas oriundas da relação de trabalho (EC n. 45/2004) em nada altera, a princípio, os requisitos da petição inicial das ações individuais nela ajuizadas, como se depreende do art. 1o da Instrução Normativa TST n. 27/2005, in verbis: Art. 1o As ações ajuizadas na Justiça do Trabalho tramitarão pelo rito ordinário ou sumaríssimo, conforme previsto na Consolidação das Leis do Trabalho, excepcionando-se, apenas, as que, por disciplina legal expressa, estejam sujeitas a rito especial, tais como o Mandado de Segurança, Habeas Corpus, Habeas Data, Ação Rescisória, Ação Cautelar e Ação de Consignação em Pagamento. A parte final do preceptivo em causa, ao utilizar o termo “tais como”, deixa implícito que são meramente exemplificativas as ações de “rito especial” ajuizáveis na Justiça do Trabalho. Na verdade, como veremos no Capítulo XXV, outras inúmeras ações podem ser propostas nesta Justiçaespecializada. Em qualquer caso, a petição inicial deverá conter, ao menos, duas vias (CLT, art. , pois uma delas será a peça inaugural do processo e a outra, a contrafé, sendo esta 787)1 última entregue ao réu, juntamente com a notificação citatória. Havendo pluralidade de réus, a petição inicial deverá conter o número de vias correspondente a cada réu. No processo judicial eletrônico, porém, não haverá necessidade nem da via original, nem da contrafé (Lei n. 11.419/2006, art. 9o, § 1o). No que concerne à eficácia temporal do art. 840, §§ 1o, 2o e 3o, da CLT, com redação dada pela Lei n. 13.467/2017, o TST editou a IN n. 41/2018, cujo art. 12, caput, dispõe: “Os arts. 840 e 844, §§ 2o, 3o e 5o, da CLT, com as redações dadas pela Lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017, não retroagirão, aplicando-se, exclusivamente, às ações ajuizadas a partir de 11 de novembro de 2017”. Examinaremos, em seguida, cada um dos elementos ou requisitos da petição inicial. Antes, é preciso advertir que, não obstante o silêncio da lei a respeito da clareza, precisão, elegância e concisão, como requisitos da petição inicial, pensamos que tais predicados são altamente relevantes para o sucesso da pretensão autoral. Petições iniciais mal redigidas, obscuras, imprecisas, deselegantes ou prolixas dificultam a efetivação do direito fundamental do autor de acesso ao Judiciário, além de maltratar os princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa e da duração razoável do processo, prejudicam a boa prestação jurisdicional. 2.1. Endereçamento ou designação do Juízo A designação do Juízo ao qual é dirigida a petição inicial ou, simplesmente, o endereçamento da inicial, é requisito essencial, cujo objetivo repousa na indicação do órgão judicial competente para processar e julgar a demanda. Não deve ser indicado o nome do juiz, mas, sim, do órgão judicial. Exemplo: “Excelentíssimo Senhor Juiz Titular da ___ Vara do Trabalho de Vitória-ES”. É importante lembrar que a Resolução CSJT n. 104, de 25-5-2012, uniformizou os vocábulos de tratamento dispensados aos magistrados de 1a e 2a instância no âmbito da Justiça do Trabalho. Assim, nos termos do art. 1o da referida Resolução, os vocábulos de tratamento dos magistrados de 1a e 2a instância no âmbito da Justiça do Trabalho são uniformizados em “Juiz do Trabalho Substituto”, “Juiz Titular de Vara do Trabalho” e “Desembargador do Trabalho”. Ocorre que o § 1o do art. 840 da CLT (redação dada pela Lei n. 13.467/2017) dispõe que a reclamação deverá conter “a designação do juízo”. · Logo, na primeira instância da Justiça do Trabalho, a petição inicial deve ser sempre dirigida ao Juízo da Vara do Trabalho, e não ao Juiz ou à Juíza, titular ou substituto(a), do Trabalho. A alteração legislativa, que também ocorreu no processo civil, está fundada no princípio do juiz natural e tem por objetivo impessoalizar o órgão judicial destinatário da petição inicial. Entretanto, não haverá nulidade se a petição inicial for dirigida ao “Excelentíssimo Senhor Juiz do Trabalho (gênero, ressaltamos) da Vara do Trabalho”, porque, nesse caso, também não haverá pessoalização da figura do magistrado (ou magistrada). O peticionário, no “processo físico”, deve deixar um espaço em branco antes da expressão “Juízo da Vara do Trabalho” em virtude da distribuição, pois somente depois desta é que, nos lugares em que há mais de uma unidade judiciária (Vara ou Juízo de Direito), será sorteado o órgão judicial que irá processar e julgar a demanda. No entanto, no processo judicial eletrônico a distribuição da petição inicial em formato digital pode ser feita diretamente pelos advogados públicos e privados, sem necessidade da intervenção do cartório ou secretaria judicial, situação em que a autuação deverá se dar de forma automática, fornecendo-se recibo eletrônico de protocolo (Lei n. 11.419/2006, art. 10). Dessa forma, não há necessidade daquele espaçamento em branco. Nos Tribunais Regionais do Trabalho ou no Tribunal Superior do Trabalho, a petição inicial deve ser dirigida ao respectivo Presidente. É o que ocorre com as ações de competência originária dos tribunais, como a ação rescisória, o dissídio coletivo, o mandado de segurança contra ato judicial etc. Exemplo: “Excelentíssimo Senhor Desembargador Presidente do Egrégio Tribunal Regional do Trabalho da 17a Região” ou “Excelentíssimo Senhor Ministro Presidente do Egrégio Tribunal Superior do Trabalho”. Depois da distribuição do processo ao Relator, a este devem ser dirigidas quaisquer outras petições. Exemplo: “Excelentíssimo Senhor Ministro (ou Desembarga-dor) Relator”. É muito importante o correto endereçamento da petição inicial não apenas pela indicação do órgão judicial competente para processar e julgar a ação, como também para se evitar desperdício de tempo e custos processuais pela errônea indicação do órgão judicial ao qual é dirigida. 2.2. Qualificação das partes Nos termos do § 1o do art. 840 da CLT, a petição inicial deve conter a qualificação das partes. O inciso II do art. 319 do CPC dispõe que a petição inicial deve conter: “os nomes, os prenomes, o estado civil, a existência de união estável, a profissão, o número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, o endereço eletrônico, o domicílio e a residência do autor e do réu”. Há, pois, lacuna parcial da CLT, o que autoriza a aplicação supletiva do CPC (art. 15), de modo que, por força da teoria do diálogo das fontes ou da heterointegração desses dois microssistemas, parece-nos que a petição inicial trabalhista deverá conter em relação às partes pessoas físicas: os nomes e os prenomes, o estado civil ou existência de união estável, a profissão, o da CTPS, do NIS (ou PIS/PASEP) e do CPF, evitando-se, assim, futuros problemas com homônimos que poderão gerar nulidades processuais ou prejuízos materiais para as partes, o domicílio e a residência do autor e do réu. Tratando-se de pessoas jurídicas, a petição inicial deve conter o nome ou razão social, indicando se é de direito público ou privado, bem como o CNPJ e o endereço físico completo (e o endereço eletrônico, se houver). De acordo com os §§ 1o, 2o e 3o do art. 319 do CPC: • caso não disponha das informações previstas no inciso II do art. 319 do CPC, poderá o autor, na petição inicial, requerer ao juiz diligências necessárias a sua obtenção; • a petição inicial não será indeferida se, a despeito da falta de informações a que se refere o inciso II do art. 319 do CPC, for possível a citação do réu. • a petição inicial não será indeferida pelo não atendimento ao disposto no inciso II do art. 319 do CPC, se a obtenção de tais informações tornar impossível ou excessivamente oneroso o acesso à justiça. Tendo em vista a lacuna normativa da CLT e a ausência de incompatibilidade procedimental, pensamos ser aplicáveis supletivamente ao processo do trabalho as regras dos §§ 1o, 2o e 3o do art. 319 CPC. Havendo litisconsortes passivos, como no casos de empreitada ou de terceirização (responsabilidade subsidiária), é condição necessária a inclusão de cada uma das empresas tomadoras do serviço no polo passivo, a fim de que elas constem do título executivo judicial e possam figurar como executadas. Na hipótese de grupo econômico (responsabilidade solidária), esse também era o entendimento conforme a Súmula 205 do TST. Com o cancelamento dessa súmula, deixou de haver obstáculo à inclusão no processo de empresas do grupo econômico na fase de execução, mesmo que não tivessem integrado o polo passivo como ré na fase de conhecimento. Todavia, tendo em vista as divergências doutrinária e jurisprudencial a respeito, recomenda-se, para se evitar nulidades por cerceio ao direito de ampla defesa, inserir na fase de conhecimento todas as empresas integrantes do grupo econômico no polo passivo da demanda. Não é necessário indicar o nome dos sócios no polo passivo da demanda, pois eventual responsabilidade destes decorrerá da adoção, pelo magistrado, na fase (ou processo) de execução,da teoria da desconsideração da personalidade jurídica da empresa ré com a qual mantêm ou mantiveram relação jurídica. Sobre desconsideração da personalidade jurídica, remetemos o leitor ao Capítulo XI, item 3.6. De acordo com o parágrafo único do art. 274 do CPC, cuja primeira parte é aplicável ao processo do trabalho (CLT, art. 769; CPC, art. 15): “Presumem-se válidas as intimações dirigidas ao endereço constante dos autos, ainda que não recebidas pessoalmente pelo interessado, se a modificação temporária ou definitiva não tiver sido devidamente comunicada ao juízo, fluindo os prazos a partir da juntada aos autos do comprovante de entrega da correspondência no primitivo endereço”. Vale dizer, não se aplica a parte final do parágrafo único do art. 274 do CPC no processo do trabalho, tendo em vista que a CLT não é omissa a respeito da fluência dos prazos processuais, como já vimos no Capítulo VIII, item 3. 2.2.1. Substituição processual e rol de substituídos